Prévia do material em texto
ÉTICA E SUSTENTABILIDADE NA ERA DIGITAL AULA 1 Profª Giselle Aparecida Piragis Zogaib CONVERSA INICIAL Os discursos pró-preservação do meio ambiente sempre assustaram os mais sensíveis às previsões apocalípticas e irritaram os mais impiedosos exploradores dos mercados econômicos. Até que chegou um momento em que preservação ambiental tornou-se uma poderosa ferramenta estratégica de mercado. E, de uma hora para outra, muitas pessoas, bombardeadas por tantas previsões e críticas, passaram a consumir produtos ecologicamente corretos para alívio de suas consciências e desgosto dos que tratam com seriedade o tema, trabalhando em pesquisas e estratégias verdadeiramente sustentáveis. Quem está certo e quem está errado nesta história? Existem vilões e mocinhos? Não vivemos em um mundo tão objetivo assim em que a lógica matemática baste para justificar e existência humana e suas escolhas. Compreender estas relações por meio da perspectiva ética é um bom início para compreender como a sustentabilidade (ambiental, social, econômica, tecnológica etc.) pode ser uma prática no caminhar da humanidade, alcançando futuros ainda não imaginados. Mas o desafio de definir uma ética que considere os avanços tecnológicos equivale a viajar na profundidade da experiência humana ao longo dos séculos e encontrar em si mesmo a sugestão sobre como vivem em coletividade. Para tudo isto, este material pode ajudar na compreensão não apenas da existência ou não de uma nova ética, mas do modo como nos relacionamos com mudanças tão fundamentais para a existência humana. No primeiro tema, “Cultura e Polaridade”, sob a perspectiva da estudos da semiótica da cultura, propõe-se compreender por que temos opiniões tão divergentes, mesmo com problemas iguais a todos e com reconhecida (co)responsabilidades. No segundo tema, em “A perspectiva do método científico”, partimos da análise Eva Maria Lakatos e Marina de Andrade Marconi sobre os métodos que, científicos ou não, orientam o que formará nossa argumentação. “O caminho para uma nova ética”, no terceiro tema, é uma introdução ao tema seguinte, abrindo o debate com uma reflexão sobre o individual e o coletivo. Assim como o terceiro, o quarto tema trabalha com os estudos sobre ética de Ernest Tugendhat. Além dele, “Em perspectiva filosófica sobre ética”, no quarto tema, Hans Jonas ajuda a interpretar o que diz a filosofia “moderna” sobre o assunto, relacionando questões sobre inovações tecnológicas e meio ambiente. Na quinta e última parte, há uma reflexão sobre 3 os conceitos de Inteligência Artificial e a Tecnologia das Coisas, emprestando do cinema alguns argumentos para compor esta análise. CONTEXTUALIZANDO Anos atrás, alguns índios prenderem em sua aldeia um motorista, funcionário da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), e três funcionários da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), um era dentista e a outra, enfermeira, o terceiro, técnico em enfermagem. Alguns índios estavam armados com arcos e flechas, varas de bambu, de corpo pintado e com penas na cabeça. Era uma minoria cênica, um número suficiente para fazer volume e aparecer nas fotos tiradas pelos jornalistas que estavam presentes. Eles estavam reivindicando melhor atendimento de saúde. Afirmavam que eram maltratados por aqueles dois profissionais e que a FUNAI nada fez quando deram queixa. Além do atendimento ruim, reclamavam do estado deplorável dos postos onde recebiam o atendimento – casas de tapumes, com goteiras e chão batido, sem energia elétrica e sem equipamentos ou materiais básicos para o atendimento clínico. Após um dia inteiro de negociação, registrado pelos principais jornais do país, o Ministério Público formalizou um termo de responsabilidade com os índios em troca da liberação dos funcionários. A médica que dizia ter medo de ser violentada e o dentista que acreditava que levaria uma surra foram embora junto do funcionário da FUNAI, que achava que os índios estavam no direito deles. Após uma noite fora de casa, todos voltaram sãos e salvos para o conforto de seus lares e, certamente, aproveitaram uma boa refeição quente. Enquanto isso, os índios comemoravam comendo um ensopado com cabeça de um peixe que encontraram morto na praia, porque já era noite e não se podia mais pescar. Na manhã seguinte, o jornal trazia uma nota na primeira página registrando o modo irracional como os índios trataram o problema, colocando em risco a vida de pessoas que estavam lá para ajudá-los. Quando o líder indígena foi questionado se ficava irritado com o posicionamento parcial da imprensa, ele apenas respondeu: “Não! Eles falaram da gente”. Na leitura desta história, quantas vezes você mudou de opinião sobre quem eram as vítimas da história? Assim acontece com a ética e nossa tentativa de compreender os valores morais no passar das gerações. Highlight Highlight Highlight Highlight Highlight Highlight Highlight 4 TEMA 1 – CULTURA E POLARIDADE Figura 1 – Ética Crédito: Lightspring/Shutterstock. 1.1 Dizem que é cultura Os debates sobre preservação ambiental conquistaram um perfil ainda mais polarizado, especialmente em consequência das medidas políticas adotadas pelos governos Trump, nos Estados Unidos, e Bolsonaro, no Brasil. Decisões políticas são questionadas quanto a suas validades práticas para sustentar o futuro da humanidade. Cada indivíduo no mundo, minimamente atento aos meios de comunicação ou às redes sociais, forma opiniões favoráveis ou contrárias aos líderes de Estado. Opiniões particulares fundamentadas apenas em suas experiências particulares, individuais. Poucos são os que conseguem formular teorias capazes de argumentar com coesa fundamentação sobre as hipóteses levantadas e, ainda assim, não convencem a todos. Para alguns, o mundo está chegando ao fim com o retrocesso da moral, como se a vida estivesse perdendo seu valor. Para outros, ainda estamos lutando pela valorização da nação e dos bons costumes em prol do crescimento econômico. Ainda, existem os que se sentem parcialmente concordantes com ambos os lados e, portanto, igualmente discordantes também, como se “a coisa” não fosse bem assim. Talvez, o único ponto de concordância entre as massas seja o da incerteza em relação à existência da ética. Com base em que definimos a ética de uma sociedade mutante? Highlight Highlight Highlight 5 Tudo parece ser uma questão de cultura ou da falta dela. Ao menos é o que alguns dizem. Mas será mesmo? Será que as previsões apocalípticas são mesmo uma questão de cultura? Em primeiro lugar, é bom esclarecer que cultura não é o mesmo que “cultura”, como bem esclarece a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, no capítulo XIX de sua obra Cultura com Aspas, ou então o que os semiotissistas da cultura explicam de forma um pouco mais minuciosa com os estudos da Escola de Semiótica da Cultura1. Estudos estes realizados com base no Estruturalismo de Claude Lévi-Strauss2 (1908-2009). Indo direto ao assunto, existe o senso comum de dizer que tudo é uma questão de cultura. Não é raro confundir o sentido de “ser culto”, ter acesso à cultura, ser educado, conhecedor de teorias e saber se expressar bem com pertencer a uma cultura. A parte da cultura que vemos – com a qual temos contato – é a expressão de informações que carregamos ao longo de gerações. Mas atenção! Não são informações hereditariamente transmitidas. São informações que aprendemos desde o nascimento (ou até mesmo antes dele), e que compartilhamos com o mundo. Essas informações são resultado da reunião de códigos3 que, quando organizados em função em determinado grupo social, geram sentido. Mas atenção novamente! Esses códigos organizados nesse grupo podem não fazer sentido algum para um outro grupo, ou fazer sentido apenas parcialmente. Isto vai depender dos códigos que acumuladosantes e do modo como as informações foram organizadas, o que denominamos memórias coletivas. Sendo assim, é mais fácil compreender que cultura não é algo imutável. Mas sim, algo que se transforma constantemente, tanto quanto a vida nos mais diferentes biomas natural ou artificial (falaremos desses biomas mais tarde). E por todas estas razões, a cultura é a estrutura social de um grupo. Religião, rituais, linguagens – idiomas, músicas e outras expressões artísticas –, costumes, valores morais e assim por diante, são a expressão da cultura. São o modo como transmitimos as informações, ou seja, os códigos culturais organizados. 