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RECONCEITUAÇÃO LATINO-AMERICANA DO SERVIÇO SOCIAL: AS IDÉIAS 
CEPALINAS E DA TEORIA DEPENDÊNCIA 
 
RESUMO: O artigo é produto de uma pesquisa exploratória pautada 
numa análise de entrevistas, livros e documentos produzidos pelos 
participantes brasileiros no movimento reconceituador das décadas 
de 1960- 1970. O estudo visa identificar as idéias e tendências 
existentes no interior do Movimento de Reconceittuação Latino-
Americano do Serviço Social a partir do debate dos protagonistas 
brasileiros no movimento reconceituador. 
PALAVRAS CHAVES: Reconceituação latino-americana, Serviço 
Social, Cepal, teoria da dependência, Brasil. 
 
ABSTRACT: The article is the product of an exploratory research 
based on an analysis of interviews, books and documents produced 
by Brazilian participants in the reconceptualizing movement of the 
1960s and 1970s. The study aims to identify the ideas and 
tendencies within the Latin American Recon- American Social Service 
from the debate of the Brazilian protagonists in the reconceptualizing 
movement. 
KEYWORDS: Latin American Reconceptualization, Social Service, 
Cepal, dependency theory, Brazil. 
 
1. Introdução: 
 
“Lutam melhor os que têm belos sonhos”. 
(Che Guevara) 
 
Este artigo é fruto da etapa exploratória da pesquisa qualitativa sobre o Movimento 
de Reconceituação Latino-americano resultante da primeira fase de analise de entrevistas e 
livros e entrevistas acerca décadas 1960 e 1970. Neste estudo, apresentamos nossas 
aproximações analíticas que estão ainda em curso investigativo sobre o processo 
reconceituador na ótica dos sujeitos brasileiros. Entendemos que a investigação sobre 
movimento reconceituador latino-americano deve levar em consideração as particularidades 
objetivas dos países a partir das diferentes formações sócio-historica, bem como, as 
experiências dos sujeitos nesses contextos distintos. 
A geração profissional do Movimento de Reconceituação carregou consigo a 
experiência de ter vivido “perto dos movimentos de esquerda que antecederam os golpes de 
estado em vários países latino-americano e participaram diretamente dos encontros latino-
americanos de Serviço Social ocorridos no marco do movimento reconceituador.” 
(PINHEIRO, 2010, p.68). Viveram os sonhos da libertação da latino-americana, mas 
também as violências ocorridas na expansão das ditaduras no continente. 
 
 
 
 
 
 
Parafraseando a epigrafe que colocamos de Che Guevara podemos dizer que essa 
geração lutou pela construção de um Serviço Social tipicamente latino-americano, pois tinha 
como motriz o belo sonho da unidade da América- Latina. Consideramos a reconceituação 
como um momento ímpar de nossa história profissional, pois nunca houve antes no Serviço 
Social um sentimento tão forte de “irmandade” e de debates acerca da unidade latino-
americano como nessas décadas de 1960 e 1970 que abrangeram esse movimento. E 
nesse sentido que reside a importância de resgatar seu legado na atualidade. 
 
