Prévia do material em texto
Silva, Maria Cecília de Vilhena M., Montagna, Maria Elisabeth O teste da percepção temática. Em: Villemor-Amaral, Anna Elisa de, Werlang, Blanca S. G. (2008). Atualizações em métodos projetivos para avaliação psicológica. São Paulo: Casa do Psicólogo, p. 133-146. O teste de apercepção temática Maria Cecilia de Vilhena Moraes Silva Maria Elisabeth Montagna HISTÓRICO O Teste de Apercepção Temática (TAT) foi criado em 1935, por Henry Murray e Christiana Morgan. Sua criação se deu no contexto do pós-guerra, quando as pessoas ainda procuravam se recuperar dos traumas decorrentes do grande conflito. Particularmente a psicologia pro- funda passa a constituir uma possibilidade de explicação para a irracionalidade observada na "última de todas as guerras" e dar algum sentido após a decepção com ideais do final do século XIX e início do século XX, característica desse período. A própria história de Henry Murray reproduz esse percurso das certezas da razão para mergulho na zona do imponderável e das forças inconscientes. Formado em medicina, obte- ve título de cirurgião, especializou-se em bioquímica e depois disso voltou-se para a psico- logia. Também se tornou grande estudioso da obra de Herman Melville, particularmente de Moby Dick e posteriormente de Pierre, or The Ambiguities, tendo escrito a Introdução da edição da polêmica obra pela Hendricks House em 1949. O interesse pela literatura, particularmente pela obra de Melville, assim como O estreitamento da ligação com Christiana Morgan, levou-os a se submeter a sessões de terapia com Carl Gustav Jung, em Zurique, onde estudaram a nova teoria. Além da afinidade inte- lectual, e provavelmente em grande parte por causa dela, Murray e Morgan viveram uma intensa relação amorosa, jamais oficializada, que se manteve até a trágica morte de Christiana, em 1967. Dessa relação participaram ativamente a psicanálise, as idéias de Jung e a obra de Melville. E um dos seus frutos foi Teste de Apercepção Temática (Douglas, 1993). MATERIAL O TAT é composto de 31 estímulos figurativos, com cenas em que aparecem personagens humanas em diversas situações. Os dez primeiros estímulos são mais definidos e realistas, ao passo que OS dez últimos, bem menos estruturados, apresentam uma atmosfera de natureza mais onírica. Um por vez, os estímulos são mostrados ao sujeito, que deve narrar uma história134 ATUALIZAÇÕES EM MÉTODOS PROJETIVOS PARA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA sobre que se passa na cena apresentada. A escolha dos estímulos foi feita empiricamente. Foram usadas fotografias de telas expostas em museus, anúncios publicados em revistas, fotos de filmes e de outras fontes, além de imagens desenhadas pela própria Christiana Morgan e pelo artista plástico Samuel Thal, ou por eles redesenhada para assegurar um estilo uniforme. O produto final são reproduções de situações dramáticas, de contornos imprecisos, impressão difusa e tema inexplícito. Murray e Morgan procuraram figuras que provocassem associações com OS conflitos universais ou seja, aqueles mais comuns para a maioria das pessoas. Exposto a esse material, indivíduo, sem perceber, identifica-se com uma personagem por ele escolhida e, com total liberdade, comunica sua experiência perceptiva, mnêmica, imaginativa e emocional em uma história completa inspirada no estímulo apresentado. Os autores acreditavam que as histórias eliciadas por esses estímulos revelassem as principais preocupações do indivíduo, algumas tendências inconscientes subjacentes, mostrando as situações e relações que sugerem ao indivíduo temor, desejos, dificuldades, assim como as necessidades e pressões fundamentais na dinâmica subjacente de sua personalidade (Silva, 1983). Devido ao tempo excessivo que a aplicação dos 20 cartões exige, Bellak e Abrams (1996) sugerem a aplicação de um conjunto básico de 10 estímulos, independentemente do sexo do examinando: 1, 2, 3RH, 4, 6RH, 7MF, 8RH, 9MF, 10 e 13 HF. Para OS autores, cartão 1 é mais valioso da série: "se apenas um estímulo pudesse ser aplicado... [o cartão 1] seria a melhor opção para se poder afirmar alguma coisa sobre a personalidade do indivíduo". Alguns temas que esse cartão pode mobilizar são: relacionamento com pais, necessi- dade de realização, conteúdos simbólicos relacionados à sexualidade, expressão da agressividade, imagem corporal, preocupações obsessivas e até aspectos neuropsicológicos associados a negligência ou déficit de atenção. O cartão 2 favorece a investigação das relações familiares; também é útil para a identifi- cação de tendências compulsivas e da concepção do sujeito quanto aos papéis sexuais. O cartão 3 RH é útil para a identificação de elementos depressivos e para a observação de como sujeito lida com a agressividade. Aspectos relacionados à imagem corporal e à iden- tidade sexual também podem ser expressos. O cartão 4 aborda relacionamento heterossexual. Pode revelar indícios de problemas da sexualidade, além de ciúmes frente à situação triangular. O cartão 6 RH remete às relações mãe/filho, em geral, ao passo que cartão 7 MF remete a essas relações, principalmente para indivíduos do sexo feminino. O cartão 8 RH favorece temas relacionados à agressividade e, eventualmente, à ambição. O cartão 9 MF é importante para a identificação de sentimentos entre figuras femininas e também em casos de suspeita de tendências depressivas ou suicidas. Eventualmente esse cartão se presta também à manifestação de tendências paranóides. O cartão 10, devido à ambigüidade de gênero das personagens, favorece a expressão de dados relacionados à identidade sexual. Por fim, cartão 13 HF favorece a expressão de conflitos relacionados à