1 “Cultura é memória coletiva não hereditária” (MACHADO, I. 2003: 157) 2 Antropólogo e etnólogo criador da Antropologia Estrutural. 3 “Códigos Culturais: “Estruturas de grande complexidade que reconhecem, armazenam e processam informações com um duplo objetivo: regular e controlar as manifestações da vida do bio, do socius, do semeion”. (MACHADO 2003: 156) 6 Diante disso, não podemos dizer que falta cultura, por mais que algumas opiniões pareçam ter saído de cabeças acéfalas. Podemos, no entanto, afirmar que polaridade é uma questão de cultura porque nossas opiniões são formadas com base em nossos conhecimentos empíricos, são as experiências que acumulamos desde o nosso nascimento (ou até mesmo antes dele). E, sim, a construção desta oração foi intencionalmente organizada para que lhe soe familiar, como um dèjá vu em sua leitura, retomando algumas linhas acima. Isto porque queremos reforçar que as experiências que acumulamos são informações. Talvez pareça um pouco confuso acreditar que pessoas com opiniões tão diferentes sobre os problemas ambientais pertençam à mesma cultura. Vamos delimitar aqui, apenas para fim de exemplificar esta questão, a sociedade brasileira. Em um grupo social, existem vários subgrupos. Afinal, se hipoteticamente alguém conseguisse pertencer a todos os grupos, essa pessoa seria a cultura em si, não apenas um meio de expressão da cultura. Quando dizemos que alguém é culto, estamos afirmando que essa pessoa domina (no sentido de ter profundo conhecimento) parte dos códigos culturais. Ora, um intelectual pode concordar com as pesquisas biogenéticas, compreender os problemas gerados pelo avanço do desmatamento, e ainda ser um completo ignorante em assuntos relativos à economia internacional, direitos humanos, geopolítica, tecnologia da informação. O grau de sapiência de cada indivíduo na sociedade varia conforme o grau de interação provido de informação, ou seja, os códigos culturais. E esta interação não ocorre apenas no nível do adquirir, reter. É fundamental a troca de opiniões, o conflito com o meio. Na ciência, por exemplo, o que importa é como você comprova ou contesta uma hipótese, e não se está certo ou errado. Em outras palavras, buscar o conhecimento pela simples satisfação do ego não garante que seja capaz de escravizar o mundo, dominar a opinião dos outros, prevalecer sobre qualquer um. A propósito, os que tentaram conquistar o mundo, descritos na história mundial, ou colocaram fogo em Roma, ou foram assassinados no campo de batalha, ou foram envenenados, ou se mataram, ou fugiram (talvez como covardes). Portanto, fugir do debate e da opinião contrária não é saudável para a mente de ninguém. Isto não é o mesmo que dizer que guerras são a consequência natural. Armas são o recurso dos que não conseguem argumentar porque matar é a melhor forma de anular aquilo que é contrário. Quando há 7 morte, há a negação da vida. Apesar de vivemos para negar a morte, quando existe a anulação do outro pela negação, estamos restringindo a possibilidade consciente de realizarmos aquela relação básica da cultura apresentada no início deste texto – a qualidade de a cultura ser mutável, não estática. De um modo ou de outro, seja pela negação ou pela aceitação do conflito, já é possível perceber que ele é inevitável e nunca será pacífico. Ou seja, mesmo que haja discordância sobre opiniões políticas ou qualquer outra coisa, ainda que estejamos lutando contra o que nossos códigos dizem ser a expressão do mal, em algum momento teremos que reorganizar os códigos que recebermos do contato com aqueles que acreditam que seja a expressão do bem. Mas falávamos sobre a sociedade brasileira. Se cada um do grupo desenvolve suas próprias habilidade de traduzir e compartilhar códigos culturais, podemos perceber que nem todos desenvolverão a mesma capacidade de assimilação, ou seja, de identificar um (mesmo) sentido na informação. As variáveis que ocorrem a nível global também ocorrem em pequenos grupos, e nem todos estes subgrupos conseguem assimilar a informação da mesma forma. A consequência é que acabam se redistribuindo em subgrupos dentro de um mesmo grupo. Para ilustrar (e apenas para ilustrar), podemos observar que, apesar de habitarmos o mesmo planeta, cada país tem sua própria cultura. Em nível local, temos os que creem na volta de algum profeta e os ateus, os operários políticos e os apolíticos, os ambientalistas e os ruralistas. É assim que uma sociedade se torna polarizada. Cada um interpreta os códigos conforme suas experiências acumuladas desde o nascimento (ou até mesmo antes dele). Isto é a diversidade cultural e a capacidade de evoluir está relacionada com o modo como um grupo social, composto de vários subgrupos, consegue se organizar de modo a compartilhar informações e não apenas anulá- las. 1.2 Entre duas ou mais opiniões Antes de falar sobre ética, um dos temas deste curso, faremos outra reflexão. Existiria o bem sem o mal? Mesmo que sem perceber, muitas vezes revelamos um desejo quase infantil de fazer sumir aquilo que nos contraria. Criticamos o outro4 e o definimos como um ser menos esclarecido, com menor 4 Aquele que não pertence à mesma cultura e com quem se estabelece um relacionamento de estranhamento. 8 capacidade de compreensão sobre os fatos apenas por ter outra perspectiva sobre o mesmo problema. Ele se torna um exemplo do errado, do negativo, do que é imoral, mal, ou, no mínimo, mediano, sem ser merecedor de qualquer opinião negativa ou positiva – fazemos praticamente um bullying inconsciente. Mas se isso se confirmasse, qual seria nosso parâmetro de referência sobre a dimensão de nossas experiências e o quanto elas são válidas para o meio onde vivemos? Ao falar sobre cultura, apresentamos alguns argumentos que indicam que a nossa capacidade evolutiva esbarra na capacidade evolutiva de outro. Nossas experiências de vida estão necessariamente entrelaçadas com as experiências de vida de outro e no conflito. O entendimento de que somos autossuficientes, totalmente independentes no agir e pensar, anula-se ao compreendermos que não existe apenas um único entendimento verdadeiro. Somos constituídos por trocas de sentidos com outros seres e com o meio. Somos mutação não regressiva. Sendo assim, acumuladores de sentidos e experiências que oportunamente organizamos para o convívio social. O propulsor da existência está na constante luta entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, entre o positivo e o negativo, entre o céu e o inferno. E para isso, não podemos ignorar a existência do outro. Negar a existência do mal equivale a negar o próprio bem. Julgar o outro como sem cultura é julgar a si próprio como aculturado. Um