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ÉTICA E SUSTENTABILIDADE 
NA ERA DIGITAL 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Giselle Aparecida Piragis Zogaib 
 
 
CONVERSA INICIAL 
Os discursos pró-preservação do meio ambiente sempre assustaram os 
mais sensíveis às previsões apocalípticas e irritaram os mais impiedosos 
exploradores dos mercados econômicos. Até que chegou um momento em que 
preservação ambiental tornou-se uma poderosa ferramenta estratégica de 
mercado. E, de uma hora para outra, muitas pessoas, bombardeadas por tantas 
previsões e críticas, passaram a consumir produtos ecologicamente corretos 
para alívio de suas consciências e desgosto dos que tratam com seriedade o 
tema, trabalhando em pesquisas e estratégias verdadeiramente sustentáveis. 
Quem está certo e quem está errado nesta história? Existem vilões e mocinhos? 
Não vivemos em um mundo tão objetivo assim em que a lógica matemática baste 
para justificar e existência humana e suas escolhas. Compreender estas 
relações por meio da perspectiva ética é um bom início para compreender como 
a sustentabilidade (ambiental, social, econômica, tecnológica etc.) pode ser uma 
prática no caminhar da humanidade, alcançando futuros ainda não imaginados. 
Mas o desafio de definir uma ética que considere os avanços tecnológicos 
equivale a viajar na profundidade da experiência humana ao longo dos séculos 
e encontrar em si mesmo a sugestão sobre como vivem em coletividade. Para 
tudo isto, este material pode ajudar na compreensão não apenas da existência 
ou não de uma nova ética, mas do modo como nos relacionamos com mudanças 
tão fundamentais para a existência humana. 
No primeiro tema, “Cultura e Polaridade”, sob a perspectiva da estudos da 
semiótica da cultura, propõe-se compreender por que temos opiniões tão 
divergentes, mesmo com problemas iguais a todos e com reconhecida 
(co)responsabilidades. No segundo tema, em “A perspectiva do método 
científico”, partimos da análise Eva Maria Lakatos e Marina de Andrade Marconi 
sobre os métodos que, científicos ou não, orientam o que formará nossa 
argumentação. “O caminho para uma nova ética”, no terceiro tema, é uma 
introdução ao tema seguinte, abrindo o debate com uma reflexão sobre o 
individual e o coletivo. Assim como o terceiro, o quarto tema trabalha com os 
estudos sobre ética de Ernest Tugendhat. Além dele, “Em perspectiva filosófica 
sobre ética”, no quarto tema, Hans Jonas ajuda a interpretar o que diz a filosofia 
“moderna” sobre o assunto, relacionando questões sobre inovações 
tecnológicas e meio ambiente. Na quinta e última parte, há uma reflexão sobre 
 
 
3 
os conceitos de Inteligência Artificial e a Tecnologia das Coisas, emprestando do 
cinema alguns argumentos para compor esta análise. 
CONTEXTUALIZANDO 
Anos atrás, alguns índios prenderem em sua aldeia um motorista, 
funcionário da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), e três funcionários da 
Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), um era dentista e a outra, enfermeira, 
o terceiro, técnico em enfermagem. Alguns índios estavam armados com arcos 
e flechas, varas de bambu, de corpo pintado e com penas na cabeça. Era uma 
minoria cênica, um número suficiente para fazer volume e aparecer nas fotos 
tiradas pelos jornalistas que estavam presentes. Eles estavam reivindicando 
melhor atendimento de saúde. Afirmavam que eram maltratados por aqueles 
dois profissionais e que a FUNAI nada fez quando deram queixa. Além do 
atendimento ruim, reclamavam do estado deplorável dos postos onde recebiam 
o atendimento – casas de tapumes, com goteiras e chão batido, sem energia 
elétrica e sem equipamentos ou materiais básicos para o atendimento clínico. 
Após um dia inteiro de negociação, registrado pelos principais jornais do 
país, o Ministério Público formalizou um termo de responsabilidade com os índios 
em troca da liberação dos funcionários. A médica que dizia ter medo de ser 
violentada e o dentista que acreditava que levaria uma surra foram embora junto 
do funcionário da FUNAI, que achava que os índios estavam no direito deles. 
Após uma noite fora de casa, todos voltaram sãos e salvos para o conforto de 
seus lares e, certamente, aproveitaram uma boa refeição quente. Enquanto isso, 
os índios comemoravam comendo um ensopado com cabeça de um peixe que 
encontraram morto na praia, porque já era noite e não se podia mais pescar. 
Na manhã seguinte, o jornal trazia uma nota na primeira página 
registrando o modo irracional como os índios trataram o problema, colocando em 
risco a vida de pessoas que estavam lá para ajudá-los. Quando o líder indígena 
foi questionado se ficava irritado com o posicionamento parcial da imprensa, ele 
apenas respondeu: “Não! Eles falaram da gente”. 
Na leitura desta história, quantas vezes você mudou de opinião sobre 
quem eram as vítimas da história? Assim acontece com a ética e nossa tentativa 
de compreender os valores morais no passar das gerações. 
 
Highlight
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4 
TEMA 1 – CULTURA E POLARIDADE 
Figura 1 – Ética 
 
Crédito: Lightspring/Shutterstock. 
1.1 Dizem que é cultura 
Os debates sobre preservação ambiental conquistaram um perfil ainda 
mais polarizado, especialmente em consequência das medidas políticas 
adotadas pelos governos Trump, nos Estados Unidos, e Bolsonaro, no Brasil. 
Decisões políticas são questionadas quanto a suas validades práticas para 
sustentar o futuro da humanidade. Cada indivíduo no mundo, minimamente 
atento aos meios de comunicação ou às redes sociais, forma opiniões favoráveis 
ou contrárias aos líderes de Estado. Opiniões particulares fundamentadas 
apenas em suas experiências particulares, individuais. Poucos são os que 
conseguem formular teorias capazes de argumentar com coesa fundamentação 
sobre as hipóteses levantadas e, ainda assim, não convencem a todos. 
Para alguns, o mundo está chegando ao fim com o retrocesso da moral, 
como se a vida estivesse perdendo seu valor. Para outros, ainda estamos 
lutando pela valorização da nação e dos bons costumes em prol do crescimento 
econômico. Ainda, existem os que se sentem parcialmente concordantes com 
ambos os lados e, portanto, igualmente discordantes também, como se “a coisa” 
não fosse bem assim. 
Talvez, o único ponto de concordância entre as massas seja o da 
incerteza em relação à existência da ética. Com base em que definimos a ética 
de uma sociedade mutante? 
Highlight
Highlight
Highlight
 
 
5 
Tudo parece ser uma questão de cultura ou da falta dela. Ao menos é o 
que alguns dizem. Mas será mesmo? Será que as previsões apocalípticas são 
mesmo uma questão de cultura? 
Em primeiro lugar, é bom esclarecer que cultura não é o mesmo que 
“cultura”, como bem esclarece a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, no 
capítulo XIX de sua obra Cultura com Aspas, ou então o que os semiotissistas 
da cultura explicam de forma um pouco mais minuciosa com os estudos da 
Escola de Semiótica da Cultura1. Estudos estes realizados com base no 
Estruturalismo de Claude Lévi-Strauss2 (1908-2009). 
Indo direto ao assunto, existe o senso comum de dizer que tudo é uma 
questão de cultura. Não é raro confundir o sentido de “ser culto”, ter acesso à 
cultura, ser educado, conhecedor de teorias e saber se expressar bem com 
pertencer a uma cultura. 
A parte da cultura que vemos – com a qual temos contato – é a expressão 
de informações que carregamos ao longo de gerações. Mas atenção! Não são 
informações hereditariamente transmitidas. São informações que aprendemos 
desde o nascimento (ou até mesmo antes dele), e que compartilhamos com o 
mundo. Essas informações são resultado da reunião de códigos3 que, quando 
organizados em função em determinado grupo social, geram sentido. Mas 
atenção novamente! Esses códigos organizados nesse grupo podem não fazer 
sentido algum para um outro grupo, ou fazer sentido apenas parcialmente. Isto 
vai depender dos códigos que acumuladosantes e do modo como as 
informações foram organizadas, o que denominamos memórias coletivas. Sendo 
assim, é mais fácil compreender que cultura não é algo imutável. Mas sim, algo 
que se transforma constantemente, tanto quanto a vida nos mais diferentes 
biomas natural ou artificial (falaremos desses biomas mais tarde). E por todas 
estas razões, a cultura é a estrutura social de um grupo. Religião, rituais, 
linguagens – idiomas, músicas e outras expressões artísticas –, costumes, 
valores morais e assim por diante, são a expressão da cultura. São o modo como 
transmitimos as informações, ou seja, os códigos culturais organizados. 
 
