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5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO 
5ª. aula 
Caravaggio, ‘Narciso’ - 1594 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O mito 
 
‘Eco e Narciso’ 
 
Eco era uma bela ninfa, amante dos bosques e dos montes, onde se 
dedicava a distrações campestres. Era favorita de Diana e acompanhava-se 
em suas caçadas. Tinha um defeito, porém: falava demais e, em qualquer 
conversa ou discussão, queria sempre dizer a última palavra. 
 
Certo dia, Juno saiu à procura do marido, de quem desconfiava, com razão, 
que estivesse se divertindo entre as ninfas. Eco, com sua conversa, 
conseguiu entreter a deusa, até as ninfas fugirem. Percebendo isto, Juno a 
condenou com estas palavras: 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O mito 
 
-Só conservarás o uso dessa língua com que me iludiste para uma coisa de 
que gostas tanto: responder. Continuarás a dizer a última palavra, mas não 
poderás falar em primeiro lugar. 
 
A ninfa viu Narciso, um belo jovem, que perseguia a caça na montanha. 
Apaixonou-se por ele e seguiu-lhe os passos. Quanto desejava dirigir-lhe a 
palavra, dizer-lhe frases gentis e conquistar-lhe o afeto! Isso estava fora de 
seu poder, contudo. Esperou, com impaciência, que ele falasse primeiro, a 
fim de que pudesse responder. Certo dia, o jovem, tendo se separado dos 
companheiros, gritou bem alto: 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O mito 
 
- Há alguém aqui? 
- Aqui – respondeu Eco. 
Narciso olhou em torno e, não vendo ninguém, gritou: 
-Vem! 
- Vem! – respondeu Eco. 
- Por que foges de mim? – perguntou Narciso. 
Eco respondeu com a mesma pergunta. 
-Vamos nos juntar – disse o jovem. 
A donzela repetiu, com todo o ardor, as mesmas palavras e correu para 
junto de Narciso, pronta a se lançar em seus braços. 
-Afasta-te! – exclamou o jovem recuando. – Prefiro morrer a te deixar 
possuir-me. 
- Possuir-me – disse Eco. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O mito 
 
Mas foi tudo em vão. Narciso fugiu e ela foi esconder sua vergonha no 
recesso dos bosques. Daquele dia em diante, passou a viver nas cavernas e 
entre os rochedos das montanhas. De pesar, seu corpo definhou, até que as 
carnes desapareceram inteiramente. Os ossos transformaram-se em 
rochedos e nada mais dela restou além da voz. E, assim, ela ainda continua 
disposta a responder a quem quer que a chame e conserva o velho hábito de 
dizer a última palavra. 
 
A crueldade de Narciso nesse caso não constituiu uma exceção. Ele 
desprezou todas as ninfas, como havia desprezado a pobre Eco. Certo dia, 
uma donzela que tentara em vão atraí-lo implorou aos deuses que ele viesse 
algum dia a saber o que é o amor e não ser correspondido. A deusa da 
vingança ouviu a prece e atendeu-a. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O mito 
 
Havia uma fonte clara, cuja água parecia de prata, à qual os pastores 
jamais levavam rebanhos, nem as cabras montesas frequentavam, nem 
qualquer um dos animais da floresta. Também não era água enfeada por 
folhas ou galhos caídos das árvores; a relva crescia viçosa em torno dela, e 
os rochedos a abrigavam do sol. Ali chegou um dia Narciso, fatigado da 
caça, e sentindo muito calor e muita sede. Debruçou-se para desalterar-se, 
viu a própria imagem refletida na fonte e pensou que fosse algum belo 
espírito das águas que ali vivesse. Ficou olhando com admiração para os 
olhos brilhantes, para os cabelos anelados como os de Baco ou de Apolo, o 
rosto oval, o pescoço de marfim, os lábios entreabertos e o aspecto saudável 
e animado do conjunto. Apaixonou-se por si mesmo. Baixou os lábios, para 
dar um beijo e mergulhou os braços na água para abraçar a bela imagem. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O mito 
 
Esta fugiu com o contato, mas voltou um momento depois, renovando a 
fascinação. Narciso não pôde mais conter-se. Esqueceu-se de todo da ideia 
de alimento ou repouso, enquanto se debruçava sobre a fonte, para 
contemplar a própria imagem. 
 
