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PRODUÇÃO TEXTUAL 
AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Liliane Cristina Coelho 
 
 
2 
A RESENHA COMO GÊNERO DE LEITURA CRÍTICA E DIÁLOGO 
ACADÊMICO 
 
CONVERSA INICIAL 
A resenha constitui um dos gêneros textuais mais complexos e relevantes 
da escrita acadêmica, pois articula leitura, síntese e avaliação crítica. Diferente 
do resumo, que se limita à exposição objetiva de ideias, a resenha introduz o 
posicionamento do autor sobre a obra analisada. No contexto universitário, ela 
cumpre um papel central na formação do pensamento crítico, permitindo ao 
estudante relacionar conhecimentos, questionar argumentos e avaliar 
contribuições científicas. 
Segundo Motta-Roth e Hendges (2010), a resenha é uma forma de 
participação discursiva na comunidade científica, na medida em que expressa 
tanto a compreensão quanto a avaliação do leitor sobre um texto especializado. 
Assim, o ato de resenhar não é apenas um exercício de leitura, mas um ato de 
autoria, pois implica interpretar, argumentar e tomar posição. 
Nessa aula discutimos o que é uma resenha, por meio de sua estrutura e 
das características deste gênero textual, bem como os tipos e a elaboração de 
uma resenha, suas funções acadêmicas e pedagógicas, e as implicações éticas 
que envolvem a escrita desse gênero textual. 
 
TEMA 1 – FUNDAMENTOS TEÓRICOS E CONCEITUAIS DA RESENHA 
A resenha, como gênero textual, insere-se na tradição discursiva dos 
textos avaliativos e interpretativos, que combinam funções expositivas e 
argumentativas. Faulstich (1992) define a resenha como um texto analítico-
crítico que apresenta e comenta uma obra, destacando seus aspectos temáticos, 
estruturais e estilísticos. Para a autora, escrever uma resenha exige 
compreensão aprofundada do texto-base e capacidade de reconstruir o 
pensamento do autor para, em seguida, avaliá-lo com autonomia. 
Faraco (2009), em perspectiva interacionista, reforça que toda produção 
textual é uma resposta a um discurso anterior, e, portanto, resenhar é dialogar 
com o autor da obra e com o público leitor. Nessa perspectiva, a resenha 
representa uma forma de interação verbal que atualiza o princípio bakhtiniano 
 
 
3 
de dialogismo — cada texto é uma réplica em um contínuo debate discursivo. O 
resenhista se posiciona não apenas como leitor, mas como interlocutor crítico. 
Marcuschi (2008) amplia esse entendimento ao situar a resenha dentro 
do contínuo entre compreensão e produção. Para ele, o gênero é uma prática 
discursiva que “não reproduz, mas reconstrói o texto alheio” por meio de uma 
nova organização argumentativa. Koch e Elias (2010) acrescentam que essa 
reconstrução exige coesão, coerência e clareza expositiva, pois o texto da 
resenha deve conduzir o leitor da descrição da obra à análise crítica com lógica 
e fluidez. 
A resenha se caracteriza por uma estrutura relativamente estável, mas 
que admite variações de acordo com o contexto de uso (acadêmico, jornalístico, 
científico). A estrutura padrão compreende cinco partes essenciais: 
1. Referência bibliográfica completa: conforme as normas da ABNT, 
garantindo a identificação precisa da obra. 
2. Apresentação e contextualização: introdução à obra e ao autor, 
situando o leitor no campo temático. 
3. Descrição ou síntese do conteúdo: exposição objetiva das principais 
ideias, capítulos ou argumentos. 
4. Análise e avaliação crítica: julgamento fundamentado da obra, 
destacando contribuições, limitações e relevância. 
5. Conclusão e recomendação: opinião final e indicação do público a 
quem a obra se destina. 
 
As principais características discursivas da resenha incluem o equilíbrio 
entre objetividade descritiva e subjetividade argumentativa; o uso de linguagem 
formal e impessoal, mas com marcas de autoria; o emprego de recursos 
argumentativos, como exemplos, comparações e contraexemplos; e a coesão 
lógica, articulada por conectores de causa, contraste e conclusão. 
Koch e Elias (2010) observam que a coerência da resenha depende da 
progressão entre descrição e avaliação — ou seja, o leitor deve perceber 
claramente como as observações do resenhista derivam das informações da 
obra. 
 