1 “Cultura é memória coletiva não hereditária” (MACHADO, I. 2003: 157) 
2 Antropólogo e etnólogo criador da Antropologia Estrutural. 
3 “Códigos Culturais: “Estruturas de grande complexidade que reconhecem, armazenam e 
processam informações com um duplo objetivo: regular e controlar as manifestações da vida do 
bio, do socius, do semeion”. (MACHADO 2003: 156) 
 
 
6 
Diante disso, não podemos dizer que falta cultura, por mais que algumas 
opiniões pareçam ter saído de cabeças acéfalas. Podemos, no entanto, afirmar 
que polaridade é uma questão de cultura porque nossas opiniões são formadas 
com base em nossos conhecimentos empíricos, são as experiências que 
acumulamos desde o nosso nascimento (ou até mesmo antes dele). E, sim, a 
construção desta oração foi intencionalmente organizada para que lhe soe 
familiar, como um dèjá vu em sua leitura, retomando algumas linhas acima. Isto 
porque queremos reforçar que as experiências que acumulamos são 
informações. 
Talvez pareça um pouco confuso acreditar que pessoas com opiniões tão 
diferentes sobre os problemas ambientais pertençam à mesma cultura. Vamos 
delimitar aqui, apenas para fim de exemplificar esta questão, a sociedade 
brasileira. Em um grupo social, existem vários subgrupos. Afinal, se 
hipoteticamente alguém conseguisse pertencer a todos os grupos, essa pessoa 
seria a cultura em si, não apenas um meio de expressão da cultura. Quando 
dizemos que alguém é culto, estamos afirmando que essa pessoa domina (no 
sentido de ter profundo conhecimento) parte dos códigos culturais. Ora, um 
intelectual pode concordar com as pesquisas biogenéticas, compreender os 
problemas gerados pelo avanço do desmatamento, e ainda ser um completo 
ignorante em assuntos relativos à economia internacional, direitos humanos, 
geopolítica, tecnologia da informação. O grau de sapiência de cada indivíduo na 
sociedade varia conforme o grau de interação provido de informação, ou seja, 
os códigos culturais. E esta interação não ocorre apenas no nível do adquirir, 
reter. É fundamental a troca de opiniões, o conflito com o meio. Na ciência, por 
exemplo, o que importa é como você comprova ou contesta uma hipótese, e não 
se está certo ou errado. Em outras palavras, buscar o conhecimento pela simples 
satisfação do ego não garante que seja capaz de escravizar o mundo, dominar 
a opinião dos outros, prevalecer sobre qualquer um. A propósito, os que tentaram 
conquistar o mundo, descritos na história mundial, ou colocaram fogo em Roma, 
ou foram assassinados no campo de batalha, ou foram envenenados, ou se 
mataram, ou fugiram (talvez como covardes). 
Portanto, fugir do debate e da opinião contrária não é saudável para a 
mente de ninguém. Isto não é o mesmo que dizer que guerras são a 
consequência natural. Armas são o recurso dos que não conseguem argumentar 
porque matar é a melhor forma de anular aquilo que é contrário. Quando há 
 
 
7 
morte, há a negação da vida. Apesar de vivemos para negar a morte, quando 
existe a anulação do outro pela negação, estamos restringindo a possibilidade 
consciente de realizarmos aquela relação básica da cultura apresentada no 
início deste texto – a qualidade de a cultura ser mutável, não estática. De um 
modo ou de outro, seja pela negação ou pela aceitação do conflito, já é possível 
perceber que ele é inevitável e nunca será pacífico. Ou seja, mesmo que haja 
discordância sobre opiniões políticas ou qualquer outra coisa, ainda que 
estejamos lutando contra o que nossos códigos dizem ser a expressão do mal, 
em algum momento teremos que reorganizar os códigos que recebermos do 
contato com aqueles que acreditam que seja a expressão do bem. 
Mas falávamos sobre a sociedade brasileira. Se cada um do grupo 
desenvolve suas próprias habilidade de traduzir e compartilhar códigos culturais, 
podemos perceber que nem todos desenvolverão a mesma capacidade de 
assimilação, ou seja, de identificar um (mesmo) sentido na informação. As 
variáveis que ocorrem a nível global também ocorrem em pequenos grupos, e 
nem todos estes subgrupos conseguem assimilar a informação da mesma forma. 
A consequência é que acabam se redistribuindo em subgrupos dentro de um 
mesmo grupo. Para ilustrar (e apenas para ilustrar), podemos observar que, 
apesar de habitarmos o mesmo planeta, cada país tem sua própria cultura. Em 
nível local, temos os que creem na volta de algum profeta e os ateus, os 
operários políticos e os apolíticos, os ambientalistas e os ruralistas. 
É assim que uma sociedade se torna polarizada. Cada um interpreta os 
códigos conforme suas experiências acumuladas desde o nascimento (ou até 
mesmo antes dele). Isto é a diversidade cultural e a capacidade de evoluir está 
relacionada com o modo como um grupo social, composto de vários subgrupos, 
consegue se organizar de modo a compartilhar informações e não apenas anulá-
las. 
1.2 Entre duas ou mais opiniões 
Antes de falar sobre ética, um dos temas deste curso, faremos outra 
reflexão. Existiria o bem sem o mal? Mesmo que sem perceber, muitas vezes 
revelamos um desejo quase infantil de fazer sumir aquilo que nos contraria. 
Criticamos o outro4 e o definimos como um ser menos esclarecido, com menor 
 
4 Aquele que não pertence à mesma cultura e com quem se estabelece um relacionamento de 
estranhamento. 
 
 
8 
capacidade de compreensão sobre os fatos apenas por ter outra perspectiva 
sobre o mesmo problema. Ele se torna um exemplo do errado, do negativo, do 
que é imoral, mal, ou, no mínimo, mediano, sem ser merecedor de qualquer 
opinião negativa ou positiva – fazemos praticamente um bullying inconsciente. 
Mas se isso se confirmasse, qual seria nosso parâmetro de referência 
sobre a dimensão de nossas experiências e o quanto elas são válidas para o 
meio onde vivemos? Ao falar sobre cultura, apresentamos alguns argumentos 
que indicam que a nossa capacidade evolutiva esbarra na capacidade evolutiva 
de outro. Nossas experiências de vida estão necessariamente entrelaçadas com 
as experiências de vida de outro e no conflito. 
O entendimento de que somos autossuficientes, totalmente 
independentes no agir e pensar, anula-se ao compreendermos que não existe 
apenas um único entendimento verdadeiro. Somos constituídos por trocas de 
sentidos com outros seres e com o meio. Somos mutação não regressiva. Sendo 
assim, acumuladores de sentidos e experiências que oportunamente 
organizamos para o convívio social. O propulsor da existência está na constante 
luta entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, entre o positivo e o negativo, 
entre o céu e o inferno. E para isso, não podemos ignorar a existência do outro. 
Negar a existência do mal equivale a negar o próprio bem. Julgar o outro 
como sem cultura é julgar a si próprio como aculturado. Um exemplo, o índio 
antes vistos pelo mito do índio bom ou índio mau, guerreiro ou assassino, 
resistente ou acomodado ao defenderem seus territórios, ainda hoje é visto 
assim quando deixa sua aldeia para ter realizações não típicas de povos isolados 
(e vestidos) e ingressar no espaço predominantemente ocupado por não-índios 
– com origem europeia, africana, asiática etc. Em algummomento seremos 
individualmente a versão oposta de algo e tal oposição pode ser, inclusive, a 
própria negação da nossa existência. Ainda que estejamos habitando o mesmo 
território, vivemos em estruturas culturais distintas, e aceitar o outro com suas 
particularidades implica em muito mais do que boa vontade. 
Nosso julgamento é particular, mas também pode ser coletivo quando 
vivemos em sociedade e compartilhamos a mesma cultura (não 
necessariamente a mesma opinião). Os valores morais que organizam nossa 
convivência em grupo, em geral, são validos apenas para uma estrutura de 
determinada constituição de tempo-espaço: envolve gerações herdeiras do 
sentido moral, de uma limitada região. Não são perpétuas. As normas morais 
 