- Por que me desprezas, belo ser? – perguntou ao suposto espírito – Meu 
rosto não pode causar-te repugnância. As ninfas me amam e tu mesmo não 
pareces olhar-me com indiferença. Quando estendendo os braços, fazes o 
mesmo, e sorris quando te sorrio, e respondes com acenos aos meus 
acenos. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O mito 
 
Suas lágrimas caíram na água, turbando a imagem. E, ao vê-la partir, 
Narciso exclamou: 
 
-Fica, peço-te! Deixa-me, pelo menos, olhar-te, já que não posso tocar-te. 
 
Com estas palavras, e muitas outras semelhantes, atiçava a chama que o 
consumia, e, assim, pouco a pouco, foi perdendo as cores, o vigor e a beleza, 
que antes tanto encantara a ninfa Eco. Esta se mantinha perto dele, 
contudo, e, quando Narciso gritava ‘Ai, ai’, ela respondia com as mesmas 
palavras. O jovem, depauperado, morreu. E, quando sua sombra atravessou 
o Rio Estige, debruçou-se sobre o barco, para avistar-se na água. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O mito 
 
As ninfas o choraram, especialmente as ninfas da água. E, quando 
esmurravam o peito, Eco fazia o mesmo. Prepararam uma pira funerária, e 
teriam cremado o corpo, se o tivessem encontrado; em seu lugar, porém, só 
foi achada uma flor, roxa, rodeada de folhas brancas, que tem o nome e 
conserva a memória de Narciso. 
 
[Thomas Bulfinch, ‘The age of fable’] 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO vs. AUTOEROTISMO 
 
Autoerotismo é, numa perspectiva psicanalítica, a fase de amor próprio da 
sexualidade infantil, o estádio de desenvolvimento emocional em que o 
prazer sexual é adquirido somente através da experiência subjetiva. Nesta, 
uma pulsão parcial encontra prazer num local (zona erógena), sem existir 
uma unidade corporal. 
Esta fase autoerótica surge durante o período de amamentação. Deve-se 
distinguir do narcisismo, já que o autoerotismo não tem objeto, enquanto 
que no narcisismo o ego é reconhecido como sendo do próprio e a criança 
sente o seu corpo como objeto de amor. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO vs. AUTOEROTISMO 
 
Para Freud, o autoerotismo era essencial, pois permitia fundar a teoria das 
psicoses. Nesta, o sujeito encontra-se num estádio autoerótico, anterior à 
constituição do objeto total e da imagem unificada de si mesmo. Esta 
perspectiva facilitou inúmeras investigações posteriores e conduziu à teoria 
do autismo infantil. 
 
 
 
[Bleuler, cujo assistente foi Jung, cunhou o termo autismo, como uma 
contração do termo AutoErotismo] 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Uma introdução 
 
Assim se intitulava um longo artigo publicado em 1914, enquanto essa 
primeira construção do campo pulsional estava ainda em gestação. Foi 
difícil situar de saída sua importância para as pessoas da época. 
Entretanto, elas perceberam que se tratava de uma coisa bem diferente de 
uma simples precisão da teoria. 
 
Em seu livro ‘Vida e obra de Sigmund Freud’, Ernest Jones recorda ter 
escrito a Freud que ‘esse trabalho tinha dado um duro golpe na teoria das 
pulsões.’ A concepção de um dualismo pulsional parecia posta em questão. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Uma introdução 
 
Em um primeiro enfoque, as coisas parecem bem simples. Primeiro a 
dualidade, instintos de preservação, instintos sexuais, é mantida. Em 
segundo lugar, é a compreensão do objeto dessa pulsão sexual que é 
remanejada. Ou seja, antes Freud distinguia uma satisfação autoerótica 
[prazer de órgão] de uma satisfação objetal. Ele agora introduz uma outra 
modalidade, que é o investimento global do Ego pela libido. 
 
