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XV Reunião de Antropologia do Mercosul 04 a 08 de agosto de 2025, UFBA, Salvador, BA, Brasil GT 032: Antropologia e Artes Performáticas: música, dança, teatro e performance em contextos etnográficos Torés Juninos: algumas práticas musicais do Povo Kariri-Xocó (AL) Rafael Cardoso dos Santos Graduando - UEFS/DLA1 Introdução Aqui tenho o desafio de organizar tudo que compreendi durante os 10 dias que passei convivendo com os Parrancó, na aldeia Kariri-Xocó, mais especificamente no Sítio Aracaré, espaço fundado por Seu Francisco Sampaio da Silva, o fundador do local e uma das figuras mais emblemáticas e expressivas dentro do processo de retomada das terras onde hoje se localiza a aldeia Kariri-Xocó, no ano de 1978, assim como na segunda retomada, em 1994. É importante ressaltar que maior parte da pesquisa foi realizada com essa família, o que abrange uma parte de toda a cultura desse povo, assim como a visão da história a partir deles. É uma família importante, como pude perceber ao estar com pessoas de outros grupos familiares, mas que traz uma visão única e que merece um destaque maior em pesquisas futuras. O ponto principal dessa pesquisa foram os Torés Juninos, realizados no mês de junho, o qual dá nome a essa festividade, mas que têm seu marco inicial no dia de São José, que é o padroeiro dos trabalhadores e marca o início do plantio das comunidades locais. Isso mostra uma tradição que foi iniciada ainda quando o principal meio de subsistência dos Kariri-Xocó era a agricultura e o calendário natural e religioso se misturam de um modo que cria toda uma cultura em torno desse processo de sobrevivência. Ao longo da pesquisa pude notar como as mudanças do tempo, da estrutura demográfica da aldeia, das formas de trabalho que surgiram ao longo dos anos e a relação não só dentro, mas fora da comunidade alterou a dinâmica da vida, mas não o calendário religioso das festas. 1 Universidade Estadual de Feira de Santana/Departamento de Letras e Artes – Colegiado de Música – Área: Etnomusicologia. Orientador: Prof. Dr. Aaron Roberto de Mello Lopes A pesquisa foi feita por meio de uma etnografia através de um trabalho de campo, onde estive presente na aldeia Kariri-Xocó entre os dias 22 de junho e 01 de julho de 2025. Fiquei hospedado no Sítio Aracaré, espaço dentro da comunidade onde reside a família Parrancó. Utilizei de entrevistas, registros audiovisuais de eventos que ocorreram e observação participante. Tive como informantes donas Edvânia e Irane Parrancó, com quem mantive contato antes da chegada durante os meses de março a junho, preparando todo o campo para minha chegada e coletando informações sobre o calendário de rituais no Ouricuri, o que poderia interferir na realização da pesquisa pela ausência deles na aldeia. A importância dos informantes, que são pessoas de dentro da comunidade que nos orientam sobre seu funcionamento e abrem espaço para que o trabalho seja realizado é discutido por Bruno Nettl (2015) em seu trabalho “The study of ethnomusicology: thirty- three discussions”, mais especificamente no capítulo “You Will Never Understand This Music: Insiders and Outsiders”, onde ele aborda a relação em que nós pesquisadores, forasteiros no local onde vamos elaborar nossas pesquisas, temos com nossos informantes, pessoas de dentro, que conhecem todos os meandros da comunidade. Uma outra referência etnomusicológica é o trabalho de John Blacking (1973), “How musical is man?” onde ele faz uma análise de como os sistemas musicais estão imbricados com a realidade social e cultural daquelas pessoas que os fazem. A partir de sua pesquisa, analiso como o Toré é feito e apropriado como um traço importante da cultura Kariri-Xocó, fazendo parte de um sistema específico da comunidade e marcando, inclusive, outras sonoridades e práticas musicais. Um exemplo disso, são as Quadrilhas Juninas, feitas na comunidade, que têm na sua forma dançar a influência direta do Toré. Essa pesquisa surge dentro de um movimento da Etnomusicologia brasileira de olhar para os povos tradicionais e buscar cada vez mais as manifestações sonoras e musicais que marcam a base da cultura musical brasileira. Pesquisadores como Rafael Bastos (1978), com seu trabalho “A musicologia Kamayurá”, e Rosângela Tugny (2006), na organização do livro “Músicas africanas e indígenas no Brasil” fazem um caminho que continua sendo percorrido nos dias de hoje através da musicalidade dos povos originários do país. A etnomusicologia brasileira vem se caracterizando por estar voltada para a música própria do país (SANDRONI, 2008, p. 73) e ter, como pesquisadores, pessoas do contexto investigado, característica esta que a diferencia da Etnomusicologia em outros países da Europa, por exemplo. (Santos, 2021, p. 31, grifo meu) Não distante, temos nesse último trabalho a pesquisa de Benvina Pankararu, “Sons e Rituais Sagrados. A Experiência Indígena” e mais recente a pesquisa de seu parente Andeson Santos Cleomar (2021), “Sons, Torés e Toantes da Corrida do Imbu: Afirmação e Reafirmação do Ser Indígena Pankararu” que marcam a retomada desse conhecimento, dentro da academia, por pessoas indígenas do Nordeste, tomando a dianteira das pesquisas etnomusicológicas dos seus próprios povos, feito por “pessoas do contexto investigado”, como ressaltado no trecho acima. O Povo Kariri-Xocó A aldeia Kariri-Xocó está localizada no estado de Alagoas, às margens do Rio Opará2 (São Francisco), próxima à cidade de Porto Real do Colégio3, que está localizada dentro do território indígena. De acordo com o Censo de 2022, existem 2026 pessoas no território. Porém a população deve ser muito maior, pois existem muito mais espalhados pelo país. É importante termos conhecimento de que o povo Kariri-Xocó, ou Kariri como eram antes da fusão que ocorreu em finais do séc. XIX, são frutos de diversas misturas causadas pelos aldeamentos jesuítas, resultado de um processo de colonização religiosa onde colocavam diversos grupos dentro de grandes termos generalistas como Kariri/Kiriri ou Tapuias – estes eram tidos como bárbaros e não falantes do Tupi, que foi aprendido e apropriado pelos religiosos. Grupos como os Pankararu (Santos, 2021, p. 67), no sertão pernambucando, e Tarairiús, no sertão paraibano, estavam dentro dessa nomenclatura, junto com com os Kariri. O mesmo ocorreu com os Xocó, na região de Sergipe. Nesse processo, a região