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Monitoração Eletrônica de Pessoas no Brasil Escola Nacional de Serviços Penais Secretaria Nacional de Serviços Penais Ministério da Justiça e Segurança Pública Monitoração Eletrônica de Pessoas no Brasil Apresentação Cursista, seja bem-vindo(a) ao "curso Monitoração Eletrônica de Pessoas no Brasil". Neste curso, você irá estudar os temas específicos da monitoração eletrônica, como histórico e aspectos técnicos da monitoração eletrônica de pessoas, os marcos legais e infralegais dessa monitoração, a metodologia de acompanhamento da monitoração eletrônica no Brasil e a racionalização e proteção de dados. Vamos começar? 1 Ementa MÓDULO 1 – HISTÓRICO E ASPECTOS TÉCNICOS DA MONITORAÇÃO ELETRÔNICA DE PESSOAS Apresenta a origem da monitoração eletrônica de pessoas, seus objetivos iniciais e principais tecnologias utilizadas no mundo e no Brasil, destacando os equipamentos empregados e sua relevância para a gestão penal contemporânea. MÓDULO 2 – MARCOS LEGAIS E INFRALEGAIS DA MONITORAÇÃO ELETRÔNICA DE PESSOAS Analisa a legislação da monitoração eletrônica no Brasil, abordando-a como alternativa ao encarceramento, como medida cautelar e como instrumento de proteção às mulheres. Discute subsidiariedade, proteção de dados, equipes multidisciplinares e integração com redes de proteção social. MÓDULO 3 – METODOLOGIA DE ACOMPANHAMENTO DA MONITORAÇÃO ELETRÔNICA NO BRASIL Explora a metodologia de acompanhamento na monitoração eletrônica no Brasil, destacando protocolos e práticas que garantem organização, efetividade e acompanhamento integral das pessoas monitoradas, assegurando a credibilidade e a eficiência do serviço. MÓDULO 4 – PROTEÇÃO DE DADOS E USO RACIONAL DA MONITORAÇÃO ELETRÔNICA Enfatiza a importância do uso racional da monitoração eletrônica, destacando a proteção de dados sensíveis produzidos nos serviços, prevenindo riscos para pessoas monitoradas, mulheres em situação de violência doméstica e terceiros envolvidos. Público-alvo Este curso é destinado aos servidores da execução penal (policiais penais e servidores que atuam com políticas), bem como para qualquer servidor interessado em aprofundar seus conhecimentos sobre o assunto. 2 Carga horária O curso tem carga horária de 40 horas. Objetivos Capacitar profissionais para compreender os aspectos históricos, técnicos, legais e metodológicos da monitoração eletrônica de pessoas no Brasil, promovendo seu uso racional, ético e fundamentado na proteção de direitos e dados sensíveis. Objetivos específicos ● Analisar a origem, evolução e as principais tecnologias utilizadas na monitoração eletrônica de pessoas no Brasil e no mundo. ● Compreender os marcos legais e infralegais que regulam a monitoração eletrônica, destacando sua aplicação como medida alternativa ao encarceramento e como proteção a grupos vulneráveis. ● Estudar a metodologia de acompanhamento da monitoração eletrônica, identificando protocolos e práticas que assegurem sua efetividade e integração com redes de proteção social. ● Refletir sobre a importância do uso racional da monitoração eletrônica e da proteção de dados, prevenindo riscos e garantindo respeito à dignidade das pessoas monitoradas. 3 Metodologia Os quatro módulos do curso Monitoração Eletrônica de Pessoas no Brasil são autoinstrucionais. Eles não contam com a presença de um tutor para acompanhamento e orientação dos estudos e das atividades, nem para tirar as dúvidas por meio de sala de bate-papo (chat) ou de fórum de discussão. A realização de todo o processo (leitura dos conteúdos e realização das atividades) se baseia na prática de estudo diário e contínuo da pessoa participante. É importante seguir a ordem dos módulos, pois eles são cumulativos e complementares. Critério de Avaliação Este curso é avaliativo e, para concluí-lo, você deverá estudar todos os slides, realizar as atividades e obter nota igual ou superior a 60 pontos na soma total das avaliações. Será apenas uma tentativa de resolução das atividades propostas, a fim de alcançar a média. 