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Transferências. Transferência de 
Impasse. Psicose de Transferência 
Na prática analítica o que é mais relevante? O clássico conceito de Freud de que a 
transferência resulta de uma compulsiva necessidade de repetição ou a tendência atual de 
considerá-la como uma repetição de necessidades, que não foram compreendidas e 
resolvidas no passado primitivo. Ou ambas têm a mesma importância? 
 
EVOLUÇÃO DA CONCEITUAÇÃO 
Embora o fenômeno transferencial esteja virtualmente presente em todas as inter-relações 
humanas, o termo “transferência” deve ficar reservado unicamente para a relação presente 
no processo psicanalítico, o qual, juntamente com a “resistência” e a “interpretação”, 
constitui o tripé fundamental da prática da psicanálise, dando-lhe o selo de genuinidade 
psicanalítica, entre outras modalidades psicoterápicas. De forma extremamente genérica, 
podese conceituar o fenômeno transferencial como o conjunto de todas as formas pelas 
quais o paciente vivencia com a pessoa do psicanalista, na experiência emocional da 
relação analítica, todas as “representações” que ele tem do seu próprio self, as “relações 
objetais” que habitam o seu psiquismo, bem como os conteúdos psíquicos que estão 
organizados como “fantasias inconscientes”, com as respectivas distorções perceptivas, de 
modo a permitir “interpretações” do psicanalista que possibilitem a integração do presente 
com o passado, o imaginário com o real, o inconsciente com o consciente. O conceito de 
transferência vem sofrendo sucessivas transformações e renovados questionamentos, 
como, por exemplo, se a figura do analista é uma mera pantalha para uma repetição de 
antigas relações objetais introjetadas ou se ele também se comporta como uma nova 
pessoa, real. O leitor que queira acompanhar a evolução histórica do fenômeno da 
transferência, desde Freud até os dias atuais, passando pelos demais autores – M. Klein, 
Rosenfeld, Meltzer, B. Joseph, Kohut, Winnicott, Lacan e Bion –, com as respectivas 
concepções que adquiriram uma nomenclatura própria, pode consultar o Capítulo 31 de 
Fundamentos psicanalíticos (Zimerman, 1999). Ainda dentro da proposta de 
conceitualização do fenômeno transferencial, impõe-se a necessidade de fazer uma 
distinção entre a transferência propriamente dita e os outros fenômenos correlatos, porém 
de significados distintos, que aparecem com freqüência na literatura psicanalítica com uma 
terminologia específica, como são os conceitos que seguem. 
Extratransferência 
Trata-se de um termo bastante conhecido e divulgado, que classicamente designa uma 
condição pela qual o analista percebe que o analisando demonstra, por meio dos 
inter-relacionamentos de sua vida cotidiana, a forma de como estão estruturadas as suas 
relações objetais internas. De modo geral, os analistas desvirtuam a extratransferência e 
apregoam que tais experiências emocionais só têm eficácia analítica se forem analisadas à 
luz da vivência do “aqui-agora-comigo” transferencial. Acredito que esteja crescendo o 
número de psicanalistas, entre os quais me incluo, que, diante de determinadas 
circunstâncias da situação analítica – mais particularmente aquela na qual uma verdadeira 
transferência ainda deve ser paulatinamente construída –, também trabalham com 
naturalidade e profundidade os vínculos manifestos na extratransferência, tal como essa se 
apresenta na vida “lá fora”. Por exemplo, no caso de um paciente que estiver narrando na 
sessão uma séria briga que teve na véspera com a sua mulher, existe a possibilidade, muito 
comum, de que o analista proceda a um automático reducionismo interpretativo de que o 
analisando está expressando uma briga com ele, analista. Independentemente se essa 
interpretação corresponde a uma realidade psíquica do paciente ou se é um equívoco de 
compreensão do analista, é freqüente que o paciente rejeite-a com costumeiras 
exclamações do tipo: “não é nada disso...; eu sabia que ias dizer isso...; tudo que eu falo, 
sempre trazes para ti...”, não sendo rara a possibilidade que o analista queira impor a sua 
interpretação “transferencial”, e a sessão adquira um clima polêmico. Em uma situação 
como essa que foi hipoteticamente referida, creio ser perfeitamente possível um trabalho 
verdadeiramente analítico a partir da extratransferência, isto é, de analisar com o paciente 
os detalhes da briga que teve com a esposa, como tudo começou, qual foi a sua 
participação, o seu papel, a sua responsabilidade por uma possível provocação para uma 
previsível resposta daquela, e que esse episódio repete tantos outros análogos com outras 
pessoas, etc., de sorte a poder propiciar um importante insight, com a possibilidade 
eventual de, aí sim, poder fazer uma costura dessa briga com outras manifestas ou ocultas 
que se passaram no passado ou que, de fato, possa estar acontecendo no vínculo analítico. 
Neurose de transferência 
É útil traçar uma diferença entre o surgimento, na situação analítica, de momentos 
transferenciais e a instalação de uma neurose de transferência. Neste último caso, quer 
seja de aparecimento precoce ou tardio, o analisando vive intensa e continuadamente uma 
forte carga emocional investida na pessoa do psicanalista, que transborda para fora da 
sessão e ocupa-lhe uma grande fatia dos seus tempo e espaço mental. O comum nesses 
casos é que o paciente reviva suas experiências afetivas não com uma percepção de um 
como se, de que está reproduzindo antigas vivências equivalentes, mas, sim, com a 
convicção de um está havendo, de fato, um “amor” pelo analista, por exemplo. A existência 
desse tipo de transferência justifica plenamente o emprego sistemático de interpretações 
centradas no calor do “aqui-agora-comigo-como lá então”. 
