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1 IDÉIA DE IMPÉRIO E A FUNDAÇÃO DA MONARQUIA CONSTITUCIONAL NO BRASIL 1 Sumário NOSSA HISTÓRIA..................................................................................................... 2 1 - A ideia de Império e a fundação da Monarquia ................................................. 3 1.1 - Sacerdócio e Imperium ............................................................................... 3 2. Os projetos políticos de um grande império ........................................................ 5 3. O poder do império civil ...................................................................................... 7 4. Os fundamentos de um novo poder político ......................................................... 12 5 - A articulação político-institucional de um monarca constitucional para o império do Brasil (1826-1831) ................................................................................................... 14 6 - Império do Brasil - Primeiro Período - D. Pedro I (09.01.1822 - 07.04.1831) ..... 21 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós- Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 1 - A ideia de Império e a fundação da Monarquia Constitucional no Brasil (Portugal-Brasil, 1772-1824). Há uma tese clássica de que, na Europa e na América portuguesa, a teoria do direito natural e o movimento iluminista tornaram-se referências para pensar o governo político, a monarquia absolutista ou as revoltas contra o regime monárquico. Talvez se pudesse pensar a hipótese de que tanto as propostas de reformas de monarquias europeias (no Império Austríaco, em Portugal e na Espanha) quanto insurreições nas colônias (na América portuguesa e na espanhola) foram levadas a cabo pela forma particular com que as monarquias ou as colônias as receberam. Entendemos estas particularidades como, por um lado, as condições políticas particulares a cada reino e, por outro, de que maneira as teorias jus naturalistas ou iluministas se articularam com referências intelectuais locais. O texto pretende avaliar esta hipótese, tomando como centro de seu exame a ideia de império civil, que consideramos uma noção principal para a reorganização político- administrativa do reino de Portugal em fins do século XVIII, e que foi depois reativada no período da independência dos seus domínios na América, na década de 1820, particularmente na constituição do Império do Brasil. Mas as alterações políticas nas colônias europeias nas Américas não parecem mostrar uma simples aplicação daquela teoria ou do iluminismo europeu. A fundação das novas instituições políticas no reino independente do Brasil supõe considerar tanto a recepção de textos sobre direito natural (autores cujo renome não alcançou nossos dias) quanto à reativação de princípios da antiga monarquia portuguesa. Pretendemos acompanhar aquela recepção e esta reativação através de um exame atento das redefinições sobre a ideia de império civil, de 1772 (ano da reforma do ensino superior em Portugal) até 1824 (data em que entra em vigor a Constituição do Império do Brasil). Identificamos, na migração desta ideia, três momentos diferentes. 1.1 - Sacerdócio e Imperium Num primeiro momento, havia alguns pontos cruciais a partir dos quais se concebiam o poder político e a sociedade no reino português, em meados dos Setecentos. Uma concepção de poder político como imperium já era defendida em textos do período, sustentada na distinção medieval entre o que caberia ao ministério religioso e ao poder civil, nos termos de uma oposição entre o sacerdócio e o império civil. É o que observamos num teólogo que se tornou expressivo nos anos 1780: Antonio Ribeiro dos Santos, cuja obra De Sacerdotio et Imperio se inseria nesta discussão . Para Ribeiro dos Santos, o ministério eclesiástico envolvia o culto religioso e a orientação para um fim espiritual. Em contrapartida, “o sumo poder do imperante civil é o direito absoluto de moderar e dirigir, indistintamente, as ações de todos os membros dos seus corpos políticos, em prol da utilidade comum dos cidadãos”. Ribeiro dos Santos insiste na separação entre o poder espiritual e o político, em que a competência de um não pode negar a do outro. 4 Na década de 1760, uma reforma administrativa procurou reforçar o poder régio, durante a regência de D. José I (1750-1789), e excluir uma jurisdição eclesiástica. Defendia-se o poder régio em termos da sua concepção como um poder de imperium – caracterizada pela oposição às funções eclesiásticas, mas enfatizando a supremacia do poder monárquico. Esta defesa foi ratificada na reforma dos cursos jurídicos, em 1772, através da adoção de um manual de direito natural de Carlo de Martini, que concebia a sociedade como produto de necessidades, que se congregava em pactos sociais e cuja manutenção caberia ao império civil. Este era um poder próprio do monarca, que o exercia como um direito de fazer leis, direito também de inspecionar a conduta dos clérigos, além de procurar animar o comércio e as ciências. O jurista afirmava ainda que este império civil teria por objetivo promover a segurança e a quietude do Estado, através do qual seriam satisfeitas aquelas necessidades últimas dos homens. Ribeiro dos Santos e os reformadores do ensino jurídico, ao incluírem os textos de Martini, assumiram uma estratégia de defesa do poder real, efetuando também um conjunto de alterações na noção medieval de imperium. A primeira delas é uma alteração conceitual. O império civil atinge toda a jurisdição temporal; portanto, a supremacia do poder político incide tanto nos bens quanto nos homens (laicos ou religiosos, fidalgos ou não) – o que retira toda jurisdição civil da Igreja. Como segunda alteração, observamos que isto multiplica os objetos próprios do governo político. As pessoas do clero, as escolas religiosas, os bens eclesiásticos e mesmo os utensílios dos ritos, tudo o que temporalmente existe para fim espiritual é inserido dentro do governo político, que, assim, deve estar atento também ao controle da dimensão particular, e ajuda a promover a felicidade privada (animando o cultivo no campo, ou a educação). A terceira alteração é outra delimitação de funções para aqueles que governam o Estado. Não se trata mais, como na ideia medieval de justiça, de encontrar no império civil um poder que se exerça como lei, pelo qual julga e constrange. A definição de império civil supõe uma supremacia como governo moral, que se viabilize pela inspeção das condutas de todos os homens do reino e que deva garantir os meios para coagir nas diferentes instâncias de governo (independentemente do seu fim). Tendo em vista estas alterações no conceitode boa parte de deputados brasileiros é notória. 01.10.1822 - Lisboa. Sessão solene das Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, para o ato de assinatura da aceitação e juramento do rei, D. João VI, à Constituição Política da Monarquia Portuguesa. A rainha, D. Carlota Joaquina, recusa-se a jurá-la. 05.10.1822 - Em Lisboa, os deputados constituintes pelo Reino do Brasil, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (SP), Antônio Manuel da Silva Bueno (SP), Diogo Antônio Feijó (SP), José Ricardo da Costa Aguiar de Andrada (SP), Francisco Agostinho Gomes ((BA), Cipriano José Barata de Almeida (BA) e José Lino Coutinho (BA) que, por não aceitarem o que fora decidido pela maioria lusitana, não juraram a Constituição Política da Monarquia Portuguesa, embarcaram com destino a Falmouth, porto inglês do condado de Cornwall. No dia posterior, a imprensa lusitana divulga o fato e cobre-os de injúrias. Na sessão das Cortes Portuguesas do dia 12, é lido ofício do ministro da Justiça, remetendo uma "parte" do intendente-geral da polícia de Lisboa que diz "terem-se evadido, sem passaportes, no paquete inglês Malborough-capitão Bull, sete deputados pelo Brasil e as informações, a que a este respeito procedera". Grande repercussão no plenário das Cortes e na cidade. 12.10.1822 - No Senado da Câmara da cidade do Rio de Janeiro, em sessão solene, é realizada a "Aclamação do Senhor D. Pedro Imperador Constitucional do Brasil e seu Perpétuo Defensor". 28.10.1822 - No Rio de Janeiro, acontece a primeira demissão de José Bonifácio de Andrada e Silva (SP) e Martim Francisco Ribeiro de Andrada (RJ) do primeiro gabinete ministerial. Após 48 horas, são readmitidos, atendendo às representações dos procuradores-gerais das Províncias do Brasil e dos comandantes das guarnições sediadas na região da Corte e Província do Rio de Janeiro. 04.11.1822 - Lisboa. São encerrados os trabalhos das Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa. 01.12.1822 - No Rio de Janeiro, acontece a "Cerimônia de Coroação e Sagração do Imperador D. Pedro I". Logo após, é realizado, também, o juramento dos procuradores-gerais das Províncias do Brasil, do Senado da Câmara da cidade do Rio de Janeiro e de outros procuradores de outras câmaras, declarando obediência às leis e ao Imperador. 24 05.01.1823 - No Rio de Janeiro, o ministro e secretário de Estado dos Negócios do Império e Estrangeiros, José Bonifácio de Andrada e Silva (SP), expede a Decisão de Governo nº 2, que "dá providências para se reunirem quanto antes na cidade do Rio de Janeiro os deputados da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa do Império do Brasil". Estas instruções são "para os governos provinciais facilitarem todos os meios precisos para o transporte de seus representantes à Corte do Império do Brasil, com a possível brevidade". 14.04.1823 - No Rio de Janeiro, o imperador D. Pedro I expede decreto designando o dia 17 de abril para a reunião dos deputados da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa do Império do Brasil. 17.04.1823 - No Rio de Janeiro, abertura e instalação da primeira sessão preparatória da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa do Império do Brasil, com a presença de 52 deputados constituintes. Para presidir as sessões preparatórias e a instalação da Assembleia, são eleitos presidente e secretário interinos, respectivamente, os deputados D. José Caetano da Silva Coutinho, bispo capelão-mor (RJ), e Manoel José de Souza França (RJ). 18.04.1823 - No Rio de Janeiro, no Plenário da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa do Império do Brasil, o deputado Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (SP) apresenta fórmula de juramento para os deputados constituintes. 01.05.1823 - No Rio de Janeiro, às 9 horas, os deputados constituintes deixam o plenário da Assembleia e se dirigem, em corpo, à Capela Imperial para a "Missa Solene do Espírito Santo" e logo em seguida a prestação de juramento com a mão sobre os "Santos Evangelhos". 03.05.1823 - Dia da Invocação da Santa Cruz. No Rio de Janeiro, às doze horas e trinta minutos, acontece a "Sessão Solene de Instalação da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa do Império do Brasil", com a presença do imperador D. Pedro I, que abre os trabalhos da assembleia e dirige à representação nacional a sua primeira "Fala do Trono". Duas afirmações do imperador provocam reações na Assembleia, mostrando, desde logo, suas dissenções com o primeiro corpo legislativo brasileiro: a de que "(...) defenderia a Pátria, a Nação e a Constituição, se fosse digna do Brasil e de mim", e a segunda: "(...) espero que a Constituição que façais, mereça a minha imperial aceitação, seja tão sábia, e tão justa quanto apropriada à localidade, e civilização do povo brasileiro". A maioria parlamentar não admitiria, jamais, que se viesse a votar uma Constituição indigna da Nação e do monarca. 