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1 NUTRIÇÃO FUNCIONAL 1 Sumário NOSSA HISTÓRIA .................................................................................. 2 INTRODUÇÃO ......................................................................................... 3 NUTRIÇÃO FUNCIONAL: CONCEITOS ................................................. 4 PRINCÍPIOS DA NUTRIÇÃO FUNCIONAL ............................................. 4 INTERCONEXÕES METABÓLICAS ....................................................... 6 FERRAMENTAS DA NUTRIÇÃO FUNCIONAL E TRATAMENTO NUTRICIONAL ................................................................................................... 7 ESTUDO DE CASO: INTERVENÇÃO NUTRICIONAL BASEADA NOS PRINCÍPIOS DA NUTRIÇÃO FUNCIONAL ....................................................... 8 ANÁLISE CRÍTICA E CONCLUSÕES ..................................................... 9 EFEITOS FISIOLÓGICOS DE ALIMENTOS: REDUÇÃO DE RISCOS DE DOENÇAS DEGENERATIVAS ........................................................................ 26 CONCEITO DE ALIMENTOS FUNCIONAIS ......................................... 27 OSTEOPOROSE E SOJA ..................................................................... 28 ÁCIDO OLÉICO - ASPECTOS PROTETORES ..................................... 29 O QUE RECOMENDAR PARA PREVENIR OU, PROTELAR DOENÇAS QUE PODERIAM SER EVITADAS ATRAVÉS DE UMA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL ...................................................................................................... 30 OS ALIMENTOS FUNCIONAIS: A NOVA FRONTEIRA DO MERCADO ALIMENTAR ..................................................................................................... 32 OS ALIMENTOS FUNCIONAIS: A NOVA FRONTEIRA DA INDÚSTRIA ALIMENTAR ..................................................................................................... 35 A VISÃO POLÍTICA DO MERCADO: O MERCADO COMO “CAMPO DE LUTAS”............................................................................................................. 36 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................... 41 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 INTRODUÇÃO A importância do alimento e sua relação com a saúde humana é descrita desde a antiguidade. No decorrer dos séculos, a ciência da medicina identificou diversas doenças associadas a deficiências nutricionais, dentre as quais as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), que são agravadas por modificações no padrão dietético, redução da atividade física, stress e distúrbios emocionais, interferindo no funcionamento dos sistemas orgânicos. Atualmente o cuidado no suporte nutricional, além de nutrir as células adequadamente, envolve o equilíbrio em fatores como stress, distúrbios emocionais, exposição a poluentes, pesticidas e substâncias sintéticas, fornecendo nutrientes e compostos bioativos envolvidos na modulação dos sistemas orgânicos de defesa e eliminação. Estes mecanismos manifestam-se por meio de sinais e sintomas, vieses importantes a serem observados na prática clínica. Nesse sentido, uma área de conhecimento da ciência da nutrição, definida como nutrição funcional, busca compreender de maneira científica e integrativa a relação entre os diferentes sistemas do organismo. O cerne está na avaliação das causas, manifestadas por sinais e no âmbito da individualidade bioquímica, a qual objetiva restabelecer o equilíbrio fisiológico, estrutural e emocional. 4 NUTRIÇÃO FUNCIONAL: CONCEITOS A nutrição funcional é uma área de conhecimento da nutrição baseada na perspectiva da medicina funcional. O termo “funcional” aplica-se à manifestação de mudanças em processos fisiológicos básicos que refletem sintomas de duração, intensidade e frequência aumentadas, ou seja, não se resume apenas a doenças de origem conhecida, mas alterações precoces nas funções orgânicas que podem evoluir para doenças crônicas ao longo da vida. Os conceitos da nutrição funcional abrangem genética, intervenção clínica por meio da biologia em sistemas e a compreensão da influência de fatores ambientais e de estilo de vida no surgimento e progressão da doença. Dessa forma, a nutrição funcional, como uma ciência integrativa fundamentada em evidências científicas, incorpora a interação entre os sistemas orgânicos por meio da relação entre a fisiologia, fatores emocionais, cognitivos e aspetos estruturais, no ato de avaliar aspetos genotípicos e bioquímicos individuais. Na prática clínica, objetiva aplicar condutas personalizadas para equilibrar funcional e nutricionalmente o organismo e modular respostas frente ao genótipo e a diferentes fatores que predisponham desequilíbrios e doenças, promovendo a saúde como vitalidade positiva. PRINCÍPIOS DA NUTRIÇÃO FUNCIONAL As condutas da nutrição funcional são norteadas pelos seguintes princípios básicos: Individualidade bioquímica: princípio base para a terapia nutricional funcional, caracterizado por um conjunto de fatores genéticos, fisiológicos e bioquímicos individuais que orquestra o funcionamento do organismo e as necessidades nutricionais, as quais interagem com fatores ambientais (incluindo hábitos alimentares, toxinas, poluentes, stress mental e atividade física). Assim, cada indivíduo apresenta uma necessidade ou deficiência nutricional específica, 5 que podem ser determinadas pela avaliação de sinais e sintomas que o mesmo apresenta ou pelo meio ambiente ao qual está exposto; Tratamento centrado no paciente: o foco do tratamento nutricional funcional é centrado no paciente e não na doença, uma vez que é considerada a inter-relação entre os sistemas orgânicos e a influência sofrida por fatores ambientais, socioeconômicos, emocionais, culturais, alimentares, bem como antecedentes individuais e familiares, utilização de medicamentos e prática de atividade física, indicando a individualidade dos sinais e sintomas apresentados pelo paciente. Neste ponto, utiliza-se, conjuntamente, o sistema ATMs (Antecedents, Triggers, and Mediators– Antecedentes, Gatilhos e Mediadores) para a identificação dos desequilíbrios nutricionais e funcionais e subsequente obtenção do diagnóstico nutricional. Nesse sistema, os antecedentes incluem o histórico de vida e familiar (genético) do paciente; os gatilhos envolvem fatores que podem ser originários de stress físico, mental e oxidativo, traumas, radiação, lipopolissacarídeos bacterianos (LPS) e micro-organismos; os mediadores são componentes que podem estar associados a disfunções do organismo, nominados como mediadores químicos (hormonas, neurotransmissores, citocinas, radicais livres), subatômicas (íons), cognitivos ou emocionais (crença em relação à doença,41 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Weinstein, M.; Babyn, P.; Zlotkin, S. Anorange a day keeps the doctor away: scurvy in the year 2000. Pediatrics. 2001;108:3. Dignass, A.U.; Gasche, C.; Bettenworth, D. et al. European Consensus on the Diagnosis and Management of Iron Deficiency and Anaemia in Inflammatory Bowel Diseases. J Crohns Colitis. 2015; 9(3):211-22. Brock, J.F.; Hansen, J.D.; Howe, E.E. et al. 