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Saúde Mental, Vício Digital e-book e os Desafios do Diagnóstico na Era Conectada Introdução ..................................................................................... 3. . . . . . . . . . . . . . . . . . . O que é vício digital?.................................... ........................ 4 Redes Sociais e jogos online: efeitos na mente.......................6 O desafio de diagnosticar na era conectada............................8 Avaliação clínica e escuta do sujeito hiperconectado...........10 Estratégias terapêuticas e caminhos possíveis......................12 Conclusão ................................................................................14 Sobre a Artmed ...................................................................... 15 Referências ............................................................................ 16 índice 3 Vivemos em uma era marcada pela hiperconectividade. O acesso instantâneo a informações, relacionamentos mediados por telas e a integração da tecnologia a quase todas as dimensões da vida humana transformaram profundamente a forma como nos comunicamos, trabalhamos, aprendemos e nos relacionamos com os outros. Dispositivos como smartphones, tablets, computadores e smartwatches estão sempre ao nosso alcance, e essa facilidade de acesso vem acompanhada de efeitos colaterais frequentemente negligenciados, criando um cenário desafiador para os cuidados com a saúde mental. Nas últimas décadas, estudos vêm apontando que o uso excessivo e desregulado da tecnologia pode estar associado a prejuízos significativos no bem-estar psicológico. A exposição contínua a redes sociais, jogos digitais, plataformas de streaming e aplicativos de mensagens tem sido correlacionada a sintomas como ansiedade, depressão, impulsividade, prejuízos na atenção e no controle inibitório (Andreassen et al., 2017; Montag & Walla, 2016). O impacto é especialmente evidente entre adolescentes e jovens adultos, cuja identidade ainda está em formação e que são mais vulneráveis à comparação social, ao reforço imediato e à dependência de validação externa (Keles, McCrae, & Grealish, 2020). No entanto, é importante reconhecer que o uso da tecnologia, por si só, não é necessariamente problemático. O critério central para diferenciar um uso saudável de um uso disfuncional reside na presença de prejuízo clínico ou sofrimento subjetivo significativo. Quando o engajamento com o meio digital compromete o desempenho acadêmico ou profissional, prejudica relações interpessoais ou causa sintomas emocionais intensos — como irritabilidade, inquietação ou sensação de vazio quando desconectado — estamos diante de um quadro que exige atenção clínica (Panova & Carbonell, 2018). Nem sempre é fácil identificar a natureza desses comportamentos, pois o limite entre um uso funcional, voltado para as demandas do dia a dia, e um uso compulsivo ou evitativo, que muitas vezes funciona como forma de regulação emocional, pode ser bastante sutil. É justamente por isso que os profissionais de saúde mental precisam estar urgentemente mais familiarizados com essa demanda. A ausência de conhecimento a respeito dos padrões de uso digital, com os tipos de plataformas mais utilizadas e com os mecanismos comportamentais que as sustentam pode levar à subestimação de quadros clínicos relevantes, ao uso de diagnósticos imprecisos ou à adoção de estratégias terapêuticas ineficazes. A clínica contemporânea demanda uma compreensão crítica e atualizada sobre os efeitos da tecnologia no funcionamento psicológico. Mais do que identificar “vícios em internet”, é preciso compreender como os ambientes digitais afetam a autoimagem, a cognição, a afetividade e os padrões de vínculo interpessoal. O trabalho com esses pacientes exige sensibilidade para reconhecer os gatilhos e reforçadores envolvidos, flexibilidade para adaptar o raciocínio clínico às novas manifestações do sofrimento psíquico, e conhecimento técnico para propor intervenções baseadas em evidências. Este e-book é um convite à construção desse olhar. INTRODUÇÃO 4 A crescente presença da tecnologia digital no cotidiano trouxe benefícios incontestáveis, mas também revelou padrões de uso que despertam preocupação entre profissionais da saúde mental. Termos como “dependência de internet”, “vício em celular” e “uso compulsivo de redes