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SUMÁRIO if RJE5ENTAÇÃO Um olhar sobre o nosso olhar acerca d» surdez e as diferenças Carlos Skliar ........................................................................................................ 5 1 Os Estudos Surdos em Educação: problematizando a normalidade Carlos Skliar ...................... ................................................................................. 7 2 O discurso moderno na educação dos surdos: práticas de controle do corpo e a expressão cultural amordaçada Sérgio Andres Lulkin ........................................................................................... 33 3 Identidades surdas Gládis T. T. Perlin ............................................................................................... 51 4 Os discursos sobre surdez, trabalho e educação e a formação do surdo trabalhador Madalena Klein.................................................................................................. 75 5 A mulher surda e suas relações de gênero e sexualidade Sandra Zanetti Moreira......................................................................................... 95 6 Relações de poderes no espaço multicultural da escola para surdos Maura Corcini Lopes ......................................................................................... 105 7 Surdos: esse “outro” de que fala a mídia Adriana da Silva Thoma ...................................................................................... 123 8 A relação dialógica como pressuposto na aceitação das diferenças: o processo de formação das comunidades surdas Ottmar Teske .................................................................................................. 139 9 Cartografando os Estudos Surdos: currículo e relações de podèr. Márcia Lise Lunardi ........................................................................................... 157 10 Discurso surdo: a escuta dos sinais Nidia Regina Limeira de Sá .................................... 169 APRESENTAÇÃO Um olhar sobre o nosso olhar acerca da surdez e das diferenças Carlos Skliar A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças é um livro que reflete um momento particular, porém fragmentado, de um processo mais amplo no trabalho e na pesquisa educacional. Sendo impossível, ainda, falar de um ponto de partida na tentativa de criar novos olhares, o nosso processo iniciou-se formalmente em meados de 1996. Nesse ano um grupo de alunos e professores do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Kducação da Universidade Federal de Rio Grande do Sul decidiu formar o Núcleo de Pesquisas em Políticas Educacionais para Surdos, NUPPES. A nossa proposta não era, nem é atualmente, a de constituí-lo como um subproduto ou uma sub-área temática da educação especial, nem a de mantê-lo dentro de uma prática e de um discurso hegemônico da deficiên- c ia. Muito pelo contrário, nos motivava a criação de um novo espaço acadêmico e de uma nova territorialidade educacional à qual denominamos: lístudos Surdos em Educação. Os Estudos Surdos se constituem enquanto um programa de pesquisa cm educação, onde as identidades, as línguas, os projetos educacionais, a história, a arte, as comunidades e as culturas surdas, são focalizados e entendidos a partir da diferença, a partir do seu reconhecimento político. Falar da diferença provoca, ao mesmo tempo , uma problematização sobre a oposição entre normalidade e anormalidade e, inclusive, a problematização da própria normalidade, do quotidiano. Porém, o conceito de diferença não é utilizado como um termo a mais, dentro de uma continuidade discursiva, onde habitualmente se incluem outros como, por exemplo, “deficiência” ou “diversidade”. Estes, no geral, mascaram e neutralizam as possíveis conseqüências políticas, colocam os 6 Carlos Skliar outros sob um olhar paternalista, e se revelam como estratégias conservadoras para ocultar uma intenção de normalização. A diferença, como significação política, é construída histórica e socialmente; é um processo e um produto de conflitos e movimentos sociais, de resistências às assimetrias de poder e de saber, de uma outra interpretação sobre a alteridade e sobre o significado dos outros no discurso dominante. O nosso projeto não está ancorado a uma teorização, de certo modo, tautológica. Sendo, ainda, exigentes com o objetivo de gerar uma teoria e um olhar sobre a surdez, sabemos da impossibilidade de “falar” pelos ou tros. Porém, a nossa preocupação também está sendo fundamentada na criação de um tecido, de um campo, de uma rede para o planejamento de políticas educacionais para surdos. As questões teóricas fundamentais do nosso grupo se cristalizam, então, junto às comunidades surdas, às escolas, e aos intérpretes de língua de sinais, no processo de formação dos professores ouvintes. Assim, nossos projetos de pesquisa são conduzidos para uma diversidade de focos que ainda estão em observação: identidades surdas, histórias e desencontros dos discursos hegemônicos sobre a surdez, rupr. ras entre a educação de surdos e a educação especial, práticas discursivas e dispositivos pedagógicos na relação entre educação e trabalho, artes e culturas surdas, relações entre estudos surdos e estudos de gênero, o currículo como território de colonização dos ouvintes sobre os surdos, os novos paradigmas da escolarização, o processo de formação de novas comunidades surdas, etc. Os textos de A SURDEZ são um ponto fixo numa caminhada que ainda está em andamento. Seus capítulos podem ser pensados como fragmentos de um pensamento em evolução, em movimento. Por isso, não é nossa pretensão definir melhor, ou com maior clareza, a surdez. Queremos, porque nisso acreditamos, deixar o devido espaço para a ambigüidade e para as diferentes interpretações. Interessa-nos, sim, criticar os discursos clínicos, a medicalização, a ouvintização na educação dos surdos. Para isso, produzimos interfaces necessárias com outras linhas de estudo em educa ção: estudos culturais, antropologias de grupos minoritários, estudos feministas, políticas de educação, etc. É nessas ligações que os autores encontram os seus próprios olhares e que possibilitam pensar a surdez dentro de uma perspectiva geral da educação. São nessas relações que a surdez pode, então, ser pensada como uma diferença. 1 Os Estudos Surdos em Educação: problematizando a normalidade Carlos Skliar Introdução ao primeiro olhar. O que muda na educação dos surdos quando se diz que alguma coisa muda? Tem-se acentuado, nas últimas três décadas, um conjunto novo de discursos e de práticas educacionais que, entre outras questões, permite desnu dar os efeitos devastadores do fracasso escolar massivo, produto da hegemonia de uma ideologia clínica dominante na educação dos surdos. As idéias dominantes, nos últimos cem anos, são um claro testemunho do sentido comum segundo o qual os surdos correspondem, se encaixam e se adaptam com naturalidade a um modelo de medicalização da surdez, numa versão que amplifica e exagera os mecanismos da pedagogia corretiva, instaurada nos princípios do século XX e vigente até nossos dias. Foram mais de cem anos de práticas enceguecidas pela tentativa de correção, normalização e pela violência institucional; instituições especiais que foram reguladas tanto pela caridade e pela beneficência, quanto pela cultura soci- .il vigente que requeria uma capacidade para controlar, separar e negar a existência da comunidade surda, da língua de sinais, das identidades surdas c das experiências visuais, que determinam o conjunto de diferenças dos surdos em relação a qualquer outro grupo de sujeitos. A mudança registrada nos últimos anos não é, e nem deve ser, compreendida como uma mudança metodológica dentro do mesmo paradigma da escolarização. O que está mudando são as concepções sobre o sujeitode bolhas, inchaços e cicatrizes em volta das orelhas (Grémion, 1991: 190). O Dr. Blanchet, que assume o posto de médico da instituição de Paris, investe na reeducação do ouvido através de uma emissão de sons em crescente intensidade e por uma excitação dos “nervos da sensibilidade geral”. Ao expor suas pesquisas no Tratado filosófico e médico da Surdo-mudez, em 1853, provoca violenta polêmica pela extravagância de seus métodos: abertura do crânio e colocação de um perfurador, cortes de bisturi no ouvido médio, entre outros procedimentos empíricos. (Idem, p. 191) 1 Dr. Jean-Marc-Gaspard Itard (1774-1838). Médico do INJS, de Paris, em 1832 é solicitado a supervisionar as atividades de ginástica e introduzir conhecimentos especiais sobre saúde e desenvolvimento físico e moral para as jovens alunas surdas, procedimento que já existia para os alunos. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 37 O Congresso de Milão, em 1880, também é um marco na história da política institucional de erradicação da língua de sinais, e do afastamento radical dos profissionais surdos do meio escolar. Nesse evento internacional, onde se reúnem profissionais dedicados à educação de surdos, dois terços dos 174 congressistas são italianos. Os outros são franceses, ingleses, suecos, suíços, alemães, e americanos. De todos os congressistas, somente um é surdo! Com exceção de Edward Gallaudet 2, delegado norte-america- no, o Congresso celebra a vitória do oralismo sobre a inferioridade da língua gestual. As manifestações em favor da supremacia da língua oral, em favor da pureza natural da palavra falada, traduzem o espírito da época, marcado pela racionalidade em oposição à emoção, como se percebe na fala de um congressista italiano: “Em todas instituições onde se deseja sincera e eficazmente introduzir o verdadeiro método da palavra, devemos, inicialmente, separar os iniciantes dos outros alunos e, por todos os meios possíveis, desenraizar a erva daninha da língua de sinais. A linguagem mímica exalta os sentidos e provoca, demasiadamente, a fantasia e a imaginação”. (Ibid., p. 192) As atas finais do Congresso, documentos que definiram as novas propostas educacionais no final do século XIX e, posteriormente, as políticas públicas até cerca de 1970, indicavam o seguinte: O Congresso, considerando a incontestável superioridade da palavra sobre os signos para devolver o surdo à sociedade e para dar-lhe um melhor conhecimento da língua, declara que o método oral deve ser preferido ao da mímica para a educação e instrução dos surdos-mu- dos.(...) O Congresso, considerando que o uso simultâneo da palavra e dos signos mímicos têm a desvantagem de inibir a leitura labial e a precisão das idéias, declara que o método oral puro deve ser preferido. (...) A terceira resolução é um voto em favor da extensão do ensino dos surdos-mudos. Considerando que um grande número de surdos-mu- dos não recebem os benefícios da instrução; que essa situação provém dos poucos recursos das famílias e dos estabelecimentos, emite o voto que os governos tomem as medidas necessárias para que todos os surdos e mudos possam ser instruídos.(Grémion, 1991: 195-196) Kdward Minor Gallaudet, aos vinte anos, em 1857, é indicado para dirigir a Columbia histitution for the Imtruction of the Deaf and Dumb and the Blind, denominada posteriormente Gallaudet College, tornando-se a primeira escola superior para surdos, com suporte do governo federal norte-americano. (Sacks, 1989: 137) 38 Carlos Skliar A repressão autorizada pelo Congresso de Milão foi legitimada pela nova ciência da raça, especialmente a disciplinada Antropologia. Em 1868, Paul Broca, o fundador da Sociedade Antropológica Parisiense, diz que nenhum conhecimento humano que forneça dados sobre a história do homem e da sociedade humana pode ser excluído da Antropologia. Assim, as classificações antropológicas do século XVIII para o indivídu o surdo ganham nova força, definindo a linguagem dos sinais como uma forma de sobrevivência atávica da era primitiva do homem, fazendo com que as re soluções do Congresso parecessem razoáveis e progressistas. Numa era que se pretendia evolucionista, os governos desejavam paz social pela marginalização e exclusão das “anormalidades”. (Mirzoeff, 1995: 139) Na prática escolar, a primeira medida educativa para coibir o uso da língua de sinais foi obrigar os alunos surdos a sentarem sobre suas mãos. Em seguida, retiraram- se as pequenas janelas das portas das salas de aula para impedir a comunicação sinalizada entre os alunos. Os professores surdos e seus auxiliares deveriam deixar as escolas e os institutos. E, para estabelecer uma nova pedagogia e promover a educação das novas gerações de pessoas surdas, criaram-se sistemas reabilitadores altamente refinados na regulação e controle do corpo. Retirou-se a língua de sinais de circulação no espaço escolar e demitiram-se os professores surdos, eliminando, também, o papel do surdo adulto, produtor e reprodutor de aspectos culturais da comunidade de surdos. No seu lugar, a balança dos poderes pende para as técnicas de treinamento e para as práticas e aparelhos ortopédicos: as próteses, os implantes, as cirurgias, o treinamento auditivo, a leitura labial, a articulação dos fonemas, as audiometrias, os exercícios respiratórios, a aquisição de vocabulário, etc. Dessa forma, o controle sobre os estudantes surdos, o conhecimento e as disposições sobre a sua educação — clínicas, consultórios, escolas, institutos, centros profissionalizantes - passam para o domínio dos cientistas médicos e sociais. Juntamente com as psicologias e as pedagogias especiais, destinadas a cumprir com o papel das ciências humanas junto às propostas de uma educação moderna. Segundo publicação do Instituto Nacional de Educação dos Surdos (INES), o professor francês Ernest Huet - surdo congênito, ex-aluno do INJS de Paris - chegou ao Brasil, em 1855, com a intenção de fundar uma casa de abrigo e ensino para os surdos. Huet obteve apoio do Reitor do Imperial Colégio Pedro II e conseguiu, para o funcionamento provisório A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 39 do Instituto Imperial dos Surdos-Mudos (atual INES), uma sala no centro do Rio de Janeiro. O programa de disciplinas, criado em 1856, incluía Língua Portuguesa, Aritmética, Geografia, História do Brasil, Escrituração Mercantil, Linguagem Articulada, Leitura sobre os Lábios e Doutrina Cristã. Neste programa já se delineava a preocupação com o ensino especial, observando-se uma proposta oralista implícita nas disciplinas de Linguagem Articulada e Leitura sobre os Lábios. Em 1911, o Regulamento interno determinou que o método oral puro fosse adotado no ensino de todas as disciplinas. Estando as formas de educar em consonância com a razão de cada época, servindo a diversos propósitos — religiosos, nacionalistas, econômicos, científicos — podemos sintetizar esse movimento como uma aproximação colonizadora dos ouvintes: cientistas interessados pelo indivíduo surdo, objeto de uma investigação científica para encontrar um ser “natural”, em estado “essencial”, dotado de uma linguagem “primitiva e original”, de onde parte toda possibilidade de explicar a evolução do ser humano (através de uma educação) em direção a um sujeito social, conhecedor de uma língua nacional, obediente aos dogmas de uma religião, proprietário de uma cultura universal, disponibilizada pelas instituições a serviço de um processo civilizatório. O poder de normalização do ouvir Quero argumentar que as descrições modernas que concebem uma progressão infantil em direção à racionalidade, na verdade, acabam constituindo a diferença em relação à norma da criança raciocinante como uma patologia. Isto é parte central da moderna estratégia de governo na qual um cidadão governável, obediente e cumpridor das leis deve ser produzido por técnicasque não são necessariamente técnicas de supressão direta, mas que transformam as características desejáveis em normais e naturais. Todos os desvios destas normas aparecem, pois, como patologias medicalizáveis a serem corrigidas. (Walkerdine, 1995: 210) Os termos empregados nos textos e narrativas sobre pessoas surdas e pessoas ouvintes, como definições de grupos sociais ou comunidades, reforçam os sentidos históricos e culturalmente constituídos. Um dos conceitos comuns que emerge, quando mencionamos surdos e ouvintes, é aquele 40 Carlos Skliar que se relaciona com o funcionamento do corpo humano, referindo-se diretamente ao defeito (ou uso normal) do aparato fisiológico, destinado à percepção de estímulos sonoros e dos sentidos mais complexos, como a audição e a escuta. Em algumas pessoas esse aparato funciona bem, noutras funciona mal. As pessoas ouvintes demonstram o funcionamento normal da audição pela habilidade nos atos do ouvir e do falar. As pessoas surdas, cujos problemas com a parte fisiológica resultam numa dificuldade com o falar e o ouvir, evidenciam-se, em relação à norma, por uma fala truncada, de difícil compreensão e um suporte gestual acentuado, no ato da comunicação. Aquele que não ouve tão bem, ou não percebe algumas manifestações sonoras na medida em que deveria, via de regra, passa a ser distinguido como alguém com uma perda, com uma carência, com uma falta de, com uma deficiência, e também como pessoa portadora de uma especialidade. Essa nomenclatura cria uma circunscrição marcada pela inferioridade, pela defi ciência, aprisionando aquele que diz e aquele do qual se diz. O sentido fisiológico — o ouvir — impõe-se como uma norma positiva. Para uma boa comunicação, falar e ouvir. Mas, nem sempre aquele que ouve escuta. Podemos ouvir sem prestar atenção, sem uma compreensão do que está sendo dito, sem aceitarmos a posição do outro. No entanto, seguimos ouvindo. Uma outra possibilidade é o escutar, no sentido metafórico — a escuta que solicita uma atitude de disponibilidade de todos os sentidos, ainda que “o ouvir” não se materialize como sentido fisiológico. Podemos dizer que as pessoas surdas escutam sem ouvir. O mesmo se pode dizer do falar. Há eloqüências que não necessitam da fala. Ao contrário, os silêncios e os gestos tornam-se muito mais significativos nos intervalos entre as palavras, nos climas que sugerem e sublinham, nos espaços de ocultação. A ciência biomédica, tomando como centro do problema a maior ou menor capacidade auditiva, encarrega-se de traduzir em diagnósticos os níveis de déficit, e gerar uma série de providências para a correção, reabilitação e normalização do indivíduo avaliado. Várias dessas práticas são materializadas pela medicina, pela fonoaudiologia, pela psicologia e pela pedagogia. Um diagnóstico médico, um diagnóstico psicológico, um diagnóstico fonoaudiológico, ou uma proposta pedagógica, cria fronteiras e nomeia pacientes e médicos, deficientes auditivos e instrutores especiais, estudantes surdos e educadores ouvintes, etc. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 41 As linhas divisórias, as fronteiras aparentemente simples, provocam afastamentos com repercussões sociais graves. A divisão bipolarizada, enrijecida, impede um movimento de aproximação, por fixar as posições, sem as quais a estrutura classificatória da ciência não se sustentaria. Criamos a categoria da normalidade para melhor controlarmos o que está fora dela. Dessa maneira, se funda uma identidade pela oposição surdo-mudo x ouvinte-falante, fruto de uma ciência interessada na correção do desvio, na humanização do selvagem, na reabilitação do deficiente. Para sugerir uma aproximação é preciso reconhecer uma distância, de terminada pelos usos distintos do corpo e das modalidades lingüísticas. Os estudantes surdos usam, preferencialmente, a língua de sinais, envolvendo o corpo todo, no ato da comunicação. A comunicação viso-gestual, não- cotidiana para os ouvintes, produz formas de apreensão, interpretação e narração do mundo a partir de uma cultura visual. Os educadores e demais profissionais envolvidos no espaço e scolar, na melhor das hipóteses, são “estrangeiros” que se aproximam da língua de sinais e da cultura visual, mas privilegiam, pelo hábito e pela própria cultura, a modalidade oral- auditiva, a fala, como ato cotidiano de comunicação. As propostas pedagógicas, fundadas nos ideais da Modernidade, legiti- mam-se por uma documentação oficial — leis, currículos, projetos pedagógicos — e por profissionais que orientam suas ações em conformidade com esses regulamentos. A escola para surdos funda-se no conhecimento sobre a surdez e sobre as pessoas surdas, a partir de uma produção científica e um conhecimento cuja autoria é, na sua maior parte, de pessoas ouvintes. Portanto, uma questão fundamental é perguntar-se “quem fala para quem, e sob que condições”. (Girouxe McLaren, 1996: 156) Esse questionamento obriga um procedimento reflexivo, sobre um “si” que se vê falando para um outro que escuta (quase sempre os pais, professores, psicólogos, fonoaudiólogos) ou se vê calado para escutar um outro que fala (quase sempre os estudantes surdos). Há desequilíbrios nesta oposição. Uma possibilidade de resposta concreta às indagações de Giroux e McLaren, cf. citação anterior, se encon tra numa prática em que educadores e educadoras devem “construir um espaço (...) onde as identidades individuais encontrem significado na expressão coletiva e na solidariedade com outros/as trabalhadores culturais, no qual o tempo eurocêntrico e a ansiedade caucasiana cedam lugar ao momento vivido, histórico, das lutas contemporâneas po r identidade”. (Idem, p. 157) 42 Carlos Skliar Estar atento às novas atitudes dentro do espaço escolar solicita dos educadores uma visão crítica — política, social e cultural — e um questionamento amplo sobre as práticas e as narrativas que lhes constituem, assim como a manutenção dessas narrativas através de suas ações. As lutas por identidade no espaço escolar implicam uma atenção especial para o conceito da diferença, um aprofundamento nas discussões referentes à diversidade cultural (como o polêmico tema do multiculturalismo), uma posição crítica frente aos poderes da linguagem social e dos discursos hegemônicos. Buscando uma analogia com a língua de sinais como emblemática de uma posição social da minoria cultural que dela faz uso, encontro em Bourdieu uma menção à dificuldade no acesso aos códigos socioculturais impostos por uma classe dominante, mantendo o desequilíbrio social vigente: As variantes lingüísticas são um resultado de posições desiguais na estrutura social e, por sua vez, posicionam os indivíduos de forma desigual naquela estrutura. Não importa quais sejam as qualidades intrínsecas das variantes lingüísticas numa determinada sociedade, se elas são linguisticamente equivalentes ou não, o crucial, em termos sociológicos, é que elas refletem posições de força desiguais e posicionam os indivíduos em posições de força desiguais. (Bourdieu e Wacquant, 1992, citado por Silva, 1996: 14-16) A questão do desequilíbrio social torna-se crucial quando enfrentamos, dentro de um ambiente educacional escolar, uma distância muito grande entre duas modalidades lingüísticas da língua nacional: a Língua Brasileira de Sinais (modalidade viso -gestual e ágrafa) e o Português (falado e escrito). O uso da modalidade normal da língua social para a educação escolar, i.é, fala e escrita, também serve ao processo de avaliação daquilo e daquele que é ensinado. Portanto, submete o aluno surdo a um procedi- mento historicamente constituído como a única e verdadeira metodologia adequada ao processo de ensino e aprendizagem desse sujeito deficiente sensorial; a condição de um sujeito inferior cultural ratifica-se através da avaliação de seu conhecimento, centrada numamodalidade de comunicação em que o aluno é menos hábil, justamente onde reside o obstáculo físico. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 43 O poder e a regulação do olhar Ser hábil no ouvir e produzir um fala a partir das percepções normais da audição dá poder ao grupo de profissionais ouvintes, para avaliar e con ceituar o outro, diverso, localizado no lugar da deficiência. O poder está nas mãos dos que ouvem e falam, para dizer, à sociedade em geral e aos surdos, quais os termos que os descrevem e os diferenciam. Da mesma maneira determinam-se os projetos pedagógicos, as pesquisas médicas para implantes cocleares, os programas governamentais de educação pública, etc. Dentro desses campos semânticos há lutas históricas. Se deixarmos o campo do som e passarmos ao campo da imagem, dando crédito à cultura visual, as possibilidades são muitas e reveladoras. No entanto, evitando as armadilhas ingênuas de substituição de uma verdade por outra, devemos ter claro que não há isenção de poderes, há câmbios de direção. Segundo Jorge Larrosa, a obra Vigiar e Punir de Michel Foucault (1975) enumera os aparatos disciplinares montados para servir o poder do olhar: “a prisão, a fábrica, o hospital, a escola são, entre outras coisas, máquinas de ver. Dispositivos para “tornar visíveis” as pessoas que capturam (presos, trabalhadores, enfermos ou crianças), e para “tornar eficazes” os processos que realizam (reformar, produzir, curar ou ensinar)”. (Larrosa, 1994: 61) Se estivermos atentos ao Panóptico de Bentham, podemos ver a configuração do conceito de visibilidade como “posto sob a mira de”, onde o controle se materializa através do olhar. Uma outra perspectiva de educação, onde o escutar passe a ter o privilégio no lugar do ouvir, permite re- localizar os deficientes auditivos como eficientes do olhar; uma comunidade (ainda que dispersa) que tem no código sinalizado uma materialidade, uma representação sociocultural. Essa alteração sugere que o poder não passa por uma democratização pelo simples fato de privilegiar outro sentido, mas redimensiona o campo de luta. Sandra Corazza (1996) também aponta um gatilho para o poder do olhar e suas relações com a constituição de um saber inquestionável: Encontrando-se incorporada a quase todos os campos do conhecimento científico, a técnica da observação é considerada um dos mais importantes instrumentos para a identificação e descrição da dita realidade física e natural, e também da assim chamada realidade social e 44 Carlos Skliar cultural. (...) Também para a prática moderna da avaliação escolar, a observação adquiriu um alto valor e elevado estatuto de verdade; por isto, importa analisar as aproximações deste dispositivo escolar a dispositivos de outro campo discursivo - não por acaso, o da medicina. (p-58) Para enfrentar esse poder instituído não basta dedicar-se à observação neutra do espaço escolar. O olhar ou o registro etnográfico de determinada comunidade não implica o reconhecimento autêntico e a constituição de “uma verdadeira” descrição dessa comunidade. Os olhares são interessados e servem para delimitar espaços políticos. Reconhecer uma arena de lutas por sentidos tampouco significa, imediata e conseqüentemente, entrar nesse espaço. Escutar uma comunidade que usa um código lingüístico distinto do nosso, buscando uma imersão nos aspectos culturais que cercam o diálogo, o monólogo, as narrativas em grupo, as arquiteturas da justiça e do rumor, as expressões peculiares, a gíria, a definição de gêneros, não é tarefa que possa ser cumprida pelo sentido exclusivo do ouvir. O olhar passa a ser fundamental. Ele colabora para o descentramento do sujeito moderno, obrigando o uso do corpo de forma diferente dos nossos códigos cotidianos. Implica uma mobilidade dos olhos, da cabeça, do rosto, das mãos, dos braços, organizados de forma diferente. Solici ta uma agilidade de percepção, uma plasticidade do cérebro. O conhecimento dos códigos, do ver e do olhar de uma cultura visual, possibilita outras interpretações e favorece os “estrangeiros” que se aproximam da comunidade de pessoas surdas. Isso significa uma atenção extrema à língua de sinais, à linguagem social e às formas de expressão e narração. Para ser fiel à diferença entre os termos, penso na expressão como os atos comuns da comunicação, manifestos nas disciplinas curriculares, com o máximo aproveitamento dos recursos da imagem, no lugar do falar e escrever, comuns nas escolas de pessoas ouvintes, mas tão inadequado para as escolas que trabalham com pessoas surdas. Simultaneamente, penso na narração como forma visível do distanciamento do sujeito (ainda que por momentos ele faça a autonarrativa): a representação dos fragmentos da cultura como as tradições, os costumes determinados pela mídia, a subjetividade construída a partir das relações familiares, escolares e religiosas, o caráter de autenticidade das histórias de vida, as manifestações conservado A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 45 ras sustentadas pelas representações sociais construídas a partir da “defici ência”, os suplícios impostos pela obrigatoriedade de expressão da inteligência através da norma ouvinte, etc. O coral de surdos e a visibilidade do controle da expressão Um dos temas principais na obra de Foucault e um dos fios cen trais que permitiriam percorrer a maior parte dessa obra é justamente o tema da visibilidade. E a visibilidade é, para Foucault, qualquer forma de sensibilidade, qualquer dispositivo de percepção. O ouvido e o tato na medicina, o exame na pedagogia, a observação sistemática e sistematizada em qualquer aparato disciplinar, a disposição dos corpos nos rituais penais, etc. (...) Poderíamos formular o problema de Foucault como o de determinar, em um mesmo movimento, o que é visível e o olho que vê, o sujeito e o objeto do olhar. Um regime de visibilidade, composto por um conjunto específico de máquinas óticas, abre o objeto ao olhar e abre, ao mesmo tempo, o olho que observa. Determina aquilo que se vê ou se faz ver, e o alguém que vê ou que faz ver. Por isso o sujeito é uma função da visibilidade, dos dispositivos que o fazem ver e orientam seu olhar. E esses são históricos e contingentes. (Larrosa, 1994: 60-61) Atentos às condições de funcionamento das “máquinas óticas” da produção escolar, vejamos como a escola solicita a produção artística, como ela mostra essa produção cultural e como a instituição escolar se beneficia da exposição pública: uma feira de ciências, uma olimpíada escolar, um evento teatral, uma mostra de artes plásticas, uma coreografia, uma apresentação musical, um coral... É quase uma obrigação, constantemente solicitada pela direção das escolas, oferecer-se algum tipo de apresentação pública, realizada com o corpo discente das escolas especiais, levadas à comunidade escolar (pais, amigos, parentes, autoridades do Estado) nos intercâmbios institucionais. Um dos argumentos a favor sustenta-se no aportes da psicologia: a apresentação de uma obra artística satisfaz o autor e o espectador, articu lando a expressão do indivíduo com o prazer do processo criativo, o amadurecimento pessoal, a auto-estima, etc. Existe o aplauso, o reconhecimento, o mérito da realização. Outro argumento vem da representação social em torno do conceito “cultura”: produzir arte e conhecer o acervo artístico 46 Carlos Skliar da humanidade são objetivos dos currículos escolares que pretendem a educa ção de um cidadão do mundo contemporâneo. O aspecto político é um terceiro argumento determinante no regime de visibilidade, devido ao compromisso do Estado com a educação para todos seus cidadãos, capitalizando os resultados positivos de uma proposta pedagógica que pretende ser democrática e mantenedora da produção cultural. A escola, ao mostrar a produção artística de seus alunos surdos, pretende exibiruma superação da deficiência através de uma pedagogia que respeite as capacidades criativas de seus alunos e enriqueça seu acervo cultural. Logo, é comum e conhecido publicamente (ao menos entre a comunidade de surdos e ouvintes que estão próximos a eles) que grupos de surdos, no mundo inteiro, apresentem suas peças de teatro, seus trabalhos de artes plásticas e seus corais sinalizados. Nesta análise, abrindo o “objeto ao olhar e o olho que observa”, atenho- me à tradição dos espetáculos de corais, muito comuns nos eventos oficiais, nas datas comemorativas cívicas e religiosas. O coral com surdos faz uma ponte entre a produção sonora — o canto, a música, o som — e uma produção visual. A música e a letra passam pela apreciação e seleção de um professor ouvinte que faz uma tradução para a língua de sinais. Em geral, a tradução acompanha a estrutura da língua portuguesa, inserindo sinais na seqüência sintática da língua nacional falada. Esses sinais seriam, supostamente, a tradução da parte sonora para a língua de sinais e para a cultura visual: o espectador ouvinte assiste, então, uma mescla de sons, letra e música produzidos por uma fonte mecânica (o gravador, CD, toca-discos) e uma apresentação cênica de um grupo de surdos que sinaliza a canção, emitindo sons também — palavras inteiras ou fragmentos de palavras que estão acostumados a articular. Os sinais são conduzido por um maestro que ouve a canção, assim como o público ouvinte, e vai regendo de acordo com a fonte sonora. Esse maestro é o professor que iniciou todo o processo seletivo anterior. O papel dessa condução, deste tipo de maestro, está ligado à produção sonora, portanto, a audição continua impondo a sua forma e sentido para o surdo. Outra possibilidade, raramente posta à disposição, é dar lugar a um processo de criação, seleção, tradução e condução mobilizados pela cultura visual, sensibilizada pela plasticidade no espaço. O som se impõe ao fornecer o input para estes espectadores ouvintes que talvez fossem levados a uma outra percepção sem os componentes sonoros, numa produção que A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 47 privilegiasse as linguagens visuais, onde não houvesse uma imposição da fonte sonora e, sim, uma opção de acesso à apresentação cênica; onde fosse oferecido um código visual, um código dos corpos, das configurações do espaço, das possibilidades estéticas que estariam mais centradas na imagem, na produção corporal dessa “música” e menos centrado no som. Então, o privilégio seria de uma percepção e uma concepção que está muito mais presente na comunidade de pessoas surdas do que na comunidade de ouvintes. Isto não quer dizer, de modo algum, que a comunidade de ouvintes ao redor dos surdos não tenha habilidade para perceber, produzir e compreender uma cultura visual. Pensar assim somente reinscreveria a deficiência “do outro lado”. Buscar uma aproximação com a diferença solicita atenção redobrada, uma escuta sensível. Sem essa escuta, a experiência visual resul- (a subordinada à percepção acústica. Chegando mais perto desses eventos, vemos outros procedimentos na condução desses trabalhos artísticos que contradizem as convenções de uma irpresentação cênica. Invariavelmente temos um professor (maestro) de costas para o público, sinalizando para os alunos que seguem, automaticamente, seus movimentos. O maestro sinaliza canções que jamais fazem I i.irte do repertório lingüístico dos “cantores”. Nem mesmo são memoriza- i Ias. Os alunos cantantes/sinalizadores surdos dificilmente entram em con- i. iio direto com seus espectadores, vendo-se obrigados a seguir um condu- lor externo que dirige o olhar, a atenção e determina o sinal a seguir; um londutor externo ao grupo que escolhe as canções, inspirado na música e 11.1 letra que nenhum aluno surdo (e “cantor/sinalizador”) escutou previa mente. Frente a um grupo de espectadores, seria desejável que os atores/canto- ir.s orientassem suas performances para os que “vêm para ver”. No coral, .iinda que determinados a seguir um maestro, poder-se-ia buscar o contato i li reto entre artistas e público, compartilhando sentidos que pertencem a Iodos, e que também é parte central da cultura surda. O olhar no lugar do nu vi r. Ver e “escutar”. Se considerarmos as propostas pedagógicas contemporâneas que defendi in uma educação direcionada para a autonomia do sujeito, para o uso da lln^ua como construtora de um locus cultural, então os procedimentos apre- n nt.idos costumeiramente nas performances artísticas negam, com evidên- i I.I, os princípios que norteiam essas propostas. 48 Carlos Skliar Acredito que não haja necessidade do público ouvinte, ao assistir um grupo de estudantes surdos em cena, estar constantemente estimulado pela presença sono ra; há inúmeras formas de representação, de linguagens cênicas e performances que não usam necessariamente o estímulo sonoro, ainda que seja um coral. Existem apresentações de corais (de pessoas surdas) que incorporam aspectos do som como a pulsação, o ritmo, o movimento, a harmonia, e transformam o sinal lingüístico, encontrando neles a metáfora, guardando parte do sentido original e criando novos sentidos através dos códigos que se estabelecem nos espetáculos. E passam a ser de uma percepção pública, compartilhada; passam a constituir uma memória cultural. Logo, poderíamos advogar pelo sentido cultural da escuta onde há o aprendizado da língua de sinais e a disposição para leitura e produção das linguagens do corpo, tão evidentes nesse espaço, pela escuta como o espaço tensionado por uma atenção aguda para as atitudes e julgamentos do olhar, para o conhecimento que possa ser produzido centralmente pelo paradigma da visão e a sua relação com uma observação crítica permanente, chegando a uma denúncia da violência implícita dos processos educativos para pessoas surdas, centrados no domínio da fala e da audição. Referências Bibliográficas CORAZZA, Sandra. Olhos de poder sobre o currículo escolar. Educação e Realidade, v. 21, n.l, jan/jun, 1996. DIDEROT, Denis. Carta sobre os surdos-mudos para uso dos que ouvem e falam. São Paulo; Nova Alexandria, 1993 [Original de 1751]. FISCHER, Renate. Language of Action. 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Para me iniciar na escrita de minha visão do sujeito surdo, tive de lutar para desaprender grande parte das suposições que me ensinaram a acreditar a respeito do ser surdo. Particularmente os conceitos referentes à surdez no campo da audiologia e da medicina. Nesse ponto, durante minha pesquisa de mestrado, aprendi inclusive que, mesmo sendo surda, não poderia falar sobre os surdos, tinha de deixá-los falar de si mesmos. Eles, os surdos — e não eu — irão falar deles durante esta delineação de identidade surda. Os surdos que escolhi para estudar suas afirmações de identidade surda, são parceiros e parceiras de muitos impasses, sonhos e realizações na busca do direito de ser surdo. O foco desse tema é a identidade surda mesma, com suas redundâncias, conseqüências, diversificações e implicações. Numa posição dessas, me lanço a escrever sobre as identidades surdas l.izendo um empréstimo de minha pessoa à experiência das experiências da comunidade surda com embasamento teórico pós-estruturalista. Usar a teoria pós-estruturalista, para mim, significa um aproximamento do “ser surdo”, uma vez que os estudos culturais negam o universalismo e permitem uma .iproximação do sujeito nativo sem mitos e suposições já construídos acercaA noção de surdo está diretamente ligada a estereótipos em muitas formas. Cito o estereótipo por ele interferir muitas vezes como um impedimento para a aceitação da identidade surda. Ele leva a considerar a identidade surda ao lado da representação da identidade ouvinte como incompatível. No dizer de Silva (1998: 62), o estereótipo como talé uma ideologia, um esforço de contemplação da fluidez, da indeterminação, da incerteza da linguagem, do social. Nunca a representação estereotipada vai dar à representação da identidade surda um lugar social. O estereótipo sobre o surdo jamais acolhe o ser surdo, pois imobiliza-o a uma representação contraditória, a uma representação que não conduz a uma A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 55 política da identidade. O estereótipo faz com que as pessoas se oponham, às vezes disfarçadamente, e evitem construção da identidade surda, cuja representação é o estereótipo da sua composição distorcida e inadequada. O indivíduo surdo faz parte dos movimentos marginalizados. Qualquer comportamento negativo de sua parte provoca distorções e estereótipos dentro de uma situação de dominação. Esta imagem negativa constitui o que Michael Rogin 2 chama de mais-valia simbólica. O surdo foi acumulando estereótipos que tem reforçado cada vez mais a hegemonia discriminatória de sua produção cultural. O discurso de poder do ouvinte mantém-se firme e controla estes estereótipos. Se citarmos, como exemplo, o campo do trabalho, logo teremos dispa ridade de estereótipos. Exprimidos pela participação ouvinte, os surdos são vistos como figuras frias desprovidas de definição cultural. Admitidos como tipo incapazes, continuam a carregar a marca de seus corpos ditos mutilados, de sua inteligência dita fracassada, arrastando-se pela sombria incoerência de nossos dias. Tais práticas têm representação até mesmo no plano de produção onde uma lista de profissões3 de menor porte foi elaborada. A idéia de o surdo concentrar-se facilmente em suas atividades sem a distração do barulho leva a uma imagem do surdo como produtor braçal de produtividade. Isto torna presente a ideologia de que vale a pena contratá-lo no campo de trabalho pelo que ele produz não pelo que aparenta, a idéia de que as pessoas surdas dificilmente possam ascender em escala de coordenação ou gerência faz com que sempre continuem sob trabalhos designados pelo poder ouvinte. Tampouco estes trabalhos oferecem possibilidade de ascensão visto que as estratégias de poder continuam centradas. Será que a cultura surda não ofereceu possibilidades de ascensão, ou o poder ouvinte não é suficientemente flexível? Curiosamente no campo do estereótipo a diferença assume um lugar, l.iz -se de conta que não devem existir diferenças. A figura do surdo pode ser visualizada como estereotipada no momento de um discurso colonizador. 1 Michael Rogin é citado por STAM (Estereótipos, realismo e representação racial, p.72). M.iis valia simbólica quando cada imagem negativa de um grupo de pouca representatividade de toma dentro das hermenêuticas da dominação, dolorosamente sobrecarregada de signi- lü .ido alegórico. 1 I in nosso Estado existe uma lista com profissões para o surdo elaborada e usada nos • impos onde se visa ao emprego aos surdos. 56 Carlos Skliar Porém, um discurso mais flexível possibilita ver transformações práticas que produziriam se efetivamente estivessem ausentes jogos de estereótipos. Diferença e diversidade surdas O surdo tem diferença e não deficiência, e a preocupação que pretendo explorar aqui, antes de tudo, trata da diferença e diversidade. O que im porta é como assumimos o sujeito surdo. Fala-se, hoje, freqüentemente de biculturalismo entre surdos ou então usa-se o termo bilingüismo. Minha posição é de que o biculturalismo e o bilingüismo mascaram normas, pois mantêm a diferença cultural surda como se ela fosse incômoda. As posições bicultural e bilingual mantêm o surdo pelo meio. É como se dissesse: você é um, mas tem de ser dois ao mesmo tempo. Esta é uma exigência da “diversidade” imposta pela sociedade anfitriã ao surdo, uma definição su jeita ainda a manter cambaleante a comunidade surda. A estratégia é visível: O universalismo que permite paradoxalmente a diversidade, mascara normas etnocêntricas (Bhabha, 1994: 208). Isto deixa claro a tentativa de impor uma língua única para todos o que nunca será possível. Entra aqui o esforço de universalizar o surdo, inclusive usando-se como artifício a integração onde se admite a diversidade, não, porém, a diferença. A cultura surda como diferença se constitui numa atividade criadora. Símbolos e práticas jamais conseguidos, jamais aproximados da cultura ouvinte. Ela é disciplinada por uma forma de ação e atuação visual. Já afirmei que ser surdo é pertencer a um mundo de experiência visual e não auditiva. Sugiro a afirmação positiva de que a cultura surda não se mistura à ouvinte. Isso rompe o velho status social representado para o surdo: o surdo tem de ser um ouvinte, afirmação que é crescente, porém oculta soci- almente. Rompe igualmente a afirmação de que o surdo seja um usante da cultura ouvinte. A cultura ouvinte no momento existe como constituída de signos essencialmente auditivos. No que tem de visual, como a escrita, igualmente é constituída de signos audíveis. Um surdo não vai conseguir utilizar-se de signos ouvintes como, por exemplo, a epistemologia de uma palavra. Ele somente pode entendê-la até certo ponto pois a entende dentro de signos visuais. O mesmo acontece com a pronúncia do som de palavras. Não adianta insistir neste ponto. Se dissermos que a escrita é do ouvinte e o surdo aprende a escrita, estaríamos cometendo equívocos. O pensamento A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 57 visual da escrita é um dos aspectos de que o surdo se serve constantemente, muito embora, hoje, os surdos evidenciem esforços demasiados em ler e escrever. A escrita do surdo não vai se aproximar da escrita ouvinte. Vejamos, sobre a escrita surda, o fato narrado por L de 40 anos: É tão difícil escrever. Para fazê-lo meu esforço tem de ser num clima de despender energias o suficiente demasiadas. Escrevo numa língua que não é minha. Na escola fiz todo esforço para entender o significado das palavras usando o dicionário. São palavras soltas elas continuam soltas. Quando se trata de pô-las no papel, de escrever meus pensamentos, eles são marcados por um silêncio profundo. Eu preciso decodificar o meu pensamento visual com palavras em português que tem signos falados. Muito há que é difícil ser traduzido, pode ser apenas uma síntese aproximada. Tudo parece um silêncio quando se trata da escrita em português, uma tarefa difícil, dificílima. Esse silêncio é a mudança? Sim é. Fazer frases em português não é o mesmo que fazê-las em LIBRAS. Eu penso em LIBRAS, na hora de escrever em português eu não treinei o suficiente para juntar numa frase todas as palavras soltas. Agora no momento de escrever, eu escrevo diferente. Quando eu leio o que escrevo, parece que não tem uma coisa normal como a escrita ouvinte, falta uma coisa, não sei o quê. Não sei se o que escrevo são palavras minhas, elas são exteriores, não fazem parte de meu contexto. Parecem não cair bem na frase, parece que a escrita do pensamento não ditar o que quero dizer. Vezes sem conta parece-me dizer coisas sem sentido. Portanto não há que se exigir do surdo uma construção simbólica tão natural como a do ouvinte. Por outro lado, é preciso manter estratégias para que a cultura domi- ii.uite não reforce as posições do poder e privilégio. É necessário manter 11111a posição intercultural mesmo que seja de riscos. A identidade surda sereferente a padrões tlr i rcnças e valores compartilhados pela maioria dos indivíduos. Essa exis tente ideologia da diversidade na sociedade atual a respeito do surdo cam- h.tleia as posições essenciais da cultura surda. Nota-se que a cultura surda n in está definida, dificilmente consegue difinir-se. Ela é assim, dispersa, várias rachaduras que o tempo vai se encarregar de reparar. 