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Ética e Política 4 - Hobbes

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moral da obediência e ética hedonista
Fernando Quintana 
Falar de ética e política no início da Modernidade (século XVII) implica abordar uma questão relevante que gira em torno da construção da ordem política e como ela se relaciona com a conduta dos indivíduos que a compõem. Mais especificamente trata-se de saber em que medida a obediência às autoridades e às leis civis, condição para os indivíduos viverem em paz, é compatível com uma ética centrada na procura da felicidade individual. Para isso, nós determos no estudo de um clássico do pensamento político, Thomas Hobbes, uma vez que traz contribuições importantes tanto do ponto de vista do conhecimento, quanto ético sobre o dualismo: obediência-felicidade. 
Hobbes viveu num período conturbado, de crise, no auge da Guerra Civil, que assolou seu país na década de 1640. Tal situação, precária, instável, mostra como a existência humana pode ser reduzida a tabula rasa, como o mundo pode ser aniquilado, etc., sendo contudo decisiva para sua reflexão política e para um tipo de conhecimento que podemos chamar de construção criativa (Wolin, 2001: 263).[1: A primeira Guerra Civil (1642-46) dividiu o país em dois partidos: o monárquico e o parlamentar. No primeiro, alistavam-se os partidários do rei, em sua maioria anglicanos, membros da grande nobreza, composta de grandes proprietários rurais e cortesãos. No segundo, os puritanos e proprietários agrários da pequena nobreza (gentry), comerciantes da City, os roundheals (cabeças redondas) e outros grupos de extração inferior (artesãos, lojistas, aprendizes). O conflito teve início quando o arcebispo Laud, apoiado por Carlos I Stuart, tentou impor aos calvinistas escoceses ou presbiterianos um livro de preces comum. Encolerizados com a iniciativa de forçar-lhes a liturgia anglicana (de inspiração papista), os presbiterianos pegam as armas junto com os calvinistas independentes. A Guerra Civil foi dirigida pelo Parlamento e, combatida por Oliver Cromwell (fidalgo rural puritano) até a rendição do monarca (1646). Na segunda Guerra Civil, Cromwell vence novamente as forças realistas (1648) e, em 1649 Carlos I é processado e condenado a morte. ]
A “ciência como construção - criativa - da mente” a encontramos, por exemplo, em De cive quando se refere ao more ou método matemático de conhecimento: a proposição 2+3 = 5 é científica, verdadeira, porque ela foi feita por nós, porque chegamos ao acordo de que a quantidade 2 seja chamada número dois, a quantidade 3, número três, e a quantidade 5, número cinco. Ou, quando se refere ao more ou método geométrico de conhecimento: a geometria é demonstrável já que as linhas e figuras sobre as quais razoamos são traçadas e descritas por nós mesmos; à diferença do more ou método experimental de conhecimento, que “não é tão seguro” (quanto o matemático ou geométrico) pelo fato de não depender de nossa criação: com os corpos naturais, acrescenta, não conhecemos a construção, mas a procuramos a partir de efeitos, aqui não há demonstração, mas um conhecimento do que podem ser as coisas. Neste caso, arremata, os princípios do conhecimento não são como os que criamos (axiomas da matemática, teoremas da geometria), mas se encontram nas coisas observadas por nós. 
A forma criativa de proceder do conhecimento em Hobbes é importante porque lhe permite chegar ao campo da moral, do direito e da política, que se encontram na sua época em forte atraso com respeito a outras formas do saber, a verdades inquestionáveis, irrefutáveis ou irreversíveis com o mesmo rigor de axiomas da matemática (2+ 2 = 4), teoremas da geometria (a soma dos ângulos de um triângulo retângulo são iguais a dois retos) ou, ainda, leis da física (o calor dilata os corpos). 
Com base nestas observações iniciais propomos mostrar como tais ferramentas metodológicas estão presentes em duas equações hobbesianas: paixão + razão = paz e paixão + razão = prazer. No primeiro caso, o intelecto auxilia o “desejo de viver” através de leis naturais ou morais que visam à segurança ou integridade física do indivíduo - bem supremo. No segundo caso, o intelecto auxilia o “desejo de levar uma vida prazerosa” – bem maior – através dos direitos naturais que se encontram na base da “liberdade civil” e felicidade individual.
