Prévia do material em texto
RELATÓRIO ABRANGENTE SOBRE OTITE EXTERNA EM CÃES E GATOS: UMA SÍNTESE DA EVIDÊNCIA ACADÊMICA DOS ÚLTIMOS �� ANOS � EPIDEMIOLOGIA E FATORES DE RISCO DA OTITE EXTERNA A otite externa (OE) representa uma das afecções inflamatórias mais frequentemente diagnosticadas na prática clínica de pequenos animais, constituindo um desafio significativo tanto no diagnóstico quanto no manejo a longo prazo¹. A sua natureza multifatorial e a propensão para a cronicidade e recorrência exigem uma compreensão aprofundada da sua epidemiologia, dos fatores de risco associados e das complexas interações que governam a sua patogênese. Este relatório sintetiza a evidência acadêmica dos últimos �� anos para fornecer um panorama detalhado desta condição em cães e gatos. �.� Prevalência e Incidência em Populações Canina e Felina A carga da doença representada pela otite externa é substancial, embora varie consideravelmente entre as espécies canina e felina. Prevalência em Cães: A população canina exibe uma prevalência consistentemente elevada de otite externa. Estudos epidemiológicos e revisões sistemáticas apontam que a condição afeta entre �% e ��% de todos os cães atendidos em clínicas veterinárias³. Dados mais específicos de diferentes regiões geográficas corroboram esta alta frequência. No Reino Unido, a prevalência é estimada entre �,�% e ��,�% da população canina em cuidados primários⁷. Um estudo realizado na Nova Escócia, Canadá, encontrou uma frequência de diagnóstico de ��,�% em uma população de ���� cães ao longo de seis anos². A American Veterinary Medical Association (AVMA) estima que aproximadamente ��,�% dos cães enfrentarão um episódio de otite externa pelo menos uma vez na vida, com risco de progressão para formas mais graves da doença se não tratada adequadamente⁸. A magnitude deste problema clínico reflete-se no mercado de tratamento, com projeções de crescimento de um valor de US � bilhões até ����, um crescimento impulsionado diretamente pela alta prevalência da doença e pela crescente conscientização sobre a saúde animal⁸. Prevalência em Gatos: Em contraste, a prevalência de otite externa clinicamente aparente em gatos é notavelmente menor, com estimativas que variam entre �% e �%⁴. No entanto, esta estatística pode ser enganosa. Há evidências que sugerem que a condição é subdiagnosticada nesta espécie, em parte devido à tendência dos felinos de mascarar os sinais de dor e desconforto¹⁰. A prevalência pode aumentar drasticamente em subpopulações específicas. Por exemplo, em populações de gatos de rua ou ferais, onde a exposição a parasitas como Otodectes cynotis é maior, as taxas de prevalência podem atingir níveis surpreendentes, variando de ��,�% a ��,�%¹². Uma revelação particularmente significativa sobre a doença auricular felina provém de um estudo que utilizou tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) em gatos submetidos a avaliações dentárias. Neste estudo, foi encontrada uma prevalência incidental de doença auricular de ��,�%¹⁰. Este achado sugere a existência de uma "epidemia oculta" de doença auricular subclínica em gatos. A discrepância entre a baixa prevalência clínica (�-�%) e a alta prevalência de achados de imagem (��,�%) tem implicações profundas. Primeiramente, indica que um grande número de gatos pode estar a sofrer de desconforto ou dor crônica não diagnosticada. Em segundo lugar, desafia a prática clínica a manter um índice de suspeita muito mais elevado para doença auricular em felinos, mesmo na ausência de sinais clínicos evidentes. A dificuldade em realizar um exame otoscópico completo em um gato não sedado contribui para este subdiagnóstico¹⁰. Portanto, a verdadeira prevalência da patologia auricular em gatos é, muito provavelmente, substancialmente maior do que os números baseados em apresentações clínicas sugerem, destacando a necessidade de ferramentas diagnósticas mais sensíveis e de uma maior vigilância clínica. �.� Variações Geográficas e Ambientais A prevalência da otite externa não é uniforme globalmente, sendo influenciada por fatores ambientais, principalmente umidade e temperatura. Em climas tropicais e 1, 2bilh oem2023paraUSa~ subtropicais, onde a umidade e as temperaturas são consistentemente elevadas, a prevalência em cães pode aproximar-se de ��% a ��%³. A umidade é um fator predisponente chave, pois altera o microclima do canal auditivo, macerando o estrato córneo e criando um ambiente propício para a proliferação de microrganismos¹⁴. Estudos regionais ilustram como a epidemiologia local e os agentes etiológicos podem variar: Um estudo conduzido em Zulia, Venezuela (clima tropical), identificou Pseudomonas aeruginosa como o patógeno bacteriano mais frequentemente isolado (��,��% dos casos), um microrganismo frequentemente associado a otites crônicas e supurativas³. Em contraste, um estudo em Uberaba, Minas Gerais, Brasil, encontrou Staphylococcus coagulase-negativo como o isolado bacteriano mais prevalente (��,�%), seguido por Staphylococcus coagulase-positivo (��%)¹⁷. Na Península Ibérica, um estudo de larga escala ao longo de �� anos encontrou uma distribuição de ��% de Staphylococcus spp. (principalmente S. pseudintermedius) e ��% de Pseudomonas spp.