58 Carlos Skliar As relações de poder continuam presentes no que Foucault refere como discurso ou família de conceitos. Os discursos ouvintes são feitos de práticas discursivas marcadas por estereótipos. Os teóricos ouvintistas ditam regras que regulam o que deve ser dito e o que deve permanecer no silêncio. O discurso surdo inverte a ordem ouvintista, tem o peso da resistência. Rompe e contesta as práticas historicamente impostas pelo ouvintismo. E o discurso surdo continua na busca de poder e autonomia. O ouvintismo, a forma mais presente do poder Alguns ouvintes podem ficar ofendidos com a afirmação de que contribuem para ouvintizar o surdo, ou que se fale do vício de referir-se ao surdo como portador de anomalias e se reportem à exibição da experiência auditiva como superior em frente ao surdo. Na verdade, esse comportamento da maioria ouvinte somente admite ambientes ouvintes com autoridades e regras sociais. A tendência em impor representações de identidade, ou em construir identidades purificadas para se restaurar a coesão continua sobre o surdo. A afirmativa se baseia no fato de constatar-se uma diferença cultural no meio social ouvinte e surdo. Os surdos reclamam seguidamente desses ambientes. Prova disto é o depoimento de R., surda de 30 anos. É neste sentir-se rejeitado em comunicação que nos faz sentir-nos mal em família. Não há um sentir-se igual. É impossível ser feliz num clima desses. É o exílio do silêncio a que estamos sujeitos. Sujeitos a sermos devotados aos Vuvintes e sem esperanças... Eu percebo, é claro que a minha vida deve ser feita em outro grupo, com os surdos. Angústia é este senti mento. É preciso reconquistar o espaço que nos tiraram. Na verdade é uma perda angustiante. Nossa presença entre ouvintes não é legal (R.). Diante da denúncia de R. seria um erro ignorar a existência de condicionamentos e formas do ouvintismo. Ele não é uma idéia ou essencialmente uma invenção por acaso. Assume uma postura importante quando se trata de olhar as relações do sujeito surdo. O que é e como se constitui o ouvintismo? O ouvintismo deriva de uma proximidade particular que se dá entre ouvintes e surdos, na qual o ouvinte sempre está em posição de superiori A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 59 dade. Uma segunda idéia é a de que não se pode entender o ouvintismo sem que este seja entendido como uma configuração do poder ouvinte. Em .sua forma oposicional ao surdo, o ouvinte estabelece uma relação de poder, de dominação em graus variados, onde predomina a hegemonia através do discurso e do saber. Academicamente esta palavra — ouvintismo — designa o estudo do surdo do ponto de vista da deficiência, da clinicalização e da necessidade de normalização. A construção ouvintista nunca está longe daquilo que a idéia de ouvin te significa: uma noção que identifica a “nós ouvintes” em contraste com “aqueles surdos”. O principal componente é o que torna a cultura ouvinte etnocentrismo — como hegemônica, uma idéia da identidade ouvinte como superior a tudo que se refere aos surdos. Não vou ligar ouvintismo e preconceito. Não quero dizer que viver o ouvintismo é ter preconceito contra o surdo. McLaren (1997b: 213) vê o preconceito como: ...prejulgamento negativo de indivíduos e grupos com bases em evidências não reconhecidas, não pesquisadas e inadequadas. Como essas atitudes negativas ocorrem com muita freqüência, elas assumem um caráter de consenso ou cunho ideológico que é, muitas vezes, usado para justificar a discriminação. O ouvintismo também não é o mesmo que oralismo. Enquanto ideologia dominante, o oralismo, na descrição de Skliar (1997: 256), significa que: O oralismo fòi e segue sendo hoje, em boa parte do mundo, uma ideologia dominante dentro da educação do surdo. A concepção do sujeito surdo ali presente refere exclusivamente uma dimensão clínica - a surdez como deficiência, os surdos como sujeitos patológicos - em uma perspectiva terapêutica. A conjunção de idéias clínicas e terapêuticas levou em primeiro lugar a uma transformação histórica do espaço escolar e de suas discussões e enunciados em contextos médico-hospitalares para surdos. Num primeiro momento, nas leituras das narrações de vida-surda, tento delinear aqui os discursos constantes que sugerem diferenças entre formas de ouvintismo presentes em nosso meio: 60 Carlos Skliar 1. Ouvintismo tradicional: nesse discurso, os ouvintes condicionam as representações sobre os surdos de modo a não lhes dar saídas para outros modelos que não seja o modelo de identidade ouvinte. Esse oralismo é uma das formas mais fortes do poder ouvinte sobre os surdos. Os surdos dessa cena vivem na ideologia servil ao ouvinte, uma resistência radical a qualquer mudança e diferença, uma desnecessária elitização da cultura ouvinte e conseqüente rechaço e subalternização da cultura surda. Prosseguindo as filmagens do cotidiano dos surdos, E, um surdo, reclama do ouvintismo. De maneira bastante enfática ele sublinha: A ideologia do ouvintismo, diante do problema do surdo estabelece logo que o melhor para o surdo é ser como o ouvinte; assim, lhe propõe em primeiro momento a aprendizagem da fala, o uso de aparelhos sofisticados para a audição, o estudo somente em português, tiram qualquer acesso aos sinais, sem sentir o que nós surdos sentimos no profundo de nós mesmos. Surdo já conhece muito por sinais, sabe por sinais. Se o ouvinte tirar tudo isso, o surdo começará apenas a colocar as coisas na mente, sentir-se engolindo, fechando, guardando muitas ameaças contra sua identidade surda e esforçando-se ao máximo para ser como o ouvinte. Um trauma suportado diante do tio ouvinte. Analisando as colocações de E essa ideologia ouvintista é forte demais, não permite ao surdo desenvolver sua identidade, nem desenvolver uma consciência oposicional4. 2. Ouvintismo natural: é outra cena do discurso ouvintista que defende uma igualdade natural entre surdos e ouvintes, porém continua com o encapsulamento do surdo na cultura ouvinte. Admite que os surdos têm de ser bilingüistas e biculturalistas. Não esquece a questão de que o surdo precisa integrar-se numa sociedade de cultura ouvinte. Reconhece em par 4 Cheia Sandoval, citada por Harawai (1991), considerando o surgimento histórico no meio do feminismo de uma voz política chamada mulheres de cor, teoriza sobre um modelo interessante de identidade política chamado “consciência oposicional”. Essa consciência oposicional a meu ver se aplica ao surdo no que ele tem a trazer: uma cultura diferente e visual face à cultura predominantemente ouvinte. Também encontramos em McLaren referências a Richard Dyer (1988) que cita o termo “cultura da witeness” como fonte do poder branco diante do negro. Assim também entendemos o termo cultura ouvinte e cultura surda com forma e significados. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 61 te a cultura surda. Ela se move entre o reconhecimento da diferença cultural e sua negação. O bilingüismo não reconhece ainda o status total da língua de sinais, oscilando entre a aceitação e o medo. Isso prova a história de F., transcrita novamente: Me deixavam contato com LIBRAS, mas eu e minha irmã também surda fomos oralizadas. Tínhamos pouquíssimos sinais, nos comunicávamos através de mímica. Era uma comunicação pobre. Sentia que eu e minha irmã falávamos com os ouvintes e não éramos entendidas. F. mostra um ouvintismo que admite o uso de comunicação em sinais. Mas ainda há situações onde não seadmite sinais e toda e qualquer manifestação por sinais é reprimida. 3. Ouvintismo crítico: que se aproxima de uma posição solidária: admite a possibilidade da alteridade, do diferente “surdo”, identidade e autonomia lingüística. Essa é uma posição livre do ouvintismo, é a enfatização d.is diferenças culturais; uma posição radical. A distinção que se dá entre Mirdos e ouvintes é inevitável. Em qualquer sociedade predominam formas multiculturais, sendo umas culturas mais poderosas que outras. Neste tipo dr ouvintismo, a liderança cultural continua produzindo um conceito com hegemonia para qualquer entendimento da vida cultural. De maneira bastante constante, o ouvintismo crítico aceita a diferença Mirda e batalha em função da mesma, mas depende, para a sua estratégia, drssa superioridade posicionai em relação ao saber. Foucault acentua que tix iclações de poder e saber são sempre uma resposta estratégica para uma na cssidade urgente. Pareceu-me que neste tipo de ouvintismo, em certas loi mas‘de saber empírico, se assume melhor a força do ouvintismo, que ..... dc negativamente sobre a comunidade surda. Ele se torna senhor de liin.i língua majoritária; as profissões de médico, professor, fonoaudiólogo, |i* ólogo, gerente... que são mais acessíveis ao ouvinte lhe dão a aparente Mipn ioridade. Além disso, um exame do imaginário ouvinte está exclusiva- Mt* ntc baseado numa consciência soberana, segundo uma lógica detalhada |m l.i i t-.ilidade empírica. É uma situação de acomodação diante do eu supe- 11*• i I uma situação em que Scott (1995: 5) diz existir: 62 Carlos Skliar códigos disciplinares que punem, ... justificam as proibições em termos de proteção do indivíduo do abuso por outros indivíduos, não em termos de proteção de membros dos grupos historicamente maltratados pela discriminação, nem em termos das formas como a linguagem é usada para construir e reproduzir as assimetrias do poder. Diante disso, pergunto-me repetidamente se o que importa no ouvintismo é um grupo geral de idéias que está permeado por doutrinas de superioridade, racismo, estereótipo, fantasia...? Ouvintismo não é o mesmo que racismo. O racismo existe entre os surdos, um exemplo é citado por Gerner de Garcia (1997). A existência do racismo entre os surdos é claramente sobre a existência de discriminação racial das crianças surdas norte-americanas em relação às crianças surdas mexicanas. Ela afirma que as crianças surdas mexicanas sofrem ao serem admitidas em escolas de surdos em vista de a língua americana de sinais - ASL, American Sign Language - ser diferente da língua mexicana de sinais. Isso é inevitável pois a língua de sinais não é universal, e como as línguas orais, também apresenta variações — na sinalização — jamais se repetindo. Daí resulta o fato de que, se a criança surda não sabe a ASL, é considerada pobre, ignorante, menos dotada em relação à capacidade de adquirir conhecimentos. Múltiplas identidades surdas Há categorias de identidades surdas que identifico nos sujeitos surdos, cito algumas para mostrar a presença heterogênea das identidades surdas. Todas as identidades surdas apresentam facetas diferentes que podem ser facilmente classificadas. 1. Identidades surdas estão presentes no grupo onde entram os surdos que fazem uso com experiência visual propriamente dita. Noto nesses surdos formas muito diversificadas de usar a comunicação visual. No entanto, o uso de comunicação visual caracteriza o grupo levando para o centro do específico surdo. Wrigley (1996: 25), tenta descrever o mundo surdo como um país cuja história é rescrita de geração a geração... As culturas dos sinais, bem como o 'conhecimento’ social da surdez, são necessariamente ressuscitadas e refeitas dentro de cada geração5. 5 Deafness is a country whose history is rewritten from generation to generation... Sign cultures, as well as the social “know!edge”of deafness, are necessarily reborn and r emade with each generation. rosan Realce rosan Realce rosan Realce A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 63 Entendo que este tipo de identidade surda cria um espaço cultural visual dentro de um espaço cultural diverso. Praticamente esta identidade surda recria a cultura visual, reclamando à história a alteridade surda. Para ressaltar esse tipo de identidade cito o depoimento de G. de 20 anos: Se há festas de família, por exemplo, é natural o surdo procurar o semelhante surdo. Se na festa não há um semelhante surdo, a tendência é fugir para ir ao encontro do surdo onde quer que ele esteja. Somos assim. Algo atrai por ser melhor. Juntos é melhor. A maioria surda sempre está junto. Estar com amigos surdos é sentir que se tem este parentesco. É um parentesco virtual. Isto porque chegamos na profundidade de nossas relações de semelhantes. Uma semelhança forte que nos mantém vivos, unidos. Se acontecer visitas entre nós ficamos horas falando de tudo que é possível. Na família o ouvinte intervém, geralmente o pai, a mãe, os irmãos. Ficam ansiosos em relação ao tempo gasto nesta forma de comuni- cação. Nossa comunicação é uma forma de transmitirfatos, de compreendê- los, de valorizá- los na semelhança, no descompasso. O adulto surdo, nos encontros com outros surdos, ou melhor, nos movimentos surdos, é levado a agir intensamente e, em contato com ou- ims surdos, ele vai construir sua identidade fortemente centrada no ser 111 do, a identidade política surda. Trata-se de uma identidade que se sobressai ii.i militância pelo específico surdo. É a consciência surda de ser definitiva - nii iite diferente e de necessitar de implicações e recursos completamente visuais. Talvez eu devesse abrir espaço aqui aos surdos filhos de pais surdos. I ies são criados para conviver com o virtual do ser surdo sem que isso seja .... . realidade particularmente perturbadora como o é para os filhos surdos ■ li pais ouvintes. 2. Um outro tipo de identificação é a que denomino identidades sur- il.r, híbridas. São os surdos que nasceram ouvintes, e que com o tempo se .............................. surdos. É uma espécie de uso de identidades diferentes em dife- li li I is momentos, ou seja, como diz Wrigley (p. \A)conhecem uma forma §HIlófiÍca de existir através da experiência da audição. Estes surdos conhe- II in a estrutura do português falado e usam-no como língua. Eles captam i|n rxirrior a comunicação de forma visual, passam-na para a língua que Hili|iiiiiiam por primeiro e depois para os sinais. Como este é o meu caso, ■ in paiiicular, narro assim minha experiência: rosan Realce rosan Realce 64 Carlos Skliar Isso não é tão fácil de ser entendido, surge a implicação entre ser surdo, depender de sinais, e o pensar em português, coisas bem diferentes que sempre estarão em choque. Assim, você sente que perdeu aquela parte de todos os ouvintes e você tem pelo meio a parte surda. Você não é um, você é duas metades. Nascer ouvinte e posteriormente ser surdo é ter sempre presente duas línguas, mas a sua identidade vai ir ao encontro das identidades surdas. 3. Uma outra categoria de identificação são as identidades surdas de transição. Estão presentes na situação dos surdos que foram mantidos sob o cativeiro da hegemônica experiência ouvinte e que passam para a comunidade surda, como geralmente acontece. Transição é o aspecto do momento de passagem do mundo ouvinte com representação da identidade ouvinte para a identidade surda de experiência mais visual. Normalmente, a maioria dos surdos passa por este momento de transição, visto que é composta por filhos de pais ouvintes. No momento em que esses surdos conseguem contato com a comunidade surda, a situação muda e eles passam pela des- ouvintização da representação da identidade. Embora passando por essa des-ouvintização os surdos ficam com seqüelas da representação que são evidenciadas em sua identidade em reconstruçãonas diferentes etapas da vida. 4. Identidade surda incompleta é o nome que dou a identidade surda apresentada por aqueles surdos que vivem sob uma ideologia ouvintista latente que trabalha para socializar os surdos de maneira compatível com a cultura dominante. A hegemonia dos ouvintes exerce uma rede de poderes difícil de ser quebrada pelos surdos, que não conseguem se organizar ou mesmo ir às comunidades para resistirem ao poder. Aí pode dar início ao que chamo de situações dominantes de tentativa de reprodução da identidade ouvinte, com atitudes ainda necessárias para sustentar as relações do - minantes. O depoimento abaixo foi dado por uma estudante surda de 25 anos com curso de 2o grau completo: Tenho uma amiga que não procuro muito. Tem alguns restos auditivos. Usa aparelho de audição. Ela não se aceita como surda. Ela não quer estar no mundo dos surdos e tudo faz para ser oralizada. Tem poucos amigos. rosan Realce rosan Realce rosan Realce rosan Realce rosan Realce A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 65 Quando ela foi para o II Grau não gostava de minha LIBRAS, me pedia para falar, o que jamais consenti. Notei que já nos primeiros dias fez amizade com uma colega. Elas ficaram juntas e conversaram mas isso não durou muito, pois a colega ouvinte deixou-a por outra. Dessa vez sentiu-se desanimada com a experiência. A colega não entendia bem a fala e ela não conseguia compreender bem a colega. Na verdade minha amiga não tem boa voz, é uma voz muito mal articulada porque a colega ouve mal. Ela também não conhece sinais. A sua vida parece oscilar como um pêndulo entre surdos e ouvintes, não consegue ter amigos. Além dessa identidade que nega a representação surda, suponho uma outra identidade: quando o surdo nega a identidade surda. Igualmente a enquadro nesta categoria por existir uma a representação da identidade ouvinte como superior. Esse caso preconiza uma identidade surda incompleta seja porque evitada, porque ridicularizada, ou porque premida pelo estereótipo. Há casos de surdos cujas identidades foram escondidas, nunca puderam encontrar- se com outros surdos, conseguiram adentrar-se no saber junto aos ouvintes e há casos de surdos mantidos em cativeiros pela família onde se tornaram incapacitados de chegar ao saber ou de se decidirem por si mesmos. Existem casos de aprisionamento de surdos a esta situação, cuja experiência nos foi difícil de acessar. 5. Identifiquei uma outra possibilidade que chamo de identidades surdas flutuantes6. Elas estão presentes onde os surdos vivem e se manifestam a partir da hegemonia dos ouvintes. Esta identidade é interessante porque permite ver um surdo “consciente” ou não de ser surdo, porém, vitima da ideologia ouvintista que segue determinando seus comportamentos e aprendizados. Existem alguns surdos que querem ser ouvintizados a todo custo. Desprezam a cultura surda, não têm compromisso com a comunidade surda. Outros são forçados a viverem a situação como que conformados a ela. São muitos casos e muitas histórias de surdos profissionalizados que ‘ Flutuante é o termo proposto por McLaren (1997“: 137) que, comentando em relação à branquidade, diz: “a habilidade do sujeito falante de mover-se para dentro da posição dele M-m parecer ter deixado a posição do eu ou tu (os quais são significantes vazios ou “flutuan- les” que não possuem referente fora da situação imediata). rosan Realce rosan Realce 66 Carlos Skliar vivem as identidades flutuantes, pois não conseguiram estar a serviço da comunidade ouvinte por falta de comunicação e nem a serviço da comunidade surda por falta da língua de sinais. É o sujeito surdo construindo sua identidade com fragmentos das múltiplas identidades de nosso tempo, não centradas, fragmentadas. Quando a identidade parte da comunidade surda, sem esquecer as identidades ouvintes que lhe emprestam fragmentos, constituem-se novas visões. A identidade surda dá sua continuidade. Isso significa que os surdos têm de construir suas identidades diversificadas como membros de um grupo cultural. Vejamos o depoimento de experiência e vivência de uma surda (J.) de 30 anos, que aborda a questão da dife rença dentro da família: Quando acabei a quinta série fui para uma escola de ouvintes. Não havia nada que pudesse fazer. Meus pais moravam no interior e eu precisava continuar a estudar. Na escola os ouvintes vinham até mim e falavam. Eu sentia apenas raiva e vergonha. Tudo era ditado pelos professores. Os colegas escreviam, nada ia ao quadro. Como escrever? Eu como stirda agüentava minha diferença. Chegando em casa chorava todos os dias, chorava desabafando minha raiva. Por que eu era surda? O que tinha que eu não era como os outros? Eu dava o máximo de mim. Mamãe me acalmava e eu percebia que às vezes chorava junto. Vezes houve em que ela ia à escola e falava para os professores ficarem de frente, para mim poder ler lábios, usar o quadro, providenciava um colega, para sentar junto para que eu pudesse copiar tudo. Havia fofocas e risinhos. Eu precisava de paciência, achava terrível. Mamãe sempre incentivando, apesar de tudo. Eu queria largar, sempre queria largar a escola Neste tempo fui para outro colégio. Houve interesse e os colegas começaram a aprender comunicação em LIBRAS. Foi mais calmo... De meu ponto de vista a escola de ouvintes é ruim para fazer amizades, para estabelecer relações. Um surdo com os ouvintes é duro, difícil, sofrido. Muito eu chorei. Falava à minha mãe por que eu sou surda? Só Deus sabe. Finalmente retornei à escola de surdos. (J) Nessa experiência de vida, J. diz que quer ser ouvinte. Este traço pode ser visto por diversos ângulos, mas tentarei fazê-lo acerca da identidade surda flutuante. Escolhi este exemplo para mostrar os referenciais diferencia dos nos quais J está mergulhada. É surda, mas quer ser uma ouvinte devido A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 67 às imposições que a sociedade coloca. Esse depoimento pode ser visto tam bém com a finalidade de se perceber outros assuntos como: integração, oralismo, ouvintismo, normalização, identidade surda. J. identifica as relações de poder mantidas pela família ouvinte ao mandá-la para a escola de ouvintes, bem como os mecanismos de poderes colocados pela escola para domesticar as pessoas surdas, como, por exemplo: a fala, o ditar o conteúdo. Como se justifica esta presença inútil, invisível e ostensiva do poder? Olhando Wrigley podia-se também categorizar de outra forma as identidades, por exemplos: surdos que nascem surdos, surdos que ficaram surdos, surdos filhos de pais ouvintes, surdos filhos de pais surdos, ouvintes filhos de pais surdos, intérpretes de surdos. As duas últimas categorias se aproximam das identidades surdas, no entanto são um outro campo para se constituir na pesquisa das identidades ouvintes. Identidades surdas e relações de poder As relações sociais onde se realizam as representações da alteridade surda são relações onde imperam poderes. No interior das relações sociais, sempre estão presentes relações de poder. Foucault ensinou a ver relações de poder como internas, comuns, misturadas na praticidade dos encontros. É interessante notar como os ouvintes tecem redes de poderes e como elas vêm disfarçadas sobre o discurso da fala, da integração e do colonialismo7. Exemplos de poderes criados pelos ouvintes para disciplinar e colonizar os surdos podem ser vistos em muitos lugares. Por exemplo, no Estado, que recentemente implantou a política da integração. Ele transfere para a política educacional o patrimônio, os recursos públicos. De certa forma isso pode ser interpretado como relações de poder sobre os surdos, poder que divide, distinge, reprime, explora e que forma uma grade de controle sobre uma cultura nativa. Outro exemplo é a escola onde se sobressaem bhabha (1994: 176) diz que colocar a questão colonial significa ter em contaa questão problemática da diferença cultural e racial. Para ele, posicionar-se contra essa diferença ■.ignifica colocar na prática a autoridade, através de estratégias discursivas e físicas, o poder ilcscriminatório. Aqui uso a palavra colonialismo para significar o que o ouvintismo tem dentro dessa prática. 68 Carlos Skliar certas filosofias8 de ensino — como a oralista, a bimodal, a comunicação total, a bilingüista. A prática da ouvintização assume diferentes modelos de escolarização ao surdo. Na família a desinformação sobre o surdo é total e geralmente predomina a opinião do médico, e as clínicas de fonoaudiologia reproduzem uma ideologia contra a diferença. Estes são todos mecanismos de poder construídos pelos ouvintes sob representações clínicas da surdez. O mito de que a norma para os seres humanos consiste em falar e ouvir leva a olhar para o surdo e dizer que ele é um selvagem. O pressuposto normalmente aceito é a normalização do corpo. E esta normalização do corpo evoca o sofrimento do surdo e está registrada na história. A partir da análise da política da integração, Lopes (1997: 33) fala sobre a normalização: A normalização de comportamentos sociais, de acordo com a ideologia dominante, ocorre na educação de surdos desde seu início. A formação ideológica oralista imposta aos surdos que estão integrados no sistema comum de ensino está fundamentada, entre outros aspectos, no tratamento reabilitatório da deficiência. Todos os esforços dos ouvintes estão voltados para o treinamento oral do surdo, ou seja, o meio social ou escolar, conforme esta ideologia, deve propiciar ambientes ricos em estímulos orais para que os surdos sintam a necessidade “imperiosa” do aprendizado da fala. Em minha opinião, o comportamento ouvinte em relação ao surdo é de imposição cultural, pois ignora o conceito de surdo e apega-se em diagnósticos clínicos de surdez que dizem ser o surdo um deficiente que necessita ser curado. O que mais está em jogo de poder hoje é a interpretação de poder através do disfarce da integração. 8 As filosofias de ensino mais comuns são: o oralismo, que é o holocausto lingüístico da língua de sinais. A sua implantação, como diz Skliar (1997b: 257): foi feita com o consentimento e a ctimplicidade da medicina e dos médicos, os profissionais para-médicos, os pais e familiares dos surdos, os professores ouvintes, e, inclusive, com alguns surdos que representavam então e representam, agora, os progressos inevitáveis da terapêutica, vale dizer, — o surdo que fala e da tecnologia - o surdo que escuta. O bimodal é o método de uso da língua de sinais para ensinar português. Ele cria um novo sistema lingüístico que não o usado pelos surdos: português sinalizado que em parte foi o responsável pela atual situação cambaleante de muitos signos e sinais que interferem na estrutura da LIBRAS. O método de comunicação total admite oralismo, bimodalismo, arte, teatro, ... em resumo, traz os mesmos efeitos da posição anterior. O bilingüismo, de recente implantação na América Latina e no Brasil, aproxima-se ao uso normal da língua de sinais. No entanto, no que tem de filosofia implantada pelo ouvinte, conserva em suas bases poderes ouvintes. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 69 Movimento surdo: lugar da resistência para a cidadania surda Estou entrando na temática da resistência surda, que não poderia ficar indiferente a um problema bem visível onde entram identidade e história. O oralismo educacional e o ouvintismo a que o surdo foi submetido e continuamente é submetido deu início ao movimento das Associações de Surdos. A resistência surda contra a ideologia ouvinte deu início a movimentos inclusive como ONGs. Podemos identificar as relações surdo-ou- vintes constantes como interpreta Veiga-Neto (1995: 32): O poder se manifesta em todas as relações, como uma ação sobre outras ações possíveis, as resistências têm de se dar dentro da própria trama social e não a partir de algum lugar externo: simplesmente porque não há exterioridades. A trama se constrói, se altera, se rompe em alguns pontos, se religa depois, ali ou em outros pontos, a partir desse jogo de relações de força ... Assim sendo, essas forças de resistência são construídas no interior de processos de representação da alteridade. O movimento surdo é responsável direto pelo novo impasse na vida do surdo contra a coesão ouvinte, pelo sentir-se surdo: em resumo, é o local de gestação da política da identidade surda. É no movimento surdo onde estamos mais próximos da divisão entre poder surdo e poder ouvinte, onde surge uma proximidade dinâmica da identidade surda que denominamos política da identidade, que tem sua força na alteridade e que guarda as fronteiras da identidade surda como tal. Por que surge essa resistência surda? Ela é uma força contra o poder ouvinte de ideologia dominante ouvintista. Em Foucault (1990: 24) há uma descrição desse poder: Poder é gerir a vida dos homens, controlá-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando ao máximo suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradual e constituído de suas capacidades. Esse tipo de poder descrito por Foucault revela o distanciamento que existe nas instituições que mantêm práticas discursivas incorporadas a proces sos técnicos de atuação hegemônica; as resistências dos surdos diante do 70 Carlos Skliar ouvintismo; a quebra de estereótipos para a legitimidade da experiência surda na luta contra teorias que operam como forma de controle social; a aquisição da língua de sinais como primeira língua, a exclusão da participação no movimento tecnológico que aborde o específico surdo, particularmente ao que se refere aos meios de comunicação; a existência de uma política da identidade surda tem feito com que o movimento surdo seja uma realidade hoje. As relações existentes no movimento surdo tem sua central na Federa ção Mundial de Surdos9 — FMS — e dessa passa aos organismos filiados. Mas, nem sempre as resistências surdas são necessariamente nesse centro. Elas assumem posições locais e podem se dar entre surdo e ouvinte ou em grupos onde militam surdos e ouvintes. O objetivo do movimento surdo é revelar as forças subjacentes nos estereótipos encontrados nas diversas instituições sociais, bem como, as interpretações de surdos ou ouvintes isolados não constantes da cultura surda; questionar a natureza ideológica de suas experiências, ajudar os surdos a descobrirem interconexões entre a comunidade cultural e o contexto social em geral, em suma, engajar-se na dialética do sujeito surdo. O movimento surdo não visa a desencadear lutas apenas. As lutas são os efeitos do poder, enquanto tal, existente na sociedade e que busca novo poder. As lutas sempre propõem novas movimentações que giram em torno da questão “por que o poder ouvinte faz, determina e impõe tal coisa presente?” Tenho que, com o movimento surdo, a comunidade surda transforma sua identidade de grupo estigmatizado para grupo valorizado contra a injustiça presente. O direito à vida, à cultura, à arte, à história, à participação política, ao trabalho, ao bem-estar leva a pensar uma esfera pública de luta central, das mais simples para as mais amplas e mais descentralizadas. Isso faz com que as lutas surjam imediatas ou não após a constatação do problema. No movimento estão presentes surdos e ouvintes solidários que se unem numa oposição aos efeitos das forças tradicionais ouvintes. O sucesso desta união se deve aos objetivos gerais preestabelecidos do movimento. Como 9 A FMS tem sua sede atual na Finlândia. Seus objetivos são a favor de uma política de identidade surda. Ela tem se posicionado objetivamente, pedindo às nações o respeito pelo direito de ser surdo, inclusive, propondo a adoção destes direitos em todos os campos de atividades sociais. A SURDEZ:surdo, as descrições em torno da sua língua, as definições sobre as políticas educacionais, a análise das relações de saberes e poderes entre adultos surdos e adultos ouvintes, etc. 8 Carlos Skliar Entre as múltiplas contribuições que geraram essas mudanças, é imprescindível assinalar que a divulgação dos modelos denominados de educação bilíngüe e bicultural, e o aprofundamento teórico acerca das concepções sociais, culturais e antropológicas da surdez, se constituem como os elementos mais significativos. Porém, o abandono progressivo da ideologia clínica dominante e a aproximação aos paradigmas sócio-culturais, não podem ser considerados, por si só, como suficientes para afirmar a existência de um novo olhar educacional. As limitações na organização de projetos políticos, de cidadania, dos direitos lingüísticos, e as dificuldades no processo de reorganização e de reconstrução pedagógicas, ainda sugerem a existência de uma problemática educacional não revelada totalmente. Em outras palavras, a questão não está no quanto os projetos pedagógicos se distanciam do modelo clínico, mas no quanto realmente se aproximam de um olhar antropológico e cultural. (Behares, 1993, Padden eHumphries, 1988; Skliar, Massone e Veinberg, 1995) Ainda hoje, se percebe a necessidade de uma transformação ao nível das representações que conformam os poderes e os saberes clínicos e terapêuticos. Uma transformação que supõe uma análise aprofundada sobre algumas metanarrativas — constituídas como grandes “verdades” - ancoradas na educação dos surdos. Entre estas metanarrativas, devemos focalizar a atenção nas aparentes “novidades metodológicas” que permanentemente circulam na pedagogia para surdos. E possível que estas “novidades” acertem, com lucidez, o diagnóstico da crise pedagógica atual, mas, geralmente, não conseguem desli- gar-se da questão das línguas — língua de sinais / língua oral. É óbvio que mesmo “resolvida” a questão das línguas como ponto de partida, nada assegura que a discussão sobre uma proposta significativa de educação para surdos chegue como uma simples e natural conseqüência. O fato de que a educação dos surdos não se atualize em sua discussão educativa pode revelar a presença de um sentido comum que estabelece uma cadeia de significados obrigatórios, como a seguinte: surdos — deficientes auditivos — outros deficientes — educação especial — reeducação — normalização - integração. Paralelamente a essa continuidade de significados, surge também um conjunto de contrastes binários, que são típicos deste terri A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 9 tório educacional. Isto é, a pedagogia para surdos se constrói, implícita ou explicitamente, a partir das oposições normalidade/anormalidade, saúde/ patologia, ouvinte/surdo, maioria/minoria, oralidade/gestualidade, etc. Por todas estas razões, uma nova perspectiva não deveria contentar-se simplesmente com a denúncia do fracasso na sua raiz quantitativa e na sua dimensão escolar, nem trabalhar somente sobre os mecanismos possíveis para remediá-lo dentro de uma mesma lógica discursiva. Deveria, sim, desnudar as implicações mais dolorosas que esse fracasso gerou na construção das identidades dos surdos, na sua cidadania, no mundo do trabalho, na linguagem, etc. Deveria, sim, duvidar dos poderes e dos saberes, arraigados na prática educacional, que ainda reproduzem e sustentam o fracasso, ao considerá-lo como um mal necessário no objetivo da naturalização dos surdos em ouvintes. Introdução ao segundo olhar: as representações sobre a surdez podem mudar? A temática da surdez, na atualidade, se configura como território de representações que não podem ser facilmente delimitadas ou distribuídas em “modelos sobre a surdez”. O mapeamento destas diferentes representações requereria algo mais do que uma cronologia seqüencial e descritiva das concepções. Interessa-me abordar, aqui, alguns elementos epistemológicos, ao invés de restringir todas as representações a uma oposição, didaticamente simplificada, sobre as tradicionais perspectivas clínicas ou sócio-antropológicas da surdez, que caracterizam e governam, na atualidade, todos os discursos e todos os dispositivos pedagógicos. Ainda que eu já tenha me referido, em outras oportunidades (Skliar 1997 a, b), à habitual oposição entre modelos clínicos e antropológicos, o objetivo deste trabalho é diferente. Trata-se de identificar os matizes, os espaços vazios, os interstícios, os territórios intermediários que não estão presentes nesses modelos, mas que transitam, flutuam entre eles como, por exemplo, as significações lingüísticas, históricas, políticas e pedagógicas. Por que uma análise deste tipo pode ser importante? Em primeiro lugar, porque, deste modo, se deixa de pensar numa pers 10 Carlos Skliar pectiva segundo a qual é possível afirmar que existem representações corre tas ou incorretas sobre a surdez e, mais ainda, que elas podem ser, simplesmente, limitadas a categorias de verdade ou falsidade. Por outro lado, essas representações não estão, nem necessária e nem naturalmente, separadas nas práticas discursivas e nos dispositivos pedagógi cos. Ou seja, a sua separação resulta artificial quando se trata de objetivar um determinado espaço educacional. Para exemplificar a afirmação anterior basta refletir sobre o seguinte: ainda que o modelo clínico seja entendido como o disciplinamento do comportamento e do corpo para produzir surdos aceitáveis para a sociedade dos ouvintes, em algumas representações ilusoriamente antropológicas o discurso parecer ser, ou é, o mesmo. A língua de sinais é, para ambos os casos, um meio eficaz para resolver a questão da oralidade dos surdos, mas não, por exemplo, um caminho para a construção de uma política das identidades surdas. Também sabemos que determinadas representações so - bre a educação bilíngüe — e não somente no que se refere ao caso dos surdos - podem se constituir numa ferramenta conservadora e politicamente eficaz para reproduzir uma ideologia e uma prática orientada para o monolin- güismo: utilizar a primeira língua do aluno para “acabar” rapidamente com ela, com o objetivo de “alcançar” a língua oficial. Por outro prisma, ainda que o modelo antropológico descreva a surdez em termos contrários às noções de patologia e de deficiência, não esclarece o fato de que a surdez está efetivamente incorporada dentro do discurso da deficiência - o que não constitui uma afirmação, mas, sim, uma constatação. Wrigley (1996) nos propõe pensar a surdez não como uma questão de audiologia, mas a um nível epistemológico. Esta definição não exclui o seu próprio contraste, quer dizer, a existência de representações nas quais a surdez possa ser entendida como privação sensorial, como um mundo e uma vida marcados por uma ausência. Entretanto, o conceito de epistemologia não se refere à sua habitual concepção filosófica, mas à análise das relações entre conhecimento e poder. Desse modo, incluir representações sobre a surdez como deficiência auditiva e como construção visual nos obriga a conduzir a nossa reflexão numa dimensão especificamente política. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 11 Neste sentido, as diferentes representações sobre a surdez, que atravessaram, implícita ou explicitamente, este capítulo - sem que isto signifique a abordagem específica de cada uma delas —, podem ser descritas do seguinte modo: a surdez constitui uma diferença a ser politicamente reconhecida; a surdez é uma experiência visual; a surdez é uma identidade múltipla ou multifacetada e, finalmente, a surdez está localizada dentro do discurso sobre a deficiência. Trajetórias e movimentos passados, presentes e futuros na educação dos surdos Como podem ser relacionadas, dentro de um contexto educacional mais amplo, essas representações sobre a surdez? Pode se dizer que a educa çãoum olhar sobre as diferenças 71 todos os movimentos sociais, o movimento surdo assume uma caminhada política. Mas, mesmo que busque uma política voltada exclusivamente aos surdos, nem sempre o movimento se apresenta em sua totalidade e pureza. Muitos surdos discordam de algumas medidas. Novamente a causa de muitas lutas inacabadas, a tendência aparentemente insegura da comunidade surda com respeito ao movimento, a sensação de que nem tudo é pelo surdo, o perigo de deslizar por locais cujas instituições pouco vão avançar. Isso, conforme Foucault, nos coloca em alerta para as posições onde necessitamos colocar sob suspeita os fundamentos racionalistas e humanistas que sustentam nossos discursos e práticas e que nos promete utopias. A formu lação comum de uma série de objetivos e estratégias de ação, na perspectiva surda, focaliza a perspectiva de uma sociedade onde os surdos são cidadãos normais e onde a justiça social se concretiza na resistência a todas as formas de discriminação e exclusões sociais. Este é o fator fundamental na existência do movimento que, lutando pelo surdo, resiste à complexidade da cultura vigente. E essa resistência não é no sentido de excluir a cultura vigente, mas no sentido de abrir o acesso a ela de uma forma onde se sobressaia a diferença. Para o movimento surdo, contam as instâncias que afirmam a busca do direito do indivíduo surdo ser diferente nas questões sociais, políticas e econômicas que envolvem o mundo do trabalho, da saúde, da educação, do bem-estar social. É um desafio contra todas as formas que tendem a limitar, ao invés de prosseguir aprimorando o projeto de emancipação humana. O conceito epistemológico surdo se presta a qualquer teoria e política surda. Existem os surdos? Sim. E preciso definir os surdos por suas ativida des e discursos que acontecem a partir dos limites da participação política. Considerações finais Quero enfatizar, nesta conclusão, a importância da identidade surda. Os surdos e os ouvintes que simpatizam com a identidade surda precisam tornar-se lutadores contra a certeza. E preciso começar desde logo a pensar a identidade política do surdo. Como ele pode defender-se e não perder sua capacidade de ser sujeito surdo. Como ele vai entrar em contato com a representação da política de sua identidade. 72 Carlos Skliar Quem sabe os ouvintistas se comprometam junto aos surdos por um multiculturalismo atento à especificidade da diferença, afrouxando suas posições que mantêm a estratégia de reverter o surdo à sua maneira dominan te em respeito aos direitos universais para as condições de desenvolvimento cultural e de justiça. Os ouvintistas não podem ficar apenas na linha de pequenas concessões, têm que ajudar nesta construção do mundo surdo. Importa salientar a diferença das pessoas. Respeitá-las como surdas, índias, nômades, negras, brancas... Importa deixar os surdos construírem sua identidade, assinalarem suas fronteiras em posição mais solidária que crítica. A educação, ainda que já esteja saindo do domínio do oralismo, tem que desaprender um grande número de preconceitos, entre eles o de querer fazer do surdo um ouvinte. A educação tem que caminhar no sentido da identidade do surdo, permitindo também a presença do professor surdo. Novas hipóteses podem ser levantadas, novos achados são necessários. Entre eles sobressai a urgência de dizer que o surdo é sujeito surdo. Referências Bibliográficas BHABHA, H. A questão do “outro”: diferença, discriminação e o discurso do colonialismo. In HOLANDA, H. B. de (Org.). Pós-modernismo e cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. (Tradução de: The location of culture.) FOUCAULT, Michel. Verdade e poder. In: MACHADO, R. (Org.) Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1990. p 1-14. GERNER DE GARCIA, Barbara. Lenguaje e identidad: El latino sordo en los Estados Unidos. Palestra apresentada no IV Congreso Latinoamericano de Educación Bilingüe para Sordos, Bogotá, 1997. HALL, Stuart. 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Sou Assistente Social e, desde minha entrada na escola, me sentia desafiada a participar de discussões que iam para além da prática do cotidiano escolar. Já no início de minha atuação ficou claro meu desconhecimento da realidade das pessoas surdas e de sua comunidade: esse era um desafio, que se colocava, cada vez mais urgente. Naquele momento, as perguntas que me inquietavam eram: quem é essa criança e adolescente surdos? Que forma é essa de se comunicar? Que língua é essa que me chega pelos olhos e não pelos ouvidos? Procurei, então, participar de Seminários, Congressos, Encontros, onde o tema fosse a Surdez. Nestas oportunidades eram importantes os depoimen 1 Movimentos Surdos aqui são entendidos como movimentos sociais articulados a partir de aspirações, reivindicações, lutas das pessoas surdas no sentido do reconhecimento de sua língua, de sua cultura. 