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HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Dayane Rúbila Lobo Hessmann 
 
 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
 Eric Hobsbawm, importante historiador inglês, escreveu o clássico livro A 
Era das Revoluções (1962), no qual ele aborda a Revolução Industrial e a 
Revolução Francesa, sinalizando-as como um marco do início do mundo 
contemporâneo e consolidando um projeto político e econômico dos burgueses. 
Portanto, é sobre ambas que nos dedicaremos nesta etapa. Interessa-nos 
entender os processos, as fases, as permanências e as rupturas de cada 
revolução, bem como entender de que maneira essas revoluções modularam 
importantes aspectos da sociedade atual. 
TEMA 1 – REVOLUÇÃO FRANCESA 
A França no final do século XVIII, assim como boa da Europa, era, 
sobretudo, rural. Esse dado é extremamente relevante para compreendermos o 
processo que desencadeou a Revolução Francesa. 
 A estrutura feudal ainda estava muito presente França em 1789, baseada 
na economia agrária e na sociedade estamental, que dividia os franceses em 
três grupos, chamado de três ordens ou três Estados: o Clero (primeiro Estado), 
a nobreza (segundo Estado) e o povo (terceiro Estado). 
 O Clero, grupo no qual se encontravam os religiosos da Igreja Católica, 
era formado por cerca de 120 mil pessoas e se dividia entre Alto Clero e Baixo 
Clero. O primeiro era composto especialmente por bispos, de origem nobre, 
portanto, viviam uma vida de luxo e ostentação, boa parte deles vivam na corte 
e não precisavam pagar impostos. Já os membros do baixo clero eram os 
vigários de aldeias, recrutados entre o povo, e que, portanto, vivam uma vida 
humilde e partilhavam as mazelas das pessoas pobres. 
 Calcula-se que em torno de 850 mil pessoas faziam parte da nobreza. 
Este grupo social se caracterizava como os privilegiados, na medida em que não 
pagavam impostos, obtinham os cargos mais altos do Estado, além de manter 
direitos feudais. Viviam uma vida extravagante. Porém, mesmo dentro da 
nobreza havia uma hierarquia, uma diferenciação de status social entre a 
nobreza da corte e do campo. Ademais, havia uma diferença entre os nobres de 
espada ou de sangue, descendentes das antigas famílias feudais e os nobres de 
toga ou de serviço, oriundos da burguesia, que haviam conquistados tal título. 
 O terceiro Estado era formado pelo povo, representava a maioria 
 
 
3 
esmagadora da população, com aproximadamente 24 milhões de pessoas. No 
entanto, este grupo também não era homogêneo, era composto pela alta 
burguesia (empresários, grandes comerciantes, banqueiros), pela média 
burguesia (burocratas, médicos, advogados) e pela pequena burguesia 
artesões, pequenos lojistas) e também pelos trabalhares do campo e das 
cidades. Trata-se de um grupo bastante diverso, com aspirações e interesses 
divergentes, no entanto todos eles pagavam impostos. 
Figura 1 – Charge de 1789 que critica a desigualdade entre os grupos sociais da 
França. A nobreza e o clero estão montados nas costas de um camponês 
 
Crédito: Biblioteca Digital Gallica – CC/PD 
Em 1774, seguindo a linhagem absolutista monárquica, Luís XVI, neto do 
famoso rei Sol Luís XIV, assumiu o poder. Cabe mencionar que Luís XIV foi o 
grande expoente do absolutismo francês. Durante seu reinado, que durou mais 
de setenta anos, ele construiu o Palácio de Versalhes, grande símbolo do 
absolutismo na França. 
 