exemplo, o índio antes vistos pelo mito do índio bom ou índio mau, guerreiro ou assassino, resistente ou acomodado ao defenderem seus territórios, ainda hoje é visto assim quando deixa sua aldeia para ter realizações não típicas de povos isolados (e vestidos) e ingressar no espaço predominantemente ocupado por não-índios – com origem europeia, africana, asiática etc. Em algummomento seremos individualmente a versão oposta de algo e tal oposição pode ser, inclusive, a própria negação da nossa existência. Ainda que estejamos habitando o mesmo território, vivemos em estruturas culturais distintas, e aceitar o outro com suas particularidades implica em muito mais do que boa vontade. Nosso julgamento é particular, mas também pode ser coletivo quando vivemos em sociedade e compartilhamos a mesma cultura (não necessariamente a mesma opinião). Os valores morais que organizam nossa convivência em grupo, em geral, são validos apenas para uma estrutura de determinada constituição de tempo-espaço: envolve gerações herdeiras do sentido moral, de uma limitada região. Não são perpétuas. As normas morais 9 não se aplicam parcial ou integralmente a outras esferas culturais, outras sociedades. Durante o curso sobre “Tópicos de Semiótica da Cultura”, ministrado da PUC de São Paulo, em 1995, Ivan Bystrina afirmou que: Entendemos por cultura todo aquele conjunto de atividades que ultrapassa a mera finalidade de preservar a sobrevivência material. [...] O que podemos dizer de novo sobre a cultura é que, no seu cerne pulsante, ela existe para si mesma, ou seja a cultura pela cultura. Apenas na sua periferia, nas suas margens é que ela se torna algo que serve para outras finalidades. Quando Bystrina se refere à margem e à periferia de uma cultura, ele está fazendo uma referência à circunstância em que determinada cultura está mais próxima de outra – o outro. Apenas neste encontro de culturas que questionamos os valores morais de outras culturas e passamos a desacreditá-los – quando não convém. Apesar de a moral não ser a responsável pela definição dos padrões de uma cultura, ela é a intensão (consciente ou inconsciente5) que indica o sentido que uma informação que assume na cultura. É claro que o receptor tem também uma intenção consciente ou inconsciente, mas ele também deve estar aberto aos estímulos que chegam até ele. Eu posso, por exemplo, conversar com alguém que absolutamente não me ouve porque simplesmente não tem a intenção de me ouvir, consciente ou inconscientemente. O processo de informação unilateral e o processo de comunicação são coisas diferentes (Bystrina, 1995). As discussões binárias (ou dual), como viver ou morrer, certo ou errado, homem ou mulher, justo ou injusto, são estruturas básicas da cultura, concepção que se fundamenta na troca, no intercâmbio que acontece no mundo físico (Bystrina, 1995). Independe de uma interferência de valores, mas orienta as ações, define diretrizes. Diferente de ser “apenas” binário, quando dizemos, por exemplo, que a sociedade está polarizada, estamos dizendo que está dividida em posicionamentos binários somados a valores. Não são mais apenas oposições inerentes à vida material, estas decisões estão carregadas de sentidos positivos e negativos que recebem tais sinais por meio de experiências individuais que se acumulam desde o nascimento. Então, quando falamos de uma sociedade dividida entre o que é certo e o que é errado nas decisões políticas que tangem à preservação da vida para o futuro, estamos traduzindo sentimentos de vida e 5 Segundo Freud, algo na psique produz intenção (Bystrina, 1995). 10 morte baseados no conhecimento empírico. Não são mais apenas constatações do que ocorre na esfera material pura e simplesmente. Um exemplo binário seria: se6 derrubar a árvore não teremos mais sombra (com árvore ou sem árvore. Uma relação de sim ou não). Na visão ambientalista, polaridade negativa: derrubar uma árvore significa não ter mais sombra, logo7 o planeta ficará mais quente. Na visão desenvolvimentista, polaridade positiva: derrubar uma árvore significa que não teremos mais sombra, no entanto8 teremos mais pastagens ou espaço para cultivos. Contudo, o mais comum é a formação de opiniões assimétricas. Damos ao polo negativo maior importância do que ao polo positivo, o que induz a uma necessidade de superação: para que o bem vença o mal. Assim chegamos ao ponto de que não existe o bem sem o mal. Por exemplo, não desejamos a morte – porque ela tem um sentido negativo –, por isto trabalhamos constantemente para superá-la e fazer a vida prevalecer sobre ela (vida após a morte, reencarnação, ressureição). Não desejamos que as queimadas destruam as florestas, por isso, mesmo depois dos incêndios, existe a luta para o reflorestamento. A assimetria está na necessidade de vencer o mal e isso pode acontecer de três formas: Por identificação (correspondência): quando o negativo (morte) pode corresponder ao positivo (vida) ou o contrário. “O que está acima também está abaixo” (proverbio egípcio). O microcosmos reflete o macrocosmo. O que ocorre no universo digital irá refletir (ter consequência) no universo real. 6 Conjunção subordinada adverbial condicional: exprime condição ou hipótese. 7 Conjunção coordenativa conclusiva: que exprime uma conclusão. (Pasquale, 1998) 8 Conjunção coordenativa adversativa: que exprime oposição, contraste. (Pasquale, 1998) *Conjunções são conectivos que unem termos de uma oração ou unem orações. 11 Quadro 1 – Assimetria negativo negativo destruir a natureza é destruir a vida positivo positivo Zelar pela qualidade de vida das futuras gerações é zelar pela própria qualidade de vida Fonte: elaborado pela autora. Por supressão da negação: Composto de sistemas que não são binários, mas pluricompostos (céu, terra, inferno). Se olharmos para o sistema binário céu e terra, céu será o polo positivo e terra, o negativo. Mas se o sistema for composto de terra (positivo) e inferno (negativo), terra deixou de ser negativa, assim substituímos uma opinião negativa por uma positiva. O que demostra que não é uma questão de falta de personalidade ou de conhecimento, mas de ocasião. Sugestão de leitura PIOLI, M. A energia eólica e os impactos ambientais. Ambiente Energia, 3 nov. 2010. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2019. A produção de energia eólica é um exemplo do uso da tecnologia na produção de energia por fonte renovável, ambientalmente correta. No entanto, há quem discorde porque estudos indicaram os custos ambientais na produção e no armazenamento da energia gerada. Ou seja, o polo positivo, neste caso, foi suprimido pelo negativo. Quadro 2 – Polos positivo e negativo A energia eólica é... favorável ao meio ambiente quando... Tecnologia + Danos ambientais _ A energia eólica é... contrária ao meio ambiente quando... Energia renovável + Tecnologia - Fonte: A autora. 12 Neste exemplo, podemos observar que, para ocorrer a supressão da negação, um dos elementos da tríade é subtraindo momentaneamente. Isto varia conforme a ocasião, como foi dito antes. Outro exemplo é o caso da jovem Greta Thunberg, de 16 anos, de quem os atos têm mobilizado adultos e crianças a levantarem suas cartolinas em defesa do meio ambiente. Recentemente, ela viajou pelo Oceano Atlântico em um veleiro ambientalmente sustentável para participar da Summit da Ação Climática da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York. Não quis usar avião porque são altos emissores de carbono, portanto, poluentes. Ela disse que passou os quinze dias no mar sem tomar banho! Sugestão de leitura VELEIRO com a ativista adolescente Greta Thunberg chega a Nova York após atraso. G1, 28 ago. 2019. