Prévia do material em texto
BIOQUÍMICA SISTÊMICA AULA 1 Prof. Benisio Ferreira da Silva Filho 2 CONVERSA INICIAL POR QUE ESTUDAR A ORIGEM DOS ANALITOS LABORATORIAIS? Entendendo o que é e a importância do uso de analitos laboratoriais Os analitos laboratoriais são substâncias ou componentes específicos que são analisados em um laboratório clínico para avaliar diversas condições de saúde, realizar diagnósticos, monitorar tratamentos médicos ou investigar doenças. Essas substâncias podem ser encontradas em amostras biológicas, como sangue, urina, soro, plasma, saliva e outros fluidos corporais. Os analitos laboratoriais podem incluir uma ampla variedade de elementos, compostos químicos, células e biomoléculas. Precisamos entender o funcionamento do organismo humano de maneira análoga à abordagem da fisiologia com o intuito de entender a origem dos analitos e, consequentemente, compreender o significado e a causa de variações na quantidade encontrada. No entanto, nosso foco será direcionado para os principais analitos, substâncias ou componentes que são alvo de análise clínica laboratorial. Exploraremos por que é crucial a avaliação desses analitos, quantificando suas concentrações e estabelecendo correlações entre aumentos ou diminuições dessas substâncias e a manifestação de doenças, ou a suspeita delas. Essa abordagem exige, muitas vezes, a análise combinada de múltiplos exames para uma investigação diagnóstica mais completa. Ao compreender os processos bioquímicos relacionados a determinadas proteínas ou outras biomoléculas, adquire-se a capacidade de interpretar as razões por trás de um aumento ou diminuição na concentração dessas substâncias. Esse tipo de raciocínio é essencial para o analista clínico, pois permite reconhecer que, por trás dos números obtidos nos resultados laboratoriais, há informações valiosas que podem indicar a presença de diferentes condições patológicas. Neste estudo, iremos explorar a bioquímica em diferentes sistemas biológicos, analisando suas interações, vias metabólicas e sua cascata de reações, apresentando os princípios subjacentes a diversos exames laboratoriais que serão abordados em estudos posteriores. Discutiremos tópicos como proteínas plasmáticas, cascata de coagulação, metabolismo de elementos 3 como ferro e cálcio, bem como a regulação hormonal, entre outros temas comumente encontrados em laboratórios de análises clínicas. TEMA 1 – A AMOSTRA MAIS RICA E INFORMATIVA EM PATOLOGIA CLÍNICA: O SANGUE O sangue se destaca como a amostra mais informativa na patologia clínica laboratorial quando comparado a outras amostras biológicas, como líquido peritoneal, saliva, suor, urina, fezes e até o líquor cefalorraquidiano (LCR). Essa predominância se deve à sua versatilidade e riqueza de informações. A coleta de múltiplos tubos sanguíneos e a realização de uma ampla gama de testes permitem avaliar com eficácia a função hepática, renal, investigar marcadores cardíacos, tumores, a imunidade do indivíduo, além de diversas outras análises clínicas. O sangue é, assim, a amostra mais amplamente empregada e completa para avaliar o estado de saúde e identificar potenciais condições patológicas em um indivíduo. O tecido sanguíneo é organizado de maneira distinta em três principais componentes celulares que flutuam em uma matriz líquida chamada plasma. Esses componentes desempenham funções cruciais no sistema circulatório: • glóbulos vermelhos (eritrócitos) – são as células mais abundantes no sangue e desempenham um papel fundamental no transporte de oxigênio. Eles carecem de núcleo e contêm hemoglobina, uma proteína que liga e transporta o oxigênio pelo corpo; • glóbulos brancos (leucócitos) – estas são as células de defesa do sistema imunológico. Existem tipos específicos que serão detalhados na disciplina de imunologia clínica e hematologia clínica, cada um com funções específicas na resposta imunológica, como combater infecções e doenças, dentre outras respostas; • plaquetas (trombócitos) – são pequenos fragmentos celulares, de forma mais direta, de uma célula chamada megacariócito cujo citoplasma em determinado momento se fragmenta, e cada fragmento dá origem às plaquetas, logo, elas não são células, e sim fragmentos celulares funcionais. As plaquetas desempenham um papel crucial na coagulação sanguínea, uma vez que ajudam a formar coágulos para evitar hemorragias excessivas em caso de ferimentos ou lesões vasculares. 