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DA DOAÇÃO MATERIAL COMPLEMENTAR – ATIVIDADE EXTRACLASSE (ESPÉCIES DE DOAÇÃO, REVOGAÇÃO DA DOAÇÃO POR DESCUMPRIMENTO DE ENCARGO E RESTRIÇÕES LEGAIS QUANTO À POSSIBILIDADE DE DOAR) I. ESPÉCIES DE DOAÇÃO: a) PURA OU SIMPLES (ou típica) -> o doador não impõe nenhuma restrição ou encargo ao beneficiário, nem subordina a sua eficácia a qualquer condição. O ato constitui uma liberalidade plena. b) DOAÇÃO CONDICIONAL -> é estipulada uma condição (evento futuro e incerto) ao negócio (ex.: doação dos filhotes que venham a nascer – se nascer). Se acontecer. CONDIÇÃO SUSPENSIVA. Ex.: doação a entidade futura (art. 554, CC). c) DOAÇÃO A TERMO -> é estabelecido um termo (evento futuro e certo), que delimita um prazo, findo o qual o donatário passa a exercer o domínio sobre a coisa. d) DOAÇÃO MODAL, ONEROSA OU COM ENGARGO -> trata-se de doação gravada com um ônus (ex.: obrigo-me a doar-lhe uma fazenda, impondo-lhe o encargo de você pagar uma pensão de meio salário mínimo à minha tia). Se o encargo for muito pesado, pode descaracterizar a doação, transformando-a, por exemplo, numa compra e venda disfarçada. Encargo: Imposto a benefício do: a) doador; b) terceiro; c) interesse geral (art. 553, CC). Cumprimento: exigido judicialmente, em caso de mora, salvo se exigido em favor do donatário (mero conselho ou recomendação). Pode exigir o cumprimento: doador, terceiro, Ministério Público (encargo em favor do interesse geral + doador falecido – art. 533, parágrafo único). Revogação da doação: apenas o doador. ENCARGO ILÍCITO OU IMPOSSÍVEL: considera-se não escrito, salvo se constituir o motivo determinante da liberalidade, caso em que invalida o negócio jurídico. e) DOAÇÃO REMUNERATÓRIA -> feita em retribuição a serviços prestados, cujo pagamento não pode ser exigido pelo donatário. Ex.: doação a quem lhe salvou a vida ou lhe deu apoio em momento de dificuldade. Se a dívida era exigível, a retribuição chama-se pagamento, ou dação em pagamento, se ocorrer a substituição da coisa devida por outra. NÃO HÁ DEVER JURÍDICO EXIGÍVEL. DEVER MORAL. Concedida em virtude da prestação de um serviço que o donatário lhe prestou e, por alguma razão pessoal, não exigiu o pagamento correspondente ou a ele renunciou. f) DOAÇÃO MISTA -> procura-se beneficiar por meio de um contrato de caráter oneroso. Decorre da inserção da liberalidade em alguma modalidade diversa de contrato. Ex.: venda a preço vil ou irrisório (venda amistosa), que é venda na aparência, e doação na realidade. ➢ Embora sustentem alguns que o negócio deve ser separado em duas partes, aplicando-se a cada uma delas as regras que lhes são próprias, a melhor solução é verificar a preponderância do negócio, se oneroso ou gratuito, levando-se em conta o art. 112 do Código Civil. g) DOAÇÃO EM CONTEMPLAÇÃO DO MERECIMENTO DO DONATÁRIO (CONTEMPLATIVA OU MERITÓRIA) -> configura-se quando o doador menciona, expressamente, o motivo da liberalidade, dizendo, por exemplo, que o faz porque o donatário tem determinada virtude, ou porque é seu amigo, consagrado profissional ou renomado cientista. Ex.: Prêmio Nobel. ➢ Diferente da remuneratória, não tem como pressuposto a recompensa de um favor ou de um serviço recebido. ➢ A doação é pura e como tal se rege, não exigindo que o donatário faça por merecer a dádiva. h) DOAÇÃO FEITA AO NASCITURO (art. 542, CC) -> A doação feita ao nascituro valerá, sendo aceita pelo seu representante legal. Pode o nascituro ser contemplado com doações, tendo em vista que a o art. 2º põe a salvo os seus direitos desde a concepção. ➢ Sendo titular de direito eventual, sob condição suspensiva, caducará a liberalidade, se não nascer com vida. Art. 2º. A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro. i) DOAÇÃO EM FORMA DE SUBVENÇÃO PERIÓDICA -> trata-se de uma pensão, como favor pessoal ao donatário, cujo pagamento termina com a morte do doador, não se transferindo a obrigação aos seus herdeiros, salvo se o contrário houver, ele próprio, estipulado. Nesse caso, não poderá ultrapassar a vida do donatário (art. 545, CC). ➢ Periodicidade -> definida pelo doador: mensal, quinzenal, anual, ou qualquer outra. ➢ Os herdeiros só serão obrigados dentro das forças da herança, não podendo, porém, a obrigação “ultrapassar a vida do donatário”. j) DOAÇÃO EM CONTEMPLAÇÃO DE CASAMENTO FUTURO -> constitui liberalidade realiza em consideração às núpcias do donatário com certa e determinada pessoa. “Só ficará sem efeito se o casamento não se realizar” (art. 