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XV Reunião de Antropologia do Mercosul 
04 a 08 de agosto de 2025, UFBA, Salvador, BA, Brasil 
GT 032: Antropologia e Artes Performáticas: música, dança, teatro e performance 
em contextos etnográficos 
Torés Juninos: algumas práticas musicais do Povo Kariri-Xocó (AL) 
Rafael Cardoso dos Santos 
Graduando - UEFS/DLA1 
Introdução 
 Aqui tenho o desafio de organizar tudo que compreendi durante os 10 dias que 
passei convivendo com os Parrancó, na aldeia Kariri-Xocó, mais especificamente no Sítio 
Aracaré, espaço fundado por Seu Francisco Sampaio da Silva, o fundador do local e uma 
das figuras mais emblemáticas e expressivas dentro do processo de retomada das terras 
onde hoje se localiza a aldeia Kariri-Xocó, no ano de 1978, assim como na segunda 
retomada, em 1994. É importante ressaltar que maior parte da pesquisa foi realizada com 
essa família, o que abrange uma parte de toda a cultura desse povo, assim como a visão 
da história a partir deles. É uma família importante, como pude perceber ao estar com 
pessoas de outros grupos familiares, mas que traz uma visão única e que merece um 
destaque maior em pesquisas futuras. 
 O ponto principal dessa pesquisa foram os Torés Juninos, realizados no mês de 
junho, o qual dá nome a essa festividade, mas que têm seu marco inicial no dia de São 
José, que é o padroeiro dos trabalhadores e marca o início do plantio das comunidades 
locais. Isso mostra uma tradição que foi iniciada ainda quando o principal meio de 
subsistência dos Kariri-Xocó era a agricultura e o calendário natural e religioso se 
misturam de um modo que cria toda uma cultura em torno desse processo de 
sobrevivência. Ao longo da pesquisa pude notar como as mudanças do tempo, da 
estrutura demográfica da aldeia, das formas de trabalho que surgiram ao longo dos anos 
e a relação não só dentro, mas fora da comunidade alterou a dinâmica da vida, mas não o 
calendário religioso das festas. 
 
1 Universidade Estadual de Feira de Santana/Departamento de Letras e Artes – Colegiado de Música – 
Área: Etnomusicologia. Orientador: Prof. Dr. Aaron Roberto de Mello Lopes 
 A pesquisa foi feita por meio de uma etnografia através de um trabalho de campo, 
onde estive presente na aldeia Kariri-Xocó entre os dias 22 de junho e 01 de julho de 
2025. Fiquei hospedado no Sítio Aracaré, espaço dentro da comunidade onde reside a 
família Parrancó. Utilizei de entrevistas, registros audiovisuais de eventos que ocorreram 
e observação participante. Tive como informantes donas Edvânia e Irane Parrancó, com 
quem mantive contato antes da chegada durante os meses de março a junho, preparando 
todo o campo para minha chegada e coletando informações sobre o calendário de rituais 
no Ouricuri, o que poderia interferir na realização da pesquisa pela ausência deles na 
aldeia. 
 A importância dos informantes, que são pessoas de dentro da comunidade que nos 
orientam sobre seu funcionamento e abrem espaço para que o trabalho seja realizado é 
discutido por Bruno Nettl (2015) em seu trabalho “The study of ethnomusicology: thirty-
three discussions”, mais especificamente no capítulo “You Will Never Understand This 
Music: Insiders and Outsiders”, onde ele aborda a relação em que nós pesquisadores, 
forasteiros no local onde vamos elaborar nossas pesquisas, temos com nossos 
informantes, pessoas de dentro, que conhecem todos os meandros da comunidade. 
 Uma outra referência etnomusicológica é o trabalho de John Blacking (1973), “How 
musical is man?” onde ele faz uma análise de como os sistemas musicais estão 
imbricados com a realidade social e cultural daquelas pessoas que os fazem. A partir de 
sua pesquisa, analiso como o Toré é feito e apropriado como um traço importante da 
cultura Kariri-Xocó, fazendo parte de um sistema específico da comunidade e marcando, 
inclusive, outras sonoridades e práticas musicais. Um exemplo disso, são as Quadrilhas 
Juninas, feitas na comunidade, que têm na sua forma dançar a influência direta do Toré. 
 Essa pesquisa surge dentro de um movimento da Etnomusicologia brasileira de 
olhar para os povos tradicionais e buscar cada vez mais as manifestações sonoras e 
musicais que marcam a base da cultura musical brasileira. Pesquisadores como Rafael 
Bastos (1978), com seu trabalho “A musicologia Kamayurá”, e Rosângela Tugny (2006), 
na organização do livro “Músicas africanas e indígenas no Brasil” fazem um caminho que 
continua sendo percorrido nos dias de hoje através da musicalidade dos povos originários 
do país. 
A etnomusicologia brasileira vem se caracterizando por estar voltada para 
a música própria do país (SANDRONI, 2008, p. 73) e ter, como 
pesquisadores, pessoas do contexto investigado, característica esta que 
a diferencia da Etnomusicologia em outros países da Europa, por exemplo. 
(Santos, 2021, p. 31, grifo meu) 
 Não distante, temos nesse último trabalho a pesquisa de Benvina Pankararu, “Sons 
e Rituais Sagrados. A Experiência Indígena” e mais recente a pesquisa de seu parente 
Andeson Santos Cleomar (2021), “Sons, Torés e Toantes da Corrida do Imbu: Afirmação e 
Reafirmação do Ser Indígena Pankararu” que marcam a retomada desse conhecimento, 
dentro da academia, por pessoas indígenas do Nordeste, tomando a dianteira das 
pesquisas etnomusicológicas dos seus próprios povos, feito por “pessoas do contexto 
investigado”, como ressaltado no trecho acima. 
 
O Povo Kariri-Xocó 
 
 A aldeia Kariri-Xocó está localizada no estado de Alagoas, às margens do Rio 
Opará2 (São Francisco), próxima à cidade de Porto Real do Colégio3, que está localizada 
dentro do território indígena. De acordo com o Censo de 2022, existem 2026 pessoas no 
território. Porém a população deve ser muito maior, pois existem muito mais espalhados 
pelo país. 
 É importante termos conhecimento de que o povo Kariri-Xocó, ou Kariri como eram 
antes da fusão que ocorreu em finais do séc. XIX, são frutos de diversas misturas 
causadas pelos aldeamentos jesuítas, resultado de um processo de colonização religiosa 
onde colocavam diversos grupos dentro de grandes termos generalistas como Kariri/Kiriri 
ou Tapuias – estes eram tidos como bárbaros e não falantes do Tupi, que foi aprendido e 
apropriado pelos religiosos. Grupos como os Pankararu (Santos, 2021, p. 67), no sertão 
pernambucando, e Tarairiús, no sertão paraibano, estavam dentro dessa nomenclatura, 
junto com com os Kariri. 
 O mesmo ocorreu com os Xocó, na região de Sergipe. Nesse processo, a região 
onde habitam hoje os Kariri-Xocó, era um aldeamento jesuíta que contava com diversos 
povos. Ruy Câmara Neto nos traz uma explicação: 
O povo Kariri-Xocó é o resultado de várias fusões entre povos nativos, a 
partir dos processos de aldeamento e catequese missionária no 
nordeste brasileiro. Porém, o nome desse povo identifica, 
especificamente, a última grande fusão, ocorrida há mais de um século 
entre os povos Kariri e os Xocó. Os Kariri, segundo Martins (2003, p. 98) 
são oriundos de um aldeamento missionário ocorrido entre o final do 
século XVII e início do XVIII, já decorrente de uma junção entre diferentes 
etnias. De acordo com Vera Lúcia da Mata (2014), o aldeamento era de 
 
