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4. Direitos Humanos Conceituação e princípios dos direitos humanos O conhecimento acerca dos direitos humanos acende uma discussão em torno da luta social, coletiva e ao mesmo tempo individual. É importante destacar que eles envolvem a proteção de nossa cidadania em nível mundial. Por isso não podemos colaborar para que discriminações, intolerância e opressão aconteçam com qualquer indivíduo. Mas o que são direitos humanos? Inicialmente convém destacar que eles são a base de uma relação respeitosa entre iguais e diferentes no mundo social. Em nossa Constituição Federal, de 1988, por exemplo, há uma correspondência com a Declaração Universal de Direitos Humanos - DUDH, aprovada em 1948, pela Assembleia Geral das Organização das Nações Unidas - ONU, que preconiza em seu art. 1º que: “[...] todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1948, p. 3). Direitos humanos: são aqueles constituídos pelos direitos naturais, garantidos a todos os cidadãos e que devem ser estendidos a todos os indivíduos, sem distinção de gênero, classe social, posição política, etnia, religião ou nacionalidade. Segundo a pesquisadora Jackeline Guimarães Almeida Franzoi (2003), em pleno contexto pós Segunda Guerra Mundial (1939-1945), especificamente em 10 de dezembro de 1948, houve a publicação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU. A autora remonta que tal documento se fez necessário para que pudéssemos lembrar e combater todo e qualquer ato de atrocidade, violência, semelhantes aos que aconteceram durante o conflito militar global. Essa declaração é o resultado das lutas por direitos historicamente constituídos e que possibilitou trazer uma perspectiva de igualdade e liberdade entre homens e mulheres. Mas é preciso compreender o significado desses direitos, no sentido de valorizar sua existência e aplicabilidade. Por este ângulo, a jurista Flávia Piovesan (2005), compreende que a efetivação dos direitos humanos refere-se a uma aspiração e necessidade universal de reconhecermos a nós mesmos como seres humanos, únicos, que não são julgados pelas suas diferenças para acessar espaços e culturas. Tal movimento diz respeito à valorização da dignidade da pessoa humana. É importante destacar que, em linhas gerais, os três princípios fundamentais apresentados na Declaração Universal dos Direitos Humanos são: • Inviolabilidade da pessoa: não sacrificar um indivíduo com o motivo de que será para o benefício de outro. • Autonomia da pessoa: assegura a liberdade de ação para qualquer indivíduo desde que este não prejudique outros. • Dignidade da pessoa: os indivíduos devem ser julgados e tratados conforme seus atos, unicamente. Depreende-se que o que aqui chamamos de Direitos Humanos trata-se de direitos e liberdades de todos os seres humanos. Ressaltamos, então, algumas características deles: • Universalidade: todo e qualquer ser humano é sujeito ativo desses direitos, independente de credo, raça, sexo, cor, nacionalidade, convicções; • Inviolabilidade: esses direitos não podem ser descumpridos por nenhuma pessoa ou autoridade; • Indisponibilidade: esses direitos não podem ser renunciados. Não cabe ao particular dispor dos direitos conforme a própria vontade, devem ser sempre seguidos; • Imprescritibilidade: eles não sofrem alterações com o decurso do tempo, pois têm caráter eterno; • Complementaridade: os direitos humanos devem ser interpretados em conjunto, não havendo hierarquia entre eles. Ação Comunitária e Participação Democrática O ser humano imagina-se incluído em dois grupos societais: no primeiro deles ele se mostra como alguém que sente a necessidade de ser conduzido, aceita e espera confortavelmente aquilo que o Estado oferece como medidas públicas para garantir os direitos da população, bem como, as tomadas de decisões dos governantes no campo econômico, social e político. Já o outro grupo busca constantemente a chama acesa do questionamento, da participação, da vontade de transformar e de estar construindo as decisões acima referidas. Dessa forma, consideramos significativo