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HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA AULA 1 Profª Dayane Rúbila Lobo Hessmann 2 CONVERSA INICIAL Eric Hobsbawm, importante historiador inglês, escreveu o clássico livro A Era das Revoluções (1962), no qual ele aborda a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, sinalizando-as como um marco do início do mundo contemporâneo e consolidando um projeto político e econômico dos burgueses. Portanto, é sobre ambas que nos dedicaremos nesta etapa. Interessa-nos entender os processos, as fases, as permanências e as rupturas de cada revolução, bem como entender de que maneira essas revoluções modularam importantes aspectos da sociedade atual. TEMA 1 – REVOLUÇÃO FRANCESA A França no final do século XVIII, assim como boa da Europa, era, sobretudo, rural. Esse dado é extremamente relevante para compreendermos o processo que desencadeou a Revolução Francesa. A estrutura feudal ainda estava muito presente França em 1789, baseada na economia agrária e na sociedade estamental, que dividia os franceses em três grupos, chamado de três ordens ou três Estados: o Clero (primeiro Estado), a nobreza (segundo Estado) e o povo (terceiro Estado). O Clero, grupo no qual se encontravam os religiosos da Igreja Católica, era formado por cerca de 120 mil pessoas e se dividia entre Alto Clero e Baixo Clero. O primeiro era composto especialmente por bispos, de origem nobre, portanto, viviam uma vida de luxo e ostentação, boa parte deles vivam na corte e não precisavam pagar impostos. Já os membros do baixo clero eram os vigários de aldeias, recrutados entre o povo, e que, portanto, vivam uma vida humilde e partilhavam as mazelas das pessoas pobres. Calcula-se que em torno de 850 mil pessoas faziam parte da nobreza. Este grupo social se caracterizava como os privilegiados, na medida em que não pagavam impostos, obtinham os cargos mais altos do Estado, além de manter direitos feudais. Viviam uma vida extravagante. Porém, mesmo dentro da nobreza havia uma hierarquia, uma diferenciação de status social entre a nobreza da corte e do campo. Ademais, havia uma diferença entre os nobres de espada ou de sangue, descendentes das antigas famílias feudais e os nobres de toga ou de serviço, oriundos da burguesia, que haviam conquistados tal título. O terceiro Estado era formado pelo povo, representava a maioria 3 esmagadora da população, com aproximadamente 24 milhões de pessoas. No entanto, este grupo também não era homogêneo, era composto pela alta burguesia (empresários, grandes comerciantes, banqueiros), pela média burguesia (burocratas, médicos, advogados) e pela pequena burguesia artesões, pequenos lojistas) e também pelos trabalhares do campo e das cidades. Trata-se de um grupo bastante diverso, com aspirações e interesses divergentes, no entanto todos eles pagavam impostos. Figura 1 – Charge de 1789 que critica a desigualdade entre os grupos sociais da França. A nobreza e o clero estão montados nas costas de um camponês Crédito: Biblioteca Digital Gallica – CC/PD Em 1774, seguindo a linhagem absolutista monárquica, Luís XVI, neto do famoso rei Sol Luís XIV, assumiu o poder. Cabe mencionar que Luís XIV foi o grande expoente do absolutismo francês. Durante seu reinado, que durou mais de setenta anos, ele construiu o Palácio de Versalhes, grande símbolo do absolutismo na França. 4 Figura 2 – Palácio de Versalhes, 1668 Crédito: Pierre Patel-CC/PD. Quando Luís XVI assumiu o trono, o país passava por uma crise financeira significativa, que perdurou bastante tempo. A crise econômica tinha múltiplas razões. A participação na Guerra dos Sete Anos (1756-1763) e na Guerra de Independência dos Estados Unidos (1775-1783) afetou demasiadamente os cofres do Estado. Somado a isso, os nobres, com suas pensões e gratificações, consumiam uma parte expressiva dos gastos públicos. Além disso, o estilo de vida extravagante do rei e da sua Maria Antonita também contribuíam para aumentar os gastos públicos. Saiba mais Guerra dos Sete Anos (1756-1763): conflito entre a Inglaterra e França que disputavam terras na América do Norte