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243.143 STVDIA IVRIDICA 42 BOLETIM DA FACULDADE DE DIREITO Comissão Redactora UNIVERSIDADE DE COIMBRA ALMEIDA COSTA - EHRHARDT SOARES - CASTANHEIRA NEVES LOPES PORTO FARIA COSTA ANTÓNIO ALBERTO MEDINA DE SEIÇA Redactor Delegado JOSÉ de FARIA COSTA UNIVERSIDADE DE COIMBRA - BOLETIM DA FACULDADE DE DIREITO COIMBRA EDITORA CONHECIMENTO PROBATÓRIO DO CO-ARGUIDO BRASILEIRO DE CIENCIAS 1999 Edição subsidiada parcialmente pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia COIMBRA EDITORA204 conhecimento probatório do co-arguido Parte A valoração do conhecimento probatório do co-arguido 205 qual, enquanto expressão de um sentir interior perante os resultados proba- sos meios de prova apresentados na (544), a própria tórios, se manifesta refractária à exposição motivada. Por outro lado, a simples indicação das provas tem de significar, já, uma a sua confirmação ou corroboração por elementos indiciários, regras como a razão de ciência da testemunha, a coerência do aplicação depoimento, dessas motivação, impossível de detectar na enumeração, ainda que exaustiva, de Só pela conjugação destes níveis de motivação se pode etc. afirmar todos os meios probatórios utilizados naquela audiência Torna-se neces- apreciação foi, em concreto, reconduzida a critérios objectivos que a sário, ainda, que se apresente o conteúdo probatório retirado desses meios de prova em ordem a sustentar os resultados probatórios base da decisão. acto judicativo ao qual a motivação suporta e dá uma efectiva tarefa de verificação em ordem a avaliar a bondade que do permitam próprio Por fim, importa levar à motivação (como condição da sua validade) os cri- térios de valoração das provas na verificação do facto. Com efeito, a motivação da decisão consiste na forma mais incisiva de verificar o uso da livre aprecia- 23. APLICAÇÃO: A VALORAÇÃO DAS DECLARAÇÕES DO ção apreciar livremente implica motivar correctamente. Por isso, dever CO-ARGUIDO. A CORROBORAÇÃO de fundamentação das decisões, se por um lado representa um limite intrínseco à liberdade de do juiz (obrigando-o a dar razões da "racionalidade" do 1. Chegados a este ponto, é altura de nos debruçarmos sobre o crité- itinerário mental seguido para chegar à decisão), por outro, configura-se como pre- rio da valoração do conhecimento probatório do co-arguido. Antecipando já missa lógica imprescindível para o exercício do controlo sucessivo sobre a linha o que mais adiante se procurará explicitar e motivar, julgamos requerer este de formação daquela (543). No fundo, trata-se de expor para além dos particular domínio de informação probatória a exigência acrescida de corro- «elementos que, em razão das regras da experiência ou de critérios lógicos, cons- boração. Dito de outra forma, o conhecimento probatório do co-arguido só tituem o substrato racional que conduziu a que a convicção do tribunal se for- deverá servir de fundamento à decisão final a tomar em relação ao outro caso masse em um determinado sentido ou valorasse de determinada forma os diver- esteja corroborado. A corroboração constitui, deste modo, o complemento inte- grador da livre apreciação em relação a esta fonte probatória, devendo expres- sar-se na motivação para que a valoração possa considerar-se correcta. (541) Como será: factos provados e não provados assentam nas declarações do arguido conjugadas com as do queixoso e das testemunhas inquiridas», anulada, com 1.1. A razoabilidade de haver da parte do julgador uma particular aten- razão, pelo Tribunal da Relação de Coimbra, CJ 1994, IV, 53. ção quando se trata de considerar a informação probatória dos co-arguidos (542) Acentua justamente Marques Ferreira, que «a mais importante alteração intro- parece impor-se com relativa facilidade, enquanto expressão de uma cautela adi- duzida pelo Código [na matéria da livre apreciação] consiste (...) na consagração de um cional devido «à evidente peculiaridade de tais declarações, que podem não ser sistema que obriga a uma correcta fundamentação fáctica das decisões que conheçam a final do objecto do processo de modo a permitir-se um efectivo controle da sua motivação» de todo desinteressadas, dada a posição processual do co-arguido declarante, (MARQUES FERREIRA, in: Jornadas, 228). No mesmo sentido, entre tantos, Amodio: considerado potencialmente uma fonte Como advertia Mello crescido sem medida a liberdade do juiz em todas as fases do procedimento pro- Freire, traduz indício falível «a indicação do sócio do crime feita pelo réu, que batório em virtude da regra da livre só através dos vícios de motivação as par- é sempre suspeito; ela pode facilmente partir da maldade deste, ou duma tes podem tentar reconduzir o juízo de facto a parâmetros de legalidade e de racionalidade sugestão, ou de qualquer outra causa sinistra» (547), ideia que, afinal, não está na aquisição e valoração da (AMODIO, Enc. Dir., XXVII, 181-2); Siracusano: prin- cípio [da livre apreciação] (...) encontra seu limite na motivação» (SIRACUSANO, Enc. XXV, 9); e apesar dos termos literais do 267 da StPO que não requer a motivação relativa à apreciação da prova, a unânime doutrina alemã (cf. PETERS, 476-7; ROXIN, (544) Acórdão do STJ de 13 de Fevereiro de 1992, in: CJ 1992, I, 36. 346, JEROUSCHECK, GA, 1992, 507-8). Cf., ainda, EDUARDO CORREIA, RDES 1967, 29; (545) Cf. AMODIO, Enc. Dir., XXVII, 209; GERMANO MARQUES DA SILVA, Curso, II, FIGUEIREDO DIAS, Direito processual penal (1988), 139; GERMANO MARQUES DA SILVA, Curso, «... as regras da experiência, a lógica ou a razão em função das quais pelas provas produzidas II, 113, III, 291; ANABELA RODRIGUES, Revue Internationale de Droit Penal 1992, 318-9. se julgaram provados os factos pelos quais se (543) GREVI, in: CONSO/GREVI, Profili del nuovo codice di procedura penale, 181; cf. FERRAJOLI, Diritto e ragione, 132. (547) MELLO FREIRE, Instituições de direito criminal português, Tit. XVIII, VI, in: GREVI, RItalDPP 1992, 1173. BMJ, 156, 142.206 conhecimento probatório do co-arguido Parte A valoração do conhecimento probatório do co-arguido 207 muito longe da consideração do STJ quando se refere à «credibilidade (...) naturalmente, mais diluída» das declarações dos co-arguidos grador do juízo valorativo dessa informação probatória. dade de outro arguido, corroboração que surge, repetimos, como momento inte- Compreendem-se estas reservas: como salientámos logo no proémio deste trabalho, a presumível proximidade do co-arguido em relação aos factos 2. o sentido da limitação: impedimento, uma vez mais objecto da investigação torna particularmente apetecível a aquisição da sua infor- mação, mas deve colocar de sobreaviso para a possibilidade ao seu dispor de apresentar com credibilidade uma «história» ou versão deturpada dos factos. 2.1. Convocamos, de novo, o impedimento de co-arguido depor na qualidade de testemunha como um elemento normativo fulcral poder o mesmo significa que, apesar de legitimamente valorável e assumir nume- o problema que ora nos (pre)ocupa. o art. 1, alínea a), indica para rosas vezes um significado precioso para a descoberta da verdade, constitui uma clareza que o conhecimento probatório do co-arguido não deve ser trazido com máxima da experiência (nesse sentido naturalmente fundada) que a informa- processo através da forma testemunho. Dito de outra forma, a produção desse ao ção probatória dos co-arguidos, na parte em que se refere aos outros, há-de material probatório não deve ocorrer na forma processual típica da prova tes- rodear-se de particular dúvida. temunhal. Nisto se traduz, sem dúvida, a primacial intenção normativa do A pergunta que se levanta, porém, reside em saber se tal exigência deve preceito. Julgamos, porém, que a norma comporta ainda uma outra inten- assumir o sentido e conteúdo da corroboração, já não como uma maior pru- ção, decorrente da primeira, óbvia na sua formulação, mas talvez ainda não dência na apreciação que se apresenta como conveniente, mas ainda tradu- suficientemente meditada quando se trata de enfrentar o problema da valoração zir-se na necessidade de confrontar a credibilidade da declaração com ele- do conhecimento probatório dos co-arguidos. E essa intenção pode formu- mentos extrínsecos e, portanto, no limite, na impossibilidade da sua valoração lar-se do seguinte modo: o conhecimento probatório do co-arguido não sendo pro- quando não estiverem presentes esses elementos de conforto da atendibili- duzido como um testemunho não