destacar o conceito de comunidade para pensarmos seu papel no âmbito democrático. Comunidade: sociologicamente trata-se de um grupo de indivíduos que, além de possuírem a residência em comum do ponto de vista geográfico, compartilham uma cultura e tornam-se parte da história dessa coletividade, cujos objetivos e metas partem das demandas comuns. Nesta sociedade digital, educar um indivíduo para desenvolver sua cidadania plena também envolve construir valores de respeito, responsabilidade e participação colaborativa com a comunidade. • Capacity Building: compartilhamento de tarefas relacionadas à administração do projeto de transformação. Também diz respeito a monitoramento e construção da sustentação do projeto. • Eficácia: quando o projeto caminha junto com as demandas da comunidade. Corresponde e atende essas demandas. • Eficiência: a procura de consenso com interação e cooperação para avanços e não atrasos. Cumprindo metas e prazos. Intensa participação comunitária. • Compartilhamento de Custos: compartilhamento de gastos do projeto a ser desenvolvido, com a finalidade de barateá-lo. Quando falamos em “democracia participativa”, estamos lidando com a situação de uma participação popular na tomada de decisões, sobretudo, no âmbito político. Esse conceito evoca a ideia de proporcionar a oportunidade de participação às pessoas, criando canais de debate que incentivem o pensar sobre questões políticas, diretamente ligadas ao exercício de sua cidadania. Uma proposta de entendimento e clareza sobre a ideia de ação da comunidade em uma perspectiva democrática volta-se para a situação do conceito de gestão democrática presente, por exemplo, nas escolas. Segundo Rosineia de Lima Nascimento (2012), o trabalho em equipe voltado à qualidade de ensino é a grande base para uma gestão democrática e participativa nas escolas. Além disso, o educador Vitor Henrique Paro (2012), considera fundamental que a gestão escolar tenha a consciência de que precisa estar sujeita a mecanismos de controle e fiscalização pela própria comunidade na qual se insere. Fortalecendo estas ideias, o professor Moacir Gadotti (1995) nos lembra que descentralização e autonomia devem andar lado a lado. Da mesma maneira que a luta pela conquista da autonomia na escola é também um reflexo dos embates na própria sociedade. Assim, tal qual apresentamos até aqui, é necessário que o entendimento da condução democrática esteja presente no cenário educacional, favorecendo o estado de participação da comunidade. Na escola, bem como no Estado, uma gestão participativa e democrática deve envolver: participação propriamente dita, descentralização e transparência. Permeado por essa concepção, o educador Paulo Freire (1995) mostra que a participação política das classes populares deve ocorrer através de seus representantes, seja na tomada de decisões, seja na definição de um projeto de ação. Para que a participação da comunidade aconteça de forma efetiva, é preciso também que a mesma conheça que canais existem para sua atuação. Observe a lista abaixo e verifique as principais formas de participar: • Conselhos Municipais: Formulam, acompanham e avaliam as políticas públicas. Neles, qualquer cidadão pode participar, apresentar projetos e dar sua opnião. • Audiência Públicas: São obrigatórias para discussão da lei de Diretrizes Orçamentárias(LDO) e também podem ser requisitadas para o debate de problemas que afetem a cidade. • Ouvidoria Púplica Municipal: Atende reclamações de problemas relacionados à prefeitura • Ação Popular: Permite que o cidadão proponha uma ação contra ato quelese o patrimônio público. • Iniciativa Popular: Com o aval de 5% dos eleitores do município, qualquer cidadão pode apresentar um projeto de lei na Câmara Municipal. • Representações: Ao ministério Público, possibilita a abertura de procedimentos de investigação de supostos atos irregulares praticados contra o interesse público. Caso seja ao Tribunal de Contas, o cidadão pode denunciar irregularidades ou ilegalidades na administração pública. Dessa forma, vemos que cada grupo representado nos diálogos