onde habitam hoje os Kariri-Xocó, era um aldeamento jesuíta que contava com diversos povos. Ruy Câmara Neto nos traz uma explicação: O povo Kariri-Xocó é o resultado de várias fusões entre povos nativos, a partir dos processos de aldeamento e catequese missionária no nordeste brasileiro. Porém, o nome desse povo identifica, especificamente, a última grande fusão, ocorrida há mais de um século entre os povos Kariri e os Xocó. Os Kariri, segundo Martins (2003, p. 98) são oriundos de um aldeamento missionário ocorrido entre o final do século XVII e início do XVIII, já decorrente de uma junção entre diferentes etnias. De acordo com Vera Lúcia da Mata (2014), o aldeamento era de 2 Durante todo meu trabalho optei por chamar o rio pelo seu nome originário, como uma forma política de reafirmar os saberes indígenas locais. O nome de “São Francisco” foi fruto de uma política colonial de dominação e epistemicídio, assim como dizer que a aldeia Kariri-Xocó está localizada na cidade de Porto Real do Colégio, quando sabemos que foi o contrário que aconteceu. Esse mesmo nome é usado pelos Pankararu e Tuxá e pode ser encontrado no trabalho de Andeson Santos (2021), p. 67. 3 A cidade foi elevada a vila e emancipada em 07 de julho de 1876. O Colégio a que se refere não se tratava de uma instituição educacional, mas “como expressão arquitetônica do empreendimentoagropecuário que a Companhia manteve no Brasil” (Mata, 1989, p.37-38) e o termo Porto Real do Colégio já vem desde o século XVI (Suzart, 2018, p. 4). Inacianos e envolviam nativos como os Carapotós, Cariris, Aconâns e Praquiôs (Mata, 1989, p. 25). Os Xocó, de outro aldeamento jesuítico, no Estado de Sergipe, chegaram a Porto Real do Colégio, depois da tomada de suas terras em Porto da Folha - no outro lado do Rio São Francisco. (Mata, 1989, p. 25). Durante a realização desta pesquisa, pudemos observar a presença e ouvir relatos da existência de outras etnias entre o grupo Kariri-Xocó, como os Natu, Pankararu, Fulni-ô, Tingui-Botó e Karapotó - a maioria chegados a partir de matrimônios com os Kariri-Xocó.” (Câmara Neto, 2016, p. 24, grifo em negrito meu) O grande legado do povo é união dos povos Kariri, que já habitavam a margem alagoana e os Xocó, que vieram fugidos da ilha fluvial de São Pedro, na margem sergipana, após terem suas terras tomadas pela família do Coronel João Fernandes de Brito após a extinção dos aldeamentos na província, atualmente Sergipe, em 1855 (Mata, 1989, p. 25), mas que também foram para o território dos Fulni-ô, Pankararu e interior de Sergipe, onde muitos perderam suas origens por ter de viver escondidos ou integrados à sociedade não indígena. A tomada de terras indígenas foi um processo muito comum na história dos povos do Nordeste e pude ouvir relatos de histórias tanto entre os Kariri-Xocó, quanto entre os Fulni-ô, que atribuem à Princesa Isabel e ao imperador D. Pedro II as terras onde habitam atualmente, que foram cedidas no período da Guerra do Paraguai (1864 – 1870), onde muitos indígenas e cativos negros foram recrutados na promessa de terem suas terras asseguradas e receber a liberdade, respectivamente. Contudo, o que ocorreu foi a um processo político de extinção das aldeias em algumas províncias, que eram gerenciadas pelos Jesuítas (Mata, 1989, p. 37). Para o poder público no período, o Nordeste não tinha mais populações indígenas, restando apenas remanescentes e descendentes que já não podiam mais “ser considerados índios”, o que culminou em uma política de morte e apropriação de terras por fazendeiros e poceiros, fruto de um apagamento cultural genocida. Hoje, eles ainda vivem em busca de se reafirmarem enquanto povos indígenas e sofrem com a discriminação presente em comentários como “não são índios de verdade” por já terem sofrido com a miscigenação e afastamento de muitas práticas culturais originárias de seus povos. Enquanto a política indigenista do século XIX era de extermínio dos povos indígenas, no século XX a postura muda para um cessar fogo e uma busca pela integração destes à sociedade civilizada. É nesse momento que surge a figura de Cândido Mariano da Silva Rondon, com a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), por meio do Decreto nº 8.072, em 1910. Embora esse órgão tenha sido criado sob parâmetros de tutela sobre os “índios” com o objetivo de integrar os povos originários à sociedade nacional “civilizada”, foi, de certa forma, o primeiro passo oficial no que diz respeito a organizações e articulações políticas indigenistas e indígenas do país. (Santos, 2021, p. 119) Enquanto novas políticas públicas que visavam algum tipo de “proteção aos indígenas” depois de séculos de leis de morte, o surgimento desse órgão foi crucial para os povos do Nordeste, pois ao passo que este buscava os grupos que estavam no interior do Brasil, os que habitavam as terras nordestinas puderam mostrar a cara e pedir reconhecimento enquanto originários da terra (Cunha, 2008; Santos, 2021). O Toré foi instituído como símbolo do ser índio pelo SPI (Serviço de Proteção ao Índio) na década de 1930, a partir de estudos de Carlos Estevão de Oliveira, entre os Fulni-ô. Esses estudos serviram como parâmetro de comprovação étnica para outros povos do Nordeste. O povo Fulni-ô foi o primeiro a ser reconhecido nesta região. Quando Raimundo Carneiro (funcionário do SPI) teve acesso a este estudo sobre a cultura Fulni-ô delimitou toda a complexidade das culturas indígenas a um único elemento cultural, o toré. (Santos, 2021, p. 147-148) O órgão do governo então passou a instituir o Toré como um marcador cultural desses povos, o que gerou caminhos de transmissão entre eles que se apoiavam nesse processo de reafirmação, fortalecendo uma rede de comunicação que já existia entre esses povos. Isso mostra um processo exógeno aos povos indígenas, pois uma instituição “branca” criou, de forma arbitrária, uma definição do que é ser indígena no Nordeste, transformando culturas e nomenclaturas de manifestações sonoras que já existiam e passaram a se chamar Toré. Seguindo essa discussão, temos na pesquisa de Leonardo Cunha alguns indícios do que foi esse processo de transmissão dos Torés. Caso clássico aconteceu entre os Atikum-Umã, sertão de Pernambuco. Informados pelos índios Tuxá (Rodelas-Bahia) de “que havia um órgão do governo que estava reconhecendo territórios indígenas no Nordeste” (Grünewald 1993), procuraram o SPI, afirmando-se