 
 
 
4 
Figura 2 – Palácio de Versalhes, 1668 
 
Crédito: Pierre Patel-CC/PD. 
Quando Luís XVI assumiu o trono, o país passava por uma crise financeira 
significativa, que perdurou bastante tempo. A crise econômica tinha múltiplas 
razões. A participação na Guerra dos Sete Anos (1756-1763) e na Guerra de 
Independência dos Estados Unidos (1775-1783) afetou demasiadamente os 
cofres do Estado. Somado a isso, os nobres, com suas pensões e gratificações, 
consumiam uma parte expressiva dos gastos públicos. Além disso, o estilo de 
vida extravagante do rei e da sua Maria Antonita também contribuíam para 
aumentar os gastos públicos. 
Saiba mais 
Guerra dos Sete Anos (1756-1763): conflito entre a Inglaterra e França 
que disputavam terras na América do Norte e no continente asiático e que 
envolveu ainda outros reinos, como a Prússia, Áustria, Portugal e Espanha. 
Para somar ao déficit econômico, 
Uma má safra em 1788 9e 1798) e um inverno muito difícil tornaram 
aguda a crise. As más safras faziam sofrer o campesinato [...] 
Obviamente também [...] faziam sofrer os pobres das cidades, cujo 
custo de vida – o pão era o alimento principal- podia duplicar. 
(Hobsbawm, 2005, p. 93). 
Para tentar contornar essa situação, os ministros da economia 
aumentaram os impostos, o que acarretou numa carestia de vida ainda maior 
 
 
5 
para o povo. Ainda, tentaram criar uma arrecadação de impostos sobre as 
propriedades fundiárias, mas essa ideia foi rechaçada pelo clero e pela alta 
nobreza, que não estavam dispostos a perder nenhum privilégio. Porém, o rei 
Luís XVI precisava encontrar uma solução para melhorar os cofres públicos. 
Assim, decidiu convocar os Estados Gerais para se discutir sobre o assunto. 
Havia mais de século que ele não era consultado. 
 Os Estados Gerais eram um antigo órgão consultivo da monarquia, 
constituído pelos três estados: clero, nobreza e povo. Todavia, cada ordem tinha 
direito apenas a um voto, de maneira que, frequentemente, o clero e a nobreza 
se uniam, totalizando dois votos. Assim, o voto do povo se tornava indiferente. 
 A primeira Assembleia dos Estados Gerais aconteceu no Palácio de 
Versalhes e já foi bastante tensa. Líderes do povo reivindicavam que o voto fosse 
por cabeça e não por Estado. A partir daí, a convocação dos Estados Gerais 
serviu para escancarar os abusos, as desigualdades, as injustiças sociais 
presentes na sociedade francesa. 
 Diante desse cenário hostil, o rei ficou com medo de perder sua autoridade 
e resolveu suspender a Assembleia. Em reação, os representantes do Terceiro 
Estado ocuparam o salão de jogos do palácio e determinaram que continuariam 
em Assembleia e só sairiam dali quando fosse votada uma nova Constituição 
para o reino. Assim, naquele momento, foi criada a Assembleia Nacional, que foi 
transformada em Assembleia Constituinte. 
 A partir daí, o clima na França ficou cada dia mais dramático, a população 
se mobilizou e em 14 de julho de 1789 a invadiram a Bastilha, prisão de Paris, 
onde ficavam encarcerados os inimigos políticos do rei. Sobre esse episódio, o 
historiador Eric Hobsbawm pontua que 
O resultado mais sensacional de sua mobilização foi a queda da 
Bastilha, uma prisão estatal que simbolizava a autoridade real e onde 
os revolucionários esperavam encontrar armas. Em tempos de 
revolução nada é mais poderoso do que a queda de símbolos. A queda 
da Bastilha, que fez do 14 de julho a festa nacional francesa, ratificou 
a queda do despotismo e foi saudada em todo o mundo como o 
princípio de libertação. [...] O que é mais certo é que a queda da 
Bastilha levou a revolução para as cidades provincianas e para o 
campo. (Hobsbawm, 2005, p. 94) 
 
 
 