 
9 
não se aplicam parcial ou integralmente a outras esferas culturais, outras 
sociedades. Durante o curso sobre “Tópicos de Semiótica da Cultura”, ministrado 
da PUC de São Paulo, em 1995, Ivan Bystrina afirmou que: 
Entendemos por cultura todo aquele conjunto de atividades que 
ultrapassa a mera finalidade de preservar a sobrevivência material. [...] 
O que podemos dizer de novo sobre a cultura é que, no seu cerne 
pulsante, ela existe para si mesma, ou seja a cultura pela cultura. 
Apenas na sua periferia, nas suas margens é que ela se torna algo que 
serve para outras finalidades. 
Quando Bystrina se refere à margem e à periferia de uma cultura, ele está 
fazendo uma referência à circunstância em que determinada cultura está mais 
próxima de outra – o outro. Apenas neste encontro de culturas que questionamos 
os valores morais de outras culturas e passamos a desacreditá-los – quando não 
convém. 
Apesar de a moral não ser a responsável pela definição dos padrões de 
uma cultura, ela é a intensão (consciente ou inconsciente5) que indica o sentido 
que uma informação que assume na cultura. 
É claro que o receptor tem também uma intenção consciente ou 
inconsciente, mas ele também deve estar aberto aos estímulos que 
chegam até ele. Eu posso, por exemplo, conversar com alguém que 
absolutamente não me ouve porque simplesmente não tem a intenção 
de me ouvir, consciente ou inconscientemente. O processo de 
informação unilateral e o processo de comunicação são coisas 
diferentes (Bystrina, 1995). 
As discussões binárias (ou dual), como viver ou morrer, certo ou errado, 
homem ou mulher, justo ou injusto, são estruturas básicas da cultura, concepção 
que se fundamenta na troca, no intercâmbio que acontece no mundo físico 
(Bystrina, 1995). Independe de uma interferência de valores, mas orienta as 
ações, define diretrizes. 
Diferente de ser “apenas” binário, quando dizemos, por exemplo, que a 
sociedade está polarizada, estamos dizendo que está dividida em 
posicionamentos binários somados a valores. Não são mais apenas oposições 
inerentes à vida material, estas decisões estão carregadas de sentidos positivos 
e negativos que recebem tais sinais por meio de experiências individuais que se 
acumulam desde o nascimento. Então, quando falamos de uma sociedade 
dividida entre o que é certo e o que é errado nas decisões políticas que tangem 
à preservação da vida para o futuro, estamos traduzindo sentimentos de vida e 
 
5 Segundo Freud, algo na psique produz intenção (Bystrina, 1995). 
 
 
10 
morte baseados no conhecimento empírico. Não são mais apenas constatações 
do que ocorre na esfera material pura e simplesmente. Um exemplo binário seria: 
se6 derrubar a árvore não teremos mais sombra (com árvore ou sem árvore. Uma 
relação de sim ou não). Na visão ambientalista, polaridade negativa: derrubar 
uma árvore significa não ter mais sombra, logo7 o planeta ficará mais quente. Na 
visão desenvolvimentista, polaridade positiva: derrubar uma árvore significa que 
não teremos mais sombra, no entanto8 teremos mais pastagens ou espaço para 
cultivos. 
Contudo, o mais comum é a formação de opiniões assimétricas. Damos 
ao polo negativo maior importância do que ao polo positivo, o que induz a uma 
necessidade de superação: para que o bem vença o mal. Assim chegamos ao 
ponto de que não existe o bem sem o mal. Por exemplo, não desejamos a morte 
– porque ela tem um sentido negativo –, por isto trabalhamos constantemente 
para superá-la e fazer a vida prevalecer sobre ela (vida após a morte, 
reencarnação, ressureição). Não desejamos que as queimadas destruam as 
florestas, por isso, mesmo depois dos incêndios, existe a luta para o 
reflorestamento. 
A assimetria está na necessidade de vencer o mal e isso pode acontecer 
de três formas: 
 Por identificação (correspondência): quando o negativo (morte) pode 
corresponder ao positivo (vida) ou o contrário. “O que está acima também 
está abaixo” (proverbio egípcio). O microcosmos reflete o macrocosmo. O 
que ocorre no universo digital irá refletir (ter consequência) no universo 
real. 
 
 
6 Conjunção subordinada adverbial condicional: exprime condição ou hipótese. 
7 Conjunção coordenativa conclusiva: que exprime uma conclusão. (Pasquale, 1998) 
8 Conjunção coordenativa adversativa: que exprime oposição, contraste. (Pasquale, 1998) 
*Conjunções são conectivos que unem termos de uma oração ou unem orações. 
 
 
11 
Quadro 1 – Assimetria 
negativo 
 
negativo 
destruir a natureza é destruir a vida 
positivo 
 
positivo 
Zelar pela qualidade de vida das 
futuras gerações 
é zelar pela própria qualidade de 
vida 
Fonte: elaborado pela autora. 
 Por supressão da negação: Composto de sistemas que não são 
binários, mas pluricompostos (céu, terra, inferno). 
Se olharmos para o sistema binário céu e terra, céu será o polo positivo e 
terra, o negativo. Mas se o sistema for composto de terra (positivo) e inferno 
(negativo), terra deixou de ser negativa, assim substituímos uma opinião 
negativa por uma positiva. O que demostra que não é uma questão de falta de 
personalidade ou de conhecimento, mas de ocasião. 
Sugestão de leitura 
PIOLI, M. A energia eólica e os impactos ambientais. Ambiente Energia, 3 nov. 
2010. Disponível em: 
. Acesso em: 31 out. 2019. 
A produção de energia eólica é um exemplo do uso da tecnologia na 
produção de energia por fonte renovável, ambientalmente correta. No entanto, 
há quem discorde porque estudos indicaram os custos ambientais na produção 
e no armazenamento da energia gerada. Ou seja, o polo positivo, neste caso, foi 
suprimido pelo negativo. 
Quadro 2 – Polos positivo e negativo 
A energia eólica é... favorável ao meio ambiente quando... 
Tecnologia + 
Danos ambientais _ 
 
A energia eólica é... contrária ao meio ambiente quando... 
Energia renovável + 
Tecnologia - 
Fonte: A autora. 
 
 
12 
Neste exemplo, podemos observar que, para ocorrer a supressão da 
negação, um dos elementos da tríade é subtraindo momentaneamente. Isto varia 
conforme a ocasião, como foi dito antes. Outro exemplo é o caso da jovem Greta 
Thunberg, de 16 anos, de quem os atos têm mobilizado adultos e crianças a 
levantarem suas cartolinas em defesa do meio ambiente. Recentemente, ela 
viajou pelo Oceano Atlântico em um veleiro ambientalmente sustentável para 
participar da Summit da Ação Climática da Organização das Nações Unidas 
(ONU) em Nova York. Não quis usar avião porque são altos emissores de 
carbono, portanto, poluentes. Ela disse que passou os quinze dias no mar sem 
tomar banho! 
Sugestão de leitura 
VELEIRO com a ativista adolescente Greta Thunberg chega a Nova York após 
atraso. G1, 28 ago. 2019. Disponível em: 
. Acesso 
em: 31 out. 2019. 
 