Notemos que essa introdução do narcisismo levou-oa precisar, senão a 
reformular, o modelo tópico e a concepção do Ego. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Uma introdução 
 
É a partir de diversas considerações, essencialmente genéticas e 
econômicas, que foi elaborada essa noção de narcisismo. Desde 1910-1911 
[‘Três ensaios sobre a teoria da sexualidade’] foi admitido, na sequência de 
Abraham, que tinha postulado esse mecanismo nas demências precoces, 
que a libido, ao se retirar dos objetos do mundo exterior, pode refluir, 
reinvestindo no próprio sujeito. 
 
Isso levou a emitir a hipótese, no curso do desenvolvimento, de uma etapa 
em que não são mais as zonas erógenas, mas a pessoa por inteiro [o Ego-
corpo] que é investida. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Uma introdução 
 
Posteriormente, e em uma espécie de dialética da identificação, o 
investimento é deslocado para um objeto exterior ‘idêntico’: é a fase da 
escolha de objeto homossexual. 
 
Porém, o Ego permanece sempre parcialmente investido e os investimentos 
objetais ficam ligados à região do núcleo. Há como que uma espécie de 
balanço entre o que se chama, desde então, de libido do Ego e libido de 
objeto. 
 
‘Quanto mais uma cresce’, afirma Freud, ‘mais a outra se empobrece’. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Uma introdução 
 
Observe-se que se estabelece aí uma outra aplicação do princípio da 
constância. 
 
‘O Ego deve ser considerado como um grande reservatório de libido, de onde 
ela é enviada para os objetos, e que está sempre pronto para absorver a libido 
que reflui a partir dos objetos’. 
 
Sendo a libido a energia das pulsões sexuais, ela retira sua origem do Id; é 
essa instância que consiste em seu reservatório original; não é senão após 
seu primeiro investimento narcisista que o Ego dispõe verdadeiramente de 
uma reserva libidinal. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Uma introdução 
 
Esse primeiro investimento, maciço e exclusivo, deixaria um traço, a 
nostalgia de uma plenitude e de uma absoluta felicidade que dará, depois 
da remodelagem pela educação, o Ideal do Ego. 
 
Essa teorização revela algumas dificuldades. O que acabamos de dizer sobre 
isso implica um duplo aspecto do narcisismo: etapa da evolução libidinal, 
mas também dado estrutural permanente do Ego. 
 
Para alguns autores, o narcisismo seria uma entidade mais ou menos 
comparável a uma instância, dispondo de uma energia própria. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Uma introdução 
 
Mas como conceber tanto em uma como em outra perspectiva, as noções de 
narcisismo primário e de narcisismo secundário, noções bem estabelecidas 
e utilizadas pela quase totalidade de autores depois de Freud? 
 
O narcisismo secundário parece menos complexo: conceito essencialmente 
clínico, ele é entendido em todas as situações em que se acha um refluxo da 
libido objetal sobre o Ego. 
 
A expressão narcisismo primário quer designar a situação inicial, em que a 
libido investiu no próprio sujeito. 
 
Em que momento situar essa etapa? 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Uma introdução 
 
Para Freud, essa fase se situa depois do autoerotismo. Mas ele próprio, a 
partir de 1916, invoca um investimento narcísico muito mais arcaico, 
anterior a todo investimento do mundo exterior. Essa concepção em geral 
prevaleceu. 
 
Essa fase, cujo protótipo será a vida intrauterina, seria caracterizada por 
uma dupla indiferenciação: entre o Ego e o Id e entre o Id-Ego e o mundo 
exterior. 
 
