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RECONCEITUAÇÃO LATINO-AMERICANA DO SERVIÇO SOCIAL: AS IDÉIAS CEPALINAS E DA TEORIA DEPENDÊNCIA RESUMO: O artigo é produto de uma pesquisa exploratória pautada numa análise de entrevistas, livros e documentos produzidos pelos participantes brasileiros no movimento reconceituador das décadas de 1960- 1970. O estudo visa identificar as idéias e tendências existentes no interior do Movimento de Reconceittuação Latino- Americano do Serviço Social a partir do debate dos protagonistas brasileiros no movimento reconceituador. PALAVRAS CHAVES: Reconceituação latino-americana, Serviço Social, Cepal, teoria da dependência, Brasil. ABSTRACT: The article is the product of an exploratory research based on an analysis of interviews, books and documents produced by Brazilian participants in the reconceptualizing movement of the 1960s and 1970s. The study aims to identify the ideas and tendencies within the Latin American Recon- American Social Service from the debate of the Brazilian protagonists in the reconceptualizing movement. KEYWORDS: Latin American Reconceptualization, Social Service, Cepal, dependency theory, Brazil. 1. Introdução: “Lutam melhor os que têm belos sonhos”. (Che Guevara) Este artigo é fruto da etapa exploratória da pesquisa qualitativa sobre o Movimento de Reconceituação Latino-americano resultante da primeira fase de analise de entrevistas e livros e entrevistas acerca décadas 1960 e 1970. Neste estudo, apresentamos nossas aproximações analíticas que estão ainda em curso investigativo sobre o processo reconceituador na ótica dos sujeitos brasileiros. Entendemos que a investigação sobre movimento reconceituador latino-americano deve levar em consideração as particularidades objetivas dos países a partir das diferentes formações sócio-historica, bem como, as experiências dos sujeitos nesses contextos distintos. A geração profissional do Movimento de Reconceituação carregou consigo a experiência de ter vivido “perto dos movimentos de esquerda que antecederam os golpes de estado em vários países latino-americano e participaram diretamente dos encontros latino- americanos de Serviço Social ocorridos no marco do movimento reconceituador.” (PINHEIRO, 2010, p.68). Viveram os sonhos da libertação da latino-americana, mas também as violências ocorridas na expansão das ditaduras no continente. Parafraseando a epigrafe que colocamos de Che Guevara podemos dizer que essa geração lutou pela construção de um Serviço Social tipicamente latino-americano, pois tinha como motriz o belo sonho da unidade da América- Latina. Consideramos a reconceituação como um momento ímpar de nossa história profissional, pois nunca houve antes no Serviço Social um sentimento tão forte de “irmandade” e de debates acerca da unidade latino- americano como nessas décadas de 1960 e 1970 que abrangeram esse movimento. E nesse sentido que reside a importância de resgatar seu legado na atualidade. 1. O contexto histórico do Brasil nas décadas 1960-1970 O Brasil ao longo das décadas de 1950 até 1960 instaurou-se uma promissora batalha de idéias marcada por maior compromisso intelectual com causas populares e nacionais. Foram gestadas diferentes propostas mudanças do país que tencionavam a hegemonia burguesa brasileira que faziam parte de um conjunto de interpretações e ações sobre o atraso nacional e as desigualdades sociais.Para Marini (2014), os temas da esquerda brasileira evidenciados no ano 1964 têm sua origem no final década de 1950 tanto em seu aspecto ideológico, quanto organizativo. Nesse período os intelectuais do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) influenciaram acentuadamente a esfera cultural do período cujos conceitos políticos e filosóficos se expandiram no final da década de 1950 tornando matrizes explicativas da realidade brasileira orientado nas noções de colonialismo, cultura alienada e autenticidade cultural. De modo, que a teoria isebiana penetra com força na esquerda marxista quanto no pensamento social católico (ORTIZ, 2006). Para Lowy (2000), no inicio dos anos 1960 entre em cena a “Esquerda Católica”, oriundo da influencia da teologia francesa com posições mais avançadas de cunho humanista e da influencia da Revolução Cubana que contribuíram para radicalização do movimento estudantil católico (JUC). No decorrer do período foram se radicalizando ainda mais por meio da incorporação cada vez maior de elementos