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Acesso em: 24/01/2016.sentimento de medo, ansiedade), sociais e culturais (relações interpessoais profissionais e familiares); Equilíbrio nutricional e biodisponibilidade de nutrientes: a absorção e a ação dos nutrientes em âmbito celular são dependentes não apenas da adequação da ingestão, mas também da razão de equilíbrio entre estes componentes – os quais agem em sinergismo dentro do organismo, da origem do alimento e sua forma de conservação e preparo, da forma química em suplementações, e, por fim, da condição absortiva e/ou patológica e da necessidade nutricional individual; Saúde como vitalidade positiva: segundo a OMS, saúde se refere ao perfeito estado de bem-estar físico, mental e social. O indivíduo deve ser avaliado como um organismo completo e tratado com o objetivo de modular os desequilíbrios existentes para restabelecer a relação positiva entre os sistemas, atingindo a saúde de forma plena, ou seja, com vitalidade positiva; Inter-relações pela teia de interconexões metabólicas: as interconexões metabólicas caracterizam um modo que permite elencar as inter-relações entre 6 todos os processos bioquímicos do organismo e entre o sistema ATMs, permitindo a identificação dos desequilíbrios metabólicos associados às condições clínicas apresentadas pelo paciente, favorecendo o desmembramento das bases funcionais destes distúrbios para o tratamento de suas causas. INTERCONEXÕES METABÓLICAS Para a compreensão da interconexão entre os diferentes sistemas orgânicos e de seu impacto sobre determinadas condições clínicas, a nutrição funcional utiliza uma configuração gráfica em forma de teia que representa as interconexões metabólicas, sendo uma ferramenta desenvolvida pelo IFM que esquematiza as complexas inter-relações entre estes sistemas, facilitando a caracterização dos desequilíbrios clínicos de forma a ampliar a visão sobre o paciente. Neste processo são identificados diversos fatores bioquímicos, neurológicos, emocionais, mentais, hormonais, imunológicos e físicos e como modificações nestes pontos podem influenciar direta ou indiretamente a interação entre os sistemas, refletindo ou não em distúrbios orgânicos. Ainda, considera-se o sistema ATMs, o padrão de sono e relaxamento, a prática de atividade física, aspetos nutricionais e de hidratação, stress e resiliência, bem como relacionamento e convívio (Figura 1). Assim, pode-se inferir que a utilização prática desta ferramenta amplia o diagnóstico nutricional do indivíduo, uma vez que permite a identificação dos principais pontos que direcionarão as condutas nutricionais dentro de um contexto que compreende a interconexão entre os sistemas orgânicos e suas vias metabólicas, considerando a condição clínica e a individualidade bioquímica do paciente para o restabelecimento do equilíbrio destes sistemas com a correção das possíveis deficiências nutricionais. 7 FERRAMENTAS DA NUTRIÇÃO FUNCIONAL E TRATAMENTO NUTRICIONAL Além da aplicação da teia das interconexões metabólicas e de uma anamnese com abordagem de funcionamento orgânico associada a fatores endógenos e exógenos, a nutrição funcional ainda utiliza ferramentas específicas para a avaliação da ingestão alimentar (recordatório alimentar), da disbiose (desequilíbrio da microbiota intestinal), do processo de destoxificação, de hipersensibilidades alimentares, do equilíbrio ácido-base e de infeção fúngica, complementadas pela investigação genética (doenças e polimorfismos) e de exames laboratoriais para corroborar os sinais e sintomas apresentados. Estes dados direcionarão um plano alimentar individualizado e equilibrado em macronutrientes, micronutrientes e compostos bioativos indispensáveis para recuperação plena do paciente com vitalidade positiva. O plano alimentar do paciente ainda engloba a aplicação de um programa denominado “6Rs” (Remover, Recolocar, Reinocular, Reparar, Reequilibrar e Reavaliar), uma conduta focalizada na modulação dos desequilíbrios do trato gastrointestinal (TGI), diretamente relacionados com várias doenças sistémicas. Este programa sumariza interconexões bioquímicas e fisiológicas associadas ao TGI, direcionando: a remoção de patógenos, alergenos alimentares, xenobióticos, poluentes e fatores estressantes; o suporte para recolocar ácido clorídrico, enzimas digestivas, fatores intrínsecos e fibras, e para reinocular probióticos e prebióticos; a reparação da mucosa gastrointestinal com dieta não irritativa e hipoalergénica e com nutrientes envolvidos na restauração da função celular; o reequilíbrio de hábitos saudáveis, com suporte para restaurar a homeostase do paciente; e, por fim, a reavaliação dos objetivos traçados e alcançados e das condutas nutricionais, garantindo a manutenção de saúde plena. Quando necessário, são prescritas suplementações nutricionais para complementar o plano alimentar, respeitando as necessidades individuais do paciente, a biodisponibilidade e interação entre os nutrientes, a legislação vigente e os princípios da Dietary Reference Intake (DRI). 8 ESTUDO DE CASO: INTERVENÇÃO NUTRICIONAL BASEADA NOS PRINCÍPIOS DA NUTRIÇÃO FUNCIONAL Os pacientes foram acompanhados por 30 dias, sendo submetidos a um tratamento nutricional baseado nos princípios e conceitos da nutrição funcional anteriormente referidos. Os parâmetros bioquímicos de glicemia, CT, LDL-colesterol, HDL- colesterol, TG e antropométricos de peso, IMC, circunferência abdominal foram mensurados antes e após o tratamento nutricional (Tabela 1). O tratamento nutricional dos pacientes, baseado nos princípios e conceitos da nutrição funcional citados anteriormente, entre os quais a intervenção individualizada no contexto da sua história de vida, o meio onde vive, hábitos alimentares, presença de sinais e sintomas e necessidades nutricionais individuais (Figura 2), promoveu a diminuição da glicemia, CT, LDL-colesterol (p≤ 0.05) e de TG (phipófise-adrenal e altera os níveis de cortisol. A elevação crônica dos níveis desta hormona, por sua vez, poderá refletir em desequilíbrios sistémicos. O sistema de defesa e reparo pode impactar negativamente sobre o microbioma intestinal humano e sistema imunológico, como consequência alterar respostas inflamatórias por meio do aumento de citocinas pró- inflamatórias (como IL-1, IL-6 e TNF-alfa), e interferir no sistema de energia por afetar vias bioquímicas envolvidas no metabolismo energético, defesa antioxidante e função mitocondrial, pontos relevantes na obesidade e síndrome metabólica. No sistema de assimilação, o stress e/ou sobrecarga emocional podem predispor distúrbios gástricos e intestinais com alteração de microbioma, ao prejudicar diretamente a digestão, absorção, disponibilidade de nutrientes e compostos ativos, aumentando os riscos de deficiências nutricionais; além disso, favorece a passagem de moléculas mal digeridas para o intestino e circulação sanguínea, impactando em reações imunológicas que podem prejudicar o sistema de integridade estrutural de ossos, articulações e músculos. 10 Esta condição também pode comprometer o funcionamento hepático, interferindo no sistema de biotransformação e eliminação de xenobióticos, metais pesados, carcinógenos e toxinas, o que fragiliza as funções dos demais sistemas e acarreta maior susceptibilidade a doenças hepáticas, cancro, obesidade entre outras. O cortisol em níveis elevados, devido a sua capacidade de afetar diferentes vias bioquímicas, pode relacionar-se com o sistema de transporte por representar um risco cardiovascular e, ainda, com o sistema de comunicação, desregulando a transmissão e a responsividade de componentes imunológicos, hormonais e neurotransmissores impactando sobre o controlo da mente e emoções, formando um ciclo vicioso. Os resultados do estudo de caso apontaram que pacientes abordados desta forma alcançaram resultados de melhora com a intervenção de curto período de tempo. Portanto, fica evidente a importância de se considerar na avaliação e diagnóstico nutricional os aspetos inerentes à biologia de sistemas e à individualidade genética e bioquímica, pois permitem identificar os caminhos moleculares que levam à saúde ou à doença, direcionando o tratamento nutricional funcional, descrito anteriormente, para a obtenção da saúde como vitalidade positiva. Ao considerar a escassez de publicações sobre a nutrição funcional, mais ensaios clínicos e estudos populacionais precisam ser conduzidos para a confirmação dos resultados apresentados com esta abordagem. A nutrição clínica funcional é uma ciência integrativa e intensa, que tem por fundamento a pesquisa científica e sua aplicação prática, envolvendo a promoção da saúde, a prevenção e o tratamento de doenças, com base na avaliação dos aspectos bioquímicos, hábitos alimentares, genótipo e suscetibilidade genética no desenvolvimento de doenças de cada indivíduo. Sendo assim, este trabalho teve por objetivo desenvolver um cardápio baseado nos princípios da nutrição funcional para um público infantil e adulto de baixa renda, avaliando a viabilidade econômica e os aspectos nutricionais quando comparados ao hábito alimentar da população brasileira. Os cardápios foram comparados utilizando os seguintes parâmetros: composição nutricional, preço e fator de inflamação. 