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Transferências. Transferência de Impasse. Psicose de Transferência Na prática analítica o que é mais relevante? O clássico conceito de Freud de que a transferência resulta de uma compulsiva necessidade de repetição ou a tendência atual de considerá-la como uma repetição de necessidades, que não foram compreendidas e resolvidas no passado primitivo. Ou ambas têm a mesma importância? EVOLUÇÃO DA CONCEITUAÇÃO Embora o fenômeno transferencial esteja virtualmente presente em todas as inter-relações humanas, o termo “transferência” deve ficar reservado unicamente para a relação presente no processo psicanalítico, o qual, juntamente com a “resistência” e a “interpretação”, constitui o tripé fundamental da prática da psicanálise, dando-lhe o selo de genuinidade psicanalítica, entre outras modalidades psicoterápicas. De forma extremamente genérica, podese conceituar o fenômeno transferencial como o conjunto de todas as formas pelas quais o paciente vivencia com a pessoa do psicanalista, na experiência emocional da relação analítica, todas as “representações” que ele tem do seu próprio self, as “relações objetais” que habitam o seu psiquismo, bem como os conteúdos psíquicos que estão organizados como “fantasias inconscientes”, com as respectivas distorções perceptivas, de modo a permitir “interpretações” do psicanalista que possibilitem a integração do presente com o passado, o imaginário com o real, o inconsciente com o consciente. O conceito de transferência vem sofrendo sucessivas transformações e renovados questionamentos, como, por exemplo, se a figura do analista é uma mera pantalha para uma repetição de antigas relações objetais introjetadas ou se ele também se comporta como uma nova pessoa, real. O leitor que queira acompanhar a evolução histórica do fenômeno da transferência, desde Freud até os dias atuais, passando pelos demais autores – M. Klein, Rosenfeld, Meltzer, B. Joseph, Kohut, Winnicott, Lacan e Bion –, com as respectivas concepções que adquiriram uma nomenclatura própria, pode consultar o Capítulo 31 de Fundamentos psicanalíticos (Zimerman, 1999). Ainda dentro da proposta de conceitualização do fenômeno transferencial, impõe-se a necessidade de fazer uma distinção entre a transferência propriamente dita e os outros fenômenos correlatos, porém de significados distintos, que aparecem com freqüência na literatura psicanalítica com uma terminologia específica, como são os conceitos que seguem. Extratransferência Trata-se de um termo bastante conhecido e divulgado, que classicamente designa uma condição pela qual o analista percebe que o analisando demonstra, por meio dos inter-relacionamentos de sua vida cotidiana, a forma de como estão estruturadas as suas relações objetais internas. De modo geral, os analistas desvirtuam a extratransferência e apregoam que tais experiências emocionais só têm eficácia analítica se forem analisadas à luz da vivência do “aqui-agora-comigo” transferencial. Acredito que esteja crescendo o número de psicanalistas, entre os quais me incluo, que, diante de determinadas circunstâncias da situação analítica – mais particularmente aquela na qual uma verdadeira transferência ainda deve ser paulatinamente construída –, também trabalham com naturalidade e profundidade os vínculos manifestos na extratransferência, tal como essa se apresenta na vida “lá fora”. Por exemplo, no caso de um paciente que estiver narrando na sessão uma séria briga que teve na véspera com a sua mulher, existe a possibilidade, muito comum, de que o analista proceda a um automático reducionismo interpretativo de que o analisando está expressando uma briga com ele, analista. Independentemente se essa interpretação corresponde a uma realidade psíquica do paciente ou se é um equívoco de compreensão do analista, é freqüente que o paciente rejeite-a com costumeiras exclamações do tipo: “não é nada disso...; eu sabia que ias dizer isso...; tudo que eu falo, sempre trazes para ti...”, não sendo rara a possibilidade que o analista queira impor a sua interpretação “transferencial”, e a sessão adquira um clima polêmico. Em uma situação como essa que foi hipoteticamente referida, creio ser perfeitamente possível um trabalho verdadeiramente analítico a partir da extratransferência, isto é, de analisar com o paciente os detalhes da briga que teve com a esposa, como tudo começou, qual foi a sua participação, o seu papel, a sua responsabilidade por uma possível provocação para uma previsível resposta daquela, e que esse episódio repete tantos outros análogos com outras pessoas, etc., de sorte a poder propiciar um importante insight, com a possibilidade eventual de, aí sim, poder fazer uma costura dessa briga com outras manifestas ou ocultas que se passaram no passado ou que, de fato, possa estar acontecendo no vínculo analítico. Neurose de transferência É útil traçar uma diferença entre o surgimento, na situação analítica, de momentos transferenciais e a instalação de uma neurose de transferência. Neste último caso, quer seja de aparecimento precoce ou tardio, o analisando vive intensa e continuadamente uma forte carga emocional investida na pessoa do psicanalista, que transborda para fora da sessão e ocupa-lhe uma grande fatia dos seus tempo e espaço mental. O comum nesses casos é que o paciente reviva suas experiências afetivas não com uma percepção de um como se, de que está reproduzindo antigas vivências equivalentes, mas, sim, com a convicção de um está havendo, de fato, um “amor” pelo analista, por exemplo. A existência desse tipo de transferência justifica plenamente o emprego sistemático de interpretações centradas no calor do “aqui-agora-comigo-como lá então”. Transferência psicótica Conforme o nome designa, trata-se de uma transferência que caracteriza os pacientes clinicamente psicóticos, sendo que, contrariamente à crença de Freud de que eles não seriam analisáveis, porquanto nunca desenvolveriam uma transferência (ele partia da idéia de que, nesses casos, toda libido estava investida auto-eroticamente), hoje é consensual que eles desenvolvem, sim, uma clara transferência, visto que, embora muitas vezes sejam inacessíveis à