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A forma como a introdução aborda a mortalidade por aborto é um ponto crucial de tensão e merece aprofundada reflexão. O manual despolitiza a questão ao classificá-la como uma "quinta causa" e ao sugerir que a prioridade de uma gestão deve ser focada nas três principais causas: hemorragia, hipertensão e infecção. A crítica aqui não é aos dados em si, mas à forma como eles são apresentados. Ao definir "problema de saúde pública" apenas por critérios como "mortalidade aumentada" e "morbidade", a publicação desconsidera o sofrimento humano, a dimensão de gênero e as implicações sociais e psicológicas do aborto. Como psicóloga, ressalto que a experiência de um abortamento, seja espontâneo ou provocado, gera traumas, ansiedade e depressão, que são problemas de saúde pública de grande relevância e que não podem ser quantificados apenas por estatísticas de óbito. A omissão dessa perspectiva enfraquece o propósito de uma atenção humanizada. A insistência no termo "excludente de ilicitude" é uma forma sutil de deslegitimar o direito da mulher. Ao dizer que o aborto é "crime, mas não punido", a linguagem reforça a criminalização e o estigma. Essa abordagem, embora juridicamente possível, é questionável sob a perspectiva da saúde e dos direitos humanos. A orientação para que a equipe informe sobre a "entrega legal" é outro ponto de controvérsia. Embora o manual afirme que a mulher não deve ser obrigada a abortar, a introdução de uma alternativa como a adoção, em um momento de extremo sofrimento e vulnerabilidade, pode ser interpretada como uma forma de interferência na autonomia da mulher, especialmente em casos de violência sexual. A mulher, que já foi vitimizada, pode se sentir pressionada a tomar uma decisão que talvez não reflita seu real desejo, minando a autonomia defendida pelo manual. Este é o ponto mais forte do manual. A valorização do suporte psicossocial é fundamental para uma prática profissional ética. No entanto, é importante notar que, embora o manual defenda a atenção integral, a maior parte do documento se dedica a aspectos clínicos e jurídicos, reservando um espaço relativamente pequeno para a dimensão emocional. A linguagem, por vezes, ainda carrega um tom distante, como ao sugerir que as reações de luto são "geralmente autolimitadas", o que pode banalizar o sofrimento de muitas mulheres. A psicologia nos ensina que o luto é um processo único e que pode requerer um acompanhamento prolongado e especializado. A psicologia questiona a afirmação de que o luto é "geralmente autolimitado". Cada pessoa vive o luto de forma única, e o suporte contínuo é essencial. Banalizar o luto pode levar à falta de apoio adequado. - A importância de enfatizar a garantia do acesso feminino aos últimos avanços em termos de promoção da saúde, em particular nos campos da sexualidade responsável e do planejamento familiar, contribui não apenas com gestações e partos sem risco, mas com a maximização da obtenção de crianças saudáveis, sem a promoção da interrupção da gravidez como instrumento de planejamento familiar. - Não existe aborto “legal” como é costumeiramente citado, inclusive em textos técnicos. O que existe é o aborto com excludente de ilicitude. Todo aborto é um crime, mas quando comprovadas as situações de excludente de ilicitude após investigação policial, ele deixa de ser punido, como a interrupção da gravidez por risco materno. O acolhimento da pessoa em situação de aborto previsto em lei deve ser realizado por profissionais habilitados. - Para a interrupção da gravidez por risco de morte da mulher, é recomendável que dois médicos atestem, por escrito, a condição de risco da mulher que justifica a interrupção. - Portaria GM/ MS Nº 2.561, de 23 de setembro de 2020, que dispõe sobre o Procedimento de Justificação e Autorização da Interrupção da Gravidez nos casos previstos em lei, no âmbito do Sistema Único de Saúde-SUS: São documentos necessários para a justificação do aborto nos casos de estupro: 1) Termo de Relato Circunstanciado do evento, 2) Termo de responsabilidade e 3) Termo de consentimento assinados pela mulher ou quando incapaz, por seu representante legal; 4) Parecer Técnico assinado pelo médico; 5) Termo de aprovação de procedimento de interrupção da gravidez decorrente de estupro assinados por no mínimo 3 (três) profissionais de saúde. - No caso de gestante incapaz, grávida em decorrência de estupro, muito embora o Código Penal não condicione a não punibilidade do aborto ao consentimento da própria