2 Durante todo meu trabalho optei por chamar o rio pelo seu nome originário, como uma forma política de 
reafirmar os saberes indígenas locais. O nome de “São Francisco” foi fruto de uma política colonial de 
dominação e epistemicídio, assim como dizer que a aldeia Kariri-Xocó está localizada na cidade de 
Porto Real do Colégio, quando sabemos que foi o contrário que aconteceu. Esse mesmo nome é usado 
pelos Pankararu e Tuxá e pode ser encontrado no trabalho de Andeson Santos (2021), p. 67. 
3 A cidade foi elevada a vila e emancipada em 07 de julho de 1876. O Colégio a que se refere não se 
tratava de uma instituição educacional, mas “como expressão arquitetônica do empreendimentoagropecuário que a Companhia manteve no Brasil” (Mata, 1989, p.37-38) e o termo Porto Real do 
Colégio já vem desde o século XVI (Suzart, 2018, p. 4). 
Inacianos e envolviam nativos como os Carapotós, Cariris, Aconâns e 
Praquiôs (Mata, 1989, p. 25). Os Xocó, de outro aldeamento jesuítico, no 
Estado de Sergipe, chegaram a Porto Real do Colégio, depois da tomada 
de suas terras em Porto da Folha - no outro lado do Rio São Francisco. 
(Mata, 1989, p. 25). Durante a realização desta pesquisa, pudemos 
observar a presença e ouvir relatos da existência de outras etnias entre o 
grupo Kariri-Xocó, como os Natu, Pankararu, Fulni-ô, Tingui-Botó e 
Karapotó - a maioria chegados a partir de matrimônios com os Kariri-Xocó.” 
(Câmara Neto, 2016, p. 24, grifo em negrito meu) 
O grande legado do povo é união dos povos Kariri, que já habitavam a margem alagoana 
e os Xocó, que vieram fugidos da ilha fluvial de São Pedro, na margem sergipana, após 
terem suas terras tomadas pela família do Coronel João Fernandes de Brito após a extinção dos 
aldeamentos na província, atualmente Sergipe, em 1855 (Mata, 1989, p. 25), mas que também 
foram para o território dos Fulni-ô, Pankararu e interior de Sergipe, onde muitos perderam 
suas origens por ter de viver escondidos ou integrados à sociedade não indígena. 
 A tomada de terras indígenas foi um processo muito comum na história dos povos 
do Nordeste e pude ouvir relatos de histórias tanto entre os Kariri-Xocó, quanto entre os 
Fulni-ô, que atribuem à Princesa Isabel e ao imperador D. Pedro II as terras onde habitam 
atualmente, que foram cedidas no período da Guerra do Paraguai (1864 – 1870), onde 
muitos indígenas e cativos negros foram recrutados na promessa de terem suas terras 
asseguradas e receber a liberdade, respectivamente. Contudo, o que ocorreu foi a um 
processo político de extinção das aldeias em algumas províncias, que eram gerenciadas 
pelos Jesuítas (Mata, 1989, p. 37). 
 Para o poder público no período, o Nordeste não tinha mais populações indígenas, 
restando apenas remanescentes e descendentes que já não podiam mais “ser 
considerados índios”, o que culminou em uma política de morte e apropriação de terras 
por fazendeiros e poceiros, fruto de um apagamento cultural genocida. Hoje, eles ainda 
vivem em busca de se reafirmarem enquanto povos indígenas e sofrem com a 
discriminação presente em comentários como “não são índios de verdade” por já terem 
sofrido com a miscigenação e afastamento de muitas práticas culturais originárias de seus 
povos. 
 Enquanto a política indigenista do século XIX era de extermínio dos povos 
indígenas, no século XX a postura muda para um cessar fogo e uma busca pela 
integração destes à sociedade civilizada. 
É nesse momento que surge a figura de Cândido Mariano da Silva Rondon, 
com a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), por meio do Decreto 
nº 8.072, em 1910. Embora esse órgão tenha sido criado sob parâmetros 
de tutela sobre os “índios” com o objetivo de integrar os povos originários à 
sociedade nacional “civilizada”, foi, de certa forma, o primeiro passo oficial 
no que diz respeito a organizações e articulações políticas indigenistas e 
indígenas do país. (Santos, 2021, p. 119) 
Enquanto novas políticas públicas que visavam algum tipo de “proteção aos indígenas” 
depois de séculos de leis de morte, o surgimento desse órgão foi crucial para os povos do 
Nordeste, pois ao passo que este buscava os grupos que estavam no interior do Brasil, os 
que habitavam as terras nordestinas puderam mostrar a cara e pedir reconhecimento 
enquanto originários da terra (Cunha, 2008; Santos, 2021). 
 O Toré foi instituído como símbolo do ser índio pelo SPI (Serviço de Proteção ao 
Índio) na década de 1930, a partir de estudos de Carlos Estevão de Oliveira, entre os 
Fulni-ô. Esses estudos 
serviram como parâmetro de comprovação étnica para outros povos do 
Nordeste. O povo Fulni-ô foi o primeiro a ser reconhecido nesta região. 
Quando Raimundo Carneiro (funcionário do SPI) teve acesso a este 
estudo sobre a cultura Fulni-ô delimitou toda a complexidade das culturas 
indígenas a um único elemento cultural, o toré. (Santos, 2021, p. 147-148) 
O órgão do governo então passou a instituir o Toré como um marcador cultural desses 
povos, o que gerou caminhos de transmissão entre eles que se apoiavam nesse processo 
de reafirmação, fortalecendo uma rede de comunicação que já existia entre esses povos. 
Isso mostra um processo exógeno aos povos indígenas, pois uma instituição “branca” 
criou, de forma arbitrária, uma definição do que é ser indígena no Nordeste, 
transformando culturas e nomenclaturas de manifestações sonoras que já existiam e 
passaram a se chamar Toré. 
 Seguindo essa discussão, temos na pesquisa de Leonardo Cunha alguns indícios 
do que foi esse processo de transmissão dos Torés. 
Caso clássico aconteceu entre os Atikum-Umã, sertão de Pernambuco. Informados 
pelos índios Tuxá (Rodelas-Bahia) de “que havia um órgão do governo que estava 
reconhecendo territórios indígenas no Nordeste” (Grünewald 1993), procuraram o 
SPI, afirmando-se descendentes de índios e reivindicando a criação de uma 
Reserva. Por exigência deste órgão, tiveram que provar serem descendentes de 
índios através da demonstração do Toré. Os índios Tuxá socorreram os Atikum, 
ensinando tal prática, que passou desde então a fazer parte de uma ritualidade que 
marcou o novo regime de ser índio e conhecedor da Origem. (Cunha, 2008, p. 
116-117, grifos meus) 
Esse intercâmbio cultural foi observado, também, no trabalho de Ruy Câmara Neto, ao 
trazer o exemplo de um Pajé Kariri-Xocó que, ao se casar com uma mulher do povo 
Wassu-Cocal, passou a ensinar os cantos de cura e os rituais do Toré, como forma de 
ajudar aquela comunidade a ter o reconhecimento enquanto povo indígena no Nordeste. 
Pajé Chicão e sua companheira, Dona Côca, vivem da agricultura. Ele é 
um Kariri-Xocó casado com uma Wassú Cocal e, segundo levantamento 
feito na época, o mesmo era responsável em reintroduzir o Toré e os 
cânticos de cura na cultura Wassú Cocal, levando toda a influência 
Kariri-Xocó. (Câmara Neto, 2016, p. 14, grifo meu) 
 Aqui temos um movimento muito curioso, de intercâmbio cultural, onde temos um 
movimento histórico que impulsionou a prática sonora para diversos povos o que revela 
duas realidades: a primeira, um processo político que veio de fora para dentro, revelando 
a necessidade e habilidade que os povos indígenas tinham para se adaptar e reestruturar 
frente as políticas coloniais que já vinham de séculos alterando as tradições culturais 
desses povos; a segunda, e mais importante, uma rede de comunicação entre esses 
grupos que se comunicavam e colaboravam numa luta coletiva de reafirmação de sua 
existência. O Toré, então, surge como marcador cultural do ser indígena no Nordeste, 
sendo entronizado como cultura máxima a ser respeitada e sacralizada nos diversos 
povos. 
 Hoje, os Kariri-Xocó e os outros diversos povos indígenas do Nordeste guardam a 
prática do artesanato, presente nas vestimentas, adereços, produção de louças de 
cerâmica, no grafismo, que são as pinturas corporais, na produção de suas ocas, em 
espaços culturais – já que atualmente moram em casas de “alvenaria” – no seu ritual 
sagrado Ouricuri, retomada da língua adormecida e no Toré. São essas as bases que 
mantêm a cultura e atestam a etnicidade do povo Kariri-Xocó. É perceptível que eles, 
assim como boa parte dos povos indígenas do Nordeste, buscam constantemente afirmar 
que são donos da terra e são povos originários, inclusive para outros grupos de outras 
regiões do Brasil que vieram ter contato com o povo “branco” já no século XX, o que não 
causou tantas alterações físicas e culturais. 
 