03.06.1823 - Em Portugal, a contrarrevolução triunfa. O rei D. João VI dissolve as Cortes lusitanas, suspende a Constituição de 23 de setembro de 1822, organiza um novo governo e promete uma nova Carta Constitucional. No dia 19 de junho é nomeada uma Junta "para examinar as leis das Cortes vintistas", que termina seus trabalhos a 18 de dezembro. No dia 4 de janeiro de 1824 é expedida Carta de Lei 25 pelo rei D. João VI, declarando "em vigor as leis tradicionais", pondo fim à vigência da Constituição de 1822. Nesse mesmo mês são concluídos os trabalhos de preparação da nova Carta Constitucional. O rei decide convocar para junho as "Cortes tradicionais", que acabam por não se reunir por vários fatores, mas principalmente pelas tentativas de revolta militar miguelista [D. Miguel, irmão de Pedro I], tentando forçar a abdicação do rei e estabelecer uma regência a favor da rainha "humilhada", D. Carlota Joaquina. 09.06.1823 - No Rio de Janeiro, no plenário da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa, o primeiro-secretário informa que recebeu um memorial oferecido à Assembleia pelo deputado José Bonifácio de Andrada e Silva (SP) sobre "a necessidade e meios de se edificar no interior do Brasil uma nova capital para assento da Corte, da Assembleia Legislativa e dos tribunais superiores". 14.06.1823 - No Rio de Janeiro, no plenário da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa, o deputado José Feliciano Fernandes Pinheiro (RS), depois visconde de São Leopoldo, apresenta uma indicação, propondo que "no Império do Brasil se crie o quanto antes uma universidade na cidade de São Paulo". No dia 19 de agosto, a Comissão de Instrução Pública apresenta projeto de lei que "trata da criação de duas universidades, uma na cidade de São Paulo e outra na de Olinda". 17.07.1823 - No Rio de Janeiro, o imperador D. Pedro I aceita o pedido de demissão que lhe pediram o ministro e secretário de Estado dos Negócios do Império e Estrangeiros, José Bonifácio de Andrada e Silva (SP), e o dos Negócios da Fazenda, Martim Francisco Ribeiro de Andrada (RJ). Forma-se um novo gabinete ministerial com a subida de José Joaquim Carneiro de Campos, marquês de Caravelas, para a Secretaria de Estado dos Negócios do Império e Estrangeiros, e Manuel Jacinto Nogueira da Gama, marquês de Baependi, para a Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda. Como é natural, segue-se na política do novo ministério uma completa mudança administrativa e assinala-se uma grande mudança na vida pública do País. Essa mudança dá condições para a ascensão do "partido português", que vai permanecer no poder até a abdicação de D. Pedro I, a 7 de abril de 1831. A influência política dos "Andradas" diminui ainda mais quando o imperador decreta o fechamento do "Apostolado" - sociedade secreta e centro político dos mais atuantes na Corte e provínciado Rio de Janeiro. 02.08.1823 - No Rio de Janeiro, o ministro e secretário de Estado dos Negócios da Guerra, general João Vieira de Carvalho, marquês de Lages, expede portaria "ordenando que os prisioneiros portugueses feitos na Bahia, na guerra da Independência do Brasil, fossem incorporados ao Exército brasileiro". Desconfiança na Assembleia Constituinte sobre os planos do governo central. A Assembleia solicita informações ao governo sobre a adoção de medidas tão graves, e vários parlamentares vão à tribuna e desabonam, energicamente, o procedimento do titular da pasta ministerial. 01.09.1823 - No Plenário da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa, o deputado Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (SP), relator, apresenta um Projeto de Constituição com 272 artigos. Na essência, o 26 projeto é de teor liberalizante e de contenção do poder do monarca. Todos os grandes princípios das liberdades constitucionais, todas as novas conquistas do sistema representativo estão ali proclamadas e consagradas. Entre outros, monarquia constitucional, divisão do Estado em três poderes e a Assembleia Geral constituída de duas salas: a sala de deputados (eletiva) e a sala dos senadores (vitalícia). Cada legislatura deverá durar quatro anos, e cada sessão legislativa, quatro meses. O projeto desarma o soberano, não lhe concedendo o poder moderador, nem tão pouco o direito de dissolver a Câmara dos Deputados. 05.09.1823 - No Plenário da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa, o deputado Pedro José da Costa Barros (CE) apresenta indicação, propondo que "a Assembleia declare o dia 7 de setembro, aniversário da Independência do Brasil, dia de festa nacional", a qual é aprovada. É nomeada uma deputação para cumprimentar o monarca. No dia 7, às 13 horas, os deputados são recebidos solenemente pelo imperador D. Pedro I no Palácio da Cidade. 09.09.1823 - No Plenário da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa, o deputado Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado (SP) apresenta indicação propondo que "se mande ao imperador um exemplar do Projeto de Constituição". A indicação é aprovada e o projeto é enviado. No dia 17, é lido ofício do governo imperial, declarando "ter o imperador recebido, com especial agrado, o referido exemplar, e que, seria muito maior sua satisfação se, em lugar do projeto, fosse já a Constituição do Império, por estar intimamente convencido de que dela dependem a sua estabilidade e a prosperidade geral". 01.11.1823 - No Rio de Janeiro, os oficiais da guarnição da Corte do Império do Brasil, quase a maior parte composta de portugueses, dirigemse a São Cristóvão e apresentam uma petição ao imperador D. Pedro I, exigindo a expulsão dos Andradas da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa e a satisfação, por parte desta, de pretendidos insultos. O monarca participa o fato à Assembleia. Todas as tropas acantonadas na cidade, em armas, começam a ser concentrada em São Cristóvão, assumindo arrogantemente uma atitude hostil à Assembleia Constituinte. 10.11.1823 - No Plenário da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa entra em pauta o projeto que "trata de liberdade de imprensa". A sessão fica muito agitada e tensa. O povo é admitido no recinto e galerias para acompanhar os debates. Há tumultos generalizados e a sessão é suspensa pelo presidente. 11.11.1823 - No Plenário da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa, o deputado Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (SP) apresenta à Mesa Diretora uma indicação, propondo, entre outros assuntos, que "a Assembleia se declare, em sessão permanente, enquanto durarem as inquietações na cidade; que se solicitem ao governo os motivos dos estranhos movimentos militares que perturbam a tranquilidade da capital". É aprovada. Essa reunião, que viria a ser chamada de "A Noite da Agonia", vara a madrugada e fica em sessão permanente do dia 11 para 12 de novembro. Durante a noite são trocados ofícios e notas entre a Assembleia e o Governo Imperial. 27 12.11.1823 - Doze horas e quarenta minutos. A tropa imperial cerca todo o edifício da Assembleia e são colocadas peças de artilharia nas entradas das ruas adjacentes. A Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa é dissolvida por decreto do imperador D. Pedro I após a leitura do documento no Plenário da Casa. Os constituintes, por prudência, retiram-se, sem protesto. Ao deixarem o prédio, alguns são presos por ordem do monarca e depois desterrados. Este foi o primeiro golpe de Estado ocorrido no Brasil. Outros acontecerão ao longo de sua história, para infelicidade da Nação. 13.11.1823 - O imperador D. Pedro I expede proclamação que "trata da dissolução da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa". No mesmo dia, é expedido decreto que "cria um Conselho de Estado" que têm como missão "tratar do Projeto de Constituição e também de outros negócios da Corte". 16.11.1823 - O imperador D. Pedro I expede manifesto "justificando a dissolução da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa". 20.11.1823 - Rio de Janeiro. Sob o comando do capitão-tenente Joaquim Estanislau Barbosa, saem do território brasileiro com destino à França, embarcados na charrua "Luconia", os presos José Bonifácio de Andrada e Silva com sua mulher, sua irmã, uma filha e duas criadas; Martim Francisco Ribeiro de Andrada com sua mulher e três criados; Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva com sua mulher, um sobrinho e um criado; Padre Belchior Pinheiro de Oliveira com um criado; José Joaquim da Rocha com dois filhos; e Francisco Gê Acaiaba de Montezuma com sua mulher e um criado. O Diário do Governo do dia 22 de novembro registra esse fato. 22.11.1823 - O imperador D. Pedro I expede decreto, mandando "executar, provisoriamente, o Projeto de Lei nº 36, datado de 2 de outubro de 1823, de autoria da Comissão de Legislação e Justiça Civil e Criminal, que regula a liberdade de imprensa". Esse projeto de lei foi lido no plenário da Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa no dia 6 de outubro, teve como relator o deputado José Antônio da Silva Maia (MG) e tramitava em regime de urgência. Posteriormente, decretos do imperador D. Pedro I, de 11 de setembro de 1826 e de 13 de setembro de 1827, declaram "a sua eficácia por estar em pleno vigor". 24.11.1823 - O Imperador D. Pedro I expede decreto, mandando "tirar devassa sobre os fatos sediciosos dos dias 10, 11 e 12 de novembro sem limitação de tempo, nem determinado número de testemunhas, para se descobrir a sedição promovida para a ruína da Pátria". 02.12.1823 - O presidente dos Estados Unidos da América do Norte, James Monroe (1817-1825) apresenta ao Congresso americano sua célebre mensagem que, entre outros detalhes, destaca que não era mais admissível que nações do novo continente fossem colônias de qualquer nação estrangeira e que não era possível que nações europeias interferissem nos negócios de países americanos (a denominada Doutrina 28 Monroe, onde é defendida a tese "a América para os americanos"). O governo brasileiro é o primeiro em nosso continente a aderir a essa declaração, em janeiro de 1824. 17.12.1823 - O ministro e secretário de Estado dos Negócios do Império, João Severiano Maciel da Costa (MG), primeiro visconde e marquês de Queluz, expede decisão de governo que "remete ao Senado da Câmara do Rio de Janeiro e às câmaras das províncias, o Projeto de Constituição". Quase todas as câmaras o aprovam. Há exceções. Em Itú (SP), o padre Diogo Antônio Feijó faz reparos. As Câmaras de Olinda e Recife recusam o texto. 05.01.1824 - O imperador D. Pedro I expede decreto que "manda contrair na Europa um empréstimo de três milhões de libras esterlinas". Para cobrir despesas urgentes, o Brasil começa o seu processo deendividamento externo. 11.03.1824 - O imperador D. Pedro I expede decreto que "jura e manda jurar o Projeto de Constituição Política do Império do Brasil, datado de 24 de fevereiro, e designa para esta solenidade o dia 25 de março". 25.03.1824 - O imperador D. Pedro I expede Carta de Lei que "manda observar a Constituição Política do Império do Brasil, oferecida e jurada por Sua Majestade, o Imperador D. Pedro I". De acordo com a Carta Constitucional, a Assembleia Geral Legislativa compreende a Câmara dos Deputados (temporária) e a Câmara dos Senadores ou Senado (vitalícia). Cada legislatura durará quatro anos, e cada sessão anual (sessão legislativa), quatro meses. A primeira deveria ser composta por 102 deputados escolhidos em eleições indiretas, voto censitário, separação dos três poderes: Poder Executivo, Poder Judiciário e Poder Legislativo. A Igreja Católica é a igreja oficial do país. O regime político implantado é a constitucionalização do absolutismo, em especial ao criar o Poder Moderador, exercido diretamente pelo imperador e acima dos outros três. Dá- lhe o direito de interferir no Executivo e no Legislativo e de atuar como mediador entre as forças políticas em disputa. No Segundo Império, vai garantir a alternância de conservadores e liberais no poder e o equilíbrio do regime. O texto constitucional proíbe a organização de corporações e assegura a liberdade de trabalho. Nenhum gênero de trabalho, de cultura, indústria ou comércio pode ser proibido, conquanto não se oponha aos costumes públicos, à segurança e à saúde dos cidadãos. Todo cidadão pode ser admitido aos cargos públicos civis, políticos ou militares, sem outra diferenciação que não seja a de seus talentos e virtudes. 