sociais” se popularizaram, refletindo a sensação coletiva de que algo mudou no modo como nos relacionamos com os dispositivos e com o mundo ao nosso redor. O conceito de vício digital, embora ainda não formalmente reconhecido como uma categoria diagnóstica abrangente nos manuais internacionais, tem suas raízes nas primeiras discussões sobre dependência de internet, na década de 1990. A psiquiatra Kimberly Young foi uma das pioneiras a estudar o fenômeno, propondo critérios clínicos semelhantes aos utilizados em transtornos por uso de substâncias, como tolerância, abstinência e prejuízos funcionais. Inicialmente focado no uso da internet de modo geral, o debate logo se expandiu para comportamentos específicos mediados pela tecnologia, como jogos online, redes sociais, pornografia, compras e streaming (Young & Abreu, 2010). Nesse contexto, a nova versão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11) representa um marco importante ao incluir, pela primeira vez, o uso abusivo de jogos eletrônicos — o chamado gaming disorder — na seção de transtornos relacionados a comportamentos aditivos (Flayelle et al., 2023). Com isso, a dependência de jogos online e offline passa a ser oficialmente reconhecida como uma condição clínica, especialmente relevante para o cuidado de crianças e adolescentes. É importante, no entanto, diferenciar o que constitui um vício do que é apenas um hábito ou um uso problemático. Hábitos são padrões comportamentais repetitivos que nem sempre implicam prejuízo. Verificar o celular ao acordar, por exemplo, pode ser um hábito consolidado, mas não necessariamente problemático. Já o uso problemático se caracteriza por algum nível de prejuízo no funcionamento diário — como dificuldades de concentração, conflitos interpessoais ou queda de desempenho acadêmico — mesmo que o indivíduo ainda mantenha algum grau de controle sobre o comportamento. O vício digital, por sua vez, envolve perda significativa de controle, uso persistente apesar das consequências negativas, sensação de urgência ou ansiedade quando impedido de acessar a tecnologia, e interferência direta no bem-estar emocional, nas relações interpessoais e na rotina (Brand et al., 2019; Abreu et al., 2008). Com o avanço das pesquisas, surgiram termos populares que buscam nomear experiências clínicas comuns, ainda que não reconhecidas formalmente como transtornos mentais. A nomofobia, por exemplo, refere-se ao medo intenso de ficar sem acesso ao celular, manifestando-se por inquietação, taquicardia e pensamentos intrusivos em situações de desconexão. Já o FOMO (“fear of missing out”) descreve a angústia de estar perdendo algo importante online — um evento, uma interação ou uma tendência — e está fortemente associado ao uso compulsivo de redes sociais e à dificuldade de permanecer presente nas interações offline (Przybylski et al., 2013). Essas manifestações, embora não constituam categorias diagnósticas oficiais, têm sido investigadas e validadas por instrumentos psicométricos e estudos populacionais. A neurociência do comportamento digital também oferece pistas sobre o poder de engajamento O QUE É VÍCIO DIGITAL? 5 dessas plataformas. Muitos aplicativos operam com sistemas de reforço intermitente, semelhantes aos observados em jogos de azar, liberando recompensas sociais de forma imprevisível (curtidas, mensagens, notificações), o que contribui para a manutenção do comportamento. Isso explica por que muitas pessoas, mesmo cientes do tempo excessivo que passam conectadas, têm dificuldade em se desconectar. É importantedestacar que a tecnologia, em si, não é vilã. O problema emerge quando seu uso se torna a principal forma de regulação emocional, substituindo outras estratégias adaptativas. Em contextos de solidão, estresse ou tédio, o refúgio digital pode parecer uma solução acessível e eficaz — ainda que, a longo prazo, gere mais isolamento, culpa e desorganização subjetiva (Király et al., 2020). Diante desse cenário, torna-se fundamental que profissionais de saúde mental reconheçam os sinais precoces do uso disfuncional da tecnologia e saibam diferenciar padrões saudáveis daqueles que indicam risco. Compreender os limites entre hábito, uso problemático e dependência é um passo essencial para oferecer intervenções éticas, embasadas e eficazes em uma era onde o digital está cada vez mais entrelaçado ao funcionamento psicológico. 