4 Expediente GOVERNO FEDERAL Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva Vice-Presidente da República Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho Ministro da Justiça e Segurança Pública Wellington César Lima e Silva Secretário da Secretaria Nacional de Políticas Penais – SENAPPEN André de Albuquerque Garcia Diretora da Escola Nacional de Serviços Penais – ESPEN Stephane Silva de Araújo Equipe ESPEN Haynara Jocely Lima de Almeida Josué Marques dos Santos Filho Leonardo Conceição Cruz Pedro Henrique Chavier da Silva Robson de Farias UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS - UFG Coordenação Geral Gilson Oliveira Barreto Financeiro Aliene Nunes Ribeiro Arantes Mariana Pires da Silva Administrativo Radson de Souza Santos Supervisão Técnica de EAD Alexandre Mathias Pedro Coordenação de Produção Diego Mendonça Camargo Coordenação de AVA Adelaide da Silva Carvalho Brosig Revisão Textual Juliana Dias Erthal Ana Paula Carreiro Design Instrucional Supervisão: Diego Mendonça Camargo Ana Paula Carreiro Diego Mendonça Camargo Fernando Basílio Portero Simon Juliana Dias Erthal Design Gráfico Carlos Gustavo Martins Hoelzel Diego Mendonça Camargo Fernando Basílio Portero Simon Sergio Ferreira dos Santos Junior Weniskley Alves Santana Programação de Recursos Educacionais Supervisão: Dhiego Aprigio de Carles Dhiego Aprigio de Carles Elvia Nunes Ribeiro Rhandy Rafhael de Carvalho Ilustração Biagy de Oliveira Edição de vídeo Supervisão: Diego Mendonça Camargo Airton Murakami Uemura Animação Supervisão: Diego Mendonça Camargo Airton Murakami Uemura Giselle Santos Almeida Audiovisual Bruno Vieira Dato Sant Anna Rodrigo Flamarion Godinho Miranda Pesquisa Nicoly Rubia Bento dos Santos Pamela Monike Honorato Soares Ramon Ferreira Teles Samanta Silva do Nascimento Conteúdo Supervisão: Juliana Dias Erthal Izabella Lacerda Pimenta 5 Sumário Módulo 1 - Histórico e aspectos técnicos da monitoração eletrônica de pessoas 8 1.1 Das origens da monitoração eletrônica 10 1.2 Algumas modalidades de monitoração eletrônica de pessoas 13 1.2.1 Radiofrequência RF 13 1.2.2 Sistema de Posicionamento global GPS 15 1.2.3 Reconhecimento de voz 18 1.2.4 Outras tecnologias de monitoração virtual 18 1.2.5 Unidades portáteis de rastreamento: o caso das medidas protetivas de urgência 19 Módulo 2 - Marcos legais e infralegais da monitoração eletrônica de pessoas 22 2.1 A monitoração no ordenamento jurídico brasileiro 23 2.1.1 A Lei nº 12.258/2010 e o Decreto nº 7.627/2011 24 2.1.1 A Lei nº 12.403/2011 27 2.1.3 A Lei nº 11.340/2006 29 2.1.4 A Lei nº 14.843/2024 32 2.2 O Modelo de Gestão para a Monitoração Eletrônica de Pessoas 33 2.3 Resoluções e recomendações 34 2.3.1 Resolução CNJ nº 412/2021 34 2.3.2 Resolução CNPCP nº 31/2022 37 2.3.3 Recomendação CNPCP nº 3/2024 38 Módulo 3 - Metodologia de acompanhamento da monitoração eletrônica no Brasil 41 3.1 Como são estruturados os serviços de monitoração? 42 3.2 A Central de Monitoração Eletrônica – acompanhamento da medida judicial 43 3.3 Procedimentos do acompanhamento da medida de monitoração eletrônica 47 3.3.1 Sensibilização e encaminhamento pelo Judiciário para comparecimento à Central 48 3.3.2 Primeiro atendimento 48 3.3.3 Acolhimento 49 3.3.4 Estudo de casos 50 3.3.5 Encaminhamentos 50 3.3.6 Retornos/Atendimentos de rotina 51 3.3.7 Tratamento de incidentes 52 3.3.8 Tratamento de incidentes nos casos de medidas protetivas de urgência 55 3.3.9 Ajustamento de cumprimento da medida 56 3.3.10 Descumprimentos 57 3.3.11 Relação com o Sistema de Justiça Criminal 57 3.3.12 Relação com o Sistema de Segurança Pública 58A pessoa monitorada será orientada a retornar à Central, preferencialmente com horário agendado, nas seguintes circunstâncias: ● Se houver problemas técnicos na tornozeleira, para eventuais reparos e substituições, visando a manutenção da medida judicial; ● Avaliação periódica da equipe multidisciplinar (assistente social, bacharel em direito e psicólogo) para orientar o juiz na reavaliação da medida de monitoração eletrônica, sendo o comparecimento voluntário; ● No prazo final da medida para remoção e devolução da tornozeleira; ● Se houver demandas, sendo o comparecimento voluntário. 