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Livro 1 Pesquisa clínica e boas práticas em genética e genômica /bporgbr bp.org.br 2 Projeto Mapa Genoma Brasil BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo Gerente Executivo PROADI SUS: Juliana Opípari Coordenadora Projeto Mapa Genoma Brasil Mariana Beraldo da Costa Saad Coordenador Projeto Qualificação e Treinamento José Pereira de Souza Assessoria Técnica Erika Maria Monteiro Santos Autores Natalia Campacci Silvana Soares dos Santos Equipe Qualificação e Treinamento Amanda Aparecida Franca De Nobrega Fernando Alves Alencar de Moura Lucas Campacci Esta obra é disponibilizada nos termos da Licença Creative Commons – Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte. GRATUIT A D IS TR IBUIÇÃO Triênio 2024-2026 3 Apresentação Olá, prezado(a) colega. No Livro 1, abordaremos temas que permitem entender os trajetos percorridos pelos processos de pesquisa, com ênfase no histórico das questões éticas e legais envolvidas. Ao longo desse percurso, os caminhos adotados, nem sempre, foram os mais adequados, o que colocou os participantes em risco e evidenciou a necessidade de proteção dos sujeitos de pesquisa. Por isso, realizar uma pesquisa de forma ética exige a compreensão dos contextos históricos, políticos e sociais, para fundamentar um raciocínio crítico consistente. Após diversos episódios problemáticos, a comunidade científica estabeleceu critérios legais claros, que orientam a condução de pesquisas de maneira estruturada, com base em normativas que auxiliam no planejamento e no desenvolvimento das etapas de um protocolo de estudo. Ao final deste livro, temos a expectativa de que você inicie o processo de pensar de modo crítico e reflexivo sobre a construção de um projeto de pesquisa, considerando todas as questões éticas, legais e metodológicas. Bons estudos! Equipe Mapa Genoma Brasil Índice 4 Dicas • O índice é interativo, permitindo que você seja direcionado para o tópico desejado com um clique. • Além disso, ao clicar no logo do Mapa Genoma Brasil no topo da página, você retornará ao índice. 1. Pesquisas envolvendo Seres Humanos 05 2. Boas Práticas em Pesquisa Clínica 11 3.Normativas Éticas: Código de Nuremberg, Declaração de Helsinque 14 4. Normativas Éticas Nacionais: Resolução nº196/96, nº 466/2012, nº 510/2016, PL 6007/2023 18 5. Epidemiologia: Tipos de Estudos e Níveis de Evidência 32 6. Estudo Clínico e suas Fases 58 7. Análise Crítica, Vieses, Equipe de Pesquisa 64 8. ESG e prática clínica 68 Referências 71 5 1. Pesquisas envolvendo Seres Humanos A pesquisa constitui uma forma de investigação que consiste em um conjunto de atividades cuja finalidade é descobrir novos conhecimentos em diversos domínios, sejam científicos, artísticos ou sejam literários. (Clark; Castro, 2003). O pensar na realização de pesquisas científicas encontra-se, intrinsecamente, atrelado à área da saúde, uma vez que a constante evolução tecnológica vem trazendo novas formas de pensar para realizar a assistência e os tratamentos promissores. As pesquisas na área da saúde são, em grande maioria, aquelas que envolvem os seres humanos, uma vez que exploram novos saberes para aplicar em grupo de pessoas ou, até mesmo, em grandes populações. Por exemplo, a descoberta do uso do tabaco como fator causal para doenças pulmonares e cardiológicas. O primeiro estudo com seres humanos que estabeleceu uma ligação clara entre o uso do tabaco e as doenças pulmonares e cardíacas foi conduzido por Richard Doll e Austin Bradford Hill, dois médicos britânicos que, no ano de 1950, publicaram um estudo comparando pacientes com câncer de pulmão a pessoas sem a doença. Esse estudo inicial revelou uma forte correlação entre o tabagismo e o câncer de pulmão (Doll; Hill, 1950). Esse racional científico começou a trazer novas indagações, fazendo com que os dois pesquisadores continuassem a aprofundar suas descobertas, realizando estudos maiores que, além do câncer de pulmão, relacionaram o uso do tabaco às doenças cardíacas (Doll & Hill, 1956). Eles trouxeram uma mudança racional de prevenção para essas doenças, causando impacto na saúde pública desde aquela época até a atualidade (Flor et al 2021), auxiliando o estabelecimento da relação entre as pesquisas e as ações diretas na prática clínica. O caso, citado anteriormente, ilustra como a estrutura para pensar em um projeto de pesquisa se baseia em pensamentos tradicionais, que incluem a indagação do indivíduo, a observação e as experimentações para que, ao final, se alcancem respostas objetivas. Esse racional possui as raízes nos pensadores do século XVI, como Galileu Galilei, Francis Bacon e René Descartes, uma vez que todos introduzem pontos utilizados até hoje para realizar pesquisas. As bases de Galileu Galilei trazem a importância da experimentação como procedimento para novas descobertas, enquanto Francis Bacon ressalta que a descoberta verdadeira depende da observação e da experimentação, guiada-+s pelo raciocínio indutivo, tornando possível chegar à verdade. Já René Descartes traz a ideia da fuga do subjetivo e integra a dúvida como meio de raciocínio, uma vez que ela deveria ser sanada para que os resultados fossem exatos (Clark; Castro, 2003). 6 A busca por respostas e por resultados exatos encontra-se, desde longa data, presente na humanidade, tanto em discussões filosóficas sobre o existir humano, como em questões da física que embasaram os princípios sobre a teoria da gravidade de Isaac Newton, advinda da observação de uma maçã caindo da árvore (Newton, 1833). O envolvimento de seres humanos nesses processos de observação também não se mostra novo, uma vez que os primeiros relatos podem ser rastreados até a antiguidade, mas os exemplos mais documentados e significativos surgiram a partir do Renascimento e da Idade Moderna, quando as metodologias científicas começaram a consolidar-se. No Egito antigo, existem algumas evidências de que médicos egípcios realizavam experimentos rudimentares em humanos para entender melhor o funcionamento do corpo e para desenvolver tratamentos médicos. Os papiros de Ebers e de Edwin Smith contêm descrições detalhadas de procedimentos médicos e cirúrgicos (Badaró, 2018). Além disso, na Grécia antiga, Hipócrates (460-370 a.C.) realizou observações sistemáticas em seus pacientes e escreveu, extensivamente, sobre suas descobertas. Ele enfatizou a importância da observação clínica e da ética médica (Bezerra; Vianna; Bacelar, 2012; Brener; Lichtenstein, 2022). Apesar de a ética encontrar-se presente em relatos da antiguidade histórica, percebe-se que seus princípios não foram considerados em muitas situações. Um marco importante que abriu debates fundamentais para a ética, sobretudo na pesquisa, foi decorrente de atrocidades que aconteceram na Segunda Guerra, momento em que os prisioneiros sofreram situações de crueldade. Muitos foram os experimentos médicos nazistas que, até hoje, se discutem e merecem ser lembrados para que não se repitam. Esse comportamento ético equilibrado e racional forma-se para conduzir ações em coletivo, englobando as questões sociais de moral, de direito e de justiça. Isso também reverbera na atualidade, no contexto de realizar pesquisas com seres humanos. A palavra ética, de origem grega, tem duas traduções: tanto o costume quanto o caráter ou a moral. O autor Angelo Vitório Cenci traz, em seu livro “O que é ética? Elementos em torno de uma ética geral”, que a ética constitui o equilíbrio das ações e a busca por ações humanas boas para todos (Cenci, 2002), corroborando o pensamento aristotélico de moral em situações coletivas. O agir de forma ética corresponde, portanto, ao agir coletivo,A bioestatística mostra-se fundamental para a pesquisa clínica e epidemiológica, pois permite a análise de dados complexos e a extração de conclusões significativas sobre a ocorrência, as causas e os tratamentos de doenças. Seu uso serve para garantir que se conduzam os estudos de maneira rigorosa, com resultados válidos e aplicáveis. História Natural da Doença: O curso que uma doença segue desde a exposição inicial a um agente causador, passando pelo desenvolvimento dos sintomas, até a resolução, seja por cura, por controle ou por óbito, na ausência de qualquer intervenção médica. Esse conceito mostra-se fundamental para a epidemiologia e a saúde pública, pois permite compreender o desenvolvimento e a progressão das doenças, facilitando a implementação de medidas de prevenção e de tratamento. A história natural da doença pode ser dividida em várias fases: • Período de Pré-Patogênese: Fase que precede o início da doença. Nessa fase, há interação entre o agente causador da doença, o hospedeiro (ser humano) e o ambiente. Nela, ocorre exposição a fatores de risco ou a agentes infecciosos, mas ainda não há a doença propriamente dita. Fatores de risco, como genética, estilo de vida e condições ambientais desempenham papel crucial. Exemplo: A exposição a fatores de risco, como tabagismo e poluição, antes do desenvolvimento do câncer de pulmão. • Período de Patogênese Inicial: Fase em que a doença se começa a desenvolver, mas ainda não há sintomas visíveis. Nela, ocorre a penetração do agente causador ou o início das mudanças patológicas no organismo. Nesta fase, exames de rastreamento podem detectar alterações subclínicas. Exemplo: Crescimento de células anormais nos pulmões antes que o câncer de pulmão seja diagnosticável por sintomas. 36 Figura 4 - História natural da doença Fonte: Elaboração própria. Indivíduo sadio Alterações subclínicas Doença clínica Doença clínica Cura Morte Alterações subclínicas Indivíduo sadio • Período de Patogênese Clínica: A doença manifesta-se com sinais e sintomas clínicos evidentes. O indivíduo começa a sentir os sintomas e, geralmente, busca atendimento médico. A intervenção médica é mais comum nesta fase, seja para tratamento, seja para controle dos sintomas. Exemplo: Tosse persistente, dor no peito e falta de ar em um paciente com câncer de pulmão. • Resultado ou Desfecho: Fase final da doença, que pode resultar em cura, cronificação ou morte. A doença pode ser tratada e curada, se for detectada e tratada a tempo. Pode evoluir para uma condição crônica, onde o controle dos sintomas é o foco. Em casos mais graves ou sem tratamento, pode levar ao óbito. Exemplo: Remissão completa do câncer após tratamento, controle da doença com medicação ou falecimento devido à progressão do câncer. 37 Figura 5 - População x Amostra População Amostra Fonte: Elaboração própria. Importância do Conhecimento da História Natural da Doença: A compreensão da história natural da doença mostra-se essencial para elaborar estratégias de prevenção e de controle, o que pode melhorar os resultados de saúde e reduzir a carga das doenças na população. • Prevenção Primária: Identificação e controle de fatores de risco na fase de pré- patogênese, antes que a doença se desenvolva. • Diagnóstico Precoce e Tratamento: Intervenções na fase de patogênese inicial podem impedir a progressão da doença (prevenção secundária). • Planejamento de Saúde Pública: Permite a elaboração de estratégias para a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento efetivo. População: é o conjunto total de indivíduos, de eventos ou de elementos, que têm, em comum, certas características definidas e são o foco de um estudo científico. Em estudos de saúde, a população pode ser composta por pacientes, profissionais de saúde, ou residentes de uma determinada área geográfica. Definir, claramente, a população faz-se essencial para determinar o escopo do estudo e para garantir que os resultados sejam aplicáveis e relevantes para o grupo em questão. Amostra: É um subconjunto de indivíduos, selecionados de uma população maior, para participar de um estudo. É escolhida de forma que possa representar a população em termos de características importantes, como idade, gênero, status de saúde etc. A amostra permite a condução de estudos de maneira mais viável, econômica e rápida do que incluir toda a população. Além disso, se a amostra for representativa, os resultados do estudo podem ser generalizados para a população total. 38 Há que definir o critério para a seleção da amostra, por exemplo: para sua pergunta de interesse, é importante que haja proporcionalidade entre mulheres e homens, ou entre casados e solteiros, ou ainda entre mulheres casadas/solteiras e homens casados/solteiros. Neste quesito, a estatística pode ajudar no cálculo amostral, no início da pesquisa, o que, em muitos casos, é altamente, recomendado para que se tenha uma amostra suficiente aos testes estatísticos. Variável: É qualquer característica, número ou quantidade que pode ser medida ou categorizada. As variáveis podem assumir diferentes valores e são elementos fundamentais na coleta e na análise de dados. As variáveis permitem a quantificação e a análise de fenômenos de interesse. Em epidemiologia, por exemplo, as variáveis podem incluir fatores de risco (variáveis independentes) e desfechos de saúde (variáveis dependentes). Variáveis Dependentes: São aquelas que representam o resultado ou o efeito que se quer estudar. Exemplo: A quantidade de horas de estudo (variável independente) afeta a nota de um aluno em um exame (variável dependente). Variáveis Independentes: São aquelas que influenciam ou determinam o resultado da variável dependente. Exemplo: A pressão arterial (variável dependente) é afetada pela quantidade de sal consumida (variável independente). Variáveis Quantitativas: • Contínuas: Podem assumir qualquer valor dentro de um intervalo. Exemplo: Altura de uma pessoa (1,75 m, 1,81 m), temperatura (22,5°C, 36,8°C). • Discretas: Assumem valores inteiros, geralmente contagens. Exemplo: Número de filhos (0, 1, 2), número de carros em uma garagem (1, 2, 3). Variáveis Qualitativas: • Nominais: Não possuem uma ordem específica. Exemplo: Cores favoritas (vermelho, azul, verde), estado civil (solteiro, casado, divorciado). • Ordinais: Possuem uma ordem, mas a diferença entre os valores não é numérica. Exemplo: Nível de satisfação (insatisfeito, neutro, satisfeito), grau de escolaridade (fundamental, médio, superior). Variáveis de Controle: Variáveis que se devem manter constantes para que os resultados de um experimento não se influenciem por outros fatores. Exemplo: Em um experimento para testar o efeito de um medicamento, o tempo de administração e a dosagem devem ser constantes. Variáveis Intervalares: Variáveis que têm intervalos iguais entre valores, mas não possuem um ponto zero verdadeiro. Exemplo: Temperatura em graus Celsius, onde 0°C não significa ausência de temperatura. Variáveis de Razão: Variáveis que possuem todas as propriedades das variáveis intervalares, mas com um ponto zero verdadeiro. Exemplo: Peso (0 kg significa ausência de peso), idade (0 anos significa ausência de idade). 