marxistas, substituindo a perspectiva européia pela concepção de homem oprimido do capitalismo periférico. Esse processo “estava intimamente ligada às novas praticas sociais, culturais e políticas dos ativistas católicos: participação no movimento estudantil, muitas vezes com aliança com da esquerda secular, apóio às lutas sociais e compromisso com a educação popular”. (LOWY, 2000, p. 139). Entende-se que no Brasil nos períodos entre 1963-1964 houve rupturas no aparelho de hegemonia da burguesia nacional fragilizando assim o seu poder de comando nos negócios públicos e nos padrões de comportamento, crenças, instituições, manifestações artísticas e intelectuais transmitidos como um estado de conformidade para toda a coletividade. Cabe frisar que nos referimos aparelho de hegemonia como: “Conjunto complexo de instituições, ideologias, práticas e agentes (entre os quais os “intelectuais”), o aparelho de hegemonia só encontra sua unificação através da análise da expansão de uma classe.” (BUCI-GLUCKMANN, 1980, p.70). Ainda sobre categoria o autor destaca que: Uma hegemonia não se unifica como aparelho a não ser por referência à classe que se constitui em e através da mediação de múltiplos sub-sistemas: aparelho escolar (da escola à universidade), aparelho cultural (dos museus às bibliotecas), organização da informação, do meio ambiente, do urbanismo, sem esquecer o peso especifico de aparelhos eventualmente herdados de um modo de produção anterior (tipo: a Igreja e seus intelectuais) (BUCI-GLUCKMANN, 1980, p.70). A hegemonia burguesa alicerçada no consenso pode ruir obrigando a classe no poder assumir uma postura arbitrária e opressora. Sendo “não há teoria da hegemonia sem teoria da crise da hegemonia” (BUCI-GLUCKMANN, 1980, p. 83). O conflito acerca do consenso partiria da real possibilidade de que os membros de uma classe conseguir estabelecer as bases comuns de reconhecimento do lugar que ocupam na sociedade. Pode ser entendido então como o momento da tomada de consciência a qual colocaria em curso as representações de sua ideologia. Sendo a cultura um meio privilegiado de emancipação política da classe trabalhadora, pois são a partir dela que se criam a possibilidade tomada de consciência acerca problemas e situações comuns vividas pelos diferentes sujeitos. (SIMINATTO, 2004). Nos primeiros anos da década de 1960 foi iniciado pelos marxistas e depois irradiado aos setores nacionalistas e católicos, o debate sobre papel da burguesia na revolução brasileira. (MARINI, 2014). Com base nos autores Roberta Traspadini e João Pedro Stedile (2011), sintetizamos as idéias progressistas do período de 1960 e 1970 no Brasil, que apresentamos resumidamente a interpretação de atraso brasileiro e suas respostas para saída da “crise brasileira”, que são: A)Os partidos comunista vinculados a terceira internacional- para esse grupo tinha visão etapista do capitalismo cujo problema brasileiro de pobreza e desigualdade social era fruto do atraso das forças produtivas. Acreditavam que reinava entre nós relações pré- capitalistas aliadas ao impacto do imperialismo norte –americano. A saída seria então aprofundar o desenvolvimento das forças produtivas a fim de superar o atraso econômico e revolução burguesa brasileira que superasse a elite conservadora para assim abri-se caminharmos para o protagonismo dos trabalhadores. Em síntese, o sujeito da história do momento era, portantoclasse burguesa e desenvolvimento das forças produtivas, a partir desse foco análise o PCB acabou se fazendo alianças com grupo de pensadores do nacional desenvolvimentista e cepalinos. Marini (2014) destaca que esquerda se dividia entre concepção imprecisa de povo e afirmação classista da luta dos trabalhadores. Após pronunciamento do golpe militar houve racha nas tendências reformistas do PCB, mas paralelamente havia unidade entorno da Ação Popular do existencialismo cristã para marxismo de corte maoísta. B)A teoria do Subdesenvolvimento da CEPAL (Comissão Econômica para America Latina e Caribe)- para esse segmento o problema do Brasil como parte da America Latina era que desenvolvimento econômico era desigual e periférico que implicava numa desvantagem considerável pelo atraso tecnológico existente que levava a deteriorização da troca de produtos. Este fato levava à fragilização as economias nacionais viam troca desigual. A solução cepalina apontava necessidade industrialização substitutiva de importações