análise, muitas outras vezes esses pacientes possibilitam que se desenvolva um verdadeiro trabalho analítico. Esse conceito de “transferência psicótica” não deve ser confundido com o da transferência provinda da “parte psicótica da personalidade” (conforme Bion) e tampouco iguala-se com a conceituação de psicose de transferência, descrita por Rosenfeld (1978). Bion considera que a transferência que caracteriza os pacientes em nível psicótico (e um grau expressivo de pacientes histéricos, acrescento eu) apresenta três aspectos típicos, cujos nomes podese abreviar com a letra inicial “p”: é prematura (a transferência se instala logo no início da terapia analítica), pertinaz (se agarram ao analista de uma forma forte, tenaz) e perecível (nas primeiras decepções e desilusões, distanciamse e esfriam o vínculo com o terapeuta; a transferência perece e, não raramente, abandonam a análise). Psicose de transferência Consiste no fato, nada infreqüente no curso das análises, de que, eventualmente, pacientes não-psicóticos ingressem em um estado transferencial de tamanho negativismo e distorção dos fatos reais, em relação ao analista, que chega a dar a impressão de uma situação psicótica, de fato. No entanto, a grande característica dessa psicose transferencial reside no fato de que fica restrita à situação da sessão analítica, finda a qual o analisando retoma a sua vida de forma completamente normal. Devido à sua importância clínica, essa forma de transferência será explicitada, de forma mais alongada, mais adiante neste capítulo. Aliança terapêutica Esta denominação pertence à E. Zetzel, psicanalista norte-americana que, em um trabalho de 1956, concebeu um aspecto importante relativo ao vínculo transferencial, ou seja, o fato de que um determinado paciente apresente uma condiçãomental, tanto de forma consciente quanto inconsciente, que permita que ele se mantenha verdadeiramente aliado à tarefa do psicanalista. Essa concepção aparece nos textos psicanalíticos com outras denominações, mas com significados equivalentes, como “transferência eficaz”, por meio da construção prévia de um rapport (Freud,1913); “transferência racional”, de Fenichel (1945), que alude a um “aspecto sensato” do paciente; “aliança de trabalho”, de Greenson (1965), etc. Cabe acrescentar que uma aliança terapêutica não deve ser tomada como um simples “desejo de melhorar”, tampouco como sinônimo de “transferência positiva” e, muito menos, como antônimo de “transferência negativa”; pelo contrário, creio que o importante surgimento dessa última, em sua plenitude aparentemente negativa, muitas vezes torna-se possível devido ao respaldo de uma “aliança terapêutica” provinda, pelo menos, de uma parte da mente do paciente que está comprometida em assumir e colaborar com a profundeza da análise, enfrentando, assim, as inevitáveis dificuldades e dores. Dizendo com outras palavras, a aliança terapêutica (A.T.) consiste no fato de que a parte observadora do paciente se alia ao analista e coopera para enfrentar seus aspectos doentes. A aliança terapêutica reproduz antigas alianças que visavam à formação do sujeito em diferentes etapas da vida, provavelmente desde a condição de feto. O aspecto da A.T. que me parece ser o mais importante refere o que representa para o paciente ele estar dentro do processo para o qual ele contribuiu, isto é, quando o paciente reconstrói sua experiência de estar sendo contido pelo corpo e pelo psiquismo do seu analista. Assim, na aliança terapêutica, mais do que na pessoa do analista, os pacientes se ligam no processo da análise, de modo que a aliança sempre implica em um mútuo reconhecimento que, preliminarmente, começa quando o paciente percebe que o terapeuta está comprometido, com emoções e sua crença no processo analítico. Match Talvez a melhor tradução para este termo seja a de encontro psicanalítico. Ele alude diretamente ao que vem sendo denominado “relação real”. Trata-se de uma conceituação proposta por psicanalistas pesquisadores norte-americanos, como J. Kantrowitz e colaboradores (1989), e diz respeito ao fato de que uma relação analítica vai bastante além de uma simples relação transferencial, repetidora de vivências passadas. A investigação desses autores obedeceu a uma rigorosa metodologia científica e permitiu-lhes a conclusão de que os aspectos pessoais de cada psicanalista em relação com os de um determinado paciente constituem um match singular, o qual tem uma decisiva influência na evolução, exitosa ou não, da análise. Pessoa real do analista Observações equivalentes a essas últimas mencionadas estão convocando os analistas para se perguntarem quanto à importância que deve ser creditada (ou desacreditada) à pessoa real do analista na construção do vínculo transferencial-contratransferencial e, por conseguinte, no destino da análise. Tenho a impressão de que, aos poucos, o pêndulo está se inclinando para a crença de que a percepção que o paciente capta das características reais da personalidade e da ideologia da pessoa que o seu psicanalista é mais do que uma mera pantalha transferencial, de fato, ele é um modelo de identificação para o paciente, tem uma significativa influência no campo analítico, até mesmo na determinação do tipo de transferência manifesta pelo analisando. Pela relevância que o tema representa na psicanálise prática, ele aparece neste livro em um capítulo especial. TIPOS DE TRANSFERÊNCIAS Como se sabe, Freud dividiu as transferências em positivas e negativas. Com a evolução da psicanálise, essa classificação ficou inadequada e insuficiente, e isso justifica uma explicitação, em separado, de cada uma das modalidades. Antes de tudo, quero definir a minha posição de que julgo as expressões “positivo” e “negativo” altamente inadequadas para uma compreensão psicanalítica, porquanto elas estão impregnadas de um juízo de valores, com um ranço moralístico, superegóico. No entanto, como são termos consagrados, eles devem ser mantidos, desde que bem-compreendidos sob a óptica atual. Transferência positiva Classicamente essa denominação referiase a todas as pulsões e derivados relativos a libido, especialmente os sentimentos carinhosos e amistosos, mas também incluídos