4 O plasma é a parte líquida do sangue, representando cerca de 55% do volume sanguíneo total. É composto, principalmente, por água e contém uma variedade de substâncias, incluindo proteínas, eletrólitos, hormônios e nutrientes. O plasma desempenha um papel vital no transporte de substâncias pelo corpo, na manutenção da pressão osmótica e no equilíbrio ácido-base. Essa organização dos componentes celulares e do plasma é essencial para o funcionamento adequado do sistema circulatório, permitindo que o sangue desempenhe suas funções vitais, como o transporte de oxigênio, a proteção imunológica e a coagulação sanguínea. Veja na Figura 1, a seguir, como visualizamos o tecido sanguíneo após a coleta. Figura 1 – Como vemos o tecido sanguíneo após a coleta Crédito: ShadeDesign/Shutterstock. 5 1.1 O plasma (ou soro se for o caso) possuem os analitos para análise O sangue é um tecido circulante que se caracteriza por sua natureza líquida, com uma viscosidade superior à da água devido à presença de numerosos elementos solúveis e outras substâncias. A função principal do sangue é a de transporte, permitindo que elementos produzidos em um local, como o ponto “A”, sejam distribuídos para o ponto “B” ou para várias partes do corpo por meio da circulação sanguínea. Por exemplo, o oxigênio que você inspira é transportado pelas hemácias após passar pelos alvéolos pulmonares e é distribuído para todas as áreas do organismo pelo sangue. Da mesma forma, os nutrientes dos alimentos, após serem digeridos e absorvidos pelo intestino, entram na corrente sanguínea para serem transportados. Hormônios produzidos em glândulas, como a tireoide, são lançados na corrente sanguínea para atingirem seus alvos específicos. Além de transportar substâncias necessárias ao funcionamento do corpo, o sangue também desempenha um papel crucial no transporte de produtos que precisam ser excretados. Por exemplo, o dióxido de carbono (CO2) gerado durante as reações metabólicas celulares é transportado pelo sangue até ser eliminado pelos pulmões na expiração. Quando o ciclo da ureia é concluído nas células, a ureia resultante é lançada na corrente sanguínea para ser posteriormente excretada do corpo. Assim, o sangue é fundamental para o transporte eficiente de substâncias vitais e resíduos metabólicos, desempenhando um papel central na homeostase do organismo. Não esqueça! Toda informação fisiológica pode ser obtida pelo sangue, seja de forma direta ou indireta. Conhecer a fisiologia do analito é essencial. TEMA 2 – O CONTEÚDO SOLUBILIZADO DO PLASMA O plasma sanguíneo é composto, principalmente, por água, representando cerca de 92% de seu volume total, enquanto os restantes 8% consistem em elementos solúveis dispersos de forma coloidal. Entre esses componentes, a proteína mais abundante é a albumina, que desempenha um papel crucial na manutenção da pressão osmótica do sangue. Além disso, o 6 plasma contém globulinas alfa e beta, que desempenham funções no transporte de oligossacarídeos, lipídios e hormônios. No plasma sanguíneo, também encontramos o fibrinogênio e a protrombina, duas proteínas de extrema importância na cascata de coagulação. A cascata de coagulação é um processo complexo que envolve diversas proteínas plasmáticas – esse tema será melhor explorado mais adiante. Além das proteínas, o plasma sanguíneocontém concentrações de lipídios, carboidratos, sais inorgânicos, enzimas, vitaminas e hormônios. Também inclui produtos residuais, como ureia, creatinina e ácido úrico, bem como dióxido de carbono (CO2). É importante destacar que o sangue venoso apresenta concentrações mais elevadas desses produtos residuais, uma vez que eles são filtrados pelos rins e eliminados do corpo por meio da urina. O sangue é coletado