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1 RESPONSABILIDADE CIVIL – CARACTERÍSTICAS GERAIS E PRINCIPAIS MODALIDADES Material elaborado por Cícero Caldart Vieira como base da aula 12 da disciplina de Direito das Obrigações e Responsabilidade Civil, ULBRA Campus Torres / RS, Ano/Semestre: 2025/2. Obrigação, em linhas gerais, é o vínculo jurídico que confere ao credor o direito de exigir do devedor o cumprimento de uma obrigação específica. Quando este não cumpre a obrigação, ocorre o inadimplemento e faz surgir sua responsabilidade. A “responsabilidade civil é, pois, a consequência jurídica patrimonial do descumprimento da relação obrigacional1”. As obrigações podem surgir tanto do interesse das partes, através da manifestação unilateral (promessa) ou da manifestação bilateral (contrato); quanto da vontade da lei, através da expressa previsão legal (por exemplo, a obrigação alimentar do art. 1.694 do Código Civil2) ou da prática de um ato ilícito (arts. 1863 e 1874 do CCB/02). Seja qual for a fonte da obrigação, uma vez descumprida faz surgir a responsabilidade como consequência do inadimplemento. A responsabilidade civil sempre vem precedida de um dever jurídico originário, materializado numa obrigação preexistente, válida e devidamente constituída, chamada de dever jurídico primário. E é o descumprimento desse dever jurídico originário que faz surgir a responsabilidade, como um dever sucessivo. Ou seja, o inadimplemento de uma obrigação faz surgir outra, que é o dever de reparar o dano / prejuízo causado pelo descumprimento do dever originário. Portanto, enquanto a obrigação é entendida como um dever jurídico originário, a responsabilidade civil é um dever jurídico sucessivo, pois sucede o descumprimento do primeiro. Justamente por isso também é definida como um dever jurídico secundário. Sergio Cavalieri Filho diz que “responsabilidade civil é um dever jurídico sucessivo que surge para recompor o dano decorrente da violação de um dever jurídico originário5”. 1 GONÇAÇVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: Responsabilidade Civil. v.4. Editora Saraiva, São Paulo. 2019, pág. 21. 2 “Art. 1.694. Podem os parentes, os cônjuges ou companheiros pedir uns aos outros os alimentos de que necessitem para viver de modo compatível com a sua condição social, inclusive para atender às necessidades de sua educação”. 3 “Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”. 4 “Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes”. 5 CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de Responsabilidade Civil. 16 ed. rev. atual e ampl. Editora Atlas, Rio de Janeiro. 2023, pág. 12. 2 RESPONSABILIDADE CIVIL CONTRATUAL E EXTRACONTRATUAL A responsabilidade civil tem por função reparar um dano decorrente do descumprimento de uma obrigação. Portanto, o inadimplemento é tratado como um ilícito, que pode ser tanto esfera contratual quanto extracontratual. O descumprimento de uma obrigação estipulada entre partes configura o ilícito contratual, enquanto o descumprimento de uma obrigação prevista em lei configura um ilícito extracontratual. Portanto, o ato ilícito é marcado como a violação de um dever jurídico, seja contratual ou legal. O descumprimento de uma obrigação estipulada entre as partes implica no chamado ilícito contratual e faz surgir a dita responsabilidade contratual. O art. 3896 do Código Civil se encarregou de fixar os limites da responsabilidade patrimonial pelo inadimplemento absoluto (quando o cumprimento da obrigação não é mais possível ou útil ao credor), enquanto o art. 3957 do Código Civil se encarregou de fixar a responsabilidade patrimonial pelo inadimplemento relativo (mora). Não se pretende esmiuçar todos os efeitos e características da responsabilidade contratual, pois já foi alvo de aulas anteriores. Neste momento, basta compreender que a responsabilidade contratual decorre do descumprimento de uma obrigação assumida voluntariamente pelas partes, através da manifestação de vontade e traz consigo a possibilidade de o inadimplente ter de arcar com perdas e danos (danos emergentes e lucros cessantes); juros (rendimento pelo capital); correção monetária (reposição da desvalorização da moeda); honorários advocatícios e cláusula penal (multa contratual), além de todo e qualquer prejuízo que o inadimplemento tenha gerado ao credor. Quando a responsabilidade não decorrer do descumprimento do contrato, ela será denominada de extracontratual, que é aquela que acontece pela violação de um dever legal. Seja o inadimplemento de uma obrigação prevista em Lei (caso do genitor que não paga os alimentos) ou pela prática de um ato ilícito, já que aquele que, por culpa ou dolo, causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo na forma do art. 9278 do Código Civil. Portanto, a responsabilidade extracontratual deriva do descumprimento de um dever legal, motivo pelo qual é igualmente denominada de responsabilidade aquiliana. 