recebe a oportunidade de apresentar suas ideias e prováveis soluções para os entraves comunitários. Isso supera, com certeza, o fato de ter uma visão unilateral em que somente uma classe, ou grupo, toma decisões e avaliam ações, pois todos os níveis envolvidos podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida no coletivo. Ética, Direitos Humanos e Violência A temática dos direitos humanos possui relevância na constituição da lógica jurídica do século XXI e apresenta, na sua essência, traços do passado e uma perspectiva de futuro. Nesse sentido, ainda sobre os direitos humanos, vemos a necessidade de uma ampla análise histórico-filosófica, além de um grande conhecimento jurídico para melhor fundamentá-los e compreendê-los. A violência é uma questão recorrente em nosso dia a dia. Temos assistido muitas cenas de desrespeito aos direitos humanos, atitudes de violência e precarização da ordem social. Diante disso, como podemos nos posicionar de modo ético em relação às diferentes situações que saltam aos nossos olhos diariamente? A professora Flávia Schilling (2007) destaca que a violência em nossa sociedade está presente desde a fala das pessoas no dia a dia, até mesmo na mídia e nos discursos políticos. Para a autora, existem diversos tipos de violência, desde a que acontece na família até a que configura a criminalidade, abrangendo a violência física, psicológica e/ou emocional, moral, sexual, social e doméstica. Além disso, é importante evidenciar que viver em um Estado Democrático de Direito, como o Brasil, é experimentar práticas de respeito às diferenças e os preceitos dos direitos humanos. Contudo, isso é muito significativo e completo na letra fria do papel, mas na prática assistimos ações violentas contra a mulher, o idoso, a orientação sexual ou identidade de gênero das pessoas, além dos crimes de intolerância racial, religiosa, corrupção, violência policial, entre outros. Estado Democrático de Direito: é aquele em que os governantes seguem o que está previsto nas leis, isto é, respeitam e cumprem o que é definido em suas normas, visando à garantia do exercício de direitos individuais, sociais e dos poderes instituídos. Como entendemos a violência em relação aos Direitos Humanos? Vemos, por exemplo, que a educação é um direito de todos e é dever do Estado assegurá-lo. Conforme estabelece o artigo 206 da nossa Carta Magna, de 1988, o ensino do país será ministrado tendo por base os seguintes princípios: • igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; • liberdade de aprender, de ensinar, pesquisar e ampliar o pensamento, a arte e o saber; • pluralismo de ideias e de vertentes pedagógicas; a coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; • gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; • valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas; (Redação da EC 53/2006); • gestão democrática do ensino público, na forma da lei; • garantia de padrão de qualidade; • piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, nos termos de lei federal. (Incluído pela EC 53/2006); • garantia do direito à educação e à aprendizagem ao longo da vida. (Incluído pela EC n. 108/2020). Nesse caso, a infração ao respeito dos direitos humanos está diretamente vinculada à impunidade. No Brasil já existe a Emenda Constitucional nº 45, de 30 de dezembro de 2004, que federaliza crimes contra os direitos humanos. Assim, quando acontece alguma violação aos direitos humanos, esta é prontamente transferida para o sistema de justiça nacional, ou seja, a esfera federal. Mas o ideal seria criar políticas públicas que se voltassem para o combate direto à violência. Como o Estado apresenta dificuldades de tornar efetivo esse projeto, assistimos, na maioria das vezes, as pessoas em situação de pobreza e outros grupos vulneráveis, sendo a parcela da população mais vitimada pela violência. Pois, no fundo, há uma inércia das instituições públicas para estabelecer punições e, também, um despreparo, omissão ou conivência com ações de violência física e simbólica. No que tange às discussões empreendidas até aqui, percebemos