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2019. A atitude da jovem é louvável porque incentiva o debate sobre o meio ambiente,mas questionável quanto à viabilidade prática de atitudes como a dela. O que vai definir se serão efetivas ao meio ambiente serão os resultados práticos desta iniciativa, que repercutiu mais do que muitas crises ambientais deveriam repercutir. Ela representa uma atitude que supera um problema, não um embate direto com o problema, como fazem os cientistas. Escolheu viajar de veleiro, mas isto não muda em nada a necessidade de quem precisa do avião. E quanto a emissão de carbono o veleiro gerou quando foi produzido? Os materiais usados na construção e nos equipamentos para mantê-lo funcionando têm origem renovável? Se afundasse na travessia, geraria algum impacto ao meio ambiente marinho? Nada disso importa porque o mal, causado pelos danos ambientais com a morte do meio ambiente, foi suprimido pela iniciativa de uma jovem em defender a vida viajando em um veleiro. Inversão: Como o termo diz, troca entre polos opostos. Superação do negativo. 13 A clonagem de animais, assim como os alimentos transgênicos, carrega o estigma de serem algo negativo, contrário a princípios éticos, como o respeito e preservação da vida. No entanto, a ciência comprovou a importância dos resultados científicos alcançados com pesquisas genéticas e tem desenvolvido técnicas saudáveis para a preservação da vida, portanto positivas. Quadro 3 – Negativo ou positivo Negativo porque... Alimentos transgênicos Não são naturais – criados em laboratório; Podem causar câncer; Poluem o meio ambiente contaminando outras sementes não geneticamente modificadas; São irreversíveis. Animais clonados Não há controle sobre as consequências para a vida. Superou o negativo e tornou positivo porque... Alimentos com genes modificados Melhoram a qualidade dos alimentos – alimentos mais ricos em fontes de nutricionais; Diminuem os custos de produção – alimentos mais resistentes a pragas utilizando poucos produtos tóxicos para o cultivo e recursos naturais; Ampliam a oferta e o acesso – mais pessoas serão alimentadas com baixo custo. Animais clonados Preservação de espécies ameaçadas de extinção ou extintas; Desenvolvimento de medicamentos com melhor potencial curativo; Desenvolvimento de muitos para recuperação de células causadoras de doenças graves. Fonte: A autora. Mesmo que existam aspectos negativos nos casos descritos acima, o bem supera o mal. O objetivo é, a princípio, vencer a miséria e a morte. 14 TEMA 2 – A PERSPECTIVA DO MÉTODO CIENTÍFICO Figura 2 – Método científico Crédito: Becris/Shutterstock. Para avaliar a ética na preservação do meio ambiente, na sociedade contemporânea, sob a perspectiva da ciência, precisaremos estabelecer um método de análise. Mas, não é apenas a ciência que permite usarmos estes métodos (científicos). Isto é relevante para este estudo porque, citando Eva Maria Lakatos (1985: 81), “O método é um conjunto das atividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo – conhecimentos válidos e verdadeiros – traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as decisões do cientista”. A relação que se estabelece aqui é a de uma análise sobre como estruturamos a cultura utilizando a natureza dos métodos, sem mesmo nos darmos conta disso. Se isto é possível de maneira tão espontânea, por que não poderia ser também de forma consciente? Assim, podemos começar a perceber que não estamos muito distantes de tentar compreender estes novos tempos, onde o meio ambiente e as novas tecnologias se relacionam de forma tão vital, por meio da formação de novas normas morais. Afinal, se a cultura não é 15 estática, de que modo a ética seria? A maioria das pessoas hoje não se baseia nas explicações míticas sobre os fenômenos da natureza, no senso comum. A religião não é mais a principal fonte de explicação, nem mesmo a filosofia, com sua busca incessante pela essência imutável do real. Desde o século XVI, estamos muito mais críticos e muito mais inconformados com a submissão diante do poder (Lakatos, 1985). De modo geral, estamos mais dispostos à busca pelo conhecimento real, baseado em garantias: “Não se buscam mais as causas absolutas ou a natureza íntima das coisas; ao contrário, procura-se compreender as relações entre elas, assim como a explicação dos acontecimentos, através da observação científica aliada ao raciocínio” (Lakatos, 1985, p. 83). 2.1 Método Indutivo Sugestão de leitura BARBIÉRI, L. F.; OLIVEIRA, M. STF decide que sacrifício de animais em cultos religiosos é constitucional. G1, 28 mar. 2019. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2019. Assim, experiências de vida que mantêm rituais antigos, como o sacrifício de animais para uma boa colheita, por mais que ainda sejam praticados por muitos povos, não são a única fonte de informação. A prova disso são os debates que giram em torno do fim do sacrifício de animais, sejam eles por motivos religiosos ou culturais. O mesmo aconteceu com o fim do infanticídio em comunidades indígenas tradicionais, onde crianças que nasciam “fora da relação” ou com alguma deficiência deveriam ser mortas para não trazer má sorte para a aldeia. Mais recentemente, o Supremo Tribunal Federal autorizou o sacrifício de animais em rituais religiosos de matriz africana, o que entra em embate direto com as novas discussões sobre moral e imoral. Poderíamos afirmar que o sacrifício de humanos ou de animais não é ético porque hoje somos capazes de observar fenômenos, descobrir a relação existente e chegarmos a uma relação generalizada entre eles (Lakatos, 1985). Esta visão parte da observação de objetos isolados e do determinismo que os rege, por exemplo: 16 Quadro 4 – Observação de objetos isolados e do determinismo Fenômenos (Fatos) Descoberta da relação entre eles (determinismo) Generalização da relação A seca Nenhuma planta se desenvolve de modo satisfatório porque o solo está enfraquecido. Portanto, cultivo de alimentos será prejudicado. Irrigação inadequada As queimadas Cultivo intensivo Resíduos tóxicos – como o lixo. Mesmas causas + Mesmas circunstâncias = Mesmos resultados Fonte: elaborado pela autora. Já conseguimos comprovar que não é o sangue do sacrificado que salva vidas, mas que uma boa colheita depende de outras variáveis que agem para o seu sucesso ou fracasso da plantação. Sendo assim, partimos de informações – premissas – que nos levam a conclusões muito mais amplas do que o que inicialmente conhecíamos – o ponto de partida. “Indução é um processo mental por intermédio do qual, partindo de dados particulares, suficientemente constatados, infere-se uma verdade geral ou universal, não contida nas partes examinadas” (Lakatos, 1985:83). Observar as relações binárias9, como vida e morte, bem e mal, claro e escuro, sim e não, são, assim como no método indutivo, observações iniciais de fatos essenciais à vida, a partir do momento em que passamos a avaliar as circunstâncias, formamos conclusões gerais que podem sustentar argumentos não mais baseados na ordem mística ou de poder. 9 Ivan Bystrina (1995). 