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4. Direitos Humanos
Conceituação e princípios dos direitos humanos 
O conhecimento acerca dos direitos humanos acende uma discussão em torno da luta
social, coletiva e ao mesmo tempo individual. É importante destacar que eles envolvem a
proteção de nossa cidadania em nível mundial. Por isso não podemos colaborar para que
discriminações, intolerância e opressão aconteçam com qualquer indivíduo.
Mas o que são direitos humanos? Inicialmente convém destacar que eles são a base de
uma relação respeitosa entre iguais e diferentes no mundo social. Em nossa Constituição
Federal, de 1988, por exemplo, há uma correspondência com a Declaração Universal de
Direitos Humanos - DUDH, aprovada em 1948, pela Assembleia Geral das Organização das
Nações Unidas - ONU, que preconiza em seu art. 1º que: “[...] todos os seres humanos
nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência,
devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade” (ORGANIZAÇÃO DAS
NAÇÕES UNIDAS, 1948, p. 3).
Direitos humanos: são aqueles constituídos pelos direitos naturais, garantidos a todos
os cidadãos e que devem ser estendidos a todos os indivíduos, sem distinção de gênero,
classe social, posição política, etnia, religião ou nacionalidade.
Segundo a pesquisadora Jackeline Guimarães Almeida Franzoi (2003), em pleno contexto
pós Segunda Guerra Mundial (1939-1945), especificamente em 10 de dezembro de 1948,
houve a publicação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU. A autora
remonta que tal documento se fez necessário para que pudéssemos lembrar e combater
todo e qualquer ato de atrocidade, violência, semelhantes aos que aconteceram durante o
conflito militar global. Essa declaração é o resultado das lutas por direitos historicamente
constituídos e que possibilitou trazer uma perspectiva de igualdade e liberdade entre
homens e mulheres.
Mas é preciso compreender o significado desses direitos, no sentido de valorizar sua
existência e aplicabilidade. Por este ângulo, a jurista Flávia Piovesan (2005), compreende
que a efetivação dos direitos humanos refere-se a uma aspiração e necessidade universal
de reconhecermos a nós mesmos como seres humanos, únicos, que não são julgados
pelas suas diferenças para acessar espaços e culturas. Tal movimento diz respeito à
valorização da dignidade da pessoa humana.
É importante destacar que, em linhas gerais, os três princípios fundamentais apresentados
na Declaração Universal dos Direitos Humanos são:
• Inviolabilidade da pessoa: não sacrificar um indivíduo com o motivo de que será
para o benefício de outro.
• Autonomia da pessoa: assegura a liberdade de ação para qualquer indivíduo desde
que este não prejudique outros.
• Dignidade da pessoa: os indivíduos devem ser julgados e tratados conforme seus
atos, unicamente.
Depreende-se que o que aqui chamamos de Direitos Humanos trata-se de direitos e
liberdades de todos os seres humanos. Ressaltamos, então, algumas características deles:
• Universalidade: todo e qualquer ser humano é sujeito ativo desses direitos,
independente de credo, raça, sexo, cor, nacionalidade, convicções;
• Inviolabilidade: esses direitos não podem ser descumpridos por nenhuma pessoa ou
autoridade;
• Indisponibilidade: esses direitos não podem ser renunciados. Não cabe ao particular
dispor dos direitos conforme a própria vontade, devem ser sempre seguidos;
• Imprescritibilidade: eles não sofrem alterações com o decurso do tempo, pois têm
caráter eterno;
• Complementaridade: os direitos humanos devem ser interpretados em conjunto,
não havendo hierarquia entre eles.
Ação Comunitária e Participação Democrática
O ser humano imagina-se incluído em dois grupos societais: no primeiro deles ele se
mostra como alguém que sente a necessidade de ser conduzido, aceita e espera
confortavelmente aquilo que o Estado oferece como medidas públicas para garantir os
direitos da população, bem como, as tomadas de decisões dos governantes no campo
econômico, social e político. Já o outro grupo busca constantemente a chama acesa do
questionamento, da participação, da vontade de transformar e de estar construindo as
decisões acima referidas.