76 Carlos Skliar tos de outros profissionais, dos familiares e, principalmente, dos próprios surdos. Esses momentos foram meproporcionando uma aproximação às diferentes questões ligadas à surdez, mas, principalmente, a certeza da necessidade de um estudo mais permanente nessa área. Tanto nas pesquisas, quanto nos depoimentos, era possível perceber um tema em emergência, onde diferentes abordagens vinham procurando sua legitimidade junto às escolas e às comunidades de surdos. A aproximação ao tema da surdez era, cotidianamente, tencionada com minha prática profissional, principalmente as intervenções junto aos programas de capacitação profissional, encaminhamentos e acompanhamentos, ao mercado de trabalho, de jovens surdos, provocando a inquietação em entender quais os discursos que vêm constituindo um modelo de surdo trabalhador a partir das práticas pedagógicas que envolvem programas de preparação do surdo para o trabalho. A questão da surdez, em geral, e da educação dos surdos, em particular, vem sendo atravessada por diferentes discursos, muitos deles considerados cientificamente embasados e, assim, aceitos enquanto verdade. Ao me referir aos discursos, tomo por base as análises motivadas pela chamada virada lingüística” na teorização social, onde o sujeito moderno é descentrado do mundo social: a autonomia do sujeito e de sua consciência cede lugar a um mundo social constituído em anterioridade e precedentemente àquele sujeito, na linguagem epela linguagem. (Silva, 1994: 248) Os discursos exercem um papel central nas práticas sociais. O que im porta não é saber o significado das palavras, mas como os discursos vão produzindo efeitos de poder e controle, fazendo com que as coisas sejam pensadas de um jeito e não de outro, como sendo a verdade. Interessa-me, pois, neste artigo, uma aproximação das práticas pedagógicas das escolas e dos movimentos surdos organizados, procurando reconhecer as regularidades presentes nos discursos e que determinam uma suposta legitimidade, um certo sentido de verdade ao que se fala sobre quem é o surdo trabalhador. Segundo Foucault (1996), os discursos têm um caráter construtivo, no sentido em que são práticas que formam os objetos sobre os quais falam. Ao se falar do surdo trabalhador, vão se constituindo sujeitos que se entendem como tal. Entendo, segundo a perspectiva que se inscreve em estudos da pós- modernidade, que os discursos sobre a surdez e os surdos não se apresen tam se forma homogênea. Eles estão inscritos entre diversas formações A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 77 discursivas, constituídas a partir de diferentes práticas ligadas aos campos da medicina, da pedagogia, da lingüística, entre outros. Esses saberes articulam-se através de jogos de poder que devem ser entendidos em sua historicidade, levando em conta as suas marcas institucionais, como também a posição e a situação dos sujeitos que falam nesses discursos (Fischer, 1995). Como disse Foucault, em Arqueologia do Saber, as práticas discursivas se referem a (...) um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram em uma época dada, e para uma área social, econômica, geográfica ou lingüística dada, as condições de exercício da função enunciativa. (Foucault, 1980: 136) Desde a segunda metade do século passado, persistindo até os dias atuais, a hegemonia de discursos ligando a surdez à questão médica, fez predominar uma abordagem clínico-terapêutica dentro dos projetos educacionais. A escola, desta forma, para além do espaço pedagógico, se apresenta enquanto proposta clínica de atendimento aos alunos surdos. Autores como Sanchez (1990) e Skliar (1997a), procurando contex- tualizar historicamente a Educação de Surdos, fazem referência a essa perspectiva clínico- terapêutica que tem predominado na educação e nas escolas, interferindo diretamente nos projetos pedagógicos. Segundo Skliar (1997b: 248), As idéias dominantes nos últimos cem anos são um claro testemunho de um sentido comum segundo o qual os surdos correspondem, encaixam-se e adaptam- se com naturalidade a um modelo clínico — terapêutico, versão amplificada e exagerada da pedagogia corretiva de princípios do século XX e vigentes até o momento. Ainda hoje, podemos perceber, nos discursos que circulam pelas esco las de surdos, o que Sanchez (1990), inspirando-se em Foucault, chama de pedagogia ortopédica, onde, muito mais que educar, se pretende corrigir. Práticas voltadas a fazer falar, a s e adaptar ao uso de um aparelho auditivo, são exemplos de reabilitação que se estendem para além do espaço da escola e chegam também aos locais de trabalho, onde os surdos devem se adequar às exigências do mercado que busca a eficiência e a lucratividade, dentro de uma lógica de normalização dos sujeitos. 78 Carlos Skliar Aproximando-me das práticas das escolas e dos movimentos surdos, pretendo evidenciar as relações entre os diferentes discursos que se inscrevem enquanto formação discursiva sobre a surdez, os surdos e o trabalho. Nessa tentativa, procuro perceber as compatibilidades e incompatibilidades, estabelecendo as regularidades que se inscrevem entre os discursos. (Fischer, 1995) Machado (1982) argumenta que, para Foucault, não interessa se o discurso tem uma lógica interna. O ponto de unidade do discurso, se assim se pode falar, é a dispersão: a regularidade é a dispersão. Para Foucault, a análise do discurso vai em busca de regularidades que estão dentro de uma “nuvem de enunciados”2. Assim, os discursos não se organizam como tratados, mas sim em fragmentos, aforismos, máximas, ensaios (Veiga-Neto, 1996b). Como disse o filósofo francês, os discursos devem ser tratados como práticas descontínuas, que se cruzam por vezes, mas também se ignoram ou se excluem.(Foucault, 1996: 52) Interessante, nessa perspectiva, é a idéia de campos discursivos, constituídos a partir de diferentes formações discursivas, por onde as subjetivida- des vão sendo formadas. Como bem explicita Popkewitz (1995: 203): A importância da idéia de campo discursivo (o que Foucault cha ma de “região”) está no fato de que ela nos permite focalizar a forma como os discursos historicamente construídos em locais fisicamente diferentes juntam-se para formar uma plataforma a partir da qual a individualidade é definida. A individualidade parece transcender eventos e ancoragens geográficas sociais particulares. Campos discursivos não dizem respeito a um contexto onde os discur sos se efetivam, ou seja, não dizem respeito ao espaço físico onde eles se produzem. Referem-se, sim, aos discursos que determinam regras, que instituem padrões institucionais, que classificam, a partir de um espaço 2 A partir de uma perspectiva foucaultiana, referindo-se à arqueologia, Díaz (1993) entende que enunciado não é uma palavra, uma frase ou proposição, podendo, no entanto, ser um deles. Não precisa ter verbo e sujeito. Mas não existe solto - está sempre amarrado a outros enunciados. A expressão “nuvem de enunciados” traz a idéia de algo não rígido, porém “flutuando” entre tantos outros enunciados. Popkewtiz (1995), seguindo a mesma perspectiva, diz que o mundo é constituído a partir das práticas discursivas e não discursivas, quando se falam delas: não apenas dando-lhes nome, mas falando delas enquanto enunciado (discurso legitimado). A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 79 epistemológico particular, onde são formadas subjetividades e onde há desdo bramento de poder. Pensando em diferentes discursos, envolvidos nos campos discursivos, onde sujeitos surdos trabalhadores são formados, pretendo apresentar, en tre tantos, alguns daqueles que considero estarem em jogo na construção desse campo que se refere à surdez, à educação e ao trabalho. Esses discursos estão ligados, de forma privilegiada, a uma lógica da deficiência a ser superada, ao sentido libertador do trabalho, levando o sujeito surdo à conquista da autonomia, como também à necessidade, inevitávelsegundo alguns discursos, de integração dos sujeitos surdos com uma “sociedade ou- vinte”. Outros discursos encontram-se envolvidos nesse campo discursivo, porém, para fins desse artigo, considero necessária uma delimitação. Esses são discursos que permeiam as práticas institucionais, interferindo em diferentes instâncias da vida das pessoas surdas, incluindo, também, a formação do sujeito trabalhador. A escola de surdos e o trabalho: um tema há muito presente As escolas de surdos podem ser consideradas um locus privilegiado de cruzamentos de discursos em relação ao surdo e ao trabalho, e vêm atuando de forma direta no que podemos chamar de formação de surdos trabalhadores. Essa formação não se resume à aquisição de conhecimentos considerados úteis e necessários ao exercício de uma profissão, mas atua diretamente no que se refere a um disciplinamento do sujeito para uma melhor adequação às necessidades do mundo do trabalho. Wrigley (1996), em seu livro Politics of the Deafness, ao fazer uma genealogia das identidades surdas, se refere à educação de surdos centrada, quase que exclusivamente, no treinamento comportamental a fim de produzir surdos aceitáveis para a sociedade dos que ouvem. Varela (1995) apresenta um esboço teórico interessante, na tentativa de compreender as transformações que ocorreram nas instituições educacionais desde o Renascimento, onde a pedagogização dos saberes fez surgir a escola como a entendemos atualmente, e onde o disciplinamento dos saberes acompanha também um disciplinamento dos corpos. Diz Varela (1995: 90): 80 Carlos Skliar O Estado, a partir dos postulados da Economia Política, em rela ção com o desenvolvimento das forças produtivas e com a necessidade de governar os sujeitos e a população, empreendeu uma ampla reorganização dos saberes servindo-se de diferentes procedimentos. E, assim, frente a saberes plurais, polimorfos, locais, diferentes segundo as regiões, em função dos diferentes espaços e categorias sociais, o Estado, através de suas instituições e agentes legitimados (entre eles, desempenharam um papel destacado os professores) pôs em ação toda uma série de dispositivos com a finalidade de se apropriar dos saberes, de discipliná- los e de pô-los a seu serviço. O surgimento da escola moderna e o início da industrialização compartilham da organização dos saberes que vão dando sustentação a uma nova ordem nas relações sociais e econômicas. Nas escolas de surdos, podemos encontrar indícios de uma relação entre os objetivos das escolas e as necessidades emergentes de sujeitos preparados para ingressar nas fábricas. Um exemplo disso está numa publicação do Instituto Nacional de Jovens Surdos de Paris3, comemorativa aos seus 200 anos de fundação, onde, entre fotos e gravuras, vão sendo contadas situações da rotina vivida por seus alunos. Pude ver, nesses relatos, que a questão do trabalho era um dos objetivos da escola. Nas primeiras páginas da publicação, está o desenho de um brasão, lembrando luzes que se espalham, sob uma base de ramos de oliveira, onde estão inscritas as palavras-chave do Sistema de Ensino de Surdos-Mudos4: religião, fala artificial, língua escrita, arte de desenho, profissões, ginástica, linguagem de ação e moral, todas elas cercando uma outra palavra que está no centro — dactilologia. A presença da palavra profissões dentro do que era considerado sistema de ensino, pode demonstrar o 3 O Instituto Nacional de Jovens Surdos de Paris é considerada pelos historiadores da educação de surdos como a primeira escola pública para surdos, fundada por Abade de l’Epée no final do século XVIII. 4 No original: Système d’enseignement des Sourds-Muets. Surdo-mudo era o termo utilizado na época para se referir às pessoas surdas. Essa designação ainda persiste no senso comum. A comunidade surda organizada vem procurando alterar esta designação: eles querem ser chamados de surdos. Para isso, são realizadas campanhas, impressos cartazes no sentido de riscar a palavra mudo. Mudo é quem não pode falar: a surdez não interfere nos órgãos da fala. Para os surdos, a forma natural de se comunicarem é através do uso da Língua de Sinais, a partir dela, os surdos se comunicam, interagem, expressam seus sentimentos, suas opiniões. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 81 quanto a questão do trabalho não era considerada como algo fora da escola, mas, fazendo parte de seu conjunto de objetivos. Na mesma publicação, está uma seção intitulada “Corpo e Trabalho”, que trata especificamente do tema do trabalho dentro da instituição. Nela são especificadas as habilidades profissionais a que tinham acesso os alunos surdos do Instituto: encadernação, artes plásticas, confecção, marcenaria, artes gráficas. O sentido da aprendizagem dos ofícios era possibilitar ao aluno surdo uma atividade que evitasse que ele fosse, no futuro, uma carga para a família, para a comunidade, ou para associações de caridade. Trata- se de um interessante relato da rotina diária dos alunos desde o despertar, pela manhã, até a hora de dormir. Pouco se fala sobre as oficina s. Referências a elas são encontradas apenas nos relatos dos momentos em que os grupos de alunos para lá se dirigiam. O que chama a atenção é o disciplina mento narrado, tanto em relação aos horários, quanto à formalidade de cada atividade. Fica evidenciado que, para além do aprendizado de um ofício, os jovens alunos surdos vinham sendo disciplinados a uma rotina que atendia ao ritmo das fábricas que surgiam na época. A socióloga dinamarquesa Jonna Widell (1992) faz um relato histórico da vida dos surdos da Dinamarca, apresentando uma relação bastante próxima entre a escola e a associação de surdos durante o período de 1866 — 1893, onde o estímulo e envolvimento dos professores era considerado relevante. Os adultos surdos eram estimulados a se tornarem professores da escola e, também, a escola ainda contribuía de uma grande forma para a integração da comunidade de surdos no mercado de trabalho, (idem, p.23) Em outro momento do mesmo texto, relatando uma fase da história dos surdos, a qual a autora chama de fase do isolamento, a escola se distingue por ensinar às crianças a fala e a disciplina, consideradas necessárias para a inserção no mercado de trabalho. Está aí, também, um entendimento da surdez enquanto algo a ser reabilitado, sendo esse o discurso hegemônico nas escolas do final do século e ainda presente, mesmo em décadas mais recentes, em diferentes escolas para surdos. Em nossos dias, encontramos diversos programas de informação e orientação profissional organizados nas escolas de surdos. A realização desse tipo de programa é justificado como parte integrante do processo de reabili 82 Carlos Skliar tação, possibilitando a sua (cio surdo) plena integração à sociedade5. (Strobel, 1995: 73) O sentido de reabilitação pode ser facilmente encontrado em diferentes projetos direcionados às questões do trabalho nas escolas de surdos. Isso pode ser associado à concepção clínica, já referida anteriormente, e que entende o surdo enquanto sujeito deficiente, a partir da falta de audição, e que, segundo Padden e Humphries (1988), acabam por determinar a forma de interpretar todos os outros aspectos de suas vidas. É interessante pensar que, se a escola de surdos atende a crianças e jovens que ainda não foram inseridos no mercado de trabalho, é estranho, e até equivocado, falar em reabilitação, como se fosse necessário reparar algo ou alguém que já falhou. Como atividade diretamente ligada à capacitação para o trabalho, muitas escolas de surdos organizam, dentro de seu próprio espaço físico, a exemplo do Instituto Nacional de Jovens Surdos de Paris, oficinas de aprendizagem de ofícios. Diferentes escolas, na América Latina, têm explicitada, entre seus obje tivos, a preocupação com a preparação para o trabalho, ou o treinamento profissional.Vários projetos são pensados e executados por essas escolas. Encontros e Seminários são organizados, procurando alternativas para uma maior eficácia dessas ações. Em 1993, durante um Seminário sobre a Integração do Surdo6, um dos temas discutidos foi a educação para o trabalho. Dos projetos apresentados durante esse evento, vários desenvolvem atividades de oficinas de treinamento profissional, com maior freqüência em áreas como marcenaria, corte e costura, cabeleireiro e cerâmica, bem como, mas com menor freqüência, em áreâs como técnico em prótese dentária, técnico eletricista, serigrafia, reparador de calçados. Essas oficinas, na grande maioria, são 5 Programa de Informação e Orientação Profissional. In: STROBEL, K.L; DIAS, S.M.S. Surdez: abordagem geral. Curitiba: APTA, 1995: 73 - 77. Essa publicação é distribuída pela FENEIS. 6 Seminário Internacional de Estimulação Precoce e Integração do Surdo, realizado em São Paulo, etltre os dias 24 a 28 de agosto de 1993» promovido pela Christoffel Blindenmission (CBM), entidade alemã que financia projetos de educação para surdos e cegos em várias partes do mundo e que contou com a participação de 21 entidades ligadas à educação de surdos na América Latina e Caribe. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 83 montadas a partir das possibilidades financeiras para sua manutenção, como também, através da escolha da direção das escolas sobre o que se entende por melhor profissão para os surdos. Existem exemplos de escolhas de oficinas que não levam em conta nem mesmo as possibilidades de exercício futuro de uma profissão que dê con dições de sobrevivência aos jovens surdos. Exemplos disso são projetos de escolas de pequenas cidades do interior, onde a média da escolaridade dos alunos surdos não passa das quatro primeiras séries do Io grau, investindo em cursos de qualificação profissional em Informática. Não estou, aqui, me referindo a projetos que se utilizam dos computadores como instrumento pedagógico, mas sim àqueles que têm o objetivo claro de preparar para o trabalho com computadores. Cabe, ainda, assinalar que cursos liga - dos à informática foram implantados em uma época de crescente interesse por computadores, onde grandes empresas e bancos necessitavam de mão- de-obra específica para a digitação. Por outro lado, assistimos, atualmente, a uma mudança nesse quadro, onde a cada dia são dispensados grupos de jovens digitadores, devido aos avanços nessa área, onde os auto-serviços vêm tomando conta do mercado. Importante assinalar que essas escolhas de atividades profissionais são, em grande parte, motivadas pela crença de muitos pais e educadores de que a informática, por exemplo, é a atividade ideal para os surdos. Outros projetos privilegiam ofícios que não exigem escolaridade mais avançada, mas que possibilitam um trabalho mais individual, sem a necessidade de contato freqüente com o público.7 Nos exemplos até aqui apresentados, quero assinalar o quanto as esco lhas realizadas pelas escolas, tanto nas oficinas quanto em cursos profissionalizantes, levam em conta o que os grupos de pessoas consideram adequa 7 Tanto em contatos formais quanto informais com professores das escolas de surdos, a referência a atividades profissionais, em sua maioria, vinha acompanhada desses requisitos. Considero oportuno assinalar que grande parte das escolas de surdos na América Latina proporciona escolaridade de séries iniciais (correspondendo à 4a série de Io grau no sistema brasileiro). Os surdos que pretendem continuar os estudos, inserem-se em escolas em regime de integração, recebendo atendimento paralelo em entidades com programas de reforço escolar e de preparação para o trabalho. No Brasil, além de algumas escolas com as séries iniciais, também há escolas, em diferentes estados, que possibilitam o I o grau completo. Em nível de 2o grau, existem duas escolas no RS (uma pública estadual e outra de ensino privado), e uma no Rio de Janeiro (pública federal). 84 Carlos Skliar do para os surdos: há uma quase unanimidade entre educadores de surdos em reconhecerem certas atividades como áreas naturais para os surdos, como, por exemplo, a informática, o desenho, a marcenaria, pois consideram essas, atividades que exigem atenção, concentração — atributos divulgados como próprios das pessoas surdas. Serviços como a orientação profissional e o encaminhamento para o emprego se organizam cada vez com maior freqüência nas escolas de surdos. Profissionais como assistentes sociais, psicólogos, orientadores educacionais, ocupam esse espaço, desenvolvendo as mais variadas atividades desde palestras, entrevistas, visitas, e até mesmo utilizando testes psicológicos para medir aptidões. O compromisso assumido por essas escolas em garantir ao seu aluno surdo um emprego, comprovando a eficiência do processo educacional, leva as mesmas a se constituírem, poderíamos dizer, em agências de emprego. Alunos surdos e seus familiares vão até esses profissionais na certeza de os mesmos atenderem satisfatoriamente seus anseios por um emprego e a possível independência financeira. Wrigley (1996) argumenta que surdez e pobreza se conectam de forma muito imediata. As dificuldades, vividas por grande parte das famílias, ligadas à falta de emprego, ao subemprego e à pobreza, resultam em um difícil acesso à informação adequada e aos processos de tomada de decisão, fazendo com que alunos surdos e familiares procurem, nas escolas e nos movimentos de surdos, apoio e auxílio. A legitimidade dessas práticas encontra seu respaldo no conhecimento científico que, se supõe, têm esses profissionais sobre a surdez e, também, sobre os mecanismos de inserção social. Vimos, assim, que a questão do trabalho vem perpassando os espaços escolares desde a constituição da escola moderna. Nas últimas décadas, isso se mostrou cada vez mais evidente, principalmente nas décadas de 60/70, quando a teoria do capital humano colocou de forma precisa e unidirccional a relação entre educação e desenvolvimento econômico no contexto histórico do capitalismo (Gentili, 1995: 193). A promessa de que através da educação se conseguiria ascender a um lugar de trabalho alimentou diferentes projetos educacionais. Vivemos, atualmente, uma transformação desse discurso integrador. Gentili (1997) desenvolve uma argumentação sobre a desintegração da promessa integradora, onde a lógica do pleno emprego vem sendo substituída, nesses tempos neoliberais, pela lógica da empregabilidade, a partir do desen A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 85 volvimento das competências individuais. A escola de surdos, inserida nes se contexto, vê, à sua frente, desafios relacionados a seus objetivos e também à operacionalizaçao de seu projeto pedagógico. Associações e clubes de surdos promovendo ações l igadas ao mundo do trabalho: o surdo se narrando enquanto trabalhador A maioria da comunidade surda consistia de trabalhadores especializados, e era característico do período que o objetivo da associação surda fosse semelhante ao objetivo das associações de trabalhadores. (...)Além disso, pretendiam encontrar emprego para trabalhadores especializados que estivessem desempregados.(Widell, 1992: 21) A citação acima refere-se ao relato que a socióloga dinamarquesa faz sobre as fases históricas da cultura surda, mais especificamente, ao surgimento das associações de surdos no período entre 1866-1893. No texto, são várias as referências aos objetivos e realizações dessas associações, sendo que, entre ações de lazer, recreação e assistência, também a preocupação com o trabalho era privilegiada. A autora, inclusive, se refere à primeira associação de seu país como sendo formada a partir do encontro de artesãos, motivados por iniciativas semelhantes ocorridas em outros países. Os registros encontrados fazem referência à situação dos surdos da época. Grandeparte desses sujeitos se constituíam em mão-de-obra mal escolarizada, ocorrendo exploração por parte das indústrias. As associações, então, tinham um papel fundamental no treinamento desses surdos, como também nas negociações, no sentido de conquistas legais de garantia à educação e ao trabalho. Widell segue seu relato, dizendo que nas primeiras décadas desse sécu lo égraças à socialização terciária na associação dos surdos-mudos que a comunidade surda aprendeu a ascender socialmente no emprego. Era na associação que as soluções para problemas como afrontas, sindicatos, operários, etc. eram discutidos. (1992: 36) A preocupação com o trabalho esteve sempre associada com a possibi lidade de independência, de autonomia das pessoas surdas. Nas últimas décadas, principalmente após o Ano Internacional dos Deficientes, promovido pela ONU, no ano de 1981, a questão do trabalho foi inserida num discurso de conquista de cidadania. 86 Carlos Skliar As associações de surdos, juntamente com o movimento de pessoas portadoras de deficiência8 (cegos, deficientes físicos, mentais) iniciaram campanhas intensas no sentido de propagar os direitos dos cidadãos com deficiência: direitos a atendimentos qualificados, à educação, ao lazer, à profissionalização, ao emprego. As ações reivindicatórias por leis que garantam o acesso ao trabalho são prioridades das associações, e isso ocorre de forma intensiva em diferentes países. No Brasil, são conquistas desses movimentos a lei de reserva de mercado (Constituição Federal, art. 37°, inciso VIII) e a Instrução Normativa N.° 5 de 30/08/91 do Ministério do Trabalho e da Previdência, que institui o programa de treinamento profissional junto às empresas. Essa Instrução Normativa refere-se ao trabalho para pessoas portadoras de deficiência que oferece, nas indústrias, atividades com fins terapêuticos, de reabilitação, e que ocorre sob a tutela de entidades que tenham o objetivo de assistir o deficiente. Essas leis partem de uma concepção de sujeito a partir de sua deficiência, e as ações daí efetivadas remetem à reabilitação e à normalização. Esse é um ponto que considero importante na discussão sobre a educação dos surdos e o trabalho, uma vez que encontramos, tanto nas escolas quanto nas associações, discursos que procuram demonstrar as competências, a eficiência das pessoas surdas. Discursos como esses estão inseridos numa lógica neoliberal e, utilizados por esses grupos, reinscrevem-se na lógica da deficiência. Padden (1993)9, em entrevista para uma revista, fala sobre as reações das pessoas surdas ao termo descapacitado ou deficiente. Segundo ela, esse 8 O termo pessoas portadoras de deficiência - PPD - é utilizado pela grande maioria de associações de cegos, deficientes físicos, deficientes mentais, como também pelos surdos. Setores ligados à Educação, como secretarias de governos estaduais e municipais, bem como o Ministério da Educação utilizam o termo pessoas com necessidades educativas especiais. Por ocasião da II Conferência Estadual de Assistência Social do Rio Grande do Sul, realizada entre os dias 16 e 18 de outubro de 1995 em Porto Alegre, RS, houve calorosa discussão em relação ao termo a ser utilizado nas diretrizes da Assistência Social do estado. O repre sentante de uma das Associações de Cegos reivindicou o termo PPD, uma vez que, segun do ele, necessidades educativas especiais todas crianças e adolescentes necessitariam, esca pando, assim, do termo as especificidades dos cegos, surdos, paraplégicos. Utilizo, então, nessa proposta, a forma como esse sujeito se nomeou, a ele e aos que ele representav.i naquele evento. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 87 termo tem uma finalidade política nos Estados Unidos, significando dinheiro de fundos para apoiar as pessoas surdas. Fundos para que as pessoas tenham acesso a telefone, canais de TV, etc. Assim, o termo passa a ter uma conotação útil e desejada. Porém, quando o caso é referir-se à Língua de Sinais e à cultura das pessoas surdas, há uma compreensão equivocada no uso desse termo. Também encontramos elementos para essa discussão em Wrigley (1996), onde o autor comenta as incertezas entre os líderes surdos sobre as estratégias no uso de termos que os identificam como incapacitados. A tensão entre esses diferentes termos é uma constante nos pronunciamentos encontrados em documentos, reportagens e material de divulgação veiculados pelas associações de surdos em nosso país. É muito comum o uso do termo deficiente com a letra d riscada, evidenciando uma tentativa de mudança de concepção. Mesmo fazendo referência a uma negativa ao enunciado da deficiência, esses discursos falam desde uma visão binária, onde um elemento tem sua comprovação a partir da existência/convivência com outro termo opositor que definiria a norma. Skliar (1997b: 263), propõe o abandono das grandes narrativas e dos contrastes binários na educação de surdos: A questão das oposições binárias na educação dos surdos - nor- malidade/anormalidade, surdo/ouvinte, maioria (ouvinte)/minoria (surda), oralidade/gestualidade, etc. — aparece entretanto hoje como um dos fatores de risco mais nocivos na análise da realidade educacional relativa aos surdos e cujo enraizamento ideológico parece tão inevitável como insuperável. Poderíamos incluir, ainda, a oposição eficiente/deficiente que, nas rela ções de trabalho, apresentam-se enquanto discursividade predominante. Ao procurar riscar a letra d, acaba-se por restituir, ou mesmo reinscrever, o discurso hegemônico da deficiência. Dentro dessa argumentação, 1 I ntrevista dada por Carol Padden ao WFD News (Magazine of the World Federation of ilie Deaf- Março 1993 - p. 5 a 8). 88 Carlos Skliar Davis'°(apud Silva, 1997), e também Wrigley (1996), fazem referência a uma distinção comum na língua inglesa aos termos surdo (fato físico da surdez) e Surdo (surdos enquanto grupo cultural e comunidade lingüística). Davis (apud Silva, 1997: 9), embora reconhecendo essa distinção como estratégia política, ressal ta que paradoxalmente, ao admitir que, afinal, existe um núcleo físico que pode ser separado de sua definição social e cultural, essa operação acaba por restituir aos discursos dominantes sobre a surdez parte de sua eficácia retórica. A eficácia desses discursos dominantes está na normalização, no controle, no que Skliar (1997b: 259) denomina de ouvintismo dos surdos a partir das práticas pedagógicas. Quero argumentar aqui que não existe o discurso dos ouvintes, poderosos, contrapondo-se ao discurso dos surdos. Tanto nas escolas quanto nos movimentos surdos, percebemos falas e práticas relacionadas a uma deficiên cia a ser superada, sendo que um dos momentos privilegiados para isso é o ambiente de trabalho. Num cartaz distribuído pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos — FENEIS (s.n.t.), há uma chamada nesses termos: Procuram-se empresários que exijam dedicação e eficiência. Entre desenhos de surdos desempenhando funções de digitadores e de operadores de máquina de xerox, está o seguinte texto: O trabalho é o principal meio de integração do homem na sociedade. É através deste que o indivíduo comprova sua capacidade igualitária de produção. Com os convênios firmados pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos - FENEIS, o surdo vem conquistando um espaço maior e demonstrando seu potencial em várias áreas, aumentando assim o interesse das grandes empresas. LUCRE INVESTINDO CERTO NO SEU PESSOAL. As práticas das escolas e dos movimentos surdos, no sentido de encaminhamentos ao trabalho, muitas vezes se aproximam de uma tutela. Uma instituição, um grupo, toma para si o encargo de “lutar por” condições de reconhecimento da competência dos surdos, dizendo o que ele é. Em uma 10 O livro Enforcing normalcy: disability, deafness and the body (Nova York, Verso, 1995), escritopor Lennard J. Davis, é utilizado nessa proposta a partir do artigo “A política e a epistemologia da normalização do corpo, de Tomaz Tadeu da Silva, a ser publicado na Revista ESPAÇO, INES- RJ, no prelo. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 89 reportagem sob o título Surdos X Mercado de Trabalho está dito que esse trabalho realizado pela FENEIS faz com que muitas empresas passem a ver o surdo como uma pessoa capaz de trabalhar, produzir, enfim, ser útil à sociedade. (Braga, 1992: 4) Muitas associações de surdos somam esforços com entidades representativas de pessoas portadoras de deficiência tais como cegos, paraplégicos, entre outros. Realizam ações conjuntas junto aos governos e aos empresários, procurando a garantia de seus direitos. Dentro do registro das deficiências eficientes encontramos uma carta aberta aos empresários de Campo Grande — MS (conforme anexo 4), divulgada pela Secretaria de Educação daquele estado em conjunto com um centro de atendimento aos surdos, cuja diretora, na ocasião, era uma professora surda. É normal que você empresário sinta algumas dúvidas em dar emprego a uma pessoa portadora de deficiência. Talvez nunca tenha pensado nisso. Mas isso pode ser uma vantagem. Porque ele possui a motivação, dedicação e força de vontade necessárias para aprender uma profissão. Acreditar nas capacidades profissionais de uma pessoa portadora de deficiência é dar-lhe a oportunidade de as poder comprovar. A Secretaria de Educação desenvolve um projeto de integração do portador de deficiência no mercado de trabalho, o qual visa ao treinamento dentro da Empresa, nas atividades compatíveis às suas habilidades e interesses. Para a realização deste projeto, é firmado um convênio entre Secretaria de Estado (sic) de Educação e o empresário, onde compete à Secretaria de Estado de Educação/CEADA o encaminhamento, a supervisão e o fornecimento dos meios necessários à aprendizagem e à realização do trabalho. (Secretaria Estadual de Mato Grosso, s/d: 1) Poderíamos, a partir desse texto, pensar que o empresário que participa desse programa tem todas as garantias de receber em sua empresa um traba lhador eficiente, a partir das intervenções de instituições especializadas para esse fim. Assim, através de programas como esse, sob certa orientação, é possível transformar a deficiência em competência. Walkerdine (1995), explicitando o pensamento de Foucault acerca da regulação dos sujeitos, se refere à abordagem científica em relação ao raciocínio das crianças, falando sobre as estratégias de governo no sentido de transformação dos desvios em características desejáveis: 90 Carlos Skliar Isto é parte central da moderna estratégia de governo na qual um cidadão governável, obediente e cumpridor das leis deve ser produzido por técnicas que não são necessariamente técnicas de supressão direta, mas que transformam as características desejáveis em normais e naturais. Todos os desvios destas normas aparecem, pois, como patologias medicalizáveis a serem corrigidas. (Walkerdine, 1995: 210) Os empresários não precisam se preocupar com o desvio, com a deficiência, uma vez que o programa faz o acompanhamento, a supervisão e o fornecimento dos meios necessários à aprendizagem e à realização do trabalho (Mato Grosso, s/d: 1). O programa incorpora-se às “tecnologias” no sentido da regulação e da produção de uma “verdade” sobre um surdo adequado às exigências do mercado de trabalho. Considerações finais O tema da surdez vem, ao longo da história, sendo explicado, fundamentalmente, por médicos, lingüistas, psicólogos, a partir de uma lógica que o enquadra numa questão médica, terapêutica: surdez enquanto falta e deficiência. A educação dos surdos, por muito tempo ligada a essa matriz particular de saber, vem se desenvolvendo através de diferentes projetos educacionais que se inscrevem numa tentativa de normalização/ouvintização dos sujeitos surdos. Compreendo, como Wrigley (1996: 20) que a surdez é um problema epistemológico, entendendo epistemologia" em seu sentido político, nas suas relações de saber/poder envolvidos nos discursos que falam dos sujei tos surdos. Ao falar, principalmente a partir de um registro privilegiado (modelo médico, por exemplo), ocorrem exclusões de uma forma de conhecimento, de uma modalidade de comunicação e de uma identidade social e humana. Pensar a surdez sob o foco da epistemologia requer um descentramento do sujeito surdo, passando a perguntar sobre as práticas discursivas e não discursivas que constituem esse sujeito. Essas práticas se dão nos espaços das escolas, como também junto aos movimentos surdos. 11 Epistemologja é utilizado nesse artigo, a partir do entendimento dado por Popkewitz (1995: 207): ...numa epistemologia social (um descentramento do sujeito) não consiste em eliminar aspráti cas de mudança social, mas em desafiar as convenções nas quais essas práticas ocorrem, em tornar problemático o sujeito que tem sido tão central à pesquisa moderna e a seus efeitos regulatórios. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 91 Segundo Popkewitz (apud Silva 1994) e Veiga-Neto (1995), os discursos, ordenados de uma certa maneira, moldam o mundo de tal forma que não há sentido fora desse registro. Numa perspectiva pós-estruturalista, todo saber é colocado sob suspeita, todo saber é visto como relação social. (Silva, 1997) Esse artigo não tem a pretensão de enquadrar as escolas e os movimentos surdos dentro de uma escala de valor entre o certo e o errado. Eles não estão em julgamento. Também não se trata de buscar o discurso verdadeiro sobre a surdez e os surdos. Se há algum mérito na presente proposição, espero que seja, simplesmente, a possibilidade de “mexer” com as essencia- lidades que vêm naturalizando um sujeito surdo trabalhador. Os discursos resultantes desse olhar investigativo será apenas mais um entre tantos discursos, porém tentando ver de outros lugares, ensaiando outras possibilidades de se pensar sobre esses sujeitos surdos inseridos no campo do trabalho. Referências Bibliográficas BRAGA, Adriana. Surdos x mercado de trabalho. Desafio de hoje. fev. 1992, p.4. BRASIL. Constituição Federal. Lei Federal n. 8.069 de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Esta tuto da criança e do adolescente e dá outras providências. Porto Alegre: CMDCA, 1996. Ministério do Trabalho. Instrução Normativa n.5 de 30 de agosto de 1991. Dispõe sobre a fiscalização do trabalho das pessoas portadoras de deficiência. 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O que pretendo com a proposição — “De onde olhar: a arquitetura do tema” — é dar limites e traçar contornos provisórios que possibilitem, tanto ao(a) leitor(a), quanto a mim mesma, saber de que lugar, de que posição me permito ou of ereço, como ponto estratégico, focalizar olhares sobre o tema proposto. Os lugares nos quais me proponho situar são constituídos de recortes particularizantes nos campos de conhecimentos dos atuais “Estudos Sur 1 Ao referir a “construção arquitetônica” me volto para as formas de governo, no sentido foucaultiano, ou seja, as maneiras de governar - as disponibilidades (os espaços) e a organi- zação dos espaços - onde o jogo das coisas (poder - saber) constitui uma história (aquilo que se fala da história constitui uma história - tem um sentido). 2 O que emprego como “prática discursiva, não deve ser entendida como a operação expressiva pela qual um indivíduo formula uma teoria, um desenho, uma imagem, nem com a atividade racional que pode ser posta em obra em um sistema de inferência nem com a “competência” de um sujeito falante quando constrói frases gramaticais...” (FOUCAULT, 1995: 198). E sim como sendo “El discurso, que tiene su proprio modo de existencia, su propia lógica, sus propias regias, sus propias determinaciones, hace ver, encaja con lo visible y lo solidifica o lo diluye, lo concentra o lo dispersa” (Larrosa, 1995: 66). (In PALAME- DESSI, 1996: 193) 96 Carlos Skliar dos”3 e dos “Estudos Culturais”4, com os quais buscarei tecer algumas inter- relações e puxar entre eles um viés de transversalidade com as questões de gênero e sexualidade. O movimentar-me por entre e nestes lugares está corporificado como os primeiros passos de bebê que, aqui, são dados em direção a um pensar ref lexivo, sem a pretensão de instituir ao pensado o caráter de torná-lo o “diferente”, o “completo”, o “exaustivo” e o naturalmente verdadeiro. Ao transitar por estes lugares, situar-me-ei perifericamente, mas com o cuidado necessário para andar numa perspectiva de abordagem pós-estruturalista e para afastar-me de toda e qualquer tendência que caracterize a busca de um ponto centralizador. Isso não quer dizer que não buscarei ao longo deste ensaio estabelecer pontos, mas que serão vários pontos em transição onde cada um será uma ancoragem (não estática, mas com sentido de movimentos) para um novo ângulo de leituras possíveis. O foco, a partir do lugar “Estudos Culturais”, é dirigido em busca da emergência da mulher surda, e coincide com o olhar proposto por Hall (1997), que mostra que são as identidades que, por tanto tempo, mantiveram o mundo social em declínio e fragmentado. Para ele, isso é denominado pela assim chamada “crise de identidade” que é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo. Essas identidades em crise estão sendo questionadas, “descentradas”, isto é, “deslocadas ou fragmentadas”5. Uma vez que o sujeito, até então 3 Ver trabalhos de DAVIS. J. Lennard. Disability, deafness and body. Nova York: Verso, 1995. Wrigley Owen. The Polices of deafness. D.C: Gaullaudet. University Press, 1996. 4 Ver trabalhos de Hall, S.Y. du GAY, P Questions of. Cultural Identity, Londres, Sage, 1996 e DAVIES Ion. Cultural Studies and Beyond. Fragments of Empire, Routledge, 1995. 5 Os termos “deslocados ou fragmentados”, no sentido usado por Hall, Stuart (1997: 9 e 37/55), se refere às mudanças estruturais de transformação das sociedades modernas no final do século XX. “Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que no passado, nos tinham oferecido sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta perda de um “sentido de si” estável é chamado, algumas vezes, de deslocamento ou descen tração do sujeito”, (p.9) A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 97 representado e vivenciado como portador de uma identidade unificada, permanente, entra em xeque e não se reconhece mais como identidade estável e homogênea, abre - se o portal das várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas. (Ibid, pp. 12-13) Os deslocamentos de uma identidade para a multiplicidade de identidades desestruturam aspectos e, também, as visões de gênero e sexualidade, entre outros, assim como modifica, ainda, o mapeamento arquitetônico desse campo de conhecimento. Então, a paisagem, o lugar onde esse sujei to multifacetado andará é constituído e se constitui como uma teia, que é tecida nas relações de poder e saber; mas, com a mobilidade necessária para aceitar cada detalhe, cada particularidade, como uma nova face, que está sempre aberta para um novo olhar. Aqui se inauguram novos modos de edificar as “paisagens” culturais de gênero, classe, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que viram as costas à construção do homem enquanto sujeito e objeto da história, descrita e vivida como história contínua. Romper com a linearidade histórica é estar situado em outro lugar e, para estar nesse outro lugar, é necessáriose reconhecer habitante de uma paisagem fora do estruturalismo da modernidade. Uma nova paisagem pode ser encontrada dentro dos Estudos Culturais, que têm como uma das tarefas realizar o processo de desconstruir todo e qualquer marco centralizador, globalizante, homogêneo e permanente. Outra tarefa é a de romper, também, com as narrativas que apontam para as oposições binárias, tais como, surdos/ouvintes, masculino(homem)/feminino(mulher). É, como a anterior, também tarefa a ser realizada por entre estes lugares, na paisagem já referida. O processo de desconstrução pertence, pois, a esse lugar, como uma das ferramentas que permite perturbar essa idéia de relação de via única e observar que o poder se exerce em várias direções.(...) Os sujeitos que constituem a dicotomia não são, de fato, apenas homens ou mulheres, mas homens e mulheres de várias classes, raças, religiões, idades, etc... (Louro, 1997: 33) Ao acrescentar aos “Estudos Culturais” os Estudos Surdos e a questão de gênero, tomo esse viés para introduzir essa temática, ao mesmo tempo 98 Carlos Skliar que busco empreender a desconstrução das narrativas que até então se refe rem à mulher surda. Como olhar: os discursos que narram a mulher surda Os olhares pelos quais aponto a mulher surda vêm da transversalidade, no cruzamento de três eixos: os Estudos Surdos, os Estudos Culturais, e o do gênero e sexualidade, numa abordagem pós-estruturalista em Educação. A mulher surda que será focalizada é a mulher interconectada a uma multiplicidade de identidades, nas quais o ser-mulher surda é apenas uma delas. Assim, como não existe uma mulher surda, existem, ao mesmo tempo, várias mulheres surdas, que são diferentes, que não são idênticas entre si, que podem ou não ser solidárias, cúmplices ou opositoras. (Louro, 1997: 32) A mulher surda assim, visitada no território dos Estudos Culturais, possibilita lançar um olhar conectando-a, também, ao lugar dos Estudos Surdos que, enquanto campo de conhecimentos, focaliza a surdez como questão epistemológica e não ma is como patologia. Aqui, nesse lugar, a questão epistemológica é vista no sentido do foco do olhar, que busca pensar o modo como pensamos as formas pelas quais se produzem e foram produzidas como coisas verdadeiras—o dizível e o visível sobre a mulher surda. Estudiosos como Wringley6 (1996) e Davis7 (1995) tratam a surdez como uma questão de epistemologia e não como patologia. 