17 2.2 Método Dedutivo Figura 3 – Dedução Crédito: banderlog/Shutterstock. Se observamos os fatos isolados, podemos chegar a conclusões gerais (método indutivo), se observamos de modo geral, também podemos chegar a conclusões sobre fatos isolados (método dedutivo). Todo conhecimento empírico contribui para um argumento dedutivo. Isto se assemelha muito com a definição de polaridade que Bystrina (1995) apresentou, que depende do valor que atribuímos a cada experiência em nossasvidas. A valoração das relações binárias constrói argumentos dedutivos. Por exemplo, ao estabelecer um comércio online: Quadro 5 – Valorização das relações binárias Generalização da relação Descoberta da relação entre eles (determinismo) Fenômenos (Fatos) DUAS OU MAIS empresas que vendem online tiveram bons resultados. SE as duas (ou mais) conseguem vender seus produtos... DEDUZ-SE que o comercio eletrônico é eficaz. Mesmos resultados + Mesmas circunstâncias = Mesmas causas Fonte: elaborado pela autora. Analisamos, assim, por que dois ou mais resultados tiveram a mesma resposta, por que duas ou mais experiências de vida resultaram na mesma situação. Por que duas ou mais empresas tiveram resultados positivos com o comercio eletrônico. O bom resultado das vendas é um polo positivo, não vender 18 é negativo. A dedução de que é “bom” vem do valor da experiência: alcançou o objetivo de receber dinheiro. 2.3 Método Hipotético-Dedutivo Podemos comparar este método com a assimetria apresentada por Bystrina (1995), pois argumentos hipotético-dedutivos são soluções provisórias. Na assimetria, identificação, supressão da negação, inversão ou identificação que ocorrem nas relações binárias equivalem a soluções temporárias. Há em comum a tentativa de eliminar um erro, ou seja, o polo negativo é constantemente “invadido” para que possa ocorrer algum tipo de relação que o anule, “tal como no caso da dialética, esse processo se renovaria a si mesmo, dando surgimento a novos problemas” (Lakatos, 1985: 91). Quadro 6 – Esquema apresentado por Popper com explicação prática Fonte: Lakatos, 1985, p. 92. Nascemos com expectativas e, no contexto dessas expectativas, é que se dá a observação, quando alguma coisa inesperada acontece, quando alguma expectativa é frustrada, quando alguma teoria cai em dificuldades. Portanto, a observação não é o ponto de partida a pesquisa, mas o problema. O crescimento do conhecimento marcha de velhos problemas para novos por intermédio de conjecturas e refutações (Lakatos, 1995, p. 93). Há pouco tempo, a Física Quântica descobriu que o átomo era a menor partícula do universo já descoberto, com teoria testada e contestada. Depois, “Em 20 anos, os bitcoins podem aumentar a temperatura da Terra em 2C” (Galileu, 2018) Expectativas (ou conhecimento prévio) Problema Conjecturas Falseamento Lakatos, 1985: 92 Expectativas (ou conhecimento prévio) Aquecimento Global Uso das criptomoedas para preservação do Meio Ambiente Exemplo: 19 descobriram que o átomo se divide em partículas ainda menores, os prótons e elétrons. E não para por aí” 2.4 Método Dialético Assim como o método hipotético-dedutivo, o dialético também está vinculado à Assimetria, vejamos por quê: Numa tentativa de unificação, diríamos que as quatro leis fundamentais (da dialética) são: a) ação recíproca, unidade polar ou “tudo se relaciona”; b) mudança dialética, negação da negação ou ‘tudo se transforma’; c) passagem da quantidade à qualidade ou mudança qualitativa; d) interpretação dos contrários, contradição ou luta dos contrários (Lakatos, 1995, p. 96). Seguindo os itens apresentados por Lakatos, para a construção de argumentos baseados no método dialético: a) Não devemos considerar que o mundo é formado por um complexo de coisas acabadas. Quando pensamos que chegamos ao fim de um processo, iniciamos outro. Quando acreditamos que, ao suprimir um valor negativo, o superamos de modo definitivo, logo há uma nova crítica que reacende o debate. Exemplo: Quando pensamos ter resolvido o problema do lixo com os aterros, logo descobrimos os impactos negativos que eles causam (os aterros). Quando desenvolvemos estratégias para coleta seletiva, logo descobrimos que, em alguns casos, usamos mais água para reciclar do que para fabricar. Quando utilizamos os gases produzidos pelo lixo como biocombustível, descobrimos que precisamos lidar com mais situações do que apenas lixo – indústrias petrolíferas, políticas econômicas, estrutura social. b) Se você for contrariado instintivamente, rebaterá. “Dito de outra forma, a negação de uma coisa é o ponto de transformação das coisas em seu contrário. Ora, a negação, por sua vez, é negada. Por isso se diz que a mudança dialética é a negação da negação” (Lakatos, 1985:98). A inversão, conforme Bystrina (1995), ocorre em situações quando o negativo se torna insuportável ou insuperável. Exemplo: Quando a televisão foi criada, alguns diziam que sua importância não superaria a do rádio. Isso também foi dito sobre a internet e a televisão. No entanto, ambas, cada qual em seu tempo, além de superar as expectativas de fracasso, superaram a si próprias. 20 c) Não podemos apenas quantificar as mudanças que ocorrem nas coisas. Em determinado momento, a qualidade da mudança também será pertinente para o argumento dialético. Não como uma contingência, mas como uma necessidade. Exemplo: entre os brasileiros, o acesso à Internet é maior pelo celular do que pelo computador. Esta quantidade de usuários indica uma mudança na qualitativo de comportamento sobre o modo como os brasileiros consomem informação. Se não houvesse meios de acesso à internet móvel, ou fosse restrito, não existiria uma mudança de comportamento (qualitativa). d) O processo binário10 é o propulsor para o argumento dialético porque “é o conteúdo interno do processo de desenvolvimento, da conversação das mudanças quantitativas em mudanças qualitativas” (Lakatos, 1985: 100). A luta entre os contrários instiga a transformação. Exemplo: Para velhos problemas, novas soluções. Para diminuir as distâncias e aproximar pessoas, novas tecnologias. Citamos o poema de Vinicius de Moraes, “Dialética”, e caso não se sinta provocado a criticar ou refletir, releia, reveja, re-inspire11. Dialética (Vinicius de Moraes) É claro que a vida é boa E a alegria, a única indizível emoção É claro que te acho linda Em ti bendigo o amor das coisas simples É claro que te amo E tenho tudo para ser feliz Mas acontece que eu sou triste... TEMA 3 – O CAMINHO PARA UMA NOVA ÉTICA Figura 5 – Dialética 10 Bystrina, 1995. 11MORAES, V. Dialética. Evertonllins. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2019. 21 Crédito: Kentoh/Shutterstock. 3.1 O valor moral e a relação de poder Na esfera política, também há uma disputa baseada no julgamento moral: O lugar de destaque que os conceitos de democracia e de direitos humanos assumiriam nas discussões políticas atuais também é, mesmo que não exclusivamente, de caráter moral. [...] Quem rejeita a reivindicação de um conceito de justiça, quase nem o pode fazer sem o contrapor-lhe um outro conceito de justiça. Em verdade as relações de poder de fato são determinantes, mas é digno de nota que elas necessitam de revestimento moral (Tugendhat,1996, p. 12). Neste trecho, Ernest Tugendhat (1996), em Lições sobre Ética, explica que reivindicações políticas referentes a grupos particulares ou marginalizados precisam ser observadas como questões puramente morais. Neste caso, se enquadram temas antigos ou recentes, como a imigração, eutanásia e aborto, obrigações morais com animais, meio ambiente e estudos genéticos. O complexo das questões acima mencionadas diz respeito ao estado das coisas que em parte são novos (por exemplo, a tecnologia genética), e em parte alcançaram, através do avanço tecnológico, um lugar de destaque até agora não existente (por exemplo, a responsabilidade para com as gerações futuras, e algumas questões da eutanásia). Outras questões já estavam desde antigamente presentes, mas