Dessa forma, consideramos significativo destacar o conceito de comunidade para
pensarmos seu papel no âmbito democrático.
Comunidade: sociologicamente trata-se de um grupo de indivíduos que, além de
possuírem a residência em comum do ponto de vista geográfico, compartilham uma
cultura e tornam-se parte da história dessa coletividade, cujos objetivos e metas partem
das demandas comuns.
Nesta sociedade digital, educar um indivíduo para desenvolver sua cidadania plena
também envolve construir valores de respeito, responsabilidade e participação
colaborativa com a comunidade.
• Capacity Building: compartilhamento de tarefas relacionadas à administração do
projeto de transformação. Também diz respeito a monitoramento e construção da
sustentação do projeto.
• Eficácia: quando o projeto caminha junto com as demandas da comunidade.
Corresponde e atende essas demandas.
• Eficiência: a procura de consenso com interação e cooperação para avanços e não
atrasos. Cumprindo metas e prazos. Intensa participação comunitária.
• Compartilhamento de Custos: compartilhamento de gastos do projeto a ser
desenvolvido, com a finalidade de barateá-lo. 
Quando falamos em “democracia participativa”, estamos lidando com a situação de uma
participação popular na tomada de decisões, sobretudo, no âmbito político. Esse conceito
evoca a ideia de proporcionar a oportunidade de participação às pessoas, criando canais
de debate que incentivem o pensar sobre questões políticas, diretamente ligadas ao
exercício de sua cidadania.
Uma proposta de entendimento e clareza sobre a ideia de ação da comunidade em uma
perspectiva democrática volta-se para a situação do conceito de gestão democrática
presente, por exemplo, nas escolas.
Segundo Rosineia de Lima Nascimento (2012), o trabalho em equipe voltado à qualidade
de ensino é a grande base para uma gestão democrática e participativa nas escolas. Além
disso, o educador Vitor Henrique Paro (2012), considera fundamental que a gestão escolar
tenha a consciência de que precisa estar sujeita a mecanismos de controle e fiscalização
pela própria comunidade na qual se insere.
Fortalecendo estas ideias, o professor Moacir Gadotti (1995) nos lembra que
descentralização e autonomia devem andar lado a lado. Da mesma maneira que a luta
pela conquista da autonomia na escola é também um reflexo dos embates na própria
sociedade.
Assim, tal qual apresentamos até aqui, é necessário que o entendimento da condução
democrática esteja presente no cenário educacional, favorecendo o estado de participação
da comunidade. Na escola, bem como no Estado, uma gestão participativa e democrática
deve envolver: participação propriamente dita, descentralização e transparência.
Permeado por essa concepção, o educador Paulo Freire (1995) mostra que a participação
política das classes populares deve ocorrer através de seus representantes, seja na
tomada de decisões, seja na definição de um projeto de ação.
Para que a participação da comunidade aconteça de forma efetiva, é preciso também que
a mesma conheça que canais existem para sua atuação. Observe a lista abaixo e verifique
as principais formas de participar:
• Conselhos Municipais: Formulam, acompanham e avaliam as políticas públicas.
Neles, qualquer cidadão pode participar, apresentar projetos e dar sua opnião.
• Audiência Públicas: São obrigatórias para discussão da lei de Diretrizes
Orçamentárias(LDO) e também podem ser requisitadas para o debate de problemas
que afetem a cidade.
• Ouvidoria Púplica Municipal: Atende reclamações de problemas relacionados à
prefeitura
• Ação Popular: Permite que o cidadão proponha uma ação contra ato quelese o
patrimônio público.
• Iniciativa Popular: Com o aval de 5% dos eleitores do município, qualquer cidadão
pode apresentar um projeto de lei na Câmara Municipal.
• Representações: Ao ministério Público, possibilita a abertura de procedimentos de
investigação de supostos atos irregulares praticados contra o interesse público.
Caso seja ao Tribunal de Contas, o cidadão pode denunciar irregularidades ou
ilegalidades na administração pública.
