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9.2. Pressupostos do Reenvio O fenómeno do reenvio surge no àmbito da aplicação das normas de conflitos quando estas remetem para uma lei estrangeira. Asua verificação depende da conjugação de dois pressupostos fundamentais: a) Referencia da lex fori a uma lei estrangeira O primeiro presuposto do reenvio consiste na existência de uma remissão da norma de conflitos do foro (L1) para uma lei estrangeira (L2). Isto significa que: a) a situação jurídica apresenta um elemento de internacionalidade relevante (plurilocalização); b) o elemento de conexão (V.g. nacionalidade, residência habitual, situação do bem, etc.) conduz à aplicação de um direito estrangeiro. Por exemplo, no domínio dos direitos reais, a regra da lex rei sitae determina a aplicação da lei do lugar onde o bem se encontra. Se o imóvel estiver situado no estrangeiro, o foro remete necessariamente para uma lei estrangeira. Importa sublinhar que, neste momento, ainda não existe reenvio. Estamos apenas perante a condição necessária para que ele possa surgir. b) Recusa da competência pela lei estrangeira designada O reenvio só se verifica verdadeiramente quando a lei estrangeira designada (L2), não se considera competente de cacordo com as suas próprias normas de conflitos, e em consequência, remete a competência para outra ordem jurídica. Essa remissão pode assumir duas formas fundamentais: a) Retorno (reenvio de volta): L2 remete para a lei do foro (L1); b) Transmissão de competência: L2 remete para uma terceira lei (L3). Este é o momento decisivo: as regras de conflitos de L1 e L2 não coincidem, revelando diferentes critérios de conexão. Em termos mais profundos, o reenvio nasce da circunstância de cada ordenamento jurídico “ver” a situação de modo diferente, valorizando elementos distintos (por exemplo, nacionalidade vs. residência). 9.3. Natureza do Problema: Interpretação da Norma de Conflitos O reenvio não constitui, em rigor, um problema autónomo, mas antes uma questão derivada da interpretação da própria norma de conflitos do foro. Isto significa que o fenómeno não resulta diretamente da existência de divergências entre ordenamentos, mas da forma como o foro decide dar alcance à sua remissão para a lei estrangeira. A dificuldade reside, portanto, em determinar o sentido jurídico da referência feita por L1 a L2. Não se trata de saber apenas qual a lei designada, mas de compreender o conteúdo da designação: se ela é limitada ao direito material ou se abrange o sistema jurídico estrangeiro na sua globalidade. Em termos mais finos, a questão pode ser formulada assim: A norma de conflitos do foro contém uma referência estática (limitada ao direito material) ou uma referência dinâmica (que incorpora o modo de funcionamento do sistema jurídico estrangeiro)? É esta distinção que fundamenta os três modelos clássicos. a) Referência Material (anti-devolucionismo) Neste modelo, a norma de conflitos de L1 é interpretada como contendo uma referência puramente material, ou sejA, L1 limita-se a identificar o ordenamento jurídico competente, mas não se interessa pela forma como esse ordenamento resolve conflitos de leis. A Consequência dogmática fundamental: a lei estrangeira é “descontextualizada” E tratada como um conjunto de normas materiais isoladas, desligadas do seu sistema conflitual. Este modelo assenta numa visão soberanista e unilateral do DIP: o foro decide sozinho qual é a lei aplicável e a lei estrangeira é apenas um “instrumento normativo”, não um sistema autónomo a respeitar. Daí resulta máxima coerência interna, mas quebra da reciprocidade internacional. Crítica essencial para este ideia é que ele pode conduzir à aplicação de uma lei que nenhum outro ordenamento aplicaria naquela situação, comprometendo a harmonia internacional. b) Referência Global Simples (Devolução simples); Aqui, a norma de conflitos de L1 é interpretada como contendo uma referência global limitada: L1 aceita olhar para o sistema de L2;, mas apenas até ao primeiro momento de reenvio. L1 remete globalmente para L2 e L2 aplica as suas normas de conflitos. Por seguinte, o resultado (L1 ou L3) é aceite por L1. Embora a partir daí, L1 interrompe o encadeamento: a primeira referência é global, mas a segunda é material. Isto significa que: L1 reconhece a lógica conflitual de L2 mas não abdica totalmente da sua autonomia decisória. Este modelo representa uma solução de compromisso metodológico: há abertura ao direito estrangeiro mas com um limite funcional. A consequência prática relevante: a) evita cadeias infinitas de reenvio; b) mas