6 Owen Wringley. “The politics of deafness’ (1996). Wringley é antropólogo e assessor da Unesco. Em seu livro apresenta não uma discussão sobre a experiência de ser surdo(a). Ele preocupa-se basicamente com o posicionamento discursivo desses indivíduos rotulados de “surdos" por si mesmos ou por alguma autoridade (Prefácio, p. XIV). E continua dizendo: Preocupo- me com as prescrições institucionais coletivas disponíveis a este agrupamento categórico, as quais dispõem vidas e delimitam opções, mais particularmente aquelas que se relacionam ao acesso do conteúdo da educação (em oposição ao veículo da educação, a terapia da fala), e também do trabalho, (ibid) 7 O pensamento de Lennard J. Davis, expresso no livro “Enforcing normalcy: disability, deafness and the body” 91995) trata da surdez não como um processo social que envolve intimamente todas as pessoas que têm um corpo e vivem no mundo dos sentidos, (p.2) Davis se atém no seu livro não aos surdos enquanto problema, patologia (órgão doente), mas com o discurso sobre o surdo e torna possível ao(à) leitor(a) a visualização de pontos de articulação entre os temas “surdez”, “deficiência” e “corpo normalizado”, fora das perspectivas clínicas (médicas e fonoaudiológicas), sociológicas (assistencialistas) e pedagógicas (normalização). A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 99 Wringley aponta o fato de que o foco do seu trabalho está voltado ao exame dos aspectos de uma forma etnográfica das culturas dos Surdos. Contudo, esta (segundo ele) não é uma etnografia da surdez. É, sim um estudo de inclusão e exclusão, da disponibilidade e administração de identidades aceitáveis; dá detalhes da construção das percepções pelas quais as diferenças particulares são mais efetivamente excluídas e outras mais efetivamente incluída. Os Surdos - suas experiências e suas representações como “os surdos” — representam uma interseção peculiar de questões que ressoam em terrenos aparentemente bastante separados, (p. 13) Aqui, Wringley se aproxima de Hall (1997) no que se refere ao proces so de identificação, como sendo esse processo mais “provisório”, mais “va riável”, tornando a identidade uma “celebração móvel” (p. 13). A identidade, assim, tem a possibilidade de ser formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados(as) ou inter- pelados(as) nos sistemas culturais que nos rodeiam. Davis tenta conectar surdez, com incapacidade física e normalização do corpo, deixando^visíveis as formas pelas quais o corpo tem sido normalizado na surdez. Para ele a identidade surda faz parte de um discurso historicamente construído (...) como um processo que envolve intimamente todos as pessoas que têm um corpo e vivem no mundo dos sentidos(...) normalidade e incapacitação fazem parte do mesmo sistema (p.2). Aqui, a identidade dos(as) surdos(as) é estabelecida, avaliada, medida como pertencimento corporal reduzido a um órgão deficitário. Os(as) surdos(as) “são todos ouvidos” mas estragados, inúteis, incapazes de ser alguma coisa mais que surdos(as). A surdez - o ouvido doente - é um todo que aprisiona. Este é o corpo e a identidade dos surdos na visão patologizante. Esse corpo é, então, mantido, cuidado e tratado, sobre controle tecnológico cada vez mais sofisticado, para dar conta da permanência classificatória da surdez leve, média, severa e profunda. Ao acrescentar aos Estudos Surdos e aos Estudos Culturais a visão da surdez — ouvido doente — como um corpo vigiado, esta é a grande narrativa a ser desconstruída. O corpo constitui, então, o grande ponto de costura para introduzir a questão de gênero, vinculada à sexualidade da mulher surda. 100 Carlos Skliar A mulher emergente: a mulher surda e suas relações de gênero e sexualidade Situar a mulher surda nas relações de gênero e sexualidade numa aborda gem pós- estruturalista implica um desafio inédito para a área dos Estudos Surdos. Isto porque ainda não há publicações nesse sentido, principalmente no que se refere à tentativa de estabelecer uma rede interconectada com os Estudos Surdos e os Estudos Culturais. Sem dúvida, é importante considerar os recentes trabalhos que apontam a questão de gênero, os quais enfatizam o gênero como constituinte da identidade dos sujeitos. (Louro, 1997: 24) Joan Scott (1995: 75) considera que o gênero pode ser: um sinônimo de “mulheres”e é também usado para sugerir que qualquer informação sobre as mulheres é necessariamente informação sobre os homens, que estudar um implica olhar para o outro. Scott enfatiza o fato de que o mundo das mulheres faz parte do mundo dos homens, que ele é criado nesse e por esse mundo masculino. Essas indicações básicas sobre as formas possíveis de tratar a questão de gênero servem como elo de ligação aos Estudos Surdos e aos Estudos Cul turais, pelo viés dos processos de identidade, diferenciação e alteridade. Estes processos têm caráter de transitoriedade por entre os três eixos, articulados nesta proposta e, também, estão vinculados à construção de sujeitos multifacetados. O gênero tomado como “constituinte” da identidade dos sujeitos, con forme sugere Louro, por um lado, rejeita qualquer determinismo biológico. Por outro, é parte constituinte das relações de poder, mais precisamente do exercício de poder 8. Assim, a construção de sujeitos “generificados” ocorre de forma relacionai e tanto o feminino quanto o masculino se constroem um em relaçãoao outro. Essa íelação cria um processo de diferenciação, mas não significa que sejam pólos opostos. 8 Ver Foucault, Michel, 1987: 29, que trata o poder como sendo exercido como se fosse uma rede, uma teia “capilar” que se interpreta e se constrói por toda a sociedade. Para que tal exercício seja possível é necessário recorrer a ferramentas, “manobras”, “técnicas “ e “disposições”. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 101 Tomaz Tadeu da Silva (1936: 200) se reporta a Lauretis (1994: 214) para considerar que as “diferenças” não existem fora de um sistema de representação que serve para criá-las e fixá-las nesse sistema de poder. A “diferença” é dependente da representação de poder, diz Silva. A sexualidade é tomada pelo viés foucaultiano, como um “dispositivo histórrco”, que para Foucault (1988: 100) é: como o dispositivo de aliança este se articula aos parceiros sexuais; mas de um modo inteiramente diferente. (...) O dispositivo de aliança se estrutura em torno de um sistema de regras que define o permitido e o proibido, o prescrito e o ilícito; o dispositivo de sexualidade funciona de acordo com técnicas móveis, polimorfas e conjunturais de poder. A sexualidade olhada assim está também vinculada ao processo de cons trução dos sujeitos generificados. Estes sujeitos ao se construírem criam posturas, comportamentos, que os caracterizam e determinam os chamados “papéis sexuais”. Segundo Louro (1997: 24), esses papéis seriam, basicamente, padrões ou regras arbitrárias que uma sociedade estabelece para seus membros e que definem seus comportamentos, suas roupas, seus modos de se relacionar ou de se portar. A internalização desses papéis condiciona a construção do gênero como produto e processo tanto da representação9 quanto da auto-representação. O gênero então, como sugere Scott (1996: 75-76), é: uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado. (...) O uso de ''gênero” enfatiza todo um sistema de relações que pode incluir sexo mas não é diretamente determinado pelo sexo, nem determina diretamente a sexualidade. É interessante observar que os poucos trabalhos realizados com os indivíduos surdos, partem do eixo central — déficit lingüístico — que é associado à surdez (visão patológica) e à sexualidade (esta, muitas vezes, tratada como sexo). 9 A noção de representação que tomo aqui é de forma similar à usada por Hall como a forma pela qual o significado é construído através da localização, do posicionamento e da disposição do discurso. Hall escreve que a forma como as coisas são representadas e as maquinarias e os regimes de apresentação numa cultura (...) exerceu um papel constitutivo e não simplesmente reflexivo, posterior ao evento. 102 Carlos Skliar A sexualidade (sexo) é sempre tratada pelo enfoque biológico-funcio- nal e psicológico, em termos prescritivos e reguladores. Isto é, a sexualidade aparece sempre ligada à maternidade e aos órgãos sexuais. Entretanto, obser- va-se, na discursividade textual, que as investigações, ao apontarem para a sexualidade, se diluem e o sujeito surdo é referido como o “incapaz” de receber informações e experienciar relações no seu cotidiano. A preocupação retorna ao “fazer-falar”, centrado no sujeito surdo, reduzido a um ouvido doente. Assim, o corpo do surdo é representado e se institui como um “órgão patológico” e esse corpo doente, deficiente, incapacitado, não deve ser pensado, celebrado, antes da sua normalização. A espera pelo dia da normalização (ou seja, o dia que o surdo “falar”) produz sobre os surdos o olhar vigilante da família e dos profissionais. Eles(as) são acompanhados(as) e vigiados(as) por todos os lugares onde transitam diariamente. A vida cotidiana do(as) surdos(as) desde bebê, ou tão logo seja diagnosticada a surdez, é uma constante entrada e saída de salas de aula e de atendimentos médico- fonoaudiológicos. Um turno ele(a) freqüenta a classe especial para surdos e, no outro, pode estar: a) dividido entre atendimentos complementares pedagógicos e as clínicas fonoaudio- lógicas; b) freqüentando uma classe comum de jardim-de-infância ou de outras séries de escolarização. Assim, o corpo dos(as) surdos(as) é um corpo vigiado, espiado, controlado e administrado como o corpo-órgão deformado, doente. A mulher emergente que busca se tornar visível está conectada ao silên cio do corpo incapaz. O gênero, sendo tomado como uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado (Scott, 1995: 75) para os(as) surdos(as), representa um corpo-órgão assexuado. Na tentativa de busca da mulher surda emergente, as perguntas que venho me fazendo dizem respeito a: Como os homens e mulheres surdos (as) se sustentaram e realizaram “manobras”, “técnicas”, “dispositivos” que lhes permitiram ser e estar no mundo, e se construíram como sujeitos femininos e masculinos, independentemente da complexidade das redes de poder que através das instituições, dos discursos, dos códigos, das práticas, dos símbolos... (Louro, 1997: .24) e dos silêncios, contribuíram para a formação de gênero? Como realizar o processo desconstrutivo que não produza uma nova polarização na compressão entre as narrativas construídas sobre os “gêneros”, a “sexualidade”, a “surdez” e os “surdos”, em relação à mulher surda? A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 103 E, como as identidades sociais hegemônicas podem ser contestadas e sub vertidas? Assim, ao tentar dar continuidade a essa temática, a mulher emergen te, a mulher surda e suas relações de gênero e sexualidade exigirá olhares que busquem perceber “como” os saberes sobre a “surdez” se constituíram na modernidade; perceber as coi sas que são ditas em relação a ela, sobre ela; como ela é referida e se refere a si própria. Até porque, não se nasce, mas se torna mulher. (Simone de Beauvoir) Referências Bibliográficas DAVIS, J. Lennard. Disability, deafnnes and body. Nova York: Verso, 1995. FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 4a ed., 1995. História de sexualidade. Vol. 1: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal, 11a ed., 1988. GIROUX, Henry e Mcharen, Peter. Por uma pedagógica crítica da representação. In. SILVA, Tomaz T., MOREIRA, Antônio Flávio (orgs.) Territórios contestados. Petropólis: Vozes, 1996. HALL, Stuart. Identidades culturais na pós-modernidade. 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Petrópolis: Vozes, 1996. 6 Relações de poderes no espaço multicultural da escola para surdos Maura Corcini Lopes “Disciplinando” a leitura As mudanças globais que vêm ocorrendo de forma mais acentuada no final do século, têm instigado, a cada dia, mais pesquisadores a pensar na educação, nos novos parâmetros curriculares, nas identidades culturais, na escola, em relações de poder que se estabelecem entre e nos grupos sociais, na educação e integração de “excluídos” sociais, laborais, etc. Como vêm se constituindo tais preocupações? Como os discursos que vinculam educação/escola estão na pauta do dia? Como se constituem os discursos sobre o poder? Quem são os sujeitos que se utilizam ou são utilizados por estes discursos? Como vem se construindo o discurso da integração? Como se constituem as identidades dos surdos? Como está representado o surdo para e pela escola? Muitas questões são relevantes quando se trabalha a partir de uma ótica onde não se tem compromissos com verdades. Nesteartigo, estando fundamentada nos estudos culturais1, não pretendo me responsabilizar por responder às perguntas que lanço no texto, mas vislumbro deixá-las em suspensão para que possam ser refletidas por mim e pelos interessados no tema “educação de surdos”. 1 A relação que faço entre estudos culturais e estudos surdos, encontra respaldo em Wrigley (1997) que diz que a surdez é uma temática epistemológica e não audiológica. Tomaz Tadeus da Silva (1997: 1), se refere a essa afirmação dizendo que, ao fazê-la, Wrigley coloca o tema surdez dentro dos estudos culturais. Dentro dessa perspectiva e respaldada em outros estudos feitos na Universidade Federal de Rio Grande do Sul, coordenado pelo professor Skliar, é que me sinto à vontade para continuar relacionando esses dois olhares e posturas. 106 Carlos Skliar As construções que tento fazer, integram minha atual preocupação como doutoranda em educação e, também, representam o lugar de onde estou falando. Narro o surdo, a escola para surdos, as identidades surdas, porém não sou surda. Sou uma ouvinte que trabalho com surdos e estou tentando pensar a surdez dentro de uma perspectiva política/cultural. Refletir sobre a escola de surdos, sobre os mecanismos de poder que “disciplinam corpos e mentes” de sujeitos surdos, é uma tentativa de questionar minha própria prática como professora, atuante em uma escola para surdos que está sob responsabilidade de uma ordem católica. Não quero que este texto seja lido a fim de buscar receitas de trabalho, mas, sim, que represente e caracterize uma fase de uma construção acadêmica que pode, através de um “novo olhar” ou questionamento, ser repensada e reconstruída. Ao escrever este artigo, tento atingir um público que manifesta interes se pelos estudos culturais e por ver os estudos surdos mergulhados neste cenário. Desta forma, sinto-me à vontade por não estar falando à feira2, pois este terá como alvo pesquisadores e leitores atentos a esta bibliografia, construída sobre tentativas de tornar a surdez um tema epistemológico e cultural. Uma visão panorâmica da escola A escola tem sido alvo para muitos estudos e projetos educativos, polí ticos e sociais que vêm determinando a participação sócio-educativa de diferentes grupos econômicos, lingüísticos e culturais. Várias são as “narrativas”, reconhecidas como verdades, que nutrem o desrespeito às diferenças entre sujeitos e entre grupos culturais. Nos discursos inflamados, vistos na educação através das diferentes épocas e domínios políticos, sempre houve a preocupação com o perfi l da escola, seu poder, com o disciplinamento, com a educação de “cidadãos” e, por último, dentro de uma ótica que para muitos é recente, com a educação de excluídos oriundos das classes popu 2 MACHADO, Roberto. Zaratustra tragédia Nietzschiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. Resgato a expressão “falando à feira”, por identificar esta com a ansiedade de quem produz um texto, sabendo dos riscos que corre de esse cair nas mãos de leitores que “estão mortos” para a reflexão. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 107 lares e de grupos culturais colonizados3, tais como: negros, indígenas, mulheres, ciganos, surdos, etc. As diferenças existentes entre grupos e nos grupos culturais estão presen tes na escola moderna, porém, tal instituição não sabe como trabalhar e pensar as mesmas. A escola está preparada para uniformizar os sujeitos que devem ser “livres”, educados e servis. Essa dificuldade em trabalhar com as diferenças não se observa só na escola, mas em todas as instituições modernas que se deparam com o crescimento material gerado pela ciência e tecnologia. Veiga-Neto (1995: 10) diz que a escola moderna está entre posições de direita e de esquerda e que esta vem colaborando para acentuar as diferenças. Por um lado, ela, como uma instituição moderna, é vista como capaz de promover o uso da razão e a formação de homens livres e, por outro, é vista como incompetente por não conseguir formar cidadãos e por estar produzindo e acentuando as divisões entre ricos e pobres, dominantes e dominados. Uma das visões diz que a escola deve habilitar um maior número de pessoas ao uso da razão, e a outra defende que a escola deve romper com os binarismos. Diante da crise política, social, econômica e cultural que se depara a escola, a pesquisa educacional sente-se na “obrigação” de encontrar soluções para os problemas vividos cotidianamente. Para tanto, tenta buscar respostas em grandes narrativas como as apresentadas pela ciência, porém, tais narrativas também colaboram na produção e na degradação da qualidade de vida em todas as sociedades. Veiga-Neto (1995: 10), escrevendo sobre a utilização da ciência pela escola, diz: A pesquisa educacional vem desenvolvendo, nas últimas décadas, um imenso arsenal de teorias, interpretações, recomendações, prescrições, etc. que se ocupam com a crise educacional. Com isso, essas teorias tentam descrever, analisar, compreender e até modificar a educação escolar moderna. E, para isso, trazem o aporte da Psicologia, da Filosofia, da Sociologia, da Politicologia, etc.. A escola não sabe trabalhar com a instabilidade. Necessita de referências fixas para descrever e educar/disciplinar os sujeitos desiguais. As grandes 3 Termo utilizado por McLaren no texto “O terror branco e a agência oposicional: em direção ao multiculturalismo crítico” e adaptado para a discussão dos estudos surdos. 108 Carlos Skliar teorias sociológicas, psicológicas, políticas e outras, possuem a imensa respon sabilidade de “tratar” e explicar as diversas transgressões sociais, bem como os fracassos escolares de sujeitos que são considerados, pela escola moderna, como desajustados, revoltados, incapazes, deficientes, carentes, famintos, com problemas emocionais, etc. Sem esse grande aparato científico, as teorias neoliberais não encontrariam adeptos. Costa (1995: 7), argumenta sobre o assunto dizendo que o neoliberalismo não encontraria tantos adeptos e não invocaria tanta legitimidade em sua retórica se, subjacente a ela, não estivessem alinhados os discursos poderosos que ajudaram a erigir as “certezas” e as “verdades” modernas. A instabilidade do mundo atual, associada a democratização das informações, vem sendo, para a escola moderna, uma de suas maiores angústias. A instabilidade social a partir da visão das diferenças, não está permitindo que grandes explicações, como as utilizadas pelas teorias neoliberais, sejam suficientes para compreender o grande aumento da população pobre e, muito menos, os movimentos culturais organizados a partir de subjetivida- des e identidades em construção. Diante do quadro social de pluralidades culturais é que tento pensar a escola. Veiga-Neto (1995: 49), escreve que existe a necessidade de colocarmos tudo sobre suspeita — até mesmo os fundamentos racionalistas e humanistas que sustentam nossos discursos e nossas práticas e que nos prometeram as utopias. A escola, diante da diversidade social, encontra-se desorientada sob os refletores de verdades. Ela ainda está submetendo os grupos desiguais a um mercado de conhecimentos escolares que são vendidos a preços que não podem ser adquiridos por todos. Mas, será que a constituição da escola permite ver, pensar, questionar as diferenças e as manifestações de resistência daqueles que a ela não conseguem se enquadrar? Como ensinar dentro de um cenário onde não existem modelos de cidadãos? Como ensinar sem colonizar? Qualquer projeto educacional, que vise a trabalhar com diferentes cultu ras, enfrentará a ameaça da colonização. Será que é possível a escola e o currículo dialogarem com a diversidade e a diferença sem impor culturas? Estamos entrando em “outras” óticas que tentam pensar o multicultural. Enquanto houver relações entre sujeitos e entre grupos, haverá novas formas de pensar as construções, as subjetividades,dos surdos parece se encontrar, hoje, diante de uma encruzilhada. Por um lado, manter-se, ou não, dentro dos paradigmas da educação especial reproduzindo o fracasso da ideologia dominante — movimento de tensão e ruptura entre a educação especial e a educação de surdos. Por outro lado, aprofundar as práticas e os estudos num novo campo conceituai, os Estudos Surdos, quebrando assim a sua dependência representacional com a educação especial, e se aproximando dos discursos, discussões e práticas próprias de outras linhas de pesquisa e estudo em educação. O movimento de tensão e ruptura entre a educação de surdos e a educação especial Em outros trabalhos (Skliar, 1997c), define a educação especial como um subproduto da educação, cujos componentes ideológicos, políticos, teóricos, etc. são, no geral, de natureza discriminatória, descontínua e anacrônica, conduzindo a uma prática permanente de exclusão e inclusão. A educação especial para surdos parece não ser o marco adequado para lima discussão significativa sobre a educação dos surdos. Mas, ela é o espa ço habitual onde se produzem e se reproduzem táticas e estratégias de natu- i.ilização dos surdos em ouvintes, e o local onde a surdez é disfarçada. De .icordo com Wrigley (1996, op. cit.): 12 Carlos Skliar Os prospectos para as crianças surdas são reproduzidos dentro de uma subclasse de educação chamada ‘especial’. Raramente, no caso da educação especial, significa algo adicional ao comum; na verdade é um subgrupo ou uma porção que daí se delimita. Pressuposições são feitas a partir de uma capacidade de absorção’ de tais crianças marcadas, a respeito das possíveis limitações de seus potenciais cognitivos, ao invés de questionar se ‘canais de absorção’ alternativos poderiam ser- lhes disponíveis. Ironicamente, todos os esforços de instrução e reabilitação focalizam-se, muitas vezes exclusivamente, no canal ‘perdido’ que falta como a única característica ao redor da qual todo o ensino deveria girar. Esta retração irônica pela, e dentro da, educação especial reproduz um mundo limitado de aprendizado de interação social. Embora esta obsessão por ouvir possa ser traçada, a combinação da fala com a linguagem, o resultado imediato é uma opressão direta das crianças surdas e uma negação das identidades sociais que lhes podem estar disponíveis como adultos surdos, (p. 4) A partir da reflexão de Wrigley poderíamos caracterizar as três razões que justificam, na nossa opinião, a necessidade de um movimento de ten são e ruptura com a educação especial. A primeira coloca sob suspeita a idéia de que a educação especial seja o contexto obrigatório para um debate significativo sobre a educação dos surdos, ao menos nos termos e nas concepções que ela promove habitualmente. A segunda discute o discurso hegemônico que supõe a existência de uma linha contínua de sujeitos deficientes, dentro da qual os surdos são forçados a existir: o anacronismo de definir um grupo de sujeitos “especiais” que coloca aos surdos, aos deficientes mentais, aos cegos, etc., numa descrição que é, na verdade, descontínua. Isto é, juntos, mas separados de outros sujeitos, dentro de um processo indiscriminado de patologização. Neste sentido, o que há de comum entre um surdo e, por exemplo, um cego, que separa este surdo - ou esse cego - de um menino de rua, de um indígena, de um trabalhador rural? A resposta pode ser complexa, mas revela a necessidade de abraçar outras representações ou configurações mais amplas sobre os sujeitos e seus grupos sociais de pertencimento. A terceira provém do fato de que neste contexto não são reconhecidos aos surdos - como também aos cegos, aos deficientes mentais, etc. - os múltiplos recortes de identidade, cultura, comunidade, etnia, etc. Os sur A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 13 dos são definidos somente a partir de supostos traços negativos, percebidos como exemplos de um desvio de normalidade, no pior dos casos, ou de uma certa diversidade, no melhor dos casos. Esta última questão pode abrir a discussão sobre a definição da surdez como diferença política. É possível que nas práticas discursivas sobre a surdez se originem termos que, na procura de uma conceitualização mais complexa, acabam sendo representações obscuras e enganosas. Neste sentido, “deficiência”, “diversidade” e “diferença”, constituem os melhores exemplos. Acerca disso, Bhabha (1986) articulou uma distinção fundamental entre diversidade e diferença. A “diversidade” cria um falso consenso, uma idéia de que a normalidade hospeda os diversos, porém mascara normas etnocêntricas e serve para conter a diferença. Entendo “diferença”, confor me McLaren (1995), não como um espaço retórico — a surdez é uma diferença — mas como uma construção histórica e social, efeito de conflitos sociais, ancorada em práticas de significação e de representações comparti lhadas entre os surdos. A distinção entre diversidade e diferença conduz ao debate sobre o lugar que corresponde aos surdos na educação especial e na educação em geral. A aproximação com esta temática pressupõe uma diferenciação entre 0 significado que tem a escola especial e o sentido possível para uma educa ção de surdos, anulando a sua habitual sinonímia. Também é necessário romper com a tradição segundo a qual, uma vez reconhecido o fracasso da escola especial, aparece de maneira implacável uma única opção: a escola inclusiva. Isto é, o imperativo da integração escolar dos surdos nas escolas regulares. A necessidade de construir um território mais significativo para a edu cação dos surdos, e de não limitar nossas expectativas a uma “melhoria” dos paradigmas dominantes na educação especial, nos conduz a um conjunto dc inquietações acerca de como narramos aos outros, de como os outros se narram a si mesmos, e de como essas narrações são, finalmente, colocadasas identidades, as diferenças construídas a cada interpelação social e política feita. Dentro desta infinidade do pensar, surge a linguagem como referencial móvel. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 109 As diversas idenddades representadas pelos sujeitos têm como um de seus consdtuidores a linguagem4. É a partir da linguagem que podemos pensar os sujeitos na história datada, localizada e produzida pela inconstância dos discursos. Para que possamos ter a linguagem como referência, temos que nos desapegar das bases fixas e procurar a instabilidade da dúvida e das incertezas. Silva (1994: 249) diz: A linguagem é encarada como um movimento em constante fluxo, sempre indefinida, não conseguindo nunca capturar de forma definitiva qualquer significado que a precederia e ao qual estaria inequivoca- damente amarrada. Pensar a escola, a partir do parâmetro linguagem, possibilitará aos es tudiosos montar estratégias para que possam ser ouvidos e para que o pen samento da escola passe a ver o sujeito como um instrumento/meio de produção de sentidos, assim como passe a identificar os diversos mecanismos de poder utilizados por ela para impor saberes, culturas, valores e identidades. A imposição de culturas e perfis narrados como belos, adequados, normais vêem o sujeito, me utilizando de uma metáfora, como um armazém de boas qualidades em que não se questionam preços por serem relí quias apreciadas por todos, mas adquiridas por alguns. Colocar modelos de homens na vitrina da escola é não questionar o papel que esta desempenha e, principalmente, é uniformizar sujeitos para a redução de suas vidas em reproduzir a “realidade” de outros. Será que a escola tem conseguido uniformizar os sujeitos? Todos os discursos/sujeitos que entram na “escola democrática”, conseguem resistir ao disciplinamento, à ordem e à dominação de seus corpos? As políticas públicas de democratização da escola objetivam pluralizar o espaço físico escolar, sustentadas sob o forte argumento legal de que todos são iguais perante a lei e devem ter as mesmas oportunidades e direitos. A falácia da “igualdade” camufla outras narrativas e poderes desiguais que mostram a discriminação e o fracasso escolar de muitos grupos culturais. Quais são as diferenças presentes na escola? Quem as aponta e como as classificam? Como se constituem e se dividem as diferenças? 4 Entendo a relação identidades e linguagem, não como uma via de mão única, mas como uma produzindo a outra. 110 Carlos Skliar Muitas são as diferenças existentes na escola, assim como, muitas são as formas como podemos vê-las, pensá-las e dividi-las; isto dependerá do interesse e posição de quem investiga. As diferenças culturais ou na cultura devem ser vistas e pensadas como diferenças políticas, ou seja, devem sobressair aos limites lingüísticos, de cor, de raça, de gênero, etc.. A escola de surdos Como este é um artigo que busca pensar questões específicas dos estu dos surdos5, procurarei me limitar à escola de surdos. Todavia, tenho que deixar claro que embora meu recorte esteja nos sujeitos surdos e na escola para surdos, existem aspectos políticos e sociais que não se distanciam de “outras escolas” para “outros alunos”, basta observar que as relações de poderes desiguais, o despreparo dos profissionais da educação para o seu trabalho em sala de aula, a dificuldade ou ausência da realização de uma reflexão sobre a prática pedagógica, as teorias de currículo, as relações de poderes, a produção de sujeitos, etc, são assuntos pertinentes em qualquer esco la, independentemente com que sujeitos ela trabalhe. Estes assuntos são pertinentes para que possamos pensar as relações de poder existentes na escola, como essas se organizam e se “sustentam cientificamente”. Ao tomar contato com a nova LDB, torna-se claro o estímulo para a integração de surdos na escola regular. Embora a lei fale sobre o respeito às diferenças, sobre recursos disponíveis para a aprendizagem, sobre a tecnologia a serviço da educação e sobre igualdade, parece ficar a desejar discussões que abordem temas culturais e políticos. Quando falamos sobre integração, geralmente nos reportamos aos por tadores de Necessidades Educativas Especiais6 ou deficientes. Mas, como a escola vê estes sujeitos? Quem são os ditos “deficientes” para a escola? Ser surdo, para muitos ouvintes desavisados, é ser um deficiente capaz, se submetido a treinamentos apontados como bons e necessários pela medicina, de ser “integrado pela fala” a pessoas “normais”. 5 Estudos surdos foi o termo encontrado para nomear as pesquisas na área da surdez, que buscam ver os surdos como sujeitos políticos e culturais. Estes estudos, na Universidade Federal de Rio Grande do Sul, ainda são recentes, pois tiveram seu início com a chegada do professor visitante Carlos Skliar, em 1996. 6 Termo utilizado pela Política Nacional de Educação Especial do MEC. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 111 O regime de verdades produzidos pelas grandes narrativas, geralmente clínicas e lingüísticas que sustentam a integração, que contam e descrevem a surdez constroem “estereótipos e realidades7 sobre os surdos e seu aprendizado. Tais construções, geralmente inquestionáveis, “paralisam” as representações e o estado de identidade social dos surdos. Silva (1997: 25), ao escrever sobre a equivalência entre representação e realidade, argumenta que o realismo camufla as condições de produção de realidades. Com esta prática, os discursos, principalmente médicos sobre a surdez, passam a ser fonte de conformidade para a escola que se vê prestando serviço a “anormais”. O autor diz: Ao ocultar as condições de sua produção, o realismo congela a significação, paralisa a representação no seu estado de identidade com o real. A premissa da identidade entre representação e representado, entre significante e significado, que funda o realismo, naturaliza o “mundo”. A representação realista é fundamentalmente conformista: até mesmo (ou principalmente) quando faz denúncia social. As representações realistas sobre a “normalização do surdo” através da fa la, produzidas, também pela escola, confortam os pais de surdos com a esperança da fala e com a possibilidade de as pessoas não perceberem a surdez. A representação do surdo como um doente dificulta a organização política desses para reivindicar seus direi tos na escola, na mídia e nos lugares públicos. A identidade do sujeito surdo, sob a ótica da representação realista, busca se adaptar ao seu déficit auditivo e à superação da deficiência por outras atividades chamadas de compensatórias. Para esta visão, a essên- cia humana está sempre na pauta do dia e, com ela, também está a redução de sujeitos complexos e plurais em cognição e aparelho fonatório8. Nesta ótica, discussões voltadas para estudos de gênero e educação, sexualidade, identidades, cultura, Língu a Brasileira de Sinais — LIBRAS — e relações de 7 Os termos “estereótipos e realidades” foram resgatados em Silva, Tomaz. A poética e a política do currículo como representação. 1997. (texto inédito). 8 Os surdos na história da surdez, na maioria das vezes, foram narrados através das inúmeras tentativas de oralização, muitas vezes, frustradas. Geralmente, as diferenças eram marcadas através de uma grande divisão binária ouvinte/surdo. Sendo que, para os surdos, a saída desse binarismo era igualar-se aos ouvintes através do domínio da fala, ou seja, através do treino do aparelho fonatório. 112 Carlos Skliar poder parecem estar distante não só da escola para surdos, mas, também, de quem investiga estas questões na academia. Na escola para surdos, embora exista a surdez como fator aglutinante, este não deve ser o único considerado. Em uma turma de crianças surdas, jamais encontraremos sujeitos iguais por serem surdos. Eles possuem história, meio familiar, sexo, raça, cor, religião,língua, situação econômica, identidades, etc diferentes. Pensando na perspectiva dos “diferentes na diferença”, o surdo passa a ser um sujeito cultural produtor e produto de subjetividades conjugadas9, e a escola, como em qualquer situação, independente de ser para surdos ou não, pode ser vista como um meio disciplinador de corpos, línguas e mentes. Através de mecanismos de controle como: sirenes, disposição das classes em sala de aula, da carência de recursos visuais para auxiliar a aprendizagem, do distanciamento tecnológico dos alunos, da “incapacitação” de professores para o uso da LIBRAS, da ausência de professores surdos em sala de aula, da exigência da oralização e da escrita do português, da presença do médico otorrinolaringologista, fonoaudiólogo e psicólogo dentro da escola, etc, os sujeitos surdos passam a ser controlados e disciplinados pela escola que, por sua vez, vem se orientando sobre discursos patologizantes. Com a intenção de disciplinar os sujeitos, a escola busca “normalizar”, tratar o corpo mutilado dos surdos através de um intensivo tratamento individual que possibilitará a auto-regulação destes. Louro (1995: 69), comenta: Não podemos pensar na repressão como a chave explicativa para a “normalização” dos sujeitos, pois o caráter dessa normalização é, fun- damentalmente, produtivo, já que se trata da fabricação de indivíduos e a meta final é que esses continuem se auto-disciplinando. O envolvimento diário do surdo com aulas, filas, silêncios, avaliações e terapias marcam as relações hierárquicas estabelecidas em seu cotidiano escolar regulador. Estas relações desiguais subjugam os surdos a viverem em uma cultura subalterna (McLaren, 1997), que vem sobrevivendo durante 9 Entendo por subjetividades conjugadas uma intersecção de diferenças discursivas consti- tuidoras de identidades. O termo conjugadas representa, nesse contexto, a possibilidade de articulações com outros discursos. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 113 a história camuflada nos corredores das escolas, no pátio, nos banheiros riscados, nas próteses auditivas perdidas ou quebradas, no movimentar das mãos em sinais, na visão atenta, etc. Todas estas manifestações de poder marcam, através da resistência, a cultura surda. Alvarez-Uria (1995: 73), quando escreve sobre a escola, tenta fazer uma analogia com as instituições totais descritas por Goffman. Tal analogia pode ser pensada na escola para surdos que possui atividades pedagógicas e clínicas ocupando todo o dia do aluno que está matriculado na instituição. O autor argumenta: Nesses centros de mortificação do eu, os espaços estão demarcados em função das hierarquias e da seqüência das atividades. Os silêncios, as filas, os exames, a compartimentação dos movimentos do espaço e do tempo, os prêmios e os castigos, o trabalho e a obediência vão conformar determinados tipos de personalidades. Todo o envolvimento do aluno surdo com sua educação e pseudo- recuperação acaba envolvendo o tempo integral do sujeito. Por exemplo: pela manhã — o surdo deve passar pela fonoaudióloga, muitos deles, depois disso, vão para uma aula de reforço pedagógico e, algumas vezes por semana, passam em sessões com a psicóloga e o otorrino; pela tarde — os surdos enfrentam a sala de aula; à noite — fazem as tarefas escolares e cansados vão dormir. O envolvimento dos surdos dentro da “instituição escolar totali- zante”10 colabora, entre outros elementos, para que esses desenvolvam identidades subalternas (Silva, 1997: 18), que dificultam a organização cultu ral. Embora a escola seja um espaço de produção e reprodução de sujeitos, também é um espaço onde os surdos podem produzir outras representações sobre si mesmos. Parafraseando Louro (1995: 69), é nas atividades diárias da escola e, aparentemente banais, que essa produz e reproduz sujeitos, mas, também é nestes espaços que os sujeitos constroem as suas representações e resistências. 10 Termo utilizado por Goffman e adaptado à situação analisada a partir de reflexões sobre o envolvimento diário dos surdos dentro da instituição escola. Os serviços oferecidos pelas escolas totalizantes vão do clínico ao pedagógico, para que os alunos sigam a linha de trabalho da instituição e para que não seja necessário o deslocamento das famílias e dos mesmos a outros endereços. É importante esclarecer que, em muitas dessas instituições, enquanto os filhos estão em “tratamento”, os pais ou responsáveis ficam na escola fazendo alguns cursos (bordado, pintura, sinais). Pais e filhos passam pela instituição e são submetidos às diversas formas de exercícios de poder utilizados pela escola. 114 Carlos Skliar A representação formada sobre imagens patológicas da surdez “conduz” os sujeitos surdos a reafirmar a ótica da anormalidade. Um exemplo desta situação encontramos quando alunos de escolas para surdos fazem demonstrações artísticas de sua potencial capacidade de articular fonemas em palavras e estas em frases e versos. Tais comportamentos robotizados, exibidos pelos surdos a grandes platéias reunidas para testemunharem o sucesso da educação, reforçam a deficiência e geram expectativas nestes sobre a normalização através da aquisição de uma língua morta (o portu guês para o surdo), mas com poder de domínio cultural. Os surdos, quando não representados como sujeitos culturais, entram no rol dos desajustados, desintegrados da sociedade ouvinte, deficientes e incapazes de se desenvolverem sem o auxílio de grupos dominantes culturalmente. A escola não pode mais representar e contar os sujeitos com os quais trabalha, referendada em um único modelo de normalidade ou deficiência. Ela precisa procurar vê-los dentro do hibridismo em que estão envolvidos enquanto sujeitos diferentes e pertencentes a um grupo cultural em permanente construção e desconstrução de conceitos, comportamentos, valores, etc. A desconsideração pela escola do surdo como um sujeito diferente e cultural, possuidor de identidades em transição, pode ser um demonstrativo de que esta produz, organiza e determina as identidades e os modelos existentes em seu interior. A escola não só determina através de ouvintismos — termo utilizado por Skliar (1997) para descrever o domínio dos ouvintes sobre os surdos — mas, também, através da exaltação, para os demais surdos que resistem ao padrão de normalidade ouvinte, de uma identidade surda enrustida", que não mostra liderança e resistência entre ao surdos. Britzman (1996: 72) faz uma colocação quando escreve sobre homossexualidade, educação e currículo que pode ser utilizada neste caso. Ela diz: 11 Enrustida foi um termo encontrado por mim para diferenciar um dos vários tipos de identidades surdas que são narradas por eles. No momento parece ser o nome mais adequado para representar o que estou pensando, mas este pode ser modificado a partir de novas reflexões. Com esse termo quero nomear uma das identidades existentes dentro da comu- nidade surda. Esta “identidade, enrustida como denominei”, é narrada pelos surdos da comunidade como sendo uma identidade cultural, mas que sente e mostra a repressão ouvintista dificultando o transparecer de seu poder no grupo. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 115 Os/as pesquisadores/as educacionais estão apenas começando a compreender que a escolarização produz não apenas formas de conhecimento e relações particulares de desigualdade, ao longo de divisores da raça e de gênero, mas, mais imediatamente, produz e organiza, de forma coincidente, as identidades raciais, culturais e generificadas dos/ as estudantes. A idéia de que para a educação de surdos são necessária s técnicas e recursos especializados e profissionais da saúde atuando entrecruzadamente aos professores, demonstra que a história dos surdos, as trocas sociais entre os mesmos, a comunidade surda, a língua de sinais, os valores, as necessidades políticas,sociais e físicas não intervém na organização escolar de forma que as identidades que surgem neste meio, podem ser vistas em negociação com esses e outros fatores aqui não mencionados. Ainda conforme Britzman (1996: 73), pensar a identidade significa não apenas ver estes elementos como efeitos constitutivos das relações sociais e da história, mas também como capazes de rearticular o desejo e o prazer. A desarticulação do desejo das necessidades sócio-educativas e culturais dos surdos pode ser vista através dos múltiplos mecanismos de disciplinamento de corpos e mentes existentes na escola. Basta observarmos o uso, por muitas escolas que ainda não “modernizaram”12 seus mecanismos de controle, da sirene para marcar o horário da entrada, do lanche, da saída e do recreio. A sirene escolar, dentro de uma escola de ouvintes, produz significados diferentes do que a mesma sirene em uma escola de surdos. O sinal sonoro usado para marcar a hora do trabalho ou lazer é um elemento disciplinador, pois designa, entre outros aspectos, os comportamentos para horas diferenciadas, mas, para o surdo, além disso, ela também reflete o poder dos ouvintes/normais, centrado na figura do professor que detém a capacidade de escutá-la e transmiti-la aos patologicamente impossibilitados de fazê-lo. A imposição cultural, dada por meio da distribuição desigual de poderes, faz com que seja dificultada a separação de parâmetros biológicos/natu - rais e normais das subjetividades contidas nos discursos produtores de sujeitos 12 As escolas que já passaram por esta modernização, adotam sirenes luminosas na escola para surdos. Embora a sirene luminosa seja mais adequada para o surdo, ela não modifica a sua função de regular e controlar os corpos. 116 Carlos Skliar surdos. Embora exista muitas barreiras sociais, políticas e culturais que dificultam a organização cultural dos surdos, estes conseguem resistir às imposições através da sua organização no grupo. A resistência dos surdos se caracteriza como uma forma de poder que não aceita, passivamente, a colonização cultural promovida pela escola. Escola e identidades surdas Os surdos, de acordo com o que podemos ler nos trabalhos de Skliar (1997), Behares (1995), Souza (1995), Sanchez (1993), Wrigley (1997) e outros, quando reunidos na escola, entram em choque com os diversos e criativos métodos de imposições de normalidade colocados pela instituição. O choque estabelecido cria formas de resistência capazes de manterem vivas as expressões de suas identidades discriminadas. McLaren (1997: 205) argumenta sobre a condição de subculturas. O autor escreve que elas se organizam e reforçam práticas distintas, criando novas identidades fora da cultura dominante. Veiga-Neto (1995: 31), faz um comentário que merece ser trazido para este texto sobre as resistências nascidas na própria rede de poderes. Ele diz: Nessa rede de poder, há pontos de resistência que não são extraídos de “um lugar de grande Recusa-alma da revolta, foco de todas as rebeliões, lei pura do revolucionário” (ibidem: 91), mas que são, sim, gerados dentro da própria rede, às vezes amplamente abrangentes mas em geral minúsculos, transitórios e móveis. Por esta e outras razões, embora a escola deva ser permanentemente questionada e pensada, como pesquisadora e profissional, sou a favor da escola para surdos, embora esta como as outras seja disciplinadora, porque possibilita trocas culturais e o fortalecimento do discurso surdo. As identidades surdas presentes na escola para surdos podem estar em constante negociação, bem como, podem provocar outras identificações surdas. Tais identificações partem do contato com a diferença e a diversidade experienciada em uma modalidade lingüística comum à condição de ser surdo. Nenhuma identidade está pronta, acabada ou possui um grau de autenticidade e normatividade. Todas as identidades são negociadas, pois são frutos de discursos e da transitoriedade da linguagem. Como menciona A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 117 Larrosa (1996: 158), a linguagem flutua sobre as coisas e cria sentido. A representação não é senão um efeito do sentido, o realismo não é senão uma figura retórica e a verdade não é senão uma fábula solidificada. Tendo como referência a instabiiidade da linguagem, as identidades passam a ser consideradas como edificações. Feita esta observação, posso arriscar -me na provisoriedade do dizer que não existe uma identidade surda que possa ser defendida e divulgada como estável e unificada, pois ela está baseada numa temporariedade de relatos. Hall (1997: 13) argumenta sobre a temporariedade da identidade referindo-se a ela como uma celebração móvel, que se modifica conforme somos interpelados ou representados pelos diferentes grupos que nos circundam. Esta concepção se afasta da visão moderna de sujeito, pois não admite, entre outros aspectos, a existên cia de uma essência humana. A concepção do sujeito sociológico, discutida por Hall (1997: 12), mostra a distância que existe entre considerar a identidade como algo fixo, que sutura o sujeito à estrutura, daquela que celebra a diferença e a instabilidade. Conforme o autor, a identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o “interior” e o “exterior”- entre o mundo pessoal e o mundo público. Na tentativa de romper com o olhar sobre um “eu” coerente, centrado e definido biologicamente, as identidades dos sujeitos pós-modernos são definidas na história e deslocadas em várias direções. Tentando pensar o sujeito surdo dentro de uma perspectiva pós-mo- derna, posso dizer que há múltiplas identidades surdas em construção. Elas se manifestam conforme os sujeitos são contados ou chamados a narrarem diferentes experiências e subjetividades. Acredito que todos os surdos possuem, entre outras, uma identidade surda, porém esta se apresenta de forma variada ou de acordo como estes são representados. Vejamos: um surdo branco, de classe média que vive rodeado de ouvintes, que estuda em escola regular, que não tem convivência com a comunidade surda possivelmente se identifica como um surdo, mas, provavelmente, não possui a mesma identidade de uma surda branca que vive sob as mesmas condições e grupo. Este comentário serve para elucidar o que venho tentando escrever sobre as múltiplas identidades dos sujeitos, assim como sobre a insuficiente e reduzida divisão da sociedade, quando se trata da surdez, em ouvintes/ normais e surdos/deficientes. As diferenças na surdez são muitas, basta olharmos para ela longe da medicalização e dos discursos patologizantes. 