Dessa forma, vemos que cada grupo representado nos diálogos recebe a oportunidade de
apresentar suas ideias e prováveis soluções para os entraves comunitários. Isso supera,
com certeza, o fato de ter uma visão unilateral em que somente uma classe, ou grupo,
toma decisões e avaliam ações, pois todos os níveis envolvidos podem contribuir para a
melhoria da qualidade de vida no coletivo.
Ética, Direitos Humanos e Violência
A temática dos direitos humanos possui relevância na constituição da lógica jurídica do
século XXI e apresenta, na sua essência, traços do passado e uma perspectiva de futuro.
Nesse sentido, ainda sobre os direitos humanos, vemos a necessidade de uma ampla
análise histórico-filosófica, além de um grande conhecimento jurídico para melhor
fundamentá-los e compreendê-los.
A violência é uma questão recorrente em nosso dia a dia. Temos assistido muitas cenas de
desrespeito aos direitos humanos, atitudes de violência e precarização da ordem social.
Diante disso, como podemos nos posicionar de modo ético em relação às diferentes
situações que saltam aos nossos olhos diariamente?
A professora Flávia Schilling (2007) destaca que a violência em nossa sociedade está
presente desde a fala das pessoas no dia a dia, até mesmo na mídia e nos discursos
políticos. Para a autora, existem diversos tipos de violência, desde a que acontece na
família até a que configura a criminalidade, abrangendo a violência física, psicológica e/ou
emocional, moral, sexual, social e doméstica.
Além disso, é importante evidenciar que viver em um Estado Democrático de Direito,
como o Brasil, é experimentar práticas de respeito às diferenças e os preceitos dos direitos
humanos. Contudo, isso é muito significativo e completo na letra fria do papel, mas na
prática assistimos ações violentas contra a mulher, o idoso, a orientação sexual ou
identidade de gênero das pessoas, além dos crimes de intolerância racial, religiosa,
corrupção, violência policial, entre outros.
Estado Democrático de Direito: é aquele em que os governantes seguem o que está
previsto nas leis, isto é, respeitam e cumprem o que é definido em suas normas, visando à
garantia do exercício de direitos individuais, sociais e dos poderes instituídos.
Como entendemos a violência em relação aos Direitos Humanos? Vemos, por exemplo,
que a educação é um direito de todos e é dever do Estado assegurá-lo. Conforme
estabelece o artigo 206 da nossa Carta Magna, de 1988, o ensino do país será ministrado
tendo por base os seguintes princípios:
• igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; 
• liberdade de aprender, de ensinar, pesquisar e ampliar o pensamento, a arte e o
saber; 
• pluralismo de ideias e de vertentes pedagógicas; a coexistência de instituições
públicas e privadas de ensino; 
• gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; 
• valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei,
planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e
títulos, aos das redes públicas; (Redação da EC 53/2006);
• gestão democrática do ensino público, na forma da lei;
• garantia de padrão de qualidade;
• piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública,
nos termos de lei federal. (Incluído pela EC 53/2006);
• garantia do direito à educação e à aprendizagem ao longo da vida. (Incluído pela EC
n. 108/2020).
Nesse caso, a infração ao respeito dos direitos humanos está diretamente vinculada à
impunidade. No Brasil já existe a Emenda Constitucional nº 45, de 30 de dezembro de
2004, que federaliza crimes contra os direitos humanos. Assim, quando acontece alguma
violação aos direitos humanos, esta é prontamente transferida para o sistema de justiça
nacional, ou seja, a esfera federal. Mas o ideal seria criar políticas públicas que se
voltassem para o combate direto à violência. Como o Estado apresenta dificuldades de
tornar efetivo esse projeto, assistimos, na maioria das vezes, as pessoas em situação de
pobreza e outros grupos vulneráveis, sendo a parcela da população mais vitimada pela
violência. Pois, no fundo, há uma inércia das instituições públicas para estabelecer
punições e, também, um despreparo, omissão ou conivência com ações de violência física
e simbólica.
No que tange às discussões empreendidas até aqui, percebemos que ética e violência
caminham em lados diferentes. Já que a violência remete a tudo aquilo que usa a força
para ir contra a natureza de algum ser, esmagando-o, torturando-o, desorganizando-o.