6 
Figura 3 – Tomada da Bastilha. Jean-Pierre Houël, 1789 
 
 
Crédito: Jean-Pierre Houël-CC/PD 
 Nesse processo inicial revolucionário, os sans-culottes merecem um 
destaque. Eles faziam parte do terceiro Estado. Tratava-se do proletariado 
urbano, como artesões, jornaleiros, assalariados em geral que, quando atingidos 
pela fome, miséria e carestia, se revoltavam contra o governo e sempre eram 
reprimidos. Tinham esse nome em função da roupa que vestiam, usavam uma 
calça de modelo diferente da burguesia e nobreza. Sua marca registrada era 
calça comprida e boina vermelha. No início da Revolução Francesa os sans- 
cullotes foram fundamentais, na medida em que radicalizaram todas as ações. 
TEMA 2 – RUPTURASE PERMANÊNCIAS 
 Com a queda da Bastilha a Revolução Francesa se iniciou de fato, pois a 
partir deste evento, o levante se espalhou para o interior da França, tanto para 
área rural, quanto para pequenas cidades. Propriedades foram saqueadas, 
castelos queimados. Neste momento, muitos nobres deixaram a França e 
buscaram abrigo e apoio em outras monarquias absolutistas pela Europa. Esses 
acontecimentos ficaram conhecidos como o Grande Medo, que assombrou a 
aristocracia entre os meses de julho e agosto de 1789. 
 Nesse contexto de caos e desordem, foi criada ainda no ano de 1789 a 
Guarda Nacional, que consistia numa milícia formada por cidadãos de cada 
município francês, cuja função era fazer a defesa militar da região num momento 
de guerra e garantir a ordem em tempo de paz. Cabe destacar que a Guarda 
 
 
7 
Nacional não era subordinada ao Exército, ela existiu até 1871. 
 Enquanto redigiam a Constituição francesa, a Assembleia Nacional tomou 
algumas decisões importantes: aboliu os privilégios feudais e confiscou os bens 
da Igreja Católica, colocando fim as marcas feudais que ainda permaneciam na 
sociedade. 
 Outro acontecimento relevante foi a promulgação da Declaração dos 
Direitos do Homem e do Cidadão em 26 de agosto de 1789, documento 
composto de um preâmbulo e 17 artigos referentes ao indivíduo e à Nação, 
definindo direitos “naturais e imprescritíveis” como a liberdade, a propriedade, a 
segurança e a resistência à opressão. A igualdade é destacada, sobretudo 
perante a lei e a justiça. A ideia da separação dos poderes também ficou 
registrada. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão tem influência 
direta dos ideais iluministas. 
 Cabe salientar ainda que este documento serviu de preambulo à primeira 
Constituição da Revolução Francesa, que foi aprovada em 1791. Confira a seguir 
alguns artigos importantes da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão: 
Art.1.º - Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As 
distinções sociais só podem ter como fundamento a utilidade comum. 
Art. 2.º - A finalidade de toda associação política é a preservação dos 
direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a 
liberdade, a prosperidade, a segurança e a resistência à opressão. 
Art. 3.º - O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na 
nação. Nenhuma operação, nenhum indivíduo pode exercer autoridade 
que dela não emane expressamente. 
Art. 4.º - A liberdade consiste em poder fazer tudo o que não prejudique 
o próximo: assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não 
tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da 
sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites só podem ser 
determinados pela lei. 
Art. 5.º - A lei não proíbe senão as ações nocivas à sociedade. Tudo o 
que não é vedado pela lei não pode ser obstado e ninguém pode ser 
constrangido a fazer o que ela não ordene. 
[...] 
Art. 9.º - Todo acusado é considerado inocente até ser declarado 
culpado e, caso seja considerado indispensável prendê-lo, todo o rigor 
desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente 
reprimido pela lei. 
Art. 10.º - Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo 
opiniões religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem 
pública estabelecida pela lei. 
[...] 
Art. 15.º - A sociedade tem o direito de pedir contas a todo agente público 
pela sua administração. 
[...] 
Art. 17.º - Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém 
dela pode ser privado, a não ser quando a necessidade pública 
legalmente comprovada o exigir e sob condição de justa e prévia 
indenização. (Declaração..., 2017) 
 