deve ser valorado como um testemunho dade do narrado pelo co-arguido. Não se ignora que a ausência de expressa previsão nesse sentido joga 2.2. Dir-se-á, de imediato, que a asserção, embora verdadeira, não claramente a favor de uma resposta negativa: as declarações do co-arguido, ainda implica a necessidade de uma qualquer limitação ao princípio da livre apre- que relativas aos factos constitutivos da responsabilidade criminal do outro são ciação da prova em face da informação do co-arguido no sentido de dever estar valoradas nos termos gerais do art. quer dizer, as regras da expe- corroborada em ordem à sua valoração. A livre convicção traduz precisa- riência e a livre convicção da entidade competente», tal como vale para os res- mente a possibilidade de o julgador atribuir peso probatório a cada meio de tantes meios de prova a que a lei não determine, expressamente, um critério conhecimento sem estar vinculado de antemão a critérios legais: como se rei- valorativo diverso. E, portanto, não existe qualquer exclusão ope legis relativa tera na doutrina a pessoal é elemento necessário mas também sufi- à utilização, como material probatório fundante da decisão, da informação pres- ciente da decisão Deste modo, o juiz pode dar maior crédito ao depoi- tada por um co-arguido, ainda que não se mostre corroborada. mesmo sig- mento do arguido do que ao de uma ou várias testemunhas, sem necessidade nifica, pela positiva, que o aplicador, dentro da sua margem de apreciação livre, de qualquer tábua de graduação ao estilo da aritmética probatória do modelo pode condenar um co-arguido baseado exclusivamente nas declarações de das provas legais. Logo, dizer-se que o conhecimento do co-arguido não outro arguido. deve valorar-se como testemunho ou traduz uma redundância ou, então, atrai- Julgamos, no entanto, que se torna possível, descortinar para além do geral çoa e subverte o sentido intrínseco ao princípio da livre valoração. bom-senso (que não sendo critério legal é factor não despiciendo na aplica- Em nosso entender, porém, aquela proposição possui um conteúdo útil ção do direito), elementos normativos que justificam o apelo à regra da cor- e pleno de sentido. A livre apreciação da prova traduz-se na de cri- roboração das declarações do co-arguidos na parte respeitante à responsabili- (549) Cf., em sentido paralelo, FASSONE, Cass. Pen. 1986, 1895. (548) CJ-Ac STJ, II, Tomo II (1994), 202. (550) Cf., por todos, ROXIN, 87.208 conhecimento probatório do co-arguido Parte II A valoração do conhecimento probatório do co-arguido 209 térios legais predeterminados do valor a atribuir à prova» Esta a sua ver- zar-nos, por certo, pensando que todas as testemunhas, pelo facto de tente (negativa) historicamente afirmada na superação das antigas provas legais trarem sob a ameaça da pena para as declarações falsas, nunca faltarão se encon- à com os seus quartos e oitavos de prova. Porém, o justificado desapareci- dade. Porém, esse problema diz respeito à apreciação da concreta declaração ver- mento da da prova» não deve traduzir-se na total nivelação de da testemunha ou do co-arguido, não ao plano da apreciação em abstracto, todas as fontes de conhecimento, como se de todas se pudesse inferir, em o único que o legislador pode ordenar, da valoração dos meios probató- grau idêntico, razões do convencimento, ou como se a eficácia persuasiva do rios Ora, como acentua Grünwald, não deve confundir-se o plano da resultado fosse alheia à fonte de onde nasce Tal fenómeno ocorre, toda- credibilidade abstracta com o da credibilidade concreta do meio de prova. via, quando se persiste na ideia de que pertence em exclusivo ao julgador Não se pode afirmar, em face das declarações concretas se aquele arguido se valorar, isto é, atribuir valor de convencimento a cada resultado probatório. mostrará mais credível do que esta testemunha; porém, a experiência ensina Se não negamos que a tarefa de valoração deva continuar a fazer-se pela existir uma maior probabilidade de declarante falar a verdade se estiver sob mediação de um sujeito livre, de alguém a quem a lei não pode comandar uma a ameaça do crime de falso testemunho, do que se a eventual falsidade per- decisão condenatória contra a da inocência, recusamos que o legis- manecer sem consequências Deste modo, e ainda na linha de Grünwald, lador se deva demitir da conformação do sentido da valoração, não só pela res- não se afigura correcto pretender que entre duas distintas declarações, uma da trição do material probatório disponível (como ocorre, claramente, com proi- testemunha X e outra do arguido Y, a mais credível deva ser a da testemunha. bição de valorar o testemunho de ouvir dizer, o reconhecimento irregular, o Pode afirmar-se apenas que a mesma pessoa, na mesma situação, faz a silêncio do arguido) mas requerendo, mesmo, elementos adicionais para que mesma declaração, a probabilidade da sua é maior quando essa pes- o aplicador possa considerar para efeitos da decisão certos dados probatórios, soa se encontra sob a ameaça vigente para as testemunhas» Na verdade, como julgamos dever acontecer em relação às declarações dos co-arguidos. na prova testemunhal «a credibilidade representa a regra e o depoente pode ser Tal exigência encontra a sua justificação, no plano normativo, na cir- tido credível enquanto se não verifiquem elementos concretos susceptíveis de cunstância de as declarações do co-arguido, mesmo na parte relativa à res- perturbar a sua credibilidade». Já nas declarações do co-arguido, o ponsabilidade do outro, não estarem sujeitas aos mecanismos legais inerentes cânone da credibilidade e a pressão ético-legal» à prova testemunhal, maxime a punição por falso depoimento. A falta de tal constrangimento vigente para as declarações dos arguidos não implica que todo e qualquer co-arguido adultere a verdade. Nem podemos tranquili- (553) Como referimos, o art. constitui um cânone de judicatura sobre as pró- prias declarações das testemunhas, na medida em que estabelece um conjunto de regras destinadas precisamente a determinar a fiabilidade do testemunho, como sejam rela- ções de parentesco e de interesse com o arguido, ofendido, o assistente, as partes civis FIGUEIREDO DIAS, Direito processual penal (1988), 139. e com outras testemunhas, bem como sobre quaisquer circunstâncias relevantes para ava- (552) o erro teórico da doutrina das provas legais positivas centra-se no facto de se liação da credibilidade do Pois muito bem: o facto de estas cautelas sur- atender, apenas, ao meio probatório (duas testemunhas clássicas, confissão), sem considerar girem como óbvias não coibiu legislador de as enunciar. o valor intrínseco do resultado probatório assim conseguido. Não será tão surpreen- (554) FS-Klug, 501; cf. CALAMANDREI, GP 1985, IV, col. 440, de subli- outro dente, por isso, que, perante o emaranhado de limitações de valor probatório e contagens nhando a circunstância das declarações do co-arguido sobre a responsabilidade direitos ao de indícios próximos e remotos, a tortura como forma de obter o meio probatório mais se distinguirem das das testemunhas pelo facto «do ordenamento atribuir eficaz e completo (a confissão) apareça justificada. Porém, deve ter-se presente que os tem- arguido, cujo reconhecimento não reforça a atendibilidade das suas afirmações». pos modernos, abolindo, é certo, a tortura judiciária, libertaram também o julgador pra- (555) GRÜNWALD, FS-Klug, 502. ticamente de todas as peias quanto ao valor a atribuir a cada meio de prova. E causa BARONE, RDP 1987, 121. Para Barone as declarações dos co-arguidos de uma deve- situa- alguma estranheza verificar que enquanto na prova legal os indícios constituiam apenas um riam submeter-se ao regime da prova testemunhal: sair da polémica e criar em torno pressuposto para a submissão do suspeito à questão, no sistema da livre apreciação, a ção de incerteza relação à eficácia probatória da chiamata e para responsabilizar este prova indiciária, sem quaisquer cálculos e considerações de menor ou maior força, pode do extrema uma atmosfera em de menor desconfiança necessitar-se-ia abandonando definiti- conduzir à própria condenação, conquanto o julgador, na sua convicção livre e soberana, a tenha por suficiente. vamente último a estrada do obrigações interrogatório [= declarações de arguido], cuja disciplina co-arguido mediante as morais e jurídicas do testemunho, contempla210 conhecimento probatório do co-arguido Parte II A valoração do conhecimento