Portanto, podemos afirmar que uma atitude violenta em nada colabora para uma vida
justa e solidária em sociedade. Dessa forma, afirmamos que violência se opõe à ética
porque não considera o respeito e o compromisso de manter a integridade física e moral
dos indivíduos.
Cenário Atual e Tendências da Ética e da Cidadania
A realidade social não está pré-concebida e os indivíduos podem atuar sobre os processos
coletivos. Assim, é possível que os homens criem e recriem novas propostas de
convivência que esbarram em amplas discussões acerca dos conceitos de ética e
cidadania com questões, por exemplo, que envolvem os estudos de robótica, as
investigações científicas sobre células tronco, o estabelecimento de poder para certos
grupos, como também a autorização do porte de armas para os cidadãos em geral.
Segundo o filósofo Peter Singer (2002), uma pessoa vive dentro de uma esfera do ético
quando se preocupa com a justificativa de sua ação, já que só o fato da pessoa querer
explicá-la, podendo estar certa ou errada, demonstra que ela pauta-se em uma
consciência ética.
Nessa seara de considerações, o professor Álvaro Luiz Montenegro Valls (2000) mostra que
a moral está diretamente ligada às ações práticas dos seres humanos. Ele chama a
atenção para o fenômeno da massificação e do autoritarismo presente tanto nos meios de
comunicação quanto nas práticas políticas. Pois, segundo o autor, os homens, mesmo
cientes de seu papel fundamental como executores da moral, conseguem agir eticamente.
Ademais, Valls traz o questionamento sobre até que ponto é possível o homem escolher
entre o bem e o mal.
Em tempos atuais, a educação ocupa um lugar importante para a formação de um cidadão
participativo e solidário, consciente dos seus deveres e direitos. Em uma proposta de
educação pautada nos direitos humanos é possível construir uma base para ampliar o que
vem a ser uma educação democrática, apontando um caminho para o exercício efetivo da
democracia, regime voltado para uma soberania popular, com pleno respeito aos direitos
humanos.
No que se refere ao mundo do trabalho, por exemplo, Robert C. Solomon (2006) destaca
que o estudo da ética se faz primordial pelas infrações que aparecem em jornais no mundo
dos negócios. Tal proposta deveria ocorrer a partir da compreensão profunda das
experiências práticas.
Ademais, o sociólogo Zygmunt Bauman (2011) também colabora com as reflexões entre a
“Era da Ética”, típica da modernidade, e a “Era da Moral”, peculiar da pós-modernidade.
Ele apresenta a ideia de “ser-junto-com-o-outro” para, finalmente, descobrir nossa
humanidade. Nesse sentido, a ética e a moral da pós-modernidade emerge de uma
responsabilidade moral incondicional em que cada pessoa desenvolve por meio de suas
atitudes o “estar junto com o outro” no dia a dia da sua vida.Ainda segundo o autor, diferentes sujeitos devem ser capazes de tomar decisões próprias
sem serem coagidos por um sistema normativo. Eles constroem o senso de
responsabilidade que os auxilia para lidar com situações que exigem consenso, instituindo
a questão ética.
Já a moral, pelo olhar de Bauman (2011), consiste em categoria contingente e incontível.
Para ele, a relação com o desconhecido traz a possibilidade de reconhecimento de uma
humanidade. Vejamos, na sequência, algumas situações em que a ética e a cidadania
aparecem, exigindo dos sujeitos a utilização desse senso de racionalidade.
Ética e política 
Um problema que tem incomodado bastante a sociedade brasileira está diretamente
relacionado com a questão da corrupção na política, suscitando alguns questionamentos.
Será que os sujeitos eleitos democraticamente, por meio do voto direto, com a finalidade
de representar a vontade geral, mas que executam uma governança voltada para os seus
interesses pessoais estão agindo de forma ética? Há uma falta de ética no exercício da
política no meio social? Como fica a questão da cidadania relacionada à questão ética em
tempos atuais?
Para o jurista Eduardo Carlos Bittar (2010), a questão ética presente no mundo das
atividades políticas pode ser vista como a saúde político-institucional que irá se traduzir na
saúde social. Além disso, deve-se aceitar que a estrutura da éthos de uma sociedade fica,
em grande parte, na dependência das ações e atitudes políticas para alcançar direitos e
acessar serviços públicos.