encontraram-se fortemente colocadas na consciência geral – e podemos nos perguntar por quê: - porexemplo, problemas das minorias, aborto, animais (Tugendhat,1996, p. 12). A ética antiga, como a Kantiana, estava preocupada com questões que alcançavam um restrito universo limitado no tempo e no espaço, ou seja, com questões localizadas entre poucos indivíduos, de uma mesma comunidade, entre poucas gerações, e que não eram estendidas a toda a humanidade, por exemplo: “problemas em casa se resolvem em casa”. Mas, de repente, o quintal e a vizinhança começaram a fazer parte do universo das comunidades e 22 problemas da humanidade passaram a ser de todos. As tradições religiosas antes suficientes para explicar e orientar normas morais deixaram de o ser, considerando que grupos diferentes, com orientações particulares, passaram a trocar dúvidas. Seria intelectualmente desonesto manter-se ligado a respostas religiosas para as questões morais, apenas porque elas permitem soluções simples, o que não corresponderia nem à seriedade das questões, nem a seriedade exigida pela crença religiosa. Entretanto, também o crente não pode mais fundar suas normas morais em sua crença religiosa, pelo menos se ele leva a sério o não crente e aquele que possui uma crença diferente da sua. Pois a observância de normas morais é algo de podemos exigir de todos (de qualquer forma, assim parece ser), e, para fazê-lo, devemos também esperar que isso possa ser tornado compreensível para todos (Tugendhat,1996, p. 13). Ou seja, se não for possível que todos sigam a mesma norma moral, então ela não tem validade prática na sociedade. É necessário que todos a assumam como prática, mesmo que não estejam inteiramente satisfeitos com ela. Neste ponto é o que podemos traduzir como tolerância com o outro para o conviver “saudável”. O outro é aquele que não pertence ao grupo, ou seja, o que tem outra constituição cultural. Responde a outras normas morais. Como cultura, podemos dizer que, por exemplo, para os brasileiros, o outro é o refugiado que tenta se introduzir na sociedade sem abrir mão de seus costumes, normas morais e língua. TEMA 4 – UMA PERSPECTIVA FILOSÓFICA SOBRE ÉTICA Figura 6 – Ética Crédito: Faithie/Shutterstock. 23 Moral são costumes, valores e regras de comportamento. A ética é a tentativa de compreender, racionalizar, as normas morais. O que de fato conduz as nossas vidas é a moral. Tudo o que vimos até aqui diz respeito a uma tentativa de compreender como formulamos valores morais, ou seja, um estudo sobre ética. Agora, vamos tentar compreender o que diz a filosofia sobre o que é ético hoje, na Era Digital. Acreditamos que você já possa responder a esta pergunta, mas vamos lá! 4.1 Juízo moral Para começarmos, responda: você é a favor ou contra a eutanásia? Retomaremos essa pergunta mais adiante. Ernest Tugendhat (1996) explica que nossos juízos morais são empíricos, mas não no sentido da crença de que a experiência produz a verdade, sem qualquer lógica, ou algo matemático. Não devemos nos tornar usuários de drogas para dizer que drogas são ruins. Basta compreender que “A única coisa que podemos fundamentar empiricamente é um juízo que diz que homens deste ou daquele círculo cultural, desta ou daquela classe social consideram (ou consideraram) um tal tipo de ação como má ou censurável” (Tugendhat,1996:15). Ou seja, o juízo moral é estabelecido por experiências ou aprendizados em grupo. Quando dizemos que a cultura não é hereditária, falávamos disso. Informações são aprendidas, nem todas experimentadas, mas se faz sentido para um grupo, vai se tornar parte da cultura. Mas o que fazer com nossas próprias experiências? Elas não têm valor para a formação de juízos morais? “Em primeiro lugar, portanto, aparentemente não podemos evitar juízos morais e, em segundo lugar, até quanto se pode observar, estes juízos não se apoiam na experiência; não são juízos empíricos” (Tugendhat,1996), em outras palavras, quando emitimos um juízo de valor, não estamos de fato dando uma opinião pessoal e independente quanto à interferência do meio. Para ser um juízo de valor, deve ter validade para quem julga, como se fosse o próprio julgamento, mas sem a experiência particular. Ou seja, é algo que foi assimilado de forma intrínseca pelo grupo e apropriado por cada um, individualmente, ao ponto de tomarem para si sem de fato ter vivido a experiência que formou aquele juízo de valor, ao menos este era o entendimento de Kant e outros filósofos, conforme Tugendhat apresentou. 24 Não parece estranho que aceitemos como juízos morais algo que não formamos empiricamente, ou seja, que não partiu de nossas próprias experiências, que não nos coube determinar o que realmente consideramos bom ou ruim? Em relação ao núcleo central do juízo moral, nos encontramos no plano de uma common sense: uma vaga concordância com os juízos morais da maioria dos outros nos engana sobre a torturante insegurança de que não compreendemos o lugar de valor destes juízos [...] tendemos a considerá-los como relativos. [...] No seu lugar deveriam aparecer explicitamente juízos relativos (Tugendhat, 1996, p. 19). Deste modo, se no grupo ao qual você pertence a eutanásia tem valor moral negativo, você pode acreditar que também é contra, porque você não viveu esta experiência nem precisou tomar uma decisão a respeito. Então, pelo senso comum, você acaba reproduzindo valor moral e, acredite, você pode ter argumentos muito fortes contra a eutanásia, argumentos que convencem até mesmo você próprio. Mas não necessariamente são seus próprios juízos de valor. Não são absolutos, são relativos. Mas os sentimentos polares de prazer ou desprazer, bem ou mal, “estes sentimentos deixariam de existir, caso não julgássemos mais moralmente” (Tugendhat,1996, p. 21). Ernest Tugendhat (1996) afirma: “constantemente julgamos de forma moral. No que diz respeito às discussões entre amigos, na família ou no trabalho abrangem aqueles sentimentos que pressupõem juízos morais: rancor e indignação, sentimento de culpa e de vergonha”. 4.2 Ética e meio ambiente Como vimos, ética é a tentativa de compreender a moral. Como definir uma (nova) ética sobre a responsabilidade de todos estando diante da crise ambiental e o desenvolvimento tecnológico? Para Hans Jonas (1903 – 1993)12, que estudou problemas éticos diante dos avanços das tecnologias, a responsabilidade com as gerações futuras deveria nortear as ações humanas, procurando preservar a vida e o meio ambiente. Compreensão esta que mais tarde também se tornou presente no Relatório Brundthand13, originando o conceito mais amplo de Desenvolvimento Sustentável: “Satisfazer as 12 Estudos analisados por Mário Sergio Alencastro (2009). 13 O Nosso Futuro Comum, 1987. 