39 Banco de Dados: Coleção organizada de informações estruturadas, geralmente armazenadas em um sistema de computador, que facilita o acesso, o gerenciamento e a atualização dos dados. Em pesquisa clínica e epidemiológica, os bancos de dados permitem o armazenamento seguro de grandes quantidades de informações de modo estruturado, facilitando a análise estatística, a visualização de dados e a tomada de decisões baseada em evidências. Incidência: Refere-se ao número de casos novos de uma doença, ou de uma condição de saúde, que ocorrem em uma população específica durante período definido.A taxa de incidência ajuda a entender o risco de desenvolver uma doença em uma população e é fundamental para identificar surtos e para planejar intervenções de saúde pública. Prevalência: É o número total de casos (novos e preexistentes) de uma doença ou condição em uma população em determinado momento. A prevalência fornece informações sobre o quão disseminada se encontra uma doença em uma população e é útil para alocar recursos de saúde e para planejar serviços de saúde. Figura 6 - Modelo ilustrativo da prevalência Fonte: Elaboração própria. Curas Óbitos Casos novos = incidência Prevalência Risco Relativo (RR): A razão entre a incidência de uma doença no grupo exposto a um fator de risco e a incidência no grupo não exposto. O risco relativo constitui medida importante em estudos epidemiológicos para determinar se existe a associação entre um fator de risco específico e o desenvolvimento de uma doença. RR= Incidência no Grupo Exposto Incidência no Grupo Não Exposto • Se o RR = 1, significa que não há diferença no risco entre os grupos; • Se o RR > 1, o grupo exposto tem um risco maior de desenvolver o desfecho; • Se o RR 1, a exposição está associada a um aumento na odds do desfecho; • Se o ORde detecção, faz-se fundamental garantir que os desfechos se meçam de maneira consistente entre todos os participantes. • Registro de Estudos Clínicos: Antes de serem conduzidos, os estudos clínicos devem-se registrar em bancos de dados públicos, o que ajuda a reduzir o viés de publicação. go.nature.com/4ifqQQg Recomendamos a leitura do texto apresentado neste link: https://bit.ly/4gZCaz0 http://go.nature.com/4ifqQQg 43 Confundimento (Confounding): Ocorre quando se distorce a associação entre uma exposição e um desfecho por um terceiro fator, associado tanto com a exposição quanto com o desfecho. Identificar e controlar fatores de confusão faz-se essencial para interpretar, corretamente, os resultados de um estudo epidemiológico. Validade Interna e Externa: Ambos são fundamentais para avaliar a qualidade e a aplicabilidade de um estudo. Validade Interna: Refere-se ao grau em que os resultados de um estudo refletem a verdadeira associação entre a exposição e o desfecho na população estudada. • Em um ensaio clínico que testa um novo medicamento, se o estudo é bem desenhado, com aleatorização, grupos de controle e cegamento, e se todos os fatores que podem interferir no desfecho são controlados, podemos ter confiança de que qualquer diferença observada entre os grupos (tratamento versus placebo) se deve à intervenção, e não a outros fatores. Nesse caso, a validade interna do estudo é alta. Validade Externa: Refere-se à capacidade de generalizar os resultados do estudo para outras populações ou contextos. • Se um estudo sobre um medicamento se realizou apenas com homens jovens saudáveis, pode ser difícil generalizar os resultados para mulheres, idosos ou pessoas com condições de saúde preexistentes. Assim, a validade externa desse estudo seria limitada. Para aumentar a validade externa, o estudo precisaria incluir uma amostra mais diversificada ou replicar-se em diferentes populações. Sensibilidade e Especificidade: Essenciais para avaliar a precisão de testes diagnósticos e de estratégias de triagem em saúde pública. Sensibilidade: A capacidade de um teste ou uma medida identificar, corretamente, aqueles que têm a doença (verdadeiros positivos). • Verdadeiros Positivos (VP): Pessoas que têm a doença e cujo teste é positivo; • Falsos negativos (FN): Pessoas que têm a doença, mas cujo teste é negativo. Exemplo: Se um teste para uma doença tem uma sensibilidade de 90%, isso significa que 90% das pessoas que, realmente, têm a doença serão identificadas pelo teste. Os 10% restantes (falsos negativos) têm a doença, mas o teste não a identificou. Sensibilidade= Verdadeiros Positivos Verdadeiros Positivos + Falsos Negativos 44 Especificidade: A capacidade de um teste ou medida identificar, corretamente, aqueles que não têm a doença (verdadeiros negativos). • Verdadeiros Negativos (VN): Pessoas que não têm a doença e cujo teste é negativo; • Falsos positivos (FP): Pessoas que não têm a doença, mas cujo teste é positivo. Exemplo: Se um teste para uma doença tem uma especificidade de 95%, isso significa que 95% das pessoas que não têm a doença serão corretamente identificadas como negativas. Os 5% restantes (falsos positivos) são pessoas que não têm a doença, mas o teste indicou que elas têm. Surto, Endemia, Epidemia e Pandemia: Esses conceitos ajudam a descrever a extensão e o impacto das doenças na saúde pública. Surto: Ocorre um aumento do número de casos de uma doença ou condição em uma região específica, em um dado momento (um bairro, por exemplo). Endemia: Uma doença ou condição presente de forma contínua em uma determinada população ou região. Epidemia: Um aumento súbito e significativo no número de casos de uma doença acima do esperado em uma população ou área específica. Pandemia: Uma epidemia que se espalha por uma área geográfica ampla, geralmente afetando múltiplos países ou continentes. Especificidade= Verdadeiros Negativos Verdadeiros Negativos + Falsos Positivos 45 Tabela 4 - Diferenças entre surto, endemia, epidemia e pandemia Fonte: Elaboração própria. Sarampo Creche Arco-Íris Malária Amazônia Legal Dengue Brasil em 2022 COVID 19 Mundo 2020-2022 SURTO ENDEMIA EPIDEMIA PANDEMIA Razão de Taxas de Mortalidade (Mortality Rate Ratio): Comparação das taxas de mortalidade entre diferentes populações ou grupos expostos e não expostos. Ajuda a entender o impacto de fatores de risco ou de intervenções na mortalidade de uma população. Transmissibilidade e Número Básico de Reprodução (R0): O número básico de reprodução (R0) é o número médio de novos casos que surgem de um único caso em uma população totalmente suscetível. R0 é uma métrica crítica para entender a potencial disseminação de doenças infecciosas e para planejar estratégias de controle e de prevenção. Tipos de Estudos Epidemiológicos Estudos Observacionais: Os estudos observacionais constituem um tipo de estudo em que o pesquisador observa e analisa a relação entre variáveis sem interferir diretamente ou aplicar uma intervenção. Eles se utilizam, amplamente, na pesquisa em saúde e em epidemiologia para investigar associações e padrões de doenças e fatores de risco em populações. Ao contrário dos estudos experimentais, os observacionais não estabelecem causalidade com o mesmo rigor, mas se mostram fundamentais para levantar hipóteses e para explorar associações. Geralmente mais econômicos e rápidos, em comparação com estudos experimentais, e, especialmente, úteis para estudar doenças raras ou com períodos de latência longos. Permitem identificar associações entre fatores de risco e desfechos de saúde. Do ponto de vista negativo, podem ser influenciados por vieses de seleção, de memória ou variáveis de confusão; não permitem estabelecer relações de causa e efeito com a mesma robustez que estudos experimentais. 46 a. Estudos Transversais: Têm, por objetivo, identificar a prevalência de doenças e de fatores associados numa população em um único ponto no tempo. Exemplo: Pesquisa de prevalência de diabetes em uma cidade. Os dados são coletados em único ponto no tempo, sem acompanhamento posterior. Pode explorar a associação entre variáveis, mas não pode estabelecer causalidade. Pode incluir toda a população ou uma amostra representativa. Utilizado para planejar serviços de saúde, identificar grupos de risco e formular hipóteses para estudos futuros. Têm, por vantagem, ser rápidos e relativamente baratos; entretanto não fornecem informações sobre a causalidade. bit.ly/4kfPRwt Estudo transversal sobre trabalho e comportamentos bit.ly/41DBXMn Fatores associados à infeção pelo vírus da dengue https://bit.ly/4kfPRwt https://bit.ly/41DBXMn 47 b. Estudos de Coorte: Seu objetivo é acompanhar um grupo de indivíduos (coorte) ao longo do tempo para avaliar a incidência de doenças e sua associação com exposições. A principal característica desse tipo de estudo encontra-se na capacidade de observar a sequência temporal dos eventos, permitindo inferências sobre possíveis relações causais. Exemplo: Seguimento de trabalhadores expostos a substâncias tóxicas para observar a incidência de câncer. Tem, por vantagem, estabelecer relações temporais e causais; porém requer tempo e pode ser caro. São estudos longitudinais, pois acompanham os participantes ao longo do tempo, podendo ser prospectivo (iniciado antes do desfecho) ou retrospectivo (usando dados históricos). Estima a incidência de doenças ou condições em uma população exposta e não exposta. Compara grupos expostos e não expostos a um fator de risco, observando a diferença na incidência de um desfecho específico. Embora não estabeleça causalidade como um ensaio clínico, permite inferências sobre a relação temporal entre exposição e desfecho. Figura 8 - Modelo de observação de desfecho de interesse Figura 9 - Outro modelo de estudo de coorte ESTUDO PROSPECTIVO PRESENTE Desfechono futuro Momento do desfecho ou algum tempo depois no presente ESTUDO RETROSPECTIVO PASSADO Fonte: Elaboração própria. *Modelo demonstra a observação do desfecho de interesse (câncer de pulmão) entre funcionários expostos (fumantes) e não expostos (não fumantes) aos fatores de risco. Fonte: Elaboração própria. Trabalhadores de uma fábrica de móveis Carpinteiros, expostos à fuligem de madeira Com câncer de pulmão Sem câncer de pulmão Funcionários do setor administrativo, não expostos à madeira Com câncer de pulmão Sem câncer de pulmão 48 bit.ly/3QALNZZ Complicações da terapia anticoagulante com warfarina em pacientes bit.ly/41eEDQh Avaliação do acesso vascular para hemodiálise em crianças e adolescentes c. Estudos de Caso-Controle: Têm, por objetivo, comparar indivíduos com uma condição (casos) com aqueles sem a condição (controles) para identificar fatores de risco. Compara- se o histórico de exposição entre os casos e os controles para determinar a associação entre os fatores de risco e o desfecho. Os casos são indivíduos que apresentam o desfecho de interesse, enquanto os controles não apresentam o desfecho, mas são semelhantes em outras características (idade, sexo etc.). Exemplo: Estudo sobre fatores de risco para câncer de pulmão comparando pacientes com câncer e controles saudáveis. É eficiente para doenças raras ou com longo período de latência, pois requer um número menor de participantes; porém pode apresentar risco de viés de seleção e viés de memória. Geralmente mais rápidos e menos dispendiosos do que os estudos de coorte, pois não exigem seguimento ao longo do tempo. O principal resultado é o cálculo do Odds Ratio (OR), que estima a força da associação entre exposição e desfecho. https://bit.ly/3QALNZZ https://bit.ly/41eEDQh 49 Figura 10 - Modelo de estudo caso-controle Fonte: Elaboração própria. *Modelo demonstra a observação do desfecho de interesse (Câncer de Pulmão) e sua associação com o fator de risco, entre expostos (fumantes) e não expostos (não fumantes). Os casos são pacientes com câncer de pulmão; os controles, indivíduos sadios para o desfecho. Ambulatório do Tórax Pacientes com câncer de pulmão Fumantes Não fumantes Acompanhantes sadios sem câncer de pulmão Fumantes Não fumantes bit.ly/3EUzqp3 Fatores associados à institucionalização de idosos: estudo caso-controle bit.ly/3QATWO2 Amputações de extremidades inferiores por diabetes mellitus: estudo caso-controle https://bit.ly/3EUzqp3 https://bit.ly/3QATWO2 50 Estudos Experimentais: Consideram-se os estudos experimentais o padrão-ouro para estabelecer relações de causalidade entre uma intervenção e um desfecho. Nesses estudos, os pesquisadores aplicam uma intervenção específica a um grupo e comparam os resultados com um grupo de controle, que não recebe a intervenção, ou recebe um placebo. A aleatorização e o controle rigoroso de variáveis são características-chave desse tipo de estudo. Características principais: 1. Intervenção Deliberada: Os pesquisadores introduzem uma intervenção específica, como um novo medicamento, uma terapia ou um procedimento. 2. Grupo de Controle: Serve como base de comparação para avaliar os efeitos da intervenção. 3. Randomização: Os participantes são distribuídos aleatoriamente entre os grupos de intervenção e de controle, minimizando o viés. 4. Controle de Variáveis: Controlam- se os fatores externos para isolar o efeito da intervenção. 5. Causalidade: Capacidade de estabelecer relações causais diretas entre a intervenção e o desfecho. a. Ensaios Clínicos Randomizados (ECR): Os ensaios clínicos randomizados (ECR) constituem estudos experimentais considerados o padrão-ouro na pesquisa clínica para avaliar a eficácia e a segurança de intervenções, como novos medicamentos, procedimentos cirúrgicos ou estratégias de prevenção. O principal objetivo de um ECR consiste em determinar se a intervenção experimental é superior, inferior ou equivalente a um tratamento padrão ou a um placebo. Exemplo: Avaliação de um novo medicamento para hipertensão. • Randomização: Os participantes são alocados, de maneira aleatória, em grupos de intervenção ou de controle, o que minimiza o viés e garante a comparabilidade entre os grupos. A randomização ajuda a distribuir, de maneira equilibrada, características conhecidas e desconhecidas que possam influenciar os resultados. • Grupo de Controle: O grupo de controle pode receber um placebo, um tratamento padrão ou nenhuma intervenção. A comparação entre o grupo experimental e o de controle permite avaliar o efeito da intervenção. • Cegamento (Blinding): Pode ser Simples, Duplo ou Triplo. • Cegamento Simples: O participante desconhece o tratamento recebido. • Cegamento Duplo: Tanto o participante quanto o pesquisador desconhecem o tratamento administrado. • Cegamento Triplo: Além do participante e do pesquisador, o analista de dados também desconhece o tratamento. 51 • Desfechos: Desfechos primários e secundários definem-se previamente para avaliar os efeitos da intervenção. Podem incluir medidas de eficácia, de segurança e de qualidade de vida. • Análise Estatística: Usam-se métodos estatísticos específicos para comparar os grupos e para determinar a significância dos resultados. Utiliza- se, comumente, a análise por intenção de tratar (ITT) a fim de incluir todos os participantes conforme a alocação inicial, independentemente de aderirem ao protocolo. Tem, como vantagens, a redução dos vieses (a randomização e o cegamento reduzem o risco de vieses de seleção e de medição), a causalidade (permite estabelecer relações causais diretas entre a intervenção e o desfecho) e o controle rigoroso (de variáveis externas que poderiam influenciar o resultado). Entretanto podem ter, como desvantagens: custos (podem ser caros e demorados); complexidade ética (na aplicação controversa de certas intervenções em certos grupos (exemplo: crianças ou população carcerária); generalização (os resultados podem não ser generalizáveis para a população se a amostra for muito específica). bit.ly/3XlzQvj Tratamento da vaginose bacteriana com gel vaginal de Aroeira bit.ly/41eTWIJ Ensaio clínico randomizado triplo- cego comparando eficácia e sensibilidade dentária de técnicas de clareamento em consultório e em casa https://bit.ly/3XlzQvj https://bit.ly/41eTWIJ 52 b. Ensaios Clínicos Não Randomizados: Os ensaios clínicos não randomizados constituem estudos experimentais em que os participantes não são distribuídos aleatoriamente entre os grupos de intervenção e de controle. Ao contrário dos ensaios clínicos randomizados (ECR), em que a alocação dos participantes se faz de forma aleatória para minimizar o viés, nos ensaios não randomizados, os grupos se formam de maneira predefinida, ou com base em características dos participantes, ou pela escolha dos próprios pesquisadores. • Ausência de Randomização: A principal característica é o fato de os participantes não serem distribuídos aleatoriamente entre os grupos de tratamento e de controle. Em vez disso, a alocação pode ser feita por conveniência, por escolha do paciente, ou por critérios pré-estabelecidos. • Menor Controle sobre Viés: A falta de randomização pode levar à maior probabilidade de viés de seleção e de confusão. Os participantes podem diferir, sistematicamente, entre os grupos em fatores que influenciam os desfechos, o que dificulta a determinação de uma relação causal verdadeira entre a intervenção e os resultados observados. • Aplicações: Usam-se ensaios clínicos não randomizados em situações onde a randomização pode ser impraticável, antiética, ou quando os pesquisadores desejam observar intervenções em condições do mundo real. Eles são comuns em áreas como estudos observacionais, onde a intervenção não pode ser controlada diretamente (ex. políticasde saúde pública), ou em pesquisas de doenças raras, onde a amostra pode ser limitada. 