os desejos eróticos, desde que eles tenham sido sublimados sob a forma de amor não-sexual e não persistam como um vínculo erotizado. O que julgo importante a ser destacado é o fato de que muitas vezes o que parece ser uma transferência “positiva” pode estar sendo “negativa”, do ponto de vista de um processo analítico, pois ela pode estar representando não mais do que uma extrema e permanente idealização (isso é diferente de uma – estruturante – admiração) que o paciente faz em relação ao analista. Também pode acontecer que uma aparência de “positividade” pode estar significando unicamente um, inconsciente, conluio transferencial-contratransferencial sob a forma de uma, estéril, recíproca fascinação narcisística. Igualmente, é necessário levar em conta a possibilidade nada incomum de que uma aparente transferência positiva, pela qual o paciente cumpre fielmente todas as combinações de assiduidade, pontualidade, verbalização, uso do divã, manifesta concordância com as interpretações, etc., possa estar encobrindo uma pseudocolaboração. Isso geralmente ocorre com pacientes portadores de uma forte estrutura narcisista, que os leva em um plano oculto da mente a desvitalizarem as interpretações do analista, de modo a que nele, paciente, nada mude de verdade. O que mais importa destacar é o fato de que, muitas vezes, uma transferência positiva pode não estar sendo mais do que uma extrema idealização do seu analista, com a possibilidade de que isso esteja encobrindo sentimentos “negativos”. Em contrapartida, uma transferência costumeiramente chamada de “negativa” pode estar sendo altamente “positiva” para o curso exitoso da análise. Transferência idealizadora Tal como antes foi referida, a transferência idealizadora, mesmo que em grau exagerado, quando parte de pacientes bastante regredidos, deve ser bem aceita pelo analista, pelo fato de que ela representa uma importante e necessária tentativa de contrair um vínculo primário. Em caso contrário, isto é, quando, por meio de interpretações unicamente dirigidas “à persecução resultante da agressão que está encoberta, além de uma tentativa de manipulação e controle por parte do analisando”, o psicanalista desfaz precocemente a idealização, daí resultando a possibilidade de o paciente ingressar em um estado de desamparo análogo à imagem que me ocorre de se “tirar a escada e deixá-lo seguro pelo pincel”. O inconveniente analítico dessa excessiva idealização seria no caso de o analista, por um excesso de narcisismo pessoal ou por dificuldades contratransferenciais, deixar que essa situação se perpetue. É importante termos em mente a significativa distinção (às vezes, muito sutil) que deve haver entre idealização (sempre muito instável) e admiração (muito mais estável, além de ser, para o paciente, o melhor dos “modelos de identificação”). As “transferências histéricas”, de início, são altamente idealizadas e pertinazes, embora elas possam ser muito instáveis e lábeis, de modo que os analistas podem se entusiasmar muito rapidamente com os resultados da psicanálise, e depois sofrer decepções. Isso lembra uma notável frase de Freud, dita em 1925: Considerem a maneira pela qual uma dona-de-casa distingue um bom forno de um mau forno. Os fornos ruins esquentam rápido, mas esfriam com a mesma rapidez. Os bons fornos esquentam lentamente, de modo incerto, mas conservam seu calor por muito tempo (in Pensamentos de Freud, de Alain de Mijolla, 1985, p.41). Transferência negativa Com esse nome, Freud referia aquelas transferências nas quais predominavaa existência de pulsões agressivas com os seus inúmeros derivados, sob a forma de inveja, ciúme, rivalidade, voracidade, ambição desmedida, algumas formas de destrutividade, as eróticas incluídas, etc. Na atualidade, creio ser relevante afirmar que uma análise que não transitou pela “transferência negativa”, no mínimo, não ficou completa, porquanto todo e qualquer analisando tem conflitos manifestos ou latentes relacionados à agressividade. A propósito, é útil estabelecer uma diferença entre agressão (sádicodestrutiva) e agressividade, a qual, tal como a sua etimologia (ad + gradior) designa, representa um movimento (gradior) para a frente (ad), uma forma de se proteger contra os predadores externos, além de também indicar uma ambição sadia com metas possíveis de serem alcançadas. Assim, a transferência pode ser “negativa” a partir de uma perspectiva adulta em relação à educação de uma criança que quer romper com certas regras, porém ela pode ser altamente “positiva” a partir de um vértice que permite propiciar ao paciente a criação de um espaço, no qual ele pode reexperimentar as antigas experiências que foram mal-entendidas e mal-solucionadas pelos pais, por exemplo aquelas que eles não tenham entendido os presentes-fezes ou o direito do filho de fazer uma sadia contestação aos valores deles, etc. Principalmente, o terapeuta deve levar em conta que as manifestações agressivas possam estar representando a construção de preciosos núcleos de confiança que o paciente esteja desenvolvendo em relação a si mesmo, ao analista e ao vínculo entre ambos. Talvez não exista experiência analítica mais importante do que aquela na qual o paciente permita-se atacar ao seu analista, por meio das formas mais diversas, às vezes cruéis, e este sobrevive aos ataques, sem se intimidar, revidar, deprimir, desistir, contrabalançar com formações reativas, apelar para recursos medicamentosos e outros afins, mantendo-se fiel e firme à sua posição de analista. Isso repercute no paciente de duas formas estruturantes para o seu self: a comprovação de que ele não é tão perigoso, destruidor e mau como imaginava, e tampouco os seus objetos são tão frágeis como ele sempre temeu. O aspecto positivo de uma transferência negativa pode ser equiparado à fase evolutiva da criança, quando ela entra no período de, sistematicamente, dizer “não” à autoridade dos pais, fato que, mais do que um ato agressivo, representa ser, em condições normais, uma tentativa de começar a construir seu sentimento de identidade, por meio de uma busca de autonomia e diferenciação. Transferência especular Na atualidade, é consensual entre os psicanalistas que a