26.03.1824 - O imperador D. Pedro I expede decreto que "torna sem efeito o decreto de 17 de novembro de 1823 sobre as eleições de deputados para a Assembleia Constituinte e manda proceder à eleição dos deputados e senadores da Assembleia Geral Legislativa do Império do Brasil e dos membros dos Conselhos Gerais das Províncias". 26.05.1824 - Os Estados Unidos da América do Norte são a primeira nação a reconhecer a Independência e o Império do Brasil, conforme comunicado do plenipotenciário [embaixador] brasileiro datado de 31 de maio de 1824. 29 02.07.1824 - Em Recife, Pernambuco, tem início a "Confederação do Equador", movimento nacionalista com organização republicana e revolucionária. Inspira-se diretamente na Independência Americana (1776) e na Revolução Francesa (1789), ambas as expressões do Iluminismo europeu e de seu rebento político, o Liberalismo. Estabelecendo uma república federativa e democrática nas províncias do Norte, espera seus líderes criar as condições necessárias para promover a união futura não só da "América portuguesa", mas de todo o continente ao sul da última província brasileira. Envida forte apelo em prol da adesão das províncias vizinhas para a formação de um regime republicano como o existente nos Estados Unidos da América. O protesto se dirige ao autoritarismo imperial e denuncia, também, o abandono das províncias, com o poder central atento apenas aos problemas da área fluminense. Resumem em uma só frase os princípios sobre os quais se assenta a legitimidade do poder: "As Constituições, as leis e todas as instituições humanas são feitas para os povos e não os povos para elas". O ideólogo do movimento, principal conselheiro e publicista é o frade carmelita Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo Caneca, que já havia participado da Insurreição Pernambucana de 1817. A divulgação das ideias dos revolucionários e a adesão popular em heroicas brigadas combatentes ganham contornos de inconformismo social e alastra-se pelo Nordeste. O imperador reage, e o movimento dura de julho a novembro. As Comissões Militares são instaladas e os principais líderes são condenados à morte, em processos rápidos e sumários. 19.04.1825 - Início da rebelião na Província Cisplatina, fomentada pela República de Buenos Aires, incorporando a Banda Oriental à República das Províncias Unidas do Rio da Prata a partir de novembro do mesmo ano. 29.08.1825 - No Rio de Janeiro, é assinado o Tratado de Paz e Aliança, com Portugal, reconhecendo-se assim a independência brasileira, sendo ratificado por parte do Brasil no dia 30 do mesmo mês e, por parte de Portugal, em 15 de novembro do mesmo ano. Celebram, também, os embaixadores plenipotenciários uma convenção, que também é ratificada pelo imperador D. Pedro I, pela qual se conveio, à vista das reclamações apresentadas de governo a governo, em dar ao de Portugal a soma de dois milhões de esterlinos pagos com empréstimos ingleses e a subserviência brasileira ao capital internacional. 10.12.1825 - No Rio de Janeiro, é expedido decreto pelo imperador D. Pedro I que declara guerra ao Governo das Províncias Unidas do Rio da Prata, autorizando o corso e armamento. É expedido, também, um manifesto do imperador que justificava o procedimento da Corte do Brasil e os motivos que o obrigaram a declarar guerra ao referido governo. 02.12.1825 - No Rio de Janeiro, nasce o futuro imperador do Brasil, D. Pedro II, sétimo filho e terceiro varão do imperador D. Pedro I e da imperatriz D. Maria Leopoldina. É batizado com o nome de Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Habsburgo. Foi ele herdeiro do trono desde o berço, pois seus dois irmãos mais velhos já haviam falecido antes de completarem um ano. No dia 2 de agosto de 1826, 30 o menino Pedro é reconhecido oficialmente como herdeiro presuntivo do trono brasileiro. 04.03.1826 - Em Portugal, o rei D. João VI adoece gravemente. É instituído um Conselho de Regência presidido por sua filha, a infanta D. Isabel Maria. A decisão visa impedir a subida ao poder de D. Carlota Joaquina. O rei vem a falecer a 10 de março. 27.03.1826 - Em Portugal, a Gazeta de Lisboa publica uma portaria, datada de 20, que ordenava que todas as leis, cartas, patentes, etc. fossem passadas em nome de D. Pedro, por Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves. 10.04.1826 - É expedido decreto pelo imperador D. Pedro I que manda "executar o tratado solenizado entre D. João VI, de Portugal, e Sua Majestade o Imperador do Brasil sobre o reconhecimento da independência e do Império do Brasil". 25.04.1826 - O imperador D. Pedro I expede decreto, que "designa o dia 29 de abril, pelas nove horas da manhã, para a primeira reunião dos senadores e deputados em suas respectivas Câmaras a fim de se praticarem e seguirem todos os atos indispensáveis para a solene abertura da mesma Assembleia". 29.04.1826 - Rio de Janeiro. No Plenário da Câmara dos Deputados é aberta a primeira sessão preparatória, com a presença de 45 deputados, que procede, em seguida, às nomeações do presidente e secretário interinos. O primeiro parlamentar a usar da palavra é o deputado José Antônio da Silva Maia (MG), que oferece um projeto de regimento, extraído da assembleia constituinte, para que, merecendo aceitação, servisse interinamente aos trabalhos prévios, a que se tinha de dar princípio. Nesse mesmo dia, segue de Portugal para o Rio de Janeiro uma deputação portadora de uma mensagem da Regência, datada de 16 de abril, onde é encarregada de apresentar pêsames ao imperador D. Pedro I do Brasil (IV de Portugal) pela morte do pai, felicitá-lo por sua elevação aos respectivos tronos e solicitar-lhe ordens. 02.05.1826 - O imperador D. Pedro I, que já na Carta Constitucional portuguesa (art. 5º), outorgada por ele em 29 de abril desse mesmo ano, declarava abdicar em favor de sua filha, a princesa D. Maria da Glória, faz nova abdicação, "por ser incompatível com os interesses do império do Brasil e os do Reino dePortugal continuar a ser rei de Portugal". 06.05.1826 - 12 horas. No Rio de Janeiro, no Paço do Senado, acontece a "Abertura da Sessão Solene da Primeira Sessão Legislativa da Primeira Legislatura da Assembleia Geral Legislativa" (Câmara dos Deputados e Câmara dos Senadores) pelo Imperador D. Pedro I, que dirige à representação nacional a sua segunda "Fala do Trono". Nesta fala trata de assuntos nacionais e internacionais, além de recomendar à Assembleia a discussão de leis complementares e de leis sobre educação e finanças. Por motivos alheios ao desejo do imperador e divergências entre a Câmara dos Deputados e a Câmara dos Senadores sobre o cerimonial de 31 instalação da Assembleia Geral a mesma não é realizada no dia 3, conforme manda o artigo 18 da Constituição Política do Império do Brasil. 12.05.1826 - No plenário da Câmara dos Deputados, o deputado José Antônio da Silva Maia (MG) propõe que a Comissão de Legislação indique, com urgência, as medidas que devem ser tomadas para a organização dos Códigos Civil e Criminal. Na mesma sessão, o deputado Domingos Malaquias de Aguiar Pires Ferreira, 1º barão de Cimbres (PE), propõe que se conceda prêmio a quem, dentro de dois anos, apresentar o melhor projeto dos referidos códigos. Já na sessão do dia 1º de agosto é lido o parecer da Comissão de Legislação, de Justiça Civil e Criminal. 18.05.1826 - No plenário da Câmara dos Deputados, o deputado José Clemente Pereira (RJ) apresenta o primeiro projeto de lei que "trata da abolição do comércio de escravos em todo o Império do Brasil no último dia do mês de dezembro do ano de 1840; a proibição de introdução de novos escravos nos portos; e a apreensão e venda dos navios negreiros que forem encontrados com esse tipo de carga". Já em 8 de junho é lido o parecer da Comissão de Legislação, de Justiça Civil e Criminal, favorável ao projeto. No dia 15, a referida comissão apresenta uma emenda, que é lida em plenário, prevendo a extinção da escravatura no prazo de seis anos, contados do dia da publicação da lei. 29.05.1826 - O deputado Bernardo Pereira de Vasconcelos (MG), em nome da Comissão de Leis Regulamentares, lê o projeto de lei "sobre a responsabilidade dos empregados públicos". Na sessão do dia 30, é lido o projeto de lei da mesma comissão, que trata "da responsabilidade dos ministros e secretários de Estado e da maneira de proceder contra eles". 03.06.1826 - O deputado José Clemente Pereira (RJ) apresenta o projeto de lei que "estabelece as bases para o projeto de Código Criminal". Na sessão do dia 9, o projeto é enviado à Comissão de Legislação, Justiça Civil e Criminal. Na sessão do dia 1º de agosto é lido o parecer da comissão. Foi sobre as disposições desse projeto e de outro, apresentado pelo mesmo autor a 16 de maio de 1827, e mais o projeto do deputado Bernardo Pereira de Vasconcelos (MG), apresentado a 04 de maio de 1827, que se formulou o Código Criminal do Império do Brasil, considerado um dos maiores monumentos legislativos do Brasil independente. 04.10.1826 - Viena, Áustria. Conforme tratado, o infante D. Miguel, irmão de D. Pedro I, jura a Constituição portuguesa de 29 de abril. O casamento com sua sobrinha, a princesa D. Maria da Glória, celebrou-se na mesma corte, no dia 29. A princesa foi representada pelo barão de Vila Seca. 11.12.1826 - Rio de Janeiro. Falecimento da imperatriz D. Maria Leopoldina Josefa Carolina Francisca Fernanda Beatriz de Habsburgo-Lorena. 03.07.1827 - O imperador D. Pedro I nomeia seu "lugar-tenente" o irmão D. Miguel, a fim de governar e reger Portugal de conformidade com a Carta Constitucional. D. Miguel assume, mas viola as condições tratadas e inicia a guerra 32 civil portuguesa entre liberais e absolutistas (miguelistas). Em 1828, após a vitória, D. Miguel I proclama-se rei absoluto de Portugal, abolindo os decretos de D. Pedro IV, incluindo a Carta Constitucional. 30.08.1828 - O imperador D. Pedro I expede Carta de Lei que "ratifica a convenção preliminar de paz entre o Império do Brasil e a República das Províncias Unidas do Rio da Prata, assinada no Rio de Janeiro em 27 de agosto de 1828". A Banda Oriental deixa de fazer parte do Império do Brasil, mas não integra as Províncias Unidas do Rio da Prata. Forma a República Oriental do Uruguai, soberana e independente de toda e qualquer nação. A Constituição que foi elaborada e promulgada pela nova República a 18 de julho de 1830 foi ratificada, também, com a assinatura do "Ato Diplomático de 26 de maio de 1830". 13.09.1830 - É expedida Carta de Lei s/nº, que regula os contratos de serviços de brasileiros e estrangeiros. 33 Referências Bibliográficas: AMBROSINI, Diogo Rafael. Do poder moderador: uma análise da organização do poder na construção do estado imperial brasileiro. São Paulo: Dissertação de mestrado, FFLCH-USP, 2004. ARAÚJO, Ana Cristina Bartolomeu de. A Cultura das Luzes em Portugal: Temas e Problemas. Lisboa: Horizonte, 2003. ARMITAGE, John. 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Então, a Igreja foi retirada do centro da política, tanto pela restrição da jurisdição religiosa – dos foros privilegiados aos membros das ordens e clérigos, que os colocavam fora da jurisdição régia – quanto das reflexões políticas (passando a predominar o estudo dos tratados de direito natural, particularmente os dos alemães). 