53 Figura 11 - Vantagens e desvantagens dos ensaios clínicos não-randomizados Fonte: Elaboração própria. ENSAIOS CLÍNICOS NÃO-RANDOMIZADOS VANTAGENS ENSAIOS CLÍNICOS NÃO-RANDOMIZADOS DESVANTAGENS Fácil de Implementar: Sem a necessidade de randomização, esses estudos são mais simples e rápidos de implementar, especialmente em situações de emergência, como durante pandemias, ou em áreas onde a infraestrutura para ensaios randomizados é limitada. Estudo de Populações Específicas: Pode ser utilizado quando há necessidade de estudar populações específicas, como idosos, ou pacientes com comorbidades, que poderiam ser excluídos de um ensaio clínico randomizado. Viabilidade Ética: Em algumas circunstâncias, pode ser considerado antiético randomizar participantes para um grupo controle quando já se suspeita que um tratamento é superior, ou quando a randomização poderia prejudicar o acesso a uma intervenção potencialmente eficaz. Viés de Seleção: Como os grupos podem diferir entre si em características que não são controladas, pode haver viés de seleção, onde as diferenças nos desfechos podem ser atribuídas às diferenças pré-existentes entre os grupos, e não à intervenção. Confundimento: Sem randomização, as diferenças nos desfechos entre os grupos podem ser influenciadas por variáveis de confusão, o que compromete a capacidade de estabelecer relações causais claras. Menor Validade Interna: Devido à ausência de randomização, a validade interna desses ensaios tende a ser mais baixa em comparação com os ensaios clínicos randomizados. Pode ser mais difícil determinar, com certeza, que os resultados observados se devem à intervenção, e não a outros fatores. bit.ly/3F7LLX0 Efeito do exercício físico na percepção de satisfação de vida e função imunológica em pacientes infectados pelo HIV bit.ly/3XjOwea Protocolo de Reiki para ansiedade, depressão e bem-estar pré-operatórios: ensaio clínico controlado não randomizado https://bit.ly/3F7LLX0 https://bit.ly/3XjOwea 54 Estudos de Revisão: São investigações que sintetizam informações de várias pesquisas anteriores sobre um tema específico, com o objetivo de proporcionar uma visão abrangente e crítica do que já foi publicado. Existem diferentes tipos de estudos de revisão, cada um com finalidades e métodos específicos: Revisão Narrativa (ou tradicional): Apresenta uma visão geral qualitativa sobre determinado assunto, baseada na análise subjetiva dos autores. Não segue protocolo rigoroso, o que pode limitar a reprodutibilidade. Frequentemente usada para descrever o estado da arte em áreas emergentes ou complexas, onde ainda não se encontra uma quantidade substancial de evidências sistemáticas. Etapas: 1. Definição do tema ou do problema. 2. Busca de literatura, geralmente em bases como PubMed, Scopus, Google Scholar. 3. Seleção de estudos com base em relevância percebida. 4. Análise descritiva e síntese dos principais achados. Limitações: • Alto grau de subjetividade, com risco de viés na seleção e na análise dos artigos. • Dificuldade de replicação, devido à falta de metodologia padronizada. Revisão Sistemática: Utiliza metodologia rigorosa e replicável para buscar, selecionar e analisar estudos relevantes sobre uma questão de pesquisa específica. Normalmente, envolve critérios claros de inclusão e de exclusão, além de uma avaliação crítica da qualidade dos estudos incluídos. Considera-se a revisão sistemática o padrão-ouro das revisões, devido à sua metodologia rigorosa. Etapas: 1. Definição de uma questão de pesquisa clara e estruturada (geralmente utilizando o formato PICO – Paciente, Intervenção, Comparação e Outcome/ Desfecho). 2. Registro do protocolo em plataformas como o PROSPERO (registro internacional de revisões sistemáticas). 3. Busca exaustiva da literatura em múltiplas bases de dados (MEDLINE, Cochrane etc.). 4. Aplicação dos critérios de inclusão e de exclusão para selecionar estudos. 5. Avaliação crítica da qualidade dos estudos (usando ferramentas como a escala de Jadad, para ensaios clínicos). 6. Extração de dados relevantes e síntese dos resultados. Limitações: • Extremamente demorada, envolvendo várias etapas que podem levar meses, ou até anos, para serem concluídas. • Nem sempre há estudos suficientes, ou de boa qualidade, para suportar uma conclusão robusta. 55 bit.ly/4bj8nzY bit.ly/4ig98w3 Revisão sistemática sobre o impacto das ações de enfermagem em pacientes com câncer de mama Eficácia da intervenção de enfermagem para aumento da esperança em pacientes com câncer: uma meta-análise Meta-análise: Tipo de revisão sistemática que utiliza métodos estatísticos para combinar os resultados de vários estudos quantitativos, proporcionando a estimativa geral dos efeitos ou das associações. É uma forma de aumentar o poder estatístico ao integrar dados de estudos individuais. Utiliza medidas estatísticas, como tamanho do efeito (effect size), intervalo de confiança e heterogeneidade entre os estudos (medida pelo índice I²). Etapas: 1. Revisão sistemática preliminar para identificar estudos com dados quantitativos comparáveis. 2. Extração de dados, como médias, desvios-padrão e tamanhos de amostra. 3. Aplicação de métodos estatísticos, como modelo de efeitos fixos ou aleatórios, para combinar os dados. 4. Análise de heterogeneidade e de possíveis vieses de publicação. Limitações: • Exige que os estudos sejam, suficientemente, homogêneos em termos de design e de população. • Possibilidade de viés de publicação (quando apenas estudos com resultados positivos são publicados). https://bit.ly/4bj8nzY https://bit.ly/4ig98w3 56 Revisão Integrativa: Visa a integrar os resultados de diferentes tipos de estudos (quantitativos, qualitativos, teóricos) sobre um mesmo tema, buscando fornecer uma síntese mais ampla. Isso se mostra, especialmente, útil em áreas interdisciplinares ou em tópicos com evidências heterogêneas. Etapas: 1. Definição da questão de pesquisa. 2. Busca e seleção de estudos com diferentes abordagens metodológicas. 3. Extração e categorização dos dados de acordo com suas metodologias e seus resultados. 4. Síntese e integração dos achados para gerar uma compreensão mais ampla. Limitações: • A integração de diferentes tipos de estudos pode ser complexa, devido à variabilidade metodológica. • Menor rigor em termos de critérios de inclusão/exclusão em comparação com revisões sistemáticas. Revisão Rápida: Uma forma acelerada de revisão sistemática, que usa métodos simplificados para coletar e para sintetizar evidências rapidamente, útil em contextos onde decisões urgentes precisam ser tomadas. Seu objetivo é fornecer evidências em um curto período, frequentemente, para apoiar a tomada de decisões em políticas de saúde ou em intervenções emergenciais. Etapas: 1. Definição de uma questão de pesquisa. 2. Busca simplificada de literatura (ex. em uma ou duas bases de dados). 3. Seleção rápida de estudos relevantes. 4. Extração de dados essenciais e síntese dos resultados. Limitações: • Redução do rigor metodológico em comparação com a revisão sistemática. • Possível omissão de estudos relevantes devido ao processo de busca simplificado. 57 Níveis de Evidência Os níveis de evidência dos estudos clínicos constituem forma de classificar a força das evidências com base no tipo de estudo e de sua qualidade metodológica. Esses níveis ajudam a determinar o quão confiável e aplicável uma determinada pesquisa pode ser em contextos clínicos. Normalmente, representamos esses níveis através de uma pirâmide, em que, quanto mais alto o tipo de estudo, maior sua evidência e sua confiabilidade para solidificar, ou para modificar, condutas clínicas. Figura 12 - Evidência mais robusta x evidência mais fraca Fonte: Adaptado de PEREIRA, C., VEIGA, N. (2014).Educação Para a Saúde Baseada em Evidências. Rev Millenium. 46. 107-36. Revisão sistemática; metanálise Ensaios clínicos randomizados e controlados Estudos de coorte Estudos de caso-controle Estudos transversais Ensaios in vitro (laboratoriais) experimentos em animais; série de casos Opinião de especialistas; relatos de caso; cartas ao editor Evidência mais fraca Evidência mais robusta Os níveis de evidência mostram-se fundamentais para embasar decisões clínicas, ajudando médicos e outros profissionais de saúde a adotar tratamentos com maior respaldo científico. Evidências de níveis mais altos (como revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados) fornecem maior confiança na eficácia e na segurança de uma intervenção, enquanto evidências de níveis mais baixos, menos confiáveis, podem requerer mais estudos antes de se aplicarem em larga escala. A hierarquia dos níveis de evidência reflete a probabilidade de que um determinado resultado se influencie por vieses, com estudos mais rigorosos, ocupando níveis superiores. 58 6. Estudo Clínico e suas Fases Estudos clínicos são pesquisas realizadas em seres humanos para avaliar a segurança, a eficácia e os efeitos de novos tratamentos, de medicamentos, de procedimentos, de dispositivos médicos ou de abordagens preventivas. Esses estudos são fundamentais para desenvolver novos tratamentos e para garantir que sejam seguros e eficazes, antes de serem aprovados para o uso generalizado. Os estudos clínicos são, geralmente, divididos, em quatro fases principais, cada uma com objetivos específicos. Inicialmente, dividimos em Fase Pré-Clínica e Fase Clínica. A Fase Pré-Clínica corresponde àquela onde ocorrerá a investigação de moléculas potenciais ou testes in vitro, que tentam responder às perguntas de interesse; caso esses estudos se mostrem promissores, ela será finalizada com testes em modelos animais. Apenas quando se concluem esses estudos (após a aprovação ética e os controles rigorosos), os estudos que compõem a Fase Clínica poderão acontecer. Figura 13 - Fase pré-clínica e fase clínica Caracterização química Estudos bioquímicos Estudos em modelos animais Estudos em seres humanos Fonte: Adaptado de Sindicato das Indústrias de Produtos Farmacêuticos do Rio Grande do Sul. Disponível em: https://www.sindifar.org.br/geral/situacao-do-brasil-para-os-estudos-clinicos-de-medicamentos/ 59 Fase 1: Estudos de Segurança e Dosagem Inicial Objetivo: Avaliar a segurança de um novo tratamento, determinar a dosagem segura e identificar efeitos colaterais. Participantes: Geralmente, envolvem pequeno número de participantes (20 a 100), muitas vezes, voluntários saudáveis, mas também podem incluir pacientes com a condição específica. Procedimentos: Os participantes recebem o tratamento em doses, progressivamente maiores para identificar a dose máxima tolerada e para avaliar os efeitos adversos. Os pesquisadores monitoram, de perto, os efeitos colaterais e a forma como o corpo metaboliza e excreta o medicamento. Duração: Varia de alguns meses a um ano. Taxa de Sucesso: Aproximadamente, 70% dos tratamentos avançam para a Fase 2. Exemplo: Estudo de um Novo Medicamento contra o Câncer (Inibidor de Tirosina Quinase) Descrição: Um estudo de Fase 1 foi conduzido para avaliar a segurança e a dosagem ideal de um novo inibidor de tirosina quinase, um tipo de medicamento direcionado a tratar cânceres específicos, como o câncer de pulmão, não pequenas células. Participantes: Envolveu cerca de 50 pacientes com câncer avançado que não responderam a tratamentos padrões anteriores. Procedimentos: O estudo começou com uma dose baixa, aumentada gradualmente em diferentes grupos de pacientes para determinar a dose máxima tolerada. A segurança foi monitorada de perto, com coleta de amostras de sangue para medir os níveis do medicamento e para avaliar a função hepática e renal. Resultado: Estabeleceu-se a dose máxima tolerada e identificaram-se os efeitos colaterais comuns, como náuseas e fadiga, que ajudaram a determinar as diretrizes de dosagem para estudos futuros. 60 Fase 2: Estudos de Eficácia e Dose Otimizada Objetivo: Avaliar a eficácia do tratamento para uma condição específica e continuar a monitorar sua segurança. Participantes: Envolve um número maior de participantes (100 a 300) que têm a doença, ou a condição, em estudo. Procedimentos: Os participantes são, frequentemente, divididos em grupos, com um recebendo o tratamento experimental e outros recebendo um placebo, ou o tratamento padrão. Mede-se a eficácia pela melhoria nos sintomas, ou pela redução da progressão da doença. Duração: Normalmente, de vários meses a dois anos. Taxa de Sucesso: Aproximadamente, 33% dos tratamentos avançam para a Fase 3. Exemplo: Estudo de Vacina para o Vírus da Dengue Descrição: Um estudo de Fase 2 avaliou a eficácia de uma nova vacina contra o vírus da dengue, problema significativo de saúde pública em regiões tropicais. Participantes: Cerca de 200 adultos saudáveis que viviam em áreas endêmicas da doença. Procedimentos: participantes foram divididos em dois grupos: um recebeu a vacina experimental e o outro, um placebo. O estudo acompanhou os participantes por 12 meses para avaliar a incidência de infecções pelo vírus da dengue e a resposta imunológica gerada pela vacina. Resultado: A vacina demonstrou resposta imunológica robusta e reduziu a incidência de infecções em comparação com o placebo. Esses resultados justificaram o avanço para um estudo de Fase 3 maior e mais abrangente. Figura 14 - Fases de uma pesquisa clínica Fonte: Adaptado de Sociedade Brasileira de Profissionais de Pesquisa Clínica. Tolerabilidade Voluntários sadios-estáveis População alvo Estudos randomizados, multicêntricos Novas indicações Farmacovigilância Estudos de vida real Segurança Farmacocinética Eficácia Fase I Fase III Fase II Fase IV 61 Fase 3: Estudos de Confirmação de Eficácia e Monitoramento de Reações Adversas Objetivo: Confirmar a eficácia, monitorar os efeitos colaterais, comparar o tratamento experimental com os existentes e coletar informações para garantir o uso seguro. Participantes: Envolve um número maior de participantes (300 a 3.000 ou mais) com a doença ou em condição específica. Procedimentos: Esta fase, geralmente, consiste em estudo randomizado e controlado, onde se designam, aleatoriamente, os participantes para receber o tratamento experimental ou um controle (placebo ou tratamento padrão). Avaliam-se a eficácia e a segurança em uma população diversificada, o que ajuda a entender como o tratamento funcionará em uma ampla gama de pacientes. Duração: Pode durar de um a quatro anos. Taxa de Sucesso: Aproximadamente 25% a 30% dos tratamentos avançam para a Fase 4. Exemplo: Estudo de Medicamento para Diabetes Tipo 2 (Inibidor de SGLT2) Descrição: Um estudo de Fase 3 avaliou a eficácia e a segurança de um novo inibidor de SGLT2, uma classe de medicamentos usados para tratar diabetes tipo 2, em comparação com um tratamento padrão existente. Participantes: Mais de 4.000 pacientes com diabetes tipo 2 de diferentes países. Procedimentos: Os pacientes foram randomizados para receber o novo medicamento, ou um medicamento padrão, por dois anos. O estudo monitorou a glicemia, a hemoglobina glicada (HbA1c), o peso corporal e os eventos cardiovasculares adversos. Resultado: O novo medicamento demonstrou reduzir, significativamente, os níveis de glicose no sangue, diminuir o peso corporal e ter um perfil de segurança aceitável em comparação com o tratamento padrão. Os resultados levaram à aprovação do medicamento por agências reguladoras, como a FDA (Food and Drug Administration). 