transferência não expressa unicamente conflitos, tais como aqueles que tipificam a “neurose de transferência”, mas também que ela traduz os problemas de déficit. Neste último caso, próprio dos pacientes com fortes fixações em etapas primitivas – nas quais as necessidades emocionais básicas não foram suficientemente satisfeitas pelos cuidados de uma adequada maternagem –, a transferência assume características de uma busca de algo em alguém. Essas últimas condições podem assumir a forma de uma busca, no analista, de uma “fusão” com ele, ou a de um “continente” apropriado, ou de alguém que seja portador de seus “ideais”, ou, ainda, a de um “espelho” que o reflita, etc. Neste último caso, quando o movimento transferencial representa uma busca de um “espelho” na pessoa do analista – que o reflita, reconheça e devolva a sua imagem de autoidealização, vitalmente necessária para que o paciente sinta que, de fato, ele existe e é valorizado – estabelece aquilo que, genericamente, está sendo denominado “transferência especular”. Nestes casos, é necessário que o analista transitoriamente aceite funcionar como “ego auxiliar” do paciente, a um mesmo tempo que, gradativamente, vá construindo o processo de diferenciação, que possibilite o paciente a adquirir uma separação, uma individuação e uma posterior autonomia. Transferência erótica e erotizada Em 1915, Freud referiu-se ao “amor de transferência” como uma complicação do processo psicanalítico, que acontece com freqüência e no qual a(o) paciente diz-se “apaixonada(o)” pelo seu(sua) analista. Embora reconhecesse o caráter defensivo dessa forma transferencial, Freud alertava os terapeutas para que não confundissem essa reação com um amor verdadeiro, a um mesmo tempo em que os advertia contra as tentativas de eles reprimirem o amor desses pacientes, desde que “o tratassem como algo irreal e o rastreassem até suas origens inconscientes”. Freud também advertia quanto aos “casos graves de amor transferencial” e descrevia essas suas pacientes histéricas como “meninas que, por natureza de uma pulsão elementar, recusam aceitar o psíquico em lugar do material”, sendo que ele sugeria que a única forma de tratar esses casos é com uma tentativa de mudar de analista ou, então, com a interrupção da análise. Como se vê, a transferência de características eróticas adquire um largo espectro de possibilidades, desde os sentimentos afetuosos e carinhosos pelo analista até o outro pólo de uma intensa atração sexual por ele (ela), atração essa que se converte em um desejo sexual obcecado, permanente, consciente, egossintônico e resistente a qualquer tentativa de análise. O primeiro caso alude à transferência erótica, enquanto o segundo refere-se à transferência erotizada. Conquanto ambas as formas, em algum grau, estejam virtual e ocasionalmente presentes em todas as análises, tanto de forma homo quanto heterossexual, é necessário estabelecer uma clara diferença entre elas. A transferência erótica está mais vinculada com a necessidade que qualquer pessoa tem de ser amada, sendo que essa demanda por compreensão, reconhecimento e contato emocional pode se fundir (logo, “con-fundir”) com o desejo de um contato físico. Em contrapartida, a transferência erotizada designa a predominância de pulsões ligadas ao ódio, com as respectivas fantasias agressivas, que visam a um controle sobre o analista e a uma posse voraz dele. Tais fantasias manifestam-se sob diversas formas, são de origem inconsciente, superam o senso crítico da realidade objetiva (a ponto de o paciente sequer reconhecer o “como se” transferencial’), aparecendo, na situação analítica, disfarçadas de legítimas necessidades amorosas e sexuais. Dois sérios riscos podem acompanhar a instalação da “transferência erotizada” no campo analítico: uma é a de que, diante da nãogratificação do psicanalista dessas demandas sexuais do paciente, este recorra a actings fora da situação analítica, que, às vezes, podem adquirir características de grave malignidade. A segunda possibilidade igualmente maligna é que a análise, a partir dessa transferência de natureza perversa, possa descambar para uma perversão da transferência, inclusive com a possível eventualidade de o analista envolver-se nela, o que está longe de ser uma raridade. Transferência perversa O termo “perverso” deve ser entendido como um “desvio da normalidade”, porém não deve ser tomado como sinônimo de uma “perversão”, clinicamente configurada como tal, não obstante, não seja totalmente improvável que a análise possa descambar para uma perversão, de fato. Assim, é comum que os pacientes em geral, de alguma forma, tentem “perverter” as combinações que eles aceitaram em relação ao setting analítico, procurando modificar “as regras do jogo”, traduzidas nas formas de pagamento, na obtenção de privilégios, em alguma forma de provocação para tirar o analista de seu lugar, etc. Comumente, nada do mencionado aqui representa algum risco para a análise, desde que o analista, embora possa ter alguma flexibilidade em relação aos pedidos do paciente, não saia do seu lugar e função de psicanalista. No entanto, em se tratando de pacientes predominantemente psicopatas, essa atitude transferencial perversa pode se constituir como uma constante que exige redobrados esforços do terapeuta, sendoque, muitas vezes, as sucessivas atuações podem definir uma condição de não-analisabilidade. Meltzer (1973) foi o autor que mais consistentemente estudou a perversão da transferência, apontando para o risco da formação de um conluio perverso entre o par analítico, que consiste em um jogo de seduções por parte do paciente (creio que vale acrescentar a hipótese de que as seduções podem partir do analista), sendo que, na hipótese de o terapeuta ficar envolvido e desse conluio ficar estabilizado, virá a acontecer que o paciente, em vez de reconhecer suas limitações e conflitos, verá o seu analista “como uma prostituta, uma ama-de-leite, viciada na prática da psicanálise e incapaz de conseguir melhores pacientes” (p. 159). Transferência de impasse Embora essa denominação não costume aparecer na literatura psicanalítica, ela parece ser válida como uma forma de designar aqueles períodos