Transferência psicótica 
Conforme o nome designa, trata-se de uma transferência que caracteriza os pacientes 
clinicamente psicóticos, sendo que, contrariamente à crença de Freud de que eles não 
seriam analisáveis, porquanto nunca desenvolveriam uma transferência (ele partia da idéia 
de que, nesses casos, toda libido estava investida auto-eroticamente), hoje é consensual 
que eles desenvolvem, sim, uma clara transferência, visto que, embora muitas vezes sejam 
inacessíveis à análise, muitas outras vezes esses pacientes possibilitam que se desenvolva 
um verdadeiro trabalho analítico. Esse conceito de “transferência psicótica” não deve ser 
confundido com o da transferência provinda da “parte psicótica da personalidade” (conforme 
Bion) e tampouco iguala-se com a conceituação de psicose de transferência, descrita por 
Rosenfeld (1978). Bion considera que a transferência que caracteriza os pacientes em nível 
psicótico (e um grau expressivo de pacientes histéricos, acrescento eu) apresenta três 
aspectos típicos, cujos nomes podese abreviar com a letra inicial “p”: é prematura (a 
transferência se instala logo no início da terapia analítica), pertinaz (se agarram ao analista 
de uma forma forte, tenaz) e perecível (nas primeiras decepções e desilusões, distanciamse 
e esfriam o vínculo com o terapeuta; a transferência perece e, não raramente, abandonam a 
análise). 
Psicose de transferência 
Consiste no fato, nada infreqüente no curso das análises, de que, eventualmente, pacientes 
não-psicóticos ingressem em um estado transferencial de tamanho negativismo e distorção 
dos fatos reais, em relação ao analista, que chega a dar a impressão de uma situação 
psicótica, de fato. No entanto, a grande característica dessa psicose transferencial reside no 
fato de que fica restrita à situação da sessão analítica, finda a qual o analisando retoma a 
sua vida de forma completamente normal. Devido à sua importância clínica, essa forma de 
transferência será explicitada, de forma mais alongada, mais adiante neste capítulo. 
Aliança terapêutica 
Esta denominação pertence à E. Zetzel, psicanalista norte-americana que, em um trabalho 
de 1956, concebeu um aspecto importante relativo ao vínculo transferencial, ou seja, o fato 
de que um determinado paciente apresente uma condiçãomental, tanto de forma 
consciente quanto inconsciente, que permita que ele se mantenha verdadeiramente aliado à 
tarefa do psicanalista. Essa concepção aparece nos textos psicanalíticos com outras 
denominações, mas com significados equivalentes, como “transferência eficaz”, por meio da 
construção prévia de um rapport (Freud,1913); “transferência racional”, de Fenichel (1945), 
que alude a um “aspecto sensato” do paciente; “aliança de trabalho”, de Greenson (1965), 
etc. Cabe acrescentar que uma aliança terapêutica não deve ser tomada como um simples 
“desejo de melhorar”, tampouco como sinônimo de “transferência positiva” e, muito menos, 
como antônimo de “transferência negativa”; pelo contrário, creio que o importante 
surgimento dessa última, em sua plenitude aparentemente negativa, muitas vezes torna-se 
possível devido ao respaldo de uma “aliança terapêutica” provinda, pelo menos, de uma 
parte da mente do paciente que está comprometida em assumir e colaborar com a 
profundeza da análise, enfrentando, assim, as inevitáveis dificuldades e dores. Dizendo com 
outras palavras, a aliança terapêutica (A.T.) consiste no fato de que a parte observadora do 
paciente se alia ao analista e coopera para enfrentar seus aspectos doentes. A aliança 
terapêutica reproduz antigas alianças que visavam à formação do sujeito em diferentes 
etapas da vida, provavelmente desde a condição de feto. O aspecto da A.T. que me parece 
ser o mais importante refere o que representa para o paciente ele estar dentro do processo 
para o qual ele contribuiu, isto é, quando o paciente reconstrói sua experiência de estar 
sendo contido pelo corpo e pelo psiquismo do seu analista. Assim, na aliança terapêutica, 
mais do que na pessoa do analista, os pacientes se ligam no processo da análise, de modo 
que a aliança sempre implica em um mútuo reconhecimento que, preliminarmente, começa 
quando o paciente percebe que o terapeuta está comprometido, com emoções e sua crença 
no processo analítico. 
Match 
Talvez a melhor tradução para este termo seja a de encontro psicanalítico. Ele alude 
diretamente ao que vem sendo denominado “relação real”. Trata-se de uma conceituação 
proposta por psicanalistas pesquisadores norte-americanos, como J. Kantrowitz e 
colaboradores (1989), e diz respeito ao fato de que uma relação analítica vai bastante além 
de uma simples relação transferencial, repetidora de vivências passadas. A investigação 
desses autores obedeceu a uma rigorosa metodologia científica e permitiu-lhes a conclusão 
de que os aspectos pessoais de cada psicanalista em relação com os de um determinado 
paciente constituem um match singular, o qual tem uma decisiva influência na evolução, 
exitosa ou não, da análise. 
Pessoa real do analista 
Observações equivalentes a essas últimas mencionadas estão convocando os analistas 
para se perguntarem quanto à importância que deve ser creditada (ou desacreditada) à 
pessoa real do analista na construção do vínculo transferencial-contratransferencial e, por 
conseguinte, no destino da análise. Tenho a impressão de que, aos poucos, o pêndulo está 
se inclinando para a crença de que a percepção que o paciente capta das características 
reais da personalidade e da ideologia da pessoa que o seu psicanalista é mais do que uma 
mera pantalha transferencial, de fato, ele é um modelo de identificação para o paciente, tem 
uma significativa influência no campo analítico, até mesmo na determinação do tipo de 
transferência manifesta pelo analisando. Pela relevância que o tema representa na 
psicanálise prática, ele aparece neste livro em um capítulo especial. 
 
TIPOS DE TRANSFERÊNCIAS 
 
Como se sabe, Freud dividiu as transferências em positivas e negativas. Com a evolução da 
psicanálise, essa classificação ficou inadequada e insuficiente, e isso justifica uma 
explicitação, em separado, de cada uma das modalidades. Antes de tudo, quero definir a 
minha posição de que julgo as expressões “positivo” e “negativo” altamente inadequadas 
para uma compreensão psicanalítica, porquanto elas estão impregnadas de um juízo de 
valores, com um ranço moralístico, superegóico. No entanto, como são termos 
consagrados, eles devem ser mantidos, desde que bem-compreendidos sob a óptica atual. 
