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Educação de Jovens e Adultos e a Educação Popular: Contribuições para formação Docente 3 os SUJEITOS DA EJA: IMPLICAÇÕES POLÍTICO- PEDAGÓGICAS E METODOLÓGICAS PARA A ESCOLARIZAÇÃO SOCIALMENTE JUSTA A diversidade sociocultural dos sujeitos da EJA e suas implicações político- -pedagogica para a escolarização de pessoas jovens, adultos e idosos é um tema importante e necessário na discussão acerca da formação inicial e permanente de educadores, bem como para as políticas educacionais para EJA. Miguel Gonzáles Arroyo, com sua obra "Passageiros da noite: do trabalho para a EJA- itinerários pelo direito a uma vida justa", apresenta as particularidades dessa modalidade de ensino, expondo características desses sujeitos. Exibe as condições precá- rias que vivem os sujeitos da EJA, cuja maioria estão na condição de desempregados ou subempregados. Ademais, as trajetórias escolares desses sujeitos apresentam-se marca- das por interrupções, sendo uma delas a exclusão da Educação Básica. Outrossim, os problemas de ordem social e econômica como fatores de exclusão educacional. o histórico da EJA no Brasil é constituído, ressalta o autor, por avanços conceitual e organizacional (estrutura organizacional a partir da LDBEN), sendo que uma das conquistas é a de que a EJA não tem, como anteriormente, o caráter supletivo e com- pensatório que persistiu por muito tempo. Outra evolução conceitual e estrutural foi a de que a escola, via políticas educacionais, volta-se a atender jovens e adultos que não frequentaram a escola buscando contemplar a função equalizadora da educação, com compromisso com a inclusão social. Também, as políticas públicas educacionais que orientam a construção de um cur- rículo próximo as reais necessidades dos educandos da EJA são consideradas outro importante avanço. A diversidade de sujeitos da EJA, no entanto, necessita de um currículo contextualizado e metodologias de trabalho específicas para esse grupo de alunos heterogêneos. Sendo assim, o currículo e a prática pedagógica para o exer- cício da EJA devem levar em consideração os sujeitos dessa modalidade. Para o debate em torno das políticas de EJA, o autor faz uso de importantes refe- renciais teóricos, com destaque para Paulo Freire com os livros Pedagogia do opri- mido e Pedagogia da Esperança. Os sujeitos da EJA, aqui denominados como "Passageiros da noite", revelam, na pesquisa de Arroyo, dificuldade de conciliar o trabalho com os estudos. Daí, enfatiza a ausência de políticas públicas adequadas para garantir o acesso e a permanência desses estudantes na escola. Dentre as mudanças necessárias, do ponto de vista estru- tural, é necessário garantir, efetivamente, uma escola inclusiva enquanto um direito social; e, uma proposta pedagógica com um currículo e prática educativa amparadas na educação democrática. Os "Passageiros da noite" tem sido vítimas da desumanização e de invisibilidades, quando excluídos da escola e da sociedade, portanto também são passageiros do dia. 101Fernanda dos Santos Paulo Para Arroyo (2017), as questões curriculares podem contribuir para que a escola de EJA torne-se interessante para esses sujeitos coletivos de direitos, trabalhando para o direito a uma vida justa, com conhecimento significativo. Acrescenta, outros direi- tos: à cultura, a arte, a poesia, a música, à diversidade, o trabalho, a vida digna. Recorda que à memória, as identidades e à história dos sujeitos da EJA, frequentemente, lhes são negados temas que deveriam compor o currículo escolar. Assim, o conheci- mento escolar libertador é um desafio, considerando o direito a uma vida digna. Arroyo (2017) ao tratar dos sujeitos da EJA (manicure, faxineira, motorista, o de- sempregado, o vendedor, o pedreiro, o servente de pedreiro, o trabalhador precari- zado, etc.) propõe uma pedagogia dos corpos, isto é, um currículo que não ignore a corporeidade e suas diferentes linguagens. Tão importante quanto os pontos destaca- dos, o autor fala dos sujeitos da EJA que tiveram negado o direito ao trabalho porque foram segregados pela escola. Refere-se aos jovens e adultos trabalhadores que vêm do trabalho para a EJA e questiona de que trabalho estamos falando. Esse tema faz parte da diversidade de sujeitos da EJA. o