 
8 
Em setembro de 1791 a Constituição foi aprovada, consolidando as 
decisões revolucionários como a abolição dos dízimos eclesiásticos, proibição 
de venda de cargos públicos e a suspensão dos privilégios da nobreza. O voto 
era censitário, ou seja, somente homens com comprovada renda ou propriedade 
poderiam votar, de modo que muitos trabalhadores e mulheres foram excluídos. 
A França não era mais uma país absolutista, agora se tornava uma monarquia 
constitucional, com divisão dos poderes, isto é, o rei deveria se submeter à 
Constituição. 
 Luís XVI teve seu poder drasticamente reduzido, o que o levou a conspirar 
com outros nobres de países absolutistas vizinhos, visando retomar seu poder 
centralizador. Em junho de 1791 ele tentou fugir para Áustria, mas foi descoberto 
e obrigado a retornar para Paris. 
 A Assembleia manteve-se ativa até 1792, entretanto dentro dela havia 
duas forças políticas distintas: aqueles que eram favoráveis a profundas 
mudanças e aqueles que não desejavam grandes transformações sociais. Os 
mais radicais sentavam-se à esquerda do plenário e os mais conservadores 
sentavam-se ao lado direito. Foi daí que nasceu o conceito de direita e esquerda 
na política ainda em voga até os dias atuais, todavia cabe ressaltar que 
atualmente estas definições são polissêmicas. 
 Cada vez mais esses grupos foram se diferenciando. Nessa esteira, 
nasceram os Girondinos, que defendiam interesses mais moderados e eram em 
sua maioria membros da alta burguesia e os Jacobinos, representado pelos 
trabalhadores que defendiam ideias mais radicais. Georges Danton, Jean-Paul 
Marat, Louis-Antoine Saint-Just e Maximilien Robespierre foram importantes 
líderes dos Jacobinos. 
 Uma coligação estrangeira se uniu na tentativa de ajudar o rei e retomar 
o poder centralizado. Assim, em agosto 1791 os governos da Prússia e da 
Áustria assinaram a Declaração de Pillnitz, anunciando a intervenção militar na 
França afim de conter a revolução. Desse modo, a França começou a ser 
atacada, inicialmente ocorreram algumas derrotas, mas ao final os franceses 
obtiveram êxito, devido, sobretudo, à adesão entusiástica dos sans-culottes 
(trabalhadores urbanos) que formaram um exército popular vitorioso. 
 Diante desse cenário o rei foi acusado de conspiração, e por isso foi preso. 
Visando melhorar a segurança do Estado e a defesa da Revolução, foi criado 
pelos jacobinos em Paris um centro do poder revolucionário, chamado de 
 
 
9 
Comuna. 
 A Assembleia Nacional foi abolida e no seu lugar foi criada a Convenção 
Nacional, eleita por sufrágio universal. Os girondinos comandavam a Convenção 
e tentavam elaborar uma constituição republicana, além de procurar solucionar 
os problemas internos que a França vinha enfrentando como dissipação do 
tesouro público, guerra externas e revoltas internas. A República foi 
conclamada e junto disso a Convenção decidiu julgar Luís XVI pelo crime de 
traição à pátria, condenando-o a morte. Assim, no início do ano de 1793 o rei, e 
depois sua esposa Maria Antonieta, foram guilhotinados em praça pública. 
Figura 4 – Execução do rei francês Luís XVI, 1793 
 