pode gerar divergência internacional, porque não acompanha o raciocínio completo de L2. c) Referência global dupla (Devolução dupla); Neste modelo, a norma de conflitos de L1 é interpretada como uma referência total e dinâmica ao sistema jurídico de L2. Isto implica que L1 não apenas considera as normas de conflitos de L2 mas também adota o modo como L2 resolve o próprio problema do reenvio. A consequência decisiva é L1 aplica a lei que L2 efetivamente aplicaria no caso concreto. O juiz do foro deixa de decidir segundo um critério próprio e passa a reproduzir integralmente o raciocínio do juiz estrangeiro. Trata-se de uma forma de auto-limitação da soberania jurisdicional; em favor da harmonia jurídica internacional. É por isso que, neste modelo, L1 pode chegar a aplicar L4, se essa for a solução final do sistema de L2. 9.4. Tensões Fundamentais subjacentes ao reenvio A oposição entre os modelos não é meramente técnica, mas exprime uma tensão estrutural do DIP. a) Coerência Interna do Foro O sistema de referência material assegura fidelidade absoluta à norma de conflitos de L1 eevitam interferências externas. No entanto esta coerência é puramente interna eignora a perspetiva dos outros ordenamentos. trata-se de uma lógica de autossuficiência jurídica. b) Harmonia Jurídica Internacional Os sistemas de devolução (sobretudo dupla) procuram alinhar as decisões entre ordenamentos epromovem convergência de soluções. Mas essa harmonia exige aceitação da lógica estrangeira e renúncia parcial à autonomia decisória. trata-se de uma lógica de cooperação entre sistemas jurídicos. 9.5. Fundamento Prático e Problemas Típicos O funcionamento prático do reenvio mostra que o Direito Internacional Privado não opera de forma linear, como se a norma de conflitos do foro apontasse simplesmente para uma lei e o problema terminasse aí. Pelo contrário, quando a lei indicada é uma lei estrangeira, pode surgir uma segunda operação: saber se essa própria lei estrangeira se considera competente. Assim, o reenvio transforma a determinação da lei aplicável num processo relacional, em que L1, L2 e, eventualmente, L3 ou L4 podem entrar numa cadeia de remissões. a) Harmonia internacional A harmonia internacional existe quando diferentes ordenamentos jurídicos, apesar de partirem de normas de conflitos diversas, acabam por convergir na aplicação da mesma lei. Este é um dos principais argumentos a favor do reenvio: evitar que a solução do caso dependa apenas do país onde a ação foi proposta. Por exemplo, se L1 remete para L2 e L2 devolve para L1, pode haver harmonia quando L1 aceita esse retorno e aplica a sua própria lei. Nessa hipótese, tanto o tribunal de L1 como o tribunal de L2 tenderiam a aplicar a mesma lei. A vantagem está em impedir decisões contraditórias. Se o mesmo caso fosse julgado em L1 ou em L2, a tendência seria chegar ao mesmo resultado quanto à lei aplicável. Por isso se diz que o reenvio, sobretudo no retorno, pode servir a finalidade clássica do Direito Internacional Privado: a coordenação entre sistemas jurídicos. Contudo, esta harmonia tem um preço. Para alcançá-la, o foro tem de aceitar que a lei estrangeira participe na determinação da leiaplicável. Ou seja, L1 já não decide exclusivamente segundo a sua própria norma de conflitos; admite que a resposta de L2 possa alterar a solução inicialmente indicada pelo foro. b) Divergência A divergência ocorre quando cada ordenamento jurídico, ao aplicar o seu próprio sistema de conflitos, chega a uma lei aplicável diferente. Isto demonstra o limite do reenvio como instrumento de coordenação. O exemplo mais sensível é aquele em que ambos os sistemas adotam uma devolução simples. Imagine-se: L1 remete para L2; L2 remete para L1; L1, aceitando a devolução simples, aplica L1; mas L2, se fosse o foro, também aceitaria a devolução simples e aplicaria L2. O resultado: o tribunal de L1 aplicaria L1; o tribunal de L2 aplicaria L2. Aqui não há verdadeira harmonia internacional. Cada tribunal acaba por aplicar a sua própria lei. O reenvio, neste caso, não resolve a divergência: apenas desloca o problema. Esta situação mostra que a devolução simples é um modelo intermédio, mas imperfeito. Ela aceita olhar para as normas de conflitos estrangeiras, mas não acompanha integralmente o modo como o outro sistema resolveria o caso. Por isso, pode produzir uma falsa aparência de cooperação, sem garantir uniformidade real. c) Circularidade (impasse) A circularidade é o problema mais complexo do reenvio. Surge quando duas ou mais ordens jurídicas se reenviam reciprocamente, sem que nenhuma