5 Notamos, contudo, um maior entrelaçamento da política com a religião nas concessões de comendas das ordens religiosas. Se os procedimentos devocionais (procissões, missas) eram propostos, desde o século XVI, como um meio privilegiado de exercício da sujeição política, no reinado de D. Maria I, a devoção exercita-se mais do que antes na ação política. As concessões de honrarias tornam-se o reconhecimento por um desempenho público que se apresenta como exercício de uma devoção a Deus. Então, as Ordens religiosas de San Tiago, da Espada e de Cristo promovem o exercício do amor de Cristo, simbolizadas na insígnia com emblema do Sagrado Coração de Cristo, enquanto prática civil de devoção. Destarte, o valor de devoção fica acentuado nas condecorações monárquicas, que são concedidas em reconhecimento a serviços prestados ao regente. E o reinado de D. Maria I dá início a um culto religioso através do Estado: a obediência política resulta em amor a Deus. Assim, durante o reinado de D. Maria I, o Estado torna-se mais religioso em seu funcionamento e em seus fins, pois a promoção das virtudes cristãs se daria pelo desempenho das funções públicas. Alterou-se, portanto, a relação entre devoção e sujeição política, pois, se na antiga noção de império cada uma delas remetia a uma dimensão distinta (Igreja e império civil), agora elas se superpõem na noção de império civil. Durante a regência de D. João, as formulações a partir daquele modelo de império civil não apenas se multiplicam como também aqueles três pontos aludidos acima se entrelaçam ainda mais. Veja-se, por exemplo, um opúsculo dedicado a D. João VI e relativo ao fim da Rebelião Pernambucana de 1817, “o felicíssimo Pai da Pátria [„Patriae Patri‟] [...] em testemunho de religiosíssima fidelidade, de rendida vassalagem, e de gratidão mui respeitosa, e humildemente” – cujo título original em latim diz: “Religiossimae fidei, omnimodoe devotionis, gratique animi. Testimonium perquiam submisse”. “Religiosíssima fidelidade” e “vassalagem”/“devotionis”: há um caráter religioso que marca a relação política do súdito com o Rei. Obedecer ao Rei é agora um exercício de devoção e uma obrigação política. 2. Os projetos políticos de um grande império Aquela busca de supremacia do poder régio, efetuada sob a coordenação do ministro Marquês de Pombal e esta teoria jus naturalista prestar-se-iam, então, à concepção de projetos de reforma administrativa. Um destes será proposto, em 1798, por D. Rodrigo de Souza Coutinho, Ministro da Marinha e Ultramar. O império era, neste projeto, um sistema político-administrativo que reunia todos os domínios ultramarinos – como províncias detentoras de iguais privilégios – e o reino de Portugal, caracterizado como “entreposto comercial” e “centro político da unidade do império”. Temos aí, portanto, uma organização administrativa que se fundamenta no princípio da unidade, base da Monarquia portuguesa, e cujas províncias são estabelecidas para mútua defesa desta mesma monarquia. As concepções de poder político, de sociedade e de Estado são assim formuladas em torno da noção de império civil, com a finalidade de legitimar a monarquia portuguesa e consubstanciar projetos de atuação política. 6 Tais formulações seriam repensadas em outro lugar e sob novas condições, no início do século XIX, com a transferência da Corte para a América portuguesa. Em 1808, Portugal foi invadido por tropas francesas, levando à transferência do príncipe- regente e sua Corte para a América portuguesa. O Estado-maior português teve de se reorganizar na cidade do Rio de Janeiro. E a Corte imigrada precisou de recursos financeiros, providos pelos negociantes imigrados ou nativos da província do Rio de Janeiro. Os créditos para a nobreza e o auxílio param aos cofres públicos são conferidos em troca de títulos, concessões de monopólios (por exemplo, contratos de arrecadação de impostos) e isenções. Compõe-se uma Corte, nas terras do Brasil, formada por uma nobreza imigrada, burocratas de alto escalão, serviçais e negociantes. Esta nova Corte terá no Rio de Janeiro a sede do Reino do Brasil – novo estado político, criado em 1815, que reúne as províncias portuguesas na América. Falar em império evoca agora o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, bem como os projetos políticos pensados para esta união de reinos sob o controle único da coroa portuguesa, formulados dentro daquela nova Corte, ou mesmo fora dela. Tais projetos propõem reformas político-administrativas que permitam a alguns grupos (portugueses nativos do Brasil, ou imigrados vinculados aos primeiros) ampliar a sua força política dentro do regime monárquico, redirecionando a atuação do Estado sobre a dinâmica econômica. Destacamos aqui dois projetos políticos que operam com a ideia de império, e que foram formulados por grupos específicos em busca de ampliação de sua força política. Há uma primeira ideia: a de um império luso-brasílico, um grande reino português com sede no Brasil. Trata-se da concepção de um estado fundamentado na manutenção do princípio de unidade das províncias e dos reinos em torno da monarquia e da dinastia regente (com sentimento de pertencimento à nação lusa, um sentimento de identidade), mas com autonomia do Reino do Brasil e direitos iguais deste aos de Portugal: uma concepção da cidadania e do “sistema representativo”, pensados em termos da noção de “povo”, tal como aparecia na monarquia portuguesa Setecentista, em que o “povo” era a aristocracia local. Os cidadãos eram os “homens bons”, os que tivessem grandes possessões locais, eventualmente títulos, e cuja ascendência não fosse impura (isto é, judaica); e a representação dos “povos” fazia- se por meio de petições. Este projeto requisitava o direito de voto sem liberação da esfera pública, sem tornar a participação política extensiva a muitos. Tais proposições foram expostas por membros de um grupo formado por nobres imigrados (como Tomás Antônio Vilanova Portugal), altos burocratas (José Egídio Álvares de Almeida – o Barão de Santo Amaro – José da Silva Lisboa, Quintella e Lobato), membros de famílias ricas e poderosas (como José Carneiro Leão, Fernandes Viana, Manuel Jacinto Nogueira da Gama e José Joaquim Carneiro de Campos). Muitos eram nobres ou burocratas que alcançaram títulos, cargos ou riquezas na regência do príncipe regente D. João, a partir da sua transferência para o Rio de Janeiro. Há ainda um segundo projeto de império, entendido como um governo constitucional: uma organização política compreendida como um “corpo de cidadãos”, no qual se admite a liberação da esfera pública e a destruição do poder absoluto do rei. Tal projeto mantém a ligação política entre o Reino do Brasil e o de Portugal, mas admitea autonomia daquele reino e direitos seus iguais aos de Portugal – neste ponto, aproximando-se da proposta anterior. Em vários textos há a afirmação desta 7 autonomia como “independência política” e “soberania política” do Reino do Brasil, ainda que não significasse o rompimento político com o Reino de Portugal: a ligação manter-se-ia sob um único governo. Porém, esta autonomia supõe a primazia do poder legislativo e o fortalecimento do mercado interno. São propostas expostas por fazendeiros e negociantes do Rio de Janeiro (como Gonçalves Ledo, João Alves Silva Porto e Manuel Joaquim Silva Porto, Manuel dos Santos Portugal) ou membros da Corte joanina no Brasil (como José Clemente Pereira e o padre Januário da Cunha Barbosa). Num e noutro projeto de império luso-brasílico admite-se uma concepção de cidadania, que define as reais condições da participação política – o que inexistia nas ideias e nos projetos de império de fins dos Setecentos. A diferença entre “cidadãos” e “não-cidadãos” passa pela desqualificação dos escravos e dos homens livres pobres sem ocupação fixa . Esta desqualificação expunha-se nas alusões à “gente ordinária de veste”, feitas pelos que se consideravam os homens “ilustrados” (como Nogueira da Gama e Silva Lisboa) afirmativas também encontradas em artigos de Ledo e Clemente Pereira. Nestes momentos, expunha-se o elitismo da concepção de cidadania, evocada em ambas as propostas. Tal concepção concretizase no caráter seletivo do estabelecimento de listas de eleitores, compostas por autoridades municipais ou párocos, que distinguiam quem participaria ou não das eleições. Esta distinção (e discussão) sobre o campo da participação política tomou corpo na reunião da Assembleia da Província do Rio de Janeiro, realizada em 21 de abril de 1821, para fins de eleição dos representantes das províncias, para se reunirem em Assembleia, em Lisboa, para a redação da Constituição da Nação Portuguesa. Tratava-se de um evento promovido para reunir forças em torno do projeto de soberania num governo constitucional, mas acabou fugindo ao controle deste grupo, convertendo-se num movimento de questionamento da autoridade de D. João VI. Expõe-se então, para todos os grupos, o elemento instável incluso num projeto de governo representativo, que se identificava na “força incontrolável da multidão” e se apresentava como uma “ameaça” tanto para os nobres imigrados e ricos negociantes fluminenses quanto para o grupo constitucional. A discussão sobre a cidadania toca a participação política através da qual estes grupos seriam admitidos no governo do Estado, mas também abre espaço de pressão para outros grupos. Definir a cidadania é traçar os limites do espaço público e da participação política no reino do Brasil. Uma reflexão sobre o poder político em termos de imperium já havia sido retomada quando da formulação da concepção de império civil, no final do século XVIII, em Portugal, para pensar o poder régio como supremo. Consideramos que, agora, a ideia de um império civil luso-brasílico redefine o campo de atuação próprio do Estado português (em torno de uma função administrativa) e reorganiza o espaço público (admitindo a participação política, mas conforme certas definições de cidadania). Recupera-se daquela reflexão anterior a definição de um poder político supremo. Reafirma-se também a função reguladora do poder político: inspetor das condutas particulares, promotor das atividades comerciais e agrícolas. Mas começa a alterar- se a origem deste poder, com a inclusão do conceito de cidadão. 3. O poder do império civil 8 O terceiro momento no qual podemos apreender a migração da ideia de império é o período que vai do segundo semestre de 1822 a março de 1824. Envolve o esforço de depositar o poder político do Reino independente do Brasil no príncipe-regente D. Pedro – que o rei D. João VI havia deixado no Brasil como seu lugar-tenente, quando do retorno a Portugal. Os partidários de um projeto de governo constitucional, como José Clemente Pereira, haviam pressionado para a convocação de uma Assembleia Constituinte no Brasil, que veio a ser convocada pelo príncipe-regente em junho de 1822. Nos meses seguintes, os dois grupos acima citados uniram-se em torno da pessoa do príncipe-regente D. Pedro para nele depositar a legitimidade da independência política do Brasil. O governo do reino independente subsiste durante algum tempo no confronto entre os projetos políticos de uma monarquia soberana (proposta pela Câmara de deputados de São Paulo e levada adiante por José Bonifácio, já então ministro do governo do príncipe) e de um governo constitucional (defendido pelo presidente da Câmara do Rio de Janeiro, José Clemente da Cunha). A aclamação de D. Pedro I como Imperador do Brasil, em 22 de outubro de 1822, expõe este confronto de projetos: de um lado, D. Pedro agradece ao povo, reunido no Paço, pelo “título” que lhe concede; de outro, José Clemente declara que a “vontade do povo” o havia aclamado para governar o reino independente. O título de imperador é presente a ser agradecido para um, eleição para o governo do novo Estado para o outro. Em torno do título disputa-se o tipo de governo político: monárquico ou representativo. O discurso de José Clemente afirma o princípio de soberania popular, um governo de caráter representativo (por alusão aos representantes das Câmaras municipais). De seu lado, José Bonifácio e o grupo ao redor de D. Pedro coordenam a supremacia do poder político do novo Imperador, supremacia que exclui a participação política popular (alegando a legitimidade hereditária do príncipe-regente). Nos termos deste último grupo é que se compôs o cerimonial de sagração de D. Pedro, em que poderemos observar como ele se reporta àquela ideia de império civil, definida em Portugal, já o vimos, nos fins do século XVIII. A descrição do imperador sagrado, presente no sermão de Frei Sampaio, quando da missa de sagração, é decisiva para avaliarmos os elementos simbólicos do cerimonial e como uma ideia de império permitiu determinar o poder político que D. Pedro então recebeu. O novo imperador é caracterizado naquele sermão como “ligado aos interesses da nação” e “Defensor da