transferenciais, típicos de situações de “impasses analíticos”, que, inclusive, podem culminar com a preocupante situação de uma “reação terapêutica negativa”. Nesses casos de impasse, a transferência do paciente tanto adquire uma forte tonalidade erotizada que, enquanto dura, pode impossibilitar o curso da análise, conforme foi descrito atrás, ou, como acontece mais comumente, o analisando fica invadido por ansiedades paranóides, de modo que todo o seu discurso é concentrado em queixas e acusações ao seu analista, a um mesmo tempo que fica em um estado de tamanha defensividade que não consegue escutar o que seu analista diz. Em casos mais extremos, essa forma de transferência pode atingir o estado conhecido como psicose de transferência, tal como Rosenfeld a conceitua. Segundo este autor, essa “psicose de transferência” ou “transitória” surge em pacientes neuróticos ou fronteiriços, durante a análise, e desaparecem após dias, semanas ou talvez meses, podendo recidivar periodicamente. “Toda psicose de transferência constitui-se em grave à análise, rompe a aliança terapêutica e pode levar a um impasse analítico completo”. Durante a vigência dessa “psicose transferencial”, prossegue Rosenfeld, O analista costuma ser percebido de uma forma distorcida, como um superego onipotente e sádico, mas a forma erótica da transferência psicótica, na qual o paciente acredita que o analista está apaixonado por ele ou ela, pode também dominar a situação analítica por um certo tempo. [...] Tais pacientes freqüentemente formam alguma aliança terapêutica com o analista, mesmo tendo presente uma “parte psicótica da sua personalidade”, enquanto simultaneamente mantêm a aliança terapêutica com a “parte não-psicótica” de si mesmos, diminuindo assim o perigo de aparecerem episódios delirantes transitórios. Pela razão declinada, essa delicada situação transferencial requer que o analista compreenda bem o que está se passando, tenha uma boa capacidade de continência e paciência, procurando se aliar à parte não-psicótica do paciente e evitando pressionar com interpretações que, embora possam ser corretas, só fazem aumentar um clima polêmico e, por conseguinte, incrementar os delírios transferenciais. Reações dessa natureza surgem com relativa freqüência no campo analítico, sendo nem sempre fácil discriminar se elas correspondem a uma reação e possível inadequação por parte da atitude e manejo do analista, ou se traduzem um impasse prenunciador de uma ruptura com a análise, ou ainda se estão representando um difícil, porém necessário, momento analítico, como uma forma de progresso e construção da confiança básica. Nessas situações de psicose de transferência, as reações contratransferenciais são extremamente difíceis para o analista, e, por tudo isso, esse quadro transferencial merece uma particular atenção, de modo a ser bem-conhecido por todo analista praticante. A TRANSFERÊNCIA NA PRÁTICA ANALÍTICA Devido à enorme amplitude deste tema, que por si só comportaria um livro, restringirme-ei a enumerar, em um estilo telegráfico, sob a forma de afirmativas e indagações, alguns dos principais tópicos que cercam o fenômeno transferencial, tal como ele aparece na nossa clínica cotidiana, em relação aos seguintes segmentos do campo analítico. Em relação ao setting 1. A transferência é um fenômeno original no qual o presente dá forma ao passado, a um mesmo tempo em que este dá forma àquele. O que é, era; e o que era, é! A transferência não é, em si mesma, uma resistência, porém pode ser usada como tal. 2. A análise não cria a transferência; apenas propicia a sua redescoberta, bastante facilitada pela instalação do setting, que favorece algum grau de regressão do paciente, por meio de uma intimidade, porém a análise será processada com uma certa privação sensorial, frustrações inevitáveis, assimetria de papéis, etc. Um exemplo bastante comum disso é o daquele paciente que atribui a sua relutância inicial em aceitar a indicação da análise ao seu “medo de ficar dependente”, o que, por si só, já nos indica que ele, no fundo, se reconhece como um portador de núcleos dependentes; possivelmente uma “dependência má” como o seu medo expressa, e o trabalho analítico visará a transformá-la em uma “dependência boa”, à medida que se desenvolverem os elementos de “confiança básica” do self. 3. Mais do que simplesmente fruto de deslocamento e de uma carga de projeções, a transferência é a externalização de um “diálogo no interior do psiquismo”. 4. Há transferência em tudo, porém nem tudo é transferência a ser analisada e interpretada. Desta forma, há uma significativa diferença entre o analista trabalhar na transferência e trabalhar sistematicamente na análise da transferência. 5. Uma questão instigante, muito em voga, é aquela que indaga se a pessoa do analista é unicamente um “objeto transferencial” no qual o paciente reedita suas experiências passadas ou se ele também representa e funciona como um objeto real e novo. 6. Com outras palavras, a transferência consiste em uma necessidade de repetição (tal como postulava Freud, que incluía o fenômeno transferencial como um exemplo do seu princípio de “compulsão à repetição”), ou, antes, a transferência representa uma repetição de necessidades, como querem os autores atuais, ou, ainda, as duas são indissociadas e concomitantes. 7. A conceituação da transferência como repetição de necessidades – que não foram compreendidas e satisfeitas na devida época primitiva do desenvolvimento emocional – delega ao setting uma considerável importância no processo analítico, porquanto esse passa a representar para o paciente um novo e singular espaço, no qual ele poderá reexperimentar e transformar aquelas vivências emocionais traumáticas, malresolvidas, desestruturantes e representadas no ego de forma patogênica. 