Crédito: Georg Heinrich Sieveking-CC/PD 
A revolução e a disputa entre jacobinos e girondinos continuava. Em 
março de 1793, os Jacobinos tomaram o poder e radicalizaram o processo 
revolucionário. Nesse contexto, foram criados o Comitê de Salvação Nacional, 
responsável por conter as revoltas internas; o Comitê de Salvação Pública, que 
comandava os exércitos e administrava as finanças públicas; e o Tribunal 
Revolucionário, que prendia e julgava os traidores da revolução, comandado por 
Robespierre. 
 Essa fase da revolução ficou conhecida como o período do terror, devido 
a milhares de pessoas (de todos os grupos sociais, inclusive entre os próprios 
jacobinos) que foram decapitados pela guilhotina. Esse período marcado pela 
violência, perseguições extremas e intolerância foi se desgastando, de modo que 
os jacobinos foram se enfraquecendo. 
 A reação termidoriana foi uma convenção que se utilizou da violência para 
 
 
10 
colocar fim aquele período do terror, assim Robespierre e mais de 70 jacobinos 
foramguilhotinados. Esse evento sinalizava a retomada do poder pelos 
girondinos. 
Em agosto de 1795 uma nova constituição foi aprovada, menos radical, 
sob a perspectiva da burguesia, retomando algumas medidas que haviam sido 
suspensas anteriormente. Tratava-se de uma constituição com características 
acentuadamente burguesas como o direito à propriedade e ao lucro. 
Nesta constituição o poder executivo foi transformado num diretório 
composto por cinco diretores e oito ministros. Nesse momento, a França passou 
por um período de crise interna e externa, o que levou os girondinos a endurecer 
o governo. Os jacobinos continuavam disputando o poder. Assim, a burguesia 
com receio de que os jacobinos tomassem o poder novamente, investiu no 
fortalecimento do exército. 
Em 9 de novembro de 1799, conhecido como 18 de Brumário no 
calendário revolucionário francês, alguns membros do Diretório deram um golpe 
e promulgaram uma nova constituição, estabelecendo um Consulado, no qual a 
França passaria a ser governada por três cônsules, dos quais o mais poderoso 
era Napoleão Bonaparte, que pouco tempo depois assumiu o poder de maneira 
integral na França, tornando-se imperador e colocando fim, depois de uma 
década, ao processo revolucionário francês. 
TEMA 3 – REVOLUÇÃO INSDUSTRIAL 
 Sobre a Revolução industrial, o historiador Eric Hobsbawm afirma que 
“sob qualquer aspecto, este foi provavelmente o mais importante acontecimento 
na história da humanidade, pelo menos desde a invenção das agriculturas das 
cidades” (Hobsbawm, 2005, p. 52). 
 Mas como que se desenvolveu a Revolução Industrial? Quais os seus 
antecedentes? É sobre esse assunto que vamos nos debruçar agora: entender 
a conjuntura inglesa que antecede a Revolução. 
 Em 1688, a Inglaterra passou por um acontecimento denominado 
Revolução Gloriosa, que consistiu na restrição dos poderes do rei. A partir de um 
documento intitulado Bill of Rights o rei inglês reinava, mas não governava. Essa 
revolução que aconteceu de maneira pacífica deu fim ao absolutismo e instaurou 
o parlamentarismo. Além disso, importantes medidas políticas e jurídicas foram 
estabelecidas, tais como: foram estabelecidos direitos individuais, direito à 
 
