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Cidade Ano Jacareí 2021 GUSTAVO HENRIQUE RAMOS PEREIRA PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE: O ESTUDO DO PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE E SUA VISUALIZAÇÃO NOS ACÓRDÃOS PROFERIDOS PELO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO Jacareí 2021 PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE: O ESTUDO DO PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE E SUA VISUALIZAÇÃO NOS ACÓRDÃOS PROFERIDOS PELO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade Anhanguera de Jacareí, como requisito parcial para a obtenção do título de graduado em Direito. Orientador: Mariana Prado Bravo GUSTAVO HENRIQUE RAMOS PEREIRA GUSTAVO HENRIQUE RAMOS PEREIRA PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE: O ESTUDO DO PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE E SUA VISUALIZAÇÃO NOS ACÓRDÃOS PROFERIDOS PELO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade Anhanguera de Jacareí, como requisito parcial para a obtenção do título de graduado em Direito. BANCA EXAMINADORA Prof(a). Titulação Nome do Professor(a) Prof(a). Titulação Nome do Professor(a) Prof(a). Titulação Nome do Professor(a) Jacareí, (dia de mês e ano). Dedico este trabalho aos meus pais que estiveram comigo em todos os momentos da minha graduação, prestando e demonstrando todo o apoio necessário para que finalmente eu lograsse êxito com a conclusão do curso e consequente apresentação do presente trabalho. AGRADECIMENTOS Agradeço, primeiramente, ao Deus que se encontra presente nas pequenas coisas que me auxiliaram na trajetória percorrida durante toda a graduação. Bem como, aos meus pais, irmãos e toda a minha família. Não posso deixar fazer menção aos meus caros amigos que em sua maneira particular me apoiaram, compreendendo as eventuais ausências, ocorridas em virtude da dedicação que se fez necessária para o desprendimento em relação ao presente trabalho e, sobretudo, a graduação. Finalmente, cumpre ainda agradecer a Faculdade Anhanguera de Jacareí, na pessoa dos professores que fizeram parte deste caminho, a equipe de coordenação e demais colaboradores. Concluo agradecendo aos meus caros colegas que também se formam nesta ocasião, os quais tiveram o privilégio de compartilhar momentos de aprendizado e reflexão. “Eu queria que você visse o que é realmente coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo. Raramente a gente vence, mas isso pode até acontecer.” (Harper Lee) PEREIRA, Gustavo Henrique Ramos. Princípio da Coculpabilidade: O Estudo do Princípio da Coculpabilidade e sua Visualização nos Acórdãos Proferidos pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. 2021. 30. Trabalho de Conclusão de Direito – Faculdade Anhanguera de Jacareí, Jacareí, 2021. RESUMO Trata-se de artigo que busca demonstrar de forma clara e sucinta aquilo que é o princípio da coculpabilidade, demonstrando o seu contexto historio, baseando-se nos fundamentos constitutivos do tema proposto. Num primeiro momento, há de se mencionar que o mentor deste princípio é o jurista Eugenio Raúl Zaffaroni, contudo, verifica-se que tanto no Brasil, quanto nos demais países da América do Sul, o princípio da coculpabilidade tem sido adaptado com o ordenamento jurídico de cada país. Em nosso ordenamento jurídico, a doutrina o define como a eventual imputação ao Estado parcela da responsabilidade social pelos atos criminosos cometidos pelos agentes em razão das desigualdades sociais vivenciadas, ou seja, as condições socioeconômicas, em virtude da não prestação de serviços estatais. Desta forma, remetendo-se a etimologia coculpabilidade, a princípio, o prefixo “co” advêm da palavra companhia, por sua vez, “culpabilidade” diz respeito à subjetividade do crime, traduzindo-se a possível imputação ao Estado. Finalmente, com intuito de visualizar a sua aplicação em casos práticos, serão constatados Acórdãos proferidos pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, cujos resultados são unânimes no que concerne a não aplicação do princípio da coculpabilidade. Palavras-chave: Coculpabilidade. Culpabilidade. Aplicação. Teoria. Jurisprudência. PEREIRA, Gustavo Henrique Ramos. Principle Of Co-culpability: The Study of the Principle Of Co-culpability and the it’s visulization on the judgments of the Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. 2021. 30. Trabalho de Conclusão de Direito – Faculdade Anhanguera de Jacareí, Jacareí, 2021. ABSTRACT It is an article that seeks to demonstrate clearly and succinctly what the principle of co-culpability is, demonstrating its historical context, based on the constitutive foundations of the proposed theme. At first, it must be mentioned that the mentor of this principle is the jurist Eugenio Raúl Zaffaroni, however, it appears that both in Brazil and in other South American countries, the principle of co-culpability has been adapted with the legal system each country. In our legal system, the doctrine defines it as the possible imputation to the State part of the social responsibility for the criminal acts committed by the agents due to the social inequalities experienced, that is, the socioeconomic conditions, due to the non-provision of state services. Thus, referring to the ethos of co-culpability, in principle, the prefix “co” comes from the word company, in turn, “culpability” refers to the subjectivity of crime, translating into possible imputation to the State. Finally, in order to visualize its application in practical cases, Judgments handed down by the São Paulo State Court of Justice will be noted, the results of which are unanimous in what concerns the non-application of the principle of co-responsibility. Keywords: Co-culpability. Culpability. Application. Theory. Judgments. