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RELATÓRIO ABRANGENTE SOBRE OTITE
EXTERNA EM CÃES E GATOS: UMA
SÍNTESE DA EVIDÊNCIA ACADÊMICA DOS
ÚLTIMOS �� ANOS
� EPIDEMIOLOGIA E FATORES DE RISCO DA OTITE
EXTERNA
A otite externa (OE) representa uma das afecções inflamatórias mais frequentemente
diagnosticadas na prática clínica de pequenos animais, constituindo um desafio
significativo tanto no diagnóstico quanto no manejo a longo prazo¹. A sua natureza
multifatorial e a propensão para a cronicidade e recorrência exigem uma
compreensão aprofundada da sua epidemiologia, dos fatores de risco associados e
das complexas interações que governam a sua patogênese. Este relatório sintetiza a
evidência acadêmica dos últimos �� anos para fornecer um panorama detalhado
desta condição em cães e gatos.
�.� Prevalência e Incidência em Populações Canina e Felina
A carga da doença representada pela otite externa é substancial, embora varie
consideravelmente entre as espécies canina e felina.
Prevalência em Cães: A população canina exibe uma prevalência consistentemente
elevada de otite externa. Estudos epidemiológicos e revisões sistemáticas apontam
que a condição afeta entre �% e ��% de todos os cães atendidos em clínicas
veterinárias³. Dados mais específicos de diferentes regiões geográficas corroboram
esta alta frequência. No Reino Unido, a prevalência é estimada entre �,�% e ��,�% da
população canina em cuidados primários⁷. Um estudo realizado na Nova Escócia,
Canadá, encontrou uma frequência de diagnóstico de ��,�% em uma população de
���� cães ao longo de seis anos². A American Veterinary Medical Association (AVMA)
estima que aproximadamente ��,�% dos cães enfrentarão um episódio de otite
externa pelo menos uma vez na vida, com risco de progressão para formas mais graves
da doença se não tratada adequadamente⁸. A magnitude deste problema clínico
reflete-se no mercado de tratamento, com projeções de crescimento de um valor de
US � bilhões até ����, um crescimento impulsionado
diretamente pela alta prevalência da doença e pela crescente conscientização sobre a
saúde animal⁸.
Prevalência em Gatos: Em contraste, a prevalência de otite externa clinicamente
aparente em gatos é notavelmente menor, com estimativas que variam entre �% e
�%⁴. No entanto, esta estatística pode ser enganosa. Há evidências que sugerem que a
condição é subdiagnosticada nesta espécie, em parte devido à tendência dos felinos
de mascarar os sinais de dor e desconforto¹⁰. A prevalência pode aumentar
drasticamente em subpopulações específicas. Por exemplo, em populações de gatos
de rua ou ferais, onde a exposição a parasitas como Otodectes cynotis é maior, as
taxas de prevalência podem atingir níveis surpreendentes, variando de ��,�% a
��,�%¹².
Uma revelação particularmente significativa sobre a doença auricular felina provém
de um estudo que utilizou tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) em
gatos submetidos a avaliações dentárias. Neste estudo, foi encontrada uma
prevalência incidental de doença auricular de ��,�%¹⁰. Este achado sugere a
existência de uma "epidemia oculta" de doença auricular subclínica em gatos. A
discrepância entre a baixa prevalência clínica (�-�%) e a alta prevalência de achados
de imagem (��,�%) tem implicações profundas. Primeiramente, indica que um grande
número de gatos pode estar a sofrer de desconforto ou dor crônica não diagnosticada.
Em segundo lugar, desafia a prática clínica a manter um índice de suspeita muito mais
elevado para doença auricular em felinos, mesmo na ausência de sinais clínicos
evidentes. A dificuldade em realizar um exame otoscópico completo em um gato não
sedado contribui para este subdiagnóstico¹⁰. Portanto, a verdadeira prevalência da
patologia auricular em gatos é, muito provavelmente, substancialmente maior do que
os números baseados em apresentações clínicas sugerem, destacando a necessidade
de ferramentas diagnósticas mais sensíveis e de uma maior vigilância clínica.
�.� Variações Geográficas e Ambientais
A prevalência da otite externa não é uniforme globalmente, sendo influenciada por
fatores ambientais, principalmente umidade e temperatura. Em climas tropicais e
1, 2bilh oem2023paraUSa~
subtropicais, onde a umidade e as temperaturas são consistentemente elevadas, a
prevalência em cães pode aproximar-se de ��% a ��%³. A umidade é um fator
predisponente chave, pois altera o microclima do canal auditivo, macerando o estrato
córneo e criando um ambiente propício para a proliferação de microrganismos¹⁴.