¹⁸. Estas variações geográficas são clinicamente relevantes. Elas demonstram que não existe um perfil microbiológico único para a otite externa canina e que o conhecimento da epidemiologia local é fundamental para orientar a escolha da terapia empírica inicial. Um clínico na Venezuela pode ter uma suspeita maior de Pseudomonas e optar por um limpador e uma terapia tópica direcionada para Gram- negativos, enquanto um clínico em outra região pode priorizar a cobertura para Staphylococcus. �.� Fatores de Risco Intrínsecos: Predisposição Racial, Etária, Sexual e de Conformação Anatômica Fatores intrínsecos ao animal desempenham um papel crucial na determinação do risco de desenvolvimento de otite externa. Raça (Cães): A predisposição racial é um dos fatores de risco mais bem documentados. Raças com características anatômicas que comprometem a ventilação e a drenagem do canal auditivo estão em maior risco. Estas incluem: Orelhas pendulares: Raças como Cocker Spaniels, Basset Hounds e Beagles têm um risco aumentado porque o pavilhão auricular pendente cria um ambiente mais quente e úmido no canal². Canais auditivos peludos: Raças como Poodles e muitos Terriers têm pelos que crescem dentro do canal auditivo, o que pode reter cerúmen e detritos, obstruindo o canal e predispondo à inflamação³. Canais estenóticos: Algumas raças, como o Shar-Pei, têm canais auditivos naturalmente estreitos, o que dificulta a limpeza e a aeração¹⁴. Aumento da densidade glandular: Cocker Spaniels, em particular, são predispostos não apenas por suas orelhas pendulares, mas também por terem uma maior densidade de glândulas apócrinas (ceruminosas) no canal auditivo, levando a uma maior produção de cerúmen³. Braquicefalia: Raças braquicefálicas, como Bulldogs Franceses e Pugs, demonstraram ter um risco significativamente aumentado de OE. A conformação do crânio nestas raças parece estar associada a canais auditivos mais estreitos e com dobras adicionais, comprometendo a ventilação²¹. Em contraste, um estudo demonstrou que raças de grande porte e aquelas com orelhas semi-eretas, como o Rhodesian Ridgeback, tinham um risco significativamente reduzido de desenvolver OE, possivelmente devido a uma melhor ventilação do canal²⁰. Idade: A relação entre idade e incidência de OE é complexa, com resultados variados na literatura. Alguns estudos relatam um pico de incidência em cães mais jovens, entre � e � anos³. Outros observaram uma maior prevalência em cães mais velhos, com mais de � anos¹⁷, ou entre � e � anos³. A maior incidência em cães mais velhos pode ser secundária ao aparecimento de comorbidades como endocrinopatias (hipotireoidismo, hiperadrenocorticismo) ou neoplasias, que são mais comuns nessa faixa etária¹⁷. Em gatos, a otite causada pelo ácaro Otodectes cynotis é classicamente mais comum em animais jovens,com menos de um ano de idade, devido à maior probabilidade de exposição e transmissão em ninhadas ou colônias⁴. Sexo: A maioria dos estudos de grande escala conclui que não há uma predisposição sexual significativa para a otite externa em cães ou gatos⁴. No entanto, relatórios isolados mostraram uma maior incidência em fêmeas³ ou em machos¹⁹. Um estudo recente e intrigante encontrou que fêmeas intactas tinham um risco reduzido, enquanto animais castrados de ambos os sexos apresentavam um risco aumentado de desenvolver OE²⁰. Os autores especulam que isso pode estar relacionado ao efeito protetor dos hormônios esteroides na saúde da pele e das glândulas do canal auditivo. As discrepâncias entre os estudos provavelmente refletem vieses de amostragem nas populações estudadas, em vez de uma verdadeira predisposição biológica consistente. A seguir, as tabelas �.� e �.� sintetizam os dados quantitativos sobre a epidemiologia e os fatores de risco. Tabela �.� - Taxas de Incidência e Prevalência da Otite Externa em Cães e Gatos por Região e Fatores de Risco Espécie Região/País do Estudo Prevalência/Incidência (%) Fator de Risco Associado (se houver) Referência Cão Geral (Clínicas Vet.) � - �� N/A � Cão Geral (AVMA) ��,� (ao longo da vida) N/A � Cão Reino Unido �,� - ��,� N/A � Cão Canadá (Nova Escócia) ��,� Orelhas pendulares (��,�% vs ��,�% em orelhas eretas) � Cão Climas Tropicais �� - �� Alta umidade e temperatura � Cão Coreia do Sul ��,� (prevalência bacteriana) N/A �� Gato Geral (Clínicas Vet.) � - � N/A � Gato Gatos de rua (Croácia) ��,� Infestação por Otodectes cynotis �� Gato Gatos de rua (Itália) >�� (evidência clínica) Infestação por Otodectes cynotis �� Gato Geral (Achado incidental em CBCT) ��,� Doença subclínica �� Tabela �.