Transferência positiva 
Classicamente essa denominação referiase a todas as pulsões e derivados relativos a 
libido, especialmente os sentimentos carinhosos e amistosos, mas também incluídos os 
desejos eróticos, desde que eles tenham sido sublimados sob a forma de amor não-sexual 
e não persistam como um vínculo erotizado. O que julgo importante a ser destacado é o fato 
de que muitas vezes o que parece ser uma transferência “positiva” pode estar sendo 
“negativa”, do ponto de vista de um processo analítico, pois ela pode estar representando 
não mais do que uma extrema e permanente idealização (isso é diferente de uma – 
estruturante – admiração) que o paciente faz em relação ao analista. Também pode 
acontecer que uma aparência de “positividade” pode estar significando unicamente um, 
inconsciente, conluio transferencial-contratransferencial sob a forma de uma, estéril, 
recíproca fascinação narcisística. Igualmente, é necessário levar em conta a possibilidade 
nada incomum de que uma aparente transferência positiva, pela qual o paciente cumpre 
fielmente todas as combinações de assiduidade, pontualidade, verbalização, uso do divã, 
manifesta concordância com as interpretações, etc., possa estar encobrindo uma 
pseudocolaboração. Isso geralmente ocorre com pacientes portadores de uma forte 
estrutura narcisista, que os leva em um plano oculto da mente a desvitalizarem as 
interpretações do analista, de modo a que nele, paciente, nada mude de verdade. O que 
mais importa destacar é o fato de que, muitas vezes, uma transferência positiva pode não 
estar sendo mais do que uma extrema idealização do seu analista, com a possibilidade de 
que isso esteja encobrindo sentimentos “negativos”. Em contrapartida, uma transferência 
costumeiramente chamada de “negativa” pode estar sendo altamente “positiva” para o curso 
exitoso da análise. 
Transferência idealizadora 
Tal como antes foi referida, a transferência idealizadora, mesmo que em grau exagerado, 
quando parte de pacientes bastante regredidos, deve ser bem aceita pelo analista, pelo fato 
de que ela representa uma importante e necessária tentativa de contrair um vínculo 
primário. Em caso contrário, isto é, quando, por meio de interpretações unicamente dirigidas 
“à persecução resultante da agressão que está encoberta, além de uma tentativa de 
manipulação e controle por parte do analisando”, o psicanalista desfaz precocemente a 
idealização, daí resultando a possibilidade de o paciente ingressar em um estado de 
desamparo análogo à imagem que me ocorre de se “tirar a escada e deixá-lo seguro pelo 
pincel”. O inconveniente analítico dessa excessiva idealização seria no caso de o analista, 
por um excesso de narcisismo pessoal ou por dificuldades contratransferenciais, deixar que 
essa situação se perpetue. É importante termos em mente a significativa distinção (às 
vezes, muito sutil) que deve haver entre idealização (sempre muito instável) e admiração 
(muito mais estável, além de ser, para o paciente, o melhor dos “modelos de identificação”). 
As “transferências histéricas”, de início, são altamente idealizadas e pertinazes, embora 
elas possam ser muito instáveis e lábeis, de modo que os analistas podem se entusiasmar 
muito rapidamente com os resultados da psicanálise, e depois sofrer decepções. Isso 
lembra uma notável frase de Freud, dita em 1925: Considerem a maneira pela qual uma 
dona-de-casa distingue um bom forno de um mau forno. Os fornos ruins esquentam rápido, 
mas esfriam com a mesma rapidez. Os bons fornos esquentam lentamente, de modo 
incerto, mas conservam seu calor por muito tempo (in Pensamentos de Freud, de Alain de 
Mijolla, 1985, p.41). 
Transferência negativa 
Com esse nome, Freud referia aquelas transferências nas quais predominavaa existência 
de pulsões agressivas com os seus inúmeros derivados, sob a forma de inveja, ciúme, 
rivalidade, voracidade, ambição desmedida, algumas formas de destrutividade, as eróticas 
incluídas, etc. Na atualidade, creio ser relevante afirmar que uma análise que não transitou 
pela “transferência negativa”, no mínimo, não ficou completa, porquanto todo e qualquer 
analisando tem conflitos manifestos ou latentes relacionados à agressividade. A propósito, é 
útil estabelecer uma diferença entre agressão (sádicodestrutiva) e agressividade, a qual, tal 
como a sua etimologia (ad + gradior) designa, representa um movimento (gradior) para a 
frente (ad), uma forma de se proteger contra os predadores externos, além de também 
indicar uma ambição sadia com metas possíveis de serem alcançadas. Assim, a 
transferência pode ser “negativa” a partir de uma perspectiva adulta em relação à educação 
de uma criança que quer romper com certas regras, porém ela pode ser altamente “positiva” 
a partir de um vértice que permite propiciar ao paciente a criação de um espaço, no qual ele 
pode reexperimentar as antigas experiências que foram mal-entendidas e mal-solucionadas 
pelos pais, por exemplo aquelas que eles não tenham entendido os presentes-fezes ou o 
direito do filho de fazer uma sadia contestação aos valores deles, etc. Principalmente, o 
terapeuta deve levar em conta que as manifestações agressivas possam estar 
representando a construção de preciosos núcleos de confiança que o paciente esteja 
desenvolvendo em relação a si mesmo, ao analista e ao vínculo entre ambos. Talvez não 
exista experiência analítica mais importante do que aquela na qual o paciente permita-se 
atacar ao seu analista, por meio das formas mais diversas, às vezes cruéis, e este 
sobrevive aos ataques, sem se intimidar, revidar, deprimir, desistir, contrabalançar com 
formações reativas, apelar para recursos medicamentosos e outros afins, mantendo-se fiel 
e firme à sua posição de analista. Isso repercute no paciente de duas formas estruturantes 
para o seu self: a comprovação de que ele não é tão perigoso, destruidor e mau como 
imaginava, e tampouco os seus objetos são tão frágeis como ele sempre temeu. O aspecto 
positivo de uma transferência negativa pode ser equiparado à fase evolutiva da criança, 
quando ela entra no período de, sistematicamente, dizer “não” à autoridade dos pais, fato 
que, mais do que um ato agressivo, representa ser, em condições normais, uma tentativa de 
começar a construir seu sentimento de identidade, por meio de uma busca de autonomia e 
diferenciação. 