Ainda, Elias Farah (2000) adverte que o cidadão, ou seja, o eleitor, é quem recebe o
impacto de um ato de corrupção praticado por um agente público, sobretudo os eleitos. O
corruptor, durante o exercício das suas atribuições, busca um forte elo de captação de
recursos para vaidades pessoais, fantasias próprias e de sua família, deixando de lado sua
função pública.
O teórico Edgar Morin (2000) destaca que o ensino da ética é um dos saberes necessários
à educação. Para ele, a reflexão no campo da ação do homem, em nível das decisões da
ação moral dos indivíduos, deve ganhar espaço em diferentes níveis da educação.
A corrupção pode ser compreendida como um fenômeno social, ela consiste em um reflexo
da cultura formada sem princípios éticos e valores morais. Trata-se de uma prática cultural
antiética e, no Brasil, observamos que a raiz da corrupção é tanto histórica quanto
cultural. 
Ética na saúde
O comportamento ético em atividades de saúde deve considerar um enfoque de
responsabilidade social e também a expansão dos direitos da cidadania, uma vez que a
saúde constitui um direito básico e proporciona as condições de cidadania à população.
A ética da responsabilidade e a Bioética envolvem o cuidado do outro, portanto, compete
aos profissionais dessa área ter consciência em desenvolver esta postura. Dessa forma,
vemos que a ética deve reconhecer o valor de todos os seres vivos e encarar os humanos
como um dos pontos que também formam a base da vida.
O professor Joaquim Clotet (2003) aponta que a “Bioética é uma ética aplicada que se
ocupa do uso correto das novas tecnologias na área das ciências médicas e da solução
adequada dos dilemas morais por elas apresentados” (CLOTET, 2003, p. 33).
Ética as redes sociais
As redes sociais também têm se mostrado como um importante canal de informação e
trocas comunicacionais. Além disso, ao mesmo tempo em que elas informam, também
desinformam. Relacionando com a questão ética, temos a grande dor de cabeça do
momento, as chamadas fake news. Estas provocam desequilíbrio, afetações emocionais e
transtornos, principalmente naqueles que são os alvos dessas notícias falsas. Cabe
ressaltar que as fake news reforçam preconceitos, ódio contra indivíduos ou grupos
sociais.
Tomemos o exemplo do impacto que a sociedade teve sobre a enganosa notícia da
existência de um “kit gay” imposto nas escolas. Essa ideia partiu da interpretação
equivocada de um projeto verdadeiro que fazia parte de um dos programas do Governo
Federal, intitulado de “Escola sem Homofobia”. Contudo, as informações originais foram
manipuladas e disseminadas de forma totalmente desvirtuada, com a perspectiva de dizer
que haveria uma suposta “ideologia de gênero” e o ensino de temáticas sobre sexualidade
para crianças de seis anos nas escolas. A questão ética, sobretudo a sua ausência,
aparece fortemente nesse fato em decorrência do compartilhamento de notícias
inverídicas, causando impactos negativos ao projeto e na vida das pessoas. Todavia, tanto
nessa situação quanto em todas as outras em que compartilhamos ou postamos algum
conteúdo nas redes sociais, é imprescindível conferir a veracidade das informações
veiculadas.
Os pesquisadores Michael Schudson e Barbie Zelizer (2017) afirmam que a notícia falsa
pode interferir no cotidiano do cidadão e das redações jornalísticas. Segundo eles, nas
atividades periodistas, por exemplo, é preciso ter responsabilidade com a questão da
reprodução de notícias falsas, exageradas ou até mesmo corrompidas. O sociólogo Michael
Kunczik (2001) aplica o termo disfunção quando ocorre às notícias são alteradas e servem
de ameaça à estabilidade social. Pois, conforme os autores Mauro Wolf e Maria Jorge Vilar
de Figueiredo (1987), a circulação de notícias falsas destrói a cidadania de forma severa.
