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NUTRIÇÃO COMPORTAMENTAL Profa Beatriz Della Líbera Doutora em Ciências Nutricionais Mentalidade de Dieta, Subjetividade e Comer restritivo Profa Beatriz Della Líbera Determinantes do comportamento alimentar: neurobiológicos, sociais, culturais, comportamentais, emocionais subjetividade: modo como as pessoas constroem seu mundo interno (emoções, sentimentos, pensamentos conscientes e inconscientes), como formam opiniões e desenvolvem crenças e valores que influenciam diretamente o comportamento alimentar. compreensão fundamental para abordar a MENTALIDADE DE DIETA = maneira restrita e disfuncional de lidar com a alimentação e que impacta o comportamento alimentar – comer restritivo rejeitar a mentalidade de dieta é o primeiro princípio do comer intuitivo e um passo importante para uma relação mais saudável com a comida Mentalidade de Dieta Comer = ato sociocultural Construção: valores atribuídos por nossa sociedade aos alimentos; relações familiares; relação mãe-bebê (amamentação e o desmame; construção do psiquismo); cultura PSICOGÊNESE INFANTIL E CULTURA ALIMENTAR Alimentação X Culinária X Religiosidade - Oferendas aos deuses, sacrifícios e rituais - Alimentação: bem cultural valioso, um ato grupal que está na origem da fundação da cultura humana - poder social (glutonaria, a superabundância, o prazer de acumular, de deslumbrar), produção de conhecimento e prazer. - Beleza e fertilidade – associadas à gordura - Em todas as religiões ainda há distintos tabus alimentares religiosos, comidas proibidas ou dias proibidos para certos alimentos - Crença de que certas combinações alimentares são nocivas à saúde, sendo passado de geração em geração, de forma oral, por tradição: alimentos não são consumidos por tabu, por aversão advinda da infância, de caráter individual ou familiar ou ainda por alguma crença cultural ou religiosa compartilhada. CULTURA ALIMENTAR Termo clássico “dieta” – modo de vida; padrão alimentar. “Dieta” atual - ideia de “regime”, privação, sofrimento, restrição, caminhos para o alcance de um corpo ou peso supostamente ideais. Definição: controle social e o consequente mal-estar que atravessa nossa experiência com a alimentação e com o corpo. É causa e consequência da falta de autonomia alimentar; as escolhas são prioritariamente pautadas em questões como regras e imposições sobre o que e quanto o outro define que devemos comer. Mentalidade de Dieta A relação com a comida sofreu enorme perturbação nas últimas décadas, advinda da: regulação científica, ideais de beleza, crescimento da produção industrial dos alimentos, da massificação e da cultura. A maioria das pessoas não sabe mais o que gosta de comer, o que é fome ou saciedade e quando as sente – sendo que esses são os sinais internos básicos para comer. Ela indica que comemos cada vez mais motivados por fatores externos; perdemos nossa capacidade de saborear os alimentos, de saber a hora de parar de comer, de saber quando se tem fome, de escolher os alimentos por livre e espontânea vontade. Comer se tornou um ato desconectado dos sinais internos que deveriam regulá-lo. Mentalidade de Dieta Vivemos em uma sociedade lipofóbica e os corpos são controlados em busca de ideais sociais. Moral dietética e alimentar – produzindo culpa, prazer, punição e proibição. Hoje, a gordura ocupa um lugar demonizado. Mentalidade de Dieta Há um mal-estar que circula entre os alimentos e a alimentação. Somos vítimas dessa dupla mensagem: desfrute dos prazeres mais arrojados oriundos da mesa mais exótica ou rara ou cara ou, ainda, farta do planeta, e cuidado: isso vai te matar, enfear, engordar. QUEM SE SENTE ADEQUADO EM RELAÇÃO AO PRÓPRIO CORPO? Mulheres = maiores vítimas dessa estratégia de dominação-diminuição pela desvalorização de seus corpos, de um sentimento difuso de mal-estar produzido em nome dessa inadequação da imagem corporal aos padrões e ideais sociais = feminino, jovem e magro. Produzimos socialmente discursos e imagens sobre mulheres perfeitas, fortes, felizes, ricas, bem-sucedidas, que a cada semana encontram o grande amor de suas vidas. Seus corpos são o objeto de desejo e a saúde se confunde com beleza. Mentalidade de Dieta Mentalidade de dieta: controle da alimentação por meio de dietas que restringem tanto quantidade quanto qualidade alimentar, a fim de obter a construção de um corpo idealizado, e não reconhece que é justamente essa a origem do problema. Tratamentos convencionais: reforçam o problema da perda de autonomia, cerne dos problemas alimentares. Comer: ato complexo, que envolve capacidade de decisão, de percepção dos sinais internos, de escolha, de relação com o outro e com o mundo de forma mais ampla. Mentalidade de Dieta A mentalidade de dieta/comer restritivo negam isso: tratam as pessoas como se fossem um animal, como se a ração fosse satisfatória, como se, via tecnologia, pudessem alterar o corpo, o paladar e até mesmo o gosto e a forma humana. A mentalidade