Estudos regionais ilustram como a epidemiologia local e os agentes etiológicos podem
variar:
Um estudo conduzido em Zulia, Venezuela (clima tropical), identificou
Pseudomonas aeruginosa como o patógeno bacteriano mais frequentemente
isolado (��,��% dos casos), um microrganismo frequentemente associado a
otites crônicas e supurativas³.
Em contraste, um estudo em Uberaba, Minas Gerais, Brasil, encontrou
Staphylococcus coagulase-negativo como o isolado bacteriano mais prevalente
(��,�%), seguido por Staphylococcus coagulase-positivo (��%)¹⁷.
Na Península Ibérica, um estudo de larga escala ao longo de �� anos encontrou
uma distribuição de ��% de Staphylococcus spp. (principalmente S.
pseudintermedius) e ��% de Pseudomonas spp.¹⁸.
Estas variações geográficas são clinicamente relevantes. Elas demonstram que não
existe um perfil microbiológico único para a otite externa canina e que o
conhecimento da epidemiologia local é fundamental para orientar a escolha da
terapia empírica inicial. Um clínico na Venezuela pode ter uma suspeita maior de
Pseudomonas e optar por um limpador e uma terapia tópica direcionada para Gram-
negativos, enquanto um clínico em outra região pode priorizar a cobertura para
Staphylococcus.
�.� Fatores de Risco Intrínsecos: Predisposição Racial, Etária, Sexual e
de Conformação Anatômica
Fatores intrínsecos ao animal desempenham um papel crucial na determinação do
risco de desenvolvimento de otite externa.
Raça (Cães): A predisposição racial é um dos fatores de risco mais bem
documentados. Raças com características anatômicas que comprometem a ventilação
e a drenagem do canal auditivo estão em maior risco. Estas incluem:
Orelhas pendulares: Raças como Cocker Spaniels, Basset Hounds e Beagles têm
um risco aumentado porque o pavilhão auricular pendente cria um ambiente
mais quente e úmido no canal².
Canais auditivos peludos: Raças como Poodles e muitos Terriers têm pelos que
crescem dentro do canal auditivo, o que pode reter cerúmen e detritos,
obstruindo o canal e predispondo à inflamação³.
Canais estenóticos: Algumas raças, como o Shar-Pei, têm canais auditivos
naturalmente estreitos, o que dificulta a limpeza e a aeração¹⁴.
Aumento da densidade glandular: Cocker Spaniels, em particular, são
predispostos não apenas por suas orelhas pendulares, mas também por terem
uma maior densidade de glândulas apócrinas (ceruminosas) no canal auditivo,
levando a uma maior produção de cerúmen³.
Braquicefalia: Raças braquicefálicas, como Bulldogs Franceses e Pugs,
demonstraram ter um risco significativamente aumentado de OE. A conformação
do crânio nestas raças parece estar associada a canais auditivos mais estreitos e
com dobras adicionais, comprometendo a ventilação²¹.
Em contraste, um estudo demonstrou que raças de grande porte e aquelas com
orelhas semi-eretas, como o Rhodesian Ridgeback, tinham um risco
significativamente reduzido de desenvolver OE, possivelmente devido a uma
melhor ventilação do canal²⁰.
Idade: A relação entre idade e incidência de OE é complexa, com resultados variados
na literatura. Alguns estudos relatam um pico de incidência em cães mais jovens, entre
� e � anos³. Outros observaram uma maior prevalência em cães mais velhos, com mais
de � anos¹⁷, ou entre � e � anos³. A maior incidência em cães mais velhos pode ser
secundária ao aparecimento de comorbidades como endocrinopatias
(hipotireoidismo, hiperadrenocorticismo) ou neoplasias, que são mais comuns nessa
faixa etária¹⁷. Em gatos, a otite causada pelo ácaro Otodectes cynotis é classicamente
mais comum em animais jovens,com menos de um ano de idade, devido à maior
probabilidade de exposição e transmissão em ninhadas ou colônias⁴.
Sexo: A maioria dos estudos de grande escala conclui que não há uma predisposição
sexual significativa para a otite externa em cães ou gatos⁴. No entanto, relatórios
isolados mostraram uma maior incidência em fêmeas³ ou em machos¹⁹. Um estudo
recente e intrigante encontrou que fêmeas intactas tinham um risco reduzido,
enquanto animais castrados de ambos os sexos apresentavam um risco aumentado de
desenvolver OE²⁰. Os autores especulam que isso pode estar relacionado ao efeito
protetor dos hormônios esteroides na saúde da pele e das glândulas do canal auditivo.
As discrepâncias entre os estudos provavelmente refletem vieses de amostragem nas
populações estudadas, em vez de uma verdadeira predisposição biológica
consistente.
A seguir, as tabelas �.� e �.� sintetizam os dados quantitativos sobre a epidemiologia e
os fatores de risco.