6 As redes sociais e os jogos online transformaram profundamente o modo como buscamos prazer, conexão e distração. Esses ambientes digitais foram projetados para maximizar o engajamento do usuário, recorrendo a princípios bem conhecidos da psicologia comportamental e da neurociência. Um dos principais mecanismos envolvidos nesse engajamento é o sistema de recompensa imediata, que estimula a liberação de dopamina em resposta a reforços rápidos e imprevisíveis — como uma curtida em uma postagem, uma nova notificação ou a conquista de um item em um jogo (Montag & Reuter, 2017). Além do reforço imediato, muitas plataformas utilizam esquemas de reforço intermitente, nos quais a recompensa é imprevisível. Esse tipo de estratégia é especialmente eficaz para manter comportamentos repetitivos ao longo do tempo. Por funcionar de maneira semelhante às máquinas caça-níqueis, ele torna a experiência digital altamente envolvente, principalmente para cérebros em desenvolvimento (Moreira & Medeiros, 2018). Do ponto de vista biológico, a dopamina (neurotransmissor central nos circuitos de recompensa), está envolvida na motivação e no desejo de repetir comportamentos que causam prazer. Nas redes sociais, o usuário nunca sabe exatamente quando será recompensado com interações sociais positivas, o que mantém o comportamento de checagem constante. Já nos jogos online, a combinação de objetivos progressivos, recompensas virtuais e competição entre pares gera um ciclo de ativação dopaminérgica difícil de interromper (Macit, Macit & Güngör, 2018). Com o tempo, esse sistema pode favorecer o desenvolvimento de padrões de uso compulsivo, com prejuízos significativos para o funcionamento emocional e social. Além da ativação do sistema de recompensa, o uso prolongado de redes sociais tem sido associado a impactos emocionais negativos, como aumento da ansiedade, queda na autoestima e sentimentos de solidão. Um dos fatores mais relevantes nesse processo é o hábito de comparar a própria vida com as versões idealizadas das vidas alheias que aparecem nas redes. Essa comparação constante, muitas vezes inconsciente, pode gerar insatisfação com a própria aparência, desempenho ou estilo de vida, especialmente em populações mais vulneráveis como adolescentes (Silva, Japur & Penaforte, 2021; Huang, 2017). A busca por validação externa, expressa na contagem de curtidas ou comentários, torna-se uma métrica de valor pessoal, fragilizando a autoestima e promovendo dependência emocional das plataformas. REDES SOCIAIS E JOGOS ONLINE: EFEITOS NA MENTE 7 Paradoxalmente, embora promovam a ilusão de conexão contínua, as redes sociais podem intensificar sentimentos de solidão. Interações superficiais e o consumo passivo de conteúdo — como rolar o feed sem interagir — não satisfazem as necessidades emocionais de vínculo profundo, podendo até ampliá-las. Estudos indicam que o tempo gasto em redes sociais não está diretamente ligado ao bem-estar, mas sim a como esse tempo é utilizado: interações significativas e propositais tendem a ter efeitos neutros ou positivos, enquanto o uso compulsivo e passivo está relacionado a maior mal-estar psicológico (Orben & Przybylski, 2019). No universo dos jogos online, os riscos à saúde mental não se restringem ao conteúdo violento ou ao tempo excessivo de tela. O que preocupa pesquisadores e clínicos é a forma como certos jogos mobilizam mecanismos de dependência comportamental. Isso inclui a estrutura progressiva de recompensas, os sistemas de ranking e competição, a imprevisibilidade das conquistas e, sobretudo, o senso de pertencimento gerado por comunidades virtuais (Billieux et al., 2019; King et al., 2019). Para muitos jogadores, especialmente adolescentes, esses ambientes representam uma fuga do sofrimento emocional, uma fonte de autoestima e um espaço de identidade social. Quando o jogo passa a ser a principal ou única forma de prazer e conexão, o risco de prejuízo funcional torna-se alto. Entre adolescentes e adultos jovens, os efeitos do uso excessivo de redes e jogos são particularmente relevantes. Nessa fase da vida, marcada por instabilidade emocional, busca de identidade e maior sensibilidade à rejeição social, o uso problemático de tecnologia pode amplificar inseguranças já presentes, interferir no sono, no desempenho acadêmico, nos relacionamentos e até no desenvolvimento de habilidades sociais