Constituição”: são as duas características relevantes do novo monarca. Sendo parte da Nação, está fortemente atado aos seus anseios e destinos. Pode comandá-la para a sua felicidade, porque tomou para si os ideais deste povo e dirige-o na sua busca de liberdade e afirmação de seus direitos. Daí o Imperador ser também o “Defensor da Constituição”, como aquele que se coloca na linha de frente da batalha, disposto a lutar contra as forças inimigas em prol da proteção dos direitos de seus povos: “direitos invioláveis” a serem transcritos na Constituição. O frade apresenta a imagem de um “propugnador dos nossos direitos”, em que a nação surge identificada nos “direitos invioláveis” que D. Pedro acolhe como também seus e se dispõe a defender. Neste sentido de defensor, a imagem do soldado pronto para o conflito está presente no cerimonial, pois D. Pedro veste o uniforme militar sob o manto real: assim desfilou o Imperador no cortejo até a igreja e apresentou-se durante o cerimonial. O seu poder político sustenta-se, então, na imagem de um governo protetor, em que desponta a ideia de defesa dos direitos 9 constitucionais – contrastante com a imagem setecentista do rei-salvador do reino e da alma de seus súditos, conforme a ideia de imperium utilizada naquela época. Não é apenas o fato de D. Pedro I estar vestido com o uniforme militar que permite aludir à imagem do rei-soldado, mas também as insígnias que levava consigo, permitindo compor a cena do Imperador indo para a batalha, “marchando à sua frente com a tábua da Lei em uma mão, e noutra com a vara da Justiça”, isto é, a Constituiçãoe o cetro – conforme o sermão de Frei Sampaio. Evidentemente, há um anacronismo nesta figuração, pois D. Pedro, durante o cerimonial, não estava segurando a Carta numa das mãos, já que esta só viria a ser redigida posteriormente. Porém ela surgiu simbolicamente no juramento, momento central do cerimonial, quando a fórmula do juramento lhe atribui a função de defesa da Carta. Daí se afirma que o poder político do imperador está fundamentado não somente nela; ele o traz consigo no exercício de seu poder. Observamos que D. Pedro sustém um bastão durante a cerimônia (o cetro imperial), que não é idêntico ao cetro real de D. João VI – com a forma de um pequeno bastão curto, símbolo tradicional do poder régio em Portugal. O de D. Pedro I assemelhase, isto sim, ao báculo, ao cajado dos bispos, indicador da função pastoral daquele que guia os povos para a salvação das almas. Sampaio ressalta tal semelhança logo no início do sermão da sagração: como Cristo, na imagem do Bom Pastor, o imperador está disposto a dar sua vida por aqueles que conduzem. Sampaio ressalta também o dom do Imperador: sua eleição pela Providência para reinar sobre o Império do Brasil. Ora, se a coroa imperial não tem a forma tradicional de coroa régia, assemelha-se, porém, à mitra, barrete usado pelos bispos como insígnia do poder de jurisdição no bispado, que foi concedido como um dom, um poder ofertado pela Providência. O báculo e a mitra são insígnias daquele que detém um poder de reger e julgar derivado da Providência divina e que se exerceria com propósito de salvação espiritual dos homens. Destacamos, assim, algumas remissões formais entre as insígnias episcopais e as imperiais, que o sermão de Sampaio estabelece direta ou indiretamente. Isto é feito para afirmar outro poder de salvação, exclusivo do Imperador: a defesa dos direitos constitucionais. Ressaltamos, com estas comparações entre as insígnias imperiais e as episcopais, que é preciso refletir um pouco mais cuidadosamente sobre a articulação entre a dimensão política e a religiosa efetuada na cerimônia de sagração de D. Pedro I. Note-se primeiramente que, na imagem do imperador com as insígnias, está simbolizado aquele que é o ungido de Deus, um “de seus Representantes sobre a terra”, como descreve o próprio Frei Sampaio. O imperador apresenta-se como um sacerdote, agora sagrado, detentor do poder de justiça para fazer valer os direitos e as liberdades de seu povo – o sermão de Frei Sampaio alude à “vara da Justiça”. Em segundo lugar, são direitos que, como a Constituição a ser redigida, repousa nos “direitos das gentes”, isto é, no direito natural. Entrecruzam-se aqui os direitos naturais dos homens e a ordem universal estabelecida por Deus, àqueles direitos refletindo esta ordem e reafirmando-a. Assim, defender os direitos dos povos é também fazer cumprir a Lei suprema estabelecida pela vontade de Deus. Representante divino na terra, o imperador é igualmente defensor da Constituição, dos direitos e das liberdades da nação: um operador da justiça humana e divina simultaneamente. Daí as imagens de sacerdote e soldado se superporem de maneira coerente no cerimonial da sagração, em que o princípio da inviolabilidade do monarca 10 adquire caráter sagrado (pois está posto na Lei de Deus) e valor político, pois é centro de unidade e defesa dos direitos constitucionais. Desta maneira, o poder político de D. Pedro fundamentará sua autoridade nos próprios princípios de uma razão natural – aos quais a redação da Constituição deve igualmente submeter-se – como também na soberania divina, a que todo ser vivente e criatura de Deus está incondicionalmente sujeito. A imagem do Imperador como defensor constitucional reúne tanto o caráter de realizador dos desígnios divinos através do poder político – aproximando-se esta imagem daquela outra, setecentista, do rei-salvador – quanto o de representante da vontade dos povos que elegeram D. Pedro, segundo uma terminologia coerente com o ideário da Revolução Francesa. O fato de que a figura do Imperador seja assim composta leva-nos a descartar uma análise pautada na simples contraposição da imagem do reisalvador ao ideário revolucionário – o que talvez fosse possível fazer nos cerimoniais de D. Maria I. Uma primeira indicação desta articulação é a dupla eleição (divina e popular), aludida por frei Sampaio, pela qual se estaria coroando D. Pedro. Outra indicação é o fato de que a coroa do Imperador, cujo formato é distinto da coroa do rei português, reproduz a “coroa imperial portuguesa” – localizamos esta “coroa imperial” já num pendente da Cruz de Santiago, de 1812. O que temos agora no cerimonial da sagração de D. Pedro I é justamente o entrelaçamento desta insígnia imperial, já conhecida pelos artesãos como “coroa imperial portuguesa”, com o cajado – que é tanto símbolo religioso da função pastoral do bispo, quanto do detentor de Justiça e dom da Providência. Isto caracteriza como supremo o poder imperial de D. Pedro, que tem por objetivo a salvaguarda de direitos constitucionais, definindo o Imperador como governante eleito por Deus e ratificado pelo povo. Também alude ao estabelecimento daquele vínculo à formulação de que, se os cidadãos examinarem suas consciências, encontrarão ali desígnios divinos, que confirmam a escolha de D. Pedro. Este governo protetor que surge, então, traz como seus fundamentos a vontade de Deus e a “vontade dos povos” reunidos sob o poder político de D. Pedro. Enfim, a imagem do Imperador-defensor faz-nos considerar a hipótese de uma articulação entre o dever real de salvação e a vontade da nação. Observamos como, na sagração de D. Pedro I, foi atribuída ao Imperador sagrado uma autoridade que ultrapassava o julgamento humano e não poderia ser questionada pela Assembleia Constituinte. Tal procedimento religioso de sagração recuperava a teoria do direito divino, que desde a aclamação de D. Maria I era proposta para fundamentar o poder real. E, ao mesmo tempo, privilegiava ainda os procedimentos religiosos como um dos principais dispositivos de um controle das condutas humanas. A realização do cerimonial da sagração afirmava o poder político como uma dimensão superior, cuja autoridade e obediência são absolutas. A realização da Assembleia não deveria, portanto, colocar em dúvida este fundamento imperial do poder político. Enfim, a política no Império do Brasil surge como uma dimensão de produção e distribuição de poder, organizada pelos conceitos de razão e obediência. No cerimonial de sagração, a obediência ao Imperador exerce uma função imperativa dentro de uma ordem constitucional, isto é, condição legal e limitadora dos poderes. Esta formulação, presente no juramento ao Imperador, contrasta com o juramento de 11 sujeição prestado a D. João VI, no cerimonial de sua aclamação, em 1818. Neste último, os súditos ocupavam um papel desprovido de poder e decisão, em que a obediência era uma obrigação. No caso da sagração de D. Pedro, trata-se de restringir o poder que cabe a cada um, pelo respeito a condições normativas (deveres e lei estabelecidos conforme o “direito natural e das gentes”), cabendo ao Imperador o papel de velar pela observância da lei, de uma legislação cuja legalidade estava fundamentada nestes absolutos princípios jus naturalistas. A origem do poder político do imperador é anterior e superior ao seu exercício de qualquer poder institucional: a vontade divina e a do povo. Concebe-se o poder político como ilimitado, mas não propriamente o poder do Imperador, já que este se insere agora numa distribuição constitucional dos poderes. Aquele poder ilimitado e esta distribuição exigem uma obediência à lei e à Constituição, que se admite como sendo garantida pelo Imperador, feito instrumento daquelas vontades. O ponto importante é justamente esta função instrumentaldo poder imperial, pelo qual o imperador adquire um papel principal na monarquia constitucional: garantia de existência do regime monárquico, porque fiador e mantenedor da legalidade constitucional. Além disto, o cerimonial da sagração vincula a razão natural com a obediência absoluta. A monarquia constitucional seria um regime que reteria estes elementos numa Assembleia Legislativa e num monarca. O que procuramos ressaltar é que se trata agora de uma obediência política apenas exercida pelo conhecimento dos deveres, não mais por uma exigência alheia à razão dos homens. Mudou, portanto, a natureza do cerimonial político, mesmo ao fazer uso de procedimentos religiosos. Com a coroação de D. Pedro I fez-se um uso moderno do procedimento antigo da sagração, para constituir uma sujeição política fundamentada na razão universal do Homem. E a existência de um poder de império (um poder superior e vigilante) legitima-se na Constituição (expressão da vontade racional e soberana da nação) e no respeito a que lhe impõe o trono: tais são os fundamentos de uma monarquia constitucional. Isto nos permite afirmar que a monarquia brasileira apresenta-se como um império da lei, nesta primeira década de 1820. Trata-se de uma ideia de império que teria contribuído para fundamentar o título do novo Estado independente do Brasil, no qual o poder político governante é um poder superior, vigilante e promotor de riquezas: um poder de império que se manifesta na dimensão legal como expressão de uma vontade soberana e racional. Esta ideia de império supõe, assim, um Estado de Direito, em que haveria Direito porque a ordem legal se fundamentaria numa vontade superior (tanto divina quanto popular). E o exercício deste poder de império desdobra-se como um poder legal e constitucional, que, ao mesmo tempo, vela pelo respeito desta ordem legal e se expressa na Constituição. A sagração é o momento em que este poder temporal de império é concedido a D. Pedro, quando também se caracteriza sua origem naquela vontade superior. Enfim, é sob a alegação de um poder superior (o de Deus) que se elege e empossa D. Pedro. E, se apenas à divindade cabe à escolha do novo governante, os cidadãos e os seus representantes (inclusive a Assembleia Constituinte) estão alheios à supremacia do Imperador. O simbolismo do cerimonial religioso legitima o poder 12 supremo do novo regente, e o poder representativo não poderia desautorizar o poder e o governo de D. Pedro. Retoma-se aqui a concepção de um poder político como um império civil; não simplesmente pelo título, mas por ser um poder supremo na dimensão humana, instituído por direito divino. A repressão