Esse posicionamento levou a muitos debates, sendo aproveitados nas 
teorias de Melanie Klein e Jacques Lacan. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Uma introdução 
 
Quaisquer que sejam esses debates, pode-se determinar que o narcisismo 
nos levou a considerar três ordens de fatos: 
 
1. Um estado totalmente indiferenciado [Ego-Id e sujeito-mundo exterior]; 
2. A constituição de uma imagem unificada de si [por uma união dos 
autoerotismos e/ou por interiorização de uma imagem do outro]; 
3. A retirada, para o Ego, da libido que investia os objetos exteriores 
[narcisismo secundário]. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Uma introdução 
 
As pulsões de autoconservação já tinham uma importância modesta e uma 
individualidade bastante frágil, mas, a partir do momento em que são 
investidas de uma energia sexual – pois o narcisismo, diz Freud, é o 
complemento libidinal do ‘egoísmo’ [ou interesse do Ego] próprio ao instinto 
de conservação –, elas parecem ficar totalmente submersas pela 
sexualidade. Eis porque não se entende o interesse de distinguir 
autoconservação e amor-próprio. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO 
 
Amor-próprio e sentimento de identidade, falo, Ideal de Si-mesmo, ferida 
narcísica, trauma, violência fundamental, angústia de perda de objeto, 
depressão... Tais são os principais parâmetros de uma ‘linhagem’ fundadora 
da psique humana e sequencialmente evolutiva, que se pode chamar de 
‘linhagem narcisista’. Examinar seus diferentes aspectos, assim como seus 
modos de relação com os outros componentes da organização mental 
constituirá o objeto deste tema. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Problema do falo 
 
Etimologicamente, o termo falo designa uma representação, uma imagem do 
membro erétil masculino e, por extensão, um emblema de potência. É, pois, 
um símbolo, um ‘significante’, e o termo, então, não deveria servir para 
nomear o ‘pênis’, atributo sexual corporal que tem por correspondente 
simétrico e complementar a vagina. 
 
Esses dois órgãos – pênis e vagina – são igualmente perfeitos, potentes e 
completos, tanto um como outro, e são percebidos já de início por seus 
respectivos portadores como a sede possível de intensos prazeres, que 
podem ser reproduzidos de maneira ativa ou passiva. Poderia se imaginar 
que cada um poderia mostrar-se satisfeito com o seu, o que não é, 
entretanto, o caso. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Problema do falo 
 
É que por causa de sua função hedonista, a existência do pênis e da vagina 
induz na criança interesses, suscita curiosidades, produz angústias que 
remetem não apenas ao prazer sexual [este, culpabilizado, dará lugar a uma 
angústia de castração genital], mas também – ou sobretudo – põe em causa 
mais ou menos dramaticamente o sentimento de identidade narcísica e de 
integridade corporal. 
 
Descobrindo-se pela presença-ausência de um órgão muito visível, a criança 
de um e outro sexo está confrontada a uma realidade que, tendo em vista 
seu equipamento conceitual do momento, ela é ainda incapaz de interpretar 
sexualmente. A angústia específica resultante disso estará ligada à ideia – 
infundada, mas exigente – segundo a qual ter um pênis é signo de 
completude e de perfeição, e não tê-lo [ou arriscar-se a perdê-lo, o que dá no 
mesmo], signo de despossessão ou de falta. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Problema do falo 
 
Isso implica sentimentos relativos à depressão. Pode-se falar aqui de uma 
angústia de castração narcísica. 
 
Assim, o termo falo teria um duplo sentido: 
 
-Por um lado, figura de interpretação – falsa – segundo a qual o possuidor 
do pênis seria o único ser perfeito e completo. A criança percebe justamente 
observando uma diferença de natureza, mas a conclusão que ela tira de sua 
percepção é errônea, no que concerne a uma hierarquia de sexos. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Problema do falo 
 
- Por outro lado – sentido positivo, ao contrário do precedente – o falo seria 
também uma representação [como o sugere a etimologia] que otornaria 
assimilável ao narcisismo existencial, dito de outra forma, ao sentimento de 
identidade própria, integrando tanto a identidade sexuada como a 
identidade propriamente dita. De acordo com isso, todas as mulheres, 
assim como todos os homens, têm evidentemente um direito natural a 
possuir um ‘falo’ simbólico. Que os segundos, assim como as primeiras, 
possam sentir-se despossuídos dele, indica que entramos no domínio da 
patologia, mais uma vez a do narcisismo e da depressão. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Problema do falo 
 