Transferência especular 
Na atualidade, é consensual entre os psicanalistas que a transferência não expressa 
unicamente conflitos, tais como aqueles que tipificam a “neurose de transferência”, mas 
também que ela traduz os problemas de déficit. Neste último caso, próprio dos pacientes 
com fortes fixações em etapas primitivas – nas quais as necessidades emocionais básicas 
não foram suficientemente satisfeitas pelos cuidados de uma adequada maternagem –, a 
transferência assume características de uma busca de algo em alguém. Essas últimas 
condições podem assumir a forma de uma busca, no analista, de uma “fusão” com ele, ou a 
de um “continente” apropriado, ou de alguém que seja portador de seus “ideais”, ou, ainda, 
a de um “espelho” que o reflita, etc. Neste último caso, quando o movimento transferencial 
representa uma busca de um “espelho” na pessoa do analista – que o reflita, reconheça e 
devolva a sua imagem de autoidealização, vitalmente necessária para que o paciente sinta 
que, de fato, ele existe e é valorizado – estabelece aquilo que, genericamente, está sendo 
denominado “transferência especular”. Nestes casos, é necessário que o analista 
transitoriamente aceite funcionar como “ego auxiliar” do paciente, a um mesmo tempo que, 
gradativamente, vá construindo o processo de diferenciação, que possibilite o paciente a 
adquirir uma separação, uma individuação e uma posterior autonomia. 
Transferência erótica e erotizada 
Em 1915, Freud referiu-se ao “amor de transferência” como uma complicação do processo 
psicanalítico, que acontece com freqüência e no qual a(o) paciente diz-se “apaixonada(o)” 
pelo seu(sua) analista. Embora reconhecesse o caráter defensivo dessa forma 
transferencial, Freud alertava os terapeutas para que não confundissem essa reação com 
um amor verdadeiro, a um mesmo tempo em que os advertia contra as tentativas de eles 
reprimirem o amor desses pacientes, desde que “o tratassem como algo irreal e o 
rastreassem até suas origens inconscientes”. Freud também advertia quanto aos “casos 
graves de amor transferencial” e descrevia essas suas pacientes histéricas como “meninas 
que, por natureza de uma pulsão elementar, recusam aceitar o psíquico em lugar do 
material”, sendo que ele sugeria que a única forma de tratar esses casos é com uma 
tentativa de mudar de analista ou, então, com a interrupção da análise. Como se vê, a 
transferência de características eróticas adquire um largo espectro de possibilidades, desde 
os sentimentos afetuosos e carinhosos pelo analista até o outro pólo de uma intensa 
atração sexual por ele (ela), atração essa que se converte em um desejo sexual obcecado, 
permanente, consciente, egossintônico e resistente a qualquer tentativa de análise. O 
primeiro caso alude à transferência erótica, enquanto o segundo refere-se à transferência 
erotizada. Conquanto ambas as formas, em algum grau, estejam virtual e ocasionalmente 
presentes em todas as análises, tanto de forma homo quanto heterossexual, é necessário 
estabelecer uma clara diferença entre elas. A transferência erótica está mais vinculada com 
a necessidade que qualquer pessoa tem de ser amada, sendo que essa demanda por 
compreensão, reconhecimento e contato emocional pode se fundir (logo, “con-fundir”) com 
o desejo de um contato físico. Em contrapartida, a transferência erotizada designa a 
predominância de pulsões ligadas ao ódio, com as respectivas fantasias agressivas, que 
visam a um controle sobre o analista e a uma posse voraz dele. Tais fantasias 
manifestam-se sob diversas formas, são de origem inconsciente, superam o senso crítico 
da realidade objetiva (a ponto de o paciente sequer reconhecer o “como se” transferencial’), 
aparecendo, na situação analítica, disfarçadas de legítimas necessidades amorosas e 
sexuais. Dois sérios riscos podem acompanhar a instalação da “transferência erotizada” no 
campo analítico: uma é a de que, diante da nãogratificação do psicanalista dessas 
demandas sexuais do paciente, este recorra a actings fora da situação analítica, que, às 
vezes, podem adquirir características de grave malignidade. A segunda possibilidade 
igualmente maligna é que a análise, a partir dessa transferência de natureza perversa, 
possa descambar para uma perversão da transferência, inclusive com a possível 
eventualidade de o analista envolver-se nela, o que está longe de ser uma raridade. 
Transferência perversa 
O termo “perverso” deve ser entendido como um “desvio da normalidade”, porém não deve 
ser tomado como sinônimo de uma “perversão”, clinicamente configurada como tal, não 
obstante, não seja totalmente improvável que a análise possa descambar para uma 
perversão, de fato. Assim, é comum que os pacientes em geral, de alguma forma, tentem 
“perverter” as combinações que eles aceitaram em relação ao setting analítico, procurando 
modificar “as regras do jogo”, traduzidas nas formas de pagamento, na obtenção de 
privilégios, em alguma forma de provocação para tirar o analista de seu lugar, etc. 
Comumente, nada do mencionado aqui representa algum risco para a análise, desde que o 
analista, embora possa ter alguma flexibilidade em relação aos pedidos do paciente, não 
saia do seu lugar e função de psicanalista. No entanto, em se tratando de pacientes 
predominantemente psicopatas, essa atitude transferencial perversa pode se constituir 
como uma constante que exige redobrados esforços do terapeuta, sendoque, muitas 
vezes, as sucessivas atuações podem definir uma condição de não-analisabilidade. Meltzer 
(1973) foi o autor que mais consistentemente estudou a perversão da transferência, 
apontando para o risco da formação de um conluio perverso entre o par analítico, que 
consiste em um jogo de seduções por parte do paciente (creio que vale acrescentar a 
hipótese de que as seduções podem partir do analista), sendo que, na hipótese de o 
terapeuta ficar envolvido e desse conluio ficar estabilizado, virá a acontecer que o paciente, 
em vez de reconhecer suas limitações e conflitos, verá o seu analista “como uma prostituta, 
uma ama-de-leite, viciada na prática da psicanálise e incapaz de conseguir melhores 
pacientes” (p. 159). 