com o propósito de realizar análises laboratoriais que fornecem informações valiosas sobre o estado de saúde de um indivíduo. Por possuir uma ampla gama de componentes que podem ser analisados para diagnosticar condições médicas, monitorar o progresso de tratamentos, identificar problemas de saúde e avaliar a função de órgãos e sistemas do corpo, ele poderá ser direcionado a diversos setores do laboratório, como hematologia, imunologia, microbiologia, bioquímica e biologia molecular, por exemplo. Agora, vamos falar especialmente da bioquímica. “Alguns” dos principais motivos para coletar sangue e os componentes que são analisados em laboratório incluem: • perfil lipídico – mede os níveis de lipídios no sangue, como colesterol e triglicerídeos, e ajuda a avaliar o risco de doenças cardíacas; • glicose – o teste de glicose verifica os níveis de açúcar no sangue e é usado para diagnosticar e monitorar o diabetes; • função hepática – exames como a dosagem de enzimas hepáticas (ALT, AST) e bilirrubina ajudam a avaliar a função do fígado e diagnosticar problemas hepáticos; • função renal – a creatinina e a ureia são testadas para avaliar a função renal e identificar doenças renais; • eletrólitos – medir os níveis de eletrólitos, como sódio, potássio e cálcio, é importante para avaliar o equilíbrio eletrolítico do corpo; 7 • hormônios – o sangue é frequentemente usado para medir níveis de hormônios, como hormônio tireoidiano, hormônios sexuais e hormônios relacionados ao estresse; • marcadores tumorais – exames de sangue podem detectar a presença de marcadores tumorais, que podem indicar câncer; • imunologia – o sangue pode ser testado para avaliar o sistema imunológico, identificar doenças autoimunes e verificar a presença de anticorpos. Esses são apenas alguns exemplos das análises que podem ser realizadas no sangue coletado. A análise do sangue é uma ferramenta fundamental na medicina diagnóstica, permitindo aos profissionais da saúde avaliar a saúde e o funcionamento do organismo, identificar problemas médicos e tomar decisões sobre tratamentos e cuidados. Neste estudo, vamos discutir os analitos encontrados no sangue. TEMA 3 – PROTEÍNAS PLASMÁTICAS A concentração das proteínas no plasma sanguíneo é influenciada por três fatores cruciais. Primeiramente, a maioria dessas proteínas é sintetizada diariamente, aproximadamente 25 g por dia. O fígado é responsável pela produção da maioria delas, enquanto algumas são elaboradas por células do sistema imune presentes no sangue. É importante ressaltar que não há armazenamento significativo de proteínas no organismo. Em condições normais, a concentração média de proteínas no plasma é de cerca de 7 g/dl. Essa concentração pode variar de acordo com necessidades específicas, dieta e outros fatores. A concentração pode aumentar ou diminuir para atender às demandas do organismo. Além disso, as proteínas são constantemente catabolizadas, o que envolve sua degradação em aminoácidos. Esses aminoácidos podem ser reutilizados para a síntese de novas proteínas ou para outras funções vitais. Essas proteínas plasmáticas são fundamentais para a manutenção do equilíbrio e funcionamento adequado do tecido sanguíneo, garantindo que o ambiente do sangue seja favorável para as células e os processos do corpo. Além disso, algumas dessas proteínas estão envolvidas no sistema imunológico e desempenham um papel crucial na defesa do corpo contra infecções e 8 doenças. Por fim, diferentes proteínas têm diferentes meias-vidas, ou seja, têm uma duração variável. Algumas podem ser produzidas e durar apenas alguns dias, enquanto outras persistem por semanas, meses ou mais, dependendo de suas funções. Essa diversidade de meias-vidas permite que o organismo atenda a necessidades específicas de transporte de substâncias no sangue. Em resumo, as proteínas plasmáticas desempenham um papel multifuncional no corpo, sendo essenciais para a homeostase, defesa e transporte de substâncias vitais, e sua concentração e renovação são cuidadosamente reguladas para atender às necessidades do organismo, razão pela qual merecem esse destaque neste estudo. 