51 3.3.7 Tratamento de incidentes O que são incidentes? Qualquer situação que interfira no cumprimento regular da medida de monitoração eletrônica, não envolvendo necessariamente comunicação ao juiz. O que geram os incidentes? Os incidentes na monitoração eletrônica podem ocorrer por causa de um ou mais fatores, cumulativamente, incluindo falhas humanas diversas, mas também fatores de interferência secundários, como: falhas ou defeitos no equipamento de monitoração; cobertura reduzida ou instabilidade nos sinais de telefonia celular; interferências variadas nos mecanismos do Sistema de Posicionamento Global GPS; elementos relacionados à geografia, ao tipo de cobertura vegetal, à arquitetura das construções, às variações climáticas etc. Assim, a recorrência de alguns incidentes pode estar relacionada aos fatores de interferência secundários, sobretudo quando a pessoa monitorada reside, trabalha, estuda, faz tratamentos de saúde ou participa de atividades religiosas/espirituais em localidades sem ou com sinal instável de GPS e/ou telefonia celular. 52 O que é tratamento de incidentes? Os incidentes geram tratamentos diversos, visando a manutenção da medida e implicando na solução do incidente ou no ajustamento de cumprimento da medida. O tratamento de incidentes requer a colaboração dos setores da CME de forma interdisciplinar. Como a medida de monitoração prevê, equipamentos, componentes e tecnologias comunicacionais passíveis de falhas e interrupções diversas - os envios de sinal e contatos telefônicos, por exemplo - jamais devem ser efetuados uma única vez. O que é solução do incidente? Trata-se do incidente tratado com ou sem a necessidade de ajustamento de cumprimento da medida, retomando o curso normal de acompanhamento, sem envio de notificação ao Juiz. 53 O que é ajustamento de cumprimento da medida? É o procedimento que decorre da não solução do incidente, gerando comunicação e registro do incidente não solucionado. A CME deve, através do contato por telefone ou presencial com a pessoa monitorada, compreender e analisar as causas relacionadas ao incidente, alertando e repactuando a medida de acordo com as condições estipuladas judicialmente, de modo a evitar seu descumprimento com envio de notificação ao Juiz. Assim, se a medida for restabelecida, ocorre a solução do incidente e o cumprimento da medida segue normalmente, sem necessidade de ajustamento. 54 O que é descumprimento? É uma situação excepcional, que ocorre quando não há solução do incidente, com ou sem o ajustamento de cumprimento da medida. Neste caso é realizada a notificação ao Juiz. Atenção! O tratamento de determinados incidentes requer o comparecimento da pessoa monitorada à Central. Os comparecimentos devem ser preferencialmente agendados, evitando interromper rotinas de trabalho, estudo, tratamento de saúde, religião, lazer e demais atividades cotidianas. 3.3.8 Tratamento de incidentes nos casos de medidas protetivas de urgência O tratamento de incidentes envolvendo medidas protetivas de urgência requer abordagens específicas para proteger mulheres em situação de violência doméstica e familiar. Nessa situação, a monitoração eletrônica busca não apenas acompanhar o homem autor da violência que está sendo monitorado, mas também ampliar a proteção da mulher com base nas necessidades do caso concreto. Determinados incidentes podem demandar o acionamento preventivo da polícia, tanto por demanda direta da Central de Monitoração Eletrônica quanto da própria mulher em risco. A atuação policial deve ser preventiva e colaborativa, evitando repressão desnecessária, e baseada em incidentes específicos previamente identificados pela Central. 