descendentes de índios e reivindicando a criação de uma Reserva. Por exigência deste órgão, tiveram que provar serem descendentes de índios através da demonstração do Toré. Os índios Tuxá socorreram os Atikum, ensinando tal prática, que passou desde então a fazer parte de uma ritualidade que marcou o novo regime de ser índio e conhecedor da Origem. (Cunha, 2008, p. 116-117, grifos meus) Esse intercâmbio cultural foi observado, também, no trabalho de Ruy Câmara Neto, ao trazer o exemplo de um Pajé Kariri-Xocó que, ao se casar com uma mulher do povo Wassu-Cocal, passou a ensinar os cantos de cura e os rituais do Toré, como forma de ajudar aquela comunidade a ter o reconhecimento enquanto povo indígena no Nordeste. Pajé Chicão e sua companheira, Dona Côca, vivem da agricultura. Ele é um Kariri-Xocó casado com uma Wassú Cocal e, segundo levantamento feito na época, o mesmo era responsável em reintroduzir o Toré e os cânticos de cura na cultura Wassú Cocal, levando toda a influência Kariri-Xocó. (Câmara Neto, 2016, p. 14, grifo meu) Aqui temos um movimento muito curioso, de intercâmbio cultural, onde temos um movimento histórico que impulsionou a prática sonora para diversos povos o que revela duas realidades: a primeira, um processo político que veio de fora para dentro, revelando a necessidade e habilidade que os povos indígenas tinham para se adaptar e reestruturar frente as políticas coloniais que já vinham de séculos alterando as tradições culturais desses povos; a segunda, e mais importante, uma rede de comunicação entre esses grupos que se comunicavam e colaboravam numa luta coletiva de reafirmação de sua existência. O Toré, então, surge como marcador cultural do ser indígena no Nordeste, sendo entronizado como cultura máxima a ser respeitada e sacralizada nos diversos povos. Hoje, os Kariri-Xocó e os outros diversos povos indígenas do Nordeste guardam a prática do artesanato, presente nas vestimentas, adereços, produção de louças de cerâmica, no grafismo, que são as pinturas corporais, na produção de suas ocas, em espaços culturais – já que atualmente moram em casas de “alvenaria” – no seu ritual sagrado Ouricuri, retomada da língua adormecida e no Toré. São essas as bases que mantêm a cultura e atestam a etnicidade do povo Kariri-Xocó. É perceptível que eles, assim como boa parte dos povos indígenas do Nordeste, buscam constantemente afirmar que são donos da terra e são povos originários, inclusive para outros grupos de outras regiões do Brasil que vieram ter contato com o povo “branco” já no século XX, o que não causou tantas alterações físicas e culturais. Sobre o Toré Kariri-Xocó O Toré, para os povos indígenas do Nordeste, é a maior manifestação do ser índio e reflete a marca de etnicidade de todos os povos que habitam nessa região do país.Em qualquer aldeia que você passar e procurar com atenção, terá um grupo de pessoas cantando e dançando o Toré. Contudo, não podemos colocar todos esses grupos em uma sacola – como o termo pejorativo “índio” ou o termo mais bem politicamente empregado “indígena” tenta fazer, numa proposta colonial de igualar diversas comunidades que têm suas especificidades e suas formas únicas de enxergar o mundo – e pensar que para eles Toré é tudo a mesma coisa. Temos o exemplo da pesquisa de Andeson Cleomar dos Santos (2021), “Sons, Torés e Toantes da Corrida do Imbu: Afirmação e Reafirmação dos Ser Indígena Pankararu” onde ele traz o ser Pankararu a partir de tradições específicas como o “batizados de praiá4, as três rodas, menino do rancho, cantorias, corrida do imbu” (p. 37 e 4 Na dissertação de Leonardo Cunha (2008), ele categoriza o termo “Praiá” como um dos nomes dados para o Toré, em Pankararu, assim como fazem os Fulni-ô, que chamam de “Cafurna”. Contudo, Andeson 38). Essas práticas estão relacionadas com o Toré, pois em todas elas os cantos são realizados, assim como a dança que é feita pelos Praiá e tem a figura dos cantadores, que lideram as cerimônias com suas maracas. A forma de dançar e cantar, contudo, se diferencia dos Kariri-Xocó, seja pelas letras, melodias e andamentos. As outras diferenças e semelhanças estão em usar O maracá, instrumento de percussão dos povos indígenas presente nos rituais dos povos do Nordeste, faz parte da família dos idiofones e está presente não só nas práticas das etnias aqui apresentadas, mas, salvo engano, em todos os povos indígenas do Brasil (PINTO, 2001). É usado por homens e/ou mulheres no momento dos rituais sagrados, a exemplo de quando chamamos os praiá para dançar nos terreiros ou os nossos encantados para a cura, proteção pessoal ou da nação. É importante evidenciar a presença de outros instrumentos musicais como o rabo de tatu Pankararu, que é um instrumento feito da cauda do tatu/peba com cera de abelha, e o pife do povo Kaimbé de Massacará-BA e Pankararu, ambos instrumentos aerofônicos. (Santos, 2021, 153) Assim como a maraca (ou maracá), também é presente o uso do Búzu ou Búzio entre os Kariri-Xocó, Fulni-ô e Pankararu, sendo muito mais forte nos dois primeiros povos (Santos, 2021, p. 154). Na pesquisa de Romério Nascimento (2024), “Elaborações musicais Fulni-ô em transito” onde traz que “os Fulni-ô foram unânimes ao enfatizar a maior importância de elementos musicais tradicionais como a cafurna (unakesa), o tolê e o samba de coco. Estes foram destacados como pilares de resiliência, ancestralidade, economia, sociabilidades e ludicidade do povo.” (p. 36), podemos ver uma nomenclatura diferente para o termo Toré, que é a Cafurna. Dentro desse processo, os Fulni-ô buscaram não só a reafirmação dos cantos, mas também da língua ancestral deles, o Yaathê. Por ser um povo muito próximo dos Kariri-Xocó, chegando a se considerarem “aldeias irmãs”, onde muitos casamentos entre pessoas das duas comunidades, assim como a presença de ambos nos seus Ouricuris, é comum ver práticas semelhantes assim como cantos. Na pesquisa, ao analisar a apresentações de grupos de Cafurnas, ele traz exemplos de pessoas que trazem o conhecimento dessa relação: “Segundo o Mestre Xixiá nos anos de 1950, as apresentações eram lideradas por seu tio Lourenço Correia, o qual cantava cafurnas e torés que os Fulni-ô aprenderam com outros povos indígenas, tais como Kariri-Xocó de Porto Real do Colétio/AL ou os Xukuru-Kariri de Palmeiras dos Índios/AL.” (Nascimento, 2024, p. 254-255) Santos (2021), que é Pankararu, traz o Praiá de forma