3.1 Albumina Produzida pelos hepatócitos no fígado, a albumina é uma proteína plasmática de notável importância. Ela desempenha um papel central na regulação da pressão osmótica do plasma sanguíneo, o que, por sua vez, impacta diretamente o equilíbrio hídrico e ácido-base do corpo. Além disso, a albumina atua como uma proteína transportadora versátil para uma ampla variedade de moléculas endógenas, incluindo hormônios, ácidos graxos, metabólitos e até mesmo substâncias farmacológicas. O processo de síntese da albumina envolve a produção inicial de uma pré- proteína pelos hepatócitos, seguida por uma subsequente etapa de processamento proteolítico que resulta na forma final da albumina. Devido à sua produção hepática, quaisquer disfunções que afetem a função do fígado podem resultar em uma redução na síntese de albumina. Portanto, a dosagem da albumina no sangue se torna um dos indicadores essenciais para auxiliar na avaliação da função renal, quando combinada com outros exames clínicos. Lesões hepáticas, condições patológicas e até a desnutrição podem contribuir para a diminuição dos níveis de albumina no sangue, resultando em desequilíbrios no tecido sanguíneo. Pela grande quantidade produzida (em comparação as outras proteínas plasmáticas) e pela participação dela na manutenção do equilíbrio do ambiente no tecido sanguíneo, a albumina ganha destaque e referência em exames. Além da albumina, existem outras proteínas cujo aumento ou diminuição geram informações sobre a saúde do indivíduo. Proteínas globulares (daí o 9 nome), pouco hidrossolúveis, coaguláveis pelo calor, desempenham diferentes funções. Elas ganham atenção aqui porque podem, em conjunto com a albumina, ser analisadas em Eletroforese de Proteínas Séricas (EPS). 3.2 α-globulinas As α-globulinas, divididas em a1-globulinas e a2-globulinas, possuem funções distintas, por isso, quando analisadas, seu aumento ou diminuição devem ser investigados separadamente, dependendo do caso, pois mesmo pertencendo à mesma família de globulinas existem diferenças de função consideráveis entre as α1 (Quadro 1) e as α2 (Quadro 2). Quadro 1 – α1-globulina: tipos e funções α1-globulina Função α1-antitripsina Principal fração a1 no plasma, com função de inibir serino proteases tripsina, elastase e quimiotripsina. α1-glicoproteína ácida Importantíssima na mucoproteína. Utilizada laboratorialmente no monitoramento de processos inflamatórios em geral (porém é menos sensível que a proteína C reativa, que é a proteína de referência nesse caso) e eleva-se em casos de proliferação celular. α1-fetoproteína Essas globulinas são produzidas no fígado de crianças até 1 ano de idade, e após esse período sua produção diminui progressivamente, pois é uma globulina muito produzida durante o período de desenvolvimento do feto. É laboratorialmente analisada porque seu aumento se relaciona com o diagnóstico de câncer hepático. Carreadoras de hormônio SHBG Mantêm sob controle a quantidade de hormônios disponíveis, se ligando a uma parte deles e evitando que uma grande quantidade esteja livre (biodisponível ou não conjugada). Quadro 2 – α2-globulina: tipos e funções α2-globulina Função Haptoglobina Seu aumento está relacionado à hemólise, pois sua funçãoé se ligar à hemoglobina extracorpuscular. α2-macroglobulina Uma antiprotease não específica, que está envolvida na regulação da coagulação do sangue (inibindo a plasmina) e na regulação da resposta imune, além de também realizar carreamento de hormônios. Celuroplasmina Globulina que atua no transporte de cobre, importante para síntese de melanina e no trabalho de cuproenzimas. 