62 Fase 4: Estudos Pós-Comercialização (Farmacovigilância) Objetivo: Monitorar a segurança e a eficácia do tratamento no longo prazo após sua aprovação e sua comercialização. Participantes: Envolve milhares de participantes usando o tratamento aprovado na práticaclínica. Procedimentos: Esta fase foca a identificação de efeitos adversos raros, ou de longo prazo, para avaliar o tratamento em subgrupos específicos de pacientes e para monitorar o impacto na qualidade de vida. Estudos de Fase 4 podem levar a restrições de uso, a alterações na dosagem ou, em casos raros, à retirada do tratamento do mercado. Duração: Indefinida; continua enquanto o tratamento estiver em uso clínico. Exemplo: Estudo de Segurança, no Longo Prazo, de um Anticoagulante Oral (Rivaroxabana) Descrição: Após a aprovação de um novo anticoagulante oral, a rivaroxabana, para a prevenção de tromboembolismo venoso em pacientes com fibrilação atrial, conduziu-se um estudo de Fase 4 para monitorar sua segurança e eficácia de longo prazo na prática clínica. Participantes: Mais de 20.000 pacientes em uso do medicamento em prática clínica de rotina. Procedimentos: O estudo acompanhou os pacientes por cinco anos, coletando dados sobre eventos hemorrágicos, eficácia na prevenção de acidentes vasculares cerebrais (AVC) e outras complicações cardiovasculares. Resultado: O estudo identificou um risco, ligeiramente, aumentado de sangramento em alguns subgrupos de pacientes, levando a ajustes na orientação de dosagem e no uso do medicamento em determinadas populações de risco. 63 Figura 15 - Fases de estudos clínicos FASE I: garante que o tratamento é seguro para uso inicial em humano. FASE III: fornece evidências robustas de eficácia e segurança, essenciais para a aprovação regulatória. FASE II: começa a explorar a eficácia enquanto continua a avaliar a segurança. FASE IV: assegura a monitorização contínua da segurança e da eficácia após o tratamento estar disponível ao público. Fonte: Elaboração própria. As diferentes fases de estudos clínicos mostram-se cruciais para desenvolver e aprovar novos tratamentos seguros e eficazes. Cada fase contribui para aumentar a noção sobre o tratamento e para garantir que ele atenda aos padrões de segurança e de eficácia antes de amplamente utilizado. 64 7. Análise Crítica, Vieses, Equipe de Pesquisa A análise crítica de estudos clínicos constitui processo essencial para avaliar a validade, a relevância e a aplicabilidade de resultados de pesquisa clínica. Essa análise ajuda a determinar se um estudo é confiável e se seus achados são robustos o suficiente para influenciar a prática clínica, a tomada de decisões e o desenvolvimento de políticas de saúde. Abaixo, encontram-se os principais componentes e as etapas da análise crítica de estudos clínicos: Clareza da Pergunta de Pesquisa: A pergunta de pesquisa deve ser clara, específica e relevante. Deve seguir o formato PICO (População, Intervenção, Comparação e Outcome) para facilitar a compreensão. Objetivos do Estudo: Os objetivos precisam ser bem definidos e devem indicar o que o estudo pretende alcançar. Tipo de Estudo: Identifique se o estudo é experimental (como um ensaio clínico randomizado) ou observacional (como coorte, caso-controle ou transversal). O tipo de estudo deve ser adequado para responder à pergunta de pesquisa. Randomização e Controle: Em estudos randomizados, avalia-se se a randomização foi conduzida de forma adequada e se há um grupo de controle apropriado. Além disso, é importante verificar a alocação oculta para garantir que os participantes não saibam a que grupo pertencem. Cegamento (Mascaramento): Verifique se o estudo foi duplo-cego, simples-cego ou não-cego e avalie como isso pode ter impactado os resultados. Critérios de Inclusão e de Exclusão: Examine se os critérios de inclusão e de exclusão dos participantes foram, claramente, definidos e se são apropriados para a pergunta da pesquisa. Representatividade da Amostra: Verifique se a amostra é representativa da população-alvo e se o tamanho da amostra é adequado para detectar uma diferença significativa (poder estatístico). Descrição Detalhada: Avalie se as intervenções (tratamentos, medicamentos etc.) e as comparações são descritas de maneira clara e detalhada. Padrões de Tratamento: Verifique se a intervenção e as comparações refletem as práticas clínicas reais. Definição e Medição dos Outcomes: Avalie se os desfechos primários e secundários são claramente definidos, clinicamente relevantes e mensurados de forma válida e confiável. Análise de Subgrupos: Verifique se há análises de subgrupos e se são justificadas e, adequadamente, conduzidas. Métodos Estatísticos: Revise se os métodos estatísticos utilizados se mostram apropriados para o tipo de dados e para a pergunta de pesquisa. Verifique a correção para múltiplas comparações, se necessário. Intervalos de Confiança e Significância: Avalie se os resultados incluem intervalos de confiança e se a significância estatística (p-valor) é interpretada corretamente. 65 Exemplos de Ferramentas para Análise Crítica • CASP (Critical Appraisal Skills Programme): Proporciona listas de verificação específicas para diferentes tipos de estudos (ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte etc.). • GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation): Um sistema que avalia a qualidade da evidência e a força das recomendações. • CONSORT (Consolidated Standards of Reporting Trials): Diretrizes para relatar ensaios clínicos randomizados de forma transparente e completa. Validade Interna: Considere o risco de vieses (de seleção, de informação, de confusão) e a qualidade do controle de variáveis externas. Validade Externa: Avalie se os resultados podem ser generalizados para outras populações, outras configurações ou outros períodos de tempo. Interpretação dos Resultados: Verifique se a discussão interpreta os resultados de forma justa, levando, em consideração, as limitações do estudo. Limitações: Avalie se os autores discutem as limitações do estudo, como tamanho da amostra, possíveis vieses e validade das conclusões. Conclusões Apropriadas: As conclusões devem basear-se nos dados apresentados e não devem extrapolar para além do que os dados suportam. Conflito de Interesses: Verifique se os conflitos de interesse dos autores são declarados e se poderiam influenciar os resultados ou a interpretação. Fonte de Financiamento: Considere se a fonte de financiamento poderia ter introduzido viés nos resultados. Aplicabilidade à Prática Clínica: Determine se os resultados são aplicáveis à prática clínica diária, levando, em conta, o contexto e a população dos pacientes tratados. Impacto Potencial: Avalie o impacto potencial dos resultados na prática clínica, na política de saúde ou em pesquisas futuras. 66 Equipe de Pesquisa A equipe de pesquisa desempenha papel fundamental na condução de estudos clínicos e científicos, assegurando que as investigações se realizem de forma ética, eficiente e rigorosa. Uma equipe de pesquisa bem-estruturada compõe- se de profissionais com diferentes habilidades e responsabilidades, cada um desempenhando funções específicas para assegurar a integridade e o sucesso do estudo. 1. Investigador Principal (IP): É o responsável geral pelo estudo. O Investigador Principal (IP), geralmente, é um médico ou cientista sênior com experiência em pesquisa clínica. Ele define o desenho do estudo, supervisiona sua execução, garante o cumprimento das regulamentações éticas e científicas e lidera a análise e a publicação dos resultados. 2. Coinvestigadores: São pesquisadores que trabalham, em conjunto, com o Investigador Principal para realizar o estudo. Podem incluir médicos, cientistas, enfermeiros e outros profissionais de saúde. Os coinvestigadores têm funções específicas, como recrutamento de pacientes, coleta de dados, condução de intervenções e análise de resultados. 3. Coordenador de Pesquisa Clínica: Gerencia as operações diárias do estudo, incluindo a coordenação de visitasde pacientes, a coleta de dados, o monitoramento da conformidade com o protocolo e as regulamentações, a comunicação com o comitê de ética e as agências reguladoras e a manutenção da documentação necessária. O coordenador atua como o principal ponto de contato entre o Investigador Principal (IP), a equipe de pesquisa e os participantes do estudo. 4. Enfermeiro de Pesquisa Clínica: Responsável pelo cuidado dos participantes do estudo. Ele pode realizar triagens de elegibilidade, coordenar a administração de intervenções, coletar amostras biológicas, monitorar sinais vitais e auxiliar na educação dos participantes sobre o estudo e seus procedimentos. Os enfermeiros de pesquisa desempenham papel vital na garantia do bem-estar dos pacientes e na coleta de dados precisos. 5. Especialista em Dados (Data Manager): Gerencia a coleta, o armazenamento, o processamento e a análise dos dados gerados pelo estudo. Ele garante que os dados sejam coletados de maneira precisa, completa e conforme os padrões de qualidade estabelecidos. A responsabilidade do especialista em dados inclui desenvolver bancos de dados, realizar verificações de qualidade e preparar dados para a análise estatística. 6. Estatístico: Fornece suporte na fase de planejamento do estudo, ajudando a determinar o tamanho da amostra e a escolher métodos de análise estatística apropriados. Durante e após o estudo, o estatístico realiza análises estatísticas dos dados coletados e ajuda a interpretar os resultados, contribuindo para as conclusões e as publicações. 67 7. Monitor de Pesquisa Clínica (Monitor ou CRA - Clinical Research Associate): Trabalha para garantir que o estudo se conduza conforme o protocolo aprovado, as regulamentações éticas e as boas práticas clínicas (GCP - Good Clinical Practice). Eles monitoram a coleta e a documentação de dados, realizam auditorias de qualidade e garantem a conformidade com os requisitos regulatórios. 8. Farmacêutico de Pesquisa: Gerencia os aspectos relacionados aos medicamentos do estudo, incluindo a preparação, o armazenamento, a distribuição e o controle dos medicamentos ou dos dispositivos utilizados. O farmacêutico garante que as substâncias se manipulem de maneira segura e adequada e que os pacientes sejam informados sobre o uso correto. 9. Especialista em Ética e Regulamentação: Responsável por garantir que o estudo esteja em conformidade com todas as regulamentações locais e internacionais, como as diretrizes de Boas Práticas Clínicas (GCP) e as regulamentações de proteção aos direitos humanos e à segurança dos participantes. Este especialista prepara e submete documentos ao Comitê de Ética e às agências reguladoras. 10. Assistente de Pesquisa (Research Assistant): Ajuda em tarefas administrativas e logísticas, como o agendamento de visitas, a manutenção de registros, o suporte na coleta de dados e a assistência em atividades laboratoriais e administrativas. Uma equipe de pesquisa diversificada e multidisciplinar faz-se essencial para abordar os diferentes aspectos de um estudo clínico, desde o planejamento até a execução e a análise. Cada membro traz uma perspectiva única e habilidades específicas que ajudam a garantir que a pesquisa se conduza de forma eficaz, ética e em conformidade com os padrões científicos. A colaboração entre os membros da equipe permite uma abordagem mais holística da pesquisa, aumentando a qualidade dos dados, o bem-estar dos participantes, a eficácia operacional e a validade dos resultados. Enquanto membro de equipe de pesquisa, poderá ser solicitado que o indivíduo tenha certificado válido (renovável a cada 24 meses) em GCP “Good Clinical Practice”. Existem várias opções disponíveis em inglês e em português, gratuitamente. 68 8. ESG e prática clínica ESG (Environmental, Social, and Governance) consiste em um conjunto de critérios que avaliam o impacto ambiental, social e de governança de uma organização. Embora o conceito de ESG seja, frequentemente, associado ao setor financeiro e empresarial, ele também tem implicações importantes na prática clínica e na pesquisa: • Critérios Ambientais: Na prática clínica e na pesquisa, o aspecto ambiental envolve a adoção de práticas sustentáveis que minimizam o impacto ambiental. Isso pode incluir a gestão responsável de resíduos hospitalares, o uso eficiente de energia e água, a redução de emissões de carbono e a escolha de fornecedores que compartilhem esses compromissos. No contexto da pesquisa, pode-se envolver o uso de materiais e de métodos que reduzam a pegada ambiental, como minimizar o uso de recursos não renováveis ou optar por técnicas laboratoriais menos poluentes; • Critérios Sociais: Os critérios sociais de ESG na prática clínica relacionam-se ao cuidado ético e ao respeito aos direitos humanos, à diversidade e à inclusão. Isso envolve promover a equidade no atendimento aos participantes da pesquisa, assegurar o acesso a cuidados de qualidade para todas as populações, especialmente as vulneráveis, e considerar o impacto social das práticas clínicas e dos protocolos de pesquisa. Na pesquisa, isso implica garantir a ética no recrutamento e no consentimento de participantes, assegurando que os estudos se conduzam de forma justa e transparente; • Critérios de Governança: A governança refere-se à liderança, à estrutura de gestão e à transparência em instituições de saúde e de pesquisa. Envolve práticas como a adesão a regulamentos, o combate à corrupção, a transparência em relatórios e a responsabilização em todos os níveis da organização. Em termos de pesquisa clínica, isso se pode traduzir em práticas que garantem a integridade científica, o cumprimento dos padrões éticos e a proteção dos direitos dos participantes da pesquisa. 69 Impacto de ESG na Pesquisa Clínica • Transparência e Confiabilidade: A implementação de boas práticas de governança fortalece a credibilidade dos estudos clínicos e garante resultados robustos e replicáveis. • Sustentabilidade e Eficiência: A adoção de práticas ambientais sustentáveis na pesquisa clínica pode não apenas reduzir custos, mas também melhorar a aceitação pública dos estudos, especialmente daqueles financiados por recursos públicos ou por doações. • Inclusão e Diversidade: Incorporar critérios sociais pode melhorar a representatividade dos estudos clínicos, garantindo resultados mais generalizáveis e úteis para diversas populações. • Integrar os princípios de ESG na prática clínica e na pesquisa pode contribuir para um sistema de saúde mais sustentável, ético e inclusivo, alinhando as operações com as expectativas da sociedade e dos stakeholders. A incorporação de princípios de ESG (Environmental, Social and Governance) na prática clínica de pesquisa envolve o alinhamento das atividades de pesquisa com objetivos de sustentabilidade ambiental, de impacto social positivo e de governança ética e transparente. Isso se mostra, particularmente, relevante no contexto da pesquisa clínica, onde há crescente expectativa de que os estudos não apenas atendam aos padrões científicos, mas também se alinhem aos valores e às expectativas sociais mais amplos. Exemplos de ESG na Pesquisa Clínica a. Uso Sustentável de Recursos na Pesquisa Clínica: Muitos estudos clínicos exigem o uso de laboratórios, equipamentos, reagentes e outros materiais que podem ter um impacto significativo no meio ambiente. A adoção de práticas de pesquisa sustentáveis pode incluir o uso de tecnologias verdes (como equipamentos com eficiência energética), a reciclagem de materiais sempre que possível e a escolha de métodos que minimizem a pegada de carbono. Pesquisadores, também, podem considerar o impacto ambiental de todas as fases do estudo, desde o planejamento até a disseminação dos resultados, otimizando o uso de recursos e promovendo a reciclageme a reutilização. b. Diversidade e Inclusão em Estudos Clínicos: Um dos principais desafios na pesquisa clínica encontra-se em garantir a representatividade adequada de diversas populações. Incorporar um foco ESG envolve garantir que estudos clínicos recrutem participantes de todas as origens raciais, étnicas, de gênero e socioeconômicas. Isso se mostra essencial para que os resultados dos estudos sejam generalizáveis e reflitam a eficácia e a segurança dos tratamentos para todos os grupos populacionais. Além disso, incluir diversas populações nos ensaios clínicos pode ajudar a identificar variações na resposta ao tratamento, que podem ser críticas para o desenvolvimento de terapias personalizadas. 