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CP Código Penal CF Constituição Federal STJ SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA TJSP Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 14 2 DO PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE ......................................................... 16 2.1 DOS PRINCÍPIOS ............................................................................................... 16 2.2 DA CULPABILIDADE .......................................................................................... 17 2.3 DO PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE ............................................................ 17 2.3.1 Da Etimologia “Coculpabilidade” ............................................................... 17 2.3.2 Da Origem Do Princípio Da Coculpabilidade ............................................ 18 2.3.3 Do Princípio Da Coculpabilidade Como Princípio Constitucional Implícito 19 3 DA VISUALIZAÇÃO DO PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE NO DIREITO ESTRANGEIRO – DIREITO COMPARADO ............................................................. 20 3.1 DO CÓDIGO PENAL DA ARGENTINA ........................................................... 20 3.2 DO CÓDIGO PENAL DO EQUADOR ............................................................. 21 3.3 DO CÓDIGO PENAL BOLIVIANO .................................................................. 22 3.4 DO CÓDIGO PENAL BRASILEIRO ................................................................ 22 3.4.1 Das Circunstâncias Atenuantes Genéricas .............................................22 3.4.2 Da Aplicação do Princípio da Coculpabilidade Como Atenuante Genérica 23 4 DA VISUALIZAÇÃO DO PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE NOS ACÓRDÃOS PROFERIDOS PELO EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO ....................................................................................... 26 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 30 REFERÊNCIAS......................................................................................................... 32 1 INTRODUÇÃO Cuida-se de monografia objetivando a demonstração sucinta do princípio da coculpabilidade, portanto, foi realizada análise objetiva do tema na doutrina brasileira, a qual, em sua maioria, discorre deste princípio, considerando-o como constitucional implícito. Além disso, tendo sido efetuadas pesquisas junto a doutrina extravagante, notório que tanto a doutrina brasileira, assim como aquela, delimitam o princípio da coculpabilidade da mesma forma, ou seja, a busca por possível responsabilização estatal. É cediço que os princípios são conceitos basilares que norteiam o Direito de forma geral. Contudo, a respeito do princípio da coculpabilidade é necessário demonstrar que sua etimologia parte de dois conceitos importantes, qual seja o prefixo “co”, se referindo, nesta oportunidade, à coparticipação e o sufixo “culpabilidade”, que diz respeito à subjetividade do crime. Desta forma, evidente que o princípio da coculpabilidade visa imputar ao Estado parcela da responsabilidade pelos atos criminosos cometidos pelos agentes em razão das desigualdades sociais vivenciadas, ou seja, as condições socioeconômicas. Vale ressaltar, inclusive, que através do princípio da coculpabilidade não se busca a impunidade dos agentes que eventualmente pratiquem ato delituoso e certamente vem de origens desiguais em razão da falta de atuação estatal, entretanto, o princípio da coculpabilidade visa apenar o Estado em virtude da sua inércia perante determinados grupos. Diante das questões supradestacadas e remetendo-se a visualização do princípio da coculpabilidade na doutrina brasileira, e principalmente, a sua verificação no Direito estrangeiro, que, diga-se de passagem, é o percussor do conceito aqui tratado, evidencia-se que o entendimento do tema é assentado, ou seja, há convergência das ideias concernentes ao princípio da coculpabilidade. Desta forma, quando de sua aplicação, é pacífico o entendimento que o princípio da coculpabilidade é espécie de atenuante genérica, prevista no artigo 66 do Código Penal (CP), o qual determina que a pena possa ser atenuada em virtude de circunstâncias relevantes anteriores ao crime. Contudo, ainda que haja pacificação do entendimento do princípio da coculpabilidade, analisando alguns Acórdãos proferidos pelo Egrégio Tribunal de Justiça, verifica-se que o posicionamento majoritário é contrário a aplicação deste princípio nos casos concretos, havendo, precedentes do Colendo Superior Tribunal de Justiça neste sentido. 2 DO PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE 2.1 DOS PRINCÍPIOS É notório que os princípios são conceitos basilares de qualquer sistema, portanto, no Direito não poderia ser diferente. Os princípios não são encontrados em nenhuma norma específica, ainda que a maioria das normas baseiam-se em ideais principiológicos. Miguel Reale, assim define os princípios: "Princípios são enunciações normativas de valor genérico, que condicionam e orientam a compreensão do ordenamento jurídico, a aplicação e integração ou mesmo para a elaboração de novas normas. São verdades fundantes de um sistema de conhecimento, como tais admitidas, por serem evidentes ou por terem sido comprovadas, mas também por motivos de ordem prática de caráter operacional, isto é, como pressupostos exigidos pelas necessidades da pesquisa e da práxis.” (REALE, Miguel. 