10 3.3 β-globulinas As β-globulinas, divididas em β1 (Quadro 3) e β2 (Quadro 4), possuem diferentes funções fisiológicas e de uso em investigação laboratorial. Quadro 3 – β1-globulina: tipos e funções β1-globulina Função Transferrina Transporte de ferro do intestino para a medula óssea e outros órgãos. Ferritina Importante para armazenar o ferro sérico. Sua concentração é proporcional à quantidade de ferro, acompanhando seu aumento ou diminuição. Apoferritina – quando não ligada ao ferro. Hemossiderina – quando há pouco ferro ligado a essa globulina. Hemopexina Globulina que atua no transporte de cobre, importante para síntese de melanina e no trabalho de cuproenzimas. Quadro 4 – β2-globulina: tipos e funções β2-globulina Função Complemento C3 Uma das proteínas solúveis do sistema complemento no sangue que participam da defesa (natural e adquirida) que opsonizam (marcam a superfície) os patógenos, sinalizando para o processo de fagocitose. A deficiência de C3 é característica de doenças tipicamente consumidoras do complemento (como o lúpus eritematoso sistêmico) e em infecções recorrentes. β2-microglobulina Quando comparada a outras globulinas já apresentadas aqui, esta encontra-se em baixas concentrações. Seu aumento então é um indicativo de aumento de renovação celular e deve ser sempre encarada como informação complementar. Eleva-se em inflamações crônicas, doenças renais e infecções virais, podendo aumentar também em leucemias e linfomas. 3.3 β-globulinas 3.3.1 γ-globulinas As γ-globulinas, conhecidas como imunoglobulinas, são as proteínas ditas de defesa. São as globulinas que, devido a sua função, estão em maior quantidade no plasma, porém as encontramos também em outros fluidos corporais, como fluido lacrimal, por exemplo, ou estrategicamente posicionadas na membrana dos linfócitos B exercendo papel de receptoras. Aprofundaremos o conhecimento durante os estudos em imunologia. No momento, iremos discuti-las como proteínas presentes no plasma, lembrando que, quando analisadas, seu aumento tem um significado importante. Vamos 11 apresentar agora os isotipos (Quadro 5) e, logo em seguida, explicar o uso da EPS como análise das proteínas plasmáticas em laboratório. Quadro 5 – γ-globulina (imunoglobulinas): tipos e características γ-globulina (imunoglobulina) Características IgG É a imunoglobulina de maior concentração; apresenta ação contra antígenos e encontra-se igualmente distribuída nos compartimentos extracelulares, além de ser capaz de ultrapassar a barreira placentária. IgA É a segunda maior concentração das imunoglobulinas. Está em grande concentração em outros fluidos corporais e mucosas. IgM A terceira maior concentração pertence a esta enorme imunoglobulina. Sua estrutura é de um pentâmero (5 imunoglobulinas em uma única estrutura). IgE Apresenta aumento de sua pequena concentração em quadros de hipersensibilidade, quadro alérgico e doença parasitária. IgD Participa da ativação de linfócitos B, estando em suas membranas e também sendo secretadas em pequenas quantidades. Essas proteínas apresentadas até aqui são analisadas em laboratório por meio da técnica de EPS. TEMA 4 – ELETROFORESE DE PROTEÍNAS SÉRICAS EM ANÁLISE LABORATORIAL A EPS é um método de separação que permite fracionar as proteínas presentes no plasma sanguíneo humano em frações distintas. Essa técnica, amplamente utilizada em bioquímica e biologia molecular, é empregada para separar componentes com base em suas massas moleculares. Funciona da seguinte maneira: quando um sistema é submetido a uma corrente elétrica em um meio apropriado contendo eletrólitos, as moléculas se deslocam de acordo com sua carga elétrica e massa molecular. Essa técnica de eletroforese é aplicada na bioquímica para a separação de proteínas e na biologia molecular para a separação de fragmentos de DNA. É notável por sua simplicidade de execução e análise. Após a realização do procedimento, o resultado é obtido pela visualização das bandas que se formam após a coloração das amostras. O processo inicia-se da seguinte forma: • prepara-se uma solução contendo eletrólitos; • prepara-se a cuba de eletroforese; 12 • insere-se uma matriz de acetato de celulose na cuba de eletroforese, saturada com a solução de eletrólitos. • pipeta-se uma pequena quantidade de soro sanguíneo na matriz de acetato de celulose; • liga-se à corrente elétrica e aguarda-se o tempo de separação, que varia de 5 a 10 minutos, dependendo do equipamento utilizado (recomenda-se consultar as especificações