546, CC). ➢ Condição suspensiva: a realização do casamento. ➢ Dispensa-se a aceitação, que se presume da celebração. ➢ Pode-se inserir, nesta previsão, a doação à prole eventual. Necessidade: (1) do casamento; (2) da prole. Obs.: a doação propter numptias não se resolve pela separação, nem podem os bens doados para o casamento ser reivindicados pelo doador por ter o donatário enviuvado ou divorciado e passado a novas núpcias. k) DOAÇÃO ENTRE CÔNJUGES -> a doação “de um cônjuge a outro importa adiantamento do que lhes cabe por herança”. ➢ Os artigos 2.005 e 2.006 do Código Civil autorizam o doador a dispensar o donatário da colação no próprio título de liberalidade. Art. 2.005. São dispensadas da colação as doações que o doador determinar saiam da parte disponível, contanto que não a excedam, computado o seu valor ao tempo da doação. Parágrafo único. Presume-se imputada na parte disponível a liberalidade feita a descendente que, ao tempo do ato, não seria chamado à sucessão na qualidade de herdeiro necessário. Art. 2.006. A dispensa da colação pode ser outorgada pelo doador em testamento, ou no próprio título de liberalidade. l) DOAÇÃO EM COMUM A MAIS DE UMA PESSOA (CONJUNTIVA) -> quando a doação é feita em comum a várias pessoas, entende-se distribuída entre os beneficiários por igual, salvo declaração em contrário. DIREITO DE ACRESCER -> prevê que a parte do donatário que venha a falecer acresce à do que sobreviveu (regra utilizada no usufruto, art. 1411, CC). o Deve ser expressa. o Será presumida se os donatários forem marido e mulher (art. 551, parágrafo único). m) DOAÇÃO DE ASCENDENTES A DESCENDENTES (art. 544, CC) -> a doação de ascendentes pra descendentes “importa adiantamento do que lhes cabe por herança”. Estes estão obrigados a conferir, no inventário do doador, por meio de colação, os bens recebidos, pelo valor que lhes atribuir o ato de liberalidade ou a estimativa feita naquela época (art. 2004, p. 1, CC), para que sejam igualados os quinhões os herdeiros necessários, salvo se o ascendente dispensou dessa exigência, determinando que saiam da sua metade disponível, contanto que não a excedam, computado o seu valor ao tempo da doação (Código Civil, arts. 2002 e 2005). ➢ A obrigatoriedade da colação, na doação dos pais a determinado filho dispensa, salvo a ressalva feita, a anuência dos outros filhos, somente exigível na venda (art. 496) ou permuta de valores desiguais (art. 533, II). ➢ A doação do avô a um neto não importa o adiantamento da legítima, quando apenas concorrerem os filhos do doador, inclusive o pai do donatário. O neto somente estará obrigada a colação se suceder no lugar do pai, por estirpe ou representação. n) DOAÇÃO INOFICIOSA -> é a que excede o limite que o doador, “no momento da liberalidade, poderia dispor em testamento”. Declara-se nula a parte que excede tal limite (art. 549, Código Civil). ➢ Nulidade. Art. 168, CC. ➢ O pedido é feito para que, anulado o ato, os bens retornem ao patrimônio do doador. Se forem feitas várias doações, tomar-se-á, por base, a primeira, isto é, o patrimônio então existente, para o cálculo na inoficiosidade. Caso contrário, o doador continuaria doando a metade do que possui atualmente, e todas as doações seriamlegais, até extinguir todo o patrimônio. ➢ Não são consideradas as doações feitas ao tempo em que o doador não tinha herdeiros necessários; mas somam-se os valores das que se fizeram em todo o tempo em que o doador tinha herdeiros necessários. ➢ O companheiro não foi incluído expressamente no rol dos herdeiros necessários, malgrado o art. 226, parágrafo terceiro, da Constituição Federal, ao reconhecer a união estável como entidade familiar, o equipare ao cônjuge, procurando igualar as entidades familiares. o) DOAÇÃO COM CLÁUSULA DE RETORNO OU REVERSÃO -> o doador estipula que os bens doados voltem ao seu patrimônio, se sobreviver ao donatário (art. 547, CC). Se não o fizer, os bens doados passariam aos herdeiros do donatário. ➢ Condição resolutiva. ➢ Reversão exclusivamente em favor do próprio doador, não sendo possível convencioná-la em favor de terceiro. DOUTRINA: nada impede que se convencione a reversão do bem, ainda vivo o donatário, pois nada há de ilícito, ou de contrário ao nosso sistema, determinar que uma doação se resolva, após o decurso de certo tempo ou verificada certa condição. COMORIÊNCIA. Não ativará o efeito da reversão, pois o doador não sobreviveu ao donatário. p) DOAÇÃO MANUAL -> é a doação verbal de bens móveis de pequeno valor. Só é válida se lhe