probatório do co-arguido 211 É neste plano da credibilidade abstracta que o legislador pode intervir, comandando regras de exclusão de certos resultados probatórios tidos em geral dor como um meio adequado para a efectivação de declarações conformes de duvidosa eficácia persuasiva. Retomando um dos exemplos já referidos, à verdade que a realização da justiça postula. Como a doutrina italiana tem sublinhado, a ausência de distinção no plano gnoseológico entre o pense-se na hipótese de se mostrar necessário efectuar um reconhecimento de alguém, mas em que não se observou o modus prescrito pelo legislador. teúdo narrativo das declarações da testemunha e do co-arguido, não signi- con- fica a necessária nivelação valorativa. Torna-se necessário o ele- reconhecimento não vale como meio de prova. Mas, perguntar-se-á, a mento (normativo e não só sócio-psicológico) que a distingue do testemunho. identificação feita não pode corresponder à verdade? Não pode o juiz con- Enquanto no caso do testemunho o juiz pode aceitar que subsista o facto vencer-se, pela forma como quem procedia à identificação declarou, da referido pela testemunha apenas porque a testemunha o narra, não se pode identidade da pessoa? A lei responde: não. Porque essa informação, essa par- fazer análoga operação para as declarações do co-arguido. Em tal situação, cela de conhecimento trazida à audiência não oferece as garantias que o a existência do facto referido só poderá afirmar-se com base em qualquer legislador considera indispensáveis para poder afirmar a credibilidade do outro elemento» reconhecimento cuja consecução o moveu a editar, em abstracto, um par- Sabemos não ser o co-arguido uma testemunha com um ticular regime de realização probatória. Noutras situações, o legislador pode possível motivo para narrar mentiras sobre um inocente acusado mas uma comandar a necessidade de um elemento adicional para dar valência pro- testemunha particularmente equipada, devido ao seu conhecimento interno do batória a um certo resultado. No fundo, não se mostra diverso o raciocí- crime, para convencer que as suas mentiras são a verdade» sem existir nio: também aqui se visa conferir, mediante uma regulamentação em abs- qualquer contrapeso que restabeleça o equilíbrio da valoração, equilíbrio a tracto, maior eficácia persuasiva ou de convencimento a um dado probatório, concretizar-se na modalidade da verificação desse tipo de prova. Dizer-se condicionando a sua efectiva utilização às situações em que o elemento adi- que as declarações do co-arguido são credíveis quando o juiz acredita nelas ou cional se verifique. Assim, a corroboração das declarações do co-arguido. quando dão a certeza do fundamento da acusação não deve deixar-se para o Na verdade, e reafirmando o que ficou dito mais acima, embora a «código deontológico do bom juiz» substituição das provas legais pelo princípio da livre convicção tenha esba- As regras probatórias legais, independentemente do seu conteúdo, pro- tido a hierarquização valorativa dos diversos meios de prova, cumprindo ao curam espelhar o sentido conformador que o legislador pretende ver impri- juiz em concreto graduar o peso que cada declaração lhe merece, indepen- mido no procedimento probatório em ordem à obtenção de uma verdade pro- dentemente da posição processual de quem declara, não se pode deixar de cessualmente válida. E, nessa medida, expressam uma opção valorativa atender que a cominação penal para o falso testemunho é tida pelo legisla- perante os interesse conflituantes. Neste sentido, não pode deixar de se ter presente que a exigência de corroboração apresenta uma inegável dimen- são política, na medida em que tem como função baixar ou aumentar o grau de credibilidade. Se se entende que ela não surge necessária, aceita-se cor- também o direito a mentir (BARONE, ob. cit., 153). Propõe, por isso, a eliminação do rer maiores riscos na condenação; exigindo-a, aceita-se correr maiores riscos impedimento para o co-arguido e construção das declarações do co-arguido sobre o facto de terceiro como testemunho. A indubitável existência em concreto de possí- na absolvição veis suspeitas em relação à veracidade de tais declarações, bem como o respeito devido ao princípio nemo tenetur se detegere não podem ser chamados para desvalorizar ab ori- gine o conteúdo dessas declarações ao ponto de negar-lhe qualquer valor probatório mas apenas para dispor de problemática garantística susceptível de satisfatórias solu- (557) Cf. FASSONE, Cass. Pen. 1986, 1897. ções. A predisposição de mecanismos processuais aptos a impedir a possibilidade de (558) HEYDON, CRL 1973, 266, reportando-se à jurisprudência inglesa. uma auto incriminação do declarante e a introdução da cross examination poderiam (559) FASSONE, Cass. Pen. 1986, 1895. constituir garantias adequadas em relação aos temidos perigos de inquinamento da prova (560) Não surpreenderá que as épocas de emergência se mostrem mais de refractárias verificação à testemunhal e de lesão do direito de defesa (ob. loc. cit., 153). Inclinando-se para apli- cação da cross-examination das declarações dos co-arguidos, BARGIS, Giur. Ital. 1990, de declarações tão preciosas quanto perigosas do ponto de vista da descoberta ver- regra da corroboração, reclamando, assim, um abaixamento dos padrões da IV, col. 45. dade. Cf. DOMINIONI, RDP 1987, 761-2.conhecimento probatório do co-arguido Parte II A valoração do conhecimento probatório do co-arguido 213 212 24. A REGRA DA CORROBORAÇÃO desde o século XIX, as opiniões sobre a necessidade ou não de juiz adver- tir os jurados sobre essa exigência não eram unívocas: uma tese remetia o I. Tradições aviso para o poder discricionário do juiz, enquanto outra entendia que tal adver- tência devia ser dada em todos os casos em que tal tipo de prova era utili- A exigência de corroboração como pressuposto indispensável para a con- zado (564). sideração probatória das declarações dos co-arguidos em sede de julgamento, Até 1954 a lei concedia ao júri absoluta liberdade para condenar baseado apesar de constituir novidade no contexto jurídico português, encontra nou- no testemunho de accomplices, quer estivessem corroborados quer não. Toda- tros quadrantes uma já longa experiência. A invocação dessas tradições, em via, ao longo deste século, a pratica judiciária foi adoptando o costume de o que se destacam o direito anglo-americano e o direito italiano, assume um sen- juiz fazer um aviso aos jurados a recomendar a necessidade de corroboração tido não meramente informativo, na medida em que traduzem um assinalá- para o testemunho de um accomplice. vel esforço de contenção do critério de valoração das declarações probatórias É no caso Davies versus the Director of Public Prossecutions, decidido em dos co-arguidos. 1954, que pela primeira vez a House of Lords estabeleceu como of law» o que até aí era somente «rule of o dever de o juiz advertir os jura- 1. o direito anglo-americano dos que, embora pudessem condenar fundados nessa prova, perigoso fazê-lo, a menos que houvesse corroboração. E, em consequência, a omissão Importa, em primeiro lugar, fazer uma referência à experiência jurídica do aviso implica a da condenação (the conviction will be quashed), anglo-americana, sempre algo refractária ao observador oriundo do direito mesmo que, na realidade exista ampla corroboração da prova do accom- continental, que encontra na particular forma de revelação das fontes do plice» direito, no carácter fragmentário (agudizado pela pulverização dos direitos particulares), na não equivalência terminológica e conceitual, obstáculos con- sideráveis. estranhamente, a regra parece não se aplicar entre co-defendants, uma vez que só se impõe a) direito inglês o aviso (warning) aos jurados no caso de accomplice ser testemunha da acusação (Quee- n's evidence). Criticamente sobre esta prática, que considera against common sense e indi- cando uma tendência jurisprudencial para estender a regra da corroboração também aos Afastando-se da regra geral vigente desde os tempos modernos segundo co-arguidos que prestam declarações sem ser como testemunhas de acusação, WILLIAMS, a qual tribunal pode decidir baseado no testemunho não corroborado de CLR 1962, 593-4, cf. HEYDON, CLR 1973, 268. Sobre o problema da determinação de uma testemunha» o direito inglês contempla, para alguns casos parti- accomplice, em pormenor, HEYDON, ob. cit, 270-81; cf., também, CROSS, Evidence, 170. culares, regras a exigir que testemunho