diferente, que é a linha que comungo: “Nossa espiritualidade está alicerçada na fé na força encantada representada em matéria pelos praiás (roupas feitas da fibra do croá/caroá). Apenas alguns homens do povo (adultos, jovens e crianças) estão autorizados a vestir as roupas dos praiá. Esses homens são chamados de moço de praiá e têm suas identidades ocultas, não sendo permitido revelar as faces de quem veste o praiá: um tipo de sociedade secreta. Expressões como folguedo, tonan-kiá, tonã de caroá, pai véi, chefe e homem também são usadas para nos referirmos aos praiá.” (Santos, 2021, p. 60) Essa relação chega a se confundir, pois de tão antiga muitas Cafurnas e Torés não se têm mas a dimensão de onde veio. Na pesquisa de Leonardo Cunha ele chega a fazer um teste: Se alguém perguntar para um Fulni-ô mais jovem sobre determinada cafurna, ele dirá que a origem dela está nos seus ancestrais. Assim, eu resolvi tirar a prova dos nove, perguntando igualmente sobre a mesma ‘melodia’ que é cantada pelos Fulni-ô em Yathê e pelos Kariri-Xocó em português. Alguns Fulni-ô e Kariri foram categóricos em afirmar que a origem daquele Toré era de sua tribo e que a tribo irmã tinha assimilado. Transformar um Toré cantado em português para o idioma de cada etnia parece um indicativo de viéis de mudança e difusão deste repertório. (Cunha, 2008, p. 118) Partindo para longe dessa relação entre povos próximos e chegando na Bahia, a pesquisa de Vanessa Moraes (2020), “O que devemos aprender com a ciência do índio e o fortalecimento da língua Kiriri: uma articulação entre cosmopolítica, ritual, educação e epistemologia” onde traz o Toré como “um ritual que tem uma linguagem, um conjunto de símbolos que comunica o que é ser Kiriri, mostrando para os não indígenas porque os Kiriri são índios” (p. 62) fala sobre a apropriação desse povo do Toré, reformulando suas práticas e resgatando sua língua, criando novas formas de lidar com a espiritualidade a partir da necessidade da afirmação de etnicidade com a prática do Toré. A pesquisadora nos traz uma descrição de diferenças entre a prática do Toré na língua Kiriri e em português e como isso define uma forma de reforçar essa marca social do ser indígena. Para alguém de fora que está olhando desatento aos detalhes todos são bem semelhantes, quase não vemos diferenças nas ações. Porém, para qualquer um que possa escutar, as palavras diferenciam-se claramente. Existem os torés que são na língua e aqueles que são em português. Os próprios Kiriri já me revelaram que os torés na língua tem toantes diferentes, enquanto que aqueles que são em português já ouvi também músicas diferentes. (Moraes, 2020, p. 174) É importante essa visão “do de fora”, pois a própria difusão do Toré pelo Nordeste foi um movimento exógeno e que serviu como uma forma colonial de dizer quem é indígena ou não. Essa prática segue assim, pois é a forma que esses povos têm de externar suas identidades. Seguindo essa linha, temos as pesquisas de Leonardo Cunha (2008), “Toré – da aldeia para cidade: Música e Territorialidade indígena na grande Salvador”, que aborda o processo em que alguns Kariri-Xocó levam apresentações de Toré para a capital baiana e como esse processo marca uma afirmação identitária ante as pessoas da cidade e Ruy Câmara Neto (2016) “Cânticos de cura dos Kariri-Xocó”, onde aborda o uso do Toré em processos “xamânicos5” para rituais de cura dentro e fora da comunidade. Nesses dois trabalhos, temos análises etnomusicológicas sobre os usos e as atribuições do Toré dos Kariri-Xocó. Apresento esses trabalhos como uma forma de mostrar que Toré pode parecer uma coisa só, mas não é. Ele depende de quem faz, onde e como. Cada povo indígena do Nordeste vai encarar, simbolizar, estruturar e organizar da forma como for mais próximo de sua forma de enxergar o mundo e sua cultura. Assim, trago a percepção das pessoas entrevistadas e como posso interpretar, a partir de seus relatos e de minha observação, o que é o Toré para os Kariri-Xocó. Podemoscomeçar dizendo que o Toré é a marca mais profunda do ser Kariri-Xocó. Nas entrevistas foi unânime a fala “se acabar o Toré e o ‘ritual’, acabou os Kariri-Xocó”, o que mostra como essa prática está enraizada na alma daquelas pessoas. Se pensarmos que já da barriga da mãe cada pessoa ali já estava escutando os cantos sagrados entoados, o som das maracas e do pisar dos pés, podemos entender como a relação pessoal com ele é construída desde antes de se tomar uma plena consciência de quem é. Por isso nós, não indígenas, nunca conseguiremos ter uma dimensão total da importância dessa prática. Ao perguntar o que significa Toré, me responderam “Som sagrado”. Em pesquisas, pude ver que essa explicação vem do historiador do povo, Nhenety (José Nunes), que atribui ao léxico Tupi esse significado 6 . Entretanto, Leonardo Cunha discorda dessa explicação por não achar fundamentação (Cunha, 2008, p. 115). Porém, me questiono se é importante procurar de forma tão positivista um significado que já foi dado por eles próprios. A prática tem esse sentido, é nítido na fala, no olhar, no fazer que é algo inteiramente sagrado – não no sentido sacro cristão, mas como algo especial e inteiramente deles. Sendo assim, podemos entender porque para os Kariri-Xocó o Toré surge com tanta força como um marcador cultural e social de que eles são “índios de verdade”. Elizabete Suzart, em seu artigo “Toré, um dueto de força que reúne povos ancestrais”, afirma essa relação do Toré para os Kariri-Xocó ao dizer: Assim, as centenas de cantos executados no Ritual de Toré, ganhou, a partir dos anos 80, a expressão máxima de identidade étnica que distinguia o povo Kariri- 5 O termo xamânico é utilizado pelo pesquisador por seguir a linha de Levi-Strauss. Entretanto, prefiro o termo Pajé ou Pajelança, que por ser um posto e uma palavra utilizada pelas comunidades indígenas do Brasil. O xamã é um termo cunhado dos povos originários da Sibéria e nada tem a ver com as figuras de poder religioso central nas comunidades daqui. 