seguir a imediata tradição (art. 541, CC). Exceção à solenidade. ➢ A lei não fornece critério para se aferir o pequeno valor. Assim, leva-se em conta o patrimônio do doador, se ultrapassa ou não 1 salário mínimo, etc. A cargo da doutrina e jurisprudência. q) DOAÇÃO FEITA A ENTIDADE FUTURA (art. 554, CC) -> é possível doar a uma entidade futura, inexistente no momento da doação. PRAZO DECADENCIAL: 2 anos. Não há prorrogação ou interrupção. A existência das pessoas jurídicas de direito privado começa com a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro (art. 45, CC). ➢ Entidades podem ser tanto pessoas jurídicas de direito público ou de direito privado, como os entes não personificados, como o condomínio edilício, a massa falida, o espólio etc. II) DA REVOGAÇÃO DA DOAÇÃO POR INEXECUÇÃO DO ENCARGO REVOGAÇÃO POR DESCUMPRIMENTO DO ENCARGO PRAZO PARA CUMPRIMENTO: • Se fixado previamente, a mora se dá, automaticamente, pelo seu vencimento. • Não havendo termo, começa desde a interpelação judicial ou extrajudicial (art. 397 e parágrafo único, CC), devendo ser fixado prazo razoável para seu cumprimento. ➢ Só depois de esgotado o prazo fixado é que começa a fluir o lapso prescricional para a propositura da ação revocatória da doação. Encargo: Imposto a benefício do: a) doador; b) terceiro; c) interesse geral (art. 553, CC). Cumprimento: exigido judicialmente, em caso de mora, salvo se exigido em favor do donatário (mero conselho ou recomendação). Pode exigir o cumprimento: doador, terceiro, Ministério Público (encargo em favor do interesse geral + doador falecido – art. 533, parágrafo único). Revogação da doação: apenas o doador. ENCARGO ILÍCITO OU IMPOSSÍVEL: considera-se não escrito, salvo se constituir o motivo determinante da liberalidade, caso em que invalida o negócio jurídico. VÁRIOS DONATÁRIOS + ENCARGO INDIVISÍVEL = INADIMPLEMENTO TOTAL. A revogação é total, ainda que um donatário tenha cumprido. VÁRIOS DONATÁRIOS + ENCARGO DIVISÍVEL = INADIMPLEMENTO PARCIAL. Exclui-se a parcela de quem arcou com o encargo e de quem o doador perdoou o descumprimento. VÁRIOS DOADORES e ÚNICO DONATÁRIO. Pode haver doadores que queiram revogar e outros não. Os que quiserem revogar só poderão pretender suas respectivas quotas, e não a coisa. III. RESTRIÇÕES LEGAIS QUANTO À POSSIBILIDADE DE DOAR: a) DOAÇÃO PELO DEVEDOR JÁ INSOLVENTE ou por ela reduzido à insolvência (art. 158, CC) -> configura fraude contra credores, podendo a sua validade ser impugnada judicialmente, sem a necessidade provar conluio entre doador e donatário. ➢ Objetiva proteger os credores do doador. b) DOAÇÃO DA PARTE INOFICIOSA -> nula a doação quanto à parte que excede à de que o doador, no momento da liberalidade, poderia dispor em testamento. Art. 549. Nula é também a doação quanto à parte que exceder à de que o doador, no momento da liberalidade, poderia dispor em testamento. Art. 1.845. São herdeiros necessários os descendentes, os ascendentes e o cônjuge. Art. 1.846. Pertence aos herdeiros necessários, de pleno direito, a metade dos bens da herança, constituindo a legítima. c) DOAÇÃO DE TODOS OS BENS DO DOADOR (art. 548, CC) -> “É nula a doação de todos os bens sem reserva de parte, ou renda suficiente para a subsistência do doador”. ➢ Não haverá restrição se este tiver alguma fonte de renda ou reservar para si o usufruto dos referidos bens. ➢ Proibição da doação universal, sem que o doador conserve o necessário para assegurar a sua sobrevivência. ➢ Evita que o Estado tenha que amparar mais um necessitado. ➢ NULIDADE TOTAL. Recai sobre todos os bens. Art. 2.018. É válida a partilha feita por ascendente, por ato entre vivos [doação] ou de última vontade [testamento], contanto que não prejudique a legítima dos herdeiros necessários. Herdeiros necessários: descendente, ascendente, cônjuge e companheiro. d) DOAÇÃO DO CÔNJUGE ADÚLTERO A SEU CÚMPLICE (art. 550, CC) -> A doação do cônjuge adúltero ao seu cúmplice pode ser anulada pelo outro cônjuge, ou por seus herdeiros necessários, até dois anos depois de dissolvida a sociedade conjugal. ➢ A expressão cúmplice pode abranger também a pessoas que manteve um relacionamento sexual eventual com o doador. ➢ A jurisprudência não admite quando o casal já está separado de fato. ➢ ANULÁVEL. Sujeito Passivo: donatário. Sujeito Ativo: cônjuge inocente/herdeiros necessários. ➢ Se não quiser propô-la, para não tornar público o fato constrangedor, ninguém poderá fazê-lo. ➢ Nada obsta que a pessoa possa entrar com a ação na constância do casamento.