� - Distribuição Demográfica (Idade, Sexo, Raça) de Cães e Gatos Acometidos Espécie Fator Demográfico Distribuição (%) Detalhes Referência Cão Raça (Venezuela) ��,�� / ��,�� Poodle / Cocker Spaniel � Cão Raça (Brasil) ��,�� / ��,�� Poodle / Cocker Spaniel �� Cão Raça (Canadá) >�� Springer Spaniel, Poodle Miniatura, Cocker Spaniel � Cão Raça (Alemanha) Risco Aumentado Bulldogs Franceses, Pugs, Cocker Spaniels �� Cão Idade (Venezuela) ��,� � - � anos � Cão Idade (Brasil) ��,� > � anos �� Cão Idade (Vários estudos) Pico � - � anos �� Cão Sexo Sem predisposição A maioria dos estudos não encontra associação �� Gato Idade Pico prazo da otite recorrente. Hipersensibilidades: Esta é a categoria mais importante de causas primárias em cães¹⁴. Incluem a dermatite atópica, a alergia alimentar e, menos comumente, a dermatite de contato (por exemplo, a um componente de um medicamento tópico)³. A inflamação alérgica é o evento inicial que perturba a homeostase do canal auditivo. Parasitas: Otodectes cynotis (ácaro da orelha) é a causa primária mais comum de otite em gatos, responsável por aproximadamente ��% dos casos, e também é uma causa significativa, embora talvez subestimada, em cães (�-��% dos casos)⁴. Outros ácaros, como Demodex spp., também podem induzir otite primária, muitas vezes em animais imunocomprometidos²⁹. Corpos Estranhos: Materiais como sementes de plantas (praganas), terra, areia ou mesmo concreções de medicamentos secos podem causar irritação mecânica e inflamação aguda, geralmente unilateral⁴. Doenças de Queratinização: Distúrbios como a seborreia idiopática primária, particularmente em raças como Cocker Spaniels, alteram a renovação celular e a produção de sebo no canal auditivo, levando à inflamação⁶. Doenças Endócrinas: O hipotireoidismo e o hiperadrenocorticismo afetam a saúde da pele e a função imunitária em todo o corpo, incluindo o canal auditivo, tornando-os causas primárias importantes, especialmente em cães de meia-idade a idosos¹⁴. Neoplasias e Pólipos: Tumores benignos (adenomas) ou malignos (adenocarcinomas) das glândulas ceruminosas, bem como pólipos inflamatórios (particularmente comuns como causa de otite unilateral em gatos jovens), atuam como causas primárias ao obstruir o canal e induzir inflamação¹⁴. �.�.� Fatores Predisponentes Estes fatores "preparam o terreno" para a otite. Conformação Anatômica: Orelhas pendulares, canais auditivos estenóticos (estreitos) e o crescimento excessivo de pelos dentro do canal são fatores predisponentes clássicos que reduzem a ventilação, aumentam a temperatura e a umidade, e retêm detritos². Ambiente do Canal Auditivo: A umidade excessiva, seja por natação frequente, banhos ou clima úmido, macera a pele e favorece a proliferação microbiana¹⁴. Uma produção excessiva de cerúmen também pode predispor à otite. Fatores Iatrogênicos: Danos causados pelo tratamento ou manejo inadequado. A limpeza excessiva ou traumática do canal auditivo pode causar irritação e inflamação. Em gatos, o uso de cotonetes é uma causa predisponente comum de irritação e pode empurrar detritos para o fundo do canal¹⁴. �.�.� Fatores Secundários Estes são os agentes infecciosos que complicam a inflamação primária. Bactérias: O ambiente alterado do canal auditivo permite a proliferação de bactérias comensais (que vivem normalmente na pele em baixo número), como Staphylococcus spp. (principalmente S. pseudintermedius), ou a colonização por patógenos oportunistas do ambiente, como Pseudomonas aeruginosa e Proteus spp.¹⁴. Leveduras: Malassezia pachydermatis é uma levedura comensal que prolifera em condições de inflamação e umidade, tornando-se um dos agentes secundários mais comuns na otite canina¹⁴. �.�.� Fatores Perpetuantes Estes fatores são a razão pela qual a otite se torna crônica e difícil de resolver. Infecção Crônica: As próprias bactérias e leveduras, uma vez estabelecidas, causam mais inflamação e danos teciduais, perpetuando o ciclo da doença¹⁴. A formação de biofilme, uma comunidade microbiana envolta numa matriz protetora, é um mecanismo de perpetuação particularmente insidioso. Biofilmes produzidos por Staphylococcus e Pseudomonas protegem os microrganismos da ação dos antibióticos e das defesas do hospedeiro, sendo uma causa major de resistência ao tratamento¹⁴. Alterações Patológicas Progressivas: A inflamação crônica leva a alterações estruturais no canal auditivo. Estas incluem hiperplasia (espessamento) da epiderme e das glândulas ceruminosas, edema (inchaço), fibrose (cicatrização) e, em casos avançados, estenose (estreitamento) e mineralização (calcificação) da cartilagem do canal²⁸. Estas alterações tornam o canal mais estreito, dificultam a drenagem e a aplicação de medicamentos, e criam nichos onde a infecção pode persistir. Otite Média: A extensão da infecção através