Transferência de impasse 
Embora essa denominação não costume aparecer na literatura psicanalítica, ela parece ser 
válida como uma forma de designar aqueles períodos transferenciais, típicos de situações 
de “impasses analíticos”, que, inclusive, podem culminar com a preocupante situação de 
uma “reação terapêutica negativa”. Nesses casos de impasse, a transferência do paciente 
tanto adquire uma forte tonalidade erotizada que, enquanto dura, pode impossibilitar o curso 
da análise, conforme foi descrito atrás, ou, como acontece mais comumente, o analisando 
fica invadido por ansiedades paranóides, de modo que todo o seu discurso é concentrado 
em queixas e acusações ao seu analista, a um mesmo tempo que fica em um estado de 
tamanha defensividade que não consegue escutar o que seu analista diz. Em casos mais 
extremos, essa forma de transferência pode atingir o estado conhecido como psicose de 
transferência, tal como Rosenfeld a conceitua. Segundo este autor, essa “psicose de 
transferência” ou “transitória” surge em pacientes neuróticos ou fronteiriços, durante a 
análise, e desaparecem após dias, semanas ou talvez meses, podendo recidivar 
periodicamente. “Toda psicose de transferência constitui-se em grave à análise, rompe a 
aliança terapêutica e pode levar a um impasse analítico completo”. Durante a vigência 
dessa “psicose transferencial”, prossegue Rosenfeld, O analista costuma ser percebido de 
uma forma distorcida, como um superego onipotente e sádico, mas a forma erótica da 
transferência psicótica, na qual o paciente acredita que o analista está apaixonado por ele 
ou ela, pode também dominar a situação analítica por um certo tempo. [...] Tais pacientes 
freqüentemente formam alguma aliança terapêutica com o analista, mesmo tendo presente 
uma “parte psicótica da sua personalidade”, enquanto simultaneamente mantêm a aliança 
terapêutica com a “parte não-psicótica” de si mesmos, diminuindo assim o perigo de 
aparecerem episódios delirantes transitórios. Pela razão declinada, essa delicada situação 
transferencial requer que o analista compreenda bem o que está se passando, tenha uma 
boa capacidade de continência e paciência, procurando se aliar à parte não-psicótica do 
paciente e evitando pressionar com interpretações que, embora possam ser corretas, só 
fazem aumentar um clima polêmico e, por conseguinte, incrementar os delírios 
transferenciais. Reações dessa natureza surgem com relativa freqüência no campo 
analítico, sendo nem sempre fácil discriminar se elas correspondem a uma reação e 
possível inadequação por parte da atitude e manejo do analista, ou se traduzem um 
impasse prenunciador de uma ruptura com a análise, ou ainda se estão representando um 
difícil, porém necessário, momento analítico, como uma forma de progresso e construção 
da confiança básica. Nessas situações de psicose de transferência, as reações 
contratransferenciais são extremamente difíceis para o analista, e, por tudo isso, esse 
quadro transferencial merece uma particular atenção, de modo a ser bem-conhecido por 
todo analista praticante. 
 
A TRANSFERÊNCIA NA PRÁTICA ANALÍTICA 
 
Devido à enorme amplitude deste tema, que por si só comportaria um livro, restringirme-ei a 
enumerar, em um estilo telegráfico, sob a forma de afirmativas e indagações, alguns dos 
principais tópicos que cercam o fenômeno transferencial, tal como ele aparece na nossa 
clínica cotidiana, em relação aos seguintes segmentos do campo analítico. 
Em relação ao setting 
1. A transferência é um fenômeno original no qual o presente dá forma ao passado, a um 
mesmo tempo em que este dá forma àquele. O que é, era; e o que era, é! A transferência 
não é, em si mesma, uma resistência, porém pode ser usada como tal. 
 2. A análise não cria a transferência; apenas propicia a sua redescoberta, bastante 
facilitada pela instalação do setting, que favorece algum grau de regressão do paciente, por 
meio de uma intimidade, porém a análise será processada com uma certa privação 
sensorial, frustrações inevitáveis, assimetria de papéis, etc. Um exemplo bastante comum 
disso é o daquele paciente que atribui a sua relutância inicial em aceitar a indicação da 
análise ao seu “medo de ficar dependente”, o que, por si só, já nos indica que ele, no fundo, 
se reconhece como um portador de núcleos dependentes; possivelmente uma 
“dependência má” como o seu medo expressa, e o trabalho analítico visará a transformá-la 
em uma “dependência boa”, à medida que se desenvolverem os elementos de “confiança 
básica” do self. 
3. Mais do que simplesmente fruto de deslocamento e de uma carga de projeções, a 
transferência é a externalização de um “diálogo no interior do psiquismo”. 
4. Há transferência em tudo, porém nem tudo é transferência a ser analisada e interpretada. 
Desta forma, há uma significativa diferença entre o analista trabalhar na transferência e 
trabalhar sistematicamente na análise da transferência. 
 5. Uma questão instigante, muito em voga, é aquela que indaga se a pessoa do analista é 
unicamente um “objeto transferencial” no qual o paciente reedita suas experiências 
passadas ou se ele também representa e funciona como um objeto real e novo. 
 6. Com outras palavras, a transferência consiste em uma necessidade de repetição (tal 
como postulava Freud, que incluía o fenômeno transferencial como um exemplo do seu 
princípio de “compulsão à repetição”), ou, antes, a transferência representa uma repetição 
de necessidades, como querem os autores atuais, ou, ainda, as duas são indissociadas e 
concomitantes. 
7. A conceituação da transferência como repetição de necessidades – que não foram 
compreendidas e satisfeitas na devida época primitiva do desenvolvimento emocional – 
delega ao setting uma considerável importância no processo analítico, porquanto esse 
passa a representar para o paciente um novo e singular espaço, no qual ele poderá 
reexperimentar e transformar aquelas vivências emocionais traumáticas, malresolvidas, 
desestruturantes e representadas no ego de forma patogênica. 
8. Levando em conta o importante fato de que a pessoa do analista também faz parte do 
setting, creio que também se impõe a afirmativa de que, assim como a transferência do 
analisando promove um estado contratransferencial do analista, da mesma forma, é 
possível refletir que a moderna psicanálise vincular considera que a transferência do 
analista também pode condicionar e estruturar a resposta transferencial do paciente, como 
é o caso, por exemplo, de quando o paciente capta os desejos ocultos que o analista tem 
em relação a ele... 