1. O contexto histórico do Brasil nas décadas 1960-1970 
O Brasil ao longo das décadas de 1950 até 1960 instaurou-se uma promissora 
batalha de idéias marcada por maior compromisso intelectual com causas populares e 
nacionais. Foram gestadas diferentes propostas mudanças do país que tencionavam a 
hegemonia burguesa brasileira que faziam parte de um conjunto de interpretações e ações 
sobre o atraso nacional e as desigualdades sociais.Para Marini (2014), os temas da 
esquerda brasileira evidenciados no ano 1964 têm sua origem no final década de 1950 tanto 
em seu aspecto ideológico, quanto organizativo. Nesse período os intelectuais do Instituto 
Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) influenciaram acentuadamente a esfera cultural do 
período cujos conceitos políticos e filosóficos se expandiram no final da década de 1950 
tornando matrizes explicativas da realidade brasileira orientado nas noções de colonialismo, 
cultura alienada e autenticidade cultural. De modo, que a teoria isebiana penetra com força 
na esquerda marxista quanto no pensamento social católico (ORTIZ, 2006). 
Para Lowy (2000), no inicio dos anos 1960 entre em cena a “Esquerda Católica”, 
oriundo da influencia da teologia francesa com posições mais avançadas de cunho 
humanista e da influencia da Revolução Cubana que contribuíram para radicalização do 
movimento estudantil católico (JUC). No decorrer do período foram se radicalizando ainda 
mais por meio da incorporação cada vez maior de elementos marxistas, substituindo a 
perspectiva européia pela concepção de homem oprimido do capitalismo periférico. Esse 
processo “estava intimamente ligada às novas praticas sociais, culturais e políticas dos 
ativistas católicos: participação no movimento estudantil, muitas vezes com aliança com da 
esquerda secular, apóio às lutas sociais e compromisso com a educação popular”. (LOWY, 
2000, p. 139). 
Entende-se que no Brasil nos períodos entre 1963-1964 houve rupturas no aparelho 
de hegemonia da burguesia nacional fragilizando assim o seu poder de comando nos 
negócios públicos e nos padrões de comportamento, crenças, instituições, manifestações 
artísticas e intelectuais transmitidos como um estado de conformidade para toda a 
 
 
 
 
 
 
coletividade. Cabe frisar que nos referimos aparelho de hegemonia como: “Conjunto 
complexo de instituições, ideologias, práticas e agentes (entre os quais os “intelectuais”), o 
aparelho de hegemonia só encontra sua unificação através da análise da expansão de uma 
classe.” (BUCI-GLUCKMANN, 1980, p.70). Ainda sobre categoria o autor destaca que: 
 
Uma hegemonia não se unifica como aparelho a não ser por referência à classe que 
se constitui em e através da mediação de múltiplos sub-sistemas: aparelho escolar 
(da escola à universidade), aparelho cultural (dos museus às bibliotecas), 
organização da informação, do meio ambiente, do urbanismo, sem esquecer o peso 
especifico de aparelhos eventualmente herdados de um modo de produção anterior 
(tipo: a Igreja e seus intelectuais) (BUCI-GLUCKMANN, 1980, p.70). 
 
A hegemonia burguesa alicerçada no consenso pode ruir obrigando a classe no 
poder assumir uma postura arbitrária e opressora. Sendo “não há teoria da hegemonia sem 
teoria da crise da hegemonia” (BUCI-GLUCKMANN, 1980, p. 83). O conflito acerca do 
consenso partiria da real possibilidade de que os membros de uma classe conseguir 
estabelecer as bases comuns de reconhecimento do lugar que ocupam na sociedade. Pode 
ser entendido então como o momento da tomada de consciência a qual colocaria em curso 
as representações de sua ideologia. Sendo a cultura um meio privilegiado de emancipação 
política da classe trabalhadora, pois são a partir dela que se criam a possibilidade tomada 
de consciência acerca problemas e situações comuns vividas pelos diferentes sujeitos. 
(SIMINATTO, 2004). Nos primeiros anos da década de 1960 foi iniciado pelos marxistas e 
depois irradiado aos setores nacionalistas e católicos, o debate sobre papel da burguesia na 
revolução brasileira. (MARINI, 2014). Com base nos autores Roberta Traspadini e João 
Pedro Stedile (2011), sintetizamos as idéias progressistas do período de 1960 e 1970 no 
Brasil, que apresentamos resumidamente a interpretação de atraso brasileiro e suas 
respostas para saída da “crise brasileira”, que são: 
A)Os partidos comunista vinculados a terceira internacional- para esse grupo tinha visão 
etapista do capitalismo cujo problema brasileiro de pobreza e desigualdade social era fruto 
do atraso das forças produtivas. Acreditavam que reinava entre nós relações pré-
capitalistas aliadas ao impacto do imperialismo norte –americano. A saída seria então 
aprofundar o desenvolvimento das forças produtivas a fim de superar o atraso econômico e 
revolução burguesa brasileira que superasse a elite conservadora para assim abri-se 
caminharmos para o protagonismo dos trabalhadores. Em síntese, o sujeito da história do 
momento era, portantoclasse burguesa e desenvolvimento das forças produtivas, a partir 
desse foco análise o PCB acabou se fazendo alianças com grupo de pensadores do 
nacional desenvolvimentista e cepalinos. Marini (2014) destaca que esquerda se dividia 
entre concepção imprecisa de povo e afirmação classista da luta dos trabalhadores. Após 
pronunciamento do golpe militar houve racha nas tendências reformistas do PCB, mas 
 