 
11 
propriedade privada, a autonomia do Poder Judiciário, a liberdade de imprensa, 
a liberdade de expressão, proibição de impostos excessivos e punições cruéis, 
extinção de monopólios, promoção do livre comércio etc. Portanto, a Revolução 
Gloriosa criou as estruturas legais para posterior ascensão da burguesia na 
Inglaterra. ⠀ 
Em meados do século XVIII, Inglaterra era a maior potência da Europa, 
considerada a rainha dos mares devido à sua marinha imbatível. Após vencer a 
Guerra dos Sete Anos contra a França, os ingleses aumentaram ainda mais seus 
domínios coloniais. 
 Alguns fatores explicam o acúmulo de capital inglês: a burguesia 
conseguiu significativo capital realizando comércio com as colônias; os ingleses 
investiram nas redes fluviais, alterando o curso dos rios e abrindo canais, e desse 
modo viabilizaram um eficiente e rápido sistema de transporte de mercadorias. 
Tudo isso contribui para o fortalecimento do capitalismo inglês. Calcula-se que a 
Inglaterra tinha em torno de 6 milhões de habitantes, vivendo, sobretudo, no 
campo. Londres que era considerada uma grande cidade, tinha 
aproximadamente 1 milhão de habitantes em 1789. Com uma população 
majoritariamente rural, a produção agrícola sofreu importantes mudanças no 
século XVIII, com o cultivo de outras culturas e o uso de novas práticas e 
tecnologias que qualificou e otimizou o trabalho no campo. Ao mesmo tempo, 
um processo estava em curso. O governo inglês autorizou os cercamentos 
(enclosures), ou seja, que as terras comuns poderiam ser vendidas e 
arrendadas. 
 Tradicionalmente na Inglaterra, os camponeses, mesmo não sendo os 
proprietários da terra, tinham o direito de usar as terras para caçar, pescar, retirar 
lenha e madeira e usar como pasto. A partir dos cercamentos, eles perdem esse 
direito, o que afetou de maneira profunda seu trabalho e seu modo de vida. Sobre 
este assunto o historiador Sergio Moliterno pontua: 
Até meados do século XVIII, vigoraram na Inglaterra leis proibindo que 
as terras comuns fossem fechadas com cercas e ocupadas por 
particulares [...] Em 1760, porém, o Parlamento Britânico aprovou a 
chamada “Lei de Cercamentos” (Enclosure Act) [...] A partir de então, 
intensificou-se o processo de concentração das propriedades rurais 
nas mãos dos aristocratas e ricos comerciantes burgueses que 
passaram a fazer grandes investimentos na aquisição de terras. Em 
sua maior parte, essas terras foram destinadas por seus novos 
proprietários a uma atividade bastante lucrativa: a criação de rebanhos 
de ovinos para produção de lã. (Moliterno, 1973, p. 144). 
 
 
12 
 Esse processo de cercamentos desvinculou o homem da terra. Assim, 
sem trabalho no campo, milhares de famílias de camponeses precisaram partir 
para as cidades em busca de trabalho. Desse modo, a Inglaterra passou por um 
intenso êxodo rural, o que consequentemente impactou as cidades que não 
estavam preparadas para receber todas essas pessoas, gerando superlotação, 
promovendo um crescimento desenfreado nas cidades, aumentando a violência 
urbana, além da massa de desempregados, pois era impossível emprego para 
todos. 
 Já fazia algumas décadas que os ingleses queriam criar uma máquina de 
vapor, porém foi somente em 1769 que James Watt criou uma máquina eficiente, 
barata e que pôde ser adaptada para diferentes usos industriais. Essa máquina 
foi usada especialmente para a fabricação de tecidos de lã e de algodão, o que 
alavancou a produção têxtil no país. Com o passar do tempo, cada vez essas 
máquinas foram aperfeiçoadas, tornando-se mais rápidas e eficientes, 
possibilitando a produção em larga escala. 
Figura 5 – Máquina a vapor do tipo Watt da mina de prata Alte Elisabeth, 
Freiberg, Alemanha 
 
 
13 
 
Crédito: Akg-images/Album/ Fotoarena. 
Do exposto, verifica-se que a Revolução Industrial ocorreu na Inglaterra 
por essa soma de motivos que elencamos, o que possibilitou que os ingleses 
fossem a principal economia do mundo naquele momento. Portanto, a 
Revolução Gloriosa, os cercamentos, o acúmulo de capital entre os burgueses, 
as redes fluviais e as inovações das tecnologias nos ajudam a entender como e 
por que a Revolução Industrial ocorreu. 
 