Tabela �.� - Taxas de Incidência e Prevalência da Otite Externa em Cães e Gatos
por Região e Fatores de Risco
Espécie
Região/País do
Estudo
Prevalência/Incidência
(%)
Fator de Risco
Associado (se
houver)
Referência
Cão
Geral (Clínicas
Vet.)
� - �� N/A �
Cão Geral (AVMA) ��,� (ao longo da vida) N/A �
Cão Reino Unido �,� - ��,� N/A �
Cão
Canadá (Nova
Escócia)
��,�
Orelhas pendulares
(��,�% vs ��,�% em
orelhas eretas)
�
Cão Climas Tropicais �� - ��
Alta umidade e
temperatura
�
Cão Coreia do Sul
��,� (prevalência
bacteriana)
N/A ��
Gato
Geral (Clínicas
Vet.)
� - � N/A �
Gato
Gatos de rua
(Croácia)
��,�
Infestação por
Otodectes cynotis
��
Gato
Gatos de rua
(Itália)
>�� (evidência clínica)
Infestação por
Otodectes cynotis
��
Gato
Geral (Achado
incidental em
CBCT)
��,� Doença subclínica ��
Tabela �.� - Distribuição Demográfica (Idade, Sexo, Raça) de Cães e Gatos
Acometidos
Espécie
Fator
Demográfico
Distribuição
(%)
Detalhes Referência
Cão Raça (Venezuela) ��,�� / ��,�� Poodle / Cocker Spaniel �
Cão Raça (Brasil) ��,�� / ��,�� Poodle / Cocker Spaniel ��
Cão Raça (Canadá) >��
Springer Spaniel, Poodle
Miniatura, Cocker Spaniel
�
Cão Raça (Alemanha)
Risco
Aumentado
Bulldogs Franceses, Pugs,
Cocker Spaniels
��
Cão
Idade
(Venezuela)
��,� � - � anos �
Cão Idade (Brasil) ��,� > � anos ��
Cão
Idade (Vários
estudos)
Pico � - � anos ��
Cão Sexo
Sem
predisposição
A maioria dos estudos não
encontra associação
��
Gato Idade Pico
prazo da otite recorrente.
Hipersensibilidades: Esta é a categoria mais importante de causas primárias em
cães¹⁴. Incluem a dermatite atópica, a alergia alimentar e, menos comumente, a
dermatite de contato (por exemplo, a um componente de um medicamento tópico)³. A
inflamação alérgica é o evento inicial que perturba a homeostase do canal auditivo.
Parasitas: Otodectes cynotis (ácaro da orelha) é a causa primária mais comum de
otite em gatos, responsável por aproximadamente ��% dos casos, e também é uma
causa significativa, embora talvez subestimada, em cães (�-��% dos casos)⁴. Outros
ácaros, como Demodex spp., também podem induzir otite primária, muitas vezes em
animais imunocomprometidos²⁹.
Corpos Estranhos: Materiais como sementes de plantas (praganas), terra, areia ou
mesmo concreções de medicamentos secos podem causar irritação mecânica e
inflamação aguda, geralmente unilateral⁴.
Doenças de Queratinização: Distúrbios como a seborreia idiopática primária,
particularmente em raças como Cocker Spaniels, alteram a renovação celular e a
produção de sebo no canal auditivo, levando à inflamação⁶.
Doenças Endócrinas: O hipotireoidismo e o hiperadrenocorticismo afetam a saúde da
pele e a função imunitária em todo o corpo, incluindo o canal auditivo, tornando-os
causas primárias importantes, especialmente em cães de meia-idade a idosos¹⁴.
Neoplasias e Pólipos: Tumores benignos (adenomas) ou malignos
(adenocarcinomas) das glândulas ceruminosas, bem como pólipos inflamatórios
(particularmente comuns como causa de otite unilateral em gatos jovens), atuam
como causas primárias ao obstruir o canal e induzir inflamação¹⁴.
�.�.� Fatores Predisponentes
Estes fatores "preparam o terreno" para a otite.
Conformação Anatômica: Orelhas pendulares, canais auditivos estenóticos
(estreitos) e o crescimento excessivo de pelos dentro do canal são fatores
predisponentes clássicos que reduzem a ventilação, aumentam a temperatura e a
umidade, e retêm detritos².
Ambiente do Canal Auditivo: A umidade excessiva, seja por natação frequente,
banhos ou clima úmido, macera a pele e favorece a proliferação microbiana¹⁴. Uma
produção excessiva de cerúmen também pode predispor à otite.
Fatores Iatrogênicos: Danos causados pelo tratamento ou manejo inadequado. A
limpeza excessiva ou traumática do canal auditivo pode causar irritação e inflamação.
Em gatos, o uso de cotonetes é uma causa predisponente comum de irritação e pode
empurrar detritos para o fundo do canal¹⁴.