A atitude da jovem é louvável porque incentiva o debate sobre o meio 
ambiente,mas questionável quanto à viabilidade prática de atitudes como a dela. 
O que vai definir se serão efetivas ao meio ambiente serão os resultados práticos 
desta iniciativa, que repercutiu mais do que muitas crises ambientais deveriam 
repercutir. Ela representa uma atitude que supera um problema, não um embate 
direto com o problema, como fazem os cientistas. Escolheu viajar de veleiro, mas 
isto não muda em nada a necessidade de quem precisa do avião. E quanto a 
emissão de carbono o veleiro gerou quando foi produzido? Os materiais usados 
na construção e nos equipamentos para mantê-lo funcionando têm origem 
renovável? Se afundasse na travessia, geraria algum impacto ao meio ambiente 
marinho? Nada disso importa porque o mal, causado pelos danos ambientais 
com a morte do meio ambiente, foi suprimido pela iniciativa de uma jovem em 
defender a vida viajando em um veleiro. 
 Inversão: Como o termo diz, troca entre polos opostos. Superação do 
negativo. 
 
 
13 
A clonagem de animais, assim como os alimentos transgênicos, carrega 
o estigma de serem algo negativo, contrário a princípios éticos, como o respeito 
e preservação da vida. No entanto, a ciência comprovou a importância dos 
resultados científicos alcançados com pesquisas genéticas e tem desenvolvido 
técnicas saudáveis para a preservação da vida, portanto positivas. 
Quadro 3 – Negativo ou positivo 
Negativo porque... 
Alimentos transgênicos Não são naturais – criados em laboratório; 
Podem causar câncer; 
Poluem o meio ambiente contaminando outras sementes 
não geneticamente modificadas; 
São irreversíveis. 
Animais clonados Não há controle sobre as consequências para a vida. 
Superou o negativo e tornou positivo porque... 
Alimentos com genes 
modificados 
Melhoram a qualidade dos alimentos – alimentos mais ricos 
em fontes de nutricionais; 
Diminuem os custos de produção – alimentos mais 
resistentes a pragas utilizando poucos produtos tóxicos para 
o cultivo e recursos naturais; 
Ampliam a oferta e o acesso – mais pessoas serão 
alimentadas com baixo custo. 
Animais clonados Preservação de espécies ameaçadas de extinção ou 
extintas; 
Desenvolvimento de medicamentos com melhor potencial 
curativo; 
Desenvolvimento de muitos para recuperação de células 
causadoras de doenças graves. 
Fonte: A autora. 
Mesmo que existam aspectos negativos nos casos descritos acima, o bem 
supera o mal. O objetivo é, a princípio, vencer a miséria e a morte. 
 
 
 
 
 
 
14 
TEMA 2 – A PERSPECTIVA DO MÉTODO CIENTÍFICO 
Figura 2 – Método científico 
 
Crédito: Becris/Shutterstock. 
Para avaliar a ética na preservação do meio ambiente, na sociedade 
contemporânea, sob a perspectiva da ciência, precisaremos estabelecer um 
método de análise. Mas, não é apenas a ciência que permite usarmos estes 
métodos (científicos). Isto é relevante para este estudo porque, citando Eva 
Maria Lakatos (1985: 81), “O método é um conjunto das atividades sistemáticas 
e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo 
– conhecimentos válidos e verdadeiros – traçando o caminho a ser seguido, 
detectando erros e auxiliando as decisões do cientista”. 
A relação que se estabelece aqui é a de uma análise sobre como 
estruturamos a cultura utilizando a natureza dos métodos, sem mesmo nos 
darmos conta disso. Se isto é possível de maneira tão espontânea, por que não 
poderia ser também de forma consciente? Assim, podemos começar a perceber 
que não estamos muito distantes de tentar compreender estes novos tempos, 
onde o meio ambiente e as novas tecnologias se relacionam de forma tão vital, 
por meio da formação de novas normas morais. Afinal, se a cultura não é 
 
 
15 
estática, de que modo a ética seria? A maioria das pessoas hoje não se baseia 
nas explicações míticas sobre os fenômenos da natureza, no senso comum. A 
religião não é mais a principal fonte de explicação, nem mesmo a filosofia, com 
sua busca incessante pela essência imutável do real. Desde o século XVI, 
estamos muito mais críticos e muito mais inconformados com a submissão diante 
do poder (Lakatos, 1985). De modo geral, estamos mais dispostos à busca pelo 
conhecimento real, baseado em garantias: “Não se buscam mais as causas 
absolutas ou a natureza íntima das coisas; ao contrário, procura-se compreender 
as relações entre elas, assim como a explicação dos acontecimentos, através da 
observação científica aliada ao raciocínio” (Lakatos, 1985, p. 83). 
2.1 Método Indutivo 
Sugestão de leitura 
BARBIÉRI, L. F.; OLIVEIRA, M. STF decide que sacrifício de animais em cultos 
religiosos é constitucional. G1, 28 mar. 2019. Disponível em: 
. Acesso em: 31 
out. 2019. 
Assim, experiências de vida que mantêm rituais antigos, como o sacrifício 
de animais para uma boa colheita, por mais que ainda sejam praticados por 
muitos povos, não são a única fonte de informação. A prova disso são os debates 
que giram em torno do fim do sacrifício de animais, sejam eles por motivos 
religiosos ou culturais. O mesmo aconteceu com o fim do infanticídio em 
comunidades indígenas tradicionais, onde crianças que nasciam “fora da 
relação” ou com alguma deficiência deveriam ser mortas para não trazer má 
sorte para a aldeia. Mais recentemente, o Supremo Tribunal Federal autorizou o 
sacrifício de animais em rituais religiosos de matriz africana, o que entra em 
embate direto com as novas discussões sobre moral e imoral. 
Poderíamos afirmar que o sacrifício de humanos ou de animais não é ético 
porque hoje somos capazes de observar fenômenos, descobrir a relação 
existente e chegarmos a uma relação generalizada entre eles (Lakatos, 1985). 
Esta visão parte da observação de objetos isolados e do determinismo que os 
rege, por exemplo: 
 
 
 
16 
 
Quadro 4 – Observação de objetos isolados e do determinismo 
Fenômenos 
(Fatos) 
Descoberta da relação 
entre eles 
(determinismo) 
Generalização da 
relação 
A seca 
Nenhuma planta se 
desenvolve de modo 
satisfatório porque o solo 
está enfraquecido. 
 
Portanto, cultivo de 
alimentos será 
prejudicado. 
Irrigação inadequada 
As queimadas 
Cultivo intensivo 
Resíduos tóxicos – como o 
lixo. 
Mesmas causas + Mesmas circunstâncias = Mesmos resultados 
Fonte: elaborado pela autora. 
Já conseguimos comprovar que não é o sangue do sacrificado que salva 
vidas, mas que uma boa colheita depende de outras variáveis que agem para o 
seu sucesso ou fracasso da plantação. Sendo assim, partimos de informações – 
premissas – que nos levam a conclusões muito mais amplas do que o que 
inicialmente conhecíamos – o ponto de partida. “Indução é um processo mental 
por intermédio do qual, partindo de dados particulares, suficientemente 
constatados, infere-se uma verdade geral ou universal, não contida nas partes 
examinadas” (Lakatos, 1985:83). 
Observar as relações binárias9, como vida e morte, bem e mal, claro e 
escuro, sim e não, são, assim como no método indutivo, observações iniciais de 
fatos essenciais à vida, a partir do momento em que passamos a avaliar as 
circunstâncias, formamos conclusões gerais que podem sustentar argumentos 
não mais baseados na ordem mística ou de poder. 
 