sexualidade, para sujeitos do sexo feminino ou masculino. Eventualmente manifestam-se tendências orais e traços obsessivo-compulsivos.TÉCNICAS TEMÁTICAS 135 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Apesar da grande influência de Jung no pensamento e principalmente na vida e na relação pessoal de Morgan e Murray, a fundamentação teórica aproxima-se mais da psicaná- lise de Freud. Quando Murray começou a lecionar psicologia em Harvard, Freud começava a ter suas obras traduzidas para inglês e tinha seus conceitos trazidos pelos jovens que emi- gravam da Europa; particularmente a teoria da libido e a obra A Interpretação dos Sonhos (1900) despertavam grande interesse entre clínicos associados a Harvard (Douglas, 1993). Partindo das idéias de Freud, Murray e Morgan acreditavam que as histórias, enquan- to narrativas pessoais provocadas por estímulos ambíguos, equivaleriam aos sonhos que paciente narra ao terapeuta. Para eles, conjunto de histórias obtidas na situação de apli- cação corresponderia a um tipo de psicoterapia de custo e duração bem menores do que OS das terapias psicanalíticas tradicionais (Douglas, 1993). Murray admirava Freud e sua obra, mas acreditava que sua primeira teoria da libido era excessivamente restrita e limitada. Desenvolveu sua própria teoria, a personologia, uma teoria basicamente motivacional e mais afinada com uma orientação humanista (Hall e Lindzey, 1984). A personologia considera indivíduo naquilo que ele tem de mais próprio na sua relação consigo e com mundo. Os conceitos fundamentais dessa abordagem são OS de necessidade e pressão. Necessidade é um construto que representa uma força, na região cere- bral, que organiza a percepção, a apercepção, a a conação e a ação, de modo a conduzir uma situação insatisfatória existente a uma direção mais satisfatória. A partir de um estado de tensão, a ação é conduzida no sentido de chegar à satisfação, que por sua vez reduzirá a tensão inicial, ou seja, restabelecerá equilíbrio. Pode ser produzida por forças internas ou externas e é sempre acompanhada por um sentimento ou emoção. Sua presen- ça pode ser identificada pelo efeito ou resultado final do comportamento, pela expressão de satisfação ou desapontamento com esse resultado, pelo comportamento envolvido e pelas expressões de afeto ou emoção, e ainda pela atenção e pelas respostas seletivas frente a determinada classe de objetos. Pressões são os determinantes do meio externo que podem facilitar ou impedir a satisfação da necessidade, representando a forma como sujeito vê ou interpreta seu meio. A proposta de Murray é compatível com sua formação de médico e bioquímico. A moti- vação para a ação é vista em termos do desequilíbrio homeostático que levará organismo a agir, visando à recuperação do equilíbrio. Assim, substrato dos processos psicológicos são processos fisiológicos. Murray apresentou diversas definições de personalidade ao longo de sua obra. O denominador comum dessas definições é cuidado em não caracterizá-la como algo estático. Para Murray, a personalidade está no cérebro e funciona como um agen- te organizador do indivíduo uma visão aproximada do que hoje é denominado "funções executivas" mas em condição de fluxo constante. Embora reconheça características mais estáveis e duradouras, não descarta as possibilidades de mudança. Murray é particularmente cauteloso com a noção de "estrutura" da personalidade; para ele, em última instância, personalidade é uma abstração formulada pelos teóricos (Hall e Lindzey, 1984). Por outro lado, concorda com várias idéias de Freud. Conceitos como conteúdo mani- festo e conteúdo latente e a utilidade da associação livre encontram-se na base da teoria de Murray. O autor aceita também a noção de id como repositório de impulsos primitivos ina- ceitáveis e fonte de todos OS motivos inatos, mas acredita que também OS impulsos aceitos pelo eu e pela sociedade aí se encontram. Acata a visão do ego como agente organizador cuja eficácia é fundamental para a adaptação do indivíduo; da mesma forma, conceitos de'136 ATUALIZAÇÕES EM MÉTODOS PROJETIVOS PARA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA superego e ideal de ego são assimilados em sua visão de personalidade, porém são de natu- reza mais ampla e positiva, podendo operar em conjunto para permitir a expressão de impulsos do id socialmente aceitos (Hall e Lindzey, 1984). ESTRATÉGIAS DE INTERPRETAÇÃO A condução da interpretação, de acordo com Murray, deve ser feita a partir da identificação das necessidades e pressões percebidas pelo sujeito; mais importante, porém, é descobrir a dire- ção das atividades do indivíduo, sejam elas mentais, verbais ou físicas (Hall e Lindzey, 1984). Bellak e Abrams (1996) recomendam encarar OS estímulos do TAT, antes de tudo, como uma série de situações sociais e relações interpessoais. O sujeito cria histórias a partir de personagens fictícias que vê nos cartões. Justamente a maior liberdade permitida pelo caráter fictício da narrativa favorece a expressão mais clara e menos censurada de sentimentos inte- riores. A relevância desses sentimentos na dinâmica do indivíduo dependerá da freqüência em que aparecem e do controle que indivíduo detém sobre a situação quando isso ocorre. Ao examinar conjunto de respostas, deve-se procurar identificar padrões. Nenhuma res- posta, por si, permite qualquer inferência. Mesmo a mais bizarra das histórias deverá ser considerada à luz dos demais relatos do protocolo e de dados obtidos por meio de outras fontes. Sob essa perspectiva, a análise terá como foco principal conteúdo das respostas. Outra possibilidade de enfoque é considerar a qualidade da produção e controle que indivíduo mantém sobre a expressão