�.�.� Fatores Secundários
Estes são os agentes infecciosos que complicam a inflamação primária.
Bactérias: O ambiente alterado do canal auditivo permite a proliferação de bactérias
comensais (que vivem normalmente na pele em baixo número), como Staphylococcus
spp. (principalmente S. pseudintermedius), ou a colonização por patógenos
oportunistas do ambiente, como Pseudomonas aeruginosa e Proteus spp.¹⁴.
Leveduras: Malassezia pachydermatis é uma levedura comensal que prolifera em
condições de inflamação e umidade, tornando-se um dos agentes secundários mais
comuns na otite canina¹⁴.
�.�.� Fatores Perpetuantes
Estes fatores são a razão pela qual a otite se torna crônica e difícil de resolver.
Infecção Crônica: As próprias bactérias e leveduras, uma vez estabelecidas, causam
mais inflamação e danos teciduais, perpetuando o ciclo da doença¹⁴. A formação de
biofilme, uma comunidade microbiana envolta numa matriz protetora, é um
mecanismo de perpetuação particularmente insidioso. Biofilmes produzidos por
Staphylococcus e Pseudomonas protegem os microrganismos da ação dos
antibióticos e das defesas do hospedeiro, sendo uma causa major de resistência ao
tratamento¹⁴.
Alterações Patológicas Progressivas: A inflamação crônica leva a alterações
estruturais no canal auditivo. Estas incluem hiperplasia (espessamento) da epiderme e
das glândulas ceruminosas, edema (inchaço), fibrose (cicatrização) e, em casos
avançados, estenose (estreitamento) e mineralização (calcificação) da cartilagem do
canal²⁸. Estas alterações tornam o canal mais estreito, dificultam a drenagem e a
aplicação de medicamentos, e criam nichos onde a infecção pode persistir.
Otite Média: A extensão da infecção através da membrana timpânica para a orelha
média é um dos fatores perpetuantes mais importantes e frequentemente
subdiagnosticado⁹. A orelha média infectada atua como um reservatório contínuo de
microrganismos que "semeiam" o canal auditivo externo, levando a recorrências
rápidas e inevitáveis da OE. A otite média é uma causa comum de falha terapêutica em
casos de OE crônica¹⁴.
A compreensão da patogênese da otite externa como um ciclo vicioso de inflamação e
infecção é fundamental. Este ciclo começa com um fator primário (por exemplo,
alergia) que causa inflamação. Esta inflamação, em conjunto com fatores
predisponentes (por exemplo, orelha pendular), altera o microambiente do canal
auditivo. Esta alteração permite a proliferação de fatores secundários (bactérias e
leveduras), que por sua vez causam mais inflamação. Esta inflamação crônica leva ao
desenvolvimento de fatores perpetuantes (como hiperplasia tecidual e otite média),
que aprisionam a infecção e tornam a resolução cada vez mais difícil. O tratamento
eficaz deve, portanto, quebrar este ciclo em múltiplos pontos simultaneamente:
controlar a causa primária, tratar a infecção secundária e reverter os fatores
perpetuantes com terapia anti-inflamatória e limpeza adequada.
�.� Microbiologia da Otite: Agentes Bacterianos e Fúngicos
A composição da microbiota num ouvido com otite difere significativamente da de um
ouvido saudável.
Em Cães: Os agentes infecciosos mais frequentemente isolados em casos de OE
canina são Staphylococcus pseudintermedius (um coco Gram-positivo), a levedura
Malassezia pachydermatis, Pseudomonas aeruginosa (um bacilo Gram-negativo) e
Proteus spp. (um bacilo Gram-negativo)². P. aeruginosa é particularmente notória em
casos crônicos, supurativos e resistentes ao tratamento³. Estudos mais recentes
utilizando técnicas de sequenciamento genético (metagenômica) revelaram uma
microbiota muito mais diversificada e complexa do que se pensava, identificando
também a presença comum de bactérias como Cutibacterium acnes⁴¹.
Em Gatos: A microbiologia da otite felina é frequentemente secundária à causa
primária mais comum, a infestação por O. cynotis. Quando infecções secundárias se
desenvolvem, os agentes mais comuns são semelhantes aos dos cães, incluindo
Staphylococcus spp. e Malassezia pachydermatis¹². Em alguns estudos, Proteus spp.
também foi identificado como um patógeno relevante em gatos¹².
Uma distinção crítica na abordagem etiológica deve ser feita entre cães e gatos.