TEMA 2 – TIPOS DE RESENHA E SUAS FINALIDADES 
 
 
4 
A literatura especializada reconhece três tipos principais de resenha 
(Motta-Roth & Hendges, 2010). O primeiro é a resenha descritiva, que tem 
como finalidades informar e catalogar e como característica apresentar 
informações sobre o conteúdo, estrutura e metodologia da obra, sem emitir juízo 
de valor, assemelhando-se a um resumo. 
A resenha crítica, o tipo mais comum e frequente nos meios acadêmicos 
e literários, tem como finalidades julgar e orientar a leitura e sua principal 
característica é analisar e avaliar a obra, apontando méritos e limitações com 
base em critérios teóricos. 
Já a resenha temática tem como finalidades relacionar e sintetizar 
debates, pois compara várias obras sobre um mesmo tema, destacando 
convergências e divergências. 
Essas modalidades cumprem diferentes funções no ambiente acadêmico: 
informar, orientar e construir memória científica. Marcuschi (2008) salienta que 
a resenha crítica é o tipo mais relevante para a formação universitária, pois 
obriga o aluno a mobilizar saberes teóricos, interpretar argumentos e justificar 
posições — em suma, a transformar leitura em conhecimento autoral. 
A resenha pode ser classificada, ainda, de acordo com seu meio de 
divulgação. Por se um texto que apresenta, analisa e avalia uma obra intelectual 
ou artística, pode ter como objeto livros, filmes, séries, artigos, peças teatrais ou 
exposições. Assim, a resenha cumpre funções distintas conforme o contexto de 
produção. 
De acordo com tal critério, temos então a resenha acadêmica, que é 
escrita por especialistas em um determinado tema e busca avaliar contribuições 
teóricas, metodológicas e científicas de uma obra. Exige domínio técnico e 
conhecimento da área. 
Outro tipo específico é a resenha cultural, que é destinada ao público 
geral (revistas, sites, redes sociais), tem caráter interpretativo e persuasivo, 
podendo expressar preferências pessoais. Por fim, temos a resenha editorial, 
que é encomendada por editoras ou veículos de divulgação, e cumpre função de 
recomendação ou marketing literário, geralmente breve e voltada à promoção da 
leitura. 
 
 
 
 
 
5 
TEMA 3 – A PRÁTICA DE RESENHAR COMO FORMAÇÃO CRÍTICA 
Elaborar uma resenha é uma atividade cognitiva e discursiva complexa, 
que integra leitura, escrita e reflexão. Esse processo é dividido em três etapas 
complementares: 
1. Leitura e anotação analítica: identificação da tese, dos argumentos e 
da metodologia do autor; 
2. Síntese descritiva: reconstrução objetiva do conteúdo; 
3. Avaliação crítica: elaboração de um julgamento fundamentado, 
articulado com a teoria e a experiência prévia do resenhista. 
 
Essa estrutura de trabalho enfatiza que o resenhista não deve se limitar 
ao gosto pessoal (“gostei” ou “não gostei”), mas sim fundamentar sua análise em 
critérios acadêmicos — como relevância, coerência argumentativa, originalidade 
e contribuição científica. 
De acordo com Faraco (2009), a prática de resenhar desenvolve o senso 
de responsabilidade discursiva, pois o autor assume a função de mediador entre 
o texto-fonte e o leitor. Já Faulstich (1992) destaca o valor pedagógico do gênero: 
ao escrever uma resenha, o estudante aprende a dialogar com o conhecimento, 
sintetizando informações e posicionando-se diante delas. 
Enfatizamos também a importância da linguagem avaliativa e expressiva, 
com uso de adjetivos e construções que revelam o posicionamento do autor — 
uma diferença marcante em relação ao resumo. A resenha deve provocar 
vontade de ler ao mobiliza um vocabulário que desperta o interesse e convida o 
leitor ao diálogo. 
 
TEMA 4 - ÉTICA, AUTORIA E RIGOR METODOLÓGICO 
Assim como o resumo, a resenha exigerigor ético na apropriação de 
ideias alheias. É importante, então, alertar que o plágio pode ocorrer não apenas 
na cópia literal, mas também na paráfrase sem citação adequada. O resenhista, 
portanto, deve citar corretamente os trechos e dados utilizados, distinguindo 
suas observações das do autor original. 
Além disso, recomenda-se atenção à normatização técnica — 
especialmente nas referências bibliográficas e nas citações —, e à linguagem 
formal, que assegura clareza e credibilidade. A resenha, como gênero 
 