e o Estado deveria ser executor direto do desenvolvimento. Ressalta-se que esse grupo não estava preocupado apesar de defender a Reforma Agrária e pleno emprego. Não tinham como objetivo acabar com propriedade privada, ou resolver exploração do capitalismo. Na verdade o que queriam era colocar America Latina no trilho “certo” da modernização do desenvolvimento capitalista. Entretanto, há reconhecer que suas eram opostas totalmente contrárias ao ideário neoliberal de Estado Mínimo. Em suma desse grupo podemos verificar que defensa do “agente da transformação” era o Estado nacional promotor do desenvolvimento superando assim dicotomia dos dois brasis- o arcaico e o moderno. C) Foquismo: era uma teoria de guerra de guerrilha revolucionária inspirada na Revolução Cubana nas décadas de 1950/60. O foco era estabelecer um núcleo permanente de luta armada para que, pelo atrito e desgaste da força oposta em regiões de difícil acesso aos oponentes. Este segmento tomou forma durante a ditadura brasileira no pós 1964. Podemos visualizar o enlace dessas interpretações no livro “Metodologia e ideologia do trabalho social” de Vicente Faleiros (1981, p.15) que coloca: “Existem vários modelos de explicação do subdesenvolvimento e desenvolvimento econômico da America Latina, como, por exemplo, o rostwiano, o cepalino, o marxismo ortodoxo, o da dependência”. Para autor (1981, p.15), “o modelo cepalino (da CEPAL) concebe desenvolvimento como o “desenvolvimento para fora” e o “desenvolvimento para dentro”. Já “o modelo da teoria da dependência concebe a história da America latina segundo as relações de dominação e dependência entre as metrópoles” (FALEIROS, 1981, p.16). Neste sentido afirma que a concepção dessa teoria é que: Desenvolvimento de uns é subdesenvolvimento de outros, numa relação complexa, externa e internamente. (...) A dominação internacional é interativa com dominação nacional. Formam-se metrópoles nacionais e classes dominantes e dominadas conflituam-se a nível local e internacional. (...) A teoria da dependência é mais ampla que cepalina, podendo explicá-la. (FALEIROS, 1981, p.16). Acreditamos que essa atmosfera política de debates no país teve reflexos importantes no processo reconceitador latino-americano por meio dos interlocutores brasileiros nesse movimento, seja pela via das experiências pioneiras em curso no país ou mesmo por meio do exílio dos intelectuais e militantes da esquerda brasileira. Em nosso ponto de vista, exemplos dessa inserção no movimento da Reconceituação foram os interlocutores: Seno Cornely integrante da chamada “Geração 1965” e a Leila Lima Santos do grupo que denominamos “Geração 75 reconceituadora de ruptura”, que abordamos no item seguinte. 2. Reconceituação latino-americana do Serviço Social: análise do debate brasileiro O movimento reconceituador que “nasceu” em 1965, articulado as forças do conesul a partir do I Seminário Latino Americano de Serviço Social. Sua originalidade inicial aparece como uma primeira iniciativa “autônoma” dos países Brasil, Argentina e Uruguai de reunir questionamentos acerca dos modelos estrangeiros visando à construção de um Serviço Social voltado as particularidades de nossa realidade continental “subdesenvolvida” latino- americana. Segundo Ander Egg, Fernandez e Barreix (1975), chamada “Geração 65” nasceu da articulação Argentina, Brasil e Uruguai visando criar um Serviço Social genuinamente latino americano. Os autores também destacam que: Generación 65”, como antitesis al “Metodologismo Aséptico”, no cuestiona, em príncipio, al “desarrollismo”. Todo lo contrario: lo visualiza como una via de salida a la tremenda situación de subdeserrollo latinoamericano y la problemática em ella derivada (...)(Ander Egg, Fernandez e Barreix 1975, p.264). Os marcos constitutivos do Movimento de Reconceituação abrange também a criação da Revista “Hoy en el Servicio Social” pelo grupo da Escola de Serviço Social da República do Uruguai e constituição do Grupo argentino ECRO. Também em 1965 foi fundada no Panamá a ALAETS (Asociación Latinoamericana de Escuelas de Trabajo Social). Esta associação era única instância continental, que fundou um organismo acadêmico, o Centro Latinoamericano de Trabajo Social (CELATS). Ambas tiveram uma grande influência na política regional do trabalho social, em todos os países latino- americanos. (CORNELY, 2002, p.2). Para Silva (1982, p.45), o Movimento de Reconceituação é um “processo