Embora o modelo PSPP se aplique a ambas as espécies, a hierarquia de importância
dos fatores primários é drasticamente diferente. Num cão com OE recorrente, a
suspeita clínica inicial deve recair sobre uma doença de hipersensibilidade¹⁴. A
investigação de alergias é, portanto, o ponto de partida lógico. Em contrapartida, num
gato com OE, a suspeita primária deve ser a infestação pelo ácaro Otodectes cynotis,
que é responsável por cerca de metade de todos os casos⁴. A pesquisa de ácaros
através de exame microscópico do cerúmen é o passo diagnóstico mais crucial e de
maior rendimento. Ignorar esta distinção fundamental entre as espécies leva
frequentemente a diagnósticos incorretos e a planos de tratamento ineficazes.
� APRESENTAÇÃO CLÍNICA E TOPOGRAFIA ANATÔMICA
A apresentação clínica da otite externa varia desde sinais subtis a um desconforto
severo, dependendo da cronicidade, da causa subjacente e da espécie afetada. A
compreensão da anatomia do canal auditivo é essencial para interpretar os sinais
clínicos e as alterações patológicas.
�.� Manifestações Clínicas Comuns
Independentemente da causa, a inflamação do canal auditivo externo manifesta-se
através de um conjunto de sinais clínicos clássicos. Os mais comuns, relatados
consistentemente na literatura, incluem:
Prurido: O animal coça ou esfrega a orelha afetada com as patasou contra objetos.
Este é frequentemente um dos primeiros sinais⁴².
Sacudir a cabeça (Head shaking): Um comportamento reflexo para tentar aliviar o
desconforto ou desalojar detritos ou fluido do canal².
Dor: A orelha pode ser dolorosa à palpação ou manipulação. O animal pode vocalizar,
evitar o toque ou mostrar agressividade quando a área é examinada³.
Mau odor: Um odor fétido ou adocicado é comum, especialmente quando há infecção
bacteriana ou por leveduras².
Otorreia (Secreção auricular): A presença de exsudado no canal auditivo é um
achado chave. A sua cor, consistência e quantidade podem fornecer pistas sobre a
etiologia¹⁴.
Ao exame físico, o clínico pode observar alterações visíveis no pavilhão auricular (a
parte externa e visível da orelha) e na entrada do canal auditivo. Estas incluem eritema
(vermelhidão), edema (inchaço), escoriações (arranhões auto-infligidos), alopecia
(perda de pelo), formação de crostas, e, em casos crônicos, liquenificação
(espessamento da pele com acentuação das suas linhas) e hiperpigmentação
(escurecimento da pele)¹⁴. Casos crônicos podem levar a alterações estruturais graves,
como a estenose (estreitamento progressivo) do canal auditivo devido a fibrose e
hiperplasia tecidual. Em casos muito avançados, a cartilagem do canal pode
mineralizar-se, tornando-se dura e inflexível à palpação²⁸.
�.� Variações em Cães versus Gatos
Embora os sinais fundamentais sejam semelhantes, existem diferenças importantes
na apresentação clínica entre cães e gatos.
Cães: Os sinais clínicos em cães são geralmente mais óbvios e dramáticos. A natureza
da secreção auricular pode ser uma ferramenta de triagem diagnóstica valiosa. Uma
secreção ceruminosa, de cor acastanhada e consistência pastosa, é frequentemente
associada a infecções por Malassezia pachydermatis ou Staphylococcus spp.²². Por
outro lado, uma secreção purulenta (pus), de cor amarelada ou esverdeada e com um
odor particularmente fétido, é altamente sugestiva de uma infecção por bactérias
Gram-negativas, mais comumente Pseudomonas aeruginosa³⁹. Esta distinção
macroscópica, embora não substitua a citologia, pode orientar a escolha inicial de
agentes de limpeza e terapia empírica.
Gatos: Os felinos são mestres em esconder a dor, e os sinais de otite podem ser muito
mais subtis ou mesmo ausentes¹⁰. Em muitos casos, a doença auricular é um achado
incidental durante um exame de rotina ou uma investigação para outro problema¹⁰.
Quando presentes, os sinais podem ser menos específicos. No entanto, um achado é
quase patognomônico: a presença de uma secreção escura, seca e granular,
frequentemente descrita como semelhante a "borra de café", é altamente indicativa
de uma infestação pelo ácaro da orelha, Otodectes cynotis²⁴. Outra causa importante
de otite, especialmente unilateral em gatos jovens, são os pólipos inflamatórios, que
se originam na orelha média ou na trompa de Eustáquio e crescem para o canal
auditivo externo³².
�.� Anatomia Funcional e Patológica do Canal Auditivo Externo
A anatomia do canal auditivo influencia diretamente a patogênese da otite.