que ética e violência caminham em lados diferentes. Já que a violência remete a tudo aquilo que usa a força para ir contra a natureza de algum ser, esmagando-o, torturando-o, desorganizando-o. Portanto, podemos afirmar que uma atitude violenta em nada colabora para uma vida justa e solidária em sociedade. Dessa forma, afirmamos que violência se opõe à ética porque não considera o respeito e o compromisso de manter a integridade física e moral dos indivíduos. Cenário Atual e Tendências da Ética e da Cidadania A realidade social não está pré-concebida e os indivíduos podem atuar sobre os processos coletivos. Assim, é possível que os homens criem e recriem novas propostas de convivência que esbarram em amplas discussões acerca dos conceitos de ética e cidadania com questões, por exemplo, que envolvem os estudos de robótica, as investigações científicas sobre células tronco, o estabelecimento de poder para certos grupos, como também a autorização do porte de armas para os cidadãos em geral. Segundo o filósofo Peter Singer (2002), uma pessoa vive dentro de uma esfera do ético quando se preocupa com a justificativa de sua ação, já que só o fato da pessoa querer explicá-la, podendo estar certa ou errada, demonstra que ela pauta-se em uma consciência ética. Nessa seara de considerações, o professor Álvaro Luiz Montenegro Valls (2000) mostra que a moral está diretamente ligada às ações práticas dos seres humanos. Ele chama a atenção para o fenômeno da massificação e do autoritarismo presente tanto nos meios de comunicação quanto nas práticas políticas. Pois, segundo o autor, os homens, mesmo cientes de seu papel fundamental como executores da moral, conseguem agir eticamente. Ademais, Valls traz o questionamento sobre até que ponto é possível o homem escolher entre o bem e o mal. Em tempos atuais, a educação ocupa um lugar importante para a formação de um cidadão participativo e solidário, consciente dos seus deveres e direitos. Em uma proposta de educação pautada nos direitos humanos é possível construir uma base para ampliar o que vem a ser uma educação democrática, apontando um caminho para o exercício efetivo da democracia, regime voltado para uma soberania popular, com pleno respeito aos direitos humanos. No que se refere ao mundo do trabalho, por exemplo, Robert C. Solomon (2006) destaca que o estudo da ética se faz primordial pelas infrações que aparecem em jornais no mundo dos negócios. Tal proposta deveria ocorrer a partir da compreensão profunda das experiências práticas. Ademais, o sociólogo Zygmunt Bauman (2011) também colabora com as reflexões entre a “Era da Ética”, típica da modernidade, e a “Era da Moral”, peculiar da pós-modernidade. Ele apresenta a ideia de “ser-junto-com-o-outro” para, finalmente, descobrir nossa humanidade. Nesse sentido, a ética e a moral da pós-modernidade emerge de uma responsabilidade moral incondicional em que cada pessoa desenvolve por meio de suas atitudes o “estar junto com o outro” no dia a dia da sua vida.Ainda segundo o autor, diferentes sujeitos devem ser capazes de tomar decisões próprias sem serem coagidos por um sistema normativo. Eles constroem o senso de responsabilidade que os auxilia para lidar com situações que exigem consenso, instituindo a questão ética. Já a moral, pelo olhar de Bauman (2011), consiste em categoria contingente e incontível. Para ele, a relação com o desconhecido traz a possibilidade de reconhecimento de uma humanidade. Vejamos, na sequência, algumas situações em que a ética e a cidadania aparecem, exigindo dos sujeitos a utilização desse senso de racionalidade. Ética e política Um problema que tem incomodado bastante a sociedade brasileira está diretamente relacionado com a questão da corrupção na política, suscitando alguns questionamentos. Será que os sujeitos eleitos democraticamente, por meio do voto direto, com a finalidade de representar a vontade geral, mas que executam uma governança voltada para os seus interesses pessoais estão agindo de forma ética? Há uma falta de ética no exercício da política no meio social? Como fica a questão da cidadania