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CENTRO UNIVERSITÁRIO FAVENI DESENVOLVIMENTO EXPRESSIVO INFANTO- JUVENIL E PROCESSOS EDUCATIVOS GUARULHOS – SP 2 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 5 2 A ARTE NA EDUCAÇÃO INFANTIL ....................................................................... 6 2.1 Fundamentos da educação em arte ................................................................. 8 3 A ARTE COMO FERRAMENTA PEDAGÓGICA .................................................. 11 3.1 A arte na cultura e no contexto histórico-social .............................................. 13 3.2 Relações entre a educação estética e a educação artística ........................... 16 4 A LINGUAGEM CORPORAL EXPRESSA EM MOVIMENTOS E BRINCADEIRAS DAS CRIANÇAS ....................................................................................................... 20 4.1 Movimentos e expressão corporal por meio de brincadeiras .......................... 20 4.2 Importância do corpo nas brincadeiras e aprendizagens das crianças .......... 23 4.3 Emoções expressas nas brincadeiras por meio das expressões corporais .... 25 5 O DESENVOLVIMENTO EXPRESSIVO INFANTO-JUVENIL .............................. 27 5.1 Estágios do desenho segundo Luquet ............................................................ 28 5.1.1 Realismo Fortuito ....................................................................... 28 5.1.2 Realismo falhado (incapacidade sintética) .............................. 31 5.1.3 Realismo Intelectual ................................................................... 34 5.1.4 Realismo Visual .......................................................................... 35 5.2 Estágios do desenho segundo Piaget ............................................................ 37 5.2.1 Garatuja ....................................................................................... 37 5.2.2 Pré- Esquematismo .................................................................... 37 5.2.3 Esquematismo ............................................................................ 37 5.2.4 Realismo ..................................................................................... 38 5.2.5 Pseudo Naturalismo ................................................................... 38 5.3 Estágios do desenho segundo Vygotsky ........................................................ 38 5.3.1 Etapa simbólica .......................................................................... 40 5.3.2 Etapa simbólico-formalista ........................................................ 40 3 5.3.3 Etapa formalista veraz ............................................................... 40 5.3.4 Etapa formalista plástica ........................................................... 40 6 A ESCOLA E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL ............................................... 41 6.1 O desenvolvimento físico, emocional e cognitivo escolar ............................... 42 6.2 Psicologia do desenvolvimento e educação ................................................... 44 7 A IMAGINAÇÃO NO DESENVOLVIMENTO EXPRESSIVO ................................. 46 8 A IMPORTÂNCIA DA MÚSICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL ................................. 48 9 A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA NO DESENVOLVIMENTO EXPRESSIVO INFANTO-JUVENIL ................................................................................................... 54 9.1 A imaginação, a fantasia e a literatura infantil ................................................ 56 9.2 Literatura e processos educativos .................................................................. 58 10 DESENVOLVIMENTO DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO ......................... 60 10.1 Reflexão acerca do alfabetizar letrando.......................................................... 62 10.2 A importância do trabalho com textos para o desenvolvimento da criança .... 65 11 HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO INFANTIL NO BRASIL .......................................... 67 11.1 O legado histórico sobre o cuidar e o educar na educação infantil ................. 69 12 O PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO NA PRIMEIRA INFÂNCIA ................. 71 12.1 Desenvolvimento físico-motor ......................................................................... 72 12.2 Desenvolvimento cognitivo ............................................................................. 73 12.3 Desenvolvimento psicossocial ........................................................................ 74 13 DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA, O CONTEXTO DE CRECHE E O PAPEL DO EDUCADOR DE INFÂNCIA ...................................................................................... 76 14 EDUCAÇÃO INFANTIL NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA ........................... 79 15 A CONTEMPORANEIDADE E O FAZER PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO INFANTIL .................................................................................................................. 83 15.1 O lúdico na educação ..................................................................................... 86 15.2 A arte na educação infantil e no ensino fundamental segundo a BNCC ........ 89 15.3 O Papel da família e da escola na infância ..................................................... 91 4 REFÊRENCIAS ......................................................................................................... 94 5 1 INTRODUÇÃO Prezado aluno! O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 6 2 A ARTE NA EDUCAÇÃO INFANTIL A criança, desde que nasce, depara-se com um repertório de símbolos e significados construídos pelas gerações que a precederam e, participando das práticas culturais do seu grupo, reconstrói os significados do mundo físico, psicológico, social, estético e cultural. O mundo simbólico será conhecido e ressignificado no convívio e acesso aos jeitos de pensar e fazer e aos códigos, entre eles os códigos da Arte. [...] é na cotidianidade que os conceitos sociais e culturais são construídos pela criança, por exemplo, os de gostar, desgostar, de beleza, feiura, entre outros. Esta elaboração se faz de maneira ativa, a criança interagindo vivamente com pessoas e sua ambiência (FERRAZ; FUSARI, 1993, p. 42). A organização de sentidos para esse mundo simbólico, à disposição das crianças, é um ato criador ao mesmo tempo individual e coletivo. Ao reconstruir os sentidos das experiências para si, a criança articula as experiências externas às suas possibilidades de percepção e leitura de mundo. Neste sentido, não apenas reproduz o que percebe, mas cria outros sentidos, usa a imaginação para preencher os vazios de sua leitura de mundo, articulando significados própriospara o que observa e percebe. Interage com manifestações artísticas, estéticas e comunicativas do ambiente e, nessa interação, entra em contato com o contexto social e cultural que permeia a estruturação do senso estético. Queiramos ou não, é evidente que a criança já vivencia a Arte produzida pelos adultos, presente em seu cotidiano. É óbvio que essa Arte exerce vivas influências estéticas na criança. É óbvio, também, que a criança com ela interage de diversas maneiras (FERRAZ; FUSARI, 1993, p. 43). Naturalmente, as crianças entram em contato com o mundo sensível, agindo sobre ele com afeto, cognição, motricidade; e constroem para si um repertório perceptivo de formas, cores, texturas, sabores, gestos e sons, atribuindo a este mundo, sentidos e organizações diferentes. O professor deve considerar essas significações já construídas e colocar o desafio de construir outras. A expressividade infantil implica na construção de formas de linguagem e comunicação exercidas no processo de socialização. Atuando expressivamente é que a criança aprende e vivencia formas de ser e de estar no mundo humano. 7 O desenvolvimento dessa expressão infantil acontece junto com seu desenvolvimento afetivo, perceptivo e intelectual e resulta do exercício de conhecimento de mundo. Exercício esse de construir noções a partir das suas experiências sensoriais e/ou corporais. A vivência do mundo simbólico e a ampliação das experiências perceptivas que fornecem elementos para a representação infantil dão-se no contato com o outro. O professor pode, através do trabalho com o aprimoramento das potencialidades perceptivas, enriquecer as experiências das crianças de conhecimento artístico e estético e isto se dá quando elas são orientadas para observar, ver, tocar, perceber as coisas, a natureza e os objetos à sua volta. [...] durante as criações ou fazendo atividades de seu dia a dia, as crianças vão aprendendo a perceber os atributos constitutivos dos objetos ou fenômenos á sua volta. Aprendem a nomear esses objetos, sua utilidade seus aspectos formais (tais como linha, volume, cor, tamanho, textura, entre outros) ou qualidades, funções, entre outros... Para que isso ocorra é necessário a colaboração do outro – pais, professoras, entre outros - sozinha ela nem sempre consegue atingir as diferenciações, muitas vezes sua atenção é dirigida às características não - essenciais e sim às mais destacadas dos objetos ou imagens, como por exemplo, as mais brilhantes, mais coloridas, mais estranhas... (FERRAZ; FUSARI, 1993, p. 49). Nesse sentido as crianças criam, experimentam, vivenciam o tempo todo, interagindo com a arte de forma implícita, portanto é importante a troca com o outro para que possa diferenciar e perceber características essenciais do processo de criação. Fonte: https://novaescola.org.br/ 8 2.1 Fundamentos da educação em arte Pensar sobre a arte na educação nos tempos atuais parece urgente, principalmente quando percebemos que a escola e, em particular, os currículos escolares, parecem estar sendo pautados por uma lógica que privilegia a racionalidade do mercado, do mundo do trabalho, negligenciando outras questões igualmente importantes para o desenvolvimento pleno do ser humano. Para o poeta Rubem Alves (1988, p. 11), a educação como um todo deveria se fundamentar nos princípios estéticos da arte: Seria compreensível e mesmo defensável um apelo para que os valores estéticos fossem incluídos em nossos currículos. Ninguém negaria que a beleza tenha sido deles banida de forma espantosamente radical. Por boas razões, é claro. Afinal de contas, a sensibilidade artística parece não oferecer contribuição alguma, seja ao desenvolvimento, seja à segurança do país... Bem diz o ditado popular que “beleza não se põe na mesa”. Claro que coisas úteis são mais importantes do que coisas belas. Mas mesmo o mais endurecido materialista estaria disposto a concordar que a arte, às vezes, tem certa utilidade De forma poética, irônica e desafiadora, o autor procura apontar questões importantes a respeito da arte e do confronto entre a utilidade e a estética na educação. Dessa forma, podemos entender que a arte sempre esteve presente na vida das pessoas, reconfigurando-se a cada momento histórico, uma vez que esta é produto da cultura humana. Assim, iniciaremos nosso capítulo aprendendo sobre dois importantes pontos que devem fundamentar a educação em de arte: fundamentos estéticos e artísticos. Ao acompanharmos o estudo da arte em paralelo à evolução humana, percebemos que esta serve para as mais diversificadas funções, desde a simples expressão de vivências e anseios, associada a tarefas pedagógicas, à apreciação religiosa, à distinção de classes sociais pelo seu acesso, até o puro deleite que proporciona àquele que a observa ou a vivencia. Portanto, podemos constatar que a manifestação artística em suas várias possibilidades propicia um encontro estético, no qual o ser humano pode refletir a respeito do belo, produzindo, pela percepção, seu próprio conceito sobre a produção do artista. De acordo com Chauí (2010, p. 411): Estética é a tradução da palavra grega aesthesis, que significa conhecimento sensorial, experiência, sensibilidade. Foi empregada pela primeira vez pelo alemão Baumgarten, por volta de 1750. Em seu uso inicial referia-se ao 9 estudo das obras de arte enquanto criações de sensibilidade, tendo como finalidade o belo. Pouco a pouco, substituiu a noção de arte poética e passou a designar toda a ação filosófica que tenha por objetivo as artes ou uma arte. Do lado do artista e da obra, busca-se a realização da beleza; do lado do espectador e receptor, busca-se a reação sob a forma do juízo de gosto, do bom gosto. De acordo com as ideias da autora, ao propormos a educação na escola, fundamentando-a pela lógica da estética, devemos proporcionar aos alunos experiências sensoriais para que possam desenvolver sua sensibilidade em relação às manifestações artísticas que lhes rodeiam. É importante destacar que, na contemporaneidade, a questão estética transcende o conceito de belo, pois, em alguns casos, este pode não fazer parte da concepção de um artista. A arte provoca emoções, suscita desejos, combate ou milita em questões de cunho social, entre outros. Como já mencionado, ao abordarmos a estética, o foco se volta para a questão da experiência sensorial a ser vivenciada pelo espectador que, a partir desta, irá produzir seus próprios juízos. Essa experiência estética sensorial costuma se relacionar ao conceito de fruição, que significa desfrutar da expressão artística, apreciar a arte e seu criador. Atualmente, os fundamentos da estética na educação em arte também procuram se conectar com questões da realidade social dos alunos, propondo que a partir de oportunidades de interpretação das múltiplas linguagens artísticas eles possam romper com os padrões da vida cotidiana. Ao abordar estas questões, Ferraz e Fusari (2010, p. 54) complementam que “[...] o estético em arte diz respeito, dentre outros aspectos, à compreensão sensível-cognitiva do objeto artístico inserido em um determinado tempo/espaço sociocultural. Todavia, a experiência estética pode ser mais ampla e não necessariamente derivada da arte [...]”. Portanto, podemos vivenciar manifestações estéticas por meio de fenômenos da natureza, como o canto dos pássaros, o pôr do sol, as copas das árvores floridas, etc., de acordo com nosso nível de sensibilidade. Canclini (1980) alerta para a existência de uma mediação entre as produções artísticas e o meio social, que procura definir o que pode ser considerado arte ou produção artística em cada época, de acordo com categorias estéticas que sejam legitimadas e vigentes. Podemos entender que a produção artística está diretamente relacionada aos padrões estéticos estabelecidos socialmente,sendo, assim, produto da cultura da sociedade. Por essa razão é importante que, no contexto escolar, os 10 professores de artes possibilitem o estudo a respeito da vida e da contextualização social e histórica de cada autor, procurando entender como estes fatos implicam em suas obras. A Figura a seguir serve como ilustração para a importância da combinação de aspectos estéticos, sensoriais e conhecimentos artísticos em sala de aula. Fonte: Poznyakov/Shutterstock.com Com relação aos fundamentos artísticos que envolvem a educação em arte, devemos compreender que “[...] a concepção de artístico relaciona-se diretamente com o ato de criação da obra de arte, desde as primeiras elaborações de formalização dessas obras até em seu contato com o público [...]” (FERRAZ; FUSARI, 2010, p. 56). Neste aspecto, os professores deverão proporcionar experiências para que os alunos possam exercer sua autoria nas linguagens artísticas que estão aprendendo, seja em artes visuais, dança, música ou teatro. Esta atividade exige planejamento, uma vez que, segundo Ferraz e Fusari (2010, p. 56), “[...] o fazer artístico (a criação) é a mobilização de ações que resultam em construções de formas novas a partir da natureza e da cultura; é ainda o resultado de expressões imaginativas, provenientes de sínteses emocionais e cognitivas [...]”. Portanto, produzir arte na escola (e em qualquer outro espaço) trabalha tanto com a inteligência emocional quanto a capacidade cognitiva do aluno. Os fundamentos da educação em arte devem ser pautados no conhecimento das principais etapas do processo artístico, que são apresentadas, de forma resumida, no esquema a seguir: 11 OS AUTORES/ARTISTAS São os criadores (profissionais ou não) de produtos ou obras artísticas a partir da história de seus modos e patamares de sensibilidade e entendimento da arte. São pessoas sempre situadas em um contexto sociocultural que suas obras representam OS PRODUTOS ARTÍSTICOS/OBRAS DE ARTE São os trabalhos que resultam de um fazer e pensar que reúne técnica, emoção e representação do mundo e da cultura e que sintetizam os conhecimentos artísticos e estéticos dos autores. Trazem consigo um história e situam-se num contexto sociocultural específico. A COMUNICAÇÃO/DIVULGAÇÃO São as práticas utilizadas para expor, apresentar, veicular ou intermediar as obras artísticas produzidas entre as pessoas ao longo de nossa história cultural. Podem assumir formatos profissionais ou não O PÚBLICO/OUVINTES/ESPECTADORES São as pessoas que constroem a história de suas relações com as produções artísticas e seus autores em diversos níveis de sensibilidade e entendimento da arte. Também situam-se em um tempo-espaço que é construído socioculturalmente. Fonte: Adaptada de Ferraz e Fusari (2009). 3 A ARTE COMO FERRAMENTA PEDAGÓGICA Na fase da educação infantil as atividades artísticas contribuem com ricas oportunidades para seu desenvolvimento, uma vez que põem ao seu alcance diversos tipos de materiais para manipulação, além da arte espontânea que surge em brincadeiras ou a partir de uma proposta mais direcionada (BES, 2018). O lúdico, o teatro, a dança, a pintura, o desenho, a criatividade, o conto de fadas, fazem parte de um momento em que as crianças se expressam, comunicam e transformam a vida na relação com a arte, ou seja, “somos potencialmente criadores, possuímos linguagens, fazemos cultura” (PIRES, 2009, p. 47). 12 O professor precisa dar oportunidades para que o aluno se expresse de forma espontânea, pessoal, porém é importante que o mesmo consiga analisar o contexto da atividade e quais benefícios ela traz para o desenvolvimento da criança. Conforme diz Almeida (1992, p.48), A maioria dos professores acredita que desenhar, pintar, modelar, cantar, dançar, tocar e representar é bom para o aluno, mas poucos são capazes de apresentar argumentos convincentes para responder “Por que essas atividades são importantes e devem ser incluídas no currículo escolar? ”. O professor de educação infantil busca proporcionar atividades artísticas criando símbolos que expressem sentimentos e pensamentos, portanto, para que isso aconteça é necessário planejar, orientando e avaliando as atividades, ou seja, o professor deve ser um observador atento e sensível, buscando sempre novas técnicas e recursos para explorar a arte na sala de aula, contribuindo assim para o desenvolvimento do seu aluno. Lavelberg (2003, p.12) afirma que: É necessário que o professor seja um “estudante” fascinado por arte, pois só assim terá entusiasmo para ensinar e transmitir a seus alunos a vontade de aprender. Nesse sentido, um professor mobilizado para a aprendizagem contínua, em sua vida pessoal e profissional, saberá ensinar essa postura a seus estudantes. O contato com as diferentes formas de artes oportuniza aos alunos a exploração, o conhecimento, a brincadeira, desenvolvendo uma visão transformadora beneficiando um vínculo com a realidade, contribuindo para analisar a compreensão do aluno e do mundo a qual vivencia, favorecendo a ligação entre a fantasia e a realidade (BES, 2018). Compreender as artes como um espaço de experimentação, de jogo, onde a criança possa construir uma análise pessoal das suas construções. Através da realização de atividades artísticas a criança desenvolve sentimentos, autoestima, capacidade de representar o simbólico, analisando, avaliando e fazendo interpretações, desenvolvendo habilidades específicas da área das artes. A criança da educação infantil explora bastante os sentidos, pois se encontra na fase do concreto, fazendo com que suas experiências sejam enriquecidas. Como neste período, suas habilidades são estimuladas, facilita o processo de ensino- 13 aprendizagem, pois são desenvolvidas a percepção e a imaginação, o que facilita a compreensão das diferentes áreas do conhecimento. A arte é fundamental na formação das crianças, pois representa experiências individuais e para que a arte seja utilizada como uma ferramenta no desenvolvimento cognitivo, intelectual e emocional do aluno, o professor precisa ter sensibilidade e conhecimento de que a arte é extremamente necessária no cotidiano escolar, ciente do seu papel na relação com o desenvolvimento (BES, 2018). E assim, o uso e o ensino das artes na educação infantil estão ligados aos interesses de quem aprende, pois estes serão autores de suas próprias histórias, transformando a arte parte de suas vidas, dando um sentido para algo visto como incompreensível, tornando essa prática um instrumento pedagógico que vai contribuir na construção do sujeito. Fonte: https://novosalunos.com.br/ 3.1 A arte na cultura e no contexto histórico-social Como mencionado anteriormente, a manifestação artística se relaciona com os padrões estéticos e culturais de cada época. Portanto, as obras de arte são consideradas artefatos culturais que representam, de alguma forma, os acontecimentos históricos do período em que foram produzidas. Tais fatos contribuíram para a manifestação artística por meio de produções e representações de eventos específicos. Muitos artistas se valeram, no decorrer do tempo, das mais variadas formas de difusão de sua arte para o público apreciador de seu trabalho. Conheceremos, nesta sessão, alguns aspectos históricos da difusão da arte na 14 cultura, considerando contextos históricos no desenvolvimento da sociedade. (BES, 2018). Ao estudarmos a história da arte e a humanidade, podemos apontar a relação intrínseca e direta da manifestação artística com a cultura da sociedade em cada período. No período pré-histórico, por exemplo, a arte se manifesta em paredes de cavernas, nas quais as tribos representavam suas façanhas, de modo a narrar sua história. Já no período da modernidade, a arte passou a ser associada à elite,que tinha acesso ao teatro, óperas, obras clássicas literárias, pinturas e esculturas de artistas renomados. Com o advento da pós-modernidade e o alargamento do conceito de arte, bem como do próprio conceito de cultura, criaram-se outras formas de manifestações artísticas consideradas mais populares e regionais, entre elas, o grafite. Neste período, procura-se universalizar o acesso às artes para toda a sociedade, anteriormente direcionadas para uma classe tida como dominante. Na atualidade, podemos encontrar diferentes tipos de manifestações artísticas em nossa cultura. Ao caminhar pelas ruas, deparamo-nos com grafites que adornam paredes e muros, esculturas, museus, prédios tombados e suas arquiteturas, paisagens, proliferações de imagens que nos chegam pela mídia de massa (televisão e rádio) ou pelas mídias digitais (computadores, telefones móveis). Nossas relações sociais estão sendo permeadas por aspectos da estética e da arte cotidianamente, embora nem sempre percebamos (BES, 2018). Dada a proximidade das questões da estética e das produções artísticas com a cultura na sociedade — cultura esta que estabelece regras, normas e produz maneiras de pensar, sentir e viver — uma das formas de entender como ocorre a difusão da arte é compreendê-la dentro de etapas que compõe o processo cultural. Ao analisar a arte e sua relação com a cultura na contemporaneidade, com ênfase na etapa da difusão, é importante destacar o conceito de intermediação cultural, que dentro do processo da produção da nossa cultura pode ser entendida como aquela que faz funcionar os canais de ligação entre produção e recepção, entre criadores e públicos e que é resultado das atividades mais ou menos especializadas de agentes e organizações que intervêm nos processos de seleção, filtragem, distribuição, divulgação, avaliação e valorização das criações (FERREIRA, 2002, documento on-line). Por isso, a intermediação cultural passa a ser decisiva no processo de difusão da arte. No Brasil, percebemos como os agentes de 15 intermediação cultural, algumas vezes representados por organizações da sociedade civil, costumam atuar nos mais diversos campos sociais, possibilitando que a arte de cada grupo cultural possa ser expressa. Fonte: Adaptada de Ferreira (2002) Na música, há meios de divulgação de manifestações artísticas de grupos organizados em favelas, que se apresentam tanto em street dance, quanto em orquestras clássicas. Ao mesmo tempo, vemos centenas de jovens que optam pelo funk ou o rap como meio para expressar sua arte e, possivelmente, melhorar suas condições de vida. Dessa maneira, embora a educação em arte deva ir além da simples análise de seu caráter social, sabemos que este é um fator determinante. Como já mencionado, a produção artística deve sempre reunir tanto elementos cognitivos, que envolvem técnicas e estilos aprendidos ao longo da trajetória artística, quanto aspectos relacionados à sensibilidade e à emoção, que fazem parte da estética (BES, 2018). As estratégias de difusão cultural também se fazem presentes nos espaços tradicionais de exibição da arte, como nos museus. Veja, a seguir, as atribuições do setor de difusão cultural do Museu de Arte Murilo Mendes (2019), de Juíz de Fora, descritas em seu portal eletrônico. Compete ao Setor de Difusão Cultural: implementar projetos culturais que confiram visibilidade ao acervo do MAMM; promover e gerenciar intercâmbios junto a outras instituições, na perspectiva da ação educativa; contribuir para a obtenção de recursos destinados às ações culturais idealizadas pelo museu; auxiliar na produção, planejamento e organização de eventos culturais promovidos e/ou apoiados pelo museu; promover ações educativas por meios de cursos, palestras, seminários, oficinas, mostras e visitas orientadas. 