11 O cardápio funcional apresentou menor índice inflamatório nas duas faixas etárias, melhor perfil nutricional de macro e micronutrientes, fibras, índice glicêmico e maior quantidade de compostos bioativos. O cardápio funcional teve menor preço para o público infantil; já para a população adulta, foi o cardápio tradicional o mais barato, mas seu cardápio funcional apresentava três refeições a mais e mais alimentos na dieta, podendo justificar as diferenças nos valores. O cardápio funcional comprovou ser uma alimentação ao alcance de toda a população, trazer mais benefícios à saúde e reduzir o risco do aparecimento de doenças em longo prazo. São necessárias estratégias e planejamentos para reduzir ainda mais o seu custo. Durante as últimas décadas, percebemos grandes mudanças no consumo alimentar da população, caracterizado por uma dieta rica em alimentos de alta densidade energética, com alto consumo de gorduras, açúcares, alimentos com alto teor em sódio e baixo consumo de frutas, legumes e verduras, levando a um aumento na incidência da obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). As DCNT abrangem as doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, câncer e doenças respiratórias crônicas. Atualmente são as doenças de maior mortalidade no mundo e demandam por assistência continuada de serviços e ônus progressivo, na razão direta do envelhecimento dos indivíduos e da população. Em novembro de 2003, no Rio de Janeiro, representantes do Ministério da Saúde (MS), da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação apresentaram que as DCNT são responsáveis por 60% das mortes e incapacidade no mundo, podendo chegar a 73% de todas as mortes em 2020. Em 2004, no Brasil, as DCNT foram responsáveis por 62% de todas as mortes, com maior presença nas Regiões Sul e Sudeste, e por 39% de todas as hospitalizações registradas no Sistema Único de Saúde. Segundo a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) de 2008-2009, a prevalência de excesso de peso em crianças oscilou de 19% a 21% (em ambos os sexos) e foi mais frequente na região urbana do que na região rural. Com 12 dimensões menores, mas também preocupantes, a prevalência de obesidade foi maior nos meninos, cerca de 6%, contra 4% em meninas. Na população adulta, 50% apresentaram excesso de peso, sendo 14% obesos. Dados mais recentes mostram que 48,5% da população adulta apresentam excesso de peso, e cerca de 16% estão obesos, levando a concluir que, em 4 anos, a quantidade de obesos aumentou no país, provocando grande impacto na saúde pública, já que a obesidade está associada a inúmeras doenças crônicas, tais como hipertensão, diabetes mellitus tipo 2, dislipidemias e doenças cardiovasculares. Entre as principais causas dessas doenças estão a alimentação inadequada e a inatividade física. Dessa forma, estratégias globais estão sendo desenvolvidas para o controle das DCNT, sendo as principais mudanças nos hábitos alimentares e a perda ou manutenção do peso corpóreo. A alimentação saudável é entendida como aquela que faz bem, promove a saúde e deve ser orientada e incentivada desde a infância até a idade adulta. No entanto, nem sempre depende apenas de opção individual. Baixa renda, exclusão social, nível de escolaridade e falta ou má qualidade de informação disponível podem restringir a adoção e a prática de uma alimentação saudável. Para ser considerada saudável, a alimentação deve ser planejada com alimentos de todos os tipos, de procedência segura e conhecida. A nutrição clínica funcional é uma ciência integrativa e intensa, que tem por fundamento a pesquisa científica e sua aplicação prática, envolvendo a promoção da saúde, a redução dos riscos e o tratamento de doenças, com base na avaliação de aspectos bioquímicos, hábitos alimentares, genótipo e suscetibilidade genética no desenvolvimento de doenças de cada indivíduo. Atualmente, existe um paradigma de que o acesso à nutrição funcional dá-se somente à população com alto poder aquisitivo. Entretanto, os princípios da nutrição funcional são os mesmos que permeiam a definição de uma alimentação saudável, podendo ser adaptados para a população de baixa renda. Ressalta-se, portanto, o papel e a importância do nutricionista de adequar as orientações ao orçamento da população assistida, objetivando promoção de saúde e prevençãoe/ou tratamento de doenças. 13 Dessa forma, investigar as diferenças entre uma dieta baseada na alimentação básica da população brasileira (tradicional) e outra baseada na nutrição funcional representa um importante ganho na prática clínica, considerando que isto pode significar uma melhora na saúde da população, reduzindo o risco de doenças e promovendo saúde e bem-estar. Os cardápios foram comparados através dos seguintes parâmetros: composição nutricional, preço e fator de inflamação. O cálculo da composição nutricional foi realizado por meio do software Diet Smart®, e a avaliação do índice inflamatório foi feita pelo sistema IF Rating. Os preços foram tabelados em dois diferentes supermercados populares. Os cardápios tradicionais brasileiros para os públicos infantil e adulto foram baseados na POF5, Vigitel Brasil6 e em outros estudos brasileiros. Com base nos princípios de equilíbrio da nutrição funcional, foi proposta a adequação do cardápio, e as principais mudanças foram: fracionamento das refeições; variedade dos alimentos; diminuição do consumo de açúcares e doces; aumento do consumo de frutas, verduras e legumes; diminuição de preparações fritas; aumento no consumo de alimentos com propriedades funcionais; e aumento no consumo de alimentos ricos em nutrientes antioxidantes (Quadros 1 e 2). 14 Quadro 1. Cardápio para o público infantil 15 Segundo pesquisas, diversos nutrientes presentes no cardápio adequado proposto, tais como as vitaminas A, C, D, E, K, vitaminas do complexo B, biotina e colina; minerais como magnésio, cálcio, zinco, selênio; e compostos bioativos atuam na redução de DCNT por meio da modulação de processos fisiológicos específicos, interferindo nos processos patogênicos. Os compostos bioativos presentes nos alimentos possuem diversas formas de agir no organismo humano, e isso vai desde o mecanismo de ação até seus alvos fisiológicos. Como exemplo, sua ação antioxidante, que se deve ao potencial de óxido- redução de algumas moléculas, à capacidade dessas moléculas em competir por receptores e sítios ativos nas inúmeras estruturas celulares ou, ainda, à modulação da expressão de genes que codificam proteínas que participam de mecanismos intracelulares de defesa contra processos oxidativos degenerativos de estruturas celulares. São importantes para neuroproteção e diminuição do envelhecimento de pele. A maçã é uma boa fonte de vitamina C, potássio e fibras, e possui baixo índice glicêmico. É frequentemente consumida e popularmente reconhecida como um alimento saudável. Possui excelente fonte de flavonoides (catequina, quercetina, epicatequina, procianidina, cianidina, floridzina) e ácidos fenólicos (ácido cumárico, ácido clorogênico, ácido gálico), que exercem ação antioxidante. Estudos associam o consumo da fruta com uma redução do risco de câncer, doenças cardiovasculares, asma e diabetes. Dentre todos os vegetais, a família das Brassicaceae é a mais abundante em espécies de hortaliças, e entre elas estão: agrião, brócolis, couve-flor, couve- manteiga, repolho, rúcula, entre outras. Esses vegetais, além de excelentes fontes de vitaminas e minerais, são ricos em fitoquímicos (flavonoides, carotenoides e glicosinolatos) que apresentam ações antioxidante, anti-inflamatória, anticarcinogênica e quimiopreventiva, atuando, assim, na prevenção de DCNT, que é um dos focos de atuação do nutricionista. Os cereais integrais possuem compostos fenólicos capazes de inibir a oxidação lipídica, por meio da sua capacidade de quelar e inativar metais pró- oxidantes. São alimentos ricos em fibras que auxiliam na perda de peso corporal, 16 redução de riscos cardiovasculares e diabetes, além de promoverem saúde do trato gastrointestinal e controlarem desequilíbrios estruturais e disbiose. Nas castanhas se encontra uma grande quantidade de gorduras poli- insaturadas, que vêm sendo reconhecidas pelo seu potencial de redução do risco de doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer. Além disso, possuem também alto teor de arginina, fibras, ácido fólico, magnésio e diferentes tipos de fitoquímicos, tais como: flavonoides, polifenóis e tocoferóis com ação antioxidante, conferindo suas propriedades cardioprotetoras. As castanhas constituem excelente fonte de selênio, um mineral componente das selenoproteínas que incluem a tioredoxina redutase, selenoproteína