Anatomia: O canal auditivo externo canino e felino tem um formato característico em
"L", consistindo num canal vertical mais longo e num canal horizontal mais curto que
termina na membrana timpânica³⁴. Esta conformação, especialmente em cães,
dificulta a drenagem natural de secreções e detritos e limita a ventilação, criando um
ambiente mais propenso à maceração e à infecção. O canal é revestido por epitélio
estratificado escamoso, que é uma continuação da pele, e contém folículos pilosos,
glândulas sebáceas e glândulas ceruminosas (glândulas sudoríparas apócrinas
modificadas)³⁴. O canal auditivo felino é anatomicamente semelhante, mas tende a ter
menos pelos⁴.
Topografia e Alterações Patológicas: A inflamação pode afetar qualquer parte da
orelha externa, incluindo o pavilhão auricular, o canal vertical, o canal horizontal e,
por contiguidade, a superfície externa da membrana timpânica². A doença crônica
induz uma série de alterações patológicas que perpetuam o problema. A inflamação
persistente estimula a hiperplasia (aumento do número e tamanho) das glândulas
sebáceas e ceruminosas, resultando numa produção excessiva de cerúmen.
Simultaneamente, ocorre hiperplasia da epiderme, que espessa as paredes do canal. A
combinação destes processos leva à estenose progressiva do lúmen do canal,
comprometendo ainda mais a drenagem e a eficácia dos tratamentos tópicos⁹.
�.� Classificação Clínica da Otite: Aguda, Crônica e Recorrente
A classificação temporal da otite é crucial para o prognóstico e a estratégia de manejo.
Otite Aguda: É definida como um episódio de curta duração, tipicamente menos de �
semanas (ou, em algumas definições mais rigorosas, menos de � dias)⁹. Caracteriza-se
por sinais inflamatórios primários como eritema e edema, com ou sem a presença de
secreção. Está frequentemente associada a causas primárias agudas, como a
introdução de um corpo estranho no canal ou uma crise alérgica sazonal⁴. Se a causa
primária for identificada e resolvida, a otite aguda geralmente tem um excelente
prognóstico.
Otite Crônica: Refere-se a uma otite que persiste por um longo período, geralmente
definido como mais de � meses ou �� dias, ou que levou ao desenvolvimento de
alterações patológicas permanentes ou semi-permanentes, como estenose, fibrose ou
mineralização⁹. A otite crônica é quase invariavelmente o resultado de uma causa
primária que não foi identificada ou controlada adequadamente³⁰.
Otite Recorrente: Caracteriza-se por episódios de otite que respondem
favoravelmente ao tratamento, mas que recidivam consistentemente após a sua
interrupção¹⁴. A recorrência é a marca registrada de uma causa primária persistente
(como uma alergia não gerida) ou de um fator perpetuante não resolvido, sendo o
mais comum a otite média subclínica¹⁴. Um estudo no Canadá encontrou que ��% dos
cães com otite apresentaram pelo menos uma recorrência, apesar do tratamento
inicial, sublinhando a frequência deste problema².
� ABORDAGEM DIAGNÓSTICA BASEADA EM EVIDÊNCIAS
Uma abordagem diagnóstica sistemática e escalonada é essencial para identificar os
múltiplos fatores envolvidos na otite externa e orientar uma terapia eficaz. A estratégia
diagnóstica deve progredir de técnicas simples e não invasivas para procedimentos
mais avançados, conforme a complexidade e a cronicidade do caso.
�.� Exame Clínico e Otoscopia
A avaliação inicial começa com uma história clínica detalhada e um exame físico
completo, culminando na otoscopia.
Otoscopia: Este é um pilar fundamental do diagnóstico da otite externa. A
visualização direta do canal auditivo e da membrana timpânica com um otoscópio
permite ao clínico identificar a presença de corpos estranhos, massas (pólipos,
tumores), o grau de estenose e hiperplasia, e avaliar a quantidade e a natureza da
secreção³⁹. A avaliação da membrana timpânica é de importância crítica. Uma
membrana saudável é fina, translúcida e de cor cinza-pérola. Sinais de otite média
incluem uma membrana rompida, opaca, descolorida ou abaulada devido à pressão
do fluido ou tecido no ouvido médio²². Em casos de dor extrema, pode ser necessária
sedação ou um curso curto de corticosteroides sistêmicos para permitir um exame
adequado³⁹.
Video-otoscopia (VO): Considerada o padrão-ouro para a visualização do canal
auditivo, a VO oferece vantagens significativas sobre a otoscopia tradicional. A
magnificação superior, a iluminação intensa e a capacidade de exibir a imagem num
monitor permitem um exame muito mais detalhado²². A VO é inestimável para a
documentação do caso (através de fotos e vídeos) e para facilitar procedimentos
terapêuticos e diagnósticos avançados, como a lavagem profunda do canal sob
visualização direta, a remoção de corpos estranhos, a colheita de amostras para
biópsia e a miringotomia (punção da membrana timpânica)³².