16 No que diz respeito às escolas e ao ensino e aprendizagem da arte, podemos perceber como a difusão cultural também procura promover esta aproximação com os processos educacionais que estão sendo desenvolvidos em sala de aula. Cabe aos professores, em seus planejamentos, pesquisar e propor ações pontuais com seus alunos nestes espaços, que melhor se alinhem com as técnicas apreendidas, que trabalhem com temas que os sensibilizam e despertam seu interesse, como artistas locais, nacionais ou internacionais que estejam realizando exposições. É importante pontuar que, em uma sociedade em que a mídia digital costuma tornar pública toda a diversidade de manifestações artísticas, a tarefa do professor em proporcionar este contato para seus alunos é facilitada (BES, 2018). 3.2 Relações entre a educação estética e a educação artística São múltiplas as relações que podem ser estabelecidas entre a educação estética e a educação artística, uma vez que ambas são interdependentes e complementares. De acordo com Pareyson (1954 apud Bosi, 2000, p. 8), os temas centrais da reflexão estética que devem se fazer presentes na produção artística são “[...] o fazer, o conhecer e o exprimir [...]”. Portanto, o professor de arte não deve concentrar suas aulas somente no fazer artístico, devendo ampliar suas práticas com estratégias que levem seus alunos a desenvolver, concomitantemente, uma educação estética, ou seja, que desenvolvam os aspectos da percepção sobre a arte, da apreciação (fruição) das manifestações artísticas e, até mesmo, da crítica sobre a arte e seu processo. É importante destacarmos que, no sistema educacional brasileiro, sobretudo após a construção dos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998, p. 20), entende-se a importância da educação do componente curricular de arte, envolvendo as linguagens artísticas do teatro, da dança, da música e das artes visuais, que deverão ser trabalhadas a partir dos aspectos da criação artística e da percepção estética, uma vez que o conhecimento da arte abre perspectivas para que o aluno tenha uma compreensão do mundo na qual a dimensão poética esteja presente: a arte ensina que nossas experiências geram um movimento de transformação permanente, que é preciso reordenar referências a cada momento, ser flexível. Sendo assim, é evidente a importância da articulação entre o conhecimento, a sensibilização 17 estética e a produção artística para que os alunos possam aprimorar suas visões de mundo e seu aprendizado. Sobre o processo de educação em arte que contempla tanto os aspectos estéticos quanto os artísticos, Ferraz e Fusari (2010, p. 61) defendem que um projeto deste tipo deve apresentar os componentes a seguir: 1. Documentos artísticos produzidos culturalmente (pinturas, esculturas, gravuras, filmes, arquiteturas, fotografias, partituras, gravações em áudio e vídeo, textos dramáticos, roteiros etc.); 2. Informações complementares elaboradas pelo próprio professor, pela mídia ou contidas em publicações especializadas (textos, livros, teses, artigos em jornais revistas, catálogos); 3. Materiais e instrumentos para produções artísticas (papéis, tintas, lápis, argila, madeira, pedra, tecido, arame, luz... instrumentos sonoros, musicais, microfones ... roupas ou figurinos, pincéis, goivas, gravadores, câmeras de fotografia, de vídeo, computador etc.). Cabe ao professor proporcionar aos alunos o contato com estes materiais citados, para que os conheçam, reflitam e apreciem. Para desenvolver suas habilidades estéticas e artísticas, os alunos devem ter acesso a um repertório rico de manifestações da arte na cultura, possibilitando que eles desenvolvam suas próprias leituras e reflexões a partir do conhecimento dos contextos em que estes artistas viveram e das condições de sua produção, atribuindo, assim, os seus próprios significados para estas produções. Ao analisar a produção de significados realizada a partir das imagens presentes nas obras de arte, Vieira da Cunha (2010, p. 112), constatou que: Ossignificados das imagens são construídos nas interações sociais e culturais que realizamos com elas. Os contextos sociais e culturais, amplos ou específicos, e as pessoas, dão existência aos materiais visuais atribuindo- se significados. Portanto, o sentido não “emana” das imagens, mas dos diálogos produzidos entre elas e as pessoas, sendo que estes diálogos são mediados pelos contextos culturais e históricos. Um aluno educado para a percepção estética e artística estará mais preparado para vivenciar a arte de épocas passadas, entendendo que sua produção esteve, neste caso, estreitamente relacionada aos códigos, normas e contextos sociais do período em que o autor a realizou. Observe, nos itens listados a seguir, outras sugestões de atividades que procuram promover a educação em arte pela interação entre os elementos estéticos e artísticos (FERRAZ; FUSARI, 2010): 18 Fazer um estudo dos artistas e suas produções (regionais e internacionais) preferidas ou selecionadas pelos alunos. Fazer um estudo dos artistas e suas produções (regionais e internacionais) ainda desconhecidas destes alunos, mas que possam ser selecionadas para mobilizar seus interesses estéticos e artísticos. Realizar um estudo do patrimônio cultural de sua localidade, comparando-o com o de outras regiões brasileiras, procurando diferenciar aspectos urbanísticos, arquitetônicos, visuais, musicais etc. Selecionar critérios estéticos e artísticos para análise desse patrimônio cultural. Verificar junto ao acervo das bibliotecas, centros culturais, museus, colecionadores etc. a possibilidade de preparar novas atividades teórico- -práticas com os alunos. Fazer um levantamento (pesquisa, enquete) com os alunos para conhecer suas experiências artísticas, bem como técnicas e materiais a ser utilizados. Verificar, em sua região, as possibilidades teóricas e materiais disponíveis para uso nas atividades artísticas propostas na escola; verificar quais materiais podem ser facilmente adquiridos, quais podem ser produzidos e quais as formas de utilizá- los. Reestudar, praticar técnicas artísticas e fazer uso de diversos materiais; verificar que artistas desenvolveram trabalhos com essas técnicas e materiais; selecionar alguns desses trabalhos para ser analisados com os alunos. As relações entre a estética e a arte devem ser estimuladas pelo professor a partir de suas práticas de educação em arte. É preciso conhecer, vivenciar, experimentar as mais diversas manifestações artísticas para que possamos, então, ser capazes de refletir sobre elas. Ao referir-se a arte visual, Manguel (2001, p. 27) esclarece que “[...] só podemos ver coisas para as quais possuímos imagens identificáveis, assim como só podemos ler em uma língua cuja sintaxe, gramática e vocabulário já conhecemos [...]”. Com a arte, isto ocorre da mesma maneira, pois precisamos entender como a sociedade em seu desenvolvimento histórico foi estabelecendo formas de representação das coisas pertencentes à realidade cotidiana e que nos fornecem, então, condições de ver o que está ali representado 19 artisticamente, considerando quais significados foram atribuídos para aquela obra específica pelo autor. Para que possamos perceber como as questões estéticas e artísticas estão correlacionadas, Vieira da Cunha (2010, p. 120) nos concede a seguinte sugestão: Prestem atenção, nas revistas de grande circulação nacional, sobre as representações de infância, mulheres e homens jovens, maduros, idosos e idosas. O que estas imagens, representações, nos dizem sobre estas diferentes fases da vida? Quais os tipos que são excluídos? Como formulamos concepções sobre maturidade, juventude e infância através destas imagens? Acompanhando o questionamento feito pela autora, podemos perceber como a arte também contribui para que a vida em sociedade venha a ser modelada de acordo com os padrões vigentes na cultura de cada época. Podemos verificar estas questões ao percebemos como alguns temas, em diferentes épocas, ganham representações muito distintas nas manifestações da arte. Da mesma forma, existe a mescla de culturas, que hibridiza e reconfigura as formas de pensar a estética e a arte. É importante mencionarmos que, atualmente, as aulas de arte nas escolas se dirigem a todos os alunos que ali estão inseridos, não fazendo distinção entre aqueles que seriam mais hábeis ou reuniriam as condições exigidas para criar uma manifestação artística. Ao referir-se à dança, Santos (2010, p. 27) chama a atenção para a mudança nos preceitos estéticos desta arte, que se fizeram presentes até metade do século XX, quando os corpos vistos como padrões deveriam ser “[...] fortes, esguios, leves, ágeis [...]”. Isto excluía aqueles que não se encaixavam nestas definições. Como educadores em arte, devemos entender que: [...] excluídos ou incluídos, estranhos ou anormais, o que precisa estar em foco é que é desta maneira heterogênea que se constituem as turmas, e não de uma uniformidade idealizada. O aluno de dança tanto será o que atende a norma como o que dela escapa, o que parece familiar, quanto o que causa estranhamento [...] (SANTOS, 2010, p. 26). O mesmo se aplica para as demais linguagens artísticas, o teatro, a música e as artes visuais, e cabe ao professor promover a vivência destas possibilidades de desenvolvimento pleno a todos os alunos por meio da arte. 20 4 A LINGUAGEM CORPORAL EXPRESSA EM MOVIMENTOS E BRINCADEIRAS DAS CRIANÇAS A linguagem corporal é uma forma de comunicação, pois liga os aspectos motores, cognitivos e sociais. É por meio do corpo que expressamos desejos, frustrações e ansiedades. A criança consegue se organizar, assimilar e identificar conceitos utilizando o seu corpo como forma de expressão. 4.1 Movimentos e expressão corporal por meio de brincadeiras A criança se expressa por meio de seu corpo, o que lhe possibilita explorar o mundo, ajudando-a a aprender sobre limites e potencialidades, bem como a explorar e se orientar no espaço. Dentro da educação infantil, devem-se trabalhar movimentos amplos, ajudando a criança a compreender o próprio corpo de modo que ela adquira autoconfiança. Segundo Suzana Aparecida Camara (2016), as atividades motoras se dividem em três classificações: estabilizadoras, locomotoras e manipulativas. As estabilizadoras trabalham o equilíbrio da criança, enquanto as locomotoras trabalham movimentos e as locomotoras e as manipulativas trabalham a relação do corpo com os objetos externos. Gallahue e Ozmun (2003 apud LOBO; VEGA, 2008, p. 76) dividem as atividades motoras em fases: Habilidades motoras reflexivas: crianças de 1 mês a 1 ano de idade. Habilidades motoras rudimentares: crianças de 1 ano a 2 anos de idade. Habilidades motoras fundamentais: 2/3 anos a 5/6 anos de idade. Habilidades motoras fundamentais e combinadas. Habilidades motoras especializadas. Nas habilidades motoras reflexivas, os bebês a partir dos 3 meses de idade apresentam movimentos reflexivos involuntários, os quais passam a ser voluntários no quarto, quando os membros se desenvolvem de cima para baixo, e a criança desenvolve habilidades de rastejar e depois engatinhar, começando a explorar os processos, e logo passando para o equilíbrio. Quando a criança estiver bem 21 equilibrada, começará a dar os primeiros passos (entre 9 meses e 1 ano a criança começa a andar); com o caminhar em processo, a criança está pronta para explorar o espaço e interagir socialmente. Cada criança é um ser único que se desenvolve em seu tempo. Nas habilidades motoras rudimentares, os movimentos das crianças no primeiro ano ainda são rudes, ainda necessitam de controle; com 2 anos, elas já possuem controle total de seus movimentos, então o professor deve oferecer auxílio para o desenvolvimento delas, pois nessa fasea criança vem desenvolvendo equilíbrio próprio para se locomover e manipular objetos e possui habilidades de recebê-los e arremessá-los. A motricidade da criança está em pleno desenvolvimento, pois nessa fase ela começa a correr, subir, descer escadas com auxílio, rabiscar e ter noção de distância, força e espaço. As habilidades motoras fundamentais são consequências das anteriores, assim, a criança está envolvida com a exploração e a experimentação do próprio corpo. Ela começa a exercer atividades em conjunto, como jogar futebol. Primeiro os movimentos aparecem isolados e depois em conjunto, reagindo a estímulos. São divididos em: estabilização (a criança recupera o equilíbrio), locomoção (movimentos de andar e saltar) e manipulação (movimentos de arremessar e chutar). Na primeira infância, a criança controla sua musculatura e tem controle da gravidade, podendo sentar-se e ficar de pé, estabilizando-se. Gallahue e Ozmun (2003 apud LOBO; VEGA, 2008, p. 81) dividiram os três padrões motores em 23 habilidades motoras fundamentais, servindo para avaliar o desenvolvimento das crianças: Estabilização: 6 habilidades motoras fundamentais. Locomoção: 9 habilidades motoras fundamentais. Manipulação: 8 habilidades motoras fundamentais. Padrão estabilizador – o equilíbrio é a base da criança, a estabilização ajuda no controle do corpo. As habilidades estabilizadoras são as seguintes: movimentos axiais; postura de rotação corporal; desvio; equilíbrio estático em um pé só; 22 caminhada direcionada; apoio invertido. Padrão locomotor – a locomoção envolve a exploração: caminhar; correr; salto de caminhada em altura; salto vertical ou em altura; salto horizontal; saltito; galope e deslizamento; pulo; salto misto. Padrão manipulativo – a criança, ao manipular objetos, explora o movimento: rolamento de bola; arremesso supramanual; apanhar; chute; aparar; rebater; drible; voleio. Na educação infantil, a criança começa a brincar coletivamente (em grupos), o professor auxilia no desenvolvimento das habilidades motoras; aos 6 anos, a criança começa a interpretar percepções pronta para se apresentar à sociedade. Cada criança possui ritmo, potencialidade e limite próprios; nessa idade, ela gosta de imitar, de correr, subir, esconder, cantar, brincar de faz de conta, jogar bola, entre outros. Quando brincam, elas sentem prazer, pois o brincar estimula a criatividade, dá a liberdade de desempenho. As brincadeiras são um processo de socialização, e o brincar não possui regras, a criança é livre. Com 5/6 anos de idade, as brincadeiras simulam o real e até criam regras (LEON, 2018). 23 Fonte: Categoria das Habilidades Fundamentais de Movimento (GALLAHUE, 2008, p. 54). As habilidades motoras fundamentais, de acordo com Camara (2016, p.12), são divididas em: Estágio inicial: apresenta movimentos exagerados em relação ao corpo; geralmente, as crianças de 2 anos estão nessa fase; Estágio elementar: a coordenação está mais em sincronia; apesar de ainda serem restritos e exagerados, esses movimentos ocorrem com crianças de 3 ou 4 anos, podendo ser antes ou depois dessa idade, dependendo de cada indivíduo. Estágio maduro: o movimento é eficiente, controlado e coordenado, acontecendo por volta dos 5 e 6 anos de idade, podendo demorar mais para acontecer. 4.2 Importância do corpo nas brincadeiras e aprendizagens das crianças A partir das brincadeiras, a criança aprende e se desenvolve, vivenciando situações pedagógicas, pelo movimento, experimentando e sentindo. Com esse desenvolvimento, podemos dizer que a aprendizagem ocorre a partir de suas vivências (LEON, 2018). Tanto na educação infantil como no ensino fundamental, o brincar é importante, pois, quando brinca, a criança adquire conhecimentos. Freire (2012), em referência ao processo de educação escolar das crianças, principalmente nas séries iniciais, 24 afirma que se trata de um universo em que os atos motores são indispensáveis para a criança, tanto na relação com o mundo como na compreensão dessas relações. O movimento é um instrumento que facilita a aprendizagem, envolvendo a expressividade e a mobilidade da criança. Por meio das brincadeiras, as crianças adquirem seus repertórios cognitivos, emocional e social, a atividade e a fantasia. Toda brincadeira é uma imitação, a criança cria, sente emoções, tem ideias; as brincadeiras favorecem a autoestima, a interação social, a aprendizagem e o desenvolvimento; as brincadeiras e os jogos ajudam a compreender o desenvolvimento da criança. Quando as brincadeiras são propostas no ambiente escolar, as crianças participam ativamente do processo de aprendizagem, adquirindo experiências, assimilando valores e comportamentos; além disso, os jogos estimulam a criança a pensar, e também ensinam valores como respeito e obediência com os outros (LEON, 2018). Quando brinca, a criança propicia diferentes tipos de linguagens; quando se educa e se ensina, a criança ganha muitas informações. Ela descobre suas características e amplia o universo de explorações; de 0 a 5 anos, a criança tem a possibilidade de prolongar as experiências sensorial e perceptiva. De 6 a 11 anos, a criança utiliza esses procedimentos para construir a própria aprendizagem, ela gosta de brinquedos e jogos que são inovadores, criativos. O raciocínio é uma das habilidades mais desenvolvidas no jogo, assim a criança cria hipóteses que contribuem para o processo de construção do conhecimento. Brincar é importante para a aprendizagem, pois a criança precisa de companheiros para brincar, além de espaço adequado. Brincadeiras em que o estímulo faz parte de aprender e as oportunidades lúdicas devem ser espontâneas. Quando a criança brinca, ela busca informações, organiza as ideias, experimenta sensações, é motivada pela própria atividade em ação; para a criança, todo e qualquer brinquedo é material instrutivo, como uma caixa, lápis de cor, corda, peteca, desde que proporcione oportunidades reais. Brincando a criança desenvolve habilidades como pensar e desenvolve a capacidade criadora, tem iniciativa própria, desperta a alegria de descobrir, estabelece vínculos com o grupo. O professor deve sempre estimular as crianças nas brincadeiras, pois estas ajudam a desenvolver uma aprendizagem melhor. 25 A criança tem energia própria, seu corpo vibra em tudo que faz; a criança é o movimento e gosta muito de se movimentar, pois quando brinca, entra de “corpo inteiro” nas brincadeiras. O corpo dá suporte para a aprendizagem, captando informações, uma vez que tudo passa por ele. A criança está sempre em desenvolvimento, desde o nascimento, ela vivencia afetividade, compreensão e constrói conhecimentos. O professor é o mediador na construção e na ampliação dos conhecimentos da criança, assim ele tem a responsabilidade de oferecer estratégias e auxiliar no desenvolvimento dela, sabendo que os brinquedos e as brincadeiras são uma importante ferramenta para o desenvolvimento. 