gestante, os princípios da bioética, sobretudo em se tratando de menor amadurecida, obrigam que a vontade da grávida seja levada em consideração. Como antes asseverado, a legislação brasileira é moderada, por relativizar a proteção penal à vida do feto em duas situações. - Há quem discorra sobre a entrega legal ou voluntária, em regra, apresentam o programa como uma alternativa aos crimes de infanticídio, abandono de recém-nascido e aborto, apenas e tão somente quando praticado fora das hipóteses permitidas. Uma leitura desatenta poderia levar à conclusão de que, quando o aborto é autorizado, a gestante não poderia lançar mão dessa alternativa legal. Porém, se assim fosse, estar-se-ia diante de uma obrigação de abortar, o que poderia caracterizar um crime contra a autonomia da mulher. Na verdade, essa alternativa de entregar o bebê para adoção tem o fim de preservar a vida do feto, independentemente das circunstâncias em que ocorra a gestação. - A Clínica e a Viabilidade Fetal - Definição de Viabilidade Fetal: O manual considera o feto "viável" a partir da 22ª semana de gestação. A partir daí, o nascimento é considerado um parto prematuro, e não mais abortamento. - Conduta Clínica: O documento afirma que, após a 22ª semana, não cabe mais o aborto previsto em lei. - Essa interpretação restritiva da lei pode limitar o acesso de mulheres que, em casos de estupro, descobrem a gravidez em um estágio avançado. A decisão de interromper uma gravidez deve ser da mulher, respeitando sua autonomia, e não baseada em uma interpretação técnica que pode variar entre hospitais. - No tocante à escuta, é fundamental considerar a atenção psicossocial às mulheres em abortamento, integrando assistentes sociais e psicólogos no atendimento, com suas respectivas especificidades na atenção à saúde, quando possível. Deve-se considerar que os enfoques da psicologia e do serviço social podem ser diferenciados no trato das questões emocionais, relacionais e sociais. - Podem estar incluídas no roteiro de conversa questões como a maternidade e o desejo de ser ou não ser mãe, a sexualidade e o relacionamento com o parceiro. Assim como, na perspectiva da prevenção da repetição do abortamento, é importante o espaço para elaboração subjetiva da experiência, com a verbalização dos sentimentos, a compreensão dos significados do abortamento no contexto de vida de cada mulher. - Respeitar a fala da mulher, lembrando que nem tudo é dito verbalmente, auxiliando-a a contatar com os seus sentimentos e elaborar a experiência vivida, buscando a autoconfiança; • Organizar o acesso da mulher, priorizando o atendimento de acordo com necessidades detectadas; • Identificar e avaliar as necessidades e riscos dos agravos à saúde em cada caso, resolvendo-os, conforme a capacidade técnica do serviço, ou encaminhando-a para serviços de referência; • Dar encaminhamentos aos problemas apresentados pelas mulheres, oferecendo soluções possíveis e priorizando o seu bem-estar e comodidade; • Garantir a privacidade no atendimento e a confidencialidade das informações; • Realizar os procedimentos técnicos de forma humanizada e informando as mulheres sobre as intervenções necessárias. - Cabe aos profissionais de saúde mental e serviço social: • Prestar apoio emocional imediato e encaminhar, quando necessário, para o atendimento continuado em médio prazo; • Reforçar a importância da mulher, respeitando o estado emocional em que se encontra,adotando postura autocompreensiva, que busque a autoestima;• Identificar as reações do grupo social (famílias, amigos, colegas) em que está envolvida; • Perguntar sobre o contexto da relação em que se deu a gravidez e as possíveis repercussões do abortamento no relacionamento com o parceiro; • Conversar sobre gravidez, menstruação, planejamento familiar. - O aborto é a complicação mais comum da gravidez. A frequência relatada de perda gestacional em mulheres com teste urinário positivo é de 12% a 24%. A real taxa de abortamento é, provavelmente, maior, pois muitas perdas ocorrem antes do diagnóstico de gravidez. - Nos casos de abortamento provocado, a adoção imediata de contracepção tem-se mostrado como medida eficaz para reduzir o risco de novos abortamentos. - O manual, embora aborde o planejamento familiar, não explora a fundo os fatores sociais e de gênero que levam a gravidezes indesejadas e abortamentos. A contracepção de emergência e a distribuição de preservativos são apenas uma parte da solução, que também envolve educação sexual e acesso a serviços de saúde que acolham e não julguem.