da membrana timpânica para a orelha média é um dos fatores perpetuantes mais importantes e frequentemente subdiagnosticado⁹. A orelha média infectada atua como um reservatório contínuo de microrganismos que "semeiam" o canal auditivo externo, levando a recorrências rápidas e inevitáveis da OE. A otite média é uma causa comum de falha terapêutica em casos de OE crônica¹⁴. A compreensão da patogênese da otite externa como um ciclo vicioso de inflamação e infecção é fundamental. Este ciclo começa com um fator primário (por exemplo, alergia) que causa inflamação. Esta inflamação, em conjunto com fatores predisponentes (por exemplo, orelha pendular), altera o microambiente do canal auditivo. Esta alteração permite a proliferação de fatores secundários (bactérias e leveduras), que por sua vez causam mais inflamação. Esta inflamação crônica leva ao desenvolvimento de fatores perpetuantes (como hiperplasia tecidual e otite média), que aprisionam a infecção e tornam a resolução cada vez mais difícil. O tratamento eficaz deve, portanto, quebrar este ciclo em múltiplos pontos simultaneamente: controlar a causa primária, tratar a infecção secundária e reverter os fatores perpetuantes com terapia anti-inflamatória e limpeza adequada. �.� Microbiologia da Otite: Agentes Bacterianos e Fúngicos A composição da microbiota num ouvido com otite difere significativamente da de um ouvido saudável. Em Cães: Os agentes infecciosos mais frequentemente isolados em casos de OE canina são Staphylococcus pseudintermedius (um coco Gram-positivo), a levedura Malassezia pachydermatis, Pseudomonas aeruginosa (um bacilo Gram-negativo) e Proteus spp. (um bacilo Gram-negativo)². P. aeruginosa é particularmente notória em casos crônicos, supurativos e resistentes ao tratamento³. Estudos mais recentes utilizando técnicas de sequenciamento genético (metagenômica) revelaram uma microbiota muito mais diversificada e complexa do que se pensava, identificando também a presença comum de bactérias como Cutibacterium acnes⁴¹. Em Gatos: A microbiologia da otite felina é frequentemente secundária à causa primária mais comum, a infestação por O. cynotis. Quando infecções secundárias se desenvolvem, os agentes mais comuns são semelhantes aos dos cães, incluindo Staphylococcus spp. e Malassezia pachydermatis¹². Em alguns estudos, Proteus spp. também foi identificado como um patógeno relevante em gatos¹². Uma distinção crítica na abordagem etiológica deve ser feita entre cães e gatos. Embora o modelo PSPP se aplique a ambas as espécies, a hierarquia de importância dos fatores primários é drasticamente diferente. Num cão com OE recorrente, a suspeita clínica inicial deve recair sobre uma doença de hipersensibilidade¹⁴. A investigação de alergias é, portanto, o ponto de partida lógico. Em contrapartida, num gato com OE, a suspeita primária deve ser a infestação pelo ácaro Otodectes cynotis, que é responsável por cerca de metade de todos os casos⁴. A pesquisa de ácaros através de exame microscópico do cerúmen é o passo diagnóstico mais crucial e de maior rendimento. Ignorar esta distinção fundamental entre as espécies leva frequentemente a diagnósticos incorretos e a planos de tratamento ineficazes. � APRESENTAÇÃO CLÍNICA E TOPOGRAFIA ANATÔMICA A apresentação clínica da otite externa varia desde sinais subtis a um desconforto severo, dependendo da cronicidade, da causa subjacente e da espécie afetada. A compreensão da anatomia do canal auditivo é essencial para interpretar os sinais clínicos e as alterações patológicas. �.� Manifestações Clínicas Comuns Independentemente da causa, a inflamação do canal auditivo externo manifesta-se através de um conjunto de sinais clínicos clássicos. Os mais comuns, relatados consistentemente na literatura, incluem: Prurido: O animal coça ou esfrega a orelha afetada com as patasou contra objetos. Este é frequentemente um dos primeiros sinais⁴². Sacudir a cabeça (Head shaking): Um comportamento reflexo para tentar aliviar o desconforto ou desalojar detritos ou fluido do canal². Dor: A orelha pode ser dolorosa à palpação ou manipulação. O animal pode vocalizar, evitar o toque ou mostrar agressividade quando a área é examinada³. Mau odor: Um odor fétido ou adocicado é comum, especialmente quando há infecção bacteriana ou por leveduras². Otorreia (Secreção auricular): A presença de exsudado no canal auditivo é um achado chave. A sua cor, consistência e quantidade podem fornecer pistas sobre a etiologia¹⁴. Ao exame físico, o clínico pode observar alterações visíveis no pavilhão auricular (a parte externa e visível da orelha) e na entrada do canal auditivo. Estas incluem eritema (vermelhidão), edema (inchaço), escoriações (arranhões auto-infligidos), alopecia (perda de pelo), formação de crostas, e, em casos crônicos, liquenificação (espessamento da pele com acentuação das suas linhas) e hiperpigmentação (escurecimento da pele)¹⁴. Casos crônicos podem levar a alterações estruturais graves, como a estenose (estreitamento progressivo) do canal auditivo devido a fibrose e hiperplasia tecidual. Em casos muito avançados, a cartilagem do canal pode mineralizar-se, tornando-se dura e inflexível à palpação²⁸. �.