que se abateu sobre este segundo grupo – com o exílio de Ledo e Clemente, e a eliminação de grupos que davam respaldo a Ledo (não aceitavam a separação de Portugal, as discriminações eleitorais e as feições das relações mercantis) – não extirpou o projeto de um governo representativo, pois a Assembleia Constituinte já fora convocada. Consideramos mesmo que não se deu a vitória unânime de um projeto político sobre o outro, de um projeto de monarquia sobre o de um governo representativo. As reuniões da Assembleia durante o ano de 1823 formularão os termos jurídicos da nova sociedade civil e dos poderes políticos, inclusive a autoridade do Imperador. Foi preciso admitir a liberdade política dentro do novo governo, mas também coordená-la com o princípio de um poder supremo, depositado na pessoa do monarca. A Constituição de 1824, cuja redação final ficou a cargo de José J. Carneiro de Campos, não apenas inclui este poder político (um quarto poder, ao lado do legislativo, do executivo e do judiciário), como também o amplia. O poder moderador, descrito no texto constitucional, detém o poder de dissolução da Câmara de deputados, pode afastar juízes suspeitos, intervir nos atos das Assembleias das Províncias. Este poder atuaria, enfim, como instrumento de pressão e intervenção nos demais poderes, alegando a “salvação do Estado” em situações de ameaça à ordem pública. Por um lado, a Carta Constitucional admite a liberdade política, restringindo esta mesma liberdade, entretanto, mediante um critério censitário para o exercício do direito cívico e pelo processo indireto de eleição. E também a representação política fica limitada em sua atuação por meio da organização do poder legislativo em duas câmaras legislativas e pelo direito de dissolução da Câmara dos Deputados. Por outro lado, limita-se a autonomia do judiciário, a atuação dos poderes representativos e das administrações regionais, através do poder moderador. Este poder exclusivo legitima o poder supremo do Imperador. Cristalizando-se juridicamente nos modernos termos constitucionais, está a ideia de um poder de império civil: um poder político supremo, exclusivo do monarca e instituído para resguardar a sociedade civil, por isto inquestionável em sua autoridade. A ideia de império civil redefine-se, aqui, como um poder político constituído em prol da sociedade. Não por remissão a um direito divino, mas pelo vínculo originário do poder político com a sociedade. Isto é o que fundamenta este poder de império exercido por D. Pedro I; e o que, na Constituição do Império do Brasil, de 1824, materializase no poder moderador. 4. Os fundamentos de um novo poder político Em nosso entender, esta ideia de império civil não é propriamente um projeto político de um grupo (de Ledo ou de José Bonifácio), mas uma concepção de poder político – que é retomada por aqueles projetos. Por um lado, reporta-se a um poder definido, 13 em fins do século XVIII, em termos de um direito divino e de pressupostos jus naturalistas. Por outro, a uma concepção que foi reelaborada nos anos 1820 para confrontar uma ampliação das liberdades políticas. Daí uma concepção de império civil que fundamenta o poder político no Império do Brasil, que podemos caracterizar em três pontos. Um primeiro ponto é que ele se baseia num princípio de superioridade absoluta da lei. É possível reconhecê-lo tanto no projeto constitucional de 1823 quanto na Constituição de 1824. O fato de que este princípio opere em ambos não os torna iguais no tocante aos objetivos de cada um ou, como propõem, uma organização do exercício do poder; especialmente porque, a propósito da Constituição de 1824, o princípio da superioridade se realiza de um modo particular, no poder moderador. Lembremos que este poder está fundamentado no elemento de excepcionalidade – uma exceção definida como uma situação de ameaça que se pode abater sobre o Estado, levando-o à destruição, portanto, o grau máximo de perigo. Isto exigiria uma ação extraordinária e que não estaria prevista na lei constitucional ordinária (mesmo porque uma ameaça tão grande ao Estado é uma condição imprevisível). Tão grande ameaça só pode ser contida por um poder imenso, além dos limites estabelecidos pela lei ordinária, pela constituição e mesmo pelos direitos individuais. Sobre este ponto, há uma diferença fundamental entre o projeto de 1823 e o código de 1824. O primeiro projeto estabelece um predomínio do poder político do legislador (portanto, na Assembleia), que sanciona leis, e da própria Carta Constitucional, independentemente da autorização do poder executivo ou da determinação de que tipos de projetos de lei cabem ao Imperador, aos deputados ou aos senadores (Arts. 114 e 121 do projeto). Portanto, a Assembleia Geral vale-se da sua condição de exceção (da ausência de atribuições constitucionais aos poderes) para dispor sobre qualquer matéria, decretando leis sem a sanção do Imperador. A Constituição de 1824 privilegia de seu lado, o poder real; isto é, o Imperador possui instrumentos de interferência no legislativo, no judiciário e nas administrações provinciais, através do poder moderador– inclusive de sancionar os decretos da Assembleia Geral que tenham força de lei (Art. 101 da Constituição de 1824, § 3). Nestes projetos constitucionais, funciona uma estratégia política: na divisão dos poderes políticos, colocar um poder predominando sobre os demais. Mas, poderíamos perguntar poder excepcional sobre o quê? Seguimos então para o segundo ponto: a ideia de império civil como um poder dedicado à salus populi. Por um lado, ele visa o “bem da sociedade”, que foi identificado com o Império. Há muito tempo, o Estado tinha estabelecido as principais condições para este poder atuar sobre o populus e, portanto, agora, pela Constituição de 1824, o princípio de conservação do Estado está vinculado ao de preservá-lo através de um conjunto de prescrições do direito civil. Este mesmo enunciado (“salvação do Estado”) era facilmente encontrado, anos antes, a propósito da monarquia portuguesa. Mas, então, numa monarquia, o princípio de conservação poderia ser estabelecido, fazendo-o voltar para a própria pessoa do rei. Assim, toda a ação do Estado convergia para reforçar o poder político do monarca – é o que denominamos, em outro lugar, de 14 “princípio circular do poder”. Contudo, a questão, agora, é como conservar um Estado, cujo governo político é representativo, isto é, inclui a participação efetiva de vários indivíduos (os “cidadãos”) e poderes divididos (executivo, legislativo e judiciário), que se distinguem da pessoa do rei e do poder real. Definitivamente, a questão ainda é de conservação do Estado, como bem o declara a Constituição de 1824, mas mediante instituições civis – ressalvando que a “sociedade” não equivale à massa de súditos que residem dentro do Império do Brasil. Portanto, o problema é: como estabelecer as condições de exercício daquele poder de governo, através do Estado, e de sua conservação, quando o poder político foi dividido? Tanto no projeto de 1823 quanto na Constituição de 1824, procurou-se definir estas condições através de um equilíbrio jurídico dentro do Estado. Porém, este equilíbrio entre os poderes pendia para lados diferentes, de acordo com cada código proposto (o Imperador ou o Legislativo). Por outro lado, o poder de salus populi atua como governo e polícia da sociedade, atento a suas variações no tempo e às diferentes partes que o constituem. Se a metáfora do corpo social vigora neste início de século XIX, talvez seja porque ela determine com precisão o problema do governo como uma tentativa de dar conta da dimensão pública segundo o modelo moral. As ações e a razão universal são aproximadas neste modelo, e a lei, como um preceito de conduta, torna-se um instrumento comum a ambas, sendo que a razão é a via interna pela qual se dirige a conduta ou a ação política e que permite igualmente estabelecer a obediência. Mas este modelo permite apoiar ainda uma hierarquia entre os indivíduos que exercem o poder político do Estado e os que não podem dele participar, a qual se define no mérito e no esclarecimento, pelo serviço prestado ao Estado e pelo discernimento da razão política, tanto para produzi-la como legislador quanto para obedecer a ela como cidadão. Contudo, não há mais uma distância entre aquele que exerce algum poder político sobre os outros, e aquele que está isento de algum tipo de controle das condutas. Enfim, aquela metáfora do corpo não é mais tomada como simples analogia funcionalista (segundo a qual apenas um concebe as ordens e os demais executam), porque o corpo social depende agora de uma ética para ser também o lugar de exercício do poder político: a moderação das paixões aparece como uma nova função do governo político. 5 - A articulação político-institucional de um monarca constitucional para o império do Brasil (1826-1831) Assim terminaram de improviso as sessões da primeira Câmara dos Deputados, fraca e vacilante em 1826, inquieta em 1827, exigente em 1828, e finalmente aventurando- 15 se a opor uma barreira contra as agressões do poder em 1829. (ARMITAGE, 1981, p.194) O balanço feito por John Armitage sobre o caráter da Câmara dos Deputados, em sua História do Brasil, publicada em 1836, foi de tal forma convincente que ainda hoje, em pleno século XXI, encontram-se ecos de suas palavras em muitas das reflexões feitas sobre o papel desempenhado pela Câmara dos Deputados no decorrer do Primeiro Reinado, desde a abertura dos trabalhos legislativos no dia 06 de maio de 1826 até o encerramento da sessão anual legislativa de 1830. De tal forma que se tornou corrente, na historiografia dedicada a este período, vislumbrar, nas primeiras sessões da Assembleia Geral Legislativa, deputados fracos e vacilantes que temiam um desfecho igual ao da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa de 1823 (SOUSA, 1988, p.211; HOLANDA, 1997, p.399; CERVO, 1981, p.31-32. PEREIRA, 2010, p.171, 203). Contudo, notase que, se por um lado eram cautelosos (RIBEIRO; PEREIRA, 2009, p.154), na medida em que evitavam ferir os brios de dom Pedro I, por outro, souberam, com muita habilidade, conduzir os trabalhos legislativos de forma a elaborar uma crítica severa e ininterrupta aos rumos tomados e aos objetivos traçados pela política imperial brasileira até aquele momento (LOPES, 2003, p.208; DOLHNIKOFF, 2005; DANTAS, 2008, p.9-67) e propor estratégias para se construir, a partir do texto constitucional, um papel viável ao imperador de acordo com os anseios das diversas províncias brasileiras. Na Constituição Política do Império do Brasil, outorgada por dom Pedro I no dia 25 de março de 1824, ao imperador foram conferidas diversas atribuições em abstrato, quer em virtude dele ser o chefe supremo da nação e seu primeiro representante, quer enquanto chefe do poder executivo, de acordo, respectivamente, com o disposto nos artigos 98 e 102 do texto constitucional. Contudo, dada a não convocação da Assembleia Geral Legislativa e, deste modo, pendentes de serem regulamentadas diversas inovações político-institucionais previstas na carta de 1824 – tais como a (re)organização dos poderes judiciário, provinciais e municipais, a regulamentação da responsabilidade dos empregados públicos em geral, a proteção dos direitos e garantias individuais previstos no texto constitucional dentre inúmeros outros temas –, não estava claramente delimitado como monarca agiria à frente de cada uma das atribuições a ele conferidas, ou mesmo quais os limites e as responsabilidades de seus ministros e/ou conselheiros de Estado, por eventuais abusos, excessos e desvios na execução dos atos praticados à frente dos poderes que lhe foram delegados pela nação. No entanto, apesar de o imperador em diversas ocasiões se contrapor ao texto constitucional, por ele mesmo outorgado à nação, não havia mais a possibilidade de se governar como no período anterior: ser um monarca constitucional era-lhe uma obrigação, mais do que uma livre opção (BARATA, 2009, p.49-70; MOREL, 2005). Na leitura dos Anais do Parlamento