e a organização da resposta. Sob essa perspectiva, duas abordagens são possíveis: psicanalítica, voltada para as funções do ego, OS mecanismos de defesa e a relação entre processos primários e processos secundários (Bellak e Abrams, 1996; Chabert, 2004); cognitivista, voltada para OS processos cognitivos envolvidos na produção da resposta (Teglasi, 2001). As diferentes estratégias são discutidas mais detalhadamente a seguir. O esquema necessidade-pressão de Murray Murray elaborou uma lista de necessidades e uma lista de pressões do ambiente que atuam sobre o indivíduo. Em cada pessoa, as necessidades se organizam de acordo com uma hierarquia que, ao interagir com as pressões, determinará comportamento do indi- víduo. Algumas necessidades presentes na lista são: segurança, realização, agressividade, autonomia, criação, entre outras. Da lista de pressões constam, por exemplo, afiliação, dominância, passividade, perda, danos físicos (Bellak e Abrams, 1996). No método de avaliação desenvolvido pelo autor, em cada história psicólogo faz levantamento das necessidades do herói e das forças do ambiente que "pressionam" e atribui um peso a cada necessidade e pressão. Também é criada uma hierarquia de motiva- ções com base na relação entre as necessidades identificadas. Para isso são usados OS con- ceitos de necessidade-conflito (necessidades que se opõem; a satisfação de uma implica não atender à outra), necessidade-subsídio (uma necessidade constitui um meio de satisfação de outras) e necessidade-fusão (necessidades que podem ser satisfeitas pela mesma ação). Os esquemas resultantes são de natureza quantitativa e possibilitam a classificação hierárquica das necessidades-pressões; além disso, foi criado um formulário para O registro das impres- sões clínicas mais gerais.TÉCNICAS TEMÁTICAS 137 O método desenvolvido por Murray nunca chegou a se popularizar, por ser muito tra- balhoso e difícil de aprender. Além disso, autor parecia nunca estar satisfeito com suas listas, submetendo-as a constantes revisões (Douglas, 1993). Em 1941, Leopold Bellak imi- grou para OS Estados Unidos, após ter estudado psicanálise em Viena. Bellak, com O apoio de Murray, simplificou processo criando categorias de necessidades mais abrangentes, baseadas em conceitos da Psicologia do Ego. Posteriormente desenvolveu um sistema de avaliação qualitativa, com 10 categorias, mais sintonizado com a visão clínica do que O esquema quantitativo de Murray. O sistema psicodinâmico de Leopold Bellak Para Leopold Bellak, no processo de percepção de estímulos do mundo exterior, quando novas experiências são assimiladas e transformadas, OS resíduos da experiência passada estão presentes na formação das novas organizações. A essa assimilação dá nome de apercepção, uma interpretação cheia de significados, dinamicamente organizada em uma percepção; ao resíduo dessas experiências dá O nome de massa aperceptiva. (Abt e Bellak, 1950; Bellak e Abrams, 1996). O conceito de apercepção considera, exclusivamente como hipótese de trabalho, a exis- tência de uma percepção objetiva, sem interpretação, da qual a interpretação subjetiva, dina- micamente organizada e permeada pelo significado pessoal do sujeito pode se afastar em diferentes graus. Às interpretações subjetivas Bellak atribui nome distorção aperceptiva, con- ceito que, em sua opinião, descreve melhor OS processos dinâmicos envolvidos na resposta ao TAT do que mecanismo de projeção, conforme inicialmente proposto por Freud, e de percepção, tradicionalmente associado a um sistema que não envolve a personalidade como um todo (Abt e Bellak, 1950; Bellak e Abrams, 1996). Bellak contrapõe conceito de distorção aperceptiva à percepção cognitiva e "obje- tiva", que corresponde ao consenso. A concordância da maioria das pessoas quanto às características do estímulo permite estabelecer uma determinada interpretação da per- cepção como norma. Por exemplo, ao olhar para cartão I do TAT, a maioria das pessoas descreve a cena como um menino sentado frente a um violino; mas, ao menino podem ser atribuídos diferentes sentimentos: alegria, tristeza, confiança, insegurança. Essa di- versidade de estados emocionais percebidos na personagem principal da história possibi- lita a identificação do significado dinâmico atribuído e a análise dos conteúdos pessoais (Silva, 2003). Assim, Bellak e Abrams (1996) afirmam que a percepção pura e exclusivamente objetiva é uma hipótese. Toda pessoa distorce aperceptivamente e as várias formas de afastamento da narrativa devem-se apenas a diferenças de grau de distorção aperceptiva, podendo existir num mesmo momento (Abt e Bellak, 1950; Bellak e Abrams, 1996). A projeção simples é uma apercepção distorcida de algum aspecto do mundo exterior quando experiências desagradáveis da vida do indivíduo são reativadas numa situação do presente; OS mesmos sentimentos e sensações são recolocados, interferindo na apreensão da nova experiência. Essa distorção não necessariamente envolve patologia e pode ser com- preendida como fruto da transposição de experiências pessoais aprendidas ou da influência de imagens do passado nas imagens do presente (Abt e Bellak, 1950). Em casos extremos, nos quais impulsos básicos como fome e sede provocam a distorção radical da apercepção dos objetos presentes, pode-se falar em projeção autista (Bellak e Abrams, 1996).138 ATUALIZAÇÕES EM MÉTODOS PROJETIVOS PARA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA A sensibilização é outra forma da distorção aperceptiva. Bellak a descreve como uma fina e sutil experiência pessoal que é colocada na maioria das situações percebidas pelo sujeito e que não fazem parte necessariamente da situação. Uma pessoa que tenha