6 O historiador do povo tem um blog na internet onde traz suas pesquisas e pensamentos. Para saber mais sobre sua percepção do Toré acessar: https://kxnhenety.blogspot.com/2013/01/o-que-e-tore.html. Acessado a última vez dia 13 de julho de 2025. https://kxnhenety.blogspot.com/2013/01/o-que-e-tore.html Xocó dos demais povos originários da terra brasileira, mantendo sua língua original, dentre as cerca de 180 línguas indígenas, as quais diferenciam entre si e mesmo aquelas do tronco linguístico com origem no Tupi, com as quais se relacionam, no nordeste e pelo Brasil. (Suzart, 2018, p.2). Temos dois pontos de demarcação cultural aí: o Toré e a língua. O segundo, para além da região nordestina, é um dos principais elementos que reforça a etnicidade de um povo indígena. Convivendo alguns dias com eles, pude notar crianças, adolescentes e até adultos, em alguns momentos, cantando sozinhos ou em grupo, alguns Torés ou simplesmente balançando as maracas. Nada muito elaborado, mas em forma de brincadeira ou como uma reza pessoal. Ao perguntar sobre as musicalidades 7 dos Kariri-Xocó, me responderam que haviam duas: o Toré e o Rojão. O segundo, são cantos de trabalho e de “chamamento”, onde as pessoas cantavam para espantar a fome e o cansaço das longas jornadas de trabalho nas plantações, algo mais corriqueiro e cotidiano e que não percebi ter tanta importância. Já o primeiro trazia brilho nos olhos de quem falava e uma reverência muito grande. Ao questionar em quais momentos eles fazem Toré a resposta foi unânime: todos. Aqui eles me disseram que em qualquer momento da vida dos Kariri-Xocó o Toré está presente, seja no nascimento, no aniversário, no casamento, na conquista, no festejo, em um momento religioso, numa apresentação de trabalho, na chegada de amigos e parentes e nas suas despedidas e na morte. A prática marca e permeia toda a vida da comunidade, seja feito entre familiares, seja feito com toda a aldeia. Aí que entra o grande ponto que diferencia Toré de Música: a música, como entendemos na nossa sociedade não indígena, é um fenômeno artístico que pode ou não ser apreciativo, mas que tem um sentido próprio e pode definir diversos momentos a depender de sua construção. Temos música para cada momento da vida e não é nem preciso buscar referências para saber que existem categorias para cada uma. Já o Toré faz o movimento inverso, pois é a situação que define o uso dele. Se a situação é de tristeza, ele será triste; se de alegria, ele será alegre; se de luta, ele será combativo. O mesmo canto pode ser usado para diversas definições, inclusive eles falam que “existe o Toré alegre e o Toré triste”. Em entrevista com a dubo-hery Idiane Crudzá, ela chega a dizer que “o Toré é como o canto do passarinho” e essa é uma definição perfeita. Essa relação é percebida, também, entre os Pankararu – povo que mantém relações próximas com os Kariri-Xocó, havendo muitas famílias que tem suas origens vindas de lá, inclusive os Parrancó que tem em Seu Francisco uma linhagem Kariri-Xocó 7 Assim como Andeson Santos (2021), tenho discordância sobre o termo, preferindo usar “sonoridades” (ver página 145). Contudo, coloquei ele aqui por ter sido a forma como perguntei nas entrevistas. e na dona Carmelita, Pankararu. Na pesquisa de Andeson Santos, temos o relato de Maria José Pankararu, educadora indígena que diz: Você fala a música, a canção, mas pra gente é o toré, é o toante. Então o toré ela está dentro dessa temática e dentro do princípio coletividade. Além da corrida do imbu ser coletiva do povo, dentro da corrida existe o toré como forma de agradecimento. Onde há uma participação de todos naquela dança, de uma forma participativa e coletiva (Maria José Pankararu, 2020) (Santos, 2021, p. 86) Outro aspecto importante para entender o Toré desse povo é a sua estrutura musicológica. Existe a figura do Mestre de Cantos ou Mestre de Toré8 que é a pessoa que tem a função, na aldeia, de “tirar” os Torés com toda a comunidade ou em situações específicas e a figura do Torezeiro que, pelo que consegui entender, pode ou não ser um Mestre de Toré, o que vai depender de seu posicionamento dentro da comunidade, mas traz “o dom9” de cantar e pode chegar um dia a Mestre. Para esse exemplo temos Danilo Parrancó, um jovem de 24 anos, que “tira” os Torés cantados com seu grupo de apresentação e também com sua família e temos Mestre Zé Tenório – foi trazido por Danilo como uma das grandes referências para ele – que é conhecido pela comunidade e já tem muitos anos atuando dentro e fora dela. Ambos “tiram” Toré, mas um tem mais vivência e conhecimento sobre a prática, o que foi dito nas entrevistas ao dizer que “os mais velhos têm mais segurança e sabem como fazer”, o que é muito comum em culturas de tradição oral. O Mestre de Canto ou o Torezeiro nunca “tira” o Toré sozinho, pelo menos não entre os Kariri-Xocó – isso marca uma diferença, pois em outros povos, como os Fulni-ô, a “cafurna” é “tirada” só por um cantador10. Esse processo é feito em “pareia”, que quer dizer em dupla, e existe uma divisão muito específica entre “alto e baixo” – ou em termos musicológicos ocidentais, 1ª e 2ª voz – onde o canto é feito pelo “puxador” e o outro acompanha fazendo a voz mais grave ou mais aguda, a depender do Toré. Em entrevista com Danilo Parrancó ele me trouxe que existe uma percepção muito clara de extensão vocal, mesmo que eles não chamem assim, pois há Torés que precisam ser puxados por quem tem a voz mais grave e outros por quem tem a voz mais aguda11. Na prática percebi isso com a “pareia” entre ele e Nathan Parrancó, seu primo. O primeiro, com extensão 8 Sobre essa função ver Câmara Neto (2016), página71, no subtópico “5.2. Os mestres de Canto”. 9 Esse termo apareceu muito nas entrevistas e é usado para mostrar uma designação natural das pessoas para diversos papéis dentro da comunidade. Para eles, cada indivíduo já nasce com uma aptidão para servir ao povo e desde criança eles já percebem e incentivam. 10 Nesse vídeo é possível ver um exemplo de uma “Cafurna” cantada por Towé Fulni-ô: https://www.youtube.com/watch?v=9n0BxslbEac&list=PLEk7XNvZo4g3I—Xv4YSlDymSaO1PRKfH. Acessado a última vez dia 13 de julho de 2025. 