de revisão crítica, os questionamentos nessa linha de renovação se situam principalmente a nível conceitual, prático, metodológico e ideológico-filosófico, abordando problemas quanto ao objeto, objetivos e aos métodos da profissão”. Segundo Seno Cornely (2002,p.16), movimento reconceituador era fruto da insatisfação profissional acerca da perspectiva de desajustamento nos (...) vários centros (Manizales, Belo Horizonte, Montevidéu, Buenos Aires, Concepción e Porto Alegre, entre outros), alguns grupos de assistentes sociais e estudantes, constatavam o artificialismo e a ineficácia de alguns mecanismos importados da Europa ou dos Estados Unidos. O autor também ressalta que a visão do Serviço Social europeu e norte-americano sobre o desajustamento do sujeito estava pautada teoricamente: (...) no método funcionalista, de forte inspiração positivista, mostrava-se simplesmente ineficaz na nossa realidade, onde um sistema injusto gerava a maioria dos problemas que “desajustavam” grandes segmentos da população.Sentiam, estes grupos, a urgente necessidade de intercambiar idéias entre si. (CORNELY, 2002,p.16) Leila Lima Santos contribuindo também com a crítica a influencia estrangeira aponta implicação dos modelos franco- belga e norte-americana no entendimento do trabalho profissional, conforme abaixo: Quando falávamos do esquema tradicional do Serviço Social, referíamo-nos ao legado europeu de assistência e beneficência aos necessitados como parte de uma nobre atitude cristã frente à dor humana. E também aludíamos à corrente norte americana que considerava que os problemas e desajustes dos indivíduos, grupos ou comunidades eram desvios de conduta e de comportamento, em que as pessoas eram os únicos e principais responsáveis, já que se assumia que o sistema capitalista dava iguais oportunidades a todos.( SANTOS, 2007,p.166) A autora coloca que o Serviço Social tradicional “ignorava a gênese da “questão social”, porque se centrava em teorias behavioristas individuais e psicologistas dos problemas sociais. Além do mais, a sua abordagem de investigação era apenas pragmática: diagnóstico, estudo e tratamento corretivo, feito em compartimentos estanques do caso, grupo, comunidade” (SANTOS, 2007, p.166). Ainda sobre a questão social e sua interpretação pelo Serviço Social norte-americano, Faleiros (1981,p.18) coloca que: “Em 1917, Mary Richmond tentou “racionalizar” essa assistência dando-lhe uma visão “terapêutica”, que considerava a “questão social” como uma doença que necessitava de diagnóstico e tratamento, a partir do individuo”. Podemos considerar que o movimento reconceituador tinha uma unidade nos questionamentos e criticas aos modelos estrangeiros centralizado na época no conceito de desajustamento do indivíduo. As respostas, entretanto a problemática da mudança profissional a cerca da realidade latino-americana era bem diversificada, fruto dos diferentes posicionamentos teóricos e práticos alicerçados nas particularidades da formação social dos países e nas trajetórias dos sujeitos. Isto significa reconhecer que essas diversidades de enfoques variam conforme os pontos de vista dos sujeitos dos que levantam esses questionamentos profissionais. (SILVA, 1982). Acreditamos que a “Geração 65” esteve vinculada inicialmente ao ideário de desenvolvimentista da CEPAL em sua fase inicial. Um exemplo que aparece dessa articulação é presença do debate cepalino na abertura do I Seminário Latino-Americano de Serviço Social (1965) em Porto Alegre com Conferência “Elementos constitutivos da estrutura latino-americana” cuja base analítica foi a teoria cepalina. O argumento fundamental do movimento reconceituador era a necessidade de criação de um Serviço Social que atendesse as particularidades realidade subdesenvolvida do continente latino-americano. Entendemos que o primeiro momento da Reconceituação Latino Americano enquanto um processo de questionamento teórico, metodológico e político acerca dos modelos estrangeiros, franco-belga e norte-americano visavam criar um Serviço Social Latino- Americano. No fim dos anos 60 a esperança desenvolvimentista cepalina já mostrava no interior do movimento reconceituador o seu fracasso enquanto proposta de superação do “atraso” na America Latina, como ilustraram os autores: “Las tesis “deserollistas” fueran cayendo, una a una en estas latitudes, victimas de sus propias contradicciones internas y de outros factores (...)”