senti- mentos enraizados de exclusão pode sentir-se sempre excluída das situações de interação, mesmo que isso não esteja acontecendo de fato. A hipótese subjacente é a de que um objeto que se encaixa em um padrão já estabelecido é percebido com maior facilidade do que um que não se encaixe (Abt e Bellak, 1950; Bellak e Abrams, 1996). Já na projeção invertida a que de fato equivale ao significado original de projeção OS conteúdos pessoais inconscientes inaceitáveis para sujeito são projetados para fora. Trata- se de um mecanismo de defesa que costuma envolver inicialmente a formação reativa e, depois disso, a distorção aperceptiva, que resulta na atribuição do sentimento subjetivo ao mundo externo como uma projeção simples. É a forma mais acentuada de distorção aperceptiva (Bellak e Abrams, 1996). A externalização compreende a situação de reconhecimento pelo sujeito de que OS con- teúdos narrados frente ao estímulo do TAT são pessoais. Esses conteúdos tornam-se cons- cientes apenas quando sujeito se depara com seu relato; OS conflitos expressos não estão tão reprimidos, podendo ser reconhecidos como próprios. Para Bellak, as histórias revelam uso de esquemas pelo narrador para interpretar a cena representada, frente à qual ele organizará as idéias como costuma fazer nas situações de vida pouco estruturadas. Em situações ambíguas, OS esquemas associados a emoções intensas podem emergir. Assim, uma das vantagens de se apresentar estímulos com múlti- plas possibilidades de resposta como ocorre com TAT e CAT é permitir a emergência de esquemas mais salientes; ao mesmo tempo, estímulos têm estruturação suficiente para detectar problemas na interpretação da cena. Assim, é possível avaliar a organização estrutural, associada às funções do ego, à parte da interpretação do conteúdo da narrativa (Abt e Bellak, 1950). Análise de conteúdo Para Bellak, a interpretação é processo de identificação de padrões de comportamento recorrentes do indivíduo ao lidar com as diversas situações propostas pelos estímulos. A identificação dos padrões é feita por meio da análise do conteúdo das histórias produzidas. O conteúdo é tudo aquilo que não é a forma de estruturação da narrativa. Dele fazem parte tema das estórias, seu enredo, OS personagens apresentados, contexto das situações, as relações propostas entre personagens e suas caracterizações, além das tensões das dinâmi- cas e movimento da narrativa (Abt e Bellak, 1950; Bellak e Abrams, 1996). É através da identificação do narrador com a personagem central de cada relato que emergem as apercepções e eventuais distorções aperceptivas. A força da interpretação surge da leitura e identificação dos movimentos da personagem principal, herói da trama. Essa interpretação tem um sentido épico: é reconhecimento da trajetória das interpretações dos estímulos pelo sujeito e as atribuições de significado às diversas situações sugeridas. A subje- tividade emerge na narrativa: estados emocionais, principais temas, tensões e conflitos advindos das relações interpessoais, a expressão das necessidades, principais ansiedades fren- te aos conflitos. A força da identificação possibilita a aproximação com mundo interno pessoal. Decodifica-se sistema de crenças do sujeito, explicitando-se OS motivos subjacentes que geraram tema e impulsionaram a resposta.TÉCNICAS TEMÁTICAS 139 Funções do ego No modelo psicanalítico adotado por Bellak, a atenção se volta para a capacidade do sujeito de compor uma narrativa que tenha começo, meio e fim e seja compatível com os elementos do estímulo apresentado (Abt e Bellak, 1950; Bellak e Abrams, 1996). A tarefa solicita uma adaptação cognitiva e afetiva à situação externa (instruções e estímu- los), ao mesmo tempo em que demanda a identificação do sujeito com uma personagem princi- pal, herói da história, que levará à exposição de seus conteúdos internos. Isso gera um aumento de tensão e ansiedade. Assim, para dar conta da tarefa, sujeito deverá narrar a história de modo organizado e de acordo com estímulo apresentado, e ao mesmo tempo mobilizar recursos para diminuir a ansiedade gerada pelo caráter ambíguo da situação e pela mobilização de seus conteú- dos internos. A adaptação à tarefa é analisada em termos das funções egóicas, e a modalidade mais eficiente é evidenciada pela utilização de mecanismos de defesa adaptativos. No relato, quanto maiores forem a integração e patrimônio de recursos internos dispo- níveis do sujeito, maior será a sua capacidade de interpretar estímulos de modo pessoal, porém organizado e adequado ao estímulo. Quanto maior for a desorganização pessoal, maior distorção aperceptiva será identificada na narrativa. Em um pólo, podem ser observados pa- drões de distanciamento do conteúdo nos quais a narrativa se mostra esvaziada de conteúdos pessoais: as personagens não têm papéis definidos e relato é descritivo, sem ação, movimen- to ou vida; há uma paralisia na expressão dos temas que dá lugar a um congelamento da expressão própria. No pólo oposto, a presença de uma desorganização egóica é evidenciada por narrativas com graves distorções aperceptivas e pela emergência de conteúdos primários em relatos bizarros desorganizados e afastados do tema sugerido pelo estímulo. Entre as funções de ego consideradas por Bellak e Abrahms, destacam-se: teste de realidade, julgamento, senso de realidade de si e do mundo, controle de impulsos e afetos, relações objetais (ou interpessoais), processos ideacionais, regressão adaptativa a serviço do ego, eficiência das defesas, barreira contra estímulos, funcionamento autônomo, funcionamento sintético- integrativo e domínio-competência. Os autores sugerem uma avaliação quantitativa grosseira dessas