25 necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas necessidades” (voltaremos nele mais adiante). Partindo da perspectiva do método dialético, o agir humano teve uma mudança qualitativa considerando o prolongamento da vida, o controle do comportamento humano e a manipulação genética. Sedo assim, nem a natureza nem a natureza humana podem ser tomadas como dados últimos e imutáveis para, com base neles, erguer-se uma avaliação ética dos efeitos da ação tecnológica. A tendência utópica e o poder da tecnologia exigem escolhas no que antes eram especulações” [...] exige-se, dessa forma, uma responsabilidade, coextensiva à escala de excessiva grandeza do poder humano, na qual, cada escolha imediata exija o conhecimento das suas consequências remotas (Alencastro, 2009, p. 18). Voltamos ao ponto que nos referimos no início, quando se falou sobre a cultura não ser estática. Hans Jonas é enfático ao dizer que “Se a ética tem a ver com o agir, a consequência lógica disso é que a natureza modificada do agir humano [pela ciência e tecnologia]também impõe uma modificação na ética” (Jonas, 2006, citado por Alencastro, 2009, p. 18). Toda ética tradicional é antropocêntrica, no entanto, este formato não cabe mais. Ao estudarmos os valores morais, devemos incorporar os humanos, a natureza e o futuro. Não quer dizer que, adotando uma nova ética, devemos ignorar aprendizados passados ou valores que até pouco tempo foram nossos guias, apenas devemos ajustá-los à nova configuração de mundo. Sendo assim, é aceitável que passemos a dar mais peso às previsões apocalípticas do que crer em uma salvação só porque fomos bons – adotamos valores morais tradicionais e de modo tradicional. Ao reformularmos a ética, não devemos ignorar os danos que não poderemos prever e todas as consequências do que as novas tecnologias podem causar negativamente para a vida humana, meio ambiente e o futuro, mas devemos estar sustentados por bases razoáveis para acreditar que serão mínimas ou inexistentes. Bases que não se fundamentam apenas no julgamento empírico individual, mas em métodos que orientem a nova norma moral. 26 TEMA 5 – INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O AVATAR COMO CENTRO DO UNIVERSO Figura 7 – Era digital Crédito: Kentoh/Shutterstock. 5.1 Eu imortal Na religião hindu, o avatar corresponde a um ser superpoderoso, imortal. É a representação terrestre do espírito divino. Um espírito pode ter incorporado diferentes avatares, em diferentes encarnações, em um período ilimitado. Quando ouvimos este termo, “avatar”, a maioria das pessoas se lembra do filme que tem esse mesmo nome e que levou quinze anos para ser produzido, superando a bilheteria de Titanic, com 2,78 bilhões de dólares. Avatar (2009), escrito e dirigido por James Cameron, conta a história de um jovem fuzileiro naval paraplégico que é convidado para participar de um programa onde guiará seu avatar em um planeta distante com o objetivo de atender ao desejo comercial de uma empresa mineradora em busca de um raro recurso. Assim como o filme e os jogos de videogame, a ideia de ter uma nova chance de superar tudo o que nos causa mal – mesmo que em algum momento tenhamos sido o próprio mal para alguém (fuzileiro) – como a perda de movimentos ou uma segunda vida, traduz o real objetivo da humanidade. Todos desejamos ter um avatar ao estilo hindu – superpoderoso, uma divindade, imortal – para chamar de seu. A própria produção do filme é um exemplo de superação14, muitos equipamentos e tecnologias foram criados do zero para 14 Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2019. 27 extrapolar a realidade limitada do cinema. Tudo isto para contar mais uma história de luta entre o bem e o mal, não que seja clichê, afinal, a própria existência humana não o é? Mas como romper paradigmas? Explorando novos universos, novas fronteiras ainda desconhecidas. Permitindo-nos ser o outro, o terrestre no paraíso alienígena (como em Na’vi, de Avatar). O que cada geração faz é romper paradigmas. Algumas mais, outras menos, mas de forma ou de outra, o mundo anda para frente, ou melhor, gira pelo universo. E nós, humanos, estamos cada vez mais parecidos com seres encarnados em um universo paralelo, digital, em que acreditamos ser superiores a tudo, invencíveis, incensuráveis, pensamos estar no comando. Desbravadores de uma nova fronteira, colonizadores de um novo mundo, onde prevalecerá a própria moral. Nem mesmo no universo digital que os filhos dos nossos filhos habitarão com mais propriedade, eles serão donos de sua própria verdade, como vimos anteriormente. 5.2 Eu robô15 Na Era Digital, não podemos esperar que seus filhos, crias das tecnologias que não conseguem imaginar o que é um telefone de disco e um mundo sem wifi, vejam as possibilidades do futuro como nós víamos em 2001, Uma Odisseia no Espaço (1968), ou Família Jetsons (1962-1987). Para nós, era uma possibilidade, para eles, uma questão de tempo (observe com atenção as datas de lançamento do filme e da série). Uma das figuras mais presentes nos filmes de ficção científica são os robôs. Estas criaturas criadas para fazer o trabalho de que não gostamos, não queremos ou que representam um risco para nossa existência. Um exemplo para isto é fácil, é só lembrar o novo desejo de consumo de donas de casas ou pessoas maníacas por limpeza: aqueles robôs que passam o dia aspirando o pó do chão. Podem ser figuras adoráveis ou assassinos em potencial, mas de um modo ou de outro, são simulacros16 humanos. Guardam certa semelhança assustadora com os não-robôs, nós. No mundo real, não é ético que robôs tenham tal semelhança, porque assim como outros dispositivos tecnológicos, inteligências artificiais são mecanismos ou dispositivos capazes de reproduzir ou 15 Referência ao filme Eu, Robô (2004), inspirado na coletânea de contos homônima escrita pelo russo Issac Asimov (1939). Assista ao trecho do filme em: . 16 Representação imagética que cria a sensação de real, mas é falso (Jean Baudrillard, 1981). 28 simular a o raciocínio humano, mas não simular a inteligência humana. Sempre deveriam ser claramente não-humanos. Quadro 7 – Inteligência artificial Como funciona a inteligência artificial? Ética A união de várias tecnologias é necessária para o desenvolvimento da inteligência artificial, com destaque para três fatores importantes: máquinas com grande potência de processamento; modelos de dados otimizados (capazes de analisar e processar informações de modo inteligente); constante quantidade de informações para alimentar os modelos. Também existem algumas leis que os desenvolvedores dos softwares de inteligência artificial devem seguir para evitar que a tecnologia execute ações inesperadas. Esses parâmetros foram criados com base nas Leis da Robótica ou "Leis de Asimov". Entre alguns dos princípios, destaque para: Restrição de conhecimento: impõe um limite ao que a inteligência artificial pode aprender e executar. Proibido se auto replicar: impede que a IA se reproduza, ou seja, que gere cópias de seu software de modo independente. Proibição de interação: impede que a inteligência artificial mantenha contato com pessoas não autorizadas para se comunicar com elas. Ordem: a inteligência artificial deve obedecer a todas as ordens que o seu programador inserir no 29 sistema, mesmo que isso inclua a autodestruição do dispositivo. Essas "barreiras" são úteis para limitar a área de atuação e participação da inteligência artificial, evitando que ela seja capaz de executar ações que foram aprendidas, mas que não se enquadrem com o seu propósito. Fonte: elaborado pela autora. Embora todos os avanços e da existência da Sofia, a robô mais inteligente do mundo, ainda estamos na esfera do experimental. O mais significativo dessa tecnologia são as aplicações não-humanoides. A finalidade é ajudar os humanos a solucionar problemas em menos tempo e com menor custo. Será que conseguiremos não ser dominados por nossas próprias criações (robôs)? Será que nossos avatares serão robôs? De certo modo, já transferimos aos robôs nossas almas, como extensões de nossos corpos onde não podemos estar. Pelo celular ou em super centros tecnológicos, já chegamos ao espaço, fazemos a faxina da casa ou vamos ao interior de células humanas investigar doenças. 