�.� Citologia Auricular
A citologia é considerada o teste diagnóstico mais importante e de maior rendimento
na avaliação da otite externa.É um procedimento simples, rápido e de baixo custo que
fornece informações cruciais sobre a microbiota presente no canal auditivo.
Técnica: A amostra é colhida com um cotonete estéril do canal auditivo,
preferencialmente antes da limpeza. O material é então transferido para uma lâmina
de vidro e corado com corantes rápidos (como Diff-Quick) ou Gram. O exame
microscópico permite a identificação e quantificação de bactérias, leveduras, células
inflamatórias e detritos celulares³⁹.
Interpretação: A citologia normal de um ouvido saudável deve mostrar
principalmente células epiteliais escamosas queratinizadas, com raras bactérias
comensais e ausência de células inflamatórias. Na otite, observa-se um aumento
significativo de neutrófilos (indicando inflamação bacteriana), eosinófilos (sugerindo
alergia ou parasitas), e/ou a presença de microrganismos patogênicos. A identificação
de Malassezia (leveduras ovais com brotamento característico) ou bactérias em grande
número (>�-�� por campo de alta magnificação) é diagnóstica de infecção
secundária¹⁴.
Limitações: Embora a citologia seja excelente para identificar a presença de infecção,
ela não fornece informações sobre sensibilidade antimicrobiana. Além disso, pode
não detectar infecções mistas ou organismos presentes em baixo número³⁹.
� TRATAMENTO E MANEJO DA OTITE EXTERNA
O tratamento da otite externa é multifacetado e deve ser adaptado à etiologia
subjacente, à gravidade da inflamação e aos agentes infecciosos envolvidos. O
objetivo é não apenas resolver os sinais clínicos, mas também prevenir a recorrência a
longo prazo.
�.� Limpeza Auricular
A limpeza regular do canal auditivo é um componente essencial do manejo da otite
externa, tanto para fins terapêuticos quanto profiláticos.
Propósito: A limpeza remove exsudatos, detritos, cerúmen excessivo e
microrganismos, permitindo que os medicamentos tópicos entrem em contato direto
com a superfície do epitélio inflamado. Também ajuda a restaurar o microambiente
normal do canal auditivo, reduzindo a umidade e o pH, o que inibe o crescimento
microbiano.
Soluções de Limpeza: Existem diversas soluções otológicas disponíveis, cada uma
com propriedades específicas:
Ceruminolíticas: Contêm agentes que dissolvem o cerúmen, como docusato de
sódio, propilenoglicol ou esqualeno. São úteis em casos de otite ceruminosa ou
para preparar o ouvido para a otoscopia.
Antissépticas: Contêm agentes antimicrobianos leves, como clorexidina, ácido
bórico ou ácido acético. São usadas para reduzir a carga microbiana e prevenir
infecções secundárias.
Secantes: Contêm agentes que ajudam a secar o canal auditivo, como álcool
isopropílico ou ácido salicílico. São úteis em casos de otite úmida ou em animais
que nadam frequentemente.
Técnica: A limpeza deve ser realizada com cuidado para evitar traumatismos. O canal
auditivo deve ser preenchido com a solução de limpeza, massageado suavemente na
base da orelha para soltar os detritos, e o excesso de solução e detritos removido com
algodão ou gaze. Em casos de otite severa ou dolorosa, a limpeza pode ser realizada
sob sedação ou anestesia, especialmente com o auxílio da video-otoscopia³⁹.
�.� Terapia Tópica
A terapia tópica é a base do tratamento da otite externa, pois permite a entrega de
altas concentrações de medicamentos diretamente no local da infecção e inflamação.
Antibióticos: Os antibióticos tópicos são usados para tratar infecções bacterianas. A
escolha do antibiótico deve ser guiada pelos resultados da citologia e, idealmente, da
cultura e antibiograma. Os antibióticos tópicos comuns incluem gentamicina,
neomicina, polimixina B, enrofloxacina e florfenicol.
Antifúngicos: Os antifúngicos tópicos são usados para tratar infecções por leveduras,
principalmente Malassezia pachydermatis. Os antifúngicos tópicos comuns incluem
miconazol, clotrimazol e nistatina.
Corticosteroides: Os corticosteroides tópicos (como betametasona, dexametasona ou
hidrocortisona) são essenciais para reduzir a inflamação, o prurido e a dor associados
à otite externa. Eles também ajudam a reduzir o edema e a hiperplasia, permitindo
uma melhor penetração dos outros medicamentos. Em casos de inflamação severa,
pode ser necessário um curso curto de corticosteroides sistêmicos³⁹.
Combinações: Muitos produtos otológicos tópicos contêm uma combinação de
antibióticos, antifúngicos e corticosteroides, o que simplifica o tratamento e aborda
múltiplos componentes da otite.
