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COLETIVO FEMINISTA SEXUALIDADE E SAÚDE Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 2 Conteúdo técnico: Carla Marques, Halana Faria e Mariana Prandini Assis Revisão: Janaína Penalva, Mariana Alencar Sales e Mariana Prandini Assis Coordenação de projeto: Cíntia Costa Design Instrucional: Claudete Maria Cossa Projeto gráfico: Heliziane Barbosa Design gráfico: Diego Borges Ilustração: Isabel Hernández Revisão ortográfica: Daniel Mendonça 1ª edição . 2021 Realização Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 3 APOIADO POR: Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 4 Sumário Apresentação ........................................................................ 5 Encerramento ....................................................................... 124 Referências ........................................................................... 126 Aula 1 O abortamento no mundo e no Brasil ............................................................ 6 Aula 2 Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil ....................................................... 31 Aula 3 Abortamento e evidências científicas ........................................................... 54 Aula 4 Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento ..................................... 75 Aula 5 Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos ........... 93 Aula 6 Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto ...................................................... 109 Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 5 APRESENTAÇÃO Olá, queremos lhe dar as boas-vindas ao curso de acolhimento de pessoas em situ- ação de abortamento e pós-aborto! Esperamos que você tenha um ótimo aprendi- zado e que o conhecimento aqui adquirido sirva à sua prática profissional qualifica- da e humanizada. No Brasil, o abortamento é criminalizado – exceto nos casos de violência sexual, anencefalia fetal e risco de vida para a pessoa gestante – e estigmatizado. Apesar da criminalização, muitas mulheres e pessoas que gestam recorrem a abortamen- tos inseguros, e essa é uma das principais causas de mortalidade materna no país. Este curso é uma intervenção nesse contexto e foi desenvolvido a partir da siste- matização do conhecimento interdisciplinar, com base em evidências científicas, produzido por especialistas em abortamento no Brasil e no mundo. Com ele, quere- mos levar até você o que há de mais atual e científico sobre o tema, com o objetivo de contribuir para sua formação como profissional de saúde. Mas não entendemos que a ciência esteja dissociada de valores e, por isso, incorporamos também conhe- cimentos relacionados às melhores práticas profissionais, para que a formação aqui recebida seja orientada pelos valores do cuidado integral, do acolhimento digno e empático e da humanização. Objetivos do curso Os objetivos deste curso são: • Ampliar seu conhecimento clínico e jurídico sobre os serviços de atenção ao abor- tamento previsto em lei e cuidado pós-aborto, assim como as habilidades corres- pondentes. • Contribuir para a redução do estigma associado ao abortamento. • Ampliar o acesso a um cuidado digno, empático e de alta qualidade em situa- ções de abortamento e cuidado pós-aborto, por profissionais com conhecimen- to de seus deveres profissionais e legais. Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 6 • Histórico e conceito de direitos sexuais, direitos reproduti- vos e justiça reprodutiva. • O que é abortamento e qual sua relação com a saúde pública. • Como o abortamento é tratado no mundo e no Brasil, e quais as suas consequências para a vida e a saúde das pessoas. • Quem são as pessoas que abortam e que condições contri- buem para que elas sejam colocadas em situações de vulne- rabilidade ao experienciar esse evento da vida. O abortamento no mundo e no Brasil Aula 1 Aulas Para a compreensão deste tema tão importante e pouco estudado, o curso foi dividido em 6 aulas. Veja a seguir quais são: Aula 1 O abortamento no mundo e no Brasil. Aula 6 Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto. Aula 2 Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil. Aula 5 Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos. Aula 3 Abortamento e evidências científicas. Aula 4 Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento. Jornada do cursista Encerramento Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 7 Diferentes governos ao redor do mundo começam a implementar políticas de planejamento e controle populacional. São publicadas denúncias no Brasil de esterilização forçada de mulheres negras. IV Conferência Mundial sobre a Mulher da ONU, em Pequim, onde se confirmou o paradigma dos direitos sexuais e reprodutivos. Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento da ONU, no Cairo, onde se firmou o conceito de direitos reprodutivos. A Constituição brasileira reconhece o direito à igualdade de gênero e ao planejamento reprodutivo. Criação do PAISM – Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher no Brasil. Formulação do conceito de direitos sexuais por movimentos gays e lésbicos pelo mundo. China: cada família só poderia ter um filho. Criação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra no Brasil. Peru: mais de 272.028 mulheres e 22.004 homens esterilizados forçosamente. Criação da Política Nacional dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos pelo Ministério da Saúde brasileiro. Aprovação da Lei de Planejamento Familiar nº 9.263 no Brasil. Criação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher do Ministério da Saúde e Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal no Brasil. Criação do conceito de “justiça reprodutiva” nos EUA, por um grupo de mulheres negras. Anos 80 1995 1994 1988 1983 1990 1980 até 2016 2007 Entre 1996 e 2001 2005 1996 2004 1994 1950 Introdução: Direitos Sexuais e Reprodutivos (DSR) e a justiça reprodutiva Nesta primeira aula, você conhecerá um pouco da história dos direitos sexuais e reprodutivos no mundo e no Brasil. Você verá também o lugar do abortamento nesse campo de estudo e sua conexão com a saúde pública. Vamos lá? Começaremos com os fatos mais importantes que marcaram a história dos direitos sexuais e reprodutivos. Acompanhe: Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 8 Como você pode observar na linha do tempo, o debate sobre os direitos sexuais e repro- dutivos vem de longa data. Para compreender cada uma de suas dimensões e se apro- fundar nesse tema, detalhamos a seguir os eventos mais importante sobre os DSRs. Diferentes governos ao redor do mundo começam a implementar políticas de planejamento e controle populacional. São publicadas denúncias no Brasil de esterilização forçada de mulheres negras. IV Conferência Mundial sobre a Mulher da ONU, em Pequim, onde se confirmou o paradigma dos direitos sexuais e reprodutivos. Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento da ONU, no Cairo, onde se firmou o conceito de direitos reprodutivos. A Constituição brasileira reconhece o direito à igualdade de gênero e ao planejamento reprodutivo. Criação do PAISM – Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher no Brasil. Formulação do conceito de direitos sexuais por movimentos gays e lésbicos pelo mundo. China: cada família só poderiater um filho. Criação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra no Brasil. Peru: mais de 272.028 mulheres e 22.004 homens esterilizados forçosamente. Criação da Política Nacional dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos pelo Ministério da Saúde brasileiro. Aprovação da Lei de Planejamento Familiar nº 9.263 no Brasil. Criação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher do Ministério da Saúde e Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal no Brasil. Criação do conceito de “justiça reprodutiva” nos EUA, por um grupo de mulheres negras. Anos 80 1995 1994 1988 1983 1990 1980 até 2016 2007 Entre 1996 e 2001 2005 1996 2004 1994 1950 Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 9 A partir dos anos 1950, governos nacionais em diferentes partes do mundo passa- ram a implementar políticas de planejamento e controle populacional, com a justi- ficativa de impulsionar o desenvolvimento econômico. Tais políticas se funda- mentavam na ideia de que há uma forte relação entre fecundidade e crescimento econômico, sendo, portanto, dever do estado administrar a vida reprodutiva de sua população, por meio de ações controlistas ou pró-natalistas (MARTINS, 2019). A principal característica desse tipo de política é seu caráter hierárquico e tecno- crático, ou seja, agentes do Estado definem o perfil de população desejada – por exemplo, por raça, classe social e tamanho da família – e desenham políticas públi- cas para a criação desse perfil. Esse tipo de política nega a autonomia e a capacidade das pessoas de decidir sobre suas vidas reprodutivas, ao mesmo tempo que cria hierarquias entre grupos da população, categorizados como desejados ou indesejados, como brancos versus negros e indígenas, ricos versus pobres. Em alguns países, como o Peru entre os anos de 1996 a 2001, esses programas consistiram na esterilização forçada de milhares de mulheres, em sua maioria pobres e indígenas (GUTIERREZ, 2014). Já na China, vigorou por mais de três déca- das, até 2016, a política que determinava que cada família poderia ter apenas uma criança (FENG; GU; CAI, 2016). Direitos reprodutivos Pare um instante para refletir... Você consegue identificar, nos dias de hoje, práticas do Estado que possam ser caracterizadas como políticas controlistas? Ponto de reflexão No Brasil, também houve a atuação de instituições de caráter controlista finan- ciadas por capital estrangeiro e, na década de 1980, vieram a público denúncias de programas de controle da natalidade e planejamento familiar que esterilizaram mulheres negras sem o consentimento delas. Tais denúncias culminaram em uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPMI), cujo relatório serviu de base para a Lei do Planejamento Familiar nº 9.263, aprovada em janeiro de 1996. Os direitos reprodutivos surgem como resposta feminista contra essas políticas de controle populacional e por autodeterminação, integridade corporal, equidade e diversidade. No Brasil, a Constituição de 1988 reconhece o direito à igualdade de gênero e ao planejamento reprodutivo fundamentado na dignidade humana e na livre decisão de cada pessoa. Fique por dentro Conheça o relatório da CPMI na íntegra. É um dos princípios fundamentais dos direitos humanos e significa autonomia, abrangendo autorresponsabilidade, autorregulação e livre- arbítrio de todo ser humano. Autodeterminação https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/85082/CPMIEsterilizacao.pdf?sequence=7&isAllowed=y https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/85082/CPMIEsterilizacao.pdf?sequence=7&isAllowed=y Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 10 No plano internacional, a Conferência Internacional da ONU sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada no Cairo em 1994, foi o marco mundial de mudança de uma abordagem de disciplinamento e controle para um paradigma de direitos, autonomia e respeito no campo da reprodução humana. Agora que você já conheceu um pouco sobre os direitos reprodutivos, verá a seguir o que são direitos sexuais e como esses dois campos estão relacionados, levando inclusive à utilização da expressão “direitos sexuais e reprodutivos (DSR)”. O conceito de direitos sexuais tem uma história distinta e mais recente. Sua formu- lação inicial se deu nos anos 1990 pelo trabalho incansável de movimentos gays e lésbicos em diferentes partes do mundo, que logo foram abraçados por segmentos dos movimentos feministas e por outras minorias sexuais, como os movimentos trans e travesti, e intersexo. Direitos sexuais Fique por dentro Conheça o relatório da Conferência sobre População e Desenvolvimento. http://www.unfpa.org.br/Arquivos/relatorio-cairo.pdf http://www.unfpa.org.br/Arquivos/relatorio-cairo.pdf Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 11 Direitos reprodutivos se ancoram no reconhecimento do direito básico de todo casal e indi- víduo de decidir livre e responsavelmente sobre o número e espaçamento de filhos e ter a informação e os meios para assim fazer, e o direito de gozar do mais elevado padrão de saúde sexual e reprodutiva. Inclui também seu direito de tomar decisões sobre a reprodução livre de discriminação, coerção ou violência. (ONU, 1994: parágrafo 7.3) Um ano mais tarde, na IV Conferência Mundial sobre a Mulher, realizada em Pequim em 1995, foram confirmados e ampliados os acordos estabelecidos no Cairo com relação aos direitos sexuais e reprodutivos. Na Plataforma de Pequim, os direitos sexuais foram definidos de forma mais explícita e autônoma em relação aos direitos reprodutivos. Os direitos humanos das mulheres incluem seus direitos a ter controle e decidir livre e respon- savelmente sobre questões relacionadas à sexualidade, incluindo saúde sexual e reproduti- va livre de coerção, discriminação e violência. Relacionamentos igualitários entre homens e mulheres nas questões referentes às relações sexuais e à reprodução, inclusive o pleno respei- to pela integridade da pessoa, respeito mútuo, consentimento e divisão de responsabilidades sobre o comportamento sexual e suas consequências. (ONU, 1995 parágrafo 96) Como você pode observar, foi um longo caminho entre as políticas controlistas iniciadas nos anos 1950 e o reconhecimento dos direitos sexuais e reprodutivos como direitos humanos nos anos 1990. Esse reconhecimento é um grande avanço a ser celebrado, pois confere um pata- mar mínimo que todas as pessoas podem exigir ser traduzido em políticas públicas por seus governos. Contudo, há ainda vários grupos sociais cujos direitos humanos são violados com base na sexualidade, como lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, inter- sexos e pessoas não binárias, bem como pessoas que exercem a prostituição como trabalho e também aquelas que vivem com HIV/Aids. Embora não conste a expressão “direitos sexuais” no documento oficial da Confe- rência de Cairo da ONU, o texto inclui, de modo explícito, o conceito de “saúde sexual” como elemento essencial para o exercício dos direitos reprodutivos: Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 12 Há também o caso de suposições errôneas com relação à sexualidade, como a crença de que pessoas idosas e pessoas com deficiências não tenham uma vida sexual ativa. Há ainda o preconceito e a discriminação contra determinados grupos sociais, em que a reprodução é vista como não desejável, como é o caso das pessoas com deficiência, pessoas em situação de prisão, adolescentes e pessoas com orien- tações sexuais que não sejam heterossexuais. Contra essas visões reducionistas, é importante destacar a universalidade dos direitos sexuais e dos direitos reprodutivos, que protegem e garantem a todas as pessoas, sem estigmas,distinções e preconceitos, um cuidado em saúde sexual e reprodutiva humanizado e de qualidade. 1 Orientação sexual – refere-se à direção do desejo erótico e afetivo de cada pessoa. Há pessoas heterossexuais, que se sentem atraídas por pessoas do sexo/gênero oposto, homossexuais, que sentem atração por pessoas do mesmo sexo/gênero, e bissexual, que se relacionam afetiva e sexualmente com pessoas de todos os sexos/gêneros. 2 Identidade de gênero – é a forma como a pessoa se sente e se apresenta para si mesma e para as demais pessoas, como masculina ou feminina, ou ainda como uma mescla de ambos, independentemente do sexo assinalado no nascimento ou da orientação sexual – pessoas cis são aquelas que se identificam com o sexo assinalado em seu nascimento e trans são aquelas que se identificam de forma diferente daquela que lhes foi atribuída ao nascimento. 3 Pessoa não binária – pessoa cuja identidade de gênero ou expressão de gênero não está limitada às definições de masculino ou feminino. Ou seja, pessoa que define seu gênero como estando “em algum lugar entre homem e mulher” ou como totalmente diferente dos dois polos. Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 13 A seguir, veja o leque de direitos sexuais garantidos a todas as pessoas, indepen- dentemente de gênero, idade, classe e situação social. O direito de viver e expressar livremente a sexualidade sem violência, discriminações e imposições, e com total respeito pelo corpo do(a) parceiro(a). O direito de escolher a parceria sexual. O direito de viver a sexualidade, independentemente de estado civil, idade ou condição física. O direito de expressar livremente sua orientação sexual: heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade. O direito ao sexo seguro para prevenção da gravidez e de infecções sexualmente transmissíveis (IST) e HIV/Aids. O direito a serviços de saúde que garantam privacidade, sigilo e atendimento de qualidade, sem discriminação. O direito de viver plenamente a sexualidade sem medo, vergonha, culpa e falsas crenças. O direito de escolher se quer ou não quer ter relação sexual. O direito à informação e à educação sexual e reprodutiva. O direito de ter relação sexual, independentemente da reprodução. Direitos sexuais Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 14 Agora, veja quais são os direitos reprodutivos que protegem também todas as pessoas, sem distinção. O direito de as pessoas decidirem, de forma livre e responsável, se querem ou não ter filhos, quantos filhos desejam ter e em que momento de suas vidas. O direito de acesso a informações, meios, métodos e técnicas para ter ou não ter filhos. O direito de exercer a sexualidade e a reprodução livre de discriminação, imposição e violência. Todos os direitos elencados anteriormente estão garantidos no Brasil, que parti- cipou ativamente dos espaços internacionais – a Conferência do Cairo (1994) e a Conferência de Pequim (1995) – em que esses direitos foram definidos, pela primeira vez, em nível internacional, como já vimos antes. Mas, além de aderir aos acordos internacionais que resultaram dessas conferên- cias, o Estado brasileiro também internalizou essas ideias em leis e políticas públi- cas. Agora, vamos compreender os principais Marcos Referenciais para as Políticas de Saúde Sexual e Reprodutiva no Brasil: Lei nº 9.263/1996, que regulamenta o planejamento familiar. Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher. PAISM (1984). Constituição Federal de 1988. Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 15 Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher/2004. Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal/2004. Política Nacional dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos/2005. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra/2007. Talvez você já conheça ou tenha ouvido falar do Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM). Mas você sabia que ele, tal como originalmente formu- lado, instituiu uma agenda ampla e compreensiva de saúde da mulher no lugar da assistência médica pautada por ações programáticas e isoladas? Assim, o PAISM (1984) incorporou uma perspectiva de empoderamento, em que o acesso à informação é central para que as mulheres possam fazer suas escolhas de forma autônoma e consciente. Essas escolhas estão relacionadas não apenas à regulação da fecundidade, mas também à assistência no ciclo gravídico puerperal. Em todas essas dimensões, deveria haver atenção não apenas aos aspectos médicos, mas também aos psicoló- gicos e sociais. O PAISM inovou, indo além da reprodução para cuidar também do envelhecimento e da saúde mental e ocupacional. Agora, pense na atenção às pessoas com útero nas unidades básicas de saúde. Você identifica um atendimento integral às necessidades de saúde, inclusive as necessidades psíquicas e sociais, ou apenas ações de atenção programática, como o pré-natal, e medidas de prevenção de câncer de colo uterino? Ponto de reflexão No contexto do PAISM, o material educativo produzido sobre gravidez ou sobre como evitá-la deixa claro o seu caráter inovador e emancipador. O Programa rompeu com o conservadorismo predominante da época e contribuiu para a disse- Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 16 minação da perspectiva da “integralidade” para outras áreas da saúde que, mais tarde, veio a ser um dos princípios orientadores do SUS (DINIZ; LANSKY; D’OLI- VEIRA, 2012). Além disso, a Constituição Federal, promulgada em 5 de outubro de 1988, inclui no Título VIII da Ordem Social, em seu Capítulo VII, art. 226, § 7º, a responsabilidade do Estado no que se refere ao planejamento familiar, nos seguintes termos: Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo aos Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas. Para o exercício do direito ao planejamento familiar, serão oferecidos todos os métodos e técnicas de concepção e contracepção cientificamente aceitos e que não coloquem em risco a vida e a saúde das pessoas, garantida a liberdade de opção. A Lei n. 9.263, de 12 de janeiro de 1996, que regulamenta o planejamento familiar, estabelece em seu art. 2º: Determina, ainda, a mesma lei, em seu art. 9º, que: Para fins desta Lei, entende-se planejamento familiar como o conjunto de ações de regulação da fecundidade que garanta direitos iguais de constituição, limitação ou aumento da prole pela mulher, pelo homem ou pelo casal. Parágrafo único - É proibida a utilização das ações a que se refere o caput para qualquer tipo de controle demográfico. Como vemos nos trechos anteriores, as leis brasileiras deixam claro que as instân- cias gestoras do Sistema Único de Saúde (SUS), em todos os seus níveis, bem como profissionais de saúde que nelas atuam, devem garantir a atenção integral que inclua a assistência à concepção e à contracepção. Conheça a seguir algumas etapas do estabelecimento das políticas públicas de atenção à saúde da mulher. Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 17 Em 2004, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher em parceria com diversos setores da sociedade civil. Essa política reflete o compromisso com a implementação de ações de saúde que contribuam para a garantia dos direitos humanos das mulheres e reduzam a morbimortalidade por causas preveníveis e evitáveis. Além disso, essa política enfatiza a melhoria da atenção obstétrica, o planejamento familiar, a atenção ao abortamentoa mulheres e meninas em situação de violência doméstica e sexual, e amplia as ações para grupos historicamente excluídos das políticas públicas em suas especificidades e necessidades. Em 2005, o Ministério da Saúde lançou a Política Nacional dos Direitos Sexuais e dos Direitos Reprodutivos. Entre as diretrizes e ações propostas por essa política, estão: Políticas públicas de atenção à saúde da mulher A ampliação da oferta de métodos anticoncepcionais reversíveis no SUS e incentivo à implementação de atividades educativas em saúde sexual e reprodutiva para as pessoas que utilizam a rede SUS. A capacitação de profissionais da atenção básica em saúde sexual e saúde reprodutiva. A ampliação do acesso à esterilização cirúrgica voluntária (laqueadura tubária e vasectomia) no SUS. A implantação e implementação de redes integradas para atenção às mulheres e adolescentes em situação de violência doméstica e sexual. A ampliação dos serviços de referência para a realização do abortamento previsto em lei e garantia de atenção humanizada e qualificada às mulheres em situação de abortamento. Índice de pessoas que adquirem determinada doença ou morrem em decorrência dela em uma população. Morbimortalidade Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 18 Já em 2007, reconhecendo as desigualdades étnico-raciais e o racismo institucio- nal como determinantes sociais de saúde, o Ministério da Saúde adotou a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra. Essa política propõe a qualificação e humanização da atenção à saúde das mulheres negras – assistência ginecológica e obstétrica e também no climatério, bem como em situação de abortamento. Ela reconhece, ainda, a maior vulnerabilidade das mulheres negras à morbimortalidade materna, doença falciforme, câncer de colo uterino, bem como ISTs/HIV/Aids, tuberculose, hanseníase e transtornos mentais. Diante desse quadro, essa política estabelece ainda ações que visam combater o racismo e a discriminação social nos serviços de saúde e garantir a atenção integral, com qualidade e respeito, a toda a população negra. Para continuar a compreensão deste assunto, discutiremos a seguir a justiça repro- dutiva. Você já ouviu falar nela? Então, siga em frente! O conceito de justiça reprodutiva foi criado em 1994 por um grupo de mulheres negras estadunidenses que se autodenominaram “mulheres afrodescendentes por justiça reprodutiva” (Women of African Descent for Reproductive Justice). O seu objetivo é ampliar o entendimento dos direitos sexuais e reprodutivos para além de uma perspectiva individual centrada na escolha, e incluir o contexto em que as pessoas fazem suas escolhas e as condições desses processos de tomada de decisão. Assim, a justiça reprodutiva foi definida por aquele grupo de mulheres como: “o direi- to humano à autonomia corporal pessoal, a ter filho/as, a não ter filho/as, e a criar o/as filho/as que temos em comunidades saudáveis e sustentáveis” (SisterSong Collective). Desse modo, o paradigma da justiça reprodutiva propõe uma abordagem mais ampla para os direitos reprodutivos e a saúde reprodutiva. Ela vincula esses direi- tos às lutas por justiça social, racial e ambiental de mulheres negras e de suas comu- nidades, e relaciona suas trajetórias reprodutiva e sexual à busca por cidadania, dignidade e bem-viver em todos os espaços de vida, individual e coletiva. A justiça reprodutiva ganhou espaço ao longo dos anos, e é importante que você conheça como ela é discutida em nosso país. Um exemplo no Brasil é a organização Criola que atua na defesa e promoção dos direitos das mulheres negras no Brasil há quase três décadas. Justiça reprodutiva Fique por dentro Assista ao vídeo da Fiocruz “Juventudes e Justiça Reprodutiva: contribuições contemporâneas para o campo da saúde”. Acesse a cartilha do Coletivo Margarida Alves e saiba mais sobre o assunto. É científico! Fique por dentro Ouça o podcast da Organização Criola. https://www.youtube.com/watch?v=RG7d74a5MT8&ab_channel=AgendaJovem https://www.youtube.com/watch?v=RG7d74a5MT8&ab_channel=AgendaJovem https://www.youtube.com/watch?v=RG7d74a5MT8&ab_channel=AgendaJovem https://www.youtube.com/watch?v=RG7d74a5MT8&ab_channel=AgendaJovem https://www.youtube.com/watch?v=RG7d74a5MT8&ab_channel=AgendaJovem https://coletivomargaridaalves.org/cartilha-idealizada-pelo-coletivo-margarida-alves-reune-informacoes-para-a-luta-por-justica-reprodutiva-no-brasil/ https://coletivomargaridaalves.org/cartilha-idealizada-pelo-coletivo-margarida-alves-reune-informacoes-para-a-luta-por-justica-reprodutiva-no-brasil/ https://criola.org.br/wp-content/uploads/2019/07/justicareprodutiva.mp3 Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 19 Você, profissional de saúde, acredita que existam situações práticas da assis- tência à saúde em que os direitos sexuais e reprodutivos são violados? Se sim, quais seriam essas situações? Para você, qual a relevância dos serviços de saúde na garantia desses direitos? Ponto de reflexão O vídeo e o podcast apresentados no Fique por dentro mostram como um concei- to, desenvolvido por mulheres negras nos Estados Unidos, viajou e encontrou embasamento no contexto brasileiro, onde a população negra também sofre as consequências brutais do racismo estrutural. Você pôde ver até aqui como se desenvolveram os direitos sexuais e reproduti- vos e também o conceito de justiça reprodutiva. A seguir, você entenderá um dos temas centrais deste curso, que é o abortamento, e por que precisamos discuti-lo no âmbito da saúde pública. Vamos lá? O abortamento é a interrupção de uma gestação pela remoção ou expulsão de um embrião ou feto do corpo da pessoa que está gestante. Chamamos de induzido o abortamento que ocorre por meios artificiais, sejam eles cirúrgicos ou farmacológi- cos. Já o abortamento espontâneo é aquele que ocorre naturalmente. Você sabia que o abortamento, seja espontâneo ou induzido, é um dos aconte- cimentos ginecológicos mais comuns? De modo geral no mundo, 15% a 20% das gestações terminam em um abortamento espontâneo (GARCÍA-ENGUÍDANOS; CALLE; VALERO et al., 2002) e 56% das gestações indesejadas terminam em um abortamento induzido (GUTTMACHER INSTITUTE, 2017). Estudos antropológicos e sociológicos mostram que, ao longo da história da humani- dade, o abortamento induzido é um fato comum nas diversas sociedades. As pessoas sempre regularam sua fertilidade, e o faziam pelo uso de contracepção ou abortamento. O que é abortamento e por que ele é uma questão de saúde pública Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 20 Até o século XVIII, abortamento e contracepção, assim como parto e nascimento, eram tratados como vivência das mulheres, quer dizer, faziam parte da vida reprodu- tiva das mulheres tanto gestar e parir quanto abortar; e as parteiras eram as principais prestadoras de cuidados e serviços de planejamento familiar (JOFFE, 2009). Apenas a partir do século XIX, como consequência do desenvolvimento da medici- na moderna, especialmente das especialidades de ginecologia e obstetrícia, é que leis passaram a regular o abortamento induzido por pressão dos órgãos de repre- sentação da classe médica. Assim, as leis passaram a restringir o abortamento em muitas situações e a permitir em poucas, sempre com supervisão médica, trans- formando-o em uma questão controvertida, que reflete uma variedade de forças religiosas, sociais e políticas (JOFFE, 2009). Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 21 Tratar o abortamento induzido como uma questão de saúde pública – e não como questão moral ou criminal – implica uma redefinição de argumentos e prioridades. Os argumentos relevantes passam a ser aqueles embasados em evidências científicas eas prioridades passam a ser os cuidados em saúde da pessoa em situação de abortamento, seja aquela que recorre ao serviço de atenção ao abortamento previsto em lei ou aquela que busca o cuidado pós-aborto, espontâneo ou induzido. A regulação jurídica do abortamento induzido, o seu tratamento como uma ques- tão social polêmica e sua consequente estigmatização levam muitas pessoas a abortar de forma insegura, sem os devidos cuidados. Desse modo, o abortamento inseguro mata e adoece pessoas. Existe um consenso internacional de órgãos de direitos humanos e saúde de que esse é um sério problema de saúde pública em muitos países e precisa ser discutido e estu- dado pelos profissionais de saúde. (ASSEMBLEIA MUNDIAL DA SAÚDE, 1967). Este é um ponto importante! Profissional de saúde não deve nem pode inves- tigar, julgar, recriminar ou discriminar – seu papel é cuidar. O que você pensa sobre isso? Ponto de reflexão Fique por dentro Ouça a entrevista com o professor Jefferson Drezett, que explica por que o abortamento inseguro é uma questão de saúde pública. Como vimos, o abortamento é um evento comum na vida reprodutiva das pessoas. Contudo, quando realizado de forma insegura, ele pode produzir muitos danos à saúde e até mesmo a morte. Nesta seção, veremos a relação entre abortamento inseguro e mortalidade materna. Abortamento inseguro e mortalidade materna Antes de tudo, é preciso saber o que é mortalidade materna. Você conhece a defini- ção da Organização Mundial de Saúde (OMS)? A OMS define morte materna como aquela decorrente de problemas relacionados à gravidez ou por ela agravados, ocorridos no período da gestação ou até 42 dias após o parto. A razão de morte materna é um indicador das condições de vida e cuidados de saúde de uma população e reflete no desenvolvimento humano de um país. Mortalidade materna https://jornal.usp.br/atualidades/aborto-e-questao-de-saude-publica/ https://jornal.usp.br/atualidades/aborto-e-questao-de-saude-publica/ Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 22 Fique por dentro Saiba mais sobre os objetivos da ODS. Sobre o abortamento inseguro, leia o artigo dos Cadernos de Saúde Pública. É científico! Níveis baixos de instrução, condições nutricionais inadequadas, apoio social insu- ficiente e falta de acesso a cuidados de saúde estão fortemente associados às mortes maternas. Além disso, a mortalidade materna é, habitualmente, o principal indicador da mortalidade diferencial entre mais ricos e mais pobres, entre nações, grupos sociais e famílias. A aceleração da redução da mortalidade materna foi estabelecida como uma das metas globais prioritárias nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. Mas por que a morte materna é um importante indicador de saúde? Ela é considerada “um evento sentinela, um importante marcador da qualidade do sistema de saúde, em especial em relação ao acesso, à adequação e à oportunidade do cuidado” e está “intimamente relacionado à vulnerabilidade social das popula- ções" (FREITAS-JUNIOR, 2020, p. 616). No Brasil, a razão de morte materna está próxima a 50 por 100 mil habitantes. Esses valores são muito superiores àqueles considerados aceitáveis pela OMS, que estabelece que a razão de morte materna nunca deve ser superior a 20. O acesso à atenção pré-natal e a adequada assistência ao parto são importantes para a redução da mortalidade materna. Mas igualmente relevante para a redução desse índice é o entendimento de que o abortamento inseguro contribui para mortes maternas evitáveis e deve ser enfrentado como um problema de saúde pública. Você sabe como se calcula a razão de mortalidade materna? A razão de mortalidade é um indicador utilizado para se conhecer o número de mortes de mulheres grávidas (independentemente da localização ou tempo de gestação) ou mulheres com até 42 dias após o parto, por qualquer causa exceto acidentes, a cada 100 mil crianças nascidas vivas, em determinado local e espaço de tempo. Veja a seguir como o Datasus (Ministério da Saúde) realiza esse cálculo: Razão de mortalidade 100.000 número de óbitos maternos diretos e indiretos número de nascidos vivos Para saber mais sobre os indicadores de mortalidade, acesse o site do Datasus. É científico! Apesar de ainda ser elevada, a razão de mortalidade materna vem se reduzindo no Brasil nos últimos anos. Em 2017, ela foi de 56,88; em 2018, de 49,66 e em 2019, de 48,33. Essa redução pode ser atribuída à melhoria da qualidade de informação sobre a saúde reprodutiva e à maior qualidade dos serviços de atenção e cuidado. Apesar disso, o fato de que o abortamento inseguro continua sendo uma das quatro maiores causas de mortalidade materna no Brasil é um dado sério, que não pode ser ignorado. https://ods.imvf.org/ https://www.scielo.br/j/csp/a/Vz5bVgLTWS54g4KLXDynSqf/?lang=pt&format=pdf https://www.scielo.br/j/csp/a/Vz5bVgLTWS54g4KLXDynSqf/?lang=pt&format=pdf http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/idb2000/fqc06.htm Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 23 Morte materna no mundo (OMS) As cinco maiores complicações, que respondem por aproximadamente 75% de todas as mortes maternas, são: 27 a 1% Hemorragia severa (a maior parte hemorragia após o parto) 10 a 7% Infecções (normalmente após o parto) 3 a 2% Complicações resultantes do parto 14 a 0% Hipertensão durante a gravidez (pré-eclâmpsia e eclampsia) 7 a 9% Aborto inseguro Consulte aqui a base de dados do SUS. É científico! Você quer saber como está a situação de seu estado ou cidade em relação à mortalidade materna? O gráfico a seguir mostra as principais causas de morte materna no mundo. Você pode notar que o abortamento inseguro está entre elas. O gráfico mostrou que o abortamento inseguro é uma das principais causas evitáveis de mortalidade materna mundialmente, e infelizmente a situação do Brasil não é diferente. De acordo com o Ministério da Saúde, entre os óbitos maternos ocorridos de 1996 a 2018, as causas obstétricas diretas que se destacaram foram: hipertensão, hemorragia, infecção puerperal e abortamento inseguro. http://tabnet.saude.sp.gov.br/deftohtm.exe?tabnet/ind14_matriz.def Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 24 Abortamento no mundo A seguir você conhecerá dados sobre o abortamento no mundo e mais à frente sobre o abortamento no Brasil. Continue! As leis sobre abortamento no mundo Totalmente proibido Para salvar a vida da mulher Para preservar a saúde Razões sociais ou econômicas amplas Sob solicitação (limites gestacionais variam) Fique por dentro Interaja com o mapa As Leis de Aborto do Mundo e entenda melhor suas categorias. É importante destacar que os órgãos internacionais de direitos humanos consi- deram, cada vez mais, que a restrição do acesso ao abortamento seguro é incom- patível com o direito à igualdade, à autonomia, à dignidade e à saúde e, por isso, solicitam que os governos nacionais removam todas as punições penais ao abor- tamento (ERDMAN; COOK, 2020). Você sabia que a América Latina e o Caribe são as regiões com as leis mais restritivas ao abortamento no mundo? E que o Brasil está entre aqueles com leis criminais mais severas? A partir do mapa anterior você pode observar em quais regiões do mundo a legis- lação sobre abortamento é mais permissiva e mais restritiva. É possível também identificar que os países do sul global tendem a ter leis mais restritivas. https://maps.reproductiverights.org/worldabortionlaws https://maps.reproductiverights.org/worldabortionlaws Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 25 Você já se perguntou quais são as consequências sociais, políticas e econômi- cas para as pessoas que vivem em países com leis restritivas ao abortamento? Pontode reflexão O gráfico a seguir mostra como as taxas de abortamento inseguro aumentam à medida em que as legislações se tornam mais restritivas. Assim, nos contextos mais permissi- vos, em que a interrupção voluntária da gravidez está autorizada, o abortamento inse- guro corresponde a 13% dos casos. Já nos contextos mais restritivos, como é o caso brasileiro, o abortamento menos seguro e inseguro chega a 56% dos casos. A proporção de todos os abortamentos que são estimados ser inseguros aumenta à medida que as leis se tornam mais restritivas. Moderadamente restritiva Seguro Menos seguro Inseguro Inseguros: são abortamentos que não cumprem nenhum dos dois critérios citados. Muito restritiva Abortamentos seguros usam estes dois critérios: são feitos por uma pessoa apropriadamente treinada e utilizando um método seguro. Menos restritiva Menos seguros: são abortamentos que cumprem apenas um dos dois critérios citados. 87% 42% 25% 44% 31% 17%12% 41% 1% O gráfico, portanto, deixa evidente a relação entre restrição e insegurança no aborta- mento. Leis que criminalizam o abortamento não impedem que as pessoas abortem, mas as levam a procurar métodos inseguros, que colocam em risco sua saúde e vida. Fonte: https://www.guttmacher.org report/abortion-worldwide-2017 https://www.guttmacher.org/report/abortion-worldwide-2017 Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 26 Ainda segundo dados da OMS (2020), a cada ano entre 4,7% a 13,2% das mortes maternas podem ser atribuídas ao abortamento inseguro. Além disso, o abortamento inseguro implica despesas públicas que poderiam ser evitadas com políticas públicas. Estimativas mostram que, nos países em desenvolvimento, o gasto anual para os siste- mas de saúde inclui US$ 553 milhões de dólares para tratar complicações por aborta- mento inseguro e US$ 6 bilhões para tratar infertilidade pós-abortamento inseguro. E no Brasil, você sabe qual a situação atual? Siga em frente para conhecer! Segundo a pesquisa Nascer no Brasil, da Fiocruz, 55% das gestações não são planeja- das. Isso se deve a uma série de barreiras sociais, econômicas ou educacionais. Muitas vezes, as pessoas não têm informações adequadas sobre planejamento reprodutivo, outras vezes não têm acesso aos métodos, como contraceptivos e preservativos. Muitas dessas gestações indesejadas são interrompidas, o que faz do abortamento um evento comum na vida de pessoas, com maior incidência em pessoas em situa- ção de vulnerabilidade, como será explicado no decorrer do curso. Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto (2016): Abortamento no Brasil Metade das mulheres aborta usando medicamentos. O aborto foi realizado com medicamentos em 48% (115) dos casos válidos. Se considerados os 4% (10) de não-resposta ao quesito, a proporção seria ainda próxima, 46%. O aborto é comum entre as mulheres brasileiras. Das 2.002 mulheres alfabetizadas entre 18 e 39 anos entrevistadas pela PNA em 2016, 13% (251) já fizeram ao menos um aborto. Cerca de metade das mulheres precisou ser internada para finalizar o aborto: 48% (115) das mulheres foram internadas no último aborto. Segundo dados da OMS, a maior parte dos abortamentos inseguros (98%) ocorre em países em desenvolvimento. Isso evidencia como a organização sócio-político-econômica determina a exclusão ou acesso aos direitos. Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 27 Em outras palavras, isso significa que: Na faixa etária de anos 18 a 38 Apesar da lei severa no Brasil Fonte: Pesquisa Nacional do Aborto 2010 a 2016. 1 por minuto 1369 por dia 57 por hora 500.000 por ano 4,7 milhões de mulheres já fizeram aborto 1 em cada 5 mulheres até os 40 anos já fez aborto 56% são católicas 25% evangélicas protestantes 7% possuem outras religiões Aborto 67% têm filhos 88% têm religião Dessas: O gráfico nos revela que o abortamento é um evento comum na vida reprodutiva de mulheres comuns – pelo menos uma em cada cinco mulheres até os 40 anos já fez um aborto, e a grande maioria delas tem religião e já possui filhos. Com certeza você tem alguém em seu círculo próximo que já passou por um abortamento induzido. Para compreender melhor, leia a Pesquisa Nacional Aborto, que explica em detalhes o panorama destacado no infográfico anterior. É científico! https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-81232017000200653&script=sci_abstract&tlng=pt https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-81232017000200653&script=sci_abstract&tlng=pt Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 28 No entanto, esses números podem ser ainda maiores. Há falhas no preenchimento de declaração de óbito de pessoas por abortamento e também existe uma subnoti- ficação. Por exemplo, a quinta causa de morte mais frequente de mulheres aparece no atestado de óbito como mal definida, ou seja, trata-se de causa não estabele- cida, isso corresponde a 3500 mortes de mulheres em idade reprodutiva (15 a 49 anos) no Brasil anualmente (BRASIL, 2018). O abortamento realizado em condições de risco frequentemente é acompanhado de complicações severas, agravadas pelo desconhecimento dos sinais de risco e pela demora em procurar os serviços de saúde, que em sua maioria não estão capacitados para esse tipo de atendimento (OLIVEIRA, 2003). As complicações imediatas mais frequentes são a perfuração do útero, a hemor- ragia e a infecção, que podem levar a graus distintos de morbidade e mortalidade (OMS, 2020). Estima-se que 20-30% dos abortos realizados de maneira insegu- ra possam levar a infecções do sistema reprodutivo, sendo que uma em cada 10 mulheres vão desenvolver uma disfunção temporária ou permanente e vão preci- sar de cuidados médicos. 5 mil complicações graves 250 mil hospitalizações 15 mil complicações (abortamento incompleto com restos ovulares, infecção, perfuração uterina, lesão de órgãos adjacentes, hemorragia) 203 mortes, ou seja, umamorte a cada dois dias No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde (2018), o abortamento é respon- sável anualmente por: Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 29 Dados da OMS mostram que pessoas submetidas a situação de abortamento inseguro sofrem pesados custos fisiológicos, financeiros e emocionais. Você conhece alguém que já passou por essa situação? Ponto de reflexão É importante, contudo, que você perceba que o risco à saúde e à vida relacionado ao abortamento inseguro não ocorre igualmente na população. De acordo com o estudo de Cardoso, Vieira e Saraceni (2020), as brasileiras em maior risco de óbito por abortamento são mulheres de cor preta e indígenas, de baixa escolaridade, com menos de 14 e mais de 40 anos, vivendo nas regiões Norte, Nordeste e Centro-o- este, e sem companheiro. Aula 1. O aborto no mundo e no BrasilAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 30 Você, como futura/o profissional de saúde, tem um papel fundamental tanto na mudança desse cenário, por meio da oferta adequada de planejamento reproduti- vo, quanto no acolhimento e adequada orientação sobre o tema. Além disso, deve também enfrentar as iniquidades e desigualdades no acesso ao cuidado em abor- tamento e pós-aborto. Você chegou ao final dessa aula. Aqui você conheceu os conceitos de direitos sexu- ais e reprodutivos e de justiça reprodutiva. Conheceu também dados sobre o abor- tamento no Brasil e no mundo e sua relação com a saúde pública. Siga em frente para conhecer mais sobre o acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto. Até lá! Isso se explica porque classe, condição geográfica, raça, idade, e contexto cultural são fatores determinantes no acesso à informação e a recursos para a realização de um abortamento, mesmo em contexto de clandestinidade. Essesfatores estão entre as chamadas “determinantes sociais da saúde”, definidas como os fatores sociais, econômicos, culturais, étnico-raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e os fatores de risco na população, produzindo desigualdade e iniquidade (FUSCO; SILVA; ANDREONI, 2012). No caso do abortamento inseguro, as principais determinantes sociais incluem restrições legais, ausência de apoio social, inadequação dos serviços de planejamento reprodutivo e deficiência em infraestrutura dos serviços de saúde. Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 31 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil • As situações em que o abortamento é previsto em lei no Brasil. • Os desafios para a implementação desses serviços. • As dificuldades de exercício desse direito e as barreiras de acesso aos serviços. • Os conceitos de objeção de consciência, confidencialidade e sigilo. • O que se espera de quem atua em contato ou diretamente em um serviço de abortamento previsto em lei. As leis brasileiras sobre o abortamento Nesta aula, você vai conhecer a legislação sobre abortamento no Brasil e entender como funciona o chamado sistema das exceções. De modo geral, o abortamento induzido é criminalizado no Brasil, mas há algumas situações em que ele é permitido. São essas situações que você conhecerá mais a fundo, mas também aprenderá um pouco sobre as consequências danosas da criminalização. O Código Penal de 1940 autoriza o abortamento nas situações em que há risco à vida da pessoa gestante e no caso da gravidez resultante de estupro. Em 2012, o Supremo Tribunal Federal, no contexto da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental n. 54, autorizou também a interrupção da gestação em casos de fetos anencefálicos. Apesar de ser previsto em lei há muitas décadas, o primeiro serviço para assistên- cia de abortamento legal no Brasil foi estruturado apenas em 1989, no Hospital Dr. Arthur Ribeiro de Saboya, na cidade de São Paulo. Conhecendo a legislação Fique por dentro Conheça, na íntegra, a Lei nº 2.848 do Código Penal e a decisão do STF na Arguição de descumprimento de preceito fundamental 54. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Aula 2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=3707334 https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=3707334 https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=3707334 https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=3707334 Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 32 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Aqui vale uma pequena pausa para refletirmos. Considerando-se o Código Penal de 1940, e tendo o primeiro serviço para abortamento começado a funcionar em 1989, o que será que mudou até os dias de hoje? Sua cidade conta com um serviço de abortamento legal? Você sabe como ele funciona? Ponto de reflexão Para entender melhor esse cenário, veja ao lado, no É científico o mapa com os estabelecimentos do SUS que oferecem os serviços de abortamento previsto em lei no Brasil. Apesar da ampliação do número de serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no país desde a criação do primeiro em 1989, há ainda uma série de barreiras de acesso. A primeira delas é a concentração em algumas regiões do país. Como você pôde observar, praticamente não há serviços estruturados na região Norte e há poucos na região Centro-Oeste. Quer saber mais sobre as barreiras de acesso ao abortamento previsto em lei? Veja a seguir as principais barreiras identificadas pelo estudo de Madeiro e Diniz (2016). Interaja com o mapa Tudo sobre aborto legal no Brasil, que contém a localização desses estabelecimentos. É científico! Barreiras encontradas para o serviço de atenção ao abortamento no Brasil: • O isolamento geográfico e a falta de serviços em todos os estados. • Nem todos os serviços existentes se encontram ativos. • Muitos serviços desencorajam as pessoas que os buscam a realizar a interrupção da gestação. • Muitos serviços, contrariando a lei, exigem boletim de ocorrência para realizar o atendimento. • Muitas pessoas não têm acesso à informação de que podem buscar ajuda em um serviço de atenção ao abortamento previsto em lei. • Muitas mulheres não declaram que sofreram violência sexual, especial- mente quando o agressor é parceiro íntimo. • A veracidade do estupro muitas vezes é questionada por profissionais de saúde e mulheres são revitimizadas ao buscar um serviço que é seu direito. • Profissionais se recusam a realizar o abortamento, fazendo uso da chama- da objeção de consciência (conceito que será estudado mais à frente). https://mapaabortolegal.org https://mapaabortolegal.org Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 33 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil • Profissionais de atenção primária à saúde desconhecem os direitos de uma pessoa frente a uma gravidez indesejada e para quais serviços encaminhar. • Muitas pessoas sofrem violências institucionais nos serviços, como negligência, atendimento tardio, interrogações repetidas, discriminação social e racismo. • Muitos serviços não contam com equipe de assistência específica. • A maioria dos serviços impõe limite gestacional para a realização do procedimento. Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 34 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Teste seus conhecimentos Como você pôde observar na longa lista, as barreiras de acesso ao abortamento previsto em lei no Brasil são inúmeras e de diferentes ordens – há barreiras sociais, econômicas, educacionais e estruturais, mas muitas dessas podem ser superadas com o trabalho de profissionais de saúde como você. Fique por dentro Leia este artigo do portal digital Catarinas e saiba mais sobre abortamento previsto em lei no Brasil. Fique por dentro Para saber mais sobre o acesso ao abortamento previsto em lei no Brasil, ouça o podcast “Inovação, ciência e tecnologia para avançar o acesso ao aborto no SUS”. Como podem profissionais de saúde atuar na superação dessas barreiras? Escolha todas as opções que lhe pareçam corretas. a) ( ) Comprometer-se com a saúde sexual e reprodutiva das pessoas, entendendo suas demandas e necessidades. b) ( ) Conhecer a legislação que regula os serviços de atenção ao abortamento previsto em lei. c) ( ) Oferecer acolhimento e escuta qualificada em quaisquer pontos da atenção à saúde. d) ( ) Recusar o atendimento a uma pessoa cujo relato não pareça verídico. e) ( ) Atualizar-se tecnicamente para oferecer uma assistência empática e de qualidade. Feedback Positivo: Se você escolheu as letras A, B, C e E, está no caminho certo! A escuta atenta e acolhedora, sem julgamentos e preconceitos, é funda- mental para o reconhecimento das demandas e necessidades assistenciais. Alia- do a isso, o conhecimento das legislações e das melhores e mais atuais evidências científicas para uma prática clínica segura contribuirá para a oferta de cuidado capaz de promover a saúde sexual e reprodutiva. Feedback negativo: Se você escolheu a letra D, você precisa refletir sobre o papel da saúde e do cuidado. Não cabe a você profissional de saúde julgar ou averiguar a veracidade do relato da situação de violência apresentado pela víti- ma. O objetivo do atendimento em saúde é garantir o cuidado. Discutiremos mais esse aspecto ao longo da aula. Sobre o limite de idade gestacional para realização de abortamento, é importan- te saber que o Código Penal brasileiro não o estabelece. Assim, o abortamento previsto em lei pode ser realizado sempre que a equipe de saúdeentenda ser segu- ro e adequado. As Normas Técnicas do Ministério da Saúde definem o abortamento de acordo com a idade gestacional (até 20-22 semanas). Contudo, as normas técnicas são regula- ções que estabelecem um mínimo do cuidado a ser prestado e devem ser interpre- tadas de acordo com a Constituição, as leis e as melhores evidências científicas. https://catarinas.info/aborto-previsto-em-lei-no-brasil/ https://almalondrina.com.br/ict-para-avancar-o-acesso-ao-aborto-no-sus/ https://almalondrina.com.br/ict-para-avancar-o-acesso-ao-aborto-no-sus/ https://almalondrina.com.br/ict-para-avancar-o-acesso-ao-aborto-no-sus/ https://almalondrina.com.br/ict-para-avancar-o-acesso-ao-aborto-no-sus/ Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 35 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Nos hospitais em que há uma equipe específica para esse serviço, ela é multipro- fissional e formada por profissionais das seguintes áreas: assistência social, psico- logia, enfermagem, obstetrícia, ultrassonografia e anestesia. Esses(as) profissionais de saúde precisam se comprometer com o acolhimento e a realização de procedi- mentos técnicos eficazes e seguros. Como devem ser os atendimentos nos serviços de atenção ao abortamento previsto em lei? Vídeo com especialista Quer saber mais sobre como deve ser o acolhimento humanizado na saúde para casos de abortamento? Então, vá até o ambiente virtual e assista ao vídeo com a doutora em saúde pública Emanuelle Goes. E como deve ser o acolhimento feito por essa equipe? É o que você vai saber a seguir. No caso do serviço de atenção ao abortamento previsto em lei, o acolhimento deve ser pautado pelo atendimento integral às necessidades da pessoa sob cuidados e envolve escuta qualificada em atenção às recomendações e às Normas Técnicas do Ministério de Saúde. O acolhimento realizado pela equipe multiprofissional Dar as orientações corretas sobre o abortamento pressupõe fornecer à pessoa sob cuidados, de modo claro e acessível, as informações necessárias para que ela condu- za o seu próprio tratamento, tenha segurança na tomada de decisões e possa exercer o autocuidado, em consonância com as diretrizes do Sistema Único de Saúde – SUS. Acolhimento é o tratamento digno e respeitoso, que inclui a escuta ativa sem pré-julgamentos ou imposição de valores, o reconhecimento e a aceitação das diferenças. Ele inclui também o acesso à assistência e o respeito ao direito da pessoa de decidir sobre os procedimentos a serem tomados. Acolhimento é uma tarefa de toda a equipe de saúde. Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 36 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Cuidados em saúde É muito importante que você, como profissional de saúde, certifique-se de que cada dúvida e preocupação seja devidamente esclarecida para garantir que a pessoa tome uma decisão informada. Cabe a você adotar uma “atitude terapêu- tica”, buscando desenvolver uma escuta ativa e uma relação de empatia. A empatia requer uma comunicação em sintonia com as demandas da pessoa sob cuidados e a capacidade de se colocar no lugar dela, de modo a compreender a situação pela qual ela está passando. Como você pôde observar na aula anterior, o abortamento ainda é um tema carre- gado de estigma na sociedade brasileira e, por isso, passar por essa situação pode causar sofrimento, dor, autojulgamento e vergonha. Da mesma forma, há pessoas que relatam sentir alívio e conforto. Essa multiplicida- de de reações e sentimentos que a experiência do abortamento pode gerar é que torna tão importante o acolhimento por parte de profissionais de saúde. Como é destacado na Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento do Ministério da Saúde, a postura acolhedora da equipe multiprofissional é funda- mental para a criação de um ambiente de empatia e confiança que dará segurança e conforto à pessoa em situação de abortamento. Fique por dentro Conheça na íntegra a Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento do Ministério da Saúde. O que cabe a profissionais de medicina e enfermagem Dentro da equipe, algumas responsabilidades são específicas de cada categoria profissional. As atribuições a seguir são de toda a equipe, mas principalmente de profissionais de medicina e enfermagem. Respeitar a fala da pessoa, lembrando que nem tudo é dito verbalmente, auxiliando-a a compreender seus sentimentos e elaborar a experiência vivida, buscando a autoconfiança. Organizar o acesso da pessoa, priorizando o atendimento de acordo com necessidades detectadas. São responsabilidades de profissionais de medicina e enfermagem: Identificar e avaliar as necessidades e riscos dos agravos à saúde em cada caso, resolvendo-os, conforme a capacidade técnica do serviço, ou encaminhando-a para serviços de referência. Dar encaminhamentos aos problemas apresentados pela pessoa, oferecendo soluções possíveis e priorizando seu bem-estar e comodidade. Realizar os procedimentos técnicos de forma humanizada e informando a pessoa sobre as intervenções necessárias. Garantir a privacidade no atendimento e a confidencialidade das informações. Responsabilidades de profissionais https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2018/01/Aten%C3%A7%C3%A3o-humanizada-ao-abortamento-2014.pdf https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2018/01/Aten%C3%A7%C3%A3o-humanizada-ao-abortamento-2014.pdf https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2018/01/Aten%C3%A7%C3%A3o-humanizada-ao-abortamento-2014.pdf https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2018/01/Aten%C3%A7%C3%A3o-humanizada-ao-abortamento-2014.pdf Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 37 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Respeitar a fala da pessoa, lembrando que nem tudo é dito verbalmente, auxiliando-a a compreender seus sentimentos e elaborar a experiência vivida, buscando a autoconfiança. Organizar o acesso da pessoa, priorizando o atendimento de acordo com necessidades detectadas. São responsabilidades de profissionais de medicina e enfermagem: Identificar e avaliar as necessidades e riscos dos agravos à saúde em cada caso, resolvendo-os, conforme a capacidade técnica do serviço, ou encaminhando-a para serviços de referência. Dar encaminhamentos aos problemas apresentados pela pessoa, oferecendo soluções possíveis e priorizando seu bem-estar e comodidade. Realizar os procedimentos técnicos de forma humanizada e informando a pessoa sobre as intervenções necessárias. Garantir a privacidade no atendimento e a confidencialidade das informações. Responsabilidades de profissionais Agora que você já conheceu as responsabilidades que lhe cabem como profissional da medicina ou enfermagem, chegou a hora de conhecer o que a Norma Técnica indica como responsabilidade específica de profissionais do serviço social e da saúde mental. O que cabe a profissionais de saúde mental e serviço social Como você já viu neste curso, a atenção integral à saúde requer não apenas que tenhamos atenção à dimensão biomédica do cuidado, mas também que cuidemos dos impactos sociais e psíquicos relacionados. Por isso, a participação de profis- sionais da psicologia e do serviço social no atendimento à pessoa em situação de abortamento é fundamental! São responsabilidades de profissionais de saúde mental e serviço social: 1 Prestar apoio emocional imediato e encaminhar, quando necessário, para o atendimento continuado em médio prazo. 2 Identificar as reações do grupo social(família, amigos(as), colegas) em que está envolvida. Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 38 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil 3 Reforçar a importância da pessoa, respeitando o estado emocional em que se encontra, adotando postura autocompreensiva, que busque aautoestima. 4 Perguntar sobre o contexto da relação em que se deu a gravidez e as possíveis repercussões do abortamento no relacionamento com a parceria. 5 Conversar sobre gravidez, abortamento inseguro, menstruação, saúde reprodutiva e direitos sexuais e reprodutivos. Você já tomou conhecimento das responsabilidades da equipe multiprofissio- nal, mas você sabe o que é consentimento livre e informado? Siga em frente para conhecer esse conceito. Consentimento livre e informado O consentimento livre e informado consiste na aceitação pela pessoa que está sob cuidados dos procedimentos a que ela será submetida. Ele se dá por meio da assi- natura de um documento. Para que seja livre, a pessoa não pode estar sob qualquer tipo de pressão, coação ou constrangimento, físico ou psicológico. Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 39 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Para que seja informado, é fundamental que sejam fornecidas informações claras e acessíveis sobre os procedimentos técnicos que serão adotados, as medidas para o alívio da dor, o tempo de duração do procedimento, o período de internação, a garantia do sigilo e privacidade, a segurança do procedimento e os possíveis riscos envolvidos. No caso do abortamento, é comum haver dúvidas envolvendo riscos sobre o proce- dimento, tempo de recuperação, seu impacto sobre a fertilidade futura e questões legais. Por isso, é muito importante esclarecer todas as dúvidas que a pessoa sob cuidados possa ter. Legislação sobre consentimento livre e informado A legislação exige o consentimento livre e informado para o abortamento em quaisquer circunstâncias, salvo em caso de iminente risco de vida. Se a pessoa esti- ver impossibilitada de consentir, esse consentimento deverá ser obtido junto a seus familiares próximos. De acordo com os artigos 3º, 4º, 5º, 1631, 1690, 1728 e 1767 do Código Civil brasileiro: A partir dos 18 anos: a pessoa é capaz de consentir sozinha. A partir dos 16 e antes dos 18 anos: a adolescente deve ser assistida pelos pais ou por seu representante legal, que se manifestam com ela. a adolescente ou criança deve ser representada pelos pais ou por seu representante legal. Antes de completar 16 anos: A outra circunstância em que é necessário o consentimento de representante legal (pessoa curadora ou tutora) refere-se à pessoa que, por qualquer razão, não tenha condições de discernimento e de expressão de sua vontade, por exemplo: uma pessoa com deficiência mental, em situação de extrema vulnerabilidade, declarada incapaz em procedimento judicial ou ainda alguém inconsciente. Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 40 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Exames complementares Além do exame clínico, a ultrassonografia é o exame complementar utilizado para esses casos. Esse exame determina a idade gestacional e auxilia na escolha do método do abortamento. Quando não for possível realizar a ultrassonografia, e afastados os fatores de risco para gravidez ectópica (sangramento e dor pélvica), é possível calcular a idade gestacional a partir da data da última menstruação (DUM), contando o número de dias da DUM até o dia atual e dividindo esse valor por 7. A seguir você vai conhecer quais os documentos necessários para realizar o abor- tamento legal. Termos de compromisso Como o abortamento é autorizado apenas em algumas situações pela lei brasileira, exige-se a assinatura de alguns documentos pela pessoa ou pela criança ou adoles- cente que fará o procedimento e seu responsável. Conheça agora esses documentos: É a gestação em que o óvulo fertilizado está fora do útero. Os principais fatores indicativos de que estamos diante de uma gravidez ectópica são sangramento e dor pélvica. Gravidez ectópica Termo de Responsabilidade – é assinado pela pessoa e/ou seu(sua) representante legal, que declara corresponderem as informações prestadas para a equipe de saúde à legítima expressão da verdade. Termo de Relato Circunstanciado – é exigido nas situações de violência sexual, e consiste na descrição das circunstâncias da violência sexual sofrida que resultaram na gravidez. Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – é assinado pela pessoa ou por seu(sua) representante legal, que declara estar de acordo com o procedimento e saber dos riscos e efeitos esperados. Mas não é só a pessoa ou seu(sua) representante legal que precisa assinar docu- mentos, a equipe médica também tem a responsabilidade de assinar alguns termos. Veja a seguir quais são eles: Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 41 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Parecer Técnico, assinado pelo profissional de medicina assistente, em que constará a avaliação de compatibilidade entre a idade gestacional e a data da violência sofrida pela mulher ou criança ou adolescente. Termo de aprovação de Procedimento de Interrupção de Gravidez, assinado por no mínimo três profissionais da equipe multiprofissional. A assinatura desses documentos é importante para garantir a segurança de profis- sionais e da pessoa em situação de abortamento previsto em lei. Mas você não pode esquecer que o objetivo central do atendimento é o cuidado humanizado e empático e, portanto, a documentação é apenas um meio para se atender esse objetivo. É fundamental que a equipe esteja atenta para não trans- formar esse momento de cuidado em um processo frio e burocrático e não criar barreiras ao acesso do direito. Sobre as especificidades de cada situação de abortamento previsto em lei Como você pôde observar no início desta aula, o direito brasileiro autoriza o abor- tamento em três situações específicas: risco à vida, violência sexual e em casos de fetos anencefálicos. Veja as especificidades de cada caso a seguir. Risco à vida Nessa situação, é necessário o laudo de dois(duas) médicos(as), incluindo, sempre que possível, especialista na área médica da doença que coloca a vida em risco. O laudo deve conter uma descrição detalhada do quadro clínico e do impacto na saúde de quem está gestante, baseando em evidência científica a recomendação da interrupção da gestação. O prontuário médico deverá conter as justificativas médicas, detalhando o risco materno. Além disso, é indispensável obter o consentimento prévio, livre e informado (Termo de Consentimento Livre e Informado) da pessoa gestante ou familiares, quando ela não tiver condições de concedê-lo. É importante também saber se a gestação era desejada e assegurar um acompa- nhamento psicológico adequado. Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 42 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Importante ressaltar que, no caso em que a pessoa gestante corre risco de morte, não é necessária autorização judicial, boletim de ocorrência ou comunicação ao CRM. Essa é uma das situações de abortamento previstas em lei. A seguir veja o que você, profissional de saúde, deve fazer em caso de violência sexual. Violência sexual Há uma alta prevalência de violência e abuso sexual no Brasil. Por isso, profissionais de saúde têm diante de si a importante tarefa de identificar situações de violência que possam autorizar o direito ao abortamento previsto em lei, mesmo quando elas não se apresentem como tais, e oferecer às vítimas a informação sobre seu direito. Assim elas poderão decidir se querem levar adiante a gestação fruto de uma relação não consentida ou se querem interrompê-la. Precisamos ter claro que estupro não é só aquele que acontece por um desconhe- cido que aponta uma arma para a cabeça da vítima. Qualquer situação de relação sexual não consentida pode ser considerada estupro. Por isso, é necessário que profissionais de saúde tenham uma postura que chama- mos de “altasuspeição”, ou seja, deve-se investigar se a gestação é desejada e se é fruto de uma relação consentida. Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 43 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil No caso de suspeita de violência sexual sofrida por paciente com resultado positivo para gravidez, deve-se iniciar a conversa procurando entender as circunstâncias em que a gravidez ocorreu e como a pessoa sob cuidados se sente em relação a ela. É necessário também que você garanta um espaço que ofereça privacidade para a entrevista, de preferência onde não haja a presença de pessoas que possam inibir o relato. A equipe deve estar alerta para manter o sigilo, a fim de não criar estigmas sobre o atendimento. Podem-se utilizar perguntas diretas e indiretas e avaliar se a pessoa deseja falar sobre o assunto ou não, respeitando seu desejo. As perguntas a seguir podem auxiliar em uma efetiva comunicação com pacientes: Fonte: Quadro adaptado de Comunicação Clínica: aperfeiçoando os encontros em Saúde (DOHMS, 2021). Perguntas indiretas: • Como estão as coisas em casa? • Como está seu relacionamento? • Você e sua parceria discutem muito? Perguntas diretas: • Já foi forçada a ter relações sexuais contra a sua vontade? • Já vi problemas como o seu em pessoas agredidas fisicamente. Isso está acontecendo com você? • Sabemos que é comum que pessoas sofram agressões dentro de casa, isso já aconteceu com você alguma vez? Todos os documentos necessários para o abortamento nos casos de violência sexual serão colhidos no hospital em que o procedimento será realizado. São três os docu- mentos pelos quais a pessoa opta pelo abortamento e se responsabiliza pelos fatos narrados à equipe médica como verdadeiros: Termo de Relato Circunstanciado, Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e Termo de Responsabilidade. Segundo a Portaria MS/GM n° 2.282/2020 do Ministério da Saúde, são necessá- rios ainda um parecer técnico do(a) profissional de medicina que ateste a compa- tibilidade da idade gestacional com a data da violência sexual relatada e um termo que aprove o procedimento de interrupção da gravidez, assinado por no mínimo três integrantes da equipe multiprofissional. Não é necessário apresentar Boletim de Ocorrência Policial, Laudo do Instituto Médico Legal ou Autorização Judicial. Para o abortamento previsto em lei em caso de estupro, é suficiente o relato da vítima ao serviço de saúde. A palavra da pessoa que busca os serviços de saúde afirmando ter sofrido violên- cia tem credibilidade ética e legal, devendo ser recebida como verdadeira por Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 44 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil profissionais de saúde. Segundo Diniz et al. (2014, p. 293): O objetivo do serviço de saúde é garantir o exercício do direito à saúde, portanto não cabe à equipe de saúde duvidar da palavra da vítima, o que agravaria ainda mais as consequências da violência sofrida. Os procedimentos do serviço de saúde não devem ser confundidos com procedimentos investigativos reservados à Polícia e à Justiça. Assim, para o atendimento às pessoas em situação de violência sexual, são neces- sários alguns cuidados importantes. Veja quais são eles: É preciso acreditar no que diz a mulher que se apresenta como vítima e testemunha de sua própria violência. No entanto, estudos demonstram que não basta o texto da mulher; a verda- de do estupro é construída no encontro entre os testes de verdade sobre o acontecimento da violência e a leitura sobre a subjetividade da vítima. Essa situação, tão comum na sociedade em geral, também ocorre em alguns servi- ços de saúde. Em muitos desses serviços, as pessoas que buscam cuidado passam por procedimentos interrogatórios que se assemelham a inquéritos policiais, com múltiplas entrevistas que parecem buscar possíveis contradições na sua narrativa. Esse tipo de comportamento é inaceitável, tanto do ponto de vista legal quanto ético, dentro de um serviço de saúde. É nessa duplicidade de guardiões da lei penal e da imoralidade do aborto que as práticas de inquérito pela verdade do estupro surgem no encontro dos profissionais com as mulheres. (DINIZ et al., 2014, p. 294). Atendimento precoce e facilitado Segundo o 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (Fórum Brasileiro de Segu- rança Pública, 2019), em 2018 foram registrados 66.041 casos de violência sexual em todo o país. O dado representa 180 estupros por dia e um aumento de 4,1% quando comparado ao ano anterior. Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 45 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Quem são as vítimas de violência sexual? negras 50,9% brancas 48,5%81,8% sexo feminino tinham até 13 anos 53,8% Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2019, p. 9). Com esses dados você pode perceber que quatro meninas de até 13 anos são estupradas por hora no Brasil! A elevada prevalência da violência sexual exige, portanto, que o maior número possí- vel de unidades de saúde estejam preparadas para atuar nos casos de emergência. O atendimento imediato aos casos de violência sexual permite oferecer medidas de proteção e prevenção, como a anticoncepção de emergência e as profilaxias das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), hepatite B e HIV/Aids, evitando assim danos futuros para a saúde da pessoa vítima de violência. Embora a maioria dos casos sejam atendidos em hospitais, todos os estabelecimen- tos de saúde deveriam estar preparados para oferecer esse cuidado da forma mais facilitada possível. São causadas por vírus, bactérias ou outros microrganismos e são transmitidas, principalmente, por meio do contato sexual (oral, vaginal, anal) sem o uso de camisinha masculina ou feminina, com uma pessoa que esteja infectada. A transmissão pode acontecer, ainda, da mãe para a criança durante a gestação, o parto ou a amamentação. Infecções Sexualmente Transmissíveis Registro adequado Os dados obtidos durante a entrevista, no exame físico e ginecológico, os resulta- dos de exames complementares e relatórios de procedimentos devem ser cuidado- samente registrados em prontuário. É recomendada a utilização de fichas específi- cas de atendimento para os casos de violência sexual. O cuidado com o prontuário é de extrema importância, tanto para a qualidade da atenção em saúde quanto para eventual uso em processo judicial. Os danos físicos, genitais ou extragenitais, devem ser cuidadosamente descri- tos em prontuário. Se possível, os traumatismos físicos devem ser fotografados e também anexados ao prontuário. Na indisponibilidade desse recurso, represen- tações esquemáticas ou desenhos podem ser utilizados e igualmente incluídos no prontuário. Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 46 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Sigilo e segredo profissional O atendimento de pessoas em situação de violência sexual, assim como qualquer outro atendimento de saúde, exige que sejam observados o sigilo e a ética profissional. A Constituição Federal, artigo 5°, estabelece que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito à indeniza- ção material ou moral decorrente de sua violação”. Portanto, é direito da pessoa sob cuidados que os fatos e informações relatados a você profissional da saúde não sejam revelados a quem quer que seja. O artigo 154 do Código Penal Brasileiro caracteriza como crime “revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem”. Vídeo com especialista Para entender melhor sobre o sigilo profissional, assista ao vídeo com o Juiz de Direito José Henrique Rodrigues Torres no ambiente virtual do curso. Ou seja,a garantia do sigilo é um dever ético e legal de você profissional e um direi- to da pessoa assistida. Notificação epidemiológica É importante notificar qualquer suspeita ou confirmação de violência. A notifi- cação tem um papel estratégico no desencadeamento de ações de prevenção e proteção no âmbito da segurança pública, além de ser fundamental nas ações de vigilância e monitoramento das situações de saúde relacionadas às violências. Contudo, essa notificação não deve configurar quebra de sigilo profissional – os dados pessoais da paciente não podem ser revelados, apenas os números e circuns- tâncias dos casos atendidos, sempre preservando a anonimidade dos dados. A Portaria GM/MS 78, de 2021, regula a notificação e estabelece que “a comuni- cação dos casos de violência contra a mulher à autoridade policial deverá ser feita de forma sintética e consolidada, não contendo dados que identifiquem a vítima e o profissional de saúde notificador”. Em crianças e adolescentes menores de 18 anos de idade, a suspeita ou a confirma- ção de abuso sexual deve, obrigatoriamente, ser comunicada ao Conselho Tutelar Fique por dentro Conheça a Portaria GM/MS 78 na íntegra. https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-gm/ms-n-78-de-18-de-janeiro-de-2021-299578776 https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-gm/ms-n-78-de-18-de-janeiro-de-2021-299578776 Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 47 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil ou à Vara da Infância e da Juventude. Na falta desses órgãos, deve-se comunicar à Vara de Justiça existente no local ou à Delegacia, sem prejuízo de outras medidas legais, conforme o artigo 13 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Fique por dentro Para que você saiba exatamente o que deve fazer legalmente em caso de violência sexual contra crianças e adolescentes, leia o Estatuto da Criança e do Adolescente. Teste seus conhecimentos Veja este caso clínico e coloque V ou F nas afirmações seguintes. Caso clínico: Uma paciente chega a um serviço de emergência da maternidade em que você trabalha com resultado de gravidez afirmando que a gestação é resultado de violência sexual. ( ) Você a escuta tentando identificar possíveis contradições em sua narrativa. ( ) Você a escuta e a acolhe entendendo que resgatar uma situação de violência e narrá-la implica acessar um momento de dor e sofrimento e que é possível que haja confusão, medo e angústia. ( ) Você a escuta procurando identificar possíveis comportamentos que indiquem tratar-se de uma mentira, tais como tipo de vestimenta ou comportamento sexual. ( ) Você a escuta e a acolhe entendendo que não é seu papel fazer qualquer tipo de julga- mento, mas sim oferecer um atendimento respeitoso e digno. ( ) Se a pessoa for casada e estiver em uma situação de conjugalidade, você descarta a possibilidade de que tenha sido estupro. ( ) Você reconhece a possibilidade de estupro marital (dentro da relação conjugal) ou mesmo que possa haver violência sexual de pessoa casada e que é preciso pressupor veracidade de que a gestação seja decorrente da violência sofrida, independente- mente de haver situações de relação consentida eventuais também. ( ) Você a encaminha para registrar boletim de ocorrência. ( ) Você aciona o serviço de aborto previsto em lei ou profissional assistente social para dar início ao processo de acolhimento. (Respostas: F, V, F, V, F, V, F, V) Feedback positivo: Se você acertou todas as alternativas anteriores, está no caminho para oferecer um cuidado de qualidade para os seus pacientes. Feedback negativo: Se você errou alguma das situações anteriores, talvez seja bacana retornar e ler novamente o conteúdo anterior. Como você pôde perceber, em casos de violência sexual são necessários muitos cuidados. Agora, siga em frente para saber como a equipe de saúde deve atuar na última situação de abortamento previsto em lei no Brasil, que é a anencefalia fetal. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 48 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Anencefalia fetal Nos casos de anencefalia fetal, os documentos necessários para que possa ser realizado o abortamento são: 1 - Exame de ultrassonografia com diagnóstico de anencefalia assinado por dois profissionais de medicina. 