e no continente asiático e que envolveu ainda outros reinos, como a Prússia, Áustria, Portugal e Espanha. Para somar ao déficit econômico, Uma má safra em 1788 9e 1798) e um inverno muito difícil tornaram aguda a crise. As más safras faziam sofrer o campesinato [...] Obviamente também [...] faziam sofrer os pobres das cidades, cujo custo de vida – o pão era o alimento principal- podia duplicar. (Hobsbawm, 2005, p. 93). Para tentar contornar essa situação, os ministros da economia aumentaram os impostos, o que acarretou numa carestia de vida ainda maior 5 para o povo. Ainda, tentaram criar uma arrecadação de impostos sobre as propriedades fundiárias, mas essa ideia foi rechaçada pelo clero e pela alta nobreza, que não estavam dispostos a perder nenhum privilégio. Porém, o rei Luís XVI precisava encontrar uma solução para melhorar os cofres públicos. Assim, decidiu convocar os Estados Gerais para se discutir sobre o assunto. Havia mais de século que ele não era consultado. Os Estados Gerais eram um antigo órgão consultivo da monarquia, constituído pelos três estados: clero, nobreza e povo. Todavia, cada ordem tinha direito apenas a um voto, de maneira que, frequentemente, o clero e a nobreza se uniam, totalizando dois votos. Assim, o voto do povo se tornava indiferente. A primeira Assembleia dos Estados Gerais aconteceu no Palácio de Versalhes e já foi bastante tensa. Líderes do povo reivindicavam que o voto fosse por cabeça e não por Estado. A partir daí, a convocação dos Estados Gerais serviu para escancarar os abusos, as desigualdades, as injustiças sociais presentes na sociedade francesa. Diante desse cenário hostil, o rei ficou com medo de perder sua autoridade e resolveu suspender a Assembleia. Em reação, os representantes do Terceiro Estado ocuparam o salão de jogos do palácio e determinaram que continuariam em Assembleia e só sairiam dali quando fosse votada uma nova Constituição para o reino. Assim, naquele momento, foi criada a Assembleia Nacional, que foi transformada em Assembleia Constituinte. A partir daí, o clima na França ficou cada dia mais dramático, a população se mobilizou e em 14 de julho de 1789 a invadiram a Bastilha, prisão de Paris, onde ficavam encarcerados os inimigos políticos do rei. Sobre esse episódio, o historiador Eric Hobsbawm pontua que O resultado mais sensacional de sua mobilização foi a queda da Bastilha, uma prisão estatal que simbolizava a autoridade real e onde os revolucionários esperavam encontrar armas. Em tempos de revolução nada é mais poderoso do que a queda de símbolos. A queda da Bastilha, que fez do 14 de julho a festa nacional francesa, ratificou a queda do despotismo e foi saudada em todo o mundo como o princípio de libertação. [...] O que é mais certo é que a queda da Bastilha levou a revolução para as cidades provincianas e para o campo. (Hobsbawm, 2005, p. 94) 6 Figura 3 – Tomada da Bastilha. Jean-Pierre Houël, 1789 Crédito: Jean-Pierre Houël-CC/PD Nesse processo inicial revolucionário, os sans-culottes merecem um destaque. Eles faziam parte do terceiro Estado. Tratava-se do proletariado urbano, como artesões, jornaleiros, assalariados em geral que, quando atingidos pela fome, miséria e carestia, se revoltavam contra o governo e sempre eram reprimidos. Tinham esse nome em função da roupa que vestiam, usavam uma calça de modelo diferente da burguesia e nobreza. Sua marca registrada era calça comprida e boina vermelha. No início da Revolução Francesa os sans- cullotes foram fundamentais, na medida em que radicalizaram todas as ações. TEMA 2 – RUPTURASE PERMANÊNCIAS Com a queda da Bastilha a Revolução Francesa se iniciou de fato, pois a partir deste evento, o levante se espalhou para o interior da França, tanto para área rural, quanto para pequenas cidades. Propriedades foram saqueadas, castelos queimados. Neste momento, muitos nobres deixaram a França e buscaram abrigo e apoio em outras monarquias absolutistas pela Europa. Esses acontecimentos ficaram conhecidos como o Grande Medo, que assombrou a aristocracia entre os meses de julho e agosto de 1789. Nesse contexto de caos e desordem, foi criada