55 Para acessar o passo a passo no tratamento de cada incidente durante a monitoração, consulte o Modelo de Gestão Brasil, 2020 e também o anexo da Resolução CNJ nº 412/2021 que deriva do Modelo. 3.3.9 Ajustamento de cumprimento da medida O ajustamento de cumprimento da medida é um procedimento realizado pelas equipes multidisciplinares para tratar casos em que incidentes específicos não foram solucionados. O objetivo é compreender o contexto que gerou o incidente, buscar soluções que permitam o retorno ao cumprimento normal da medida e, se necessário, indicar a necessidade de ajustes. Observação! Este processo não possui caráter punitivo ou repressivo e deve ser conduzido com foco na sensibilização da pessoa monitorada, respeitando sua dignidade e evitando qualquer forma de violência, incluindo psicológica ou simbólica. O ajustamento pode ser realizado, preferencialmente, por telefone, mas, em casos específicos, pode demandar um encontro presencial, dependendo do tipo e da recorrência do incidente. Nessas situações, a equipe busca repactuar as condições da medida, incluindo a assinatura de um termo específico, e alertar a pessoa monitorada sobre possíveis notificações ao Juiz caso novos descumprimentos ocorram. Durante todo o processo, a rotina da pessoa monitorada, como trabalho, estudo ou tratamento de saúde, deve ser respeitada. Caso persistam incidentes não solucionados após as etapas de ajustamento, a Central deverá comunicar o fato ao Juízo para avaliação, sem tomar medidas punitivas e repressivas por conta própria. 56 3.3.10 Descumprimentos Os descumprimentos na monitoração eletrônica são incidentes não resolvidos que exigem notificação obrigatória ao Juízo. Esses casos devem ser registrados no sistema, com data e horário, seguindo protocolos estabelecidos. Em situações envolvendo medidas protetivas de urgência, pode ser necessário acionar imediatamente a polícia, de acordo com a necessidade de prevenção identificada pela Central ou conforme avaliação das equipes em qualquer fase do acompanhamento. 3.3.11 Relação com o Sistema de Justiça Criminal Central de Monitoração Eletrônica deve estabelecer fluxos ágeis com o Judiciário. Informações sobre o cumprimento das medidas devem ser fornecidas no prazo acordado entre as partes. A equipe multidisciplinar é responsável por elaborar relatórios periódicos para os juízes, sugerindo a manutenção ou substituição da monitoração - ou de condicionalidades específicas - por medidas menos gravosas, considerando a capacidade objetiva de cumprimento de cada pessoa monitorada. O diálogo contínuo entre a Central e o Judiciário é essencial para evitar o agravamento da situação penal e fortalecer o aprimoramento dos serviços. O ajustamento de cumprimento da medida deve ser utilizado para sensibilizar e repactuar as condições nos casos de incidentes específicos. Recomenda-se que, ao invés de decretar prisão provisória em casos de descumprimento, os juízes analisem os relatórios de acompanhamento e as recomendações da equipe multidisciplinar para decisões mais adequadas e alinhadas com os princípios que regem a monitoração. 