direito ao trabalho está atrelado ao direito a uma vida justa e ao compromisso político da escola. Repensar a proposta ético-política da pedagogia e da cultura esco- lar é falar dos sujeitos da EJA, de suas histórias de segregações que nosso sistema es- colar, infelizmente, ainda mantém. São sujeitos jovens-adultos que chegam na escola com suas experiências, alguns com vivências de percursos escolares de segregação / desumanização. Estamos tratando de sujeitos com identidades marcadas por práticas e políticas segregadoras, portanto antipedagógicas, no sentido da pedagogia freiriana. Questiona políticas educacionais, no contexto, da diversidade de sujeitos da EJA, como a "certificação dos exames da Qual o sentido desse certificado? Não reforça o sentido segregador quando não está direcionado a uma formação humanizadora? Arroyo (2017) coloca que o direito humano ao trabalho, na atualidade, está asso- ciado a exigência cada vez mais -de um diploma de Ensino Fundamental e de Ensi- no Médio. Daí, a necessidade de analisar o sentido do diploma. Para tanto, um outro desafio é a discussão do currículo, da docência, do trabalho e da formação cidadã no processo formativo de educadores e de educandos. 3.1 QUEM SÃO os SUJEITOS DA EJA? Ao discorrer sobre os sujeitos da EJA, recorremos aos aspectos legais, tais como a LDBEN (1996): "Art. 37. A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos nos ensinos fundamental e médio na idade própria [...]." (grifos meus). Vamos dar atenção a expressão "aqueles". Quem são estes? o primeiro ponto a assinalar é a questão geracional (jovens, adultos e idosos). Outros pontos: pessoas que residem em regiões urbana ou do campo, de diferentes regiões do país, contextos históricos, sociais, culturais e políticos plurais. Quanto a classe social, são sujeitos da classe trabalhadora/popular. Para reflexão sobre os sujeitos da EJA retomemos um artigo de Arroyo, escrito em 2007: "A EJA tem que ser uma modalidade de educação para sujeitos concretos, em contextos concretos, com histórias concretas, com configurações concretas." (p.7). 102Educação de Jovens e Adultos e a Educação Popular: Contribuições para formação Docente Então, mediante esta citação, pensemos sobre a palavra "aqueles", presente no artigo 37 da LDBEN (1996). Sabemos que os sujeitos da EJA têm histórias marcadas por exclusões sociais, se- jam elas: miséria, desemprego, luta por moradia, gravidez na adolescência, trabalho infantil, etc. Um outro destaque a ser feito trata da expressão "idade termo consi- derado excludente em nossa legislação, porque a esses sujeitos foi negado a escolari- zação e não podemos culpabiliza-los pela história educacional brasileira demarcada por exclusões sociais e por políticas educacionais de caráter compensatória. Para essa reflexão, Di Pierro (2005), rememora os sentidos do ensino supletivo, tomado como instrumento de reposição de estudos e não como direito à educação. Sendo assim, conhecer e reconhecer a diversidade de sujeitos que fazem parte da modalidade de ensino da EJA é de suma importância para não reproduzir a educação bancária de sentido compensatório que somos contrários. Estudo na escola Sant' Hilaire, EJA. Na minha turma tem alunos entre 16 anos a 57 anos. Os colegas dizem que querem estudar para concluir ensino fundamental. Outros dizem que a família mandou estudar (os mais jovens). Tem um colega, mais senhor, que diz que voltou a estudar porque sente vontade de ter mais conhecimento. Tenho uma colega, a Janaina, que foi demitida porque ela não tinha segundo grau completo. Ela buscou EJA porque precisa completar seus estudos para poder vol- tar ao serviço dela. Alguns colegas querem fazer faculdade. Outros não falam nada. Gosto da aula com pessoas mais velhas. Elas nos ajudam, orientam e nos entendem. Estamos todos ali para estudar. É o mesmo objetivo. As experiências deles nos ajudam e nos incentivam, dão força! Faz a gente não querer desistir. Faz a gente se colocar lugar deles. Fico com vergonha quando alguém desiste, porque vejo um senhor com quase 60 anos não desistindo. Todos têm condições de aprender. Todos são capazes de estudar e completar os estudos. Basta querer- hoje tem passagem, merenda, livro e horário flexível. Nós, mais jovens, temos que aprender com os mais