2002 p. 96.). Posto isso, incontroversa a necessidade de princípio em sistemas jurídicos complexos, tal qual é o brasileiro. Portanto, muito embora não tratarem-se de normas positivadas, os princípios têm aplicação, seja de forma a direcionar determinado raciocínio, ou garantir direito supralegal, ou seja, aqueles garantidos a todos, entretanto, não estão previstas em legislação específica. Assim, tratando-se especificamente da aplicação dos princípios, veja-se o que leciona Maria Helena Diniz: “(…) eles suprem a deficiência da ordem jurídica, possibilitando a adoção de princípios gerais de direito, que, às vezes, são cânones que não foram ditados, explicitamente, pelo elaborador da norma, mas que estão contidos de forma imanente no ordenamento jurídico.” (DINIZ, Maria Helena. 2003 p. 456). Posto isso, restou claro a aplicação dos princípios norteadores do Direito, passa-se, portanto, a verificação das demais terminologias do princípio da coculpabilidade. 2.2 DA CULPABILIDADE A culpabilidade é um dos princípios basilares do Direito Penal, que versa, especialmente sobre a existência de um delito. Ou seja, o princípio da coculpabilidade é aspecto fundamental da responsabilidade da pessoa humana que eventualmente pratica um fato típico e ilícito. A respeito da teoria tripartida do crime, leciona Francisco de Assis Toledo: “Substancialmente, o crime é um fato humano que lesa ou expõe a perigo bens jurídicos (jurídico-penais) protegidos. Essa definição é, porém, insuficiente para a dogmática penal, que necessita de outra mais analítica, apta a pôr à mostra os aspectos essenciais ou os elementos estruturais do conceito de crime. E dentre as várias definições analíticas que têm sido propostas por importantes penalistas, parece-nos mais aceitável a que considera as três notas fundamentais do fato-crime, a saber: ação típica (tipicidade), ilícita ou antijurídica (ilicitude) e culpável (culpabilidade). O crime, nessa concepção que adotamos, é, pois, ação típica, ilícita e culpável.” (TOLEDO, Francisco de Assis. 2012 p. 80). Dessa forma, podemos concluir que o princípio da culpabilidade está relacionado diretamente ao requisito subjetivo do crime, isto é, e o agente causador do delito, é necessariamente culpável. 2.3 DO PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE 2.3.1 Da Etimologia “Coculpabilidade” Ultrapassado o conceito dos princípios e a sua importância para o Direito Penal e ainda, tendo sido analisado brevemente o conceito do princípio da culpabilidade, antes de se adentrar no mérito do princípio da coculpabilidade, cumpre tecer algumas considerações acerca de sua etimologia. Veja-se que a etimologia “coculpabilidade” é formada pelo prefixo “co” e o sufixo “culpabilidade”. O prefixo “co” está diretamente relacionado ao elemento da companhia na culpabilidade, ou seja, a companhia em eventual responsabilidade no cometimento do fato típico. 2.3.2 Da Origem Do Princípio Da Coculpabilidade O princípio da coculpabilidade tem sua origem no liberalismo, de forma simplória, considere o surgimento do Estado Liberal e o consequente pacto social, pelo qual o Estado assuma a responsabilidade de prover o mínimo para a população, e esta, em contrapartida, siga as normas ditadas por aquele Estado. Portanto, a partir do momento em que o Estado não cumpra o seu papel neste considerado pacto social, o mesmo assume as consequências da ausência de amparo àqueles cidadãos que mais necessitam e eventualmente, sucumbem à criminalidade. Em consequência disso, surge a coculpabilidade. Eis que ao cometer determinado delito, o individuo teria rompido o pacto social, contudo, a corresponsabilidade do Estado advém da ausência de sua própria atuação. Neste sentido esclarece Grégore Moura (2006, p. 44), “em contrapartida, o Estado também quebra o contrato social quando deixa de propiciar aos seus cidadãos o mínimo de condições de sobrevivência, segurança e desenvolvimentoda pessoa humana”. Ainda que se tenha esclarecido a ideia abstrata do conceito da coculpabilidade, insta manifestar que o percussor do seu conceito formal foi apresentado pelo jurista Eugenio Raúl Zaffaroni, atual Magistrado da Corte Interamericana de Direitos Humanos, localizada em San José, capital da Costa Rica. Contudo, há diversos autores que tratam do princípio da coculpabilidade na doutrina brasileira, tais como: Grégore Moura leciona que: “O princípio da co-culpabilidade é um princípio constitucional implícito que reconhece a co-responsabilidade do Estado no cometimento de determinados delitos, praticados por cidadãos que possuem menor âmbito de autodeterminação diante das circunstâncias do caso concreto, principalmente no que se refere às condições sociais e econômicas do agente, o que enseja menor reprovação social, gerando conseqüências práticas não só na aplicação e execução da pena, mas também, no processo penal.” (MOURA, Grégore. 2006 p. 36-37). Por sua vez, Juarez Cirino dos Santos dita que: “Hoje, como valoração compensatória da responsabilidade dos indivíduos inferiorizados por condições sociais adversas, é admissível a tese da coculpabilidade da sociedade organizada, responsável pela injustiça das condições sociais desfavoráveis da população marginalizada, determinantes de anormal motivação da vontade nas decisões da vida.” (SANTOS, Juarez Cirino dos. 2004 p. 265-266). 2.3.3 Do Princípio Da Coculpabilidade Como Princípio Constitucional Implícito Como se viu anteriormente, especialmente na doutrina de Grégore Moura, é possível identificar o princípio da coculpabilidade como um princípio constitucional implícito. O princípio da coculpabilidade é, portanto, é o resultado da interpretação constitucional, haja vista os fundamentos basilares da República Federativa do Brasil, explícitos nos artigos 1º e 3º da Constituição Federal (CF), a saber: “Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: (...) III - a dignidade da pessoa humana; (...) Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: (...) III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; (...)” (Brasil, 1988). Portanto, tendo em vista as eventuais omissões do Estado e oportunamente coniventes com o descumprimento de suas obrigações constitucionais perante os cidadãos, logo, o Estado deve ser responsabilizado em virtude da sua ausência de atuação. Desta forma, verifica-se que o princípio da coculpabilidade está previsto, ainda que de forma explícita, na Constituição da República de 1988. 3 DA VISUALIZAÇÃO DO PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE NO DIREITO ESTRANGEIRO – DIREITO COMPARADO Tendo em vista o que foi exposto anteriormente, restou incontroverso que o princípio da coculpabilidade está presente em grande parte da doutrina brasileira, ainda que se trate de princípio constitucional tido como implícito. Contudo, em virtude da uniformização principiológica do Direito Penal Constitucional, ou seja, no que diz respeito aos aspectos que buscam amplitude do alcance da dignidade da pessoa humana no ordenamento jurídico criminal mundial, verifica-se que diversos conceitos são pacificados tanto na doutrina, quanto na legislação de diversos países. Portanto, o direito comparado se traduz na importância de análise de ordenamentos jurídicos, levando-se em consideração, legislação, doutrina e sobretudo, a jurisprudência, eis que demonstram o contexto social que originaram aquela composição jurídica. Nesse sentido aduz Naojiro Sujiyama: “No hay ningún Derecho comparado que no exija una comprobación positiva comparativa y sistemática, que consiste, en suma, en investigar la substancia del derecho viviente, para observar los efectos que derivan de ella y las circunstancias sociales que se encuentran detrás del derecho viviente”. (SUJIYAMA, Naojiro. 1941, p. 56-57). Diante disso, manifesta é a importância da verificação do princípio da coculpabilidade no Direito Estrangeiro, especialmente nos países em que o princípio da coculpabilidade está positivado. 3.1 DO CÓDIGO PENAL DA ARGENTINA No Código Penal da Argentina, o princípio da coculpabilidade está previsto entre os artigos 40 e 41, in verbis: Art. 40.- En las penas divisibles por razón de tiempo o de cantidad, los tribunales fijarán La condenación de acuerdo con las circunstancias atenuantes o agravantes particulares a cada caso y de conformidad a las reglas del artículo siguiente. Art. 41.- A los efectos del artículo anterior, se tendrá en cuenta: 1º. la naturaleza de la acción y de los medios empleados para ejecutarla y la extensión del daño y del peligro causados; 2º. la edad, la educación, las costumbres y la conducta precedente del sujeto, la calidad de los motivos que lo determinaron a delinquir, especialmente la miseria o la dificultad de ganarse El sustento propio necesario y el de los suyos, la participación que haya tomado en el hecho, lãs reincidencias en que hubiera incurrido y los demás antecedentes y condiciones personales, así como los vínculos personales, la calidad de las personas y las circunstancias de tiempo, lugar, modo y ocasión que demuestren su mayor o menor peligrosidad. El juez deberá tomar conocimiento directo y de viso del sujeto, de la víctima y de las circunstancias del hecho en la medida requerida para cada caso. (ARGENTINA, 1984). Em suma, verifica-se que na Argentina a o princípio da coculpabilidade tem sua aplicação não só em virtude da ausência de atuação estatal, em relação ao agente, isto é, quando verificado que a pessoa possui condições de vida superiores, impõe-se a agravação da pena. Por outro lado, verificado que aquele que se encontra a margem da sociedade, em razão da falta de oportunidades oferecidas pelo Estado, há o abrandamento da pena. 3.2 DO CÓDIGO PENAL DA COSTA RICA Diferentemente da Argentina, o Código Penal da Costa Rica determina que o princípio da coculpabilidade seja o medidor da culpabilidade do agente, vejamos: Artículo 73: Principio de culpabilidad La pena no podrá exceder los límites de la culpabilidad. Tanto para cuantificar como para seleccionar la pena de los delitos y las contravenciones, el juez tendrá especialmente en cuenta: La extensión del daño y del peligro provocados; la calidad de los motivos que lo impulsaron a la conducta; la mayor o menor comprensión del carácter ilícito de la conducta; las circunstancias de modo, tiempo y lugar de la conducta; las condiciones económicas, sociales, culturales y personales del autor; el comportamiento posterior a la conducta, en cuanto revele la disposición para reparar el daño, resolver el conflicto o mitigar sus efectos; y las condiciones generales de la persona ofendida en la medida en que hayan influido en la comisión del delito o contravención. Las mismas reglas se aplicarán cuando se trate de las sustituciones tanto de la pena principal por una alternativa como de una alternativa por otra u otra. (COSTA RICA, 1970). 