Prévia do material em texto
Trabalho em Equipe de saúde Prof. Fabiana Dias Roteiro da Aula • O que faz uma equipe de saúde funcionar bem • Grupo, equipe e os caminhos até a transdisciplinaridade • Comunicação interprofissional e segurança do paciente • Integralidade, ESF e Projeto Terapêutico Singular (PTS) • Ferramentas de gestão: huddles, briefings e rounds • Barreiras ao trabalho em equipe e como superá-las • Experiências brasileiras recentes O que é essencial para uma equipe de saúde funcionar bem? Um pit stop de F1: cada profissional com sua função, sincronizados por um objetivo comum Trabalho em equipe em saúde Formação deve preparar, de fato, para o trabalho coletivo. Comparado a uma equipe de formula: diferentes profissionais, mas atuando em harmonia. Desafio: ausência de espaços de diálogo entre as formações. Necessidade de construir possibilidades reais de integração. Potencial transformador só se concretiza quando há articulação interprofissional. Não existe Cuidado em Saude sem trabalho em equipe! Mas como um recém formado chega aos serviços? Mudancas vem caminhando Trabalho em equipe e essencial Mudancas nos eixos de formação Vigilancias em saúde Orientacoes nos processos de cuidados e gestao Grupo X Equipe Grupo Conjunto de pessoas reunidas em um mesmo espaço. Atuam de forma paralela, com pouca interação. Compartilham um objetivo amplo, mas sem coordenação efetiva. Equipe Conjunto integrado de profissionais. Atuam de forma colaborativa e articulada. Objetivos claros, compartilhados e interdependentes. Produzem resultados coletivos, não apenas somatório de ações individuais. Multiprofissionalidade Profissionais de diferentes áreas atuam lado a lado. Cada um mantém sua autonomia disciplinar. Pode haver pouca ou nenhuma integração. Interdisciplinaridade Integração entre saberes e práticas de diferentes áreas. O cuidado é construído coletivamente, com diálogo constante. Visa a integralidade da atenção e soluções conjuntas. Caminho para a Transdisciplinaridade Características da Transdisciplinaridade Supera fronteiras disciplinares: não há limites rígidos entre áreas do conhecimento. Integração profunda: saberes, linguagens e métodos se entrelaçam em um campo comum de práticas. Construção coletiva: os profissionais não apenas somam, mas co- criam soluções inovadoras. Impactos da Transdisciplinaridade na Prática Transformação do cuidado: as práticas deixam de ser isoladas e passam a ser complementares e interdependentes. Visão centrada na pessoa e na comunidade: o foco é a integralidade do cuidado, e não apenas o recorte da especialidade. Potencial emancipador: forma equipes mais criativas, resolutivas e comprometidas com mudanças sociais. Exemplo aplicado à saúde Em um Projeto Terapêutico Singular (PTS) para um paciente com múltiplas comorbidades: O médico não apenas define condutas clínicas. O enfermeiro não apenas executa cuidados. O psicólogo não apenas aborda o emocional. O assistente social não apenas trata da rede de apoio. Todos constroem um plano integrado, no qual as fronteiras profissionais se dissolvem em prol do cuidado integral. Do multiprofissional ao interprofissional Multiprofissional Interprofissional Transdisciplinar Trabalham lado a lado Trabalham juntos Integração profunda Saberes preservados Decisões compartilhadas Fronteiras menos rígidas Pode haver pouca integração Objetivos comuns Cocriação do cuidado “Cada um faz sua parte” “Construímos juntos” “Integramos saberes” Comunicação Interprofissional Você se sentiria seguro para falar? O técnico percebe uma dose aparentemente incorreta. Ele questiona? O enfermeiro identifica deterioração clínica. Ele consegue se posicionar? O estudante percebe uma quebra de técnica. Ele fala? Segurança psicológica: ambiente em que profissionais conseguem perguntar, discordar, reconhecer dúvidas e alertar sobre riscos sem medo de humilhação ou punição. Base do trabalho em equipe eficaz: garante que todos compreendam objetivos, responsabilidades