se encontre corroborado Outra questão discutida diz respeito ao grau de certeza exigível (burden of proof) para Embora a conveniência de alguma forma de corroboração para a prova que se considere o depoente um accomplice. Assim, tem-se defendido que tal como é exi- (evidence) de um accomplice (563) fosse salientada no direito inglês, pelo menos para a condenação a prova da culpa para além de toda a dúvida razoável, também tem de ser provado para além dessa dúvida razoável que a testemunha se encontra livre da mancha (taint) da cumplicidade. Cf. WILLIAMS, ob. cit., 595; ZUCKERMAN, Evi- dence, 156. (564) Cf. CROSS, Evidence, 169. (561) CROSS, Evidence, 162. (565) a criminal trial where a person who is an accomplice gives evidence on (562) A indicação desses casos pode ver-se em CROSS, Evidence, 163-77; ZUCKERMAN, behalf of the prosecution, it is the duty of the judge to warn the jury that, although Evidence, 155-66, 171-2. they may convict upon this evidence, it is dangerous to do so unless it is corroborated. (563) Uma das maior dificuldades da regra diz respeito à determinação do que deve This rule, although a rule of practice, now has the force of a rule of law. Where the entender-se por accomplice. Com efeito, conceito não se confunde com o de co-arguido judge fails to warn the jury in accordance with this rule, the conviction will be quashed, (co-defendant): por um a exigência de corroboração persiste, algumas decisões, even if, in fact, there be ample corroboration of the evidence of the citação mesmo se a testemunha já tiver sido absolvida ou condenada; por em outro lado, e algo em CROSS, Evidence, 169; cf. ZUCKERMAN, Evidence, 155. A regra da corroboraçãoconhecimento probatório do co-arguido 214 Parte II A valoração do conhecimento probatório do co-arguido 215 b) o direito norte-americano 2. A experiência italiana Também no espaço norte-americano muitos estados legislaram no sentido a) Antes do novo código de exigir a corroboração para que o depoimento de um accomplice possa fun- damentar uma condenação o que manifesta o louvável de Tivemos ocasião de referir que problema da utilização e valoração pro- estabelecer padrões de prova quando se trata de depoimentos suspeitos que batória da informação prestada por um co-arguido, maxime, quando ela se tra- podem levar a condenações não garantidas» duza numa incriminação de outro arguido (chiamata di correo) constitui, de Apesar de alguma hesitação e mesmo rejeição em certas decisões da há muito, um tema recorrente na literatura italiana, fonte interminável de necessidade de corroboração a limitação da suficiência do depoimento contrastes e incertezas. Apesar de em tese geral se reconhecerem limitações à não corroborado de um accomplice continua a ser a prática judicial domi- eficácia persuasiva de tal informação, em virtude da sua raiz mais ou menos nante, preconizando alguma doutrina a introdução dessa regra na lei federal, interessada, as divergências surgem a todo passo quando se procura concreti- a implicar que, na sua falta, «suportando uma condenação para além de toda zar as respostas para o seu tratamento normativo. a dúvida razoável (beyond a reasonable doubt), o juiz deve absolver (acquit- Hesitações e desencontros que obtiveram ressonância na jurisprudência, particularmente perante o crescendo de criminalidade violenta e de uma cul- tura de emergência, em que o recurso às declarações dos chamados arrepen- didos (pentiti) constitui a arma decisiva na perseguição e condenação. Como assume, como se vê, um cunho marcadamente procedimental. Uma situação devedora da escreve Sammarco, «este meio de prova tornou-se, por um certo período, a particular forma de julgamento em que os jurados pronunciam o veredicto sem necessi- moderna "regina probationum", objecto da pesquisa incessante do juiz, dade de motivação e, desta forma, sem que possa efectivar-se uma fiscalização sobre se e qual, com o simples aval das declarações de um arrependido (pentito), se acha como se aplicou a exigência da corroboração. legitimado a infligir mesmo condenações (566) Cf. SAVERDA, Yale 1990 (100), 790-1 e nota 40. Assim, por exemplo, dispõe-se São numerosas, de facto, as decisões da Corte di Cassazione a no California Penal Code, § 1111, conviction cannot be had upon the testimony of an accomplice unless it be corroborated by such other evidence as shall to tend to connect the afirmar a plena eficácia probatória das declarações incriminatórias dos defendant with the commission of the offense; and the corroboration is not sufficient if it co-arguidos, em nome, ainda, da livre negando, pois, que a merely shows the commission of the offense or the circumstances thereof»; e na New York valoração desta fonte de conhecimento deva estar subordinada a uma veri- Criminal Procedure Law, 60.22, defendant may not be convicted of any offense upon ficação diferenciada da que vale para toda a prova e que o juiz deve levar the testimony of an accomplice unsupported by corroborative evidence tending to connect à motivação the defendant with the commission of such offense», clarificando que means Porém, conta-se igualmente uma forte corrente a considerar que a eficácia a witness in a criminal action who, according to evidence adduced in such action, may rea- sonably be considered to have participated in: (a) the offense charged; or (b) an offense based probatória das declarações do co-arguido não ocorre a se stante, requerendo-se, upon the same or some of the same facts or conduct which constitutes the offense char- ged», citados por SAVERDA, ob. cit., 792, nota 47. SAVERDA, Yale 1990 (100), 792. (568) V.g., em Washington versus Texas, decidido em 1967, o Supreme Court dos Esta- dos Unidos entendeu ser "preferível permitir ao júri ouvir depoimento de todas as pessoas not be obtained upon testimony of an accomplice unless is corroborated by such other evi- dence as shall tend to connect the defendant with the commission of the offense». não impedidas (competent) que tenham conhecimento dos factos e determinar o crédito e peso a dar a cada depoimento individual», citado por SAVERDA, Yale 1990 (100), 794. SAMMARCO, La chiamata, 73. (569) Assim, SAVERDA, Yale 1990 (100), 798, que avança uma proposta de regra: (571) Cf., com numerosas referências jurisprudenciais, BONETTI, L'indice penale accomplice be is a witness in a criminal action who may be liable to prosecution for, or 1986, 68, BARONE, RDP 1987, 123-37; CALAMANDREI, GP, 1985, IV, col. 441. may the considered to have participated in (a) the offense charged; (b) offense based um sistema dominado pelo princípio da livre convicção, no qual as pro- vas (...) são valoradas fora de cânones legalmente fornecidos, não existe uma regra pela on cause in which the testimony of the accomplice is given. against A conviction can- upon trial in same the facts or conduct that constitutes the offense charged or an the defendant qual a chiamata di correo, na falta dos designados elementos de corroboração objectivos, conduza automaticamente à absolvição», citado por BARONE, RDP 1987, 123.conhecimento probatório do co-arguido Parte II A valoração do conhecimento probatório do co-arguido 217 216 sirvam de fundamento da decisão, elementos adicionais a chia- Pretendia-se, desta forma, tomar claramente posição sobre o valor das para que di correo, na expressão da gíria processual usada pelo menos desde declarações do co-arguido, que são atendíveis, mas apenas quando corroboradas século mata XVIII, só pode valorar-se se for vestita, sendo insuficiente a chiamata por outros elementos que lhes confiram credibilidade constituindo a omissão da consideração destes dados um vício de fundamentação. o texto nuda (574). final reafirmou esta direcção, dispondo hoje o direito italiano de uma regra de b) o direito vigente (art. 192-3) valoração específica para as declarações dos co-arguidos, o art. 192-3, pelo qual estas devem ser valoradas conjuntamente com outros elementos de prova que A introdução duma regra legal de valoração para as declarações dos confirmem a sua credibilidade co-arguidos dá-se pela primeira vez no Projecto de 1988. Atendia-se, no dizer Como a doutrina italiana tem salientado, com este preceito e indepen- da comissão redactora, ao posicionamento doutrinal e da praxis que insis- dentemente do seu conteúdo, o legislador resolveu a questão tia «na necessidade de circundar de maiores cautelas o recurso a uma prova, relativa à qualidade probatória das declarações» uma vez