Em 1908, Freud descreveu a ‘inveja do pênis’, que pode ter duas vertentes: 
 
- uma mais propriamente ‘genital’, expressão da identificação natural com o 
outro sexo [o homem também, por sua vez, identifica-se com a mulher em 
sua relação com ela]; e uma outra vertente, ‘narcisista’, e bem mais 
conjuntural, ficando muitas ‘realidades’ bio-sociopsicológicas 
frequentemente contingentes na história da humanidade. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O problema do narcisismo 
 
O termo narcisismo [tanto como os de ‘falo’, ‘sexo’ ou ‘castração’] não é de 
sentido unívoco. Aliás, tem-se escrito e reescrito a propósito do narcisismo e 
de sua especificidade, e está fora de questão retomar aqui todas as visões 
teóricas às quais essas pesquisas deram lugar. 
 
Direcionemos nossa atenção ao que pode ser útil para o estudo de sua 
patologia, isto é, a depressão. 
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A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O problema do narcisismo 
 
Pode-se admitir que Narciso e Édipo designam ‘de maneira diferencial dois 
modelos distintos de funcionamento afetivo e relacional e que essas duas 
correntes correspondem a etapas tópicas e psicogenéticas em perfeita 
continuidade progressiva’. 
 
Mas pode-se também acrescentar que essas duas correntes poderiam ser 
consideradas como ‘um conflito sequencial ao mesmo tempo inicial e 
permanente [e, pois, sincrônico] em todo indivíduo’. 
 
Afinal de contas, o conflito se situa ‘como uma oposição entre duas gerações 
de conflitos’. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O problema do narcisismo 
 
Dito de outra forma, mesmo sendo de aparição sucessiva no tempo, do 
ponto de vista da psicogênese, Narciso e Édipo não deixam de ser atores 
concomitantes, agindo em alternância ou em concomitância ao longo de 
toda a existência. 
 
Embora se tenha atribuído ao narcisismo uma função não somente pré- 
mas antigenital, Narciso e Édipo não são antinômicos, mas, ao contrário, 
idealmente colaboradores, pelo menos quando sua entrada em ação 
equilibrada, sua integração, apresenta sucesso. 
 
De fato, o termo narcisismo sofre por sua história, isto é, pelo hábito 
desagradável que se desenvolveu, de utilizá-lo para designar apenas os 
avatares ou desvios, dito de outra forma, sua patologia. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O problema do narcisismo 
 
Uma das justificativas é o próprio mito que vimos. 
 
A exclusividade dessa relação imatura, autocentrada, erotizada, mais que 
sexualizada, detida em uma contemplação especular do idêntico ao ‘Si-
mesmo’ do sujeito, não pode senão levar ao fracasso. 
 
Mas existe, muito felizmente, um outro aspecto do narcisismo que, fazendo 
deste o guardião e o testemunho da vida, eleva-o ao estatuto de protetor 
perfeitamente positivo do psiquismo. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O problema do narcisismo 
 
Pode-se assim descrever um narcisismo – um ‘bom’ narcisismo – que 
promove a constituição de uma imagem de si unificada, perfeita, cumprida e 
inteira; que, ‘complemento libidinal do egoísmo’ próprio ao instinto de 
conversação, como dizia Freud, ultrapassa o autoerotismo primitivo para 
favorecer a integração de uma figuração positiva e diferenciada do outro e 
sobretudo do outro em seu estatuto sexuado. 
 
Sua importância é a de suscitar e manter o indispensável e mínimo ‘amor-
próprio’, necessário a toda sobrevida física e mental, na expressão clínica 
cotidiana de um verdadeiro ‘prazer de funcionamento’. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – O problema do narcisismo 
 
O importante é o que ocorre no âmbito da comunicação/ligação entre os 
diferentes níveis, engrenagens ou etapas, tanto da gênese como da 
organização acabada da psique. 
 