11 Ruy Câmara Neto (2016) aprofunda essa análise na sua pesquisa. https://www.youtube.com/watch?v=9n0BxslbEac&list=PLEk7XNvZo4g3I https://www.youtube.com/watch?v=9n0BxslbEac&list=PLEk7XNvZo4g3I vocal mais aguda e o segundo, mais grave, onde iam revezando o canto dentro de suas capacidades vocais. Essa divisão guarda, também, uma relação harmônica muito específica, pois não cantam a mesma melodia em uníssono12, mas existe uma relação de contracanto muito próxima do que chamaríamos de terça13. Isso provoca um fenômeno que eles chamam de “encaixar” as vozes e revela uma percepção sonora muito apurada, pois o Toré só começa quando eles acham o “encaixe” perfeito para dar seguimento. Apenas dois Torezeiros “tiram” o Toré e ambos tocam a maraca – instrumento feito de coité ou cabaça, com sementes no interior, parecido com um chocalho, e fincados em um pedaço cilíndrico de madeira14 - que funciona como um instrumento de regência, pois marca o ritmo, o tempo e as variações de andamento e da dança ao longo da prática. A divisão, inclusive, não se restringe aos “tiradores” do Toré, mas é algo que permeia todas as pessoas que fazem parte da prática. Os homens, as mulheres e as crianças, se organizam para responder o Toré e o fazem em “pareias”, o que demonstra uma habilidade tanto de percepção quanto de harmonização única, embelezando e trazendo a força dos Kariri-Xocó dentro de uma estrutura que, a primeira vista, pode parecer muito simples, mas é bem complexa. Outro ponto que merece destaque é a estrutura responsorial do Toré, onde os Torezeiros cantam uma parte e as outras pessoas respondem, cantando outra parte dela, fazendo um jogo de pergunta e resposta no canto. Os Torés Juninos Os Torés Juninos fazem parte do calendário de festividades religiosas dos Kariri- Xocó e são marcados como uma tradição cultural de tempos imemoriais desse povo. Diferente do Ouricuri, que é um ritual fechado somente para eles e outros povos com quem mantêm relações familiares e é realizado “na mata15”, espaço reservado distante do centro da comunidade, já muito antes da retomada em 1978, os Torés Juninos são 12 Uníssono é quando todas as pessoas cantam a melodia de forma igual, com as mesmas notas. 13 Para quem não tem o conhecimento musicológico necessário, a terça é uma relação entre duas notas (sons) onde, dentro da escala musical, elas se posicionam a uma “distância” de um nota de diferença uma da outra. Ex.: Dó – Mi (Dó – ré – Mi), ao serem cantadas juntas produzem uma harmonia confortável, para nossa cultura. Contudo, estamos limitados a duas terças: maior e menor e a diferença delas está na distância, sendo uma comumente colocada como “mais alegre” e outra “mais triste”, respectivamente. No caso específico, a relação não obedece essa limitação ocidental, mas não aprofundaremos muito nesse trabalho pela sua limitação estrutural. 14 Tanto na pesquisa de Leonardo Cunha (2008), quanto na de Ruy Câmara Neto (2016) podemos ver exemplos visuais de uma maraca e de outros instrumentos dos Kariri-Xocó. 15 “Na mata” ou “Ritual” são termos comumente usados por eles para falar do Ouricuri, que é o ponto central da vida do povo Kariri-Xocó. É um ritual religioso, fechado e define toda a relação espiritual do povo. Para saber mais conferir Vera Lúcia Calheiros Mata (1989), Cristiano Barros Marinho da Silva (2003), Leonardo Campos Mendes da Cunha (2008) e Ruy Rodrigues Câmara Neto (2016). abertos16 e comemorados dentro do espaço geográfico da aldeia. São práticas alinhadas com os dias de 4 santos católicos: São José (19 de março), Santo Antônio (13 de junho), São João (24 de junho) e São Pedro (29 de junho). As comemorações ou execução desses Torés marca, também, um calendário natural que pode remeter a tempos pré-coloniais, pois o Toré de São José é feito no período em que eles utilizavam para plantar e os outros três em períodos de colheita. Em algumas entrevistas foi recorrente a fala de fazer o Toré pedindo que o santo abençoasse o plantio e tivessem chuvas suficiente para que a colheita fosse boa em junho. Os demais santos têm um Toré especial como forma de agradecimento pelas chuvas e pela colheita, o que revela uma relação colonial já conhecida, onde os Jesuítas adaptavam os calendários já estabelecidos pelos diversos povos indígenas do Nordeste com comemorações aos santos da tradição católica, facilitando o trabalho de catequese ao longo de séculos (Santos, 2021, p.106). Essa relação aconteceu com diversos outros povos do Nordeste, o que foi discutido no trabalho de Andeson Santos que diz: Contam que, tempos atrás, um grupo de indígenas Pankararu, enquanto caçava nas matas, encontrou uma imagem em madeira que parecia uma mulher. Os padres logo disseram que era um sinal, pois se tratava da imagem de Nossa Senhora da Saúde, e que os indígenas (nós) deveriam levantar uma capela para ela. (Santos, 2021, p. 68) O mais incrível, é que se por um lado eles conseguiram implementar uma cultura religiosa, por outro essas pessoas não perderam sua relação cultural com a natureza, ressignificando suas tradições e mantendo vivo seus festejos, seus marcos temporais e cultura que ganhou novas formas de se fazer, mas não perdeu a sua essência. Dentro dessa linha dos marcos temporais temos a figura da dubo-hery17 Idiane Crudzá, responsável por fazer um resgate da fala da língua adormecida dos Kariri, dos Xocó e de diversos outros povos originários dos grupos chamados de Kariri ou Kiriri ao longo do processo colonizatório, o dzubukuá-kipeá, reconhecido como a língua ancestral dos Kariri-Xocó18. Para ela, as festas ou os Torés Juninos marcam o ano novo dos Kariri- Xocó, observados no céu pelas Plêiades, que é uma constelação de 7 estrelas no céu que, vistas apenas nesse período, marcam a passagem de mais um ano, tendo relação, também, com a colheita, o que é observado em diversos outros povos originários. Essa 16 Os termos “aberto” e “fechado”, ao longo da pesquisa, se referem a observância por parte de não indígenas ou outros povos indígenas que não mantenham laços com os Kariri-Xocó. 17 Em dzubukuá-kipeá: professora ou professor. 