incluí-las no como aquela proveniente de quem está co-envolvido no mesmo facto dro dos meios de prova típicos» agindo a norma apenas sobre o crité- imputado ao arguido ou que tem qualquer ligação com ele, à luz da sua ati- rio da valoração. tude a gerar um erróneo convencimento do juiz». Além disto, invocava-se a experiência, quer dos nos quais vigora o sistema acusatório» em que valoração da accomplice evidence é acompanhada da denominada corro- boration», quer da própria Corte di Cassazione que na sua prática vinha san- cionando princípio do necessário confronto (riscontro) probatório da (576) Cf. in: Il nuovo codice, IV, 562. Note-se que esta proposta contou logo nume- chiamata di correo» (⁵⁷⁵). rosas críticas. Assim, a Commissione sui maxiprocessi mostrou-se profundamente contrá- ria, uma vez «não se compreender por que razão não deva valer análoga regra particular de decisão para outros meios de prova (que poderão ser não menos Por outro lado, opina esta comissão, a formulação do preceito, ao fazer depender a regra do funcionamento da conexão, introduz um factor externo: o facto de uma declaração poder (573) Não existe entendimento sobre a natureza desses elementos, oscilando a juris- prudência entre a suficiência dos elementos de verificação intrínseca da própria declara- ser tida como prova plena (se vinda de uma testemunha) ou não plena (se vinda do ção, aferidos muitas vezes pela simples ausência de contradição com outros elementos co-arguido). Cf. Il nuovo codice, IV, 562-3. Profundamente contrário à regra legal Cor- existentes e a coerência lógica e psicológica das declarações e a exigência de uma verificação dero, que considera o problema da valoração das declarações dos co-arguidos extrínseca. Cf. BONETTI, L'indice penale 1986 68; BOSCHI, FI 1989, II, col. 528; DEGA- clínica, não codificável. Melhor deixá-la à praxis» (CORDERO, Procedura 580, e, NELLO, LP 1991, 646-8. chiamata di correo, escreve a Corte di Cassazione, para assu- sobretudo, 848-51); cf. ainda, Bargis que acha preferível «submeter ao controle do inter- mir dignidade de fonte de prova não deve apenas ser espontânea, constante, unívoca e desin- rogatório cruzado todas as declarações de um co-arguido idóneas a fundar a decisão (BAR- teressada, mas deve encontrar conforto em outros elementos de natureza objectiva que, GIS, Giur. Ital. 1990, IV, col. 45). postos com essa declaração numa relação lógica, lhe atribuam carácter de certeza quanto inciso citado dispõe: «Le dichiarazioni rese dal coimputato del medesimo ao facto a provar», apud BARONE, RDP 1987, 128. A possibilidade de utilização das reato o da persona imputata in um procedimento connesso a norma dell'articolo 12 declarações acusatórias do co-arguido requer, nesta orientação, uma duplo momento de fis- sono valutate unitamente agli altri elementi di prova che ne confermano l'attendibi- calização: por um lado, uma fiscalização intrínseca respeitante ao exame da personalidade regra que art. 192-4 estende ainda dichiarazioni rese da persona impu- do autor da declaração e dos motivos que a determinaram; por outro, um confronto tata di un reato collegato a quello per cui si procede, nel caso previsto dall'arti- extrínseco a cumprir mediante elementos objectivos ou declarações de testemunhas ou colo 371 comma 2 lettera b)» [o crime diz-se collegato la prova di un reato o di de outros arguidos. Cf. BOSCHI, FI 1989, II, col. 528, sintetizando a orientação da juris- una sua circonstanza influisce sulla prova di un altro reato o di un'altra circons- prudência que requer a corroboração. tanza»]. Sobre a norma, pode ver-se, NOBILI, in: Commento Chiavario, II, 418; Sobre o sentido destas designações, MELCHIONDA, RItalDPP 1967, 162. GREVI, RItalDPP 1991, 1150-2 e 1173-86; SAMMARCO, La chiamata di correo, 79-93; (575) In: Il nuovo codice, IV, 562. Sobre a bondade dos motivos invocados: a tra- DEGANELLO, LP 1991, 648-54. dição dos países em que vigora o acusatório e a tradição da Corte di Cassazione, cf., cri- (578) RAFARACI, 1994, 672-3. ticamente, BOSCHI, FI 1989, II, cols. 529-30. (579) GREVI, RItalDPP 1991, 1150.218 conhecimento probatório do co-arguido Parte II A valoração do conhecimento probatório do co-arguido 219 II. o conteúdo regra legal positiva, pois a verificação da corroboração a circunstância de existirem resultados tidos por idóneos a confirmar em termos de corrobora- 1. A afirmação da conveniência da regra da corroboração como crité- ção a declaração não obriga o juiz a condenar caso considere existirem outros rio integrador da valoração do conhecimento probatório do co-arguido, na parte elementos probatórios capazes de infirmar ou, pelo menos, de impossibilitar relativa aos factos de outro arguido, coloca complexas questões quando se uma convicção para além de toda a dúvida razoável da veracidade da acusa- procura determinar com rigor o sentido, modo de funcionamento e conteúdo ção. Por outro lado, convém frisá-lo, a limitação que a regra da corrobora- da norma. Problema agravado pelo facto de, em muitas situações, quer a ção comporta ao princípio da livre apreciação da prova traduz-se apenas na cir- informação corroboranda, quer o elemento corroborante apresentarem uma cunstância de a ausência de elementos corroborantes implicar a impossibilidade grande fluidez, exigindo um difícil trabalho de decomposição e verificação de valoração daquela informação probatória, quer dizer, a sua eficácia proba- de um material refractário à analítica. tória não surge a se stante, devendo ser integrada por um elemento de con- Porém, antes de aprioristicamente se rotular a regra de imprestável ou firmação exterior. Todavia, à valoração destes elementos, do particular entrave à acção da justiça, sem sentido e castradora da livre decisão do julgador, ponto de vista da sua idoneidade e suficiência para confirmar ab extrinseco a há que precisar o seu verdadeiro alcance. atendibilidade das ditas declarações o princípio vale plenamente» Sem dúvida, a exigência da corroboração vem a traduzir-se numa limi- No fundo, a regra da corroboração traduz uma exigência acrescida de tação à valoração da prova, podendo afirmar-se, nesse sentido, que o princípio fundamentação a cargo do aplicador quando pretenda utilizar um dado elemento da livre apreciação sofre uma derrogação, pois exclui-se que a declaração do probatório (584). o juiz poderá (deverá) valorar tais declarações, e portanto, co-arguido se possa considerar suficiente para fundar a decisão do juiz, considerá-las no interior do próprio itinerário lógico, somente se e quando as impondo-lhe a eliminação «da plataforma do próprio convencimento de deter- mesmas resultem susceptíveis de confronto através de outros elementos pro- minadas declarações de prova, enquanto provenientes do co-arguido, todas batórios cuja presença e cuja potencialidade corroborativa se ponham como con- as vezes em que elas constituam a única prova disponível ou de todo o modo ditio sine qua non para emprego da própria declaração para fins decisó- não sejam acompanhadas por outros elementos probatórios idóneos a con- rios Cabendo-lhe, ainda, o dever de dar conta dessa valoração e desses firmá-las no plano da atendibilidade» Na verdade, a corroboração, tra- elementos na própria fundamentação. duzindo a necessidade de uma confirmação da credibilidade das próprias declarações através de outros dados de prova, põe um claro limite ao princí- 2. a) Importa de seguida aclarar, com o maior rigor possível, qual o con- pio da livre do julgador que fica vinculado ao cânone da (legal) insu- teúdo da regra da corroboração. ficiência das meras declarações para justificar a decisão Deste modo, a Tivemos ocasião de referir, quando abordámos algumas das técnicas de regra da corroboração traduz uma prova legal negativa, na medida em que o verificação do material probatório, que a regra não se deve confundir com a juiz só pode condenar quando se verificam as condições da prova legal (no caso, exigência de uma contraprova, pelo menos no seu sentido rigoroso de con- a corroboração da declaração por outros elementos probatórios), mas é livre de absolver, ainda que tal prova tenha sido produzida Uma vez mais se afirma, no entanto, que a exigência não configura uma (583) GREVI, RItalDPP 1991, 1181. (584) É particularmente significativa, no contexto do nosso direito, a observação de Grevi, ao afirmar que mesmo na ausência de uma norma especial a exigir a corroboração, a sua necessidade já decorreria da regra