relacionada à questão ética em tempos atuais? Para o jurista Eduardo Carlos Bittar (2010), a questão ética presente no mundo das atividades políticas pode ser vista como a saúde político-institucional que irá se traduzir na saúde social. Além disso, deve-se aceitar que a estrutura da éthos de uma sociedade fica, em grande parte, na dependência das ações e atitudes políticas para alcançar direitos e acessar serviços públicos. Ainda, Elias Farah (2000) adverte que o cidadão, ou seja, o eleitor, é quem recebe o impacto de um ato de corrupção praticado por um agente público, sobretudo os eleitos. O corruptor, durante o exercício das suas atribuições, busca um forte elo de captação de recursos para vaidades pessoais, fantasias próprias e de sua família, deixando de lado sua função pública. O teórico Edgar Morin (2000) destaca que o ensino da ética é um dos saberes necessários à educação. Para ele, a reflexão no campo da ação do homem, em nível das decisões da ação moral dos indivíduos, deve ganhar espaço em diferentes níveis da educação. A corrupção pode ser compreendida como um fenômeno social, ela consiste em um reflexo da cultura formada sem princípios éticos e valores morais. Trata-se de uma prática cultural antiética e, no Brasil, observamos que a raiz da corrupção é tanto histórica quanto cultural. Ética na saúde O comportamento ético em atividades de saúde deve considerar um enfoque de responsabilidade social e também a expansão dos direitos da cidadania, uma vez que a saúde constitui um direito básico e proporciona as condições de cidadania à população. A ética da responsabilidade e a Bioética envolvem o cuidado do outro, portanto, compete aos profissionais dessa área ter consciência em desenvolver esta postura. Dessa forma, vemos que a ética deve reconhecer o valor de todos os seres vivos e encarar os humanos como um dos pontos que também formam a base da vida. O professor Joaquim Clotet (2003) aponta que a “Bioética é uma ética aplicada que se ocupa do uso correto das novas tecnologias na área das ciências médicas e da solução adequada dos dilemas morais por elas apresentados” (CLOTET, 2003, p. 33). Ética as redes sociais As redes sociais também têm se mostrado como um importante canal de informação e trocas comunicacionais. Além disso, ao mesmo tempo em que elas informam, também desinformam. Relacionando com a questão ética, temos a grande dor de cabeça do momento, as chamadas fake news. Estas provocam desequilíbrio, afetações emocionais e transtornos, principalmente naqueles que são os alvos dessas notícias falsas. Cabe ressaltar que as fake news reforçam preconceitos, ódio contra indivíduos ou grupos sociais. Tomemos o exemplo do impacto que a sociedade teve sobre a enganosa notícia da existência de um “kit gay” imposto nas escolas. Essa ideia partiu da interpretação equivocada de um projeto verdadeiro que fazia parte de um dos programas do Governo Federal, intitulado de “Escola sem Homofobia”. Contudo, as informações originais foram manipuladas e disseminadas de forma totalmente desvirtuada, com a perspectiva de dizer que haveria uma suposta “ideologia de gênero” e o ensino de temáticas sobre sexualidade para crianças de seis anos nas escolas. A questão ética, sobretudo a sua ausência, aparece fortemente nesse fato em decorrência do compartilhamento de notícias inverídicas, causando impactos negativos ao projeto e na vida das pessoas. Todavia, tanto nessa situação quanto em todas as outras em que compartilhamos ou postamos algum conteúdo nas redes sociais, é imprescindível conferir a veracidade das informações veiculadas. Os pesquisadores Michael Schudson e Barbie Zelizer (2017) afirmam que a notícia falsa pode interferir no cotidiano do cidadão e das redações jornalísticas. Segundo eles, nas atividades periodistas, por exemplo, é preciso ter responsabilidade com a questão da reprodução de notícias falsas, exageradas ou até mesmo corrompidas. O sociólogo Michael Kunczik (2001) aplica o termo disfunção quando ocorre às notícias são alteradas e servem de ameaça à estabilidade social. Pois, conforme os autores