presenciais. Estudos apontam que o uso excessivo de mídias digitais está associado a maior risco de sintomas depressivos, ansiedade e pior regulação emocional entre adolescentes (Twenge et al., 2018; Keles, McCrae, & Grealish, 2020). Além disso, o envolvimento intenso com jogos online tem sido relacionado à evitação de interações sociais presenciais, ao isolamento e a dificuldades no desenvolvimento de competências socioemocionais (Cheng, Sun & Mak, 2015; Pontes & Macur, 2021). A plasticidade cerebral característica dessa etapa também torna esses indivíduos mais suscetíveis à formação de padrões neurais relacionados à compulsão e à reatividade emocional. Embora o uso de redes sociais e jogos online não seja, em si, patológico, a forma como essas plataformas são estruturadas e utilizadas pode favorecer a emergência de sintomas clínicos relevantes. Reconhecer os mecanismos de recompensa envolvidos, os impactos emocionais frequentes e os grupos mais vulneráveis são fundamentais para que profissionais da saúde mental desenvolvam intervenções eficazes e ajustadas à realidade digital contemporânea. 8 Em uma sociedade cada vez mais digitalizada, a distinção entre comportamentos considerados normais e aqueles que sinalizam sofrimento psicológico tornou-se mais complexa. O que antes era interpretado como excesso — como passar horas em frente a uma tela, preferir interações virtuais às presenciais ou sentir ansiedade ao ficar desconectado — hoje pode fazer parte da rotina de milhões de pessoas, especialmente entre adolescentes e jovens adultos. Nesse novo cenário, compreender o que é “normal” no uso da tecnologia e o que representa um sinal de alerta clínico é um desafio central para profissionais de saúde mental. A normalidade do comportamento estará, geralmente, ligada ao contexto histórico e cultural. Em uma sociedade online, estar permanentemente conectado, responder mensagens rapidamente ou manter uma presença constante nas redes não são apenas práticas difundidas, mas muitas vezes esperadas e socialmente reforçadas. No entanto, o fato de um comportamento ser comum não o torna necessariamente saudável. O excesso de tempo diante de telas, a dependência de validação digital ou o desconforto intenso quando desconectado podem indicar processos psicológicos mais profundos, como insegurança, isolamento ou estratégias disfuncionais de regulação emocional (Billieux et al., 2015). É importante reconhecer que nem todo uso excessivo da tecnologia configura um transtorno independente. Muitas vezes, o comportamento digital desregulado é uma manifestação secundária de outras condições clínicas. Indivíduos com transtornos de ansiedade social, por exemplo, podem se refugiar em interações virtuais paraevitar situações presenciais desconfortáveis (Cheng, Sun & Mak, 2015). Pacientes com depressão, por sua vez, tendem a utilizar plataformas de entretenimento O DESAFIO DE DIAGNOSTICAR NA ERA CONECTADA 9 digital como forma de escapar de sentimentos de vazio ou desesperança (Elhai et al., 2016; Pontes & Macur, 2021). Da mesma forma, pessoas com TDAH frequentemente apresentam maior impulsividade e dificuldade de controle inibitório, o que pode favorecer o uso compulsivo de aplicativos ou jogos (Zeyrek et al., 2024). Nesses casos, o foco do tratamento não deve ser apenas o comportamento digital, mas o quadro clínico subjacente que o precede e o sustenta. Do ponto de vista diagnóstico, os sistemas classificatórios atuais ainda caminham com cautela diante do fenômeno. O DSM-5 não reconhece formalmente o “vício em internet” ou o “uso compulsivo de redes sociais” como transtornos mentais, mas inclui o Transtorno de Jogo pela Internet como uma condição que merece mais estudos (American Psychiatric Association, 2013). Já a CID-11 adotou uma abordagem mais assertiva, reconhecendo o Transtorno de Jogo (online ou offline) como um diagnóstico oficial, caracterizado por perda de controle, priorização do comportamento em detrimento de outras atividades e continuidade apesar das consequências negativas (World Health Organization, 2019; Flayelle et al., 2023). No entanto, a ausência de critérios diagnósticos para outros tipos de uso digital problemático — como o uso compulsivo de redes sociais ou smartphones — ainda gera lacunas na avaliação clínica. Essa indefinição contribui para dois riscos opostos: por um lado, há o perigo da