experientes. Se eles voltaram a estudar é porque é importante e fez falta. (Relato de estudante da EJA: Ensino Fundamental: Andrielle Vitória Molina, 17 anos, moradora do bairro Lomba do Pinheiro, POA/RS). A LDBEN (1996) com o termo "idade própria" deve ser problematizado e critica- do, incluindo- nesse debate- a discussão sobre a história de negação do direito à educa- ção no Brasil e a nossa defesa de que não há idade própria para aprender e ensinar. o relato da estudante da EJA é significativo para nos questionarmos acerca da expressão "idade ainda presente em nossas legislações educacionais. Comparável a essa situação é o vocábulo "regular", como se a EJA fosse irregular. Há documentos, em âmbito de legislação educacional, que se referem a escola regular para jovens e adultos ou não concluíram". Frequentemente, escutamos: "o aluno desistiu ou foi expulso da escola regular e veio para a EJA." Há escolas irregulares? Em meu entendimento, e na compreensão de vários estudiosos da EJA, essa expressão revela o caráter precon- ceituoso com a modalidade. Enfatizamos que a EJA não é uma modalidade irregular. LDBEN (1996) "acesso público e gratuito aos ensinos fundamental e médio para todos os que não os concluíram na idade própria;" (Redação dada pela Lei 12.796, de 2013) 103Fernanda dos Santos Paulo Os sujeitos concretos da EJA são homens e mulheres (jovens, adultos e idosos) com trajetórias marcadas por violação de direitos. Composto pelos povos indígenas, qui- lombolas, ciganos, migrantes, imigrantes, camponeses, pessoas privadas de liberdade, nômades, refugiados, pessoas com deficiências e síndromes, pescadores, aquicultores, agricultores, povos das florestas, das águas e ribeirinhos, entre outros. Essa diversida- de, como constatamos, compõe "questões étnico-racial, religiosa, cultural, geracional, territorial, físico-individual, de gênero, de orientação sexual, de nacionalidade, de op- ção política, linguística, dentre outras." (Caderno CONAPE, 2022, p.30). Importan- te salientar que, sobretudo nas escolas de periferias, a EJA conta com o um número significativo de pessoas negras e LGBTQIA+, marca de um processo de exclusões e preconceitos que estes sujeitos sofreram por décadas. Os dados acima contribuem para as reflexões, no que diz respeito, a diversidade dos sujeitos da EJA. Nas palavras de Julião (2009, p. 209): Durante muitos anos quando se falava em educação para jovens e adultos, imaginava- se estar falando de um grupo social homogêneo com características bio-psico-sociais bem distintas e definidas. Não se levava em considera- ção as suas particularidades, especificidades, nem tão pouco a sua diversidade: faixa etária; sexo; raça; credo religioso; ocupação profissional; opção sexual; situação social; se privados ou não de liberdade. (grifos meus). Enquanto docentes precisamos nos perguntar: quem são os sujeitos da EJA? Quais as suas origens/ identidades? Por que optam em continuar frequentando a EJA? Quais as suas perspectivas futuras? Como venho trabalhando, político e pedagogicamente, na busca pela garantia de uma pedagogia do direito a unidade na diversidade (FREIRE, 1997b)? Em conformidade com o Censo da Educação Básica de 2019, acerca do item [...]percebe-se que os alunos identificados como pretos/ pardos são predominantes na educação de jovens e adul- tos (EJA) do ensino fundamental e médio. Pretos e par- dos representam 75,8% do EJA fundamental e 67,8% do EJA médio em relação à matrícula dos alunos com infor- mação de cor/raça declarada. Os alunos declarados como brancos representam 22,2% do EJA fundamental e 31% do EJA médio. (p.38). Cabe a EJA, uma educação que contribua para lutar e garantir a conquista de direi- tos sociais individuais e coletivos, possibilitando uma pedagogia dos direitos articu- lada a uma pedagogia dos e com os oprimidos. Se assim defendemos, trabalhar com 2 tecnico_censo_da_educacao_basica_2019.pdf 104Educação de Jovens e Adultos e a Educação Popular: Contribuições para formação Docente a diversidade dos sujeitos da EJA é uma possibilidade de construção de resistências políticas em prol de uma EJA atrelada aos Direitos Humanos. Jane Paiva, em um curso destinado para EJA pela Universidade Federal Fluminen- se, realizado em 2014³, tratou do tema EJA na Diversidade. Na