Mauro Wolf e Maria Jorge Vilar de Figueiredo (1987), a circulação de notícias falsas destrói a cidadania de forma severa. Ainda, em suas considerações, os meios de comunicação têm a função de trazer a possibilidade de alertar o cidadão e apresentar instrumentos para realizar as suas ações diárias. Na sequência, observe como detectar notícias falsas, segundo os jornalistas Eugene Kiely e Lori Robertson (2017): • Considere a fonte: veja se tem credibilidade; • Considere o autor: faça uma breve pesquisa sobre ele; • Confirme a data: verifique a data e qual contexto a notícia se enquadra; • Fontes de apoio: encontre bases de informações; identifique se as fontes estão relacionadas ou tratam do assunto, pois é preciso identificá-las; • Considere todos os lados: ser contra uma ideologia não quer dizer que a notícia é falsa; • Verifique se é piada: há sites que fazem piadinhas com determinados temas; • Leia mais: é preciso ler sobre o assunto. Quando você pesquisa e lê mais sobre um assunto, percebe se a informação a ser compartilhada tem ou não veracidade. Enfim, a discussão sobre ética e cidadania, levando em consideração o que estamos vivendo nos dias de hoje e a necessidade de uma convivência harmônica em nossa sociedade, deve observar se há uma compatibilidade entre o ideal da comunidade almejada e o estilo de vida construído, sem isso não é possível pensar um corpo social ético como realidade. Na atualidade, o sujeito que possui a cidadania é aquele detentor de direitos, mas também de deveres. O cidadão deve ter ciência de sua participação na sociedade e que precisa contribuir coletivamente, pois o desenvolvimento da cidadania só ocorre por meio do desejo e colaboração para a efetivação do bem comum. Uma outra perspectiva tem a ver com os aspectos atrelados à sociedade de risco que estamos vivendo. Isto significa que diante do crescimento da civilização tecnológica, vemos um número muito grande de difusão e proliferação dos riscos, resultantes da maneira como a sociedade moderna foi se organizando. Riscos que estão cada vez mais presentes no nosso dia a dia, afetando as comunidades e revelando a crise da sociedade industrial. Para o sociólogo britânico Anthony Giddens(1991), a sociedade moderna organiza-se levando em conta o distanciamento tempo-espaço, diferentemente das sociedades pré- modernas, nas quais as relações entre os indivíduos eram construídas através das referências locais. Nesse caso, a explicação para situações e fenômenos que ali se processavam, eram situadas na lógica do conhecimento e interaçõescotidianas que, por sua vez, promoviam a organização social com base nas redes de confiança, depositada nos laços de parentesco e alianças. Caso qualquer coisa perturbasse o equilíbrio daquela ordem social, o grupo encontraria resolução para aquele problema, valorizando a confiança localizada em seu interior e entre os sujeitos. Já nas sociedades atuais, conforme deriva do pensamento de Giddens, estas constroem seu esquema de funcionamento e racionalização social fundamentadas em uma relação de confiança dos indivíduos em sistemas abstratos, fichas simbólicas, que podem ser entendidos como o progresso do conhecimento técnico, econômico e científico. Portanto, vivemos riscos de acreditar nos sistemas simbólicos, no virtual e, a partir destas crenças, também construímos nossas posições éticas e cidadãs. Educação, ética e cidadania hoje No texto que segue temos algumas reflexões importantes acerca da ação de ensinar a pensar para a vida. Tal reflexão, baseada nas ideias do filósofo Immanuel Kant, traz em si a própria valorização da educação para o bem coletivo. Espera-se que o professor desenvolva no seu aluno, em primeiro lugar, o homem de entendimento, depois, o homem de razão, e, finalmente, o homem de instrução. Este procedimento tem esta vantagem: mesmo que, como acontece habitualmente, o aluno nunca alcance a fase final, terá mesmo assim beneficiado da sua aprendizagem. Terá adquirido experiência e ter-se-á tornado mais inteligente, se não para a escola, pelo menos para a vida. Se invertermos este método, o aluno