Sobre o Toré Kariri-Xocó 
 
 O Toré, para os povos indígenas do Nordeste, é a maior manifestação do ser índio 
e reflete a marca de etnicidade de todos os povos que habitam nessa região do país.Em 
qualquer aldeia que você passar e procurar com atenção, terá um grupo de pessoas 
cantando e dançando o Toré. Contudo, não podemos colocar todos esses grupos em uma 
sacola – como o termo pejorativo “índio” ou o termo mais bem politicamente empregado 
“indígena” tenta fazer, numa proposta colonial de igualar diversas comunidades que têm 
suas especificidades e suas formas únicas de enxergar o mundo – e pensar que para eles 
Toré é tudo a mesma coisa. 
 Temos o exemplo da pesquisa de Andeson Cleomar dos Santos (2021), “Sons, 
Torés e Toantes da Corrida do Imbu: Afirmação e Reafirmação dos Ser Indígena 
Pankararu” onde ele traz o ser Pankararu a partir de tradições específicas como o 
“batizados de praiá4, as três rodas, menino do rancho, cantorias, corrida do imbu” (p. 37 e 
 
4 Na dissertação de Leonardo Cunha (2008), ele categoriza o termo “Praiá” como um dos nomes dados 
para o Toré, em Pankararu, assim como fazem os Fulni-ô, que chamam de “Cafurna”. Contudo, Andeson 
38). Essas práticas estão relacionadas com o Toré, pois em todas elas os cantos são 
realizados, assim como a dança que é feita pelos Praiá e tem a figura dos cantadores, 
que lideram as cerimônias com suas maracas. A forma de dançar e cantar, contudo, se 
diferencia dos Kariri-Xocó, seja pelas letras, melodias e andamentos. As outras diferenças 
e semelhanças estão em usar 
O maracá, instrumento de percussão dos povos indígenas presente nos 
rituais dos povos do Nordeste, faz parte da família dos idiofones e está 
presente não só nas práticas das etnias aqui apresentadas, mas, salvo 
engano, em todos os povos indígenas do Brasil (PINTO, 2001). É usado 
por homens e/ou mulheres no momento dos rituais sagrados, a exemplo 
de quando chamamos os praiá para dançar nos terreiros ou os nossos 
encantados para a cura, proteção pessoal ou da nação. É importante 
evidenciar a presença de outros instrumentos musicais como o rabo de 
tatu Pankararu, que é um instrumento feito da cauda do tatu/peba com 
cera de abelha, e o pife do povo Kaimbé de Massacará-BA e Pankararu, 
ambos instrumentos aerofônicos. (Santos, 2021, 153) 
Assim como a maraca (ou maracá), também é presente o uso do Búzu ou Búzio entre os 
Kariri-Xocó, Fulni-ô e Pankararu, sendo muito mais forte nos dois primeiros povos (Santos, 
2021, p. 154). 
 Na pesquisa de Romério Nascimento (2024), “Elaborações musicais Fulni-ô em 
transito” onde traz que “os Fulni-ô foram unânimes ao enfatizar a maior importância de 
elementos musicais tradicionais como a cafurna (unakesa), o tolê e o samba de coco. 
Estes foram destacados como pilares de resiliência, ancestralidade, economia, 
sociabilidades e ludicidade do povo.” (p. 36), podemos ver uma nomenclatura diferente 
para o termo Toré, que é a Cafurna. Dentro desse processo, os Fulni-ô buscaram não só 
a reafirmação dos cantos, mas também da língua ancestral deles, o Yaathê. 
 Por ser um povo muito próximo dos Kariri-Xocó, chegando a se considerarem 
“aldeias irmãs”, onde muitos casamentos entre pessoas das duas comunidades, assim 
como a presença de ambos nos seus Ouricuris, é comum ver práticas semelhantes assim 
como cantos. Na pesquisa, ao analisar a apresentações de grupos de Cafurnas, ele traz 
exemplos de pessoas que trazem o conhecimento dessa relação: “Segundo o Mestre 
Xixiá nos anos de 1950, as apresentações eram lideradas por seu tio Lourenço Correia, o 
qual cantava cafurnas e torés que os Fulni-ô aprenderam com outros povos indígenas, 
tais como Kariri-Xocó de Porto Real do Colétio/AL ou os Xukuru-Kariri de Palmeiras dos 
Índios/AL.” (Nascimento, 2024, p. 254-255) 
 