A comparação do filósofo moral a matemáticos, geômetras e físicos pode ser resumida na famosa frase de Hobbes que diz: “Se os filósofos morais tiveram feito seus estudos com parecido êxito, nada melhor podia ter realizado o espírito para contribuir à tranquilidade e felicidade nesta vida”. Ambos os objetivos, importa sublinhar, sendo a preocupação central da reflexão hobbesiana: a tranquilitas, originada no desejo de viver e a felicitas, originada no desejo de levar uma vida prazerosa. 
Efetivamente, ambos os sentimentos, que mobilizam os homens a abandonar o estado de natureza e ingressar no estado civil – as paixões que fazem os homens tender para a paz são o medo da morte e o desejo daquelas coisas que são necessárias para uma vida confortável (Hobbes, 2003: 111) –, só podem ser atingidos apelando à razão, através das leis naturais que levam-nos a obedecer o soberano e através dos direitos naturais, a liberdade, que levam à vida feliz. 
Para tornar possível o desejo de viver e desfrutar das delicias da vida, Hobbes, vale insistir, lança mão do método matemático e geométrico, bem como do método experimental, na medida em que permitem estabelecer de forma objetiva e com rigorosa certeza como os homens podem gozar de tais bens temporais: a paz e a felicidade. Os homens não podem ter apenas opiniões sobre como obter tais bens. É necessário, portanto, criar as condições teóricas e epistemológicas para isso acontecer, assim a promessa da filosofia hobbesiana consiste em dar resposta ao movimento da conduta humana, que oscila entre o medo da morte e a procura da felicidade (Wolin, 2001: 266). 
Para chegar à paz, Hobbes apela às lex naturalis enquanto para uma vida feliz ao ius naturalis. No primeiro caso, as leis naturais, “os homens querem a paz” (pax est aequerenda), “os homens devem cumprir os pactos” (pacta sunt servanda), etc., são apresentadas como leis imutáveis ou eternas ao igual que axiomas da matemática ou teoremas da geometria ou, seguindo o método experimental, como proposições verdadeiras, baseadas em juízos hipotéticos/condicionais, que resultam da observação dos fatos: “se respeito a lei vivo em paz”. O projeto científico hobbesiano implica, neste caso, a combinação de dois métodos (dedutivo e indutivo) já que através deles é possível o conhecimento verdadeiro (Cassirer, 1992: 340). [2: Neste caso, trata-se do método puramente demonstrativo, lógico dedutivo, que pode ser enunciado na forma do seguinte silogismo: os homens querem a paz, João é homem, logo, João quer a paz. O more ou método geométrico-matemático supõe, então, uma operação lógica que consiste em concluir de uma ou várias proposições verdadeiras uma ou várias proposições que se seguem necessariamente: se A é igual a B, e se B é igual a C, então, A é igual a C. ][3: Neste caso, trata-se do método experimental: uma operação também racional em virtude da qual procura-se chegar a uma lei geral a partir da observação e repetição de regularidades em casos particulares. Este último método, próprio das ciências empíricas, pode ser enunciado da seguinte maneira: se A1 tem a propriedade P, s A2 tem a propriedade P, se An tem a propriedade P, então, todo A tem a propriedade P. ]
A paixão ou sentimento natural, o desejo de viver, auxiliado pela dictamen ratio, reta razão, na forma de leis naturais ou morais dar-se-ia, então, a partir de juízos a priori, baseados no método lógico-dedutivo, matemático ou geométrico, mas também a partir de juízos a posteriori, baseados na experiência, em juízos pragmáticos. [4: Ou, em linguagem kantiana, proposições contingentes, a posteriori e, sintéticas (em que o predicado adiciona algo novo ao sujeito: “os corpos são pesados”).]
Neste último caso, estamos diante de problemas práticos que,