P, iodotironina desiodases e glutationa peroxidase, sendo esta última uma potente enzima antioxidante, capaz de reduzir a peroxidação lipídica e neutralizar peróxidos de hidrogênio. Além disso, o selênio tem importante atuação no sistema imune, aumentando a produção de células natural killer, citocinas e os níveis de linfócitos. O abacate é uma fruta rica em fibras, vitaminas K e E, potássio e magnésio. Também contém gorduras monoinsaturadas que auxiliam na absorção das vitaminas e dos fitoquímicos. Resultados obtidos por Li et al. demonstraram que indivíduos que consomem a fruta possuem menor risco de desenvolver doenças cardiovasculares e diabetes, apresentam um aumento na fração de HDL-colesterol e redução no peso, circunferência de cintura e índice de massa corpórea (IMC). Os principais fitoquímicos presentes no abacate são zeaxantina e luteína, com potencial antioxidante, responsáveis pela redução do LDL-oxidado. Ainda que atualmente o consumo de compostos bioativos na alimentação auxilie na manutenção da saúde, é necessário reconhecer que seu efeito protetor às DCNT parece não ocorrer com a sua ingestão isolada, na forma de suplementação. Estudo demonstra que a dieta suplementada com betacaroteno e vitaminas C e E de forma isolada não obteve resultados positivos na diminuição do risco de DCNT, sugerindo que fatores como ação sinérgica e 17 biodisponibilidade, entre outros, auxiliam neste processo. Dessa forma, a alimentação deve conter uma variedade de alimentos, e não apenas um alimento funcional. Os alimentos descritos nos dois cardápios tradicionais apresentam fatores que potencializam a inflamação no organismo. Na prática, é utilizada uma fórmula para mensurar o fator inflamatório (IF), e existem mais de vinte fatores diferentes que determinam se o alimento é pró- inflamatório ou anti-inflamatório, sendo alguns deles: índice glicêmico; quantidade de vitaminas, minerais e antioxidantes no alimento; compostos inflamatórios; quantidade e tipo de gordura; valores e proporção de ácidos graxos essenciais. Os alimentos com valores positivos são considerados anti-inflamatórios e os alimentos com valores negativos são considerados pró-inflamatórios. Os valores do IF de cada cardápio estão descritos na Tabela 1. Tabela 1. Análise do fator inflamatório dos cardápios tradicional e funcional para as populações adulta e infantil. Na tabela 1, o fator inflamatório do cardápio com os principais hábitos alimentares do público infantil apresentou um valor de 419,6 pontos negativos, e o cardápio funcional revelou um valor de 296,6 pontos positivos, mostrando um resultado satisfatório. Quanto à mesma comparação na população adulta, a diferença foi menor, mas o cardápio funcional apresentou resultados positivos, com um valor de 18 490,3, enquanto o outro cardápio demonstrou um valor de 529,2 pontos negativos. Um alimentação rica em alimentos inflamatórios pode levar à ativação de moléculas pró inflamatórias, responsáveis pelo aumento da expressão dos genes inflamatórios, aumentando o risco no surgimento de doenças como obesidade, diabetes tipo 2, dislipidemia, câncer e doenças neurodegenerativas. Uma resposta inflamatória inadequada, seja um resultado de uma ativação desproporcional, uma resolução insuficiente ou ambos, desempenha papel crucial no início, na progressãoe severidade em inúmeras doenças crônicas. A obesidade é considerada atualmente um estado de baixo grau de inflamação crônica de grande preocupação para a saúde pública mundial. Acredita-se que a inflamação se origina localmente no tecido adiposo, como consequência da deposição de gordura excessiva, e que posteriormente atinge a circulação sistêmica. O Instituto de Medicina Funcional do Canadá propõe uma pirâmide funcional (Figura 1), onde apresenta grupos de alimentos anti-inflamatórios, como ácidos graxos essenciais, vegetais, grãos integrais e frutas. 19 Já o cardápio funcional apresentou valores calóricos menores nas duas faixas etárias: 854,47 calorias para o público infantil e 1170 calorias para os adultos. A recomendação para uma criança ou adulto eutrófico é de 2000 calorias; dessa forma, ambos os cardápios estavam hipocalóricos. Os valores de carboidrato foram menores nos cardápios funcionais, quando comparados com os cardápios tradicionais, em ambas as faixas etárias, assim como os valores de proteínas, exceto em relação ao cardápio para o público adulto. Já quando comparado o valor de gorduras totais, no público adulto o cardápio funcional apresentou valores maiores em relação ao cardápio tradicional, enquanto no infantil o cardápio tradicional apresentou valores superiores. Entretanto, o cardápio funcional para o público adulto apresentou valores de gorduras monoinsaturadas e poli-insaturadas em quantidades maiores que a gordura saturada. Já no cardápio tradicional para este mesmo público, a gordura saturada prevaleceu em relação às demais. Ao comparar os cardápios tradicional e funcional para ambas as faixas etárias, ainda pode-se verificar que a quantidade de gorduras mono e poli- 20 insaturadas foram maiores no cardápio funcional, indicando um melhor perfil lipídico. Quando comparados à literatura, os cardápios para os dois grupos estudados estavam hipoglicídicos e hiperproteicos. No infantil, os dois cardápios estavam hipolipídicos, e, no adulto, o cardápio tradicional estava hipolipídico e o funcional, hiperlipídico. O teor de fibra apresentou melhor porcentagem de adequação no cardápio funcional em ambas as faixas etárias (48% para criança e 66% para adulto). O valor ideal para crianças é de 28g e, para adulto, de 31g, segundo a DRI (Dietary Reference Intakes). O índice glicêmico no cardápio infantil apresentou valores maiores no cardápio funcional em relação ao tradicional, porém ambos estiveram na classificação de baixo índice glicêmico. Já o cardápio tradicional no adulto apresentou índice glicêmico maior que o cardápio funcional e se encaixou na classificação de alto índice glicêmico. O alto consumo de carboidratos refinados resulta em um cardápio tradicional pobre em nutrientes e com alto índice glicêmico na dieta. Um consumo abundante desses carboidratos pode ocasionar uma rápida liberação de glicose no sangue, sobrecarga nas adrenais e no pâncreas, depleção de vitamina C e vitaminas do complexo B, diminuição da saciedade, redução da oxidação de lipídeos, aumento dos níveis de triglicerídeos circulantes, diminuição dos níveis de HDL colesterol, hiperatividade e irritabilidade. Segundo Liu et al., a hiperglicemia está diretamente relacionada ao aumento da concentração de proteína C reativa no sangue. Outro estudo realizado com mulheres coreanas que ingeriram uma quantidade de carboidrato maior que o recomendado mostrou que esse hábito está associado ao surgimento de diabetes mellitus e baixos níveis de HDL- colesterol no plasma. Em contrapartida, a ingestão de carboidratos de baixo índice glicêmico melhora a sensibilidade à insulina, reduzindo o risco de desenvolvimento de diversas DCNT. Em uma meta-análise, os resultados demonstraram que uma dieta de baixo índice glicêmico reduziu os riscos de diabetes tipo 2, doença cardíaca e câncer colorretal. 21 No mesmo estudo, a dieta com alto índice apresentou aumento no risco de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, doença na vesícula biliar e câncer de mama. As gorduras saturadas são encontradas em gorduras animais, sendo as mais comuns os ácidos esteárico e palmítico. No organismo, podem elevar o LDL e o HDL e aumentar o nível de colesterol no plasma, pois reduzem a atividade do receptor LDL-colesterol e o espaço livre de LDL na corrente sanguínea. As gorduras saturadas mais aterogênicas são o ácido mirístico (C-14) e o palmítico (C-16). Estudos têm revelado que, quando o indivíduo substitui as gorduras saturadas por monoinsaturadas e poli-insaturadas, os níveis de LDL reduzem, enquanto o de HDL não sofre alteração. A atual dieta ocidental é considerada inflamatória devido ao alto consumo de ácidos graxos ômega-6, quando comparado ao de ácidos graxos ômega-3. Segundo alguns estudos, a relação é de 15:1 de ômega-6 para ômega-3, enquanto a recomendação das DRIs é na proporção de 1:1, e a OMS recomenda que a ingestão de ômega-6 seja de 2% a 3% do valor total de calorias e de ômega-3 seja 0,5% a 2%. Neste novo documento, a OMS não recomenda uma proporção específica. O consumo diário de alimentos fonte de ômega-3 exerce um efeito que pode modular a biologia de citocinas inflamatórias, por meio da alteração na constituição de fosfolipídeos de membrana. Isso melhora a fluidez e altera os produtos que surgem através da hidrólise destes fosfolipídeos. Estudos revelam que um consumo adequado de ômega-3, que possui propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes, diminui o risco de doenças cardiovasculares, reduz a síntese hepática de triglicerídeos e aumenta a betaoxidação hepática de ácidos graxos. As Tabelas 3 e 4 analisam a adequação de vitaminas e minerais dos dois cardápios propostos. 