 
 
 
 
 
 
 
9 Ivan Bystrina (1995). 
 
 
17 
2.2 Método Dedutivo 
Figura 3 – Dedução 
 
Crédito: banderlog/Shutterstock. 
Se observamos os fatos isolados, podemos chegar a conclusões gerais 
(método indutivo), se observamos de modo geral, também podemos chegar a 
conclusões sobre fatos isolados (método dedutivo). Todo conhecimento empírico 
contribui para um argumento dedutivo. Isto se assemelha muito com a definição 
de polaridade que Bystrina (1995) apresentou, que depende do valor que 
atribuímos a cada experiência em nossasvidas. A valoração das relações 
binárias constrói argumentos dedutivos. Por exemplo, ao estabelecer um 
comércio online: 
Quadro 5 – Valorização das relações binárias 
Generalização da 
relação 
Descoberta da relação 
entre eles 
(determinismo) 
Fenômenos 
(Fatos) 
DUAS OU MAIS 
empresas que vendem 
online tiveram bons 
resultados. 
SE as duas (ou mais) 
conseguem vender seus 
produtos... 
DEDUZ-SE que o 
comercio eletrônico é 
eficaz. 
Mesmos resultados + Mesmas circunstâncias = Mesmas causas 
Fonte: elaborado pela autora. 
Analisamos, assim, por que dois ou mais resultados tiveram a mesma 
resposta, por que duas ou mais experiências de vida resultaram na mesma 
situação. Por que duas ou mais empresas tiveram resultados positivos com o 
comercio eletrônico. O bom resultado das vendas é um polo positivo, não vender 
 
 
18 
é negativo. A dedução de que é “bom” vem do valor da experiência: alcançou o 
objetivo de receber dinheiro. 
2.3 Método Hipotético-Dedutivo 
Podemos comparar este método com a assimetria apresentada por 
Bystrina (1995), pois argumentos hipotético-dedutivos são soluções provisórias. 
Na assimetria, identificação, supressão da negação, inversão ou identificação 
que ocorrem nas relações binárias equivalem a soluções temporárias. Há em 
comum a tentativa de eliminar um erro, ou seja, o polo negativo é 
constantemente “invadido” para que possa ocorrer algum tipo de relação que o 
anule, “tal como no caso da dialética, esse processo se renovaria a si mesmo, 
dando surgimento a novos problemas” (Lakatos, 1985: 91). 
Quadro 6 – Esquema apresentado por Popper com explicação prática 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Lakatos, 1985, p. 92. 
Nascemos com expectativas e, no contexto dessas expectativas, é que 
se dá a observação, quando alguma coisa inesperada acontece, 
quando alguma expectativa é frustrada, quando alguma teoria cai em 
dificuldades. Portanto, a observação não é o ponto de partida a 
pesquisa, mas o problema. O crescimento do conhecimento marcha de 
velhos problemas para novos por intermédio de conjecturas e 
refutações (Lakatos, 1995, p. 93). 
Há pouco tempo, a Física Quântica descobriu que o átomo era a menor 
partícula do universo já descoberto, com teoria testada e contestada. Depois, 
“Em 20 anos, os 
bitcoins podem 
aumentar a 
temperatura da 
Terra em 2C” 
(Galileu, 2018) 
Expectativas (ou 
conhecimento 
prévio) 
Problema Conjecturas Falseamento 
Lakatos, 1985: 92 
Expectativas (ou 
conhecimento 
prévio) 
Aquecimento 
Global 
Uso das 
criptomoedas 
para preservação 
do Meio 
Ambiente 
Exemplo: 
 
 
19 
descobriram que o átomo se divide em partículas ainda menores, os prótons e 
elétrons. E não para por aí” 
2.4 Método Dialético 
Assim como o método hipotético-dedutivo, o dialético também está 
vinculado à Assimetria, vejamos por quê: 
Numa tentativa de unificação, diríamos que as quatro leis fundamentais 
(da dialética) são: a) ação recíproca, unidade polar ou “tudo se 
relaciona”; b) mudança dialética, negação da negação ou ‘tudo se 
transforma’; c) passagem da quantidade à qualidade ou mudança 
qualitativa; d) interpretação dos contrários, contradição ou luta dos 
contrários (Lakatos, 1995, p. 96). 
Seguindo os itens apresentados por Lakatos, para a construção de 
argumentos baseados no método dialético: 
a) Não devemos considerar que o mundo é formado por um complexo de 
coisas acabadas. Quando pensamos que chegamos ao fim de um 
processo, iniciamos outro. Quando acreditamos que, ao suprimir um valor 
negativo, o superamos de modo definitivo, logo há uma nova crítica que 
reacende o debate. Exemplo: Quando pensamos ter resolvido o problema 
do lixo com os aterros, logo descobrimos os impactos negativos que eles 
causam (os aterros). Quando desenvolvemos estratégias para coleta 
seletiva, logo descobrimos que, em alguns casos, usamos mais água para 
reciclar do que para fabricar. Quando utilizamos os gases produzidos pelo 
lixo como biocombustível, descobrimos que precisamos lidar com mais 
situações do que apenas lixo – indústrias petrolíferas, políticas 
econômicas, estrutura social. 
b) Se você for contrariado instintivamente, rebaterá. “Dito de outra forma, a 
negação de uma coisa é o ponto de transformação das coisas em seu 
contrário. Ora, a negação, por sua vez, é negada. Por isso se diz que a 
mudança dialética é a negação da negação” (Lakatos, 1985:98). A 
inversão, conforme Bystrina (1995), ocorre em situações quando o 
negativo se torna insuportável ou insuperável. Exemplo: Quando a 
televisão foi criada, alguns diziam que sua importância não superaria a do 
rádio. Isso também foi dito sobre a internet e a televisão. No entanto, 
ambas, cada qual em seu tempo, além de superar as expectativas de 
fracasso, superaram a si próprias. 
 
 
20 
c) Não podemos apenas quantificar as mudanças que ocorrem nas coisas. 
Em determinado momento, a qualidade da mudança também será 
pertinente para o argumento dialético. Não como uma contingência, mas 
como uma necessidade. Exemplo: entre os brasileiros, o acesso à Internet 
é maior pelo celular do que pelo computador. Esta quantidade de usuários 
indica uma mudança na qualitativo de comportamento sobre o modo como 
os brasileiros consomem informação. Se não houvesse meios de acesso 
à internet móvel, ou fosse restrito, não existiria uma mudança de 
comportamento (qualitativa). 
d) O processo binário10 é o propulsor para o argumento dialético porque “é o 
conteúdo interno do processo de desenvolvimento, da conversação das 
mudanças quantitativas em mudanças qualitativas” (Lakatos, 1985: 100). 
A luta entre os contrários instiga a transformação. Exemplo: Para velhos 
problemas, novas soluções. Para diminuir as distâncias e aproximar 
pessoas, novas tecnologias. Citamos o poema de Vinicius de Moraes, 
“Dialética”, e caso não se sinta provocado a criticar ou refletir, releia, 
reveja, re-inspire11. 
Dialética (Vinicius de Moraes) 
É claro que a vida é boa 
E a alegria, a única indizível emoção 
É claro que te acho linda 
Em ti bendigo o amor das coisas simples 
É claro que te amo 
E tenho tudo para ser feliz 
Mas acontece que eu sou triste... 
TEMA 3 – O CAMINHO PARA UMA NOVA ÉTICA 
Figura 5 – Dialética 
 
10 Bystrina, 1995. 
 11MORAES, V. Dialética. Evertonllins. Disponível em: . Acesso 
em: 31 out. 2019. 
 
 
21 
 
Crédito: Kentoh/Shutterstock. 
3.1 O valor moral e a relação de poder 
Na esfera política, também há uma disputa baseada no julgamento moral: 
O lugar de destaque que os conceitos de democracia e de direitos 
humanos assumiriam nas discussões políticas atuais também é, 
mesmo que não exclusivamente, de caráter moral. [...] Quem rejeita a 
reivindicação de um conceito de justiça, quase nem o pode fazer sem 
o contrapor-lhe um outro conceito de justiça. Em verdade as relações 
de poder de fato são determinantes, mas é digno de nota que elas 
necessitam de revestimento moral (Tugendhat,1996, p. 12). 
Neste trecho, Ernest Tugendhat (1996), em Lições sobre Ética, explica 
que reivindicações políticas referentes a grupos particulares ou marginalizados 
precisam ser observadas como questões puramente morais. Neste caso, se 
enquadram temas antigos ou recentes, como a imigração, eutanásia e aborto, 
obrigações morais com animais, meio ambiente e estudos genéticos. 
O complexo das questões acima mencionadas diz respeito ao estado 
das coisas que em parte são novos (por exemplo, a tecnologia 
genética), e em parte alcançaram, através do avanço tecnológico, um 
lugar de destaque até agora não existente (por exemplo, a 
responsabilidade para com as gerações futuras, e algumas questões 
da eutanásia). Outras questões já estavam desde antigamente 
presentes, mas encontraram-se fortemente colocadas na consciência 
geral – e podemos nos perguntar por quê: - porexemplo, problemas 
das minorias, aborto, animais (Tugendhat,1996, p. 12). 
A ética antiga, como a Kantiana, estava preocupada com questões que 
alcançavam um restrito universo limitado no tempo e no espaço, ou seja, com 
questões localizadas entre poucos indivíduos, de uma mesma comunidade, 
entre poucas gerações, e que não eram estendidas a toda a humanidade, por 
exemplo: “problemas em casa se resolvem em casa”. Mas, de repente, o quintal 
e a vizinhança começaram a fazer parte do universo das comunidades e 
 