 
 
 
 
 
paralelamente havia unidade entorno da Ação Popular do existencialismo cristã para 
marxismo de corte maoísta. 
B)A teoria do Subdesenvolvimento da CEPAL (Comissão Econômica para America Latina e 
Caribe)- para esse segmento o problema do Brasil como parte da America Latina era que 
desenvolvimento econômico era desigual e periférico que implicava numa desvantagem 
considerável pelo atraso tecnológico existente que levava a deteriorização da troca de 
produtos. Este fato levava à fragilização as economias nacionais viam troca desigual. A 
solução cepalina apontava necessidade industrialização substitutiva de importações e o 
Estado deveria ser executor direto do desenvolvimento. Ressalta-se que esse grupo não 
estava preocupado apesar de defender a Reforma Agrária e pleno emprego. Não tinham 
como objetivo acabar com propriedade privada, ou resolver exploração do capitalismo. Na 
verdade o que queriam era colocar America Latina no trilho “certo” da modernização do 
desenvolvimento capitalista. Entretanto, há reconhecer que suas eram opostas totalmente 
contrárias ao ideário neoliberal de Estado Mínimo. Em suma desse grupo podemos verificar 
que defensa do “agente da transformação” era o Estado nacional promotor do 
desenvolvimento superando assim dicotomia dos dois brasis- o arcaico e o moderno. 
C) Foquismo: era uma teoria de guerra de guerrilha revolucionária inspirada na Revolução 
Cubana nas décadas de 1950/60. O foco era estabelecer um núcleo permanente de luta 
armada para que, pelo atrito e desgaste da força oposta em regiões de difícil acesso aos 
oponentes. Este segmento tomou forma durante a ditadura brasileira no pós 1964. 
Podemos visualizar o enlace dessas interpretações no livro “Metodologia e ideologia 
do trabalho social” de Vicente Faleiros (1981, p.15) que coloca: “Existem vários modelos de 
explicação do subdesenvolvimento e desenvolvimento econômico da America Latina, como, 
por exemplo, o rostwiano, o cepalino, o marxismo ortodoxo, o da dependência”. Para autor 
(1981, p.15), “o modelo cepalino (da CEPAL) concebe desenvolvimento como o 
“desenvolvimento para fora” e o “desenvolvimento para dentro”. Já “o modelo da teoria da 
dependência concebe a história da America latina segundo as relações de dominação e 
dependência entre as metrópoles” (FALEIROS, 1981, p.16). Neste sentido afirma que a 
concepção dessa teoria é que: 
Desenvolvimento de uns é subdesenvolvimento de outros, numa relação complexa, 
externa e internamente. (...) A dominação internacional é interativa com dominação 
nacional. Formam-se metrópoles nacionais e classes dominantes e dominadas 
conflituam-se a nível local e internacional. (...) A teoria da dependência é mais ampla 
que cepalina, podendo explicá-la. (FALEIROS, 1981, p.16). 
 
 
 
 
 
 
 
Acreditamos que essa atmosfera política de debates no país teve reflexos 
importantes no processo reconceitador latino-americano por meio dos interlocutores 
brasileiros nesse movimento, seja pela via das experiências pioneiras em curso no país ou 
mesmo por meio do exílio dos intelectuais e militantes da esquerda brasileira. Em nosso 
ponto de vista, exemplos dessa inserção no movimento da Reconceituação foram os 
interlocutores: Seno Cornely integrante da chamada “Geração 1965” e a Leila Lima Santos 
do grupo que denominamos “Geração 75 reconceituadora de ruptura”, que abordamos no 
item seguinte. 
 