8. Levando em conta o importante fato de que a pessoa do analista também faz parte do setting, creio que também se impõe a afirmativa de que, assim como a transferência do analisando promove um estado contratransferencial do analista, da mesma forma, é possível refletir que a moderna psicanálise vincular considera que a transferência do analista também pode condicionar e estruturar a resposta transferencial do paciente, como é o caso, por exemplo, de quando o paciente capta os desejos ocultos que o analista tem em relação a ele... 9. Em contrapartida, diante de uma permanente transferência de características predominantemente idealizadoras, o paciente terá sérias dificuldades em detectar as falhas ou os erros de seu analista, fato que é relevante para ele desenvolver a nobre capacidade de discriminação. Inexiste desenvolvimento do ego sem a capacidade de juízo crítico. Assim, se o analista, por inexperiência, por uma contratransferência difícil, por inevitáveis equívocos humanos, por aspectos neuróticos seus, por uma identificação patógena com o paciente ou por inúmeras outras razões, equivoca-se com quem esteja em uma transferência idealizadora excessiva, esse analisando só tem duas saídas: ou nega e nãovê essas falhas do seu terapeuta, ou as vê, porém as releva, compensando com aquilo que de realmente bom ele vê no seu analista. 10. O primeiro, desses dois caminhos, é patogênico, pois reforça um “viver com ilusões”, de forma falsa, além de que sempre existe a possibilidade do objeto bom-idealizado converter-se, às vezes abruptamente, em um maupersecutório. O segundo caminho – perceber as falhas do analista, porém perdoá-las – pode incrementar uma dependência excessiva, submissão, masoquismo, servidão amorosa e demais configurações vinculares patogênicas. Em um extremo exagerado, aceitar tudo que vem de um analista idealizado, em nome do amor a ele, com a cumplicidade do terapeuta, equivale à posição do amor masoquista do tipo tantalizante: “porque o amo acredito em suas mentiras, aceito a sua tirania, participo de seus jogos perversos, lhe concedo o direito de ter um apoderamento sobre mim, tudo isso porque eu me apavoro ante a possibilidade de lhe perder”. 11. Os aspectos reais do analista que podem determinar uma influência na transferência do paciente dizem respeito desde os detalhes do consultório, o seu sexo, a idade, como também a sua ideologia (que o paciente logo percebe), a escolha do material a ser interpretado e a sua forma de interpretar. Além disso, é necessário levar em conta os aspectos da relação real que se expressam por intermédio do match, bem como também o fato muito importante de o analista igualmente funcionar como um novo modelo de identificação, transformacional, por via da sua forma de pensar, contatar com as verdades, enfrentar as angústias e exercer as funções que Bion denomina como continente e função alfa. 12. Alguns autores alertam para o fato de que a existência e a função do analista como um objeto real, novo, somente são possíveis quando a transferência manifesta já tiver sido analisada em profundidade. Outros autores, no entanto, acreditam que a importância real do analista existe desde o início da análise, alegando que vida mental começa com interações e não com pulsões. 13. Em relação ao sexo biológico do analista, na atualidade, há um certo consenso entre os autores que esse aspecto pode exercer uma diferença na evolução da análise, mais provavelmente no seu início, como pode ser o caso da instalação de alguma forma de “resistência” ou de “transferência-contratransferência” específicas, não obstante o fato de existirem ao mesmo tempo transferências do tipo materno e paterno, com analistas de ambos sexos. 14. Relativamente à extratransferência, é relevante que o analista considere a alta possibilidade de que alguma pessoa do mundo exterior possa estar sendo utilizada como um suporte transferencial de algum importante objeto primário do paciente que, assim, funciona como um partenaire a quem cabe o papel de carregar, sustentar e executar uma parte essencial da personalidade do paciente, que está negada, dissociada e projetada nessa pessoa. Em relação às resistências 15. Embora o clássico conceito de “resistência de transferência” venha rareando na literatura psicanalítica, é necessário lembrar que Freud, primeiramente, considerou a transferência como uma forma de resistência (...o analisando repete, em lugar de recordar – 1914, p.196), e, em um segundo momento, ele a concebeu como aquilo que é o próprio “resistido”. Em Freud, resistência e transferência aparecem muitas vezes superpostas, como se fossem sinônimos, mas elas não o são, apesar de que a primeira delas possa servir de suporte para a segunda e vice-versa. 16. É útil estabelecer uma distinção entre dois tipos de relação entre transferência e resistência: um é a resistência contra a tomada de conhecimento da transferência, enquanto o outro tipo consiste em uma resistência contra a resolução transferencial. Da mesma forma, o surgimento da transferência no campo analítico tanto pode expressar a superação da resistência, como ela também pode funcionar a serviço da própria resistência, como um meio de evitar um acesso a outras áreas ocultas do inconsciente. Assim, muitos pacientes e inúmeros analistas, pelo medo do novo, imprevisível, preferem que o analista permaneça sempre unicamente como objeto transferencial, dentro dos parâmetros com os quais os dois já estão bem familiarizados. 17. Ana Freud descreveu a “transferência de defesa”, que ela exemplifica com a possibilidade de o paciente manifestar uma transferência de hostilidade a qual o está protegendo do seu medo de amar. Um outro exemplo, nada raro, consiste na eventualidade de o analista interpretar, de uma forma enfática e repetitiva, a transferência negativa, que pode estar a serviço de uma possível fobia dele próprio em relação à transferência erótica; e assim por diante, os exemplos poderiam ser multiplicados. 18. Em resumo, continua vigente a questão que Freud levantou em Além... (1920): “É a resistência que causa a transferência, ou o inverso?”. Em relação às interpretações 19. Reduzir o momento da situação analítica a apenas uma única categoria transferencial, como seria, por exemplo, considerar somente a transferência “paterna” ou “materna”, sem levar em conta o fato de que cada um dos pais está introjetado em cada analisando, de uma forma bastante dissociada é limitado. Assim, cabe ao analista se perguntar: “Qual é o pai que esse paciente está transferindo, para mim, nesse momento? O amigo bom, o tirano mau, um substituto das falhas da mãe? A mãe boa que velou seu sono, alimentou-o e protegeu-o ou a mãe que está representada no seu ego, como invejosa, castradora, infantilizadora, etc.?”