. (ANDER EGG, FERNANDEZ E BARREIX,1975, p.264). Os autores (1975) colocam que em 1967 que alguns integrantes do movimento reconceituador já começavam a falar timidamente da necessidade de mudanças estruturais. Naquele período era um difícil abordar a concepção de transformação e mudança estrutural, pois era motivo de rotulação e justificava de perseguição, encarceramento e torturas. As lutas sociais do ano 1968 espalhadas em diversas partes do mundo como as manifestações dos estudantis de Paris, a Primavera de Praga na Techoloswquia, o movimento de contracultura radical nos EUA. No Brasil também nesse mesmo ano tivemos um conjunto de mobilizações de estudantes e intelectuais nas ruas contra ditadura. Como uma forma de “reação” a intensificação das lutas pelo retorno da democracia em dezembro 1968 o presidente militar Costa e Silvia institui o AI-5 eliminando qualquer esperança democrática, via o aprofundando da repressão ditatorial. Esse “espectro de lutas sociais” repercutiu na dinâmica dos integrantes da reconceituação desencadeando um processo de autocrítica acerca dos pilares cepalinos hegemônicos que sustentavam o movimento no continente. Ilustrando o impacto desse clima político nas modificações no debate dos seminários latino-americano, Seno Cornely coloca que: El año 69 se realizó IV Seminarios en la ciudad de Concepción, em Chile, donde tuvo un destacado lugar la preocupación sobre otro tipo de lineamiento de la Reconceptualización: la cuestión epistemológica, ideológica Del Trabajo Social, una tentativa de hacer realmente un examen de conciencia de lo que nosotros hacíamos, para saber al servicio de qué y de quiénes estábamos trabajando los Trabajadores Sociales. Al año siguiente, 1970, se hizo un Seminario en Cochabamba, Bolivia, donde se cuestionaron también una serie de aspectos y se buscaron nuevamente salidas operativas, como tentativa de superar las fases anteriores. (CORNELY,1979,p.6). No seminário de Cochabamba (1970) houve ruptura entre o grupo argentino do ECRO e um grupo de assistentes sociais, que após o evento acabaram se reunindo no CELATS, constituiu-se assim marco divisor da renovação profissional e da reconceituação. (FALEIROS, 1987 apud ACOSTA, 2014). Sobre repressão do período repressão da ditadura no Brasil e os Seminários latino- americano Seno Cornely coloca dificuldades manter os encontros: En Porto Alegre se realizó el VI Seminario en 1972, que fue extremadamente metodológico debido al gran control institucional por el que atravesaba Brasil en aquel entonces, teniendo el Seminario que atenerse a dichos aspectos metodológicos también. Se intento establecer allí una relación dialéctica entre teoría y praxis, pero no se hasta que punto se consiguió. (...)Bueno, después se paró durante un tiempo hasta que en el año 1976 (...) ( CORNELY, 1979, p.6). O autor argentino Ezequial Ander-Egg em seu livro “Hacia uma metodología de la militancia y el compromisso” apresenta uma autocrítica sobre sua participação na primeira fase cepalina do movimento reconceituador que coloca sua posição: Muchas de mis formulaciones, queriendo ser revolucionaraias, no superanban el reformismo social y, em algunos casos, caían em humanismo, porque no tenían que ver com la situación del hombre de hoy, aun cuando hubisse real preocupación por los hombres concretos. (ANDER-EGG 1973, p.9) O autor também destaca que em suas formulações iniciais tinham uma visão homogênea da sociedade desconsiderando os antagonismos e as lutas de classes que para autor: “Em este error he estado, hasta que el análisis de la problemática de las clases sociales me proporciono uma clave interpretativa que cambió radicalmente mi perspectiva metodológica, como también cambió otras cosas em mi vida (...)” (1973, p. 9). Neste sentido, Ander-Egg a partir da concepção da sociedade de classes coloca que “ningun trabajo social está por encima de classes, intereses o de la política. No pueda dejar de participar de estas realidades, en consecuencias hay que optar, y optar significa militar y comprometer-se.” (1973, p.9) A década 70 foi uma época exemplar das transformações herdada da ebulição dos movimentos sociais ocorridos no final da década de 60. Sendo que no abre alas das resistências e da violência deslizaram esses anos de 1970, prenhe de conflitos. No plano econômico houve a crise do capitalismo mundial alavancada pelo conflito do petróleo, abalos no monopólio da moeda americana (dólar), acirramento competitividade