Brasileiro: Câmara dos Srs. Deputados e dos Anais do Senado do Império do Brasil, perscrutam-se os meandros pelos quais o papel a ser exercido pelo Imperador foi tecido através do discurso legislativo, muito mais do que pré-determinado pelo texto constitucional. A criação de um poder moderador (aliado ao executivo), de forma a limitar a atuação do legislativo (forte nas experiências constitucionais de Cádis e de Lisboa – de acordo com HESPANHA, 16 2004, p.102, “o poder real [moderador] visava, antes de mais, a contenção do legislativo”), não impediu os deputados (representantes da Nação, eleitos e temporários) e os senadores (representantes da Nação, eleitos e vitalícios) de questionarem as medidas adotadas pelo imperador à frente dos poderes que lhe foram reservados. Cumpre lembrar que, na arquitetura constitucionaldo Império do Brasil, destacam-se dois grandes títulos: o quarto, dedicado ao poder legislativo, e o quinto, consagrado ao imperador – no qual foram instituídos os poderes moderador e executivo. Foi do diálogo estabelecido entre os representantes desses três poderes – legislativo moderador e executivo –, no espaço da Assembleia Geral Legislativa que, a partir do texto constitucional, mas nele não se esgotando, construiu-se a arquitetura político-institucional do Estado recémemancipado. Nas câmaras do corpo legislativo se canalizavam os anseios, as dúvidas, os questionamentos e as expectativas da Nação soberana em torno de qual seria o melhor governo e a melhor administração do Império em construção. Tratava-se, portanto, de um fórum de debate privilegiado, no qual afloravam as diversas concepções de monarquia constitucional em curso naquele momento. No debate legislativo, o papel a ser desempenhado pelo imperador, em um sistema de governo monárquico hereditário constitucional representativo, era questionado não apenas no início de cada sessão anual, por ocasião da elaboração da resposta à fala do trono, mas diuturnamente ao serem analisados quer os projetos de lei, quer as petições encaminhadas pelos cidadãos (analisados por PEREIRA, 2010), os ofícios e os relatórios encaminhados pelos ministros às câmaras da Assembleia Geral Legislativa, ou mesmo, o debate da lei de orçamento discutida a partir do relatório apresentado no início de cada sessão anual à Câmara dos Deputados pelo ministro da fazenda (de acordo com o disposto no artigo 172 da Constituição Política do Império do Brasil). A abertura dos trabalhos da Assembleia Geral do Império do Brasil, em maio de 1826, trouxe de volta à cena pública e política, ainda em construção, inúmeros deputados constituintes de 1823. A princípio contidos11 em suas falas relacionadas diretamente ao papel exercido pelo imperador, rapidamente os ânimos se acirraram, tanto frente a assuntos polêmicos, relacionados à política externa do nascente Império, tais como o Tratado de Paz e Amizade entre Brasil e Portugal (firmado em 29 de agosto de 1825, mas discutido no Parlamento entre 1826 e 1827), a Guerra Cisplatina e o tratado anti-tráfico de escravos (FERREIRA, 2006; PEREIRA, 2007, 2012; PARRON, 2011); quanto aos relacionados às demais atribuições reservadas ao imperador, à frente quer do poder moderador quer do poder executivo, por meio de seus ministros (OLIVEIRA, 2006, 2012, 2012; LYNCH, 2007). A partir das fontes consultadas, verifica-se que, apesar dos preceitos constitucionais, na prática político-institucional não estava claramente definido o que cabia a quem: atribuições eram (com)partilhadas e se disputavam os limites de ação e a(s) (ir)reponsabilidade(s) de cada um dos poderes estatais. De acordo com o contexto da época, outorgou-se uma carta constitucional, a qual, em abstrato, delimitava as atribuições de cada poder político – poderes legislativo, executivo, moderador e judicial –, estabelecendo-se igualmente um sistema de controle entre eles (check and balances), mas na prática político-institucional debatia-se a extensão e as (ir)responsabilidade(s) dos representantes de cada um dos poderes constitucionais. 17 Ao assim procederem no decorrer dos debates legislativos travados durante o reinado de dom Pedro I, e obtidas diversas conquistas legais, em 1831 vislumbrou-se na abdicação do imperador – no dia 07 de abril – a possibilidade de se manter o sistema de governo monárquico hereditário constitucional representativo instituído pela Constituição Política do Império do Brasil outorgada pelo monarca em 1824, a despeito da revolução em curso naquele ano. De um lado, ao mesmo tempo em que o primeiro imperador – português de nascimento – retornava para Portugal, deixava seu filho – nascido no Brasil – como elo de continuidade dinásticoinstitucional. De outro, possibilitava às câmaras da Assembleia Geral Legislativa concluir o trabalho interrompido por ocasião da dissolução da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa de 1823: o texto constitucional de 1824 tornar-se-ia, de certa forma – pela aprovação do Ato Adicional de 1834 e pela lei de interpretação de 1840 – representativa da Nação representada nas duas câmaras do corpo legislativo. Ao assim procederem, legitimou-se, perante os Brasis, o texto outorgado em 1824. E, frente aos diversos horizontes de expectativas de uma monarquia constitucional possível, articuladas no período em análise, um pacto político-institucional foi tecido de forma a possibilitar a manutenção desse sistema de governo até a instituição da República em 1889 (DOLHNIKOFF, 2005). Por um lado, pela Carta de 1824, almejava-se a construção de um Estado nacional sob um governo Monárquico Hereditário, Constitucional e Representativo (artigo 3 da Constituição Política do Império do Brasil), o que era uma novidade política para a época (NEVES, 2003). Desse modo, os representantes da Nação – o imperador e a Assembleia Geral Legislativa – se questionavam sobre o alcance das disposições contidas no texto constitucional. Qual a atribuição de um imperador, sob um sistema de governo monárquico hereditário constitucional representativo, quer enquanto delegado privativo do poder moderador quer enquanto chefe do poder executivo? Como as exercer e quais seus limites e responsabilidades? Proclamadas a irresponsabilidade e inviolabilidade do imperador, quem seria responsável pelos atos por ele praticados? E, quem e como seriam julgados e responsabilizados os responsáveis pelos desvios eventualmente cometidos? Quais condutas deveriam ser punidas? Quais as relações possíveis entre os representantes dos poderes executivos, moderador e legislativo, de forma a se manter o equilíbrio entre eles? Instituíra-se o sistema de governo monárquico, hereditário, constitucional e representativo, mas a grande questão era articular um regime de governo monárquico, hereditário, constitucional e representativo, possível e viável, frente às especificidades políticas, econômicas e sociais do Estado nacional em construção naquele momento. Por outro, no plano jurídico, era igualmente uma novidade o ensino do Direito Nacional (Pátrio) (LOPES, 2004, p.124-125; p.148). Nesse momento, ao passo em que se afirmava uma nova ideia de soberania, relacionada à Nação, articulava-se uma nova concepção de Direito tendo em vista os Estados nacionais em construção no século XIX. Desse modo, não apenas novas concepções de lei, legitimidade e legalidade estavam em construção no debate legislativo (FERNÁNDEZ SEBASTIÁN; FRANCISCO FUENTES, 2002), como também, no início do século XIX, o Direito Público, o qual abarca tanto o Direito Constitucional quanto o Administrativo, ainda 18 estava em fase de delimitação teórico-conceitual (ROSANVALLON, 1994; LOPES, 2004; SLEMIAN, 2006). Além disso, para perscrutar o debate politico no Império do Brasil em sua primeira década, deve-se considerar, além da transformação no saber jurídico supramencionado, o fato de os cursos jurídicos terem sido criados, nesse Estado nacional em construção, apenas em 1827 (as aulas tiveram início em 1828). Ou seja, há uma particularidade no debate travado, durante o Primeiro Reinado, nas duas câmaras da Assembleia Geral do Império do Brasil: a presença de uma geração formada, sobretudo em Coimbra, dentro dos valores iluministas e intimamente vinculada ao espaço atlântico (VARGUES, 1997; MAIA, 2002; ARAÚJO, 2003; NEVES, 2003). No entanto, deve-se sublinhar que a unidade político-territorial brasileira foi, antes, fruto da negociação entre as diversas elites brasileiras, representadas ou não nas Cortes gerais, extraordinárias e constituintes, da Nação Portuguesa (1821-22), na Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil (1823) e nas duas câmaras daAssembleia Geral do Império do Brasil – a Câmara dos Deputados e a Câmara dos Senadores ou Senado (instituídas pela Carta de 1824, em seu artigo 14, e em funcionamento desde 1826), do que resultado do esforço homogeneizador conduzido pelo Estado português, por meio da atuação de sua elite política formada em Coimbra, desde fins do século XVIII. Em um momento no qual não havia a concepção moderna de partidos políticos ou programas partidários bem definidos – pois, na prática político- parlamentar havia facções políticas com fluidas fronteiras entre elas, o que exclui a ideia de fidelidade partidária –, os atores se posicionavam frente a cada questão que lhes era colocada pelo debate legislativo, muitas vezes de forma contrária à da facção que os havia conduzido quer à Câmara dos Deputados, quer ao Senado (DOLHNIKOFF, 2012, p.13). De modo que, a maior liberdade nas intervenções em plenário, característica desse período, gerou um amplo leque de ideias para cada questão discutida, o que fornece, em certa medida, um amplo painel das ideias em circulação naquele momento histórico. Cumpre ressaltar que a permanência em vigor da Constituição Política do Império do Brasil, ao longo de quase todo o século XIX, fornece um indício tanto da habilidade técnico-jurídica de seus redatores (dentre os quais alguns historiadores incluem o próprio imperador) quanto da viabilidade político-institucional do sistema de governo monárquico hereditário constitucional representativo nela proposto. Ou seja, apesar de não ter apresentado uma solução definitiva para as questões da separação dos poderes e do equilíbrio entre eles, o texto constitucional outorgado em 1824 construiu uma base para o amplo diálogo que se lhe seguiu. Apesar da importância do tema da construção de um papel viável para o imperador, tendo em vista as aspirações dos diversos segmentos sociais das províncias representados na Assembleia Geral Legislativa, e do grande acervo documental disponível (parte do qual se encontra publicado e/ou digitalizado) a ser investigado pelo pesquisador interessado na compreensão da forma pela qual se articulou o papel político de um imperador, sob o sistema de governo monárquico-constitucional, para 19 o nascente Império do Brasil, há poucos trabalhos a ele dedicados. No decorrer da última década, foram desenvolvidas pesquisas relacionadas às origens e ao funcionamento do poder moderador, as quais ampliaram a reflexão sobre esses temas em nossa historiografia (BARBOSA, 2001; AMBROSINI, 2004; OLIVEIRA, 2006 e 2009; LYNCH, 2007). No entanto, não houve interesse direto da historiografia tanto em relação ao papel desempenhado pelo monarca enquanto chefe do poder executivo – competência por ele exercida juntamente com a de delegado privativo do poder moderador, quanto às relações estabelecidas entre ambos os poderes exercidos sob a chefia do imperador, com ou sem o referendo ministerial. No que se refere à utilização do discurso parlamentar como fonte de pesquisa, no decorrer da última década, foram desenvolvidos trabalhos que propuseram uma metodologia para a abordagem desse discurso político. Dentre os temas tratados por essa nova historiografia, a qual utiliza o discurso parlamentar como fonte, destacam-se questões da política externa (PEREIRA, 2007); da construção e exercício da cidadania (RIBEIRO, 2002; PEREIRA, 2010); da Constituição (SLEMIAN, 2006), e do contrabando e da escravidão (RODRIGUES, 2000; PARRON, 