9. Em contrapartida, diante de uma permanente transferência de características 
predominantemente idealizadoras, o paciente terá sérias dificuldades em detectar as falhas 
ou os erros de seu analista, fato que é relevante para ele desenvolver a nobre capacidade 
de discriminação. Inexiste desenvolvimento do ego sem a capacidade de juízo crítico. 
Assim, se o analista, por inexperiência, por uma contratransferência difícil, por inevitáveis 
equívocos humanos, por aspectos neuróticos seus, por uma identificação patógena com o 
paciente ou por inúmeras outras razões, equivoca-se com quem esteja em uma 
transferência idealizadora excessiva, esse analisando só tem duas saídas: ou nega e nãovê essas falhas do seu terapeuta, ou as vê, porém as releva, compensando com aquilo que 
de realmente bom ele vê no seu analista. 
10. O primeiro, desses dois caminhos, é patogênico, pois reforça um “viver com ilusões”, de 
forma falsa, além de que sempre existe a possibilidade do objeto bom-idealizado 
converter-se, às vezes abruptamente, em um maupersecutório. O segundo caminho – 
perceber as falhas do analista, porém perdoá-las – pode incrementar uma dependência 
excessiva, submissão, masoquismo, servidão amorosa e demais configurações vinculares 
patogênicas. Em um extremo exagerado, aceitar tudo que vem de um analista idealizado, 
em nome do amor a ele, com a cumplicidade do terapeuta, equivale à posição do amor 
masoquista do tipo tantalizante: “porque o amo acredito em suas mentiras, aceito a sua 
tirania, participo de seus jogos perversos, lhe concedo o direito de ter um apoderamento 
sobre mim, tudo isso porque eu me apavoro ante a possibilidade de lhe perder”. 
11. Os aspectos reais do analista que podem determinar uma influência na transferência do 
paciente dizem respeito desde os detalhes do consultório, o seu sexo, a idade, como 
também a sua ideologia (que o paciente logo percebe), a escolha do material a ser 
interpretado e a sua forma de interpretar. Além disso, é necessário levar em conta os 
aspectos da relação real que se expressam por intermédio do match, bem como também o 
fato muito importante de o analista igualmente funcionar como um novo modelo de 
identificação, transformacional, por via da sua forma de pensar, contatar com as verdades, 
enfrentar as angústias e exercer as funções que Bion denomina como continente e função 
alfa. 
12. Alguns autores alertam para o fato de que a existência e a função do analista como um 
objeto real, novo, somente são possíveis quando a transferência manifesta já tiver sido 
analisada em profundidade. Outros autores, no entanto, acreditam que a importância real do 
analista existe desde o início da análise, alegando que vida mental começa com interações 
e não com pulsões. 
13. Em relação ao sexo biológico do analista, na atualidade, há um certo consenso entre os 
autores que esse aspecto pode exercer uma diferença na evolução da análise, mais 
provavelmente no seu início, como pode ser o caso da instalação de alguma forma de 
“resistência” ou de “transferência-contratransferência” específicas, não obstante o fato de 
existirem ao mesmo tempo transferências do tipo materno e paterno, com analistas de 
ambos sexos. 
14. Relativamente à extratransferência, é relevante que o analista considere a alta 
possibilidade de que alguma pessoa do mundo exterior possa estar sendo utilizada como 
um suporte transferencial de algum importante objeto primário do paciente que, assim, 
funciona como um partenaire a quem cabe o papel de carregar, sustentar e executar uma 
parte essencial da personalidade do paciente, que está negada, dissociada e projetada 
nessa pessoa. 
Em relação às resistências 
15. Embora o clássico conceito de “resistência de transferência” venha rareando na 
literatura psicanalítica, é necessário lembrar que Freud, primeiramente, considerou a 
transferência como uma forma de resistência (...o analisando repete, em lugar de recordar – 
1914, p.196), e, em um segundo momento, ele a concebeu como aquilo que é o próprio 
“resistido”. Em Freud, resistência e transferência aparecem muitas vezes superpostas, 
como se fossem sinônimos, mas elas não o são, apesar de que a primeira delas possa 
servir de suporte para a segunda e vice-versa. 
16. É útil estabelecer uma distinção entre dois tipos de relação entre transferência e 
resistência: um é a resistência contra a tomada de conhecimento da transferência, enquanto 
o outro tipo consiste em uma resistência contra a resolução transferencial. Da mesma 
forma, o surgimento da transferência no campo analítico tanto pode expressar a superação 
da resistência, como ela também pode funcionar a serviço da própria resistência, como um 
meio de evitar um acesso a outras áreas ocultas do inconsciente. Assim, muitos pacientes e 
inúmeros analistas, pelo medo do novo, imprevisível, preferem que o analista permaneça 
sempre unicamente como objeto transferencial, dentro dos parâmetros com os quais os dois 
já estão bem familiarizados. 
17. Ana Freud descreveu a “transferência de defesa”, que ela exemplifica com a 
possibilidade de o paciente manifestar uma transferência de hostilidade a qual o está 
protegendo do seu medo de amar. Um outro exemplo, nada raro, consiste na eventualidade 
de o analista interpretar, de uma forma enfática e repetitiva, a transferência negativa, que 
pode estar a serviço de uma possível fobia dele próprio em relação à transferência erótica; 
e assim por diante, os exemplos poderiam ser multiplicados. 
18. Em resumo, continua vigente a questão que Freud levantou em Além... (1920): “É a 
resistência que causa a transferência, ou o inverso?”. 
Em relação às interpretações 
19. Reduzir o momento da situação analítica a apenas uma única categoria transferencial, 
como seria, por exemplo, considerar somente a transferência “paterna” ou “materna”, sem 
levar em conta o fato de que cada um dos pais está introjetado em cada analisando, de uma 
forma bastante dissociada é limitado. Assim, cabe ao analista se perguntar: “Qual é o pai 
que esse paciente está transferindo, para mim, nesse momento? O amigo bom, o tirano 
mau, um substituto das falhas da mãe? A mãe boa que velou seu sono, alimentou-o e 
protegeu-o ou a mãe que está representada no seu ego, como invejosa, castradora, 
infantilizadora, etc.?”. 