dos países europeus e o Japão pelo comércio internacional de exportação de novas tecnologias. Como um desdobramento da crise houve ampliação das criticas das teses cepalinas acerca do desenvolvimento econômico “autônomo e nacional” da América Latina. No cenário intelectual latino-americano evidenciou-se a Escola da Dependência que criticou radicalmente a teoria desenvolvimentista cepalina. Vejamos o depoimento de Leila Lima Santos sobre período de construção do Método de BH e seu alinhamento com a teoria da dependência: (...) se desenvolveu em um período de radicalizações e de alinhamento à teoria da dependência do continente em relação aos centros de poder mundial, sobretudo os Estados Unidos, e aos postulados humanistas marxistas. Tudo isso permeou a experiência da Escola de Belo Horizonte, que não foi isenta também de dificuldades e limitações teóricas, práticas, estratégicas e científicas. (SANTOS, 2007,p.170) No plano político houve quedas das democracias latino-americanas e expansão das ditaduras no continente que levaram ao desencantamento do Estado desenvolvimentista enquanto “guardião” do “bem comum” do povo. Sobre reflexo das ditaduras, Leila Lima Santos aponta retração do movimento na America Latina,pois À medida que as ditaduras militares foram afirmando-se em vários países da América Latina, as experiências de renovação do Serviço Social ficaram cativas da esfera acadêmica, graças à relativa autonomia de que estas gozavam. Os espaços democráticos nos organismos de Estado eram, por seu lado, bem restringidos. E não se tinha, todavia, na agenda política do continente o combate à pobreza nem a governabilidade, que perto do final do século voltou a emergir. (SANTOS, 2007, p.170) Acreditamos que a distinção entre a “Geração 65 e “Geração 75 reconceituadora de ruptura” esteve pautada na ênfase atribuída entre esfera estatal e esfera da sociedade civil resultado das direções teóricas- políticas distintas. A “Geração 65” estava orientada pelas teses cepalinas que enfatizam o papel central do Estado Nacional via da transformação social por meio de desenvolvimento de políticas públicas de “Bem Estar Social”. Cabendo ao profissional ser “gestor- técnico” da “máquina” da distribuição do bem comum pautado no conhecimento da realidade latino- americana que possibilitasse um planejamento das políticas sociais que superasse o subdesenvolvimento-questão social. Exemplificando essa perspectiva “estatal” encontramos o livro “Planejamento e participação comunitária” publicado em 1976 do autor Seno Cornely que coloca a seguinte concepção: “a participação comunitária como incorporação dos responsáveis locais nos planos de governo e o planejamento local integrado como processo racional de desenvolvimento local.” (CORNELY, 1976, p.28). Já o segundo grupo da “Geração 75 reconceituadora de ruptura” de tendência teórica marxista ancorada na teoria da dependência e de Paulo Freire tinha como foco analítico a realidade vivida pelo homem e mulher oprimido latino-americano cuja transformação social na America Latina perpassava na organização e conscientização dos trabalhadores e dos “oprimidos” por meio do engajamento nos movimentos sociais. Ilustrando essa posição vejamos o relato de Leila Lima Santos (2007, p.167): “motivados pela identificação com as maiorias oprimidas e pela simpatia com os princípios marxistas. Estávamos num processo de busca, éramos temerários e audazes para o período de vigência de tempos políticos de um Brasil repressivo e sombrio”. A autora também destaca que o Método de BH era uma “busca de novas alternativas de formação profissional, queríamos formar profissionais críticos e comprometidos com seu povo” (SANTOS, 1987, p.8). Por conseguinte, o trabalho profissional nessa perspectiva estava voltado entender e se engajar na realidade vivida pelo oprimido; cabia ao profissional contribuir na tomada de consciência histórica da questão social e a necessidade organização das lutas reivindicatórias pela cidadania. Em alusão a esse processo reconceituador sob viés marxista podemos verificar no relato da experiência da Escola de Valparaíso os elementos apontados acima: Passamos a repensar o Serviço Social, na ótica marxista, no contexto da luta de classes em 1970, ao mesmo tempo em que debatíamos a realidade social, o que, naquela época, se chamava realidade nacional. A Reconceituação do Serviço Social se fez a partir da realidade e da teoria, e não com um