 
22 
problemas da humanidade passaram a ser de todos. As tradições religiosas 
antes suficientes para explicar e orientar normas morais deixaram de o ser, 
considerando que grupos diferentes, com orientações particulares, passaram a 
trocar dúvidas. 
Seria intelectualmente desonesto manter-se ligado a respostas 
religiosas para as questões morais, apenas porque elas permitem 
soluções simples, o que não corresponderia nem à seriedade das 
questões, nem a seriedade exigida pela crença religiosa. Entretanto, 
também o crente não pode mais fundar suas normas morais em sua 
crença religiosa, pelo menos se ele leva a sério o não crente e aquele 
que possui uma crença diferente da sua. Pois a observância de normas 
morais é algo de podemos exigir de todos (de qualquer forma, assim 
parece ser), e, para fazê-lo, devemos também esperar que isso possa 
ser tornado compreensível para todos (Tugendhat,1996, p. 13). 
Ou seja, se não for possível que todos sigam a mesma norma moral, então 
ela não tem validade prática na sociedade. É necessário que todos a assumam 
como prática, mesmo que não estejam inteiramente satisfeitos com ela. Neste 
ponto é o que podemos traduzir como tolerância com o outro para o conviver 
“saudável”. 
O outro é aquele que não pertence ao grupo, ou seja, o que tem outra 
constituição cultural. Responde a outras normas morais. Como cultura, podemos 
dizer que, por exemplo, para os brasileiros, o outro é o refugiado que tenta se 
introduzir na sociedade sem abrir mão de seus costumes, normas morais e 
língua. 
TEMA 4 – UMA PERSPECTIVA FILOSÓFICA SOBRE ÉTICA 
Figura 6 – Ética 
 
Crédito: Faithie/Shutterstock. 
 
 
23 
Moral são costumes, valores e regras de comportamento. A ética é a 
tentativa de compreender, racionalizar, as normas morais. O que de fato conduz 
as nossas vidas é a moral. Tudo o que vimos até aqui diz respeito a uma tentativa 
de compreender como formulamos valores morais, ou seja, um estudo sobre 
ética. 
Agora, vamos tentar compreender o que diz a filosofia sobre o que é ético 
hoje, na Era Digital. Acreditamos que você já possa responder a esta pergunta, 
mas vamos lá! 
4.1 Juízo moral 
Para começarmos, responda: você é a favor ou contra a eutanásia? 
Retomaremos essa pergunta mais adiante. 
Ernest Tugendhat (1996) explica que nossos juízos morais são empíricos, 
mas não no sentido da crença de que a experiência produz a verdade, sem 
qualquer lógica, ou algo matemático. Não devemos nos tornar usuários de 
drogas para dizer que drogas são ruins. Basta compreender que “A única coisa 
que podemos fundamentar empiricamente é um juízo que diz que homens deste 
ou daquele círculo cultural, desta ou daquela classe social consideram (ou 
consideraram) um tal tipo de ação como má ou censurável” 
(Tugendhat,1996:15). Ou seja, o juízo moral é estabelecido por experiências ou 
aprendizados em grupo. Quando dizemos que a cultura não é hereditária, 
falávamos disso. Informações são aprendidas, nem todas experimentadas, mas 
se faz sentido para um grupo, vai se tornar parte da cultura. 
Mas o que fazer com nossas próprias experiências? Elas não têm valor 
para a formação de juízos morais? “Em primeiro lugar, portanto, aparentemente 
não podemos evitar juízos morais e, em segundo lugar, até quanto se pode 
observar, estes juízos não se apoiam na experiência; não são juízos empíricos” 
(Tugendhat,1996), em outras palavras, quando emitimos um juízo de valor, não 
estamos de fato dando uma opinião pessoal e independente quanto à 
interferência do meio. Para ser um juízo de valor, deve ter validade para quem 
julga, como se fosse o próprio julgamento, mas sem a experiência particular. Ou 
seja, é algo que foi assimilado de forma intrínseca pelo grupo e apropriado por 
cada um, individualmente, ao ponto de tomarem para si sem de fato ter vivido a 
experiência que formou aquele juízo de valor, ao menos este era o entendimento 
de Kant e outros filósofos, conforme Tugendhat apresentou. 
 
 
24 
Não parece estranho que aceitemos como juízos morais algo que não 
formamos empiricamente, ou seja, que não partiu de nossas próprias 
experiências, que não nos coube determinar o que realmente consideramos bom 
ou ruim? 
Em relação ao núcleo central do juízo moral, nos encontramos no plano 
de uma common sense: uma vaga concordância com os juízos morais 
da maioria dos outros nos engana sobre a torturante insegurança de 
que não compreendemos o lugar de valor destes juízos [...] tendemos 
a considerá-los como relativos. [...] No seu lugar deveriam aparecer 
explicitamente juízos relativos (Tugendhat, 1996, p. 19). 
Deste modo, se no grupo ao qual você pertence a eutanásia tem valor 
moral negativo, você pode acreditar que também é contra, porque você não viveu 
esta experiência nem precisou tomar uma decisão a respeito. Então, pelo senso 
comum, você acaba reproduzindo valor moral e, acredite, você pode ter 
argumentos muito fortes contra a eutanásia, argumentos que convencem até 
mesmo você próprio. Mas não necessariamente são seus próprios juízos de 
valor. Não são absolutos, são relativos. Mas os sentimentos polares de prazer 
ou desprazer, bem ou mal, “estes sentimentos deixariam de existir, caso não 
julgássemos mais moralmente” (Tugendhat,1996, p. 21). 
Ernest Tugendhat (1996) afirma: “constantemente julgamos de forma 
moral. No que diz respeito às discussões entre amigos, na família ou no trabalho 
abrangem aqueles sentimentos que pressupõem juízos morais: rancor e 
indignação, sentimento de culpa e de vergonha”. 
4.2 Ética e meio ambiente 
Como vimos, ética é a tentativa de compreender a moral. Como definir 
uma (nova) ética sobre a responsabilidade de todos estando diante da crise 
ambiental e o desenvolvimento tecnológico? Para Hans Jonas (1903 – 1993)12, 
que estudou problemas éticos diante dos avanços das tecnologias, a 
responsabilidade com as gerações futuras deveria nortear as ações humanas, 
procurando preservar a vida e o meio ambiente. Compreensão esta que mais 
tarde também se tornou presente no Relatório Brundthand13, originando o 
conceito mais amplo de Desenvolvimento Sustentável: “Satisfazer as 
 
12 Estudos analisados por Mário Sergio Alencastro (2009). 
13 O Nosso Futuro Comum, 1987. 
 
 
25 
necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras 
de suprir suas necessidades” (voltaremos nele mais adiante). 
Partindo da perspectiva do método dialético, o agir humano teve uma 
mudança qualitativa considerando o prolongamento da vida, o controle do 
comportamento humano e a manipulação genética. 
Sedo assim, nem a natureza nem a natureza humana podem ser 
tomadas como dados últimos e imutáveis para, com base neles, 
erguer-se uma avaliação ética dos efeitos da ação tecnológica. A 
tendência utópica e o poder da tecnologia exigem escolhas no que 
antes eram especulações” [...] exige-se, dessa forma, uma 
responsabilidade, coextensiva à escala de excessiva grandeza do 
poder humano, na qual, cada escolha imediata exija o conhecimento 
das suas consequências remotas (Alencastro, 2009, p. 18). 
Voltamos ao ponto que nos referimos no início, quando se falou sobre a 
cultura não ser estática. Hans Jonas é enfático ao dizer que “Se a ética tem a 
ver com o agir, a consequência lógica disso é que a natureza modificada do agir 
humano [pela ciência e tecnologia]também impõe uma modificação na ética” 
(Jonas, 2006, citado por Alencastro, 2009, p. 18). Toda ética tradicional é 
antropocêntrica, no entanto, este formato não cabe mais. Ao estudarmos os 
valores morais, devemos incorporar os humanos, a natureza e o futuro. 
Não quer dizer que, adotando uma nova ética, devemos ignorar 
aprendizados passados ou valores que até pouco tempo foram nossos guias, 
apenas devemos ajustá-los à nova configuração de mundo. Sendo assim, é 
aceitável que passemos a dar mais peso às previsões apocalípticas do que crer 
em uma salvação só porque fomos bons – adotamos valores morais tradicionais 
e de modo tradicional. 
Ao reformularmos a ética, não devemos ignorar os danos que não 
poderemos prever e todas as consequências do que as novas tecnologias 
podem causar negativamente para a vida humana, meio ambiente e o futuro, 
mas devemos estar sustentados por bases razoáveis para acreditar que serão 
mínimas ou inexistentes. Bases que não se fundamentam apenas no julgamento 
empírico individual, mas em métodos que orientem a nova norma moral. 
 