do fabricante). Vale ressaltar que, para melhorar a eficiência da separação por eletroforese de proteínas, é comum o uso de SDS (dodecil sulfato de sódio), que confere uma carga negativa às proteínas, facilitando seu movimento em direção ao polo positivo. Em termos simples, a eletroforese permite a visualização da posição dos analitos de acordo com suas massas moleculares. Analitos de menor massa, ou seja, mais leves, percorrem uma distância maior na matriz, enquanto aqueles de maior massa deslocam-se em uma distância menor. Isso ocorre no meio de eletroforese durante o procedimento, permitindo a separação e visualização das diferentes proteínas presentes no plasma sanguíneo. Literalmente, você verá ao final do processo a separação dos elementos biológicos ao longo do meio escolhido por causa de sua massa, ou seja, quanto maior e mais pesada for a proteína, por ser “pesada” a corrente elétrica, haverá mais dificuldade de arrastá-la, por isso essa proteína pesada percorre um caminho menor. A proteína mais leve percorre um caminho maior. Separar o mais pesado do mais leve na corrente elétrica é um bom resumo da explicação da eletroforese. Olha o esquema abaixo na Figura 2 e a explicação do professor na videoaula. 13 Figura 2 – Deslocamento de proteínas ao longo da fita de eletroforese (A) a amostra de soro é colocada no lado em que o polo negativo será ligado, todas as proteínas estão juntas. (B) Após acionar a fonte elétrica, a passagem da corrente irá movimentar as moléculas em direção ao polo positivo, pois a amostra pipetada foi tratada com SDS. (C) As moléculas mais pesadas, de maior massa molecular, se movimentam pouco quando comparadas às moléculas mais leves, de menor massa molecular que se aproximam mais do polo positivo. Ao final da eletroforese, a fita será exposta ao procedimento de coloração para visualizarmos a posição dos diferentes grupos de proteínas plasmáticas e observarmos o aumento ou diminuição de determinado grupo, correlacionando com outros exames e auxiliando no diagnóstico. Esse procedimento é importante porque podemos utilizar a eletroforese de proteínas séricas para separar as proteínas plasmáticas e observar o aumento ou diminuição, ou seja, quanto mais escura for uma banda (devido ao acúmulo de várias proteínas iguais de mesma massa molecular), maior será a concentração daquele tipo de proteína no plasma. Veja a Figura 3, a seguir. 14 Figura 3 – Concentração dos diferentes tipos Crédito: extender_01/Shutterstock. *Quanto maior for o gráfico, mais estará concentrado. A albumina, por ser a proteína mais concentrada, apresenta a banda mais concentrada, mais densa e mais escura. Abaixo do gráfico está a fita onde ocorreu a eletroforese e o posicionamento das bandas e suas diferentes concentrações. TEMA 5 – O USO DA ELETROFORESE DE PROTEÍNAS SÉRICAS EMBIOQUÍMICA A EPS desempenha um papel fundamental na bioquímica laboratorial, fornecendo informações cruciais sobre o estado de saúde e a fisiologia de um indivíduo. Sua importância reside na habilidade de separar e identificar as diversas proteínas presentes no plasma sanguíneo, o que se reflete em diversas aplicações clínicas. Ela torna-se especialmente valiosa para: • avaliação da função hepática – o fígado sintetiza a maioria das proteínas plasmáticas, com destaque para a albumina. A EPS é um método altamente sensível para identificar distúrbios hepáticos, como cirrose ou hepatite, que podem resultar em uma redução na síntese proteica. Assim, 15 ela é empregada como um indicador crucial na avaliação da função hepática; • diagnóstico de mieloma múltiplo – no contexto do mieloma múltiplo, um câncer que afeta as células plasmáticas da medula óssea, a EPS desempenha um papel essencial. Proteína monoclonal, também conhecida como imunoglobulina monoclonal ou M-proteína. Essa proteína é uma característica distintiva do mieloma múltiplo, um câncer das células plasmáticas na medula óssea. No mieloma múltiplo, as células plasmáticas cancerosas produzem quantidades anormais de uma única classe de anticorpo, que é a imunoglobulina monoclonal. Essa