assuma definitivamente a competência. A estrutura básica é: L1 remete para L2; L2 remete para L1; L1 volta a considerar L2; L2 volta a considerar L1. Este risco torna-se especialmente grave quando ambos os sistemas adotam a devolução dupla, porque cada um procura aplicar aquilo que o outro aplicaria. Mas, se ambos procuram imitar o outro, nenhum fixa autonomamente a solução. O exemplo clássico pode ser formulado assim: L1 utiliza como elemento de conexão a residência habitual; L2 utiliza como elemento de conexão a nacionalidade; a pessoa tem nacionalidade de L1, mas residência em L2; L1 aponta para L2; L2 aponta para L1. Se os dois sistemas forem de devolução dupla, L1 pergunta: “Que lei aplicaria L2?” Mas L2 também pergunta: “Que lei aplicaria L1?” Forma-se um círculo lógico. O problema não é apenas prático; é dogmático. A devolução dupla pretende alcançar harmonia internacional, mas, em certos casos, pode impedir a própria determinação da lei aplicável. Por isso, mesmo os sistemas que admitem o reenvio precisam de mecanismos corretivos. Esses mecanismos podem consistir, por exemplo: a) em parar o reenvio num certo momento; b) em aceitar apenas o retorno ao foro; c) em converter a última referência numa referência material; d) ou em aplicar subsidiariamente a lei inicialmente indicada pela norma de conflitos do foro. A ideia é impedir que a procura de harmonia internacional destrua a segurança jurídica do caso concreto. 9.5. Regime da Devolução no Código Civil Timorense 9.5.1. Preliminares No Direito Internacional Privado timorense, o regime da devolução encontra-se consagrado nos artigos 15.º a 18.º do Código Civil, configurando um modelo normativo particularmente complexo, estruturado através de um conjunto de regras hierarquizadas e com domínios de aplicação diferenciados. A função essencial do reenvio consiste na prossecução da harmonia de julgados, isto é, na obtenção de soluções uniformes para uma mesma situação jurídica, independentemente do foro em que esta venha a ser apreciada. O sistema parte de uma regra geral, enunciada no artigo 15.º, mas afasta-se dela através de desvios de ampla extensão, previstos nos artigos 16.º, n.º 1, e 17.º, n.º 1. Estes preceitos admitem, em determinadas circunstâncias, a consideração das normas de conflitos da lei estrangeira, permitindo fenómenos de devolução. Todavia, o legislador introduz mecanismos de contenção dessa abertura. Com efeito, os n.os 2 dos artigos 16.º e 17.º vêm restringir o âmbito de aplicação das respetivas regras, sobretudo no domínio da lei pessoal, limitando a admissibilidade da devolução. Por sua vez, o n.º 3 do artigo 16.º delimita o alcance do n.º 2, ressalvando, em certos casos, a aplicação da regra constante do n.º 1. Finalmente, o artigo 18.º desempenha uma função corretiva, ao impedir a aplicação da devolução quando os resultados materiais a que esta conduziria, no caso concreto, se revelem inadequados face à solução que resultaria da aplicação da regra geral do artigo 15.º. Deste modo, o sistema timorense caracteriza-se por uma articulação entre uma regra geral anti- devolucionista e um conjunto de exceções e limites, que refletem uma lógica de abertura controlada ao reenvio. . 9.5.2. O princípio da referência material – artigo 15.º do Código Civil Timorense O princípio geral relativo ao alcance da referência feita à lei estrangeira encontra-se consagrado no artigo 15.º do Código Civil Timorense. Nos termos deste preceito, a referência das normas de conflitos a uma lei estrangeira determina, salvo disposição em contrário, a aplicação do direito interno dessa lei, o que significa a exclusão das respetivas normas de conflitos. O sistema adota, assim, como regra, uma orientação anti-devolucionista, consagrando o princípio da referência material. A norma de conflitos timorense, ao designar uma lei estrangeira, limita-se, em princípio, a indicar a competência do respetivo direito material, sem atender ao seu sistema de Direito Internacional Privado. Esta solução visa evitar a incerteza decorrente de remissões sucessivas entre ordenamentos jurídicos, assegurando uma aplicação direta e previsível da lei designada. Todavia, o artigo 15.º não tem caráter absoluto. A expressão “na falta de preceito em contrário” revela que esta regra geral pode ser afastada por disposições especiais, nomeadamente pelos artigos 16.º e 17.º, que admitem a devolução. Assim, embora o artigo 15.º estabeleça o princípio da referência material, este assume, no contexto do sistema, um alcance relativo, funcionando como regra geral sujeita às exceções legalmente previstas.