Santos (2021), que é Pankararu, traz o Praiá de forma diferente, que é a linha que comungo: “Nossa 
espiritualidade está alicerçada na fé na força encantada representada em matéria pelos praiás (roupas 
feitas da fibra do croá/caroá). Apenas alguns homens do povo (adultos, jovens e crianças) estão 
autorizados a vestir as roupas dos praiá. Esses homens são chamados de moço de praiá e têm suas 
identidades ocultas, não sendo permitido revelar as faces de quem veste o praiá: um tipo de sociedade 
secreta. Expressões como folguedo, tonan-kiá, tonã de caroá, pai véi, chefe e homem também são 
usadas para nos referirmos aos praiá.” (Santos, 2021, p. 60) 
 Essa relação chega a se confundir, pois de tão antiga muitas Cafurnas e Torés não 
se têm mas a dimensão de onde veio. Na pesquisa de Leonardo Cunha ele chega a fazer 
um teste: 
Se alguém perguntar para um Fulni-ô mais jovem sobre determinada 
cafurna, ele dirá que a origem dela está nos seus ancestrais. Assim, eu 
resolvi tirar a prova dos nove, perguntando igualmente sobre a mesma 
‘melodia’ que é cantada pelos Fulni-ô em Yathê e pelos Kariri-Xocó em 
português. Alguns Fulni-ô e Kariri foram categóricos em afirmar que a 
origem daquele Toré era de sua tribo e que a tribo irmã tinha assimilado. 
Transformar um Toré cantado em português para o idioma de cada etnia 
parece um indicativo de viéis de mudança e difusão deste repertório. 
(Cunha, 2008, p. 118) 
 Partindo para longe dessa relação entre povos próximos e chegando na Bahia, a 
pesquisa de Vanessa Moraes (2020), “O que devemos aprender com a ciência do índio e 
o fortalecimento da língua Kiriri: uma articulação entre cosmopolítica, ritual, educação e 
epistemologia” onde traz o Toré como “um ritual que tem uma linguagem, um conjunto de 
símbolos que comunica o que é ser Kiriri, mostrando para os não indígenas porque os 
Kiriri são índios” (p. 62) fala sobre a apropriação desse povo do Toré, reformulando suas 
práticas e resgatando sua língua, criando novas formas de lidar com a espiritualidade a 
partir da necessidade da afirmação de etnicidade com a prática do Toré. 
 A pesquisadora nos traz uma descrição de diferenças entre a prática do Toré na 
língua Kiriri e em português e como isso define uma forma de reforçar essa marca social 
do ser indígena. 
Para alguém de fora que está olhando desatento aos detalhes todos são 
bem semelhantes, quase não vemos diferenças nas ações. Porém, para 
qualquer um que possa escutar, as palavras diferenciam-se claramente. 
Existem os torés que são na língua e aqueles que são em português. Os 
próprios Kiriri já me revelaram que os torés na língua tem toantes 
diferentes, enquanto que aqueles que são em português já ouvi também 
músicas diferentes. (Moraes, 2020, p. 174) 
É importante essa visão “do de fora”, pois a própria difusão do Toré pelo Nordeste foi um 
movimento exógeno e que serviu como uma forma colonial de dizer quem é indígena ou 
não. Essa prática segue assim, pois é a forma que esses povos têm de externar suas 
identidades. 
 Seguindo essa linha, temos as pesquisas de Leonardo Cunha (2008), “Toré – da 
aldeia para cidade: Música e Territorialidade indígena na grande Salvador”, que aborda o 
processo em que alguns Kariri-Xocó levam apresentações de Toré para a capital baiana e 
como esse processo marca uma afirmação identitária ante as pessoas da cidade e Ruy 
Câmara Neto (2016) “Cânticos de cura dos Kariri-Xocó”, onde aborda o uso do Toré em 
processos “xamânicos5” para rituais de cura dentro e fora da comunidade. Nesses dois 
trabalhos, temos análises etnomusicológicas sobre os usos e as atribuições do Toré dos 
Kariri-Xocó. 
 Apresento esses trabalhos como uma forma de mostrar que Toré pode parecer 
uma coisa só, mas não é. Ele depende de quem faz, onde e como. Cada povo indígena 
do Nordeste vai encarar, simbolizar, estruturar e organizar da forma como for mais 
próximo de sua forma de enxergar o mundo e sua cultura. Assim, trago a percepção das 
pessoas entrevistadas e como posso interpretar, a partir de seus relatos e de minha 
observação, o que é o Toré para os Kariri-Xocó. 
 Podemoscomeçar dizendo que o Toré é a marca mais profunda do ser Kariri-Xocó. 
Nas entrevistas foi unânime a fala “se acabar o Toré e o ‘ritual’, acabou os Kariri-Xocó”, o 
que mostra como essa prática está enraizada na alma daquelas pessoas. Se pensarmos 
que já da barriga da mãe cada pessoa ali já estava escutando os cantos sagrados 
entoados, o som das maracas e do pisar dos pés, podemos entender como a relação 
pessoal com ele é construída desde antes de se tomar uma plena consciência de quem é. 
Por isso nós, não indígenas, nunca conseguiremos ter uma dimensão total da importância 
dessa prática. 
 Ao perguntar o que significa Toré, me responderam “Som sagrado”. Em pesquisas, 
pude ver que essa explicação vem do historiador do povo, Nhenety (José Nunes), que 
atribui ao léxico Tupi esse significado 6 . Entretanto, Leonardo Cunha discorda dessa 
explicação por não achar fundamentação (Cunha, 2008, p. 115). Porém, me questiono se 
é importante procurar de forma tão positivista um significado que já foi dado por eles 
próprios. A prática tem esse sentido, é nítido na fala, no olhar, no fazer que é algo 
inteiramente sagrado – não no sentido sacro cristão, mas como algo especial e 
inteiramente deles. 
 Sendo assim, podemos entender porque para os Kariri-Xocó o Toré surge com 
tanta força como um marcador cultural e social de que eles são “índios de verdade”. 
Elizabete Suzart, em seu artigo “Toré, um dueto de força que reúne povos ancestrais”, 
afirma essa relação do Toré para os Kariri-Xocó ao dizer: 
Assim, as centenas de cantos executados no Ritual de Toré, ganhou, a partir dos 
anos 80, a expressão máxima de identidade étnica que distinguia o povo Kariri-
 