4.3 Emoções expressas nas brincadeiras por meio das expressões corporais A brincadeira, além de desenvolver a capacidade motora das crianças, faz com que elas descubram formas de expressão, sentimentos e emoções. A afetividade é muito importante para a construção do conhecimento, e a motivação também influencia o desenvolvimento geral; ao se desenvolver, a criança assimila e aprende a controlar as emoções, a partir de seu desenvolvimento com o meio. Quanto menor a criança, mais emoções ela expressa, pois é muito espontânea e é por meio do corpo que expressa suas alegrias, raiva, frustração, amor. Assim, quando ela brinca, expressa as emoções. A brincadeira é importante para o processo educativo da criança, pois, quanto maisa criança brinca, mais ela aprende (LEON, 2018). A criança expressa os sentimentos por meio de jogos e brincadeiras, e, para que isso ocorra, deve existir um ambiente que facilite sua expressão; o professor tem de facilitar essa ação. Ao se estimular a aprendizagem, a criança explora diferentes materiais, brinquedos. As brincadeiras são instrumentos usados pela criança; por meio das brincadeiras, a criança brinca de faz de conta, colocando-se no lugar do adulto durante as brincadeiras. Quando a criança brinca de faz de conta, ela vivencia diversos papéis e reconhece emoções e sentimentos em seu corpo e sua mente; nesse processo do brincar, a criança pode afetar ou ser afetada, torna-se ativa ao meio, às emoções que está vivenciando nessa fase, podendo, inclusive, reconhecê-las e transformá-las. A criança expressa as emoções e tem o corpo como principal recurso para expressar os 26 sentimentos. A fantasia mobiliza as emoções, pela lógica interna dos pensamentos, porém as emoções também são mobilizadas pelos elementos presentes na fantasia. Durante as brincadeiras, às vezes as crianças imitam os adultos, expressando- se com gestos, fala de adultos sem consciência, algo visivelmente percebido pelo professor, pois elas gesticulam e dançam imitando os adultos. Quando a criança brinca, ela expressa as emoções, os sentimentos, estabelecendo um vínculo entre o objeto e as relações que antecedem. Desde pequena, a criança vem realizando brincadeiras como: ficar de pé; engatinhar; brincar com carrinhos e bonecas; brincar na areia; folhar revistas e livros; construir brinquedos; utilizar instrumentos musicais; cantigas de roda; amarelinha; brincadeiras de agilidade; representação de histórias; A criança se expressa durante as atividades, suas emoções são visíveis, elas cantam, gritam, sorriem. Cada criança expressa de uma maneira diferente suas emoções, demonstrando sua espontaneidade. Fonte: http://mundodapsi.com/ 27 5 O DESENVOLVIMENTO EXPRESSIVO INFANTO-JUVENIL No Brasil, as artes visuais fazem parte da educação formal desde a Educação Infantil. Isso é garantido por políticas públicas, como pode se ver na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB n° 9394/96, no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil volumes I, II e III e nos Parâmetros Curriculares Nacionais para séries iniciais e séries finais do ensino fundamental e para o ensino médio (LDB, 1996). Toda ação educativa tem objetivos intencionados pelo educador. Sem objetivos explícitos ele não consegue justificar por que está lançando esta ou aquela proposta para alunos, correndo o risco de transformá-la numa pura sequência de técnicas ou num mero laissez-faire (deixar fazer), o que não é desejável. E, para que o professor possa criar propostas de ensino significativas para seus alunos, ele tem de conhecer suas possibilidades na construção do conhecimento nos diversos domínios e áreas, seja nas artes ou na matemática. No caso das artes visuais, o professor deve conhecer as possibilidades da produção gráfico-plástica e da leitura estético-visual dos alunos. Em outras palavras, ele deve saber como os alunos constroem conhecimento ao produzir e ao ler arte. É necessário conhecer o desenvolvimento artístico dos alunos e também suas relações com teorias pedagógicas para compreender qual é o papel da linguagem do desenho na escola. As características do desenvolvimento artístico têm relações com o desenvolvimento cognitivo. Isso não significa, porém, que o estudante é um ser determinado a seguir linearmente estágios que se sucedem, um após o outro, da mesma maneira. O fato de haver mudanças na compreensão e na produção de arte é o que possibilita falar em processo de desenvolvimento. As classificações em estágios são propostas por teóricos que estudam como se dá esse desenvolvimento. O desenvolvimento acontece em estágios qualitativamente diferenciados, que representam complexos de reorganizações do conhecimento em cada área do conhecimento. Por isso um adolescente é capaz de ler imagens e de desenhar de modo diferente do de uma criança. Mas na arte os estágios são menos estanques e lineares do que em outras áreas. Muitas vezes os desenhos apresentam características de mais de um estágio e, certamente, na leitura de imagens aparecem 28 ideias de níveis de complexidade diferenciados, também. Estudaremos os estágios do desenho a partir da classificação de Luquet, Piaget e Vygotsky. Fonte: https://blogginggyan.com/ 5.1 Estágios do desenho segundo Luquet Em 1927, Georges-Henri Luquet (1876-1965), escreveu o clássico livro Desenho Infantil, que até hoje tem inspirado estudos sobre o desenho infanto-juvenil e enriquecendo nossas experiências nesse campo. Luquet identifica quatro estágios no desenvolvimento do desenho: realismo fortuito, incapacidade sintética, realismo intelectual e realismo visual. 5.1.1 Realismo Fortuito Costuma-se dividir este estágio em desenho involuntário e desenho voluntário (premeditado). Mas a rigor, Luquet considera o desenho premeditado como a primeira fase do desenho infantil. O desenho involuntário seria um jogo com outros a que o bebê se dedica horas a fio, como empilhar coisas, levantar e baixar uma tampa sucessivamente, e outras atividades que faz por puro prazer (LUQUET, 1927). Desenho involuntário: Mesmo antes de completar um ano de vida, a criança já é capaz de deixar marcas em alguma superfície. São rabiscos, também chamados de garatujas. O desenho involuntário é executado, não para fazer uma imagem, mas para fazer linhas. Nesse momento, a criança ainda não sabe que o desenho pode representar alguma coisa nova, pois não tem ainda a capacidade simbólica ou representação, e essa atividade motora lhe dá muito prazer. Ela se sente valorizada por ter o poder de deixar marcas, de criar marcas, de criar algo (LUQUET, 1981, p.104). 29 Como dito, as características do desenvolvimento artístico têm relações com o desenvolvimento cognitivo e também o motor. Por isso, os rabiscos de crianças de diferentes são semelhantes. Nesse momento, a criança movimenta o braço de maneira ampla, fazendo linhas e pontos, às vezes batendo com o lápis sobre a superfície, às vezes furando o papel. Aos poucos a criança começa a ter mais controle dos movimentos com o lápis. Então começa a traçar linhas em várias direções, principalmente na vertical e horizontal, demonstrando maior coordenação entre a atividade visual e a motora (controla o gesto coordenando-o com o olhar). Os traços podem ficar restritos a uma pequena parte da superfície ou dominar todo o espaço. Fonte: https://pedagogiadaartefeevale.wordpress.com/ Com o maior controle da coordenação visual e motora, a criança começa a experimentar movimentos circulares, que futuramente formarão os círculos fechados, que, por sua vez, permitirão a forma de uma cabeça. No início, sem levantar o lápis, a criança vai desenhando emaranhados de linhas. Mais tarde, levantando o lápis, vai fazendo pequenas formas circulares, mas sem intenção de representação. Aqui há um progresso: a mudança do traço contínuo para o descontínuo, com a diminuição da velocidade dos gestos. Essa mudança pode se dar a partir dos dezoito meses, mas pode ser mais tarde, dependendo das possibilidades que ela tem de explorar os materiais e de ser incentivada. https://pedagogiadaartefeevale.wordpress.com/ 30 Desenho voluntário (premeditado): Ao fazer algumas formas fechadas, ou quase, a criança se depara com reações dos adultos, que perguntam: “Fizeste a mamãe? Está desenhando o papai?” Mesmo que sejam apenas bolinhas, a criança vai se dando conta de que as pessoas esperam que seus “desenhos” representem algo. Isso se dá no início da construção da função simbólica, que é acapacidade de substituir um objeto ou acontecimento por sua representação. Sobre esse momento da vida, diz Luquet: “a criança não só viu como observou imagens em livros, revistas ou catálogos e reconhece o que representam, pelo menos as mais simples dessas imagens; sabe, portanto, que há linhas que se parecem com algo” (LUQUET, 1981, p.105). E, quando seus traços produzem acidentalmente uma similitude que a criança não havia buscado, ela fica feliz, pois conquistou uma habilidade que atribuía apenas aos mais velhos. Gardner (1997, p.224) diz que isso acontece entre os dois e os três anos ou no máximo aos quatro anos. Os exemplos mencionados por Luquet (1981, p.106) abarcam dos dois anos e cinco meses a três anos e meio: “Mas chega o dia em que ela encontra uma analogia de aspecto mais ou menos vago entre um de seus traçados e algum objeto real e é então que considera o traço como uma representação do objeto e enuncia a interpretação que lhe dá”. Neste desenho, Amy reconheceu a forma de um pássaro nos seus traços e então adicionou um olho e algumas pernas. (COX, 2005, p.54): Fonte: https://pt.slideshare.net/ Vê-se que o desenho voluntário inicia junto com a função simbólica. É pela capacidade de simbolizar que a criança consegue ver no desenho um signo, ou seja, o desenho está no lugar de alguma coisa; representa algo. 31 Muitas vezes a criança anuncia o que vai desenhar: “Vou desenhar um cachorro”. Luquet (1981) chamou isso de intenção. A interpretação ocorre quando a criança dá nome ao que desenhou ou está desenhando. Às vezes, a interpretação não coincide com a intenção, pois ela muda de ideia antes de terminar o desenho. Quando o desenho sugere outro objeto que a criança não tinha pensado, ela pode complementar de outra forma para parecer mais ainda com esse objeto. É o desenho com interpretação divergindo da intenção inicial. Posteriormente a interpretação confirma a intenção, embora esse desenvolvimento não seja muito linear. É possível também que rabiscos continuem a aparecer ao lado de figuras reconhecíveis. Diz Luquet: “A passagem da produção de imagens involuntárias à execução de imagens premeditadas se faz através de desenhos em parte involuntários e em parte deliberados” (1981, p.108). Em outras palavras, embora o desenho voluntário já tenha se iniciado, podem se intercalar traçados sem nenhuma intenção representativa, que mesmo após sua execução continuam destituídos de significação. No desenho voluntário, primeiro a criança desenha sem intenção de representar alguma coisa e, ao concluir o trabalho, interpreta-o de acordo com sua semelhança a um referente qualquer, atribuindo-lhe o nome deste. Depois, surge a intenção, o desejo consciente de desenhar um objeto, o qual após sua criação pode ter uma interpretação dada ao desenho. Apesar de na teoria esse desenvolvimento parecer contínuo, na realidade as mudanças são menos lineares, isto é, a criança faz um vai e vem entre esses tipos de desenhos. 5.1.2 Realismo falhado (incapacidade sintética) Neste estágio, devido à incapacidade sintética do próprio pensamento, a criança tem sua percepção centrada nas partes do desenho. Ela vai desenhando uma parte de cada vez, enchendo o espaço de “coisas” isoladas, isto é, não formando um contexto. Pode ter pessoas, animais, árvores, flores, bonecas, carros, sóis (vários), objetos descontextualizados, letras. Ela pode ir virando a folha ou ir movimentando o seu próprio corpo ao redor da superfície, se está desenhando deitada no chão. Então é um desenho literalmente “sem pé nem cabeça” que ainda não considera o “acima” 32 e o “abaixo” de uma cena. É como se houvesse vários espaços (isolados) no espaço da folha: cada elemento (e seu espaço ocupado) é considerado em si, sem haver a sua organização em uma só estrutura, totalidade ou síntese. Conforme as crianças vão aprendendo as convenções da representação bidimensional, seus desenhos vão ficando mais completos e mais diferenciados. Perto dos quatro anos, o desenho começa a representar, mais explicitamente, “aspectos do mundo, principalmente rostos, pessoas, prédios, animais, vegetação e transportes. ” (GARDNER, 1997, p. 225). Se você pede para a criança desenhar uma fazendinha com certos elementos, então ela faz a casa, os animais, a estrada, o parreiral, árvores e flores, nuvens e sol, enfim, tudo que você solicitou. No entanto, pode haver alguns cachos de uva ao lado do sol ou uma casa sobre as árvores. Isso acontece porque ela não concebe a totalidade da cena (síntese). Tais características se devem ao que Piaget definiu como uma das características do pensamento pré-operacional: a centração-fixação da atenção em um só aspecto da totalidade seja um objeto ou uma situação. Sobre a incapacidade sintética, Pillar (1996, p.46) diz que: a criança está preocupada exclusivamente em representar cada um dos objetos de forma diferenciada, por isso, ela não integra num conjunto coerente os diferentes pormenores que desenha. Dá aos detalhes o grau de importância que tem para ela naquele momento, exagerando ou omitindo partes, porque considera somente o seu ponto de vista, relacionando tudo a si. No estágio da incapacidade sintética, a criança começa a representar graficamente o espaço através das relações “topológicas” entre os elementos que desenha, porém, sem dominá-las (o que só vai acontecer no estágio seguinte, no realismo intelectual). Piaget e Inhelder abordam esse assunto no livro A representação do espaço na criança (1993). Os autores explicam também, as relações “projetivas” e as euclidianas, encontradas nos desenhos de adolescentes e de adultos com familiaridade com a linguagem do desenho (como vai aparecer no realismo visual). A diferença entre as relações topológicas, projetivas e euclidianas é a maneira de coordenar as figuras no espaço. Na incapacidade sintética, a criança ainda está tentando coordenar as figuras no espaço da folha das maneiras mais simples: uma perto de outra; uma separada da outra; uma depois da outra; uma dentro da outra. Se essas relações não forem respeitadas, todas as figuras ficarão sobrepostas ou o que 33 deveria estar junto ficará separado ou fora de ordem. E não é isso que a criança quer. Por isso, ela vai experimentado e aprendendo a representar através das relações topológicas, embora seja frequente a negligência dessas relações. Assim encontramos elementos sobrepostos (quando são separados), fora (quando são dentro), acima (quando são abaixo), etc. Isso porque neste estágio, a criança apenas inicia a representação do espaço pelas relações topológicas, mas vai dominá-las no estágio seguinte: o realismo intelectual. O desenho da incapacidade sintética é reconhecível também pela coordenação motora da criança. A mão faz movimentos amplos e os traços ainda não mostram o controle motor que tem a criança das séries iniciais. Fonte: http://rodadeinfancia.blogspot.com/ O uso da cor no estágio da incapacidade sintética não mostra critério algum, a não ser a preferência pessoal e a vontade de enfeitar o desenho. Luquet se refere a um colorido decorativo. Ao desenhar um objeto, a criança não tem interesse em escolher uma determinada cor por ser adequada ou porque foi convencionada. Assim aparece árvores vermelhas, flores verdes, nuvens rosadas, só para citar alguns exemplos. Em síntese, o estágio da incapacidade sintética é simultâneo ao pensamento pré-operatório, que determina muitas de suas características. Por isso, a criança não integra num conjunto coerente os diversos pormenores que desenha (PILLAR, 1996, p.44) e vai enchendo a folha de papel com tudo o que aprendeu a desenhar: animais, pessoas, casas, árvores, flores, sóis, sem se preocupar em organizar uma cena. As 34 formas começam a ser cada vez mais diferenciadas e o uso da cor é arbitrárioe decorativo, embora cada vez mais cedo, se veja o uso de cores convencionadas neste estágio. 5.1.3 Realismo Intelectual Em oposição à anterior, este estágio é um avanço para as crianças, pois elas conseguem alcançar o desenho realista, que é “superada por sua incapacidade sintética” (IAVELBERG, 2013, p. 38). Agora ela já consegue transmitir todos os princípios da realidade, pois sua intelectualidade vai além do concreto, isto é, que podem ser vistos por ela ou não. Mesmo que ela não enxergue o alvo do seu desenho, ela traz para consigo todos os elementos reais para o grafismo, desenhando tudo o que já está internalizado em si, tudo o que já sabe e conhece. Luquet (1969) acredita que as crianças mesmo não considerando as imperfeições de seus desenhos, ou seja, os erros, estes por sua vez são essenciais para o desenvolvimento da aproximação com a realidade, pois enfatiza que através destes é que elas conseguem chegar aos objetos reais. E há também as características desenvolvidas por eles, que representam o espaço em si em um único desenho, estas características são conhecidas por: “Rebatimento, transparência, planificação e mudança de ponto de vista” (IAVELBERG, 2013, p. 39). Fonte: http://rodadeinfancia.blogspot.com/ 35 Mèredieu (2006) pondera que o Realismo Intelectual, refere-se ao que criança já sabe desenhar e não apenas aquilo que vê, ressaltando os dois processos: o plano deitado e a transparência. Sobre o primeiro processo a autora nos apresenta que são objetos que estão deitados a certo ponto, ou seja, uma árvore na beira da estrada, por exemplo. Na transparência a informação é quando a criança desenha um bebê na barriga da mãe e também quando ao mesmo tempo desenha a casa por dentro e por fora. Esta fase acontece entre os dez, doze anos. 5.1.4 Realismo Visual Último estágio do desenho infantil, aqui se consolida todos os outros já discutidos. Segundo Iavelberg (2013), Luquet (1969) faz referência da seguinte maneira: Quando a submissão à perspectiva entra no desenho da criança, atinge proximidade visual com a arte do adulto – circunscrita a uma determinada cultura visual. A partir daí só a habilidade técnica estabelece as diferenças individuais. A tese de Luquet, brilhante para a época, não considera, como nós, hoje, que a compreensão que a criança tem sobre o desenho está ligada ao sistema de significações da linguagem e a sua construção cultural. (IAVELBERG, 2013, p. 39) Sobre a reflexão acima, podemos entender que a criança tem sim ligação sobre o aspecto cultural quando desenha, pois, através da sua realidade de vida e experiência é que ela consegue expor nos seus traços tudo o que sente, pois, esta vivência da criança está carregada de significações. No Realismo Visual de Luquet (1969), discutido por Mèredieu (2006), perde-se este humor que a criança tem e tende a se juntar com as produções adultas, desta forma o desenho infantil chega ao fim, ocorrendo o empobrecimento e o enxugamento do grafismo, acontecendo entre os doze anos e muitas vezes antecipam aos oito anos de idade. Mèredieu (2006) expõe estas fases de Luquet (1969) como análise insuficiente e que deixa a desejar em suas explicações: Embora tenha sido o primeiro a distinguir as grandes etapas do grafismo infantil, [...] sua análise é insuficientemente explicativa. Não explica o nascimento da representação figurativa e tampouco a passagem de um estágio para outro. Particularmente, não se fica sabendo por que o desenho, em certo momento, acaba por empobrecer-se e desaparecer. Tais estágios formam planos fixos, instantâneos, para fixar características que assim se 36 tornam mais facilmente reconhecíveis. Mas restaria situar todos esses dados numa perspectiva genética que pudesse não apenas descrever, mas explicar. (MÈREDIEU, 2006, p. 22) Ao analisarmos esta citação da autora, podemos colocar aqui que Mèredieu (2006), não concorda com a exposição de Luquet (1969), devido às “falhas” que faltam serem explicadas. Sua defesa é a partir dos rabiscos, gesto que segundo ela, é essencialmente motor e que muitas vezes é encarado como algo fútil, que mesmo Luquet (1969) o coloca a margem dos estágios. Ela também faz colocações sobre o estágio do “realismo intelectual”, responsável pela transparência e o plano deitado. Mèredieu (2006) apresenta uma contradição sobre esta fase, pois relata que quem “vê” os objetos em transparência são os adultos, sendo que eles dissociam as imagens entre si. Mas, para as crianças ocorrem relações entre os objetos afetivamente, elas não os separam. Este local desenhado “não é apenas um lugar em que o objeto se inscreve, mas também uma rede de afetos” (MÈREDIEU, 2006, p. 23). Nesse estágio, a criança busca representar o objeto como ele é, fazendo uso de perspectiva, opacidade e sobreposição para simbolizar o objeto. Fonte: https://metamorfoseexpressiva.wordpress.com 37 5.2 Estágios do desenho segundo Piaget Para Piaget, a criança desenha mais o que sabe do que realmente consegue ver. Ao desenhar ela elabora conceitualmente objetos e eventos. Daí a importância de se estudar o processo de construção do desenho junto ao enunciado verbal que nos é dado pelo indivíduo. 5.2.1 Garatuja Faz parte da fase sensória motora (zero a dois anos) e parte da pré-operacional (dois a sete anos), indo aproximadamente até três ou quatro anos. A criança demonstra extremo prazer em desenhar e a figura humana é inexistente. A garatuja pode ser dividida em: Garatuja Desordenada onde os movimentos são amplos e desordenados, parecendo mais um exercício motor. Não há preocupação com a preservação dos traços, que são cobertos com novos rabiscos várias vezes. Garatuja ordenada em que os movimentos aparecem com traços longitudinais e circulares e a figura humana ainda aparece de forma imaginária, podendo começar a surgir um interesse pelas formas. Nessa fase a criança diz o que vai desenhar, mas não existe relação fixa entre o objeto e sua representação. Por isso, ela pode dizer que um círculo ovalado seja um avião, e antes de terminar o desenho, dizer que é um peixe (PIAGET, 1976). 5.2.2 Pré- Esquematismo Esta fase faz parte da segunda metade da fase pré-operatória, indo normalmente até os sete anos quando ocorre a descoberta da relação entre desenho, pensamento e realidade. Observa-se que os elementos ficam dispersos e não são relacionados entre si (PIAGET, 1976). 5.2.3 Esquematismo Faz parte da fase das operações concretas (7 a 10 anos), mas costuma ir até mais ou menos, nove anos. Dentro dos esquemas representativos, começa a construir 38 formas diferenciadas para cada categoria de objeto. Nesta etapa surgem duas grandes conquistas: o uso da linha de base e a descoberta da relação cor objeto. Já tem um conceito definido quanto à figura humana, no entanto podem surgir desvios do esquema, tais como: exagero, negligência, omissão ou mudança de símbolo. Aparecem também dois fenômenos como a transparência e o rebatimento (PIAGET, 1976). 5.2.4 Realismo Normalmente surge no final das operações concretas, tendo maior consciência do sexo e começa uma autocrítica pronunciada. No espaço, descobre o plano e a superposição, mas abandona a linha de base. As formas geométricas aparecem, junto com uma maior rigidez e formalismo. Nesta etapa normalmente usam roupas diferenciadas para cada um dos sexos (PIAGET, 1976). 5.2.5 Pseudo Naturalismo Faz parte da fase das operações abstratas (10 anos em diante). É o fim da arte como atividade espontânea e muitos desistem de desenhar nesta etapa do desenvolvimento. Inicia a investigação de sua própria personalidade, transferindo para o papel suas inquietações e angústias, característica do início da adolescência. Nos desenhos aparecem muito o realismo, a objetividade, a profundidade,o espaço subjetivo e o uso consciente da cor. Na figura humana, as características sexuais podem aparecer de forma exageradas (PIAGET, 1976). 5.3 Estágios do desenho segundo Vygotsky Para Vygotsky, o desenvolvimento do desenho requer duas condições. A primeira é o domínio do ato motor, por isso, para o autor, inicialmente, o desenho é o registro do gesto e logo passa a ser o da imagem. Assim, a criança percebe que pode representar graficamente um objeto. E essa característica é o um indício de que o desenho é precursor da escrita, pois a percepção do objeto, no desenho, corresponde à atribuição de sentido dada pela criança, constituindo-se realidade conceituada. 