e fluxos de cuidado. Escuta ativa: ouvir atentamente, validar percepções e respeitar diferentes pontos de vista. Feedback construtivo: retroalimentação contínua para aperfeiçoar práticas e evitar falhas. Segurança psicológica: criar ambiente em que todos se sintam livres para falar, sugerir ou questionar sem medo de punição. Linguagem clara e objetiva: reduz ruídos e facilita a tomada de decisão. Relevância para a Segurança do Paciente A comunicação ineficaz é uma das principais causas de eventos adversos em saúde (OMS, Plano de Ação Global para a Segurança do Paciente 2021–2030). Ferramentas reconhecidas: SBAR (Situação, Background, Avaliação, Recomendação). Briefings e Debriefings (antes e após procedimentos). Huddles (reuniões rápidas para alinhamento diário). Impactos diretos: Previne erros de medicação. Reduz falhas de continuidade do cuidado. Aumenta a confiança e a resolutividade da equipe. Desafio SBAR Paciente, 68 anos, internado por pneumonia. Subitamente apresenta: SpO₂ 84% | FR 32 irpm | FC 118 bpm | confusão mental Você é o enfermeiro e precisa comunicar a deterioração clínica. Organize sua comunicação: S — Situação: O que está acontecendo agora? B — Background: Qual é o contexto relevante? A — Avaliação: O que você identificou? R — Recomendação: O que você considera necessário agora? Como você faria essa comunicação? Integralidade e Cuidado Colaborativo Integralidade: princípio do SUS que assegura atenção contínua, considerando as necessidades biológicas, psicológicas e sociais da pessoa. Exige visão ampliada de saúde → o paciente não é apenas portador de uma doença, mas um sujeito inserido em contexto familiar e comunitário. Cuidado colaborativo: requer ação articulada entre diferentes profissionais e setores, superando práticas isoladas. Valoriza a escuta qualificada, a construção de vínculos e o compartilhamento de responsabilidades. Relação com a Estratégia Saúde da Família (ESF) A ESF é a porta de entrada prioritária do SUS e cenário privilegiado da integralidade. Favorece o trabalho em equipe multiprofissional (médico, enfermeiro, técnico de enfermagem, ACS, odontologia, e-MULTI ). Estimula: Vinculação com território e comunidade. Interdisciplinaridade como resposta às necessidades complexas. Ações de promoção, prevenção, recuperação e reabilitação em saúde. Equipes Multiprofissionais na APS — eMulti Integram diferentes categorias profissionais na Atenção Primária. Atuam de forma complementar e integrada às equipes da APS. Compartilham responsabilidades pelo território e pela população. Desenvolvem discussão de casos, atendimento compartilhado e ações coletivas. Participam da construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS). Fortalecem o apoio matricial e a integralidade do cuidado. Equipe de Saúde da Família (eSF) + Equipe de Atenção Primária (eAP) + Equipe Multiprofissional (eMulti) + Rede de Atenção à Saúde (RAS) Pessoa • Família • Comunidade Projeto Terapêutico Singular (PTS) como Instrumento Ferramenta coletiva de planejamento do cuidado voltada a casos complexos, construída por uma equipe interdisciplinar. Etapas: Diagnóstico situacional. Definição de metas. Compartilhamento de responsabilidades. Reavaliação contínua. Exemplo aplicado: paciente com transtorno mental grave → PTS inclui acompanhamento médico, suporte psicológico, apoio social e atividades comunitárias. Impacto: fortalece a integralidade do cuidado, amplia a autonomia do usuário e reduz fragmentações no serviço. Gestão do Trabalho em Equipe em Saúde Liderança Compartilhada Rompe com a ideia de liderança hierárquica e centralizada. Cada profissional exerce liderança conforme sua competência técnica e a necessidade do cuidado. Estimula autonomia, corresponsabilidade e participação ativa. Favorece engajamento, inovação e maior adesãoàs decisões coletivas. Ferramentas Gerenciais para Equipes de Saúde Huddles Reuniões rápidas de alinhamento Encontros curtos, diários ou semanais (5–15 minutos). Objetivo: revisar prioridades, riscos e responsabilidades. Benefícios: melhora a comunicação, reduz falhas de informação e aumenta a segurança do paciente. Briefing/Debriefing Briefing: reunião prévia para alinhar papéis, objetivos e riscos antes de procedimentos (ex.: cirurgias). Debriefing: reflexão pós-ação → o que funcionou, o que pode melhorar. Promove aprendizagem organizacional e previne erros recorrentes. Rounds Multiprofissionais Discussão conjunta dos casos clínicos entre diferentes profissionais. Favorece integralidade do cuidado e evita decisões fragmentadas. Exemplo: em UTI, rounds diários com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos. Impactos na Prática Fortalecimento da cultura colaborativa. Segurança psicológica para expressão de ideias. Redução de eventos adversos e melhoria da qualidade do cuidado. Desenvolvimento de uma gestão mais participativa e resolutiva. Trabalho em equipe na Saúde Digital A equipe de saúde também precisa trabalhar junta no ambiente digital Telessaúde — interação entre profissionais e serviços. Dados em saúde — informação compartilhada para apoiar decisões. Inteligência Artificial — apoio à análise e decisão, com supervisão humana. Ética e proteção de dados — responsabilidade de toda a equipe. Comunicação digital segura — informação correta, objetiva e rastreável. Humanização — tecnologia não substitui vínculo, escuta e julgamento profissional. Barreiras e Desafios no Trabalho em Equipe em Saúde • Hierarquia Médico-centrada • Predomínio histórico do modelo biomédico → decisões concentradas no médico. • Pode gerar desvalorização de outros saberes profissionais. • Dificulta práticas colaborativas e a integralidade do cuidado. • Necessidade de liderança compartilhada e de reconhecimento das competências de cada profissão. Sobrecarga de Trabalho e Fragmentação Demandas excessivas e número insuficiente de profissionais → desgaste e esgotamento. Foco na execução de tarefas fragmentadas, sem tempo para diálogo ou planejamento conjunto. Impacto direto na qualidade do cuidado e na segurança do paciente. Uma equipe adoecida consegue oferecer cuidado seguro? NR-1 O gerenciamento dos riscos ocupacionais também deve considerar fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. No trabalho em saúde, observe: Sobrecarga → pressão → conflitos → falhas de comunicação → desgaste da equipe → risco para o cuidado. Cuidar da equipe também é uma estratégia de segurança do paciente? Conflitos Interprofissionais Diferenças de linguagem, abordagem e prioridades clínicas. Disputas por território profissional. Podem levar à comunicação falha e atrasar decisões importantes. Exigem mediação de conflitos e promoção da segurança psicológica no ambiente de trabalho. Resistência Cultural Cultura organizacional que favorece o individualismo e a verticalização das decisões. Falta de incentivo institucional a práticas colaborativas. Mudança cultural demanda formação interprofissional e apoio das gestões em saúde. Superação das Barreiras Educação interprofissional desde a formação acadêmica. Estratégias de gestão participativa e práticas de apoio matricial. Institucionalização de espaços de diálogo (huddles, rounds, PTS). Promoção da segurança psicológica e valorização da diversidade profissional. QUANDO A EQUIPE NÃO FUNCIONA ... Paciente, 76 anos, internado. O médico altera uma medicação, mas a mudança não é adequadamente comunicada. O enfermeiro identifica risco de queda, mas a informação não chega à fisioterapia. A nutricionista identifica baixa aceitação alimentar, mas não participa da discussão conjunta do caso. O técnico percebe piora do nível de consciência, porém sente-se inseguro para questionar a equipe. Onde estão as falhas? Comunicação Segurança psicológica Fragmentação Liderança Responsabilidade compartilhada Trabalho interprofissional Segurança do paciente O cuidado pode falhar mesmo quando cada profissional conhece muito bem sua própria profissão. Trabalho em equipe