2009). Cumpre salientar que, após o desenvolvimento do contextualismo linguístico (SKINNER, 1969; POCOCK, 2003), da história conceitual do político (ROSANVALLON, 1994, 1995, 200320), da história dos conceitos (KOSELLECK, 1990, 1997) e da história atlântica (BAILYN, 1996, 2005; TOMICH, 2004; MORELLI, 2006; ELLIOTT, 2006; MARZAGALLI, 2008; LANGUE, 2011), um amplo instrumental teórico-metodológico foi disponibilizado aos historiadores de forma a elaborar novas abordagens de temas tradicionais na historiografia, questionando-os e redefinindo- os. Desse modo, frente às periodizações e às classificações consagradas, novas abordagens permitem tanto um questionamento, quanto uma problematização da historiografia tradicional referente ao tema. Parte da nova historiografia brasileira dedicada ao Primeiro Reinado, valendo-se tanto das perspectivas abertas pela nova história política quanto dos questionamentos trazidos pela história cultural, voltou-se à compreensão do vocabulário político da independência, a partir das reflexões metodológicas articuladas por Quentin Skinner, John Pocock e Reinhart Koselleck (NEVES, 2003, p.16). Ao se utilizarem não apenas da documentação de caráter oficial, mas também dos periódicos, folhetos e panfletos como fontes para a história, buscaram desvendar os múltiplos e cambiantes significados que os conceitos assumiam num período em rápida transformação político-social; e, dessa forma, questionaram as interpretações clássicas dadas aos acontecimentos considerados fundadores do Estado e da Nação brasileiros desde José da Silva Lisboa (LISBOA, 1827-1830). Dentro dessa vertente historiográfica, a historiadora Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves (2003), antes de desemaranhar a trama dos acontecimentos políticos ocorridos entre 1820 e 1822 – ao analisar folhetos e panfletos publicados nesses anos no Brasil e em Portugal –, elabora um minucioso estudo acerca do vocabulário político dos anos da independência, o qual constitui uma importante contribuição teórico-metodológico-conceitual a presente investigação. Em sua interpretação dos acontecimentos daqueles anos, a autora 20 mostra o quanto apenas a partir da ação e da prática política é que se compreende a dinâmica de uma sociedade em transformação. Outro aspecto importante de sua pesquisa é a preocupação em entender a política, a partir do que ocorria em ambos os lados do Atlântico, tendo em vista o mundo lusobrasileiro comum por ela abordado. No entanto, em sua obra, deve-se relativizar a interpretação por ela dada em relação às permanências do Antigo Regime na cultura política da independência (NEVES, 2003, p.414418), de forma a sublinhar em demasia a conjuntura política da Restauração (e da ideia política de um Império Luso-brasileiro) no curso dos acontecimentos. A articulação político-institucional de um imperador, sob o sistema de governo monárquico hereditário constitucional representativo, para o nascente Império do Brasil demonstra a ousadia daqueles homens que, apesar de formados no espírito do reformismo ilustrado ibérico, buscaram, a partir tanto das experiências constitucionais e parlamentares atlânticas, quanto do aprendizado da política no espaço da Assembleia Geral, construir o novo e, não simplesmente, reproduzir em terras americanas modelos políticos alhures concebidos. Conheciam a especificidade do Império a ser construído e se articularam de forma a conceber um regime de governo monárquico-constitucional possível, o qual foi tão habilmente tecido que durou até quase o final do século. Nesse sentido, a historiadora Cecília Helena de Salles Oliveira – ao analisar as origens, o funcionamento e os limites do poder moderador –, fornece elementos para a melhor compreensão da articulação políticoinstitucional em curso nos primeiros anos do nascente Império do Brasil e alerta sobre o perigo de se abordar o poder moderador “em separado dos demais poderes e mecanismos estatais” (OLIVEIRA, 2006, p.46). A produção teórica da autora quer sobre o processo de independência do Brasil (OLIVEIRA, 1999) quer sobre a consolidação do sistema de governo monárquico-constitucional no Segundo Reinado (OLIVEIRA, 2006, 2009, 2010), traz reflexões fundamentais tanto aqueles que se dedicam ao período por ela estudado – o Segundo Reinado – quanto aos que buscam compreender a articulação político- institucionalde um imperador viável, sob o sistema de governo monárquico hereditário constitucional, para o Império do Brasil, durante o Primeiro Reinado. A Aclamação de D. Pedro I, como “Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil” (12 de outubro de 1822); a outorga da Carta Constitucional pelo mesmo Monarca (25 de março de 1824); a abertura da Assembleia Geral Legislativa (em 06 de maio de 1826); a sanção imperial da lei da responsabilidade dos ministros e conselheiros de Estado (em 15 de outubro de 1827); a nomeação de um ministério composto por três deputados, dito parlamentar (em 20 de novembro de 1827); a demissão do denominado ministério Clementino e nomeação de um ministério conciliador articulado pelo marquês de Barbacena (em 04 de dezembro de 1829); e, a abdicação do imperador (em 07 de abril de 1831) constituem atos de um movimento mais amplo de consolidação do sistema de governo monárquico hereditário, constitucional e representativo implantado pela Carta de 1824: não se queria mais ser um mosaico (JANCSÓ; PIMENTA, 2000), mas como conciliar os diversos interesses em conflito de forma a reordenar as peças do jogo? 21 6 - Império do Brasil - Primeiro Período - D. Pedro I (09.01.1822 - 07.04.1831) 09.01.1822 - É tornado público o Termo de Vereação do Senado [da Câmara Municipal] da cidade do Rio de Janeiro, onde o príncipe regente D. Pedro de Alcântara declara ficar no Brasil. "Como é para o bem de todos, e felicidade geral da Nação, estou pronto: diga ao povo que fico. Agora só tenho a recomendar-vos união e tranquilidade". Com este gesto de desobediência às Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, a separação do Brasil de Portugal está informalmente realizada e tem início o império brasileiro. Seguindo um costume português, as câmaras municipais de algumas cidades mais importantes eram conhecidas como Senado ou Senado da Câmara. 12.01.1822 - No Rio de Janeiro, é sufocada a reação das tropas portuguesas acantonadas naquela localidade, as quais estavam de prontidão, constante e hostil, em frente ao Palácio Real, ao comando do governador das Armas da Corte e Província do Rio de Janeiro, tenentegeneral Jorge de Avilez Zuzarte de Sousa Tavares. Com suas tropas isoladas, o tenente-general Jorge de Avilez demite-se do governo das armas e, com receio de um ataque das tropas brasileiras, recua para a região da Praia Grande, em Niterói, onde se fortificou e de onde, com suas tropas, é expulso do Brasil. A divisão portuguesa embarca em fevereiro e chega em Lisboa em maio. 16.01.1822 - No Brasil, José Bonifácio de Andrada e Silva (SP) encabeça o primeiro gabinete ministerial formado por brasileiros. Assume a Secretaria de Estado dos Negócios do Império e Estrangeiros e a chefia política do movimento para a consolidação da regência de D. Pedro de Alcântara, opondo-se às medidas recolonizadoras das Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa. No dia 4 de julho desse mesmo ano, toma posse na Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda Martim Francisco Ribeiro de Andrada (RJ), irmão de José de Bonifácio. 13.05.1822 - É público o Termo de Vereação do Senado [da Câmara Municipal] da cidade do Rio de Janeiro, onde consta que o príncipe regente D. Pedro de Alcântara aceita o título de Defensor Perpétuo do Brasil. 16.02.1822 - No Brasil, o príncipe regente D. Pedro de Alcântara expede decreto que cria o Conselho de Procuradores-Gerais das Províncias do Brasil para representar este na Corte do Rio de Janeiro e assessorar o príncipe regente nas questões dos negócios públicos. É instalado no dia 2 de junho de 1822. A medida não agrada a opinião pública. Não se contentam os brasileiros com um simples corpo consultivo. Os próprios procuradores, e com eles as câmaras municipais, irão reclamar uma futura constituinte luso-brasileira. 06.03.1822 - Em Lisboa, nas Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, o deputado Nicolau Pereira de Campos Vergueiro (SP) faz um memorável discurso em defesa do Brasil quando, nesse dia, os ânimos da maioria estão exaltadíssimos contra o Reino Americano. 22 22.05.1822 - Em Lisboa, nas Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, o deputado Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (SP), irmão de José Bonifácio, estando com a palavra, ao ser interrompido pelas galerias quando fazia veemente defesa do Brasil, Império do Brasil - Primeiro Período - D. Pedro I (09.01.1822 - 07.04.1831) declara: "Eu não sei quem tenha pela lei a ousadia de perturbar-me. Os cidadãos das tribunas devem saber que reis, quando elegem os seus representantes, são, neste lugar, súditos: aqui lhes cumpre todo o sossego: escutar e calar". Prova, com isso, ser o verdadeiro líder parlamentar das bancadas de representantes brasileiros, defendendo com o risco da própria vida, com brilho e altivez, todos os interesses do Reino do Brasil. Interrompido, redobrava com ardor a sua fala. 23.05.1822 - É público o Termo de Vereação do Senado da [Câmara Municipal] da cidade do Rio de Janeiro, onde consta que a instituição, atendendo aos anseios da população daquela cidade, dirige-se à presença do príncipe regente D. Pedro de Alcântara em "que pretende e requer que o mesmo Senhor mande convocar nesta Corte uma Assembleia Geral das Províncias do Brasil". 02.06.1822 - No Rio de Janeiro, o príncipe regente D. Pedro de Alcântara instala o Conselho de Procuradores-Gerais das Províncias do Brasil. Em seguida é realizado o juramento aos "Santos Evangelhos", inclusive pelos ministros e secretários de Estado. 03.06.1822 - No Rio de Janeiro, o príncipe regente D. Pedro de Alcântara expede decreto para atender um requerimento datado do mesmo dia, dos "Procuradores- Gerais das Províncias do Brasil", ministros e secretários de Estado, que pediam a convocação, com a maior brevidade possível, de uma "Assembleia Geral de Representantes das Províncias do Brasil". O decreto manda "convocar uma Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa, composta de deputados das províncias do Brasil, os quais serão eleitos na forma das instruções que forem expedidas". 19.06.1822 - No Rio de Janeiro, o ministro e secretário de Estado dos Negócios do Império e Estrangeiros, José Bonifácio de Andrada e Silva (SP), expede a Decisão de Governo nº 57, que "estabelece as instruções sobre o processo eleitoral dos deputados à Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa do Brasil", considerada a primeira lei eleitoral elaborada no Brasil. 21.06.1822 - No Rio de Janeiro, o ministro e secretário de Estado dos Negócios do Império e Estrangeiros, José Bonifácio de Andrada e Silva (SP), expede a Decisão de Governo nº 59, que "remete a todos os governos das províncias, os decretos, proclamações e instruções para as eleições de deputados à Assembleia Geral, Constituinte e Legislativa do Reino do Brasil". Nesse mesmo dia, o periódico O Regulador Brasílico-Luso, em seu segundo número, traz duas matérias interessantes com os seguintes títulos "Os conhecimentos necessários aos deputados" e "O perfil do bom deputado". 23 07.09.1822 - Sítio do Ipiranga, província de São Paulo. O príncipe regente D. Pedro de Alcântara proclama a separação do Brasil do Reino de Portugal: "Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro fazer a liberdade do Brasil. Brasileiros, a nossa divisa de hoje em diante será 'Independência ou Morte! ' Estamos separados de Portugal!". 30.09.1822 - Lisboa. Sessão Solene das Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, para o ato de juramento dos deputados à Constituição Política da Monarquia Portuguesa, decretada, e assinada pela quase totalidade dos deputados constituintes em sessão de 23 de setembro de 1822. A ausência