22 As vitaminas apresentaram valores melhores nos cardápios funcionais nos dois grupos estudados. Na população infantil, as vitaminas que estavam superiores ao valor de consumo foram as vitaminas D, E, K, C, B1, B9, B12, biotina e colina; e na população adulta, foram as vitaminas A, D, E, K, C, B1, B2, B5, B9, B12, biotina e colina. No cardápio tradicional, as únicas vitaminas que atingiram 100% de adequação pela DRI foram B3, B6 e biotina, nos dois grupos, e B2, apenas no infantil. Vale ressaltar que, no cardápio tradicional, a vitamina C apresentou apenas 1% de adequação no adulto e 0% no infantil. 23 Todas as vitaminas que apresentaram valores altos de adequação no cardápio funcional não ultrapassaram a UL, fator importante para não causar desequilíbrio de metabolismo das vitaminas. O folato e as vitamina B6 e B12 têm sido associados à proteção de alguns cânceres e a diminuição da concentração de homocisteína no plasma. Estudos revelam que a homocisteína elevada é considerada um fator de risco para doenças de Alzheimer, fratura óssea, demência, cânceres e doenças cardiovasculares. A vitamina D atua no metabolismo do cálcio, estimulando sua absorção e diminuindo a secreção de paratormônio (PTH). Segundo Kamycheva et al., níveis elevados de PTH estão associados à incidência de doenças cardiovasculares, enquanto sua deficiência está relacionada com desordens do metabolismo ósseo, doenças inflamatórias, doenças cardiovasculares, alterações da função cognitiva e desequilíbrio imunológico. Um estudo recente revelou que pacientes com deficiência de vitamina D apresentaram maior risco de morte por insuficiência cardíaca e outras doenças cardiovasculares. A vitamina E tem importante ação antioxidante para o indivíduo, pois previne a peroxidação lipídica, garantindo a integridade e estabilidade das membranas e tecidos celulares do organismo. A vitamina C é um potente antioxidante, hidrossolúvel, doador de elétrons, que neutraliza os radicais livres. Devido a sua ação no metabolismo das catecolaminas, sua deficiênciaestá relacionada a distúrbios psicológicos, como alteração de humor, confusão mental, ansiedade, apatia, histeria e até mesmo esquizofrenia. Ela também previne a formação da LDL-oxidada, protege a síntese de óxido nítrico por meio da modulação do estado redox de seus componentes e estimula a síntese de colágeno, importante na formação óssea e na parede da aorta. Em estudo avaliando o efeito das vitaminas C e E em mulheres pós- menopausa foram encontrados maiores níveis de marcadores do estresse oxidativo naquelas que não tinham as vitaminas presentes em suas dietas. 24 Os minerais apresentaram valores mais significantes no cardápio funcional nas duas faixas etárias, e apenas o selênio atingiu valores acima da porcentagem de adequação. Todavia, os outros minerais apresentaram valores iguais ou maiores que 50% da adequação, diferente do cardápio tradicional, em que prevaleceram valores iguais ou menores que 50%. Os valores de sódio foram três vezes maiores no cardápio tradicional em relação ao funcional, nas duas faixas etárias, e os valores de cálcio foram maiores no cardápio funcional para crianças e adultos, sendo que no adulto aproximou-se de 100% de adequação. O consumo inadequado de minerais pode ocasionar inúmeras reações ao organismo, como: câimbras, palpitações, hipertensão, perda óssea, diminuição no crescimento ósseo, dores nas costas e nas pernas, insônia, desordens nervosas, aumento no risco de doenças cardiovasculares, diminuição do apetite, constipação intestinal, fadiga, fraqueza muscular, alteração na permeabilidade intestinal, incapacidade de eliminação de metais tóxicos, desequilíbrio no sistema imune, retardo no crescimento, maturação retardada e impotência, entre outros. O magnésio é cofator de enzimas envolvidas no metabolismo do carboidrato. Estudos revelaram que a baixa concentração de magnésio no plasma está diretamente relacionada com hiperinsulinemia e síndrome metabólica. Sua deficiência diminui a microviscosidade da membrana, que pode prejudicar o seu receptor de insulina. O zinco é um mineral essencial para o desenvolvimento normal e função das células do sistema imune, tais como os linfócitos T, neutrófilos, as células natural killer, e para a produção de citocinas. Ele possui atividades anti-inflamatórias e antioxidantes e atua diretamente na melhora da função intestinal e na composição da microbiota. Estudos realizados com idosos nos Estados Unidos revelaram que a deficiência de zinco alterou a função imunológica; em consequência, os indivíduos apresentaram atrofia do timo, anergia de linfócitos, aumento na inflamação, redução nas respostas imunes humoral e celular e infecções recorrentes. 25 O selênio é um importante antioxidante para o organismo e parece ter efeito protetor em diferentes fases no câncer, incluindo os estágios iniciais e posteriores da progressão do tumor. Essa propriedade acontece porque este mineral é capaz de controlar o ciclo celular, bloquear a invasão e migração das células tumorais, inibir a angiogênese e estimular a apoptose. Em uma meta-análise, os estudos in vitro e em animais apresentaram resultados positivos com o uso de selênio como quimiopreventivo e anticâncer. Outros estudos mostraram que o selênio altera a ligação de células, a migração e a angiogênese no câncer de mama. O consumo excessivo de sódio está relacionado ao aumento da pressão arterial e ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Estudos recentes mostraram que o consumo excessivo de sódio está associado ao maior risco de acidente vascular cerebral – AVC, e sua redução melhora os sistemas renina e angiotensina-aldosterona. Na Tabela 5, foram avaliados os preços dos alimentos em um supermercado e um hipermercado popularmente frequentados, e os valores calculados foram para um dia e para um mês. O cardápio funcional infantil apresentou valores mais baixos quando comparados ao tradicional nos dois supermercados pesquisados. Já no adulto, 26 o cardápio tradicional apresentou valores mais baixos em relação ao funcional. Vale ressaltar que o cardápio funcional para adultos apresenta três refeições a mais e mais alimentos na dieta, podendo justificar as diferenças nos valores. E mesmo com um valor maior, o custo do cardápio para o adulto está dentro de um valor a ser pago com o salário mínimo, pois o valor do cardápio funcional equivale a um terço do salário mínimo brasileiro. Há 2.500 anos, Hipócrates já dizia: “Que o seu alimento seja seu medicamento, e seu medicamento seja seu alimento”. Dessa forma, é preciso analisar que apesar do cardápio funcional para a população adulta ter apresentado valores maiores que o tradicional, os benefícios à saúde que o mesmo pode trazer incluem a redução do risco de doenças em longo prazo, diminuindo os gastos com remédios no futuro. Segundo a POF, os gastos com carnes, vísceras e pescados, bebidas e infusões e alimentos preparados aumentaram em relação à pesquisa realizada em 2002- 2003. Entendemos, com isso, que a população brasileira está consumindo mais alimentos industrializados do que alimentos naturais. Dessa forma, é necessária a criação de estratégias para o direcionamento dos gastos familiares, a fim de incentivar uma alimentação funcional. EFEITOS FISIOLÓGICOS DE ALIMENTOS: REDUÇÃO DE RISCOS DE DOENÇAS DEGENERATIVAS As evidências epidemiológicas estão continuamente providenciando recomendações para que as pessoas aumentem o consumo de frutas e verduras como medida preventiva para reduzir os riscos de diversas doenças degenerativas. Existem altíssimas correlações de efeitos benéficos de nutrientes essenciais, ou não, que podem modificar processos celulares, com efeitos fisiológicos protetores (Tabela 1). https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-28032001000400010&lng=en&nrm=iso&tlng=pt#tab1 27 Muitos compostos encontrados nos alimentos são responsáveis por efeitos benéficos observados em indivíduos que os consomem. Assim, por exemplo, o alho que contem compostos- alil, que enriquecem o sabor dos alimentos, mas também são repelentes contra insetos, além de reduzirem riscos de câncer e enfermidades cardíacas. Outros compostos importantes são os carotenoides, encontrados em frutas e verduras; indóis e tiocianatos de plantas crucíferas, tais como as couves, apresentam propriedades protetoras, como foi verificado em papilomatose respiratória. CONCEITO DE ALIMENTOS FUNCIONAIS Este novo conceito de alimentos promotores de boa saúde está emergindo como uma nova fronteira no desafio dos profissionais de nutrição e introduzindo a necessidade dos nutrientes tradicionais, como estabelecido ao longo de todos os anos de estudos da Nutrição, mas muito ampliada para o conceito nutrientes preventivos. 