 
 
14 
TEMA 4 – PROCESSO DE URBANIZAÇÃO 
 Durante muito tempo, ao se estudar sobre Revolução Industrial, era 
comum atrelar o nascimento das fábricas ao surgimento das máquinas. No 
entanto, o pesquisador e economista americano Stephan Marglin trouxe uma 
importante contribuição quando afirmou que o nascimento das fábricas não é 
decorrência da ascensão das máquinas, mas, sobretudo, porque os burgueses 
precisavam controlar o tempo e os corpos dos trabalhadores. 
A origem e o sucesso da fábrica não se explica por uma superioridade 
tecnológica, mas pelo fato dela despojar o operário de qualquer 
controle e de dar ao capitalista o poder de prescrever a natureza do 
trabalho e a quantidade a produzir. (Marglin, 1996, p. 41) 
 Ou seja, Marglin defende que a adoção das fábricas é uma estratégia dos 
burgueses para lucrar mais, para ter um controle direto dos trabalhadores. Para 
tanto, era necessário, controle, disciplina, fiscalização e divisão do trabalho. 
Segundo ele, “não foi a fábrica a vapor que nos deu o capitalismo; foi o 
capitalismo que produziu a fábrica a vapor” (Marglin, 1996, p. 77) 
É importante salientar que, mesmo com o surgimento das máquinas, 
muitos trabalhadores ainda realizavam o trabalho de casa, o trabalho manual e 
doméstico ainda era necessário. Desse modo, ainda havia uma certa autonomia 
do trabalhador no controle do tempo e da produção. Daí então surgiu a 
necessidade do burguês de criar asfábricas, lugares nos quais os trabalhadores 
teriam horário, seriam vigiados em relação ao desperdício da matéria-prima, 
teriam seus corpos controlados a fim de aumentar a produção. 
 Outro aspecto importante que merece destaque é a divisão de trabalho 
que foi uma estratégia dos burgueses de dominação. Cada trabalhador passou 
a realizar apenas uma parte específica da produção, perdendo o controle de todo 
o processo da produção da mercadoria. Assim, os trabalhadores se tornavam 
mais facilmente dispensáveis. 
 No final do século XVIII e início do século XIX, observou-se o crescimento 
vertiginoso de fábricas por toda a Inglaterra, especialmente na região de 
Manchester. Essas primeiras fábricas apresentavam péssimas estruturas, o 
ambiente era insalubre, não havia nenhuma regulamentação de leis e direitos 
trabalhistas. A jornada de trabalho era extenuante, superando 12 horas diárias. 
Os salários eram baixíssimos. Abusos, maus tratos, acidentes de trabalho, 
exploração da mão de obra infantil faziam parte do dia a dia das fábricas. 
 
 
15 
 O historiador Edward Thompson, pesquisador da classe trabalhadora e 
do mundo do trabalho, afirma, baseado em fontes históricas da época, que a 
primeira geração de trabalhadores das fábricas resistiu com afinco a se dobrar 
ao sistema fabril, faltavam ao trabalho, chegavam atrasados, bebiam antes de ir 
trabalhar, trabalhavam lentamente, conversavam e cantavam durante o trabalho. 
Foi necessário, portanto, um trabalho disciplinar árduo, envolvendo punições e 
descontos salariais para construir o perfil de trabalhador disciplinado, assíduo e 
responsável almejado pelos patrões. 
 Muitos trabalhadores indignados com horrível situação das fábricas 
resolveram protestar, daí nasceu o movimento ludista, que consistia em invadir 
as fábricas e quebrar as máquinas. Os ludistas eram contrários à 
industrialização, alegavam que os homens foram substituídos pelas máquinas e 
que, portanto, o desemprego era culpa das máquinas. 
Figura 6 – Gravura da época, mostrando dois ludistas destruindo uma máquina 
de fiar, 1812 
 