5 O termo xamânico é utilizado pelo pesquisador por seguir a linha de Levi-Strauss. Entretanto, prefiro o 
termo Pajé ou Pajelança, que por ser um posto e uma palavra utilizada pelas comunidades indígenas do 
Brasil. O xamã é um termo cunhado dos povos originários da Sibéria e nada tem a ver com as figuras de 
poder religioso central nas comunidades daqui. 
6 O historiador do povo tem um blog na internet onde traz suas pesquisas e pensamentos. Para saber 
mais sobre sua percepção do Toré acessar: https://kxnhenety.blogspot.com/2013/01/o-que-e-tore.html. 
Acessado a última vez dia 13 de julho de 2025. 
https://kxnhenety.blogspot.com/2013/01/o-que-e-tore.html
Xocó dos demais povos originários da terra brasileira, mantendo sua língua original, 
dentre as cerca de 180 línguas indígenas, as quais diferenciam entre si e mesmo 
aquelas do tronco linguístico com origem no Tupi, com as quais se relacionam, no 
nordeste e pelo Brasil. (Suzart, 2018, p.2). 
Temos dois pontos de demarcação cultural aí: o Toré e a língua. O segundo, para além da 
região nordestina, é um dos principais elementos que reforça a etnicidade de um povo 
indígena. 
 Convivendo alguns dias com eles, pude notar crianças, adolescentes e até adultos, 
em alguns momentos, cantando sozinhos ou em grupo, alguns Torés ou simplesmente 
balançando as maracas. Nada muito elaborado, mas em forma de brincadeira ou como 
uma reza pessoal. Ao perguntar sobre as musicalidades 7 dos Kariri-Xocó, me 
responderam que haviam duas: o Toré e o Rojão. O segundo, são cantos de trabalho e de 
“chamamento”, onde as pessoas cantavam para espantar a fome e o cansaço das longas 
jornadas de trabalho nas plantações, algo mais corriqueiro e cotidiano e que não percebi 
ter tanta importância. Já o primeiro trazia brilho nos olhos de quem falava e uma 
reverência muito grande. 
 Ao questionar em quais momentos eles fazem Toré a resposta foi unânime: todos. 
Aqui eles me disseram que em qualquer momento da vida dos Kariri-Xocó o Toré está 
presente, seja no nascimento, no aniversário, no casamento, na conquista, no festejo, em 
um momento religioso, numa apresentação de trabalho, na chegada de amigos e 
parentes e nas suas despedidas e na morte. A prática marca e permeia toda a vida da 
comunidade, seja feito entre familiares, seja feito com toda a aldeia. 
 Aí que entra o grande ponto que diferencia Toré de Música: a música, como 
entendemos na nossa sociedade não indígena, é um fenômeno artístico que pode ou não 
ser apreciativo, mas que tem um sentido próprio e pode definir diversos momentos a 
depender de sua construção. Temos música para cada momento da vida e não é nem 
preciso buscar referências para saber que existem categorias para cada uma. Já o Toré 
faz o movimento inverso, pois é a situação que define o uso dele. Se a situação é de 
tristeza, ele será triste; se de alegria, ele será alegre; se de luta, ele será combativo. O 
mesmo canto pode ser usado para diversas definições, inclusive eles falam que “existe o 
Toré alegre e o Toré triste”. Em entrevista com a dubo-hery Idiane Crudzá, ela chega a 
dizer que “o Toré é como o canto do passarinho” e essa é uma definição perfeita. 
 Essa relação é percebida, também, entre os Pankararu – povo que mantém 
relações próximas com os Kariri-Xocó, havendo muitas famílias que tem suas origens 
vindas de lá, inclusive os Parrancó que tem em Seu Francisco uma linhagem Kariri-Xocó 
 
7 Assim como Andeson Santos (2021), tenho discordância sobre o termo, preferindo usar “sonoridades” 
(ver página 145). Contudo, coloquei ele aqui por ter sido a forma como perguntei nas entrevistas. 
e na dona Carmelita, Pankararu. Na pesquisa de Andeson Santos, temos o relato de 
Maria José Pankararu, educadora indígena que diz: 
Você fala a música, a canção, mas pra gente é o toré, é o toante. Então o 
toré ela está dentro dessa temática e dentro do princípio coletividade. Além 
da corrida do imbu ser coletiva do povo, dentro da corrida existe o toré 
como forma de agradecimento. Onde há uma participação de todos 
naquela dança, de uma forma participativa e coletiva (Maria José 
Pankararu, 2020) (Santos, 2021, p. 86) 
 Outro aspecto importante para entender o Toré desse povo é a sua estrutura 
musicológica. Existe a figura do Mestre de Cantos ou Mestre de Toré8 que é a pessoa que 
tem a função, na aldeia, de “tirar” os Torés com toda a comunidade ou em situações 
específicas e a figura do Torezeiro que, pelo que consegui entender, pode ou não ser um 
Mestre de Toré, o que vai depender de seu posicionamento dentro da comunidade, mas 
traz “o dom9” de cantar e pode chegar um dia a Mestre. Para esse exemplo temos Danilo 
Parrancó, um jovem de 24 anos, que “tira” os Torés cantados com seu grupo de 
apresentação e também com sua família e temos Mestre Zé Tenório – foi trazido por 
Danilo como uma das grandes referências para ele – que é conhecido pela comunidade e 
já tem muitos anos atuando dentro e fora dela. Ambos “tiram” Toré, mas um tem mais 
vivência e conhecimento sobre a prática, o que foi dito nas entrevistas ao dizer que “os 
mais velhos têm mais segurança e sabem como fazer”, o que é muito comum em culturas 
de tradição oral. 
 O Mestre de Canto ou o Torezeiro nunca “tira” o Toré sozinho, pelo menos não 
entre os Kariri-Xocó – isso marca uma diferença, pois em outros povos, como os Fulni-ô, 
a “cafurna” é “tirada” só por um cantador10. Esse processo é feito em “pareia”, que quer 
dizer em dupla, e existe uma divisão muito específica entre “alto e baixo” – ou em termos 
musicológicos ocidentais, 1ª e 2ª voz – onde o canto é feito pelo “puxador” e o outro 
acompanha fazendo a voz mais grave ou mais aguda, a depender do Toré. Em entrevista 
com Danilo Parrancó ele me trouxe que existe uma percepção muito clara de extensão 
vocal, mesmo que eles não chamem assim, pois há Torés que precisam ser puxados por 
quem tem a voz mais grave e outros por quem tem a voz mais aguda11. Na prática percebi 
isso com a “pareia” entre ele e Nathan Parrancó, seu primo. O primeiro, com extensão 
 