sua aula trouxe dados do IBGE (Censo de 2010) para apresentar a temática. Mostrou questões acerca do analfabetismo para maiores de 15 anos, destacando que negros e pardos são os mais excluídos, revelando as desigualdades raciais e territoriais. Salienta que o analfabe- tismo no município do Rio de Janeiro e no Brasil tem cor. Desafia-nos a pensar a EJA na contemporaneidade a partir dos dados e das políticas educacionais, considerando as caraterísticas universais e particulares. Para exemplificar o tema da diversidade da EJA, a professora traz o contexto dos pescadores, suas realidades de trabalho e necessidade de considerar e valorizar essas realidades. Discute que as políticas macros devem se relacionar com as micropolíti- cas. Sobre isso, em uma interpretação de sua aula, podemos exemplificar esse debate dizendo que a realidade dos pescadores da região do norte não é a mesma da região sul. Portanto, os currículos e a organização da EJA precisam estar contextualizados e, nesse sentido, é importante a participação desses sujeitos na construção da proposta pedagógica, garantindo que o direito à educação esteja associado as reais necessidades dos educandos. Coloca que, igualmente, é preciso zelar pela chamada pública no con- texto da EJA, realizar permanentemente, o diagnóstico de demanda potencial para oferta da modalidade, além de projeto político pedagógico próprio, considerando as diversidades de sujeitos, bem como formação inicial e continuada de professores. Outro cenário a ser discutir o refere-se à educação remota para a EJA diante da pandemia do Coronavírus. Teer, Reis e Gonzaga (2021) analisam o contexto de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Os autores apontam para o aprofundamento da política pública educacional neoliberais e aumento da desigualdade social, materializados nas condições de acesso e permanência do estudante na EJA, à falta de investimento em inclusão digital e a realidade socioeconômica dos estudantes. Além disso, registram a sobrecarga de trabalho dos professores e falta de investimento financeiro para "in- fraestrutura necessária às conexões virtuais" aos docentes. (p. 90). Analise de Jesus da em uma entrevista ao Tempo, disponibilizada no site⁵ do Sindicato dos Pro- fessores de Universidades Federais de Belo Horizonte, Montes Claros e Ouro Branco declarou: "a pandemia não criou um novo problema, mas ampliou uma situação que já vinha piorando nos últimos anos, devido aos baixos investimentos públicos setor". A educadora reafirmou, em várias lives durante a pandemia, sobre a negação do direito humano à educação e relembra que o número de pessoas não alfabetizadas no Brasil é gigantesco, 14 milhões. Explana que é fundamental compreendermos que o número expressado representa pessoas (mulheres, homens, jovens, adultos, idosos, negros, indígenas, brancos pobres, camponeses, pessoas com deficiências, pessoas pri- vadas de liberdade, etc.). o povo da EJA (3 milhões estão matriculados nessa moda- lidade) são compostos por esses sujeitos que foram excluídos do direito à educação, seja no Ensino Fundamental (52 milhões de brasileiros com mais de 15 anos que A aula está disponível na internet através do site: https://www.youtube.com/watch?v=1ELU3v_cR04 Militante dos Fóruns de EJA do Brasil e do Fórum Mineiro de EJA. Professora pesquisadora na área de EJA, atuando no Programa de Pós-Graduação Mestrado Profissional da Faculdade de Educação da UFMG. em 11/02/22, em notícias. 105Fernanda dos Santos Paulo não contemplaram essa etapa) e no caso do Ensino Médio há 22 milhões de pessoas que não contemplaram essa etapa da Educação Básica. Esses são assustado- res e revelam que temos, no Brasil, 43% da população como sujeitos de direito da EJA, assegurada como direito subjetivo desde a Constituição Federal (Art.208). INDICAÇÃO DE FILME "Fora de Série" Um filme do Observatório Jovem do Rio de Janeiro Direção: Paulo Carrano, 2018 https://vimeo.com/257750339 3.1.1 A EJA: sujeitos jovens Acompanhamos o tema da juvenilização da/na EJA nas últimas décadas. Segundo Costa e Evangelista (2017, p.60): "a partir da década de 1990, pesquisas têm identifi- cado e abordado a característica denominada "juvenilização", ou seja, um crescente número de jovens presentes nas salas de aula desta