39 Outra condição fundamental na evolução do desenho é a relação com a fala existente no ato de desenhar. Num primeiro momento, o objeto representado só é reconhecido após a ação gráfica quando a criança fala o que desenhou identificado pela sua semelhança como objeto. Depois ela passa a antecipar o ato gráfico, verbalizando o que vai fazer, indicando que há um planejamento da ação. Por isso, Vygotsky afirma que a linguagem verbal é a base da linguagem gráfica (1989, p. 141). Este fato é essencial na visão do autor porque aqui se pode perceber já "um certo grau de abstração" da criança que desenha, pois, ao fazê-lo, libera conteúdo da memória. Ele afirma que "[...] os esquemas que caracterizam os desenhos infantis lembram conceitos verbais que comunicam somente aspectos essenciais do objeto." (1989, p.127). Ao descrever as etapas de desenvolvimento do grafismo infantil, o autor não se preocupa em detalhar o período da aquisição do sistema de representação do desenho. Vygotsky não faz uma investigação sistemática do processo de apropriação do desenho como processo semiótico, mas efetua um recorte no desenvolvimento cultural do grafismo infantil desprezando a "pré-história" do desenho. A fase dos rabiscos, garatujas e "da expressão amorfa de elementos gráficos isolados" (Idem, p. 94) não interessa aos objetivos que ele possui em seu ensaio psicológico, pois realmente, o desenho, enquanto sistema semiótico, só existe efetivamente após o período dos rabiscos. Fonte: http://www.psicologia.pt/ 40 Vygotsky identifica ao longo do desenvolvimento da expressão gráfico-plástica infantil as seguintes etapas: 5.3.1 Etapa simbólica É a fase dos conhecidos bonecos que representam, de modo resumido, a figura humana. Esta etapa é descrita por Vygotsky como o momento em que as crianças desenham os objetos "de memória" sem aparente preocupação com fidelidade à coisa representada. É o período em que a criança "representa de forma simbólica objetos muitos distantes de seu aspecto verdadeiro e real" (VYGOTSKY, 1987, p.94). Segundo o autor, é grande a arbitrariedade e a licença do desenho infantil nesta etapa. 5.3.2 Etapa simbólico-formalista É a etapa na qual já se percebe maior elaboração dos traços e formas do grafismo infantil. É o período em que a criança começa a sentir necessidade de não se limitar apenas à enumeração dos aspectos concretos do objeto que representa, buscando estabelecer maior número de relações entre o todo representado e suas partes. Percebe-se que os desenhos permanecem ainda simbólicos, mas já se pode identificar o início de uma representação mais próxima da realidade (VYGOTSKY, 1987). 5.3.3 Etapa formalista veraz Nesta fase, as representações gráficas são fiéis ao aspecto observável dos objetos representados, acabando os aspectos mais simbólicos, presentes nas etapas anteriores (VYGOTSKY, 1987). 5.3.4 Etapa formalista plástica Observa-se uma nítida passagem a um novo modo de desenhar, pois como um desenvolvimento viso-motor mais acentuado, o sujeito acaba se utilizando de técnicas projetivas e de convenções mais realistas. O grafismo deixa de ser uma atividade com fim em si mesma e converte-se em trabalho criador. No entanto, há uma diminuição 41 do ritmo dos desenhos que permanecem mais entre aqueles que realmente desenham porque sentem prazer neste ato criador. Embora os dois autores analisados tenham focado diferentes aspectos do desenho, Piaget, focando mais os aspectos epistêmicos e Vygotsky, os aspectos mais sociais, os dois autores se aproximam em dois pontos básicos: em relação à importância do desenho no desenvolvimento da criança e à característica de que a criança desenha o que lhe interessa e o que sabe a respeito de um objeto. (VYGOTSKY, 1987). 6 A ESCOLA E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL Se existe um espaço em que a maioria de nós frequentou por muitos anos de nossa vida, esse lugar se chama “escola”. É dele que trazemos intensas memórias, nele convivemos com diversificados grupos e pessoas, desempenhando diferentes funções. Você pode até não ter refletido sobre tais questões, mas vivenciou experiências em um espaço em que havia regras que foram construídas, estabelecidas e partilhadas, funcionando como uma microsociedade em uma complexa rede de conexões. Ali, cada indivíduo carregava uma história, pertencia a um núcleo familiar, trazia diferentes conhecimentos e visões de mundo e se deparava com pessoas que seguiam variadas crenças, culturas e demais diversidades. Outra questão sobre a qual se deve refletir é que assim como a sociedade sofreu grandes transformações, o espaço escolar também acompanhou (de certo modo) essas modificações. No ensino tradicional, tínhamos como modelo o professor centralizador, detentor do conhecimento, e os alunos eram os receptores do saber. Além das relações entre alunos e professores, também existem outros pontos a serem refletidos, como aponta Alarcão (2007, p. 13): A escola, instituição social, polo do binômio interativo escola-sociedade, irá metamorfosear-se ou permanecerá imutável e estática no modo hierárquico como se estrutura, na compartimentalização de turmas, espaços e tempos horários, na estrutura curricular de base disciplinar, na vivência individualista (não confundir com pessoalista) e tecnicista do cotidiano escolar, na regulação das avaliações? O novo modelo social do mundo contemporâneo coloca em questão as proposições acima e impulsiona mudanças também na escola enquanto instituição. 42 Com o avanço tecnológico, as informações passaram a ficar acessíveis, ressignificando tempo e espaço com o mundo todo conectado pelo advento da internet. Essa realidade não pode ser negada ou ignorada: pelo contrário, devemos nos valer dessa variedade de novas ferramentas em prol do conhecimento, preparando nossas crianças para utilizar com responsabilidade e sabedoria todos esses aparatos tecnológicos tão acessíveis em nossa sociedade atual (LIMA, 2018). Quanto aos profissionais da educação, a iniciar pela educação infantil, desde os cuidados com a creche, observamos que houve importantes ressignificações de papeis. Décadas atrás, havia uma preocupação assistencialista, com a qual os responsáveis, para que pudessem trabalhar, deixavam seus filhos para serem cuidados. Atualmente, notamos que, de cuidadores, os professores passaram cumprir seu papel de educadores, não somente tendo cuidados com higiene pessoal como atuando no desenvolvimento global das crianças, estimulando os mais diferentes aspectos físicos, emocionais, motores e cognitivos. Para isso, é necessário conhecer as fases de desenvolvimento para que esses estímulos acompanhem esse crescimento. O brincar como recreação também passou a ocupar um papel importante nesse desenvolvimento, no qual o lúdico acompanha o currículo a ser trabalhado. Com todos esses apontamentos, podemos constatar que, em consonância com família e comunidade, o espaço escolar tem importantes responsabilidades no desenvolvimento infantil, devendo estar integrado para dar conta das demandas atuais e oportunizando aos seus educandos um ambiente acolhedor, que respeitee valorize sua cultura, conhecimentos prévios e modos de expressar-se (LIMA, 2018). 6.1 O desenvolvimento físico, emocional e cognitivo escolar Muito além de cuidar e assistir, o espaço escolar cumpre funções atuantes relacionadas aos aspectos físicos, emocionais e cognitivos de seus educandos. Nesse espaço de convivência, é possível identificar uma série de questões que envolvem a aprendizagem na identificação e no acompanhamento do desenvolvimento motor, social, linguístico intra e interpessoal. Embora saibamos que cada indivíduo é um ser complexo, com ritmo e comportamentos singulares, existem algumas observações a serem feitas e que são capazes de fornecer indícios sobre se a criança está evoluindo com sua aprendizagem 43 encontrando alguma dificuldade ou até mesmo portando algum transtorno que possa estar interferindo nesse processo. A educação infantil é uma etapa fundamental e determinante para a formação global da criança, considerada o sujeito central de todo processo educacional, como aponta o Parecer CNE/CEB nº 20/2009, documento atual e norteador das práticas da Educação Infantil: A criança, centro do planejamento curricular, é sujeito histórico e de direitos que se desenvolve nas interações, relações e práticas cotidianas a ela disponibilizadas e por ela estabelecidas com adultos e crianças de diferentes idades nos grupos e contextos culturais nos quais se insere [...]. Assim, a motricidade, a linguagem, o pensamento, a afetividade e a sociabilidade são aspectos integrados e se desenvolvem a partir das interações que, desde o nascimento, a criança estabelece com diferentes parceiros, a depender da maneira como sua capacidade para construir conhecimento é possibilitada e trabalhada nas situações em que ela participa (BRASIL, 2009). Pelo trecho acima, podemos observar que não são poucas as habilidades a serem desenvolvidas nessa etapa educacional. No mundo atual, não se sustenta mais o modelo de manter crianças sentadas por um período de tempo excessivo, colocando-as para executar exercícios mecânicos e descontextualizados. Pelo contrário, há uma preocupação maior com os aspectos emocionais, devido ao fato de que esses são requisitos básicos para se avançar com outros, tais como a parte psicomotora, intelectual e social da criança. A emoção está conectada com os vínculos afetivos que a criança constrói, favorecendo a sensação de segurança para que se sinta em harmonia e equilíbrio com o ambiente em que convive. Na prática, educar com foco no desenvolvimento emocional implica em ter uma equipe escolar e educadores flexíveis capazes de oportunizar aos alunos meios de expressão de suas emoções para que, gradativamente, vão aprendendo a lidar com suas variantes (alegria, raiva, impaciência, tristeza, entre outras). Outros aspectos básicos explicitados no Parecer CNE/CEB nº 20/2009 apontam princípios ainda muito discutidos no âmbito educacional. São eles: a) Princípios éticos: valorização da autonomia, da responsabilidade, da solidariedade e do respeito ao bem comum, ao meio ambiente e às diferentes culturas, identidades e singularidades. b) Princípios políticos: dos direitos de cidadania, do exercício da criticidade e do respeito à ordem democrática. c) Princípios estéticos: valorização da sensibilidade, da criatividade, da ludicidade e da diversidade de manifestações artísticas e culturais (BRASIL, 2009). 44 Como podemos ver, a educação infantil deve ser planejada tendo em vista a contemplação desses princípios básicos, ancorando em seu projeto político pedagógico ações e projetos que viabilizem a implementação dessas valorizações. Ao se planejar atividades voltadas para cada fase do desenvolvimento das crianças, é possível trabalhar diversos aspectos de modo simultâneo, como, por exemplo, a utilização da ludicidade com a atividade de “pular amarelinha”, tão utilizada por gerações anteriores. Com essa brincadeira, há a possibilidade de se trabalhar com a coordenação motora, espacial, com a linguagem com diferentes formas de expressão, com o partilhamento e o respeito às regras do jogo e de convivência. É importante que os profissionais da educação estejam em constante formação, investindo em práticas inovadoras, criativas e contextualizadas (LIMA, 2018). 6.2 Psicologia do desenvolvimento e educação A psicologia do desenvolvimento é uma área dentro das ciências psicológicas relacionada aos estudos envolvendo o desenvolvimento de aspectos como os motores, emocionais, cognitivos, linguísticos, assim como fenômenos relacionados à percepção, atenção e aprendizagem, envolvendo, assim, aspectos físicos e psicológicos gradativamente construídos desde que uma nova vida está sendo gerada. Tais fenômenos a serem investigados dentro dessa área se integram com outros estudos biológicos, sociológicos, educacionais, antropológicos e neurocientíficos, apoiando-se nas descobertas dessas pesquisas para construir novas concepções acerca dessas manifestações físicas e emocionais. A psicologia do desenvolvimento tem profunda ligação com a educação, pois fornece meios de se compreender os processos maturacionais vivenciados em cada fase do desenvolvimento, além de oferecer aporte teórico, oportunizando o entendimento a respeito da aprendizagem e os fatores diretamente associados a esse processo. Para construir esses estudos, os psicólogos dessa área se baseiam em pesquisas realizadas por meio de observações dos comportamentos infantis, tanto em ambientes escolares, familiares e sociais quanto em laboratórios, formulando, a partir 45 dessas análises, descrições precisas que dão origem a teorias e conceitos que, segundo Rappaport (1981, p. 4), favorecem o entendimento dos seguintes aspectos: Do processo normal de desenvolvimento numa determinada cultura. Isto é, conhecimento das capacidades, potencialidades, limitações, ansiedades, angústias mais ou menos típicas de cada faixa etária. Dos possíveis desvios, desajustes e distúrbios que ocorrem durante o processo e podem resultar em problemas emocionais (neuroses, psicoses), sociais (delinquência, vícios, etc.), escolares (retenção, evasão, distúrbios de aprendizagem) ou profissionais. Assim, é por meio de observações de aspectos como os explicitados acima que surgem teorias que orientam quanto à compreensão de variados fatos. Dentre as concepções que se originaram na psicologia do desenvolvimento, destacamos a seguir: AUTOR CONTRIBUIÇÃO Piaget Segundo Kincheloe (1997), Piaget inaugura o interacionismo ao propor que o conhecimento é uma construção que se dá na interação de um sujeito ativo com o meio, em constantes processos de desequilíbrio e busca de novo equilíbrio. A visão interacionista quebra a dicotomia sujeito/objeto, colocando ênfase na relação dinâmica, na interdependência entre os aspectos ligados ao sujeito que conhece e aos estímulos e condições do ambiente que o cerca. Vygotsky Vygotsky aprofundou-se no estudo das funções psicológicas superiores, que caracterizam e diferenciam a espécie humana. As funções tipicamente humanas se referem aos processos voluntários, às ações conscientemente controladas e aos mecanismos intencionais: a linguagem, a atenção, a lembrança voluntária, a memorização ativa, o pensamento abstrato, o raciocínio dedutivo, a capacidade de planejamento, a imaginação, entre outras. Segundo o autor, as formas superiores de comportamento consciente têm sua origem nas contínuas interações entre os aspectos biológicos/maturacionais e nas relações sociais que o sujeito estabelece no contexto cultural e histórico do qual faz parte. Wallon Para Wallon, o sujeito se constrói nas suas interações com o meio, de modo que deve ser compreendido, em cada fase do desenvolvimento, no sistema complexo de relações que estabelece com o seu ambiente. Contra simplificações, aponta aimportância de se estudar a criança a partir de uma perspectiva global e dinâmica, multifacetada e original, que possa apreender sua real complexidade. Coerente com seu embasamento 46 epistemológico no materialismo dialético, o autor se opõe aos reducionismos e encara as contradições como inerentes à realidade. Alguns princípios norteiam a concepção walloniana de desenvolvimento. Analisando esses princípios, é possível perceber a grande importância desse autor como precursor da valorização da emoção, do social e da afetividade no desenvolvimento humano e, portanto, na aprendizagem – marca indelével da espécie humana Fonte: Abed (2014) Essas são algumas das principais contribuições da psicologia do desenvolvimento. Conhecer suas principais características e objetos de estudos oportuniza à pais e educadores o acesso a um aporte teórico relacionado às especificidades de cada fase em que a criança se desenvolve e os modos como podem ser estimuladas em diferentes aspectos para se desenvolver-se de modo global e pleno, contando com a interação entre família, escola e sociedade. 7 A IMAGINAÇÃO NO DESENVOLVIMENTO EXPRESSIVO A imaginação humana envolve um vasto processo de desenvolvimento cultural e social. Segundo os preceitos vigotskianos, nascemos seres da espécie humana e, nos processos socioculturais, nos humanizamos como seres do gênero humano. O nascimento cultural da criança é iniciado, quando o mundo formado pelos objetos, pessoas e situações começa a adquirir significação na apropriação dos signos. O desenvolvimento cultural, cuja natureza é simbólica, acontece pela mediação do outro. Como um dos aspectos do processo de humanização, a imaginação orienta-se além dos aspectos genéticos ou biológicos, ou seja, é desenvolvida ao longo de nossas vidas por meio das relações sociais de que participamos, conforme as condições materiais de vida que temos. Ademais, a imaginação é uma forma complexa de atividade humana, que transcende o conceito de uma função psíquica superior especial, e deve, segundo Vygotsky (1999, p. 127), "ser considerada uma forma mais complicada de atividade psíquica, a união real de várias funções em suas peculiares relações", configurando- se como um Sistema Psicológico, ou seja, a imaginação mantém conexões e relações 47 com outras funções especiais, como a memória voluntária, a atenção voluntária, a vontade e o pensamento, dentre outras. Fonte: https://www.soescola.com/ A imaginação participa da constituição dos processos funcionais, ou processos psíquicos superiores; não nasce com o sujeito, mas desenvolve-se durante a vida. Possui um grau de superioridade em virtude da complexidade das funções humanas relacionadas às funções primitivas do homem. Os processos psíquicos superiores se desenvolvem na dependência das situações vividas pelos sujeitos em suas interações sociais. Considerando, assim, que o psiquismo humano decorre do desenvolvimento das estruturas cerebrais pela apropriação que os sujeitos fazem, em suas relações sociais, da atividade humana historicamente constituída: [...] uma função específica não está ligada nunca a um centro determinado e que é sempre produto de atividade integrada de diversos centros, rigorosamente diferenciados e relacionados hierarquicamente entre si. [...] que tampouco a função global do cérebro, que serve para criar o fundo, resulta da atividade conjunta, indivisível e funcionalmente homogênea de cada um dos centros, mas é produto da atividade integrada das funções correspondentes a áreas específicas do cérebro separadas, diferenciadas e unidas de novo entre si hierarquicamente [...] (VYGOTSKI, 1997, p.135.) O poder que a imaginação possui, de criar o novo a partir do experienciado, dar-se-á, à medida que, o fato segue em direção à consciência, que permite o afastamento do real, o que é conduzido por uma atividade relativamente autônoma da 48 própria consciência. Essa ação é diferente da cognição imediata do real, pois, "junto com as imagens que se criam durante o processo de cognição imediata da realidade, o indivíduo cria imagens que são reconhecidas como produto da imaginação." (VIGOTSKI, 1999, p. 129). Em outras palavras, somente as imagens que adentram o real com maior consciência dos fatos permitem um afastamento do aspecto externo da realidade dada. 8 A IMPORTÂNCIA DA MÚSICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL A música é uma linguagem que comunica sensações, sentidos e passa por organização de som e silêncio. Está presente nas mais diversas situações. A afetividade, a cognição e a estética são partes integrantes dela. A criança entra em contato com os sons antes mesmo de seu nascimento, desde o momento da concepção ela já é exposta aos sons intrauterinos, a voz materna também constitui material sonoro especial e referência afetiva para ela, daí a certeza de que a música está presente desde antes do nascimento até a hora da morte do ser humano. Os bebês e as crianças interagem permanentemente com o ambiente sonoro que o envolve e com a música, já que ouvir, cantar e dançar são atividades presentes na vida de quase todos os seres humanos, ainda que de diferentes maneiras. Podemos dizer que o processo de musicalização dos bebês e crianças começa espontaneamente, de forma intuitiva, por meio do contato com toda a variedade de sons do cotidiano, incluindo aí a presença da música defende que: As cantigas de ninar, as canções de roda, as parlendas e todo tipo de jogo musical têm grande importância, pois é por meio das interações que se estabelecem que os bebês desenvolvem um repertório que lhes permitirá comunicar-se pelos sons; os momentos de troca e comunicação sonoro musicais favorecem o desenvolvimento afetivo e cognitivo, bem como a criação de vínculo fortes tanto com os adultos quanto com a música (BRITO, 1998, p.49) A influência da música no comportamento humano é tão real ao ponto de marcar momentos históricos, a explosão do Rock na década de 60. Outros fatos relevantes que aconteceram na história de nosso país fizeram com que autores e compositores, hoje reconhecidos mundialmente, fizessem uso da arte, modalidade em que a música está inserida, utilizassem-na como forma de protesto, o 49 que resultou no exílio de muitos. Vemos então a influência que a música exerce no interior do ser humano tanto para melhoria de sua saúde, comportamento e conscientização quanto para sua decadência. Estudos revelam que pessoas portadoras de arritmias cardíacas após contato com música clássica apresentaram melhoras substanciais em sua deficiência. Estes fatos levam a pensar sobre a necessidade de trabalhar a música desde os primeiros dias de vida, principalmente na educação, levando em conta que a educação se dá não somente no âmbito escolar, mas em todos os ambientes em que a criança está inserida. A partir do momento em que a criança entra em contato com a música, seus conhecimentos se tornam mais amplos e este contato vai envolver também o aumento de sua sensibilidade e fazê-la descobrir o mundo a sua volta de forma prazerosa. Seus relacionamentos sociais serão marcados através deste contato e sua cidadania será trabalhada através dos conceitos que inevitavelmente são passados através das letras das canções. Apresentar e dar oportunidade à criança de conhecer os vários ritmos e gêneros musicais trará a esta criança a possibilidade de tornar-se um ser crítico capaz de comunicar-se por meio da diversidade musical. A música também pode ser usada na Educação Infantil com crianças de 5 a 6 anos em contribuição para o processo ensino-aprendizagem. Utilizando seus vários níveis de alcance desde a socialização até o gosto musical da criança (BRITO, 1998). A música vem ainda contribuir para a formação do indivíduo como todo. Por meio da música, a criança entrará em contato com o mundo letradoe lúdico. Observa- se sua importância como valioso instrumento, o qual deverá ser trabalhado e estimulado provocando no educando possibilidades de criar, aprender e expor suas potencialidades. A música na educação pode envolver outras áreas de conhecimento. Na matemática a música também esteve presente: quando marcamos um ritmo, temos que saber quantidade para tocarmos. Além disso, há várias letras de músicas que 6 nos ajudaram a facilitar a aprendizagem de números, quantidade, classificação e seriação. Entretanto, deve ser utilizada de forma contextualizada, desde que não perca o trabalho da música com fins em si mesma. 