57 3.3.12 Relação com o Sistema de Segurança Pública A Central de Monitoração Eletrônica deve estabelecer fluxos ágeis e eficazes com as Instituições de Segurança Pública, promovendo a sensibilização, formação e aprimoramento contínuo dos agentes, especialmenteaqueles em patrulhas especializadas, como a Patrulha Maria da Penha, e Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher DEAMs. Cabe à Secretaria Nacional de Segurança Pública SENASP desenvolver ações de capacitação inicial e continuada para fortalecer políticas de enfrentamento à violência doméstica e familiar. O diálogo constante entre a Central e as Instituições de Segurança Pública é fundamental para tratar incidentes específicos com base em casos concretos, evitando o agravamento da situação penal e priorizando a eficiência das forças policiais. O acionamento das instituições deve ser reservado para situações graves, identificadas previamente pelas equipes da Central, evitando sobrecarregar a capacidade policial e otimizando sua atuação em demandas prioritárias. 3.3.13 Gestão da informação É primordial que todas as etapas dos serviços de monitoração sejam informatizadas, respeitando a Lei Geral de Proteção de Dados e, igualmente, as “Diretrizes para Tratamento e Proteção de Dados na Monitoração Eletrônica de Pessoas” (Brasil, 2016). No nosso último módulo, iremos destacar aspectos relativos ao tema proteção de dados, já que os serviços de monitoração eletrônica geram dados sensíveis por sua natureza. 58 Módulo 4 - Proteção de dados e uso racional da monitoração eletrônica Olá! Chegamos no quarto e último módulo do curso. Neste momento, vamos indicar a importância do uso racional da monitoração eletrônica, e a necessidade de fomento da proteção de dados nesse campo, pois as informações geradas durante os serviços de monitoração são sensíveis, podendo prejudicar as pessoas monitoradas, as mulheres em situação de violência doméstica e familiar, além de terceiros que tenham tido seus dados pessoais coletados em algum momento dos serviços. 4.1 A monitoração eletrônica não é infinita O uso racional da monitoração eletrônica no contexto penal visa equilibrar a necessidade de controle, inerente à medida, com a preservação dos direitos fundamentais das pessoas monitoradas, respeitando os princípios da proporcionalidade e da subsidiariedade. O uso racional da medida deve ter como premissa a redução de encarceramentos desnecessários e, igualmente, a promoção de alternativas penais com metodologias capazes de mobilizar noções focadas nas dimensões de auto responsabilização do indivíduo. 59 Partimos do entendimento de que a monitoração é uma medida própria do controle penal, um serviço público que deve ser utilizado de forma racional, assim como a prisão. Ou seja, há limites impostos quando o assunto é o crescimento da monitoração. No caso das medidas cautelares, a monitoração é indicada como a última possibilidade no rol da Lei nº 12.403/2011, justamente por ser a medida cautelar mais gravosa. No caso do cumprimento de pena, o Estado não pode se eximir de prover todas as modalidades legalmente previstas pela Lei de Execução Penal nº 7.210/1984, levando em conta o fato de a monitoração não ser uma possibilidade para toda e qualquer pessoa. Nesse sentido, a Resolução CNJ nº 412/2021 sublinha limites: Art. 8º A medida de monitoramento eletrônico buscará assegurar a realização de atividades que contribuam para a inserção social da pessoa monitorada, especialmente: ● I – estudo e trabalho, incluindo a busca ativa, o trabalho informal e o que exige deslocamentos; ● II – atenção à saúde e aquisição regular de itens necessários à subsistência; ● III – atividades relacionadas ao cuidado com filhos e familiares; e ● IV – comparecimento a atividades religiosas. Parágrafo único. Será priorizada a adoção de medidas distintas do monitoramento eletrônico, em conjunto com o encaminhamento voluntário à rede de proteção social, nos casos em que: ● I – as circunstâncias socioeconômicas da pessoa investigada, ré ou condenada inviabilizem o adequado funcionamento do equipamento, tais como: ○ a) quando se tratar de pessoa em situação de rua; e 60 ○ b) quando se tratar de pessoa que reside em moradia sem fornecimento regular de energia elétrica ou com cobertura limitada ou instável quanto