70 Exemplos de Artigos sobre ESG na Pesquisa Clínica 1. Artigo 1: “Integrating ESG Criteria in Clinical Research: A Framework for Sustainable and Ethical Practices” Este artigo, publicado no Journal of Clinical Research & Bioethics (2023), discute como os princípios de ESG se podem integrar ao desenho e à condução de estudos clínicos. Ele propõe um framework que inclui a seleção de métodos de pesquisa com baixa pegada ambiental, políticas de recrutamento inclusivas e diversificadas e mecanismos de governança que asseguram a transparência e a responsabilidade na publicação de resultados. O artigo enfatiza que a adoção de ESG pode melhorar a confiança pública na pesquisa clínica, ao mesmo tempo em que aumenta a relevância e a aplicabilidade dos estudos. 2. Artigo 2: “The Role of Environmental, Social, and Governance Factors in Clinical Trial Design and Execution” Publicado na The Lancet (2022), este artigo explora como os fatores ESG podem influenciar o desenho e a execução de ensaios clínicos, especialmente em áreas com recursos limitados. O artigo apresenta casos de estudos que demonstraram impactos positivos ao incorporar ESG, como a redução de custos através da eficiência de recursos e o maior engajamento de comunidades locais devido a práticas inclusivas e transparentes. Ele também aborda os desafios e as oportunidades de implementar práticas ESG no ambiente regulatório atual. 71 Referências para consultar e aprofundar! ALLAIN, D. C.; KELLY E. O. Ethical Issues in Genetic and Genomic Research. In: BERLINER, J. Berliner (ed.). Ethical Dilemmas in Genetics and Genetic Counseling: Principles through Case Scenarios. New York: Oxford Academic, New York, p. 186-208, 2014. Disponível em: https://doi. org/10.1093/med/9780199944897.003.0008 Acesso em: 24 jan. 2025. AGÊNCIA SENADO. Senado aprova regras para pesquisas clínicas com seres humanos. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/ materias/2024/04/23/senado-aprova-regras-para-pes- quisas-clinicas-com-seres-humanos Acesso em: 20 ago. 2024. 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Disponível em: https://encyclo- pedia.ushmm.org/content/pt-br/gallery/nazi-medical-ex- periments-photographs. Acesso em: 08 set. 2024. Livro 1 Pesquisa clínica e boas práticas em genética e genômica /bporgbr bp.org.brque permeia os princípios da moral e do direito. A ética traz os princípios que orientam as ações humanas e a capacidade de avaliar as ações morais, uma vez que a moral corresponde ao conjunto de valores individuais e coletivos que orientam a conduta dos homens. A moral encontra-se no campo das ações voluntárias do indivíduo e, como fator também estudado do ponto de vista subjetivo, o direito traz, para o contexto, as questões mais objetivas e práticas, determinando ações obrigatórias perante a lei. 7 Na Tabela 1, apresentam-se diferenças entre Ética, Moral e Direito: Tabela 1 - Explicação comparativa entre os conceitos de Ética, Moral e Direito Fonte: DURANT G. A Bioética: natureza, princípios, objetivos. Disponível em: https://www.ufrgs.br/bioetica/. Acesso em: 12 jan. 2024. CONCEITO DEFINIÇÃO ORIGEM APLICAÇÃO OBJETIVO EXEMPLO Ética Vertente filosófica que busca entender os princípios que orientam o comportamento humano em termos de bem e mal. Filosofia e pensamento crítico. Normas que guiam a conduta de indivíduos e profissionais, de forma geral, em diversas situações. Estabelecer princípios que promovam o bem-estar e a justiça na sociedade. Ética médica: decisões sobre tratamentos que priorizam o bem-estar do paciente. Moral Conjunto de normas, valores e crenças de uma sociedade ou um indivíduo, que orientam o comportamento segundo o que é considerado certo ou errado. Cultura, religião e tradição. Normas internas que guiam o comportamento individual conforme os valores do grupo ou da sociedade. Promover a harmonia social e o convívio baseado em valores compartilhados. Decisão pessoal de ajudar alguém necessitado com base em valores de compaixão. Direito Normas e regras instituídas por uma autoridade competente (Estado) para regular as relações sociais. Autoridade legislativa (Estado). Normas externas e obrigatórias, aplicadas através de leis e de regulamentos. Regular as relações sociais e garantir a ordem e a justiça social. Leis que punem crimes assegurando direitos de propriedade. O Museu Memorial do Holocausto, nos Estados Unidos, mostra, em sua versão online, diversos relatos fotográficos sobre os experimentos realizados, como a aplicação de injeções infectadas com bactérias para o estudo do curso de doenças, ou como outras experiências com a intenção de compreender a capacidade de soldados de guerra, como simulações com os prisioneiros de exposição a temperaturas congelantes, de modo a verificar a capacidade do corpo humano nessas situações (Santos; Nascimento, 2018). Não somente no contexto de guerra, situações incoerentes também aconteciam, como o conhecido “Caso de Tuskegee”. Esse caso foi um estudo que ocorreu entre os anos de 1932 e 1970 nos Estados Unidos com a intenção de acompanhar a evolução natural da sífilis. O estudo aconteceu com a seleção de 600 pessoas negras norte-americanas, sendo que uma parcela delas tinha o diagnóstico da doença e outra não. Por anos, essas pessoas foram seguidas e documentou-se todo o curso da doença, mas, durante a condução do estudo, a comunidade médica iniciou o uso de penicilina para o tratamento de sífilis, porém eles foram privados desse tratamento. No final do estudo, além da privação de tratamento, esposas foram infectadas e crianças nasceram com sífilis congênita (Edgar H, 1992; Goldim, 1999). 8 Entre essas e tantas outras experiências conduzidas de formas absurdas, muitas pessoas sofreram e chegaram à morte para que os pesquisadores encontrassem as respostas que procuravam, alegando que seria para um bem maior no campo da medicina. Mas muitos questionamentos acerca dessas situações começaram a ser discutidos, considerando questões éticas, legais e de moral para que pesquisas pudessem ser realizadas desde que cumprissem requisitos de extrema importância para a proteção dos participantes de pesquisa. Na Figura 1, apresenta-se imagem do período do Experimento Tukesgee, realidade que se transformou no filme “Cobaias”, no inglês, “Miss Ever´s Boys”, de 1997. Figura 1 - “Experimento Tukesgee” Fonte: Disponível em https://observatorio3setor.org.br/cobaias-humanas-400-negros-sofre- ram-ate-a-morte-para-estudo-de-sifilis/ Acesso em: 12 jan. 2025. Com isso, surgiram o Código de Nuremberg (1947) e, alguns anos após, a Declaração de Helsinque (1964) e o Relatório de Belmont (1978) para discutir a importância da autonomia dos participantes de pesquisa e da não maleficência dessa pesquisa para o participante (serão discutidos com maior profundidade no próximo tópico desta apostila). Esses conceitos foram bases para estruturar normas e leis que regulamentam a produção e a execução de projetos de pesquisa, a fim de deixá-las seguras, para que não transgridam os direitos humanos, nascendo, assim, os preceitos de bioética: autonomia, não-maleficência, beneficência, justiça e equidade. 9 Após a Declaração de Helsinque, Joseph Fletcher (1966), professor de ética social, determinou a “Teoria da Ética Situacional”, a qual propõe que se deve avaliar a moralidade de uma ação com base no contexto específico em que ela ocorre, em vez de seguir regras morais absolutas ou universais. Nos anos seguintes, outros estudiosos descreveram diversas questões pautadas nos princípios éticos e, em 1969, Daniel Callahan ofereceu, com os pensamentos da “Ética em Sociedade”, uma perspectiva que equilibra os direitos individuais com as responsabilidades coletivas, propondo que a saúde deve ser entendida como um bem comum. Essas ideias ainda são influentes em debates de saúde coletiva e de bioética, uma vez que destacam a importância de considerar o bem-estar da sociedade como um todo na formulação de políticas de saúde. Eu proponho o termo Bioética como forma de enfatizar os dois componentes mais importantes para se atingir uma nova sabedoria, que é tão desesperadamente necessária: conhecimento biológico e valores humanos (POTTER, V. R., 1971). Em 1970, Van Rensselaer Potter dedicou- se a construir literatura com a finalidade de unir as questões da medicina e a ética de forma multidisciplinar. Em seu livro Bioethics: Bridge to the Future, ele usa o termo “bioética” para discutir o enfrentamento de problemas que envolvem questões de saúde, sustentabilidade e sobrevivência da humanidade, tanto que o termo “ponte para o futuro” é uma metáfora que simboliza a necessidade da relação entre o conhecimento científico e a sabedoria ética para garantir, à humanidade, um futuro sustentável e saudável. Sem essa ponte, a humanidade corre o risco de autodestruição, devido à exploração irresponsável dos recursos naturais e dos avanços tecnológicos não regulados. Por mais que o foco de Potter se aproximasse mais das questões ambientais, não podemos deixar de enfatizar o valor de contribuição para a pesquisa com seres humanos, uma vez que seus pensamentos se relacionam com os princípios de justiça, de equidade e da relação de riscos e de benefícios. 10 A bioética constitui, portanto, uma área multidisciplinar que auxilia as discussões das pesquisas na prática médica, seja com seres humanos ou não. No caso da pesquisa com seres humanos, sua evolução e sua organização para as tomadas de decisões, conectadas com a necessidade de proteger os indivíduos envolvidos em uma pesquisa. A seguir, descrevem-se os princípios que fundamentam a bioética: • Autonomia: Respeito pela capacidade dos indivíduos de tomar decisões informadas sobre sua própria vida e saúde. • Beneficência: A obrigação de agir no melhor interesse dos outros, maximizando benefícios e minimizando danos. • Não-maleficência: A obrigação de não causar dano. • Justiça: A distribuição justa dos benefícios e dos riscos da pesquisa e da prática médica. Fica evidente que, além das questões metodológicas e científicas para construir uma pesquisa,faz-se fundamental que se paute nas questões da bioética, envolvendo, também, normas, diretrizes e leis presentes no contexto em que a pesquisa se desenvolverá. As discussões decorrentes de fatos históricos com o pensar da bioética foram importantes para que uma melhor forma de conduzir pesquisas se estruturasse, considerando a proteção do participante da pesquisa. A seguir, vamos relatar como essa construção se estabeleceu a partir dos contextos históricos que fundamentaram as normativas utilizadas até o momento. 11 2. Boas Práticas em Pesquisa Clínica No tópico anterior, iniciamos uma discussão sobre as questões éticas e a importância da bioética para construir pesquisas com seres humanos. Citaram-se, como marco importante, as questões criminosas que aconteceram durante a Segunda Guerra Mundial com os prisioneiros de guerra, que permitiram que discussões fossem levantadas e regras, estabelecidas. Em 1947, criou-se o Código de Nuremberg em resposta aos experimentos médicos antiéticos realizados durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente pelos nazistas. O objetivo principal do código é proteger os indivíduos que se submeteram a experimentos médicos sem o seu consentimento e garantir que qualquer pesquisa se conduza de maneira ética. Dessa forma, iniciou-se o uso do “consentimento informado”, estabelecendo- se, como obrigatório, o consentimento voluntário do participante da pesquisa, que deve ser plenamente informado sobre a natureza, a duração e o propósito da pesquisa em questão, bem como sobre os métodos e os riscos envolvidos. Com relação aos riscos, o Código de Nuremberg enfatiza que a pesquisa se deve realizar de modo a evitar todo sofrimento físico e mental desnecessário e os benefícios esperados devem justificar os riscos envolvidos, fazendo com que os experimentos existentes no estudo devam ser conduzidos apenas por pessoas qualificadas e cientificamente competentes. Além disso, os participantes devem ter a liberdade de retirar-se do estudo a qualquer momento, enquanto os pesquisadores devem interromper o experimento se houver a probabilidade de causar dano ao participante. Por mais que as intenções do Dr. Krugman e de sua equipe tenham sido pautadas por valores como o avanço da ciência, a busca da cura de uma doença grave, isso, por si só, não foi suficiente para justificar suas ações: viciar a expressão da autonomia da vontade dos pais das crianças na assinatura dos termos de consentimento informado, através das imposições e dos condicionantes, significa atentar contra o mais basilar de todos os direitos humanos que é o direito à vida, ao submeter crianças ao contágio com o vírus da hepatite, sem lhes dar qualquer chance de defesa ou de proteção de sua dignidade de pessoa humana (HOGEMANN, E. R., 2015). 12 Mesmo com toda a comoção e a importância do acontecimento do Código de Nuremberg em 1947, algumas pesquisas que envolviam seres humanos ainda aconteciam de forma controversa. Um caso importante para elucidar esse fato é o “Estudo de Willowbrook”, conduzido pelo médico Saul Krugman e iniciado na década de 1950 nos Estados Unidos. Esse caso envolveu crianças com deficiência mental que foram, propositalmente, infectadas com o vírus da hepatite para que fosse possível estudar a progressão da doença e os efeitos de possíveis tratamentos. Os pais dessas crianças foram persuadidos a dar consentimento sob a promessa de que seus filhos receberiam cuidados em uma instituição que já estava superlotada. Mesmo com as questões já discutidas de termo de consentimento, e prezar pelo bem-estar do participante, esse estudo não ofereceu um consentimento informado genuíno e realizou a exploração de uma população vulnerável para a pesquisa científica. Em resposta à crescente preocupação com a ética na pesquisa médica, especialmente no que diz respeito ao uso de seres humanos em experimentos, surge a “Declaração de Helsinque” no ano de 1964. Esse documento foi elaborado pela Associação Médica Mundial, no inglês, World Medical Association (WMA) durante sua 18ª Assembleia Geral em Helsinque, Finlândia (1964). A Declaração de Helsinque forneceu um conjunto abrangente de princípios éticos para a condução de pesquisas médicas envolvendo seres humanos, incluindo a pesquisa sobre o material humano e os dados identificáveis. Revisa-se essa declaração periodicamente para refletir os avanços na pesquisa médica e nas normas éticas, de acordo com os desenvolvimentos tecnológicos e as necessidades coletivas. Os principais pontos abordados nessa declaração pautam-se no estabelecimento de princípios éticos básicos para a pesquisa médica, enfatizando o respeito pela dignidade humana, os direitos dos participantes e a obrigação dos médicos de colocar a saúde, o bem-estar e os direitos dos participantes em primeiro lugar. Além disso, reforça a importância de dois aspectos já discutidos na década de 1940 em Nuremberg: o consentimento informado e as questões de risco e de benefício. Esses dois pontos garantem que os participantes recebam todas as informações relevantes e que seu consentimento seja dado de forma voluntária. Também assegura que a pesquisa seja conduzida apenas se os benefícios esperados superarem os riscos e que os métodos utilizados minimizem qualquer dano potencial aos participantes. Outras discussões bem importantes a evidenciar dizem respeito às regulamentações para definir o protocolo de pesquisa como o documento que assegura que toda a pesquisa se baseie em um protocolo de estudo claro e detalhado, revisado por um comitê de ética independente antes de iniciar. Isso favoreceu a avaliação de questões de confidencialidade dos dados dos participantes e da equidade, na intenção de promover a justiça na seleção de participantes, garantindo que todos os grupos tenham a oportunidade de participar e de se beneficiar da pesquisa médica quando for o caso. 13 Vale ressaltar que alguns anos após (1966), uma importante publicação foi realizada no The New England Journal of Medicine, com a autoria de Henry K. Beecher, destacando 22 estudos médicos que violavam princípios éticos fundamentais, especialmente no que diz respeito ao consentimento informado dos participantes. Ele argumentou que muitos estudos vinham sendo conduzidos sem a devida consideração pelo bem-estar e pelos direitos dos participantes. Isso elevou, ainda mais, as discussões sobre a importância de monitorar os estudos em condução e o quanto as questões éticas precisam ser revisitadas de tempos em tempos. Devido à exposição dos estudos com má condução do ponto de vista ético, principalmente após o famoso caso de Tuskegee (exemplificado no primeiro tópico deste módulo), o “Relatório de Belmont” (1978) trouxe diretrizes mais claras e abrangentes para regular as pesquisas com seres humanos, enfatizando a não exploração de populações vulneráveis. SINOPSE DO FILME “MISS EVER´S BOYS” “Miss Ever´s Boys" é um drama histórico, de 1997, dirigido por Joseph Sargent e baseado em eventos reais. O filme narra a história do infame estudo de sífilis de Tuskegee, conduzido pelo Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos entre 1932 e 1972. A trama segue a enfermeira Eunice Ever (interpretada por Alfre Woodard), recrutada para trabalhar no estudo, inicialmente sob a promessa de que os participantes, todos homens afro- americanos, receberiam tratamento gratuito para a sífilis. No entanto ela logo descobre que os homens não receberão o tratamento necessário, mas, sim, serão observados para estudar os efeitos não tratados da doença ao longo do tempo. Apesar de suas dúvidas éticas e da crescente conscientização sobre a gravidade do estudo, Miss Ever continua a trabalhar no projeto, tentando justificar sua participação ao cuidar dos homens e acreditar que, de alguma forma, os estáajudando. O filme explora as questões de moralidade, de racismo e a confiança nas instituições de saúde pública. "Miss Ever Boys" é uma poderosa crítica à exploração e à negligência dos direitos dos participantes vulneráveis em pesquisas médicas, refletindo o impacto devastador que o estudo teve nas vidas dos homens envolvidos e na comunidade afro-americana em geral. 