2. Reconceituação latino-americana do Serviço Social: análise do debate brasileiro 
 
O movimento reconceituador que “nasceu” em 1965, articulado as forças do conesul 
a partir do I Seminário Latino Americano de Serviço Social. Sua originalidade inicial aparece 
como uma primeira iniciativa “autônoma” dos países Brasil, Argentina e Uruguai de reunir 
questionamentos acerca dos modelos estrangeiros visando à construção de um Serviço 
Social voltado as particularidades de nossa realidade continental “subdesenvolvida” latino-
americana. Segundo Ander Egg, Fernandez e Barreix (1975), chamada “Geração 65” 
nasceu da articulação Argentina, Brasil e Uruguai visando criar um Serviço Social 
genuinamente latino americano. Os autores também destacam que: 
 
Generación 65”, como antitesis al “Metodologismo Aséptico”, no cuestiona, em 
príncipio, al “desarrollismo”. Todo lo contrario: lo visualiza como una via de salida a 
la tremenda situación de subdeserrollo latinoamericano y la problemática em ella 
derivada (...)(Ander Egg, Fernandez e Barreix 1975, p.264). 
 
 Os marcos constitutivos do Movimento de Reconceituação abrange também a 
criação da Revista “Hoy en el Servicio Social” pelo grupo da Escola de Serviço Social da 
República do Uruguai e constituição do Grupo argentino ECRO. Também em 1965 foi 
fundada no Panamá a ALAETS (Asociación Latinoamericana de Escuelas de Trabajo 
Social). Esta associação era única instância continental, que fundou um organismo 
acadêmico, o Centro Latinoamericano de Trabajo Social (CELATS). Ambas tiveram uma 
grande influência na política regional do trabalho social, em todos os países latino-
americanos. (CORNELY, 2002, p.2). 
Para Silva (1982, p.45), o Movimento de Reconceituação é um “processo de revisão 
crítica, os questionamentos nessa linha de renovação se situam principalmente a nível 
conceitual, prático, metodológico e ideológico-filosófico, abordando problemas quanto ao 
objeto, objetivos e aos métodos da profissão”. 
 
 
 
 
 
 
Segundo Seno Cornely (2002,p.16), movimento reconceituador era fruto da 
insatisfação profissional acerca da perspectiva de desajustamento nos 
 (...) vários centros (Manizales, Belo Horizonte, Montevidéu, Buenos Aires, 
Concepción e Porto Alegre, entre outros), alguns grupos de assistentes sociais e 
estudantes, constatavam o artificialismo e a ineficácia de alguns mecanismos 
importados da Europa ou dos Estados Unidos. 
 
O autor também ressalta que a visão do Serviço Social europeu e norte-americano 
sobre o desajustamento do sujeito estava pautada teoricamente: 
(...) no método funcionalista, de forte inspiração positivista, mostrava-se 
simplesmente ineficaz na nossa realidade, onde um sistema injusto gerava a maioria 
dos problemas que “desajustavam” grandes segmentos da população.Sentiam, 
estes grupos, a urgente necessidade de intercambiar idéias entre si. (CORNELY, 
2002,p.16) 
 