8 Sobre essa função ver Câmara Neto (2016), página71, no subtópico “5.2. Os mestres de Canto”. 
9 Esse termo apareceu muito nas entrevistas e é usado para mostrar uma designação natural das 
pessoas para diversos papéis dentro da comunidade. Para eles, cada indivíduo já nasce com uma 
aptidão para servir ao povo e desde criança eles já percebem e incentivam. 
10 Nesse vídeo é possível ver um exemplo de uma “Cafurna” cantada por Towé Fulni-ô: 
https://www.youtube.com/watch?v=9n0BxslbEac&list=PLEk7XNvZo4g3I—Xv4YSlDymSaO1PRKfH. 
Acessado a última vez dia 13 de julho de 2025. 
11 Ruy Câmara Neto (2016) aprofunda essa análise na sua pesquisa. 
https://www.youtube.com/watch?v=9n0BxslbEac&list=PLEk7XNvZo4g3I
https://www.youtube.com/watch?v=9n0BxslbEac&list=PLEk7XNvZo4g3I
vocal mais aguda e o segundo, mais grave, onde iam revezando o canto dentro de suas 
capacidades vocais. 
 Essa divisão guarda, também, uma relação harmônica muito específica, pois não 
cantam a mesma melodia em uníssono12, mas existe uma relação de contracanto muito 
próxima do que chamaríamos de terça13. Isso provoca um fenômeno que eles chamam de 
“encaixar” as vozes e revela uma percepção sonora muito apurada, pois o Toré só 
começa quando eles acham o “encaixe” perfeito para dar seguimento. Apenas dois 
Torezeiros “tiram” o Toré e ambos tocam a maraca – instrumento feito de coité ou cabaça, 
com sementes no interior, parecido com um chocalho, e fincados em um pedaço cilíndrico 
de madeira14 - que funciona como um instrumento de regência, pois marca o ritmo, o 
tempo e as variações de andamento e da dança ao longo da prática. 
 A divisão, inclusive, não se restringe aos “tiradores” do Toré, mas é algo que 
permeia todas as pessoas que fazem parte da prática. Os homens, as mulheres e as 
crianças, se organizam para responder o Toré e o fazem em “pareias”, o que demonstra 
uma habilidade tanto de percepção quanto de harmonização única, embelezando e 
trazendo a força dos Kariri-Xocó dentro de uma estrutura que, a primeira vista, pode 
parecer muito simples, mas é bem complexa. Outro ponto que merece destaque é a 
estrutura responsorial do Toré, onde os Torezeiros cantam uma parte e as outras pessoas 
respondem, cantando outra parte dela, fazendo um jogo de pergunta e resposta no canto. 
 
Os Torés Juninos 
 
 Os Torés Juninos fazem parte do calendário de festividades religiosas dos Kariri-
Xocó e são marcados como uma tradição cultural de tempos imemoriais desse povo. 
Diferente do Ouricuri, que é um ritual fechado somente para eles e outros povos com 
quem mantêm relações familiares e é realizado “na mata15”, espaço reservado distante do 
centro da comunidade, já muito antes da retomada em 1978, os Torés Juninos são 
 
12 Uníssono é quando todas as pessoas cantam a melodia de forma igual, com as mesmas notas. 
13 Para quem não tem o conhecimento musicológico necessário, a terça é uma relação entre duas notas 
(sons) onde, dentro da escala musical, elas se posicionam a uma “distância” de um nota de diferença 
uma da outra. Ex.: Dó – Mi (Dó – ré – Mi), ao serem cantadas juntas produzem uma harmonia 
confortável, para nossa cultura. Contudo, estamos limitados a duas terças: maior e menor e a diferença 
delas está na distância, sendo uma comumente colocada como “mais alegre” e outra “mais triste”, 
respectivamente. No caso específico, a relação não obedece essa limitação ocidental, mas não 
aprofundaremos muito nesse trabalho pela sua limitação estrutural. 
14 Tanto na pesquisa de Leonardo Cunha (2008), quanto na de Ruy Câmara Neto (2016) podemos ver 
exemplos visuais de uma maraca e de outros instrumentos dos Kariri-Xocó. 
15 “Na mata” ou “Ritual” são termos comumente usados por eles para falar do Ouricuri, que é o ponto 
central da vida do povo Kariri-Xocó. É um ritual religioso, fechado e define toda a relação espiritual do 
povo. Para saber mais conferir Vera Lúcia Calheiros Mata (1989), Cristiano Barros Marinho da Silva 
(2003), Leonardo Campos Mendes da Cunha (2008) e Ruy Rodrigues Câmara Neto (2016). 
abertos16 e comemorados dentro do espaço geográfico da aldeia. São práticas alinhadas 
com os dias de 4 santos católicos: São José (19 de março), Santo Antônio (13 de junho), 
São João (24 de junho) e São Pedro (29 de junho). 
 As comemorações ou execução desses Torés marca, também, um calendário 
natural que pode remeter a tempos pré-coloniais, pois o Toré de São José é feito no 
período em que eles utilizavam para plantar e os outros três em períodos de colheita. Em 
algumas entrevistas foi recorrente a fala de fazer o Toré pedindo que o santo abençoasse 
o plantio e tivessem chuvas suficiente para que a colheita fosse boa em junho. Os demais 
santos têm um Toré especial como forma de agradecimento pelas chuvas e pela colheita, 
o que revela uma relação colonial já conhecida, onde os Jesuítas adaptavam os 
calendários já estabelecidos pelos diversos povos indígenas do Nordeste com 
comemorações aos santos da tradição católica, facilitando o trabalho de catequese ao 
longo de séculos (Santos, 2021, p.106). 
 Essa relação aconteceu com diversos outros povos do Nordeste, o que foi discutido 
no trabalho de Andeson Santos que diz: 
Contam que, tempos atrás, um grupo de indígenas Pankararu, enquanto 
caçava nas matas, encontrou uma imagem em madeira que parecia uma 
mulher. Os padres logo disseram que era um sinal, pois se tratava da 
imagem de Nossa Senhora da Saúde, e que os indígenas (nós) deveriam 
levantar uma capela para ela. (Santos, 2021, p. 68) 
O mais incrível, é que se por um lado eles conseguiram implementar uma cultura religiosa, 
por outro essas pessoas não perderam sua relação cultural com a natureza, 
ressignificando suas tradições e mantendo vivo seus festejos, seus marcos temporais e 
cultura que ganhou novas formas de se fazer, mas não perdeu a sua essência. 
 Dentro dessa linha dos marcos temporais temos a figura da dubo-hery17 Idiane 
Crudzá, responsável por fazer um resgate da fala da língua adormecida dos Kariri, dos 
Xocó e de diversos outros povos originários dos grupos chamados de Kariri ou Kiriri ao 
longo do processo colonizatório, o dzubukuá-kipeá, reconhecido como a língua ancestral 
dos Kariri-Xocó18. Para ela, as festas ou os Torés Juninos marcam o ano novo dos Kariri-
Xocó, observados no céu pelas Plêiades, que é uma constelação de 7 estrelas no céu 
que, vistas apenas nesse período, marcam a passagem de mais um ano, tendo relação, 
também, com a colheita, o que é observado em diversos outros povos originários. Essa 
 