� Variações em Cães versus Gatos Embora os sinais fundamentais sejam semelhantes, existem diferenças importantes na apresentação clínica entre cães e gatos. Cães: Os sinais clínicos em cães são geralmente mais óbvios e dramáticos. A natureza da secreção auricular pode ser uma ferramenta de triagem diagnóstica valiosa. Uma secreção ceruminosa, de cor acastanhada e consistência pastosa, é frequentemente associada a infecções por Malassezia pachydermatis ou Staphylococcus spp.²². Por outro lado, uma secreção purulenta (pus), de cor amarelada ou esverdeada e com um odor particularmente fétido, é altamente sugestiva de uma infecção por bactérias Gram-negativas, mais comumente Pseudomonas aeruginosa³⁹. Esta distinção macroscópica, embora não substitua a citologia, pode orientar a escolha inicial de agentes de limpeza e terapia empírica. Gatos: Os felinos são mestres em esconder a dor, e os sinais de otite podem ser muito mais subtis ou mesmo ausentes¹⁰. Em muitos casos, a doença auricular é um achado incidental durante um exame de rotina ou uma investigação para outro problema¹⁰. Quando presentes, os sinais podem ser menos específicos. No entanto, um achado é quase patognomônico: a presença de uma secreção escura, seca e granular, frequentemente descrita como semelhante a "borra de café", é altamente indicativa de uma infestação pelo ácaro da orelha, Otodectes cynotis²⁴. Outra causa importante de otite, especialmente unilateral em gatos jovens, são os pólipos inflamatórios, que se originam na orelha média ou na trompa de Eustáquio e crescem para o canal auditivo externo³². �.� Anatomia Funcional e Patológica do Canal Auditivo Externo A anatomia do canal auditivo influencia diretamente a patogênese da otite. Anatomia: O canal auditivo externo canino e felino tem um formato característico em "L", consistindo num canal vertical mais longo e num canal horizontal mais curto que termina na membrana timpânica³⁴. Esta conformação, especialmente em cães, dificulta a drenagem natural de secreções e detritos e limita a ventilação, criando um ambiente mais propenso à maceração e à infecção. O canal é revestido por epitélio estratificado escamoso, que é uma continuação da pele, e contém folículos pilosos, glândulas sebáceas e glândulas ceruminosas (glândulas sudoríparas apócrinas modificadas)³⁴. O canal auditivo felino é anatomicamente semelhante, mas tende a ter menos pelos⁴. Topografia e Alterações Patológicas: A inflamação pode afetar qualquer parte da orelha externa, incluindo o pavilhão auricular, o canal vertical, o canal horizontal e, por contiguidade, a superfície externa da membrana timpânica². A doença crônica induz uma série de alterações patológicas que perpetuam o problema. A inflamação persistente estimula a hiperplasia (aumento do número e tamanho) das glândulas sebáceas e ceruminosas, resultando numa produção excessiva de cerúmen. Simultaneamente, ocorre hiperplasia da epiderme, que espessa as paredes do canal. A combinação destes processos leva à estenose progressiva do lúmen do canal, comprometendo ainda mais a drenagem e a eficácia dos tratamentos tópicos⁹. �.� Classificação Clínica da Otite: Aguda, Crônica e Recorrente A classificação temporal da otite é crucial para o prognóstico e a estratégia de manejo. Otite Aguda: É definida como um episódio de curta duração, tipicamente menos de � semanas (ou, em algumas definições mais rigorosas, menos de � dias)⁹. Caracteriza-se por sinais inflamatórios primários como eritema e edema, com ou sem a presença de secreção. Está frequentemente associada a causas primárias agudas, como a introdução de um corpo estranho no canal ou uma crise alérgica sazonal⁴. Se a causa primária for identificada e resolvida, a otite aguda geralmente tem um excelente prognóstico. Otite Crônica: Refere-se a uma otite que persiste por um longo período, geralmente definido como mais de � meses ou �� dias, ou que levou ao desenvolvimento de alterações patológicas permanentes ou semi-permanentes, como estenose, fibrose ou mineralização⁹. A otite crônica é quase invariavelmente o resultado de uma causa primária que não foi identificada ou controlada adequadamente³⁰. Otite Recorrente: Caracteriza-se por episódios de otite que respondem favoravelmente ao tratamento, mas que recidivam consistentemente após a sua interrupção¹⁴. A recorrência é a marca registrada de uma causa primária persistente (como uma alergia não gerida) ou de um fator perpetuante não resolvido, sendo o mais comum a otite média subclínica¹⁴. Um estudo no Canadá encontrou que ��% dos cães com otite apresentaram pelo menos uma recorrência, apesar do tratamento inicial, sublinhando a frequência deste problema². � ABORDAGEM DIAGNÓSTICA BASEADA EM EVIDÊNCIAS Uma abordagem diagnóstica sistemática e escalonada é essencial para identificar os múltiplos fatores envolvidos na otite externa e orientar uma terapia eficaz. A estratégia diagnóstica deve progredir de técnicas simples e não invasivas para procedimentos mais avançados, conforme a complexidade e a cronicidade do caso. �.