14 3. Normativas Éticas: Código de Nuremberg, Declaração de Helsinque Apesar de muitos documentos auxiliares serem fontes de preceitos éticos de pesquisa, houve a necessidade de uma melhor organização de diretrizes mais específicas, uma vez que se foram tornando mais complexas e internacionalizadas. Nesse contexto, em 1990, o International Council for Harmonisation of Technical Requirements for Pharmaceuticals for Human Use (ICH) foi estabelecido como um esforço colaborativo entre as autoridades reguladoras e a indústria farmacêutica dos Estados Unidos, da Europa e do Japão. A tabela 2 resume os três principais documentos, marcos para construir as normas éticas e legais a fim de realizar pesquisas com seres humanos. Tabela 2 - Histórico dos principais documentos de regulação de pesquisa com seres humanos Fonte: Elaboração própria. Código de Nuremberg (1947) Declaração de Helsinque (1964) Relatório de Belmont (1978) Contexto Histórico O Código de Nuremberg foi estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, como uma resposta direta aos abusos cometidos durante o Holocausto. Durante o período nazista, realizaram-se experimentos médicos em prisioneiros sem o consentimento deles, resultando em inúmeros abusos e mortes. O julgamento de Nuremberg expôs esses abusos e levou à formulação de diretrizes para proteger os participantes de pesquisas médicas. A Declaração de Helsinque foi formulada pela Associação Médica Mundial (AMM), como uma resposta às limitações do Código de Nuremberg e às necessidades emergentes da pesquisa médica. O Relatório de Belmont foi publicado em 1978 pela Comissão Nacional para a Proteção de Sujeitos Humanos de Pesquisa Biomédica e Comportamental, nos Estados Unidos. Ele surgiu em resposta a questões éticas relacionadas à pesquisa envolvendo seres humanos, principalmente após escândalos, como o estudo de sífilis de Tuskegee, que envolveu práticas antiéticas Importância Foi um marco crucial na ética da pesquisa com seres humanos. Ele estabeleceu princípios fundamentais, incluindo: Consentimento Informado: Os participantes devem dar seu consentimento voluntário, sem coerção. Benefício para os Participantes: A pesquisa deve trazer benefícios para os participantes e não causar danos desnecessários. Qualidade Metodológica: A pesquisa deve ser baseada em um conhecimento prévio e conduzida de forma científica e ética. Expandiu e detalhou os princípios estabelecidos pelo Código de Nuremberg, oferecendo diretrizes mais específicas para a pesquisa médica. Seus principais impactos incluem: Ética da Pesquisa Clínica: Define, claramente, os requisitos para pesquisas clínicas, incluindo a necessidade de aprovação por comitês de ética e o consentimento informado dos participantes. Proteção dos Participantes: Enfatiza a proteção dos participantes, especialmente em pesquisas envolvendo vulneráveis. Revisão e Monitoramento: Introduziu a necessidade de revisão ética contínua e a supervisão dos estudos clínicos, promovendo uma abordagem mais rigorosa para a proteção dos participantes. Estabeleceu os princípios e as diretrizes que formam a base da ética em pesquisa nos EUA e influenciam práticas internacionais. Os três princípios principais são: Respeito pela Pessoa: Inclui o consentimento informado e o respeito pela autonomia dos participantes. Beneficência: Obriga os pesquisadores a maximizarem os benefícios e a minimizar os riscos para os participantes. Justiça: Assegura que os benefícios e os riscos da pesquisa sejam orientados de forma justa entre todos os grupos envolvidos. 15 A formação do ICH teve, como objetivo, harmonizar as normas técnicas e científicas para desenvolver novos medicamentos, a fim de evitar duplicações desnecessárias de testes em humanos e de reduzir os custos. Alguns anos após, em 1996, o ICH publicou a primeira versão da guideline E6 sobre Boas Práticas Clínicas (BPC), estabelecendo um padrão global para o planejamento, a condução, o monitoramento, a auditoria, o registro, a análise e o relato de estudos clínicos. O documento visava a garantir que os dados dos ensaios clínicos fossem válidos e que os direitos e a segurança dos participantes fossem protegidos. A seguir, destacamos os principais pontos da BPC a cumprir: a. Princípios Éticos • Os ensaios clínicos devem ser conduzidos de acordo com princípios éticos que têm sua origem na Declaração de Helsinque e devem respeitar os direitos, a segurança e o bem-estar dos participantes. Vale lembrar que as nomas e as regulações, vigentes em cada país onde se realiza o estudo, devem ser seguidas. b. Protocolo do Estudo • O protocolo deve ser, claramente, definido, descrevendo o objetivo, a metodologia, o desenho, as considerações éticas e o processo para o consentimento informado. • No protocolo, todas as etapas do estudo devem ser descritas de forma clara. c. Revisão Ética • O protocolo do ensaio clínico deve ser revisado e aprovado por um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) ou pela Comissão de Revisão Institucional (IRB), que garante a proteção dos direitos e o bem-estar dos participantes. d. Proteção da Comunidade e Responsabilidade Social • Benefícios para a Comunidade: Garantir que a pesquisa tenha relevância e contribua para o avanço do conhecimento e a melhoria da saúde pública. • Responsabilidade Social: Considerar as implicações sociais e éticas da pesquisa e agir de forma a promover o bem-estar social e comunitário. e. Consentimento Informado • Os participantes devem ser, plenamente, informados sobre o estudo, incluindo seus riscos e os benefícios potenciais e devem fornecer consentimento livre e esclarecido antes de participar. f. Responsabilidades dos Pesquisadores • Os investigadores devem ter as qualificações e a experiência adequadas para conduzir o ensaio e são responsáveis pela condução ética e científica do estudo. 16 g. Responsabilidades dos Patrocinadores • O patrocinador do estudo é responsável pelo desenho do estudo, pela qualidade dos dados coletados e pela conformidade com as regulamentações locais e internacionais. h. Capacitação e Competência da Equipe • Treinamento: Assegurar que toda a equipe envolvida na pesquisa receba treinamento adequado e tenha as qualificações necessárias. • Responsabilidade: Garantir que os pesquisadores e outros membros da equipe se responsabilizem por suas ações e cumpram os padrões éticos e científicos. i. Seleção e Proteção dos Participantes • Deve-se garantir que se selecionem, adequadamente, os participantes com base em critérios científicos e éticos e que se monitore sua segurança ao longo do estudo. j. Confidencialidade dos Dados • As informações pessoais dos participantes devem-se tratar com confidencialidade, enquanto os dados do estudo se devem armazenar de forma segura. k. Documentação e Relatórios • Todo estudo clínico deve-se documentar de forma detalhada, incluindo o desenvolvimento do protocolo, o processo de consentimento, a coleta e a análise de dados, além da comunicação dos resultados. l. Monitoramento, Auditoria e Inspeção • Os ensaios clínicos devem ser monitorados e auditados para garantir que se conduzam de acordo com o protocolo aprovado, as boas práticas clínicas e as regulamentações aplicáveis. m. Manuseio de Medicamentos Investigacionais • Medicamentos investigacionais devem ser gerenciados com rigor, garantindo que eles sejam armazenados, distribuídos e administrados de acordo com as diretrizes estabelecidas no protocolo. n. Gerenciamento de Dados • Devem-segerir os dados do ensaio de forma a garantir sua precisão, sua integridade e sua conformidade com os requisitos regulatórios. • Os dados devem estar seguros, preservando a confidencialidade. 17 o. Relatórios de Segurança • Faz-se obrigatório relatar eventos adversos e incidentes críticos que ocorrem durante o estudo, garantindo, como prioridade, a segurança dos participantes. p. Conclusão e Relatório do Estudo • Após a conclusão do estudo, um relatório final deve ser compilado, detalhando os resultados e as conclusões que devem ser divulga dos de forma transparente. q. Transparência e Divulgação • Relatórios de Resultados: Publicar os resultados da pesquisa, tanto positivos quanto negativos, para garantir a transparência e a disseminação do conhecimento. • Conflitos de Interesse: Declarar qualquer potencial conflito de interesse que possa influenciar a condução ou os resultados do estudo. Com a definição da BPC, estabeleceram- se uma padronização internacional e uma base comum para conduzir as pesquisas clínicas internacionalmente, facilitando o reconhecimento mútuo de ensaios clínicos entre diferentes países e regiões. Além disso, visa-se a garantir a proteção dos participantes ao exigir a adesão a princípios éticos rigorosos, ajudando a prevenir a repetição de abusos e a garantir que se respeitem os direitos e a segurança dos participantes de pesquisas. Além do documento mundialmente conhecido, cada país possui suas normas e legislações vigentes para salvaguardar as questões éticas e legais de pesquisa, garantindo o respeito à sua realidade econômica, social e populacional. No Brasil, existem diversas normativas éticas que regulamentam a prática da pesquisa. Veremos a seguir as principais delas. Recomendamos a leitura do manual como complemento dos seus estudos! bit.ly/4hOQdIM Boas Práticas Clínicas ICH6 Guia https://bit.ly/4hOQdIM 18 4. Normativas Éticas Nacionais: Resolução nº 196/96, nº 466/2012, nº 510/2016, PL 6007/2023 As normativas éticas nacionais constituem diretrizes e regulamentações criadas para assegurar que a pesquisa com seres humanos no Brasil se conduza de maneira ética e responsável. Essas normas protegem os direitos, a segurança e o bem-estar dos participantes da pesquisa, além de garantir a integridade científica dos estudos. Abaixo, descrevem-se algumas das principais normativas éticas nacionais brasileiras e seus propósitos: a. Resolução nº 196/96 A Resolução 196/96, publicada no ano de 1996 pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), constituiu um marco importante na regulação ética de pesquisas com seres humanos no Brasil. Ela foi a primeira diretriz abrangente que estabeleceu diretrizes e normas para garantir a proteção dos direitos, a segurança e o bem-estar dos participantes de pesquisas científicas. Nessa resolução, definem-se os princípios éticos fundamentais, como o respeito pela dignidade humana, a beneficência, a não-maleficência, a justiça e a autonomia. Como se vê, enfatizam-se os conceitos já discutidos pela bioética e que se fazem de extrema importância no contexto de pesquisa. Além disso, descrevia-se a necessidade de criar Comitês de Ética em Pesquisa para revisar e aprovar todos os projetos de pesquisa envolvendo seres humanos. Assim como os outros documentos já elaborados em outros países, a Resolução 196/66 enfatiza a necessidade de obter o consentimento informado dos participantes, assegurando que eles estejam, plenamente, cientes dos objetivos, dos procedimentos, dos riscos e dos benefícios da pesquisa e que reconhecem a existência de grupos vulneráveis. Devido às necessidades de atualizações advindas de novas demandas científicas e sociais, a Resolução 196/96 não é mais vigente e foi substituída pela Resolução 466/12 que veremos a seguir. Atenção! Vulnerabilidade - estado de pessoas ou grupos que, por quaisquer razões ou motivos, tenham a sua capacidade de autodeterminação reduzida ou impedida, ou de qualquer forma estejam impedidos de opor resistência, sobretudo no que se refere ao consentimento livre e esclarecido. Apesar de não estar mais vigente, essa resolução ganha destaque como um marco importante para a regulamentação de estudos brasileiros, assegurando as questões essenciais de bioética e protegendo-se os participantes de pesquisa. 19 b. Resolução nº 466/2012 A Resolução nº 466/2012 atualiza e substitui a Resolução nº 196/96, trazendo algumas diferenças. O Conselho Nacional de Saúde (CNS) traz a seguinte nota no dia de sua publicação: A resolução nº 466/2012 que trata de pesquisas e testes em seres humanos foi publicada ontem, dia 13 de junho, no Diário Oficial da União. A resolução foi aprovada pelo Plenário do Conselho Nacional de Saúde (CNS) na 240ª Reunião Ordinária, em dezembro de 2012. Diretrizes e normas regulamentadoras estabelecidas na resolução devem ser cumpridas nos projetos de pesquisa envolvendo seres humanos que devem, ainda, atender aos fundamentos éticos e científicos também elencados na resolução nº 466/ 2012 do CNS. Dentre as exigências da resolução, está a obrigatoriedade de que os participantes, ou representantes deles, sejam esclarecidos sobre os procedimentos adotados durante toda a pesquisa e sobre os possíveis riscos e benefícios. A resolução traz termos e condições a serem seguidos e trata do Sistema CEP/CONEP, integrado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP/CNS/MS do CN) e pelos Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) compondo um sistema que utiliza mecanismos, ferramentas e instrumentos próprios de inter- relação que visa à proteção dos participantes de pesquisa. A resolução incorpora, sob a ótica do indivíduo e das coletividades, referenciais da bioética, tais como autonomia, não maleficência, beneficência, justiça e equidade, dentre outros, e visa a assegurar os direitos e os deveres dos participantes da pesquisa (Conselho Nacional de Saúde, 2012). De forma geral, essa resolução reforça e detalha os princípios éticos da pesquisa com seres humanos, incluindo o respeito pela autonomia, a beneficência, a não- maleficência, a justiça e a equidade, detalhando, de forma mais específica, as exigências para o processo de consentimento informado, enfatizando a clareza e a acessibilidade da informação fornecida aos participantes. 20 A resolução 466/12 traz, no seu item de processo de consentimento do sujeito da pesquisa, a necessidade de um convite para que se possa manifestar de forma autônoma, consciente, livre e esclarecida com o tempo adequado e necessário para que decida se quer, ou não, participar. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) constitui documento que deve ser elaborado em duas vias iguais, uma para o participante e outra para o pesquisador, após a assinatura de ambos. Quanto ao conteúdo do TCLE é obrigatório que contenha: a. justificativa, os objetivos e os procedimentos que serão utilizados na pesquisa, com o detalhamento dos métodos a serem utilizados, informando a possibilidade de inclusão em grupo controle ou experimental, quando aplicável; b. explicitação dos possíveis desconfortos e riscos decorrentes da participação na pesquisa, além dos benefícios esperados dessa participação e apresentação das providências e cautelas a serem empregadas para evitar e/ou reduzir efeitos e condições adversas que possam causar dano, considerando características e contexto do participante da pesquisa; c. esclarecimento sobre a forma de acompanhamento e assistência a que terão direito os participantes da pesquisa, inclusive considerando benefícios e acompanhamentos posteriores ao encerramento e/ ou a interrupção da pesquisa; d. garantia de plena liberdade ao participante da pesquisa, de recusar-se a participar ou retirar seu consentimento, em qualquer fase dapesquisa, sem penalização alguma; e. garantia de manutenção do sigilo e da privacidade dos participantes da pesquisa durante todas as fases da pesquisa; f. garantia de que o participante da pesquisa receberá uma via do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido; g. explicitação da garantia de ressarcimento e como serão cobertas as despesas tidas pelos participantes da pesquisa e dela decorrentes; e h. explicitação da garantia de indenização diante de eventuais danos decorrentes da pesquisa (Resolução 466, 2012, p.5). 21 Termo de Assentimento O termo de assentimento, segundo a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, consiste em documento utilizado em pesquisas que envolvem participantes menores de idade (ou incapazes de dar consentimento de maneira plena, como em casos de pessoas com deficiência mental ou em situação de vulnerabilidade). Esse termo é complementar ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que deve ser assinado pelo responsável legal do participante. O termo de assentimento, por sua vez, destina-se, diretamente, ao participante, devendo ser escrito em linguagem acessível e adequada à sua capacidade de compreensão, para que ele possa entender a natureza da pesquisa, seus objetivos, os procedimentos, os riscos, os benefícios e o direito de recusar a participação ou de retirar seu assentimento a qualquer momento. A Resolução 466/2012 enfatiza que o assentimento (TA) deve ser voluntário e informado, ou seja, o participante menor de idade, ou incapaz, deve concordar com a sua participação após ter sido esclarecido sobre todos os aspectos da pesquisa, respeitando sua autonomia, sua dignidade e seus direitos. Portanto a obtenção do assentimento consiste em processo ético essencial, que visa a garantir que o participante tenha compreendido as informações e que sua participação seja, verdadeiramente, voluntária. A depender do público de interesse e dos procedimentos de pesquisa, é preciso ter diversos modelos de TA: para menores de 7 anos, crianças de 7 a 12 anos e crianças de 12 a 17 anos (considerando as linguagens aplicadas para comunicação). O TA só pode ser aplicado após o consentimento e a assinatura de TCLE pelos pais ou responsáveis pela criança. Caso, por exemplo, o estudo preveja apenas coleta de informações de prontuário, não se faz necessário assentir a criança menor de 7 anos; entretanto, na previsão de procedimentos invasivos ou da necessidade de exames/avaliações, o TA é necessário em todas as idades. 22 Olá! Meu nome é Silvana Soares dos Santos, eu sou enfermeira pesquisadora. Estou fazendo uma pesquisa para aprender mais sobre câncer nas crianças. Para você entender, o câncer é uma doença que acontece por um defeito, um probleminha nas células do corpo. Sabe o que é célula? Pois bem: imagina que nosso corpo é como uma casa, como a sua casa. Sua casa é feita de paredes e estas paredes são feitas de tijolos. Então, nossas células são os tijolinhos do nosso corpo! E esses tijolinhos se juntam para formar nossos órgãos: o olhinho, o coração, a perna. Quando temos um probleminha no tijolinho do nosso corpo, o câncer aparece. Pode ser que a gente precise coletar um pouco de sangue e, para isso, vai ser preciso dar uma picadinha no seu braço. Eu sei, isso dói um pouquinho, mas só vamos fazer se for preciso. Caso o médico e a enfermeira que estejam cuidando de você precisem te dar algum remedinho ou colher sangue, vamos aproveitar este momento para que não doa tanto, está bem? Mas, se doer, você pode chorar, ou podemos tentar um outro dia, ou você pode não querer, está bem? Importante! Você não precisa participar se não quiser. Pode parar a qualquer momento, sem problema nenhum. Se você não entender alguma coisa, pode perguntar para mim ou para o seu papai ou mamãe. Gostaria de convidar você para participar desta pesquisa. Isso significa que eu vou fazer algumas perguntas e, talvez, brincar ou jogar alguns jogos simples com você. Você não precisa fazer nada que não queira. Se em algum momento, você não quiser continuar, é só dizer “não quero mais” e você pode parar. Se você quiser, faça um círculo na carinha feliz; se você não quiser, faça um círculo na carinha brava: Muito obrigada por escutar! Eu vou assinar aqui e você pode fazer assinar seu nome embaixo ou fazer um desenho que queira! Eu já falei com o seu papai ou mamãe sobre isso e eles disseram que tudo bem você participar, mas agora estou te perguntando: você quer participar? Ninguém vai ficar chateado contigo se você não quiser, certo? TERMO DE ASSENTIMENTO PARA CRIANÇAS MENORES DE 7 ANOS Pesquisador ou Responsável pelo consentimento SSilvanaS Meu Amigo Data: 04/04/2024 Observação: Embora esse termo seja voltado para a criança, o responsável legal deve assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e, também, ser informado sobre todos os detalhes do estudo. 23 Assistência Integral A assistência integral refere-se ao direito dos participantes de pesquisa de receberem todo o suporte médico e psicológico necessário durante e após a participação no estudo. Isso inclui tratamento para qualquer efeito adverso ou complicação que surja em decorrência da pesquisa. Este direito garante que os participantes não sejam abandonados ou deixados sem suporte, caso ocorram eventos adversos durante o estudo. A assistência integral constitui uma forma de proteger a saúde e o bem-estar dos participantes. Indenização e Ressarcimento Referem-se ao direito dos participantes de receberem compensação em caso de danos, ou de lesões causadas pela pesquisa. Isso pode incluir compensação financeira, ou outras formas de reparação. Esse direito assegura que os participantes sejam justiçados, caso sofram prejuízos em razão da pesquisa. O princípio da justiça mostra-se fundamental aqui, garantindo que ninguém seja prejudicado sem a devida compensação. Sugestão de texto para TCLE “Ao assinar este Termo de Consentimento Livre e Esclarecido você não está abrindo mão de qualquer um dos seus direitos legais, incluindo o direito à indenização em caso de danos decorrentes da sua participação nesse estudo. Você tem assegurado o direito de receber assistência integral e imediata, de forma gratuita, pelo tempo que for necessário em caso de danos decorrentes de sua participação nesta pesquisa. Embora não estejam previstas visitas na instituição para fins de pesquisa, caso isso ocorra, o pesquisador se compromete a fornecer ressarcimento de todos os gastos (por exemplo, alimentação e transporte) para você e seu acompanhante, quando aplicável.” 24 Baseado na Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, itens II. 3.2 E II. 7. Um ponto importante que, apesar de citado na resolução antecessora, tem melhor evidência na estrutura de funcionamento do Comitê de Ética em Pesquisas e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), garantindo maior rigor na revisão ética dos projetos. A intenção é explicar como a estrutura CEP e CONEP se articulam a fim de avaliar os projetos para que a proteção dos participantes de pesquisa se encontre garantida. Nos próximos módulos, teremos as descrições mais detalhadas sobre cada ponto abordado na resolução 466/12, uma vez que ela funciona como uma das norteadoras da realização de pesquisas no Brasil. Neste momento, estamos ressaltando a importância de sua existência, os principais pontos para abordar na pesquisa com seres humanos. Esse é um preparatório para discussões mais aprofundadas nos módulos subsequentes, por isso a leitura da resolução na íntegra se mostra fundamental nesse momento. Recomendamos a leitura da Norma, para desenvolvimento de outros temas ao longo do curso. bit.ly/3F6UZTm RESOLUÇÃO Nº 466 Resolução nº 510/2016 A Resolução nº 510/2016 detalha diretrizes para pesquisas em ciências sociais e humanas, reconhecendo a necessidadede uma abordagem diferenciada para essas áreas de estudo, trazendo as particularidades que a diferem das pesquisas biomédicas. As diretrizes dispostas para métodos qualitativos de estudo demonstram um avanço para os saberes diversos, uma vez que respeitam a natureza interativa e contextual desses estudos. Lordelo; Silva (2017) descrevem um panorama geral dessa resolução e relatam que existem potenciais importantes para essa área de estudos. No artigo, relata-se a consideração de formas diversificadas para a comunicação do Consentimento Livre e Esclarecido, podendo ser por gestos, por escrita, por expressão oral, considerando as características individuais, tanto do participante quanto da abordagem metodológica. Pesquisa em ciências humanas e sociais: aquelas que se voltam para o conhecimento, compreensão das condições, existência, vivência e saberes das pessoas e dos grupos, em suas relações sociais, institucionais, seus valores culturais, suas ordenações históricas e políticas e suas formas de subjetividade e comunicação, de forma direta ou indireta, incluindo as modalidades de pesquisa que envolvam intervenção. https://bit.ly/3F6UZTm 25 A elaboração dessa resolução constitui exemplo da dinamicidade das avaliações éticas em pesquisa, que precisam estar, sempre, no processo de atualização e de reavaliação, uma vez que as pesquisas com seres humanos se envolvem em contextos que diferem no tempo, como questões políticas, sociais, culturais e tecnológicas. Principais pontos: • Enfoque nas Ciências Humanas e Sociais: A Resolução 510/2016 aplica-se a pesquisas que utilizam metodologias e abordagens típicas das Ciências Humanas e Sociais, como entrevistas, observação participante, aplicação de questionários, uso de dados disponíveis em arquivos públicos, entre outros. Seu objetivo é adequar os princípios éticos ao contexto dessas pesquisas, que, geralmente, apresentam menor risco físico aos participantes, mas podem envolver questões como privacidade e confidencialidade. • Dispensa de Avaliação pelo CEP: Algumas pesquisas podem ser dispensadas da avaliação pelos Comitês de Ética em Pesquisa (CEP), especialmente quando envolvem dados públicos, disponíveis de forma irrestrita e não-identificados, ou atividades exclusivamente de ensino, sem a finalidade de gerar conhecimento generalizável. • Consentimento Livre e Esclarecido: A resolução reforça a necessidade do Consentimento Livre e Esclarecido dos participantes, adaptando sua forma ao contexto e aos métodos da pesquisa. Em certas circunstâncias, como em pesquisas etnográficas ou com populações vulneráveis, o consentimento pode ser obtido de forma oral ou adaptada ao contexto cultural do grupo estudado. • Proteção à Privacidade e Confidencialidade: Estabelece normas claras sobre a proteção da privacidade e a confidencialidade das informações coletadas durante a pesquisa. Isso inclui o uso de pseudônimos ou codificação de dados para proteger a identidade dos participantes. • Participação de Grupos Vulneráveis: Define normas específicas para a pesquisa com populações vulneráveis, como indígenas, crianças, adolescentes, pessoas com deficiências, entre outras, ressaltando a necessidade de respeitar os contextos culturais e sociais dos participantes. • Valorização da Autonomia: A resolução enfatiza a autonomia dos participantes da pesquisa, o que significa que a decisão de participar deve ser voluntária, informada e sem qualquer forma de coerção ou indução. • Descentralização da Análise Ética: A resolução também propõe uma descentralização da análise ética, incentivando que as análises se realizem por CEPs, com expertise nas áreas específicas das ciências humanas e sociais, a fim de garantir uma compreensão mais adequada das metodologias e dos contextos das pesquisas. 26 bit.ly/4gZCaz0 RESOLUÇÃO Nº 510 A Resolução 510/2016 mostra-se fundamental para garantir que as pesquisas em Ciências Humanas e Sociais no Brasil se conduzam de maneira ética, respeitando os direitos dos participantes e adaptando os princípios de ética em pesquisa ao contexto específico dessas disciplinas. Ela promove maior flexibilidade nas diretrizes, considerando a diversidade de metodologias e de abordagens utilizadas nessas áreas. Recomendamos a leitura da Norma para aprofundarmos o conteúdo. Figura 2 - Mapa mental da Resolução 466/12 Resolução 466/12 Privacidade Equidade Não maleficência Justiça Autonomia Visa a proteção dos participantesDos aspectos éticos Sistema CEP e CONEP Riscos e Benefícios Protocolo de pesquisa Processo de Consentimento Avaliar protocolo de pesquisa Papel consultivo e educativo Estimula participação popular Examina aspectos éticos de pesquisa Termo de consentimento livre e esclarecido Termo de assentimento livre e esclarecido O protocolo a ser submetido à revisão ética somente será apreciao se for apresentada toda documentação solicitada pelo Sistema CEP/CONEP, considerada a natureza e as especificidades de cada pesquisa. Benefícios maiores que os riscos. Assistência integral e imediata se necessário. Dano associado e indenização. Fonte: Elaboração própria. https://bit.ly/4gZCaz0 27 Projeto de Lei (PL) 6007/2023 O Projeto de Lei 6007/ 2023 visa a atualizar e a consolidar as diretrizes éticas para a pesquisa com seres humanos no Brasil, trazendo algumas mudanças, especialmente, nessa área. No documento, como um todo, mantiveram-se as questões relacionadas aos aspectos éticos e ao processo de consentimento de um modo geral, como preconizado nas resoluções anteriores. As mudanças voltam-se às questões de regulação de sistema CEP- CONEP e nos procedimentos relacionados à garantia de acompanhamento e de tratamento dos participantes da pesquisa após o término do estudo. Muitos pesquisadores dividem-se quanto às mudanças: enquanto alguns acreditam que elas são promissoras para o avanço da realização de estudos no Brasil, outros se preocupam com as questões éticas e de proteção aos participantes. Aqui, vamos discutir sobre as mudanças trazendo esses pontos de modificação para que possamos entender, de forma crítica, as mudanças e suas ambivalências. Anteriormente, a regulamentação focava- se, principalmente, em pesquisas na área da saúde. Com a nova lei, qualquer área do conhecimento pode ser objeto de pesquisa clínica. Por exemplo, agora, faz-se possível conduzir ensaios clínicos que explorem intervenções em áreas como educação ou psicologia, utilizando metodologias robustas, antes restritas à saúde (Agência Senado Federal, 2024). Outro ponto que se tem enfatizado da PL 6007/2023 diz respeito ao estabelecimento de um prazo de 90 dias para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) analisar pedidos de ensaios clínicos. Antes, não se havia estabelecido, muito bem, qual o prazo estipulado. A ideia dessa mudança veio com a intenção de viabilizar, de forma mais rápida e padronizada, a avaliação de ensaios clínicos e a liberação de novos medicamentos para testes em humanos em um período mais curto, podendo facilitar o acesso a tratamentos experimentais (Agência Senado Federal). Houve, também, uma alteração nas questões voltadas para o sistema de funcionamento entre CEP-CONEP, um dos pontos mais polêmicos. Antes da proposta da PL 2007/2023, em pesquisas multicêntricas, por exemplo, cada centro de pesquisa participante precisava submeter o protocolo ao seu próprio Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) para revisão e aprovação. Isso significava que o protocolo da pesquisa precisava ser analisado individualmente por cada CEP das instituições envolvidas. A PL 6007/2023 traz a descentralização e uma suposta simplificação do processo de aprovação de pesquisas multicêntricas. Veja o 5º parágrafo da sessão III dessa PL sobre o processo de análise ética de pesquisa: § 5º A análiseética da pesquisa que envolva mais de um centro de pesquisa no País será realizada por um único CEP, preferencialmente aquele vinculado ao centro coordenador da pesquisa, que emitirá o parecer e notificará os CEPs dos demais centros participantes da sua decisão, que deverá ser observada por todos e garantirá o apoio necessário aos participantes da pesquisa (PL600, 2023, p. 20). 