medicalização excessiva da vida digital, transformando comportamentos cotidianos — como checar o celular frequentemente ou preferir o contato virtual — em sintomas patológicos. Isso pode levar ao excesso de diagnósticos, à rotulagem precoce e ao uso inadequado de tratamentos clínicos para o que, na verdade, pode ser um estilo de vida, uma resposta adaptativa ou uma queixa pontual. Por outro lado, há o risco de minimizar ou desconsiderar sinais clínicos relevantes, atribuindo-os a uma “fase” ou à normalidade do mundo digital, o que pode atrasar intervenções necessárias e eficazes. Dessa maneira, o desafio é encontrar um equilíbrio entre esses dois pontos extremos. Isso exige uma escuta qualificada, capaz de contextualizar o comportamento do paciente, compreender o papel subjetivo da tecnologia em sua vida e avaliar o grau de prejuízo funcional envolvido. Também demanda atualização constante sobre as transformações sociais e tecnológicas que perpassam as formas de adoecimento atualmente. Diagnosticar na era conectada não se trata de apenas aplicar o que está escrito nos manuais, mas sim, interpretar sinais e sintomas sob uma perspectiva social e cultural, compreendendo as nuances que envolvem as mudanças de comportamento nos dias atuais. Ao reconhecer o digital como parte legítima da experiência humana, o profissional amplia sua compreensão do sofrimento e fortalece sua capacidade de promover intervenções mais sensíveis, ajustadas e eficazes. 10 A escuta clínica na era digital exige um olhar atento não apenas para o conteúdo verbal do paciente, mas também para os modos como a tecnologia permeia suas experiências, emoções e relações. Muitos pacientes não chegam à psicoterapia verbalizando diretamente um “vício digital”. Em vez disso, queixam-se de ansiedade, irritabilidade, procrastinação, baixa autoestima ou dificuldades de sono — e apenas no decorrer do processo torna-se evidente que esses sintomas estão profundamente entrelaçados com o uso disfuncional de dispositivos eletrônicos, redes sociais ou jogos online. Para compreender esse fenômeno com precisão, o primeiro passo é abordar o tema com abertura e empatia. Evitar julgamentos morais, diagnósticos apressados ou pressupostos sobre “uso excessivo” é essencial. Em muitos casos, o uso prolongado da tecnologia é vivenciado como um recurso de autorregulação emocional, uma tentativa de conexão social ou um espaço seguro de expressão. Trazer esse uso para a conversa clínica de maneira acolhedora — explorando o significado que o digital tem na vida do sujeito — é mais produtivo do que confrontá-lo com termos como “dependência” ou “vício”. Uma escuta empática pode ser guiada por perguntas-chave durante a anamnese, que ajudam a compreender o papel da tecnologia no cotidiano do paciente. Algumas questões úteis incluem: Essas perguntas não apenas facilitam a avaliação funcional do uso da tecnologia, como também ajudam o paciente a construir consciência sobre seus próprios padrões de comportamento e seus gatilhos emocionais. Observar se o uso ocorre em momentos de tédio, solidão, estresse ou após frustrações pode revelar funções psicológicas importantes que estão sendo delegadas ao mundo digital. AVALIAÇÃO CLÍNICA E ESCUTA DO SUJEITO HIPERCONECTADO “Como você se sente quando está longe do celular ou sem acesso à internet?” “Quais momentos do seu dia você mais usa redes sociais, e como você se sente depois?” “Você já tentou diminuir o tempo de uso? O que aconteceu quando tentou?” “Tem notado se o uso do celular ou de jogos tem interferido no seu sono, estudo, trabalho ou relacionamentos?” “O que você procura quando entra nas redes sociais ou liga o videogame? Distração, conexão, prazer, alívio?” 11 Internet Addiction Test (IAT): desenvolvido por Kimberly Young, é um dos questionários mais amplamente utilizados para mensurar o uso problemático da internet (Young, 1998). Smartphone Addiction Scale (SAS): avalia comportamentos associados ao uso compulsivo de smartphones, com versões adaptadas para adolescentes e adultos (Kwon et al., 2013). Problematic Internet Use Questionnaire (PIUQ): foca em três dimensões — obsessão, negligência e descontrole —, permitindo identificar padrões específicos de uso disfuncional (Demetrovics et al., 2008). Game Addiction Scale (GAS): voltada especificamente para jogadores, avalia sinais de dependência de jogos digitais, como perda de