geral da motivação da sentença. Cf. GREVI, (580) GREVI, 1991, 1174. RItalDPP 1991, 1175. E com razão: enquanto expressão das razões justificativas do (581) Assim, também, Grevi: «O legislador estabeleceu um cânone valorativo vin- juízo, a fundamentação da sentença não pode deixar de explicitar as razões da aceitação culante para o julgador, no momento em que seja chamado a considerar as ditas decla- de uma dado meio de prova, ou melhor, dos resultados que esse meio permitiu obter. fis- As rações em ordem à formação do próprio convencimento» (GREVI, RItalDPP 1991, 1173). declarações dos co-arguidos, utilizáveis embora, justificam um maior rigor não só na (582) Assim, com olhos no art. 192-3 do novo CPP italiano, SAMMARCO, La calização, mas ainda que esse maior rigor se expresse na própria enunciação fundamentadora. chiamata di correo, 75. (585) Cf. GREVI, RItalDPP 1991, 1174.220 conhecimento probatório do co-arguido Parte II A valoração do conhecimento probatório do co-arguido 221 firmação de um resultado probatório pela sua correspondência a outro resul- tado oriundo de uma fonte independente. Requerer uma contraprova para se trariem conteúdo narrado. Naturalmente, este estádio da verificação pode poder atender às declarações dos co-arguidos, aumentando embora a sua efi- bastar para recusar atendibilidade à declaração, tornando dispensável um ulte- cácia persuasiva, implicaria, com toda a certeza, levar ao grau zero a sua efec- rior confronto com elementos extrínsecos: se o declarante cai em contradição tiva utilização. Temos insistido, ao longo destas páginas, que a delicadeza ou apresenta uma história inverosímil ou com pormenores de que, de acordo do conhecimento probatório do co-arguido reside na presumível proximidade com as regras da experiência, não pode ter tido percepção directa, etc., o seu depoimento deve recusar-se, por insuficiente credibilidade intrínseca. apresentada pelo co-arguido em relação aos factos constituintes do thema pro- bandi. Porém, se essa proximidade o coloca na privilegiada posição de adul- Simplesmente, a corroboração põe uma exigência suplementar, pela qual terar a narração, continuando a apresentá-la credivelmente, e justifica a limi- esta primeira fiscalização embora condição necessária não se afigura condição tação da apreciação, não podemos esquecer o facto de a opacidade muitas suficiente para se poder afirmar a comprovação requerida. Como se tem vezes inerente ao crime (particularmente em certas formas de criminalidade acentuado na literatura italiana, a verificação da credibilidade da declaração deve ser confortada por uma comprovação ulterior nascida de elementos exteriores organizada, ou no crime de corrupção, etc.) conferindo indispensável valia à informação do co-arguido dificulta em medida extrema uma efectiva com- à própria declaração a verificar porquanto valoração intrínseca é uma provação por terceira fonte de todos os enunciados de facto contidos na decla- passagem necessária mas precária da dialéctica probatória do juiz» (588). ração do co-arguido. A exigência de contraprova, em suma, não só condu- o que se pretende com a corroboração, insistimos, reside na fiscalização ziria a níveis excessivos a tarefa de verificação probatória, como faria perder, da credibilidade da declaração proveniente do co-arguido, isto é, a verificação, ainda, muita da utilidade prática daquela fonte de conhecimento. por elementos exteriores à própria declaração corroboranda, da sua fiabili- dade. Assim, se corroboração não significa que tenha de haver prova inde- b) No entanto, e pelo lado oposto, a corroboração significa uma exigência pendente do que o accomplice relata, pois então o seu depoimento seria des- acrescida de verificação da declaração em face da simples fiscalização da sua exige no entanto prova adicional tornando provável que credibilidade intrínseca Este controle deve fazer-se em relação a todas as a história do accomplice é verdadeira e que se torna razoavelmente seguro declarações, constituindo no caso de declarações do co-arguido uma tarefa decidir baseado no seu depoimento» de particular importância, tanto mais que elas não se encontram subordina- das ao mecanismo da cross examination. Convém acentuar, no entanto, a circunstância de valerem também em relação ao depoimento do co-arguido as (587) Como sublinhou a Corte di Cassazione na polémica decisão sobre caso Sofri, regras que limitam o âmbito do testemunho, de modo particular, a proibição em que núcleo da acusação se baseava nas declarações de um ordem à da hearsay evidence (art. Torna-se necessário, deste modo, que o valoração das declarações do co-arguido (...) interessa avaliar atentamente a credibilidade do declarante, à luz das suas condições sócio-económicas e familiares, do seu passado, magistrado inquiridor ao receber o depoimento do co-arguido o submeta a uma das relações com os chiamati [= arguidos incriminados pelas declarações que importa muito apertada vigilância em ordem a detectar possíveis divergências entre o valorar], da génese remota e próxima das suas declarações, bem como à luz da precisão, narrado e a realidade. Tem grande relevo, portanto, a verificação atenta, coerência interna e constância da próprias declarações. o art. 192-3 requer, ainda, que meticulosa, quer da própria declaração a sua coerência lógica, esponta- a atendibilidade das declarações seja confrontada extrinsecamente através de outros elementos neidade, constância, a verosimilhança da história narrada quer do decla- de prova interpretáveis como confirmação dos factos da acusação» (Corte de Cassazione, rante, em face do seu comportamento no processo, a possível margem de 22-2-93, RItalDPP 1994, 639), interpolação nossa. interesse, etc. Sem dúvida, esta análise fornece ao julgador elementos precio- (588) RAFARACI, RItalDPP 1994, 679. (589) CROSS, Evidence, 172, Na mesma linha, Calamandrei, ao focar justamente o sos para a formação do juízo global de credibilidade da declaração, inegavel- tratamento dado ao problema na literatura inglesa, refere: finalidade da corroboration não mente reforçado caso não se encontrem outros dados probatórios que con- é a de dar atendibilidade a uma prova que não é credível, mas a de sustentar uma prova por si só satisfatória e credível». A exigência de corroboração indica ao juiz que, embora o depoimento de uma testemunha particular seja credível, a experiência demonstrou que (586) Cf. SAMMARCO, La chiamata di correo, 84. amiúde não é seguro decidir com base em provas de certo tipo que não se apresentem con- firmadas» (CALAMANDREI, GP 1985, III, col. 439, nota 24).222 0 conhecimento probatório do co-arguido Parte II A valoração do conhecimento probatório do co-arguido 223 3. Em estrita ligação com este aspecto encontra-se o problema do 4. A determinação do conteúdo da corroboração das declarações do âmbito da corroboração exigida em relação à concreta declaração. Com efeito, co-arguido requer, ainda, o esclarecimento de um outro ponto, de máxima dizer-se que a corroboração deve certificar, em termos de credibilidade, a importância: a suficiência da chamada corroboração cruzada. A corroboração declaração do co-arguido, não é bastante para determinar com rigor seu cruzada traduz-se no facto de o elemento de corroboração da declaração do âmbito de aplicação. Só muito raramente a declaração se traduz em enunciados co-arguido ser constituído por uma declaração de outro co-arguido. singulares, isto é, com um conteúdo factual unívoco. Pelo contrário, ainda que relativamente a um só crime, a declaração enquanto representação do que a) Nos sistemas jurídicos que exigem a corroboração a questão não é possivelmente terá acontecido refracta-se numa narração complexa e multiforme, resolvida univocamente. Assim, no direito inglês, a Court of Criminal Appeal com diversidade de pormenores e cambiantes. Ora, a questão que não pode tem sustentado que no caso de vários accomplices a declarar é igualmente deixar de colocar-se refere-se precisamente a saber se a regra da corroboração necessária a advertência aos jurados sobre a necessidade de essas declarações deve estender-se a todos particulares pontos trazidos à luz pela narração cor- serem corroboradas, considerando erróneo que juiz de julgamento diga ao roboranda, ou se é suficiente, para que possa afirmar-se, um confronto da júri que os accomplices podem corroborar-se uns aos outros» Porém, declaração do co-arguido na sua globalidade. Por exemplo, no caso de o chama-se