118 Carlos Skliar Hall (1997: 13) diz: O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Fundamentada na citação de Hall, é importante salientar que, muito além da preocupação com as diversas identidades surdas, a escola também deve preocupar-se com outras identidades manifestadas pelos su jeitos. A identidade surda é apenas uma delas, existem as identidades voltadas ao gênero, à cor, à raça, etc. Hall (1997: 17), comenta: uma estrutura deslocada é aquela cujo centro é deslocado, não sendo substituído por outro, mas por uma “pluralidade de centros de poder”. O deslocamento da visão de sujeito nos permite percebê-lo como histórico, datado, localizado na geografia, cultura, espaço e temporalmente. Os surdos, quando reunidos em um mesmo espaço escolar, têm possibilidades de trocar experiências desiguais. Entre estas experiências, surgem diferentes perspectivas valorativas e poderes. Existem surdos que por possuírem referências culturais mais fortes, tendem a dominar outros que não possuem as mesmas vivências. A partir desses colegasmais atuantes nos movimentos surdos, pode existir a possibilidade de serem criados novos valores a partir de uma vida dentro de um grupo “lingüístico comum”. A vivência em espaços como a escola para surdos pode representar o princípio do respeito à diferença, a partir de novas possibilidades de barganhar, com ouvintes e surdos, novas representações. Alvarez-Uria (1995: 69) comenta sobre os reflexos do processo de escolarização na produção de sujeitos para a diversidade e, também, sobre as resistências desses aos mecanismos de controle e disciplinamento utilizados pela escola. Ele argumenta: É no dia a dia comum, nas ações rotineiras e aparentemente banais, que a escola produz e reproduz os sujeitos nas suas diversidades e desigualdades. É também nesses espaços cotidianos que os sujeitos constróem suas respostas, suas resistências e adesões, fazendo-se a si mesmos. A SURDEZ: um olhar sobrt as diferenças 119 As trocas culturais e de poderes desiguais entre surdos que comparti lham de uma situação lingüística semelhante, auxiliam no processo de ocupação territorial escolar, na organização dos movimentos surdos, na convivência e na formação de comunidades surdas. A existência da surdez como uma diferença declarada na escola é um elemento capaz de fazer pensar a instituição e o currículo produzido pela mesma. A pluralidade dos sujeitos existentes nesta já não pode ser analisada como uma abertura permitida, mas, sim, como o resultado de uma ótica onde a diferença e a pluriconstituição do sujeito ocupam lugares transitórios e polêmicos junto às divisões culturais. A descontinuidade da história chama a escola a redimensionar-se. As múltiplas possibilidades de sujeitos, de espaços, de raças, de línguas, de cor, de religião, de sex os estão exigindo uma escola mais comprometida com a diferença e atuante dentro das culturas discriminadas. A atuação escolar crítica permite colocar as culturas e as identidades lado a lado com outros poderes e saberes em destaque. O poder dos alunos surdos, quando submetidos à inconformidade gerada pela escola questionadora, passa a ocupar um espaço vital no processo de desterritorialização das barreiras sensoriais, lingüísticas, espaciais, esco lares, de identidades e de culturas na instituição. As práticas disciplinadoras, exercidas por meio da sua invisibilidade (Gore, 1994: 12), visam normatizar a vida dos sujeitos surdos, mas, quando existe a possibilidade de estes estarem em um mesmo espaço escolar, elas passam a ser enfrentadas. Os enfrentamentos, dentro de um ambiente possível de organização de grupos específicos, começam a ser freqüentes, e a história da educação dos surdos, neste caso, tem a possibilidade der ser escrita e contada pelos discursos surdos. Neste espaço chamado escola, os educadores comprometidos com a multiplicidade, devem adotar o compromisso de questionar as relações que, conforme escreve McLaren (1995), organizam as diferenças. A partir de uma postura crítica de análise da pedagogia, da escola, dos poderes e das diferenças, podemos ter uma comunidade conectada com a indignação, com a oposição, com as incertezas, enfim, poderemos ter profissionais e alunos combativos e capazes de perceberem as redes de poder na qual estão inseridos, bem como de perceberem que lugar estão ocupando dentro delas. 120 Carlos Skliar Muitas coisas ainda podem ser ditas sobre este assunto, mas minha intenção não é escrever um texto que contemple todos os olhares ou as relações que poderiam ser construídas a partir dos temas identidades, surdez e escola, mas, ao escrevê-lo, propus um recorte que poderá ser questionado, pensado e reconstruído posteriormente em outros textos e por outros leitores. Referências Bibliográficas ÁLVAREZ-URIA, Fernando. A escola e o espírito do capitalismo. In.: COSTA, Marisa (Org.). Escola básica na virada do século: cultura, política e currículo. Porto Alegre: FACED/UFRGS, 1995. (p.70-77). BEHARES, Luis. Identidade surda e língua de sinais: comentário sobre as descrições funcionalistas. São Paulo. 1995. (inédito) BRITZMAN, Deborah. O que é esta coisa chamada amor identidade homossexual, educação e currículo. Educação & Realidade, v. 21, n. 1, jan/jun, 1996. (p71-95). COSTA, Marisa. Discutindo a escola básica em tempos de neoliberalismo Uma conversa introdutória. In.: ___________ (°rg) Caminhos investigativos. Porto Alegre: Mediação, 1996. (p. 5-9). GORE, Jennifer. Foucault e educação. Fascinantes desafios. In.: SILVA, Tomaz. (org) O sujeito da educação. Petrópolis: Vozes, 1994. (p. 9-19). HALL, Stuart. Identidades culturais na pós modernidade. Rio de Janeiro: D PA, 1997. LARROSA, Jorge. Literatura, experiência e formação, (entrvista à Alfredo Veiga Neto). In.: COSTA, Marisa (org.). Caminhos investigativos. Porto Alegre: Mediação, 1996. (pl33-l6l). LOURO, Guacira. A escola e a pluralidade dos tempos e espaços. In.: COSTA, Marisa (Org.). Escola básica na virada do século: cultura, política e currículo. Porto Alegre: FACED/UFRGS, 1995. (p.64-69). MACHADO, Roberto. Zaratustra tragédia nietzschiana. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 121 McLAREN, Peter. Pedagogia crítica e cultura predatória: a política oposicional numa era pós- moderna. Londres/ Nova Torque: Routledge, 1995. (p. 44-117). (tradução para seminário) SANTOS, Maria Cecília. Quem pode falar, onde e como? Uma conversa “não inocente” com Donna Haraway. Revista Crítica de Ciências Sociais. Coimbra, n.44, dez. 1995. (p. 101-123) . SILVA, Tomaz. A poética e a política como representação. (Artigo inédito). Porto Alegre. 1997. SILVA, Tomaz. O adeus às metanarrativas educacionais. In.: _________________ (org.) O sujeito da educação. Petrópolis: Vozes, 1994. SKLIAR, Carlos. A reestruturação curricular e as políticas educacionais para as diferenças: o caso dos surdos. In.: SILVA, L. AZEVEDO, J.C. & SANTOS, E. (orgs). Identidade social e construção do conhecimento. Porto Alegre: Prefeitura Municipal, 1997. (p 242 - 306). SOUZA, Regina. Aspectos lingüísticos a serem considerados na relação professor ouvinte e aluno surdo no ensino da língua escrita. São Paulo: Unicamp. 1995- (texto digitado). VEIGA-NETO, Alfredo. Michel Foucault e a educação: há algo de novo sob o sol? In.: _________ (°rg-) Crítica pós-estruturalista e educação. Porto Alegre: Sulina, 1995. (9-56). WRIGLEY, Owen. Thepolitcsof deafness. Gallaudet University Press. (1996). 7 Surdo: esse “outro” de que fala a mídia Adriana da S. Thoma Introdução Para entender as bases da formulação de filosofias e políticas educacionais para surdos que aparecem na história desta educação, questões ligadas às representações e aos imaginários sociais merecem ser tomadas como ponto de reflexão por serem guias dos comportamentos e das ações humanas frente a determinados sujeitos ou grupos sociais. De acordo com estas análises, as práticas sociais são determinadas pelas representações construídas sobre cada um dos envolvidos nelas e, dialeticamente, as representações (ou imagens) se constróem a partir das práticas sociais. O funcionamento de uma sociedade está embasado nos sentidos dados aos objetos; as práticas sociais determinam o imaginário social de um determinado grupo em uma época dada e, ao mesmo tempo, o sistema de representações determina as práticas sociais. Neste sistema de representações, estão presentes as crenças, os cos tumes e os valores legitimados pela ordem social. Tudo ocorre no sentido de se fazer crer que as diferenças entre os indivíduos é um fato natural e necessário para o funcionamento da vida coletiva. Os dispositivos de controle (usando a terminologia de Foucault), utilizados para legitimar as diferenças, estão por todos os lados e quando nos damos conta já estamos pensando e agindo de acordo com eles. Neste trabalho, quero pensar nas representações e imagináriosconstituídos sobre os surdos e a surdez a partir da mídia, acreditando serem estas concepções fortes contribuintes na elaboração de políticas e práticas educacionais: políticas e práticas comumente pautadas na naturalização de categorias comuns aos surdos, como improdutividade, incapacidade, limites e possibilidades. Para isto, utilizo recortes de jornais onde aparecem notícias 124 Carlos Skliar sobre os surdos e a surdez, divulgadas entre as décadas de 70 e 90 no Estado do Rio Grande do Sul/Brasil — estando, portanto, datados e localizados, condição necessária para uma análise desta natureza. Imaginários e representações como maquinarias sociais O conceito de imaginário social que utilizo neste texto é apresentado por Cornélius Castoriadis, autor apontado por Barbier (1994) como o melhor representante da fase contemporânea dos estudos sobre o tema, quando este faz uma retomada histórica das definições do termo. Castoriadis pensa o imaginário social como sendo a união de símbolos a determinados significados impostos, criados, legitimados, sancionados socialmente: dá- se a um objeto o sentido que se deseja, fazendo valer os interesses de quem comanda. Na prática, poderíamos pensar na inferioridade e incapacidade “natural” de alguns em oposição à suposta superioridade e capacidade de outros. Assim, é legitimada a idéia de que a criança da classe trabalhadora não possui uma capacidade cognitiva similar à da criança da classe média ou baixa; é legitimada a idéia de que o negro dificilmente alcança um lugar privilegiado na sociedade devido a uma inferioridade biológica em relação ao branco; o surdo é tido como inútil e/ou improdutivo quando não consegue se comunicar oralmente como os ouvintes etc. Isto é assim mesmo. Não há o que fazer..., diriam aqueles que não se importam em ver tudo como está, que pensam em manter cada um no “seu” lugar. A constituição do imaginário social depende essencialmente da forma como ele é difundido e, neste sentido, a força dos meios de comunicação é essencial. Mas, assim como a mídia, também as religiões, os mitos e a ideologia cumprem a função de constituir o imaginário de uma sociedade em uma determinada época. Para ilustrar as diferentes constituições imaginárias que circulam no âmbito social, formadas a partir das interfaces que compõem a vida de cada um de nós, trago o depoimento de duas profissionais de uma escola de surdos de Porto Alegre. A primeira possui formação religiosa e é diretora da escola; a segunda, além de professora, é intérprete de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) e pesquisadora na área de educação de surdos. Quando questionadas sobre o significado de “ser surdo”, suas respostas revelam o seguinte: A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 125 1 °) Eu vejo no surdinho uma criança, antes de tudo. E, como criança, ele deve receber todo nosso acolhimento. Devemos fazer de tudo para que ela venha a desabrochar, para dar uma bela rosa no futuro... 2o) Eu acho que ser surdo é uma condição social. Não tem nada a ver com perda, com não perda. É uma questão de identidade. Ele é assim... Com estas falas, podemos perceber como se dá a constituição imaginá ria a partir das crenças e valores individuais e o tratamento social dado ao surdo a partir desta constituição. No primeiro depoimento, está presente uma representação de surdo enquanto sujeito/criança que requer cuidados e atenção para que possa “desabrochar”, para que cresça em condições de participação na vida coletiva. No segundo, está implícita uma discussão sobre a questão da identidade social segundo a perspectiva pós-moderna de educação - uma perspectiva que vê os sujeitos ou os grupos sociais en- quanto cultural e historicamente constituídos. O pensamento de Castoriadis nos abre a possibilidade de perceber a sociedade impregnada de situações de manipulações políticas legitimadas para assegurar o(s) lugar(es) de cada um. Em um outro momento, quando questionada sobre o papel da escola na vida dos surdos, a diretora da escola reafirma o que acabo de dizer, sem, no entanto, questionar o que está por trás dessa manipulação. Por um lado, a singularidade do surdo é respeitada, mas, por outro, se acredita que ele é quem precisa se adaptar ao mundo dos ouvintes, aprendendo a língua utilizada por estes. Diz ela: A escola, atualmente, ela abraçou a língua de sinais. Na medida do possível, todas as crianças procuram fazer língua de sinais, a entender essa estrutura da língua, dita materna, né? Não se deixa de lado a oralização... Porque, pelo menos eu penso assim: é melhor eles saberem duas línguas do que apenas uma. Porque hoje, no mundo que nós vivemos, a coisa vai chegar a isto: aquele que sabe alguma coisa não vai ter mais vez, mas aquele que sabe de tudo. E também não adianta saber de tudo superficial. É o melhor. Este vai ter vez. E o resto, se a gente não se atualizar, não saber de tudo mesmo, a gente vai ficar na margem. Tem que saber a coisa a fundo. A manipulação política que sofremos sem nos dar conta é quase sem pre percebida como um fato normal, que não tem porque ser questionado. 126 Carlos Skliar Não pensamos, por exemplo, que as oportunidades sociais possuem uma relação direta com a condição sócio-cultural de cada um. Se é pobre, como poderá este sujeito dedicar seu tempo a estudar mais, a se aperfeiçoar como exige o mercado de trabalho? Se é surdo, como esperar que esteja apto a desempenhar papéis similares aos dos ouvintes, com tantas barreiras comunicativas e lingüísticas existentes? É a chamada reprodução do já vigente, a forma como se mantém a hegemonia. Mas esta manipulação nem sempre é aceita passivamente e os conflitos fazem com que os indivíduos elaborem seu projeto de autonomia. Porém, a busca da autonomia pelo surdo é, ainda hoje, relativamente lenta devido, em parte, à inculcação das representações já construídas. Sobre isto, a mesma professora comenta: Qual é o modelo de surdo que se tem? O modelo do surdo é só o ouvinte. São poucos os surdos bem sucedidos que nós temos, que sirvam de modelo para os surdos menores. Então, eles têm essa idéia de inferioridade. E a gente conhece a história: a gente passou 100 anos mandando na educação de surdos, mandando na vida social do surdo, mandando na vida do surdo. E, fazer o quê? Hoje continua a mesma coisa. É verdade... A recém agora que o surdo está despertando e começando a exigir os seus direitos. Eles têm ainda esta carga bastante negativa, de que eles não são capazes, de que só é o ouvinte que tem condições, por exemplo, de ser gerente de um banco, de ser professor, de sentar em um banco de universi- dade. Eles têm ainda esta idéia. Os surdos que pensam diferente são aqueles que tiveram acesso a uma universidade, por mais difícil que tenha sido.1 A sociedade, composta por diversas instituições, por sua vez também aliena-se a elas, visto que as instituições (religiosas, políticas, educacionais, entre outros) possuem sua própria autonomia, tornando-se compreensível a heterogeneidade das instâncias sociais. Subjetividades e práticas na educação de surdos Durante muito tempo, o sistema de ensino brasileiro, seguindo uma tendência global, priorizou uma educação pautada em modelos positivistas, 1 “Imaginário Social e Educação do Surdo Institucionalizado” (Dissertação de Mestrado). A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 127 onde a subjetividade dos sujeitos foi desconsiderada è o universo simbólico negligenciado, descartado do processo educacional por não poder ser objetivado nem traduzido pela ciência. Nesta educação, não houve o reconhecimento de que o imaginário construído sobre os sujeitos e sobre os grupos sociais relaciona-se diretamente à forma como se conduz seu tratamento e sua educação. O imaginário categoriza e classifica segundo as potencialidades e limites que interessam à maioria (chamada assim muito mais pelopoder nas decisões políticas do que pela representatividade numérica de seus componentes) e não reconhecer este fato implica negar o valor das subjetividades nas práticas educacionais e sociais. Ao mesmo tempo, esta negação serve como garantia para a exclusão social e educacional de alguns. Quando falo nesta educação, me refiro à educação em geral, da qual também faz parte a educação de surdos, cujo objetivo foi, durante muito tempo — e, talvez, até hoje — a “recuperação” da surdez, visando a uma melhor integração social e educacional do surdo. Dentro desta concepção, a inserção do surdo no âmbito social só ocorre com a superação da condição da surdez através do aprendizado da língua oral — da medicalização da surdez, como denomina Skliar (1996) - e da suposta aquisição de valores e padrões culturais dos que ouvem e falam. Na atualidade, sabe-se que a educação de surdos, enquanto parte integrante da educação geral, deve seguir os mesmos princípios e fins. Mas, na prática, isto nem sempre ocorre, pois muito além das políticas educacionais estão as subjetividades que conduzem a sua aplicabilidade. Em tais políticas não são considerados os interesses dos principais envolvidos: dos professores, das famílias e dos próprios alunos surdos. Em geral, elas são sustentadas por ideologias carregadas da necessidade de fortalecimento da condição de normalidade dos que ouvem e se comunicam através da fala. O princípio terapêutico da educação do surdo imperou por muito tempo em diversas sociedades do mundo todo e, com o passar dos tempos, as mudanças que houveram estiveram quase sempre voltadas a busca de estra tégias capazes de cumprir com os objetivos reabilitadores. Na história da educação dos surdos surgiram várias tendências, ap ontando concepções distintas e, por vezes, opostas, quanto a melhor forma de educar ao surdo e, no ritmo das mudanças, as fdosofias educacionais foram (re)feitas de acordo com os interesses, crenças e valores de cada época. A 128 Carlos Skliar história desta educação é, portanto, trilhada por diferentes caminhos, apre sentados como um reflexo do pensamento e dos interesses dominantes em cada época e em cada sociedade. Poderíamos dizer que cada uma destas filosofias nada mais representa do que o imaginário e as representações sociais construídas sobre os surdos ao longo dos tempos. Cada uma delas possui, a seu modo, imagens de surdez e de surdos que apontam para uma distinção, sendo esta distinção, em geral, pensada sob a ótica da inferioridade, da subalternidade e da incapacidade. Na melhor das hipóteses, o surdo tem sido visto com possibilidades de sucesso, desde que a característica biológica que o difere seja superada em nome de uma integração escolar e social mais efetiva. Desta forma, todo investimento que se faz frente a integração é de exclusiva responsabilidade do surdo ou, em outras palavras, caso ele não consiga se integrar a sociedade majoritária dos denominados ouvintes, a culpa é sua, pois é ele quem fracassa ao não conseguir ser como os demais e não desta mesma sociedade, pretensamente democrática, que lhe deu chances de recuperação. Paralelamente a esta parte da história, também houveram resistências por parte dos surdos e, como bem lembra Skliar (1997): A história dos surdos não pode nem deve ser identificada com a história das instituições educacionais e/ou com a vida dos professores ouvintes e suas metodologias, nem com as pomposas e unilaterais recomendações surgidas dos congressos. Esta é somente uma parte desta história, cuja cronologia pode ser buscada e falada sem dificuldade - e com certo tédio - em numerosos textos.2 Se esta é, então, apenas uma parte da história da educação dos surdos, o que tem sido tradicionalmente ocultado ou negado? A quem tem servido ocultar ou negar as resistências surdas, que a grande maioria dos ouvintes envolvidos nesta educação não tem escutado ou tem feito ouvido surdxP. Grande parte dos textos científicos — como também os divulgados pela mídia - tendem a mostrar métodos inovadores, tecnologias avançadas e outros recursos utilizados para educar ao surdo, esquecendo-se que para cada nova proposta nesta educação houveram desconfortos e lutas. Não a totalidade dos textos, mas a grande maioria deles não revela este outro lado da história dos surdos e da sua educação que mostra que sempre houve, em 2 Tradução minha. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 129 toda a história da humanidade, resistências e conflitos que dinamizaram e promoveram o desenvolvimento e a transformação da vida dos surdos. De forma bastante escassa, faz-se referências a momentos mais significativos, quando por exemplo, os surdos saem às ruas para reivindicar a legalização da Língua de Sinais. Mas este é um fato recente, que aparece só nas últimas décadas, concomitante a outras lutas por direitos culturais, sociais e lingüísticos. A literatura da área mostra que são raros os casos em que a aproxima ção dos surdos com o modelo ouvinte se deu sem deixar marcas ou provocar desajustes emocionais e/ou psíquicos nos surdos, o que fez com que chegássemos aos dias atuais com uma postura contrária aos recursos, métodos e técnicas utilizados para estes fins3. Hoje, sabemos que uma educação que não considera os aspectos sócio-culturais dos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem, já nasce com a garantia do fracasso, apresentando pouco ou nenhum valor de aplicabilidade. Entretanto, pensar em uma educação para surdos que considere suas características sociais, descartando a patologia e a aprox imação do surdo com o modelo ouvinte, só muito recentemente vem sendo feito e está longe de ser consenso entre a maioria dos envolvidos, pois a forma de pensar esta educação está ligada aos distintos imaginários, representações e estereótipos frente aos surdos e à surdez. Além disto, a visão sócio-antropológica da surdez é tão recente quanto a valorização das subjetividades no ensino. Surdo = deficiente auditivo; educação = reabilitação... Os nomes determinados para aqueles que não têm audição incluem “mudos”, “surdos-mudos”, “deficientes auditivos”, uma variedade de outros eufemismos politicamente corretos, e aquele que é preferido pela maioria daqueles que se identificam como tais: “Surdos”. (Wrigley, 1998: 3) 3 Quando utilizo a 3a pessoa do plural, não estou dizendo que esta é, na atualidade, uma forma de pensar a educação dos surdos comum a todos os envolvidos: profissionais, pais e surdos. O que quero dizer é que os reflexos do passado têm feito com que as discussões no âmbito desta educação se voltem para outros aspectos, não mais os puramente lingüísticos, pelo menos entre alguns pesquisadores e educadores. 130 Carlos Skliar A mídia, principal formadora de opiniões em nosso tempo, é também uma das principais responsáveis pela imagem social que temos sobre determinados grupos ou sujeitos. Através dela, as representações são produzidas e reproduzidas de acordo com os interesses de quem está no comando, dos pertencentes às categorias privilegiadas quando pensamos em relações binárias — neste caso, os ouvintes. Em um levantamento de notícias divulgadas no Sul do Brasil (Estado do Rio Grande do Sul), durante os últimos 20 anos aproximadamente, encontramos referências aos surdos que, ao mesmo tempo, se fundem e se contradizem. No ano de 1994, por exemplo, aparece uma reportagem sobre o deficiente no mercado de trabalho4, apontando uma relação de atividades que podem ser desempenhadas pelos surdos, sendo estes entendidos enquanto deficientes auditivos e deficientes auditivos leves, segundo o paradigma clínico-patológico da surdez. Entre as funções que podem ser desempenhadas por eles estão as seguintes: Deficientes auditivos Deficientes auditivos leves • afiador de ferramentas • atendente de enfermagem • alfaiate • azulejista • artesão • engenheiro• barbeiro • frentista • bibliotecário • manobrista • cartazista • nutricionista • confeiteiro • pedicuro • costureiro • retificador • datilografo • fotógrafo • maquilador • pedreiro • tipógrafo Das 13 profissões apresentadas para o denominado deficiente auditivo, nenhuma possui status social nem requer ensino superior para o seu desem penho, podendo sugerir uma imagem de surdo enquanto sujeito socialmente 4 Jornal ZERO HORA: 22 de maio de 1994. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 131 incapaz de produzir além das atividades apontadas ou uma delimitação do campo de possibilidades profissionais para ele. Para os deficientes auditivos leves, aparecem oito profissões possíveis de serem desempenhadas, entre as quais apenas duas exigem curso superior (engenheiro e nutricionista). Em ambos os casos, aparece uma representação de surdo e de surdez que cria, alimenta e/ou fortalece a suposta inferioridade dos surdos em relação aos ouvintes. Em outra nota5, intitulada O deficiente auditivo faz tudo, aparece o seguinte: O portador de deficiência auditiva tem condições de desenvolver qualquer atividade, mesmo de pesquisa. Como prova disto, os 135 alunos de pré-escola à oitava série, do Centro de Atendimento Especializado para Deficientes da Audição (CAEDA), participaram da Ia Feira de Ciências do Centro. Devemos observar criticamente a posição da mídia quando fala sobre determinados sujeitos ou grupos sociais: no caso dos surdos ocorre, em geral, uma homogeneização que consiste num tipo de enquadramento que lhes determina características comuns. Outro exemplo disto, aparece no ano de 1996 6, quando há a surpreendente revelação de que os Surdos interpretam músicas. Ainda na mesma reportagem: deficientes auditivos dançam lambada, samba, além de coreografar ópera, gospel e até jazz, pressupondo que todo deficiente auditivo pode realizar tais atividades, apesar da surdez... Uma representação desta natureza, que dá ao surdo certas “compensações” pela surdez, pode ser tão perigosa quanto aquelas que lhe delimitam possibilidades. A surdez, no entanto, não possui uma identidade que atravesse os tem pos, como bem mostra os textos onde aparece. Nem, tampouco, ela é representada da mesma forma pelos vários grupos ou saberes que a nomeiam, como a família, a medicina, a fonoaudiologia, a assistência social, a igreja, a filosofia, a pedagogia, os meios de comunicação etc. Em notícias encontradas no ano de 19787, os textos deixam claro a educação oralista vigente na época, apresentando termos como doença, rea 5 Jornal CORREIO DO POVO: 22 de novembro de 1996. 6 Jornal ZERO HORA: 02 de setembro de 1996. 7 FOLHA DA TARDE: 19 de setembro de 1978 e ZERO HORA: 07 de outubro de 1978. 132 Carlos Skliar bilitação, aparelhos de amplificação do som como integrantes desta postura filosófica. Os surdos são sujeitos clínico-terapêuticos e em um dos subtítulos aparece Causas da Doença, apontando logo a seguir formas de medicali- zÁ-la. As notícias falam de uma mostra que aconteceu na UFRGS com a finalidade de apresentar o trabalho que desenvolvia o CECDAL (Centro de Educação Complementar para Deficientes da Comunicação e da Linguagem), o qual tinha como objetivo proporcionar à clientela um atendimento complementar especializado com a finalidade de reabilitação auditiva e reestruturação da linguagem, segundo o depoimento da diretora do Centro. As imagens fotográficas destas notícia s — e de outras — também podem ser tomadas como objetos de análise, uma vez que fornecem informações possíveis para a constituição de imaginários e representações: crianças surdas com enormes fones para amplificação do som ou utilizando materiais sonoros como tambores em suas atividades reabilitadoras etc. Passada uma década, encontramos uma homenagem ao dia do profes sor divulgando a atuação daqueles que se dedicam a um trabalho muito especial. No subtítulo: Alegria com resultados compensam escolha de árduo caminho. O artigo trata da educação especial como um todo, onde se enquadram os surdos, e deixa implícita a filosofia educacional da Comunicação Total utilizada na época pela escola onde foi feita a matéria. Neste recorte não há a participação dos surdos; quem fala são os especialistas ouvintes, os pais dos surdos ou políticos envolvidos com a questão. Entre os 34 recortes analisados, apenas dois contam com o depoimento dos próprios surdos. Pouco tempo depois8, um deputado federal da época e líder de um partido na Câmara escreve sobre sua feliz oportunidade em participar das comemorações do aniversário da Escola Especial Concórdia de Porto Alegre. Segundo ele, a escola mais do que ensinar conteúdos teóricos, realiza uma verdadeiro milagre*, o de conduzir seus alunos ao mundo dos ouvintes. Apresenta um caráter sensacionalista, vendo o trabalho desta escola mais como obra de caridade do que como um trabalho com os mesmos fins e objetivos das demais instituições escolares. No título da notícia consta Sur- dos-mudos na hipoteca do amor. 8 CORREIO DO POVO: 06 de outubro de 1991. 9 Grifo meu. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 133 Em um dos poucos casos em que aparece a opinião dos surdos, há a divulgação de um projeto de lei encaminhado à Assembléia Legislativa determinando o uso de legendas nos telejornais da TV Educativa, intitulado Projeto facilita o cotidiano dos surdos'0, no qual o fundador da Sociedade de Surdos do Rio Grande do Sul diz que a comissão responsável pelo encaminhamento prefere as letras aos intérpretes da linguagem dos sinais" utilizada pelos surdos. Os intérpretes gesticulam muito rápido, justifica o presidente. Entre outras coisas, a notícia fala na dificuldade dos surdos no mercado de trabalho, principalmente para aquelas pessoas que não conseguiram estudar em instituições especializadas que ensinam a ler os lábios e a falar. O que há de comprometedor na aprovação de tal lei e que não está contemplado na notícia é o fato de que o projeto atende a uma minoria de surdos alfabetizados em língua portuguesa, havendo uma espécie de exclusão e seleção dos que seriam beneficiados com as legendas. Em 1995, a prova do vestibular da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) de Canoas/RS é realizada por candidatos surdos com o auxílio de intérprete em Língua de Sinais. Segundo os comentários da notícia, intitulada Surdos fazem testes com intérpretes'1, o respeito à diversidade é uma preocupação desta instituição, pois além dos surdos, outras culturas são consideradas, como a dos adventistas, que realizaram as provas às 17h30min, horário do pôr-do-sol. Fica evidenciado o direito que os surdos têm em utilizar a sua língua, contando para isto com uma profissional intérprete que salienta que a principal dúvida deles é em relação ao vocabulário. No ano seguinte, a mãe de um surdo investe na profissionalização do filho quando “descobre” uma profissão alternativa para ele, dando nova Esperança aos Deficientes Auditivoŝ (título). Apresenta conseqüências biológicas para a surdez, como se o fato de não ouvir desse ao surdo determinadas compensações como o aumento de outras capacidades: Eles têm poder olfativo, responsabilidade, precisão, tranqüilidade e concentração. Sobre o 10 ZERO HORA: 09 de novembro de 1994. 11 Grifo meu. 12 ZERO HORA: 10 de julho de 1995. 13 CORREIO DO POVO: 18 de maio de 1996. 134 Carlos Skliar mesmo assunto é divulgado em outro jornal uma notícia intitulada Perfumes rompem barreira do silêncio.14 Na cidade de Pelotas, interior do Estado, surdos recorrem à mídia como forma de chamar a atenção para a situação de desemprego e outras formas de exclusão em que vivem, relatando algumas conseqüências sociais derivadas da surdez. Eles vivem um drama silenciosol5, é como se intitula a nota que fala, entre outras coisas, da forma como os surdos estavam se organizando para criar a Associação de Surdos local.Em Passo Fundo, também no interior do Estado, Surdos se preparam para o trabalho16 fazendo curso em escola de informática, através da inicia tiva da APADA (Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos). A viabilidade do curso pelos surdos foi mediada por duas mães que serviram de intérpretes, e a sua divulgação busca tornar pública a potencialidade do surdo, desde que respeitados seus direitos lingüísticos. Uma das últimas notas analisadas fala sobre curso de educação de surdos promovido na Universidade de Passo Fundo: UPF, DE e Rotarypromoveram encontro sobre educação de deficientes auditivos'1. Destaca-se pela seguinte observação: Os profissionais que trabalham com os surdos precisam gostar do que fazem. Ou, ainda: O objetivo é divulgar uma visão de política educativa para os deficientes auditivos já que eles estão conquistando novos espaços, freqüentando escolas e até (surpreendentemente!!!) cursos de mestrado. A forma como os surdos são representados na mídia ocorre de forma espiralada, não linear, isto é, como um processo descontínuo, com idas e vindas, avanços e retrocessos. Com isto, as representações vão sendo criadas e legitimadas fazendo, por exemplo, com que a opinião pública ora se sensibilize pelos limites encontrados pelos surdos no mercado de trabalho, ora o superestime considerando-o capaz de realizar todo tipo de atividade, apesar da deficiência. O que menos se percebe (ao menos por aqueles que não convivem freqüentemente com os surdos) é que tanto em um caso como em outro, o preconceito aparece em primeiro plano, seja subestimando a capacidade do surdo, seja superestimando-a. 14 ZERO HORA: 11 de agosto de 1996. 15 DIÁRIO POPULAR: 12 e 13 de outubro de 1996. 16 ZERO HORA: 13 de novembro de 1996. 17 O NACIONAL: 22 de novembro de 1996. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 135 A mídia faz circular discursos sobre os surdos e a surdez derivados de “regimes de verdade” sobre estes sujeitos, ao mesmo tempo em que cria um discurso próprio sobre eles. Ao dizer o que o surdo é capaz de desempenhar profissionalmente, ela faz com base em informações que lhes foram dadas por profissionais com crenças e valores específicos, levando ao conhecimento da população em geral. Sabendo que, como nos mostrou Foucault, há uma relação direta e estreita entre poder, saber e verdade, o senso comum, inúmeras vezes, percebe o que está na mídia como verdadeiro e incontestá vel, pois provém de um discurso que “sabe”, que “investiga” aquilo que torna público. Conseqüentemente, este discurso detém o poder de formar opiniões sobre o que se escreve ou apresenta. Os danos psíquicos e sociais causados na vida dos surdos, segundo as concepções da mídia, aparecem e são determinados pela perda biológica e não pela estrutura social, despreparada para lidar com a diversidade. Uma análise desta ordem só aparece no meio acadêmico-científico que, com bases empíricas, reconhece os perigos deste enquadramento. Mas os representantes acadêmico-científicos são formados por poucos representantes e enquanto estas discussões não ultrapassarem as paredes e corredores das universidades — embora as opiniões também sejam divergentes entre os grupos de pesquisadores — o surdo continuará sendo visto como incapaz, improdutivo ou como um peso social. Considerações para constituição de novos imaginários Pensar a educação dos surdos a partir dos imaginários e das representa ções construídas sobre a surdez e os próprios surdos, aparece como uma forma de entender o tratamento social e educacional que comumente lhes é dado. As questões que envolvem a educação dos surdos estão carregadas de subjetividades que impuseram aos surdos uma aquisição de língua e de cultura dominante, e o seu sucesso ou fracasso escolar se relaciona diretamente com as imagens e representações que dão ao surdo certas dificuldades de aprendizagem, ligadas a uma suposta inferioridade cognitiva e lingüística. O que não se reconhece, no mais das vezes, é que tais dificuldades podem estar, antes de tudo, na incapacidade que muitas vezes nós, ouvintes, temos para trabalhar com eles. A também suposta superioridade dos ouvintes gerou uma imagem do surdo e da surdez carregada de situações de 136 Carlos Skliar poder, luta, possibilidades e limites que os excluem em função da perda sen sorial, uma perda que se amplia e se torna também uma perda educacional e social. Estas evidências geram alguns questionamentos, entre os quais: A não aprendizagem do surdo é mesmo um fato natural, decorrente da condição biológica e, portanto, de sua exclusiva responsabilidade, ou decorre de fatores de ordem social? Ou, ainda: O fracasso escolar do surdo não está ligado a um imaginário e uma representação que lhe dita uma incapacidade de aprender decorrente da perda biológica, introjetada e aceita pelo próprio surdo? Falo de um lugar “privilegiado”, se pensado a partir de categorias opos tas (surdo- ouvinte), pois aquilo que penso e escrevo hoje reflete, de alguma forma, as representações e imagens que construí sobre os surdos e a surdez. Uma vez que o imaginário está localizado no tempo e no espaço, esta é uma construção dinâmica e variável que nos abre a possibilidade de reformulação. A imagem de surdo que tinha há alguns anos atrás, antes do convívio profissional e pessoal que tenho hoje com representantes desta comunidade, foi sendo (re)construída a partir da percepção de surdez enquanto diferença (lingüística, cultural...) e não mais como deficiência (perda auditiva, déficit cognitivo...). As grandes verdades, ou as metanarrativas, concretizadas na elaboração de filosofias educacionais, são uma forma de perceber a educação dos surdos dentro do paradigma moderno da ciência, que categoriza os sujeitos em oposições binárias (surdo/ouvinte; negro/branco; rico/pobre, entre outras) esquecendo ou negando a complexidade de relações que estão presentes na constituição identitária do sujeito. Hoje, a partir de um novo paradigma, denominado ciência pós-mo- derna, sabemos que não há mais como negar a existência das várias faces que constituem os sujeitos. Mesmo que a surdez apareça como uma das faces mais significativas do sujeito surdo, a sua educação deve também levar em conta questões de gênero, raça e etnia. E, ainda quando a questão principal a ser discutida for a surdez, esta não pode mais ser vista sob a condição deficitária, biológica, e sim como uma condição cultural e social, da qual participam sujeitos que se identificam entre si pelo pertencimento a uma comunidade social e culturalmente constituída. As vozes dos surdos, suas resistências e conflitos frente à educação e ao tratamento social que lhes têm sido dispensado são freqüentemente silencia A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 137 dos ou ignorados por discursos opressores, fato justificável pela necessidade de manter quem está e pretende permanecer no poder, pois como diz Michael Apple (1995: 86), vivemos em uma sociedade com vencedores e perdedores identificáveis. É ilusória a tentativa de compreender o contexto das representações e imaginários sobre os surdos e a surdez sem situar a questão em uma dinâ mica ideológica de exclusão maior, que busca homogeneizar uma sociedade formada pela diversidade. A análise que podemos fazer em relação ao que é difundido pela mídia em relação aos surdos, poderia igualmente ser feita em relação aos negros, pobres, índios, mulheres e tantos “outros” pertencentes às margens, revelando que a subalternidade e a suposta inferioridade são fenômenos comuns a diversos grupos minoritários, não corres- pondendo à categoria paradigmática de surdo e de surdez. Diante do crescente interesse no meio acadêmico-científico em identificar os aspectos subjetivos que definem os tratamentos sociais — atitudes, esteriótipos, representações e imaginários sociais — como poderíamos não nos indignar comos resultados excludentes e imorais que os dados revelam. Precisamos continuar dizendo não a situações como estas, buscando o reconhecimento da diversidade social e cultural e a valorização de tal diversidade na constituição de políticas e práticas educacionais e sociais. Alguns grupos de pesquisadores e estudiosos, cientes disto, estão dando início hoje a uma nova caminhada, feita em parceria com os surdos, que busca expandir as discussões a toda a sociedade. Mas as mudanças não ocorrem de um dia para o outro nem, tampouco, elas se materializam somente com a boa vontade de alguns. Se o paradigma social que prevê a valorização e o respeito aos direitos humanos for de interesse coletivo, poderemos falar em novas constituições imaginárias. Caso contrário, a mentalidade pública (ou as representações e imaginários sociais) continuará ditando os espaços que podem e os que não podem ser ocupados pelos surdos. Apenas a união de esforços, onde a mídia aparece com grande força e poder, será capaz de construir uma sociedade mais autônoma, justa e igualitá ria. 138 Carlos Skliar Referências Bibliográficas BARBIER, René. Sobre o Imaginário. Em Aberto, vol 14, n 61, jan/mar. 1994. Brasília: MEC, 1994. CASTORIADIS, Cornélius. A instituição imaginária da sociedade. 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Parte desta reflexão é fruto das observações e do trabalho de campo junto a uma comunidade surda, desenvolvido desde 1995, em Palmas, no Estado do Tocantins. A investigação empírica junto às comunidades é fundamental, pois através desta o pesquisador social consegue compreender caminhos que podem ser trilhados em relação a alternativas viáveis para a resolução de alguns problemas que as comunidades enfrentam, apesar de correr o risco de colonizar o outro com seu discurso emancipador. Os estudos já tealizados no campo da educação popular são fundamen tais para provocar discussões na área da surdez. O diálogo possibilita informação, auto-formação e reconhecimento dos sujeitos. Interessa-me, sobretudo, discutir as diferentes maneiras de ação desta classe frente aos problemas enfrentados não só em sua comunidade, mas também em relação àquelas que a cercam. O estudo sistemático sobre estes cidadãos surdos, a partir de uma visão cultural antropológica, na minha opinião, não pretende substituir verdades absolutizantes por outras. É neces 140 Carlos Skliar sário um olhar crítico sobre o próprio movimento sem, todavia, fragmentá -lo. Neste sentido há a perspectiva do desvelamento de questões inquietan- tes, tais como, as possibilidades de promoção social dos sujeitos surdos através do diálogo, o qual se torna uma das condições para algum tipo de emancipação. A antropologia moderna possui a convicção de que os seres humanos se modificam através de costumes constituídos em lugares particulares. Estes, todavia, sempre se modificaram. Por isso, se torna extremamente difícil apontar o que é natural, universal, convencional, local, variável e constante nos seres humanos. Traç ar uma linha cultural definitiva seria falsear a situação de mulheres e homens, ou compreendê-la de forma equivocada, mesmo utilizando o rigor científico. (Geertz, 1989: 47) Entrar no mundo da pesquisa é aceitar desafios que nem sempre podemos prever, pelo contrário, necessitamos fugir sempre do determinismo histórico, buscando novos olhares para ir encontrando, assim, novas formas de resistências e elaborações. Nas relações, (...) em que educador e educandos, curiosos, se acercam ao objeto de sua análise, os segundos necessitam de alguma informação, indispen sável ao prosseguimento da análise, pois conhecer não é adivinhar, a informação deve ser precedida de certa problematização. Sem esta, a informação deixa de ser um momento fundamental do ato de conhecimento para ser transferência que dele faz o educador aos educandos. (Freire, 1980: 17) Assim como Freire se refere aos educandos, poderia se referir aos pesqui sadores. O pesquisador também necessita superar a curiosidade espontânea para compreendê-la epistemologicamente. Gostaria de manter a coerência e me embevecer, se possível, da sabedoria científica de diversos pensadores que fizeram do ato de pensar um elemento rigorosamente fundamental em suas elaborações epistêmicas sobre a socieda de, numa tentativa de amarrar estas concepções com os estudos surdos. Aceito a idéia da necessidade de existir uma clareza científica do objeto do conhecimento e dos sujeitos investigados. Este caminho é possível atra vés do pensar científico possibilitado pela ciência que está em constante A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 141 mutação e transformação. Apesar de o mundo não mudar, com as mudan ças e transformações paradigmáticas da ciência, os cientistas já trabalham num mundo diferente. (Kuhn, 1978: 156) As pesquisas devem ser criticamente coordenadas em relação à sistemati- zação das leis, interpretação e comprovação dos dados. Isto representa uma espécie de limpeza nos métodos e conceitos, possibilitando que o conhecimento seja construído a partir de pressupostos coerentes para a criação científica em geral. Também esta questão está presente nos estudos sobre a surdez. A interpretação científica não deve ser simplesmente mais uma ativida de humana. O conhecimento científico deve ser considerado como conhecimento da natureza e não enquanto uma ideologia. Ela constitui-se como um tipo de trabalho. Esta transformação tem como base a comunicação ou a palavra presente na ciência, elemento, muitas vezes, completamente distante da realidade de algumas comunidades surdas. La palabra es elgermen de la ciência, y en este sentido cabe decir que en el comienzo de la ciência estaba la palabra. (Vygotski, 1982: 281) O conceito é uma espécie de instrumento da ciência e não um objeto final e terminado. Está sempre em vias de, ou seja, os conceitos são meios e não são o fim da ciência. Os fatos podem aumentar cada vezmais, porém os conceitos não aumentam. Os conceitos são os próprios métodos, (idem, 1982: 281) Os conceitos sobre os surdos, sobre a surdez, também estão nesta relação acima descrita, e é importante que isto ocorra neste campo da educação. Por outro lado, toda palavra é uma teoria. Na medida em que vamos utilizando as palavras na interpretação dos objetos científicos, ela vai ampliando seus significados. Estas alterações e transformações lingüísticas evitam que a língua se torne amorfa. Penso que o educador-pesquisador precisa pensar o objeto de forma aprofundada. Precisa deixar fluir o pensamento, soltando faíscas, raios no sentido de ser rigoroso filosofica e epistemologicamente. As palavras são fundamentais neste processo investigativo. Elas possuem toda uma rede de significados no campo científico. 