ainda no ano de 1789 a Guarda Nacional, que consistia numa milícia formada por cidadãos de cada município francês, cuja função era fazer a defesa militar da região num momento de guerra e garantir a ordem em tempo de paz. Cabe destacar que a Guarda 7 Nacional não era subordinada ao Exército, ela existiu até 1871. Enquanto redigiam a Constituição francesa, a Assembleia Nacional tomou algumas decisões importantes: aboliu os privilégios feudais e confiscou os bens da Igreja Católica, colocando fim as marcas feudais que ainda permaneciam na sociedade. Outro acontecimento relevante foi a promulgação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 26 de agosto de 1789, documento composto de um preâmbulo e 17 artigos referentes ao indivíduo e à Nação, definindo direitos “naturais e imprescritíveis” como a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão. A igualdade é destacada, sobretudo perante a lei e a justiça. A ideia da separação dos poderes também ficou registrada. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão tem influência direta dos ideais iluministas. Cabe salientar ainda que este documento serviu de preambulo à primeira Constituição da Revolução Francesa, que foi aprovada em 1791. Confira a seguir alguns artigos importantes da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão: Art.1.º - Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem ter como fundamento a utilidade comum. Art. 2.º - A finalidade de toda associação política é a preservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a prosperidade, a segurança e a resistência à opressão. Art. 3.º - O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na nação. Nenhuma operação, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane expressamente. Art. 4.º - A liberdade consiste em poder fazer tudo o que não prejudique o próximo: assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites só podem ser determinados pela lei. Art. 5.º - A lei não proíbe senão as ações nocivas à sociedade. Tudo o que não é vedado pela lei não pode ser obstado e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordene. [...] Art. 9.º - Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, caso seja considerado indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei. Art. 10.º - Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei. [...] Art. 15.º - A sociedade tem o direito de pedir contas a todo agente público pela sua administração. [...] Art. 17.º - Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado, a não ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir e sob condição de justa e prévia indenização. (Declaração..., 2017) 8 Em setembro de 1791 a Constituição foi aprovada, consolidando as decisões revolucionários como a abolição dos dízimos eclesiásticos, proibição de venda de cargos públicos e a suspensão dos privilégios da nobreza. O voto era censitário, ou seja, somente homens com comprovada renda ou propriedade poderiam votar, de modo que muitos trabalhadores e mulheres foram excluídos. A França não era mais uma país absolutista, agora se tornava uma monarquia constitucional, com divisão dos poderes, isto é, o rei deveria se submeter à Constituição. Luís XVI teve seu poder drasticamente reduzido, o que o levou a conspirar com outros nobres de países absolutistas vizinhos, visando retomar seu poder centralizador. Em junho de 1791 ele tentou fugir para Áustria, mas foi descoberto e obrigado a retornar para Paris. A Assembleia manteve-se ativa até 1792, entretanto dentro dela havia duas forças políticas distintas: aqueles que eram favoráveis a profundas mudanças e aqueles que não desejavam grandes transformações sociais. Os mais radicais sentavam-se à esquerda do plenário e os mais conservadores sentavam-se ao lado direito. Foi daí que nasceu o conceito de direita e esquerda na política ainda em voga até os dias atuais, todavia cabe ressaltar que atualmente estas definições são polissêmicas. Cada vez mais esses grupos foram se diferenciando. Nessa esteira, nasceram os Girondinos, que defendiam interesses mais moderados e eram em sua maioria membros da alta