imunoglobulina monoclonal é denominada “proteína M” ou “componente M” e pode ser detectada no sangue ou na urina dos pacientes com mieloma múltiplo. A presença da proteína M é uma parte importante do diagnóstico dessa condição. A eletroforese de proteínas séricas é uma das técnicas laboratoriais utilizadas para identificar e quantificar a proteína M no soro sanguíneo, o que auxilia no diagnóstico e monitoramento do mieloma múltiplo; • monitoramento de distúrbios proteicos – a eletroforese é empregada tanto no diagnóstico quanto no acompanhamento de distúrbios relacionados à produção de proteínas, como a amiloidose, uma condição na qual proteínas anômalas se acumulam nos órgãos. Além disso, ela auxilia na identificação de distúrbios na gamaglobulinação, como a gamopatia monoclonal de significado indeterminado (MGUS); • avaliação do estado nutricional – a concentração de proteínas no plasma, em especial da albumina, serve como um indicador do estado nutricional de um indivíduo. A diminuição dos níveis de albumina pode sugerir desnutrição, enquanto níveis adequados são essenciais para o crescimento e a reparação dos tecidos; • detecção de distúrbios renais – a eletroforese de proteínas, quando combinada com outros exames, é utilizada para avaliar a função renal. Alterações nas concentrações de proteínas podem indicar problemas renais, como a síndrome nefrótica; • avaliação do sistema imunológico – essa técnica é valiosa na avaliação do sistema imunológico, uma vez que muitas proteínas envolvidas na resposta imunológica são identificadas por meio dela. Mudanças nas 16 concentrações de imunoglobulinas podem sinalizar distúrbios imunológicos; • monitoramento de tratamentos – a eletroforese é empregada para monitorar a eficácia de tratamentos, como a terapia de reposição de proteínas em distúrbios de imunodeficiência ou tratamentos para distúrbios relacionados à gamaglobulinação; • Investigação de anormalidades não específicas – quando um paciente apresenta sintomas inespecíficos, como fadiga ou perda de peso inexplicada, a eletroforese de proteínas pode ser uma primeira etapa na busca por anormalidades subjacentes. Em síntese, a EPS é uma ferramenta clínica de grande relevância, desempenhando um papel crucial na avaliação e diagnóstico de uma ampla variedade de condições médicas. Sua capacidade de identificar distúrbios hepáticos, cânceres, doenças renais, problemas imunológicos e desordens nutricionais a torna uma ferramenta inestimável na prática da bioquímica clínica. Ela permite aos profissionais da saúde compreender a fisiologia do organismo e identificar anormalidades que podem necessitar de intervenções médicas. NA PRÁTICA Faça como exercício e discuta durante as videoconferências e encontros presenciais os seguintes desenhos: uma fita de eletroforese de uma pessoa com problemas hepáticos cujo exame mostra diminuição da albumina. Um outro desenho seria de uma pessoa com uma infecção, nesse caso há um aumento considerável dos anticorpos para combater o patógeno. Como seriam essas fitas? FINALIZANDO Nosso sangue é composto, além das células sanguíneas, de várias proteínas com funções diferentes. É muito importante ter em mente a constituição sanguínea para podermos entender por que o sangue é a amostra com maior número de possibilidades de análises laboratoriais. 17 REFERÊNCIAS ALBERTS, B.; JOHNSON, A.; LEWIS, J. et al. Biologia molecular da célula. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. NELSON, D. D.; COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger. 7. ed. São Paulo: Artmed, 2019. SHERWOOD, L. Fisiologia humana: das células aos sistemas. 7. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2011. CONVERSA INICIAL POR QUE ESTUDAR A ORIGEM DOS ANALITOS LABORATORIAIS? TEMA 1 – A amostra mais rica e informativa em patologia clínica: O sangue TEMA 2 – O conteúdo solubilizado do Plasma TEMA 3 – PROTEÍNAS PLASMÁTICAS TEMA 4 – Eletroforese de proteínas séricas em análise laboratorial TEMA 5 – O uso da Eletroforese de proteínas séricas em Bioquímica Na prática FINALIZANDO REFERÊNCIAS