O que vale em um indivíduo não é uma ‘arquitetura fixa’, ou descrita em 
termos de tipo estrutural fechado e imóvel. 
 
Na realidade, o fundamental são suas capacidades mobilizadoras, sua 
aptidão em utilizar com flexibilidade os diferentes componentes parciais de 
sua organização mental, e, em particular, sua liberdade ou não em ligar [a 
Binding, de Freud] sobretudo seu narcisismo e sua sexualidade. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – A depressão 
 
É a expressão maior e quase específica da patologia do narcisismo. Parece 
tanto natural como obrigatório terminar esse tema com um resumo teórico-
clínico dessa afecção tão frequentemente encontrada em prática cotidiana. 
 
Existe um preconceito que se encontra nos meios especializados. Esse 
preconceito consiste em dar uma importância claramente excessiva à 
existência daquilo que se chama de depressões ‘reativas’. Dito de outro 
modo, para muitos psicopatologistas, e como quer o senso comum, na 
maioria das vezes, muitas depressões dependeriam de ‘causas’ 
imediatamente próximas e identificáveis: não apenas emocionais ou 
afetivas, mas sociais, econômicas etc. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – A depressão 
 
Parece difícil subscrever, sem expressas reservas, essa maneira de ver as 
coisas. Tais depressões são de fato raras, e até mesmo raríssimas, a menos 
que se faça de uma tristeza natural, mesmo intensa, consecutiva a um luto 
cruel, por exemplo, uma ‘depressão’ que não é depressão. Diga-se de 
passagem, uma tal concepção não deixa de ter consequências no plano 
terapêutico. 
 
Em segundo lugar, consideremos o fato de que, em diversas situações, se 
diz: ‘Mas o que ele ou ela tem para se deprimir assim? Ele ou ela tem tudo 
para ser feliz!’, escandalizando-nos com o fato de que a ‘felicidade’ não 
representa uma vacina ou uma pílula eficaz contra a depressão. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – A depressão 
 
Infelizmente, poucos clínicos irão aqui se fazer as interrogações 
convenientes, um grande número deles cederá à facilidade que consiste em 
recorrer à repressão sintomática, permitida pelo uso de uma farmacopeia 
moderna e repousante da qual se conhece a extensão, assim como, a longo 
prazo, os resultados medíocres. 
 
Terceira observação: os deprimidos vão geralmente muito melhor quando 
atravessam dificuldades reais, às vezes graves, inclusive lutos objetivos 
particularmente dolorosos. 
 
Estranho enigma, julgado contraditório, paradoxal e incompreensível. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – A depressão 
 
Enquanto a Psicanálise nos ensina muito simplesmente que a necessidade 
masoquista e inconsciente de punição, no deprimido ou depressivo, é 
naturalmente satisfeita por uma infelicidade real. 
 
Transição a ser superada – deixando de lado o ponto de vista das 
neurociências, que reduzem todo funcionamento mental e, em 
consequência, toda patologia nesse domínio, a uma questão estritamente 
‘científicista’ de jogos de sinapses e de neurotransmissores – e à qual, não é 
de hoje, a Psicanálise tenta aplicar um modelo coerente de entendimento da 
origem da depressão. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – A depressão 
 
As neurociências jamais conseguiram, até hoje, dar uma explicação causal 
satisfatória das doenças mentais. As terapêuticas biológicas cujodesenvolvimento elas permitiram não são senão terapias sintomáticas, 
‘camisas de força químicas’, para utilizar essa expressão surgida na década 
de 60. 
 