burguesia e os Jacobinos, representado pelos trabalhadores que defendiam ideias mais radicais. Georges Danton, Jean-Paul Marat, Louis-Antoine Saint-Just e Maximilien Robespierre foram importantes líderes dos Jacobinos. Uma coligação estrangeira se uniu na tentativa de ajudar o rei e retomar o poder centralizado. Assim, em agosto 1791 os governos da Prússia e da Áustria assinaram a Declaração de Pillnitz, anunciando a intervenção militar na França afim de conter a revolução. Desse modo, a França começou a ser atacada, inicialmente ocorreram algumas derrotas, mas ao final os franceses obtiveram êxito, devido, sobretudo, à adesão entusiástica dos sans-culottes (trabalhadores urbanos) que formaram um exército popular vitorioso. Diante desse cenário o rei foi acusado de conspiração, e por isso foi preso. Visando melhorar a segurança do Estado e a defesa da Revolução, foi criado pelos jacobinos em Paris um centro do poder revolucionário, chamado de 9 Comuna. A Assembleia Nacional foi abolida e no seu lugar foi criada a Convenção Nacional, eleita por sufrágio universal. Os girondinos comandavam a Convenção e tentavam elaborar uma constituição republicana, além de procurar solucionar os problemas internos que a França vinha enfrentando como dissipação do tesouro público, guerra externas e revoltas internas. A República foi conclamada e junto disso a Convenção decidiu julgar Luís XVI pelo crime de traição à pátria, condenando-o a morte. Assim, no início do ano de 1793 o rei, e depois sua esposa Maria Antonieta, foram guilhotinados em praça pública. Figura 4 – Execução do rei francês Luís XVI, 1793 Crédito: Georg Heinrich Sieveking-CC/PD A revolução e a disputa entre jacobinos e girondinos continuava. Em março de 1793, os Jacobinos tomaram o poder e radicalizaram o processo revolucionário. Nesse contexto, foram criados o Comitê de Salvação Nacional, responsável por conter as revoltas internas; o Comitê de Salvação Pública, que comandava os exércitos e administrava as finanças públicas; e o Tribunal Revolucionário, que prendia e julgava os traidores da revolução, comandado por Robespierre. Essa fase da revolução ficou conhecida como o período do terror, devido a milhares de pessoas (de todos os grupos sociais, inclusive entre os próprios jacobinos) que foram decapitados pela guilhotina. Esse período marcado pela violência, perseguições extremas e intolerância foi se desgastando, de modo que os jacobinos foram se enfraquecendo. A reação termidoriana foi uma convenção que se utilizou da violência para 10 colocar fim aquele período do terror, assim Robespierre e mais de 70 jacobinos foramguilhotinados. Esse evento sinalizava a retomada do poder pelos girondinos. Em agosto de 1795 uma nova constituição foi aprovada, menos radical, sob a perspectiva da burguesia, retomando algumas medidas que haviam sido suspensas anteriormente. Tratava-se de uma constituição com características acentuadamente burguesas como o direito à propriedade e ao lucro. Nesta constituição o poder executivo foi transformado num diretório composto por cinco diretores e oito ministros. Nesse momento, a França passou por um período de crise interna e externa, o que levou os girondinos a endurecer o governo. Os jacobinos continuavam disputando o poder. Assim, a burguesia com receio de que os jacobinos tomassem o poder novamente, investiu no fortalecimento do exército. Em 9 de novembro de 1799, conhecido como 18 de Brumário no calendário revolucionário francês, alguns membros do Diretório deram um golpe e promulgaram uma nova constituição, estabelecendo um Consulado, no qual a França passaria a ser governada por três cônsules, dos quais o mais poderoso era Napoleão Bonaparte, que pouco tempo depois assumiu o poder de maneira integral na França, tornando-se imperador e colocando fim, depois de uma década, ao processo revolucionário francês. TEMA 3 – REVOLUÇÃO INSDUSTRIAL Sobre a Revolução industrial, o historiador Eric Hobsbawm afirma que “sob qualquer aspecto, este foi provavelmente o mais importante acontecimento na história da humanidade, pelo menos desde a invenção das agriculturas das