Ainda, em suas considerações, os meios de comunicação têm a função de trazer a
possibilidade de alertar o cidadão e apresentar instrumentos para realizar as suas ações
diárias.
Na sequência, observe como detectar notícias falsas, segundo os jornalistas Eugene Kiely
e Lori Robertson (2017):
• Considere a fonte: veja se tem credibilidade;
• Considere o autor: faça uma breve pesquisa sobre ele;
• Confirme a data: verifique a data e qual contexto a notícia se enquadra;
• Fontes de apoio: encontre bases de informações; identifique se as fontes estão
relacionadas ou tratam do assunto, pois é preciso identificá-las;
• Considere todos os lados: ser contra uma ideologia não quer dizer que a notícia é
falsa;
• Verifique se é piada: há sites que fazem piadinhas com determinados temas;
• Leia mais: é preciso ler sobre o assunto. Quando você pesquisa e lê mais sobre um
assunto, percebe se a informação a ser compartilhada tem ou não veracidade.
Enfim, a discussão sobre ética e cidadania, levando em consideração o que estamos
vivendo nos dias de hoje e a necessidade de uma convivência harmônica em nossa
sociedade, deve observar se há uma compatibilidade entre o ideal da comunidade
almejada e o estilo de vida construído, sem isso não é possível pensar um corpo social
ético como realidade.
Na atualidade, o sujeito que possui a cidadania é aquele detentor de direitos, mas também
de deveres. O cidadão deve ter ciência de sua participação na sociedade e que precisa
contribuir coletivamente, pois o desenvolvimento da cidadania só ocorre por meio do
desejo e colaboração para a efetivação do bem comum.
Uma outra perspectiva tem a ver com os aspectos atrelados à sociedade de risco que
estamos vivendo. Isto significa que diante do crescimento da civilização tecnológica,
vemos um número muito grande de difusão e proliferação dos riscos, resultantes da
maneira como a sociedade moderna foi se organizando. Riscos que estão cada vez mais
presentes no nosso dia a dia, afetando as comunidades e revelando a crise da sociedade
industrial.
Para o sociólogo britânico Anthony Giddens(1991), a sociedade moderna organiza-se
levando em conta o distanciamento tempo-espaço, diferentemente das sociedades pré-
modernas, nas quais as relações entre os indivíduos eram construídas através das
referências locais. Nesse caso, a explicação para situações e fenômenos que ali se
processavam, eram situadas na lógica do conhecimento e interaçõescotidianas que, por
sua vez, promoviam a organização social com base nas redes de confiança, depositada
nos laços de parentesco e alianças.
Caso qualquer coisa perturbasse o equilíbrio daquela ordem social, o grupo encontraria
resolução para aquele problema, valorizando a confiança localizada em seu interior e entre
os sujeitos. Já nas sociedades atuais, conforme deriva do pensamento de Giddens, estas
constroem seu esquema de funcionamento e racionalização social fundamentadas em
uma relação de confiança dos indivíduos em sistemas abstratos, fichas simbólicas, que
podem ser entendidos como o progresso do conhecimento técnico, econômico e científico.
Portanto, vivemos riscos de acreditar nos sistemas simbólicos, no virtual e, a partir destas
crenças, também construímos nossas posições éticas e cidadãs.
Educação, ética e cidadania hoje
No texto que segue temos algumas reflexões importantes acerca da ação de ensinar a
pensar para a vida. Tal reflexão, baseada nas ideias do filósofo Immanuel Kant, traz em si
a própria valorização da educação para o bem coletivo.
Espera-se que o professor desenvolva no seu aluno, em primeiro lugar, o homem de
entendimento, depois, o homem de razão, e, finalmente, o homem de instrução. Este
procedimento tem esta vantagem: mesmo que, como acontece habitualmente, o aluno
nunca alcance a fase final, terá mesmo assim beneficiado da sua aprendizagem. Terá
adquirido experiência e ter-se-á tornado mais inteligente, se não para a escola, pelo
menos para a vida.