3.3 DO CÓDIGO PENAL BOLIVIANO Por sua vez, o Código Penal Boliviano dispõe do princípio da coculpabilidade como uma circunstância subjetiva do agente, ou seja, busca-se aferir características de sua personalidade. Frisa-se que a aplicação do princípio da coculpabilidade Brasil segue esta mesma linha de raciocínio, contudo este tema será tratado em momento oportuno. Assim sendo, tanto na Bolívia como no Brasil, sendo verificada a condição de miserabilidade, é possível a aplicação do princípio da coculpabilidade como atenuante genérica. Porquanto, cumpre ser transcrito os artigos 38 e 40 do Código Penal Boliviano: Art. 38 – CIRCUNSTANCIAS 1. Para apreciar la personalidad del autor,se tomará principalmente en cuenta: a) La edade, la educación, las costumbres y la conducta precedente y posterior del sujeito, los móviles que lo impulsaron a delinquir y su situación econômica e social. Art. 40 – ATENUANTES GENERALES. Poderá también atenuarse La pena: 1. Cuando El autor há obrado por motivo honorable, o impulsado por La miséria. (BOLÍVIA, 1972). 3.4 DO CÓDIGO PENAL BRASILEIRO Todos os elementos contidos no presente artigo demonstram que o princípio da coculpabilidade não está previsto expressamente no Código Penal Brasileiro, no entanto, diante de seu conceito, a doutrina explana a forma de sua utilização como circunstância atenuante genérica. 3.4.1 Das Circunstâncias Atenuantes Genéricas Existe um jargão originário do Latim com o seguinte escopo “ad argumentandum tantum”, que significa, de forma simples “apenas para argumentar”. Pois bem, a respeito da aplicação do princípio da coculpabilidade, é necessário que seja pincelado o que são as circunstâncias atenuantes genéricas. Nos mandamentos de Nelson Hungria: “as circunstâncias são as modalidades da ação criminosa, particularmente no que respeita à sua natureza, à espécie dos meios empregados, ao objeto, ao tempo, ao lugar, à atitude ou ao estado de ânimo do réu antes, durante ou após o crime.” (HUNGRIA. 1985. P. 476). Assim sendo, exprime-se que a circunstância atenuante é elemento presente no crime, no entanto, não é considerado pressuposto de sua existência e em razão disso auxilia a verificação da culpabilidade da conduta do agente, ou seja, o aspecto subjetivo. Nesse sentido assevera Paulo José da Costa: “O crime poderá apresentar-se despido de circunstâncias, nu em seu modelo legal, circunscrito a seus elementos essenciais. Poderá também surgir circundado por uma constelação de elementos acessórios que, sem alterar o seu aspecto qualitativo, intensifica ou abranda sua quantidade. Circunstâncias legais atenuantes são aquelas que atuam diminuindo a reprovabilidade da ação e conseqüentemente a culpabilidade pelo crime praticado.” (COSTA. 2000. P. 151). No CPB as circunstâncias atenuantes genéricas estão previstas no artigo 66, in verbis: Art. 66 - A pena poderá ser ainda atenuada em razão de circunstância relevante, anterior ou posterior ao crime, embora não prevista expressamente em lei. (BRASIL. 1940). Passa-se, agora, à análise da aplicação do princípio da coculpabilidade como uma atenuante genérica. 3.4.2 Da Aplicação do Princípio da Coculpabilidade Como Atenuante Genérica A princípio, se faz necessário a retomada das características fundamentais do princípio da coculpabilidade, ou seja, trata-se de instituto do Direito Penal que objetiva a parcial imputação ao Estado da responsabilidade por atos criminosos praticados por aqueles que não tiveram condições básicas de subsistência em virtude da ausência de atuação estatal. Contudo, não é possível incluir, em eventual demanda judicial, o Estado X no polo passivo do processo, entretanto, a fim de legitimar a utilização do mencionado princípio, verificou-se que a sua aplicação está relacionado ao aspecto subjetivo do crime – aspectos relativos ao agente. Nesse sentido, Moura sustenta: [...] a precisão expressa da co-culpabilidade como atenuante genérica reforçaria a necessidade de sua aplicação, bem como limitaria o poder de liberdade e interpretação do magistrado, tão amplo quando da análise do art. 59. (MOURA, 2006, p. 94). Posto isso, imperioso que se destaque o que leciona o artigo 59 do CPB, especialmente o contido no caput: Art. 59 - O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e conseqüências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime: I - as penas aplicáveis dentre as cominadas; II - a quantidade de pena aplicável, dentro dos limites previstos; III - o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade; IV - a substituição da pena privativa da liberdade aplicada, por outra espécie de pena, se cabível. (BRASIL, 1940). Portanto, ainda que não exista previsão expressa do princípio da coculpabilidade no ordenamento jurídico brasileiro, a sua aplicação é plenamente possível, a partir da junção dos artigos 59 e 66 do CPB. Quanto da aplicação do artigo 66 do CPB, assim comenta Guilherme de Souza Nucci: “Trata-se de circunstância legal extremamente aberta, sem qualquer apego à forma, permitindo ao juiz imenso arbítrio para analisá-la e aplicá-la. Diz a lei constituir-se atenuante qualquer circunstância relevante, ocorrida antes ou depois do crime, mesmo que não esteja expressamente prevista em lei. Alguns a chamam de atenuante de clemência, pois o magistrado pode, especialmente o juiz leigo no Tribunal do Júri, levar em consideração a indulgência para acolhê-la. Um réu que tenha sido violentado na infância e pratique, quando adulto, um crime sexual (circunstância relevante anterior ao crime) ou um delinquente que se converta à prática constante da caridade (circunstância relevante depois de ter praticado o delito) podem servir de exemplos.” (NUCCI, 2007, p. 257-258). Destarte, tendo em mente o escopo do princípio da coculpabilidade, bem como o caput do artigo 59 do CPB, tem-se que a sua aplicação ocorrerá por força do art. 66. Importante frisar que o princípio da coculpabilidade não busca, de forma alguma, beneficiar o agente, ou seja, não objetiva afastar a responsabilidade do cidadão que eventualmente cometeu determinado delito. Muito pelo contrário, o intuito deste princípio é exigir do Estado que assegure os direitos básicos previstos constitucionalmente e, sobretudo, puni-lo, por não efetivar a prestação de serviço a todos os cidadãos. Finalmente, com intuito de concluir o entendimento disposto neste tópico, resta a menção do que leciona Moura: “Entretanto a co-culpabilidade como forma de agravação da reprovação social e penal irá de encontro às finalidades para as quais foi desenvolvida, resultando em uma extensão e revisão de seu conceito, bem como de seus aspectos doutrinários ou, quiçá, no seu total desenvolvimento.” (2006, p. 47). 