 
 
 
 
 
26 
TEMA 5 – INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O AVATAR COMO CENTRO DO 
UNIVERSO 
Figura 7 – Era digital 
 
Crédito: Kentoh/Shutterstock. 
5.1 Eu imortal 
Na religião hindu, o avatar corresponde a um ser superpoderoso, imortal. 
É a representação terrestre do espírito divino. Um espírito pode ter incorporado 
diferentes avatares, em diferentes encarnações, em um período ilimitado. 
Quando ouvimos este termo, “avatar”, a maioria das pessoas se lembra do filme 
que tem esse mesmo nome e que levou quinze anos para ser produzido, 
superando a bilheteria de Titanic, com 2,78 bilhões de dólares. Avatar (2009), 
escrito e dirigido por James Cameron, conta a história de um jovem fuzileiro 
naval paraplégico que é convidado para participar de um programa onde guiará 
seu avatar em um planeta distante com o objetivo de atender ao desejo comercial 
de uma empresa mineradora em busca de um raro recurso. 
Assim como o filme e os jogos de videogame, a ideia de ter uma nova 
chance de superar tudo o que nos causa mal – mesmo que em algum momento 
tenhamos sido o próprio mal para alguém (fuzileiro) – como a perda de 
movimentos ou uma segunda vida, traduz o real objetivo da humanidade. Todos 
desejamos ter um avatar ao estilo hindu – superpoderoso, uma divindade, imortal 
– para chamar de seu. A própria produção do filme é um exemplo de 
superação14, muitos equipamentos e tecnologias foram criados do zero para 
 
14 Disponível em: . Acesso em: 31 out. 
2019. 
 
 
27 
extrapolar a realidade limitada do cinema. Tudo isto para contar mais uma 
história de luta entre o bem e o mal, não que seja clichê, afinal, a própria 
existência humana não o é? 
Mas como romper paradigmas? Explorando novos universos, novas 
fronteiras ainda desconhecidas. Permitindo-nos ser o outro, o terrestre no 
paraíso alienígena (como em Na’vi, de Avatar). O que cada geração faz é romper 
paradigmas. Algumas mais, outras menos, mas de forma ou de outra, o mundo 
anda para frente, ou melhor, gira pelo universo. E nós, humanos, estamos cada 
vez mais parecidos com seres encarnados em um universo paralelo, digital, em 
que acreditamos ser superiores a tudo, invencíveis, incensuráveis, pensamos 
estar no comando. Desbravadores de uma nova fronteira, colonizadores de um 
novo mundo, onde prevalecerá a própria moral. Nem mesmo no universo digital 
que os filhos dos nossos filhos habitarão com mais propriedade, eles serão 
donos de sua própria verdade, como vimos anteriormente. 
5.2 Eu robô15 
Na Era Digital, não podemos esperar que seus filhos, crias das 
tecnologias que não conseguem imaginar o que é um telefone de disco e um 
mundo sem wifi, vejam as possibilidades do futuro como nós víamos em 2001, 
Uma Odisseia no Espaço (1968), ou Família Jetsons (1962-1987). Para nós, era 
uma possibilidade, para eles, uma questão de tempo (observe com atenção as 
datas de lançamento do filme e da série). 
Uma das figuras mais presentes nos filmes de ficção científica são os 
robôs. Estas criaturas criadas para fazer o trabalho de que não gostamos, não 
queremos ou que representam um risco para nossa existência. Um exemplo para 
isto é fácil, é só lembrar o novo desejo de consumo de donas de casas ou 
pessoas maníacas por limpeza: aqueles robôs que passam o dia aspirando o pó 
do chão. Podem ser figuras adoráveis ou assassinos em potencial, mas de um 
modo ou de outro, são simulacros16 humanos. Guardam certa semelhança 
assustadora com os não-robôs, nós. No mundo real, não é ético que robôs 
tenham tal semelhança, porque assim como outros dispositivos tecnológicos, 
inteligências artificiais são mecanismos ou dispositivos capazes de reproduzir ou 
 
15 Referência ao filme Eu, Robô (2004), inspirado na coletânea de contos homônima escrita pelo 
russo Issac Asimov (1939). Assista ao trecho do filme em: . 
16 Representação imagética que cria a sensação de real, mas é falso (Jean Baudrillard, 1981). 
 
 
28 
simular a o raciocínio humano, mas não simular a inteligência humana. Sempre 
deveriam ser claramente não-humanos. 
Quadro 7 – Inteligência artificial 
 
Como funciona a inteligência 
artificial? 
 
 
 
Ética 
 
A união de várias tecnologias é 
necessária para o desenvolvimento 
da inteligência artificial, com destaque 
para três fatores importantes: 
 máquinas com grande 
potência de processamento; 
 modelos de dados otimizados 
(capazes de analisar e 
processar informações de modo 
inteligente); 
 constante quantidade de 
informações para alimentar os 
modelos. 
 
Também existem algumas leis que os 
desenvolvedores dos softwares de 
inteligência artificial devem seguir 
para evitar que a tecnologia execute 
ações inesperadas. 
Esses parâmetros foram criados com 
base nas Leis da Robótica ou "Leis de 
Asimov". 
Entre alguns dos princípios, destaque 
para: 
 Restrição de 
conhecimento: impõe um limite 
ao que a inteligência artificial 
pode aprender e executar. 
 Proibido se auto 
replicar: impede que a IA se 
reproduza, ou seja, que gere 
cópias de seu software de modo 
independente. 
 Proibição de 
interação: impede que a 
inteligência artificial mantenha 
contato com pessoas não 
autorizadas para se comunicar 
com elas. 
 Ordem: a inteligência artificial 
deve obedecer a todas as ordens 
que o seu programador inserir no 
 
 
29 
sistema, mesmo que isso inclua a 
autodestruição do dispositivo. 
Essas "barreiras" são úteis para 
limitar a área de atuação e 
participação da inteligência artificial, 
evitando que ela seja capaz de 
executar ações que foram aprendidas, 
mas que não se enquadrem com o 
seu propósito. 
 