a atenção para o facto de a exclusão da corroboração cruzada nem co-arguido na sua declaração nomear os comparticipantes na execução cri- sempre fazer sentido minosa, pode considerar-se como suficiente elemento de corroboração a con- Também em Itália não existe consenso. Ou por razões de ordem literal: fissão feita por um dos arguidos nomeados, mesmo se este se limita a admi- assim, uma vez que a lei se refere à necessidade de corroborar as declarações tir a sua própria responsabilidade, sem por seu turno confirmar a participação dos co-arguidos com outros elementos de prova, alguma jurisprudência tem dos outros indicados pelo primeiro? defendido que esses outros elementos não podem ser da mesma natureza, Sem dúvida, não pode pretender-se que a corroboração se estenda a todos isto é, declarações de co-arguidos Ou então, por razões de fundo: os pormenores narrados tanto mais que, de novo o dizemos, não tem de emprego exclusivo do confronto cruzado, escreve Sammarco, iludiria a regra se traduzir na confirmação por fonte alheia do conteúdo narrado, bastando-se legal, pelo que, mesmo no caso de as declarações dos co-arguidos se corro- com a verificação extrínseca da veracidade da narração. Porém, isto não signi- fica admitir o salto lógico inerente à concepção globalizante da corroboração, a qual, por certo acabaria por legitimar a condenação de determinados arguidos baseada em declarações não sufragadas por autênticos elementos de confronto. Por isso, julgamos justificar-se o princípio de estender a exigência da corrobo- (593) Cf. WILLIAMS, CLR 1962, 592-3, que, porém, é contrário a esta prática, pois ração relação a cada episódio criminoso singular e a cada arguido singu- dizer-se que prova suspeita não pode corroborar outra prova traduz uma Só desta maneira a função garantista da corroboração cobra pleno sen- (594) Detectam-se, porém, numerosos cambiantes no tratamento jurisprudencial do tido: o objecto da confirmação de atendibilidade não reside simplesmente nas problema. Assim, no leading case DPP versus Kilbourne decidido em 1973, admitiu-se, com tos declarações do co-arguido consideradas no seu complexo, mas devem ser fac- restrições, a corroboração cruzada. No caso, o arguido era acusado de abuso sexual de jovens na parte em que se pretende tê-los em conta para a rapazes, que prestaram depoimento ajuramentado. Tornava-se necessária a corroboração por três razões: a idade dos depoentes, a natureza da infracção e porque era possível que alguns dos rapazes fossem accomplices. Como crimes tinham sido praticados em rela- ção a alguns rapazes em 1970 e a outros em 1971, tribunal considerou dever fazer-se (590) de cada Como facto referiu a Corte di Assisse de Palermo, "pretender a corroboração a par uma distinção entre esses dois grupos de ofendidos e que depoimento dos rapazes do e roçaria passo o absurdo» (RDP ou circunstância, 1989, 906-7). da cada particularidade da declaração acusatória, grupo de 1970 podia corroborar o do grupo de 1971 e vice versa, mas dentro do mesmo grupo os depoimentos não serviam a corroborar-se mutuamente, por causa do risco de 10-1. (591) LP 1991, 651; cf., também, SIRACUSANO, Enc. Giur., XXV, membros de cada grupo, que se conheciam entre si poderem forjar a história ou de todo modo sofrerem recíproca influência» (citado por ZUCKERMAN, Evidence, 168). (592) Assim, GREVI, 1991, 1181, itálico nosso. (595) Cf. DEGANNELLO, LP 1991, 653, que considera, no entanto, insuficiente tal cânone hermenêutico estritamente literal.Parte II A valoração do conhecimento probatório do co-arguido 225 conhecimento probatório do co-arguido 224 borarem mutuamente, a sua credibilidade deve continuar a ser confirmada por ções provirem de vários co-arguidos. Por outro lado, de um ponto de vista lógico torna-se algo inconsequente corroborar uma declaração mediante outra outros elementos e extrínsecos» apesar da juventude da lei, pode considerar-se maioritária igualmente necessitada de corroboração, o que não deixa de ter alguns ressaibos do velho sistema de provas legais: uma testemunha é mero indício, duas são No entanto, italiana a tese da suficiência da corroboração cruzada. Para na literatura necessidade de corroboração, isto é, da existência de elementos extrín- prova plena. Recordando as judiciosas observações de Pereira e Sousa, obvia- mente tecidas noutro contexto, como dez incertezas produzir uma cer- Grevi, a declaração sujeita a verificação, postula uma mera diferenciação quan- teza? Isso é tão impossível como muitas trevas produzirem a luz» secos à não ontológica de tais elementos em relação à declaração. Daí que Todavia, e correndo o risco de repetição, torna-se necessário perspectivar titativa e extrínseca à declaração de um co-arguido poderá fundar-se o problema da exigência de corroboração no sentido global que procurámos essa também sobre declarações provenientes de um ou mais arguidos, embora aqui assinalar-lhe. Assim, deve ver-se não como uma prova legal que comande a verificação sobre a atendibilidade de cada declaração singular deva ser pene- aceitação como provado do resultado logo que se possa afirmar corroborado, a sobretudo sob o aspecto da espontaneidade e da autonomia gené- mas antes uma exigência acrescida de fundamentação em face de uma species trante, Embora advirta não se dever ignorar o perigo a que tal possibi- de prova em que o grau de fiabilidade aparece, ab origine, particularmente sus- lidade abre as portas, uma vez que detrás da convergência das declarações acusatórias provenientes de diversos arguidos pode na realidade esconder-se uma peito Deste modo, julgamos que uma exclusão de plano de toda a corrobo- trama de mentiras acordada pelos "acusadores" em prejuízo do "acusado", ração cruzada pode ser excessiva. Suponhamos que, para dar um exemplo, para Grevi, «substancialmente, nada proíbe, do ponto de vista teórico, que se A decide assaltar um banco apenas para o transporte do possa recorrer às declarações de um co-arguido como elemento de verificação material necessário para o arrombamento e C para ir buscar, a uma deter- das declarações de outro co-arguido (e vice-versa) segundo a técnica do "con- minada hora, as coisas roubadas. B e C não só se desconhecem mutuamente fronto cruzado", particularmente necessária no caso de declarações incrimi- como ignoram a participação criminosa do outro na realização do crime. natórias plúrimas A das fontes (seja, embora, tida a nível Negar, pois, que as declarações de possam corroborar as de C e vice de co-arguidos) é elemento extrínseco apto a conferir valor de prova às suas versa, exigindo, ainda, uma corroboração suplementar pode, com efeito, declarações, salvo o dever do juiz verificar que esta convergência não seja fazer pouco sentido (⁶⁰²). fruto de uma convergente mentira» Deste modo, e em princípio, será de evitar a corroboração cruzada. Em b) Naturalmente, o problema da suficiência da corroboração cruzada casos excepcionais e demonstrada a independência das informações probató- assume a sua verdadeira dimensão nos casos em que o único material proba- rias dos co-arguidos, pode aceitar-se esta variante da corroboração. tório for constituído por declarações de co-arguidos, isto é, declarações que requerem a corroboração. E, sem dúvida, os perigos que se põem em relevo para a declaração de um co-arguido podem agravar-se no caso de as declara- (600) PEREIRA E SOUSA, Primeiras linhas, § CLXXII, nota 308; cf., supra, nota 414. Profundamento crítico Cordero: «(...) emesse dal correo singolo, senza "riscontri esterni", contano zero; unus testis, nullus testis; se però i correi sone due, concordi, ecco il riscontro; "mutual corroboration" nel senso più meccanico. Stiamo regerdendo allo pseudolegalismo SAMMARCO, La chiamata di correo, 85. che lasciava mano libera agli inquisitori: i cosidetti "riscontri esterni sono como gli (597) GREVI, 1991, 1179. "adminicula" dai cataloghi de indiciis; uno ne schira quanto vuole» (CORDERO, Proce- (598) GREVI, RItalDPP 1991, 1179. A possibilidade da corroboração cruzada conta com aval, entre outros de Fassone e Degannello. Da parte da jurisprudência, «uma dura², 851). segunda chiamata de correo pode ser considerada elemento idóneo a confirmar a atendi- Note-se que próprio Cordero, embora considere a exigência de necessidade corrobora- bilidade da primeira» desde que seja "garantida a completa genuinidade das chiamate» ção clínica, não codificável» (CORDERO, Procedura², 580), reconhece a moti- pelo que