à tecnologia utilizada pelo equipamento; ● II – as condições da pessoa investigada, ré ou condenada tornarem excepcionalmente gravosa a medida, devido a dificuldades de locomoção, condições físicas ou necessidade de prestação de cuidados a terceiros, tais como: ○ a) quando se tratar de pessoas idosas; ○ b) quando se tratar de pessoas com deficiência; ○ c) quando se tratar de pessoas com doença grave; e ○ d) quando se tratar de gestante, lactante, mãe ou pessoa responsável por criança de até 12 (doze) anos ou por pessoa com deficiência. ● III – as circunstâncias da pessoa investigada, ré ou condenada prejudiquem o cumprimento da medida, em razão de questões culturais, dificuldade de compreensão sobre o funcionamento do equipamento ou sobre as condições eventualmente impostas, tais como: ○ a) condição de saúde mental; ○ b) uso abusivo de álcool ou outras drogas; e ○ c) quando se tratar de pessoas indígenas ou integrantes de comunidades tradicionais. De acordo com a referida normativa, a monitoração não deve impedir a realização de atividades voltadas para a inclusão social da pessoa monitorada. Ela deve, na verdade, viabilizar sua participação em atividades essenciais, como estudo, trabalho (inclusive o informal e com deslocamentos), cuidados com a saúde, atenção às necessidades básicas, assistência familiar e participação em atividades religiosas. Essa abordagem visa assegurar que a pessoa monitorada mantenha uma rotina digna e próxima à normalidade, respeitando seus direitos e necessidades individuais. 61 Adicionalmente, a norma prevê a priorização de alternativas à monitoração eletrônica, em conjunto com encaminhamentos voluntários à rede de proteção social, quando as condições socioeconômicas, físicas ou culturais inviabilizarem o adequado cumprimento da medida. Isso inclui situações como falta de infraestrutura para o funcionamento do equipamento (ex.: pessoas em situação de rua ou sem energia elétrica), limitações físicas ou de mobilidade (ex.: idosos, pessoas com deficiência, gestantes), ou barreiras culturais e de compreensão (ex.: pessoas indígenas ou com transtornos mentais). Essa diretriz reflete o compromisso com uma aplicação voltada para a garantia de direitos e cumprimento de deveres, adequada às realidades específicas das pessoas monitoradas. Adotar a monitoração de forma racional compreende vislumbrar que, dentro do nosso ordenamento jurídico, há inúmeras possibilidades que podem ser adotadas em conformidade com os princípios da adequação jurídica e social, por exemplo, sempre analisando os casos concretos. Além disso, é preciso pensar a monitoração de forma residual, uma vez que seu crescimento envolve mais do que o aluguel de equipamentos nas Unidades da Federação. É imprescindível contar com a contratação de equipes multidisciplinares para a qualificação dos serviços, a ampliação de estruturas físicas, a elaboração de programas de formação inicial e continuada, o desenvolvimento de tecnologias menos danosas, o monitoramento e a avaliação da política de monitoração eletrônica. Com isso, queremos dizer que o fortalecimento dos serviços não pode se restringir à mera ampliação, multiplicação, do aluguel de tornozeleiras. 62 Ou seja, desde o advento da lei nacional em 2010, o número de pessoas monitoradas tem crescido significativamente no país. De acordo com os dados oficiais da SENAPPEN, em 2015, o primeiro diagnóstico apontava 18.172 monitorados, enquanto em 2023 esse número já havia alcançado 100.755, representando um aumento de 478,38% entre 2015 e o primeiro semestre de 2024. Logo, caso essa tendência de crescimento se mantenha, cerca de 666.734 pessoas poderão sermonitoradas eletronicamente nos próximos dez anos. Paralelamente, o Brasil apresenta uma população prisional total de 888.791 pessoas em 2024, incluindo presos provisórios, com uma taxa de encarceramento de 418 por 100.000 