20. Além disso, o analista deve ter bem presente o fato de que em muitos casos, sobretudo 
com pacientes que ainda estão detidos em uma ligação diádica, ele funciona, na 
transferência, ao mesmo tempo com um papel materno e paterno. Esse tipo de paciente 
necessita que o analista se comporte como uma “mãecontinente”, compreendendo e 
satisfazendo as suas necessidades básicas, concomitantemente com uma outra 
necessidade desse analisando, a de que o terapeuta também funcione como uma 
representação do pai que, seguindo uma terminologia de Lacan, lhe imponha os limites da 
lei, fazendo a castração simbólica da sua parte infantil que quer se apossar da mãe, a qual 
também está representada no mesmo analista, no mesmo momento da situação analítica. 
21. Com outras palavras: independentemente do sexo biológico, o “analista-mãe” permite e 
facilita uma regressão do paciente a níveis simbióticos com ele(a); ao mesmo tempo que, 
como “analista-pai”, ele frustra, regula, normatiza e delimita essa aproximação, 
colocando-se na condição de uma “cunha interditora”, à moda de um “outro”, um terceiro, 
que é autônomo e diferente do paciente, assim rompendo com as ilusões narcisistas que 
este nutre pelo “analista-mãe”. 
22. As considerações feitas acerca da transferência paterna, materna e a concomitância de 
ambas servem unicamente como uma exemplificação que, obviamente, não exclui outras 
formas transferenciais, como poderia ser a “transferência fraterna”, etc. O que importa 
destacar é que, independentemente do sexo ou da idade do analista, ele tanto pode ser 
percebido pelo paciente como figura paterna, ou materna, ou fraterna, ou 
concomitantemente alguns deles juntos e rapidamente alternantes. Por exemplo, o analista 
pode estar servindo para assumir o papel transferencial de uma acolhedora mãe-continente; 
no entanto, a um mesmo tempo, ele deve executar, na transferência, o papel paterno que 
impõe os limites justamente contra uma relação por demais simbiótica com o outro papel 
dele, o materno. 
23. O analista deve estar atento e preparado para compreender e desempenhar ambos os 
papéis, conforme forem as circunstâncias da situação analítica. Nem sempre os analistas 
davam-se conta disso, tendo dificuldades para assumir certos papéis na transferência. Pode 
servir como exemplo, o seguinte trecho de uma carta que, em 1933 (Mijolla, 1985), Freud 
enviou a Hilda Doolittle:[...] para ser-lhe franco, não me agrada ser a mãe numa 
transferência. Isso sempre me surpreende e me choca um pouco. Sinto-me sendo muito 
masculino! Acredito que, se fosse hoje, Freud não titubearia em afirmar que “se sentir muito 
masculino” não tem nada a haver com o exercício da função de maternagem 
suficientemente necessária). 
24. Por outro lado, a permanência da transferência idealizadora além do tempo necessário 
representa o risco de entronizar a fé no lugar da confiança, a evasiva dos problemas em vez 
do seu enfrentamento, e a sugestão no lugar da análise. 
25. Os seguintes aspectos também relacionados à atividade interpretativa devem ser 
levados em conta: o risco de um transferencialismo por parte do analista, ou seja, que ele 
promova um reducionismo para o “aqui-agora-comigo”, a tudo o que o seu paciente falar, 
sem levar em conta as particularidades específicas de cada situação analítica em separado, 
assim criando uma atmosfera de uma “transferência artificial”. 
26. Essa situação pode gerar em analistas ainda sem uma sólida formação, mais 
particularmente em candidatos que devem cumprir as normas regulamentares, uma 
condição mental de se portar como um caçador de transferências. 
27. Assim, é comum que o analista veja transferência em tudo (mesmo quando não é!), e 
quando de fato surge uma transferência negativa, embora possa estar sendo necessária e 
saudável, a mesma seja taxada de acting, agressão ou resistência... 
28. Igualmente nefasta é a interpretação voltada unicamente para os aspectos “negativos” 
sádico-destrutivos ou exclusivamente para os “positivos”, que não dá margem à análise da 
agressão. O mesmo pode-se dizer da interpretação dirigida exclusivamente para “a parte 
infantil” do analisando (muitas vezes constitui-se como um insulto ao adulto que, realmente, 
o paciente também é), ou inversamente dirigida somente à “parte adulta” (o paciente sabe 
que isso não é a sua verdade, e sentese desamparado). 
29. Inúmeras vezes, o transferencialismo do “aqui, agora...” redunda em uma esterilidade 
porquanto o paciente ainda nem está aí. De fato, freqüentemente, há uma ausência da 
transferência, pela razão de que esteja prevalecendo uma “ausência de vínculo”, o que 
acontece com pacientes nos quais haja uma predominância de sentimentos de vazio, 
incredulidade e desesperança. Nestes casos, gradualmente, deve haver um processo de 
construção da transferência. 
30. Diante de uma inicial “transferência especular” ou de uma “transferência idealizadora”, o 
analista deve aceitá-las porquanto elas visam a preencher buracos afetivos e cognitivos do 
paciente, porém o terapeuta deve manter o cuidado de que tais transferências sejam 
transitórias o tempo suficiente para que a análise exerça a função precípua daquilo que 
proponho denominar uma experiência emocional transformadora, incluída a transformação 
que permita a passagem da “posição narcisista” do paciente para uma “posição edípica”. 
31. Tanto no caso de uma “transferência erótica” que, de uma forma ou outra, sempre 
aparece no processo analítico, como também no caso de uma “transferência erotizada”, 
embora o(a) paciente mantenha absoluta convicção e determinação no seu obstinado jogo 
de sedução, bem no fundo ele(a) receia que o analista cometa alguma destas três possíveis 
falhas: 
1) manter-se frio, indiferente e distante aos seus apelos e fantasias eróticas (pode estar 
significando uma dificuldade fóbica do analista); 
 2) o terapeuta ficar perturbado e defensivamente substituir as interpretações 
“compreensivas”, que levam ao insight, por dissimuladas críticas, acusações, lições de 
moral e a apologia de bom comportamento, quando não por uma ação repressora que pode 
incluir a ameaça de uma interrupção da análise, uso de medicação, encaminhamento para 
algum colega de outro sexo, etc; 
 3) a possibilidade real de o analista ficar envolvido em uma intimidade sexual, o que 
caracterizaria uma total “perversão da transferência” e do processo psicanalítico, portanto o 
fim do mesmo, com o acréscimo de mais um sério fracasso na coleção de fracassos que 
esse paciente provavelmente vem acumulando ao longo de sua vida. 