50 Facilitando o processo ensino-aprendizagem, e também favorecendo a criança de Educação Infantil de 5 e 6 anos, ensinando-a a apreciar o valor de uma peça musical, despertando na criança o gosto pela música, aquisição de novos conhecimentos, concentração, autonomia, criticidade, sendo um importante instrumento didático (BRITO, 1998). Trabalhar usando a música como ferramenta de apoio é com certeza estimulante, principalmente por ela dar condições de observar a percepção musical das crianças e a sua melhora na sensibilidade, no raciocínio e em sua expressão corporal. Quando questionados sobre a música como instrumento pedagógico os professores responderam que acham importante a utilização da mesma pelo fato de trazer contribuições nas disciplinas curriculares: Linguagem oral e escrita, Matemática, Natureza e Sociedade, Artes, Educação Física, o brincar e ainda estreita os laços de amizade (BRITO, 1998). Os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, volume 3 - Conhecimento de mundo que apresenta o eixo música, destaca que linguagem musical tem estrutura e características próprias, devendo ser considerada como: produção, apreciação e reflexão. Em relação às atividades com a música (como linguagem própria) há muitas possibilidades: exploração do conceito de som e silêncio - com brincadeiras de estátua; produção de vários tipos de sons com o corpo - arrastando os pés, batendo as mãos nas diferentes partes do corpo, etc; estímulo ao desenvolvimento da linguagem falada por meio de canções que utilizam a linguagem gestual; incentivo à composição pelas crianças de uma melodia a partir de uma letra criada pelo grupo; Incentivo à criatividade, concentração e memória pela imitação de sons criados pelos colegas; a utilização de brinquedos de diferentes texturas, formas e tamanhos que produzam sons diferentes: estímulos auditivos, visuais e motores por meio de canções interpretadas com gestos; movimentos rítmicos, explorando todo o esquema corporal e acompanhamento das músicas com palmas ou percutindo algum objeto ao pulso da melodia; trabalho da percepção da pulsação com movimentos corporais com os braços, mãos, pernas, pés, cabeça e tronco (BRITO, 1998). Em qualquer ambiente que a criança esteja exposta deverá ser estimulada a prestar atenção aos sons que com certeza estão acontecendo e se possível identificá- los relacionando-os e nomeando-os. 51 Quando se trabalha a música com a criança de 5ª 6 anos é importante lembrar que as estratégias adequadas não seja somente fazer com que ela escute música clássica, ou tenha qualquer habilidade motora em executar técnica em algum instrumento, mas sim estabelecer a relação de diversos sons e a qualidade de ser agradáveis ou desagradáveis (MARSICO, 1982, p. 77). Elencando outras possibilidades para um trabalho de linguagem musical podemos destacar: estímulo ao desenvolvimento do instinto rítmico (com ordens para andar, correr, rolar, balançar); marcação da pulsação com palmas e com os pés, dramatizações simples como imitação de animais (seus movimentos e sons); relacionamento do pulso musical à pulsação do coração, fazendo a criança ouvir o coração do amigo, em repouso e depois de correr; apresentação de canções que sugiram movimentos de acordo com a pulsação da música. Ainda no trabalho de desenvolvimento do ritmo podemos destacar a execução de tarefas que marquem o ritmo: quatro batidas no tambor a cada compasso são para correr, quando bater duas vezes para andar; noções de pulsação e andamento (rápido/lento) - cantando uma música, dançando e batucando nos instrumentos no andamento solicitado. No que diz respeito ao trabalho com a exploração das características do som e propriedades da música o educador pode utilizar-se de canções que façam referência aos diferentes instrumentos musicais e vozes de animais, evidenciando o timbre. No trabalho com a duração (curtos e longos) pode apresentar brincadeiras de identificação de duração, com execução de determinados programas de acordo com o som produzido. Em se tratando do trabalho com instrumentos musicais, a sucata é uma boa alternativa para confeccioná-los. A apreciação e interpretação musical utilizando diferentes estilos musicais demonstram que as crianças podem aprender a ouvir e comunicar seus sentimentos (alegria, tristeza, tensão, amor, amizade, respeito, carinho), afinal, a música alimenta a alma e eleva o espírito. Todas as possibilidades acima elencadas comprovam que é possível desenvolver um trabalho com a música, ainda que os educadores não tenham formação específica em música. No entanto, os questionários respondidos pelos educadores revelam que não há planejamento de atividades que envolvam as propriedades dos sons: altura, timbre, duração e intensidade. Todas as atividades citadas acima podem ser utilizadas na Educação Infantil, porém, percebe-se que os educadores questionados realizam atividades com música 52 para cumprir outras funções que não o trabalho com essa linguagem por si mesma, como por exemplo: na hora do lanche, datas comemorativas, para passar novos conceitos e aumento de vocabulário. Ainda que esses procedimentos venham sendo repensados, muitas instituições encontram dificuldades para integrar a linguagem musical ao contexto educacional. Contata-se uma defasagem entre o trabalho realizado na área da música e nas demais áreas do conhecimento, evidenciada pela realização de atividades de reprodução e imitação em detrimento de atividades voltadas à criação e à elaboração musical. Nesses contextos, a música é tratada como se fosse um produto pronto, que se aprende a reproduzir, e não uma linguagem cujo conhecimento constrói. (BRASIL, 1998, p. 47) Uma das questões fundamentais a ser abordada com as crianças é o que vem a ser a música. A música é a linguagem que organiza som e silêncio, este deve ser o primeiro conceito para elas sobre música. Som é tudo o que soa e tem movimento, estamos cercados por estas expressões o tempo todo. Não tem sentido, por exemplo, forçar a criança a entender, teoricamente, que a música acontece no tempo e no espaço. Ela vai tomar consciência da linguagem musical se conseguir ouvir e diferenciar sons, ritmos e culturas, saber que um som pode ser grave ou agudo, curto ou longo, forte ou suave. Nas respostas dadas pelos professores em relação às atividades diárias que utilizam a música, nenhum respondeu sobre a exploração dos sons, seja do corpo, dos objetos e escuta dos ambientes, como estratégia de exploração para o trabalho com a linguagem musical. Compreender a música como linguagem e forma de conhecimento, leva a ver a criança não como um ser estático e sim como alguém que interage o tempo todo com o meio, organizando suas ideias e pensamentos. Os primeiros anos de aprendizagem são propícios para que a criança comece a entender o que é linguagem musical, aprenda a ouvir sons e a reconhecer diferenças entre eles. Todo o trabalho a ser desenvolvido na educação infantil com crianças de 5 a 6 anos deve buscar a brincadeira musical, aproveitando que existe uma identificação natural da criança com a música. A atividade deve estar muito ligada à descoberta e a criatividade. A propostade trabalho pedagógico para a educação infantil na BNCC (BRASIL, 2017) difere bastante do que era proposto nos Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (BRASIL, 1998b). Uma das diferenças diz respeito à proposição de dois eixos estruturantes dessas práticas — as interações e a 53 brincadeira —, por meio dos quais são assegurados às crianças os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se. Uma outra diferença bastante importante diz respeito à organização curricular. Na BNCC, a música deixa de ser pensada em termos de disciplina e passa a ser pensada em termos de campos de experiências. A organização curricular para a educação infantil proposta na BNCC está estruturada em campos de experiências, no âmbito dos quais são definidos os objetivos de aprendizagem e de desenvolvimento. São cinco os campos de experiências propostos na BNCC (BRASIL, 2017): 1. O eu, o outro e o nós. 2. Corpo, gestos e movimentos. 3. Traços, sons, cores e formas. 4. Escuta, fala, pensamento e imaginação. 5. Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Os campos de experiência são pensados em uma abordagem interdisciplinar. Ainda assim, os conteúdos voltados para o ensino de arte são priorizados nos campos “Corpo, gestos e movimentos” e “Traços, sons, cores e formas”. O campo de experiência “Corpo, gestos e movimentos” é pensado a partir do corpo como um instrumento para que as crianças, desde cedo, explorem o mundo, o espaço e os objetos do seu entorno, estabelecendo relações, expressando-se, brincando e produzindo conhecimentos sobre si, sobre o outro, sobre o universo social e a cultura, tornando-se, progressivamente, conscientes dessa corporeidade (BRASIL, 2017). Por meio das diferentes linguagens, como a música, a dança, o teatro, as brincadeiras de faz de conta, elas se comunicam e se expressam no entrelaçamento entre corpo, emoção e linguagem. As crianças conhecem e reconhecem as sensações e funções de seu corpo e, com seus gestos e movimentos, identificam suas potencialidades e seus limites, desenvolvendo, ao mesmo tempo, a consciência sobre o que é seguro e o que pode ser um risco à sua integridade física (BRASIL, 2017, p. 40-41). Já o campo de experiência “Traços, sons, cores e formas” parte da premissa de que a convivência com diferentes manifestações artísticas, culturais e científicas, locais e universais, no cotidiano da escola, possibilita às crianças a vivência de 54 diversas formas de expressão e linguagens, como as artes visuais, a música, o teatro, a dança e o audiovisual, entre outras (BRASIL, 2017). Com base nessas experiências, elas se expressam por várias linguagens, criando suas próprias produções artísticas ou culturais, exercitando a autoria (coletiva e individual) com sons, traços, gestos, danças, mímicas, encenações, canções, desenhos, modelagens, manipulação de diversos materiais e de recursos tecnológicos. Essas experiências contribuem para que, desde muito pequenas, as crianças desenvolvam senso estético e crítico, o conhecimento de si mesmas, dos outros e da realidade que as cerca. Portanto, a Educação Infantil precisa promover a participação das crianças em tempos e espaços para a produção, manifestação e apreciação artística, de modo a favorecer o desenvolvimento da sensibilidade, da criatividade e da expressão pessoal das crianças, permitindo que se apropriem e reconfigurem, permanentemente, a cultura e potencializem suas singularidades, ao ampliar repertórios e interpretar suas experiências e vivências artísticas (BRASIL, 2017, p. 41). Logo, cabe ao professor da educação infantil organizar os tempos e espaços escolares para que as crianças possam, por meio de interações e brincadeiras, apropriar-se dos conteúdos da linguagem musical. Fonte: https://br.freepik.com/ 9 A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA NO DESENVOLVIMENTO EXPRESSIVO INFANTO-JUVENIL Diante da instituição familiar, a literatura pode exercer, desde muito cedo, importante papel no desenvolvimento da criança, uma vez que, ao estar envolvida 55 pelo universo mágico que o acervo literário produz, promove a construção do pensamento, da imaginação e da expressividade na linguagem. Quanto mais a família propiciar à criança o contato direto com os livros, de envolver-se com a fantasia, com o prazer de estar manuseando e ouvindo uma história, maior a probabilidade de ela tornar-se um adulto leitor (BRASIL, 2017). Existe então a necessidade de permitir à criança a oportunidade de manusear, explorar, vivenciar e apreciar a história que nele contém. Sendo assim, há uma grande possibilidade de surgir, a partir daí o futuro leitor crítico, criativo e reflexivo. Portanto, eis aqui o compromisso dos pais na formação dos filhos, pois será através dessa iniciação que se estabelecerá um importante elo entre a criança e o gosto pela leitura. De acordo com Ninfa Parreiras (2009, p. 22), A literatura, como uma expressão artística, é a arte das palavras. Como uma manifestação de sentimentos, sensações, impressões e como a expressão lírica de um artista da palavra e do desenho, ela provoca deleite e traz um trabalho poético com as palavras, com as figuras de linguagem e com as imagens. A literatura proporciona à criança, através do seu universo lúdico e criativo, instrumentos para que ela desenvolva sua imaginação e criticidade, explorando seu imaginário, ultrapassar as barreiras do pensamento, transformando emoções e sentimentos de forma prazerosa e significativa, colaborando na sua formação e no seu desenvolvimento enquanto sujeito. Coelho (2009, p. 22) menciona que “literatura infantil é, antes de tudo, literatura; ou melhor, é arte: fenômeno de criatividade que representa o mundo, o homem, a vida, através da palavra. Funde os sonhos e a vida prática, o imaginário e o real, os ideais e sua possível/impossível realização”. Nessa concepção, pode-se afirmar que a literatura faz parte do convívio das pessoas, tanto adultos quanto crianças. Unem-se o real, que são as vivências, aquilo que pode ser presenciado pela sua concretude, e o imaginário, que são as fantasias, os desejos, os sentimentos. Oferecer situações para que a criança esteja em contato com esse universo encantador, vem contribuir na formulação dos seus conceitos. 56 9.1 A imaginação, a fantasia e a literatura infantil A imaginação e a fantasia são elementos importantes na formação da criança. Mas você sabe por quê? Em que sentido esses elementos contribuem para a formação e para o desenvolvimento infantil? E como é possível estimular a imaginação e a fantasia no mundo da criança? Essas perguntas devem ser trabalhadas na formação docente para que o futuro professor, responsável por formar leitores, tenha em mente a importância desses elementos e busque estratégias diversificadas para utilizar em sala de aula, a fim de motivar nos alunos a imaginação, a fantasia e a criatividade. Uma aliada nessa tarefa é a literatura. O indivíduo estabelece contato com a atividade de criar já na primeira infância, embora isso varie de acordo com o contexto em que a criança está inserida. Mas, independentemente das condições oferecidas, a criança desenvolve a sua criatividade — da forma que for possível e com os recursos disponíveis. A atividade de criar é mais intensa na fase que se estende dos 2 aos 7 anos. Nessa fase, a criação está relacionada com a imaginação e a fantasia. De acordo com a proposta de Piaget (1994), para o desenvolvimento da criança, existem fases que são observáveis. A segunda delas, que interessa especialmente aqui, compreende a passagem do período sensório-motor para o que Piaget (1999) denomina de “período pré-operatório”. Ou seja, é nessa etapa que se identifica o surgimento da função simbólica ou semiótica. Sendo assim, é a etapa emergente dalinguagem. É na fase pré-operatória que os estímulos ao desenvolvimento da linguagem devem ser intensos. Ao professor, por exemplo, cabe oferecer o contato com os mais diversos textos para motivar a criança, pois o desenvolvimento da linguagem promove modificações importantes no próprio processo cognitivo dela. Além disso, o trabalho com a linguagem se relaciona ao desenvolvimento afetivo e social, pois a linguagem possibilita mais intensidade nas interações entre os indivíduos. Nessa fase, é importante trabalhar com representações para que a criança seja motivada a atribuir significados à realidade que a cerca. É nessa fase, sobretudo, que a criança desenvolve a imaginação e a memória. Dessa forma, torna-se evidente que o trabalho com a literatura é imprescindível nessa 57 etapa. Nesse estágio simbólico em que a criança se encontra, há egocentrismo, pois ela não percebe o mundo para além dela mesma; tudo no mundo é dela: “meu papai”, “minha mamãe”, “meu livro”, “meu carro da minha mamãe”, etc. Portanto, com a inserção da literatura, do mundo da imaginação e da fantasia, o professor estimula o desenvolvimento da linguagem e também amplia a capacidade de socialização da criança pelo uso da linguagem; isso deve ser praticado por meio da contação de histórias, dos desenhos e das dramatizações. Na fase pré-operatória, a criança já é capaz de simbolizar e de evocar objetos que estão ausentes; ou seja, ela maximiza a sua habilidade de diferenciar significante e significado. Assim, a criança começa a distanciar o sujeito do objeto, criando imagens mentais, isto é, ela consegue imitar gestos e situações, mesmo que não esteja na presença de modelos. E isso significa imaginar, fantasiar e criar. Por isso é tão importante utilizar os textos infantis para motivar a imaginação e a fantasia, considerando que nesse período a criança desenvolve a linguagem e passa progressivamente de uma fase egocêntrica (pré-operatória) para uma fase em que tem a inteligência concreta e é capaz de realizar ações interiorizadas. Ou seja, com a inserção da literatura, com o incentivo ao desenvolvimento da imaginação e da fantasia, a criança desenvolve a capacidade de estabelecer relações com os outros e com o mundo a partir da observação de diferentes pontos de vista (PIAGET, 1994). O mundo dos textos infantis é importante para que a criança consiga raciocinar de forma mais coerente. No seu desenvolvimento inicial, ela entende tanto os esquemas conceituais como as ações que executa mentalmente, mas na fase pré- operatória é preciso que a criança seja estimulada para compreender que é possível executar ações mentalmente. Por exemplo, é possível apresentar a ela dois palitos de tamanhos diferentes e pedir que indique qual é o maior. Na fase pré-operatória, ela vai manipular os dois palitos para indicar a resposta correta; na fase operatória, ela vai desenvolver esse raciocínio mentalmente, pois “imagina” os dois palitos e realiza a comparação sem precisar manuseá-los. Portanto, quanto mais a criança tiver contato com os textos infantis, mais imagens mentais, a partir da imaginação e da fantasia, ela vai criar; consequentemente, vai observar mais atentamente o mundo que a cerca (PIAGET, 1994). 58 Fonte: https://www.demonstre.com/ Nesse contexto, então, está em jogo, por exemplo, a capacidade de uma criança de pegar uma espiga de milho, transformá-la em uma boneca e (re)contar uma história. A imaginação e a fantasia são as atividades criadoras dessa fase. Os personagens, os contextos e o mundo dos textos infantis são importantes para motivar o desenvolvimento da fase de criação. A imaginação e a fantasia estão ligadas à criação de imagens mentais; é por isso que objetos comuns, como uma vassoura ou uma espiga de milho, podem ser interpretados e transformados pela imaginação, pela fantasia e pela criatividade da criança. O professor deve saber valorizar a imaginação infantil, pois ela é aliada da criatividade. 9.2 Literatura e processos educativos Reconhecer a importância da literatura e promover à criança o interesse e o gosto pela leitura de textos variados que podem ser explorados, vividos por ela, através de uma proposta enriquecedora do conhecimento, é dever de todos: da família, da escola e da sociedade em que está inserida. No entanto, para que cada uma dessas instituições colabore de forma inovadora nesse processo, é fundamental que o seu empenho seja voltado para o interesse e necessidade da criança, conforme já discutido. Vygotsky (1993, apud MAIA, 2007, p. 22) menciona que o aprendizado é uma das principais fontes de conceitos da criança em idade escolar, e é também uma poderosa força que direciona o seu desenvolvimento determinando o destino de todo 59 o seu desenvolvimento mental. A autora ainda comenta que, diante dessa perspectiva, a escola, em especial o professor, deve proporcionar meios para que a criança formule os seus conceitos, colaborando no seu desenvolvimento cognitivo, social e afetivo. A literatura é uma forma de expressão que pode ser utilizada em sala de aula, tanto de maneira lúdica quanto pedagógica, para auxiliar nessa construção. Existe a necessidade de refletir sobre a importância de um enfoque estético na abordagem do livro para o público infantil. Segundo Zilberman (1987), formar o leitor crítico é uma atribuição do professor e, nessa missão, a literatura desempenha uma função formadora que se distingue da pedagógica. Atrair o interesse da criança é uma tarefa que exige dedicação e envolvimento, já que apresentar a literatura sem querer impor o caráter meramente didático depende do conhecimento do educador sobre questões teóricas e conceituais acerca da literatura. De acordo com a abordagem de Joseane Maia (2007, p.49), A obra que apresenta qualidade literária – que leva o leitor a tomar consciência do real, a posicionar-se perante a vida, a perceber os temas e os tipos humanos presentes na trama ficcional, a conviver com as ‘realidades’, frutos do imaginário -, essa obra permite amplas possibilidades de romper a subserviência da arte em relação com a educação. A literatura deve ser proposta pela escola de forma em que desafie a criança, desempenhando, através do seu fenômeno artístico, uma postura crítica, autônoma e inquiridora, vindo a exercer papel transformador no processo ensino-aprendizagem. Por meio do seu mundo imaginário e fantástico, colabora para que a criança vivencie o seu cotidiano de forma harmônica, criativa e construtiva. Gregorim Filho (2009, p. 64) reflete que a literatura pode e deve ser encarada como ferramenta imprescindível para o início das discussões geradas pelos temas, como a pluralidade cultural ética, entre outros, trabalhando no sentido de formar cidadãos éticos, plurais e participativos. Já que literatura é arte e forma de expressão, nada como usufruir dela para explorar essa questão. A literatura, como veículo de informação e lazer, sob o olhar de Gregorin Filho (2009, p.51), promove a formação de um indivíduo com potencialidades de argumentar, interagir com o mundo que o cerca e tornar-se agente crítico e reflexivo de modificações na sociedade que faz parte. Na construção da identidade cultural de um povo, a literatura se destaca, pois, oferece os universos de relações produzidos na história, quer dizer, desde os espaços. 60 Abramovich (1989, p.17) cita que ler histórias para crianças, sempre, sempre... É poder sorrir, rir, gargalhar com as situações vividas pelas personagens, com a ideia do conto ou com o jeito de escrever dum autor e, então, poder ser um pouco cúmplice desse momento de humor, de brincadeira, de divertimento... É também suscitar o imaginário, é ter a curiosidade respondida em relação a tantas perguntas, é encontrar outras ideias para solucionar questões [...]. É uma possibilidade de descobrir o mundoimenso dos conflitos, dos impasses, das soluções que todos vivemos e atravessamos – [...] e, assim, esclarecer melhor as próprias dificuldades ou encontrar um caminho para a resolução delas. [...]. A literatura infantil passa a ser fonte inesgotável do conhecimento, propagadora pela necessidade do público infantil em buscar mais, envolver-se no universo literário trazendo para a sua realidade a magia, a criatividade, e o que é fundamental, a aprendizagem. O seu oferecimento no contexto escolar pressupõe o incentivo à leitura, cabendo ao professor ser o desafiador na formação de leitores críticos e reflexivos. 