2 - Documento contendo o consentimento da pessoa gestante (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido). De acordo com o Ministério da Saúde, nas situações em que a pessoa gestante realizar a opção esclarecida pela interrupção da gestação, é importante que você profissional de saúde a informe sobre os riscos de recorrência da anencefalia e a oriente quanto ao acesso aos programas de planejamento familiar com assistência à contracepção (BRASIL, 2014). Além disso, cabe destacar que existem outros diagnósticos de anomalias fetais com inviabilidade de vida extrauterina, contudo a decisão do Supremo Tribunal Federal só permite a interrupção em caso de anencefalia. Nessas outras situações, pode-se solicitar a realização do abortamento ao poder judiciário, que, entendendo ser o caso, expedirá um alvará judicial. O pedido deverá ser instruído com os mesmos documentos necessários para o procedimento no hospital. A seguir, você verá como deve proceder em casos de abortamento de menores de idade e quais normas regem esses casos. Atendimentos a menores de idade Atendimento a menores de idade pode suscitar dúvidas, assim requer mais cuida- dos. Por isso separamos uma seção que trata especificamente desses casos. Normalmente nesses casos a família está envolvida e é bom saber o que pode ou não ser revelado a ela. Veja o que diz o Código de Ética Médica: Fique por dentro Leia aqui a Norma Técnica de Atenção às Mulheres com Gestação de Anencéfalos, do Ministério da Saúde. É vedado ao médico revelar segredo profissional referente a paciente menor de idade, inclu- sive a seus pais ou responsáveis legais, desde que o adolescente tenha capacidade de avaliar seu problema e de conduzir-se por seus próprios meios para solucioná-los, salvo quando a não revelação possa acarretar danos ao paciente (art. 103). https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/atencao_mulheres_gestacao_anencefalos.pdf https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/atencao_mulheres_gestacao_anencefalos.pdf https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/atencao_mulheres_gestacao_anencefalos.pdf https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/atencao_mulheres_gestacao_anencefalos.pdf https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/atencao_mulheres_gestacao_anencefalos.pdf https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/atencao_mulheres_gestacao_anencefalos.pdf Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 49 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Agora veja o que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): “a) Conside- ra-se criança a pessoa menor de 12 anos de idade; e adolescente, a partir dos 12 e antes de completar 18 anos; e b) Deve prevalecer o princípio do respeito à sua opinião e vontade.” A assistência à saúde da menor de 18 anos em abortamento deve se submeter ao princípio da proteção integral. Se a revelação à família for feita para preservá-la de danos, estaria afastado o crime de revelação de segredo profissional. Entretanto, a revelação do fato também pode acarretar prejuízos ainda mais graves, como o seu afastamento do serviço de saúde pela família e consequentemente a perda da confiança nos(as) profissionais de saúde que a assistem. A decisão, qual- quer que seja, deve estar justificada no prontuário da adolescente. O princípio da proteção integral, que orienta todo o ECA, determina que crianças e adolescentes sejam tratados como sujeitos de direito, recebam prioridade absoluta e sejam respeitadasem sua condição especial de pessoas em desenvolvimento. Princípio da proteção integral Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 50 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Teste seus conhecimentos Veja este caso clínico e assinale a alternativa correta após a leitura. Caso clínico: Você acabou de se formar e está trabalhando em uma unidade básica de saúde em uma cidade próxima à capital onde se graduou. Chega para acolhimento pela equipe de enfer- magem uma paciente de 12 anos, acompanhada da mãe, com atraso menstrual e náuseas. Você discute o caso, solicita B-hcg e confirma a gestação. Com esse resultado é esperado: a) ( ) Iniciar o pré-natal, solicitar exames e agendar retorno em um mês. b) ( ) Encaminhar para conselho tutelar. c) ( ) Encaminhar para serviço de aborto previsto em lei. d) ( ) Explicar se tratar por lei de estupro de vulnerável e orientar sobre a possibilidade de encaminhamento para serviço de aborto previsto em lei, contactar o conselho tutelar e preencher a ficha de notificação epidemiológica de violência. Feedback positivo: Se você respondeu a letra D, está correto. Meninas jovens, menores de 14 anos, são muitas vezes encaminhadas para pré-natal quando deveriam ser informadas sobre o direito à interrupção legal da gestação, ainda que a relação tenha sido consentida. Do ponto de vista legal, trata-se de estupro de vulnerável. Feedback negativo: Se você respondeu A, B ou C ... Todos os anos, cerca de 20 mil bebês nascem de mães meninas com idade entre 10 e 14 anos. Do ponto de vista legal, trata-se de estupro de vulnerável. Então é fundamental que o(a) profissional de saúde esteja atento(a) às circunstâncias em que essa gestação ocorreu, ao contexto de vulnerabilidade em que a criança e/ou adolescente possa estar inserida, inclusive no ambiente doméstico/fami- liar. Assim, antes de iniciar pré-natal ou realizar encaminhamento do caso ao conselho tutelar, deve-se realizar a notificação epidemiológica de violência e conversar com a pessoa gestante e seu(sua) cuidador(a)/responsável sobre o direito à interrupção da gestação. Agora, abordaremos um aspecto que pode surgir no contexto da assistência às pessoas em situação de abortamento, que é a objeção de consciência. Vamos entender melhor o que é isso? Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 51 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Objeção de consciência Segundo Diniz, a objeção de consciência é: [...] um dispositivo normativo de códigos profissionais e de políticas públicas que visa prote- ger a integridade de pessoas envolvidas em uma situação de conflito moral. Em um conflito entre deveres públicos e direitos individuais, esse dispositivo é acionado para proteger a moral privada do indivíduo, como no caso do profissional de medicina ou enfermagem que decla- ra objeção de consciência para não atender uma mulher que deseja abortar legalmente. Em nome de convicções individuais, esse dispositivo protegeria o sentimento de integridade moral do profissional, ao autorizá-lo a não participar de um procedimento que acredita ser moral- mente errado, embora legal. (2011, p. 982). Profissionais de saúde podem invocar a objeção de consciência e recusar a realiza- ção do abortamento. No entanto, é seu dever profissional informar a pessoa sobre seus direitos e garantir o acesso ao serviço de abortamento previsto em lei, enca- minhando-a para outro(a) profissional da instituição ou de outro serviço. É importante ressaltar que existem casos em que não é possível invocar a objeção de consciência. Essas situações são as seguintes: 1 Risco de morte para a pessoa gestante. 4 Quando inexistente outro profissional que o faça, nas situações de abortamento previsto em lei. 2 Quando a paciente puder sofrer danos ou agravos à saúde em razão da omissão profissional. 3 No atendimento de complicações derivadas do abortamento inseguro, por se tratar de casos de urgência. 5 No cuidado pós-aborto. Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 52 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil A seguir, conheça o que dizem o Código de Ética Médica e o Código de Enfermagem, para que não fique dúvida sobre o que você pode ou não fazer. Primeiro, observe o que diz o Código de Ética Médica: O médico deve exercer a profissão com ampla autonomia, não sendo obrigado a prestar serviços profissionais a quem ele não deseje, salvo na ausência de outro médico, em casos de urgência ou quando sua negativa possa trazer danos irreversíveis ao paciente (art. 7). É seu direito: “recusar a realização de atos médicos que, embora permitidos por lei, sejam contrários aos ditames de sua consciência” (art. 28). É vedado: “descumprir legislação específica nos casos de transplante de órgãos ou tecidos, esterilização, fecundação artificial e abortamento” (art. 43). “[...] efetuar qualquer procedimento médico sem o esclarecimento e o consentimento prévios do paciente ou de seu responsável legal, salvo em iminente perigo de vida” (art. 48). 1 2 3 4 Agora, veja o que diz o Código de Enfermagem e como que ele trata desse assunto: É proibido “Negar assistência de enfermagem em situações de urgência, emergência, epidemia, desastre e catástrofe, desde que não ofereça risco a integridade física do profissional” (art. 76). É dever “Respeitar o direito do exercício da autonomia da pessoa ou de seu representante legal na tomada de decisão, livre e esclarecida, sobre sua saúde, segurança, tratamento, conforto, bem-estar, realizando ações necessárias, de acordo com os princípios éticos e legais” (art. 42). É proibido provocar aborto, ou cooperar em prática destinada a interromper a gestação, exceto nos casos permitidos pela legislação vigente (art. 73). Parágrafo único. Nos casos permitidos pela legislação, o profissional deverá decidir de acordo com a sua consciência sobre sua participação, desde que seja garantida a continuidade da assistência. Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 53 Aula 2. Serviços de atenção ao abortamento previsto em lei no Brasil Em caso de omissão de socorro, o(a) profissional de saúde pode ser responsabiliza- do(a) civil e criminalmente pela morte da pessoa ou pelos danos físicos e mentais que ela venha a sofrer, pois podia e devia agir para evitar tais resultados. O arti- go 13, parágrafo 2º do Código Penal, estabelece ser relevante a omissão “quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância”, que é o caso de profissionais de saúde que fizeram a opção por uma profissão de cuidado. Como você pôde observar, os códigos de ética de diferentes categorias profissio- nais asseguram a você profissional de saúde o direito de recusar o atendimento em caso de conflito com sua consciência. Mas essa recusa não pode acontecer quando a negativa do atendimento coloca em risco a vida da pessoa que busca cuidados ou quando se trata de emergência. Em todas as situações de objeção de consciência, o atendimento deve ser garantido por outro(a) profissional de saúde, pois o exercício do direito profissional não pode significar a negativa do direito à saúde da paciente. Fique por dentro Acesse o Código de Ética Médica e o Código de Enfermagem para saber mais sobre o assunto. Você chegou ao final desta aula. Nela você conheceu as situações em que o aborta- mento é previsto em lei no Brasil. Viu também o que é responsabilidade de profis- sionais de saúde nesses casos. Siga em frente! Dessa forma, é dever do estado manter nos hospitais públicos profissionais que realizem o procedimento do abortamento. E, caso a pessoa venha a sofrer preju- ízo de ordem moral, física ou psíquica em decorrência da omissão, poderá haver responsabilização civil, administrativa,penal e/ou institucional. É proibido “Negar assistência de enfermagem em situações de urgência, emergência, epidemia, desastre e catástrofe, desde que não ofereça risco a integridade física do profissional” (art. 76). É dever “Respeitar o direito do exercício da autonomia da pessoa ou de seu representante legal na tomada de decisão, livre e esclarecida, sobre sua saúde, segurança, tratamento, conforto, bem-estar, realizando ações necessárias, de acordo com os princípios éticos e legais” (art. 42). É proibido provocar aborto, ou cooperar em prática destinada a interromper a gestação, exceto nos casos permitidos pela legislação vigente (art. 73). Parágrafo único. Nos casos permitidos pela legislação, o profissional deverá decidir de acordo com a sua consciência sobre sua participação, desde que seja garantida a continuidade da assistência. https://portal.cfm.org.br/images/stories/biblioteca/codigo%20de%20etica%20medica.pdf https://portal.cfm.org.br/images/stories/biblioteca/codigo%20de%20etica%20medica.pdf http://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-5642017_59145.html Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 54 • Compreenda a importância do acolhimento empático e respeitoso à pessoa que aborta. • Conheça as diferentes formas de apresentação das situa- ções de abortamento e os cuidados necessários. • Conheça as evidências científicas relacionadas ao aborta- mento nas suas diversas formas. • Saiba como realizar o procedimento de abortamento medi- camentoso. Abortamento e evidências científicas Aula 3 Medicina baseada em evidências A Medicina Baseada em Evidências (MBE) é um movimento acadêmico que busca trazer de forma crítica as evidências científicas disponíveis nas diversas publica- ções para a prática em saúde. Dessa maneira, recomenda-se que as decisões em saúde sejam baseadas nas melhores evidências científicas disponíveis – como dados epidemiológicos e revi- sões sistemáticas – associadas às preferências e necessidades da pessoa que rece- be o atendimento. Aplicaremos essa abordagem nesta aula, discutindo importan- tes aspectos do acolhimento à pessoa que aborta. Você pode saber mais no livro de José Nunes de Alencar Neto: “Manual de Medi- cina Baseada em Evidências – como interpretar artigos científicos”, de 2021 (Editora Sanar). No Brasil, a Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Aborto, publicada em 2005 e atualizada pela última vez em 2014 pelo Ministério da Saúde, é um guia indispensável de acolhimento adequado para os casos de abortamento. Fique por dentro Consulte também o site “Medicina baseada em evidências” do professor Luis Correa, da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, e seus podcasts. Conheça a Norma Técnica de Atenção Humanizada do Aborto na íntegra. É científico! http://medicinabaseadaemevidencias.blogspot.com http://medicinabaseadaemevidencias.blogspot.com https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2018/01/Aten%C3%A7%C3%A3o-humanizada-ao-abortamento-2014.pdf https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2018/01/Aten%C3%A7%C3%A3o-humanizada-ao-abortamento-2014.pdf https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2018/01/Aten%C3%A7%C3%A3o-humanizada-ao-abortamento-2014.pdf Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 55 Você pode observar que citamos os níveis primário, secundário e terciário de servi- ços de atenção à saúde das mulheres. É importante que você entenda o que é cada um desses níveis: Acolhimento com orientações e informações corretas, adaptadas às necessidades de saúde física e mental da pessoa sob cuidados. 2 Integração com os níveis primário, secundário e terciário de serviços de atenção à saúde das mulheres e outras pessoas que gestam. 4 Atenção clínica de qualidade ao abortamento e suas complicações, de acordo com os referenciais éticos, legais e bioéticos. 1 Parceria com a comunidade de forma que as pessoas sejam acolhidas e apoiadas, prevenindo gestações indesejadas e abortamentos inseguros. 5 Orientações de planejamento reprodutivo, contracepção e gestação após o aborto.3 A Norma Técnica estabelece que as seguintes ações são essenciais nos serviços em saúde: Atenção primária à saúde: é a porta de entrada em serviços de saúde, em que cerca de 80% dos problemas em saúde são resolvidos ou acompanhados. Corresponde aos atendimentos em Unidades Básicas de Saúde e às ações de educação em saúde no território (nas comunidades, escolas, etc.). Atenção secundária à saúde: corresponde aos acompanhamentos em ambulatórios de especialidades focais para casos mais complexos, por exemplo a ginecologia e a radiologia. Há maior emprego de tecnologias como exames de imagem. Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 56 Atenção terciária à saúde: são os serviços de atendimento de condições de saúde muito complexas com necessidade de internação/cirurgia. Eles são compostos por hospitais com leitos de UTI e equipes de reabilitação. As ações essenciais citadas devem ser prática rotineira nos serviços e, sempre que possível, podem ser abordadas em reuniões clínicas, discussão de casos, apresen- tação de artigos científicos e pauta de organização de fluxo entre serviços nos dife- rentes níveis de atenção à saúde. Após entender os diferentes níveis de atenção à saúde, você consegue rela- cionar situações de atendimento ao abortamento nesses diversos níveis? Ponto de reflexão Gestações indesejadas A pesquisa Nascer no Brasil avaliou gestações de 2011 a 2012 em todo o país e concluiu que 55,4% dessas gestações não foram planejadas, principalmente entre adolescentes, usuárias de drogas e portadoras de doenças crônicas. A pesquisa ainda demonstrou que 29,9% das mulheres não desejavam engravidar em momento algum da vida, no momento atual ou no futuro, e, ainda, que as mulhe- res que planejam suas gestações são majoritariamente brancas (52,7%), de maior escolaridade (59,3%), com idade acima de 35 anos (52%) e relações estáveis (casa- das ou com companheiro – 49,5%). É importante destacar que uma gestação indesejada ocorre por diversos motivos. Um deles é porque os métodos contraceptivos são falhos ou inacessíveis e podem causar vários efeitos colaterais que implicam o abandono do seu uso. Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 57 Outro motivo é a necessidade de negociar o uso do preservativo, que por vezes é fruto de desacordo entre o casal. E há ainda, infelizmente, casos de violência sexual e falta de consentimento na relação sexual que resultam em uma gestação indesejada. Você já parou para refletir sobre as diversas situações que levam a uma gestação indesejada? Consegue imaginar outras situações além das que apontamos aqui? Ponto de reflexão Você, profissional de saúde, pode se deparar com situações como as descritas ante- riormente, nos mais diversos cenários da área da saúde: são comuns queixas de atraso menstrual e suspeita de gestação em consultas de pronto-atendimentos ou ambulatoriais de ginecologia e obstetrícia, em emergências, nos atendimentos de atenção primária à saúde, em visitas domiciliares e até mesmo em conversa com pessoas próximas e familiares. Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 58 Acolher e ouvir essa pessoa é fundamental, assim como não realizar julgamentos sobre o relato e identificar e informar os próximos cuidados de forma sigilosa. Como já abordamos antes, a confirmação de gravidez nem sempre é motivo de alegria e comemoração. Não parabenize um resultado positivo a menos que já tenha conhecimento de que se trata de uma gravidez desejada. Perguntar como a pessoa se sente com essa notícia é uma abordagem empática erespeitosa. É importante entender as situações de gestação indesejada para acolher casos de abortamento que podem surgir durante sua vida profissional. O Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) é uma ferramenta que pode ser aplicada em todos os atendimentos e nos faz refletir sobre como o processo de cuidado é único para cada pessoa. O MCCP é definido pelos seguintes passos: Saber realizar uma comunicação empática e respeitosa e identificar situações de violência e gestação indesejada é dever ético. Explorando a saúde, a doença e a experiência da doença: sentimentos e ideias em relação à situação, impactos na funcionalidade e expectativas devem ser abordados. Intensificando a relação entre a pessoa e o profissional da medicina: o vínculo é criado com a equipe em saúde por meio da longitudinalidade e confiança. Elaborando um plano conjunto de manejo dos problemas: de maneira informada e acolhedora deve-se chegar a um plano de cuidado que estimule a autonomia de escolhas em saúde. Entendendo a pessoa como um todo: as particularidades individuais, fase de vida e contexto em comunidade são únicos para cada pessoa. Para saber mais sobre MCCP, leia o livro Medicina centrada na pessoa: transformando o método clínico, de Stewart et al. É científico! https://www.slowmedicine.com.br/wp-content/uploads/2018/09/STEWART-et-al-2017_Medicina-Centrada-na-Pessoa_-Tr-Moira-Stewart.pdf https://www.slowmedicine.com.br/wp-content/uploads/2018/09/STEWART-et-al-2017_Medicina-Centrada-na-Pessoa_-Tr-Moira-Stewart.pdf https://www.slowmedicine.com.br/wp-content/uploads/2018/09/STEWART-et-al-2017_Medicina-Centrada-na-Pessoa_-Tr-Moira-Stewart.pdf https://www.slowmedicine.com.br/wp-content/uploads/2018/09/STEWART-et-al-2017_Medicina-Centrada-na-Pessoa_-Tr-Moira-Stewart.pdf Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 59 Agora que você entendeu os contextos de uma gravidez indesejada e os conceitos de medicina baseada em evidências e método clínico centrado na pessoa, conheça a seguir as diferentes situações de abortamento. Abortamento espontâneo O abortamento espontâneo é a perda de uma gestação sem qualquer intervenção e afeta cerca de 20% das gestações diagnosticadas. Segundo Griebel et al. (2005), ele pode ser subdividido em: Agora que você já sabe o que é o MCCP, como você aplicaria esse método às situações de abortamento? Ponto de reflexão Ameaça de abortamento Aborto retido Aborto recorrenteAborto incompleto Aborto completo Você deve ter atenção para os aspectos emocionais de pacientes e suas parcerias e se informar se a gestação é desejada. Nesse caso, há risco aumentado de depres- são e ansiedade até um ano após a ocorrência de um abortamento espontâneo, e é preciso providenciar aconselhamento para que a pessoa possa lidar com sentimen- tos como culpa e luto, e com pessoas próximas e familiares (GRIEBEL et al., 2005). Você já tinha conhecimento desse método? Ele é um aliado no atendimento huma- nizado e no acolhimento que toda pessoa deve receber quando procura a ajuda de profissionais de saúde. Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 60 Além do abortamento, é importante diferenciar a causa etiológica do sangramen- to. Um sangramento no primeiro trimestre pode ser sinal de gravidez ectópica, doença trofoblástica ou doenças ginecológicas, tais como sangramento cervical pela presença de pólipos, colo friável, trauma ou câncer cervical. Nesses casos, toda a equipe envolvida no cuidado multiprofissional pode entrar em diálogo com a pessoa em situação de abortamento espontâneo, cobrindo os seguintes pontos. Gravidez ectópica Gravidez extrauterina, ou seja, implantação de óvulo fecundado fora do útero. Doença trofoblástica Também chamada de gravidez molar, é a proliferação de células tumorais no útero, com sintomas semelhantes à gestação. Colo friável Colo uterino que sangra desproporcionalmente ao toque realizado com instrumentos. Cuidados em saúde • Identifique se é uma gravidez desejada ou não, tenha empatia com os sentimentos que a pessoa possa expressar, como alívio e tranquilidade. • Reconheça e tente dissipar sentimentos de culpa, caso você os identifique. • Reconheça e legitime o luto. • Aconselhe como contar para familiares e pessoas próximas sobre o abor- tamento. • Inclua, se houver, a parceria no acolhimento. • Ofereça conforto, empatia e suporte ao longo do tempo. Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 61 Esses são cuidados importantes que você deve priorizar em seu atendimento. Veja a seguir os tipos de abortamento. Ameaça de abortamento A ameaça de abortamento define-se como sangramento vaginal de primeiro trimes- tre, geralmente indolor ao exame físico, com concepto vivo e sem dilatação cervical. Quando uma causa é identificada, o tratamento direcionado pode reduzir taxas de abortamento. Apesar disso, a fisiopatologia permanece desconhecida na grande maioria de casos, o que pode gerar frustração em pacientes, visto que, se não há causa identificável, também não há tratamento específico que possa modificar o curso, permanecendo a ameaça. Após uma ameaça de abortamento, é comum recomendar-se repouso no leito e ausência de relações sexuais, porém essas recomendações não têm benefícios comprovados (ALVES et al., 2019). Não havendo regressão do sangramento ou caso surjam sinais de alarme para infecção como febre, dor pélvica e corrimento fétido, deve-se orientar o retorno breve para reavaliação. Abortamento completo Ocorre quando há sangramento e cólicas com expulsão completa de material ovular. Ao exame físico, pode-se observar se o colo do útero está aberto, e ao ultrassom não há conteúdo ovular, podendo haver coágulos sanguíneos. A notícia de um abortamento completo pode ser motivo de tristeza ou de alívio, e é importante atentar-se aos sinais verbais e não verbais para acolher a pessoa que passa por um abortamento completo. Deve-se orientar, assim como na ameaça de abortamento, a pessoa a ficar atenta aos sinais de alarme para infecção após o abortamento, como febre, dor pélvica e corrimento fétido. Caso ocorram, oriente que retorne ao serviço de saúde para que seja avaliada. Abortamento de repetição Quando a pessoa já teve três ou mais abortamentos consecutivos, isso é classifica- do como abortamento de repetição, ou habitual. Tais casos devem ser encaminha- Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 62 dos para investigação. Para uma pessoa com desejo gestacional, a situação pode ser motivo de muita frustração e preocupação e, portanto, demanda cuidado e acolhimento empático da equipe multiprofissional. Nos casos de abortamentos recorrentes sem causa, a suplementação com proges- tágenos, medicamentos semelhantes ao hormônio sexual progesterona, pode dimi- nuir os índices de abortamento nas gestações subsequentes. (COCHRANE, 2019). Abortamento incompleto Quando a pessoa tem como queixas sangramento vaginal e cólicas, pode ser um caso de abortamento incompleto. Nesse caso, são encontrados restos ovulares no exame de ultrassom e no exame físico, e o colo do útero estará aberto. Pode-se orientar a conduta expectante, medicamentosa ou cirúrgica, que veremos mais adiante. Abortamento retido No abortamento retido, não há perda sanguínea e, ao exame físico, o colo do útero está fechado. Desconfie desse diagnóstico quando: há regressão de sintomas de gestação (como mastalgia e náuseas); quando não há compatibilidade da idade gestacional com o tamanho uterino; ou se, ao ultrassom, não há batimentos fetais com embrião com mais de 7 milímetros; ou saco gestacional maior que 25 mm sem embrião. Nesses casos, também pode-se orientar a conduta expectante, medicamentosa ou cirúrgica, queveremos a seguir. Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 63 Conduta expectante A conduta expectante é uma possibilidade pouco oferecida em serviços de saúde, mas indicada por respeitadas referências da área médica. Ela consiste no acompa- nhamento ambulatorial até a eliminação completa do material ovular ou por admi- nistração de medicamentos. O National Institute for Health and Care Excellence (NICE) recomenda conduta expectante por sete a quatorze dias após o abortamento ser diagnosticado por ultrassom. Já o American College of Obstetricians and Gynaecologists (ACOG) sugere aguardar até oito semanas. Caso haja esvaziamento incompleto, deve-se oferecer tratamento complementar medicamentoso ou cirúrgico (AMIU). A Cochrane publicou revisão sistemática em 2017 e concluiu que o tratamento médi- co com misoprostol e os cuidados expectantes são alternativas aceitáveis à evacua- ção cirúrgica de rotina, dada a disponibilidade de recursos do serviço de saúde para apoiar qualquer uma das três abordagens (expectante, medicamentosa ou cirúrgica). A conduta expectante pode aumentar a necessidade de esvaziamento cirúrgico de urgência, com maior risco de sangramento volumoso quando comparada ao procedimento de esvaziamento uterino cirúrgico. Por isso, deve ser indicada para pacientes selecionadas, sem sinais de gravidade, a partir de decisão informada e compartilhada com a pessoa (CHU et al., 2020). Ao optar por conduta expectante (feita no domicílio da paciente), devem estar claros os sinais de alarme para que a pessoa busque serviço de saúde rapidamente: sangramento volumoso, febre ou corrimento vaginal fétido. Saiba mais sobre essas recomendações visitando os sites do NICE e ACOG. É científico! Veja a revisão sistemática na Biblioteca Cochrane na íntegra aqui. É científico! Aborto retido Aborto incompleto Diagnóstico de aborto Cuidado centrado na pessoa https://www.nice.org.uk/guidance/ng126 https://www.acog.org/clinical/clinical-guidance/practice-bulletin/articles/2018/11/early-pregnancy-loss https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD007223.pub4/full Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 64 Misoprostol administrado via vaginal, oral ou sublingual Dose, via de administração, quantidade e periodicidade de repetições Quando disponível: oferecer mifepristona Manejo medicamentoso Incertezas 7/14 dias NICE Duração da conduta expectante 8 semanas ACOG Conduta expectante Incertezas AMIU com anestesia local Melhor via de anestesia Curetagem com anestesia geral Manejo cirúrgico Incertezas Você viu até aqui as situações de abortamento espontâneo com foco em evidências científicas e comunicação em saúde. Agora, vamos aprender sobre os procedimen- tos, que podem ser cirúrgicos ou medicamentosos. Acompanhe! Aborto medicamentoso Agora você verá quais os procedimentos medicamentosos utilizados em casos de abortamento. Abortamento medicamentoso O aborto medicamentoso é realizado por meio da administração de fármacos, podendo ser realizado no primeiro trimestre, e é método de escolha no segundo trimestre, complementado por esvaziamento cirúrgico se necessário. As medi- cações utilizadas no aborto medicamentoso são: a mifepristona e o misoprostol. Vamos entender cada uma delas a seguir: Mifepristona A mifepristona é uma medicação com efeito hormonal que se liga a receptores de progesterona inibindo sua ação e impedindo a continuidade da gestação. Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 65 É uma medicação que aumenta a taxa de sucesso no tratamento de abortos retidos e incompletos e também na indução de abortamentos. Contudo, em razão do estigma social e da criminalização do aborto, esse é um medicamento que não está registrado em vários países, inclusive o Brasil. Misoprostol O misoprostol é um análogo de prostaglandina que promove contratilidade uteri- na. Veja a seguir um pouco da história e das características desse medicamento: Descoberto em 1973, foi registrado no Brasil em 1986 sob o nome comercial Cytotec para o tratamento de úlceras gástricas e podia ser facilmente adquirido em farmácias sem receita médica. 1 Rapidamente, passou a ser conhecido e amplamente utilizado entre as mulheres brasileiras para indução de abortamentos, pois o remédio provoca contrações uterinas semelhantes a um abortamento espontâneo, levando ao esvaziamento do útero, com sangramento e cólica. 2 Atualmente, o misoprostol faz parte dos componentes da farmácia básica na relação nacional de medicamentos essenciais (RENAME), mas sua utilização segue restrita a estabelecimentos de saúde autorizados, o que dificulta o acesso para situações cotidianas da assistência à saúde. 4 Nos anos 1990, o misoprostol podia ser comprado em farmácias mediante prescrição médica. Mas, em 1998, foi classificado como substância sujeita a controle especial pela Portaria n. 344/1998, sendo seu uso autorizado apenas para hospitais previamente registrados e com necessária autorização especial para a produção, importação e distribuição. 3 Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 66 Foi pela observação do uso desse medicamento entre mulheres brasileiras que se passou a pesquisar farmacologicamente seu efeito abortivo e, a partir dessas inves- tigações, descobriram-se seus inúmeros outros usos em ginecologia e obstetrícia. Indução de partos e abortamento. Controle de hemorragia pós-parto. Dilatação do colo uterino antes de procedimentos como histeroscopia e inserção de dispositivo intrauterino (DIU). Outros usos: Em alguns países, o abortamento medicamentoso pode ser realizado em serviço de saúde ou em domicílio – este último é conhecido como autoaborto medica- mentoso. O abortamento nesse modelo amplia o acesso e aumenta a autonomia no exercício de direitos sexuais e reprodutivos. A situação de pandemia de Covid-19 ampliou essa realidade, que tem se mostra- do mais do que uma opção provisória (ASSIS; LARREA, 2020). Em diversos luga- res já estão estabelecidos protocolos para abortamento medicamentoso domi- ciliar apoiado por orientações em telemedicina, como no Reino Unido, França, Colômbia e na Austrália. Além disso, o abortamento medicamentoso por telemedicina é indicado como uma medida de autocuidado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e endos- sado como uma intervenção permanente de saúde reprodutiva pela Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia. Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 67 O aborto medicamentoso, tanto hospitalar quanto em domicílio, é muito eficaz, seguro e muito bem aceito pelas pessoas. Dados internacionais mostram que entre 86% e 97% dos abortamentos com mifepristona e misoprostol são completos. Um estudo qualitativo feito na Suécia, nos anos de 2009 e 2010, avaliou a experi- ência de casais que abortaram em domicílio e concluiu que essa possibilidade trou- xe mais autonomia à saúde, possibilitou privacidade e controle da situação para poderem expressar sentimentos, além de permitir um atendimento respeitoso e empático que compartilha informações e decisões com a paciente. Hedqvist et al. (2016) concluíram que as informações sobre dor e sangramento fornecidas nos serviços de saúde foram consideradas insuficientes pelas mulheres, reforçando a necessidade de se fornecer informações adequadas, inclusive sobre efeitos colaterais comuns e as condutas possíveis quando ocorrerem. A revisão da Cochrane de 2014 avaliou a realização de abortos cirúrgicos ou medi- camentosos por profissionais de saúde de nível superior não médicos e concluiu que não havia diferença estatisticamentesignificativa no desfecho em abortamen- tos realizados no primeiro trimestre. Conheça o estudo Autonomy and dependence – experiences of home abortion, contraception and prevention para saber mais sobre o assunto. É científico! https://onlinelibrary.wiley.com/action/doSearch?ContribAuthorStored=Makenzius%2C+Marlene https://onlinelibrary.wiley.com/action/doSearch?ContribAuthorStored=Makenzius%2C+Marlene https://onlinelibrary.wiley.com/action/doSearch?ContribAuthorStored=Makenzius%2C+Marlene https://onlinelibrary.wiley.com/action/doSearch?ContribAuthorStored=Makenzius%2C+Marlene https://onlinelibrary.wiley.com/action/doSearch?ContribAuthorStored=Makenzius%2C+Marlene Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 68 É importante ressaltar que idealmente o abortamento medicamentoso deve ser realizado com a associação dos dois medicamentos, mifepristona e misoprostol, como indicado pela OMS. No entanto, a indisponibilidade de mifepristona no Brasil faz com que se utilize apenas o misoprostol. Outra revisão em 2020 demonstrou que é semelhante a eficácia do autoaborto medicamentoso comparada ao provido por profissional de saúde (COCHRANE, 2020). Além disso, o uso de pílula abortiva reduz complicações de abortamento e a mortalidade materna no mundo (SINGH, 2006). Protocolo para uso de misoprostol A posologia recomendada na Norma Técnica Atenção Humanizada ao Abortamen- to para o uso de misoprostol no abortamento de primeiro trimestre é a seguinte: Taxa de abortamento em cerca de 96,5% a 99,2% com mifepristona. Cerca de 90% sem mifepristona. (ou seja, 4 comprimidos de 200 mcg) a cada 3 horas, em 3 repetições (no total 2.400 mcg) em gestação com até 12 semanas. 800 mcg Se não ocorrer o abortamento em até 72 horas, o procedimento poderá ser repe- tido, nas mesmas doses, por até uma semana do início do tratamento. Nos casos de insucesso a AMIU ou a curetagem uterina (apenas se não for possível realizar a AMIU) são métodos aceitáveis de tratamento. No segundo trimestre é preconizado realizar medicação durante internação, na dose de 200 mcg de misoprostol a cada 12 horas por via vaginal (durante 48 horas). Repete-se o ciclo de tratamento em intervalos de três a cinco dias, respeitando-se o máximo de cinco repetições, até provocar o abortamento ou até que a pessoa apoiada por profissional de saúde decida passar a outras abordagens. No caso de gestações com mais de 24 semanas, é necessário reduzir a dose de miso- prostol devido à maior sensibilidade do útero as prostaglandinas, porém a falta de estudos clínicos impede realizar recomendações específicas de posologia (OMS). Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 69 Vaginal É a via preferencial: mais efetiva que a via oral e com menos efeitos colaterais que a via sublingual. O comprimido demora até quatro horas para se dissolver na vagina, e pode deixar vestígios. Indica-se colocar os quatro comprimidos no fundo da vagina e permanecer deitada por 30 minutos. 1 Sublingual Início de ação mais rápido, porém também apresenta maior incidência de efeitos colaterais como calafrios, febre, vômitos e diarreia em comparação à via vaginal. Alternativa para mulheres que apresentem grande dificuldade ou intolerância ao manejo próprio da via vaginal, situação não rara entre adolescentes e mulheres jovens que sofreram violência sexual antes da primeira relação sexual consentida. Pode ser aplicado em gestantes portadoras de deficiência mental que não permitam ou que não colaborem com o emprego da via vaginal. Indica-se colocar os comprimidos abaixo da língua, dois de cada lado da boca (quatro comprimidos no total) e engolir os resíduos após 30 minutos. 3 Bucal Maior incidência de colaterais como calafrios, febre, vômitos e diarreia em comparação à via vaginal. Indica-se colocar os dois comprimidos de cada lado da boca, entre a gengiva inferior e a bochecha (quatro comprimidos no total) e engolir os resíduos após 30 minutos. 2 A medicação pode ser utilizada via vaginal, sublingual ou bucal. Se administrada via sublingual, o intervalo precisa ser curto (de três em três horas) e os efeitos colaterais tendem a aumentar. Pela via vaginal, pode-se utilizar intervalos de três ou de 12 horas. Fonte: Prevenção e Tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes (MS, 2012). https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/prevencao_agravo_violencia_sexual_mulheres_3ed.pdf https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/prevencao_agravo_violencia_sexual_mulheres_3ed.pdf Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 70 Para o procedimento de aborto medicamentoso, não parece haver diferença de eficácia nos diversos regimes de uso de misoprostol para um abortamento incom- pleto, mas há dúvida em relação à melhor via de administração: vaginal ou oral. Está claro, porém, o efeito aditivo de eficácia na expulsão de saco gestacional em 24 horas com o uso de mifepristona (200 mg via oral), previamente ao uso de miso- prostol (800 mcg vaginal), quando comparado ao uso de misoprostol (800 mcg vaginal) isolado. As organizações NICE e ACOG recomendam a dose de 800 mcg de misoprostol vaginal para aborto retido e repetição de 600 ou 800 mcg se aborto incompleto. Vídeo com especialista Para saber mais sobre o abortamento medicamentoso acesse o ambiente virtual e assista ao vídeo com a médica de família e comunidade Carla Marques. Para as outras situações em que se indica o uso de misoprostol são recomendadas as doses a seguir: MISOPROSTOL SOZINHO REGIMES RECOMENDADOS 2017 < 13 semanas de gestação 13–26 semanas de gestação > 26 semanas de gestação8 Uso pós-parto Interrupção da gravidez1 800 μg VSl a cada 3 horas ou VV*/VB a cada 3–12 horas (2–3 doses) Interrupção da gravidez1,5,6 13–24 semanas: 400 μg VV*/VSl/VB a cada 3 horas 25–26 semanas: 200 μg VV*/VSl/VB a cada 4 horas Interrupção da gravidez1,5,9 27–28 semanas: 200 μg VV*/VSl/VB a cada 4 horas > 28 semanas: 100 μg VV*/VSl/VB a cada 6 horas Profilaxia da hemorragia pós-parto (HPP)2,10 600 μg VO (x1) ou prevenção secundária da HPP11 (perda de sangue aprox. ≥ 350 ml) 800μg VSl (x1) Aborto retido2 800 μg VV* a cada 3 horas (x2) ou 600 μg VSl a cada 3 horas (x2) Morte fetal1,5,6 200 μg VV*/VSl/VB a cada 4–6 horas Morte fetal2,9 27–28 semanas: 100 μg VV*/VSl/VB a cada 4 horas > 28 semanas: 25 μg VV* a cada 6 horas ou 25 μg VO a cada 2 horas Tratamento da HPP2,10 800 μg VSl (x1) Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 71 MISOPROSTOL SOZINHO REGIMES RECOMENDADOS 2017 < 13 semanas de gestação 13–26 semanas de gestação > 26 semanas de gestação8 Uso pós-parto Aborto incompleto2,3,4 600 μg VO (x1) ou 400 μg VSl (x1) ou 400–800 μg VV* (x1) Aborto inevitável2,3,5,6,7 200 μg VV*/VSl/VB a cada 6 horas Indução do parto2,9 25 μg VV* a cada 6 horas ou 25 μg VO a cada 2 horas Preparação cervical para aborto cirúrgico 400 μg VSl 1 hora antes do procedimento ou VV* 3 horas antes do procedimento Preparação cervical para aborto cirúrgico 13-19 semanas: 400 μg VV 3–4 horas antes do procedimento > 19 semanas: tem que ser combinado com outras modalidades Notas: 1 Se a mifepristona estiver disponível (preferencial), siga o regime posológico prescrito para mifepristona + misoprostol. 2 Incluído na Lista Modelo de Medicamentos Essenciais da OMS. 3 No caso de aborto incompleto/inevitável, a mulher deve receber tratamento com base em seu tamanho uterino e não na idade gestacional determinada por data da última menstruação (DUM). 4 Deixar surtir efeito durante uma ou duas semanas exceto no caso de hemorragia excessiva ouinfeção. 5 Pode ser administrada uma dose adicional caso a placenta não tenha sido expelida 30 minutos após a expulsão fetal. 6 Vários estudos limitaram a dosagem a cinco doses; a maioria das mulheres apresentou expulsão total antes da utilização das cinco doses, mas outros estudos continuaram para além das cinco doses e obtiveram uma taxa de sucesso total superior sem problemas de segurança. 7 Incluindo rotura das membranas quando parto for indicado. 8 Seguir o protocolo local no caso de cesárea prévia ou cicatriz uterina transmural. 9 Se apenas estiverem disponíveis comprimidos de 200 μg, podem ser preparadas doses inferiores dissolvendo-os em água (ver www.misoprostol.org). 10 Se não estiver disponível oxitocina ou se as condições de conservação forem inadequadas. 11 Opção para programas comunitários. Via de administração: VV: via vaginal VSl: sublingual (por baixo da língua) VO: oral VB: bucal (entre a bochecha) * Evitar VV (via vaginal) no caso de hemorragia e/ou sinais de infeção. A via retal não está incluída como via recomendada pelo fato de o perfil farmacocinético não estar associado à melhor eficácia por essa via. Fonte: Misoprostol: Regimes recomendados (FIGO, 2017). www.misoprostol.org https://www.figo.org/sites/default/files/2020-03/FIGO%20Dosage%20Chart%20%20-%20PORTUGUESE.pdf Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 72 Você conheceu até agora as evidências científicas no acolhimento às diversas formas de abortamento espontâneo e no abortamento medicamentoso. Também viu as diferentes dosagens e usos do misoprostol. Veja a seguir efeitos colaterais do uso da medicação e o que orientar caso ocorram. Cuidados em saúde Informe a pessoa que usou esse medicamento dos possíveis efeitos colaterais associados ao seu uso: • Náuseas: recomende o uso de antieméticos. • Dor: pode-se aplicar uma bolsa de água quente na região do baixo ventre e associar o uso de anti-inflamatórios como ibuprofeno e analgésicos como paracetamol e dipirona. Não é recomendado o uso de AAS. • Diarreia: tranquilize a paciente e oriente que é um processo autolimitado; ofereça também hidratação via oral. • Febre: pode acontecer por no máximo 24 horas após o uso da medicação. Se ocorrer mais que esse tempo, seja por procedimento cirúrgico ou medi- camentoso, pode haver o risco de infecção, assim oriente a pessoa a procu- rar um profissional de saúde para ser avaliada. Processo autolimitado Efeito esperado e que tem duração associada ao uso da medicação, que não se prolongará nem precisará de medicamentos para melhorar. Na próxima aula deste curso, você verá quais são os cuidados antes e após o abor- tamento. Antes disso, veja quais são os sinais de recuperação normal. Recuperação normal Você deve orientar a pessoa que passa por um abortamento medicamentoso sobre o que é normal ou não na sua recuperação. Estar acompanhada por alguém e avaliar a quantidade de sangramento são boas recomendações. É normal que ocorram cólica e sangramento de seis a 12 horas após o uso de medicação. A cólica pode ser aliviada com analgésicos leves e o sangramento não deve exceder o da menstruação normal. Uma nova menstruação pode ocorrer dentro das quatro a oito semanas seguintes. Em pacientes que têm alteração de coagulação, cardiopatia grave ou estão em uso de anticoagulante é indicado individualizar a conduta, pelo risco de complicações. No abortamento ocorrido no segundo trimestre, além das condições anteriores são incluídas as mulheres com cicatriz uterina prévia. Para esses casos, pode-se preferir a dilatação seguida de esvaziamento uterino. Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 73 Possíveis complicações Mesmo com risco mínimo, algumas complicações podem ocorrer. Veja quais são elas: Quando realizado de forma adequada, os riscos de um aborto medicamentoso são mínimos e o risco de morte é insignificante, segundo dados as Organização Mundial da Saúde. Além disso, a taxa de complicações é baixíssima, sendo a maioria eventos leves. Aborto incompleto – sintomas de sangramento, dor abdominal ou saída de tecido pelo colo uterino/vagina – pode ser tratado com aspiração ou com conduta expectante desde que a paciente esteja estável e seja sua vontade evitar procedimento cirúrgico. 1 Perfuração uterina – risco muito baixo e no geral não necessita de abordagem cirúrgica. Suspeitando-se de sua ocorrência deve-se iniciar antibioticoterapia e avaliar sinais vitais, podendo ser necessária avaliação laparoscópica. 3 Hemorragia – o sangramento vaginal diminui gradualmente após duas semanas de um aborto medicamentoso, mas em alguns casos pode persistir sangramento leve e spotting por até 45 dias, sangramento raramente forte o suficiente para se constituir em uma emergência. A paciente deve ser tranquilizada sobre as características que devem levá-la a procurar atendimento breve. 2 Ruptura uterina – maior risco associado a cicatriz uterina prévia e aumento de idade gestacional. Uma metanálise revelou que o risco de ruptura uterina nas mulheres já com um parto anterior por cesariana, submetidas a um abortamento induzido por misoprostol durante o segundo trimestre, era de 0,28 %. 4 Spotting Leve sangramento vaginal que ocorre fora do período menstrual. Metanálise Tipo de estudo que agrupa diferentes estudos e faz uma análise estatística para chegar a resultados mais confiáveis. Aula 3. Abortamento e evidências científicasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 74 É importante ressaltar que, como qualquer atendimento em saúde, profissionais precisam se manter atualizados(as) nos protocolos, ter boas práticas em comunica- ção e desempenhar o Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP). Abortamento e profissonais de saúde Vamos refletir nesse momento sobre como o abortamento é visto por profissionais de saúde. Um estudo realizado com estudantes de medicina de três universidades paulistas avaliou o conhecimento em abortamento medicamentoso por meio da aplicação de um questionário. Quase a totalidade de estudantes do último ano conhecia o uso de misoprostol, mas apenas 20% apresentaram conhecimento satisfatório. Os resultados são similares em outro estudo canadense. Outro estudo, chamado “Quanto mais perto você está, melhor você entende: a reação dos ginecologistas-obstetras brasileiros à gravidez indesejada”, demons- trou que profissionais de saúde aceitaram duas vezes mais que o abortamento era necessário quando a gravidez indesejada era deles ou de suas parcerias do que quando era de uma paciente. Esse estudo nos mostra, portanto, que o vínculo e a relação de proximidade aumen- tam a nossa empatia com a situação vivida por outras pessoas. Quanto mais nos aproximamos do tema, maior é a nossa capacidade de ter empatia. Leia os estudos Knowledge of medical abortion among Brazilian medical students e Making a case for abortion curriculum reform. Conheça na íntegra o artigo The Closer You Are, the Better You Understand: The Reaction of Brazilian Obstetrician— Gynaecologists to Unwanted Pregnancy. É científico! É científico! Nesta aula, você viu a importância do adequado acolhimento à pessoa que aborta com base em evidências científicas e as indicações de procedimento medicamen- toso. Na próxima aula você continuará estudando sobre o acolhimento das pessoas em situação de abortamento e pós-aborto, além de entender sobre o procedimen- to cirúrgico. Siga em frente! E você, qual o seu conhecimento sobre o tema? Como se sente em relação a situações de aborto enfrentados por outras pessoas? Conhece alguém que já teve um aborto? Ou já passou você mesma por um abortamento? Acha que isso muda sua percepção sobre o tema? Você já parou para refletir se as suas convicções pessoais afetam sua atuaçãoprofissional? Ponto de reflexão http://dx.doi.org/10.1016/j.ijgo.2012.05.004 http://dx.doi.org/10.1016/j.ijgo.2012.05.004 http://dx.doi.org/10.1016/j.ijgo.2012.05.004 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21272435/ https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21272435/ https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21272435/ https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1016/S0968-8080%2804%2924011-3 https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1016/S0968-8080%2804%2924011-3 https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1016/S0968-8080%2804%2924011-3 https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1016/S0968-8080%2804%2924011-3 https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1016/S0968-8080%2804%2924011-3 https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1016/S0968-8080%2804%2924011-3 Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 75 • Saiba como realizar os procedimentos de abortamento cirúrgico. • Reconheça a importância de desencorajar métodos de abor- tamento inseguro. • Conheça as evidências científicas sobre exames e procedi- mentos recomendados antes e depois de um abortamento. • Identifique os principais cuidados e sinais de alarme a serem orientados quando uma pessoa passa por um abortamento. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Aula 4 Procedimentos cirúrgicos Os métodos de esvaziamento cirúrgico incluem curetagem e aspiração manual intrauterina (AMIU), com anestesia local ou geral. Em ambos os procedimentos, o objetivo é alcançar o esvaziamento uterino completo. Você verá a seguir os detalhes de cada um dos métodos. Curetagem uterina Apesar de ser um procedimento arcaico, datado de 1843, a curetagem uterina continua sendo amplamente oferecida como principal opção terapêutica para abortos retidos e incompletos no Brasil. A curetagem é um método ultrapassado e não indicado pela Organização Mundial de Saúde, pois, apesar de serem raras as complicações, elas podem ser graves, como sangramento, infecção e perfuração uterina. Trata-se de um método invasivo, antiquado, muito doloroso e que deve ser substituído pelo AMIU ou pelo procedimento medicamentoso. Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 76 A curetagem é realizada após a dilatação do colo uterino com misoprostol ou dila- tadores (dilatadores de Denniston ou Velas de Hegar). Usa-se um instrumento que se assemelha a uma colher com face cortante para raspagem do conteúdo intraute- rino. Por ser um instrumento de material rígido, há maior risco de perfuração quan- do comparado ao AMIU. O método de aspiração é preferível à curetagem, pois apresenta menores taxas de infec- ção e sangramento, além de proporcionar recuperação mais rápida e menos dolorosa. As chances de complicações graves são 3 vezes maiores na curetagem do que na AMIU. Um ensaio clínico randomizado demonstrou que, em casos de gravidez com até 10 semanas, a aspiração não apenas é mais fácil e rápida, mas também gera menor perda sanguínea (OMS, 2012). Segundo a OMS (2012), nos lugares em que a curetagem ainda é praticada ela deve ser substituída por AMIU, porém, apesar dos pontos negativos e da recomendação contrária da OMS, a curetagem pós-abortamento é ainda o segundo procedimento obstétrico mais realizado na rede pública de serviços de saúde, superada apenas pelos partos normais. Esse uso pode ser explicado pelo baixo custo e pelo exercício do poder médico discipli- nador, ou seja, a curetagem é utilizada como forma de punição às pessoas que abortam. Aspiração manual intrauterina (AMIU) O esvaziamento cirúrgico por meio de aspiração manual intrauterina é o método de escolha, exceto nas situações em que a paciente esteja clinicamente instável, ou seja, com sangramento muito volumoso ou sinais de hipovolemia. A AMIU é um procedimento em que cânulas de diferentes diâmetros são inseridas no colo do útero acopladas a uma seringa, fazendo um vácuo manual ou mecânico para se realizar a aspiração. A aspiração manual intrauterina (AMIU) é o procedimento de escolha pela Fede- ração Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO). A taxa de abortamento completo é de 95 a 100%, segundo a OMS (2012). Dependendo da idade gestacional, o abortamento mediante aspiração a vácuo leva de três a dez minutos e pode ser feito de maneira ambulatorial, utilizando analgési- cos e anestesia local. Apesar disso, a maioria dos serviços no Brasil faz esse procedimento sob sedação anestésica em ambiente hospitalar, mesmo que a OMS não o recomende, “Não se recomenda a anestesia geral em forma de rotina para o abortamento por aspiração a vácuo ou para dilatação e evacuação” (OMS, 2013, p. 6). Diminuição de volume líquido corporal (plasma sanguíneo), causando sintomas como fraqueza, tontura e sensação de desmaio, além de sinais como hipotensão e taquicardia. Hipovolemia Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 77 AMIU CURETAGEM Eficácia no esvaziamento Altamente eficaz Altamente eficaz Complicações Menores taxas Maiores taxas Dilatação cervical Ocasionalmente Frequentemente Controle da dor Menor Maior Uso das instalações Sala de procedimentos Centro cirúrgico Permanência hospitalar Menor Pernoite É importante destacar que a AMIU é um procedimento muito seguro. Mas, mesmo sendo raras, podem ocorrer complicações: infecção pélvica, sangramento excessi- vo, laceração cervical, evacuação incompleta, perfuração do útero, complicações anestésicas e continuação da gravidez. Um estudo de 170.000 abortamentos durante o primeiro trimestre de gravidez avaliou em Nova York que mediante aspiração a vácuo menos de 0,1% das mulhe- res experimentaram complicações com necessidade de hospitalização (HAKIM- ELAHI; TOVELL; BURNHILL, 1990). Em revisão sistemática da Cochrane (1990) também se concluiu que eventos adver- sos são muito raros. Fique por dentro Conheça este estudo Complicações do aborto no primeiro trimestre: um relatório de 170.000 casos na íntegra. Vídeo com especialista Agora vá ao Ambiente Virtual e assista a um vídeo com a especialista Dra. Halana Faria para compreender melhor como é a utilização do método AMIU. Neste início de aula, você estudou os métodos cirúrgicos de esvaziamento uterino em situação de aborto: AMIU e curetagem. A seguir verá como se realiza o preparo do colo do útero para esses procedimentos. Fonte: Portal de boas práticas – Fundação Oswaldo Cruz (MS, 2018). Veja a seguir um quadro comparativo entre os dois procedimentos. Comparação: AMIU x Curetagem https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2359559 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2359559 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2359559 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2359559 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2359559 Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 78 Após 14 semanas Primeiro trimestre Recomenda-se qualquer desses métodos de preparação do colo uterino antes de um abortamento cirúrgico durante o primeiro trimestre: Os métodos recomendados para a preparação do colo uterino antes da dilatação e evacuação (D&E) depois das 14 semanas de gestação são os dilatadores osmóticos ou o misoprostol. 400 µg de misoprostol administrado por via sublingual, de 2 a 3 horas antes do procedimento; 400 µg de misoprostol administrado por via vaginal, 3 horas antes do procedimento. ou Pela necessidade de preparar o colo uterino (que significa proporcionar uma aber- tura para a passagem de AMIU ou cureta), muitas vezes há um prolongamento desnecessário do tempo de internação e também de espera pelo procedimento de esvaziamento uterino. Alguns hospitais têm protocolos de preparo uterino com múltiplas doses de miso- prostol, o que não é recomendado peloMinistério da Saúde ou pela FIGO, confor- me apresentado anteriormente. Você, profissional de saúde, deve prestar especial atenção a essas recomendações, pois, além de não terem respaldo científico, as múltiplas doses de misoprostol e o tempo de espera e internação ferem a dignidade da pessoa em situação de abortamento. Preparação para os procedimentos cirúrgicos Para ambos os procedimentos, curetagem e AMIU, há indicação de preparo do colo do útero com medicamentos e a dosagem depende da idade gestacional. Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 79 A Norma Técnica do Ministério da Saúde de 2014, relacionada à prevenção e trata- mento dos agravos resultantes da violência sexual, indica de 20 a 22 semanas como limite de idade gestacional para o abortamento previsto em lei. Contudo, esse limite é motivo de críticas, pois não está estabelecido em lei e restringe o direito das meninas e mulheres mais vulneráveis, que por vezes desco- brem tardiamente a gestação e encontram diversas barreiras de acesso ao serviço. É importante destacar aqui que os procedimentos para gestações com mais de 21 semanas devem ser realizados por profissional devidamente treinado com obser- vação contínua por ultrassom. O protocolo do Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (2010) orienta a administração de cloreto de potássio intracardíaco (KCl) para garantir assisto- lia fetal. Após a aspiração de sangue fetal, para confirmar a colocação correta da agulha, 2 a 3 ml de KCl a 15% são injetados no ventrículo cardíaco. Pode ser necessário repetir a injeção se não ocorrer assistolia após 30 a 60 segun- dos, que deve ser documentada por pelo menos dois minutos e uma varredura repetida após 30 a 60 minutos para garantir a morte fetal. Leia o texto integral do protocolo da Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. É científico! https://www.rcog.org.uk/globalassets/documents/guidelines/terminationpregnancyreport18may2010.pdf https://www.rcog.org.uk/globalassets/documents/guidelines/terminationpregnancyreport18may2010.pdf https://www.rcog.org.uk/globalassets/documents/guidelines/terminationpregnancyreport18may2010.pdf Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 80 Teste seus conhecimentos Veja o quadro a seguir e escreva nas respectivas colunas os benefícios e os riscos de cada um dos métodos de abortamento apresentados. Métodos Benefícios Riscos Curetagem AMIU Medicamentoso com mifepristona e misoprostol Medicamentoso como misoprostol apenas Expectante Pode-se ainda realizar a injeção intra-amniótica ou intrafetal de digoxina, sendo um procedimento mais fácil em comparação ao anterior, porém com maior taxa de falha (OMS). Agora chegou a hora de você aplicar o que aprendeu fazendo a atividade a seguir. Você conheceu os procedimentos cirúrgicos. A seguir refletirá sobre os direitos de escolha dos procedimentos pela pessoa sob cuidados. Escolha do procedimento A escolha do tratamento depende de preferências individuais, situação clínica, dispo- nibilidade de métodos e treinamento da equipe. Lembre-se do Método Clínico Centra- do na Pessoa (MCCP), que você viu na aula passada, e aplique-o nessas situações! Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 81 Algumas pessoas talvez desejem a resolução imediata da situação, outras talvez se preocupem com os riscos de um procedimento cirúrgico ou medicamentoso. Outras ainda talvez desejem uma resolução rápida, mas queiram evitar cirurgia, e para essas talvez o manejo medicamentoso seja a melhor opção. Para algumas o fato de experimentar dor e sangramento talvez faça parte do processo de entender o abortamento e o processo de luto. As pacientes devem ser adequadamente esclarecidas sobre os riscos de cada uma das opções para que possam tomar uma decisão informada (CHU, 2020). Escolha do tratamento Passar por uma situação de abortamento pode demandar que a pessoa tenha algum tempo para considerar suas opções e talvez se beneficie de orientações por escrito para poder pesquisar e então expressar sua vontade. Se ela demonstrar preocupação sobre uma futura gravidez, explique que o proce- dimento muito raramente pode afetar as chances de uma futura gestação e que ela poderá voltar a tentar engravidar assim que tiver se recuperado e que assim o deseje. É necessário que você e toda a equipe tenham o cuidado de fornecer à paciente as informações detalhadas e consistentes sobre cada opção de manejo e o tempo para resolução do quadro. Só assim a pessoa terá condições de fazer uma escolha consciente do procedimento a que vai se submeter. Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 82 A pessoa em situação de abortamento tem direito à informação detalhada para poder decidir junto com a equipe de saúde a que procedimento será submetida. Infelizmente, a possibilidade de escolha entre os métodos não é a realidade da vasta maioria dos serviços obstétricos no Brasil, seja pela carência de tecnologias adequadas e baseadas em evidências – como a ausência de mifepristona ou de equipamento para a aspiração manual intrauterina – , seja pela falta de treinamen- to no seu uso ou pelo desconhecimento do conceito de decisão compartilhada. Quais as opções de tratamento para situações de abortamento disponíveis nos serviços de saúde em que você realiza o seu estágio e/ou trabalha? Ponto de reflexão Nem sempre o tipo de procedimento poderá ser escolhido pela pessoa, mas é extre- mamente importante ouvi-la e incluí-la no planejamento de seu próprio cuidado. Como profissional de saúde, também é importante preparar-se para prestar as informações necessárias e adequadas nesses casos. O que toda pessoa em situação de abortamento tem direito de saber Você observou anteriormente que abortamentos espontâneos precoces podem ser tratados de forma expectante, medicamentosa ou por meio de esvaziamento cirúrgico. A cartilha da OMS destaca os pontos que precisam ser discutidos e informados a todas as pessoas que passarão por um abortamento. Veja quais são: Segundo dados de um estudo feito por Kim et al. em 2017, não há diferença impor- tante na fertilidade subsequente, satisfação ou bem-estar psicológico entre as pessoas que se submetem aos diferentes procedimentos de aborto medicamento- so, cirúrgico ou conduta expectante. Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 83 O que será feito durante e após o procedimento. O que é provável que sinta (por exemplo cólicas de tipo menstrual, dor e sangramento). A duração do procedimento. Que tipo de tratamento para alívio da dor estará disponível para ela. Riscos e complicações associados a cada método de abortamento. Quando ela estará em condições de reassumir suas atividades normais, incluindo relações sexuais. Cuidados e acompanhamento. O que toda pessoa em situação de abortamento deve saber Essas são as referências mínimas a serem informadas, de responsabilidade de toda a equipe de saúde, avaliando, por meio da linguagem verbal e não verbal, como comunicar de maneira organizada e que seja compreendida pela pessoa em ambiente sigiloso. Aborto séptico Diante dos dados discutidos nas aulas anteriores, você já sabe que o abortamento inseguro está entre as mais frequentes causas de morte materna e que o atendi- mento digno e humanizado reduz complicações tardias e graves. Você conhecerá agora alguns casos reais decorrentes de abortos inseguros. Veja as manchetes a seguir: Aula 4. Abortamento, evidênciascientíficas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 84 PESQUISA Aborto mata 275 vezes mais onde é proibido A cada 100 mil abortos, há 330 mortes nas regiões em desenvolvimento; índice cai para 1,2 em países desenvolvidos. Confira aqui > GRANDE MINAS Grávida de 5 meses morre após fazer aborto e suspeitas de realizar procedimento são detidas Segundo a polícia, vítima tomou medicamentos em uma casa no Bairro Interlagos, em Montes Claros; ela teria pago R$ 300 para fazer o aborto. Confira aqui > Nessas manchetes encontramos um fator comum às vítimas fatais: o abortamento inseguro e infectado. O abortamento séptico, ou infectado, é resultado da manipu- lação da cavidade uterina com objetos. Ele é comum nas situações de abortamen- to provocado de modo inseguro que, como você viu na primeira aula, tem relação direta com legislações restritivas. As manipulações inadequadas da cavidade uterina representam risco grave à saúde e à vida, e os sinais e sintomas mais comuns são: PERDA Grávida morre após pagar R$ 800 por aborto clandestino no Sul do ES Caso aconteceu em Bom Jesus do Norte, no extremo Sul do Espírito Santo. Confira aqui > https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft14039911.htm https://g1.globo.com/mg/grande-minas/noticia/2018/12/25/gravida-de-5-meses-morre-apos-fazer-aborto-e-suspeitas-de-realizar-procedimento-sao-detidas.ghtml https://www.agazeta.com.br/es/policia/gravida-morre-apos-pagar-r-800-por-aborto-clandestino-no-sul-do-es-0620 Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 85 Febre Corrimento fétido Dor abdominal No exame físico, pode-se observar saída de pus pelo orifício cervical e dor ao toque vaginal. Podem ser necessários exames complementares laboratoriais e de imagem, e devem ser realizadas medidas de suporte hemodinâmico e antibioticoterapia brevemente. Sendo necessário o esvaziamento uterino nesses casos, o uso do AMIU é indicado, porque traz menos riscos de complicações. A equipe deve ter cuidados redobrados pelo risco de perfuração uterina. Em casos graves, pode ser necessária a realização de laparotomia exploratória de emergência. Perfuração do útero, hemorragia, lesão visceral, infecção generaliza- da e choque séptico após abortamento inseguro podem levar à morte em caso de atraso na adoção do tratamento médico adequado, como você pôde ver nas histó- rias de mulheres reais apresentadas. A seguir sugerimos alguns filmes para que você reflita sobre o impacto do aborta- mento inseguro na vida das pessoas e suas implicações na sua prática profissional e na saúde pública: Cirurgia realizada sob anestesia geral com incisão na região abdominal para investigar lesões em órgão abdominal ou pélvico. Laparotomia exploratória Leia o artigo Vulnerabilidade na adolescência: um relato de caso de tentativa de aborto e violência sexual, sobre uma adolescente com quadro de abortamento séptico e suas consequências. É científico! • Never, rarely, sometimes, always – nunca, raramente, às vezes, sempre (EUA/Reino Unido, 2020) • Meu corpo, minha vida (Brasil, 2017) • Clandestinas (Brasil, 2014) • Vessel (EUA, 2014) • À margem do corpo (Brasil, 2012) • Uma vida severina (Brasil, 2010) • O aborto dos outros (Brasil, 2008) • O fim do silêncio sobre o aborto (Brasil, 2008) • The abortion diaries – diários do aborto (EUA, 2005) • O segredo de Vera Drake (Inglaterra, 2004) • Quando o aborto era ilegal (EUA, 1992) https://www.revistas.usp.br/jhgd/article/view/127686/130136 https://www.revistas.usp.br/jhgd/article/view/127686/130136 https://www.revistas.usp.br/jhgd/article/view/127686/130136 https://www.revistas.usp.br/jhgd/article/view/127686/130136 https://www.revistas.usp.br/jhgd/article/view/127686/130136 Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 86 Teste seus conhecimentos Uma paciente de 20 anos chega ao serviço de saúde vítima de violência sexual e com uma gravidez indesejada de seis semanas. Ela fez profilaxia para infecções sexualmente transmissíveis no dia do atendimento após o evento, mas não estava segura sobre a interrupção da gestação. Passadas duas semanas, ela refletiu e decidiu pelo abortamento. Não apresenta alterações no exame físico. Qual método ela poderá utilizar? ( ) AMIU. ( ) Curetagem. ( ) Aborto medicamentoso. Feedback Positivo: Se você respondeu que os métodos podem ser medicamen- toso ou AMIU, você acertou! Feedback negativo: Se você pensou na possibilidade de realização de uma curetagem, vale a pena retornar ao início da aula e relê-la, porque esse método não é indicado pela OMS. A seguir, você verá os cuidados que deve ter com a paciente antes, durante e depois do abortamento, começando pelos cuidados antes do procedimento. Vamos lá! Cuidados pré-abortamento O Manual de Abortamento Seguro da OMS e a Norma Técnica do Ministério da Saúde indicam os exames que a equipe de saúde deve realizar antes do procedi- mento. Esse é um importante ponto para que não se atrase o atendimento com a solicitação de exames desnecessários e sem comprovação científica. Leia a seguir cada um dos exames e as orientações para a realização do procedimento. Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 87 Gestação na qual, embora haja fecundação de óvulo, durante o desenvolvimento não há formação de embrião, sendo visível ao ultrassom apenas o saco gestacional. Gestação anembrionada Cuidados em saúde É importante, portanto, que em serviço de abortamento previsto em lei e no serviço de radiologia, quem vai realizar a ultrassonografia tenha atenção à necessidade de proteger a pessoa que aborta, silenciando o doppler para que ela não sofra o impacto da ausculta de batimentos fetais. Também é fundamental que não sejam feitas perguntas ou comentários que causem constrangimento. Profilaxia antibiótica Todas as pessoas que se submeterem a um abortamento cirúrgico, independente- mente do risco de doença inflamatória pélvica, devem receber profilaxia antibióti- ca antes ou durante a cirurgia. No caso de um abortamento farmacológico, não se recomenda o uso de profilaxia antibiótica rotineira. Ultrassom Não é essencial realizar uma ultrassonografia previamente ao abortamento, mas se houver disponibilidade, esse é um recurso que auxilia na identificação de aborta- mento retido, incompleto ou uma gestação anembrionada. O ultrassom também pode afastar a possibilidade de uma gravidez ectópica, apesar de haver sintomas clínicos que levam à suspeição desse tipo de gestação, como dor e sangramento. É comum o relato de mulheres que se sentem vulneráveis ao realizar esse exame, seja pela reação da pessoa que examina, seja pelo impacto psicológico de presen- ciar a viabilidade de uma gestação indesejada naquele momento. Controle da dor É importante que você ou alguém da equipe ofereça medicamentos, como anti-in- flamatórios não esteroides para aliviar a dor como parte da rotina. Situações emocionais difíceis influenciam a percepção da dor que as pessoas têm e podem dificultar seus cuidados, exigindo de você, profissional de saúde, atitudes amigáveis e tranquilizadoras. Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 88 Pelo possível medo em relação ao procedimento proposto e sua compreensão em relação ao abortamento. Idade da pessoa Idade da gestação Dilatação cervical Na maior parte dos procedimentos, é suficiente o uso de analgésicos não narcóti- cos, como anestesia paracervical e/ou sedação. Algumas pessoas precisam receber drogas tranquilizantes, como diazepan ou midazolan,quando a ansiedade passa a ser componente prejudicial ao atendimento. A anestesia local ou bloqueio paracervical é realizado utilizando-se lidocaína a 1%, sem vasoconstritor, injetando-se lentamente o anestésico na metade poste- rior do colo uterino (transição cérvice com a mucosa vaginal), às 5 e 7 horas, com agulha fina (calibre 23 ou de insulina), a uma profundidade de 3 a 5 mm, na quan- tidade de 3 a 8 ml em cada ponto, tendo o cuidado de evitar a injeção intravenosa do anestésico. A anestesia geral pode ser empregada em casos selecionados ou quando essa for a opção da pessoa, que deve estar ciente dos riscos, dos aumentos dos custos e caso se apliquem na permanência mais prolongada no hospital. Exames laboratoriais Os testes laboratoriais de rotina não constituem um pré-requisito para os servi- ços relacionados ao abortamento quando não há suspeição de complicações, como instabilidade hemodinâmica. A intensidade da dor é influenciada por: Cuidados em saúde É comum que alguns exames sejam solicitados rotineiramente de forma protoco- lar em serviços de saúde e, ainda, que o controle da dor e o acolhimento humani- zado não sejam prioridades. Como você pode perceber, essa não deve ser a conduta de profissionais orien- tados pela ética no atendimento a pessoas em situação de abortamento. Faça o melhor, acolha e cuide de quem precisa de você! A seguir você verá as medidas a serem tomadas no cuidado após um abortamento. Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 89 Cuidados pós-abortamento No seu dia a dia, você pode se deparar com situações de pessoas que chegam ao serviço de saúde buscando cuidados para um abortamento em curso, um abortamento incom- pleto ou, ainda, um abortamento completo que se deu fora do ambiente hospitalar. Em todas essas situações, seu dever é prestar cuidado humanizado, diligente e empático, orientado pelas melhores evidências científicas que vimos ao longo da aula anterior e desta. Não é sua função interrogar, julgar ou punir, e muito menos chamar a polícia. Os exames complementares nem sempre serão necessários após um abortamento. Veja a seguir as evidências científicas mais recentes, também seguindo as Normas Técnicas do Ministério da Saúde e da OMS: Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 90 Ultrassom transvaginal (USTV) Apesar de rotineiramente indicado após abortamento espontâneo incompleto ou induzido medicamentoso, alguns estudos sugerem que a realização de BHCG é tão eficaz quanto o exame de imagem para confirmar o sucesso de um procedimento de abortamento. Ambos, BHCG e USTV, são adequados, e sua escolha depende da disponibilidade dos exames e da preferência da pessoa (DAYANANDA, 2011). Beta HCG HCG é a sigla de Human Chorionic Gonadotropin, hormônio que indica a possibilida- de de gestação. A realização desse teste deve acontecer ao menos quatro semanas após o abortamento para se evitar resultados falsos positivos. Caso o resultado seja positivo ou inconclusivo após quatro semanas, deve-se realizar novo teste em até sete dias (ou seja, cinco semanas após o aborto). Sangramento No caso de abortamento medicamentoso realizado fora do ambiente hospitalar, deve-se orientar a pessoa a buscar o serviço de saúde se houver necessidade de troca de mais que dois absorventes noturnos por hora, em duas horas seguidas, ou seja, quatro absorventes em duas horas, ou se houver sinais de perda de sangue excessiva como tontura ou desmaio. Escassa Moderada Leve Pesada Muito pesada Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 91 Sorologias O contexto do cuidado pós-abortamento é um momento oportuno para oferecer a realização de exames de sorologia de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Converse com sua paciente sobre a importância desses exames e ofereça a ela esse cuidado. Tipagem sanguínea e Rh Por muito tempo, recomendava-se que todas as pessoas com fator Rh negati- vo recebessem imunização passiva com imunoglobulina Rh dentro das 72 horas posteriores ao abortamento. Entretanto, ainda não existe evidência conclusiva sobre a necessidade de ser aplicada essa medida depois de um abortamento induzido precocemente (até nove semanas), pois o risco de sensibilização em gestações iniciais é muito baixo (OMS). A American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) recomenda que a testagem de Rh não seja uma barreira que atrase a realização do procedimento. Caso se opte pela utilização, a dose é de 300 mcg de imunoglobulina anti-D até 72 horas após o sangramento. Contracepção Em sua maioria, pessoas que passam por um abortamento induzido não desejam uma nova gestação a seguir. É importante que você informe que é possível recupe- rar rapidamente a fertilidade, evitando colocar a pessoa em risco de nova gestação não planejada ou indesejada. Assim, é fundamental conversar com a pessoa sobre a possibilidade de uso de contracepção, apresentar os métodos disponíveis e avaliar se existe contraindica- ção a algum método. Se houver desejo da pessoa de receber o tratamento contra- ceptivo, dê início ao uso logo no atendimento. Caso a pessoa opte por dispositivo intrauterino (DIU), este pode ser inserido imediatamente após o procedimento cirúrgico (AMIU ou curetagem), desde que não haja suspeita de infecção. Pode-se ainda oferecer a inserção posterior, em consulta ambulatorial. Contraceptivos hormonais orais ou injetáveis podem ser iniciados logo após o abortamento ou até cinco dias depois. Aula 4. Abortamento, evidências científicas e cuidados pré e pós-abortamento Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 92 É importante que a pessoa saia do atendimento orientada e, se possível, com a prescrição do método de escolha, pois nem sempre há um fluxo rápido para consul- tas ambulatoriais. Além disso, é importante reforçar a informação sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e o uso de preservativo. O aconselhamento sobre gestação após um abortamento espontâneo pode tran- quilizar alguém que deseja gestar novamente, por isso é importante informar a pessoa que a fertilidade retorna imediatamente. Um estudo feito em 2010 na Escócia demonstrou que as mulheres que engravi- daram seis meses após um abortamento espontâneo tiveram melhores resultados (menor taxa de cesárea e parto prematuro) em comparação àquelas que engravi- daram 24 meses após. Nesta aula, você aprendeu aspectos do procedimento de abortamento cirúrgico, os riscos do abortamento inseguro e infectado, e os cuidados antes e após um abortamento. Destacamos a importância de promover a comunicação adequada e o acolhimen- to nesses atendimentos e seguiremos com informações importantes sobre o tema. Siga em frente! Conheça o estudo Efeito do intervalo entre gestações sobre os resultados da gravidez após o aborto espontâneo. É científico! https://www.bmj.com/content/341/bmj.c3967.abstract https://www.bmj.com/content/341/bmj.c3967.abstract https://www.bmj.com/content/341/bmj.c3967.abstract https://www.bmj.com/content/341/bmj.c3967.abstract https://www.bmj.com/content/341/bmj.c3967.abstract Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 93 • Conheça os referenciais bioéticos no acolhimento à gesta- ção indesejada e ao atendimento em situações de aborta- mento induzido. • Compreenda os referenciais da redução de danos em saúde e no abortamento inseguro. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Aula 5 Abortamento inseguro O abortamento, mesmo quandorealizado na clandestinidade, pode ser seguro. A criminalização aumenta o risco de complicações, pois expõe mulheres e outras pessoas que abortam a procedimentos inseguros por falta de alternativas, barrei- ras socioeconômicas ou falta de informação. “As mulheres que têm gravidez indesejada devem ter acesso imediato a informações confiáveis e aconselhamento compassivo.” (CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE CAIRO, 1994, p. 59). Como você viu nas aulas anteriores, fatores como classe social, gênero, raça e esco- laridade influenciam o acesso a um método de abortamento seguro ou inseguro. Já falamos anteriormente sobre os métodos seguros. Agora, é importante que você conheça os métodos inseguros: Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 94 “Inserção de uma substância ou objeto (uma raiz, um galho, um cateter) no útero.1 Ingestão de preparados caseiros nocivos à saúde ou aplicação de uma força externa” (OMS, 2013, p.18-19). 3 Dilatação e curetagem feitas de forma incorreta por profissional não capacitado. 2 Como o abortamento inseguro é uma das mais frequentes causas de mortalidade materna – um grave problema de saúde pública para países de baixa e média renda, como você já viu neste curso – a OMS recomenda que sejam retiradas todas as barreiras legais e regulatórias ao abortamento seguro. Conheça a publicação Abortamento seguro: Orientação técnica e de políticas para sistemas de saúde, da OMS. É científico! https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/70914/9789248548437_por.pdf?sequence=7 https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/70914/9789248548437_por.pdf?sequence=7 https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/70914/9789248548437_por.pdf?sequence=7 https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/70914/9789248548437_por.pdf?sequence=7 Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 95 Abortamentos inseguros, realizados com substâncias, materiais e técnicas impróprios, aumentam o risco de complicações, como infecções que podem levar até mesmo à morte. A informação de qualidade, baseada em evidências científicas, permite que os abortamentos ocorram de forma segura e eficaz, ainda que na clandestinidade. É comum que esses casos apareçam em consultas na atenção primária à saúde, em plantões de pronto-atendimento e ambulatorialmente em radiologia, ginecologia e obstetrícia, o que mostra a necessidade de haver profissionais com plena capacida- de de realizar esse atendimento. A prevenção da gravidez não desejada, do abortamento e de suas consequências são de alta prioridade para profissionais de saúde. Às mulheres deve ser garantido o acesso: • à informação e orientação humana e solidária; • ao abortamento previsto em lei; • à atenção de qualidade em complicações derivadas de abortos; • e ao planejamento reprodutivo pós-abortamento para, inclusive, evitar abortamentos repetidos. (BRASIL, 2005, p. 12). Também é importante escutar e acolher essa pessoa de maneira sigilosa, pois esse é um dever decorrente da ética profissional. Omitir informações benéficas para a saúde de pacientes é ferir seu direito à auto- nomia e à informação em saúde, que deve sempre ser respeitado como determina- do pelos Códigos de Ética Médica e de Enfermagem. O acolhimento à gestação indesejada promove a equidade de gênero e realiza o direito humano à informação sobre saúde sexual e reprodutiva. A seguir, conheça os referenciais bioéticos para o abortamento na perspectiva da redução de danos. Os referenciais da bioética no abortamento O direito de toda pessoa à informação para evitar um abortamento inseguro está assegurado em tratados internacionais de direitos humanos e é respaldado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Além disso, é protegido pela Constituição Federal e pelos códigos de ética profissional que já vimos neste curso. Como escla- rece um profissional de saúde: Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 96 Ferimos nossa ética profissional quando omitimos informações relevantes e cientificamente embasadas que podem salvar a vida de uma mulher que está decidida a abortar e que, para isso, vai recorrer a métodos muitas vezes perigosos. Da mesma forma, constitui quebra de sigilo médico a denúncia às autoridades policiais de mulheres que provocaram aborto, apesar de esta ainda ser uma prática frequente em hospitais brasileiros (GIUGLIANI, 2019, p. 9). Segundo o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP, 2014), os princípios fundamentais da bioética no acolhimento à gestação indesejada são: Autonomia: as pessoas têm o direito de decidir sobre as questões relacionadas ao seu corpo e à sua vida. Na atenção à saúde, as ações devem ser autorizadas pela pessoa sob cuidados e priorizar suas necessidades e desejos. Sobre este item, veja o que dizem os Códigos de Ética Médica e de Enfermagem: Ética aplicada à vida. Bioética Código de Ética Médica: “É vedado ao médico deixar de garantir ao paciente o exercício do direito de decidir livremente sobre sua pessoa ou seu bem-estar, bem como exercer sua autoridade para limitá-lo.” (Artigo 24) Código de Ética da Enfermagem: “Dos deveres: respeitar o direito do exercício da autonomia da pessoa ou de seu representante legal na tomada de decisão, livre e esclarecida, sobre sua saúde, segurança, tratamento, conforto, bem-estar, realizando ações necessárias, de acordo com os princípios éticos e legais. Parágrafo único. Respeitar as diretivas antecipadas da pessoa no que concerne às decisões sobre cuidados e tratamentos que deseja ou não receber no momento em que estiver incapacitado de expressar, livre e autonomamente, suas vontades.” (Artigo 42) Código de Ética Médica: “É vedado ao médico exagerar a gravidade do diagnóstico ou do prognóstico, complicar a terapêutica ou exceder-se no número de visitas, consultas ou quaisquer outros procedimentos médicos.” (Artigo 35) Código de Ética da Enfermagem: “Dos deveres: Esclarecer à pessoa, família e coletividade, a respeito dos direitos, riscos, benefícios e intercorrências acerca da assistência de Enfermagem.” (Artigo 39) Beneficência: é obrigação ética profissional maximizar o benefício à pessoa sob cuidados e minimizar os possíveis danos. Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 97 Não maleficência: a ação da equipe profissional de saúde deve sempre causar o menor prejuízo possível à pessoa, reduzindo seus efeitos adversos ou indesejáveis. Sobre este item, veja o que dizem os Códigos de Ética Médica e de Enfermagem: Justiça e equidade: profissionais de saúde devem atuar com imparcialidade, evitando que julgamentos sociais, culturais, religiosos, morais ou outros interfiram em sua relação com a pessoa e no cuidado que oferece. Segundo os Códigos de Ética Médica e de Enfermagem: São ainda, segundo o CREMESP, direitos fundamentais no atendimento de saúde: Preservação de sigilo profissional e respeito à intimidade e privacidade da pacien- te: toda pessoa tem direito a ter resguardado o segredo sobre seus dados pessoais e de todas as informações que compartilha com profissionais de saúde no contexto do atendimento, por meio da manutenção do sigilo profissional, desde que isso não coloque em risco a vida de terceiros ou a saúde pública. Código de Ética Médica: “É vedado ao médico deixar de usar todos os meios disponíveis de diagnóstico e tratamento, cientificamente reconhecidos e a seu alcance, em favor do paciente.” (Artigo 32) Código de Ética da Enfermagem:“Dos deveres: Orientar à pessoa e família sobre preparo, benefícios, riscos e consequências decorrentes de exames e de outros procedimentos, respeitando o direito de recusa da pessoa ou de seu representante legal.” (Artigo 40) Código de Ética Médica: “É vedado ao médico tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto.” (Artigo 23) Código de Ética da Enfermagem: “Dos deveres: Fundamentar suas relações no direito, na prudência, no respeito, na solidariedade e na diversidade de opinião e posição ideológica.” (Artigo 25) “Prestar assistência de Enfermagem sem discriminação de qualquer natureza.” (Artigo 41) Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 98 Diante de abortamento espontâneo ou provocado, profissionais de saúde não estão autorizados a comunicar o fato à autoridade policial, judicial ou ao Ministério Público, pois o sigilo na prática profissional da assistência à saúde é dever legal e ético, salvo para proteção da pessoa atendida e com o seu consentimento. O sigilo profissional é respaldado pelo Código Penal, pela Constituição Federal e pelos Códigos de Ética Médica e de Enfermagem: Código Penal: É crime: “revelar a alguém, sem justa causa, segredo de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem” (Artigo 154). 1 Código de Ética de Enfermagem: “Dos deveres: Manter sigilo sobre fato de que tenha conhecimento em razão da atividade profissional, exceto nos casos previstos na legislação ou por determinação judicial, ou com o consentimento escrito da pessoa envolvida ou de seu representante ou responsável legal” (Artigo 52). 3 Constituição Federal: “São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização material ou moral decorrente de sua violação” (Artigo 5º, X). 2 Código de Ética Médico: “É vedado ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente” (Artigo 73). 4 Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 99 Código Penal: É crime: “revelar a alguém, sem justa causa, segredo de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem” (Artigo 154). 1 Código de Ética de Enfermagem: “Dos deveres: Manter sigilo sobre fato de que tenha conhecimento em razão da atividade profissional, exceto nos casos previstos na legislação ou por determinação judicial, ou com o consentimento escrito da pessoa envolvida ou de seu representante ou responsável legal” (Artigo 52). 3 Constituição Federal: “São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização material ou moral decorrente de sua violação” (Artigo 5º, X). 2 Código de Ética Médico: “É vedado ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente” (Artigo 73). 4 Observe que o não cumprimento da norma legal pode levar a procedimento crimi- nal, civil e ético-profissional contra quem revelou a informação, respondendo por todos os danos causados à paciente. É importante também que você pratique o consentimento livre e informado, como já vimos em aula anterior. Vamos relembrar o que é e como proceder. Consentimento livre e informado: qualquer procedimento de saúde deve ser infor- mado, esclarecido em suas finalidades, formas, características e riscos à pessoa que passará por ele ou a representante legal. Isso para que a pessoa sob cuidados possa fazer escolhas com autonomia, compreendendo em toda sua extensão, gravidade e consequências o que será realizado. Cuidados em saúde Você, profissional de saúde, deve primeiro ouvir, depois perguntar e depois se posicionar, mas tomando cuidado para: • não tomar decisões pelas pessoas de quem cuida, não impor escolhas e não emitir juízo de valor; • desenvolver atividades educativas e de aconselhamento, apontando benefí- cios e riscos, as opções disponíveis e as consequências de cada alternativa. E lembre-se: a decisão é sempre da paciente. A seguir você verá algumas formas de prevenção e redução de danos em casos de abortamento. Acompanhe! Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 100 Prevenção e promoção de saúde Do ponto de vista de evidências científicas e saúde pública, há várias formas de prevenção e promoção de saúde. Leavell e Clark (1976) estabeleceram os quatro níveis de prevenção e promoção de saúde: Prevenção primária: corresponde à ação para remover a causa de um problema de saúde individual ou populacional antes de sua ocorrência. Inclui promoção da saúde e proteção específica (ex.: imunização, prevenção de quedas). Prevenção secundária: corresponde à ação que detecta um problema de saúde em estágio inicial, no indivíduo ou na população, facilitando o diagnóstico definitivo, o tratamento e reduzindo sua disseminação e efeitos de longo prazo (ex.: rastreamento de câncer, diagnóstico precoce). Prevenção terciária: corresponde à ação para reduzir, em um indivíduo ou na população, os prejuízos funcionais consequentes de um problema agudo ou crônico, incluindo reabilitação (ex.: prevenir complicações do diabetes, reabilitar paciente após um infarto ou acidente vascular cerebral). Prevenção quaternária: corresponde à detecção de indivíduos em risco para protegê-los de intervenções médicas inapropriadas e sugerir-lhes alternativas eticamente aceitáveis (ex: rastreamento de câncer fora da faixa etária ou periodicidade indicada). Aplicando esses conceitos de prevenção ao problema da mortalidade materna por abortamento inseguro, podemos adotar as seguintes medidas de prevenção primá- ria a terciária, como sugere Giugliani (2019). Incluímos ainda medidas de prevenção quaternária: Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 101 Primária Evitar gestações indesejadas com ações educativas de saúde sexual e reprodutiva, promovendo informação e acesso à contracepção e informação sobre a possibilidade de entrega voluntária para adoção (Lei 13.509/2017), caso a pessoa opte por manter a gestação. É importante saber que a entrega está relacionada a maior risco de sintomas depressivos entre as mulheres. Terciária Tratar rapidamente as complicações do abortamento inseguro e fornecer aconselhamento contraceptivo logo após. Secundária A maioria das pessoas que deseja abortar encontrará os meios para fazê-lo. Sendo inevitável, pode-se atuar sob a perspectiva de Redução de Danos (esse assunto será tratado a seguir), fornecendo informações corretas e de fácil compreensão, para que o abortamento seja seguro. Quaternária Evitar a realização de intervenções desnecessárias como a curetagem após um abortamento incompleto ou a hospitalização para realização de abortamento medicamentoso. Medidas de prevenção Você observou até aqui que são muitos os referenciais aplicados no estudo sobre acolhimento ao abortamento: comunicação, epidemiologia, referenciais bioéticos e jurídicos, método clínico centrado na pessoa, evidências científicas, prevenção e promoção de saúde, redução de danos, entre tantos outros. Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da reduçãode danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 102 Com base nas discussões propostas até agora, você se lembra, ao longo da sua trajetória formativa, em quais momentos, além de saúde das mulheres, estudou o tema abortamento? Você consegue identificar outras possibilidades de abordagem? Ponto de reflexão Fique por dentro Para saber mais veja o vídeo Entrega voluntária para a adoção e conheça a Lei nº 13.509 de 2017. Você já ouviu falar na entrega voluntária para adoção? Você sabia que gestantes que decidem não exercer a maternidade, por quaisquer razões, antes ou logo após o nascimento, têm o direito de entregar seu filho para adoção? Esse direito é garan- tido pela Lei nº 13.509, de 2017, e oferece à gestante ou mãe o acolhimento por equipe interprofissional da Justiça da Infância e da Juventude. Algumas mulheres, por desconhecer esse direito, acabam se submetendo a um abortamento inseguro e colocando sua vida em risco. Você, profissional de saúde, deve conhecer a lei e orientar quem precisa dela. Após conhecer as medidas de prevenção à mortalidade materna decorrente de abortamento inseguro, você verá na sequência o conceito de redução de danos relacionado ao abortamento. Redução de danos A abordagem da redução de danos surgiu nos anos 1980 no contexto da discussão sobre uma nova proposta de atenção às pessoas que usam substâncias ilícitas ou danosas à saúde. Em pouco tempo, tornou-se uma estratégia de atenção à saúde alternativa àquelas pautadas na lógica da abstinência ou da criminalização. A abordagem de redução de danos pode ser aplicada a outras situações em que as pessoas se engajam em práticas moralmente controversas ou estigmatizadas socialmente, como o trabalho sexual e o abortamento. “É uma estratégia ampliada de clínica com ofertas concretas de acolhimento e cuidado, em arranjos de coges- tão do cuidado.” (PASSOS, 2011, p. 161) Vídeo com especialista Saiba mais sobre a abordagem de redução de danos assistindo ao vídeo da advogada Beatriz Galli no ambiente virtual do seu curso. https://www.facebook.com/defensoriadf/videos/eca-30-anos-entrega-volunt%C3%A1ria-para-a-ado%C3%A7%C3%A3o/1045794692541938/ https://www.facebook.com/defensoriadf/videos/eca-30-anos-entrega-volunt%C3%A1ria-para-a-ado%C3%A7%C3%A3o/1045794692541938/ https://www.facebook.com/defensoriadf/videos/eca-30-anos-entrega-volunt%C3%A1ria-para-a-ado%C3%A7%C3%A3o/1045794692541938/ http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13509.htm Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 103 Como a redução de danos se relaciona ao abortamento? A Política de Redução de Danos é uma estratégia de cuidado que acolhe sem julga- mento, respaldada pelo Código de Ética Profissional e pelos direitos fundamentais que reconhecem o direito ao sigilo e à promoção da autonomia em saúde das pessoas. Pode, portanto, ser aplicada no contexto do acolhimento de gestações indeseja- das com o objetivo de prevenir e, consequentemente, reduzir o número de mortes maternas por abortamento inseguro. Ela consiste no fornecimento, por profissionais de saúde, de informação e aconse- lhamento pré-abortamento às pessoas com gravidez indesejada, incluindo infor- mações sobre o abortamento medicamentoso, que já vimos em aula anterior, e cuidados pós-abortamento. (FAÚNDES, 2006). Uma das experiências mais conhecidas de acolhimento à gestação indesejada em risco de abortamento inseguro foi implementada no Uruguai pela organização não governamental Iniciativa Sanitária. O protocolo de redução de danos uruguaio foi promovido como estratégia pública para prevenção de mortes maternas relacionadas ao abortamento inseguro por muitos anos até a descriminalização parcial do abortamento em 2012. Ele consistia no fornecimento de informações adequadas e seguras sobre os méto- dos disponíveis e no estabelecimento de um vínculo de confiança entre a pessoa com gestação indesejada e a equipe de saúde. Na consulta: Conheça a experiência uruguaia em Iniciativas sanitarias contra el aborto provocado em condiciones de riesgo: aspectos clínicos, epidemiológicos, médico- legales, bioéticos y jurídicos. É científico! Depois determinada a idade gestacional. Primeiro era realizada a confirmação de gestação viável. Agora eram avaliadas as situações em que o aborto seria permitido por lei. Eram também fornecidas informações sobre métodos seguros e inseguros de abortamento. Era prestado o aconselhamento sobre outras possibilidades (incluindo a entrega voluntária para adoção). O aborto medicamentoso era apresentado como um método seguro e eficaz, e amplamente utilizado onde o aborto é permitido por lei. As informações científicas fornecidas incluíam posologia, via de administração, efeitos colaterais e sinais de https://www.smu.org.uy/dpmc/biblioteca/libros/aborto.pdf https://www.smu.org.uy/dpmc/biblioteca/libros/aborto.pdf https://www.smu.org.uy/dpmc/biblioteca/libros/aborto.pdf https://www.smu.org.uy/dpmc/biblioteca/libros/aborto.pdf https://www.smu.org.uy/dpmc/biblioteca/libros/aborto.pdf https://www.smu.org.uy/dpmc/biblioteca/libros/aborto.pdf https://www.smu.org.uy/dpmc/biblioteca/libros/aborto.pdf https://www.smu.org.uy/dpmc/biblioteca/libros/aborto.pdf Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 104 alarme para atendimento presencial. Após o abortamento, orientava-se uma nova consulta para escolha de método contraceptivo. A experiência foi replicada em diversos países da América Latina (PAHO, 2012). No âmbito internacional, organizações de defesa e proteção à saúde das mulheres atuam há décadas com uma abordagem de redução de danos, apoiando pessoas no abortamento seguro, especialmente em lugares em que esse é restrito por leis e regulamentos, estigma ou falta de recursos. As formas como as ativistas fornecem apoio variam. Veja algumas delas: Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 105 Samsara Situada na Indonésia, à semelhança de ativistas em muitos países da América Latina e do Caribe, opera uma linha direta de abortamento seguro que oferece informações sobre o método medicamentoso. Socorristas en Red É uma rede nacional argentina que fornece acesso e informações por telefone e acompanhamento pessoal e reuniões de grupo. Mama Situada na África, é uma rede de ativistas de base e organizações feministas que trabalha para ampliar o acesso à informação e eliminar o estigma em torno do abortamento. Women Help Women e Women on Web Operam serviços de telessaúde que fornecem acesso a medicamentos, bem como informações e acompanhamento por e-mail para pessoas em todo o mundo. Redes de apoio pelo mundo Fique por dentro Aqui você pode visitar todas as redes de apoio citadas anteriormente: Socorristas en Red, Mama, Samsara, Women Help Women e Women on Web. Essas redes de apoio da sociedade civil fazem um trabalho fundamental de promo- ção da vida, saúde e autonomia das pessoas que abortam, especialmente nos lugares em que essas sofrem as consequências perversas de legislações penais restritivas. http://socorristasenred.org/ https://mamanetwork.org/ https://samsara.or.id/ https://womenhelp.org/ https://www.womenonweb.org/en/ Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 106 Depois de conhecer as experiências citadas, você consegue pensar em algu- mas formas de apoio recíproco entre essas redes e profissionais de saúde? Ponto de reflexão Elas contribuem para solucionar um problemade saúde pública concreto, a morta- lidade materna por abortamento inseguro, e para mudar as visões da sociedade sobre o abortamento. Em muitos lugares, elas trabalham em uma relação de coope- ração com o sistema de saúde. Teste seus conhecimentos Você trabalha como profissional de enfermagem em uma unidade básica de saúde na peri- feria de Brasília. Em um dia de atendimento chega uma paciente trazendo resultado de BHCG positivo. Antes de iniciar o pré-natal você pergunta se aquela é uma gestação desejada. A paciente desesperada diz: “não, não posso ter esse filho antes de terminar meus estudos, vou dar um jeito! Tenho muito medo de me machucar, não sei o que fazer!” Você, como profissional de saúde que se preparou para acolher situações de gestação indesejada: a) ( ) Diz que infelizmente não pode ajudá-la, pois o abortamento é ilegal no Brasil. Inicia o pré-natal sem a autorização da paciente e agenda retorno com a equipe em 30 dias. b) ( ) Acolhe, procura entender a situação e acalmá-la, mas afirma que não pode ajudá-la por não ser um caso de abortamento previsto em lei. c) ( ) Acolhe, escuta e após entender que a paciente poderia causar dano à própria vida, fornece informações baseadas em evidências e cuidados pós-abortamento como contracepção. Feedback positivo: Você acertou ao escolher a resposta C. Como vimos nesta aula, o acolhimento de uma gestação a partir da perspectiva da redução de danos está fundado no direito de toda pessoa à privacidade e à informação em saúde. Como profissional em saúde, você cumpre o seu dever ao acolher pessoas nessa situação e oferecer a elas informações baseadas em evidências sobre o abortamento seguro e cuidado pós-abortamento. Feedback negativo: A resposta A é falsa pois há situações de abortamento previsto em lei que devem ser conhecidas por todos os profissionais. A resposta B é falsa pois existem referenciais bioéticos e científicos para o acolhimento à gestação indesejada sob uma perspectiva de redução de danos. Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 107 O abortamento na atenção primária à saúde (APS) A pessoa que aborta deve ter garantido no seu atendimento o cuidado integral e o cuidado multiprofissional nos momentos oportunos. É na APS que, majoritaria- mente, se acessam a prescrição de contraceptivos, a investigação de atraso mens- trual e o atendimento pré-natal de baixo risco. Nesses atendimentos, há a oportunidade de se identificar uma gestação resultan- te de violência e nesse caso possibilitar o acesso ao abortamento previsto em lei, como vimos em aula anterior. Pode-se, ainda, responder com cuidado a todas as dúvidas e fornecer informação adequada a uma gestação indesejada em risco de abortamento inseguro e morte materna. Segundo Maia (2021), o abortamento medicamentoso seguro é ofertado na APS em 19 países e pode ser realizado em domicílio, após a consulta em serviço de saúde que dará as informações necessárias e o medicamento. Qualquer profissional de saúde treinado(a) pode fornecer informações adequadas para o abortamento seguro, sugere o protocolo da OMS (2015). Na APS, que é a porta de entrada do sistema de saúde, você deve realizar o cuidado orientado pelos princípios de primeiro contato; longitudinalidade; integralidade; coordenação; abordagem familiar e enfoque comunitário (STARFIELD, 2002). Aplicados ao acolhimento à gestação indesejada e à atenção à pessoa que aborta, esses princípios nos ensinam que: Você deve garantir atendimento à pessoa que aborta independentemente de barreiras de gênero, raça, e condições socioeconômicas, sem estigmatização ou medo de denúncia ou julgamento (integralidade). 3 Você deve ofertar acolhimento ético adequado em comunicação verbal e não verbal (primeiro contato).1 Você deve garantir acesso, acolhimento e orientação em tempo adequado à pessoa antes e após o evento, reduzindo assim as chances de abortamento inseguro (longitudinalidade). 2 Deve ser identificada a rede de urgência e emergência para complicações de abortamento e ser dado encaminhamento nos casos de abortamento previsto em lei (coordenação do cuidado). 4 Aula 5. Aspectos profissionais no acolhimento à gestação indesejada sob a perspectiva da redução de danos Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 108 Você deve garantir atendimento à pessoa que aborta independentemente de barreiras de gênero, raça, e condições socioeconômicas, sem estigmatização ou medo de denúncia ou julgamento (integralidade). 3 Você deve ofertar acolhimento ético adequado em comunicação verbal e não verbal (primeiro contato).1 Você deve garantir acesso, acolhimento e orientação em tempo adequado à pessoa antes e após o evento, reduzindo assim as chances de abortamento inseguro (longitudinalidade). 2 Deve ser identificada a rede de urgência e emergência para complicações de abortamento e ser dado encaminhamento nos casos de abortamento previsto em lei (coordenação do cuidado). 4 Fonte: Adaptado de: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK507231/#sec_000150 Como você pôde ver, o ambiente da APS proporciona maior satisfação às pessoas que nele buscam cuidados em saúde quando acolhe, informa e proporciona acesso e/ou informação sobre o abortamento seguro. Você, profissional da saúde, deve ser capaz de fazer esse trabalho! Um estudo conduzido nos Estados Unidos (SUMMIT et al., 2016) mostrou que muitas das mulheres entrevistadas se surpreenderam em poder conversar sobre o tema do abortamento com as pessoas que as atenderam na atenção primária de saúde. Isso não deveria ser motivo de surpresa – o abortamento é um evento comum na vida reprodutiva das pessoas e profissionais da saúde, em contato direto com pacientes, devem se abrir para conversar sobre ele com conhecimento e competência. Para que esse diálogo aconteça, é necessário que profissionais se sensibilizem e se capacitem ao longo da formação acadêmica e profissional com evidências científi- cas atualizadas. Sabemos que não é essa a realidade em grande parte do Brasil. As referências bibliográficas ao longo desse curso são importantes ferramentas para uma atua- ção respeitosa às pessoas, proporcionando cuidado integral e compromissado com os direitos humanos. Continue estudando e compartilhe esse conhecimento com quem também é da área da saúde. É esse o caminho! https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK507231/#sec_000150 Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 109 • Entenda a origem do conceito de violência obstétrica e o que ele significa. • Saiba reconhecer as situações que se configuram como violência obstétrica e como evitá-las. • Reflita sobre o impacto do racismo estrutural no aborta- mento inseguro e na criminalização por abortamento. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Aula 6 Conceito de violência obstétrica – histórico As primeiras narrativas de violência no parto e nascimento datam do final da déca- da de 1950, quando a Ladies Home Journal, uma revista para donas de casa dos Esta- dos Unidos, publicou a matéria “Crueldade nas Maternidades”, descrevendo como tortura o tratamento recebido pelas parturientes. Na mesma época, um movimento contra a violência no parto no Reino Unido levou à criação da Sociedade para Prevenção da Crueldade contra as Grávidas (1958). Algumas décadas mais tarde, em movimentos sociais, círculos feministas e na academia, o tema passava a ser também discutido no Brasil. O Grupo Ceres, a partir de uma pesquisa etnográfica sobre a experiência das mulheres nos anos 1980, descreveu o parto hospitalar como uma vivência violenta: Pessoa em trabalho de parto. Parturiente Não é apenas na relação sexual que a violência aparece marcando a trajetória existencial da mulher. Tambémna relação médico-paciente, ainda uma vez o desconhecimento de sua fisio- logia é acionado para explicar os sentimentos de desamparo e desalento com que a mulher assiste seu corpo ser manipulado quando recorre à medicina nos momentos mais significati- vos da sua vida: a contracepção, o parto, o aborto. (GRUPO CERES, 1981, p. 349). Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 110 Em meados dessa mesma década, a violência obstétrica também se tornou ques- tão de política pública no Brasil. O Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM), como já discutido em aula anterior, reconheceu como problema o tratamento impessoal e muitas vezes agressivo no contexto de atenção à saúde das mulheres. Desde então, multiplicaram-se estudos no país que documentam a frequência da discriminação e desumanização na assistência ao parto, tanto em instituições de saúde públicas quanto privadas. A pesquisa de Venturi e Godinho intitulada “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado” (2013) contribuiu de forma inédita para a visibilidade do tema da violência obstétrica, despertando surpreendente interesse da mídia. Segundo esse estudo, cerca de um quarto das mulheres que passaram por um parto relataram alguma forma de violência na assistência, o que também foi mencionado por cerca da metade daquelas que passaram por um abortamento. A partir de estudos como esse, de discussões e da pressão social sobre os governos para responderem ao problema, vários países na América Latina e do Caribe apro- varam leis que reconhecem a violência obstétrica como uma forma específica de violência de gênero. A lei venezuelana de combate à violência contra a mulher, de 2007, foi a primeira no mundo a definir a violência obstétrica como: [...] a apropriação do corpo e dos processos reprodutivos das mulheres por profissional de saúde, que se expressa por meio de relações desumanizadoras, de abuso de medicalização e de patologização dos processos naturais, resultando em perda de autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seu corpo e sexualidade, impactando negativamente na quali- dade de vida das mulheres. (VENEZUELA, 2007, Art. 15.13) Como você pôde perceber, a violência obstétrica é muito comum e pode se mani- festar de diferentes formas, entre as quais podemos citar: Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 111 Violência obstétrica Violência física. Violência verbal. Violência sexual. Estigma e discriminação. Realização de intervenções obstétricas desnecessárias. Negação do direito a acompanhante. Negação a privacidade. Negação de um cuidado de qualidade, de acordo com as melhores evidências científicas. Falta de confidencialidade. A violência obstétrica também foi reconhecida pela OMS (2014) como um tema de saúde pública e direitos humanos. No Brasil, não existe legislação específica que categorize a violência obstétrica como uma forma de violência de gênero. Contudo, todos os direitos das pacien- tes apresentados nas aulas anteriores deste curso, bem como os deveres legais e éticos de profissionais de saúde, são suficientes para coibir esse tipo de violência. Isso quer dizer que, caso uma paciente venha a sofrer uma lesão física ou psicológi- ca, temporária ou permanente, em razão de violência sofrida no contexto de aten- dimento obstétrico ou ginecológico, a equipe médica ou a própria instituição de saúde podem ser responsabilizadas na esfera penal e obrigadas a reparar os danos materiais e morais, na esfera cível. Fique por dentro Para saber sobre o problema da violência obstétrica na Argentina, assista ao vídeo Con todo al Aire, produzido pelo Comité de América Latina y el Caribe para la defensa de los derechos de las mujeres (CLADEM). https://www.youtube.com/watch?v=HWJf5seZfEg Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 112 A ausência da expressão “violência obstétrica” na legislação brasileira não significa que suas formas de expressão não sejam proibidas e penalizadas pelo direito. No entanto, as experiências de violência obstétrica sofridas por mulheres e pesso- as gestantes em situação de abortamento e pós-abortamento muitas vezes não são reconhecidas como tais. O estigma e a criminalização do abortamento são fatores que contribuem para que pessoas que abortam sofram caladas os mais diversos tipos de maus-tratos, violência e discriminação. Muitas dessas situações de violência obstétrica no abortamento e pós-abortamento se assemelham àquelas experimentadas em atendimentos no parto e nascimento, como: Fique por dentro Para conhecer mais sobre a relação entre criminalização, estigma e maus-tratos no abortamento nos serviços de saúde dos estados da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro, leia o relatório: Advocacy para o acesso ao aborto legal e seguro. 