Leila Lima Santos contribuindo também com a crítica a influencia estrangeira aponta 
implicação dos modelos franco- belga e norte-americana no entendimento do trabalho 
profissional, conforme abaixo: 
Quando falávamos do esquema tradicional do Serviço Social, referíamo-nos ao 
legado europeu de assistência e beneficência aos necessitados como parte de uma 
nobre atitude cristã frente à dor humana. E também aludíamos à corrente norte 
americana que considerava que os problemas e desajustes dos indivíduos, grupos 
ou comunidades eram desvios de conduta e de comportamento, em que as pessoas 
eram os únicos e principais responsáveis, já que se assumia que o sistema 
capitalista dava iguais oportunidades a todos.( SANTOS, 2007,p.166) 
A autora coloca que o Serviço Social tradicional “ignorava a gênese da “questão 
social”, porque se centrava em teorias behavioristas individuais e psicologistas dos 
problemas sociais. Além do mais, a sua abordagem de investigação era apenas pragmática: 
diagnóstico, estudo e tratamento corretivo, feito em compartimentos estanques do caso, 
grupo, comunidade” (SANTOS, 2007, p.166). Ainda sobre a questão social e sua 
interpretação pelo Serviço Social norte-americano, Faleiros (1981,p.18) coloca que: “Em 
1917, Mary Richmond tentou “racionalizar” essa assistência dando-lhe uma visão 
“terapêutica”, que considerava a “questão social” como uma doença que necessitava de 
diagnóstico e tratamento, a partir do individuo”. Podemos considerar que o movimento 
reconceituador tinha uma unidade nos questionamentos e criticas aos modelos estrangeiros 
centralizado na época no conceito de desajustamento do indivíduo. As respostas, entretanto 
a problemática da mudança profissional a cerca da realidade latino-americana era bem 
diversificada, fruto dos diferentes posicionamentos teóricos e práticos alicerçados nas 
particularidades da formação social dos países e nas trajetórias dos sujeitos. Isto significa 
reconhecer que essas diversidades de enfoques variam conforme os pontos de vista dos 
sujeitos dos que levantam esses questionamentos profissionais. (SILVA, 1982). 
Acreditamos que a “Geração 65” esteve vinculada inicialmente ao ideário de 
desenvolvimentista da CEPAL em sua fase inicial. Um exemplo que aparece dessa 
 
 
 
 
 
 
articulação é presença do debate cepalino na abertura do I Seminário Latino-Americano de 
Serviço Social (1965) em Porto Alegre com Conferência “Elementos constitutivos da 
estrutura latino-americana” cuja base analítica foi a teoria cepalina. 
 O argumento fundamental do movimento reconceituador era a necessidade de 
criação de um Serviço Social que atendesse as particularidades realidade subdesenvolvida 
do continente latino-americano. Entendemos que o primeiro momento da Reconceituação 
Latino Americano enquanto um processo de questionamento teórico, metodológico e político 
acerca dos modelos estrangeiros, franco-belga e norte-americano visavam criar um Serviço 
Social Latino- Americano. No fim dos anos 60 a esperança desenvolvimentista cepalina já 
mostrava no interior do movimento reconceituador o seu fracasso enquanto proposta de 
superação do “atraso” na America Latina, como ilustraram os autores: “Las tesis 
“deserollistas” fueran cayendo, una a una en estas latitudes, victimas de sus propias 
contradicciones internas y de outros factores (...)”. (ANDER EGG, FERNANDEZ E 
BARREIX,1975, p.264). Os autores (1975) colocam que em 1967 que alguns integrantes do 
movimento reconceituador já começavam a falar timidamente da necessidade de mudanças 
estruturais. Naquele período era um difícil abordar a concepção de transformação e 
mudança estrutural, pois era motivo de rotulação e justificava de perseguição, 
encarceramento e torturas. As lutas sociais do ano 1968 espalhadas em diversas partes do 
mundo como as manifestações dos estudantis de Paris, a Primavera de Praga na 
Techoloswquia, o movimento de contracultura radical nos EUA. No Brasil também nesse 
mesmo ano tivemos um conjunto de mobilizações de estudantes e intelectuais nas ruas 
contra ditadura. Como uma forma de “reação” a intensificação das lutas pelo retorno da 
democracia em dezembro 1968 o presidente militar Costa e Silvia institui o AI-5 eliminando 
qualquer esperança democrática, via o aprofundando da repressão ditatorial. Esse “espectro 
de lutas sociais” repercutiu na dinâmica dos integrantes da reconceituação desencadeando 
um processo de autocrítica acerca dos pilares cepalinos hegemônicos que sustentavam o 
movimento no continente. Ilustrando o impacto desse clima político nas modificações no 
debate dos seminários latino-americano, Seno Cornely coloca que: 
 