10 DESENVOLVIMENTO DA ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO Segundo Magda Soares, alfabetização é tornar o indivíduo capaz de ler e escrever, é o processo pelo qual a pessoa adquire o domínio de um código e das habilidades de utilizá-lo para ler e escrever, ou seja, domínio de técnicas para exercer a arte e a ciência da escrita, e também o desenvolvimento de novas formas de compreensão e interpretação e uso da linguagem de uma maneira geral. O surgimento do termo literacy (cujo significado é o mesmo de alfabetismo), nessa época, representou, certamente, uma mudança histórica nas práticas sociais: novas demandas sociais pelo uso da leitura e da escrita exigiram uma nova palavra para designá-las. Ou seja: uma nova realidade social trouxe a necessidade de uma nova palavra (SOARES, 2011, p. 29,). Na verdade, estar alfabetizado é poder ir além do código escrito, é apropriar-se da função social constituinte dos atos de ler e escrever; é fazer uso da leitura e da escrita no cotidiano; ser capaz de ler um livro, uma revista, um jornal; estar apto a escrever com total compreensão; ou seja, saber o que está lendo e escrevendo sem somente juntar as silabas, conseguindo acessar informações e delas se utilizar com senso crítico. 61 O conceito de alfabetização para Paulo Freire tem um significado mais abrangente na medida em que vai além do domínio do código escrito. Freire defendia a ideia de que o ser humano aprende a ler o mundo bem antes de aprender a ler e escrever defendia que a leitura do mundo precede a leitura da palavra fundamentando-se na antropologia: o ser humano, muito antes de inventar códigos linguísticos, já lia o seu mundo. Enfim, ser alfabetizado não é só ser capaz de juntar letras para formar sílabas, juntar sílabas para formar palavras e palavras para formar frases e frases para formar textos, e sim saber o que está lendo e escrevendo ter noção de concordância saber se o que está escrevendo tem coerência dizer que um sujeito é alfabetizado não é tão simples como parece. Progredir alfabetização adentro não é uma jornada tranquila. Encontram-se muitos altos e baixos nesse caminho, cujos significados precisam ser compreendidos. Como qualquer outro conhecimento no domínio cognitivo, é uma aventura excitante, repleta de incertezas, com muitos momentos críticos, nos quais é difícil manter ansiedade sob controle (FERREIRO, 2001) Na maioria das vezes as crianças são alfabetizadas na escola, mas a escola vai além do alfabetizar, ela tem como objetivo formar pessoas leitoras competentes e dar sentido ao ato de ler e escrever, formar sujeitos amantes dos livros, cidadãos alfabetizados e letrados. A alfabetização é um processo que não termina, pois no decorrer de nossas vidas estaremos sempre em constante aprendizagem, seja na questão intelectual, na escrita ou na fala, estar aprendendo é estar se alfabetizando. Tem-se tentado, ultimamente, atribuir um significado demasiado, abrangente à alfabetização, considerando-a um processo permanente, que se estenderia por toda vida, que não se esgotaria na aprendizagem da leitura e da escrita. É verdade que, de certa forma, a aprendizagem da língua materna, quer escrita, quer oral, é um processo permanente, nunca interrompido (SOARES, 2012, p.15). Alfabetizar não é apenas ensinar códigos de língua escrita, não deve de maneira alguma ser um processo mecânico, hoje não basta apenas saber ler e escrever, mas que se saiba fazer uso da leitura e da escrita. O processo de letramento está associado ao papel que a linguagem escrita exerce na sociedade. Assim, o processo de letramento não se dá somente na escola. Os espaços que frequentamos, os objetos e livros a que temos acesso, as pessoas 62 com quem convivemos, também são agências e agentes de letramento tudo que nos rodeia e nos passa informação de uma maneira ou de outra é um veículo de letramento. O letramento consiste em possibilitar o contato aos diversos gêneros literários, levando a compreender os que eles trazem. 10.1 Reflexão acerca do alfabetizar letrando Alfabetização e letramento são processos paralelos, são duas ações distintas, mas que caminham juntas e são inseparáveis para a garantia da aprendizagem da leitura e da escrita. Ou seja, o professor vai ensinar o Sistema de Escrita Alfabética permitindo que a criança vivencie práticas de leitura e escrita, agregando esses conhecimentos a situações reais e atividades cotidianas. Dissociar alfabetização e letramento é um equívoco porque, no quadro das atuais concepções psicológicas, linguísticas e psicolinguísticas de leitura e escrita, a entrada da criança (e também do adulto analfabeto) no mundo da escrita ocorre simultaneamente por esses dois processos: pela aquisição do sistema convencional de escrita — a alfabetização — e pelo desenvolvimento de habilidades de uso desse sistema em atividades de leitura e escrita, nas práticas sociais que envolvem a língua escrita — o letramento (SOARES, 2004, p. 14). No entanto, há algumas questões importantes que o educador deve levar em consideração antes de tentar contemplar esses dois conceitos em seu planejamento: é possível que todas as crianças aprendam ao mesmo tempo? Como ensinar os alunos? Qual é o papel e qual é a importância do professor alfabetizador? Você pode começar refletindo sobre o papel do educador. É importante que ele realize um trabalho voltado à inserção do aluno em um ambiente alfabetizador e letrado. Nesse ambiente, a criança deve ter a oportunidade de conhecer, vivenciar, refletir e experimentar novas práticas de leitura e escrita. Além disso, o professor deve criar um espaço acolhedor que contemple as diferenças, especificidades e características dos alunos. Todo esse trabalho parte de um planejamento voltado ao que o professor quer e ao que precisa ensinar aos alunos ao longo de todo o ano letivo. Para fazer esse planejamento, o professor deve levar em consideração os usos sociais da língua escrita, tanto no âmbito escolar como nas demais esferas, promovendo uma postura 63 investigativa em que a autonomia, o respeito e o diálogo sejam as peças-chave para o aprendizado. Nesse sentido, a escola e o professor devem fazer a mediação entre as práticas de alfabetização (importantes para o desenvolvimento das competências dos alunos) e os objetivos sociais e práticas relevantes presentes nas situações do cotidiano. É fundamental que, na fase de alfabetização, a criança possa vivenciar a leitura, assim como a produção, a compreensão e a reflexão de textos orais e escritos, a fim de se apropriar do Sistema de Escrita Alfabética. O objetivo é que as diferentes ideias e posicionamentos dos alunos possam fazer parte do trabalho como um todo. Partindo desse pressuposto, o trabalho com diferentes portadores de texto e gêneros textuais serve como ponto de partida para enriquecer a aula. Afinal, tais portadores e gêneros se aproximam da realidade em que a criança está inserida, valorizam as suas experiências, instigam a imaginação, possibilitam um aprendizado mais significativo e propiciam vivências práticas que vão além dos conteúdos escolares. A seguir, você pode ver alguns dos muitos portadores de texto e gêneros textuais existentes. Eles podem ser trabalhados emsala de aula na perspectiva da alfabetização e do letramento. Além disso, se aproximam das práticas sociais vivenciadas pelos alunos. Receitas; Manuais, regras de jogos, listas e instruções; Bilhetes; Cartas; Convites; Histórias em quadrinhos, tirinhas; Parlendas, cantigas de roda, trava-línguas, lendas; Músicas; Piadas; Poesias, contos, fábulas; Rótulos e embalagens; Símbolos, placas; Cardápios; Jornais, revistas, sites, noticiários, cartazes informativos. 64 A partir do planejamento da prática, o professor poderá, por meio das atividades diárias realizadas em sala de aula, observar e buscar respostas aos questionamentos anteriores: é possível que todas as crianças aprendam ao mesmo tempo? Como ensinar os alunos? Você pode considerar que em todas as turmas, independentemente da localidade, existe uma grande diversificação e heterogeneidade em relação ao conhecimento de cada criança. Algumas possuem conhecimento além do que se espera ou do que é trabalhado durante o ano. Outras parecem não acompanhar o mesmo ritmo do restante da turma. E essa complexidade das interações em sala de aula é que torna o trabalho do professor tão desafiador (SOARES, 2004). As crianças iniciam o ano com diferentes conhecimentos, aprendizagens, capacidades e habilidades, tanto em relação ao sistema de escrita alfabética como em relação a outros conteúdos abordados dentro e fora da sala de aula. Algumas crianças envolvem-se mais cedo e são cercadas por práticas de letramento; outras, porém, estão envolvidas em um contexto com poucos estímulos e necessitam de um contato maior com o material escrito. O que o professor precisa ter em mente é que os alunos são capazes de aprender, independentemente do ambiente em que estão inseridos. Assim, mesmo que as crianças iniciem o ano com conhecimentos abaixo do que é esperado para os objetivos de trabalho, o professor pode contemplar as hipóteses e saberes que já possuem (SOARES, 2004). Na perspectiva do trabalho conjunto entre alfabetização e letramento, o professor precisa, em primeiro lugar, traçar um perfil da turma, percebendo os diferentes níveis em que as crianças se encontram. Depois, deve pensar em atividades diversificadas que trabalhem com o sistema notacional e as situações de reflexão, questionamento e criação de hipóteses. A partir desse envolvimento e desse conhecimento que as crianças possuem acerca da escrita, é possível planejar atividades que de fato contribuam para que o aluno avance em seus conhecimentos sobre o sistema de escrita alfabética, criando diferentes oportunidades de aprendizagem e de integração com o processo de escolarização. 65 Fonte: http://www.comciencia.br/ Cabe ao professor compreender o processo, buscar soluções por meio de estudo, reflexão e troca com seus pares. Assim, ele deve trabalhar com esses diferentes saberes, conhecendo as práticas culturais e sociais vivenciadas pela comunidade e pelos alunos. Ele precisa ainda favorecer o contato com a escrita nas mais variadas circunstâncias, para que a criança vá se familiarizado com as situações de aprendizagem e avance de nível. Por fim, é urgente que escolas e educadores pensem em práticas de alfabetização e letramento partindo de um planejamento que contemple atividades capazes de auxiliar os alunos a avançarem em sua aprendizagem. Tais atividades devem ser do interesse da criança e estar de acordo com a realidade em que ela está inserida. Somente por meio dessas experiências será possível refletir sobre a prática da leitura e da escrita em diferentes circunstâncias. Portanto, o desenvolvimento das capacidades dos alunos em relação à língua escrita não é um processo que se encerra assim que eles se apropriam do sistema de escrita; pelo contrário, ele se estende por toda a vida. O que os sujeitos fazem é apenas aprimorar e criar possibilidades na construção de novos conhecimentos e habilidades (SOARES, 2004). 10.2 A importância do trabalho com textos para o desenvolvimento da criança A utilização do texto para a alfabetização em sala de aula é algo muito importante, onde o professor deve criar estratégias para ensinar de acordo com as 66 características individuais de seus alunos, isso envolve leitura, produção de textos promovendo a alfabetização e também o letramento. Por muito tempo o espaço do texto ficou relegado ao trabalho com análise linguística, o ensino tradicional tomava como unidade de estudo a estrutura da oração e do período. Só a partir década de oitenta, opondo-se a essa maneira de ensino da língua portuguesa, começam a despontar propostas de trabalho diferentes que tomam o texto como unidade de estudo essencial e com o reflexo das contribuições da Linguística Textual, da Teoria dos gêneros, da Sociolinguística, da Análise do Discurso, passou-se a ver o texto como unidade básica da interação verbal (SOARES, 2004). A Educação Infantil é uma etapa fundamental do desenvolvimento escolar das crianças. Nessa fase, as crianças recebem informações sobre a escrita, quando brincam com os sons das palavras, reconhecendo semelhanças e diferenças entre os termos, manuseiam todo tipo de material escrito, como revistas, gibis, livrinhos, etc., momento em que o professor lê textos ou histórias para os alunos e/ou escreve os textos que os alunos produzem oralmente. Essa familiaridade com o mundo dos textos proporciona maior interação na sociedade letrada. As práticas pedagógicas de língua materna tem sido alvo de uma constante preocupação pois, os alunos enfrentam muitas dificuldades no que diz respeito ao desenvolvimento da proficiência em leitura e compreensão de textos. No entanto, não se pode esquecer que é função da escola formar alunos com capacidade de fazer uso da linguagem como instrumento de aprendizagem, utilizando informações que o texto contém, bem como conhecer e analisar criticamente a utilização da linguagem como um transporte de valores e classe, credo, gênero ou etnia. Em sala de aula o professor deve utilizar vários gêneros e não apenas ficar centrado nos livros didáticos, utilizar várias maneiras para melhor ensinar abrir um leque de possibilidades e maneiras diferentes de passar conhecimento. Tais informações nos mostram e reafirmam que é muito importante se explorar a diversidade de gêneros em sala de aula, está bem concretizada em muitas das práticas dos professores, no entanto, sabemos que não é a presença dessa pluralidade de gêneros que vai gerar a produção de alguma diferença maior, mas sim a uso adequado dos textos e seus gêneros em função de uma busca significativa em uma melhor aquisição da linguagem e da escrita pelos alunos. 67 Quanto ao aspecto alfabetização, além de alfabetizar, a escola também tem como função formar cidadãos alfabetizados e letrados, pois, se os alfabetizadores não trabalharem esses aspectos, só irá continuar a formar pessoas incapazes de assumir sua cidadania de forma plena, e, para isso, é preciso que se forme cidadãos, não apenas alfabetizados, mas, também, letrados. Logo, não só o professor de Língua Portuguesa, mas, o corpo docente como um todo, deve ser responsável pela a trajetória de sucessos e de insucessos que acompanha a formação do alunado. Assim sendo, se pudermos compreender o texto como uma a unidade básica da linguagem verbal, é de nosso dever utilizá-lo como veículo mediador em nossas aulas e torná-lo cada vez mais presente na escola e na vida dos nossos alunos, trazendo para dentro do contexto educacional a diversidade de gêneros textuais disponíveis em toda a sociedade, até porquê saber ler e escrever, não é suficiente para vivenciar de maneira plena a cultura escrita, para ler diferentes gêneros textuais e responder as demandas da sociedade em que se vive atualmente. Quanto a isso, nos Parâmetros CurricularesNacionais (1997, p.30) afirma-se que: Cabe a escola viabilizar o acesso do aluno ao universo dos textos que circulam socialmente, ensinar a produzi-los e a interpretá-los. Isso inclui os textos das diferentes disciplinas, com os quais o aluno se defronta sistematicamente no cotidiano escolar e, mesmo assim, não consegue manejar, pois não há um trabalho planejado com essa finalidade (PCN, 1997, p.30). 11 HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO INFANTIL NO BRASIL A história da Educação Infantil no Brasil, de certa forma, acompanha os parâmetros mundiais, com suas características próprias, acentuada por forte assistencialismo e improviso. As crianças da área urbana eram colocadas nas "rodas expostas" para serem recolhidas pelas instituições religiosas, muitas dessas crianças eram de mães que pertenciam às famílias tradicionais. No início do século XIX, para tentar resolver o problema da infância, surgem iniciativas isoladas, como a criação de creches, asilos e internatos, que eram vistos como instituições destinadas a cuidar de crianças pobres. Estas instituições apenas encobriam o problema e não tinham a capacidade de buscar transformações mais profundas na realidade social dessas crianças. 68 No final do século XIX, com o ideário liberal, inicia-se um projeto de construção de uma nação moderna. A elite do país assimila os preceitos educacionais do Movimento das Escolas Novas, elaboradas nos centros de transformações sociais ocorridas na Europa e trazidas ao Brasil pela influência americana e europeia. Surge no Brasil a ideia de "jardim-de-infância" que foi recebida com muito entusiasmo por alguns setores sociais, mas gerou muita discussão, pois a elite não queria que o poder público não se responsabilizasse pelo atendimento às crianças carentes. Com toda polêmica, em 1875 no Rio de Janeiro e em 1877 em São Paulo, eram criados os primeiros jardins-de-infância, de caráter privado, direcionados para crianças da classe alta, e desenvolviam uma programação pedagógica inspirada em Froebel (OLIVEIRA, 2002). Na metade do século XX, com a crescente industrialização e urbanização do país, a mulher começa a ter uma maior inserção no mercado de trabalho, o que provoca um aumento pelas instituições que tomam conta de crianças pequenas. Começa a se delinear um atendimento com forte caráter assistencialista. Nos anos 70, o Brasil absorve as teorias desenvolvidas nos Estados Unidos e na Europa, que sustentavam que as crianças das camadas sociais mais pobres sofriam de "privação cultural" e eram colocadas para explicar o fracasso escolar delas, esta concepção vai direcionar por muito tempo a Educação Infantil, enraizando uma visão assistencialista e compensatória, como afirma Oliveira: Conceitos como carência e marginalização cultural e educação compensatória foram então adotados, sem que houvesse uma reflexão crítica mais profunda sobre as raízes estruturais dos problemas sociais. Isso passou a influir também nas decisões de políticas de Educação Infantil (OLIVEIRA, 2002, p.109). Dessa forma, pode-se observar a origem do atendimento fragmentado que ainda faz parte da Educação Infantil destinada às crianças carentes. Uma educação voltada para suprir supostas "carências", é uma educação que leva em consideração a criança pobre como um ser capaz, como alguém que não responderá aos estímulos dados pela escola. Nos anos 80, com o processo de abertura política, houve pressão por parte das camadas populares para a ampliação do acesso à escola. A educação da criança pequena passa a ser reivindicada como um dever do Estado, que até então não havia se comprometido legalmente com essa função. Em 1988, devido à grande pressão 69 dos movimentos feministas e dos movimentos sociais, a Constituição reconhece a educação em creches e pré-escolas como um direito da criança e um dever do Estado. Nos anos 90, ocorreu uma ampliação sobre a concepção de criança. Agora procura-se entender a criança como um ser sociohistórico, onde a aprendizagem se dá pelas interações entre a criança e seu entorno social. Essa perspectiva sócio- interacionista tem como principal teórico Vygotsky, que enfatiza a criança como sujeito social, que faz parte de uma cultura concreta (OLIVEIRA, 2002). Há um fortalecimento da nova concepção de infância, garantindo em lei os direitos da criança enquanto cidadã. Cria-se o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente); a nova LDB, Lei nº9394/96, incorpora a Educação Infantil como primeiro nível da Educação Básica, e formaliza a municipalização dessa etapa de ensino. Em 1998, é criado RCNEI (Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil), um documento que procura nortear o trabalho realizado com crianças de 0 a 6 anos de idade. Ele representa um avanço na busca de se estruturar melhor o papel da Educação Infantil, trazendo uma proposta que integra o cuidar e o educar, o que é hoje um dos maiores desafios da Educação Infantil. É preciso afirmar que as propostas trazidas pelo RCN só podem se concretizar na medida em que todos os envolvidos no processo busquem a efetiva implantação das novas propostas, se não ele vai se tornar apenas um conjunto de normas que não saem do papel. Fonte: http://www.plannetaeducacao.com.br/ 11.1 O legado histórico sobre o cuidar e o educar na educação infantil Para compreender a relação entre o cuidar e o educar na educação infantil, você precisa conhecer o percurso histórico dessa relação e a legislação que a ampara. De acordo com o Parecer CNE nº 20/2009 (BRASIL, 2009, documento on-line): 70 A construção da identidade das creches e pré-escolas a partir do século XIX em nosso país insere-se no contexto da história das políticas de atendimento à infância, marcado por diferenciações em relação à classe social das crianças. Enquanto para as mais pobres essa história foi caracterizada pela vinculação aos órgãos de assistência social, para as crianças das classes mais abastadas, outro modelo se desenvolveu no diálogo com práticas escolares. Essa vinculação institucional diferenciada refletia uma fragmentação nas concepções sobre educação das crianças em espaços coletivos, compreendendo o cuidar como atividade meramente ligada ao corpo e destinada às crianças mais pobres, e o educar como experiência de promoção intelectual reservada aos filhos dos grupos socialmente privilegiados. Essa mudança é reafirmada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996), que inicialmente fez referência à educação infantil voltada para o atendimento de crianças de 0 a 6 anos de idade. Atualmente, a LDB destaca a educação infantil voltada ao atendimento de crianças de 0 a 5 anos de idade. A Lei nº 12.796, de 4 de abril de 2013, que altera a Lei nº 9.394, assegura, em seu art. 4º: I – educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, organizada da seguinte forma: a) pré-escola; b) ensino fundamental; c) ensino médio; II – educação infantil gratuita às crianças de até 5 (cinco) anos de idade; III – atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, transversal a todos os níveis, etapas e modalidades, preferencialmente na rede regular de ensino; IV – acesso público e gratuito aos ensinos fundamental e médio para todos os que não os concluíram na idade própria; [...] VIII – atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde (BRASIL, 1996, documento on- line). A modificação legal, por si só, não foi suficiente para que houvesse mudanças efetivas nas práticas educativas. Para que isso ocorresse, fez-se necessário atentar para questões como: a especificidade da educação infantil,a concepção de infância, as relações entre as classes sociais, as responsabilidades da sociedade e o papel do Estado diante das crianças pequenas. 71 12 O PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO NA PRIMEIRA INFÂNCIA Desde a concepção no útero materno até ao momento em que morre, o ser humano vive num processo caracterizado por constantes mudanças. Este processo de mudança, que resulta da interação entre as características biológicas de cada indivíduo e os fatores contextuais onde o indivíduo se encontra inserido (sociedade e cultura), é denominado por desenvolvimento humano (MATTA, 2001; PAPALIA et al., 2001). Sendo um processo holístico e contextualizado que ocorre ao longo de toda vida, o desenvolvimento humano acarreta mudanças progressivas, contínuas e cumulativas provocando, no indivíduo, reorganizações constantes ao nível das suas estruturas físicas, psicológicas e sociais que evoluem num contínuo faseado e integrativo (NÚÑEZ, 2005; TAVARES et al., 2007). Portugal (2009) defende que o período da infância e as primeiras experiências de vida do ser humano enquanto criança determinam aquilo que o ser humano será enquanto adulto, pois é nesse período que o sujeito aprende sobre si, sobre os outros e sobre o mundo. Neste sentido, o conhecimento da criança nesta etapa da sua vida torna-se essencial para os profissionais de educação que com ela desenvolvem uma ação educativa. Todas as transformações do ser humano provocam outras mudanças que o influenciam no seu todo. Poderemos pensar, como exemplo, o momento em que a criança começa a ser capaz de usar a linguagem oral para se expressar. Esta nova competência cognitiva permitir-lhe-á novas possibilidades de interação com o mundo, novas possibilidades de interação com os outros, influenciando, também, o seu desenvolvimento social. Esta e outras situações fazem com que tenhamos de assumir que o desenvolvimento do ser humano é um processo holístico e que todos os processos ocorridos se influenciam e se provocam mutuamente. Na perspectiva de Núñez (2005), só será possível aceitar uma fragmentação do desenvolvimento humano se houver uma finalidade metodológica que permita observar cientificamente algumas dimensões da condição humana. Desta forma, e sem perder esta característica integrada do desenvolvimento humano, faremos uma breve apresentação dos diferentes domínios do desenvolvimento categorizados por Papalia 72 et al. (2001) como sendo os domínios do desenvolvimento físico-motor, cognitivo e psicossocial. 