6 “Art. 389. Não cumprida a obrigação, responde o devedor por perdas e danos, mais juros, atualização monetária e honorários de advogado” 7 “Art. 395. Responde o devedor pelos prejuízos a que sua mora der causa, mais juros, atualização dos valores monetários e honorários de advogado”. 8 “Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo”. 3 RESPONSABILIDADE CIVIL E PENAL Ilicitude, de forma ampla, deve ser compreendida como uma conduta contrária a uma norma jurídica. Por isso, o ato ilícito não é uma figura exclusiva de qualquer área do direito, podendo se verificar tanto na esfera cível quanto na penal e na administrativa. Será classificado de acordo com a norma jurídica que impõe o dever violado. Na ilicitude civil o agente causador do dano infringe uma norma de direito privado, regulado pelo Código Civil e Legislações diversas. A conduta atinge bens sociais tidos “menos graves”, passíveis de reparação entre os indivíduos da relação particular, seja através do pagamento em dinheiro ou através de obrigações de dar, de fazer ou de não fazer. Implica na responsabilização patrimonial como forma coercitiva para compensação do dano e, ao mesmo tempo, impor uma punição ao infrator visando coibir novos ilícitos. Na ilicitude penal o agente causador do dano viola uma norma que tem natureza de direito público, regulado pelo Código Penal e Legislações diversas. Nesses casos atinge bens sociais mais relevantes e permite maior intervenção do Estado, inclusive, com a privação e restrição de liberdade e direitos. Mesmo que também nutra a intenção reparatória, a natureza da responsabilização é social e pública, como consequência da gravidade do bem social atingido. Em determinadas situações a mesma conduta pode violar ambas as normas. Caso do motorista que, por negligência ou imprudência, atropela e mata um ciclista. Essa ação culposa do motorista faz surgir, ao mesmo tempo, a obrigação de reparar os danos aos dependentes da vítima e também implica numa pena de detenção de 01 a 03 anos pelo crime de homicídio culposo (art. 121, §3º, Código Penal9). Na sua essência, o que diferencia a responsabilidade civil da penal é a norma jurídica violada, pois o ato ilícito pode ocorrer tanto numa quanto noutra esfera do direito. Igualmente, as possíveis consequências, pois no caso de responsabilidade civil, com exceção da prisão por alimentos (§3° do art. 528 do CPC10), as medidas coercitivas do Estado têm cunho patrimonial e visam reparar o particular, enquanto na penal visam satisfazer necessidades da sociedade, autorizando a privação / restrição de liberdade. 9 “Art. 121. Matar alguem: (...) §3º Se o homicídio éculposo: Pena - detenção, de um a três anos”. 10 “Art. 528. No cumprimento de sentença que condene ao pagamento de prestação alimentícia ou de decisão interlocutória que fixe alimentos, o juiz, a requerimento do exequente, mandará intimar o executado pessoalmente para, em 3 (três) dias, pagar o débito, provar que o fez ou justificar a impossibilidade de efetuá-lo. (...) §3º Se o executado não pagar ou se a justificativa apresentada não for aceita, o juiz, além de mandar protestar o pronunciamento judicial na forma do § 1º, decretar-lhe-á a prisão pelo prazo de 1 (um) a 3 (três) meses”. 4 TRÍADE SUSTENTADORA DA RESPONSABILIDADE CIVIL Da simples leitura do art. 927 do Código Civil se verifica que existem três elementos indispensáveis para a caracterização de toda e qualquer responsabilidade civil, quais sejam: (1) ato ilícito; (2) dano e (3) nexo causal. A definição do ato ilícito vem expressa nos arts. 186 e 187 do Código Civil. O primeiro (art. 186), estipula que os atos ilícitos podem decorrer tanto de uma ação (conduta positiva) quanto de uma omissão (conduta negativa). Pontes de Miranda11 ensinou que "a abstenção, omissão, ou ato negativo, também pode ser causa de dano. Se o ato cuja prática teria impedido, ou, pelo menos, teria grande probabilidade de impedir o dano, foi omitido, responde o omitente". Sergio Cavalieri Filho12, por sua vez, sustenta que a omissão "como pura atividade negativa, a rigor não pode gerar física ou materialmente o dano sofrido pelo lesado, porquanto do nada provém. Mas tem-se