142 Carlos Skliar H(á) dialogicidade nos Estudos Surdos? Não apenas temos sido inacabados, mas nos tornamos capazes de nos saber inacabados. (Freire, 1995: 75) O diálogo possibilita aos sujeitos surdos desencadearem seu processo emancipatório? Será que como educadores de surdos permitimos que eles falem e expressem seus conhecimentos e sua forma de olhar o mundo? As crianças e adultos surdos nos rincões deste país possuem oportunidades de dialogar com o mundo onde interagem? Existe a possibilidade concreta de ouvintes e surdos conversarem sobre as coisas da vida e da existência de forma livre e plena? O objeto de investigação pode ser cercado pelo pesquisador se ele se distanciar epistemologicamente do mesmo. Distanciar-se do objeto de pesquisa significa aproximação. É o cercamento epistemológico para que haja a apropriação da substantividade do objeto, decifrando, assim, a sua razão de ser. Neste procedimento epistêmico não se deve isolar o objeto para “apreendê-lo em si”. Mas, se trata de descobrir nele a condição para compreendê-lo e às relações intrínsecas aí inseridas em relação aos outros. A dialogicidade não pode ser entendida como instrumento usado pelo educador, às vezes, em coerência com sua opção política. A dialogicidade é uma exigência da natureza humana e também um reclamo da opção democrática do educador... Não há comunicação sem dialogicidade e a comunicação está no núcleo do fenômeno vital... (Freire, 1995: 74) Este processo, que aposta na comunicação como elemento, é o suporte para a própria existência dos seres humanos, sendo estes surdos ou não. É uma tarefa que não corresponde apenas aos educadores surdos ou ouvintes, mas, sobretudo, aos educadores-pesquisadores em geral. Para Freire, a radicalidade da inconclusão é uma das raízes da educação própria das mulheres e homens. Nossa trajetória histórica tem sido marcada pela “finitude”, pela inconclusão. Desta forma, ocorre um enraizamento da própria esperança de ser alguém mais. Por isso, a esperança inicia na nossa natureza enquanto projeto. Penso que necessito destas categorias, pois sem elas não acredito no avanço das discussões sobre a surdez. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 143 Para que a fmitude, que implica processo, reclame educação, é preciso que o ser nela envolvido se torne dela consciente. A consciên cia do inacabamento torna o ser educável. O inacabamento sem a consciência dele engendra o adestramento e o cultivo. Animais são adestrados, plantas são cultivadas, homens e mulheres se educam, (idem, P-75) Muitas escolas que trabalham com pessoas surdas continuam adestrando ou cultivando os surdos em suas salas de aula sem pensar na educação destes. Talvez lhes falte clareza em relação ao debate educacional crítico, onde se defende que o mundo não se resume a uma experiência racionalista. Na sua totalidade encontramos a razão, sentimentos, emoções, desejos, fruto das relações interpessoais e existenciais da própria vida. Freire sugere que os educadores deveriam prestar mais atenção às curiosidades. Ele faz uma separação entre curiosidade espontânea e epistêmica. A primeira se refere àquela curiosidade cotidiana e a epistêmica é a reflexão radical sobre aquilo que me chama a atenção superficialmente, com a possibilidade de aprofundar a análise numa busca de esgotamento do tema. Freire afirma que a curiosidade epi stêmica é um desafio, um exercício no aprofundamento da própria experiência empírica. Perseguir o objeto de estudo de diversas formas, cercá-lo, entendê-lo e compreendê-lo, aproxi- mando-se dele cada vez mais, sem anulá-lo. O rigor científico precisa estar presente para possibilitar a transformação da curiosidade espontânea numa curiosidade epistemológica. No processo investigativo precisam estar presentes a imaginação, a intuição, as emoções, a capacidade de conjecturar, comparar e compreender o objeto e sua razão de ser.(Freire, 1997: 97-98) A promoção de mulheres surdas e homens surdos, bem como, de homens ouvintes e mulheres ouvintes deve ser a busca desesperada de novas maneiras de olhar o mundo. Não são os desesperados que buscam a esperança? Sem desespero haveria esperança? O movimento surdo é regado pela dialogicidade. O diálogo não pode se configurar num monólogo, o que ocorre facilmente entre os que ouvem e os surdos. O pesquisador que é surdo, ou que ouve, precisa exigir a radicalidade dialógica do seu próprio discurso na busca desesperada da coerência, ato essencial no fazer científico. (Freire, 1997: 84-85) A dialogicidade é fruto da criação humana. É uma das categorias possíveis para se pensar o mundo da vida, movido pela própria curiosidade. Esta 144 Carlos Skliar categoria é instigante e instigadora, ao mesmo tempo, na busca de algo mais. A curiosidade instigadora sempre é uma boa tarefa para nós, seres inacabados, nos darmos conta do nosso inacabamento. Só é possível existir esperança, quando nos damos conta de que não sabemos tudo, mas que temos potencialidade de conhecer e desvelar o mundo onde estamos inseridos. Estes sentimentos nos apontam vários caminhos onde faz parte a radicalidade dialógica. A partir desta concepção é que os surdos podem olhar o mundo, ao invés de apenas vê-lo, e os ouvintes podem escutá-lo, ao invés de apenas ouvi-lo. Afirmo que para muitos ouvintes que trabalham com surdos a existência de uma cultura surda constitui tanto um problema de cren ças pessoais como de oportunidades. De crenças porque, justamente, não há nada fora de seu normal, de sua própria y auto-referencial cultura; nesse plano, a cultura surda seria um desvio, uma anomalia. E é um problema de experiências porque, ao trabalhar com crianças surdas desde uma perspectiva clínica, desconhecem os processos e os produtos que geram, por exemplo, em nível de teatro, poesia, artes visuais, ciência, didática, etc., determinados segmentos da comunidade de surdos. (Skliar, 1997: 273) A educação surda tem experimentado alguns avanços no que diz respeito aos novos rumos que estão sendo apresentados nesta área. Existe uma tendência atual que aceita analisar as comunidades surdas a partir de uma perspectiva multicultural crítica e transformadora. Pensar o multiculturalismo na educação de pessoas surdas ou ouvintes, a partir de uma visão crítica, talvez seja uma alternativa para aqueles que investigam e atuam na educação surda. É importante que os sujeitos aprendam a apropriar-se criticamente do conhecimento que existe, o qual, muitas vezes, está além de suas experiências imediatas. É importante que os sujeitos surdos e ouvintes possam ampliar sua compreensão de si mesmos e do mundo onde interagem e, a partir destas ações, transformar o próprio presente. A educação multicultural seria um veículo eficaz para as trocas sociais emancipatórias. A escola precisa se comprometer em realizar, juntamente com os alunos, sejam eles surdos ou não, a crítica social. Deve ajudá-los a entender a dissonância dos ideais e as realidades sociais existentes. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 145falar dos “surdos” podemos, involuntariamente, descrever somente os surdos homens, brancos, de classe média, que freqüentam as instituições escolares, que fazem parte dos movimentos de resistência, que lutam pelos seus direitos lingüísticos e de cidadania, etc. Por isso, a totalidade não é positiva nem negativa. Seria um equívoco conceber os surdos como um grupo homogêneo, uniforme, dentro do qual sempre se estabelecem sólidos proces- sos de identificação. Também fazem parte dessa configuração que denominamos “surdos”, os surdos das classes populares, os surdos que não sabem que são surdos, as mulheres surdas, os surdos negros, os surdos meninos de rua, entre outros, e, ainda, os receios, as assimetrias de poder entre surdos, os privilégios, a falta de compromisso com as reivindicações sociais, etc. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 15 A partir destas premissas é possível uma definição mais rigorosa sobre o significado que tem a proposta dos Estudos Surdos em Educação, na interface com outras linhas de estudo. Os Estudos Surdos em Educação devem, no meu entendimento, gerar quatro níveis de reflexão: • Um nível de reflexão sobre os mecanismos de poder/saber, exercidos pela ideologia dominante na educação dos surdos - o oralismo ou, melhor ainda, o “ouvintismo” — desde suas origens até os dias atuais; • Um nível de reflexão sobre a natureza política do fracasso educacional na pedagogia para os surdos, visando a uma redefinição do problema; • Um nível de reflexão sobre a possível desconstrução das metanarrativas e dos contrastes binários tradicionais na educação dos surdos; • Um nível de reflexão acerca das potencialidades educacionais dos surdos que possa gerar a idéia de um consenso pedagógico. Parece-me importante avançar, agora, para uma análise mais detalhada de algumas destas reflexões que os Estudos Surdos em Educação su gerem. Reflexão sobre o ouvintismo como ideologia dominante: logocentrismo, etnocentrismo e medicalização da surdez e dos surdos O ouvintismo — as representações dos ouvintes sobre a surdez e sobre os surdos — e o oralismo — a forma institucionalizada do ouvintismo - continuam sendo, ainda hoje, discursos hegemônicos em diferentes partes do mundo. O que é, mais explicitamente, o ouvintismo? Trata-se de um conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e a narrar-se como se fosse ouvinte. Além disso, é nesse olhar- se, e nesse narrar-se que acontecem as percepções do ser deficiente, do não ser ouvinte; percepções que legitimam as práticas terapêuticas habituais. Nas palavras de Wrigley: 16 Carlos Skliar Para aquele que ouve, a surdez representa uma perda de comuni- cação, a exclusão a partir de seu mundo. Em termos cosmológicos, é uma marca de desaprovação. Ela é a Alteridade, um estigma para se ter pena, e por isso, exilada ás margens do conhecimento social (...) Seu ‘silêncio’ representa banimento ou, na melhor das hipóteses, solidão e isolamento. A atividade missionária e o auxílio caridoso são encorajados como as respostas moralmente legítimas.(Wrigley, 1995: 16) A conjunção das representações clínicas e terapêuticas levou historicamente, em primeiro lugar, a uma transformação do espaço educativo e escolar em territórios médico-hospitalares (Lane, 1993). Tal transformação deve ser entendida como uma das causas fundamentais na produção do holocausto lingüístico, cognitivo e cultural que viveram os surdos. Situação esta, que pode ser comparada àquela que também viveram outras comunidades, definidas como subalternas, como, por exemplo, os indígenas, os negros, as mulheres, os loucos, etc. Porém, a análise do ouvintismo e do oralismo foi e é realizada, quase sempre, como se se tratasse de um poder vertical, absoluto. Ora, isso con duz a uma simplificação no entendimento da sua vigência atual e a uma leitura apenas superficial das suas estratégias explícitas — a proibição do uso da língua de sinais, o castigo corporal, as brutais metodologias de ensino da língua oral, etc. A questão do ouvintismo e do oralismo, enquanto ideologia dominan te, excede largamente o espaço da instituição escolar. Então, seria uma ingenuidade pensar que sua origem decorre de um decreto escrito em um momento preciso da história. Ainda que seja uma tradição mencionar seu caráter decisivo, o Congresso de Milão, de 1880 - onde os diretores das escolas para surdos mais renomadas da Europa propuseram acabar com o gestualismo e dar espaço à palavra pura e viva, à palavra falada - não foi a primeira oportunidade em que se decidiram políticas e práticas similares. Essa decisão já era aceita em grande parte no mundo inteiro. Apesar de algumas oposições, individuais e isoladas, o referido congresso constituiu não o começo do ouvintismo e do oralismo, mas sua legitimação oficial. Como toda ideologia dominante, o ouvintismo gerou os efeitos que desejava, pois contou com o consentimento e a cumplicidade da medicina, dos profissionais da área da saúde, dos pais e familiares dos surdos, dos professores e, inclusive, daqueles próprios surdos que representavam e repre A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 17 sentam, hoje, os ideais do progresso da ciência e da tecnologia — o surdo que fala, o surdo que escuta. Além disso, o ouvintismo, ou o oralismo, não pode ser pensado somente como um conjunto de idéias e práticas simplesmente destinadas a fazer com que os surdos falem e sejam como os ouvintes. Convivem dentro dessas idéias outros pressupostos: os filosóficos — o oral como abstração, o gestual como sinônimo de obscuridade do pensamento; os religiosos — a importância da confissão oral, e os políticos — a necessidade da abolição dos dialetos, já dominantes no século XVIII e XIX. Por último, vale lembrar que o ouvintismo gera diferentes interpreta ções, entre as quais surgem algumas formas de resistência a esse poder. O surgimento das associações de surdos enquanto territórios livres do controle ouvinte sobre a deficiência, os matrimônios endogâmicos, a comunicação em língua de sinais nos banheiros das instituições, o humor surdo, etc., constituem apenas alguns dos muitos exemplos que denotam uma outra interpretação sobre a ideologia dominante. Considero oportuno exemplificar, ainda, a natureza dos poderes e dos saberes do ouvintismo, me concentrando num fenômeno pouco explorado (Skliar, 1998): os mecanismos de colonização do ouvintismo sobre o planejamento do currículo na educação de surdos. O ouvintismo desenvolveu não apena:; uma, mas várias formas de colonização do currículo, através de uma trama de representações variadas: - O currículo para deficientes mentais, reproduzindo o estereótipo que define os surdos como deficientes mentais ou, em todo caso, os surdos e os deficientes mentais como semelhantes; - O currículo para os ouvintes, multiplicando por dois ou por três o tempo planejado na escola regular, que reflete a fórmula pela qual os surdos são, proporcionalmente, a metade ou a terça parte dos ouvintes; - O currículo para deficientes da linguagem, por sua vez, sugere que o problema da surdez não é tanto o do acesso à oralidade, mas, pior ainda, que afeta a faculdade mental dos surdos para a linguagem; - O currículo de beneficência laborai está centrado ou na reprodução de atividades e ofícios já saturados pelo desemprego - carpintaria, datilografia, corte e costura, etc. — ou no sentido de formar surdos somente enquanto atendentes ou ajudantes de ouvintes; 18 Carlos Skliar - O currículo salva-vidas, como último recurso, para aqueles surdos que não se encaixaram nos outros currículos citados anteriormente. Na base de todas essas formas, separadas ou conjuntas, de ouvintismo curricular sempre é possível reconhecer substratos ideológicos para as práticas pedagógicas ulteriores como, por exemplo: a subordinação de todo o currículoA idéia da educação multicultural crítica (McLaren, 1997) está basea da no fortalecimento participativo dos alunos na comunidade onde interagem. Neste intercâmbio teórico, diferentes visões de mundo poderão ser contempladas na aquisição e construção do conhecimento. Outro objetivo seria envolver os alunos em análises críticas paradigmáticas na explicação dos conflitos, valores e ações de diferentes organizações sociais. É preciso dar oportunidade para os estudantes desenvolverem uma vi são sofisticada sobre a natureza. Observar conjuntamente as limitações do próprio conhecimento, além de compreender a estrutura de uma constru ção social refletida no seu contexto político e cultural, onde ações cotidianas ocorrem no ambiente em que os sujeitos interagem. A divulgação de uma cultura globalizante e universal pode ser uma armadilha imposta aos nossos tempos, provocando a massificação cultural. Talvez seja preciso pensarmos a cultura não enquanto uma só cultura, monolítica, mas nas diferentes manifestações culturais, as quais são aceitas através das concepções multiculturais críticas transformadoras. Não podemos pensar uma cultura de surdos como uma imagem velada de uma hipotética cultura de ouvintes, pois esta não existe. Existem diferentes manifestações culturais a partir de um conjunto de significados éticos, estéticos, míticos, técnicos... Fugir das grandes metanarrativas pode ser um passo concreto, para que se possa visualizar novas concepções respeitando a realidade multicultural existente nas relações sociais. (Skliar, 1997: 263) A reflexão radical epistemológica junto aos surdos é fundamental. Sus tentados através desta ação reflexiva, é possível que visualizemos as alternativas para a resolução de alguns problemas imediatos. Porém, é preciso estarmos preparados, pois estas soluções podem gerar novos problemas não menos complexos do que os resolvidos anteriormente. Não preciso me sentir amedrontado ao realizar um esforço intelectual, pois este já implica uma parcela de coragem na caminhada em direção à construção epistêmica que me envolve e muitas vezes me seduz. Muitos surdos do mundo ocidental possuem marcas ampliadas de suas lutas enquanto sujeitos reivindicadores de seus direitos, nos quais à livre expressão de suas idéias sempre esteve presente. Não foram poucas as vezes que os pais, professores ou autoridades, através das leis, silenciaram o grito dos surdos. Muitos surdos também silenciaram as surdas e muitas surdas brancas, ricas, silenciaram outros surdos, negros, hispânicos, da mesma 146 Carlos Skliar forma como foram silenciados outros movimentos de resistência à superes- trutura. Muitas metodologias utilizadas nas escolas de surdos ainda possuem uma base terapêutica, transformando-as em verdadeiras clínicas de reabilitação em nome de uma normalidade ou normalização de um mundo cultural único, sem resistências, completamente reificado. A cultura dos surdos é, ou não, uma recusa explícita ou implícita da cultura dos colonialistas? Sim, estamos frente a várias culturas, apesar de existirem muitos profissionais que desconsideram a cultura multifacetada. A sociedade não é um todo unitário e os longos anos de autoritarismo, de visões contrárias às perspectivas culturais dos surdos, dissimularam a divisão, procurando anular culturas de resistência que, dentro de uma universalidade abstrata, é perigosa, pois pode provocar discursos desintegradores, ameaçando uma determinada ordem preestabelecida do mundo dos que ouvem e também do mundo surdo. O que a cultura ouvinte elitista ocidental tenta perpetuar é a afirmação de um padrão cultural único, visto como melhor para toda sociedade global. Esta visão de padrão cultural único leva ao paradoxo da interdição do acesso a essa cultura “melhor”, tanto por parte dos surdos aos próprios surdos, quanto pelas classes desfavorecidas de uma sociedade a si mesmas. Podemos observar que muitos surdos, submetidos a uma espécie de aculturação, procuram copiar integralmente a cultura “melhor” do mundo ouvinte ocidental europeu. Separa-se o modelo da cópia, não como variação de grau do mesmo padrão, e sim, como diferença real multicultural. Assim, os ouvintes ocidentais brancos e ricos conseguem prosseguir com sua dominação, pois sua cultura “melhor” transforma -se em um modelo superior, e isto, não apenas em relação aos surdos, mas também em relação a si mesmos. A expressão “Cultura dos Surdos” não está no surdo. Ela é produzida pelos surdos em diferentes discursos que podem ser, muitas vezes, produzidos pelos que ouvem. Acredito que a cultura é a ordem simbólica por cujo intermédio homens determinados exprimem, de maneira determinada, suas relações com a natureza, entre si e com o poder, bem como a maneira pela qual interpretam essas relações, sendo que a própria noção de cultura é adversa à unificação. Existem muitos estereótipos em relação à identidade e à comunidade surda. O que ocorre é uma ultrageneralização histórica na educação surda. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 147 Perspectivas educacionais inspiradas a partir de conceitos estereotipados sobre estas crianças prejudicam o desenvolvimento de suas necessidades comunicativas. Já é hora de analisarmos a heterogeneidade existente na comunidade surda e a diversidade das experiências educacionais e sociais que influenciam a identidade das pessoas surdas. (Parasnis, 1996) Podemos analisar diferentes comunidades surdas, todas com suas ca racterísticas próprias, sua forma de ver o mundo e sua própria produção cultural, como ocorre em outros grupos sociais, a exemplo das comunidades indígenas, dos negros, das mulheres... Uma comunidade surda bilíngüe — multicultural, prepara os sujeitos a conviverem com duas linguagens e várias culturas. O conhecimento inato representa um acúmulo de experiências dos membros de um determinado grupo na busca de soluções para os problemas de sua existência. Muitas destas soluções são institucionalizadas, garantindo o sucesso apenas pessoal ou do grupo. As pessoas nascem dentro de um grupo, socializando-se com os pais, amigos, professores e outros. Individualmente e progressivamente os sujei tos aprendem sobre as normas e valores da família e da comunidade, da sociedade na qual vivem, e sobre os objetos e tecnologias disponíveis que estão presentes em seu mundo social. Este processo é tradicionalmente conhecido por enculturation'. Ele envolve o indivíduo e o seu grupo social em um todo complexo, cujas relações requerem uma comunicação também complexa, pois é desta forma que os sujeitos incorporam a cultura. Os surdos que têm pais ouvintes que não se comunicam em sinais, sofrerão um processo de perdas culturais. Estes surdos, freqüentemente, só terão contato com a cultura e a comunidade surda, quando forem para uma escola surda, onde poderão desenvolver a identidade do sujeito surdo. (Emerton, 1996: 136-137) Isto não significa que este processo seja emancipador e libertador dos sujeitos surdos, pois estes poderão se defrontar com concepções elitizadas de um grupo dominante surdo, de um deter- minado lugar, que julga serem inferiores os surdos das classes populares, reproduzindo uma visão colonialista. 1 Enculturation: Uma pessoa nasce dentro de um grupo e habitualmente é socializada pelos pais, amigos, professores e outros. Individual e progressivamente aprende sobre os idéias, normas e valores familiares, da comunidade e da sociedade na qual eles vivem e sobre os objetos e tecnologias artificiais do seu mundo social. (Emerton, 1996: 138) 148 Carlos Skliar Apesar deste risco, é fundamental que os surdos possam desenvolver sua forma de olhar o mundo. Muitos surdos só encontram outros quando já estão entrando na adolescência ou na vida adulta. Só então, começam a freqüentar os clubes e escolas surdas, ou vão se aproximando de “grupos espontâneos de surdos”,fora dos lugares institucionalizados, na rua, nos shoppings centers, etc, onde discutem livremente suas idéias e opiniões. Para os surdos, estes momentos de conversas são fundamentais ao seu relaxamento diário ou semanal. Assim como uma pessoa ouvinte chega em casa e liga um aparelho de som, televisão, ou rádio, da mesma forma os surdos necessitam da conversa após suas atividades cotidianas e rotineiras. Quando perguntados sobre essa necessidade responderam — “apenas para relaxar”2. A comunidade surda é um complexo de relações e interligações sociais, que diferem de outras comunidades onde existe a possibilidade da comunicação oral, pois as pessoas surdas necessitam da língua de sinais e das experiências visuais para realizarem uma comunicação satisfatória com outras pessoas. O sistema de relações familiares surdas difere substancialmente de uma sociedade ouvinte, sendo esta uma das evidências de que a comunidade surda se constitui quase como se fosse um grupo étnico. Se determinada comunidade surda fosse igual a uma determinada sociedade ouvinte, os valores e atitudes associados com as relações se refletiriam em ambos os sistemas familiares da mesma forma. Porém, a comunidade surda tem criado seu próprio sistema parental, que reflete uma visão diferente da dos parentes próximos; mesmo que os surdos tenham sido educados em um sistema oralista, o desenvolvimento de sua comunidade tem se dado de forma natural (Massone, 1994: 273). E o parentesco cultural, e não o familiar consangüíneo, que forma uma relação social surda autêntica, a não ser que toda a família seja surda. Bateman (1996) afirma que os objetivos comuns das lideranças destas comunidades é avançar no campo educacional, econômico, social e na sua vida cívica. Os surdos têm trabalhado diligentemente pela igualdade de direitos juntamente com a comunidade ouvinte. Buscar esta igualdade e 2 Relato de surdos que vivem em Porto Alegre, RS - Brasil. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 149 este respeito em relação à cultura dos surdos, é uma boa forma para que mais pessoas surdas possam ser ativas politicamente, possibilitando que a comunidade possa se expandir cada vez mais. Todavia, penso que esta afirmação é relativa, pois só haverá uma certa igualdade quando houver uma aceitação da diferença cultural manifestada. Há muito tempo estou observando e convivendo com pessoas surdas, de diferentes classes sociais. Porém, tive uma experiência com os surdos do Tocantins, especialmente com os surdos da capital, Palmas. Eles não tinham quase nenhum contato entre si e com a comunidade. Os olhares em relação aos indivíduos e sujeitos surdos eram estereotipa dos. Eles eram tratados pelos que ouviam como deficientes auditivos. A falta de perspectivas, a precária convivência, o desemprego, a falta de informação causavam tristeza e monotonia para aqueles surdos. Eram forçosamente enquadrados e integrados, enquanto indivíduos especiais e deficientes, nas escolas públicas. Condicionava-se, assim, cada vez mais a própria maneira de pensar e agir daqueles surdos. Alguns surdos até imaginavam que todas as pessoas eram surdas, ou tros pensavam que só eles eram surdos em seu meio, e assim por diante. Conviver com aquele grupo foi desafiador no sentido de imaginar o imaginável, ou seja, a possibilidade de provocar um encontro entre eles e ao mesmo tempo presenciar a formação de uma comunidade, gênese de qualquer grupo social. Havia surdos escondidos nas fazendas, sendo tratados, pelos seus feitores ou pais, quase como uma extensão da natureza e não enquanto transformadores da mesma. Outros eram ocultados pelos pais nas próprias casas. Muitos destes nunca tinham freqüentado uma escola. Ainda havia aqueles que conviviam com outros estudantes nas escolas para ouvintes, “fracassando” como muitos alunos fracassam na escola moderna e disciplinar. Muitos viviam numa condição medievalizada, necessitando de um senhor que lhes desse os parâmetros para a condução de suas vidas e de seu cotidiano. Com isto estou a lembrar que, ainda hoje, existem os indivíduos defi cientes auditivos e os sujeitos modernamente surdos. Estes, por sua vez, são objetos de si mesmos, experimentando a passagem do ser indivíduos feudais, para o ser sujeitos/objetos modernos. 150 Carlos Skliar Ao dispensar o rei — pastor — aquele que encarna o poder pastoral, aquele que tudo vê, tudo sabe e tudo decide —, a Modernidade precisou inventar a disposição disciplinar, essa 'espécie de sistema anôni- mo(...) que define um domínio de objetos, um conjunto de métodos, um corpo de proposições consideradas verdadeiras, um jogo de regras e definições, de técnicas e de instrumentos'... É por isso que 'um saber fragmentário já funciona como disciplinador dos sujeitos, divi- dindo-os, hierarquizando- os, articulando-os, sem ser visto como tal. (Veiga Neto, 1995: 84) Sujeitos surdos ou ouvintes, pastores e ovelhas de si mesmos, não desen cadeiam um processo de libertação. A partir desta perspectiva, ocorre apenas a transposição de uma realidade para outra. Talvez esta nova realidade seja um pouco mais confortável, mas não existe receita pronta, previamente elaborada, que possibilite a esperança na libertação messiânica de todo o povo surdo excluído. Existe a possibilidade de sua transformação em sujeitos objetos modernos, caso estejam envolvidos numa realidade feudal. Encontrei, em Palmas, um pequeno grupo de pessoas que conhecia a Língua Brasileira de Sinais e já havia experimentado a troca comunitária e participativa em outras cidades e Estados. Andavam devaneando solitariamente em Palmas, até que a possibilidade do encontro foi estabelecida e o reconhecimento do outro foi o fio condutor para a formação da comunidade surda de Palmas/TO. Isto desencadeou intercâmbios, vivências, e proporcionou alegrias compartilhadas. Pensar junto com este grupo, dialogando e planejando ações concretas ampliou a rede de comunicação naquela comunidade. Oferecer, mostrar ou, ao menos, provocar no grupo a curiosidade’, foram fatores que possibilitaram um maior entendimento do mundo em que vivemos, ampliando, com isto, nossa subjetividade, nossa forma de pensar e viver, através daqueles momentos intensamente vividos e compartilhados com o outro. Quando se pode ver o brilho no olhar dos cidadãos s quando se comu nicam com o outro enquanto sujeitos, é possível experimentar esta instigante arte de pesquisar e educar. Falar em educação de surdos é falar em desafios, a cada resposta que pensamos encontrar, surgem novos questionamentos. Podemos observar o brilho no olhar de uma pessoa surda, quando ela con 3 Curiosidade - A curiosidade aqui é pensada como uma categoria a partir do pensamento de Paulo Freire. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 151 segue se comunicar e apreender o mundo onde interage. Sem dúvida, a maior recompensa para com aqueles que lutam a favor das comunidades residuais, é ter a oportunidade de ser co-participante neste processo comunicativo e transformador dos sujeitos. A constante formação de um ser representa, aos nossos olhos, um grande desafio enquanto pesquisadores e educadores. Nesta caminhada, nos tornamos testemunhas dos brilhos do olhar de cada um que consegue visualizar um caminho epistêmico e criativo, aprofundando, ao mesmo tempo, a autoconfiança de todos que estão envolvidos nesta reinvenção do mundo epistêmico. Isto nos faz emergir em outras dimensões, próximas e distantes, “onde o sentido de irrealidade do imaginário” se faz presente nas investigações sociais. Não posso criticar a cultura do colonizador reproduzindo-a em minha vida. Parece-me que não podemos ficar no exercício retórico. Precisamos agir. Forçar os sujeitos a manifestarem sentimentos culturais que não lhes pertencem certamente é sugerir que haja um processo, no mínimo, de aculturação. Esta é uma herança dos nossoscolonizadores europeus. A mesma política conservadora se reflete nas políticas educacionais do nosso país neste momento histórico. (...) para os colonizados que passaram pela alienante experiência da educação colonial, a ‘positividade’ desta educação ou de alguns de seus aspectos só existe quando, independemizando-se, a rejeitam e a superam. Quando, assumindo com seu povo, a sua história, se inserem no processo de ‘descolonização das mentes’, a que faz referência Aristides Pereira; processo que se alonga no que Amílcar Cabral chamava de ‘reafricanização das mentalidades’. E isto implica a transformação radical do sistema educacional herdado do colonizador, o que não pode ser feito, porém, de maneira mecânica... (Freire, 1980: 20) O cotidiano das classes populares não pode ser dissociado da inserção, da prática educativa. O que e como fazer, a partir da vivência conjunta, precisa ser um referência para entender a própria inserção. É necessário lermos a realidade, o que, sem dúvida, é algo complexo. Existe a importância do “Aufhebem”4 da verificação posterior. A realidade é difícil, mas pode ser facilitada com a própria inserção, sem perder a identidade e a diferença real entre os sujeitos. 4 AUFHEREM'= ajuntamento 152 Carlos Skliar ... à curiosidade, uma espécie de abertura à compreensão do que se acha na órbita da sensibilidade do ser desafiado. Essa disposição do ser humano de espantar-se diante das pessoas, do que elas fazem, dizem, parecem, diante dos fatos e fenômenos, da boniteza e feiúra, esta incontida necessidade de compreender para explicar, de buscar a razão de ser dos fatos. Esse desejo sempre vivo de sentir, viver, perceber o que se acha no campo de suas ‘visões de fundo’. (Freire, 1995: 76) O encontro, o diálogo e o retorno pelo estranhamento favorecem o trabalho com as comunidades. Os aspectos multiculturais e multilíngües críticos me parecem uma possibilidade concreta de transformações reais presentes preparando o futuro, pois acredito e tenho esperança nele. O desespero é uma espécie de silêncio experimentado e cultivado por aqueles que querem fugir, escapar e recusar o mundo onde estão inseridos. Se esta desumanização é produto de uma determinada ordem preestabelecida, não deveria ser o motivo para se perder a esperança. Ao contrário, deveria ser o desejo de querer mais e incansavelmente produzir e buscar alternativas possíveis. A esperança definitivamente não é o cruzar os braços e esperar. É sempre um novo olhar, um recomeçar. A esperança é a mola propulsora deste re-princípio. Movo-me na esperança enquanto luto e, se luto com esperança, espero. Se o diálogo é o encontro das mulheres e homens para serem mais, ele não pode se fazer na desesperança. Se os sujeitos do diálogo nada esperam do seu que-fazer, já não pode haver diálogo. O seu encontro é vazio e estéril, é burocrático e fastidioso.(Freire, 1992: 82) A esperança emancipatória significa um estado de transformação na sociedade moderna. É a real participação nas decisões administrativas, independente do fato de serem os sujeitos ouvintes ou surdos. Reproduzindo, como não podia deixar de ser, a ideologia colonia lista, procurava incutir nas crianças e nos jovens o perfil que deles fazia aquela ideologia. O de seres inferiores, incapazes, cuja única salvação estaria em tornar-se “brancos” ou “pretos de alma branca”. Daí o descaso que essa escola necessariamente teria de ter por tudo que dissesse de perto aos nacionais, chamados de ‘nativos’. Mais do que descaso, a negação de tudo o que fosse representação mais autêntica da forma de ser dos nacionais: sua história, sua cultura, sua língua. A história dos A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 153 colonizados ‘começava’ com a chegada dos colonizadores, com sua pre- sença ‘civilizatória’; a cultura dos colonizados, expressão de sua forma bárbara de compreender o mundo. Cultura, só a dos colonizadores. A música dos colonizadores, seu ritmo, sua dança, seus bailes, a ligeireza de movimentos de seu corpo, sua criatividade em geral, nada disso tinha valor. Tudo isto, quase sempre, tinha de ser reprimido e, em seu lugar, imposto o gosto da Metrópole, no fundo, o gosto das classes dominantes metropolitanas. (Freire, 1980: 20) Historicamente, quando uma tribo vencia a outra nas batalhas, a primeira atitude dos vencedores era a proibição da língua dos vencidos, o que provocava um processo de aculturação daquela comunidade. Dominar a natureza e transformá -la é um ato propriamente humano e o produto é sua cultura e sua história, obra não sobrenatural, mas humana. Quando a cultura surda é reprimida pela visão colonialista do ouvinte, esta sofre inúmeros retrocessos. A única coisa própria do ser humano é sua linguagem, pois somente a partir dela ele poderá se transformar em um ser individual, social e cultural, possuindo uma consciência coletiva. As interações da prática comunicativa constituem o meio através do qual se reproduzem a cultura, a sociabilidade e a personalidade, pois estes processos de reprodução cobrem as estruturas simbólicas do mundo da vida.(Habermas, 1988: 76) Abrir espaços para que os surdos tenham acesso às informações e a tudo o que ocorre ao seu redor, é sempre um bom recomeço nesta caminhada com as classes populares. É um compromisso ético e moral de nossa parte enquanto pesquisadores. Penso que as escolas, universidades, associações, não podem se restrin gir a transmitir apenas o saber instituído e institucionalizado. Deve existir o compromisso com os saberes e crenças que possibilitam a criação e recriação de novos horizontes. Novas perspectivas das diversas visões de mundo existentes na nossa sociedade massacrada com discursos dominantes e excludentes. As comunidades se organizam a partir dos territórios historicamente estabelecidos. Vivem nas cidades, no campo, nos povoados periféricos, in terligadas com outras instituições sociais, formando redes intracomunitárias. Seria uma espécie de caldeirão multicultural e comunitário muitas vezes interligado por interesses particulares. 154 Carlos Skliar Assim, a educação de surdos, necessariamente, precisa ultrapassar as fronteiras da escola, pois a mesma pertence a um universo maior que é a própria sociedade. A defesa de uma educação multicultural crítica exige uma mudança de paradigmas na educação surda. Muitos pesquisadores e educadores pensam que esta concepção é fundamental em sala de aula, onde os alunos surdos podem aprender sobre si mesmos e sobre os outros. Penso que é equivocado e perverso o discurso da neutralidade e imunidade axiológica. Se trabalho com pessoas surdas não preciso me disfarçar de surdo. Tenho a minha identidade e minha cultura, o que não impede a troca e o retorno pelo estranhamento de forma igual e ética. Desde que cheguei em Palmas/TO, me perguntava: Onde estão os Surdos de Palmas? Encontrei “deficientes auditivos”, mas não surdos. Procurei nos órgãos oficiais, onde os surdos eram classificados da seguinte maneira: deficiente auditivo lado esquerdo, surdo do lado direito, surdo paraplégico, surdo-mudo, deficiente mental-surdo, muda, surda-muda não anda, surda lado esquerdo, cego5, visão-surda, surda-cega, surda lado direito, mudo, cego-mudo, cego-surdo, muda-não anda, surdez, surdo-mudo- paraplégico, não fala-mental. Nas informações acima, percebe-se a visão estereotipada por parte das pessoas que fizeram este levantamento, que, por sua vez, foi aceita pelo poder público da região. Neste discurso, os surdos eram vistos como deficientes, considerados sujeitos exóticos com ouvidos surdos do lado esquerdo, direito... O reflexo desta massificação clínica resultou no fato de que muitos surdos não utilizavam a língua de sinais para se comunicarem. Tinham no máximo uma linguagem caseira com vocabulário limitado. Talvez a massificação cultural provocasse os mesmosefeitos. Em todo trabalho que vamos executando como educadores e educadoras é preciso que tenhamos cuidado para não transformarmos os surdos em objetos exóticos. Quem realiza este ato talvez queira chamar a atenção de uma platéia formada por outros que são como nós, mas dominam o discurso da escola, da academia, da instituição que representam. Refiro-me àqueles que possuem autoridade de decisão sobre os outros para afirmarem o que é e o que não é original a partir de suas visões e posições políticas. 5 Cego - Foi erro de digitação do pessoal da Secretaria - Nós fomos conferir e esta pessoa era surda e não cega. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 155 Naturalizar os surdos, aceitando apenas sua língua como elemento integrador, significa ouvintizá-los da mesma forma que o discurso clínico fazia. Este mecanismo é um disfarce mascarando a diferença, e se mantém na diversidade. Os pressupostos teóricos são fundamentais num processo emancipador. Para isto é necessário estabelecer uma alteridade, encarando os surdos sem medo e aceitando-os como membros de uma cultura diferente da minha. Assim, a surdez pode ser aceita como uma experiência visual. Referências Bibliográficas BATEMAN, Gerald C. Attitudes of the deaf community toward political activism. In: PARASNIS, Ila. Cultural and language diversity and the deaf experience. 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Madrid: Visor, 1990. 9 Cartografando Estudos Surdos: currículo e relações de poder Márcia Lise Lunardi Apresentação Hoje, na perspectiva das temáticas emergentes, constata-se que o discurso da surdez está sendo questionado e revisitado por novas discussões e tendências teóricas. Portanto, a idéia de trazer para análise um texto que focalize o currículo e suas relações de poder/saber na educação dos/as surdos/as', surge como resposta aos desafios que se mostram neste horizonte teórico. Este, como outros trabalhos já realizados, apresenta a tentativa de aproximar os Estudos Surdos de outros campos e áreas da educação. Neste sentido, proponho-me trazer as discussões, os discursos e as práticas que envolvem a educação de surdos/as dentro do contexto da educação geral, que, em determinadas linhas de estudo, não mostra correspondência alguma com as tradições epistemológicas habituais da educação especial.2 As discussões sobre o tema do currículo estão no centro da ação educacional, se constituindo numa problemática que vem sendo abordada e discutida nos diferentes contextos das práticas educativas. É dentro deste cenário que pretendo trazer algumas reflexões sobre a problemática que envolve as questões curriculares e suas impli cações na educação de surdos/as. 1 Utilizo, neste artigo, a terminologia feminina e masculina para referir -me a homens e mulheres. A justificativa para isto é de natureza política e apóia-se no entendimento de que a linguagem institui o sujeito e o uso desta produz e reproduz relações de poder, neste caso, relações de poder relativas a gênero. } A educação especial abordada neste trabalho refere-se a uma educação determinada e delimitada habitualmente por modelos clínico-terapêuticos, que fazem referências aos/as surdos/as como sujeitos deficientes, definindo-os somente a partir de seus supostos traços negativos, percebidos exclusivamente como exemplos de desvio de normalidade. (Skliar, 1997: 250) 158 Carlos Skliar Neste novo campo conceituai — Estudos Surdos - novos padrões teóricos de educação e escola de surdos/as vêm sendo discutidos, pois fazem uma tentativa de aproximar o tema da surdez com a perspectiva dos Estudos Culturais. Segundo Silva (1998), essa aproximação se materializa através da frase de Wrigley3, “a surdez não é um tema de audiologia, mas de epistemologia”. Conforme Silva (1998), Para Wrigley, o tema da surdez só pode ser tratado como uma questão epistemológica. “Epistemologia” não é compreendida aqui no sentido da Filosofia ou da Pedagogia do Desenvolvimento, mas no sentido político que lhe deu, sobretudo, Foucault. “Epistemologia” remete, nesta concepção, às conexões entre conhecimento e poder, ( p l ) A partir dessa perspectiva, as alternativas teórico-pedagógicas vêm se alicerçando em um modelo sócio-antropológico de educação, na qual a comunidade surda e a Língua de Sinais exercem um papel fundamental na tentativa de uma reconstrução educativa, pensada através de uma reestruturação curricular. O texto apresentado divide-se em duas partes. A primeira faz uma tentativa de trazer para a discussão questões ideológicas associadas ao tema da surdez, que destaca, nas estratégias curriculares, mecanismos de colonização na educação dos/as surdos /as. A segunda parte refere-se a algumas práticas discursivas e não discursivas que constituem o sujeito surdo/a a partir do currículo. “Ouvintismo” curricular: estratégias de colonização4 A idéia de relacionar os currículos com a organização dos conteúdos a serem ensinados aos estudantes é bastante atual, e ainda faz parte do corpo 3 Owen Wrigley autor do livro Thepolitics ofdeafhess, citado por Tomaz Tadeu da Silva, no seu artigo intitulado “A política e a epistemologia da normalização do corpo” (no prelo) Revista Espaço, Rio de Janeiro 40 termo “ouvintismo” abordado refere-se a uma analogia proposta por Skliar para referir- se aos mecanismos de colonização curricular nas escolas de surdos onde há uma ... subordinação de todo o currículo ao ensino da oralidade. (1997: 260) O termo “colonização” é usado por Tomaz Tadeu da Silva para indicar que o currículo escolar, hoje, está impregnado de princípios colonialistas. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 159 teórico dos currículos escolares. Há um determinado consenso relacionado aos conhecimentos que deveriam participar dos currículos escolares. Porém, esta normalização dos conteúdos, esta imobilidade curricular, vem sendo abalada a partir do momento que começou a se problematizar o que deveria ser ensinado, a se discutir a questão do que ensinar, de quais conteúdos são mais importantes edeveriam fazer parte dos currículos. Estes posicionamentos são características marcantes da chamada Teoria Crítica do Currículo5, que, segundo Silva(1996: 160), tem contribuído para aumentar nossa compreensão sobre as íntimas e estreitas relações entre conhecimento, poder e identidade social e, portanto, sobre as múltiplas formas pelas quais o currículo está centralmente envolvido na produção social. A educação de surdos/as, através de um recorte teórico, já mencionado, de Estudos Surdos, aproxima suas discussões e reflexões acerca do currículo, de suas relações com a cultura, o poder, a construção de identidades, na tentativa de problematizar os efeitos do fracasso escolar massivo da ideologia escolar dominante. A ideologia à qual este estudo faz referência, se vincula com a noção de poder e interesse. Portanto: [o] que caracteriza a ideologia não é a falsidade ou a verdade das idéias que veicula, mas o fato de que essas idéias são interessadas, transmitem uma visão do mundo social vinculada aos interesses dos grupos situados em uma posição de vantagem na organização social. (Moreira & Silva, 1995: 23) Com isso, justifica-se o domínio da ideologia oralista na educação dos/ as surdos/as, que ostenta o ensino da oralidade6, atrelada a práticas pedagógi 5 A Teoria Critica do Currículo analisa o conhecimento corporificado como currículo em uma constituição social e histórica. Segundo Silva, o conhecimento organizado para ser transmitido nas instituições educacionais passa a ser visto não apenas como implicado na produção de relações assimétricas de poder no interior da escola e da sociedade, mas também como histórica e socialmente contingente. O currículo é uma arena contestada, é uma arena política. (1995: 21) 6 A oralidade se apresenta como condição sine qua non para o desenvolvimento integral da pessoa surda, ou seja, o ensino da fala aparece como ponto privilegiado na educação dos/as surdos/as, lhes negando o direito de serem educados na sua própria língua, no caso, a Língua de Sinais. 160 Carlos Skliar cas de recuperação e reabilitação. O discurso7 oralista é um discurso médico e terapêutico que está presente nas narrativas, nos textos curriculares, nas idéias interessadas dos grupos privilegiados, denominados aqui como ouvintes, e que define os/as surdos/as como doentes e anormais. Neste sentido, pode se dizer que o oralismo, como ideologia dominante, ultrapassou o complexo arquitetônico das instituições escolares. Isto significa que o oralismo foi difundido para além da escola. Ele está consolidado nos diversos planos e níveis sociais. O discurso “ideológico” do oralismo, não se propagou de maneira ingênua e desinteressada, pelo contrário, atingiu os efeitos que desejava, pois suas idéias foram justificadas e legitimadas pelo poder de um determinado grupo formado por médicos/ as, especialistas, professores/as ouvintes, pais e familiares de surdos/as. Não se pode afirmar que este discurso se mantém. Ele está sendo ques tionado e (re)interpretado no sentido de aclarar os seus propósitos, que se constituíram muito além da simples e uniforme idéia de fazer os/as surdos/ as falarem. Estas idéias estão interligadas a outros pressupostos que advêm historicamente de concepções religiosas, filosóficas e políticas, que dominavam o século XIX.8 Assim, se decidiu que os surdos falariam e, ao mesmo tempo, se resolveu o problema filosófico da oposição entre o oral — como abstração — e os gestos — como sinônimo de obscuridade do pensamento; o religioso — o caráter necessariamente oral das confissões, em oposição ao caráter tosco, obsceno e primitivo da confissão por meio de gestos e, por último, as necessidades políticas de abolir os dialetos — entre eles, as línguas de sinais dos surdos - para impor uma única língua para cada território recém unificado. (Skliar, 1997: 258) A ideologia dominante não se constrói de forma homogênea. Ela apresenta diferentes interpretações, ela não é um “tecido uniforme”, é, sim, cons tituída por uma diversidade de elementos de outras naturezas. E são estas 7 McLaren, com base nas definições de Foucault, define que os discursos “são feitos de práticas discursivas descritas como um corpo de regras anônimas, históricas, sempre deter - minadas no tempo e no espaço que definiam um dado período e para um dada área social, econômica, geográfica ou lingüística, as condições da operação da função enunciativa.” (McLaren, 1997a . 213) * Estas concepções foram apresentados durante o Congresso de Milão em 1880, que consagrou o oralismo como método a ser adotado na educação de surdos/as, como um conjunto de interesses que legitimassem o ensino da fala em relação à língua de sinais. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 161 diversidades de elementos, estas diferentes interpretações, que constituem as oportunidades e as formas de resistência pois, segundo Moreira & Silva (1995), a ideologia não age sem resistências por parte daqueles aos quais é dirigida (p.25). Com isso justificamos o fato de os/as surdos/as desafiarem as ideologias dominantes e questionarem os ideais do senso comum, existentes em torno de sua educação e participação nos diferentes segmentos sociais. Algumas formas de resistências, como a criação da Associação de Surdos, fundadas após a imposição do ensino oralista nas escolas, a luta pelo direito de adquirirem a língua de sinais como primeira língua, os matrimônios entre os/as surdos/as, são expressões genuínas dessas resistências, que nas palavras de McLaren (1997a) significam lutar contra o monitoramento da paixão e do desejo. Com base nesta reflexão, se conclui que o currículo presente nas esco las de surdos/as está constituído por este discurso oralista, produzindo mecanismos de colonização curricular, ou seja, o currículo corporifica um “conhecimento oficial” que expressa um ponto de vista de grupos socialmente dominantes, no caso dos/as surdos/as — os ouvintes. Apple (1997), ilustra de uma forma clara o conceito de “conhecimento oficial” que, segundo o autor: analisa as disputas acerca do currículo, ensino e política, numa variedade de níveis e aponta para possibilidades - não apenas limitações — na situação atual. Ele argumenta que as formas dos currículos, ensino e avaliações nas escolas são sempre os resultados de acordos ou compro- missos nos quais os grupos dominantes, para manter o seu domínio, necessitam levar em conta as preocupações dos menos poderosos. Este acordo é sempre frágil, sempre temporário e está constantemente sujeito a ameaças. Haverá sempre brechas para a atividade contra - hegemônica. (p- 25) A política do “conhecimento oficial” está muito presente nas narrativas e nos textos que compõem o currículo na escola de surdos/as. Vejamos isso num trecho extraído de um currículo, de uma escola especial de Porto Alegre9: 9 Esta escola fez parte de uma pesquisa realizada por alunas do curso de Pós -Graduação/ UFRGS, para obtenção de conceito da disciplina Seminário Avançado - Políticas Educacionais para Surdos I - 96/2, que se tornou em um artigo “Currículo na Educação de surdos: relações de poder e práticas de significação” a ser publicado na Revista Espaço, Rio de janeiro - 1998. 162 Carlos Skliar ART. 95: ...baseia-se na identificação e atendimento das tendências naturais e espontâneas, o íntimo e a individualidade do deficiente auditivo. ART. 96: ...os componentes curriculares do núcleo comum são traba lhados globalmente; em situações concretas, complementadas com reabilitação da fala e de audição. Observa-se, neste exemplo, que o objetivo principal da educação dos/ as surdos/as remete ao ensino da oralidade, onde as práticas educativas legitimam a existência de apenas dois aspectos envolvidos — a fala e a audição — negando e excluindo intencionalmente os outros sentidos e as outras possibilidades de comunicação dos/as surdos/as, no caso,a Língua de Sinais, que é uma língua gestual visual, que tem como emissora de suas mensagens as mãos e receptora os olhos. O “deficiente auditivo”, sujeito único, centrado e homogeneizado, constituído a partir de um discurso ci- entífico, médico e terapêutico, tem sido considerado como o problema a ser solucionado pela instituição — escola e clínica — através de práticas e metodologias reabilitadoras da audição e da fala. Através das tentativas de aproximação dos Estudos Surdos com os Estudos Culturais, está se tornando possível deslocar essa compreensão sobre o problema do sujeito surdo. Ao invés disso, o que estamos nos propondo é localizar este problema a partir dos discursos sobre o/a surdo/a, os quais têm implicações na produção do currículo. Currículo “ouvintizado”: fabricando sujeitos modernos Os ideais da modernidade e do Iluminismo — corporificados pelas idéias de progresso através da razão e da ciência, pela concepção de um sujeito autônomo, livre e universal, conhecido como o “sujeito cartesiano” que, segundo Hall (1997: 29-30), é concebido como um sujeito racional,pensante e consciente, situado no centro do cotihecimento — construíram um discurso em torno da educação que, por sua vez, abarcou esses ideais da modernidade na constituição de seus currículos e dos sujeitos interpelados por estes princípios. O sujeito moderno construído por este discurso, apoiado nas narrativas mestras de emancipação, liberdade e racionalidade, encontra na educação institucionalizada uma das maiores agências de produção. Ou seja, a A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 163 escola materializa o próprio projeto da modernidade, ela é a instituição moderna por excelência. (Silva, 1996: 251) A escola está no centro dos ideais de justiça, igualdade e distributividade do projeto moderno de sociedade e política. Ela não apenas resume estes princípios, propósitos e impulsos, ela é a instituição encarregada de transmiti- los, de torná-los generalizados, de fazer com que se tornem parte do senso comum e da sensibilidade popular (Silva, 1996: 251) A surdez construída pela cultura dos que ouvem, pelo discurso da modernidade, que centraliza o sujeito no padrão ocidental, ou seja, homem, branco, letrado, ouvinte, classifica e coloca surdos/as e ouvintes em pólos opostos — ouvinte/surdo/a — fortalecendo uma construção binária. Nesta construção, o primeiro termo privilegia a norma que define o significado cultural, criando uma hierarquia independente, portanto o segundo termo não existe realmente fora do primeiro, mas com efeito existe dentro dele. (McLaren, 1995) O binarismo ouvinte/surdo/a, intencionalmente provocado pela ideologia oralista, dá idéia de sufocamento, subordinação, inferioridade, coloniza ção dos ouvintes sobre os/as surdos/as, sustentando, assim, uma série de discursos que envolve a educação e o próprio currículo. Neste contexto, seria de fundamental interesse questionarmos quem são os ouvintes que ditam as regras e impõem as normas aos/as surdo/as. Mesmo sabendo que essa concepção de ouvinte é atravessada por diferentes recortes, como as relações de gênero, raça, classe social, dentre outras, este conjunto de ouvintes assume um recorte significativo, é um grupo que, privilegiadamente posicionado, habita e governa o mundo surdo, ou seja, a escola, o currículo, o lazer, enfim, a vida dos/as surdos/as. O questionamento sobre quem são os/as surdos/as referidos/as neste estudo, nos remete a um sujeito que não faz parte de uma generalização (“surdos/as” correspondentes a indivíduos com determinada perda auditiva), muito menos de uma homogeneização e categorização. Fazer isto seria valer-se das mesmas estratégias da ideologia dominante, a qual criticamos constantemente. A idéia de sujeitos surdos/as que queremos expressar, faz parte de um grupo de indivíduos que, como grupo, apresenta uma série de diversidades e construções que estão se dando ao longo dos tempos. Falar em surdo/a é pensar em um indivíduo multifacetado, parcial, plural e nunca homogêneo. 164 Carlos Skliar Ver o/a aluno/a surdo/a, a partir dessa concepção, significa problematizar os ideais de sujeito concebidos pela modernidade, significa rever as práticas educativas, os processos metodológicos, e conceber o currículo como uma área contestada, uma arena política. (Moreira & Silva, 1995: 21) A seleção dos conteúdos que formam o currículo apresenta uma estrutura “rizomática”10, ou seja, ela não se constitui de forma retilínea, perpendicu lar, mas, sim, forma um conjunto de saberes que vão se alastrando e se intercruzando uns com os outros. Com isso, um currículo planejado por ouvintes para os/as surdos/as se constitui em um conjunto de conhecimentos interessados a serem prescritos, e a partir desses “moldes”, construindo sujeitos surdos/as. As palavras de Wrigley (1996) a surdez diz menos respeito à audiologia do que à epistemologia, já trabalhadas anteriormente, reforçam a idéia de que a surdez é um discurso e não somente uma determinação biológica e, são estas práticas discursivas organizadas nas formas de falar, nos sistemas de representação e de práticas sociais, que diferenciam um grupo de outro. Para McLaren (1997a), as práticas discursivas referem- se, às regras pelas quais os discursos são formados, regras que governam o que pode ser dito, e o que deve permanecer em silêncio, e quem pode falar com autoridade e quem deve ouvir (p.213). Entender a surdez, a partir dessa perspectiva, significa considerar a existência de relações de poder que se manifestam em todas as práticas sociais. Através da crítica pós-colonialista, abre-se a possibilidade de questionar as representações e os discursos universais que o Ocidente branco, masculino, europeu constrói e dissemina sobre as formas de organizar os processos culturais e o próprio mundo social. A presença desta crítica permite o surgimento da diferença como condição básica para a convivência de múltiplas identidades nestes novos “mapas culturais” que estão emergindo. O mundo atual está se reconfigurando nos seus aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos, e com isso uma nova concepção de sujeito vem se constituindo. Segundo Veiga-Neto (1995), 10 Este termo é utilizado por Gilles Deleuze & Félix Gutatarri, na obra Mil Platos, (vol.l, Rio de Janeiro: Editora 34, 1995) atribuído o sentido de que um rizoma não começa e nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo(y.òl) A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 165 O mundo mudou e, com ele, mudou também nosso entendimento sobre nós e sobre o próprio mundo. Parece que, junto a uma maior democratização da informação, continuam se aprofundando as desi- gualdades. Enquanto que a economia tende a se globalizar e muitas fronteiras nacionais se dissolvem, o mundo parece cada vez mais hete- rogêneo em termos culturais, (p.2) Neste cenário de transformações e mudanças, refletem-se as discussões acerca do currículo. Algumas questões importantes e problemáticas constitu em o terreno curricular: que ensinar num cenário multicultural? Quais conteúdos — bem como métodos, avaliações, etc. — eleger para incluir nos currículos? (Forquin, 1993). Nos encontramos frente a uma possibilidade de construir um currículo que “celebre a diferença”, uma educação que contemple as diversidades culturais e, portanto, da possibilidade de con struir uma educação que permita aos/as surdos/as serem agentes de sua própria educação, ou seja, estamos falando de uma educação multicultural. As reflexões que estão sendo feitas no campo da educação, atualmente, oferecem aos/as educadores/as a possibilidade de trabalharem em uma perspectiva multicultural de educação pois, segundo Mclaren (1997b), oferecem: uma maneira de interrogar a localidade, o posicionamento e a especifi- cidade do conhecimento [em termos da localização de raça, classee gênero dos alunos e alunas] e de gerar uma pluralidade de verdades [em vez de uma verdade apodítica construída em torno da norma invisí vel do eurocentrismo e da etnicidade branca, (p.86-87) A concepção do multiculturalismo trabalha com a idéia de convivência das diferenças e das diversas culturas nacionais, e de sua representação na educação e no currículo. Portanto, estamos falando da convivência de grupos de surdos/as e grupos de ouvintes num determinado espaço escolar e curricular. Neste contexto observa-se um processo de incorporação cultural, através da escola e do currículo, ou seja, há uma socialização forçada de uma cultura particular - dos ouvintes — baseada na exclusão dos valores e práticas culturais do grupo de surdos/as. As relações de poder/saber entre os diferentes grupos sociais e culturais tornam-se visíveis. Neste sentido o multiculturalismo não pode ser concebido simplesmente como a convivência entre culturas diferentes. No plano antropolá- 166 Carlos Skliar gico elas são apenas diferentes, mas no plano sociológico elas também são desiguais. (Silva, 1995: 192) Portanto, um multiculturalismo crítico" deve considerar as relações de poder, que se dão na correlação de forças estabelecidas no jogo social (Silva, 1995). Esta idéia de multiculturalismo compreende a diferença como um produto da história, cultura, poder e ideologia. A diferença ocorre entre dois grupos e entre muitos grupos e deve ser compreendida em termos das especifici- dades de sua produção. (McLaren, 1997b: 123-124) Uma perspectiva educacional, pensada a partir dos/as surdos/as, implica analisar de que forma as narrativas curriculares estão sendo contadas, questionar o poder de representação destas narrativas. Ou seja, esclarecer quais são os grupos que ex ercem o privilegiado poder de representar os outros. A possibilidade de elaboração de um currículo multicultural na educa ção de surdos/as precisa ser construída a partir da idéia de diferença, não aquela diferença que constitui o/a surdo/a a partir de um déficit, de uma perda. Essa concepção somente é capaz de adaptar os conteúdos curriculares. O que se está discutindo é a idéia de um currículo que seja capaz de ver a surdez como uma diferença construída historicamente, a partir de uma determinada cultura, onde se instauram relações de poder e ideologia. A tentativa até aqui foi de contextualizar alguns elementos do mundo contemporâneo que entregam subsídios teóricos para a discussão acerca da educação do/a surdo/a. Este texto procurou trazer algumas reflexões e discussões acerca dos Estudos Surdos e suas implicações para a educação, principalmente para a constituição do sujeito surdo/a a partir dos discursos curriculares. A definição de Estudos Surdos, abordadas neste ensaio, aproxima-se de um conjunto de concepções de ordem lingüística, multicultural e antropológica, pois são estas que apresentam uma relação com o conhecimento do mundo dos/as surdos/as. Aproximar- se de um ponto significa distanciar-se de outro, portanto, nesta definição as marcas da audiologia e das deficiências auditivas são re-interpretadas. 11 O conceito de Multiculturalismo Crítico é trabalhado por McLaren (1997b), a partir da perspectiva de um abordagem de signijicado pós-estruturalista de resistência, e enfatizando o papel que a língua e a representação desempenham na construção de significado e identidade. (p. 122) A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 167 Considero importante ressaltar que este texto não teve a pretensão de trazer uma promessa de libertação aos/as surdos/as através de uma proposta curricular, ou de dar “voz” aos “excluídos”, mas, sim, de visibilizar os/as surdos/as como um grupo constituído a partir de práticas discursivas e não discursivas. A idéia deste texto não é buscar uma conclusão mas, como fala Wrigley (1996: xvii), ao invés de uma conclusão, busco uma ambigüidade propositada; e ao invés de certeza, coloco mais questões sobre todas as apropriações. As questões são as que penso serem problemáticas e politicamente imperativas. Referências Bibliográficas APPLE, Michael W. Conhecimento oficial: a educação democrática numa era conservadora. Tradução: Maria Isabel Edelweiss Bujes. Rio de Ja neiro: Vozes, 1997. DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Tradução: Ana Lúcia de Oliveira. Rio de Janeiro: Ed.34, 1995. FORQUIN, Jean Claude. Escola e cultura: as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Tradução: Guacira Lopes louro. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva, Guacira Lopes Louro — Rio de Janeiro: DP&A, 1997. McLAREN, Peter. O terror branco e a agência oposicional: em direção ao multiculturalismo crítico. In: Pedagogia crítica e cultura predatória: a política oposicional numa era pós-moderna . Londres / Nova York: Routledge, 1995. P. 117-144. Multiculturalismo crítico. Tradução: Bebei Orofino Schaefer. São Paulo: Cortez, 1997b. A vida nas escolas: uma introdução à pedagogia crítica nos fundamentos da educação. Tradução: Lucia Pellanda Zimmer, Félix Nonnenmacher, Flávia P. de Carvalho e Juliana Bertoletti. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997a 168 Carlos Skliar MOREIRA, Antônio Flávio & SILVA, Tomaz Tadeu da. Sociologia e teoria crítica do currículo: uma introdução. In: MOREIRA, Antônio Flávio & SILVA, Tomaz Tadeu da. Currículo, cultura e sociedade. (Orgs.) São Paulo: Cortez, 1995. SILVA, Tomaz Tadeu da. Os novos mapas culturais e o lugar do currículo numa paisagem pós-moderna. In: MOREIRA, Antônio Flávio & SILVA, Tomaz Tadeu da. (Orgs.) Territórios contestados: o currículo e os novos mapas políticos e culturais. Rio de Janeiro: Vozes, 1995. Identidades terminais. Rio de Janeiro: Vozes, 1996. A política e a epistemologia da normalização do corpo. Rio de Janeiro, 1998 (no prelo): Revista Espaço. SKLIAR, Carlos. A reestruturação curricular e as políticas educacionais para as diferenças: o caso dos surdos. In: AZEVEDO, José Clóvis de, SANTOS, Edmilson Santos do e SILVA, Luiz Heron da (Org): Identidade social e a construção do conhecimento. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre, 1997. VEIGA-NETO, Alfredo. Culturas e currículo. Texto apresentado no curso de extensão Teoria e Prática da avaliação Escolar, promovido UFRGS, para o conselho de Diretores das Escolas Agrotécnicas Federais, na EAF de Sertão, RS, em 1995. Disponível na http: //orion.ufrgs.br/faced/ alfredo/sertao.htm. WRIGLEY Owen. The politics of deafness. Washington, D.C.: Gallaudet University Press, 1996. 10 O discurso surdo: a escuta dos sinais Nídia Regina Limeira de Sá Introdução Escrevi um trabalho (Sá, 1996) que tinha como principal objetivo a identificação dos argumentos que ilustram os relatos de atores do processo educativo de surdos, os quais contribuem para a defesa da abordagem educacional bilíngüe. Entrevistei 53 pessoas, sendo 22 profissionais atuantes na área da educação de surdos e 31 adultos surdos, e, nos seus relatos, identifiquei os principais aspectos que eles abordaram nessas entrevistas, nas quais pedi que expusessem suas opiniões sobre a abordagem educacional que consideravam a mais adequada para surdos, bem como sua visão sobre o processo de integração escolar de surdos. A partir das entrevistas, separei didaticamente os tópicos apresentados de modo a que viessem a compor o corpo do trabalho e possibilitassem uma exposição sistemática dos assuntos. Nesse primeiro trabalho, usei a expressão argumentos no sentido usual da palavra, no sentido mesmo de um raciocínio pelo qual se tira uma conseqüência ou dedução (Ferreira, 1980). No presente texto, tento aplicar alguns construtos teóricos de estudos sobre a argumentação à análise de um texto das entrevistas que compuseram o primeiro trabalho.Escolhi a entrevista concedida em 1995 por um surdo de escolaridade de 2o grau, 37 anos, instrutor de LIBRAS na Escola Especial Municipal Helen Keller, em Caxias do Sul (RS). Meu objetivo aqui, é o de possibilitar o inter-relacio- namento desses estudos sobre a argumentação com a análise de uma situação interlocutiva onde a questão da educação de surdos é abordada. Numa segunda parte, teço meus próprios comentários sobre os assuntos abordados, ou seja: sobre a questão da abordagem educacional bilíngüe e sobre a da escola de surdos. 170 Carlos Skliar Os estudos sobre a argumentação encontram maior apoio numa perspec tiva teórica “pós-moderna”, pois nessa visão não se busca a demonstração, mas a argumentação acerca dos fatos, pelo entendimento de que os fatos não falam por si sós e também por interpretar os discursos como constitu ídos das subjetividades, constituidores, portanto, da realidade. A importância dos estudos sobre argumentação no contexto da pós-modernidade A chamada pós-modernidade tem sido entendida como “o espírito do nosso tempo”, muito mais como uma condição histórica, do que como uma posição teórica definida. “Pós-modernidade” é uma designação para o clima sócio-cultural do final dos anos 80, o qual passou a apontar a busca de uma saída para a crise da modernidade. Trata-se de um desencantamen- to com a modernidade que foi (é?) um projeto que suscitava esperanças de um futuro melhor e mais justo, conseguido com a evolução do conhecimento científico, mas que deixou a desejar no cumprimento de suas promessas. As principais mudanças em direção a novos mapas políticos e culturais (Silva e Moreira, 1995) começaram a se delinear, quando o entendimento sobre a linguagem humana e as possibilidades abertas por ela, na criação da cultura, passaram a colocar a intersubjetividade como categoria epistêmica principal. Na modernidade, a linguagem era encarada como um veículo de representação da realidade, um meio transparente e neutro de representação de uma realidade “existente”. Já numa visão “pós-moderna”, a linguagem é vista como instituidora da realidade, pois que, quando a linguagem (a palavra) nomeia a “realidade”, ela a precede, a institui. A perspectiva pós-moderna de estudo da argumentação e do discurso tem se baseado nessas visões que oferecem uma nova interpretação da vida em sociedade e da construção de subjetividades. Na visão pós-moderna, aparece a prevalência da linguagem como abordagem do ser; a linguagem é entendida como instituidora da realidade, ou seja: a suposta realidade não é mais que representações que se estabelecem discursivamente. Ao considerar que os discursos instituem “regimes de verdade”, instauram a verdade, constroem a realidade, esta perspectiva ressalta o caráter ilusório de todos os discursos, entendendo que todos eles dependem da posição de seus emisso A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 171 res e são, portanto, parciais. Sendo assim, se na modernidade valorizava-se a prova científica, na pós-modernidade “a estratégia consiste em enfraquecer a noção de prova, identificando-a como a apresentação de um argumento eficaz”. O estudo de Perelman, inclusive, segundo Guitarrari, é um esforço para obter uma idéia de razão mais adequada à prática argumentativa, principalmente das ciências humanas (1996). A questão da argumentação e do discurso passa a ser de extrema impor tância, pois envolve um movimento de luta com e sobre a linguagem. É característico dos estudiosos “pós-modernos” afirmarem que os resultados só podem ser considerados indiscutíveis no domínio das estruturas lógico- matemáticas, em que se definem noções de ambigüidade (Guitarrari, 1996). É assim que o papel do discurso retórico é levado a sério. Na teoria de Perelman, argumentar tem como objetivo aumentar a adesão dos espíritos às teses que se apresentam a seu assentimento (...) de forma que desencadeie nos ouvintes a ação pretendida ou, pelo menos, crie neles uma disposição para a ação. O X da questão é que existem recursos persuasivos que se estendem por todo o desenvolvimento da argumentação (Guitarrari, 1996). A perspectiva pós-moderna não tem a preocupação de interpretar o discurso veiculado pela mídia, ou pelas instituições oficiais, como falseado por uma ideologia dominante — pois entende que, ao se defender o desve- lamento de uma falsa ideologia se está necessariamente considerando a existência de uma ideologia verdadeira e correta. No entanto, volta-se para um desejo de desconstrução textual para, através dele, demonstrar que qualquer discurso implica um exercício particular de poder. O objetivo da pós- modernidade é, pela desconstrução textual, livrar-se da miragem dos “discursos verdadeiros”, invalidando todas as posições. Na análise pós - moderna, existem múltiplos discursos que constroem múltiplos significados, que instituem uma concepção representacional da realidade segundo os interes ses de grupos que pretendem dominar. Assim, de texto em texto, de discurso em discurso, de experiências perpassadas pela linguagem — a qual passa a ser valorizada como aquilo que dá sentido ao homem e ao mundo - o ser humano, após a “virada lingüística”, passa a ser visto como produto de infinitos discursos que o atravessam e o instituem. 172 Carlos Skliar A entrevista P: O que você acha melhor para a vida do surdo: Oralismo, Comunicação Total ou Bilingüismo? R: Há muitos anos atrás não tinha Sinais, era só Oralismo no mundo todo; havia discriminação do surdo e da Língua de Sinais. O surdo sofria muito. Só ensinavam coisas que o surdo podia aprender sem o uso das mãos. Os anos foram passando e os surdos começaram a aprender a fazer trabalhos. O surdo com Oralismo fica muito magoado, fica muito sentido, porque ele é muito autoritário... porque o surdo não conseguia desenvolver. Mesmo com a Comunicação Total o surdo ainda não se soltou, não colocou para fora, não se desenvolveu. Para a família do surdo era bonito Comunicação Total, mas para o surdo mesmo, o melhor era a Língua de Sinais. Aqui em Caxias falta o envolvimento da família do surdo, a família é muito isolada. Os filhos são surdos, os pais ouvintes... não combinam as idéias dos pais com os filhos. Aqui não tem família de pais surdos. O surdo não aprende nada se o pai ficar só falando. Houve aqui na escola um pai surdo que não falava nada, mas tirou o filho surdo da escola especial de surdos. Então, falta respeito pela cultura própria do surdo. Agora as portas estão se abrindo para o Bilingüismo. O surdo está mais feliz. Não tem mais medo do Oralismo. O surdo não conhece o Bilingüismo ainda, profundamente. No Brasil o pessoal está meio inseguro com o Bilingüismo. Acreditam no Bilingüismo, mas todo o mundo está preocupado. O mundo todo está vendo que o Oralismo não está dando certo e que o surdo está sofrendo. Não tem ainda uma cultura própria, então, tem muita luta ainda pela frente, para muitos anos. Agora o surdo está mais relaxado. Entrou a Comunicação Total e os alunos parecem uns soldadinhos: repetindo tudo o que o professor acha bonito. O Bilingüismo precisa de mais estudos, pesquisas. Precisa estudar mais sobre o Bilingüismo, o que é próprio da cultura surda e a Língua de Sinais. O Bilingüismo aumenta a visão do surdo, aumenta a cabeça, faz com que questione os porquês das coisas. A Comunicação Total nunca questionou, nunca perguntou. No Oralismo isto nunca aconteceu. O Bilingüismo agora está unindo as pes A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 173 soas. As pessoas estão pensando no futuro, estão se interessando, estudan do, pesquisando, fazendo projetos, fazendo metodologias próprias. A Comunicação Total nunca fez isto. Era tudo pronto na Comunicação Total, era mais teatro e mímica. Há uns três anos atrás, mais ou menos, fui para um curso no Rio e veio um palestrante muito bom do País de Gales; usava a Língua Americanade Sinais. Ele explicava muito bem, tinha uma metodologia muito boa. Aprendi com ele. Depois A veio para junto de mim e começamos a discutir a metodologia. A não entendeu. Eu fiquei meio preocupado. Fizemos uma reunião. A ficou fã da Comunicação Total e eu comecei a conversar sobre o Bilingüismo achando bom; houve muita confusão, discutimos bastante. Depois A foi para a Áustria num Congresso Mundial de Surdos e ele ficou admirado, estudou o Bilingüismo e agora ele é fã do Bilingüismo e está na luta junto com todos os surdos e preocupado. Eu fui direto para o Bilingüismo, mas os professores não conhecem profundamente o que é. O surdo também aceita, mas também está indo devagar porque precisa de muito estudo. Eu quero agora, mas os professores ainda estão preocupados, estão com medo: Falta aprender mais Sinais. Precisa de paciência. É um processo prolongado... Quando isto vai acontecer? Quando eu tiver cabelos brancos?! No Oralismo e na Comunicação Total tudo é muito difícil. O Bilingüismo combina mais com o surdo porque deixa mais leve, mais solto, mais descontraído, com o jeito próprio do surdo. Eu acredito no Bilingüismo e não no Oralismo. O Oralismo é muito difícil. Falta o Governo liberar as faculdades, fazer mais aulas para os surdos, mais cursos que tenham a Língua de Sinais, para um futuro melhor para os surdos, para os surdos e os ouvintes serem iguais em todos os sentidos. Imagine três vasos com areia: no primeiro vaso foi plantado o Oralismo, no segundo a Comunicação Total e no terceiro foi plantado o Bilingüismo. Começa-se a colocar água nos vasos. O primeiro começou a crescer, o da Comunicação Total também, o do Bilingüismo também: os três cresceram juntos. Depois de um ano o do Oralismo murchou e morreu, o da Comunicação Total está em declínio, mas acredito que vai morrer, e o do Bilingüismo continua crescendo e está indo para o céu. N. conhecia a mulher fundadora da Comunicação Total. Ele ficou tris te... Ele conversou sobre a confusão que existe entre Comunicação Total e 174 Carlos Skliar Bilingüismo. Há muita confusão, está tudo errado, todo o mundo estava errado: a Comunicação Total era a melhor, todo mundo defendia... Eu quero orientação, todo o mundo precisa de orientação, porque as pessoas não querem que continue tudo ruim. O surdo prefere uma orientação, escolher um caminho, quer escolher o seu caminho melhor. Não é para se dizer que é ruim, que é ruim, que é melhor ou que é pior... porque aí dá confusão. No Oralismo os surdos cresciam fracos em Sinais, a oralização era per feita mas não conheciam profundamente as palavras. Decoravam as palavras, mas não conheciam o que estavam falando. O surdo sofre há anos porque sempre foi imposto o Oralismo. A Comunicação Total deu um pouco mais de Língua de Sinais, mas as mãos ainda estavam muito confusas, muito trancadas... não combinava a fala com as mãos: era um problema... Imagino que agora, com o estudo do Bilingüismo, vai melhorar. As professoras vão respeitar o surdo, vai haver os direitos dos surdos. Na minha opinião o Bilingüismo é melhor porque o surdo vai ficar mais livre, vai poder se expressar, questionar, progredir, ir adiante. Vai ser melhor para ele, não haverá discriminação. Com o passar do tempo vai ser melhor, vão poder fazer trocas, vão poder escolher o seu caminho. Se eu fosse vereador, faria três escolas: a do Oralismo, a da Comunicação Total e a do Bilingüismo, então o surdo poderia escolher. Vou dar um exemplo de uma família de pais ouvintes: a família iria acabar se dividindo, porque o pai iria querer o Oralismo porque acha que é o mais correto, a mãe vai achar bonitinha a Comunicação Total...A mãe acha legal, né?... É uma coisa diferente porque é mais moderno, famoso. Mas a filha, que é surda, se sente melhor— seu sentimento... seu jeito próprio... se sente melhor no Bilingüismo. Então, cada um vai para um canto diferente, então o que vai acontecer? A família vai se separar. P: O que você prefere: uma escola de ouvintes e surdos juntos ou uma escola especial só com surdos? R: Eu fiz o segundo grau numa escola comum, conheço bem isso. Eram poucas as pessoas que vinham conversar comigo. Com muitas pessoas ouvintes é como se fosse um estrangeiro, falando inglês. Pode, no futuro, até haver uma integração entre surdos e ouvintes, mas, o importante é que os ouvintes aprendam os Sinais. E o respeito à cultura dos surdos e à língua A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 175 dos surdos. Quer dizer, não que seja contra, proibida a integração, não é isso. Não é proibida a integração. Por exemplo: no segundo grau... todo mundo no segundo grau tem que aprender Inglês; por que não pode aprender a Língua de Sinais? Espero que no futuro haja a comunicação entre ouvintes e surdos de modo que ele possa se comunicar, por exemplo, com qualquer pessoa ouvinte na rua, na escola, na família, na sociedade, em qualquer lugar, numa dança, numa boate, no carnaval... e cumprimentar as pessoas se comunicando em Sinais. Que todos os ouvintes também conheçam a Língua de Sinais para poder se comunicar... Haver comunicação é importante... Então, não que a integração não seja importante... é importante, mas que os ouvintes aprendam a Língua de Sinais para no futuro todo o mundo sinalizar uns para os outros, na rua, em qualquer lugar: numa loja, num bar, numa boate, numa discoteca... Mas a Língua de Sinais precisa ser oficial. Quero que as pessoas ouvintes não tenham vergonha de sinalizar, nem preconceito, nem medo de errar. As pessoas ouvintes precisam sair do seu comodismo; elas preferem ficar com o seu mundo de ouvintes porque é mais fácil, não precisa aprender Sinais. Elas têm medo de errar nos Sinais, elas não querem, de repente, se expor ao ridículo... A importância do estudo do texto argumentativo de um surdo O texto do surdo é um texto argumentativo. Se consideramos que argu mentar é agir, podemos dizer que é um texto de ação. Em todo o tempo ele estabelece comparações entre abordagens educacionais diferentes e até opostas. Nas questões levantadas, obviamente não há concordância de todos os envolvidos — todos os surdos, todos os profissionais, todos os familiares — se houvesse, não haveria necessidade de argumentação. Diz Perelman que uma argumentação jamais é capaz de “causar” a evidência, e também não se trata de argumentar contra o que é evidente... A argumentação só pode intervir quando a evidência é contestada (Perelman, citado por De Gimeno, 1986). No entanto, para haver argumentação é necessário que um determinado contexto seja propício para que alguém possa ou queira persuadir alguém a respeito daquilo em que não há acordo... (De Gimeno, 1986), e, considerando que os surdos foram “silenciados” por tanto tempo, sofreram até 176 Carlos Skliar mesmo violência institucional contra sua língua e cultura, cabe aos profissio nais da educação contribuírem para propiciar momentos de discussão, onde os argumentos dos surdos tenham também peso e poder. Podemos afirmar que os surdos “agem retoricamente”, visto que tam bém, como nós, ouvintes, fazem uso da modalidade oral de uma língua, fazem uso de uma língua gestual-visual que é capaz de comunicar. Através dessa comunicação possível, ele igualmente constrói seus argumentos de modo a que confronte um público que entende de um jeito, e ele, nesse “agir retórico” visa a ultrapassar os obstáculos a que sua tese seja aceita. Historicamente a legitimidade do discurso surdo foi (e ainda é) questionada, visto que os ouvintes não reconhecem o poder de sua argumentação por vários motivos: primeiro, pela visão que têm do indivíduo surdo, visão esta primordialmente associada à deficiência, ou seja: se a pessoa é “portadora” de uma deficiência, seu discurso deve também ser “deficiente”, no sentido de “ineficiente”, “defeituoso”; segundo, pelo fato de usarem uma língua só recentemente reconhecidacomo “língua” através de estudos lingüísticos desconhecidos pela maioria; terceiro, por constituírem um grupo minoritário, socialmente excluído que não tem espaço garantido para que seu discurso seja conhecido, divulgado amplamente. Há um suporte sociológico e histórico para as coisas serem como são. Os estudos sobre os discursos apontam possibilidades de análise que vão além da visão ilusória do falante (sempre um) como fonte única de sentidos e intenções (Silveira, 1996). Na verdade, existe uma representação social da deficiência, construída a partir de determinantes diversos. Não existe um sentido inerente às palavras, mas esse sentido decorre do contexto dos discursos nos quais estão inseridos, por isso existe uma luta em torno do sentido da palavra “deficiente”, contra a qual os movimentos surdos estão lutando. Os surdos não querem ser chamados de “deficientes” não por negarem delirantemente a surdez, mas por resolverem sua impossibilidade de apreender auditivamente o mundo por meio de uma leitura visual do mesmo. Nos Estados Unidos, existe um movimento de luta por sentidos que coloca a situação mais ou menos assim: “os surdos não são pessoas que não ouvem, são pessoas que vêem”. Isto ilustra que existe uma luta mais que em torno de bens materiais, também em torno de bens simbólicos. Segundo Halliday (1987), a apresentação de credenciais é um requisito de várias situações nas quais uma pessoas ou organização busca aceitação... A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 177 Credenciais são, pois, qualidades que dão crédito a quem as possui... Que credenciais pode apresentar o surdo diante da organização da sociedade como a temos? Em sua maioria, não têm poder econômico, não têm sucesso “escolar” que se traduza em cursos de nível superior, nem mesmo estão organizados em associações de luta (exceto em algumas capitais ou cidades centrais). No entanto, nesses novos tempos, estamos caminhando para a consideração, no mesmo grau de importância, tanto de discursos elabora dos por eminentes teóricos como daqueles de qualquer pessoa, de qualquer cultura. Depois da chamada “virada lingüística”, a linguagem tem sido encarada como “instituidora da realidade”. Assim sendo, todas as narrativas, todos os discursos e todas as experiências passaram a ser vistas como constitu- idoras do sujeito, fazendo com que a categoria da intersubjetividade passasse a sobrepujar a da objetividade ou a da subjetividade no que diz respeito ao estudo do ser humano e de sua cultura. Passou-se a considerar alvo de interesse para o estudo do ser humano enquanto ser epistêmico, tudo o que é experimentado, produzido, dito por ele e sobre ele. Passa a ser possível considerar, no mesmo grau de importância, por exemplo, tanto o discurso médico dos defensores de implantes cocleares como os fragmentos de discursos de um surdo analfabeto de uma zona rural. Ressaltando aquilo que para nós é óbvio: o surdo, no uso de sua língua gestual-visual, faz uso do poder da linguagem, constituindo a si próprio de uma certa forma e interatuando na sociedade. Segundo Perelman, toda argumentação visa, de fato, a uma mudança na cabeça dos ouvintes e, no que diz respeito aos surdos que lutam pelas mudanças que querem ver concretizadas em sua história, sua argumentação reveste-se de fundamental importância para uma sociedade que, pelo menos em nível de discurso político oficial, está se propondo inclusiva. Na “cabeça” dos ouvintes há, de fato, muita coisa a ser mudada, posto que estes, na superposição histórica de sua visão sobre a surdez e os surdos, não têm “escutado” os surdos quando estes “sinalizam” em que direção deve se propor uma educação significativa para esta minoria. Para que uma argumenta ção se desenvolva, é preciso, de fato, que aqueles a quem ela se destina lhe prestem alguma atenção (Perelman). Perelman diz que, 178 Carlos Skliar em certas sociedades, o exercício da argumentação, em variados setores, é monopólio de pessoas ou de organismos especialmente habilita dos para isto... quase sempre há áreas em que a argumentação corre o risco de ser ilegal, de violar uma legislação que protege interesses públicos ou privados. No caso dos surdos, isto me faz pensar que, ao expressarem a preferên cia pela escola de surdos, a impressão que se tem é a de que eles — também nós, profissionais que os apoiamos — estamos sendo persona non grata, pois os surdos não têm sido chamados a opinar nas esferas constitutivas do poder que decide tais questões, como se o que está escrito nas leis (destaque para o artigo 208 da Constituição Federal que prevê a inclusão preferencialmente em escolas regulares) tivesse mais poder, fosse mais importante que os argumentos de um grupo que experiencia a problemática. Perelman diz que qualquer argumentação depende... do que é aceito, do que é reconhecido como verdadeiro, como normal e verossímil, como válido; com isso se arraiga no social. Aqui se estabelece quase uma luta de titãs, pois a conclusão que podem chegar os menos informados é: se a lei diz, então é o correto, é o melhor. Diz Perelman que é por isso que, com tanta freqüência, a melhor justificação de uma conduta... consiste em mostrar que ela é conforme a ordem reconhecida. Considerando, como em Perelman, que auditório é o conjunto daquele que o orador quer influenciar com sua argumentação, e que a argumentação efetiva tem de conceber o auditório presumido tão próximo quanto possível da realidade, se pode entender que quando o orador respondia às provocações da entrevista, tinha em mente um auditório que não se resumia à entrevistadora, mas ao conjunto de pessoas que estariam interessadas em conhecer o discurso surdo sobre “educação de surdos”, principalmente profissionais da área, é óbvio. Considerando ainda, segundo Perelman, que o auditório e suas idéias podem ser presumidos, têm-se uma visão da luta pelas abordagens diferentes, pois, a cultura própria de cada auditório transparece através dos discursos que lhe são destinados. Não se pode, inclusive por isso, acusar o orador surdo de tecer um discurso apaixonado, pois, segundo Perelman, o homem apaixonado, enquanto argumenta, o faz sem levar suficientemente em conta o auditório a que se dirige: empolgado por seu entusiasmo, imagina o auditório sensível aos mesmos argumentos que persuadiram a ele próprio. O orador, nesta entrevista, mostrou conhecer o auditório ao qual se dirigia e A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 179 o considerou na elaboração de seu discurso. Para isso, calcou seus argumentos principalmente na história e nas conseqüências das escolhas educacionais. Quando diz: O surdo com o Oralismo fica muito magoado, fica muito sentido, ou, O surdo está mais feliz. Não tem mais medo do Oralismo, ou, ainda, O Bilingüismo combina mais com o surdo porque deixa mais leve, mais solto, mais descontraído, com jeito próprio do surdo, argumenta com base em sua legitimidade enquanto membro de sua comunidade pela qual fala sem constrangimentos. Esta polifonia, legitimada pela condição de membro do grupo, faz com que seu discurso seja dotado de maior poder de persuasão, pois não fala apenas em seu nome. A autoridade invocada aqui é a de — certa categoria de homem (Perelman) — surdo. Entendo, tal como Freitas (1994, referindo-se ao pensamento de Bakhtin), que o objeto das Ciências Humanas é um texto em seu sentido amplo e que o pensamento do outro em seus múltiplos sentidos só se tornam acessíveis para quem os estuda como uma espécie de texto. Conhecendo a dificuldade que a comunidade surda tem com a escrita - dificuldade esta, historicamente construída pela incapacidade dos educadores em propor um processo educacional que atenda aos interesses dos surdos e às suas características — , conhecendo a escassez de uma produção surda sobre sua própria história e sua idéias, conhecendo que a eles não têm sido oferecidasao ensino da oralidade — quer dizer, a imposição de pré-requisitos orais para um hipotético progresso na escolarização; a desatenção de um processo significativo para o acesso dos surdos à alfabetização e ao Ietramento; a exclusão dos adultos surdos do ambiente educacional; a desprofissionalização, etc. Reflexão sobre o fracasso educacional dos surdos A falta de compreensão e de produção dos significados da língua oral, o analfabetismo massivo, a mínima proporção de surdos que têm acesso a estudos de ensino superior, a falta de qualificação profissional para o traba lho, etc., foram e são motivos para três tipos de justificações impróprias sobre o fracasso na educação dos surdos. Em primeiro lugar, está a atribuição aos surdos do fracasso — fracasso, então, da surdez, dos dons biológicos naturais. Em segundo lugar, está a culpabilização aos professores ouvintes por esse fracasso. E, em terceiro lugar, está a localização do fracasso nas limitações dos métodos de ensino — o que reforça a necessidade de purificá- los, de sistematizá-los ainda mais, de tomá-los mais rigorosos e impiedosos com relação aos surdos. Nos três tipos de justificações mencionadas, evita-se toda uma possível denúncia acerca do fracasso da instituição-escola, das políticas educacionais e da responsabilidade do Estado. O que fracassou na educação dos surdos foram as representações ouvintistas acerca do que é o sujeito surdo, quais são o seus direitos lingüísticos e de cidadania, quais são as teorias de aprendizagem que refletem as condições cognitivas dos surdos, quais as epistemologias do professor ouvinte na sua aproximação com os alunos surdos, quais são os mecanismos de participação das comunidades surdas no processo educativo, etc. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 19 Não há, então, nenhuma razão que justifique a reprodução de um olhar quantitativo, de uma medida do fracasso. O que se faz necessário é o surgimento de novas e variadas perspectivas qualitativas. Uma pesquisa que demostre que essas perspectivas são divergentes — as quantitativas, as qualitativas, as dos surdos, as dos alunos surdos, as dos adultos surdos — leva à seguinte conclusão: a educação dos surdos não fracassou, ela apenas conseguiu os resultados previstos em função dos mecanismos e das relações de poderes e de saberes atuais. Estamos, aqui, frente a um duplo sistema de problemas. Por um lado, há o problema dos poderes e saberes das políticas ouvintistas, que giram em torno da questão da deficiência e das modalidades de comunicação e de linguagem para os surdos. Aí, ainda que aparentemente se incluam posições antagônicas, há todo um círculo de baixas expectativas pedagógicas às quais se aferram a maioria dessas posições. (Johnson, Liddell e Erting, 1991) Por outro lado, existe a necessidade de definir o conjunto de variáveis que intervém na construção de um projeto político e pedagógico para os surdos; variáveis que estão atravessadas por mecanismos históricos, políticos, regionais e culturais específicos. São exemplos disso: o reconhecimento do fracasso educacional e das representações sobre a surdez e os surdos; a situação lingüística da comunidade educacional; a participação da comunidade surda nas decisões pedagógicas; a ideologia e a arquitetura pedagógicas; a continuidade do projeto educacional; as pressões das práticas de integração escolar e social. A partir dessas variáveis é possível entender o fracasso educacional para os surdos como um conjunto de subfracassos que não podem conformar-se como um sistema coerente de explicação. O olhar dos surdos sobre o fracasso, segundo as nossas pesquisas, se refere sobretudo a uma questão ligada à falta de acesso à língua de sinais e a um processo demorado de identificações com outros surdos. Os professores ouvintes, por sua vez, falam mais acerca da própria formação e da perda significativa de seu papel como educadores. Em outras palavras, as interpretações e representações do fracasso constituem sistemas divergentes. (Skliar, 1997 d) 20 Carlos Skliar Reflexão para uma desconstrução das metanarrativas e dos contrastes binários tradicionais na educação dos surdos Para que o fracasso na educação dos surdos seja melhor compreendido nas suas raízes históricas e políticas, e para que as decisões derivadas dessa análise possam contribuir para uma mudança nos projetos pedagógicos, se faz necessário discutir largamente sobre o lugar que ocupam, na educação dos surdos, as grandes metanarrativas e os contrastes binários. A questão das oposições binárias: normalidade/anormalidade, ouvin te/surdo, maioria ouvinte/minoria surda, língua oral/língua de sinais, etc., constitui, na atualidade, um dos fatores mais nocivos à análise da realidade educacional e seu enraizamento ideológico parece não apenas inevitável como também insuperável. Tais oposições - como já notara McLaren, 1995 (op. cit.) — sugerem sempre o privilégio do primeiro termo, normalidade, ouvinte, maioria, oralidade, etc., em uma metanarrativa que define o significado da norma cultural. O termo secundário, nesta dependência hierárquica, ou seja, anormalidade, surdo, minoria, gestualidade, etc., não existe fora do primeiro, mas dentro dele. A quem ou para que servem estas, ou outras, oposições? A língua e o pensamento ocidentais estão organizados, enquanto um sistema de diferenças, como contrastes binários, diz McLaren (1995, op. cit.), e servem a uma lógica da ideologia supremacista branca e logocêntrica. Outros estudos (Cixous e Clément, 1986) mostram como muitos destes contrastes binários correspondem a um sistema patriarcal de valores. No nosso caso específico, trata-se de um sistema ouvintista de valores. Concretamente, vejamos o conteúdo de algumas das oposições mais habituais na educação dos surdos. A oposição ouvinte/surdo O fato de que os surdos não possam — e talvez nem queiram, em sua grande maioria — ser ouvintes ou ser como os ouvintes, não parece ser um obstáculo para as representações dominantes na educação dos surdos. Os únicos modelos, ou, pelo menos, os modelos fundamentais, presentes na escola são ouvintes: o tempo de interação e de identificação entre surdos de diferentes idades é escasso, porque se quer evitar que existam contágios A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 21 “gestuais” entre os alunos; os adultos surdos, presentes na instituição, estão isolados ou são levados a cumprir tarefas menores, longe das crianças; além disso, muitas crianças surdas passam seu limitado tempo livre entre hospitais e clínicas, ou, simplesmente, com a sua família ouvinte. A intenção de que as crianças surdas sejam, em um hipotético futuro, adultos ouvintes, originou um doloroso jogo de ficção nas identificações e nas identidades surdas. Nesse jogo os surdos acabam, finalmente, sendo catalogados não apenas como não-ouvintes, mas como autistas, psicóticos, deficientes mentais, afásicos e esquizofrênicos. Estes estereótipos sobre os surdos não podem ser considerados inocentes e, seguindo a concepção de Stam e Shohat (1995), contêm formas opressivas, que permitem um controle social eficaz e determinam, exatamente, uma devastação psíquica sistemática nos surdos. Este é, porém, só um fragmento na análise da oposição ouvinte/surdo. O outro viés nos conduz a uma tripla interrogação: que é, de quem é, e onde está o mundo dos ouvintes? O ser ouvinte é, certamente, uma totalidade, mas ao mesmo tempo não parece ser um recorte claro para uma descrição do mundo, se nele cabem, por exemplo, o presidente do Brasil, uma tecelã do Cáucaso, um jornalista de Nova Iorque, um índio do Amazonas, um chicano e uma criança do Nepal, todos eles ouvintes. É claro que o recorte do ser ouvinte significa, na educação e nas esco las, uma representação colonialista, um fazer dos surdos subalternos, um discurso ouvintista. A configuração do ser ouvintesuficientes oportu nidades de expressarem-se a respeito de assuntos que lhes dizem respeito, penso que é de grande interesse destacar “textos argumentativos” dos surdos. Penso que este “mergulho” no discurso surdo se tornaria bem mais interessante e fidedigno caso a presença de intérpretes de LIBRAS não fosse necessária, o que não foi o caso aqui. Certamente, muitos dos recursos argumentativos não foram percebidos, mesmo porque, no uso de sua língua de modalidade gestual-visual, o surdo se utiliza de uma expressão corporal que ultrapassa a “frieza” do texto escrito, bem como a do texto “traduzido”. Nesses trabalhos sobre a argumentação, o alvo principal é o estudo da técnica de utilizar a linguagem ordinária para persuadir e convencer (Guitarrari, 1996). Sendo defensora de uma educação bilíngüe para surdos, considero de enorme importância o “mergulho” na “linguagem persuasiva” dos próprios surdos, principalmente no contexto atual onde as mudanças na pedagogia para surdos estão suscitando questionamentos e debates. Segundo Perelman, 180 Carlos Skliar esta arte de argumentar... relaciona-se sempre com a adesão a teses que se encontram confrontadas: reforça-se tal adesão ou ela é diminuída através de argumentos de toda espécie, apresentam-se razões a favor e razões contra, para influir, ao final das contas, sobre o indivíduo inteiro que deve, graças ao discurso, ser incitado a agir ou tronar-se predisposto para uma ação eventual. Estamos vivendo um período de transição onde as teses que definem o Oralismo, a Comunicação Total e o Bilingüismo continuam sendo confrontadas. Talvez haja no Brasil uma “simpatia pelo Bilingüismo”, sendo elegante e até “moderno” definir -se enquanto “bilíngüe”, no entanto, ainda há muito desconhecimento a respeito dos pressupostos teóricos que, de fato, definem uma abordagem educacional que considera a identidade, a língua e a cultura surdas como eixo fundamental. Considerando que o exercício da argumentação é sempre regulado pe los que detêm o poder, entende-se porque os surdos, enquanto minoria historicamente oprimida, não tiveram (e ainda não têm) devidamente considerados seus argumentos em favor da abordagem educacional que atende a seus interesses. Não é sempre que se pode ter o direito de tomar a palavra: há de haver uma instituição, uma qualidade ou categoria que possibilite esse uso. (De Gimeno, 1986) Os surdos não têm sido “oficialmente” chamados a apresentarem seus argumentos, mas isso não impede que tenham um projeto surdo para a surdez, e é este projeto que nós, educadores ouvintes, precisa mos conhecer para solidariamente trabalharmos na direção de uma educação significativa. Estamos nas “instituições”, somos a “categoria” dos educadores, e eles têm a “qualidade” de surdos: temos as condições para lutar juntos denunciando o autoritarismo. Analisando o texto argumentativo Atualmente tem sido muito observado o conceito de polifonia, pelo qual se entende que as palavras que nós usamos estão sempre marcadas pelo OUTRO - tanto o OUTRO ou OUTROS que me precederam nos usos dessas palavras e as povoaram com seus sentidos, quando o OUTRO - imagem do interlocutor para quem me dirijo, presente ou virtual, imagem esta que povoa e também marca a minha enunciação. (Silveira, 1996) A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 181 A polifonia diz respeito a uma situação em que o locutor L faz com que outro personagem diga algo no interior do seu próprio discurso (Koch, 1993). A polifonia pode ser ilustrada no discurso em foco quando o orador diz: O surdo está mais feliz. Não tem mais medo do Oralismo. O surdo não conhece o Bilingüismo ainda, profundamente... O surdo prefere uma orientação, escolher um caminho, quer escolher o seu caminho melhor. Silveira adverte que não existe uma voz única na fala. Mas, também, é preciso ultrapassar a mera constatação da existência de muitas vozes, e ir-se além de uma reflexão sobre a polifonia (Silveira, 1996). Tentaremos isso, aqui, procurando observar os múltiplos e variados significados que compõem o discurso e verificando, também, conforme adverte a autora, que, existem restrições que atuam sobre as enunciações... A “palavra” só passa a existir, como tal, no momento em que ultrapassar, de algumas formas, as restrições que pesam sobre a enunciação de discursos naquele momento, naquele lugar, naquela situação definitiva, com aqueles interlocutores... E são tais restrições - não definitivas, é claro, mas com um peso suficiente para não serem eliminadas pura e simplesmente por “decreto” ou intenção — que ditarão a possibilidade de uma determinada manifestação, fala, enunciado... seja “levada em conta” pelos “interlocutores”. (Silveira, 1996) Tentarei analisar outros fenômenos discursivos considerando, conforme Silveira, que a heterogeneidade do discurso pode ser mostrada, como pode ser marcada linguisticamente. Perelman diz que, quando se trata de fundamentar valores... ou de reforçar a intensidade da adesão que eles suscitam (que é justamente o objetivo do discurso surdo analisado ao defender uma determinada abordagem)...pode- se recorrer a premissas de ordem muito geral, as quais ele qualifica com o nome de lugares — os tópois. Esses lugares dos quais falamos justificam a maior parte de nossas escolhas, designam categorias nas quais falamos, justificam a maior parte de nossas escolhas e designam categorias nas quais se podem classificar os argumentos. Diz Perelman que todos os auditórios, sejam eles quais forem, são levados a levar em conta lugares: lugares da quantidade, da qualidade, da essência, entre outros. A importância da análise de um discurso de surdo prende-se ao fato de que o surdo fala do lugar da essência, do lugar da essência de Surdo. Entendemos por lugar de essência não a atitude metafísica... mas o fato de conceder um valor superior aos indiví 182 Carlos Skliar duos enquanto representantes bem caracterizados dessa essência. (Perelman) Os lugares da quantidade, aqueles que afirmam que alguma coisa é melhor que outra por razões quantitativas, não são os lugares de onde se posiciona o surdo, pelo contrário, a quantidade é questionada quando diz: ...era só Oralismo no mundo todo... todo o mundo estava errado... Os lugares da qualidade, os menos apreensíveis, aparecem na argumentação quando se contesta a virtude do número (Perelman). São os lugares da qualidade que o orador mais usará, inclusive podemos observar que o surdo começa sua argumentação estabelecendo-a segundo o valor do irreparável, dizendo: Há muitos anos atrás... havia discriminação de surdo e da Língua de Sinais. O surdo sofria muito. Essa irreparabilidade diz respeito às conseqüências dessas atitudes para com a comunidade surda que teve (e ainda tem) que lutar contra a dominação. Nessa linha de raciocínio, o surdo se utiliza basicamente do argumento pragmático, o qual, segundo Perelman, é um argumento das conseqüências que avalia um ato, um acontecimento, uma regra ou qualquer outra coisa, consoante suas conseqüências favoráveis ou desfavoráveis... Essas conseqüências podem ser presentes ou futuras, certas ou hipotéticas. Diz o orador: O surdo com o Oralismo fica muito magoado, fica muito sentido, porque ele é muito autoritário... porque o surdo não conseguia desenvolver. Mesmo com a Comunicação Total o surdo ainda não se soltou, ?ião colocou para fora, não se desenvolveu. No entanto, é óbvio que não pode haver, num discurso argumentativo, o emprego exclusivo do argumento pragmático, visto que ele nem sempre conduz às mesmas conclusões, porque a interpretação dos mesmos fatos pode ser diferente para as pessoas. Daí ser necessário lançar mão de outras técnicas argumentativas, o que o surdo demonstrou saber fazer. No início de seu discurso, faz uma “definição oratória” do Oralismo, não para fornecer o sentido da palavra, mas para pôr em destaque certos aspectospode começar sendo uma simples referência a uma hipotética normalidade, mas se associa rapidamente a uma normalidade referida à audição e, a partir desta, a toda uma seqüência de 11 aços de outra ordem discriminatória. Ser ouvinte é ser falante e é, tam bém, ser branco, homem, profissional, letrado, civilizado, etc. Ser surdo, portanto, significa não falar - surdo-mudo - e não ser humano. Foi Harlan Lane (1990) quem revelou com maior detalhe o quanto são idênticos os olhares paternalistas do colonialismo europeu sobre os nativos .ifricanos e os olhares ouvintistas - colonialistas - sobre os surdos. Nos dois olhares, adverte-se para o risco daquilo que McLaren (1995, op. cit.) denomina de multiculturalismo conservador e corporativo. Nessa perspectiva, deslegitimam-se as línguas estrangeiras e os dialetos regionais e étnicos, se 22 Carlos Skliar é, proclamadamente, monolíngüe, destrói-se as sementes de uma proposta de educação bilíngüe e se utiliza o termo “diversidade” para encobrir uma ideologia de assimilação. As reflexões anteriores conduzem a um outro tipo de problema. Ao se falar, por exemplo, do processo de inclusão dos surdos na escola regular, fala-se de inclusão ou de assimilação? Quais serão os surdos incluídos, em quais escolas, de quais ouvintes? As surdas mulheres, negras, pobres, indígenas, incluir-se-ão nas escolas das ouvintes mulheres, brancas, de classe média? Ou seguirão o mesmo caminho de exclusão que sofrem as ouvintes mulheres, negras, pobres, indígenas? Neste sentido é muito significativo o questionamento proposto por Stuart (1992) acerca da necessidade de se constatar se os negros com algum tipo de deficiência sofrem uma dupla opressão ou se, na verdade, vivem uma experiência singular e simultânea de opressão. A estatística realizada por Mindel e Vernon (1972) oferece uma resposta direta a essas questões. Ao investigar a situação de trabalho dos surdos nos Estados Unidos, seus estudos revelaram o fato de que as mulheres surdas e negras representam sempre o percentual mais baixo na escala de ocupação, enquanto que os homens surdos e brancos sempre se situam no quadro superior. A oposição maioria ouvinte/minoria surda É bastante comum definir a comunidade surda como uma minoria lingüística, baseando-se no fato de que a língua de sinais é utilizada por um grupo restrito de usuários, os quais, seguindo tal lógica discursiva, vivem uma situação de desvantagem social, de desigualdade, e participam, limitadamente, na vida da sociedade majoritária. Resulta curiosa a coincidência desta definição com alguns dos discursos dominantes na educação dos surdos, especificamente aquelas que insistem, como diz Andersson (1989), cm que o uso da língua de sinais constitui sempre um fator de exclusão da sociedade majoritária. Não é a minha intenção conduzir tal discussão às suas determinações estatísticas que levam a considerar os surdos como uma minoria lingüística, étnica, ou social. Mas, parece-me importante introduzir alguns dados que considero mais significativos. A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 23 Jones e Pullen (1992) estimam que, na Inglaterra, há cinqüenta mil surdos que usam a língua de sinais britânica - BSL; quase a mesma quantidade de pessoas que usam o galês como primeira língua. Deveriam ser, então, duas minorias iguais ou igualmente consideradas. Mas, as formas de organização política e educacional em torno delas são, desde já, bem diferentes. E, essa diferença, imposta entre minorias, demonstra que nem todas elas são minorias, que existem minorias melhores e piores, e que se qualifica — e não quantifica — aquilo que conforma o minoritário. Sabe-se que a língua de sinais americana (ASL) é a terceira língua de maior uso dentro dos Estados Unidos. Mas, terá essa língua o mesmo status social, acadêmico, lingüístico, que o espanhol, o chinês, o francês? Será que aquilo que é lingüisticamente muito utilizado em um determinado país também é politicamente mais reconhecido/considerado? Sacks (1989), entre muitos outros, afirma que na ilha Marthas Vineyard de Massachusetts todos os habitantes, surdos e ouvintes, usavam normalmente a língua de sinais, mesmo quando a proporção de surdos era infinitamente menor e também quando a ilha ficou sem surdos. Ferreira-Brito (1994) descreve os índios Urubus- Kaapor do Brasil, como uma comunidade que, embora sendo majoritariamente ouvinte, utiliza uma língua de sinais para a comunicação. Estes exemplos deveriam servir para demonstrar que, embora se queira estabelecer critérios quantitativos para uma política educacional, estes se tornam necessariamente qualitativos e respondem a uma hierarquia e a uma assimetria de poderes. A utilização da língua de sinas por parte dos surdos é, por si, o fato que melhor sublinha esse conjunto de relações assimétricas de poder e evidencia aquilo que a maioria (minoria) ouvinte quer desterrar das escolas de surdos: a surdez. A oposição oralidade (língua oral) /gestualidade (língua de sinais) Os surdos criaram, desenvolveram e transmitiram, de geração em gera ção, uma língua, cuja modalidade de recepção e produção é viso-gestual. Muitos supõem que essa modalidade lingüística nasceu porque a deficiência auditiva impede os surdos de acederem à oralidade. Assim, a língua de sinais deixa de ser vista como um processo e como um produto construído histórica e socialmente pelas comunidades surdas. 24 Carlos Skliar Apesar de sua secular presença no mundo e do desenvolvimento de uma teorização específica atual sobre essas línguas - a lingüística da língua de sinais —, sua existência segue, ainda hoje, rodeada de um certo halo de mistério, de rechaço e de representações estereotipadas. A partir das investigações de Stokoe (1960) e de Bellugi e Klima (1977) criaram-se as bases para um estudo científico desse sistema lingüístico. Os trabalhos da lingüística pós-estruturalista avaliaram o estatuto lingüístico das línguas de sinais como línguas naturais e como sistemas a serem diferenciados das línguas orais: o uso do espaço como valor sintático e a simultanei- dade dos aspectos gramaticais são algumas das restrições levantadas pela modalidade viso-espacial que determinam sua diferença estrutural e funcional em relação às línguas auditivo-orais. Assim, a linguagem deveria ser definida independentemente da modalidade na qual se expressa ou por meio da qual se percebe. Em outras pala vras, a linguagem possui uma estrutura subjacente independente da modalidade, seja esta auditivo-oral ou viso-gestual. Deste modo, a língua oral e a língua de sinais não constituem uma oposição, mas sim, canais diferentes para a transmissão e a recepção da capacidade — mental — da linguagem. Mesmo agora, quando numerosas pesquisas já têm demonstrado que as línguas de sinais cumprem com todas as funções descritas para as línguas naturais, ainda persiste e chama a atenção a sua desvalorização, o seu trata - mento como mescla de pantomima e de sinais icônicos, e a sua considera ção enquanto um pidgin primitivo. Nas escolas de surdos, continua se reproduzindo uma oposição entre oralidade (língua oral)/gestualidade (língua de sinais), onde a representa ção sobre esta última se constitui numa metanarrativa específica. Assim, a língua de sinais é considerada como universal, transparente — quer dizer, icônica, compreensível inclusive para quem não a conhece —, não metafórica, derivada da gestualidade espontânea dos ouvintes; um obstáculo para outras aprendizagens — especificamente a aprendizagem da língua oral. As representações sobre a língua de sinais nas escolas levam a conseqü ências dolorosas e problemáticas para os próprios surdos. Trata-se, por um lado, de que essa língua não é a língua dos professores e profissionais ouvintes; portanto, o problema não é a oposição entre língua oral e língua de sinais. Então, a questão deve ser revertidapara a seguinte proposição: a língua dos ouvintes não é a língua dos surdos. Não é o fato de que os surdos utilizam A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 25 uma outra língua que deve ser discutido, mas o poder lingüístico dos profes sores e o processo conseqüente de deseducação. Os projetos chamados de educação bilíngüe para surdos têm que projetar uma luz sobre estes fatos, e não contentar-se simplesmente em definir formalmente — como de hábito se faz — a utilização das duas línguas dentro da educação dos surdos. A aceitação da língua de sinais não supõe uma reconversão significativa do problema. Ainda existindo um espaço para as duas línguas em questão, cada uma pode perfeitamente corresponder a dois grupos diferentes e a duas ou mais representações sobre o mundo. Deste modo, a educação dos surdos continuará sendo um projeto assimétrico de poderes e saberes. Neste sentido, é pertinente esclarecer que não defino a educação bilíngüe para os surdos enquanto o desenvolvimento de habilidades lingüísticas em duas ou mais línguas, como é comum definir quando se fala de crianças e/ ou adultos ouvintes. Refiro-me a uma dimensão pedagógica da educação bilingüe, vale dizer, ao direito que têm as crianças que utilizam uma língua diferente da língua oficial de serem educadas na sua língua. (UNESCO, 1954) Reflexão sobre o consenso das potencialidades educacionais dos surdos A educação dos surdos pode muito bem ser definida, ao menos em nosso continente, como uma história de impossibilidades. A impossibilidade de se falar para e pelos surdos, a impossibilidade dos surdos de falarem para e pelos ouvintes e por eles mesmos, e a impossibilidade dessas falas serem reunidas, visando à organização de uma política educacional que reconheça a diferença. Por tudo isso, a reflexão sobre o consenso das potencialidades educacionais dos surdos não deve ser apressadamente interpretada sobre o modo como os surdos podem ser educados e, muito menos ainda, como uma seqüência de objetivos pedagógicos a serem desenvolvidos em termos de uma proposição “metodológica”. Também não estou falando de "potencialidades” num sentido exclusivamente cognitivo ou como uma delimitação acerca do que os surdos podem e não podem aprender. É, na verdade, uma tentativa, uma busca de um consenso, no sentido de gerar as sementes para um projeto político e educacional. 26 Carlos Skliar Estarei falando, então, do conceito de uma educação e de uma escola possível? Sim e não. Se, por educação e por escola possível, entende-se uma utopia, uma promessa dos ouvintes de libertação dos surdos, não é esse o sentido da minha representação sobre o “possível”. O sentido que dou a uma educação e a uma escola possível se refere à criação de políticas lingüísticas, de identidades, comunitárias e culturais, pensadas a partir do que os outros, os surdos, se representam como possível e do modo como os outros, os surdos, reconstroem o próprio processo de educação. As potencialidades — os direitos — educacionais às quais faço referência são: a potencialidade da aquisição e desenvolvimento da língua de sinais como primeira língua; a potencialidade de identificação das crianças com seus pares e com os adultos surdos; a potencialidade do desenvolvimento de estruturas, formas e funções cognitivas visuais; a potencialidade de uma vida comunitária e de desenvolvimento de processos culturais específicos; e, por último, a potencialidade de participação dos surdos no debate lingüístico, educacional, escolar, de cidadania, etc. Ainda que estas potencialidades tenham sido, até aqui, somente esboçadas, é possível afirmar que elas estão sendo, virtual e definitivamen te, abandonadas pelos projetos da educação especial para surdos. Além disso, tais projetos tendem, de modo voluntário ou não, a ignorá-las ou, o que é pior, a reconhecê-las e contradizê-las. Também no contexto dos “novos” projetos educacionais para surdos, tais potencialidades são, muitas vezes, simplificadas ou reconhecidas parcialmente. Quando isto acontece, elas são vistas mais como objetivos do próprio projeto pedagógico, do que como um direito dos surdos ao exercício, no âmbito político e educacional, dos seus direitos. A potencialidade da aquisição e desenvolvimento da língua de sinais como primeira língua Todas as crianças surdas podem adquirir a língua de sinais, desde que participem das interações quotidianas com a comunidade surda, como acon tece com qualquer outra criança na aquisição de uma língua natural. “Na- A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 27 rural”, entretanto, não se refere a uma certa espontaneidade biológica. Lín gua natural, aqui, deve ser entendida como uma língua que foi criada e é utilizada por uma comunidade específica de usuários, que se transmite de geração em geração, e que muda — tanto estrutural como funcionalmente — com o passar do tempo. Pôr a língua de sinais ao alcance de todos os surdos deve ser o princípio de uma política lingüística, a partir da qual se pode sustentar um projeto educacional mais amplo. Mas este processo não deve ser considerado apenas como um problema escolar e institucional, tampouco como uma decisão que afeta tão-somente um certo plano ou um certo momento da estrutura pedagógica, e, muito menos ainda, como uma questão a ser resolvida a partir de esquemas metodológicos. É um direito dos surdos e não uma concessão de alguns professores ou de algumas escolas. A potencialidade de identificação das crianças surdas com seus pares e com os adultos surdos Além das crianças surdas possuírem a potencialidade da aquisição da língua de sinais, elas têm o direito de se desenvolverem numa comunidade de pares, e de construírem estratégias de identificação no marco de um processo sócio-histórico não fragmentado, nem cerceado. Mas, não estou simplesmente mencionando o processo individual ou a individualizado de identificações, como se elas fossem homogêneas, estáveis, fixas, como se a identificação entre surdos ocorresse de forma inevitável, uma vez que a “surdez os identifica”. Refiro-me, sim, a uma política de identidades surdas, onde questões ligadas à raça, à etnia, ao gênero, etc., sejam também i -n tendidas como “identidades surdas”; identidades que são, necessariamente, híbridas e estão em constante processo de transição. A potencialidade do desenvolvimento de estruturas, lormas e funções cognitivas visuais As potencialidades e capacidades visuais dos surdos não podem ser en tendidas somente em relação ao sistema lingüístico próprio da língua de sinais. A surdez é uma experiência visual, tal como a defini no começo 28 Carlos Skliar deste capítulo, e isso significa que todos os mecanismos de processamento da informação, e todas as formas de compreender o universo em seu entorno, se constroem como experiência visual. Não é possível aceitar, de forma alguma, o visual da língua de sinais e disciplinar a mente e o corpo das crianças surdas como sujeitos que vivem uma experiência auditiva. Neste sentido, a questão da didática, a questão do conhecimento - tanto o escolar quanto o não escolar - e a questão das interações que as regulam, devem ser criticamente discutidas e reconstruídas. A potencialidade de uma vida comunitária e do desenvolvimento de processos culturais específicos Para muitos resulta curiosa e, para outros, decididamente incômoda, a referência a uma cultura surda. Em menor grau ainda, se discute hoje a existência de uma comunidade de surdos. Talvez resulte fácil definir e localizar, no tempo e no espaço, um grupo de pessoas; mas, quando se trata de refletir sobre o fato de que nessa comunidade surgem — ou podem surgir — processos culturais específicos, é comum a rejeição à idéia da “cultura surda”, trazendo como argumento a concepção da cultura universal, a cultura monolítica. Não me parece possível compreender ou aceitar o conceitode cultura surda senão através de uma leitura multicultural, ou seja, a partir de um olhar de cada cultura em sua própria lógica, em sua própria historicidade, em seus próprios processos e produções. Nesse contexto, a cultura surda não é uma imagem velada de uma hipotética cultura ouvinte. Não é seu revés. Não é uma cultura patológica. Para muitos ouvintes que trabalham com surdos, a existência da comunidade e da cultura surda constitui tanto um problema de representações pessoais quanto de experiências e oportunidades de “liberdade”. Problema de representações porque se acha que não há nada fora de seu normal, de sua própria auto-referência cultural; nesse plano, a cultura surda seria um desvio, uma anomalia, o espaço limitado onde se produzem atividades irrelevantes. E é, também, um problema de experiências e oportunidades de “liberdade”, porque, ao “trabalhar” com as crianças — num contexto escolar ou clínico onde não existem adultos surdos —, desconhecem os processos e os produtos que determinados grupos de surdos geram em relação A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 29 ao teatro, ao brinquedo, à poesia visual e à literatura em língua de sinais em geral, à tecnologia, etc. As crianças surdas têm o direito à sua entrada nessa comunidade e nesses processos culturais, sem nenhum condicionamento. E as políticas lingüísticas, do conhecimento, das identidades, etc. são uma parte indissolúvel dessas potencialidades ou direitos. A potencialidade de participação dos surdos no debate lingüístico, educacional, escolar, de cidadania São numerosos, e cada vez mais explícitos, os testemunhos de surdos que, ao fazerem referência ao seu passado educativo, invocam imagens ligadas ao fato de se verem como estrangeiros, forasteiros, exilados. Esses depoimentos poderiam valer como oposição à frágil memória das instituições especiais para surdos — suas lembranças chegam, em geral, só até a adolescência dos alunos - e se constituiriam, enquanto contramemória, como resistência ao discurso hegemônico. A potencialidade de reconstrução histórica dos surdos sobre a sua educa ção e sua escolarização é, sem margem para dúvidas, um ponto de partida para uma reconstrução política significativa e para que participem, com consciência, das lutas dos movimentos sociais surdos pelo direito à língua de sinais, pelo direito a uma educação que abandone os seus mecanismos perversos de exclusão, e por um exercício pleno da cidadania. Reconstruir essa história é uma nova experiência de liberdade, a partir da qual se torna possível aos surdos imaginarem outras representações para narrarem a própria história do que significa o ser surdo. Conclusões: um último olhar sobre os Estudos Surdos em Educação Os Estudos Surdos em Educação podem ser pensados como um terri tório de investigação educacional e de proposições políticas que, através de um conjunto de concepções lingüísticas, culturais, comunitárias e de identidades, definem uma particular aproximação — e não uma apropriação — com o conhecimento e com os discursos sobre a surdez e sobre o mundo dos surdos. 30 Carlos Skliar Neste sentido, os Estudos Surdos problematizam justamente aquilo que em geral não é problematizado, nem na educação especial, nem em outras abordagens desta temática. O nosso problema, em conseqüência, não é a surdez, não são os surdos, não são as identidades surdas, não é a língua de sinais, mas, sim, as representações dominantes, hegemônicas e “ouvintistas” sobre as identidades surdas, a língua de sinais, a surdez e os surdos. Desse modo, a nossa produção é uma tentativa de inverter a com - preensão daquilo que pode ser chamado de “normal ou cotidiano”. Referências Bibliográficas ANDERSSON, Yerker. The deaf world as a linguistic minority. In: Sign language research and application. Proceedings of the International Congress on Sign Language Research and Application, Hamburg: Signum-Press, 155-161, 1989. BHABHA, Homi. The Other question: difference, discrimination and the discourse of colonialism. In: Literature, politics and theory. Methuen, 1986. BEHARES, Luis. Nuevas corrientes en la educación dei sordo: de los enfoques clínicos a los culturales. In: Cadernos de Educação Especial, Universidade Federal de Santa Maria, 4, 20-52, 1993. BELLUGI, Ursula & KLIMA, Edward. Two faces of sign. Annals New York Academy of Sciences, vol. 280, 514-537, 1977. CIXOUS, Hélene & CLEMÉNT, Catherine. The newly bom woman. Manchester: Manchester University Press, 1986. FERREIRA-BRITO, Lucinda. Integração social & surdez. 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O texto inicial destaca algumas investigações legitimadas pela ciência moderna e a busca de essências universais, tanto na medicina como na filosofia, que contribuíram para a quasi hegemonia do discurso da deficiência, descapacitando o sujeito surdo e subordinando sua língua e sua cultura. No texto final, exercitando uma abordagem crítica, arrisco uma análise daprodução artística feita no espaço escolar, emblema- ticamente representada por um coral de surdos. Como conclusão, sugiro uma reeducação dos sentidos e proponho adotar a escuta como uma outra percepção para as representações da surdez. O discurso biomédico e a pedagogia ortopédica Todo mundo sabe que os surdos-mudos são seres inferiores sob todos os aspectos: só os profissionais da filantropia declaram que eles são homens como os outros. Pois o surdo, semelhante (...) ao homem sem palavra dos tempos pré-históricos, mais para trás ainda já que ele não escuta, passa entre seus semelhantes (...) sem escutá-los, sem compreendê-los: tudo que é humano lhe permanece estranho. Eu não vou me deter, neste momento, nas condições determinantes da surdo- mudez, lesões do cérebro, do ouvido interno, etc., hereditárias entre os nascidos surdos, adquiridas entre outros (por causa de meningite, da febre dfóide, de convulsões, etc.). Nesses últimos casos, deve haver uma pre-disposição especial: a hereditariedade, disso não há dúvida, domina e dirige toda biologia. Não se trata de estabelecer uma compa 34 Carlos Skliar ração entre os criminosos e os surdos-mudos, mas com efeito, em todos casos dessa ordem, a degenerescência hereditária é o fator dominante. (Trecho de documento publicado no final do século XIX, em defesa de uma educação oral para surdos, Grémion, 1991: 197) A produção acadêmica e os registros históricos disponíveis localizam na França, a partir da segunda metade do século XVIII, o “berço” da edu cação institucional e pública de pessoas surdas, no Ocidente. A instituição escolar Imperial, cuja primeira proposta pedagógica data de 1760, funda- se nos moldes do Antigo Regime francês e passa por adoção pela Assembléia Nacional, em 1791, tornando-se o Instituto Nacional dos Jovens Surdos de Paris (INJS). O Instituto serve de centro irradiador de um ideário científico e modelo educacional para diversos países, contextualizado pelo projeto de uma instrução pública para todos. A partir do movimento europeu, a língua de sinais passa a ser reconhecida como forma de comunicação apropriada para a educação de pessoas surdas. Em pouco tempo, os resultados positivos da metodologia utilizada pelo Abade de LEpée, fundador da escola de Paris, chamam a atenção de religiosos e educadores e fundam -se inúmeras escolas para surdos na Europa e nos Estados Unidos, com profissionais surdos e ouvintes. As escolas usam as línguas de sinais nacionais e exploram os recursos visuais como a base para uma pedagogia especial, onde a religião, a moral, a formação profissional e a língua nacional constituíam o núcleo do currículo. Nesse período, filósofos como Etienne Bonnot de Condillac (1715- 1780) e Denis Diderot (1713-1784), interessados na surdez, buscam nessa condição uma relação entre a expressão do pensamento e a origem da linguagem humana: “seriam elas naturais, convencionais (criadas pelos homens) ou divinas (criadas por um Deus, auxiliado por Adão, o primeiro homem bíblico)? A língua de sinais seria universal? Teria sido utilizada pelo primeiro homem e pela primeira mulher?”. (Presneau, 1993, p. 414) Diderot publica, em 1751, antes da Enciclopédia, um livro na forma de uma Carta sobre os surdos-mudos para uso dos que ouvem e falam, onde cria a figura arquetípica de um mudo de convenção, o qual lhe serve como metáfora de um povo estrangeiro, cuja língua é ignorada, “um homem que, impedido de usar sons articulados, procurasse exprimir-se por meio de gestos”. (Diderot, 1993: 20) A SURDEZ: um olhar sobre as diferenças 35 Condillac, tratando da epistemologia e da filosofia da linguagem, na França, abordava sua investigação desde o marco teórico do Sensualismo, defen dendo que a linguagem e o pensamento não seriam inatos ao homem, doados por um Deus. Ao contrário, a humanidade teria desenvolvido o raciocínio e as habilidades lingüísticas desde uma forma simples, baseada nos sentidos e percepções sensoriais, movida pela necessidade (fome, proteção, ajuda mútua, etc.) progredindo numa forma espiral, interdependente. (Fischer, 1993: 431) A filosofia Sensualista, ao defender uma evolução da língua e da razão a partir dos sentidos em direção à abstração, determina que a língua de sinais (e toda sua cultura), por estar limitada aos gestos e à “langage d’action”, não passa de um nível inferior da espiral evolucionista. O corpo está na base, a mente no topo. Logo concluindo que o surdo falante por sinais é um inferior na língua, na inteligência e no pensamento. Partindo desses fundamentos, educar passa a ser corrigir, reabilitar, impondo uma forma evoluída de expressão tal como o falar. Os pré-requisitos para tal capacidade seriam uma disposição física para a aquisição da linguagem e do raciocínio e a presença das chamadas operações mentais como atenção, memória, etc. A ciência biomédica talvez tivesse o melhor projeto, a melhor execu ção, a sua utilidade maior para a sociedade: aprofundar os conhecimentos sobre o corpo para curar a moléstia e reabilitar o indivíduo. No momento cm que a onda de puritanismo se espalha pelas sociedade européias, nas primeiras décadas do século XIX, o corpo da pessoa surda — seu instrumen- to privilegiado de comunicação — é progressivamente constrangido por uma organização estrita da Instituição escolar, onde a utilização do tempo e do espaço é pensada com as particularidades do controle e da disciplina física e moral. Ao final do século XVIII, as instituições que permitiam a circula ção da língua de sinais e das formas de expressão corporal (as narrativas, as dramatizações, as artes escultóricas), passam a proibir as manifestações do signo viso-gestual e das expressões espontâneas do corpo. No espaço do t urrículo, que autorizava uma aproximação com a cultura visual dos surdos, coloca-se a sanidade normalizadora, orientada por ouvintes. Para tan- to, era necessário ir retirando de circulação a língua de sinais e seus textos, i entrados na produção cultural, além do convívio com tutores e professores MI idos adultos. 36 Carlos Skliar Em função da procura pelas condições ótimas de educação, com vistas à evolução do sujeito aprendiz, ao final do século XVIII, o corpo e a higiene do estudante surdo- mudo passam a ser o centro das atenções. Os administradores da instituição parisiense (INJS) instalam banheiras e duchas e criam um local público para os banhos, transformando a mesma numa das primeiras escolas francesas a ter uma piscina. Essa utilização da água se aproxima dos ritos de regeneração e renascimento: a água dissolve as impurezas, reduz as deformações e as enfermidades, e permite um retorno ao estado natural, Tétat de nature .(Séguillon, 1994: p.21) Ao longo do século XIX, a busca de salubridade e de limpeza fará parte do currículo escolar, assim como a supervisão do regime alimentar. A alimentação, considerada fundamental para o tratamento das doenças e para 0 desenvolvimento físico e intelectual dos estudantes, é objeto de estudo periódico. O mesmo ocorre com a educação da fala, apresentada como um elemento de higiene para o estudante surdo-mudo. Em 1818 a ginástica é introduzida no Instituto Nacional de Paris e o currículo passa a incorporar o treinamento físico para fortificar os corpos, regular a formação moral e reprimir os desvios sexuais. A ginástica faz uso do canto, preparando a educação da voz e da fala. Antes da primeira metade do século XIX, as investigações sobre o ou vido e a audição não passavam de uma antologia de atos científicos. Na França, a medicina otológica nasce com o Tratado das doenças do ouvido do Dr. Jean Itard1 (1822). Porém, essa especialidade médica ainda não passava de uma “bricolagem científica”. As experimentações com seres humanos duraram bom tempo, e as crianças do INJS, que forneciam material “de algum proveito para a ciência”, ficavam cobertas