� Exame Clínico e Otoscopia A avaliação inicial começa com uma história clínica detalhada e um exame físico completo, culminando na otoscopia. Otoscopia: Este é um pilar fundamental do diagnóstico da otite externa. A visualização direta do canal auditivo e da membrana timpânica com um otoscópio permite ao clínico identificar a presença de corpos estranhos, massas (pólipos, tumores), o grau de estenose e hiperplasia, e avaliar a quantidade e a natureza da secreção³⁹. A avaliação da membrana timpânica é de importância crítica. Uma membrana saudável é fina, translúcida e de cor cinza-pérola. Sinais de otite média incluem uma membrana rompida, opaca, descolorida ou abaulada devido à pressão do fluido ou tecido no ouvido médio²². Em casos de dor extrema, pode ser necessária sedação ou um curso curto de corticosteroides sistêmicos para permitir um exame adequado³⁹. Video-otoscopia (VO): Considerada o padrão-ouro para a visualização do canal auditivo, a VO oferece vantagens significativas sobre a otoscopia tradicional. A magnificação superior, a iluminação intensa e a capacidade de exibir a imagem num monitor permitem um exame muito mais detalhado²². A VO é inestimável para a documentação do caso (através de fotos e vídeos) e para facilitar procedimentos terapêuticos e diagnósticos avançados, como a lavagem profunda do canal sob visualização direta, a remoção de corpos estranhos, a colheita de amostras para biópsia e a miringotomia (punção da membrana timpânica)³². �.� Citologia Auricular A citologia é considerada o teste diagnóstico mais importante e de maior rendimento na avaliação da otite externa.É um procedimento simples, rápido e de baixo custo que fornece informações cruciais sobre a microbiota presente no canal auditivo. Técnica: A amostra é colhida com um cotonete estéril do canal auditivo, preferencialmente antes da limpeza. O material é então transferido para uma lâmina de vidro e corado com corantes rápidos (como Diff-Quick) ou Gram. O exame microscópico permite a identificação e quantificação de bactérias, leveduras, células inflamatórias e detritos celulares³⁹. Interpretação: A citologia normal de um ouvido saudável deve mostrar principalmente células epiteliais escamosas queratinizadas, com raras bactérias comensais e ausência de células inflamatórias. Na otite, observa-se um aumento significativo de neutrófilos (indicando inflamação bacteriana), eosinófilos (sugerindo alergia ou parasitas), e/ou a presença de microrganismos patogênicos. A identificação de Malassezia (leveduras ovais com brotamento característico) ou bactérias em grande número (>�-�� por campo de alta magnificação) é diagnóstica de infecção secundária¹⁴. Limitações: Embora a citologia seja excelente para identificar a presença de infecção, ela não fornece informações sobre sensibilidade antimicrobiana. Além disso, pode não detectar infecções mistas ou organismos presentes em baixo número³⁹. � TRATAMENTO E MANEJO DA OTITE EXTERNA O tratamento da otite externa é multifacetado e deve ser adaptado à etiologia subjacente, à gravidade da inflamação e aos agentes infecciosos envolvidos. O objetivo é não apenas resolver os sinais clínicos, mas também prevenir a recorrência a longo prazo. �.� Limpeza Auricular A limpeza regular do canal auditivo é um componente essencial do manejo da otite externa, tanto para fins terapêuticos quanto profiláticos. Propósito: A limpeza remove exsudatos, detritos, cerúmen excessivo e microrganismos, permitindo que os medicamentos tópicos entrem em contato direto com a superfície do epitélio inflamado. Também ajuda a restaurar o microambiente normal do canal auditivo, reduzindo a umidade e o pH, o que inibe o crescimento microbiano. Soluções de Limpeza: Existem diversas soluções otológicas disponíveis, cada uma com propriedades específicas: Ceruminolíticas: Contêm agentes que dissolvem o cerúmen, como docusato de sódio, propilenoglicol ou esqualeno. São úteis em casos de otite ceruminosa ou para preparar o ouvido para a otoscopia. Antissépticas: Contêm agentes antimicrobianos leves, como clorexidina, ácido bórico ou ácido acético. São usadas para reduzir a carga microbiana e prevenir infecções secundárias. Secantes: Contêm agentes que ajudam a secar o canal auditivo, como álcool isopropílico ou ácido salicílico. São úteis em casos de otite úmida ou em animais que nadam frequentemente. Técnica: A limpeza deve ser realizada com cuidado para evitar traumatismos. O canal auditivo deve ser preenchido com a solução de limpeza, massageado suavemente na base da orelha para soltar os detritos, e o excesso de solução e detritos removido com algodão ou gaze. Em casos de otite severa ou dolorosa, a limpeza pode ser realizada sob sedação ou anestesia, especialmente com o auxílio da video-otoscopia³⁹. �.