imita uma espécie de razão, ainda antes de o seu entendimento se ter desenvolvido. Terá uma ciência emprestada que usa não como algo que, por assim dizer, cresceu nele, mas como algo que lhe foi dependurado. A aptidão intelectual é tão infrutífera como sempre foi. Mas ao mesmo tempo foi corrompida num grau muitíssimo maior pela ilusão de sabedoria. É por esta razão que não é infrequente deparar-se-nos homens de instrução (estritamente falando, pessoas que têm estudos) que mostram pouco entendimento. É por esta razão, também, que as academias enviam para o mundo mais pessoas com as suas cabeças cheias de inanidades do que qualquer outra instituição pública. [...] Em suma, o entendimento não deve aprender pensamentos mas a pensar. Deve ser conduzido, se assim nós quisermos exprimir, mas não levado em ombros, de maneira a que no futuro seja capaz de caminhar por si, e sem tropeçar. A natureza peculiar da própria filosofia exige um método de ensino assim. Mas visto que a filosofia é, estritamente falando, uma ocupação apenas para aqueles que já atingiram a maturidade, não é de espantar que se levantem dificuldades quando se tenta adaptá-la às capacidades menos exercitadas dos jovens. O jovem que completou a sua instrução escolar habituou-se a aprender. Agora pensa que vai aprender filosofia. Mas isso é impossível, pois agora deve aprender a filosofar. [...] Para que pudesse aprender filosofia teria de começar por já haver uma filosofia. Teria de ser possível apresentar um livro e dizer: “Veja-se, aqui há sabedoria, aqui há conhecimento em que podemos confiar. Se aprenderem a entendê- lo e a compreendê-lo, se fizerem dele as vossas fundações e se construírem com base nele daqui para a frente, serão filósofos”. Até me mostrarem tal livro de filosofia, um livro a que eu possa apelar, [...] permito-me fazer o seguinte comentário: estaríamos a trair a confiança que o público nos dispensa se, em vez de alargar a capacidade de entendimento dos jovens entregues ao nosso cuidado e em vez de os educar de modo a que no futuro consigam adquirir uma perspectiva própria mais amadurecida, se em vez disso os enganássemos com uma filosofia alegadamente já acabada e cogitada por outras pessoas em seu benefício. Tal pretensão criaria a ilusão de ciência. Essa ilusão só em certos lugares e entre certas pessoas é aceite como moeda legítima. Contudo, em todos os outros lugares é rejeitada como moeda falsa. O método de instrução próprio da filosofia é zetético, como o disseram alguns filósofos da antiguidade (de zhtein). Por outras palavras, o método da filosofia é o método da investigação. Só quando a razão já adquiriu mais prática, e apenas em algumas áreas, é que este método se torna dogmático, isto é, decisivo. Por exemplo, o autor sobre o qual baseamos a nossa instrução não deve ser considerado o paradigma do juízo. Ao invés, deve ser encarado como uma ocasião para cada um de nós formar um juízo sobre ele, e até mesmo, na verdade, contra ele. O que o aluno realmente procura é proficiência no método de refletir e fazer inferências por si. E só essa proficiência lhe pode ser útil. Quanto ao conhecimento positivo que ele poderá talvez vir a adquirir ao mesmo tempo — isso terá de ser considerado uma consequência acidental. Para que a colheita de tal conhecimento seja abundante, basta que o aluno semeie em si as fecundas raízes deste método. Ensinar a pensar - Immanuel Kant (Tradução de Desidério Murcho) Texto retirado de “Anúncio do Programa do Semestre de Inverno de 1765-1766” da colectânea de textos Theoretical Philosophy, 1755-1770 (edição de David Walford e Ralf Merbote, Cambridge University Press, 1992), pp. 2:306-7. É significativo compreender a criação de novos desenhos de sujeitos pensantes e participativos na sociedade atual, em que as tecnologias da informação e as comunicações são cada vez mais reais, capazes de oferecer uma visão e um maior conhecimento acerca das relações e saberes sociais que indicam o progresso da humanidade. Nesse sentido, essa compreensão é fundamental para se estabelecer um diálogo entre indivíduo, cultura e educação.