entendido que a omissão adquire relevância jurídica, e torna o omitente responsável, quando este tem dever jurídico de agir, de praticar um ato para impedir o resultado". Portanto, o ato ilícito se configura por uma ação e também por uma omissão, desde que juridicamente possível exigir da parte uma iniciativa para tentar evitar o dano. Essa ação e omissão pode decorrer de atos de negligência, que acontecem quando determinada pessoa deixa de adotar os cuidados necessários. Através de uma ação ou omissão negligente, alguém causa dano a outrem e, por isso, ficará obrigado a repará-lo. Caso do motorista que não atenta para o trânsito e invade a via preferencial causando um acidente, bem como o caso de um médico plantonista que não pede um exame necessário para o correto diagnóstico e, por isso, incorre em erro médico. A negligência na conduta do motorista e do médico é que gera a ilicitude. O ato ilícito também pode decorrer de uma imprudência, ou seja, quando se ignora possíveis riscos inerentes à conduta. Por isso, se através de uma ação ou omissão imprudente, alguém causar dano a outrem, ficará obrigado a repará-lo. Caso do motorista que dirige em alta velocidade e causa um acidente. Dirigir em alta velocidade é uma conduta imprudente que configura a ilicitude do agir. 11 PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de direito privado: parte especial. Tomo XXII. Direito das obrigações: obrigações e suas espécies. Fontes e espécies de obrigações. Rio de Janeiro: Borsoi, 1958. p. 193 e ss. 12 CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de responsabilidade civil. 11ª ed. São Paulo: Atlas, 2014. p. 38 e ss. 5 O ato ilícito também pode decorrer de uma imperícia, a qual está relacionada a inaptidão e/ou incapacidade técnica, como no caso do motorista que não possui carteira para dirigir caminhão e causa um acidente, ficando obrigado a repará-lo. A falta de habilitação específica faz presumir a incapacidade técnica do motorista e configura a ilicitude do agir. Enfim, toda a responsabilidade extracontratual é precedida do ato ilícito, o qual se deve considerar como aquele que decorre de negligência, imperícia ou imprudência, na forma do art. 186 do Código Civil. Contudo, o art. 187 do mesmo Diploma Civilístico também estipula o abuso de direito como caracterizador do ato ilícito. Pois bem, o abuso de direito está relacionado a um excesso no exercício de um direito legítimo. Inicialmente a conduta não é considerada ilícita. Na origem, o indivíduo possui o direito, mas se excede ao exercê-lo. Esse abuso pode se caracterizar tanto pelo uso excessivo, quanto pelo uso inadequado do direito. Por exemplo, o proprietário de um imóvel que resolve construir um muro muito alto, fora dos padrões, tão somente para bloquear o sol no imóvel do vizinho, bem como o caso do indivíduo que distribui uma ação sabendo ser infundada, apenas com a finalidade de intimidar ou onerar a outra parte. Em quaisquer desses exemplos, tanto no direito de construção quanto no direito de ação, a finalidade e o excesso é que tornam o ato ilícito. O proprietário tem o direito de construir, contudo o excesso visando prejudicar vizinho é que pode tornar o ato ilícito. O indivíduo tem o direito constitucional de ação, todavia, sua finalidade infundada e abusiva é que pode tornar o ato ilícito. Em suma, o abuso de direito também configura ato ilícito hábil a ensejar a responsabilidade civil. Todavia, não basta a ocorrência do ato ilícito, o art. 927 do Código Civil deixa claro que esse ato ou omissão deve causar dano a outrem. O dano é um elemento indispensável para a responsabilidade civil. Esse dano pode se dar tanto na modalidade de dano material, consistente nos danos emergentes e lucros cessantes. Entretanto, também podem se dar através do dano moral, que é aquele que atinge os atributos de personalidade e o psicológico do ofendido, bem como na modalidade de dano estético, que é aquele decorrente de uma deformação física, dano relacionado ao sentir-se bem consigo mesmo, com sua imagem, que leva em consideração a modificação ocorrida no aspecto físico. 