4 Violação dos direitos à privacidade e à confidencialidade. 1 Negação de tratamento para dor. 2 Discriminação social, de gênero, racial ou étnica. 3 Agressão física, verbal ou psicológica. https://www.senado.gov.br/noticias/agencia/pdfs/advocacy.pdf https://www.senado.gov.br/noticias/agencia/pdfs/advocacy.pdf https://www.senado.gov.br/noticias/agencia/pdfs/advocacy.pdf Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 113 4 Violação dos direitos à privacidade e à confidencialidade. 1 Negação de tratamento para dor. 2 Discriminação social, de gênero, racial ou étnica. 3 Agressão física, verbal ou psicológica. Há outras formas de violência de que apenas pessoas em situação de abortamen- to ou pós-abortamento são vítimas. Por exemplo, apenas pessoas nessa situação sofrem ameaças, por profissionais de saúde, de que serão denunciadas à polícia ou são efetivamente criminalizadas quando acusadas de terem induzido seus abortos (ASSIS; LARREA, 2022). Além disso, apenas elas sofrem a negação do direito ao abortamento previsto em lei, mesmo que reúnam todas os requisitos para acessarem esse cuidado (ASSIS; LARREA, 2022), os quais vimos em aula anterior. Segundo Diniz et al. (2015), a violência obstétrica no abortamento pode implicar aumento de morbimortalidade materna por: Negligência. Indisponibilidade de serviços que realizam o abortamento previsto por lei. Retardo do atendimento, quando as equipes identificam ou supõem que o abortamento tenha sido provocado e negam atendimento ou demoram a realizá-lo. Hostilidade. Fonte: Adaptado de Diniz et al. (2015, p. 4 e 5). Ou seja, existe uma relação direta entre violência obstétrica e abortamento insegu- ro. Se as pessoas suspeitam que serão maltratadas, discriminadas e estigmatizadas ao procurar o serviço de saúde em uma situação de complicação por abortamento, elas deixarão de buscar esse cuidado e passarão sozinhas pela experiência. Como vimos em aula anterior, o abortamento inseguro pode gerar complicações graves e até mesmo a morte, demandando atenção rápida. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12822015000300019&lng=pt&nrm=iso Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 114 Você já ouviu algum relato ou presenciou alguma situação de violência obsté- trica? Qual foi o seu sentimento em relação a isso? Ponto de reflexão Tipos de abuso e desrespeito em situações de abortamento e pós-aborto Muitas vezes, conhecemos um conceito do ponto de vista teórico, mas não conse- guimos identificar quando ele ocorre na prática. Isso pode se dar com a violência obstétrica – não sabermos identificar em quais situações estamos diante dela.Para suprir essa necessidade e auxiliar você na identificação de situações de cuidado em abortamento e pós-aborto que podem ser caracterizadas como violência obstétri- ca, adaptamos as categorias de abuso e desrespeito sintetizadas por Tesser et al. (2015). Além disso, adicionamos um item de orientação que ajuda a combater essas situações. Incorpore essa reflexão e cuidado em sua prática e dissemine-a entre seus(suas) colegas! Violência física A violência física corresponde a qualquer ação física praticada sobre o corpo da pessoa que aborta, causando-lhe dano ou dor. Um exemplo muito comum em aten- dimentos de abortamento é não fornecer analgesia adequada na realização de procedimentos como AMIU ou curetagem. Você viu até aqui um pouco da história do conceito de violência obstetrícia e suas reper- cussões para o cuidado em saúde sexual e reprodutiva e, especialmente, o abortamento. A seguir, conheça as expressões de violência obstétrica em situações de aborta- mento e cuidado pós-aborto. Cuidados em saúde Para evitar essa situação, ofereça analgesia adequada tanto nos procedimentos de aborto medicamentoso quando nos procedimentos invasivos como AMIU. Ofereça também um atendimento adequado e prontamente disponível, sem atrasos e prolongação do sofrimento da pessoa que aborta. Respeite sempre a integridade corporal da pessoa sob seus cuidados. Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 115 Imposição de intervenções não consentidas e intervenções aceitas com base em informações parciais ou distorcidas Falhar em explicar adequadamente as diferentes opções de métodos de aborta- mento ou em assegurar consentimento livre e informado é uma forma de desres- peito, além de ser violação de um dever profissional, como você viu em aula anterior. Também é considerado abuso a realização de curetagem quando o AMIU ou o método medicamentoso são procedimentos comprovadamente menos danosos e estão disponíveis. Cuidados em saúde Cuidados em saúde Para evitar essa situação, garanta um espaço seguro para um diálogo franco e claro sobre os métodos de abortamento, para que a pessoa tenha condições de decidir junto com você. Para evitar essa situação, garanta o direito à privacidade e confidencialidade por meio de acolhimento e internação separada dos leitos obstétricos de parto e pós-parto. Além disso, toda informação compartilhada pela paciente está prote- gida por sigilo médico e você não pode revelá-la a ninguém. Cuidado não confidencial ou não privativo A internação de pacientes que aguardam a realização do procedimento de esvazia- mento do útero junto a pessoas puérperas ou em trabalho de parto é uma forma de desrespeito. Referir-se às pacientes como “aquela que fez aborto”, deixar de garantir seu direito à confidencialidade ou denunciar pacientes que realizaram abortamento a auto- ridades policiais ou judiciais são também situações de abuso e violação de ética profissional e do direito à privacidade. Cuidado indigno e abuso verbal Também é violência obstétrica utilizar formas de comunicação desrespeitosas, subestimando e ridicularizando o sofrimento da pessoa ou desmoralizando seus pedidos de ajuda, por exemplo: deixá-la esperando longos períodos para realizar o procedimento de esvaziamento uterino ou inserção de misoprostol para prepara- ção do colo uterino ou, ainda, expor opiniões de caráter pessoal quanto ao proce- dimento de abortamento. Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 116 Cuidados em saúde Cuidados em saúde Para evitar esse tipo de situação, ofereça sempre um atendimento respeitoso e acolhedor, livre de estigmas e discriminação. Como profissional de saúde, você tem o dever de cuidar e deve-se abster de fazer quaisquer julgamentos morais. Para evitar essa situação, lembre-se sempre que pacientes merecem cuidado respei- toso independentemente de raça, idade, classe, orientação ou identidade sexual. Os cuidados que você oferece impactam diretamente nos indicadores sociais de saúde. Além disso, como profissional de saúde, você sabe que o abortamento é um evento comum na vida reprodutiva das pessoas. Por isso, deve ajudar a comba- ter o estigma associado ao abortamento, e não promovê-lo. Assistência baseada em estigma e discriminação O estigma associado ao abortamento se expressa em sua reprovação sociocultural e a tudo que a ele é associado. A pessoa que aborta é tachada de má, de alguém que rejeitou a maternidade, violou as regras sociais e não cumpriu sua função. A discriminação, por outro lado, se expressa no tratamento desigual em razão da raça ou etnia, classe social e/ou orientação sexual da pessoa que aborta, pelo serviço ou profissional de saúde. Abandono, negligência ou recusa de assistência A demora proposital no atendimento a pessoas em situação de abortamento incompleto ou aguardando esvaziamento uterino nas situações de abortamento previsto em lei pode gerar riscos a sua saúde física e mental. Negar acesso a abor- tamento legal também é uma forma de violência obstétrica. Cuidados em saúde Para evitar essa situação, ofereça cuidado em tempo oportuno e com o melhor nível possível de assistência. Garanta que a paciente seja atendida por outro profissional quando se deparar com a objeção de consciência e não imponha barreiras de acesso ao serviço de saúde. Ameaça de criminalização ou efetiva criminalização As ameaças de criminalização acontecem sempre que profissionais de saúde atuam com a intenção de fazer com que a pessoa que aborta acredite que será criminaliza- da por ter induzido o aborto. Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto Cuidados em saúde Para evitar essa situação, lembre-se que cabe a você o cuidado ético e respeitoso e não desempenhar o papel policial ou da justiça. Você não deve interrogar ou confrontar paciente, tampouco investigar a veracidade ou validade de sua narra- tiva. Como você viu em aula anterior, a pessoa que aborta é responsável por seu relato, que tem presunção de veracidade. Como o serviço de saúde tem sido historicamente a principal porta de criminaliza- ção das pessoas que abortam, o Poder Judiciário brasileiro tem agido para coibir essa forma de violência obstétrica. Como você pôde concluir da análise das diferentes formas de violência obstétrica em abortamento e pós-aborto, esse é um problema relevante e atual. Cabe a você, profissional de saúde, mudar essa realidade, reafirmando a saúde como um trabalho de cuidado. O papel da equipe multiprofissional é sempre acolher e nunca agir orien- tada por preconceitos, estigma ou com intenção de criminalizar a pessoa que aborta. Quer conhecer como o Poder Judiciário tem agido nestes casos? Conheça decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo: TJSP, Habeas Corpus n. 2188896- 03.2017.8.26.0000., julgamento em 8 de março de 2018. É científico! A efetiva criminalização, por sua vez, ocorre quando profissionais de saúde iniciam ou apoiam, por quaisquer meios, investigação ou processo criminal contra pessoa que teve um abortamento. Em ambas as situações, profissionais de saúde violam seus deveres funcionais de cuidado, pois passam a atuar ilegalmente como parte do sistema de justiça criminal. A cor do aborto 117 https://tj-sp.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/755067858/apelacao-civel-ac-10172949320178260344-sp-1017294-9320178260344/inteiro-teor-755067878?ref=serp https://tj-sp.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/755067858/apelacao-civel-ac-10172949320178260344-sp-1017294-9320178260344/inteiro-teor-755067878?ref=serp https://tj-sp.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/755067858/apelacao-civel-ac-10172949320178260344-sp-1017294-9320178260344/inteiro-teor-755067878?ref=serp https://tj-sp.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/755067858/apelacao-civel-ac-10172949320178260344-sp-1017294-9320178260344/inteiro-teor-755067878?ref=serphttps://tj-sp.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/755067858/apelacao-civel-ac-10172949320178260344-sp-1017294-9320178260344/inteiro-teor-755067878?ref=serp Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 118 Embora o abortamento seja um evento comum na vida reprodutiva das pessoas, como vimos em aula anterior, não podemos negligenciar o impacto da desigualda- de social e, especialmente, do racismo estrutural no abortamento inseguro e na mortalidade materna dele decorrente. Diversos estudos apontam o impacto negativo do racismo no gozo da saúde sexual e reprodutiva plena das mulheres negras, de modo especial no contexto de abor- tamento: A discriminação nos serviços de saúde tem sido registrada como recorrente para as mulheres em situação de abortamento, de forma direta e indireta, com tratamento não digno, julga- mento moral e constrangimentos que são revertidos em práticas violentas no momento do atendimento destas mulheres. Ao que parece, isso é redobrado pelo racismo institucional e passa a constituir uma barreira de acesso antes mesmo da entrada no sistema de saúde (GOES et al., 2020, p. 9). Os dados da imagem a seguir mostram, de forma evidente, como as mulheres negras sofrem muito mais as discriminações de gênero embutidas na criminaliza- ção e na estigmatização do abortamento no Brasil: Discriminações de gênero têm tons mais dramáticos para as negras A cor do aborto Entre as mulheres negras 3,5% do que entre as brancas 1,7% o índice de abortos provocados é o dobro Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 119 X Uma mulher negra corre um risco 2,5 vezes maior de morrer por causa de um abortamento 22% negras 16% brancas não tiveram acesso a anestesia durante o parto normal Em 2016, de todas as mortes de mulheres em decorrência da gestação: 53% eram negras 41% eram brancas Fonte: Adaptado de Instituto AzMina (2017). Dados da Pesquisa Nacional do Aborto (2016) evidenciam também as desigualda- des sociais e raciais e as iniquidades em saúde em nosso país. O índice de aborta- mento entre mulheres negras é duas vezes maior do que entre mulheres brancas, e uma pessoa negra tem duas vezes e meia mais chance de morrer em decorrência de um abortamento inseguro. Enquanto as desigualdades sociais impactam o acesso à saúde, o racismo institucional determina as condições de atendimento a mulheres negras, grupo mais exposto ao acesso desqualificado a serviços do SUS, mesmo quando se equiparam renda, nível de instrução e ocupação no mercado de trabalho. Além disso, segundo Goes et al. (2020), mulheres negras retardam a busca por assistência de saúde em situações de abortamento, tanto pelo medo de serem maltratadas ou denunciadas quanto pela falta de condições materiais para buscar os serviços de saúde: Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 120 Há uma inegável vulnerabilidade social associada ao racismo estrutural no contex- to do abortamento no Brasil que os serviços e profissionais de saúde não podem ignorar, tampouco perpetuar. Vídeo com especialista Para saber mais sobre o tema violência obstétrica e racismo, acesse o ambiente virtual do curso e assista ao vídeo com a médica obstetra Mariana Ferreira. É fundamental que no cuidado ao abortamento e pós-aborto os serviços imple- mentem medidas efetivas de combate ao racismo e à discriminação, como a capa- citação de profissionais, a implementação de protocolos de atenção e cuidado humanizado e a responsabilização de profissionais e instituições por situações de racismo, violência e abuso. Em aula anterior, você conheceu a Política Nacional de Saúde Integral da Popu- lação Negra. Agora que você já sabe mais sobre cuidado em abortamento e pós-aborto, se estivesse gerindo uma unidade de saúde, que medidas imple- mentaria para combater o racismo institucional? Ponto de reflexão Fique por dentro Para saber mais sobre a relação entre racismo institucional e violência obstétrica, ouça o Podcast Vozes de Criola. Essa expectativa negativa do atendimento no hospital, informada pela experiência de outras mulheres que relataram ter sido discriminadas pelo aborto nas unidades públicas de saúde, tem sido registrada em pesquisas realizadas em várias cidades brasileiras. O tratamento rece- bido nos hospitais termina inclusive por atingir as mulheres com abortamento espontâneo, suspeitas de tê-lo provocado. Essas práticas, que envolvem desde o retardo na atenção, agres- são verbal e não informação sobre procedimentos, expõem as mulheres a complicações de saúde. Nos últimos anos, isso tem sido agravado pelo aumento de denúncias das mulheres com aborto, feita por profissionais de saúde à polícia, ocorridas ainda no momento da inter- nação, documentadas pela imprensa, em um claro desrespeito ao sigilo previsto nos Códigos de Ética das profissões de saúde (GOES et al., 2020, p. 10). Fique por dentro Leia o artigo Vulnerabilidade racial e barreiras individuais de mulheres em busca do primeiro atendimento pós-aborto na íntegra. https://open.spotify.com/episode/7BQiytrqld76cCAmVz6ZRN https://open.spotify.com/episode/7BQiytrqld76cCAmVz6ZRN https://www.researchgate.net/publication/339206359_Vulnerabilidade_racial_e_barreiras_individuais_de_mulheres_em_busca_do_primeiro_atendimento_pos-aborto https://www.researchgate.net/publication/339206359_Vulnerabilidade_racial_e_barreiras_individuais_de_mulheres_em_busca_do_primeiro_atendimento_pos-aborto https://www.researchgate.net/publication/339206359_Vulnerabilidade_racial_e_barreiras_individuais_de_mulheres_em_busca_do_primeiro_atendimento_pos-aborto https://www.researchgate.net/publication/339206359_Vulnerabilidade_racial_e_barreiras_individuais_de_mulheres_em_busca_do_primeiro_atendimento_pos-aborto https://www.researchgate.net/publication/339206359_Vulnerabilidade_racial_e_barreiras_individuais_de_mulheres_em_busca_do_primeiro_atendimento_pos-aborto Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 121 Teste seus conhecimentos Você trabalha em uma unidade básica de saúde e, percebendo a alta prevalência de relatos de violência obstétrica no hospital de referência de sua região, resolve organizar uma ativi- dade com profissionais e pessoas interessadas para um debate no qual produzirão material educativo para orientar as pessoas sobre situações de violência obstétrica no abortamento. Assinale todas as alternativas CORRETAS que você contemplará no seu material: 1. ( ) Você tem direito à privacidade e confidencialidade. Ninguém pode difundir infor- mações sobre seu estado de saúde sem seu consentimento. 2. ( ) Você tem direito a receber melhor atendimento em saúde conforme as mais recen- tes evidências científicas. 3. ( ) Você tem direito a receber o tratamento que decidir junto ao(à) profissional de saúde depois de receber informações adequadas. 4. ( ) Se você está em uma situação de abortamento, deve entender que pacientes em trabalho de parto tem prioridade e esperar sem reclamar até que chegue sua hora de ser atendida. 5. ( ) Na maioria das vezes, abortamentos incompletos podem ser tratados esperando-se eliminação completa ou com misoprostol comprimidos. Deve-se evitar realizar cure- tagem e você pode pedir para que seja realizada aspiração (AMIU). 6. ( ) Se você tem direito a abortamento previsto em lei, seja por situação de violência sexual, risco de vida ou anencefalia, o hospital de referência deve garantir profissio- nal que realize o procedimento. Feedback positivo: Você acertou se escolheu as opções 1, 2, 3, 5 e 6. Para- béns! Você está pronta(o) para disseminar informação correta e baseada em evidências científicassobre formas efetivas de se combater a violência obstétri- ca no abortamento e pós-aborto. Feedback negativo: Se você incluiu a opção 4 em seu material informativo, vale a pena voltar e reler o material desta aula. Saiba que não existe hierarquia entre a atenção ao parto e nascimento, e ao abortamento e pós-aborto. Se você gostou da atividade anterior e se entusiasmou para realizar uma semelhan- te em seu ambiente de trabalho, acesse os materiais ao lado. Fique por dentro Violencia obstetrica y aborto Manual de autodefesa feminista Violência obstétrica no abortamento A criminalização do abortamento Como você viu em aula anterior, o abortamento é, de modo geral, criminalizado no Brasil pelo Código Penal (BRASIL, 1940, Art. 124-127), sendo permitido apenas https://womenhelp.org/en/media/inline/2017/5/28/autodefensa_de_violencia_obstetrica-272444471.pdf https://womenhelp.org/en/media/inline/2017/5/28/autodefensa_de_violencia_obstetrica-272444471.pdf https://womenhelp.org/en/page/1289/manual-de-autodefesa-feminista---brasil https://womenhelp.org/en/page/1289/manual-de-autodefesa-feminista---brasil https://coletivomargaridaalves.org/wp-content/uploads/2020/07/CARTILHA-VIOLÊNCIA-OBSTÉTRICA-_-WEB.pdf https://coletivomargaridaalves.org/wp-content/uploads/2020/07/CARTILHA-VIOLÊNCIA-OBSTÉTRICA-_-WEB.pdf Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 122 nas situações em que há risco para a vida da pessoa gestante, quando a gestação é fruto de violência sexual ou quando o feto é anencefálico. Contudo, as leis penais não são aplicadas igualmente para todas as pessoas – raça e classe social são fatores que impactam as chances de uma pessoa vir a ser proces- sada e condenada criminalmente. Com o intuito de evidenciar essa situação, a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ) conduziu uma pesquisa em 2018 em que analisou as ações penais promovidas contra mulheres no estado, pela figura do artigo 124 do Código Penal – o chamado “autoaborto”, ou seja, aquele em que a própria pessoa provoca o abor- tamento ou permite que outrem o faça. Como mostra a Pesquisa Nacional do Aborto (2016), mulheres de todas as classes sociais e raças abortam no Brasil. Contudo, a pesquisa da DPRJ mostrou que são processadas criminalmente mulheres com um perfil muito específico: jovens, com baixa escolaridade, mães, negras ou pardas, pobres e sem nenhuma passagem pelo sistema criminal. Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 123 De acordo com esse relatório, em mais da metade dos casos a notícia crime foi realizada por funcionários das unidades de saúde, depois que as mulheres buscaram atendimento médico para tratar complicações de um abortamento inseguro. Na maioria das investigações, tratava-se de denúncias feitas pela rede pública de saúde e, em um único caso, a pessoa gestante foi atendida na rede privada. O fato de que essas mulheres nunca tiveram qualquer passagem pelo sistema penal e que o sistema de saúde é responsável por abrir essa porta é alarmante. Como profissional em formação, você deve não apenas se abster de práticas como essa, moralmente condenáveis e ilegais, mas também contribuir para a conscientização de colegas e, assim, para a humanização da atenção ao abortamento e pós-aborto. Conheça o relatório na integra “Entre a morte e prisão: quem são as mulheres criminalizadas pela prática do aborto no Rio de Janeiro”. É científico! Criminalização do abortamento Gera medo e insegurança, levando as pessoas que abortam para a clandestinidade. Impõe barreiras efetivas ao acesso à saúde humanizada e de qualidade. Reproduz e aprofunda o estigma social em torno do abortamento. Gera discriminação social. Encarcera pessoas. É importante reconhecer que a criminalização do abortamento não cumpre a fina- lidade de coibir a sua prática – essa é uma lei penal falida. A criminalização do aborto não desestimula sua prática; ela apenas o torna arriscado e inseguro, especialmente para pessoas vivendo em contextos de maior vulnerabilidade. https://defensoria.rj.def.br/uploads/arquivos/c70b9c7926f145c1ab4cfa7807d4f52b.pdf https://defensoria.rj.def.br/uploads/arquivos/c70b9c7926f145c1ab4cfa7807d4f52b.pdf https://defensoria.rj.def.br/uploads/arquivos/c70b9c7926f145c1ab4cfa7807d4f52b.pdf https://defensoria.rj.def.br/uploads/arquivos/c70b9c7926f145c1ab4cfa7807d4f52b.pdf https://defensoria.rj.def.br/uploads/arquivos/c70b9c7926f145c1ab4cfa7807d4f52b.pdf Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 124 Fatores como classe social e raça devem, portanto, ser considerados centrais nas políticas de enfrentamento do estigma e das barreiras de acesso impostas pela criminalização do abortamento. Mulheres jovens, negras, com baixa escolaridade e pobres não apenas são aque- las que mais frequentemente recorrem a métodos inseguros, mas também estão entre as mais investigadas e criminalizadas. Os serviços de saúde devem se mobili- zar contra essa injustiça racial e social e fazer a sua parte. O que você, como profissional da saúde, pode fazer diante desse quadro? Já presenciou situações parecidas? Reflita sobre a sua prática profissional nessa situação. Ponto de reflexão Uma das principais medidas a ser adotada por serviços e profissionais de saúde é o oferecimento de cuidado e atenção, sem julgamento e sem denúncias. Nesta aula, você aprendeu um pouco sobre a história do conceito de violência obstétrica e como ele se aplica às situações de abortamento e pós-aborto. Além disso, aprendeu medidas concretas de como evitar situações de violência obstétrica no cuidado que você prestará como profissional de saúde. Finalmente, refletiu um pouco sobre os efeitos danosos da criminalização e da estigma- tização do abortamento, e como eles atingem de modo mais duro mulheres e pessoas negras e pobres, já afetadas pelo racismo institucional e pela desigualdade social. Encerramento Você chegou ao final da jornada! Esperamos que este curso tenha contribuído para ampliar o seu conhecimento sobre os diferentes aspectos dos direitos sexuais e reprodutivos, e especialmente sobre a problemática do abortamento. Você pôde conhecer um pouco sobre esse tema no mundo e se aprofundou no estudo do caso brasileiro, porque, como profissional de saúde atuando no país, ocupa um lugar estratégico para acolher pessoas em situação de abortamento de forma humana, digna e respeitosa, fazendo assim do direito integral à saúde uma realidade. Aula 6. Violência obstétrica no abortamento e no cuidado pós-aborto Ampara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 125 Além disso, você também pôde compreender os efeitos danosos da legislação restritiva ao abortamento, que, levando pessoas à realização de abortamento inseguro, contri- bui para a morbimortalidade, aprofunda as desigualdades sociais e raciais, e criminali- za, restringindo sua autonomia e dignidade. Nesse contexto, o acolhimento à gestação indesejada sob uma perspectiva de redução de danos pode contribuir para o acesso ao abortamento seguro, salvando vidas. Cabe a você, profissional de saúde, atuar de forma ética, comprometida com a efeti- vação do serviço de abortamento previsto em lei e, essencialmente, orientada pelos direitos humanos, de acordo com as melhores e mais recentes evidências científicas, desencorajando métodos inseguros. ReferênciasAmpara. Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 126 Referências ABORTO é questão de saúde pública. Jornal da USP, São Paulo, 29 out. 2019. 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Acolhimento de pessoas em situação de abortamento e pós-aborto 127 _________. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Brasília, DF: Presidência da República, [2002]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/2002/L10406compilada.htm. Acesso em: 18 ago. 2021. _________. Lei nº 13.509, de 22 de novembro de 2017. Dispõe sobre adoção e altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, e a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil). Brasília, DF: Presidência da República, [2017]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13509.htm. Acesso em: 18 ago. 2021. _________. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica. Saúde sexual e saúde reprodutiva. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. 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