A prática psicanalítica nos mostra, além disso, que depressividade e 
depressão se desenvolvem sobre um terreno preparado e favorável, dito de 
outra forma: no quadro de uma certa estrutura, de uma certa organização 
da personalidade. Não faz uma depressão quem quer, é preciso estar 
predisposto para isso. A questão é saber de onde vem essa predisposição. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – A depressão 
 
Constatam-se nos deprimidos qualquer que seja o tipo de sua depressão, 
sintomas que se poderia chamar de ‘genéricos’. Ao lado do decréscimo 
ideomotor, que está presente, o sentimento de não valor aparece na maioria 
das vezes em primeiro plano, expresso por ideias de ruína, de indignidade, 
de vergonha, de culpa por ‘faltas’ ou ‘erros’, presentes ou passados, 
perfeitamente imaginários. 
 
Essas ideias, testemunho de profundas modificações dos processos de 
pensamento, podem ir até o delírio e, por certo, conduzir ao suicídio, risco 
maior de toda depressão verdadeira. O que significa essa autodepreciação, 
essa perda da estima de si realmente constitutiva da fenomenologia da 
depressão? 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – A depressão 
 
O que está realmente em jogo em uma depressão é um luto interior, uma 
perda do objeto narcísico constitutivo do Si-mesmo, ou seja, do sentimento 
de valor. O sofrimento experimentado está essencialmente ligado à 
desvalorização da imagem narcísica de si mesmo, qualquer que seja o fator 
conjuntural do momento. 
 
O que explica melhor a angústia de abandono ou de perda do objeto que 
caracteriza a depressão. Talvez o luto se deva mais a uma não constituição 
do que a uma perda. A isso se deve acrescentar que, estabelecida na 
primeira infância, no curso do desenvolvimento do psiquismo, essa não 
constituição é, por essa razão, histórica. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – A depressão 
 
‘Doença’ do narcisismo, a depressão é um transtorno de desenvolvimento do 
narcisismo. Em tais personalidades, ela chegou a se tornar permanente, ou 
seja, estrutural. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
SOBRE O NARCISISMO – Exercícios 
 
1. Sra. F. tem muito medo de sair de casa. O mundo anda violento. Ela vê 
na televisão. Sempre que sai de casa, por falta de opção, tem a sensação 
de que, a qualquer momento, algo ruim vai lhe acontecer. 
 
2. Sr. Z. tem grandes dificuldades de se relacionar. Todas as mulheres com 
quem já se relacionou o acusam de egoísta e de só pensar em si mesmo. 
Ele não concorda e acha que não encontrou alguém que o mereça, 
alguém que tenha o mesmo nível que ele. 
 
3. Sr. W. se sente incomodado pelo fato que sempre se dedica às pessoas, 
dá o que tem e o que não tem para ajudá-las, mas nunca recebe nada 
em troca. O que o incomoda é o fato de que ele não consegue ficar sem 
se envolver no problema dos outros. Precisa disso. Sente-se bem 
somente quando está ajudando alguém. 
5ª. aula 
A Psicanálise – A TEORIA FREUDIANA 
A ANÁLISE DO SR. JOE B. 
 
Na sessão de hoje, Joe B. entrou no setting e jogou-se pesadamente no divã: 
 
Joe B. - Hoje eu estou cansado. Aliás, faz uma semana que eu tô me sentindo pesado. Não vou dizer 
triste, porque não sei se é isso. Eu cheguei à conclusão de que o problema de tudo sou eu. É como se 
eu jogasse a culpa nos outros pra me livrar do peso. É isso, parece que tem um cofre em cima dos 
meus ombros, me jogando pra baixo. Não via a hora de deitar aqui. Eu queria fechar os olhos e 
dormir agora... [silêncio] 
 
Analista - Alguma coisa específica causou esses sentimentos? 
 
Joe B. – Nada que eu me lembre. Eu fiquei pensando em tudo que eu falei da última vez que eu vim 
aqui... Falei demais... Não era exatamente aquilo que eu sentia. Puxando da memória, depois que eu 
saí daqui, fui a uma loja pra comprar uma camisa e nenhum vendedor me atendeu. Fiquei nervoso, 
fora do normal. Saí da loja e fui embora sem comprar a camisa. Depois disso, comecei a me sentir 
assim... 
5ª. aula

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