6 Modalidade relevante de dano é o chamado dano in ré ipsa, que nada mais é do que o dano presumido. A regra é que o dano deve ser provado porque quem o alega, ou seja, o ofendido deve provar o dano suportado pelo ilícito. No entanto, existem situações onde o dano é presumido, caso, por exemplo, do registro negativo do nome nos órgãos de proteção de crédito, onde há presunção de prejuízo moral pela perda do crédito, que é incontestadamente necessário para os atos da vida civil. Por isso, desnecessário fazer prova do abalo moral. Outro exemplo é a morte, cujo prejuízo moral suportado pela perda da convivência de um ente querido é presumido e não demanda prova. Em ambos os exemplos (perda de crédito e de ente querido), o dano é presumido e não precisa ser provado, configurando o chamado dano moral in re ipsa. Ainda assim, não basta o ato ilícito e dano para a responsabilização civil. É indispensável que o dano tenha, necessariamente, advindo de um ilícito, ou seja, que o dano seja uma consequência direta e imediata do ato ilícito. É requisito que haja nexo causal entre o ato ilícito e o dano, que exista uma relação da causa e efeito entre a ação ou omissão e o dano causado. O nexo causal é, portanto, o elo de ligação entre o ilícito e o dano. RESPONSABILIDADE CIVIL SUBJETIVA E OBJETIVA A responsabilidade civil também pode ser classificada em subjetiva e objetiva. A subjetiva é a regra geral porque nessa modalidade se exige a demonstração de uma conduta culpável, ou seja, que o causador do dano teve culpa na ocorrência do dano. Washington de Barros Monteiro13 esclarece que na modalidade subjetiva, o agente causador do dano responde sempre que tiver culpa lato sensu, que é aquela que exige tanto o dolo quanto a culpa stricto sensu, também chamada de culpa aquiliana , consistente na violação de um dever que o agente conhecia ou devia conhecer, segundo os padrões de comportamento médio. Portanto, nessa modalidade de responsabilidade civil se exige a presença da chamada tríade sustentadora da responsabilidade civil acrescida do elemento culpa. Isso significa que a parte deverá demonstrar que houve um ilícito, um dano e o nexo entre eles, mas também que houveculpa em sentido estrito ou dolo do agente. Por exemplo, se um suicida se atira na frente do veículo que estava transitando na via preferencial, ainda que o evento morte seja uma consequência do acidente, o motorista não pode ser responsabilizado porque não agiu com culpa para a ocorrência do sinistro. 13 MONTEIRO. Washington de Barros, curso. cit., p. 375, n. 256. 7 Já a responsabilidade civil objetiva é a exceção, pois nessa modalidade não se exige a demonstração do elemento culpa, apenas a tríade sustentadora da responsabilidade civil: o ato ilícito, o dano e o nexo causal. Isso significa que para a responsabilização basta provar que o dano adveio de uma ação ou omissão imputável ao agente, independentemente de sua culpa. Até por suas características, trata-se da exceção. Apenas certas pessoas e em determinadas situações podem ser responsabilizadas objetivamente. O parágrafo único do art. 927 do Código Civil14 deixa claro que a responsabilidade civil decorre tanto da expressa previsão legal quanto do risco inerente a determinada atividade. Como exemplo de responsabilidade objetiva por previsão legal, cita-se a responsabilidade do dono ou detentor do animal (art. 93615 do CCB); ou; a responsabilidade por objetos que caírem ou forem lançados de prédio (art. 93816 do CCB). Por sua vez, como exemplo de responsabilidade objetiva pelo risco da atividade, o transportador responde pelos prejuízos causados em caso de acidentes de trânsito, mesmo que não tenha culpa pelo sinistro (art. 73417 do CCB). RESPONSABILIDADE CIVIL SOLIDÁRIA E SUBSIDIÁRIA Existem situações onde há possibilidade de responsabilizar mais de uma pessoa pelo mesmo ato ou fato. Nestes casos, a responsabilidade poderá ser solidária ou subsidiária. Em ambos, verifica-se uma pluralidade de partes, mas cada uma com características distintas. Em linhas bem gerais, será solidária quando existir responsabilidades iguais de todos os devedores sobre uma única dívida ou obrigação, bem como quando existir direitos iguais de todos os credores receberem a integralidade da obrigação. A solidariedade não se presume, mas decorre da Lei ou da expressa previsão contratual, conforme expresso no art. 26418 do Código Civil. 14 “Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo. Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem. 15 “Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não provar culpa da vítima ou força maior. 16 “Art. 938. Aquele que habitar prédio, ou parte dele, responde pelo dano proveniente das coisas que dele caírem ou forem lançadas em lugar indevido”. 17 “Art. 734. O transportador responde pelos danos causados às pessoas transportadas e suas bagagens, salvo motivo de força maior, sendo nula qualquer cláusula excludente da responsabilidade”. 