4 DA VISUALIZAÇÃO DO PRINCÍPIO DA COCULPABILIDADE NOS ACÓRDÃOS PROFERIDOS PELO EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO Diante tudo o que foi exposto, restou claro do que trata o princípio da coculpabilidade, a sua forma de aplicação no ordenamento jurídico brasileiro, bem como a sua comparação com o direito internacional. Finalmente, a fim de que esta teoria reste incontroversa, se faz necessária a sua visualização em casos práticos, razão pela qual será disposto a seguir 03 (três) acórdãos proferidos pelo Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. SÃO PAULO. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Apelação nº 1507142-78.2020.8.26.0228. Apelante: Fagner da Costa Tavares. Apelado: Ministério Público do Estado de São Paulo. Relator Tetsuzo Namba. APELAÇÃO CRIMINAL. Ementa: 1-) Apelação criminal. Roubo majorado. Parcial provimento do recurso defensivo para afastar a agravante prevista no art. 61, inc. II, alínea “j”, do Código Penal (calamidade pública decretada em face da pandemia da COVID-19) e parcial provimento do reclamo da Acusação para reconhecer a incidência da causa de aumento do emprego de arma de fogo e fixar o regime inicial fechado. 2-) Materialidade delitiva e autoria, além de incontroversas, estão comprovadas pela prova oral e documentos existentes nos autos. 3-) Causa de aumento de emprego de arma de fogo deve ser reconhecida, pois demonstrada pelo dito pela vítima. Desnecessidade de sua apreensão ou perícia. 4-) Pena modificada. Na primeira fase, a pena-base foi elevada de 1/16, diante das circunstâncias e consequências docrime, tendo-se quatro (4) anos e três (3) meses de reclusão e pagamento de dez (10) dias-multa. Na segunda fase, embora não se discuta que o crime ocorreu durante o período de calamidade pública decretada em face da pandemia de COVID- 19, tal circunstância em nada contribuiu para a sua realização, razão pela qual a agravante prevista no artigo 61, II, “j” do Código Penal deve ser afastada. No mais, incabível o reconhecimento da atenuante inominada, aplicando-se a teoria da coculpabilidade, como aventado pela Defesa, pois não há prova nos autos que permitam afirmar que a conduta criminosa decorreu, ao menos em parte, de negligência estatal. De outro lado, a atenuante da confissão espontânea deve permanecer, pois a admissão judicial de culpa foi considerada como elemento de convicção (Súmula 545 do Superior Tribunal de Justiça). Assim, a pena retorna ao patamar mínimo, diante da presença das atenuantes da menoridade penal e confissão espontânea, tendo-se quatro (4) anos de reclusão e pagamento de dez (10) dias-multa. Na terceira fase, aumenta-se a pena de 2/3, pela existência de causas de aumento de emprego de arma de fogo e concurso de agentes, com aplicação do art. 68, parágrafo único, do Código Penal. Total: seis (6) anos e oito (8) meses de reclusão e pagamento de dezesseis (16) dias-multa. 5-) O regime inicial da pena privativa da liberdade será o fechado. Fagner praticou crime grave, não só abstratamente, todavia, concretamente, roubo em concurso com dois agentes e com emprego de arma de fogo. A vítima foi subjugada durante o trabalho e teve suas ferramentas para o respectivo exercício e ganho de renda subtraídas. Após ser localizado pelos policiais, Fagner ainda tentou fugir e colidiu contra o portão de um residência, colocando em risco a vida de transeuntes e provocando prejuízos ainda maiores a terceiros. Tudo isso mostra sua periculosidade, ousadia, personalidade desvirtuada e desejo de uma conduta social inconveniente. Ora, é de pronta intelecção sua perpetração denota personalidade inteiramente avessa aos preceitos ético-jurídicos que presidem à convivência social. Tendo isso presente, deve o juiz sujeitar o agente ao mais severo regime prisional. Dessa forma, retribui-se pelas condutas delituosas feitas, previne-se que não mais as cometa e outras infrações penais e reintegre-se à sociedade, de maneira harmônica. 6-) Com a nova redação do art. 387, parágrafo 2º, do Código de Processo Penal, na detração, pode ser feita escolha do regime. No caso, o tempo de prisão, suas condições objetivas e subjetivas, já comentadas, são sopesadas, deixando-se no regime eleito; acrescente-se que se houvesse execução, provisória ou definitiva, esse juízo seria feito, necessariamente, sob pena de ter-se apenas uma operação aritmética, que não convém. 7-) Fagner está preso e assim deve permanecer, pois persistem os motivos que ensejaram sua custódia cautelar. (Grifo Nosso). Da ementa do acórdão transcrito acima, se pode exprimir que neste caso houve o afastamento da aplicação do princípio da coculpabilidade tendo em vista não ter havido prova nos autos que demonstrassem a responsabilização estatal. SÃO PAULO. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Apelação nº 1516084-02.2020.8.26.0228. Apelante: Danilo Matias Da Silva. Apelado: Ministério Público do Estado de São Paulo. Relator Damião Cogan. APELAÇÃO CRIMINAL. Ementa: Apelação criminal. Roubo (art. 157, caput, por duas vezes, na forma do art. 70, c.c. o artigo 61, inciso II, alínea “j”, todos do Código Penal). Apelo defensório buscando absolvição por insuficiência probatória. Subsidiariamente, pretende o afastamento da agravante prevista no art. 61, II, “j”, do CP e reconhecimento da atenuante da coculpabilidade, bem como a compensação entre a reincidência e a confissão espontânea. Por fim, pugna pela fixação do regime semiaberto com aplicação da detração penal. Conjunto probatório robusto a sustentar a condenação. Teses defensivas afastadas. Penas e Regime mantidos. Recurso improvido. Muito embora não constar na ementa a razão pela qual o recurso foi improvido, especialmente no que diz respeito ao princípio da coculpabilidade, veja- se o que consta no escopo deste Acórdão: “Do mesmo modo não merece acolhida a tese defensiva de incidência da atenuante inominada, posto que eventuais dificuldades suportadas pelo apelante e supostamente agravadas pela pandemia não o autorizam delinquir. O Superior Tribunal de Justiça rechaça a aplicação da teoria da coculpabilidade como justificativa para a prática de crimes: HABEAS CORPUS. PORTE ILEGAL DE ARMA DE FOGO DE USO PERMITIDO E USO DE DOCUMENTO FALSO. DOSIMETRIA DA PENA. MAUS ANTECEDENTES E REINCIDÊNCIA. CONDENAÇÕES COM TRÂNSITO EM JULGADO. EXASPERAÇÃO NA PRIMEIRA E NA SEGUNDA FASE. POSSIBILIDADE. TEORIA DA CO-CULPABILIDADE. COMPENSAÇÃO DA REINCIDÊNCIA COM A ALUDIDA CIRCUNSTÂNCIA ATENUANTE GENÉRICA. INVIABILIDADE. AGRAVANTE DA REINCIDÊNCIA. AUMENTO DA PENA EM 1/3 (UM TERÇO). NECESSIDADE DE FUNDAMENTAÇÃO. HABEAS CORPUS PARCIALMENTE CONCEDIDO. 1. "Não configura bis in idem a utilização de condenações anteriores com trânsito em julgado, para caracterizar os maus antecedentes e a reincidência do paciente, desde que uma delas seja utilizada para exasperar a pena-base e a outra na segunda fase da dosimetria" (HC 167.459/RJ, 5.ª Turma, Rel. Min. MARCO AURÉLIO BELLIZZE, DJe de 12/02/2012). 2. A teoria da co-culpabilidade não pode ser erigida à condição de verdadeiro prêmio para agentes que não assumem a sua responsabilidade social e fazem da criminalidade um meio de vida. 3. Ademais, ad argumentandum tantum, inviável a compensação da circunstância preponderante da reincidência com a aludida circunstância atenuante genérica, a teor do disposto no art. 67 do Código Penal. 4. Nos termos da jurisprudência desta Corte, a aplicação de fração superior a 1/6 pela reincidência exige motivação idônea. 5. A sentença condenatória, convalidada pela Corte a quo, reconheceu que o Paciente era reincidente e aumentou a sanção, na segunda fase, no patamar de 1/3, sem a correspondente fundamentação. Assim, impõe-se a readequação do acréscimo para o percentual mínimo de 1/6. 6. Habeas corpus parcialmente concedido para, reformando a sentença condenatória e o acórdão combatido, fixar a pena do Paciente em 05 anos, 05 meses e 10 dias, mais o pagamento de 24 dias-multa, mantendo-se, no mais, os parâmetros adotados pelas instâncias ordinárias. (HC 179.717/SP, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 08/05/2012, DJe 21/05/2012).” (Grifei). Ao contrário do que consta no primeiro Acórdão, veja-se que nesta ocasião, o a teoria foi afastada em virtude do entendimento do Superior Tribunal de Justiça acerca do tema, conforme jurisprudência daquela Corte Superior disposta no escopo do Acórdão. Finalmente, com intuito de consignar o posicionamento do E. TJSP, passa-se a análise de mais um Acórdão que menciona a impossibilidade da aplicação do princípio da coculpabilidade: SÃO PAULO. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Apelação nº 1515766-19.2020.8.26.0228. Apelante: Bruno Borges Dos Santos. Apelado: Ministério Público do Estado de São Paulo. Relator Andrade Sampaio. APELAÇÃO CRIMINAL. Ementa: APELAÇÃO CRIMINAL. Tráfico de drogas. Defesa requer a fixação das basilares no mínimo, a compensação entre a reincidência e a confissão, o afastamento da agravante prevista no art. 61, II, j, do Código Penal, a consideração da atenuante genérica prevista no artigo 66 do Código Penal e a atenuação do regime prisional, com aplicação da detração. Parcial provimento. Materialidade e autoria induvidosas. Conjunto probatório robusto. Finalidade de mercancia caracterizada. Condenação pelo delito de tráfico era mesmo de rigor. Dosimetria comporta reparos. Na primeira fase, as basilares devem ser fixadas no mínimo, pois a justificativa utilizada em primeiro grau não se sustenta.Na segunda fase, mantém-se o reconhecimento da confissão e da reincidência. Cabível a compensação entre ambas. Ainda nesta etapa, faz-se necessário afastar a incidência da agravante prevista no art. 61, inciso II, alínea j, do Código Penal. Ao final, ausentes os requisitos necessários para aplicação do redutor. Regime fechado proporcional e necessário à hipótese em comento. Detração é matéria afeta ao Juízo das Execuções. Impossibilidade de substituição por restritiva de direitos. Sentença parcialmente reformada. Recurso parcialmente provido. Veja-se neste caso, que houve o afastamento da aplicação do princípio da coculpabilidade, entretanto, nesta oportunidade, os precedentes do C. STJ foram diferentes, cumpre transcrever trecho do Acórdão: “Assim, não é o caso de atender ao pleito defensivo, requerendo a aplicação da atenuante genérica prevista no artigo 66 do Código Penal”. Anoto, inclusive, que a teoria da coculpabilidade, não é aceita, em geral, pela jurisprudência. Nesse sentido: A teoria da coculpabilidade não pode ser erigida à condição de verdadeiro prêmio para agentes que não assumem a sua responsabilidade social e fazem da criminalidade um meio de vida. Ora, a mencionada teoria, "no lugar de explicitar a responsabilidade moral, a reprovação da conduta ilícita e o louvor à honestidade, fornece uma justificativa àqueles que apresentam inclinação para a vida delituosa, estimulando-os a afastar da consciência, mesmo que em parte, a culpa por seus atos" (STJ, HC 213482/SP, Rel. Min. Laurita Vaz, 5ª T., j. 17/09/2013).” (Grifei). Diante de todos os fatos expostos, oportuno concluir que a teoria da coculpabilidade está presente no ordenamento jurídico brasileiro, ainda que a jurisprudência tenha contrariado a sua aplicação. Contudo, mister salientar que na hipótese de aplicação da teoria aos casos concretos, em virtude do instituto não ser previsto em lei, restou evidente que sua aplicação ocorreria por força dos artigos 59 e 66 do CPB. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O estudo do princípio da coculpabilidade se trata, sobretudo, da análise da doutrina brasileira. De forma geral, verifica-se que os doutrinadores buscam apresentar o tema de forma didática, ou seja, analisando seu conceito histórico e a forma de enquadrá-lo com o ordenamento jurídico brasileiro. Como se viu, o princípio da coculpabilidade não está previsto expressamente em nossa legislação, contudo, partindo-se do ponto que se trata de mecanismo jurídico que busca a análise subjetiva e social do agente que eventualmente cometeu algum delito, evidente o cabimento dos artigos 59 e 66, ambos do Código Penal Brasileiro. Com efeito, a análise da legislação extravagante contida no presente trabalho foi de extrema importância para validação do princípio da coculpabilidade em nosso ordenamento jurídico. Ainda assim, finalmente sendo verificada a possibilidade de aplicação da teoria demasiadamente analisada neste trabalho, verificou-se que o mencionado princípio da coculpabilidade não tem sido aceito na jurisprudência. Com base nos acórdãos transcritos no presente trabalho, quais sejam os proferidos pelo Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, restou evidente que aqueles Desembargadores, utilizando os preceitos do Colento Superior Tribunal de Justiça tem se posicionado contrariamente a aplicação do princípio da coculpabilidade. Dentre as justificativas mencionadas nos mencionados acórdãos, verificamos que foi utilizada a tese de ausência de provas (I); suposta utilização do princípio da coculpabilidade como “prêmio” aos agentes criminosos (II), bem como que as condições financeiras e sociais pretéritas não autorizavam que os agentes delinquissem. Ocorre, entretanto, ainda que o princípio da coculpabilidade não tenha sua aplicação efetiva, o seu estudo é de suma importância, haja vista a necessidade de investigação dos aspectos criminais e sociais. Ora, pela teoria da coculpabilidade, se busca impor ao Estado, parcela da responsabilização dos atos criminosos praticados por agentes que nunca usufruíram da atividade estatal efetiva, isto é, aqueles direitos básicos previstos na Constituição Federal de 1988. Neste estudo, não se buscou esgotar o assunto, portanto, é cediço que existem diversos aspectos que não foram devidamente tratados, contudo, a sua ausência não implica a desvalorização do presente trabalho. Não obstante, a principal conceituação do tema foi disposta no presente trabalho, bem como sua possibilidade de aplicação e comparação com o direito estrangeiro. Em fim, sendo analisada a jurisprudência e finalmente esgotando-se os objetivos do presente trabalho, se pode concluir que o tema ainda se encontra em seu estado inicial, requerendo maior análise, e ampla discussão a fim de que se consolidar a possibilidade de aplicação. REFERÊNCIAS REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 27 ed. São Paulo: Saraiva 2002. DINIZ, Maria Helena. A Ciência Jurídica. 6ª ed., São Paulo: Saraiva, 2003. TOLEDO, Francisco de Assis. Princípios básicos de direito penal. 5ª ed. São Paulo: Saraiva, 2012. MOURA, Grégore. Do princípio da co-culpabilidade. Niterói: Impetus, 2006. SANTOS, Juarez Cirino dos. A moderna teoria do fato punível. Curitiba: Forum, 2004. SUJIYAMA, Naojiro. Ensayo de una concepción sintetica del derecho comparado. In: Concepto y metodos del derecho comparado. México: Compañia General, 1941. COSTA JÚNIOR. Paulo José da. Direito Penal: Curso Completo. 7 ed. São Paulo: Saraiva, 2000. NUCCI, Guilherme de Souza. Individualização da Pena. 2. ed. rev., amp. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. SÃO PAULO. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Apelação nº 1507142- 78.2020.8.26.0228. Apelante: Fagner da Costa Tavares. Apelado: Ministério Público do Estado de São Paulo. Relator Tetsuzo Namba. Disponível em: https://esaj.tjsp.jus.br/cposg/show.do?processo.codigo=RI0069ZOB0000&processo.f oro=990&processo.numero=15071427820208260228&gateway=true. Acesso em: 19. Abr. 2021. SÃO PAULO. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Apelação nº 1516084- 02.2020.8.26.0228. Apelante: Danilo Matias Da Silva. Apelado: Ministério Público do Estado de São Paulo. Relator Damião Cogan. Disponível em: https://esaj.tjsp.jus.br/cposg/show.do?processo.codigo=RI0063MQE0000&processo.f oro=990&processo.numero=15160840220208260228. Acesso em: 19. Abr. 2021. SÃO PAULO. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Apelação nº 1515766- 19.2020.8.26.0228. Apelante: Bruno Borges Dos Santos. Apelado: Ministério Público do Estado de São Paulo. Relator Andrade Sampaio. Disponível em: https://esaj.tjsp.jus.br/cpopg/show.do?processo.codigo=6C00014T60000&processo.f oro=50&processo.numero=1515766- 19.2020.8.26.0228&uuidCaptcha=sajcaptcha_f465b7df987c434b8475e74c4bfe9f94. Acesso em: 19. Abr. 2021. BRASIL. 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