funções em cada relato do indivíduo, com a ajuda do gráfico abaixo. O desempenho global do indivíduo no teste poderá ser apreciado visualmente, indicando a eficiência geral das funções egóicas e as ocasiões em que se mostram mais comprometidas (Bellak e Abrams, 1996). = III IV V VI VII VIII X XI XII Teste de realidade Julgamento Senso de realidade Controle de impulsos e afetos Relações objetais Processos de Regressão a serviço do ego Funções defensivas Funções de autonomia Barreira contra Funções de sintese/integração 13 12 11 10 9 8 7 6 5 4 3 Intervalo psicótico 1-6 borderline 4-8 Intervalo neurótico 6-10 Intervalo normal 8-13 2 1 do Ego140 ATUALIZAÇÕES EM MÉTODOS PROJETIVOS PARA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA A análise de características formais da produção do indivíduo também foi foco da atenção da psicanalista francesa Vica Shentoub. Análise da estruturação dinâmica Os estudos de Vica Shentoub Para identificar a relação entre sistemas consciente e inconsciente e leque de defesas utilizado pelo sujeito, Vica Shentoub voltou-se para a análise formal dos relatos ao TAT. Para a autora, a criação de uma história a partir dos estímulos do TAT é mais um ato de organização do que de imaginação. A hipótese principal é que as modalidades de elabo- ração dos relatos remetem aos mecanismos de defesa característicos da organização psíqui- ca do indivíduo. A produção é analisada quanto à natureza do conflito evocado e ao tipo de relação de objeto, estados de fixação-regressão e modalidades defensivas dominantes. A partir desses dados, pretende-se chegar a hipóteses relativas à organização estrutural. São consideradas as características manifestas da produção, OS procedimentos empregados (fatores de rigidez e fatores de labilidade) e a resultante (fatores de impedimento e fatores de fracasso), que per- mitirá julgar repertório defensivo do indivíduo associado ao modo de ajustamento atual (Brelet-Foulard e Chabert, 2005). Vica Shentoub e R. Debray elaboram uma "folha de cotação", que passaria por várias modificações. Em 1979, a ficha de cotação envolvia 5 rubricas (Brelet-Foulard e Chabert, 2005; Silva, 1983): Fatores da série A (Rigidez): conflitos de natureza intrapessoal. A produção é caracteriza- da pelo predomínio dos processos secundários, revelados por respostas organizadas, mas pouco pessoais. O indivíduo procura apoiar a narrativa em elementos objetivos do estímulo. A atitude em relação aos estímulos e à situação de teste é distanciada e há uso eficiente dos mecanismos de defesa. Fatores da série B (labilidade): conflitos de natureza interpessoal. A produção é altamen- te pessoal, com acentuada perda de distância em relação ao estímulo e à situação. De modo geral OS mecanismos de defesa não são eficientes e OS conflitos são expressos claramente. O alto grau de envolvimento, entretanto, não acarreta necessariamente desorganização da res- posta. Esse tipo de produção é próprio de indivíduos impulsivos e um tanto imaturos. Fatores da série C (Inibição): conflitos não evocados. A inibição é mecanismo usado frente à impossibilidade de uso de qualquer outro. Há uma recusa total de envolvimento com a situação de teste; a produção é organizada, mas pobre em conteúdo, descritiva ou com motivos vagos. O indivíduo apóia a narrativa estritamente nos elementos objetivos do estímulo. Fatores da série D (Comportamento): esse grupo refere-se aos recursos empregados pelo sujeito para controlar a ansiedade. Fatores da série E (Emergência de processos primários): há acentuado predomínio dos processos primários, revelando colapso dos mecanismos defensivos. O discurso tende a ser desorganizado e a percepção do estímulo muitas vezes é distorcida. Pode aparecer ocasio- nalmente em protocolos normais, situação que indica a presença de intensa ansiedade que O indivíduo não consegue controlar. A capacidade de recuperação imediata evidenciada pelo indivíduo após uma resposta com características desse tipo é fundamental para prognóstico.TÉCNICAS TEMÁTICAS 141 A partir da identificação dos fatores, procura-se avaliar a legibilidade do protocolo. Uma boa legibilidade é obtida em protocolos com histórias bem estruturadas que revelam uso de mecanismos de defesa flexíveis e variados. Outras contribuições foram feitas à folha de cotação nos anos seguintes, principalmente em relação à série C, que passou a se chamar "Evitação de conflito" à qual foram integradas as séries F (não fatual), N (narcísica) e M (maníaca). A essa altura, a folha de cotação estava excessivamente densa, envolvendo 87 procedimentos. Para simplificá-la, Catherine Chabert e parte da sua equipe reagruparam OS procedimentos em 53, como veremos a seguir. Desenvolvimentos de Catherine Chabert Chabert (2004) faz um levantamento cuidadoso do conteúdo manifesto e do conteú- do latente de 18 estímulos do TAT considerados mais significativos. A aplicação envolve 14 estímulos, selecionados de acordo com gênero e a idade, e deve ser feita em uma única sessão. A seqüência vai dos estímulos mais estruturados para os menos estruturados, terminando com cartão em branco (16). A instrução "Imagine uma história a partir do cartão" é dada uma única vez, no início da aplicação, e não há inquérito (Brelet- Foulard e Chabert, 2005). De acordo com essa perspectiva, cada estímulo do TAT pode solicitar uma problemática específica que, ao ser traduzida em palavras, remete ao fantasma subjacente. As solicitações latentes de cada estímulo são sempre efetivas, para todos sujeitos, independentemente da natureza da solicitação (complexo de Édipo ou angústia depressiva) e da organização psíqui- ca do sujeito (neurótica, borderline ou psicótica). A folha de cotação, agora