 
6 
acadêmico, precisa equilibrar impessoalidade e autoria, de modo que a voz 
crítica se manifeste sem romper o tom científico. 
Para Motta-Roth e Hendges (2010), a resenha é um instrumento 
privilegiado de circulação e validação do conhecimento científico, pois permite 
que novas ideias sejam avaliadas pela comunidade acadêmica. Sua produção 
requer leitura ativa, comparação teórica e síntese interpretativa, habilidades 
fundamentais à formação do pesquisador. 
Koch e Elias (2010) reforçam que o exercício da resenha estimula a 
metacognição, uma vez que o aluno reflete sobre o próprio processo de 
compreensão e sobre os critérios que usa para julgar a obra. Marcuschi (2008), 
por sua vez, considera o gênero um elo entre a leitura crítica e a escrita científica, 
pois transforma a compreensão em autoria. 
Assim, mais do que um gênero de registro, a resenha é uma prática 
discursiva de produção de saber. Ela ensina a ler com método, a escrever com 
propósito e a pensar com rigor — valores essenciais à cultura universitária. 
 
NA PRÁTICA 
Para que possamos contextualizar o gênero textual resenha, vamos 
retomar a obra Dom Casmurro, de Machado de Assis, como exemplo 
comparativo entre resumo e resenha. Enquanto o resumo apresenta linearmente 
a história de Bentinho e Capitu, a resenha acrescenta interpretação e 
julgamento: 
 
“Em Dom Casmurro (1899), obra-prima de Machado de Assis, somos 
apresentados a um dos narradores mais complexos e intrigantes da literatura 
brasileira. Através de Bentinho, Machado constrói uma narrativa psicológica, 
onde a dúvida e a ambiguidade reinam supremas. O verdadeiro brilhantismo do 
romance reside na construção de um narrador não confiável que manipula suas 
memórias para justificar suas ações. Por sua análise psicológica profunda e 
técnica narrativa inovadora, Dom Casmurro permanece atual e essencial, 
representando o ápice do realismo brasileiro.” 
 
A diferença é nítida: no resumo, há apenas descrição; na resenha, há 
interpretação estética e psicológica, articulada à argumentação crítica. A análise 
vai além da história, explorando conceitos como memória, autoengano e 
 
 
7 
ambiguidade narrativa, elementos que dialogam, por exemplo, com teorias da 
memória coletiva (Jacques Le Goff, Paul Ricoeur). 
 
FINALIZANDO 
 A resenha é um gênero textual que sintetiza o espírito da vida acadêmica: 
ler criticamente, escrever com fundamento e dialogar com o conhecimento. Em 
sua dimensão teórica, revela-se um texto de natureza híbrida — expositiva e 
argumentativa — que expressa tanto o conteúdo de uma obra quanto a voz 
avaliativa de quem a interpreta. 
 Na universidade, a resenha assume papel duplo: formativo e 
comunicativo. Formativo, porque ensina o estudante a pensar criticamente e a 
argumentar; comunicativo, porque permite participar do debate científico e 
cultural. 
 A partir das contribuições de Faulstich, Faraco, Koch & Elias, Marcuschi 
e Motta-Roth & Hendges, observa-se que a resenha cumpre três funções 
principais: pedagógica, ao formar leitores críticos; epistemológica, ao mediar a 
construção do saber; e comunicativa, ao participar do diálogo científico. Produzir 
resenhas é, portanto, mais do que cumprir uma tarefa acadêmica: é exercer a 
cidadania intelectual, participando ativamente da circulação de ideias e da 
consolidação do conhecimento científico. 
 A resenha, enquanto gênero discursivo, é uma forma de mediação entre 
texto, leitor e sociedade. Ela conjuga a objetividade da síntese com a 
subjetividade da interpretação, configurando-se como prática de autoria e de 
crítica formativa. Resenhar é, sobretudo, um exercício de escuta e 
responsabilidade intelectual — um modo de participar do diálogo cultural e 
científico de forma ética, argumentativa e criativa. 
 
REFERÊNCIAS 
FAULSTICH, Enilde L. de J. Como ler, entender e redigir um texto. 4. ed. 
Petrópolis: Vozes, 1992. 
FARACO, Carlos Alberto. Prática de texto para estudantes universitários. 
São Paulo: Parábola Editorial, 2009. 
KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e escrever: estratégias de 
produção textual. São Paulo: Contexto, 2010. 
 
 
8 
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e 
compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008. 
MOTTA-ROTH, Désirée; HENDGES, Graciela Rabuske. Produção textual na 
universidade: estratégias de ensino. São Paulo: Parábola Editorial, 2010. 
 
	A RESENHA COMO GÊNERO DE LEITURA CRÍTICA E DIÁLOGO ACADÊMICO