El año 69 se realizó IV Seminarios en la ciudad de Concepción, em Chile, donde 
tuvo un destacado lugar la preocupación sobre otro tipo de lineamiento de la 
Reconceptualización: la cuestión epistemológica, ideológica Del Trabajo Social, una 
tentativa de hacer realmente un examen de conciencia de lo que nosotros hacíamos, 
para saber al servicio de qué y de quiénes estábamos trabajando los Trabajadores 
Sociales. Al año siguiente, 1970, se hizo un Seminario en Cochabamba, Bolivia, 
donde se cuestionaron también una serie de aspectos y se buscaron nuevamente 
salidas operativas, como tentativa de superar las fases anteriores. 
(CORNELY,1979,p.6). 
 
 
 
 
 
 
 
No seminário de Cochabamba (1970) houve ruptura entre o grupo argentino do 
ECRO e um grupo de assistentes sociais, que após o evento acabaram se reunindo no 
CELATS, constituiu-se assim marco divisor da renovação profissional e da reconceituação. 
(FALEIROS, 1987 apud ACOSTA, 2014). Sobre repressão do período repressão da ditadura 
no Brasil e os Seminários latino- americano Seno Cornely coloca dificuldades manter os 
encontros: 
En Porto Alegre se realizó el VI Seminario en 1972, que fue extremadamente 
metodológico debido al gran control institucional por el que atravesaba Brasil en 
aquel entonces, teniendo el Seminario que atenerse a dichos aspectos 
metodológicos también. Se intento establecer allí una relación dialéctica entre teoría 
y praxis, pero no se hasta que punto se consiguió. (...)Bueno, después se paró 
durante un tiempo hasta que en el año 1976 (...) ( CORNELY, 1979, p.6). 
 
O autor argentino Ezequial Ander-Egg em seu livro “Hacia uma metodología de la 
militancia y el compromisso” apresenta uma autocrítica sobre sua participação na primeira 
fase cepalina do movimento reconceituador que coloca sua posição: 
Muchas de mis formulaciones, queriendo ser revolucionaraias, no superanban el 
reformismo social y, em algunos casos, caían em humanismo, porque no tenían que 
ver com la situación del hombre de hoy, aun cuando hubisse real preocupación por 
los hombres concretos. (ANDER-EGG 1973, p.9) 
 
O autor também destaca que em suas formulações iniciais tinham uma visão 
homogênea da sociedade desconsiderando os antagonismos e as lutas de classes que para 
autor: “Em este error he estado, hasta que el análisis de la problemática de las clases 
sociales me proporciono uma clave interpretativa que cambió radicalmente mi perspectiva 
metodológica, como también cambió otras cosas em mi vida (...)” (1973, p. 9). Neste 
sentido, Ander-Egg a partir da concepção da sociedade de classes coloca que “ningun 
trabajo social está por encima de classes, intereses o de la política. No pueda dejar de 
participar de estas realidades, en consecuencias hay que optar, y optar significa militar y 
comprometer-se.” (1973, p.9) 
 A década 70 foi uma época exemplar das transformações herdada da ebulição dos 
movimentos sociais ocorridos no final da década de 60. Sendo que no abre alas das 
resistências e da violência deslizaram esses anos de 1970, prenhe de conflitos. No plano 
econômico houve a crise do capitalismo mundial alavancada pelo conflito do petróleo, 
abalos no monopólio da moeda americana (dólar), acirramento competitividade dos países 
europeus e o Japão pelo comércio internacional de exportação de novas tecnologias. Como 
um desdobramento da crise houve ampliação das criticas das teses cepalinas acerca do 
desenvolvimento econômico “autônomo e nacional” da América Latina. 
No cenário intelectual latino-americano evidenciou-se a Escola da Dependência que 
criticou radicalmente a teoria desenvolvimentista cepalina. Vejamos o depoimento de Leila 
 
 
 
 
 
 
Lima Santos sobre período de construção do Método de BH e seu alinhamento com a teoria 
da dependência: 
 