Fonte: elaborado pela autora. 
Embora todos os avanços e da existência da Sofia, a robô mais inteligente 
do mundo, ainda estamos na esfera do experimental. O mais significativo dessa 
tecnologia são as aplicações não-humanoides. A finalidade é ajudar os humanos 
a solucionar problemas em menos tempo e com menor custo. 
Será que conseguiremos não ser dominados por nossas próprias criações 
(robôs)? Será que nossos avatares serão robôs? De certo modo, já transferimos 
aos robôs nossas almas, como extensões de nossos corpos onde não podemos 
estar. Pelo celular ou em super centros tecnológicos, já chegamos ao espaço, 
fazemos a faxina da casa ou vamos ao interior de células humanas investigar 
doenças. 
5.3 Eu real no universo atual 
A Internet das Coisas (IoT) é nossa conexão com um mundo paralelo. 
Sem intermediários, nem mesa branca ou qualquer coisa do gênero. Apenas 
ondas invisíveis capazes de atravessar corpos, paredes e espelhos e nos 
transportar para nossos avatares. Há quem diga queesta será a última etapa da 
Ciência da Computação, o que se subentende que, depois disso, não sabemos 
o que virá. 
Já estamos vivendo esta fase. Já conectamos nossos mundos 
particulares a seres que nunca vimos. Somo capazes de dizer para nossas casas 
quando devem acender as luzes, ativar o alarme ou a máquina de lavar-roupas 
sem apertar qualquer botão e estando a quilômetros de distância, em alguns 
casos, só porque as máquinas já aprenderam nossa rotina. Nossa lista de 
 
 
30 
compras pode ser feita por nossa geladeira e podemos organizar nossa agenda 
com alguém que está do outro lado do mundo, ou assistir a uma aula com quem 
nunca conversaremos pessoalmente. Uma experiência ao estilo de De volta para 
o futuro Parte II (1982). Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a existência da 
Inteligência Artificial em nossas vidas cotidianas, já pode mudar de ideia. 
Mesmo que você ainda não tenha uma Smart TV (TV inteligente) já deve 
ter um Smartphone (celular inteligente) ou estar muito próximo a alguém que 
tenha. Sim, estamos vivendo no mundo das coisas inteligentes. Aliás, mais do 
que isto, coisas espertas – start também pode significar esperto. Se fingiram 
chegar à Lua em 1969, agora não temos mais dúvidas de que conquistamos o 
espaço. O universo real é explorado por nossas máquinas inteligentes, nossos 
avatares. Nossa materialização em um novo mundo. Nossa forma de nos 
tornarmos onipresentes, oniscientes. Robôs com forma estranhas sem braços 
nem pernas, mas capazes de andar e realizar experimentos químicos, como o 
robô que desbrava o terreno de Marte ou os nano robôs que estudam as células 
humanas ou levam medicamentos. 
Talvez a maior de todas as superações que a humanidade tenha 
pretensão de querer realizar seja a da criação do próprio universo. O que alguns 
diriam querer superar Deus. Sermos capazes de superar a morte de tal forma 
que nos tornaríamos detentores do conhecimento da imortalidade. Sem dúvida, 
uma questão ética bem moderna. Aonde queremos chegar? Não precisamos dos 
aceleradores de partículas, já ilustrado no filme O Inferno (2016)17 para esta 
pretenciosa empreitada, mas eles fazem parte deste cenário. 
Ainda sobre os robôs, nossos avatares, não devemos deixar passar 
desapercebido o fato de que são quase imortais. “Quase” porque a 
representação física morre, mas a alma não. Mas eles são tão espertos, como 
em O exterminador do futuro 2: o julgamento final (1991), capazes de se 
autorregenerar e, se não houver acidente que eles mesmos ou os humanos do 
mundo real consigam resolver, eles próprios serão capazes de determinar o dia 
e a hora de suas mortes. 
5.4 Dominador e Dominado 
 
17 Filme inspirado no livro homônimo de Dan Brown (2013). 
 
 
31 
Certa ou errada, a tecnologia é nossa criação mais atual na busca por 
suprimir a morte e nossas fraquezas. Será que um dia a relação criador e criação 
será invertida como mostram os filmes de ficção científica? Seremos superados 
por nossos avatares? E, será que já não somos como no filme Matrix (1999)? 
Será que realmente conseguiremos estabelecer um limite nesta relação e manter 
as máquinas submissas a nós? Podemos tomar como exemplo nossa relação 
com a natureza, onde somos cria e hoje devoramos nossa criadora. 
TROCANDO IDEIAS 
Debater sobre ética é uma tarefa infinita. Para que você possa refletir 
sobre este conteúdo, sugerimos que reflita sobre normas morais que você 
recebeu em sua infância que não fazem mais sentido na Era Digital, mas ainda 
fazem sentido para você. Você pode fazer indicações de filmes, vídeos, livros e 
o que mais for pertinente para ilustrar. 
Como sugestão para ajudar nesta reflexão, indicamos o filme Nós que 
aqui estamos por vós esperamos (1998), 55 min, de Marcelo Masagão. Não se 
preocupe em tomar nota, assista, reflita e, depois, comente a questão acima. 
Disponível em: 
Figura 8 – Capa do filme 
 
Fonte: NÓS que aqui estamos por vós esperamos. Direção: Marcelo Masagão. São Paulo, SP, 
Agência Observatório, 2006, 73 m. 
NA PRÁTICA 
Até que ponto podemos definir ética em uma sociedade que está 
constante transformação? 
 
 
32 
Para responder a este problema: 
1) Assista ao filme Avatar (2009). Tome nota de situações que possam 
ilustrar a esta questão. 
2) Utilize como base teórica o conteúdo e as referências que foram 
apresentadas nesta aula. 
A resposta para esta prática está no próprio conteúdo. A intenção é que 
consiga relacioná-lo com exemplos ilustrados no filme, como quando o 
protagonista é questionado sobre de que lado vai ficar – da mineradora que o 
contratou ou do povo da Na’vi. Indique outros exemplos. 
FINALIZANDO 
Nesta aula, fizemos uma reflexão de como compreender a Ética na 
sociedade contemporânea, sob a influência das novas tecnologias. Para esta 
análise, partimos da compreensão de o que é cultura e formação da polaridade, 
como parte do processo de formação da assimilação dos sentidos que vão 
formar as normas morais. Após uma avaliação sobre os métodos que influenciam 
na construção do argumento, avaliamos como a filosofia moderna trata ética. 
Finalizamos com uma análise sobre onde desejamos chegar no mundo digital 
sob a perspectiva da ética. Assim, é possível concluir que mudanças de 
paradigmas influenciam diretamente na estrutura ética de uma sociedade. 
Talvez ainda estejamos vivendo intensamente este processo de 
transformação e, por isto, ainda seja cedo estabelecer o que é ser ético na Era 
Digital, mas devemos pensar nos legados que deixaremos para o futuro, como 
nos deixaram os que vieram antes, no passado. Os valores que vamos instituir 
como normas morais ajudarão as futuras gerações a manter a existência 
humana? O que eles aprenderão conosco? 
 
 
 
 
33 
REFERÊNCIAS 
ALENCASTRO, M. S. Hans Jonas e a proposta de uma ética para a civilização 
tecnológica. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 19, p.13-27, Curitiba, 
Editora UFPR, jan./jun. 2009. 
BAUDRILLARD, J. Simulacros e Simulação. Trad. Maria João da Costa 
Pereira. Lisboa: Relógio D’Água, 1981. 
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religiosos é constitucional. G1, 28 mar. 2019. Disponível em: 
. Acesso em: 31 
out. 2019. 
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set. 2014. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2019. 
BYSTRINA, I. Tópicos de Semiótica da Cultura. Trad. Norval Baitello Jr., Sônia 
B. Castino. São Paulo: PUC, 1995. 
CUNHA, M. C. da. Cultura com Aspas. Col. Argonautas. São Paulo: Ubu, 2017. 
EU Robô. Direção: Alex Proyas. Intérprete: Will Smith, Bridget Moynahan, Alan 
Tudyk, Bruce Greenwood. Roteiro: Jeff Vintar. Estados Unidos: 20th Century 
Fox, 2004. Vitium, 6 maio 2017. Disponível em: . Acessado em: 31 out. 2019. 
LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Fundamentos de metodologia 
científica. São Paulo: Atlas, 1985. 
MACHADO, I. Escola de Semiótica: a experiência de Tàrtu-Moscou para o 
estudo da cultura. Cotia: Ateliê Editorial; São Paulo: Faesp, 2003. 
NÓS que aqui estamos por vós esperamos. Direção e roteiro: Marcelo Masagão. 
1998. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 
2019. 
MORAES, V. Dialética. Evertonllins, 23 set. 2010. Disponível em: 
impactos-ambientais/7001>. Acesso em: 31 out. 2019. 
TUGENDHAT, E. Lições sobre ética. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. 
VELEIRO com a ativista adolescente Greta Thunberg chega a Nova York após 
atraso. G1, 28 ago. 2019. Disponível em: 
. Acesso 
em: 31 out. 2019.

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