modalidade educativa." (Grifos meus). Nessa direção, nos escreve, Carmen Brunel (2004) que: o rejuvenescimento da população que frequenta a Edu- cação de Jovens e Adultos (EJA) é um fato que vem pro- gressivamente ocupando a atenção de educadores e pes- quisadores na área da educação. o número de jovens e adolescentes nesta modalidade de ensino cresce a cada ano, modificando o cotidiano escolar e as relações que se estabelecem entre os sujeitos que ocupam este espaço. (p. 9. Grifos meus). Para Quézia Vila Flor Furtado (2015, p. 55) esse fenômeno resultado de "[...]pro- cesso de escolarização degradada, que perpetua a exclusão escolar. Os/as alunos/as têm acesso ao espaço físico, mas não, a uma educação de qualidade, que os/as consi- dere como sujeitos de direitos." Dados do Censo da Educação Básica de 2019⁷ mostram que: "A educação de jo- vens e adultos (EJA) é composta, predominantemente, por alunos com menos de 30 anos, que representam 62,2% das matrículas. Nessa mesma faixa etária, os alunos do sexo masculino são maioria, representando 57,1% das matrículas." (p. 37. Grifos meus). Para compreensão da questão da idade, busquemos o Estatuto da Juventude (BRASIL, o qual compreende que "são consideradas jovens as pessoas com idade entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove) anos de idade." (Art. 1°). A partir dessa legislação, confirmamos que existe um expressivo número de matrículas na EJA, com- dados são expostos pela professora, Analise de Jesus da Silva (UFMG), na I Conferência do PROFEA intitulada "Políticas Públicas de Jovens e Adultos (EJA)- realizada em março de 2021. 7 Acesso em: https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/estatisticas_e_indicado- res/resumo_tecnico_censo_da_educacao_basica_2019.pdf 8 Acesso em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/112852.htm 106Educação de Jovens e Adultos e a Educação Popular: Contribuições para formação Docente posto pelas diversas juventudes. Mas não esquecemos que a EJA contempla adolescen- tes com idade entre 15 (quinze) e 18 (dezoito) anos, conforme preconiza o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990). o mesmo ocorre na educação profissional, segundo os dados do Censo da Educação Básica (2019, p.41): "A educação profissio- nal é composta predominantemente por alunos com menos de 30 anos, que represen- tam 78,8% das Mas agora, olhemos o gráfico das matrículas da EJA: Número de matrículas na EJA, segundo faixa etária e sexo. ver esse gráfico Fonte: Elaborado por Deed/Inep com base nos dados do Censo da Educação Básica, 2019. Arroyo (2017) nos convida a pensar e investigar os saberes das juventudes, pre- sentes na EJA. E, nos cabe a acompanhar esse fenômeno de modo crítico. Para tanto recordemos o Parecer n° (BRASIL, alguns indícios sobre a ocorrência de educandos cada vez mais jovens na EJA (grifos meas): que Pesa a favor da alteração da idade para cima, não só uma maior compatibilização da LDB com o ECA, como tam- bém o fato de esse aumento da idade significar o que vem sendo chamado de juvenilização ou mesmo um ado- lescer da EJA. Tal situação é fruto de uma espécie de migração perversa de jovens entre 15 (quinze) e 18 (de- zoito) anos que não encontram o devido acolhimento junto aos estabelecimentos do ensino seqüencial regu- lar da idade própria. Não é incomum se perceber que a população escolarizável de jovens com mais de 15 (quin- ze) anos seja vista como "invasora" da modalidade regu- lar da idade própria. E assim são induzidos a buscar a EJA, não como uma modalidade que tem sua identidade, mas como uma espécie de "lavagem das mãos" sem que 9 Que "Institui Diretrizes Operacionais para a Educação de Jovens e Adultos EJA nos aspectos relativos à duração dos cursos e idade mínima para ingresso nos cursos de EJA; idade mínima e certificação nos exames de EJA; e Educação de Jovens e Adultos desenvolvida por meio da Educação a Distância." 