32. Diante do surgimento de uma “psicose de transferência” (nos termos de Rosenfeld), o 
psicanalista deve evitar ao máximo entrar na provocação de um clima polêmico que o 
levaria a ficar enredado nas malhas de uma defensividade ou ofensividade. Essa difícil 
situação requer que, juntamente com um entendimento da dinâmica daquilo que está se 
passando no psiquismo do paciente, o analista reuna as condições de uma adequada 
“continência”, sobretudo a de uma, ativa, paciência. 
33. Diante de uma transferência “negativa” é inegável que nós, analistas, ficamos satisfeitos 
quando os pacientes nos elogiam e amam, e detestamos a situação oposta a essa, o que 
justifica a necessidade de o terapeuta estar bem munido de uma “capacidade negativa” 
(termo de Bion), ou seja, poder conter os sentimentos supostamente desagradáveis 
despertos dentro dele, caso contrário, a capacidade para interpretar ficará muito 
prejudicada. 
34. É evidente que inúmeros outros aspectos poderiam ser enfocados nas relações entre a 
transferência e a atividade interpretativa, porém as exemplificações apresentadas permitem 
comprovar o quanto a transferência pode se manifestar de múltiplas formas, graus e em 
diferentes planos do psiquismo do paciente. Esse polimorfismo justifica a adoção do 
esquema proposto por A. Alvarez (1992), que aponta para quatro modalidades de 
manifestações transferenciais, cada uma delas exigindo por parte do analista um manejo 
técnico especificamente apropriado, inclusive quanto à forma de interpretar ou de não 
interpretar. 
35. Resumidamente, as referidas quatro modalidades transferenciais são caracterizadas 
pelo fato de que: 
a) há um predomínio das repressões, tal como acontece nas neuroses em geral, e que tão 
profundamente aprendemos com Freud; 
b) a partir das contribuições de M. Klein acerca do psiquismo arcaico, a transferência 
passou a ser vista prioritariamente a partir das identificações projetivas na pessoa do 
analista e, portanto, da necessidade deste perceber onde estão ocultas as partes negadas, 
dissociadas, fragmentadas e projetadas daquelas relações objetais internas e de tudo mais 
daquilo que o analisando não tolera reconhecer em si próprio; 
c) especialmente inspirado nas concepções originais de Bion a respeito da relação 
continente-conteúdo, o pêndulo psicanalítico inclinou-se para a relação do psicanalista com 
a parte psicótica da personalidade do paciente, com os respectivos vínculos de “amor”, 
“ódio” e “conhecimento” e com uma ênfase no seu papel de “continente”, na sua capacidade 
de rêverie; 
d) Alvarez, fundamentada em sua larga experiência com crianças autistas, sugere a 
existência de uma quarta possibilidade que consiste no fato de que essas crianças estão 
tão rompidas com a realidade exterior que não chegam a desenvolver uma transferência. 
Em tais casos, diz a autora, não adianta o terapeuta ter uma boa condição de “continente” 
porquanto essas crianças sequer olham para ele, mas sim através dele, impossibilitando um 
contato afetivo mínimo. As crianças que desenvolveram um autismo secundário não estão 
fugindo ou se ocultando, antes, elas estão, de fato, perdidas e necessitam que o terapeuta 
vá, ativamente, ao seu encalço. 
36. Ocorreu-me a hipótese de que essa quarta possibilidade também possa estar presente 
na análise de certos adultos, especialmente naqueles casos em que predomina um estado 
mental de desistência (é diferente de “depressão”, embora possam estar associadas), em 
cujo caso o único desejo do paciente é o de não desejar, situação essa que costuma 
provocar uma reação contratransferencial muito difícil. 
37. Não quero encerrar este capítulo sem tentar responder à questão que levantei na 
epígrafe – se a transferência deve ser encarada pelo analista como uma manifestação de 
uma compulsão à repetição ou se, mais do que essa“necessidade de repetição”, a 
transferência, na situação analítica, representa uma “repetição de necessidades” que não 
foram preenchidas no seu devido tempo passado. Em meu entendimento, ambas 
colocações são igualmente relevantes e complementares, se levarmos em conta o fato de 
que um determinado script que foi produzido sob a égide de acontecimentos antigos com os 
respectivos significados que esteja escrito e impresso na mente do paciente, à moda de 
uma peça teatral, pode se repetir ao longo de toda a vida do paciente (daí resulta em uma 
“compulsória necessidade de repetição”), em uma vã tentativa de que o enredo do teatro do 
psiquismo cumpra a satisfação das necessidades, desejos, demandas e o desempenho de 
determinados papéis que constam da peça (daí se origina uma busca de “repetição das 
necessidades”). Na verdade, em determinados casos, na vida desse tipo de paciente, a 
única coisa que muda são os atores (isto é, as pessoas da realidade exterior que 
contracenam e desempenham os papéis de certos personagens do psiquismo interior), 
porém a essência do enredo permanece a mesma. É fundamental que o analista esteja 
atento à possibilidade de que ele possa estar atendendo ao “convite” que o paciente lhe faz 
para desempenhar um certo papel de protagonista, e ele esteja desempenhando, sem se 
dar conta disso. 
	Transferências. Transferência de Impasse. Psicose de Transferência 
	EVOLUÇÃO DA CONCEITUAÇÃO 
	Extratransferência 
	Neurose de transferência 
	Transferência psicótica 
	Psicose de transferência 
	Aliança terapêutica 
	Match 
	Pessoa real do analista 
	TIPOS DE TRANSFERÊNCIAS 
	Transferência positiva 
	Transferência idealizadora 
	Transferência negativa 
	Transferência especular 
	Transferência erótica e erotizada 
	Transferência perversa 
	Transferência de impasse 
	A TRANSFERÊNCIA NA PRÁTICA ANALÍTICA 
	Em relação ao setting 
	Em relação às resistências 
	Em relação às interpretações

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