18 “Art. 264. Há solidariedade, quando na mesma obrigação concorre mais de um credor, ou mais de um devedor, cada um com direito, ou obrigado, à dívida toda”. 8 Em contrapartida, na responsabilidade civil subsidiária também existe pluralidade de partes, mas há a figura de um devedor principal e o credor deve acioná- lo primeiro. Tem caráter acessório ou suplementar, porque existe uma ordem a ser observada. Primeiro o credor exige o cumprimento da obrigação do devedor principal, para depois do(s) subsidiário(s). Como exemplo de responsabilidade subsidiária, pode- se citar a responsabilidade do Ente Público, enquanto tomador de serviço, pelo cumprimento das obrigações trabalhistas das empresas que lhe prestam serviços, na forma dos incisos V e VI da sumula 33119 do TST. EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE Por fim, importante saber que existem situações que, por suas características, se retira a ilicitude da conduta e/ou se quebra o nexo causal, de forma a afastar o dever de reparar. Por isso, essas situações são chamadas de excludentes de responsabilidade. A primeira modalidade de excludente de responsabilidade são aquelas que afastam a ilicitude da ação ou omissão. Condutas que, mesmo que causem dano a outrem, não são consideradas ilícitas, estando expressamente previstas no art. 188 do Código Civil. A primeira modalidade de excludente da ilicitude é a legítima defesa, prevista na primeira parte do inciso I do art. 188 do Código Civil20. Ocorre quando alguém repele uma agressão de forma proporcional uma injusta, atual e iminente. 19 “CONTRATO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. LEGALIDADE. I - A contratação de trabalhadores por empresa interposta é ilegal, formando-se o vínculo diretamente com o tomador dos serviços, salvo no caso de trabalho temporário (Lei nº 6.019, de 03.01.1974). II - A contratação irregular de trabalhador, mediante empresa interposta, não gera vínculo de emprego com os órgãos da Administração Pública direta, indireta ou fundacional (art. 37, II, da CF/1988). III - Não forma vínculo de emprego com o tomador a contratação de serviços de vigilância (Lei nº 7.102, de 20.06.1983) e de conservação e limpeza, bem como a de serviços especializados ligados à atividade-meio do tomador, desde que inexistente a pessoalidade e a subordinação direta. IV - O inadimplemento das obrigações trabalhistas, por parte do empregador, implica a responsabilidade subsidiária do tomador dos serviços quanto àquelas obrigações, desde que haja participado da relação processual e conste também do título executivo judicial. V - Os entes integrantes da Administração Pública direta e indireta respondem subsidiariamente, nas mesmas condições do item IV, caso evidenciada a sua conduta culposa no cumprimento das obrigações da Lei n.º 8.666, de 21.06.1993, especialmente na fiscalização do cumprimento das obrigações contratuais e legais da prestadora de serviço como empregadora. A aludida responsabilidade não decorre de mero inadimplemento das obrigações trabalhistas assumidas pela empresa regularmente contratada. VI - A responsabilidade subsidiária do tomador de serviços abrange todas as verbas decorrentes da condenação referentes ao período da prestação laboral. Observação: (nova redação do item IV e inseridos os itens V e VI à redação) - Res. 174/2011, DEJT divulgado em 27, 30 e 31.05.2011”. 20 “Art. 188. Não constituem atos ilícitos: I - os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido; 9 A ação será injusta de forma a autorizar a legitima defesa quando a agressão não é amparada no direito, como no exemplo de alguém que quer agredir outro com uma faca depois de uma discussão. Mas se a agressão for lícita, não há legitima defesa, como no caso do policial que age com o uso progressivo da força para conter uma ocorrência. A ação ser atual quando a agressão está ocorrendo no exato momento da reação que causou o dano, pois se a agressão ou ameaça já cessou, não há legitima defesa, mas sim vingança. Por fim, a ação será iminente quando está prestes a ocorrer e, se nada for feito, o indivíduo sofrerá a agressão ou sua continuação, como no caso de alguém que está levantando o facão e prestes a agredir outro. A segunda modalidade de excludente da ilicitude é o exercício regular de um direito, previsto na segunda parte do inciso I do art. 188 do Código Civil21. Ocorre quando alguém causa dano, mas age amparado por um direito legal, contratual ou moralmente legítimo. Caso do proprietário que corta galhos de árvore do vizinho que invade seu imóvel (árvores limítrofes), agindo com base na permissão do