(...) se desenvolveu em um período de radicalizações e de alinhamento à teoria da 
dependência do continente em relação aos centros de poder mundial, sobretudo os 
Estados Unidos, e aos postulados humanistas marxistas. Tudo isso permeou a 
experiência da Escola de Belo Horizonte, que não foi isenta também de dificuldades 
e limitações teóricas, práticas, estratégicas e científicas. (SANTOS, 2007,p.170) 
 
No plano político houve quedas das democracias latino-americanas e expansão das 
ditaduras no continente que levaram ao desencantamento do Estado desenvolvimentista 
enquanto “guardião” do “bem comum” do povo. Sobre reflexo das ditaduras, Leila Lima 
Santos aponta retração do movimento na America Latina,pois 
À medida que as ditaduras militares foram afirmando-se em vários países da 
América Latina, as experiências de renovação do Serviço Social ficaram cativas da 
esfera acadêmica, graças à relativa autonomia de que estas gozavam. Os espaços 
democráticos nos organismos de Estado eram, por seu lado, bem restringidos. E 
não se tinha, todavia, na agenda política do continente o combate à pobreza nem a 
governabilidade, que perto do final do século voltou a emergir. (SANTOS, 2007, 
p.170) 
 
Acreditamos que a distinção entre a “Geração 65 e “Geração 75 reconceituadora de 
ruptura” esteve pautada na ênfase atribuída entre esfera estatal e esfera da sociedade civil 
resultado das direções teóricas- políticas distintas. 
 A “Geração 65” estava orientada pelas teses cepalinas que enfatizam o papel 
central do Estado Nacional via da transformação social por meio de desenvolvimento de 
políticas públicas de “Bem Estar Social”. Cabendo ao profissional ser “gestor- técnico” da 
“máquina” da distribuição do bem comum pautado no conhecimento da realidade latino-
americana que possibilitasse um planejamento das políticas sociais que superasse o 
subdesenvolvimento-questão social. Exemplificando essa perspectiva “estatal” encontramos 
o livro “Planejamento e participação comunitária” publicado em 1976 do autor Seno Cornely 
que coloca a seguinte concepção: “a participação comunitária como incorporação dos 
responsáveis locais nos planos de governo e o planejamento local integrado como processo 
racional de desenvolvimento local.” (CORNELY, 1976, p.28). 
 Já o segundo grupo da “Geração 75 reconceituadora de ruptura” de tendência 
teórica marxista ancorada na teoria da dependência e de Paulo Freire tinha como foco 
analítico a realidade vivida pelo homem e mulher oprimido latino-americano cuja 
transformação social na America Latina perpassava na organização e conscientização dos 
trabalhadores e dos “oprimidos” por meio do engajamento nos movimentos sociais. 
Ilustrando essa posição vejamos o relato de Leila Lima Santos (2007, p.167): “motivados 
pela identificação com as maiorias oprimidas e pela simpatia com os princípios marxistas. 
 
 
 
 
 
 
Estávamos num processo de busca, éramos temerários e audazes para o período de 
vigência de tempos políticos de um Brasil repressivo e sombrio”. A autora também destaca 
que o Método de BH era uma “busca de novas alternativas de formação profissional, 
queríamos formar profissionais críticos e comprometidos com seu povo” (SANTOS, 1987, 
p.8). Por conseguinte, o trabalho profissional nessa perspectiva estava voltado entender e 
se engajar na realidade vivida pelo oprimido; cabia ao profissional contribuir na tomada de 
consciência histórica da questão social e a necessidade organização das lutas 
reivindicatórias pela cidadania. Em alusão a esse processo reconceituador sob viés 
marxista podemos verificar no relato da experiência da Escola de Valparaíso os elementos 
apontados acima: 
 
Passamos a repensar o Serviço Social, na ótica marxista, no contexto da luta de 
classes em 1970, ao mesmo tempo em que debatíamos a realidade social, o que, 
naquela época, se chamava realidade nacional. A Reconceituação do Serviço Social 
se fez a partir da realidade e da teoria, e não com um ideário abstrato. Ao se pensar 
essa realidade de forma crítica é que fomos estruturando os campos de estágio em 
três áreas: urbana (movimentos urbanos), industrial (movimentos sociais operários) 
e camponesa (movimentos sociais no campo). (FALEIROS, 2007, p.156). 
 