28 Nutrientes são necessários para o desenvolvimento e crescimento normais dos indivíduos. Mas não é somente para todas essas necessidades, é preciso também, proteger os indivíduos contra os riscos por agressões genéticas e do meio ambiente, incluindo os hábitos alimentares, reduzindo riscos que poderiam ser minimizados ou, protelados, através de uma nutrição preventiva, iniciada logo após o desmame e continuada ao longo de toda a vida. Obviamente, que não se proíbe o consumo de alimentos menos recomendados, mas é necessária moderação. É neste ponto que outros componentes dos alimentos, não somente os nutrientes tradicionais devem também, fazer parte da alimentação. Estes compostos dos alimentos que existem em alimentos e que não são os nutrientes clássicos, mas apresentam propriedades funcionais benéficas, além dos efeitos tradicionais dos nutrientes, devem ser consumidos normalmente. OSTEOPOROSE E SOJA As terapias de tratamento e prevenção de osteoporose em mulheres pós- menopausaincluem reposição hormonal. Estes tratamentos são discutíveis pelo aumento de risco de câncer de mama, e mesmo que estes efeitos não tivessem sido completamente comprovados, observou-se que a substituição deste tratamento com isoflavonas da soja teve resultados bem promissores na redução da perda óssea. Isto ocorre, pois as isoflavonas, especialmente certos tipos destas, na forma de agliconados, apresenta efeito de fito-hormônio, ou seja, estes compostos atuam como estrógenos, porém, sem os possíveis efeitos colaterais destes. Isto ocorre, pois a isoflavona entra nos locais receptores de estrógenos e atuam como estes, conhecidos, pois, como fitoestrógenos. Em mulheres pós-menopáusa tratadas com 80 mg de isoflavona isolada de soja/dia, houve diminuição significativa da perda óssea lombar(1). 29 ÁCIDO OLÉICO - ASPECTOS PROTETORES A dieta mais recomendada como saudável para as populações, principalmente com a meta de reduzir a prevalência de enfermidades cardiovasculares, é a consumida rotineiramente por populações da região do Mediterrâneo, especialmente da década de 1960-70. Hoje, por vários motivos, houve diversas modificações para uma escolha de alimentos menos saudáveis. O denominador comum da chamada dieta do Mediterrâneo é: maior ingestão de frutas e verduras, com consumo de vinho tinto e azeite de oliva. Estes elementos foram recomendados às populações como mais saudáveis e preventivos. Muitos estudos comprovaram os efeitos benéficos do consumo moderado de vinho tinto, não vinho branco ou álcool, na efetiva redução da oxidação do LDL-colesterol (que é a forma que abre as portas a processos de aterosclerose). O mesmo perfil foi correlacionado ao consumo do azeite de oliva, atribuído ao seu conteúdo de ácido oleico. O ácido oleico é um ácido graxo monoinsaturado, que foi por muito tempo, considerado fundamental pelas propriedades benéficas na redução da oxidação do LDL-colesterol, a forma aterogênica. Outros óleos, também monoinsaturados, poderiam ter as mesmas qualidades protetoras, mas parece que não é bem assim. O azeite extraído de olivas contém o ácido oleico, mas também outros compostos destas sementes e ainda, dependendo do processamento para a obtenção do óleo, outros fatores podem interferir. O azeite extra virgem é o único que não é extraído por solventes, mas é obtido por compressão da oliva a frio, o que não altera a natureza da semente. Este azeite, no amadurecimento, conserva melhor seus componentes, entre os quais, os polifenóis agliconados, característicos pelo odor do azeite. No entanto, quando o processamento inclui o uso de solventes (azeites refinados), boa parte destes compostos fenólicos são perdidos. Isto ocorre também quando o azeite é alcalinizado para reduzir acidez. 30 Portanto, os efeitos benéficos do azeite de oliva irão depender do uso do óleo extra virgem, especialmente por seu conteúdo de polifenóis e com os seguintes efeitos principais: 1. potente inibidor de radicais livres; 2. inibidores da oxidação de LDL-colesterol; 3. inibidores de agregação plaquetária; 4. antitrombótico. Este trabalho demonstra que os efeitos protetores do azeite de oliva estão correlacionados ao seu conteúdo de ácido graxo monoinsaturado, mas especialmente aos compostos bioativos contidos nele: os polifenóis ativos, funcionais, protegendo a saúde. E como mensagem: preferir o azeite de oliva não tratado com solventes e refinado, mas o extraído diretamente das sementes. O QUE RECOMENDAR PARA PREVENIR OU, PROTELAR DOENÇAS QUE PODERIAM SER EVITADAS ATRAVÉS DE UMA ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL Considerando estes novos aspectos da nutrição, deve-se recomendar atender todas as necessidades de nutrientes essenciais, conforme as indicações tradicionais, mas também, enriquecer a alimentação com fontes de alimentos funcionais. Isto pode ser obtido através de uma alimentação amplamente variada, contendo frutas e verduras em boa quantidade (4 a 5 porções/dia), moderando, porém, o total calórico e de gorduras. Omitir certos alimentos, habitualmente, pode levar a deficiências importantes. A manutenção de exercícios físicos moderados, rotineiramente é de fundamental importância, juntamente com uma alimentação saudável. 31 Nos últimos anos, os consumidores viram aparecer nas gôndolas dos supermercados novos produtos alimentares, que prometem contribuir na busca por uma vida mais saudável. Os alimentos funcionais são a nova tendência do poderoso mercado alimentício neste início do século XXI (HEASMAN & MELLENTIN, 2001). Iogurtes, margarinas, leites fermentados, cereais, águas minerais etc. prometem ajudar na cura ou na prevenção de doenças como as cardiovasculares, certos tipos de câncer, alergias, problemas intestinais etc. Entre os fatores-chave que explicam o êxito dos alimentos funcionais, Hasler (2000) cita a preocupação crescente pela saúde e pelo bem- estar, mudanças na regulamentação dos alimentos e a crescente comprovação científica das relações existentes entre dieta e saúde. Escolhemos concentrar nossa pesquisa na área dos produtos lácteos, em particular iogurtes, e em duas empresas, Nestlé e Danone. De fato, esse setor parece-nos revelador das tendências que estão levando à globalização da alimentação e da saúde. Os produtos escolhidos foram lançados com êxito em diversos países europeus, em meados da década de 1990, e estão agora no mercado brasileiro, levando a uma considerável revitalização do mercado dos produtos lácteos. 