Se invertermos este método, o aluno imita uma espécie de razão, ainda antes de o seu
entendimento se ter desenvolvido. Terá uma ciência emprestada que usa não como algo
que, por assim dizer, cresceu nele, mas como algo que lhe foi dependurado. A aptidão
intelectual é tão infrutífera como sempre foi. Mas ao mesmo tempo foi corrompida num
grau muitíssimo maior pela ilusão de sabedoria. É por esta razão que não é infrequente
deparar-se-nos homens de instrução (estritamente falando, pessoas que têm estudos) que
mostram pouco entendimento. É por esta razão, também, que as academias enviam para
o mundo mais pessoas com as suas cabeças cheias de inanidades do que qualquer outra
instituição pública.
[...] Em suma, o entendimento não deve aprender pensamentos mas a pensar. Deve ser
conduzido, se assim nós quisermos exprimir, mas não levado em ombros, de maneira a
que no futuro seja capaz de caminhar por si, e sem tropeçar.
A natureza peculiar da própria filosofia exige um método de ensino assim. Mas visto que a
filosofia é, estritamente falando, uma ocupação apenas para aqueles que já atingiram a
maturidade, não é de espantar que se levantem dificuldades quando se tenta adaptá-la às
capacidades menos exercitadas dos jovens. O jovem que completou a sua instrução
escolar habituou-se a aprender. Agora pensa que vai aprender filosofia. Mas isso é
impossível, pois agora deve aprender a filosofar. [...] Para que pudesse aprender filosofia
teria de começar por já haver uma filosofia. Teria de ser possível apresentar um livro e
dizer: “Veja-se, aqui há sabedoria, aqui há conhecimento em que podemos confiar. Se
aprenderem a entendê- lo e a compreendê-lo, se fizerem dele as vossas fundações e se
construírem com base nele daqui para a frente, serão filósofos”. Até me mostrarem tal
livro de filosofia, um livro a que eu possa apelar, [...] permito-me fazer o seguinte
comentário: estaríamos a trair a confiança que o público nos dispensa se, em vez de
alargar a capacidade de entendimento dos jovens entregues ao nosso cuidado e em vez
de os educar de modo a que no futuro consigam adquirir uma perspectiva própria mais
amadurecida, se em vez disso os enganássemos com uma filosofia alegadamente já
acabada e cogitada por outras pessoas em seu benefício. Tal pretensão criaria a ilusão de
ciência. Essa ilusão só em certos lugares e entre certas pessoas é aceite como moeda
legítima. Contudo, em todos os outros lugares é rejeitada como moeda falsa. O método de
instrução próprio da filosofia é zetético, como o disseram alguns filósofos da antiguidade
(de zhtein). Por outras palavras, o método da filosofia é o método da investigação. Só
quando a razão já adquiriu mais prática, e apenas em algumas áreas, é que este método
se torna dogmático, isto é, decisivo. Por exemplo, o autor sobre o qual baseamos a nossa
instrução não deve ser considerado o paradigma do juízo. Ao invés, deve ser encarado
como uma ocasião para cada um de nós formar um juízo sobre ele, e até mesmo, na
verdade, contra ele. O que o aluno realmente procura é proficiência no método de refletir
e fazer inferências por si. E só essa proficiência lhe pode ser útil. Quanto ao conhecimento
positivo que ele poderá talvez vir a adquirir ao mesmo tempo — isso terá de ser
considerado uma consequência acidental. Para que a colheita de tal conhecimento seja
abundante, basta que o aluno semeie em si as fecundas raízes deste método.
Ensinar a pensar - Immanuel Kant (Tradução de Desidério Murcho)
Texto retirado de “Anúncio do Programa do Semestre de Inverno de 1765-1766” da
colectânea de textos Theoretical Philosophy, 1755-1770 (edição de David Walford e Ralf
Merbote, Cambridge University Press, 1992), pp. 2:306-7.
É significativo compreender a criação de novos desenhos de sujeitos pensantes e
participativos na sociedade atual, em que as tecnologias da informação e as
comunicações são cada vez mais reais, capazes de oferecer uma visão e um maior
conhecimento acerca das relações e saberes sociais que indicam o progresso da
humanidade. Nesse sentido, essa compreensão é fundamental para se estabelecer um
diálogo entre indivíduo, cultura e educação.

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