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Bioquímica dos carboidratos e glicólise Sara Vasconcelos • Principais carboidratos que compõem a nossa dieta: Os principais carboidratos que compõem a nossa dieta podem ser divididos em três grupos principais: monossacarídeos, dissacarídeos e polissacarídeos. 1. Monossacarídeos (carboidratos simples): —> Glicose – principal fonte de energia para as células, encontrada em frutas, mel e vegetais. —> Frutose – encontrada principalmente em frutas, mel e alguns vegetais. —> Galactose – presente no leite e derivados, combinada com a glicose para formar a lactose. 2. Dissacarídeos (formados por dois monossacarídeos): —> Sacarose (glicose + frutose) – açúcar de mesa, encontrado na cana-de-açúcar e beterraba. —> Lactose (glicose + galactose) – presente no leite e derivados. —> Maltose (glicose + glicose) – encontrada em cereais e no processo de digestão do amido. 3. Polissacarídeos (carboidratos complexos): —> Amido – principal fonte de energia da dieta, encontrado em arroz, batata, trigo, milho, feijão e outros grãos. —> Glicogênio – reserva energética encontrada no fígado e nos músculos, consumida pelo corpo quando necessário. —> Fibras (celulose, pectina, hemicelulose) – presentes em vegetais, frutas, cereais integrais e leguminosas, não são digeridas, mas são essenciais para o funcionamento do intestino. • doenças relacionadas com metabolismo de carboidratos: As doenças relacionadas ao metabolismo dos carboidratos podem ser causadas por deficiências enzimáticas, alterações hormonais ou problemas genéticos. 1. Diabetes Mellitus: Doença crônica caracterizada por níveis elevados de glicose no sangue devido à produção insuficiente de insulina (diabetes tipo 1) ou resistência à insulina (diabetes tipo 2). 2. Hipoglicemia: Queda anormal da glicose no sangue, geralmente causada por uso excessivo de insulina, jejum prolongado ou distúrbios metabólicos. 3. Intolerância à Lactose: Deficiência da enzima lactase, dificultando a digestão da lactose (açúcar do leite), resultando em sintomas como diarreia, gases e dor abdominal. 4. Galactosemia: Doença genética causada pela deficiência de enzimas responsáveis pelo metabolismo da galactose, levando ao acúmulo tóxico dessa substância no organismo. 5. Doença de Armazenamento de Glicogênio (Glicogenoses): Grupo de doenças genéticas que afetam o armazenamento e a degradação do glicogênio, podendo causar fraqueza muscular, problemas hepáticos e hipoglicemia. Exemplos incluem a Doença de Von Gierke e a Doença de Pompe. 6. Síndrome Metabólica: Conjunto de condições que incluem resistência à insulina, obesidade abdominal, hipertensão e dislipidemia, aumentando o risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. • A importância do me'tabolismo dos carboidratos para manutenção energética do organismo : O metabolismo dos carboidratos é fundamental para a manutenção energética do organismo, pois esses nutrientes são a principal fonte de energia para as células. O corpo humano depende da glicose, um monossacarídeo derivado da digestão dos carboidratos, para realizar diversas funções vitais. 1. Produção de Energia (Glicólise e Ciclo de Krebs): —> Os carboidratos consumidos na dieta são convertidos em glicose, que entra na corrente sanguínea e é absorvida pelas células. —> A glicólise, que ocorre no citoplasma das células, quebra a glicose em moléculas menores, gerando ATP (adenosina trifosfato), a principal molécula energética do corpo. —> Se houver oxigênio disponível, os produtos da glicólise entram no Ciclo de Krebs e na cadeia respiratória mitocondrial, onde ocorre a produção da maior parte do ATP. 2. Armazenamento e Liberação de Energia (Glicogênio e Glicogenólise): —> Quando a glicose não é imediatamente necessária, o corpo a armazena na forma de glicogênio, principalmente no fígado e nos músculos. —> Durante períodos de jejum ou atividade física intensa, esse glicogênio pode ser degradado em glicose (glicogenólise) para manter o suprimento energético. 3. Controle da Glicemia (Homeostase Energética): —> O corpo regula os níveis de glicose no sangue por meio dos hormônios insulina (que reduz a glicemia) e glucagon (que aumenta a glicemia). —> Esse equilíbrio é essencial para evitar condições como hipoglicemia (baixa glicose no sangue) ou hiperglicemia (excesso de glicose no sangue, como ocorre no diabetes). 4. Alternativas Energéticas em Situações de Deficiência de Carboidratos: —> Se os estoques de glicose estiverem baixos, o corpo pode produzir glicose a partir de aminoácidos e lipídios pelo processo de gliconeogênese. —> Na ausência prolongada de carboidratos, o organismo passa a utilizar gorduras como principal fonte de energia, produzindo corpos cetônicos, que podem ser usados pelo cérebro e outros tecidos. • Principais etapas da glicólise: A glicólise é a via metabólica responsável pela quebra da glicose para a produção de energia. Ela ocorre no citoplasma da célula e pode acontecer na presença (via aeróbica) ou ausência de oxigênio (via anaeróbica). A glicólise pode ser dividida em duas fases principais: fase de investimento de energia e fase de geração de energia. 