32 OS ALIMENTOS FUNCIONAIS: A NOVA FRONTEIRA DO MERCADO ALIMENTAR Nos anos 1960, surgiram os primeiros estudos científicos que comprovaram a ligação entre alimentação e saúde, apontando para os impactos negativos do excesso de gordura e açúcar. Na década de 1980, produtos diet e light começaram a ser comercializados com sucesso. Recentemente, vem-se exigindo ainda mais dos alimentos. Além de não fazer mal à saúde, eles devem ainda desempenhar funções terapêuticas: “Depois de anos de discurso negativo sobre a alimentação em relação à dieta e à saúde, os ingredientes funcionais estão agora sendo usados como atributos positivos para criar novos mercados” (HEASMAN & MELLENTIN, 2001, p. XVI). De fato, esse novo nicho de mercado revela-se extremamente dinâmico. O setor registrou um crescimento de mais de 50%, entre 2002 e 2005, no mundo, de acordo com o instituto de pesquisa AC Nielsen. Nos Estados Unidos, esse mercado movimenta cerca de 15 bilhões de dólares por ano (SOCIEDADE BRASILEIRA DE ALIMENTOS FUNCIONAIS, 2007). A novidade é que os funcionais estão deixando de ser um nicho de mercado para transformarem-se em uma nova fronteira do mercado de alimentos, roubando espaço dos produtos tradicionais e com amplas possibilidades de crescimento. O instituto de pesquisa Euromonitor estima que o mercado de alimentos funcionais movimente cerca de 50 bilhões de dólares no mundo e apresente um ritmo de crescimento de cerca de 10% ao ano, índice três vezes maior que o de produtos alimentícios convencionais: “A previsão é que, em dez anos, os funcionais detenham 40% do mercado de alimentos”, diz Carlos Faccina, diretor de assuntos corporativos da Nestlé no Brasil (COSTA, 2007). Pode-se observar certa disparidade entre regiões para a comercialização dos alimentos funcionais. Assim, o Nafta (Área de Livre-Comércio da América do Norte, composta por Estados Unidos, Canadá e México) representa 72% do mercado mundial, contra 12% da União Européia e 14% do Japão – este país demonstrando um dinamismo histórico. 33 Na União Europeia, os países nórdicos estão mais avançados em termos de populações de bactérias desejáveis no cólon. Os principais prebióticos identificados atualmente são carboidratos, incluindo a lactulose, a inulina e diversos oligossacarídeos(SAAD, 2006) e consumo de alimentos funcionais, enquanto os países do sul demonstram certa reticência frente a esses novos alimentos (KITOUS, 2003). De acordo com Heasman e Mellentin (2001), foram os japoneses que “inventaram” os alimentos funcionais. O médico Minora Shirota descobriu os benefícios da bactéria Lactobacillus casei para a regulação do trânsito intestinal na década de 1930, quando trabalhava junto aos pobres e malnutridos. Ele fundou a Companhia Yakult Honsha em 1955 e começou a produzir as garrafinhas de 65 mililitros de leite fermentado que conheceram progressivamente um sucesso mundial. Hoje, 26 milhões de garrafinhas de Yakult seriam bebidas diariamente no mundo todo. Mas a “revolução nutricional” começou mesmo na década de 1980. Em outubro de 1984, a Cia. Kellogg lançou sua campanha publicitária do cereal matinal All-Bran, baseada em alegações de saúde (health claims): uma dieta rica em fibra e pobre em gordura reduziria o risco de desenvolver certas formas de câncer. Desde então, a maioria das multinacionais do ramo alimentar, como a Danone, a Nestlé, a Unilever etc., passaram a lançar seus produtos funcionais. A situação não é muito diferente no Brasil. Entre as 24 categorias de alimentos mais vendidos em 2005, 75% estão ligados à saúde (AC NIELSEN, 2007). Uma pesquisa feita pela Health Focus em 30 países mostra que 44% dos consumidores brasileiros da classe A e B escolhem seus alimentos com base na relação que eles têm com a saúde, sendo um dos maiores índices da América Latina (OLIVEIRA & FERNANDES, 2004). De maneira geral, a indústria alimentícia brasileira viu seu faturamento aumentar nos últimos anos, passando de 112 bilhões de reais, em 2001, para 184,6 bilhões, em 2005, mas sua participação manteve-se ao redor de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, entre 2001 e 2005. Os principais setores em 2005 (em valor faturado) eram, por ordem decrescente: 1) derivados de carne; 34 2) beneficiamento de café, chá e cereais; 3) óleos e gorduras; 4) laticínios e 5) açúcares. Com relação ao número de empresas, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA) mostram a existência de 200 estabelecimentos formais, sendo 85,3% deles considerados como microempresas e 0,9% como grandes empresas. Trata-se de um setor relativamente concentrado, na medida em que 200 grupos respondem por 70% da produção. Apesar disso, é um setor ainda intensivo em mão-de-obra. De fato, em 2005, o setor representava 16,4% do faturamento da indústria de transformação, mas 20,1% do emprego (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS DA ALIMENTAÇÃO, 2007). Os alimentos funcionais vêm adquirindo uma presença crescente nessa indústria, tendo faturado 2,5 bilhões de dólares, em 2003 (SOCIEDADE BRASILEIRA DE ALIMENTOS FUNCIONAIS, 2007). No Brasil, já são vários os alimentos funcionais presentes no mercado: além dos iogurtes com probióticos que melhoram a saúde intestinal, podemos citar leites enriquecidos com ferro (que ajuda na prevenção e no tratamento da anemia), com vitaminas e com o ácido ômega-3 (que ajuda no controle do colesterol), bem como ovos e margarinas enriquecidos também com ômega-3. O setor da água mineral não ficou fora do movimento e ingressou recentemente no mercado das bebidas funcionais, oferecendo águas que contêm alta concentração de vitaminas C e do complexo B, a fim de fortalecer o sistema imunológico, ou que contêm a fibra FOS (frutooligossacarídeo) e prometem contribuir para a prevenção dos cânceres de mama e de cólon e para a redução dos riscos de doenças cardiovasculares, além de regular o intestino. Os alimentos associados a uma forte imagem de “saúde” representam uma fonte de diferenciação e de rentabilidade em certos ramos do setor alimentar que conhecem uma forte estagnação, como os laticínios. Na França, por exemplo, a taxa de valor agregado dos laticínios “saúde” é de 20%, contra 13% para a simples transformação do leite (PADILLA et alii, 2006). 35 Para as indústrias alimentares, a chave do sucesso no mercado dos alimentos funcionais reside na inovação, o que constitui uma poderosa barreira à entrada de novas empresas. Para atender às demandas específicas em termo de saúde, as indústrias devem cada vez mais especializar-se e segmentar seus produtos, o que lhes obriga a realizar investimentos pesados na área da pesquisa e desenvolvimento e na área da comunicação. Somente as multinacionais Uma alegação de saúde (health claim) é uma indicação, contida na embalagem do produto e veiculada pela propaganda, que reivindica um efeito benéfico sobre a saúde humana (KITOUS, 2003). OS ALIMENTOS FUNCIONAIS: A NOVA FRONTEIRA DA INDÚSTRIA ALIMENTAR Algumas grandes empresas nacionais podem mobilizar os recursos financeiros necessários. Nesse contexto, as indústrias alimentares são levadas a adotar determinadas estratégias, como a aproximação com firmas farmacêuticas por meio de operações de parceria (fusões e aquisições). A vantagem da farmácia reside no seu forte potencial de pesquisa e nas suas relações estreitas com o meio médico. Por sua vez, a indústria alimentar conhece bem o consumidor, o marketing de massa e sabe como manter uma dimensão de “prazer” nos alimentos funcionais (EL-DAHR, 2003). Mesmo sem querer entrar na polêmica do impacto efetivo dos alimentos funcionais na saúde (não é nosso objetivo aqui), não podemos deixar de registrar a existência de uma extensa literatura que expressa dúvidas a esse respeito (NESTLE, 1999; 2003; GUILLON & WILLEQUET, 2003). Para os críticos, trata-se mais de uma nova estratégia de marketing do que de uma verdadeira revolução nutricional. Pesquisas já apontam para o investimento pesado realizado pelas indústrias alimentícias no marketing e na propaganda, cujas estratégias são vistas como problemáticas, pois contêm mensagens ambíguas, bem como falsas alegações (WAI-LING, 2004). 