cidades” (Hobsbawm, 2005, p. 52). Mas como que se desenvolveu a Revolução Industrial? Quais os seus antecedentes? É sobre esse assunto que vamos nos debruçar agora: entender a conjuntura inglesa que antecede a Revolução. Em 1688, a Inglaterra passou por um acontecimento denominado Revolução Gloriosa, que consistiu na restrição dos poderes do rei. A partir de um documento intitulado Bill of Rights o rei inglês reinava, mas não governava. Essa revolução que aconteceu de maneira pacífica deu fim ao absolutismo e instaurou o parlamentarismo. Além disso, importantes medidas políticas e jurídicas foram estabelecidas, tais como: foram estabelecidos direitos individuais, direito à 11 propriedade privada, a autonomia do Poder Judiciário, a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, proibição de impostos excessivos e punições cruéis, extinção de monopólios, promoção do livre comércio etc. Portanto, a Revolução Gloriosa criou as estruturas legais para posterior ascensão da burguesia na Inglaterra. ⠀ Em meados do século XVIII, Inglaterra era a maior potência da Europa, considerada a rainha dos mares devido à sua marinha imbatível. Após vencer a Guerra dos Sete Anos contra a França, os ingleses aumentaram ainda mais seus domínios coloniais. Alguns fatores explicam o acúmulo de capital inglês: a burguesia conseguiu significativo capital realizando comércio com as colônias; os ingleses investiram nas redes fluviais, alterando o curso dos rios e abrindo canais, e desse modo viabilizaram um eficiente e rápido sistema de transporte de mercadorias. Tudo isso contribui para o fortalecimento do capitalismo inglês. Calcula-se que a Inglaterra tinha em torno de 6 milhões de habitantes, vivendo, sobretudo, no campo. Londres que era considerada uma grande cidade, tinha aproximadamente 1 milhão de habitantes em 1789. Com uma população majoritariamente rural, a produção agrícola sofreu importantes mudanças no século XVIII, com o cultivo de outras culturas e o uso de novas práticas e tecnologias que qualificou e otimizou o trabalho no campo. Ao mesmo tempo, um processo estava em curso. O governo inglês autorizou os cercamentos (enclosures), ou seja, que as terras comuns poderiam ser vendidas e arrendadas. Tradicionalmente na Inglaterra, os camponeses, mesmo não sendo os proprietários da terra, tinham o direito de usar as terras para caçar, pescar, retirar lenha e madeira e usar como pasto. A partir dos cercamentos, eles perdem esse direito, o que afetou de maneira profunda seu trabalho e seu modo de vida. Sobre este assunto o historiador Sergio Moliterno pontua: Até meados do século XVIII, vigoraram na Inglaterra leis proibindo que as terras comuns fossem fechadas com cercas e ocupadas por particulares [...] Em 1760, porém, o Parlamento Britânico aprovou a chamada “Lei de Cercamentos” (Enclosure Act) [...] A partir de então, intensificou-se o processo de concentração das propriedades rurais nas mãos dos aristocratas e ricos comerciantes burgueses que passaram a fazer grandes investimentos na aquisição de terras. Em sua maior parte, essas terras foram destinadas por seus novos proprietários a uma atividade bastante lucrativa: a criação de rebanhos de ovinos para produção de lã. (Moliterno, 1973, p. 144). 12 Esse processo de cercamentos desvinculou o homem da terra. Assim, sem trabalho no campo, milhares de famílias de camponeses precisaram partir para as cidades em busca de trabalho. Desse modo, a Inglaterra passou por um intenso êxodo rural, o que consequentemente impactou as cidades que não estavam preparadas para receber todas essas pessoas, gerando superlotação, promovendo um crescimento desenfreado nas cidades, aumentando a violência urbana, além da massa de desempregados, pois era impossível emprego para todos. Já fazia algumas décadas que os ingleses queriam criar uma máquina de vapor, porém foi somente em 1769 que James Watt criou uma máquina eficiente, barata e que pôde ser adaptada para diferentes usos industriais. Essa máquina foi usada especialmente para a fabricação de tecidos de lã e de algodão, o que alavancou a produção têxtil no país. Com o passar do tempo, cada