importará haver prova de algum contacto e portanto de algum possível da particular cautela a ter na apreciação de tais declarações, traduzida correctamente na acordo» entre os declarantes (Archivio delle nuova procedura penale 1990, 271). vação (cf. ob. cit., 848-9). (599) FASSONE, Cass. Pen. 1986, 1901. Assim, ZUCKERMAN, Evidence, 169.conhecimento probatório do co-arguido 226 Parte II A valoração do conhecimento probatório do co-arguido 227 5. Um problema que se tem levantado, quanto se pretende concretizar a regra da corroboração, diz respeito já não propriamente ao seu alcance e modo todas as declarações de um co-arguido com relevância para a decisão do outro de funcionamento, mas sim ao seu âmbito de aplicação consoante as decla- arguido devem passar pelo filtro da corroboração para que possam considerar-se rações do co-arguido tenham ou não um conteúdo desfavorável ao arguido em elementos integradores do acto judicativo final, quer se mostrem desfavoráveis, quer sejam favoráveis ao arguido Todavia, a regra da corroboração não relação a quem se pretendem valorar. A compreensão primeira que se tem da corroboração, enquanto elemento impõe, de plano, a exclusão da informação probatória do material à disposi- corrector dos perigos da valoração meramente intrínseca de um material pro- ção do julgador. As declarações do co-arguido, quando não corroboradas, batório particularmente duvidoso, aponta-nos para os riscos de uma decisão mostrando suficientes, por regra, a sustentar o juízo de negação da hipó- tese acusatória, no sentido de ela se considerar não provada, justificam a errónea que se traduz em uma condenação injusta. Isto acontece tanto mais dúvida razoável do julgador em relação à veracidade dessa hipótese acusató- quando se considerem os contextos particulares: quer o anglo-americano em ria e, deste modo, a absolvição por força do princípio in dubio pro reo. que a regra vale para o accomplice que depõe pela acusação; quer o italiano, em que a exigência da corroboração surgiu vocacionada nitidamente (ou estru- turalmente) para as declarações dos co-arguidos cujo conteúdo se traduza de III. A falta de corroboração forma imediata na imputação da responsabilidade dos factos em julgamento a outro arguido, seja ou não essa imputação acompanhada da confissão do Finalmente, as consequências da falta de corroboração. A ausência de uma co-arguido que acusa. norma expressa a comandar a exigência da corroboração e a cominar-lhe as con- No entanto, o problema pode colocar-se também do ângulo oposto, isto sequências da sua não verificação na concreta decisão, impede-nos, natural- é, considerando as declarações que, a serem verdadeiras, comportam de forma mente, de afirmar a existência de uma proibição de valoração do conhecimento imediata um sentido favorável ao arguido a quem se reportam. probatório do co-arguido que não se mostre corroborado Porém, pen- Em nosso entender, a corroboração torna-se necessária em relação a todas samos que a falta de corroboração merece censura, embora a um outro plano. as declarações do co-arguido, sejam elas desfavoráveis ao outro arguido ou Se, como referimos, a regra da corroboração traduz, essencialmente, uma exi- apresentem, antes, um conteúdo que, a ser verdadeiro, comporta um ele- gência acrescida de motivação da sentença, mostra-se insuficiente que a moti- mento em seu favor. Com isto, porém, não se está, contra o que repetida- vação exprima as razões pelas quais o tribunal não considerou aquela fonte pro- mente se afirmou, a estabelecer uma regra legal positiva que imponha ao jul- gador que condene o arguido apenas porque os elementos favoráveis não batória imerecedora de crédito (primeiro estádio da valoração); ou mesmo as razões por que a considerou digna de crédito (segundo estádio da valoração). podem ser considerados uma vez não estarem corroborados. problema não deve perspectivar-se desta forma. Torna-se necessário, ainda, que a motivação contenha explicitado elemen- tos de corroboração detectados pelo tribunal para sustentar a credibilidade A corroboração, repete-se, não constitui uma regra legal no sentido de impor um juízo, de dar por assente um determinado resultado probatório da própria declaração (terceiro estádio da valoração). Apreciar livremente significa motivar correctamente; a corroboração constitui um elemento da apenas pelo facto de ele ser oriundo desta ou daquela fonte de valor tari- fado. Traduz-se, antes, numa exigência acrescida de verificação de um mate- apreciação e, por conseguinte, da motivação: a sua ausência traduz uma insu- rial probatório, que não pode sustentar, por si só, enquanto narração de um dado enunciado factual, o juízo valorativo e consequente decisão, pois requer uma confirmação adicional para que tal enunciado, já considerado atendível (603) Neste sentido, GREVI, RItalDPP 1991, 1176. de um ponto de vista intrínseco, possa ser apresentado como razão de con- Diversamente, no direito italiano, a inobservância da regra no sentido de atri- vencimento. Ora as declarações do co-arguido com conteúdo favorável não buir valor probatório à declaração apesar de não corroborada requer a sanção da innuti- constituem um desvio à necessidade da regra, pois esta não se encontra na van- lizzabilittà, prevista no art. 191; podendo, ainda, haver defeito de motivação quando, vel tagem da ou desvantagem para arguido, antes na limitação ao mínimo possí- apesar de se ter verificado a corroboração esta não vem suficientemente explicitada na margem de erro na verificação daquela fonte de conhecimento. Assim, decisão (cf. BOSCHI, 1989, II, col. 531; e ainda SAMMARCO, La chiamata di correo, 88-93).228 conhecimento probatório do co-arguido ficiência da fundamentação, que não logrou alcançar padrão de convenci- mento a que toda a fundamentação, enquanto discurso justificativo da deci- são, se destina. Referência conclusiva percurso efectuado em torno do critério da valoração do conheci- mento probatório do co-arguido leva-nos a concluir que tal material proba- tório requer uma verificação suplementar que se traduz na exigência de cor- roboração. Com a corroboração significa-se a existência de elementos oriundos de fontes probatórias distintas da declaração que, embora não se reportem BIBLIOGRAFIA directamente ao mesmo facto narrado na declaração, permitem concluir pela veracidade desta. A regra da corroboração traduz de modo particular uma exi- AMODIO, Ennio, e legalità della prova nella disciplina della gência acrescida de fundamentação, devendo a sua falta merecer a censura RItalDPP 1973, 310-39. de uma fundamentação insuficiente. «Prove legali, legalità probatoria e politica processuale», RItalDPP 1974, 373-6. «Motivazione della sentenza Enc. Dir., XXVII, 181-256. «Il regime probatorio conseguente alla separazione di procedimenti in: AMODIO, Ennio / DOMINIONI, Oreste / GALLI, Guido, Nuove norme sul processo sul processo penale e sull'ordine publico, Giuffrè, 1978 (citado: Nuove norme). ANDRADE, José Carlos Vieira de, dever de fundamentação expressa dos actos administra- tivos, Coimbra: Almedina, 1992. ANDRADE, Manuel da Costa, Sobre as proibições de prova em processo penal, Coimbra: Coimbra Editora, 1992. BARGIS, Marta, «In tema di interrogatorio "libero" di un imputato di reati RItalDPP 1979, 850-5. «Il coimputato persona offesa tra testimonianza ed interrogatorio libero», Giur. Ital. 1979, II, cols. 111-116. Incompatibilità a testimoniare e connessione di reati, Milano: Giuffrè, 1980. Profili sistematici della testimonianza penale, Milano: Giuffrè, 1984. di persona imputata in um procedimento connesso nel nuovo codice di procedura penale», Giur. Ital 1990, IV, cols. 30-45. Le dichiarazioni di persone imputate in un procedimento connesso (ipotesi tipiche e modi di utilizzabilità), Milano: Giuffrè, 1994. BARONE, Giuseppe, «La chiamata di correo (analisi e RDP 1987, 105-55. BARREIROS, José António, instituições criminais em Portugal no século XIX: subsídios para a sua história», Análise Social 1980, 587-612. BARREIROS, José António, Processo penal-1, Coimbra: Almedina, 1981. BECCARIA, Cesare, Dei delitti e delle pene (a cura di G. Domenico Pisapia), Milano: Giu- frè, 1973. BELEZA, Teresa, Apontamentos de direito processual penal (Aulas teóricas dadas ao Ano, turma de dia, 1991/1992, semestre), I, Lisboa: AAFDL, 1992. BELING, Ernst, Derecho procesal penal (trad. de Miguel Fenech), Barcelona / Madrid: Labor, 1943.

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