Conforme Faleiros (2007, p.157) o Método de Valparaíso tinha “o mesmo propósito 
do chamado “Método BH”, do pessoal da PUC/MG, sob a liderança de Leila Lima”. 
Para muitos estudiosos apontam que movimento reconceitudor teve seu 
esgotamento em 1975. Contudo ,acreditamos que o Centro de Estudos Latino Americano 
Trabalho Social (CELATS) ao mesmo tempo buscou promover debates reconceituadores 
nas décadas de 1970 e 1980 por meio de suas atividades. O CELATS “surgiu incorporando 
os principais elementos teóricos da Reconceituação” (SANTOS, 1987, p152). 
Para Vicente Faleiros (2007, p.158), “Com a criação do Celats foi possível a 
integração de todas essas experiências: da Colômbia, do Brasil, da Venezuela, do Chile, do 
Uruguai, da Argentina, do Peru. No mundo inteiro já se colocava a questão do Radical 
Social Work,o que vim descobrir depois no Canadá”. A propósito da relação do CELATS e o 
Congresso da Virada de 1979, verifica-se uma importante articulação, conforme descrição 
abaixo: 
 
Em agosto de 1979 ocorre, no Rio de Janeiro, o I Encontro Nacional de Capacitação 
Continuada, promovido pelo Celats em cooperação com o Instituto de Orientação às 
Cooperativas Habitacionais (Inocoop) e com a Pontifícia Universidade Católica do 
Rio de Janeiro (PUC-RJ). O evento reuniu representantes de faculdades, 
organismos representativos da categoria e entidades vinculadas ao trabalho de 
campo de 13 estados brasileiros(...)Este encontro encontras e na base da 
preparação do chamado “Congresso da Virada” (III CBAS), tendo privilegiado os 
seguintes temas: a) a relação entre prática profissional das instituições e contexto 
social; b) a dimensão política da prática profissional e c) a organização profissional. 
(IAMAMOTO, 2015, p. 229). 
 
 
 
 
 
 
 
 Embasado nesess aspectos acreditamos que houve deslocamento do debate 
reconceituador dos seminários latino-americano ao CELATS enquanto uma “nova” instância 
organizativa imbricada numa hegemonia marxista. Finalizamos nosso estudo inicial com as 
palavras de Leila Lima Santos que afirma: “A luta por uma sociedade justa e democrática 
não é alheia à luta por uma nova direção da atividade profissional.” (SANTOS, 1987, p.10). 
Deste modo é atual e urgente o resgate da resistência reconceituadora nesses tempos 
temerosos de fortalecimento do conservadorismo em nossas “veias abertas” da barbárie 
neoliberal na America Latina. 
 
 
 Considerações finais: 
 
 Com base nesse estudo observamos a existência de dois grupos brasileiros distintos 
no interior do movimento da reconceituação ligados aos debates sobre o atraso latino-
americano e seu desenvolvimento social que são: “Geração 65” vinculadas as idéias 
cepalinas cujo principal interloucutor brasileiro em destaque foi Seno Cornely; e a “Geração 
75 reconceituadora de ruptura” pautada nas idéias marxista e da teoria da dependência 
tendo como principal expoente Leila Lima Santos. Também podemos identificar que a partir 
da década 1970 houve um profundo desgaste das teses cepalinas devido crise econômica 
mundial, acirramento das lutas sociais e as ditaduras na América Latina que propiciou à 
visibilidade e disputa a partir do ano de 1970 do “Grupo reconceituador de intenção de 
ruptura de 75”. Por meio dos relatos dos participantes brasileiros do movimento 
reconceituador nessas décadas, nos permitiu uma aproximação com a geração de 
profissionais que não aderiram “passivamente” à ditadura militar e buscaram alternativas 
profissionais alinhadas ao povo oprimido latino-americano. 
 
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