16 Os termos “aberto” e “fechado”, ao longo da pesquisa, se referem a observância por parte de não 
indígenas ou outros povos indígenas que não mantenham laços com os Kariri-Xocó. 
17 Em dzubukuá-kipeá: professora ou professor. 
18 Sobre isso verificar todo o trabalho de Nhenety (José Nunes), tio da dubo-hery Idiane Crudzá e 
historiador do povo Kariri-Xocó em seu blog: https://kxnhenety.blogspot.com/ 
https://kxnhenety.blogspot.com/
marca temporal não é mais unânime e aparece como um processo de pesquisa e resgate 
individual da dubo-hery. 
 Chego a pensar qual o peso, para todo o povo, dessa descoberta e dessa nova 
visão a respeito das festividades, pois em conversas informais durante a pesquisa percebi 
que eles se localizam na passagem de ano com o marco ocidental, 01 de janeiro de todo 
ano. Inclusive, um conterrâneo meu, que veio para o evento já comemorando pela dubo-
hery há 4 anos, ao comentar que “veio para a comemoração do ano novo” não era 
repreendido, não tinha a informação confirmada, mas pude perceber nos olhares e nas 
expressões uma estranheza com relação a essa informação. Isso diz pra mim muito mais 
que palavras, pois pode revelar uma forma de não frustrar o visitante, não “desmentir” a 
parente deles dentro de seu projeto pessoal e expressar a desimportância que aquela 
informação tem para eles. 
 Sabemos que tradiçõesvêm e vão e muitas são recentes, outras antigas e muitas 
mudam de nome, forma, mas permanecem séculos e séculos no meio de cada povo. A 
questão que fica é: até que ponto é interessante para o povo Kariri-Xocó se desfazer da 
relação de gratidão e devoção com os santos católicos para se apegar a uma relação 
temporal com a natureza, modificando uma visão que envolve fé, tradição e ensinamentos 
que foram passados por seus pais, avós e bisavós? Percebo que vale para eles a relação 
do Toré para cada santo e como isso interfere ou não no cotidiano da comunidade. 
 Nesses dias específicos os Torés cantados são religiosos19 e tem como objetivo 
principal reverenciar os santos católicos aos quais os dias estão destinados. São feitas 
com a imagem ou não dos santos – só percebi a presença da imagem dos santos no Toré 
de Santo Antônio, a partir dos registros que recebi anteriormente por meio de registros da 
comunidade e em entrevistas – e têm um primeiro momento de Torés direcionados ao 
santo que está sendo reverenciado. O segundo momento é puramente para festejo e 
divertimento da comunidade, onde há um encontro de toda a aldeia e é servido arroz-
doce e mungunzá. Diferente dos rituais do Ouricuri, onde é necessário um resguardo de 
alguns dias antes da realização, esse momento não é restringido a quem estiver bebendo. 
 Podemos notar a presença de uma estrutura muito comum no catolicismo popular: 
sagrado/profano. Primeiro, as pessoas reverenciam o sagrado, fazendo suas rezas, 
procissões, novenas e o que mais for da liturgia e segundo, as pessoas podem se divertir, 
tendo o momento para se poder gozar a vida. Aqui não é diferente, pois o Toré tem essa 
função de manter o corpo e alma do Kariri-Xocó viva e em conexão com a sua cultura. 
 
19 Sobre os usos do Toré por parte dos Kariri-Xocó, farei uma análise mais minuciosa mais a frente, pois 
merece toda uma atenção especial. Por hora, basta saber que esses são religiosos. 
 Apesar dos Torés serem iniciados em março, eles consideram a “abertura” dos 
Torés Juninos com o Toré de Santo Antônio. Nesse ano não pude estar presente, mas 
pelos registros e pelos relatos trazidos pelos Parrancó foi um momento em que, mesmo 
com forte chuva, eles mantiveram a tradição e comemoraram no Sítio Aracaré tendo um 
encontro com o restante da aldeia no portão, fazendo a volta dentro do sítio e saindo até 
próximo “da mata” onde o restante da comunidade seguiu para dar a volta na aldeia e os 
Parrancó retornaram para seu espaço de morada. Essa volta é, inclusive, uma tradição 
antiga que está presente em relatos de todas as pessoas entrevistadas durante a 
pesquisa. Entretanto, me foi contado que ela acontecia no último Toré, o de São Pedro, 
que marca o “fechamento” dos Torés Juninos. 
 Seguindo o calendário, é feito o Toré de São João, realizado na véspera – dia 23 
de junho –, onde são acesas as fogueiras que ficam nas portas tradicionalmente. 
Finalizando os festejos juninos o último Toré, o de “fechamento”, é o de São Pedro, 
agradecendo pela colheita e reverenciando o santo das chuvas. De acordo com relatos 
esse Toré é um dos mais significativos e tradicionalmente é feito na passagem do dia 28 
para o dia 29 de junho e vira a madrugada. As pessoas mais velhas contam que esse 
Toré era realizado por toda aldeia, onde as pessoas iam de porta em porta, acordando as 
famílias e chamando toda a comunidade para a grande roda que circunda a aldeia e 
finalizava em frente a casa do Pajé, figura central na comunidade Kariri-Xocó. 
 Dado todo o roteiro de como os Torés Juninos funcionam vamos partir para a 
observação etnográfica desse período agora em 2025. Como relatei acima, o Toré de 
Santo Antônio foi feito, sob forte chuva, e com um encontro potente entre toda a 
comunidade no Sítio Aracaré20 . O Toré da família Parrancó foi “tirado 21 ” pelos dois 
torezeiros Danilo e Nathan Parrancó. Já presente na aldeia, na véspera de São João não 
houve o tradicional Toré para o santo. Em algumas entrevistas feitas após esse dia tive 
relatos de que essa comemoração pode ou não ser feita, o que vai depender muito da 
comunidade – se tem pessoas suficientes, se houve a morte de algum ancião (o que 
ocorreu no dia 14 de junho), dentre outros motivos que cabem a eles decidir ou não. O 
que foi ressaltado é que o Toré de Santo Antônio tem mais relevância para eles, por ter 
um valor religioso maior. No de São Pedro ocorreu da mesma forma, porém vejo que o 
que trouxe a ausência dessa comemoração foram motivações externas e não internas. 
 