transforma conhecimentos individuais em cuidado coletivo. Experiências Brasileiras Recentes Hospital Universitário Sagrada Família, em Araguari (MG) O HUSF implementou uma abordagem inovadora chamada Círculo da Equipe, que consiste em uma série de huddles diários com foco na promoção da cultura de trabalho em equipe e segurança psicológica. Essas reuniões incluem: Briefings - alinhamento diário e preparação mental para as atividades. Conversas de apoio entre colegas: momentos de apoio entre colegas, promovendo abertura e suporte emocional. Debriefings: revisões pós-turno para aprendizado contínuo. Essa prática fortaleceu a comunicação entre diferentes membros da equipe — desde a equipe de higiene até os médicos — e gerou um ambiente de trabalho mais colaborativo e humano. PET-Saúde: Informação e Saúde Digital, que busca integrar ensino, serviços de saúde e comunidade com foco na transformação digital do SUS Política estratégica dos MS e MEC Visa fortalecer a integração ensino–serviço–comunidade por meio de ensino prático, pesquisa, extensão e participação social Síntese: o que levar para a prática • Equipe não é grupo: exige objetivos compartilhados, articulação e resultados coletivos. • Comunicação estruturada (SBAR, huddles, briefings/debriefings) reduz eventos adversos. • PTS e ESF colocam a integralidade do cuidado em prática no dia a dia do SUS. • Liderança compartilhada e segurança psicológica sustentam a colaboração real. • Para discussão: na sua futura equipe, qual barreira você imagina enfrentar primeiro? Referencias • Resolução Cofen nº 564/2017 — Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. • Resolução Cofen nº 736/2024 — dispõe sobre a implementação do Processo de Enfermagem em todo contexto socioambiental onde ocorre o cuidado de Enfermagem. • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Patient safety: Global action plan 2021–2030. Geneva: WHO, 2023. • PEDUZZI, M. Trabalho em equipe de saúde: desafios para a integralidade. Interface (Botucatu), 2020. • SILVA, A. et al. Segurança psicológica em equipes de saúde: desafios e práticas no Brasil. Rev Bras Enferm, 2023. Slide 1: Trabalho em Equipe de saúde Slide 2: Roteiro da Aula Slide 3: O que é essencial para uma equipe de saúde funcionar bem? Slide 4 Slide 5: Trabalho em equipe em saúde Slide 6: Não existe Cuidado em Saude sem trabalho em equipe! Slide 7: Mas como um recém formado chega aos serviços? Slide 8 Slide 9: Grupo X Equipe Slide 10: Grupo Slide 11: Equipe Slide 12 Slide 13: Multiprofissionalidade Slide 14: Interdisciplinaridade Slide 15: Caminho para a Transdisciplinaridade Slide 16 Slide 17 Slide 18: Exemplo aplicado à saúde Slide 19: Do multiprofissional ao interprofissional Slide 20: Comunicação Interprofissional Slide 21: Você se sentiria seguro para falar? Slide 22 Slide 23: Relevância para a Segurança do Paciente Slide 24: Desafio SBAR Slide 25: Integralidade e Cuidado Colaborativo Slide 26 Slide 27: Relação com a Estratégia Saúde da Família (ESF) Slide 28: Equipes Multiprofissionais na APS — eMulti Slide 29 Slide 30: Projeto Terapêutico Singular (PTS) como Instrumento Slide 31: Gestão do Trabalho em Equipe em Saúde Slide 32: Liderança Compartilhada Slide 33: Ferramentas Gerenciais para Equipes de Saúde Slide 34: Huddles Slide 35: Briefing/Debriefing Slide 36: Rounds Multiprofissionais Slide 37: Impactos na Prática Slide 38: Trabalho em equipe na Saúde Digital Slide 39: Barreiras e Desafios no Trabalho em Equipe em Saúde Slide 40 Slide 41 Slide 42: Uma equipe adoecida consegue oferecer cuidado seguro? Slide 43 Slide 44 Slide 45 Slide 46: QUANDO A EQUIPE NÃO FUNCIONA ... Slide 47 Slide 48 Slide49: Experiências Brasileiras Recentes Slide 50: Hospital Universitário Sagrada Família, em Araguari (MG) Slide 51: PET‑Saúde: Informação e Saúde Digital, que busca integrar ensino, serviços de saúde e comunidade com foco na transformação digital do SUS Slide 52: Síntese: o que levar para a prática Slide 53: Referencias