18 Sobre isso verificar todo o trabalho de Nhenety (José Nunes), tio da dubo-hery Idiane Crudzá e historiador do povo Kariri-Xocó em seu blog: https://kxnhenety.blogspot.com/ https://kxnhenety.blogspot.com/ marca temporal não é mais unânime e aparece como um processo de pesquisa e resgate individual da dubo-hery. Chego a pensar qual o peso, para todo o povo, dessa descoberta e dessa nova visão a respeito das festividades, pois em conversas informais durante a pesquisa percebi que eles se localizam na passagem de ano com o marco ocidental, 01 de janeiro de todo ano. Inclusive, um conterrâneo meu, que veio para o evento já comemorando pela dubo- hery há 4 anos, ao comentar que “veio para a comemoração do ano novo” não era repreendido, não tinha a informação confirmada, mas pude perceber nos olhares e nas expressões uma estranheza com relação a essa informação. Isso diz pra mim muito mais que palavras, pois pode revelar uma forma de não frustrar o visitante, não “desmentir” a parente deles dentro de seu projeto pessoal e expressar a desimportância que aquela informação tem para eles. Sabemos que tradiçõesvêm e vão e muitas são recentes, outras antigas e muitas mudam de nome, forma, mas permanecem séculos e séculos no meio de cada povo. A questão que fica é: até que ponto é interessante para o povo Kariri-Xocó se desfazer da relação de gratidão e devoção com os santos católicos para se apegar a uma relação temporal com a natureza, modificando uma visão que envolve fé, tradição e ensinamentos que foram passados por seus pais, avós e bisavós? Percebo que vale para eles a relação do Toré para cada santo e como isso interfere ou não no cotidiano da comunidade. Nesses dias específicos os Torés cantados são religiosos19 e tem como objetivo principal reverenciar os santos católicos aos quais os dias estão destinados. São feitas com a imagem ou não dos santos – só percebi a presença da imagem dos santos no Toré de Santo Antônio, a partir dos registros que recebi anteriormente por meio de registros da comunidade e em entrevistas – e têm um primeiro momento de Torés direcionados ao santo que está sendo reverenciado. O segundo momento é puramente para festejo e divertimento da comunidade, onde há um encontro de toda a aldeia e é servido arroz- doce e mungunzá. Diferente dos rituais do Ouricuri, onde é necessário um resguardo de alguns dias antes da realização, esse momento não é restringido a quem estiver bebendo. Podemos notar a presença de uma estrutura muito comum no catolicismo popular: sagrado/profano. Primeiro, as pessoas reverenciam o sagrado, fazendo suas rezas, procissões, novenas e o que mais for da liturgia e segundo, as pessoas podem se divertir, tendo o momento para se poder gozar a vida. Aqui não é diferente, pois o Toré tem essa função de manter o corpo e alma do Kariri-Xocó viva e em conexão com a sua cultura. 19 Sobre os usos do Toré por parte dos Kariri-Xocó, farei uma análise mais minuciosa mais a frente, pois merece toda uma atenção especial. Por hora, basta saber que esses são religiosos. Apesar dos Torés serem iniciados em março, eles consideram a “abertura” dos Torés Juninos com o Toré de Santo Antônio. Nesse ano não pude estar presente, mas pelos registros e pelos relatos trazidos pelos Parrancó foi um momento em que, mesmo com forte chuva, eles mantiveram a tradição e comemoraram no Sítio Aracaré tendo um encontro com o restante da aldeia no portão, fazendo a volta dentro do sítio e saindo até próximo “da mata” onde o restante da comunidade seguiu para dar a volta na aldeia e os Parrancó retornaram para seu espaço de morada. Essa volta é, inclusive, uma tradição antiga que está presente em relatos de todas as pessoas entrevistadas durante a pesquisa. Entretanto, me foi contado que ela acontecia no último Toré, o de São Pedro, que marca o “fechamento” dos Torés Juninos. Seguindo o calendário, é feito o Toré de São João, realizado na véspera – dia 23 de junho –, onde são acesas as fogueiras que ficam nas portas tradicionalmente. Finalizando os festejos juninos o último Toré, o de “fechamento”, é o de São Pedro, agradecendo pela colheita e reverenciando o santo das chuvas. De acordo com relatos esse Toré é um dos mais significativos e tradicionalmente é feito na passagem do dia 28 para o dia 29 de junho e vira a madrugada. As pessoas mais velhas contam que esse Toré era realizado por toda aldeia, onde as pessoas iam de porta em porta, acordando as famílias e chamando toda a comunidade para a grande roda que circunda a aldeia e finalizava em frente a casa do Pajé, figura central na comunidade Kariri-Xocó. Dado todo o roteiro de como os Torés Juninos funcionam vamos partir para a observação etnográfica desse período agora em 2025. Como relatei acima, o Toré de Santo Antônio foi feito, sob forte chuva, e com um encontro potente entre toda a comunidade no Sítio Aracaré20 . O Toré da família Parrancó foi “tirado 21 ” pelos dois torezeiros Danilo e Nathan Parrancó. Já presente na aldeia, na véspera de São João não houve o tradicional Toré para o santo. Em algumas entrevistas feitas após esse dia tive relatos de que essa comemoração pode ou não ser feita, o que vai depender muito da comunidade – se tem pessoas suficientes, se houve a morte de algum ancião (o que ocorreu no dia 14 de junho), dentre outros motivos que cabem a eles decidir ou não. O que foi ressaltado é que o Toré de Santo Antônio tem mais relevância para eles, por ter um valor religioso maior. No de São Pedro ocorreu da mesma forma, porém vejo que o que trouxe a ausência dessa comemoração foram motivações externas e não internas. 20 Essa localização é sempre citada por alguns motivos: 1 – foi o local onde maior parte da pesquisa foi realizada; 2 – é um dos pontos mais afastados da aldeia, já no caminho para “o ritual” e próximo do caminho usado para dar “a volta” na aldeia; e 3 – é onde habita uma das famílias “tradicionais” dos Kariri-Xocó. 21 O termo “tirar” e suas variações verbais estão atribuídos a cantar ou puxar o Toré. Passado vs. Presente O que pude perceber nas entrevistas e nas observações feitas é que há uma reformulação das comemorações dos Torés Juninos. Ela não se perdeu, mas como toda tradição está ganhando novas formas de serem realizadas (Hobsbawm, 2024). Ao perguntar aos mais velhos e até a pessoas mais jovens se houve mudanças na comemoração, as respostas se alternam entre sim e não – sendo a maioria para sim. Percebo que quem disse não, quis trazer uma visão firme de que a tradição está viva e inerte. Concordo que está viva, mas nenhuma tradição se mantém inerte, pois do contrário ela morre. A aldeia conta hoje com a proximidade da cidade de Porto Real do Colégio e essa proximidade já foi fruto de conflitos que resultaram na tomada do território do povo Kariri, que ali já habitava, ao ponto deles terem apenas a “rua dos caboclos” e, posteriormente, a “colônia22” para habitarem. Hoje, essa relação altera a vivência cultural do povo Kariri- Xocó, modificando a estrutura de suas tradições abertas. Há alguns anos a prefeitura da cidade de Porto Real do Colégio comemora o período conhecido como São João com festas públicas. Atualmente, existe a festa chamada “Forró Real”, criada em 1992, que ocorre entre os dias 26 a 29 de junho, com bandas de renome da música nordestina, expoentes do sertanejo e outros gêneros musicais que são