107Fernanda dos Santos Paulo outras oportunidades lhes sejam propiciadas. Tal indução reflete uma visão do tipo: a EJA é uma espécie de "tapa- -buraco". (BRASIL, 2008, p.9). Quero reforçar que a Intergeracionalidade na EJA é bonita e muito importante na EJA, mas não podemos ignorar os fatores de exclusão social e educacional, que resul- tam na crescente matrícula de jovens nessa modalidade. Indicação de leitura ARTIGO A Educação Básica como direito Carlos Roberto Jamil Cury LIVRO Na EJA Tem J: Juventudes Educação de Jovens e Adultos. Analise de Jesus da Silva 3.1.2 A EJA: sujeitos adultos Os adultos são compreendidos como aquelas pessoas com 30 a 59 anos completos, se considerarmos os estatutos da juventude e do idoso. Os dados do Censo da Educa- ção Básica (2019), apresentados na subseção 3.1.1 A EJA: sujeitos Jovens, demonstram que há um significativo número de pessoas adultas matrículas na EJA, em especial com idades entre 30 a 49 anos. Número de matrículas de adultos na EJA, segundo faixa etária e sexo 294.047 218.570 221.939 158.516 131.858 83.573 30 a 39 anos 40 a 49 anos 50 a 59 anos Masculino Feminino Fonte: Elaborado por Deed/Inep com base nos dados do Censo da Educação Básica, 2019. 108Educação de Jovens e Adultos e a Educação Popular: Contribuições para formação Docente Análise dos dados do IBGE¹⁰ (2010) exibem que adultos de 30 a 59 anos cresceram de 2005 a 2015 (respectivamente 4,5 e 4,8 pontos percentuais). Pessoas de 29 a 34 anos que moram com os pais são mais escolarizados, segundo os dados. Diz, ainda, que en- tre as pessoas com 30 a 59 anos, ocupadas (trabalhando), possui de 8,9 de estudos. Isto é, não temos a Educação Básica concluída de pessoas adultas. Em conformidade com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2019, incluindo pessoas adultas e idosas temos os seguintes Escolarização de pessoas jovens, adultas e idosas. Nivel de das pessoas com 25 anos ou mais de (Brasil 2019) Sem instrução 6,4% Ensino Fundamental Ensino Fundamental completo 8,0% incomplete completo 27,4% Ensino Superior incompleto Ensino Superior completo 17,4% Fonte:https://url.gratis/PRmswr Os dados expressam que o acesso e a permanência à educação, mesmo que sen- do um direito constitucional (BRASIL, 1988), ainda não foi efetivado. É necessário investimentos público na Educação Básica associando a uma política intersetorial. Caberia articular dados da política da assistência social, como o do cadastramento de famílias do Bolsa Família e, agora, do Auxílio Brasil como monitoramento da esco- larização da população que se inscreve e ou é beneficiário de políticas sociais, como podemos observar no relato de Andreia Soares de Lima, assistente social: Na minha experiência acompanho muitos idosos beneficiários do Benefício de Pres- tação Continuada- idoso, estes sem saber ler e escrever. Alguns relatam que aprende- ram assinar o seu nome para não ter que assinar com dedo (polegar). Observo que pessoas que nasceram entre 1979 até 1999 tem Ensino Médio Concluído (adultos). Outros, acima dos anos 2000 ensino médio incompleto. A grande maioria das meni- nas relatam que se tornaram mãe cedo e não puderam continuar os estudos. Já os me- ninos são por questões de trabalho ou por conta do mundo do crime. Acredito, como assistente social, que esses indicadores poderiam contribuir para acompanhar índice de escolaridade das pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade social. Onde 10 11 Resumo dos dados pode ser acessado em: https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/ via%20sido%206%2C8%25. 109Fernanda dos Santos Paulo trabalho (zona sul de Porto Alegre) poucas pessoas relataram terem sido estudante da EJA, mas nessas comunidades periféricas tem muitas pessoas que são públicos da EJA, tanto do ensino fundamental como do Médio. Quando era Bolsa Família o jovem e adolescente que constava по cadastro deveria frequentar a escola. A infrequência cau- sava bloqueio benefício da família e se tornava caso de Conselho Tutelar. Este era um dos casos discutidos nas reuniões intersetoriais. Agora, Auxílio Brasil, o jovem que não tem frequência na escola a sua família não sofre nenhum tipo condicionalida- de, apenas adolescente/jovem perde o valor que recebe dentro do programa/auxílio. (Andreia Lima, assistente social Uniasselvi 39 anos participante da AEPPA). Esse relato mostra que quanto menor a escolaridade maior é a procura por benefí- cios sociais devido as precárias condições de vida. Sendo assim, a escolarização contri- bui para diminuir as exclusões e desigualdades sociais. Registra-se que, ainda, temos um número de jovens e adolescentes de comunidades periféricas fora da escola e sem monitoramento da infrequência (abandono escolar) ou da evasão escolar. 