vez essas máquinas foram aperfeiçoadas, tornando-se mais rápidas e eficientes, possibilitando a produção em larga escala. Figura 5 – Máquina a vapor do tipo Watt da mina de prata Alte Elisabeth, Freiberg, Alemanha 13 Crédito: Akg-images/Album/ Fotoarena. Do exposto, verifica-se que a Revolução Industrial ocorreu na Inglaterra por essa soma de motivos que elencamos, o que possibilitou que os ingleses fossem a principal economia do mundo naquele momento. Portanto, a Revolução Gloriosa, os cercamentos, o acúmulo de capital entre os burgueses, as redes fluviais e as inovações das tecnologias nos ajudam a entender como e por que a Revolução Industrial ocorreu. 14 TEMA 4 – PROCESSO DE URBANIZAÇÃO Durante muito tempo, ao se estudar sobre Revolução Industrial, era comum atrelar o nascimento das fábricas ao surgimento das máquinas. No entanto, o pesquisador e economista americano Stephan Marglin trouxe uma importante contribuição quando afirmou que o nascimento das fábricas não é decorrência da ascensão das máquinas, mas, sobretudo, porque os burgueses precisavam controlar o tempo e os corpos dos trabalhadores. A origem e o sucesso da fábrica não se explica por uma superioridade tecnológica, mas pelo fato dela despojar o operário de qualquer controle e de dar ao capitalista o poder de prescrever a natureza do trabalho e a quantidade a produzir. (Marglin, 1996, p. 41) Ou seja, Marglin defende que a adoção das fábricas é uma estratégia dos burgueses para lucrar mais, para ter um controle direto dos trabalhadores. Para tanto, era necessário, controle, disciplina, fiscalização e divisão do trabalho. Segundo ele, “não foi a fábrica a vapor que nos deu o capitalismo; foi o capitalismo que produziu a fábrica a vapor” (Marglin, 1996, p. 77) É importante salientar que, mesmo com o surgimento das máquinas, muitos trabalhadores ainda realizavam o trabalho de casa, o trabalho manual e doméstico ainda era necessário. Desse modo, ainda havia uma certa autonomia do trabalhador no controle do tempo e da produção. Daí então surgiu a necessidade do burguês de criar asfábricas, lugares nos quais os trabalhadores teriam horário, seriam vigiados em relação ao desperdício da matéria-prima, teriam seus corpos controlados a fim de aumentar a produção. Outro aspecto importante que merece destaque é a divisão de trabalho que foi uma estratégia dos burgueses de dominação. Cada trabalhador passou a realizar apenas uma parte específica da produção, perdendo o controle de todo o processo da produção da mercadoria. Assim, os trabalhadores se tornavam mais facilmente dispensáveis. No final do século XVIII e início do século XIX, observou-se o crescimento vertiginoso de fábricas por toda a Inglaterra, especialmente na região de Manchester. Essas primeiras fábricas apresentavam péssimas estruturas, o ambiente era insalubre, não havia nenhuma regulamentação de leis e direitos trabalhistas. A jornada de trabalho era extenuante, superando 12 horas diárias. Os salários eram baixíssimos. Abusos, maus tratos, acidentes de trabalho, exploração da mão de obra infantil faziam parte do dia a dia das fábricas. 15 O historiador Edward Thompson, pesquisador da classe trabalhadora e do mundo do trabalho, afirma, baseado em fontes históricas da época, que a primeira geração de trabalhadores das fábricas resistiu com afinco a se dobrar ao sistema fabril, faltavam ao trabalho, chegavam atrasados, bebiam antes de ir trabalhar, trabalhavam lentamente, conversavam e cantavam durante o trabalho. Foi necessário, portanto, um trabalho disciplinar árduo, envolvendo punições e descontos salariais para construir o perfil de trabalhador disciplinado, assíduo e responsável almejado pelos patrões. Muitos trabalhadores indignados com horrível situação das fábricas resolveram protestar, daí nasceu o movimento ludista, que consistia em invadir as fábricas e quebrar as máquinas. Os ludistas eram contrários à industrialização, alegavam que os homens foram substituídos pelas máquinas e que, portanto, o desemprego era culpa das máquinas. Figura 6 – Gravura da época, mostrando dois ludistas destruindo uma máquina de fiar, 