5.3 Eu real no universo atual A Internet das Coisas (IoT) é nossa conexão com um mundo paralelo. Sem intermediários, nem mesa branca ou qualquer coisa do gênero. Apenas ondas invisíveis capazes de atravessar corpos, paredes e espelhos e nos transportar para nossos avatares. Há quem diga queesta será a última etapa da Ciência da Computação, o que se subentende que, depois disso, não sabemos o que virá. Já estamos vivendo esta fase. Já conectamos nossos mundos particulares a seres que nunca vimos. Somo capazes de dizer para nossas casas quando devem acender as luzes, ativar o alarme ou a máquina de lavar-roupas sem apertar qualquer botão e estando a quilômetros de distância, em alguns casos, só porque as máquinas já aprenderam nossa rotina. Nossa lista de 30 compras pode ser feita por nossa geladeira e podemos organizar nossa agenda com alguém que está do outro lado do mundo, ou assistir a uma aula com quem nunca conversaremos pessoalmente. Uma experiência ao estilo de De volta para o futuro Parte II (1982). Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a existência da Inteligência Artificial em nossas vidas cotidianas, já pode mudar de ideia. Mesmo que você ainda não tenha uma Smart TV (TV inteligente) já deve ter um Smartphone (celular inteligente) ou estar muito próximo a alguém que tenha. Sim, estamos vivendo no mundo das coisas inteligentes. Aliás, mais do que isto, coisas espertas – start também pode significar esperto. Se fingiram chegar à Lua em 1969, agora não temos mais dúvidas de que conquistamos o espaço. O universo real é explorado por nossas máquinas inteligentes, nossos avatares. Nossa materialização em um novo mundo. Nossa forma de nos tornarmos onipresentes, oniscientes. Robôs com forma estranhas sem braços nem pernas, mas capazes de andar e realizar experimentos químicos, como o robô que desbrava o terreno de Marte ou os nano robôs que estudam as células humanas ou levam medicamentos. Talvez a maior de todas as superações que a humanidade tenha pretensão de querer realizar seja a da criação do próprio universo. O que alguns diriam querer superar Deus. Sermos capazes de superar a morte de tal forma que nos tornaríamos detentores do conhecimento da imortalidade. Sem dúvida, uma questão ética bem moderna. Aonde queremos chegar? Não precisamos dos aceleradores de partículas, já ilustrado no filme O Inferno (2016)17 para esta pretenciosa empreitada, mas eles fazem parte deste cenário. Ainda sobre os robôs, nossos avatares, não devemos deixar passar desapercebido o fato de que são quase imortais. “Quase” porque a representação física morre, mas a alma não. Mas eles são tão espertos, como em O exterminador do futuro 2: o julgamento final (1991), capazes de se autorregenerar e, se não houver acidente que eles mesmos ou os humanos do mundo real consigam resolver, eles próprios serão capazes de determinar o dia e a hora de suas mortes. 5.4 Dominador e Dominado 17 Filme inspirado no livro homônimo de Dan Brown (2013). 31 Certa ou errada, a tecnologia é nossa criação mais atual na busca por suprimir a morte e nossas fraquezas. Será que um dia a relação criador e criação será invertida como mostram os filmes de ficção científica? Seremos superados por nossos avatares? E, será que já não somos como no filme Matrix (1999)? Será que realmente conseguiremos estabelecer um limite nesta relação e manter as máquinas submissas a nós? Podemos tomar como exemplo nossa relação com a natureza, onde somos cria e hoje devoramos nossa criadora. TROCANDO IDEIAS Debater sobre ética é uma tarefa infinita. Para que você possa refletir sobre este conteúdo, sugerimos que reflita sobre normas morais que você recebeu em sua infância que não fazem mais sentido na Era Digital, mas ainda fazem sentido para você. Você pode fazer indicações de filmes, vídeos, livros e o que mais for pertinente para ilustrar. Como sugestão para ajudar nesta reflexão, indicamos o filme Nós que aqui estamos por vós esperamos (1998), 55 min, de Marcelo Masagão. Não se preocupe em tomar nota, assista, reflita e, depois, comente a questão acima. Disponível em: Figura 8 – Capa do filme Fonte: NÓS que aqui estamos por vós esperamos. Direção: Marcelo Masagão. São Paulo, SP, Agência Observatório, 2006, 73 m. NA PRÁTICA Até que ponto podemos definir ética em uma sociedade que está constante transformação? 32 Para responder a este problema: 1) Assista ao filme Avatar (2009). Tome nota de situações que possam ilustrar a esta questão. 2) Utilize como base teórica o conteúdo e as referências que foram apresentadas nesta aula. A resposta para esta prática está no próprio conteúdo. A intenção é que consiga relacioná-lo com exemplos ilustrados no filme, como quando o protagonista é questionado sobre de que lado vai ficar – da mineradora que o contratou ou do povo da Na’vi. Indique outros exemplos. FINALIZANDO Nesta aula, fizemos uma reflexão de como compreender a Ética na sociedade contemporânea, sob a influência das novas tecnologias. Para esta análise, partimos da compreensão de o que é cultura e formação da polaridade, como parte do processo de formação da assimilação dos sentidos que vão formar as normas morais. Após uma avaliação sobre os métodos que influenciam na construção do argumento, avaliamos como a filosofia moderna trata ética. Finalizamos com uma análise sobre onde desejamos chegar no mundo digital sob a perspectiva da ética. Assim, é possível concluir que mudanças de paradigmas influenciam diretamente na estrutura ética de uma sociedade. Talvez ainda estejamos vivendo intensamente este processo de transformação e, por isto, ainda seja cedo estabelecer o que é ser ético na Era Digital, mas devemos pensar nos legados que deixaremos para o futuro, como nos deixaram os que vieram antes, no passado. Os valores que vamos instituir como normas morais ajudarão as futuras gerações a manter a existência humana? O que eles aprenderão conosco? 33 REFERÊNCIAS ALENCASTRO, M. S. Hans Jonas e a proposta de uma ética para a civilização tecnológica. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 19, p.13-27, Curitiba, Editora UFPR, jan./jun. 2009. BAUDRILLARD, J. Simulacros e Simulação. Trad. Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio D’Água, 1981. BARBIÉRI, L. F.; OLIVEIRA, M. STF decide que sacrifício de animais em cultos religiosos é constitucional. G1, 28 mar. 2019. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2019. BORGO, E. Crítica: Avatar. James Cameron e o Apocalipse Na’vi. Omelete, 21 set. 2014. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2019. BYSTRINA, I. Tópicos de Semiótica da Cultura. Trad. Norval Baitello Jr., Sônia B. Castino. São Paulo: PUC, 1995. CUNHA, M. C. da. Cultura com Aspas. Col. Argonautas. São Paulo: Ubu, 2017. EU Robô. Direção: Alex Proyas. Intérprete: Will Smith, Bridget Moynahan, Alan Tudyk, Bruce Greenwood. Roteiro: Jeff Vintar. Estados Unidos: 20th Century Fox, 2004. Vitium, 6 maio 2017. Disponível em: . Acessado em: 31 out. 2019. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Fundamentos de metodologia científica. São Paulo: Atlas, 1985. MACHADO, I. Escola de Semiótica: a experiência de Tàrtu-Moscou para o estudo da cultura. Cotia: Ateliê Editorial; São Paulo: Faesp, 2003. NÓS que aqui estamos por vós esperamos. Direção e roteiro: Marcelo Masagão. 1998. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2019. MORAES, V. Dialética. Evertonllins, 23 set. 2010. Disponível em: impactos-ambientais/7001>. Acesso em: 31 out. 2019. TUGENDHAT, E. Lições sobre ética. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. VELEIRO com a ativista adolescente Greta Thunberg chega a Nova York após atraso. G1, 28 ago. 2019. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2019.