art. 1.28322 do Código Civil. A terceira modalidade de excludente da ilicitude é chamada de estado de necessidade, prevista no inciso II do art. 188 do Código Civil23. Ocorrerá sempre que alguém gerar um dano parasalvar direito próprio ou alheio de perigo atual, como no exemplo do indivíduo quebra o vidro de um carro de outrem para salvar uma criança ou animal trancado no calor. Sempre importante chamar a atenção para o fato de que, para configurar excludente de ilicitude, a situação de perigo não pode ter sido gerada pelo causador do dano, bem como que “o ato será legítimo somente quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário, não excedendo os limites do indispensável para a remoção do perigo”, conforme expresso no parágrafo único do mesmo art. 188 do Código Civil. A legitima defesa, o exercício regular de um direito e o estado de necessidade retiram a ilicitude do agir e, por isso, mesmo que causarem dano, não são passíveis de responsabilização. Contudo, também existem situações que evitam a responsabilização por quebrarem o nexo causal entre o dano e a agir. 21 “Art. 188. Não constituem atos ilícitos: I - os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido; 22 “Art. 1.283. As raízes e os ramos de árvore, que ultrapassarem a estrema do prédio, poderão ser cortados, até o plano vertical divisório, pelo proprietário do terreno invadido”. 23 “Art. 188. Não constituem atos ilícitos: (...). II - a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fim de remover perigo iminente. 10 A primeira modalidade de excludente de nexo causal é a culpa exclusiva da vítima. Em suma, situações onde a culpa pela ocorrência do dano é atribuível apenas à vítima, ou seja, situações onde, por mais que tenha ocorrido um ato danoso, a culpa do resultado é exclusiva da própria vítima. Caso, por exemplo, do suicida que se atira na frente de um veículo que estava transitando na via preferencial. Nesse caso, ainda que o evento morte seja uma consequência do acidente, o motorista não poderá ser responsabilizado porque não houve culpa. A segunda excludente de responsabilidade por quebra no nexo causal aceita pelo ordenamento jurídico envolve o fato exclusivo de terceiro. Terceiro é uma pessoa estranha ao binômio “agressor e vítima”, qualquer pessoa que não guarde um vínculo jurídico com o suposto agressor. Portanto, terceiro cuja conduta é o fato determinante entre o ato tido por ilícito e evento danoso. A conduta do terceiro é que quebra o nexo causal e retira a culpa do aparente agressor, afastando o dever de reparar. Por exemplo, no caso de um ciclista caiu num buraco da via, aberto por uma empresa de construção, e acabou rolando e atropelado por um ônibus. Por mais que o motorista ou a empresa de ônibus sejam quem de fato atropelou, o acidente ocorreu em razão da negligência da construtora que deixou o buraco aberto, causando a queda do ciclista na pista de rolamento. A terceira excludente de responsabilidade por quebra no nexo causal envolve os chamados força maior e caso fortuito. Não uniformidade em relação à distinção entre ambos e o Código Civil trata deles de forma conjunta, sem distinção de efeitos ou consequências. Por isso, cabível e até mesmo aconselhável que sejam tratadas em conjunto. De regra geral, força maior são eventos extraordinários, imprevisíveis e inevitáveis, normalmente relacionados a eventos naturais, mas não apenas a eles. Por exemplo, desastres naturais como enchentes e furacões, guerras, epidemias e pandemias, dentre outros. Caso fortuito também envolvem eventos imprevisíveis e inevitáveis, mas não necessariamente extraordinários. Podem ocorrer de forma mais usual, porque de regra estão relacionadas ao comportamento humano, como no caso do encerramento da produção de uma peça especifica de um eletrônico, acidentes de trânsito e/ou problemas técnicos no e-proc que impede o protocolo de uma petição, dentre outros. 11 São situações que, como determina o parágrafo único do art. 39324 do código civil, além de extraordinárias e imprevisíveis, seus efeitos não poderiam ser evitados ou impedidos. Ainda que tratado na parte das obrigações, o conceito e aplicação é a mesma no caso de responsabilidade civil, ou seja, excluir a responsabilidade patrimonial pela reparação do dano. 24 “Art. 393. O devedor não responde pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força maior, se expressamente não se houver por eles responsabilizado. Parágrafo único. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário, cujos efeitos não era possível evitar ou impedir”.