de dieta perverte e aliena a alimentação, de forma que as pessoas não mais se guiem por esses sinais ao comer. A fobia à gordura, as dietas e as modas alimentares passam a dominar a alimentação, alterando a relação do homem com a comida. Fome, saciedade, privação e prazer Comem-se alimentos permitidos por alguma autoridade e em horários preestabelecidos por medo de sentir fome e engordar, porque foi recomendado ou porque se deseja alterar pesos, formatos e parâmetros clínicos. Não se é capaz de escolher livremente o que se deseja comer: comem-se alimentos “permitidos”, mesmo sem prazer, porque são menos calóricos ou percebidos como tal; come-se com medo, angústia, com a sensação de que o faz sempre de maneira errada. Dessa forma, quando os sinais internos vão sendo substituídos pelos controles externos, frequentemente, só se para de comer quando há um desconforto físico, o que é típico da compulsão alimentar: comer tudo o que se vê pela frente e rapidamente, com medo. Há também aqueles que comem como se estivessem diante de sua última refeição, como um condenado à morte. Porque a ideia de fazer dieta já os persegue com tanto êxito, que toda refeição é considerada a última. Iniciarão a dieta na segunda- feira; então, comerão indiscriminadamente qualquer coisa durante todo o fim de semana: procuram uma forma preventiva de prazer para combater a privação que imaginam ocorrer no futuro. Fome, saciedade, privação e prazer Para entender e trabalhar a psicodinâmica alimentar, é importante notar como as famílias lidam com os alimentos: valor que dão à comida em seu cotidiano em troca de comida cobram algo dos filhos uso como santo remédio associação à alegria só permitem alguns tipos de comida em datas especiais substituem emoções difíceis de lidar por refeições Comer pode significar uma forma fácil e segura de obter prazer, um pecado mortal, uma quebra de normas, uma transgressão e assim por diante. Afetos e representações da alimentação Envolve um comportamento complexo em torno da alimentação, refere-se à intenção de restringir a alimentação mesmo que não haja necessidade clínica. Envolve um conjunto de regras rígidas e inflexíveis para fins de mudança da forma corporal e estéticas socialmente idealizadas (e acreditando falsamente em mudanças de saúde, às vezes). Há tentativas crônicas (muitas vezes sem sucesso) de se evitar certas comidas – consideradas inadequadas a um estereótipo de alimentação supostamente perfeita, o que pode gerar subsequentes episódios de exageros alimentares e constante oscilação do peso corporal. Comer Restritivo As pessoas que comem dessa forma demonstram desejo constante por serem magras (mesmo que já sejam), pela mudança na forma e peso corporais - frequente insatisfação com o corpo (que nunca atinge as expectativas corporais idealizadas). O contexto inclui ainda: • pular refeições • jejuar • diminuir a quantidade ingerida • restringir grupos alimentares considerados “engordativos” • contar calorias dos alimentos • consumir apenas alimentos diet ou light e dietas da moda • retirada de substâncias para “sentir-se melhor” ou “desinchar” mesmo quando não há evidência de intolerância ou condição clínica específica Perfil do Comer Restritivo Características apontadas como necessárias investigações sobre o construto: o traços personalidade (p. ex., perfis perfeccionistas ou mais inflexíveis) o autoimagem (incluindo a corporal) o autoestima o habilidades e comportamentos específicos como neuroticismo (instab. emocional), impulsividade, perfeccionismo, narcisismo, autoeficácia o habilidades de enfrentamento o afeto negativo o influência das redes sociais = potencialmente relacionadas ao risco para insatisfação corporal e outros comportamentos de risco para TA. Perfil do Comer Restritivo Oscilações de peso, reganho, obesidade e transtornos alimentares Aumento do comer em exagero/descontrole alimentar/comer desinibido Modificações bruscas na composição corporal e no metabolismo energético - “efeito sanfona” – ciclo de perda-ganho (weight cycling). Consequências do Comer Restritivo Mesmo que esse cenário não leve necessariamente ao desenvolvimento de TA, é comportamento sempre presente em indivíduos com TA e de qualquer forma se associa de modo importante com oscilações de peso corporal e obesidade. Apenas ter força de vontade não é suficiente para promover mudanças de comportamentos. O caminho para uma alimentação sem restrição e sem excessos encontra-se no autogerenciamento – e não no autocontrole – fomentado pelo comer restritivo, afinal este se mostra mais como um problema do que como solução. NC: promover o autogerenciamento por meio do foco nas estratégias comportamentais como caminho visando à verdadeira mudança de comportamento e à boa relação com a comida, as quais podem garantir manutenção efetiva de um peso saudável. NC ressalta o foco na promoção de autonomia e autoeficácia e não na “obediência a uma prescrição restritiva”. Reflexões sobre o Comer Restritivo