. 20. Além disso, o analista deve ter bem presente o fato de que em muitos casos, sobretudo com pacientes que ainda estão detidos em uma ligação diádica, ele funciona, na transferência, ao mesmo tempo com um papel materno e paterno. Esse tipo de paciente necessita que o analista se comporte como uma “mãecontinente”, compreendendo e satisfazendo as suas necessidades básicas, concomitantemente com uma outra necessidade desse analisando, a de que o terapeuta também funcione como uma representação do pai que, seguindo uma terminologia de Lacan, lhe imponha os limites da lei, fazendo a castração simbólica da sua parte infantil que quer se apossar da mãe, a qual também está representada no mesmo analista, no mesmo momento da situação analítica. 21. Com outras palavras: independentemente do sexo biológico, o “analista-mãe” permite e facilita uma regressão do paciente a níveis simbióticos com ele(a); ao mesmo tempo que, como “analista-pai”, ele frustra, regula, normatiza e delimita essa aproximação, colocando-se na condição de uma “cunha interditora”, à moda de um “outro”, um terceiro, que é autônomo e diferente do paciente, assim rompendo com as ilusões narcisistas que este nutre pelo “analista-mãe”. 22. As considerações feitas acerca da transferência paterna, materna e a concomitância de ambas servem unicamente como uma exemplificação que, obviamente, não exclui outras formas transferenciais, como poderia ser a “transferência fraterna”, etc. O que importa destacar é que, independentemente do sexo ou da idade do analista, ele tanto pode ser percebido pelo paciente como figura paterna, ou materna, ou fraterna, ou concomitantemente alguns deles juntos e rapidamente alternantes. Por exemplo, o analista pode estar servindo para assumir o papel transferencial de uma acolhedora mãe-continente; no entanto, a um mesmo tempo, ele deve executar, na transferência, o papel paterno que impõe os limites justamente contra uma relação por demais simbiótica com o outro papel dele, o materno. 23. O analista deve estar atento e preparado para compreender e desempenhar ambos os papéis, conforme forem as circunstâncias da situação analítica. Nem sempre os analistas davam-se conta disso, tendo dificuldades para assumir certos papéis na transferência. Pode servir como exemplo, o seguinte trecho de uma carta que, em 1933 (Mijolla, 1985), Freud enviou a Hilda Doolittle:[...] para ser-lhe franco, não me agrada ser a mãe numa transferência. Isso sempre me surpreende e me choca um pouco. Sinto-me sendo muito masculino! Acredito que, se fosse hoje, Freud não titubearia em afirmar que “se sentir muito masculino” não tem nada a haver com o exercício da função de maternagem suficientemente necessária). 24. Por outro lado, a permanência da transferência idealizadora além do tempo necessário representa o risco de entronizar a fé no lugar da confiança, a evasiva dos problemas em vez do seu enfrentamento, e a sugestão no lugar da análise. 25. Os seguintes aspectos também relacionados à atividade interpretativa devem ser levados em conta: o risco de um transferencialismo por parte do analista, ou seja, que ele promova um reducionismo para o “aqui-agora-comigo”, a tudo o que o seu paciente falar, sem levar em conta as particularidades específicas de cada situação analítica em separado, assim criando uma atmosfera de uma “transferência artificial”. 26. Essa situação pode gerar em analistas ainda sem uma sólida formação, mais particularmente em candidatos que devem cumprir as normas regulamentares, uma condição mental de se portar como um caçador de transferências. 27. Assim, é comum que o analista veja transferência em tudo (mesmo quando não é!), e quando de fato surge uma transferência negativa, embora possa estar sendo necessária e saudável, a mesma seja taxada de acting, agressão ou resistência... 28. Igualmente nefasta é a interpretação voltada unicamente para os aspectos “negativos” sádico-destrutivos ou exclusivamente para os “positivos”, que não dá margem à análise da agressão. O mesmo pode-se dizer da interpretação dirigida exclusivamente para “a parte infantil” do analisando (muitas vezes constitui-se como um insulto ao adulto que, realmente, o paciente também é), ou inversamente dirigida somente à “parte adulta” (o paciente sabe que isso não é a sua verdade, e sentese desamparado). 29. Inúmeras vezes, o transferencialismo do “aqui, agora...” redunda em uma esterilidade porquanto o paciente ainda nem está aí. De fato, freqüentemente, há uma ausência da transferência, pela razão de que esteja prevalecendo uma “ausência de vínculo”, o que acontece com pacientes nos quais haja uma predominância de sentimentos de vazio, incredulidade e desesperança. Nestes casos, gradualmente, deve haver um processo de construção da transferência. 30. Diante de uma inicial “transferência especular” ou de uma “transferência idealizadora”, o analista deve aceitá-las porquanto elas visam a preencher buracos afetivos e cognitivos do paciente, porém o terapeuta deve manter o cuidado de que tais transferências sejam transitórias o tempo suficiente para que a análise exerça a função precípua daquilo que proponho denominar uma experiência emocional transformadora, incluída a transformação que permita a passagem da “posição narcisista” do paciente para uma “posição edípica”. 