12.1 Desenvolvimento físico-motor Segundo Tavares et al. (2007), o crescimento do bebê nos dois primeiros anos de vida é extremamente acentuado em comparação com outros períodos da vida de um ser humano. Para Matta (2001) e Papalia et al. (2001), o processo de desenvolvimento é gradual. Quando a criança nasce, tem pouco controle sob o seu corpo e os seus movimentos são descoordenados. Progressivamente vai-se desenvolvendo, controlando inicialmente o corpo nos membros superiores (lei céfalo- caudal) e no sentido do centro do corpo para fora (lei próximo-distal). Sendo competente é capaz de aprender a partir das estruturas a que chega ao mundo. “Neste período, o bebê sofre importantes e aceleradas modificações, tais como gatinhar, sentar, andar e falar” (TAVARES et al., 2007, p.44). Durante os dois primeiros meses de vida aprende a segurar o pescoço e, aos quatro meses, senta-se necessitando da ajuda de um suporte (MATTA, 2001). O rastejar e o gatinhar surgem como as primeiras tentativas de movimentação intencional por volta dos quatro/seis meses (PAPALIA et al., 2001). Com cerca de sete meses, senta-se sozinha sem qualquer suporte. As primeiras tentativas de se colocar na posição bípede surgem por volta dos oito/nove meses, apoiando-se, porém, em alguma coisa. Apenas por volta dos onze meses, via de regra, é que a criança consegue andar com alguma ajuda (MATTA, 2001). O andar “não se adquire de repente” (BRAZELTON, 2006, p. 166), sendo necessários alguns meses até que se torne mais autônoma. Ao aprender a andar, a criança liberta as mãos para outras descobertas e aprendizagens. 73 Fonte: https://www.quotidianodigela.it/ 12.2 Desenvolvimento cognitivo Nos primeiros três anos de vida a criança desenvolve capacidades cognitivas devido ao interesse que manifesta pelo mundo que a rodeia e à sua necessidade de comunicação (TAVARES et al., 2007). Por volta dos quatro meses a criança já é capaz de se concentrar no que vê, toca e ouve, sem perder o controle. Conforme Brazelton (2006, p. 157), “alguns bebês sorriem e balbuciam naturalmente, absorvendo os sons e imagens, dormindo regularmente e comendo sem problemas”. A criança aprende rapidamente a usar e compreender os sinais que são expressos através do comportamento, da expressão corporal e da postura corporal. Desde o nascimento há uma reação aos ruídos, uma vez que para o bebê detectar, ele orienta o olhar e a cabeça em direção à fonte que produziu o mesmo. Para além disso, “é capaz de discriminar características rítmicas e melódicas em diferentes tipos de sequências sonoras, revelando alterações nas suas respostas” (MATTA, 2001, p. 125). Aos dois anos a criança é capaz de ordenar e de guardar objetos pessoais, de construir torres de sete cubos (ROJO et al., 2006), de identificar três a cinco desenhos (GISPERT, 1996), de examinar e de agarrar pequenos objetos. O egocentrismo é uma das características presentes na criança da primeira infância - a criança desta idade não tem capacidade para se colocar no ponto de vista do outro e não entende a sua visão, pois a sua compreensão está centrada em si mesma. No entanto, para alguns autores, citando estudos de Yarrow (1978), a criança não é tão egocêntrica como Piaget descreveu e até mostra alguma capacidade de empatia. 74 A par destas transformações começam a surgir as primeiras palavras e, posteriormente, as primeiras frases. Esta crescente capacidade linguística traz inúmeras implicações ao nível da comunicação com os outros. A criança começa a conversar, a questionar, a querer saber sempre mais, numa tentativa de compreender o mundo que a rodeia. Na verdade, com um ano de idade a criança já pronuncia algumas palavras perceptíveis, iniciando a articulação das primeiras palavras com significado (PAPALIA et al., 2001) embora fale muitas outras que não se conseguem compreender (BRAZELTON, 2006). A primeira palavra surge, normalmente, entre os 10 e os 14 meses iniciando a chamada fala linguística. No período a partir dos 18 meses (aproximadamente) a criança utiliza a “pré-frase, constituída por dois ou vários termos dispostos segundo a importância afetiva que a criança lhe atribui” (DELMINE; VERMELEN, 2001, p.54). Ao longo do período da pré-frase a criança encontra-se na idade “perguntadora” - coloca questões do gênero: “o que é isto? ”, “como? ”, ”onde? ”, “quando? ”, “por que? ”, exprimindo a sua curiosidade e desejo de conhecer. Por volta dos dois anos a criança entusiasma-se com a sua própria linguagem. Gosta de aprender palavras novas (por vezes pronunciadas incorretamente) e de inventar novas palavras (MUCCHIELLI, 1992). Nomeia objetos familiares e é capaz de conversar sozinha com um brinquedo. É também por volta dos dois anos que surgem as primeiras frases, ainda que rudimentares (ROJO et al., 2006). Segundo Delmine e Vermelen (2001), nesta idade, a criança apresenta um forte incremento da linguagem e, de fato, este é o período em que se verifica o maior enriquecimento do vocabulário. 12.3 Desenvolvimento psicossocial Sabemos que a criança se desenvolve em vários contextos com características específicas, isto é, com regras, atitudes, valores e modos de estar e ser concretos. Desde o primeiro dia em que vem ao mundo, o ser humano começa a ter consciência de que existeum mundo externo a si. É nesse mundo que aprende sobre si, a estar e a comunicar-se com os outros. Neste sentido, a primeira infância é um período de mudanças significativas no que diz respeito ao desenvolvimento social. 75 Como afirma Brazelton (2006), uma criança entre as seis e as oito semanas, utiliza o sorriso como um meio para captar a atenção dos seus pais (linguagem não- verbal). Para além do sorriso, o choro é uma das principais formas da criança contatar com o que a rodeia (MATTA, 2001). Nos primeiros meses de vida a criança tem grandes oscilações de humor (BRAZELTON, 2006). Ao aproximar-se dos 3 anos vai tornando-se (mais) obediente, arrumada e amável (BOUFFARD, 1982) indo (re) conhecendo, em fotografias, as pessoas mais chegadas e demonstrando sentimentos de afeto, compaixão e culpabilidade (ROJO et al., 2006). A capacidade de ser terna, confiante e estabelecer intimidade, quer com adultos, quer com pares, aumenta entre os quatro e os seis meses (BRAZELTON, 2006). Com um ano de idade a criança ainda manifesta um apego excessivo com a mãe ou de quem cuida dela e ainda a perturba a separação ou ausência materna (PAPALIA et al., 2001). Contudo, começa a tomar consciência que é alguém distinto da mãe e com vontade própria. Os dois anos são uma idade de conflito, pois a criança vive entre a necessidade de afeto e a necessidade de independência. Como afirmam Papalia et al. (2001, p. 169): “os terríveis dois anos são uma manifestação normal da necessidade de autonomia”, o que ocasiona um período de oposição em duas áreas fundamentais: nas brincadeiras (demolir e construir) e na alimentação (repugnância e preferências por alimentos). Ainda que haja especificidades próprias de cada dimensão do desenvolvimento da criança, uma mudança numa dimensão provoca muitas outras nos restantes domínios. Observar um bebê que ainda gatinha e observá-lo um mês depois permite espantarmo-nos, pois são notórias as inúmeras conquistas já alcançadas! Talvez já ande sozinho ou se aventure a dar passos agarrado ao mobiliário ou à mão de alguém. Esta capacidade de se deslocar mais autonomamente permite ver o mundo de uma outra perspectiva e ter acesso a realidades até então desconhecidas. Tudo isto desperta o desejo da criança por novas formas de interação com os objetos e com as pessoas que fazem parte da sua vida. Uma conquista situada no domínio do desenvolvimento físico-motor, como foi o caso apresentado, permite à criança outras possibilidades de aprendizagem e de, consequentemente, outros processos de desenvolvimento nos restantes domínios. 76 Não há padrões de desenvolvimento verdadeiramente iguais em todos os seres humanos uma vez que “cada criança é semelhante às outras crianças em alguns aspectos, mas é única em outros aspectos” (PAPALIA et al., 2001, p.9). O processo de desenvolvimento do ser humano toma em si as singularidades humanas, as especificidades hereditárias do indivíduo e aquelas que são resultantes da sua experiência de interação com a realidade social e física. O processo de desenvolvimento da criança é um processo pessoal, único, situado num contexto histórico e cultural que, também, o influencia. A criança desenvolve-se em diferentes ambientes, mais ou menos familiares, que lhe oferecem as suas primeiras experiências de vida. No caso concreto deste estudo, aproximamo-nos de uma reflexão sobre os contextos educacionais dedicados às crianças até aos três anos – o contexto de creche – e por isso importa debruçarmo- nos um pouco sobre o papel deste contexto e dos seus profissionais (particularmente os educadores de infância). Fonte: https://www.jornaldofundao.pt/ 13 DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA, O CONTEXTO DE CRECHE E O PAPEL DO EDUCADOR DE INFÂNCIA O desenvolvimento humano situa-se num contexto histórico e cultural, num ambiente que o influencia fortemente (PAPALIA et al., 2001). Neste sentido, emerge uma responsabilidade acrescida de reflexão e estudo sobre os contextos educacionais que proporcionamos às crianças nesta primeira fase da sua vida. 77 Contextos que ofereçam à criança oportunidades para aprender ativamente são determinantes para que a criança possa se desenvolver de forma harmoniosa. Em Portugal, por exemplo, a creche enquanto instituição dedicada à primeira infância, apresenta-se para além da família e de outros ambientes, como um potencial contexto de desenvolvimento/aprendizagem para a criança, pelos desafios que lhe pode proporcionar. Na verdade, a forma como as crianças são cuidadas e respeitadas nas “suas necessidades, características e interesses, a forma como são encorajados os sucessos e fracassos, a forma como a creche responde à criança e à sua individualidade terá efeitos significativos para o desenvolvimento” (CARVALHO, 2005, p. 43). Como refere Didonet (2001), a creche é o contexto que se organiza para, de forma intencional, apoiar o desenvolvimento das crianças levando-as a ir mais longe possível neste processo. Para se caminhar neste sentido é necessário que os profissionais de educação possuam conhecimentos específicos e que planifiquem sustentando-se “no conhecimento do desenvolvimento nos primeiros anos de vida e das finalidades educativas de todo o trabalho em creche” (PORTUGAL, 2012, p. 13). Este conhecimento da criança, daquilo que ela é, permite ao educador de infância uma maior segurança nas oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento que é capaz de proporcionar às crianças. Neste sentido, conhecer as características e os processos de desenvolvimento nos três primeiros anos de vida é um saber essencial para o exercício da profissão. O processo de desenvolvimento, marcado por inúmeras e rápidas conquistas, transparece a imagem de um ser altamente competente, capaz e com iniciativa própria (BARBOSA; FOCHI, 2012). Para que a criança se sinta feliz e se desenvolva de forma integral em contexto de creche, solicita-se um educador que reconheça cada criança como um ser único, rico, com potencial para construir o seu conhecimento a partir das suas ações. A qualidade da relação que o educador é capaz de estabelecer com a criança influencia a qualidade do desenvolvimento da criança. Como refere Portugal (1998, p.178), “a creche poderá fazer com que a criança seja mais assertiva e socialmente mais interativa, mas as consequências dependem da qualidade e consistência dos cuidados substitutos fornecidos à criança”. Neste sentido, as relações estabelecidas com a criança deverão ser relações autênticas e 78 de confiança, que vão ao encontro do ser humano que ali existe. Didonet (2001, p. 24) sublinha a ideia de que “falar sobre creche é, antes de tudo, falar sobre a criança. Ela é a razão, o conteúdo e a metodologia em creche”. Assim, falar sobre a criança implica um conhecimento sobre as suas características de desenvolvimento, assim como uma observação atenta às singularidades individuais desse mesmo processo de desenvolvimento. Será este conhecimento que sustentará a planificação realizada pelo educador, tanto ao nível das experiências educativas como na organização dos tempos, espaços, mobiliário e materiais que, por sua vez, proporcionam outras experiências à criança. Os princípios educativos apresentados por Gonzalez-Mena e Eyer (1989, citado por PORTUGAL, 2000) para o contexto de creche evidenciam, entre vários aspectos, a necessidade de se investir tempo para construir a pessoa “total”. Isto significa que um educador de infância deverá conhecer de forma aprofundada o que acontece com as crianças nos diferentes domínios de desenvolvimento para assim poder garantir que as oportunidades de aprendizagem proporcionadas facilitam o desenvolvimento holístico. Muito facilmente se poderá cair na tentação de valorizar determinados domínios em detrimento de outros. Os mesmos autores, também chamam à atençãopara a necessidade de se respeitar o processo natural de desenvolvimento em cada faixa etária. Não tem sentido apressar a criança a atingir outros níveis de desenvolvimento, cada criança tem o seu ritmo próprio ao qual o educador deverá ser responsivo. Esta responsividade prende-se com o encorajamento que o educador oferece à criança, dando-lhe espaço para que ela faça as coisas que lhe interessam e lhe dizem respeito. Envolver as crianças nas coisas que lhe dizem respeito é um outro princípio educativo que os autores assumem para o contexto de creche e que implica, obrigatoriamente, o conhecimento das características desenvolvimentais. As necessidades físicas, de afeto, de segurança, de reconhecimento e afirmação, de competência, de significados e valores que a criança, nos três primeiros anos de vida, precisa de ver satisfeitas assumem uma importância crucial no contexto de creche (PORTUGAL, 2012). O contexto de creche é um contexto privilegiado na promoção do desenvolvimento da criança, salientando-se aqui o papel do educador de infância como o principal responsável. Investir tempos de qualidade, estar disponível para as 79 crianças, respeitá-las enquanto pessoas e valorizar as suas formas de comunicação únicas, são princípios educativos essenciais (GONZALEZ-MENA; EYER, 1989, citado por PORTUGAL, 2000). Neste sentido, torna-se importante uma formação de educadores de infância que aposte numa reflexão aprofundada sobre o papel destes profissionais neste contexto. Analisando a situação de Portugal e Brasil, reconhece- se que a formação inicial e contínua fica aquém das necessidades, não proporcionando o suporte necessário ao desenvolvimento de competências, sustentadas num conhecimento científico do que é a criança nesta idade (DAGNONI, 2011; VASCONCELOS, 2011; DIDONET, 2001). Parece-nos que haverá algum trabalho a desenvolver neste sentido, começando pela formação inicial dos educadores de infância. Fonte: http://ribeirao.usp.br/?p=3079 14 EDUCAÇÃO INFANTIL NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA A nova concepção educacional que marca a educação na sociedade contemporânea caracteriza-se por um olhar mais atento quanto às diferenças entre adultos e criança e a educação torna-se fator de grande importância. Destacamos, nesse contexto, a figura de Jean Jacques Rousseau, cuja influência na educação dos tempos modernos foi tão grande, que, na opinião de Mayer (1976), podemos dividir a sua história em antes e depois deste pensador. Ao deixar claro que o começo e o fim da educação não é o homem adulto, e sim a criança, Rousseau (1995) alerta que deveriam ser consideradas, sobretudo, as tendências inatas do indivíduo, e aponta para a necessidade de educar a criança conforme sua natureza infantil, ressaltando o brincar como atividade essencial nesse processo. 80 Para Mayer (1976, p. 309), “mais que qualquer outra pessoa antes dele, Rousseau defendeu os ideais do romantismo, que aplicou à educação”, acreditando na bondade inata dos indivíduos, e direcionando a educação no sentido da potencialização dos atributos humanos. Rousseau foi um dos pioneiros a demonstrar que a criança pensava, via e sentia de forma diferente do adulto; desse modo, chama a atenção para o fato de que o processo educacional deve observar as peculiaridades do pensamento infantil, abolindo toda a artificialidade e repressão. O autor define as bases da educação da criança, inaugurando uma noção de infância que caracteriza essa fase específica da vida humana. Para o autor, a infância pode ser caracterizada como um tempo ainda não corrompido pela sociedade, um tempo que ainda preserva a pureza e a inocência, e esses atributos devem ser cultivados pela educação. A pedagogia deve assim nortear-se pela natureza essencialmente boa da criança, que, com o auxílio da razão, tornar-se-á apta ao convívio social. O destaque à liberdade na educação das crianças pequenas e suas ideias educacionais, acrescidos dos ensinamentos, formam a base sobre a qual se organiza a educação das crianças no período posterior. Nesta mesma perspectiva, Rousseau preocupou-se com a formação do homem propondo um sistema pedagógico cuja finalidade era propiciar à infância a aquisição do conhecimento de forma natural e intuitiva, destacando a importância de psicologizar a educação, de modo que esta possa estruturar-se em função das necessidades de crescimento e desenvolvimento da criança. Suas ideias vão contribuir, em grande medida, para a organização do pensamento educacional do século seguinte. Froebel (1981) inaugura na Alemanha, em 1837, o primeiro jardim de infância, atendendo crianças de condições, socioeconômicas diversificadas e disseminando a concepção de que todas as crianças, não importando a qual classe social pertencessem, tinham capacidade de desenvolvimento semelhante, desde que a escola suprisse as suas deficiências. O novo sentimento de infância que se formou entre os educadores e moralistas dessa época inspirou toda a educação posterior. Tornava-se necessário conhecer a criança em sua natureza infantil para poder corrigi-la, e, para que isso fosse possível, era preciso penetrar na sua mentalidade para melhor adaptar os métodos educacionais. Assim, a partir dessa época, surge o sentido da peculiaridade infantil, o 81 conhecimento da psicologia da criança e a consequente preocupação com o método educativo adaptado a essa psicologia. A infância torna-se uma prioridade e é extremamente valorizada. As crianças passam a receber maior atenção da família e da sociedade; do mesmo modo, passam a ser concebidas como futuras mãos de obra devido à proliferação das fábricas, adquirindo um valor nunca antes alcançado, pois representavam potencialmente, uma riqueza econômica. Surgem medidas visando combater a mortalidade infantil, medidas essas que se consolidam em torno da necessidade da existência e manutenção do Estado. O entendimento é que o Estado necessita ser mantido com o trabalho do homem e, de acordo com esses princípios, destaca Ponce (1996), a educação torna-se “o processo mediante o qual as classes dominantes preparam na mentalidade e na conduta das crianças as condições fundamentais da sua própria existência”. Detendo o domínio dos meios de produção, a burguesia domina também, com sua moral, ideias e educação, consolidando-se a divisão social dos dois tipos de ensino: um para o povo e outro para as camadas burguesas e aristocráticas, “de um lado as crianças foram separadas das mais velhas e do outro os ricos foram separados dos pobres” (ÁRIES, 1981). Nessa perspectiva, diferente das épocas anteriores, quando os instrumentos de trabalho eram primitivos e as técnicas rudimentares, o acesso à escolarização mantinha um vínculo estreito com as camadas privilegiadas da sociedade. A escola tem agora por finalidade formar indivíduos aptos para a competição no mercado, por meio de uma educação primária voltada, também, para as massas populares. A Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX potencializa a necessidade de preparação de mão de obra para as indústrias, trazendo para o interior destas um grande número de mulheres. Sua participação crescente no mercado de trabalho, como já mencionamos, modifica a estrutura familiar e, consequentemente, a função de cuidar dos filhos que até então lhe pertencia, passa para a sociedade, propiciando o surgimento de asilos e creches. Impregnadas por uma concepção assistencialista, essas instituições constituem os embriões das creches e pré-escolas contemporâneas. Constatamos assim, que a introdução das manufaturas e posteriormente das fábricas, com uma produção cada vez mais acelerada, não só repercutiu nos negócios da burguesia, mas também nos métodos educativos. As técnicas educativas 82 decorrentes das concepções psicológicas mecanicistas resultaram em uma orientação educacionalem que as crianças eram obrigadas a “suportar a fadiga e a tortura de uma educação que atribuía à inteligência da criança mais importância que sua espontaneidade” (PONCE, 1996). Apenas a partir de 1900, com os trabalhos de Decroly (1986); Montessori (1965) e Piaget (1996), dentre outros, é que surgem ações educacionais mais familiarizadas com as especificidades da infância, privilegiando a sua socialização em substituição ao individualismo característico da velha escola. No final do século XIX e decorrer do século XX, grandes mudanças vão ocorrer no campo educacional, especialmente na Europa e Estados Unidos. A burguesia liberal consolida sua hegemonia, promove a ruptura do domínio da Igreja sobre a educação e as escolas tornam-se laicas; ou seja, as modificações no processo produtivo que tiveram consequências imediatas na área social, exigem mudanças também na área educacional. Nesse contexto, os avanços na área da Antropologia, Psiquiatria e os trabalhos de laboratório propiciam o surgimento de uma didática mais familiarizada com a alma infantil. As concepções de aprendizagem mecânica que dominaram o cenário educacional vão perdendo suas forças, fazendo emergir, de acordo com Ponce (1996, p. 160), uma nova técnica que se propunha a “aumentar o rendimento do trabalho escolar, cingindo-se à personalidade biológica e psicológica da criança”. Fonte: https://michelliguido.com.br/ Cresce a crítica à rigidez dos velhos programas e horários e aos exames desnecessários; e, nesse clima, postula-se que é preciso considerar a personalidade do aluno, priorizar seus interesses e sua socialização. Assim, tal como acontecia nas fábricas em que se verificou a necessidade de haver cooperação no trabalho, os 83 técnicos da nova didática incorporaram essa sugestão. Como resultado, observa-se que, ao contrário do individualismo que caracterizava as ações educacionais na velha escola, temos a socialização da nova (PONCE, 1996). A partir de sua epistemologia genética é possível identificar quatro estágios de evolução mental na criança. Em cada estágio, o pensamento e o comportamento infantil se caracterizam por uma forma específica de conhecimento e raciocínio. Esses estágios são o sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório formal. Seus estudos sobre a evolução do pensamento infantil levaram Piaget a recomendar aos adultos que adotassem uma abordagem educacional diferente ao lidar com crianças. 