controle, tolerância e abstinência (Lemmens et al., 2009). Além da escuta clínica, o uso de instrumentos padronizados pode complementar a avaliação e facilitar a comunicação com outros profissionais. Entre os instrumentos mais utilizados e validados, destacam-se: Essas ferramentas não substituem a escuta clínica, mas ajudam a estruturar a avaliação e fornecer indicadores quantitativos que podem ser úteis tanto no diagnóstico quanto no monitoramento da evolução do paciente. Vale lembrar que os escores devem sempre ser interpretados à luz da história de vida, do contexto cultural e da motivação subjetiva do paciente. Nesse sentido, a avaliação do sujeito hiperconectado exige um equilíbrio entre sensibilidade clínica, instrumentalização técnica e abertura à complexidade do mundo contemporâneo. Ao reconhecer o digital não como um inimigo, mas como parte integrante da subjetividade atual, o terapeuta amplia sua capacidade de compreender o sofrimento do outro em sua forma mais atual — e, com isso, também amplia suas possibilidades de cuidado. 12 O enfrentamento clínico do uso disfuncional de tecnologia exige estratégias terapêuticas que sejam, ao mesmo tempo, baseadas em evidências e sensíveis à complexidade da vida digital contemporânea. O objetivo não é “eliminar” a tecnologia da vida do paciente, mas ajudá-lo a construir uma relação mais consciente, regulada e funcional com os meios digitais — uma relação em que o sujeito retome a agência sobre seus comportamentos e suas escolhas. Entre as abordagens mais indicadas, destaca-se a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que tem sido amplamente estudada em casos de dependência de internet, jogos online e uso compulsivo de redes sociais. A TCC atua na reestruturação de pensamentos disfuncionais associados ao uso digital (como crenças de necessidade constante de conexão ou de validação externa) e na modificação depadrões comportamentais mantidos por reforços imediatos (Young, 2011). Técnicas como monitoramento de uso, experimentos comportamentais, treino de habilidades sociais e estratégias de resolução de problemas costumam ser eficazes na redução do tempo online e no aumento do engajamento em atividades offline. As terapias de terceira onda, como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e as práticas baseadas em mindfulness, oferecem contribuições valiosas ao enfatizar o desenvolvimento de consciência plena, aceitação da experiência interna e compromisso com valores pessoais. Muitos pacientes hiperconectados relatam uma experiência de vida automatizada e fragmentada, marcada por impulsos constantes e pela dificuldade de permanecer presentes. Intervenções baseadas em mindfulness podem ajudar a recuperar a atenção plena e o contato com o corpo, promovendo autorregulação emocional e quebra de ciclos automáticos de uso (Li et al., 201). Já a ACT pode ser particularmente útil para lidar com a evitação experiencial — isto é, o uso da tecnologia como fuga da dor emocional — e para reconectar o paciente com ações que expressem seus valores (Hayes, Strosahl & Wilson, 2021). Outro componente essencial do trabalho terapêutico é a psicoeducação, que deve incluir informações claras e contextualizadas sobre os impactos cognitivos, emocionais e sociais do uso excessivo de tecnologia. Ao compreender os mecanismos de reforço digital, os efeitos da dopamina e os fatores de vulnerabilidade envolvidos, o paciente tende a desenvolver maior insight e motivação para a mudança. A psicoeducação também pode ser estendida aos familiares, especialmente em casos envolvendo crianças e adolescentes, oferecendo orientações sobre limites, diálogo e alternativas saudáveis ao tempo de tela (Domoff et al., 2019). Nesse processo, é fundamental promover o estímulo à autorregulação e à reconexão com o corpo e com os vínculos offline. Muitos pacientes que utilizam a tecnologia de forma compulsiva relatam uma desconexão crescente do próprio corpo: esquecem de comer, dormir ou se mover adequadamente. A reintegração de hábitos corporais simples — como respiração consciente, prática de atividades físicas e alimentação regular — pode representar um ponto de partida poderoso para a mudança (Li et al., 2017). Além disso, estimular o engajamento em interações presenciais significativas, hobbies sensoriais e experiências que envolvam tempo e espaço reais ESTRATÉGIAS TERAPÊUTICAS