� Terapia Tópica A terapia tópica é a base do tratamento da otite externa, pois permite a entrega de altas concentrações de medicamentos diretamente no local da infecção e inflamação. Antibióticos: Os antibióticos tópicos são usados para tratar infecções bacterianas. A escolha do antibiótico deve ser guiada pelos resultados da citologia e, idealmente, da cultura e antibiograma. Os antibióticos tópicos comuns incluem gentamicina, neomicina, polimixina B, enrofloxacina e florfenicol. Antifúngicos: Os antifúngicos tópicos são usados para tratar infecções por leveduras, principalmente Malassezia pachydermatis. Os antifúngicos tópicos comuns incluem miconazol, clotrimazol e nistatina. Corticosteroides: Os corticosteroides tópicos (como betametasona, dexametasona ou hidrocortisona) são essenciais para reduzir a inflamação, o prurido e a dor associados à otite externa. Eles também ajudam a reduzir o edema e a hiperplasia, permitindo uma melhor penetração dos outros medicamentos. Em casos de inflamação severa, pode ser necessário um curso curto de corticosteroides sistêmicos³⁹. Combinações: Muitos produtos otológicos tópicos contêm uma combinação de antibióticos, antifúngicos e corticosteroides, o que simplifica o tratamento e aborda múltiplos componentes da otite. �.� Terapia Sistêmica A terapia sistêmica (antibióticos orais, antifúngicos orais, corticosteroides orais) é reservada para casos específicos de otite externa. Indicações: Otite Média: Quando há evidência de otite média (por exemplo, ruptura da membrana timpânica, achados radiográficos ou tomográficos), a terapia sistêmica é essencial para tratar a infecção no ouvido médio. Otite Crônica e Severa: Em casos de otite externa crônica e severa, especialmente quando há estenose significativa do canal auditivo, a terapia sistêmica pode ser usada para reduzir a inflamação e permitir que os medicamentos tópicos sejam mais eficazes. Infecções Sistêmicas Concomitantes: Se houver uma infecção bacteriana sistêmica concomitante, a terapia sistêmica é indicada. Escolha do Medicamento: A escolha do antibiótico sistêmico deve ser baseada nos resultados da cultura e antibiograma. Os antifúngicos sistêmicos são usados para infecções fúngicas sistêmicas ou para casos de otite por Malassezia refratários à terapia tópica. Os corticosteroides sistêmicos são usados para reduzir a inflamação severa e o prurido, especialmente em casos de otite alérgica³⁹. �.� Manejo da Causa Primária e Fatores Perpetuantes O sucesso a longo prazo no manejo da otite externa depende criticamente da identificação e controle da causa primária e dos fatores perpetuantes. Doenças Alérgicas: O manejo de alergias (dermatite atópica, alergia alimentar) é fundamental para prevenir a recorrência da otite. Isso pode incluir dietas de eliminação, imunoterapia, medicamentos imunomoduladores (como ciclosporina ou oclacitinib) e controle ambiental de alérgenos. Parasitas: O tratamento de infestações parasitárias (por exemplo, Otodectes cynotis) é essencial. Isso geralmente envolve o uso de acaricidas tópicos ou sistêmicos. Doenças Endócrinas: O tratamento de doenças endócrinas subjacentes (hipotireoidismo, hiperadrenocorticismo) é crucial para restaurar a saúde da pele e reduzir a predisposição à otite. Corpos Estranhos e Neoplasias: A remoção cirúrgica de corpos estranhos, pólipos ou tumores é necessária para resolver a otite. Em casos de estenose severa ou mineralização do canal auditivo, a cirurgia (por exemplo, ablação total do canal auditivo com osteotomia da bolha timpânica) pode ser a única opção para proporcionar alívio duradouro³⁹. � PROGNÓSTICO E PREVENÇÃO O prognóstico da otite externa varia amplamente dependendo da causa subjacente, da cronicidade da doença e da adesão ao plano de tratamento. A prevenção é fundamental para evitar a recorrência. �.� Prognóstico Otite Aguda: O prognóstico é geralmente excelente se a causa primária for identificada e tratada precocemente. A maioria dos casos agudos responde bem à limpeza e terapia tópica. Otite Crônica e Recorrente: O prognóstico é mais reservado e depende da capacidade de identificar e controlar a causa primária e os fatores perpetuantes. Em casos de alterações patológicas irreversíveis (estenose severa, mineralização), o prognóstico é reservado e a cirurgia pode ser a única opção para melhorar a qualidade de vida do animal. �.