�.� Terapia Sistêmica
A terapia sistêmica (antibióticos orais, antifúngicos orais, corticosteroides orais) é
reservada para casos específicos de otite externa.
Indicações:
Otite Média: Quando há evidência de otite média (por exemplo, ruptura da
membrana timpânica, achados radiográficos ou tomográficos), a terapia
sistêmica é essencial para tratar a infecção no ouvido médio.
Otite Crônica e Severa: Em casos de otite externa crônica e severa,
especialmente quando há estenose significativa do canal auditivo, a terapia
sistêmica pode ser usada para reduzir a inflamação e permitir que os
medicamentos tópicos sejam mais eficazes.
Infecções Sistêmicas Concomitantes: Se houver uma infecção bacteriana
sistêmica concomitante, a terapia sistêmica é indicada.
Escolha do Medicamento: A escolha do antibiótico sistêmico deve ser baseada nos
resultados da cultura e antibiograma. Os antifúngicos sistêmicos são usados para
infecções fúngicas sistêmicas ou para casos de otite por Malassezia refratários à
terapia tópica. Os corticosteroides sistêmicos são usados para reduzir a inflamação
severa e o prurido, especialmente em casos de otite alérgica³⁹.
�.� Manejo da Causa Primária e Fatores Perpetuantes
O sucesso a longo prazo no manejo da otite externa depende criticamente da
identificação e controle da causa primária e dos fatores perpetuantes.
Doenças Alérgicas: O manejo de alergias (dermatite atópica, alergia alimentar) é
fundamental para prevenir a recorrência da otite. Isso pode incluir dietas de
eliminação, imunoterapia, medicamentos imunomoduladores (como ciclosporina ou
oclacitinib) e controle ambiental de alérgenos.
Parasitas: O tratamento de infestações parasitárias (por exemplo, Otodectes cynotis) é
essencial. Isso geralmente envolve o uso de acaricidas tópicos ou sistêmicos.
Doenças Endócrinas: O tratamento de doenças endócrinas subjacentes
(hipotireoidismo, hiperadrenocorticismo) é crucial para restaurar a saúde da pele e
reduzir a predisposição à otite.
Corpos Estranhos e Neoplasias: A remoção cirúrgica de corpos estranhos, pólipos ou
tumores é necessária para resolver a otite. Em casos de estenose severa ou
mineralização do canal auditivo, a cirurgia (por exemplo, ablação total do canal
auditivo com osteotomia da bolha timpânica) pode ser a única opção para
proporcionar alívio duradouro³⁹.
� PROGNÓSTICO E PREVENÇÃO
O prognóstico da otite externa varia amplamente dependendo da causa subjacente,
da cronicidade da doença e da adesão ao plano de tratamento. A prevenção é
fundamental para evitar a recorrência.
�.� Prognóstico
Otite Aguda: O prognóstico é geralmente excelente se a causa primária for
identificada e tratada precocemente. A maioria dos casos agudos responde bem
à limpeza e terapia tópica.
Otite Crônica e Recorrente: O prognóstico é mais reservado e depende da
capacidade de identificar e controlar a causa primária e os fatores perpetuantes.
Em casos de alterações patológicas irreversíveis (estenose severa,
mineralização), o prognóstico é reservado e a cirurgia pode ser a única opção
para melhorar a qualidade de vida do animal.
�.� Prevenção
A prevenção da otite externa, especialmente em animais predispostos, envolve uma
abordagem proativa:
Limpeza Regular: A limpeza regular do canal auditivo com soluções apropriadas
pode ajudar a remover detritos e cerúmen, mantendo o microambiente
saudável.
Controle de Alergias: O manejo eficaz de doenças alérgicas subjacentes é a
medida preventiva mais importante em cães.
Controle de Parasitas: A prevenção e o tratamento de infestações parasitárias
são cruciais,especialmente em gatos.
Secagem Adequada: Em animais que nadam frequentemente, a secagem
cuidadosa do canal auditivo após a exposição à água pode ajudar a prevenir a
otite.
Monitoramento: O monitoramento regular das orelhas e a intervenção precoce
ao primeiro sinal de inflamação podem prevenir a progressão para a cronicidade.
� CONCLUSÃO
A otite externa em cães e gatos é uma condição complexa e multifatorial que exige
uma abordagem diagnóstica e terapêutica abrangente. A compreensão do modelo
PSPP (Primário, Secundário, Predisponente e Perpetuante) é fundamental para o
sucesso a longo prazo. A identificação e o manejo da causa primária, juntamente com
a terapia tópica e sistêmica apropriada, são essenciais para resolver os sinais clínicos e
prevenir a recorrência. A colaboração entre o veterinário e o tutor é crucial para o
sucesso do tratamento e a melhoria da qualidade de vida dos animais afetados.
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