 
20 Essa localização é sempre citada por alguns motivos: 1 – foi o local onde maior parte da pesquisa foi 
realizada; 2 – é um dos pontos mais afastados da aldeia, já no caminho para “o ritual” e próximo do 
caminho usado para dar “a volta” na aldeia; e 3 – é onde habita uma das famílias “tradicionais” dos 
Kariri-Xocó. 
21 O termo “tirar” e suas variações verbais estão atribuídos a cantar ou puxar o Toré. 
Passado vs. Presente 
 
 O que pude perceber nas entrevistas e nas observações feitas é que há uma 
reformulação das comemorações dos Torés Juninos. Ela não se perdeu, mas como toda 
tradição está ganhando novas formas de serem realizadas (Hobsbawm, 2024). Ao 
perguntar aos mais velhos e até a pessoas mais jovens se houve mudanças na 
comemoração, as respostas se alternam entre sim e não – sendo a maioria para sim. 
Percebo que quem disse não, quis trazer uma visão firme de que a tradição está viva e 
inerte. Concordo que está viva, mas nenhuma tradição se mantém inerte, pois do 
contrário ela morre. 
 A aldeia conta hoje com a proximidade da cidade de Porto Real do Colégio e essa 
proximidade já foi fruto de conflitos que resultaram na tomada do território do povo Kariri, 
que ali já habitava, ao ponto deles terem apenas a “rua dos caboclos” e, posteriormente, a 
“colônia22” para habitarem. Hoje, essa relação altera a vivência cultural do povo Kariri-
Xocó, modificando a estrutura de suas tradições abertas. 
 Há alguns anos a prefeitura da cidade de Porto Real do Colégio comemora o 
período conhecido como São João com festas públicas. Atualmente, existe a festa 
chamada “Forró Real”, criada em 1992, que ocorre entre os dias 26 a 29 de junho, com 
bandas de renome da música nordestina, expoentes do sertanejo e outros gêneros 
musicais que são cotados no período junino. É de se esperar que a população dos Kariri-
Xocó também queiram participar, o que é massivo, pois estive presente no Forro Real no 
dia 29 notei que há uma área na lateral direita do palco que é ocupada praticamente por 
pessoas da comunidade. 
 Levando em conta que maioria da população da aldeia está presente nesses dias 
de shows na cidade, de pessoas mais velhas a mais novas, quem iria “tirar” os Torés dos 
santos e quem iria “responder”? O que pude notar é que essa programação afetou essa 
tradição dando novos sentidos. Seguindo relatos, soube que algumas famílias ainda 
fazem um caminho de resistência, indo para seus espaços23 mais afastados da aldeia 
praticando seus Torés durante toda a noite, mantendo uma tradição do povo, mas agora 
em um caráter mais familiar e reservado. Outros, preferem ir se divertir na cidade, já que 
as configurações sociais do meio em que os Kariri-Xocó vivem já não são mais as 
 
22 A Colônia dos Índios foi uma área de aproximadamente 200ha cedida próxima ao “ritual” onde os Kariri-
Xocó podiam ter suas lavouras. Alguns chegaram a viver lá, onde a comunidade ficou dividida entre a 
cidade e esse espaço. 
23 Em entrevistas e conversas informais pude notar que se criaram espaços mais afastados do centro da 
aldeia, onde famílias recebem visitantes para vivências culturais, o que se tornou uma fonte de renda e 
para convivência da família, onde podem manter suas práticas de forma maisreservada. 
mesmas – eles não vivem mais hoje do plantio, como antes; não há uma relação de 
afastamento e isolamento das pessoas da cidade, como foi relatado em algumas 
entrevistas; a cultura do “branco”, assim como pessoas não-indígenas, já permeiam o 
espaço da aldeia com facilidade e a maioria, que são jovens, já vivem uma relação com a 
tradição diferente de seus mais velhos. 
 Pensando ainda sobre tradição podemos observar que ela, para não morrer, passa 
por processos de transformação. Os mais velhos, em entrevistas e conversas informais, 
relatam que no tempo da “colônia” a diversão deles eram os Torés Juninos, onde 
dançavam durante toda a madrugada, nos dias dos santos. Alguns que já nasceram na 
aldeia nos anos 1980 e 1990, relatam que os festejos eram feitos entre a comunidade nos 
mesmos moldes que o tempo da “colônia”. Mas em conversa informal com Nathan 
Parrancó, enquanto estávamos no Forró Real, ele me comentou que “eram 7 dias de forró 
na cidade, onde os ‘caboclos’ iam todos os dias e, no último, se reuniam e iam cantando 
Toré da cidade até a aldeia, muitas vezes dando a volta nela”. Essa informação revela que 
a tradição de “fechamento” dos Torés Juninos pode não estar se perdendo, mas ganhou 
nova forma e pude presenciar esse momento quando jovens Kariri-Xocós se organizaram 
em grupos e foram cantando Toré da cidade até a aldeia. 
 O que podemos perceber aqui é um processo de transformação da tradição de 
acordo com as relações sociais que são feitas pelas novas gerações. Isso gera questões: 
a tradição dos santos ainda tem tanta relevância como no passado? É o formato de se 
fazer o Toré no período que vale? A visão dos mais velhos ao dizerem que “a tradição 
está se perdendo” está de toda forma correta? Essa última não cabe a mim, mas com o 
olhar de fora posso perceber que existe uma reformulação acontecendo, para que a 
cultura dos Torés Juninos se mantenha dentro de novas dinâmicas que estão surgindo. 
Pois “manter a tradição Kariri-Xocó” é uma preocupação importante para eles, desde as 
pessoas mais novas, às mais velhas. 
 
Considerações Finais 
 
 Os povos indígenas do Nordeste foram os primeiros a terem contato com os 
colonizadores europeus. Na leva de Portugueses, Holandeses e Franceses que tomaram 
terras, trouxeram doenças, violentaram e sequestraram mulheres criando um processo 
violento de miscigenação, catequizaram de forma violenta, com o intuito de matar a 
cultura e relação espiritual, as nações que aqui já viviam passaram por praticamente cinco 
séculos de extrema violência e apagamento. 
 Seus territórios foram tomados, suas línguas tiveram de ser mantidas em segredo, 
sua espiritualidade foi resguardada, recebendo novos nomes e tradições, suas 
características físicas foram mudadas e toda uma tradição milenar precisou ser 
reformulada de forma abrupta para permanecer viva. O que mostra que povos como os 
Kariri-Xocó, que se formaram enquanto uma etnia nova que está se reestruturando em 
seu território e cultura, já trazem a marca de muita luta e resistência. 
 O Toré traz na sua sonoridade essa batalha, esse desejo de estar vivo, esse desejo 
de gritar ao mundo quem são e pra onde irão. A maraca, como me relataram, é o 
“instrumento da união”; o pé toca o chão, pois a terra é a mãe que dá força ao povo Kariri-
Xocó. O canto em “pareia”, mostra a união de dois povos que precisaram se unir para 
sobreviver e em conjunto eles cantam que ninguém vai apagar sua história. 
 Num processo histórico, podemos perceber como a relação com santos católicos e 
os ciclos da vivência cotidiana estão ressignificadas no fazer o Toré e comemorar a 
realidade e permanência dos Kariri-Xocó. Eles se autodeclaram filhos da Jurema, que é 
uma planta forte do Nordeste e a marca da resistência de um povo que, assim como a 
planta, enquanto houver um pedacinho de sua raiz fincada na terra, nunca morrerá. 
 Temos muito que aprender com eles e existe muito campo para pesquisa sendo 
necessário trazer esse conhecimento para a academia, não como objetos inertes de uma 
ciência europeia que se acha superior a povos originários. Mas sentar e aprender com 
quem tem muito a nos ensinar e são os verdadeiros donos e modeladores da cultura 
nordestina e brasileira. 
 
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	GT 032: Antropologia e Artes Performáticas: música, dança, teatro e performance em contextos etnográficos

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