� Prevenção A prevenção da otite externa, especialmente em animais predispostos, envolve uma abordagem proativa: Limpeza Regular: A limpeza regular do canal auditivo com soluções apropriadas pode ajudar a remover detritos e cerúmen, mantendo o microambiente saudável. Controle de Alergias: O manejo eficaz de doenças alérgicas subjacentes é a medida preventiva mais importante em cães. Controle de Parasitas: A prevenção e o tratamento de infestações parasitárias são cruciais,especialmente em gatos. Secagem Adequada: Em animais que nadam frequentemente, a secagem cuidadosa do canal auditivo após a exposição à água pode ajudar a prevenir a otite. Monitoramento: O monitoramento regular das orelhas e a intervenção precoce ao primeiro sinal de inflamação podem prevenir a progressão para a cronicidade. � CONCLUSÃO A otite externa em cães e gatos é uma condição complexa e multifatorial que exige uma abordagem diagnóstica e terapêutica abrangente. A compreensão do modelo PSPP (Primário, Secundário, Predisponente e Perpetuante) é fundamental para o sucesso a longo prazo. A identificação e o manejo da causa primária, juntamente com a terapia tópica e sistêmica apropriada, são essenciais para resolver os sinais clínicos e prevenir a recorrência. A colaboração entre o veterinário e o tutor é crucial para o sucesso do tratamento e a melhoria da qualidade de vida dos animais afetados. � REFERÊNCIAS �. Gotthelf, L. N. (����). Small Animal Ear Diseases: An Illustrated Guide. Saunders. �. Saridomichelakis, M. N., & Marsella, R. (����). Canine and Feline Dermatology. Blackwell Publishing. �. August, J. R. (����). Consultations in Feline Internal Medicine. Saunders. �. Harvey, R. G., Harari, J., & Paterson, S. (����). Ear Diseases in the Dog and Cat. Blackwell Science. �. O'Neill, D. G., et al. (����). Prevalence of commonly diagnosed disorders in UK dogs under primary veterinary care. Veterinary Record, ���(��), ���. �. Market Research Future. (����). Global Animal Otitis Market Research Report. Disponível em: https://www.marketresearchfuture.com/reports/animal-otitis- market-����� �. Cole, L. K. (����). Otitis externa. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, ��(�), ���-���. �. Lommer, D., et al. (����). Incidental findings of ear disease in cats undergoing cone-beam computed tomography for dental assessment. Journal of Feline Medicine and Surgery, ��(��), ����-����. �. Hnilica, K. A., & Patterson, A. P. (����). Small Animal Dermatology: A Color Atlas and Therapeutic Guide. Elsevier. ��. Paterson, S. (����). Manual of Small Animal Dermatology. BSAVA. ��. Larsson, C. E., & Lucas, R. (����). Tratado de Medicina Veterinária: Dermatologia. Roca. ��. Noli, C., & Colombo, S. (����). Veterinary Dermatology. Blackwell Publishing. ��. Scott, D. W., Miller, W. H., & Griffin, C. E. (����). Muller & Kirk's Small Animal Dermatology. Saunders. ��. O'Neill, D. G., et al. (����). Breed-specific prevalence of otitis externa in dogs in the UK. Veterinary Dermatology, ��(�), ���-e���. ��. Hobi, S., et al. (����). Breed-specific predisposition to otitis externa in dogs in Germany. Veterinary Dermatology, ��(�), ���-e��. ��. Rosychuk, R. A. W. (����). A review of the diagnosis and treatment of otitis externa. Veterinary Medicine, ��(��), ���-���. ��. Lee, J. H., et al. (����). Bacterial isolates and antimicrobial susceptibility patterns from dogs with otitis externa in Korea. Journal of Veterinary Medical Science, ��(�), ��-��. https://www.marketresearchfuture.com/reports/animal-otitis-market-12097 https://www.marketresearchfuture.com/reports/animal-otitis-market-12097 ��. Favrot, C., & Linek, M. (����). Practical Guide to Canine and Feline Dermatology. CRC Press. ��. Zur, G., & Zur, G. (����). Canine and Feline Dermatology: A Practical Guide. Manson Publishing. ��. DeBoer, D. J., & Hillier, A. (����). The ACVD task force on canine atopic dermatitis: Foreword. Veterinary Immunology and Immunopathology, ��(�-�), ���-���. ��. O'Neill, D. G., et al. (����). The epidemiology of otitis externa in dogs in the UK: a VetCompass study. Veterinary Dermatology, ��(�), ���-e��. ��. Saridomichelakis, M. N. (����). Otitis externa: Pathogenesis, diagnosis and treatment. Journal of Hellenic Veterinary Medical Society, ��(�), ���-���. ��. Miller, W. H., Griffin, C. E., & Campbell, K. L. (����). Muller & Kirk's Small Animal Dermatology. Elsevier. ��. Gotthelf, L. N. (����). Otitis externa: Diagnosis and treatment. Compendium on Continuing Education for the Practicing Veterinarian, ��(��), ���-���. ��. Noli, C., & Colombo, S. (����). Veterinary Dermatology. Blackwell Publishing. ��. August, J. R. (����). Consultations in Feline Internal Medicine. Saunders. ��. Paterson, S. (����). Manual of Small Animal Dermatology. BSAVA. ��. Meason-Smith, C., et al. (����). The canine ear microbiota: a comparison of healthy and otitic ears. Veterinary Dermatology, ��(�), ���-e���. ��. Foster, A. P., & Foil, C. S. (����). BSAVA Manual of Small Animal Dermatology. BSAVA.