28 Esse parágrafo traz uma mudança importante, uma vez que a análise ética centraliza-se em um único CEP, preferencialmente o vinculado ao centro coordenador da pesquisa. Esse CEP emitiria, portanto, um parecer válido para todos os centros participantes. Os CEPs dos outros centros seriam apenas notificados dessa decisão e não precisariam fazer uma nova análise. A intenção foi simplificar o processo, reduzindo o tempo de aprovação e garantindo a uniformidade nas decisões éticas. Apesar da tentativa de agilidade em processos, muitos pesquisadores vêm considerando algumas preocupações, como a redução da diversidade de perspectivas éticas, uma vez que cada CEP tem um conhecimento contextual específico de sua instituição e da comunidade local, o que pode enriquecer a avaliação ética e garantir que a pesquisa se conduza de forma adequada para diferentes populações e realidades locais, podendo resultar em riscos aos participantes dos estudos. Além das questões processuais dos CEPs, há, também, uma discussão sobre fornecer tratamento após a finalização das pesquisas, especialmente o acesso contínuo a tratamentos eficazes identificados durante o estudo. O que a legislação brasileira trazia era a exigência, aos patrocinadores das pesquisas, de fornecerem o tratamento aos participantes por um período indefinido, enquanto for benéfico. Agora, a nova PL propõe que esse fornecimento possa ser limitado a um período de cinco anos. Essa proposta trouxe grandes preocupações, uma vez que muitos argumentam que cinco anos podem ser insuficientes para garantir a saúde e o bem-estar dos participantes que se beneficiaram do tratamento experimental. Além disso, alguns pesquisadores apontam que essa mudança poderia afetar, de maneira negativa, a confiança do público nas pesquisas clínicas realizadas no Brasil, já que os participantes poderiam ser deixados sem tratamento após esse período, mesmo que ele tenha sido essencial para a sua condição de saúde. Com outra visão da PL, pesquisadores argumentam que essa medida busca equilibrar a responsabilidade dos patrocinadores pela sustentabilidade econômica dos estudos clínicos, evitando que o alto custo de tratamentos contínuos desestimule investimentos em pesquisa no país. Em março de 2024, a coordenação do CONEP emitiu uma carta discutindo as questões controversas da PL 6007/2023 e enfatizando a importância de que diferentes órgãos reguladores conversem e discutam sobre as questões que possam dar brechas às situações que interferem nas questões éticas, burocráticas e econômicas. 29 Veja um trecho, a seguir, desse documento: (...) Representantes do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Ministério da Saúde (MS) e da Conep estão em diálogo e negociação com os Senadores, para que estimulem o debate sobre o texto do PL6007, visando a identificar alternativas para que seja contemplada a demanda quanto à segurança jurídica na realização de pesquisas, sem, no entanto, colocar em risco os direitos e a segurança dos participantes de pesquisas, salvaguardando os recursos do SUS. Dessa forma, contamos com os integrantes do Sistema CEP/Conep e os que defendem o desenvolvimento científico sustentado pela bioética, para que, juntos, possamos debater publicamente sobre o PL 6007/2023, em todos os espaços de formação e informação, e fazer conhecer aos Senadores e Senadoras de cada Estado, a importância do trabalho realizado pelo Sistema CEP/Conep e os riscos que estão envolvidos na eventual aprovação do PL 6007/2023. A Conep se disponibiliza para participar de eventos e de audiências públicas visando a ampliar a comunicação e o conhecimento sobre o PL 6007/2023 (Conselho Nacional de Ética em Pesquisa, SEI/ MS - 0039318502 – Comunicado, p. 3). O Projeto de Lei 6007/2023 foi aprovado pelo Senado Federal em 23 de abril de 2024, e está, atualmente, aguardando a sanção presidencial (até o presente momento de confecção deste material). Discussões ainda vêm acontecendo, demonstrando que o fazer de pesquisa é dinâmico e as questões éticas caminham nessa dinamicidade, influenciadas pelas questões das vertentes da moral, do direito e das realidades econômicas e sociais. 30 • Simplificação e Agilidade no Processo de Aprovação: Uma das principais mudanças trazidas pelo projeto diz respeito à simplificação e à desburocratização do processo de aprovação de pesquisas clínicas no Brasil. Ele propõe prazos máximos para a análise e a emissão de pareceres por parte dos CEPs e da CONEP, com o objetivo de tornar o Brasil mais competitivo internacionalmente em termos de pesquisa e de desenvolvimento de novos medicamentos, novas vacinas e novas tecnologias de saúde. • Harmonização com Normas Internacionais: O projeto busca harmonizar a regulamentação brasileira de pesquisa clínica com as normas internacionais, como as diretrizes da Declaração de Helsinki e as boas práticas clínicas (Good Clinical Practice - GCP), reconhecidas mundialmente. Essa harmonização visa a facilitar a cooperação internacional, a aumentar a confiança nos dados de pesquisa gerados no Brasil e a atrair investimentos globais para o setor. • Transparência e Acesso aos Resultados: Promove maior transparência nos resultados das pesquisas clínicas, estabelecendo a obrigatoriedade de registro dos estudos em uma base pública nacional e internacionalmente reconhecida, além de assegurar o acesso público aos resultados, independentemente de serem positivos ou negativos. Principais pontos de atenção do Projeto de Lei 6007/2023: • Objetivo e Abrangência: O projeto tem, como objetivo principal, regulamentar todas as atividades relacionadas à pesquisa clínica em seres humanos no Brasil, promovendo a proteção dos direitos dos participantes, garantindo a qualidade científica dos estudos e estimulando a inovação e o desenvolvimento de novas tecnologias de saúde. • Direitos dos Participantes: Reforça a importância da proteção dos direitos dos participantes de pesquisa, estabelecendo requisitos claros para o Consentimento Livre e Esclarecido. Deve-se redigir o termo de forma acessível, explicando, claramente, os riscos, os benefícios, os procedimentos e o direito de desistência sem prejuízo. O projeto, também, estabelece medidas específicas para a proteção de grupos vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas com deficiência. • Papel dos Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs) e da CONEP: O projeto define novas diretrizes para a atuação dos Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs) e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP). Visa a descentralizar e a agilizar os processos de aprovação ética, mantendo um alto padrão de avaliação para proteger os participantes e para garantir a qualidade ética e científica das pesquisas. 31 • Incentivo à Inovação e à Pesquisa: O projeto, também, contém disposições que incentivam a inovação, criando mecanismos para promover parcerias público-privadas e para facilitar a condução de estudos clínicos no Brasil, atraindo mais investimentos no setor. • Sanções e Penalidades: Estabelece um conjunto de sanções e de penalidades para infrações relacionadas às pesquisas clínicas, com o intuito de assegurar a conformidade às normas estabelecidas. Essas penalidades podem variar desde advertências até multas significativas, dependendo da gravidade da infração. Impactos do Projeto de Lei 6007/2023 • Para os Pesquisadores e as Instituições de Pesquisa: A nova legislação promete agilizar o processo de aprovação de estudos, reduzira burocracia e aumentar a previsibilidade e a segurança jurídica, favorecendo um ambiente mais propício para realizar pesquisas clínicas. • Para os Participantes: Fortalece os direitos e as garantias dos participantes, aumentando a transparência e assegurando a condução das pesquisas de maneira ética e responsável. • Para o Setor de Saúde e a Indústria Farmacêutica: Com regras mais claras e um processo de aprovação mais ágil, o Brasil torna-se ambiente mais competitivo para realizar pesquisas clínicas, atraindo mais investimentos e estimulando a inovação no setor. O Projeto de Lei 6007/2023, ao entrar em vigor, marca passo importante para fortalecer a pesquisa clínica no Brasil, alinhando o país às melhores práticas internacionais e buscando o equilíbrio entre a proteção dos participantes e a promoção da ciência e da inovação em saúde. Entretanto, ainda, não temos a regulamentação e as respostas de como algumas ações se irão desenrolar, tampouco como e quando o sistema Plataforma Brasil, usado para a submissão ética dos projetos, irá ajustar-se para contemplar todas as mudanças. Cenas para próximos capítulos! Acompanhe as discussões! 32 5. Epidemiologia: Tipos de Estudos e Níveis de Evidência A palavra “epidemiologia” deriva-se dos termos gregos: epi “sobre”, demos “povo” e logos “estudo”. Constitui a ciência que estuda a distribuição e os determinantes de condições de saúde e de doenças em populações específicas e a aplicação desse estudo para controlar problemas de saúde. Ela investiga como fatores ambientais, biológicos, sociais, comportamentais e genéticos influenciam a saúde e a doença. A epidemiologia mostra-se fundamental para a saúde pública, pois fornece informações essenciais para a prevenção de doenças, o controle de surtos, a formulação de políticas de saúde e a melhoria dos sistemas de saúde. De acordo com Bonita; Beaglehole; Kjellström, 2006, p. 1. A epidemiologia originou-se das observações de Hipócrates feitas há mais de 2000 anos de que fatores ambientais influenciam a ocorrência de doenças. Entretanto foi somente no século XIX que a distribuição das doenças em grupos humanos específicos passou a ser medida em larga escala. Isso determinou não somente o início formal da epidemiologia como também as suas mais espetaculares descobertas. Os achados de John Snow de que o risco de contrair cólera em Londres estava relacionado ao consumo de água proveniente de uma determinada companhia, (...) foram apenas um dos aspectos de uma série abrangente de investigações que incluiu o exame de processos físicos, químicos, biológicos, sociológicos e políticos. 33 Primeiras observações epidemiológicas “John Snow identificou o local de moradia de cada pessoa que morreu por cólera em Londres entre 1848-49 e 1853-54 e notou uma evidente associação entre a origem da água utilizada para beber e as mortes ocorridas. A partir disso, Snow comparou o número de óbitos por cólera em áreas abastecidas por diferentes companhias e verificou que a taxa de mortes foi mais alta entre as pessoas que consumiam água fornecida pela companhia Southwark. Baseado nessa sua investigação, Snow construiu a teoria sobre a transmissão das doenças infecciosas em geral e sugeriu que a cólera era disseminada através da água contaminada. Dessa forma, foi capaz de propor melhorias no suprimento de água, mesmo antes da descoberta do micro-organismo causador da cólera; além disso, sua pesquisa teve impacto direto sobre as políticas públicas de saúde. O trabalho de Snow relembra que medidas de saúde pública, tais como melhorias no abastecimento de água e saneamento, têm trazido enormes contribuições para a saúde das populações. Ficou, ainda, demonstrado que, desde 1850, estudos epidemiológicos têm identificado medidas apropriadas a serem adotadas em saúde pública. Entretanto epidemias de cólera são ainda frequentes nas populações pobres, especialmente em países em desenvolvimento. Em 2006, houve, em Angola, 40 mil casos de cólera com 1.600 óbitos, enquanto no Sudão foram 13.852 casos e 516 mortes, somente nos primeiros meses do mesmo ano”. Trecho retirado do livro mencionado anteriormente. Figura 3 - Óbitos por cólera na área central de Londres, setembro de 1854 Fonte: mapa extraído de Bonita; Beaglehole; Kjellström, 2006. Disponível em https://iris.who.int/bitstream/hand- le/10665/43541/9788572888394_por.pdf?sequence=5&isAllowed=y. Acesso em: 12 jan. 2025. 34 Principais Áreas da Epidemiologia • Epidemiologia Descritiva: Foca em descrever a ocorrência de doenças e as condições de saúde em termos de tempo, de lugar e de pessoa. Isso inclui a identificação de padrões de saúde e de doença em diferentes grupos populacionais e a análise de tendências temporais. • Epidemiologia Analítica: Busca entender os fatores ou os determinantes que influenciam a ocorrência de doenças. Utiliza estudos observacionais (coorte, caso-controle, seccionais) e estudos experimentais (ensaios clínicos) para testar hipóteses e para identificar associações causais. • Epidemiologia Experimental: Envolve a manipulação direta de variáveis para estudar os efeitos de uma intervenção na saúde de uma população. Um exemplo comum é o ensaio clínico randomizado, usado para testar a eficácia de tratamentos ou de intervenções preventivas. • Epidemiologia de Serviços de Saúde: Avalia a efetividade, a eficiência e a equidade dos serviços de saúde, buscando compreender como as intervenções em saúde afetam as populações e como podem ser melhoradas • Epidemiologia Social: Estuda como fatores sociais, como classe social, racismo, gênero e condições econômicas, influenciam a distribuição de doenças e os determinantes de saúde. A epidemiologia é crucial para: • Identificação de fatores de risco: Ajudar a entender quais fatores (como comportamentos, exposição a agentes infecciosos ou características genéticas) se associam ao aumento no risco de doenças. • Desenvolvimento de políticas de saúde pública: Informar a criação de estratégias eficazes de prevenção e de controle de doenças, como campanhas de vacinação ou programas de cessação do tabagismo. • Gestão de surtos: Identificar, rapidamente, a fonte e o modo de transmissão de surtos e de epidemias (como no caso da COVID-19) e ajudar na implementação de medidas para proteger a saúde pública. • Monitoramento e avaliação: Monitorar as tendências de saúde ao longo do tempo e avaliar a eficácia das intervenções de saúde pública. Conceitos Fundamentais da Epidemiologia A epidemiologia constitui o estudo da distribuição e dos determinantes dos eventos relacionados à saúde em populações específicas e a aplicação desse estudo para controlar problemas de saúde. Aqui se encontram alguns dos conceitos mais importantes em epidemiologia: Estatística: A ciência que se ocupa da coleta, da análise, da interpretação, da apresentação e da organização de dados. Ela é usada para descrever e inferir características de uma população com base em dados de amostras. 35 Estatística Descritiva: Utilizada para resumir ou descrever características de um conjunto de dados, por meio de médias, medianas, desvios padrão, tabelas e gráficos. Estatística Inferencial: Utilizada para tirar conclusões sobre uma população com base em uma amostra, utilizando testes de hipóteses, intervalos de confiança, análise de regressão, entre outros. A estatística fornece ferramentas essenciais para interpretar dados de maneira objetiva e rigorosa, permitindo conclusões válidas e aplicáveis em contextos científicos e de saúde pública. Bioestatística: É um ramo da estatística focado na aplicação de métodos estatísticos a problemas biológicos, médicos e de saúde pública. Ela abrange a concepção de estudos experimentais e observacionais, a análise de dados de saúde e a interpretação dos resultados no contexto da biologia e da medicina.