com 53 procedimentos do discurso, serve de referência para identificar e cotar as particularidades de construção de cada narrativa. A folha inclui as 4 séries principais desenvolvidas por Shentoub: A (Rigidez), (Labilidade), C (Evitação de con- flito) e E (Emergência dos processos primários). Nas duas primeiras são avaliadas a modalida- de do discurso, a modalidade de expressão do conflito intrapsíquico e tipos de mecanis- mos presentes no funcionamento neurótico obsessivo (série A) ou histérico (série B). A série C contém cinco categorias que envolvem diferentes movimentos psíquicos. Os procedimen- tos da série E envolvem 4 categorias que abordam as modalidades de expressão dos processos primários. A partir da análise quantitativa, obtida por meio da folha de cotação, e da análise quali- tativa da elaboração do discurso e dos procedimentos que sujeito pode utilizar, são identificadas as problemáticas significativas e levantadas hipóteses quanto à organização psíquica do indivíduo e às modalidades de funcionamento de que dispõe. O sistema de esquemas de Teglasi Teglasi (2001) destaca um aspecto comum às técnicas projetivas: todas propõem uma tarefa que permite a expressão da individualidade na percepção da demanda da tarefa e na organização da resposta. Ou seja, apontam para papel das "disposições" mentais, organiza- das previamente, na interpretação do estímulo apresentado no momento e para fato de que muitas vezes a influência dessas disposições não é percebida de modo consciente. Assim sendo, se olharmos para as narrativas produzidas como um modo de pensar, elas poderão ser142 ATUALIZAÇÕES EM MÉTODOS PROJETIVOS PARA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA úteis para a avaliação da personalidade. E vai mais além: Teglasi acredita que a teoria dos esquemas, dentro desse contexto, é de fato uma elaboração da hipótese projetiva. Esquemas são estruturas mentais que constituem representações internas de experiências passadas que orientam a interpretação de novas experiências definição bastante próxi- ma do conceito de apercepção de Bellak. Essas estruturas mentais permitem que indiví- duo compare as informações atuais com que já conhece, influenciando, assim as inter- pretações de seus encontros subseqüentes com mundo. Da mesma forma como suposto pela hipótese projetiva, desenvolvimento dos esquemas e sua recuperação da memória constituem um processo inconsciente por meio do qual as percepções passadas influenci- am a interpretação das situações atuais. Para a autora, duas estruturas de conhecimento organizam a experiência: uma indepen- dente da pessoa, outra exclusiva da pessoa. Exemplos da primeira seriam uso de fórmulas matemáticas ou conjunto de expectativas sociais frente a situações corriqueiras. Mas esses esquemas sociais não respondem pelas diferenças individuais em esquemas que são produto das experiências e processos pessoais que contribuem para sua organização. Para Teglasi (2001), Cada indivíduo desenvolve padrões singulares a respeito de si mesmo, do mundo, dos relacionamentos, que o levam a uma disposição frente à vida que lhe é peculiar, por meio da complexa inter-relação de maturação, temperamento, desenvolvimento cognitivo e socialização (p. 5). As estratégias individuais para sintetizar as pistas fornecidas por estímulos ambíguos, como OS do TAT, e organizar a resposta são análogas ao modo como conhecimento adquirido anteriormente é aplicado para a adaptação a situações novas, geradoras de estresse ou ambí- guas. O êxito na adaptação a situações desconhecidas exige a coordenação daquilo que indi- víduo "percebe" no momento com aquilo que ele "sabe" a partir das experiências passadas. O construto de esquema pessoal reúne modelos de percepção, cognição, memória, afeto, ação e feedback, incorporando as várias perspectivas para a compreensão da personalidade. Os esquemas e roteiros podem ser organizados ainda em meta-roteiros que refletem estilo do indivíduo ao lidar com OS roteiros e afetam modo como ele OS reformula, por exemplo, diante das demandas diárias e de fracassos ou dificuldades inesperadas. Os que dispõem de esquemas mais complexos podem estar mais preparados para reconsiderar as informações negativas com objetivo de vislumbrar outras conceituações possíveis. Por isso, é importante avaliar estilo empregado na síntese da experiência por meio da organização e reorganização de esquemas. Cada indivíduo, para Teglasi (2005), Está contemplando ativamente uma situação ou tarefa interpessoal, como contar histórias sobre estímulos figurativos, ele constrói um modelo de trabalho que combina fontes de informação internas e externas. As histórias evocadas pelas figuras permitem avaliar esquemas pessoais que contribuem para comporta- mento ansioso ou improdutivo do indivíduo e para a identificação de distorções e déficits no processamento das informações (p. 6-7). A autora acrescenta ainda que as histórias narradas ao TAT devem ser produções organizadas, e não fantasias ou associações aleatórias. Como na identificação de contornos das manchas do Rorschach, espera-se que OS relatos sejam orientados pelos limites da realidade do estímulo e, portanto, compatíveis com as cenas apresentadas. Uma cena pode ser explicada facilmente em termos de uma situação de rotina bem aprendida, O que exige a aplicação de sistemas intactos que representam um conhecimento bem consolidado; por outro lado, cenasTÉCNICAS TEMÁTICAS 143 mais complexas demandam uso de estruturas internas mais flexíveis para explicá-las e dar conta das instruções. A autora aplicou a teoria dos esquemas à análise de respostas de crianças a cartões do TAT. Sua abordagem volta-se à análise da estrutura do relato, visando