1. Fase de Investimento de Energia (Gasto de ATP): Nesta fase, a glicose (C₆H₁₂O₆) é fosforilada e convertida em compostos mais reativos. —> Passo 1: Fosforilação da glicose → A enzima hexocinase adiciona um grupo fosfato à glicose, formando glicose-6-fosfato (G6P). Essa reação consome 1 ATP. —> Passo 2: Isomerização → A glicose-6-fosfato é convertida em frutose-6-fosfato (F6P) pela enzima fosfoglucose isomerase. —> Passo 3: Segunda fosforilação → A enzima fosfofrutoquinase-1 (PFK-1) adiciona mais um fosfato, formando frutose-1,6-bifosfato (F1,6BP). Essa etapa consome outro ATP. —> Passo 4: Quebra da frutose-1,6-bifosfato → A enzima aldolase divide a molécula em duas moléculas de 3 carbonos: gliceraldeído-3-fosfato (G3P) e dihidroxiacetona fosfato (DHAP). —> Passo 5: Conversão da DHAP em G3P → A enzima triose-fosfato isomerase converte a DHAP em G3P, para que ambas as moléculas sigam pelo mesmo caminho. ➡ Saldo até aqui: 2 ATPs foram consumidos. ⬅ 2. Fase de Geração de Energia (Produção de ATP): Nesta fase, cada molécula de G3P passa por uma série de reações que geram ATP e NADH. —> Passo 6: Oxidação do G3P → A enzima gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase oxida o G3P, adicionando um fosfato inorgânico (Pi) e formando 1,3-bifosfoglicerato (1,3BPG). O NAD⁺ é reduzido a NADH. —> Passo 7: Primeira geração de ATP → A enzima fosfoglicerato quinase transfere um fosfato do 1,3BPG para o ADP, formando ATP e 3-fosfoglicerato (3PG). —> Passo 8: Isomerização → A enzima fosfoglicerato mutase converte 3PG em 2-fosfoglicerato (2PG). —> Passo 9: Formação do fosfoenolpiruvato (PEP) → A enzima enolase remove uma molécula de água do 2PG, formando fosfoenolpiruvato (PEP), um composto altamente energético. —> Passo 10: Segunda geração de ATP → A enzima piruvato quinase transfere o grupo fosfato do PEP para o ADP, formando ATP e piruvato. ➡ Saldo final ⬅📍 ATP: Foram gerados 4 ATPs, mas como 2 foram consumidos no início, o saldo líquido é 2 ATPs por molécula de glicose. 📍 NADH: São produzidas 2 moléculas de NADH, que podem ser usadas na cadeia respiratória para gerar mais ATP. 📍 Piruvato: São formadas 2 moléculas de piruvato, que seguirão para o Ciclo de Krebs (se houver oxigênio) ou serão convertidas em ácido lático (em anaerobiose). - • Correlacionar a glicólise com ações fisiológicas: A glicólise está diretamente relacionada a diversas ações fisiológicas do organismo, pois fornece energia para diferentes processos biológicos essenciais. Essa via metabólica ocorre em praticamente todas as células e se adapta às demandas energéticas do corpo em diferentes situações. 1. Glicólise e Contração Muscular: —> Durante a atividade física intensa, os músculos demandam energia rapidamente. —> A glicólise fornece ATP de forma rápida para a contração muscular, especialmente quando o suprimentode oxigênio é limitado. —> Se houver oxigênio suficiente, o piruvato gerado na glicólise segue para o Ciclo de Krebs e a cadeia respiratória para produzir mais ATP. —> Em atividades anaeróbicas (corrida de velocidade), o piruvato é convertido em ácido lático, causando fadiga muscular. 2. Glicólise e Função Cerebral: —> O cérebro depende quase exclusivamente da glicose como fonte de energia. —> A glicólise fornece ATP para a manutenção da atividade neuronal, transmissão de impulsos nervosos e síntese de neurotransmissores. —> Em situações de jejum prolongado, quando há escassez de glicose, o cérebro passa a usar corpos cetônicos, derivados da quebra de gorduras, para obter energia. 3. Glicólise e Regulação da Glicemia: —> A glicólise ajuda a manter os níveis adequados de glicose no sangue. —> quando a glicose está elevada (pós-refeição), o hormônio insulina estimula a entrada de glicose nas células e ativa a glicólise para produção de energia. —> Quando os níveis de glicose caem (jejum, exercício prolongado), o hormônio glucagon inibe a glicólise e ativa a gliconeogênese (produção de glicose a partir de outras fontes). 4. Glicólise e Crescimento Celular: —> Células em crescimento acelerado, como as do sistema imunológico ou células tumorais, utilizam a glicólise de forma intensa para obter energia e gerar precursores metabólicos para biossíntese de proteínas, lipídios e ácidos nucleicos. —> O efeito Warburg, por exemplo, é um fenômeno observado em células cancerígenas, onde a glicólise ocorre de maneira aumentada mesmo na presença de oxigênio. 5. Glicólise e Hipóxia (Falta de Oxigênio): —> Em condições de baixa oferta de oxigênio (hipóxia), como ocorre em altitudes elevadas ou doenças pulmonares, a glicólise se torna a principal via para produção de energia. —> Nesses casos, o piruvato é convertido em ácido lático para regenerar NAD⁺ e manter a glicólise funcionando. 6. Resistência à Insulina e Artrite: —> A resistência à insulina, induzida pelo consumo excessivo de carboidratos refinados, aumenta a inflamação crônica e pode agravar doenças autoimunes, como a artrite reumatoide. —> Estudos indicam que pacientes com resistência à insulina têm maior risco de inflamação articular e dor crônica. • Correlações entre o funcionamento energético do organismo e a rota metabólica dos carboidratos: —> Esforços rápidos e intensos (ex.: musculação, corrida) usam glicólise anaeróbica, gerando energia rapidamente, mas com acúmulo de ácido lático. —> Atividades moderadas e prolongadas (ex.: corrida de longa distância, ciclismo) dependem do metabolismo aeróbico, que fornece energia de forma eficiente e sustentável. —> Jejum ou baixa ingestão de carboidratos faz com que o corpo utilize outras fontes energéticas, como lipídios e proteínas, para a produção de ATP.