cotados no período junino. É de se esperar que a população dos Kariri- Xocó também queiram participar, o que é massivo, pois estive presente no Forro Real no dia 29 notei que há uma área na lateral direita do palco que é ocupada praticamente por pessoas da comunidade. Levando em conta que maioria da população da aldeia está presente nesses dias de shows na cidade, de pessoas mais velhas a mais novas, quem iria “tirar” os Torés dos santos e quem iria “responder”? O que pude notar é que essa programação afetou essa tradição dando novos sentidos. Seguindo relatos, soube que algumas famílias ainda fazem um caminho de resistência, indo para seus espaços23 mais afastados da aldeia praticando seus Torés durante toda a noite, mantendo uma tradição do povo, mas agora em um caráter mais familiar e reservado. Outros, preferem ir se divertir na cidade, já que as configurações sociais do meio em que os Kariri-Xocó vivem já não são mais as 22 A Colônia dos Índios foi uma área de aproximadamente 200ha cedida próxima ao “ritual” onde os Kariri- Xocó podiam ter suas lavouras. Alguns chegaram a viver lá, onde a comunidade ficou dividida entre a cidade e esse espaço. 23 Em entrevistas e conversas informais pude notar que se criaram espaços mais afastados do centro da aldeia, onde famílias recebem visitantes para vivências culturais, o que se tornou uma fonte de renda e para convivência da família, onde podem manter suas práticas de forma maisreservada. mesmas – eles não vivem mais hoje do plantio, como antes; não há uma relação de afastamento e isolamento das pessoas da cidade, como foi relatado em algumas entrevistas; a cultura do “branco”, assim como pessoas não-indígenas, já permeiam o espaço da aldeia com facilidade e a maioria, que são jovens, já vivem uma relação com a tradição diferente de seus mais velhos. Pensando ainda sobre tradição podemos observar que ela, para não morrer, passa por processos de transformação. Os mais velhos, em entrevistas e conversas informais, relatam que no tempo da “colônia” a diversão deles eram os Torés Juninos, onde dançavam durante toda a madrugada, nos dias dos santos. Alguns que já nasceram na aldeia nos anos 1980 e 1990, relatam que os festejos eram feitos entre a comunidade nos mesmos moldes que o tempo da “colônia”. Mas em conversa informal com Nathan Parrancó, enquanto estávamos no Forró Real, ele me comentou que “eram 7 dias de forró na cidade, onde os ‘caboclos’ iam todos os dias e, no último, se reuniam e iam cantando Toré da cidade até a aldeia, muitas vezes dando a volta nela”. Essa informação revela que a tradição de “fechamento” dos Torés Juninos pode não estar se perdendo, mas ganhou nova forma e pude presenciar esse momento quando jovens Kariri-Xocós se organizaram em grupos e foram cantando Toré da cidade até a aldeia. O que podemos perceber aqui é um processo de transformação da tradição de acordo com as relações sociais que são feitas pelas novas gerações. Isso gera questões: a tradição dos santos ainda tem tanta relevância como no passado? É o formato de se fazer o Toré no período que vale? A visão dos mais velhos ao dizerem que “a tradição está se perdendo” está de toda forma correta? Essa última não cabe a mim, mas com o olhar de fora posso perceber que existe uma reformulação acontecendo, para que a cultura dos Torés Juninos se mantenha dentro de novas dinâmicas que estão surgindo. Pois “manter a tradição Kariri-Xocó” é uma preocupação importante para eles, desde as pessoas mais novas, às mais velhas. Considerações Finais Os povos indígenas do Nordeste foram os primeiros a terem contato com os colonizadores europeus. Na leva de Portugueses, Holandeses e Franceses que tomaram terras, trouxeram doenças, violentaram e sequestraram mulheres criando um processo violento de miscigenação, catequizaram de forma violenta, com o intuito de matar a cultura e relação espiritual, as nações que aqui já viviam passaram por praticamente cinco séculos de extrema violência e apagamento. Seus territórios foram tomados, suas línguas tiveram de ser mantidas em segredo, sua espiritualidade foi resguardada, recebendo novos nomes e tradições, suas características físicas foram mudadas e toda uma tradição milenar precisou ser reformulada de forma abrupta para permanecer viva. O que mostra que povos como os Kariri-Xocó, que se formaram enquanto uma etnia nova que está se reestruturando em seu território e cultura, já trazem a marca de muita luta e resistência. O Toré traz na sua sonoridade essa batalha, esse desejo de estar vivo, esse desejo de gritar ao mundo quem são e pra onde irão. A maraca, como me relataram, é o “instrumento da união”; o pé toca o chão, pois a terra é a mãe que dá força ao povo Kariri- Xocó. O canto em “pareia”, mostra a união de dois povos que precisaram se unir para sobreviver e em conjunto eles cantam que ninguém vai apagar sua história. Num processo histórico, podemos perceber como a relação com santos católicos e os ciclos da vivência cotidiana estão ressignificadas no fazer o Toré e comemorar a realidade e permanência dos Kariri-Xocó. Eles se autodeclaram filhos da Jurema, que é uma planta forte do Nordeste e a marca da resistência de um povo que, assim como a planta, enquanto houver um pedacinho de sua raiz fincada na terra, nunca morrerá. Temos muito que aprender com eles e existe muito campo para pesquisa sendo necessário trazer esse conhecimento para a academia, não como objetos inertes de uma ciência europeia que se acha superior a povos originários. Mas sentar e aprender com quem tem muito a nos ensinar e são os verdadeiros donos e modeladores da cultura nordestina e brasileira. Referências Bibliográficas BASTOS, Rafael José de Menezes. A Musicologia Kamayurá: para uma antropologia da comunicação no Alto-Xingú. Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Brasília, 1978. (Disponível em http://etnolinguistica.wdfiles.com/local--files/biblio%3Abastos-1978- musicologica/Bastos_1978_A_musicologica_Kamayura.pdf) BLACKING, John. How musical is man? University of Washington, 1973. CÂMARA NETO, Ruy Rodrigues. Cânticos de cura dos Kariri-Xocó. Dissertação (Mestrado em Etnomusicologia) – Centro de Comunicação, Turismo e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2016. CUNHA, Leonardo Campos Mendes da. Toré – da aldeia para a cidade: Música e Territorialidade indígena na grande Salvador. 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