31. Tanto no caso de uma “transferência erótica” que, de uma forma ou outra, sempre aparece no processo analítico, como também no caso de uma “transferência erotizada”, embora o(a) paciente mantenha absoluta convicção e determinação no seu obstinado jogo de sedução, bem no fundo ele(a) receia que o analista cometa alguma destas três possíveis falhas: 1) manter-se frio, indiferente e distante aos seus apelos e fantasias eróticas (pode estar significando uma dificuldade fóbica do analista); 2) o terapeuta ficar perturbado e defensivamente substituir as interpretações “compreensivas”, que levam ao insight, por dissimuladas críticas, acusações, lições de moral e a apologia de bom comportamento, quando não por uma ação repressora que pode incluir a ameaça de uma interrupção da análise, uso de medicação, encaminhamento para algum colega de outro sexo, etc; 3) a possibilidade real de o analista ficar envolvido em uma intimidade sexual, o que caracterizaria uma total “perversão da transferência” e do processo psicanalítico, portanto o fim do mesmo, com o acréscimo de mais um sério fracasso na coleção de fracassos que esse paciente provavelmente vem acumulando ao longo de sua vida. 32. Diante do surgimento de uma “psicose de transferência” (nos termos de Rosenfeld), o psicanalista deve evitar ao máximo entrar na provocação de um clima polêmico que o levaria a ficar enredado nas malhas de uma defensividade ou ofensividade. Essa difícil situação requer que, juntamente com um entendimento da dinâmica daquilo que está se passando no psiquismo do paciente, o analista reuna as condições de uma adequada “continência”, sobretudo a de uma, ativa, paciência. 33. Diante de uma transferência “negativa” é inegável que nós, analistas, ficamos satisfeitos quando os pacientes nos elogiam e amam, e detestamos a situação oposta a essa, o que justifica a necessidade de o terapeuta estar bem munido de uma “capacidade negativa” (termo de Bion), ou seja, poder conter os sentimentos supostamente desagradáveis despertos dentro dele, caso contrário, a capacidade para interpretar ficará muito prejudicada. 34. É evidente que inúmeros outros aspectos poderiam ser enfocados nas relações entre a transferência e a atividade interpretativa, porém as exemplificações apresentadas permitem comprovar o quanto a transferência pode se manifestar de múltiplas formas, graus e em diferentes planos do psiquismo do paciente. Esse polimorfismo justifica a adoção do esquema proposto por A. Alvarez (1992), que aponta para quatro modalidades de manifestações transferenciais, cada uma delas exigindo por parte do analista um manejo técnico especificamente apropriado, inclusive quanto à forma de interpretar ou de não interpretar. 35. Resumidamente, as referidas quatro modalidades transferenciais são caracterizadas pelo fato de que: a) há um predomínio das repressões, tal como acontece nas neuroses em geral, e que tão profundamente aprendemos com Freud; b) a partir das contribuições de M. Klein acerca do psiquismo arcaico, a transferência passou a ser vista prioritariamente a partir das identificações projetivas na pessoa do analista e, portanto, da necessidade deste perceber onde estão ocultas as partes negadas, dissociadas, fragmentadas e projetadas daquelas relações objetais internas e de tudo mais daquilo que o analisando não tolera reconhecer em si próprio; c) especialmente inspirado nas concepções originais de Bion a respeito da relação continente-conteúdo, o pêndulo psicanalítico inclinou-se para a relação do psicanalista com a parte psicótica da personalidade do paciente, com os respectivos vínculos de “amor”, “ódio” e “conhecimento” e com uma ênfase no seu papel de “continente”, na sua capacidade de rêverie; d) Alvarez, fundamentada em sua larga experiência com crianças autistas, sugere a existência de uma quarta possibilidade que consiste no fato de que essas crianças estão tão rompidas com a realidade exterior que não chegam a desenvolver uma transferência. Em tais casos, diz a autora, não adianta o terapeuta ter uma boa condição de “continente” porquanto essas crianças sequer olham para ele, mas sim através dele, impossibilitando um contato afetivo mínimo. As crianças que desenvolveram um autismo secundário não estão fugindo ou se ocultando, antes, elas estão, de fato, perdidas e necessitam que o terapeuta vá, ativamente, ao seu encalço. 36. Ocorreu-me a hipótese de que essa quarta possibilidade também possa estar presente na análise de certos adultos, especialmente naqueles casos em que predomina um estado mental de desistência (é diferente de “depressão”, embora possam estar associadas), em cujo caso o único desejo do paciente é o de não desejar, situação essa que costuma provocar uma reação contratransferencial muito difícil. 37. Não quero encerrar este capítulo sem tentar responder à questão que levantei na epígrafe – se a transferência deve ser encarada pelo analista como uma manifestação de uma compulsão à repetição ou se, mais do que essa“necessidade de repetição”, a transferência, na situação analítica, representa uma “repetição de necessidades” que não foram preenchidas no seu devido tempo passado. Em meu entendimento, ambas colocações são igualmente relevantes e complementares, se levarmos em conta o fato de que um determinado script que foi produzido sob a égide de acontecimentos antigos com os respectivos significados que esteja escrito e impresso na mente do paciente, à moda de uma peça teatral, pode se repetir ao longo de toda a vida do paciente (daí resulta em uma “compulsória necessidade de repetição”), em uma vã tentativa de que o enredo do teatro do psiquismo cumpra a satisfação das necessidades, desejos, demandas e o desempenho de determinados papéis que constam da peça (daí se origina uma busca de “repetição das necessidades”). Na verdade, em determinados casos, na vida desse tipo de paciente, a única coisa que muda são os atores (isto é, as pessoas da realidade exterior que contracenam e desempenham os papéis de certos personagens do psiquismo interior), porém a essência do enredo permanece a mesma. É fundamental que o analista esteja atento à possibilidade de que ele possa estar atendendo ao “convite” que o paciente lhe faz para desempenhar um certo papel de protagonista, e ele esteja desempenhando, sem se dar conta disso. Transferências. Transferência de Impasse. Psicose de Transferência EVOLUÇÃO DA CONCEITUAÇÃO Extratransferência Neurose de transferência Transferência psicótica Psicose de transferência Aliança terapêutica Match Pessoa real do analista TIPOS DE TRANSFERÊNCIAS Transferência positiva Transferência idealizadora Transferência negativa Transferência especular Transferência erótica e erotizada Transferência perversa Transferência de impasse A TRANSFERÊNCIA NA PRÁTICA ANALÍTICA Em relação ao setting Em relação às resistências Em relação às interpretações