15 A CONTEMPORANEIDADE E O FAZER PEDAGÓGICO NA EDUCAÇÃO INFANTIL No contexto da educação infantil, o educador pode facilmente perceber que, desde bem pequenas, as crianças apresentam atitudes de interesse em descobrir o mundo que as cerca. A atitude curiosa, a busca de respostas que se manifestam nas perguntas frequentes e a inquietude característica da infância, provocando nos profissionais a disposição para estimular e orientar as experiências por elas vivenciadas. A partir dessas constatações, o educador contemporâneo poderá programar atividades pedagógicas que desenvolvam os conceitos que as crianças já estão constituindo, e que estas sejam adequadas às suas possibilidades reais e também potenciais, permitindo afirmar que a ação educativa deve ser antes de tudo refletida, planejada e posteriormente avaliada. O fazer pedagógico no contexto da educação infantil na contemporaneidade deve ser criativo, flexível, atendendo às individualidades sem perder de vista o coletivo. Pensar sobre isto implica reinventar cotidianamente o fazer pedagógico, para que neles se deem as interações do sujeito com o mundo físico e social, oportunizando-lhe construir/desconstuir/reconstruir os conhecimentos necessários à sua condição de cidadão (PONCE, 1996). Assumindo essa perspectiva, o educador infantil precisa segundo Ponce (1996): 84 Compreender a Instituição de Educação Infantil como espaço coletivo, em parceria com a família e a comunidade; Assumir que tem um papel fundamental no processo de inserção e acolhimento das crianças e de suas famílias na instituição; Respeitar e valorizar os direitos e as necessidades das crianças em relação à educação e aos cuidados próprios desta faixa etária; Organizar o trabalho com as crianças de acordo com suas especificidades e necessidades; Considerar, no planejamento do trabalho, a formação humana da criança, integrando os aspectos físicos, cognitivos, afetivos e sociais, históricos e culturais; Reconhecer o brincar como a principal atividade da criança e as suas múltiplas linguagens (musical, gestual, corporal, plástica, oral, escrita, etc) como suas formas privilegiadas de interagir no mundo. O educador é o mediador, aquele que possibilita à criança estabelecer relações com o objeto do conhecimento, organizando espaços e tempos em que se articulem recursos e capacidades afetivas, emocionais, sociais e cognitivas da criança, possibilitando integrar os conhecimentos recém adquiridos àqueles já existentes. É função da escola propiciar aos indivíduos experiências e informações que enriqueçam seu repertório e favoreçam o seu desenvolvimento, bem como procedimentos metodológicos que permitam integrar sucessivamente os conhecimentos recém adquiridos àqueles que a criança já detém. Isto implica, necessariamente, trabalhar com o instrumental que a criança dispõe ao longo do seu desenvolvimento, ou seja, com as formas de intervir e apreender o real. Nessa direção, é necessário conceber a educação infantil como um espaço onde se busca a acessibilidade indiscriminada aos elementos da cultura, como forma de enriquecimento e inserção cultural, assim como para criar situações favorecedoras de aprendizagens diversificadas. No contexto particular da educação infantil, o conteúdo dessas experiências enriquecidas por meio da inserção dos jogos, brinquedos e brincadeiras, propicia as condições necessárias às constantes ressignificações rumo à construção do conhecimento. Do mesmo modo, o conteúdo das situações de aprendizagem 85 propostas no cotidiano da educação infantil torna-se importante ferramenta possibilitadora do desenvolvimento das capacidades infantis, viabilizando a compreensão sobre o mundo circundante. Falar em pressupostos teórico metodológico na educação infantil remete, necessariamente à psicologia sócio-histórica, elaborada por Vygotsky e colaboradores, que ganha força nos meios acadêmicos nos anos de 1990. Esta teoria viabiliza uma nova compreensão dos processos de desenvolvimento infantil e do papel que o adulto exerce como mediador na apreensão do conhecimento por parte das crianças pequenas e permite compreender a criança como sujeito interativo, histórico e social. Os princípios defendidos por Vygotsky (2001) trazem importantes contribuições para a educação ao apontar no desenvolvimento da criança a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que no entendimento do autor refere-se: […] aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentemente em estado embrionário. Essas funções poderiam ser chamadas de “brotos” ou “flores” do desenvolvimento, ao invés de frutos do desenvolvimento. O nível de desenvolvimento real caracteriza o desenvolvimento mental retrospectivamente, enquanto a zona de desenvolvimento proximal caracteriza o desenvolvimento mental prospectivamente (VYGOTSKY,2001, p. 97). Sob este aspecto, o papel do professor consiste em intervir nesta zona, provocando avanços que espontaneamente não ocorreriam. Nesse sentido, a prática pedagógica direcionada às crianças deve considerar a forma como a criança aprende e se desenvolve. Para isso, é necessário inserir estratégias que envolvam o brincar infantil, uma vez que esta é a atividade principal nesse estágio de desenvolvimento. Em síntese, uma atividade principal é aquelaque, no transcurso do seu desenvolvimento, governa as mudanças mais significativas nos processos psíquicos e no desenvolvimento dos traços da personalidade infantil em certo estágio da vida da criança; caracteriza-se por ser aquela em cuja forma surgem outros tipos de atividade diferenciados; é também aquela na qual processos psíquicos particulares são reorganizados; é, finalmente, aquela da qual dependem, de forma íntima, as principais mudanças psicológicas na personalidade infantil, observadas em um certo período de desenvolvimento. 86 15.1 O lúdico na educação Através das brincadeiras, e de um olhar especial do educador ao planejar e ministrar os conteúdos, o ensino pode se tornar agradável para a criança, tornando a aprendizagem mais prazerosa, significativa e atraente. É função do educador da educação infantil dinamizar as aulas, desenvolvendo o lúdico e a socialização nas crianças. A utilização do lúdico na escola atual traz muitas vantagens para o sucesso do aluno, pois ele é um impulso natural da criança e do adolescente, o que já é uma grande motivação, pois eles (crianças e adolescentes) obtêm prazer, e seu esforço para alcançar o objetivo da aula é voluntário e espontâneo, sendo assim, a aula que possui o lúdico como um dos seus métodos de aprendizagem, está voltada para o interesse das crianças, mas não pode fugir das regras do ensino aprendizagem e nem dos objetivos pretendidos, pois é a através das brincadeira que a criança desenvolve seu raciocínio logico, bem como instiga e compreende o mundo que o cerca. Já é comprovado que quando os professores trabalham atividades de forma lúdica na escola, as vantagens para a qualidade e para o desempenho dos alunos melhora, aumentando a permanência com sucesso do aluno na escola, pois estas atividades geram um impulso natural no aluno, tornando-o mais motivado para realizar as outras atividades propostas pelo professor. É que por meio de brincadeiras livres que a criança da educação infantil interage, experimentam, manuseiam fazem imitações de situações cotidianas. Entretanto, é por meio de atividades lúdicas dirigidas pelo professor, que elas aprendem uma nova variedade de brincadeira. De acordo com Freire (2002), ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. Sendo assim, através do lúdico, o educador da educação infantil pode proporcionar essa produção e construção do conhecimento. A escola é uma instituição de ensino onde o aluno desperta a curiosidade pelos jogos educativos e a possibilidade de combiná-los de forma livre com os jogos organizados. Sendo assim o professor desempenha papel essencial na questão do lúdico, pois além de transmitir conhecimentos, direcional e influencia a personalidade do educando. 87 O professor contemporâneo precisa estar aberto para aceitar novas estratégias de ensino; precisa ser competente e dinâmico, fazendo com que as atividades lúdicas sejam prioridades em seu planejamento de ensino. O professor deve mesclar sua metodologia de ensino, visando desperta a curiosidade e o aprendizado significativo da criança. É função do professor instigar a criança, criando situações novas e adequadas para despertar o gosto e a curiosidade do aluno, visando uma aprendizagem significativa. O professor é uma figura especial na visão da criança da educação infantil e das séries iniciais. Ser criativo, usar estratégias que despertem a curiosidade da criança é fundamental para a melhoria da qualidade do rendimento escolar. Através das brincadeiras as crianças passam a conhecer suas próprias limitações e a relação recíproca que existe entre os outros, compreendendo o meio social, suas diferenças e seus comportamentos. Conhecem e identificam objetos em um contexto, isto é, fazem o uso cultural, visando o desenvolvimento da linguagem e da narrativa, para trabalhar com o imaginário. Usando o imaginário as crianças aprendem a inventar, brincar, correr, jogar mantendo um bom equilíbrio no mundo em que vive (SILVA, 2003). O ato de brincar leva a criança à socialização e à interação e a se relacionar de maneira coerente no meio social, com outras pessoas que estão ao seu meio, como os brinquedos e consigo mesmo. Um dos objetivos das brincadeiras é levar uma educação, nova dinâmica e atraente, tendo a ludicidade como uma estratégia de ensino, que facilita a aprendizagem psicomotora afetiva e cognitiva da criança, desenvolvendo emoções e sentimentos bons (SILVA, 2003). O ato de brincar é o meio mais prático e verdadeiro para auxiliar nas relações cognitivas, afetivas e psicomotoras das crianças. É o caminho mais fácil para transmissão de conhecimento. A atividade lúdica é uma ferramenta facilitadora do ensino aprendizagem, tem valor educativo intrínseco, gera condições para que a criança instigue e integre-se com seus colegas e resolva alguns conflitos. É considerada um recurso didático de valor importância no processo de ensino- aprendizagem, torna o atrativo, melhora o relacionamento das crianças durante as aulas. O professor precisa estar atento para descobrir as habilidades de cada aluno, pois na sala de aula encontramos crianças tímidas, as que tem o poder de liderança, as criativas, as mais inteligentes, entre outras qualidades. 88 Os jogos são metodologias que favorecem diversas atividades, bem como pode tornar a sala de aula um ambiente de construção de conhecimentos. A aprendizagem do conteúdo, nos dias atuais vão além das explicações do professor, sendo assim as brincadeiras tem papel relevante para a construção do conhecimento. Ensinar brincando, permite que a criança use sua liberdade de expressão, de pensar e de criar e recriar situações novas, desenvolvendo assim sua plenitude. É na atividade lúdica que o educando desenvolve sua habilidade de subordinar- se a uma regra, mesmo quando um estimulo direto o impede a fazer algo diferente. “Dominar as regras significa dominar seu próprio comportamento, aprendendo a controlá-lo, aprendendo a subordiná-lo a um propósito definitivo”. (SILVA, 2003, p.12). Diante disso percebe-se que o ato de brincar é usado pelos professores das séries iniciais como estratégia criativa de caráter dinâmico permitindo assim que professor imagine, faça de conta, crie, funcione como um minilaboratório de informação. As brincadeiras e os jogos são polos fundamentais para a saúde emocional, intelectual e física da criança e estão presente em nosso meio deste os primórdios. E através deles, a criança da educação infantil melhora seu pensamento, sua interação social com o outro, sua linguagem, sua autoestima, preparando-se para enfrentar situações cotidianas de conflitos. Sabe-se que os jogos quando trabalhados de forma eficiente e eficazes, estimulam e desenvolvem a inteligência das crianças. Os jogos lúdicos são ferramentas eficazes para desenvolver tudo o que a criança almeja, portanto é ferramenta essencial para desenvolver o raciocínio logico da criança. Através das brincadeiras a criança em sua especialidade vive em um mundo de fantasia, onde passa a construir um elo de ligação entre o mundo imaginário e o mundo real, onde convive com seus semelhantes. O brinquedo, pode se tornar material didático excelente, quando o professor sabe usá-lo como estratégia de ensino, o mesmo poderá proporcionar condições favoráveis ao desenvolvimento intelectual, motor, afetivo e cognitivo das crianças (SILVA, 2003). Neste sentido é preciso que o professor ao planejar suas aulas separe cada tipo de jogos de acordo com a idade das crianças, visando assim um melhor desempenho nas atividades didáticas, tendo em vista que os jogos trazem benefícios para o rendimento do aluno. 89 Os jogos devem ser vistos como leitura da realidade, para aquelas crianças que ainda não foram alfabetizadas, porém deveser vistas como suporte para aquelas crianças que já sabem ler, escrever e compreender, corroborando com estas ideias, Piaget direciona algumas etapas que precisam prevalecer em um jogo, e que ao passar por todas etapas, a seleção dos jogos, poderá melhorar o desempenho de uma partida, ou seja de um jogo para outro e desta forma há jogos que estimulam a audição, o tato e o paladar. O desenvolvimento da criança começa ainda no ventre de sua mãe e percorre por toda a sua vida. As brincadeiras quando realizadas de maneiras lúdicas podem proporcional na criança uma vida saudável, e seu rendimento escolar melhorar. Fonte: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ 15.2 A arte na educação infantil e no ensino fundamental segundo a BNCC A educação infantil dentro da BNCC acompanha o que já era proposto anteriormente nas DCNs, tendo como eixos estruturantes das práticas educativas a interação e as brincadeiras. Dessa forma, ao planejar as aulas nesta etapa inicial da educação básica, os professores deverão valer-se de atividades nas quais os alunos tenham participação ativa e possam aprender pelo lúdico. 90 A BNCC propõe algumas práticas que podem ser implementadas pelos professores ao trabalhar com o componente curricular de arte no ensino fundamental, como: “[...] exposições, saraus, espetáculos, performances, concertos, recitais, intervenções e outras apresentações e eventos artísticos e culturais, na escola ou em outros locais” (BRASIL, 2018, p. 193). A BNCC também organiza, em sua estrutura, o ensino da arte e suas linguagens a partir da articulação e do envolvimento das seguintes dimensões do conhecimento, apresentadas no quadro a seguir. CRIAÇÃO Refere-se ao fazer artístico, quando os sujeitos criam, produzem e constroem. Trata-se de uma atitude intencional e investigativa que confere materialidade estética a sentimentos, ideias, desejos e representações em processos, acontecimentos e produções artísticas individuais ou coletivas. Essa dimensão trata do apreender o que está em jogo durante o fazer artístico, processo permeado por tomadas de decisão, entraves, desafios, conflitos, negociações e inquietações. CRÍTICA Refere-se às impressões que impulsionam os sujeitos em direção a novas compreensões do espaço em que vivem, com base no estabelecimento de relações, por meio do estudo e da pesquisa, entre as diversas experiências e manifestações artísticas e culturais vividas e conhecidas. Essa dimensão articula ação e pensamento propositivos, envolvendo aspectos estéticos, políticos, históricos, filosóficos, sociais, econômicos e culturais. ESTESIA Refere-se à experiência sensível dos sujeitos em relação ao espaço, ao tempo, ao som, à ação, às imagens, ao próprio corpo e aos diferentes materiais. Essa dimensão articula a sensibilidade e a percepção, tomadas como forma de conhecer a si mesmo, o outro e o mundo. Nela, o corpo em sua totalidade (emoção, percepção, intuição, sensibilidade e intelecto) é o protagonista da experiência. EXPRESSÃO Refere-se às possibilidades de exteriorizar e manifestar as criações subjetivas por meio de procedimentos artísticos, tanto em âmbito individual quanto coletivo. Essa dimensão emerge da experiência artística com os elementos constitutivos de cada linguagem, dos seus vocabulários específicos e das suas materialidades. FRUIÇÃO Refere-se ao deleite, ao prazer, ao estranhamento e à abertura para se sensibilizar durante a participação em práticas artísticas e culturais. Essa dimensão implica disponibilidade dos sujeitos para a relação continuada com produções artísticas e culturais oriundas das mais diversas épocas, lugares e grupos sociais. 91 REFLEXÃO Refere-se ao processo de construir argumentos e ponderações sobre as fruições, as experiências e os processos criativos, artísticos e culturais. É a atitude de perceber, analisar e interpretar as manifestações artísticas e culturais, seja como criador, seja como leitor. Fonte: Adaptado de Brasil (2018). Dessa forma, cabe ao professor contemplar as dimensões propostas, de acordo com seu planejamento, para que a aula possa proporcionar uma experiência artística significativa aos alunos nos anos iniciais e finais do ensino fundamental. 15.3 O Papel da família e da escola na infância O ambiente familiar proporciona na criança o desenvolvimento de sua personalidade, o meio em que ela cresce, atua, desenvolve e permite a mesma expor seus sentimentos, experimentar as primeiras recompensas e punições sofrendo influência em decorrência da forma em que é tratada. Conforme expressa Winnicott, (1982, p.142), Mesmo o mais carinhoso e compreensivo ambiente de vida familiar não pode alterar o fato de que o desenvolvimento humano vulgar é árduo e, na verdade, um lar perfeitamente adaptativo seria difícil de perdurar, visto que não haveria qualquer alívio através de uma cólera justificada. (WINNICOTT, 1982, p.142) Na sociedade os pais ou responsáveis são os maiores influenciadores na vida e no comportamento da criança, “isto funciona como fator determinante no desenvolvimento da consciência, sujeita a influências subsequentes. ” (MÉDICI apud SOUSA e JOSÉ FILHO, 2008, p.02). A formação de cada sujeito vai corresponder às influências do meio social em que o sujeito está inserido, isso significa que, a família faz parte desse meio e torna- se dessa forma uma das mais importantes influenciadoras do desenvolvimento cognitivo e psicológico de seus componentes. Percebe-se que o ambiente familiar tem uma importante influência no desenvolvimento afetivo e cognitivo da criança fazendo com que ela tenha um relacionamento saudável com a sociedade ao seu redor. Bossa (1998) relata que “mais do que responsáveis pela qualidade de vida, os pais são construtores do aparelho psíquico dos seus filhos”. 92 O aparelho psíquico corresponde ao desenvolvimento integral do ser humano, das suas formas mais elaboradas de pensamento, que podem ser potencializadas a partir da inserção do indivíduo no ambiente familiar. Segundo Tiba (1996, p. 178), É dentro de casa na socialização familiar, que um filho adquire, aprende e absorve a disciplina para um futuro próximo, ter saúde social [...]A educação familiar é um fator bastante importante na formação da personalidade da criança desenvolvendo sua criatividade ética e cidadania refletindo diretamente no processo escolar. (TIBA, 1996, p.178) O contexto familiar e o escolar devem seguir os mesmos caminhos simultaneamente fortalecendo suas relações para obter melhores resultados no desenvolvimento do ensino-aprendizagem dos filhos/alunos. A participação dos pais na educação dos filhos é de suma importância, deve ser constante e responsável, sobre isso, Parolin (2007, p. 36) relata que “a qualidade do relacionamento que a família e a escola construírem serão determinantes para o bom andamento do processo de aprender e de ensinar do estudante e o seu bem viver em ambas as intuições”. No entanto, é de fundamental importância que família trabalhe em conjunto com a escola sabendo aproveitar os resultados positivos dessas relações, podendo resultar em princípios facilitadores para o ensino aprendizado da criança e uma melhor evolução na formação emocional e intelectual da mesma, conforme ressalta Parolin (2003, p.99). Em alguns itens específicos do Estatuto da Criança e do Adolescente, aparece a responsabilidade da escola, do poder público, do Estado e da família para a garantia mínima de uns dos direitos fundamentais das crianças e adolescentes. É direito da criança e do adolescente: Ter acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência; Ser respeitado por seus educadores; Ter igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; Direito de contestar os critérios de avaliação, podendo recorrer às instâncias escolares superiores.(ECA, 2012, p.43). 93 São deveres dos pais: Matricular seus filhos (ou pupilos) na escola; Acompanhar a frequência e aproveitamento de suas crianças e adolescentes na escola; O descumprimento destes deveres pode ser identificado como crime de abandono intelectual (quando a criança não é matriculada na escola), ou infração administrativa (quando os pais não acompanham o desenvolvimento no aluno na escola). (ECA, 2012, p.42). É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente: Ensino fundamental (da 1ª à 8 série), obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria; Ampliar gradativamente a oferta do ensino médio (colegial); Atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência (de preferência na rede regular de ensino); Atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade; Acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística; Oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do adolescente trabalhador; Atendimento no ensino fundamental, através de programas que garantam material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. (ECA, 2012, p.42). Fonte: https://blog.wpensar.com.br/ 94 REFÊRENCIAS BIBLIOGRAFIA BÁSICA COLOMBO, Fausto. Os Arquivos Imperfeitos. São Paulo; Perspectiva. 1991 CONTAT, Michael; FERRER, Daniel. Porquoi la critique génétique? Paris: CNRS Editions. 1998. 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