3.1.3 A EJA: sujeitos idosos Segundo o Estatuto do Idoso (BRASIL, 2003) no artigo primeiro, é considerada pessoa idosa aquelas "com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos." o gráfico apresentado, com número de matrículas na EJA, dados Censo da Educação Básica, 2019, revela um número baixo de matrículas de pessoas com 60 anos ou mais. Mas é interessante que a pesquisa indicou que na educação profissional, para o público composto por alunos com mais de 60 anos, existe uma predominância de matrículas de mulheres". (Censo da Educação Básica, 2019, p.41), porém mais de 60% das matrí- culas são de pessoas jovens. Ao visitar análise dos dados do IBGE (2010) encontramos a seguinte constatação: De 2005 para 2015, a proporção de idosos de 60 anos ou mais na população do Brasil passou de 9,8% para 14,3%. Ao mesmo tempo, observou-se queda no nível de ocupa- ção dos idosos de 30,2% para 26,3%. o perfil do grupo de idosos que trabalham sofreu mudanças: diminuiu a pro- porção de idosos ocupados que recebiam aposentadoria, de 62,7% para 53,8%, e aumentou a participação de pes- soas com 60 a 64 anos entre os idosos ocupados, de 47,6% para 52,3%. Entre os idosos ocupados, 67,7% começaram a trabalhar com até 14 anos de idade. As pessoas de 60 anos ou mais inseridas no mercado de trabalho possuem baixa média de anos de estudos (5,7 anos) e 65,5% delas tinham ensino fundamental como nível de instrução mais elevado meus). 12 Acesso 110Educação de Jovens e Adultos e a Educação Popular: Contribuições para formação Docente Estes dados indicam que estudantes idosos, com demanda potencial para EJA, não estão acessando a modalidade. o que nos leva a interpretar os dados do Censo da Educação Básica (2019), referente as matriculas, como preocupante. A não matrícula significa várias questões de âmbito político, social e cultural. Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2019, a taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais foi estimada em 6,6% (11 milhões de analfabetos). A taxa de 2018 havia sido 6,8%. Vejamos que essa é uma demanda potencial da modalidade de EJA. Temos nesses dados um significativo número de pes- soas idosas. De acordo com o Estatuto do Idoso (BRASIL, 2003) conteúdos voltados ao pro- cesso de envelhecimento devem constar nos diversos níveis de ensino, incluindo a EJA. Vejamos, que mesmo com essas legislações e dados estatísticos, ainda necessita- mos contemplar, de forma respeitosa e histórica, a diversidade de sujeitos idosos nas produções acadêmica acerca da EJA e na escolarização dessa modalidade. Há poucos estudos que se dedicam a essa especificidade. No caderno virtual da p. 54) encontramos a seguinte sinalização: Enfatizamos a defesa de uma política pública que pense a educação de jovens, adultos e idosos, como modali- dade prevista na LDB, direito individual e de classe, com qualidade social, com elevação de escolaridade de traba- lhadores integrada à educação profissional, na perspec- tiva da educação popular, com potencialidades eman- cipatórias da educação da classe trabalhadora na EJA. (Grifos meus) Retomemos um tema necessário a discussão da diversidade de sujeitos da EJA, com ênfase aos idosos, que é a escolarização que considere os diferentes contextos. A Educação Popular, nesse viés, pode contribuir para a chamada ativa desses sujeitos, exclusos da política educacional destinada a EJA. 3.2 EJA PRISIONAL: CONCEPÇÕES E LEGISLAÇÃO Um dos sujeitos da EJA invisibilizado na história da educação e da EJA tem sido as pessoas em situação de privação de liberdade nos estabelecimentos penais. Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), em 2020¹⁴: número total de presos e monitorados eletronicamente do sistema penitenciário brasileiro é de 759.518. A taxa de aprisionamento caiu no primeiro semestre do ano, em relação a 2019, de 359,40% para 323,04% e o déficit de vagas também caiu." Em 2019, conforme o Banco de Monitoramento de Prisões do CNJ Conselho Nacional de Justiça havia no Brasil 812.564 pessoas presas. 13 Acesso em: http://contee.org.br/contee/documentos/caderno_virtual_conape_2022_v04.pd 14 Acesso: ci%C3%A1rio%20brasileiro%20%C3%A9%20de%20759.518. 111