identificar princípios gerais de organização da história. Para isso, define critérios para a avaliação das seguintes funções: cognição (integração perceptual, pensamento concreto versus abstrato, processamento das informações); emoção (conceituação das emoções e maturidade emocional); relacionamento (diferenciação e integração do indivíduo e autonomia em relação aos outros) e por fim motivação (formula- ção de metas; reação às metas, ao dilema ou à tarefa de narrar a história; ações direcionadas às metas e sua relação com desenlace) e, por fim, a identificação do nível de auto-regulação. Embora não faça a interpretação temática nos moldes tradicionais, Teglasi volta a aten- ção à "moral" da história, à mensagem central dos relatos organizados, a fim de identificar crenças ou convicções mais consolidadas. Para isso, considera cinco pilares da narrativa: dilema (o que aconteceu ou está acontecendo na cena), intenção (motivos, metas, pensa- mentos, sentimentos), obstáculo (fatores impeditivos ou complicadores), meios (ações ou outras estratégias de enfrentamento da situação) e desenlace (como a história termina). A abordagem de Teglasi é bastante promissora para a realização de pesquisas com técni- cas temáticas. A avaliação das funções mencionadas por meio de critérios bem operacionalizados permite comparar os esquemas evidenciados no TAT ao desempenho quan- titativo e qualitativo em instrumentos mais estruturados, como as Escalas Wechsler parti- cularmente OS subtestes Compreensão e Semelhanças, que avaliam, respectivamente, a ca- pacidade de solução de problemas do dia-a-dia e nível do pensamento. PESQUISAS NO BRASIL Uma das principais críticas feitas ao TAT, raramente baseadas em evidências empíricas, é a de que seu aspecto "antiquado" levaria a respostas estereotipadas por parte dos sujeitos. Para averiguar esse aspecto, Silva (2003) investigou a influência das características físicas dos estímulos nas respostas ao TAT. Em um estudo preliminar, os estímulos da série feminina do TAT, mais cartão 3 RH, foram classificados como "antigo", "moderno" ou "indefinido". A partir dos resultados, fo- ram criados três grupos de estímulos: 1° Série "antiga", composta de estímulos de características de época distantes (porcenta- gem de classificação "antiga" superior a 70%): 2, 4MF, 7MF, 9MF. 2° Série "adaptada", composta de estímulos que reproduzem mais fielmente possível as figuras do grupo "antigo", alterando, porém, as características que denunciam tempo passado. Roupas, penteados e outros elementos foram modernizados. Os desenhos foram elaborados com barra de grafite em cartolina e reproduzidos por técnica fotográfica em papel fosco para preservar ao máximo as características de impressão dos originais. O car- tão 7MF foi radicalmente modificado a fim de evidenciar mais claramente uma situação de maternidade. 3° Série "indefinida", composta de estímulos com características de época indefinidas (porcentagem de classificação "antiga" inferior a 30%): 1, 3RH, 10, 11, 14. Foram avaliados grau de ambigüidade, nível de projeção e tônus emocional das três séries. Foi feito também levantamento de temas, por cartão, em termos de freqüência144 ATUALIZAÇÕES EM MÉTODOS PROJETIVOS PARA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA absoluta e percentual, com especial atenção para as diferenças entre a série original e seus equivalentes adaptados. A conclusão decorrente dos vários aspectos analisados é que aspecto temporal dos estímulos analisados não influencia significativamente grau de ambigüidade, projeção e tônus emocional das figuras do TAT. As diferenças significativas observadas entre as três séries de estímulos foram poucas e de modo geral favoráveis aos estímulos "antigos". Ficou evidente a superioridade dos cartões 6MF e 7MF em relação a seus equivalentes adaptados e, se por outro lado cartão 2, em alguns aspectos, revelou-se inferior à sua adaptação, nenhuma diferença mostrou-se signifi- cativa. Quanto ao tônus emocional, OS estímulos da série "antiga", considerados como grupo, tendem a eliciar respostas de tônus mais negativo do que as demais séries. Não foram encontrados indícios de que OS estímulos indefinidos quanto à época sejam superiores aos demais em quaisquer das variáveis analisadas. Pelo contrário, OS cartões com características de época mais definidas apresentaram resultados mais favoráveis, principal- mente em relação à variável POR QUE, provavelmente devido à maior disponibilidade de elementos objetivos para compor a história e maior dinamismo das situações representadas nesses estímulos. Há evidências, ainda, de que a variável POR QUE apresenta O maior índice de ambigüi- dade, sendo assim a mais pessoal e a menos determinada pelo estímulo. Os temas abordados pelos diversos cartões mostraram-se diferentes nos cartões 6MF e 7MF quando comparados aos de seus equivalentes adaptados, sendo mais variados e profun- dos nos estímulos originais. O estudo levou à conclusão de que não há vantagem em alterar OS estímulos originais do TAT para atualizar sua aparência. As figuras mantêm as características desejáveis aos estímu- los projetivos e parecem se encontrar em um ponto ideal que permite a identificação do sujeito com as personagens e situações apresentadas, sem ser tão evidentemente próximos a ponto de mobilizar resistência e defesas mais intensas. Além disso, existe extensa literatura favorável a respeito. A substituição por estímulos reformulados exigiria amplo volume de novas pesquisas quanto às normas e à identificação dos temas sugeridos, e também quanto à sua eficiência para a investigação de diferentes aspectos da personalidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS O TAT é um instrumento basicamente clínico e é nesse contexto que deve ser usado. Em essência, as respostas ao TAT são relatos verbais do indivíduo frente a uma tarefa; nesse sentido, material produzido é passível da análise aplicada a qualquer material verbal. O fato de OS relatos serem provocados por estímulos específicos permite comparar a produ- ção habitual frente às diferentes situações apresentadas e identificar padrões mais constantes ou produções mais desviantes próprios do indivíduo; quanto às características formais, a avaliação das funções do ego e dos processos cognitivos revelados pela estruturação da narra- tiva se dá no contexto da própria história; a narrativa posteriormente poderá ser mais bem compreendida levando-se em conta as associações que cada estímulo específico poderá ter provocado e a posição da resposta no protocolo, ou seja, no contexto global da produção do indivíduo (análise de seqüência). As diferentes formas de interpretação permitem investigar não só aspectos da dinâmica da personalidade como também aspectos estruturais e cognitivos.TÉCNICAS TEMÁTICAS 145 A apresentação de diferentes abordagens, neste capítulo, teve como objetivo mostrar possíveis enfoques à produção verbal do indivíduo. Neste ponto, a diferenciação entre diagnóstico "próximo à observação" e diagnóstico "distante da observação", proposta por Bellak e Abrams (1996), é bastante útil. Como ocorre nas hipóteses levantadas no processo terapêutico, é importante ter em mente nível de abstração que se deseja na interpretação. Afirmar que "o paciente está com raiva", quando ele verbaliza claramente seus sentimentos ou expressa O que sente pelo comportamento não-verbal é um diagnóstico baseado em uma observação próxima. Afirmar que a raiva decorre do conflito entre representações de si e representações do objeto é uma inferência mais distante dos comportamentos observados no momento, pois envolve a inferência de representações e dinâmicas internas que geram O sentimento de raiva. O crescente grau de afastamento da observação imediata é encontrado nos três níveis de identificação do tema no esquema de Bellak: nível descritivo, nível interpretativo e nível diagnóstico. Obviamente, quanto mais distantes da observação imediata, mais suscetíveis ao erro serão as inferências. Sem desconsiderar contexto definido pelo instrumento específico uti- lizado, é possível dizer que grau de pertinência dessas inferências dependerá principalmen- te da qualificação do profissional que as faz, envolvendo seu conhecimento, experiência e capacidade de integrar informações de outras fontes que as validem ou invalidem. Assim sendo, levantamento de hipóteses sobre funcionamento cognitivo do indiví- duo a partir de sua capacidade de produzir histórias organizadas na situação de aplicação do TAT está próximo da observação imediata, pois clínico acompanha a produção e pode avaliá-la pela qualidade do discurso, pelo grau de organização das idéias. Da mesma for- ma, a identificação de oscilações na qualidade do discurso, embora envolva a integração de mais informações, ainda está próxima da observação imediata. Entretanto, à medida que se procuram explicar as oscilações pelo aumento da ansiedade decorrente da associa- ção entre os conflitos do herói e conflitos do sujeito, ou do conteúdo latente sugerido pelos estímulos, as inferências levantadas já se distanciam mais da observação imediata e exigem maior qualificação do clínico, suporte teórico e informações adicionais. Um ponto crítico do TAT é grau em que comportamento dos heróis permite prever comportamentos do indivíduo na vida real. Não há resposta simples para essa questão. A resposta deverá ser dada caso a caso, considerando vários elementos, como por exemplo: a recorrência de comportamentos específicos nos relatos; a crítica que sujeito apresenta em relação a eles, seja explícita, seja pelo modo como a trama evolui para desen- lace; a consideração de outras fontes de informação, como desempenho em outras técni- cas de investigação de aspectos psicológicos, dados do histórico do sujeito e do momento de vida em que se encontra. Mais uma vez, a experiência e conhecimento teórico do clínico serão OS fatores determinantes do prognóstico e do encaminhamento adequado do examinando. REFERÊNCIAS Abt, Lawrence E.; Bellak, Leopold (1950). Projective Psychology: Clinical Approaches to the Total Personality. New York: Alfred A. Knopf. Bellak, Leopold; Abrams, David M. (1996). The T.A.T., the C.A.T. and the S.A.T. in clinical use. 6th ed. Needham Heights: Allyn & Bacon.146 ATUALIZAÇÕES EM MÉTODOS PROJETIVOS PARA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA Brelet-Foulard, Françoise; Chabert, Catherine. (2005). Novo manual do TAT: abordagem psicanalítica. Tradu- ção de Álvaro José Lelé. ed. São Paulo: Vetor. Chabert, Catherine. (2004). Psicanálise e métodos projetivos. Tradução de Álvaro José Lelé e Eliane Maria Almeida Costa e Silva. ed. São Paulo: Vetor. Douglas, Claire. (1993). Translate this darkness: the life of Christiana Morgan. New York: Symon & Schuster. Hall, Calvin; Lindzey, Garner. (1984). Teorias da personalidade. Tradução e revisão técnica de Maria Cristina Machado Kupfer. São Paulo, EPU. Silva, Maria Cecilia de Vilhena Moraes. (1983). TAT: aplicação e interpretação do Teste de Apercepção Temática. São Paulo: EPU. (2003). Estudos de validade no Brasil. Em Murray, Henry A. TAT: Teste de Apercepção Temática. Adaptação e padronização brasileira de Maria Cecilia de Vilhena Moraes Silva. edição em português. São Paulo: Casa do Psicólogo, pp 39-47. Teglasi, Hedwig. (2001). Essentials of TAT and other storytelling techniques assessment. John Wiley & Sons, Inc. New York.