E CAMINHOS POSSÍVEIS 13 (como caminhar, tocar um instrumento ou cozinhar) contribui para a reorganização afetiva e comportamental (Montag & Walla, 2016; Young & De Abreu, 2010). A construção de limites saudáveis é uma tarefa central do processo terapêutico, especialmente com crianças e adolescentes, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento e é mais suscetível à impulsividade, à busca por recompensas e à influência social (Kwon et al., 2013; Keles, McCrae, & Grealish, 2020). Nesses casos, a definição de horários, regras claras e o envolvimento dos cuidadores é essencial. Com adultos, a ênfase pode recair sobre o uso consciente da tecnologia, a diferenciação entre trabalho e lazer e a substituição progressiva de comportamentos automáticos por ações intencionais que reflitam valores e objetivos pessoais (Young & De Abreu, 2010; Montag & Walla, 2016). Por fim, o papel do terapeuta nesse contexto vai além da aplicação de técnicas. Requer escuta sensível, ausência de julgamento e constante atualização sobre as transformações tecnológicas que atravessam o cotidiano dos pacientes. Muitos clínicos ainda se sentem inseguros para abordar o tema da tecnologia por não dominarem as plataformas utilizadas ou os padrões atuais de interação online. No entanto, a atualização profissional não exige domínio técnico, e sim disposição para aprender com o paciente, dialogar com a ciência e adaptar as intervenções à realidade vivida (Panova & Carbonell, 2018; Young, 2011). Ser terapeuta na era digital é estar entre dois mundos: o da escuta clínica profunda e o da transformação social acelerada. Ao integrar esses dois horizontes com ética, curiosidade e conhecimento, o profissional contribui não apenas para o alívio do sofrimento, mas para a construção de formas mais saudáveis, conscientes e humanas de viver em um mundo hiperconectado. 14 O uso da tecnologia digital deixou de ser algo à parte da nossa vida e passou a integrar profundamente a forma como sentimos, pensamos, nos relacionamos e cuidamos da nossa saúde. O futuro da saúde mental está, também, nas telas. Não apenas porque novos quadros clínicos vêm emergindo da hiperconectividade, mas porque o próprio cuidado psicológico começa a migrar para o universo digital: da psicoterapia online aos aplicativos de bem-estar, da psicoeducação via redes sociais à realidade virtual como ferramenta terapêutica. Diante desse cenário, é urgente que psicólogos e profissionais da saúde mental ampliem sua escuta para o digital, sem se renderem a modismos diagnósticos ou a respostas prontas. É preciso resistir à tentação de medicalizar toda manifestação comportamental atípica relacionada à tecnologia — rotulando como “vício” aquilo que, muitas vezes, é uma forma legítima de lidar com o mundo. Ao mesmo tempo, é necessário evitar a banalização do sofrimento que nasce do uso disfuncional da tecnologia. O equilíbrio ético está na escuta crítica: aquela que acolhe o impacto subjetivo da vida digital, compreende os contextos de vulnerabilidade e propõe intervenções que respeitem a singularidade de cada trajetória. Mais do que impor limites externos, o trabalho clínico deve promover autonomia, consciência e autorregulação. O convite que este e-book faz é justamente esse: que pacientes e profissionais caminhem juntos na construção de uma relação mais saudável com o digital. Que possamos cultivar espaços de presença e vínculo em meio à dispersão, restabelecer o contato com o corpo em meio à velocidade das telas, e retomar escolhas alinhadas com nossos valores em um ambiente que frequentemente nos empurra para o automático. Em última instância, pensar o digital na clínica é pensar o sujeito contemporâneo — com suas contradições, seus recursos e seus excessos. E, sobretudo, é reafirmar que, mesmo em tempos de algoritmos e notificações, o cuidado psicológico continua sendo um ato humano, atento, comprometido e profundamente transformador. CONCLUSÃO 15 Este conteúdo foi útil para você? No nosso site, você encontra soluções para continuar se atualizando na área quando e onde quiser. Acesse o site e confira as opções de livros, cursos e programas de atualização para se aprimorar profissionalmente. www.artmed.com.brwww.artmed.com.br https://www.artmed.com.br/ 16 Abreu, C. N. D., Karam, R. G., Góes, D. S., & Spritzer, D. T. (2008). 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