Crédito: Christopher Sunde-CC/PD. 
Depois, surgiu o cartismo, movimento que se tornou bastante popular na 
Inglaterra e que defendia que os trabalhadores deveriam participar da política, a 
fim de conquistar seus direitos. Assim, os cartistas pressionavam o Parlamento 
para conquistar melhores condições de vida. 
 Paralelamente a isso, os trabalhadores formaram as Trades Unions, 
associações de trabalhadores para ajuda mútua. As Trades Unios tinham o 
objetivo de organizar as reivindicações dos profissionais de cada área. Foram 
essas associações que deram origens aos primeiros sindicatos. Desse modo, se 
 
 
16 
a primeira geração de trabalhadores resistiu as fábricas, a segunda geração 
lutou por leis trabalhistas. 
As primeiras leis trabalhistas, depois de muita luta do movimento de 
trabalhadores, surgiram somente em 1847, estipulando a jornada em 10 horas 
por dia. Em 1850, uma outra lei colocou o sábado depois das 14h e o domingo 
como dias de descanso. 
O sistema fabril não alterou somente o modo de produção e de trabalho, 
afetou a sociedade de diferentes maneiras, mudando as relações familiares, as 
relações de consumo, a relação do homem com a natureza, a relação do homem 
com o tempo. 
Nas sociedades pré-industriais o tempo era contado, medido e 
organizado em unção das tarefas que se deviam realizar, ou seja, 
ligava-se aos ritmos da natureza, como o dia e a noite, o período das 
chuvas e de secas, o fluxo das marés, as fases da Lua, época de 
semear e de colher etc. [...] Antes do aparecimento das fábricas, 
portanto, o relógio não era necessário”. (Decca; Meneguello, 1999, p. 
34-35. 
O historiador Edgar de Deca destaca que a fábrica mudou a relação das 
pessoas com o tempo. O ditado popular “tempo é dinheiro” nasceu a partir desse 
momento. Simultaneamente aos horários das jornadas de trabalho, os relógios 
começaram a se popularizar. 
 Como já mencionamos no decorrer do texto, as cidades também foram 
amplamente impactadas pela expansão das fábricas, pois cada vez mais havia 
uma massa de gente migrando do campo para a cidade em busca de empregos, 
gerando um “exercito” de desempregados. As cidades não estavam preparadas 
para essa demanda, assim havia ruas não pavimentadas, lixo por toda parte, 
casas minúsculas abarrotadas de gente, doenças, epidemias, baderna, furtos, 
violência. 
NA PRÁTICA 
Vimos dois importantes momentos da história contemporânea, a 
Revolução Francesa e a Revolução Industrial, e pudemos perceber que esses 
movimentos alteram profundamente a forma como as sociedades se organizam. 
A proposta então é que você desenvolva um mapa mental sobre as alterações 
mais importantes trazidas por ambas as revoluções. 
 
 
 
17 
FINALIZANDO 
 As Revoluções Francesa e Industrial formataram a sociedade 
contemporânea: a Revolução Francesa trouxe importantes transformações 
políticas, na medida em que forneceu o vocabulário e os temas da política liberal 
e democrática para boa parte dos países ocidentais; a Revolução Industrial 
mudou a maneira de produção e, com isso, alterou o modo de vida e de trabalho 
da humanidade. Ressalta-se ainda que essas duas revoluções criaram o cenário 
ideal para a consolidação do capitalismo que já estava em curso. 
 
 
 
 
18 
REFERÊNCIAS 
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FRANCE AU BRÉSIL, 13 JAN. 2017. Disponível em: 
. Acesso em: 1 ago. 2022. 
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Editora da Unesp, 2009. 
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cotidiano dos trabalhadores. São Paulo: Atual, 1999. 
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1640. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. 
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os patrões? In: GORZ, A. (org.). Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: 
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VOUVELE, M. A Revolução Francesa e seu eco. In: CONGRESSO 
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