1812 Crédito: Christopher Sunde-CC/PD. Depois, surgiu o cartismo, movimento que se tornou bastante popular na Inglaterra e que defendia que os trabalhadores deveriam participar da política, a fim de conquistar seus direitos. Assim, os cartistas pressionavam o Parlamento para conquistar melhores condições de vida. Paralelamente a isso, os trabalhadores formaram as Trades Unions, associações de trabalhadores para ajuda mútua. As Trades Unios tinham o objetivo de organizar as reivindicações dos profissionais de cada área. Foram essas associações que deram origens aos primeiros sindicatos. Desse modo, se 16 a primeira geração de trabalhadores resistiu as fábricas, a segunda geração lutou por leis trabalhistas. As primeiras leis trabalhistas, depois de muita luta do movimento de trabalhadores, surgiram somente em 1847, estipulando a jornada em 10 horas por dia. Em 1850, uma outra lei colocou o sábado depois das 14h e o domingo como dias de descanso. O sistema fabril não alterou somente o modo de produção e de trabalho, afetou a sociedade de diferentes maneiras, mudando as relações familiares, as relações de consumo, a relação do homem com a natureza, a relação do homem com o tempo. Nas sociedades pré-industriais o tempo era contado, medido e organizado em unção das tarefas que se deviam realizar, ou seja, ligava-se aos ritmos da natureza, como o dia e a noite, o período das chuvas e de secas, o fluxo das marés, as fases da Lua, época de semear e de colher etc. [...] Antes do aparecimento das fábricas, portanto, o relógio não era necessário”. (Decca; Meneguello, 1999, p. 34-35. O historiador Edgar de Deca destaca que a fábrica mudou a relação das pessoas com o tempo. O ditado popular “tempo é dinheiro” nasceu a partir desse momento. Simultaneamente aos horários das jornadas de trabalho, os relógios começaram a se popularizar. Como já mencionamos no decorrer do texto, as cidades também foram amplamente impactadas pela expansão das fábricas, pois cada vez mais havia uma massa de gente migrando do campo para a cidade em busca de empregos, gerando um “exercito” de desempregados. As cidades não estavam preparadas para essa demanda, assim havia ruas não pavimentadas, lixo por toda parte, casas minúsculas abarrotadas de gente, doenças, epidemias, baderna, furtos, violência. NA PRÁTICA Vimos dois importantes momentos da história contemporânea, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, e pudemos perceber que esses movimentos alteram profundamente a forma como as sociedades se organizam. A proposta então é que você desenvolva um mapa mental sobre as alterações mais importantes trazidas por ambas as revoluções. 17 FINALIZANDO As Revoluções Francesa e Industrial formataram a sociedade contemporânea: a Revolução Francesa trouxe importantes transformações políticas, na medida em que forneceu o vocabulário e os temas da política liberal e democrática para boa parte dos países ocidentais; a Revolução Industrial mudou a maneira de produção e, com isso, alterou o modo de vida e de trabalho da humanidade. Ressalta-se ainda que essas duas revoluções criaram o cenário ideal para a consolidação do capitalismo que já estava em curso. 18 REFERÊNCIAS DECLARAÇÃO dos Direitos do Homem e do Cidadão. AMBASSADE DE FRANCE AU BRÉSIL, 13 JAN. 2017. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2022. CHARTIER, R. As origens culturais da Revolução Francesa. São Paulo: Editora da Unesp, 2009. DECCA, E. de. MENEGUELLO, C. Fábrica e homens: a Revolução Industrial e cotidiano dos trabalhadores. São Paulo: Atual, 1999. HILL, C. O mundo de ponta-cabeça: Ideias radicais na Revolução Inglesa de 1640. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. HOBSBAWM, E. J. Da Revolução Industrial inglesa ao imperialismo. Rio de Janeiro: Forense, 2011. _____. A Era das Revoluções: Europa 1789 -1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. MARGLIN, S. Origem e funções do parcelamento das tarefas. Para que servem os patrões? In: GORZ, A. (org.). Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1996. MOLITERNO, S. (Ed.). 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