ideário abstrato. Ao se pensar essa realidade de forma crítica é que fomos estruturando os campos de estágio em três áreas: urbana (movimentos urbanos), industrial (movimentos sociais operários) e camponesa (movimentos sociais no campo). (FALEIROS, 2007, p.156). Conforme Faleiros (2007, p.157) o Método de Valparaíso tinha “o mesmo propósito do chamado “Método BH”, do pessoal da PUC/MG, sob a liderança de Leila Lima”. Para muitos estudiosos apontam que movimento reconceitudor teve seu esgotamento em 1975. Contudo ,acreditamos que o Centro de Estudos Latino Americano Trabalho Social (CELATS) ao mesmo tempo buscou promover debates reconceituadores nas décadas de 1970 e 1980 por meio de suas atividades. O CELATS “surgiu incorporando os principais elementos teóricos da Reconceituação” (SANTOS, 1987, p152). Para Vicente Faleiros (2007, p.158), “Com a criação do Celats foi possível a integração de todas essas experiências: da Colômbia, do Brasil, da Venezuela, do Chile, do Uruguai, da Argentina, do Peru. No mundo inteiro já se colocava a questão do Radical Social Work,o que vim descobrir depois no Canadá”. A propósito da relação do CELATS e o Congresso da Virada de 1979, verifica-se uma importante articulação, conforme descrição abaixo: Em agosto de 1979 ocorre, no Rio de Janeiro, o I Encontro Nacional de Capacitação Continuada, promovido pelo Celats em cooperação com o Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais (Inocoop) e com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). O evento reuniu representantes de faculdades, organismos representativos da categoria e entidades vinculadas ao trabalho de campo de 13 estados brasileiros(...)Este encontro encontras e na base da preparação do chamado “Congresso da Virada” (III CBAS), tendo privilegiado os seguintes temas: a) a relação entre prática profissional das instituições e contexto social; b) a dimensão política da prática profissional e c) a organização profissional. (IAMAMOTO, 2015, p. 229). Embasado nesess aspectos acreditamos que houve deslocamento do debate reconceituador dos seminários latino-americano ao CELATS enquanto uma “nova” instância organizativa imbricada numa hegemonia marxista. Finalizamos nosso estudo inicial com as palavras de Leila Lima Santos que afirma: “A luta por uma sociedade justa e democrática não é alheia à luta por uma nova direção da atividade profissional.” (SANTOS, 1987, p.10). Deste modo é atual e urgente o resgate da resistência reconceituadora nesses tempos temerosos de fortalecimento do conservadorismo em nossas “veias abertas” da barbárie neoliberal na America Latina. Considerações finais: Com base nesse estudo observamos a existência de dois grupos brasileiros distintos no interior do movimento da reconceituação ligados aos debates sobre o atraso latino- americano e seu desenvolvimento social que são: “Geração 65” vinculadas as idéias cepalinas cujo principal interloucutor brasileiro em destaque foi Seno Cornely; e a “Geração 75 reconceituadora de ruptura” pautada nas idéias marxista e da teoria da dependência tendo como principal expoente Leila Lima Santos. Também podemos identificar que a partir da década 1970 houve um profundo desgaste das teses cepalinas devido crise econômica mundial, acirramento das lutas sociais e as ditaduras na América Latina que propiciou à visibilidade e disputa a partir do ano de 1970 do “Grupo reconceituador de intenção de ruptura de 75”. Por meio dos relatos dos participantes brasileiros do movimento reconceituador nessas décadas, nos permitiu uma aproximação com a geração de profissionais que não aderiram “passivamente” à ditadura militar e buscaram alternativas profissionais alinhadas ao povo oprimido latino-americano. Referências: ACOSTA, Luís. O processo de renovação do Serviço Social no Uruguai.In: Revista Em Pauta, Rio de Janeiro. 1o Semestre de 2014, n. 33, v. 12, p. 181- 203 ALAYÓN, N; BARREIX, J; CASSINERI ETHEL. (1971). ABC del Trabajo Social Latinoamericano. Ecro, Buenos Aires. ANDER-EGG, E y KRUSE, H. los Congresos Panamericanos de Servicio Social. Buenos Aires, Ecro, s.f. ______. Del ajuste a la transformación: apuntes para una historia del Trabajo Social. Ecro, Buenos Aires. BUCI-GLUCKMANN, Christinne. Gramsci e o Estado; tradução de Angelina Peralva. – 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980, 499 p. (Coleção Pensamento crítico; v. 39). CORNELY, Seno A. 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