36 Por exemplo, pesquisas mostram que uma alta percentagem de lactobacilos vivos não resistem ao transporte e à estocagem, nem ao ácido gástrico no estômago. No entanto, para Hesman & Mellentin (2001), estas pesquisas não seriam uma razão suficiente para rejeitar em bloco os probióticos, pois alguns deles têm a capacidade de atingir e colonizar o intestino. Além disso, a concentração dos probióticos no produto é um elemento fundamental para garantir sua funcionalidade. Por isso, os autores defendem a necessidade de maiores pesquisas científicas, que, aliás, já certificaram determinados probióticos. Dando continuidade às críticas, Nestle (2003) acusa a indústria alimentícia de influenciar o governo, o meio acadêmico e os meios de comunicação para promover seus produtos, passando por cima da saúde pública. Essa nutricionista norteamericana denuncia assim a política de lobbying junto ao governo, além do financiamento de departamentos acadêmicos, institutos de pesquisa e sociedades médicas. Para ela, os alimentos funcionais não passam de uma estratégia elaborada para revigorar um mercado alimentício que, há muitos anos, conhece um ritmo de crescimento da ordem de 1% a 2% anuais. Não entraremos na questão do mérito dos alimentos funcionais, registrando apenas a emergência desse novo ramo, tentando indagar as razões do seu dinamismo. Para entender o funcionamento do mercado alimentício e o lançamento dos alimentos funcionais, precisamos mobilizar os conceitos elaborados pela abordagem política de análise dos mercados. A VISÃO POLÍTICA DO MERCADO: O MERCADO COMO “CAMPO DE LUTAS” Apesar de reconhecer o interesse teórico da concepção econômica do mercado, abstração que autonomiza artificialmente uma esfera do resto do contexto social, político e cultural, a Nova Sociologia Econômica empenha-seem dar conta dos mecanismos reais de funcionamento dos mercados, ao levar em 37 conta o comportamento concreto dos atores econômicos e o conteúdo social das relações mercantis. No quadro da Sociologia dos Mercados, podem ser identificadas três principais abordagens (WANDERLEY, 2002). Para a abordagem estrutural, o mercado não se constitui de indivíduos isolados e anônimos, mas de redes interpessoais, que desempenham várias funções, dentre elas facilitar a circulação de informações e assegurar a confiança ao limitar os comportamentos oportunistas (GRANOVETTER, 1985). Por sua vez, DiMaggio (1990) sugere que o comportamento econômico encontra-se inserido não apenas na estrutura social, mas também na cultura, apontando para os aspectos contingentes da racionalidade econômica e para a origem social das preferências dos consumidores. Finalmente, a abordagem política, representada essencialmente por Neil Fligstein e Pierre Bourdieu, enfatiza os conflitos e as relações de poder inerentes aos fenômenos econômicos, além de apontar para a importância do papel do Estado na regulação do mercado. Em particular, Bourdieu (1997; 2005) define o campo econômico como um “campo de lutas”, isto é, um “campo de ação socialmente construído em que se enfrentam agentes dotados de recursos diferentes”, em função do volume e da estrutura do capital que possuem, sob suas diferentes formas: financeiro, cultural, tecnológico, jurídico, organizacional, comercial e simbólico. Em função desses recursos, os atores definem estratégias de ação no âmbito dos limites impostos pela estrutura do campo, em particular pelo seu grau de concentração. Levar em conta a dotação diferencial de capital implica considerar a existência de relações de dominação no seio do campo econômico, ou seja, a existência de empresas dominantes e dominadas. Nesse sentido, Bourdieu rompe com a teoria econômica na qual só interagem atores iguais, ao menos nos modelos de concorrência pura e perfeita (cf. BROCHIER, 1987; BOYER, 2003), e tem o mérito de destacar a dimensão política do mercado. Essa visão de uma oferta que “se apresenta como um espaço diferenciado e estruturado de empresas concorrentes, cujas estratégias dependem dos outros concorrentes” (BOURDIEU, 2000, p. 37; grifos no original) é muito parecida com as análises tanto de Max Weber (1991) quanto de Harrison White (1981), na qual a oferta não se constitui de um agregado de vendedores independentes, como na 38 teoria econômica, mas de um conjunto de produtores que se observam uns aos outros. Assim, o fato de que as empresas concorrentes não param de se espiar explica a elaboração quase simultânea de produtos semelhantes. Mas Bourdieu (1997) afirma distanciar-se de ambos, que teriam tido o mérito de sublinhar a influência dos concorrentes na estratégia de uma empresa, mas que acabaram caindo em uma visão interacionista, esquecendo as pressões inerentes à posição ocupada na estrutura do campo. Ele reivindica então a herança de Georg Simmel, ao considerar a competição no mercado como um “conflito indireto”, isto é, não dirigido diretamente contra o concorrente, mas mediado pelo campo. Assim, é menos por meio de ações diretas do que por meio do peso que elas detêm na estrutura do campo (peso que, como vimos, depende do volume e da estrutura do capital detido) que as empresas dominantes pressionam as empresas dominadas e influenciam suas estratégias. Obviamente, as empresas dominantes também não escolhem livremente suas ações, na medida em que elas sofrem igualmente o peso de toda a estrutura do campo. Como em Fligstein (1996), o mercado de Bourdieu consiste em um equilíbrio temporário, com as regras do jogo provisoriamente respeitadas. Nesse quadro, a dominação de uma empresa reside essencialmente na sua capacidade de impor às outras sua própria definição do jogo. Por um lado, Bourdieu (1997) insiste na dimensão estática do fenômeno da reprodução do campo, por meio das “barreiras à entrada” de novas empresas, estabelecidas pela distribuição desigual dos recursos, em particular em termos de economias de escala e de vantagens tecnológicas detidas pelas empresas dominantes. Por outro lado, Boyer (2003) defende uma outra interpretação da teoria de Bourdieu, em que o esforço analítico orientarse-ia para a revelação dos fatores de mudança. As relações de transação entre produtores e clientes e as relações de concorrência internas ao campo econômico (em particular, a existência de empresas dominantes e dominadas) constituem o princípio da dinâmica desse campo. 39 De maneira específica, podem ser identificados cinco fatores de mudança do campo: Em primeiro lugar, o campo é modificado pelas próprias empresas dominantes na medida em que sua posição só pode ser mantida por um esforço permanente de inovação. Geralmente, é a empresa dominante que toma a iniciativa no que diz respeito ao preço, aos novos produtos e às estratégias de distribuição e de promoção. Mas, em segundo lugar, as empresas dominantes podem ser suplantadas em decorrência de uma inovação tecnológica que permite uma redução dos custos favorável às empresas dominadas, tipo de modificação em geral introduzida por novos atores, vindos “de outros subcampos”. Em terceiro lugar, se algumas empresas costumam atravessar fronteiras, as próprias fronteiras podem sofrer modificações. Pode acontecer, por exemplo, de um campo dividir-se em subcampos especializados (como no caso da indústria aeronáutica) ou de um novo campo emergir da fusão entre várias indústrias, como no caso da informática e das telecomunicações. Em quarto lugar, Bourdieu cita vários fatores externos de mudança: nas fontes de abastecimento, na demografia ou nos estilos de vida. Um último e fundamental fator de mudança reside nas interações do campo com o Estado. Entre os fatores de mudança identificados, o que mais interessa aqui é aquele que diz respeito à inovação, como veremos em seguida. Finalmente, Bourdieu insiste na importância da atuação do Estado no processo de construção social do mercado: “Dentre todas as característica Para uma análise mais aprofundada da Sociologia Econômica de Pierre Bourdieu, ver Raud (2007)”. Essa importância deve-se a uma autonomização simultânea dos campos econômico e político. Em particular, ao mostrar a importância do Estado na estruturação do campo, Bourdieu enfatiza o papel das regras formais: manutenção da ordem e da confiança, contribuição para a construção da oferta e da demanda e regulação dos mercados e controle das empresas são algumas de suas atribuições. Ademais, reafirmando a dimensão política e conflituosa do mercado, Bourdieu mostra o papel estratégico do Estado nas lutas de poder: “entre todas as trocas com o exterior do campo, as mais importantes são aquelas que se estabelecem com o Estado”. 40 A competição entre as empresas assume muitas vezes a forma de uma competição para o poder sobre o poder do Estado [...] e para as vantagens asseguradas pelas diferentes intervenções do Estado”. Assim, o Estado influencia fortemente as relações de poder existentes entre os atores no campo econômico. As empresas dominadas tentam mobilizar seu capital social (suas redes de relações) para pressionar o Estado a modificar as regras do jogo num sentido que lhes seja mais favorável. O Estado pode participar também da construção da demanda por meio da produção dos sistemas de preferências individuais e da atribuição dos recursos necessários (por exemplo, orientação do crédito, ajudas fiscais etc.. do setor de lácteos refrigerados da multinacional subiram de 12,2%, ou seja, 8,971 bilhões de euros, graças, principalmente, aos produtos que a empresa vem chamando de blockbuster, como Actimel, Activia, Vitalinea e Danoninho.