habitantes. E, apesar do crescimento expressivo da monitoração eletrônica, sua utilização enfrenta desafios significativos. De forma isolada, a medida não promove a redução da população carcerária, tampouco muda comportamentos de forma substancial. Para que a monitoração eletrônica amplie sua credibilidade, é essencial que esteja integrada a políticas públicas mais amplas, que garantam acesso a direitos fundamentais e suporte psicossocial. As perspectivas futuras apontam para a necessidade de fortalecer a atuação das equipes multidisciplinares nos serviços de monitoração. Recentemente, a política nacional tem buscado não apenas conter o crescimento exponencial do uso da tecnologia, mas também assegurar sua aplicação racional, alinhada a diretrizes que minimizem danos e promovam a reintegração social, contribuindo para um sistema penal mais justo e equilibrado. 63 4.2 O que é proteção de dados? Finalizando nosso curso, é essencial trazer aspectos atinentes à proteção de dados, pois a monitoração eletrônica envolve, necessariamente, o tratamento de dados pessoais. Quando um juiz determina a aplicação da medida de monitoração eletrônica, a central de monitoração deve seguir os procedimentos e regras estabelecidos na decisão judicial. Isso inclui a coleta de dados pessoais da pessoa monitorada, como nome, endereço residencial e profissional, contatos telefônicos ou eletrônicos, fotografia e dados de geolocalização em tempo real. Em alguns casos, também são registrados dados de familiares ou amigos, que poderão ser acionados em situações de incidentes relacionados às condições impostas pelo juiz. Esses dados são essenciais para a comunicação e regularização do cumprimento da medida de monitoração, garantindo que incidentes, como uma saída não autorizada da área delimitada, ou mesmo uma descarga de bateria, sejam tratados de forma a evitar a caracterização como descumprimento da decisão judicial. Isso é importante para evitar sanções desnecessárias para a pessoa monitorada, como a possibilidade de prisão em razão do incidente. 64 De acordo com Doneda 2011, a proteção de dados pessoais é amplamente reconhecida como um direito fundamental e um elemento essencial para a proteção da dignidade e autonomia individual na sociedade contemporânea. O estudioso aponta que o tratamento de dados, especialmente por processos automatizados, apresenta riscos significativos, como o uso indevido, a exposição ou a manipulação de informações que podem impactar negativamente a privacidade e a identidade das pessoas. Em muitos casos, os dados pessoais assumem o papel de representação da própria pessoa, sendo indispensáveis para sua inserção em atividades sociais e econômicas, o que torna sua proteção um pilar essencial para o pleno exercício da cidadania. O autor ressalta que o avanço tecnológico, particularmente no uso de bancos de dados informatizados, ampliou a capacidade de coleta, armazenamento e análise de informações pessoais. Embora essa evolução tenha potencializado os benefícios da informação, também elevou os riscos de abusos e violações. A legislação e as convenções internacionais têm buscado acompanhar esse cenário, consolidando princípios fundamentais como a transparência, a finalidade específica para o uso de dados, a exatidão das informações, a segurança e o acesso livre do titular aos seus dados. Esses princípios não apenas protegem a privacidade, mas também garantem a autodeterminação informativa, permitindo que os indivíduos controlem como suas informações são utilizadas. 65 No Brasil, a proteção de dados é respaldada por dispositivos constitucionais, como o direito à privacidade e à inviolabilidade da intimidade, bem como pela Lei Geral de Proteção de Dados LGPD. Essa estrutura normativa reflete a importância de regulamentar o uso de dados pessoais em consonância com os direitos fundamentais, alinhando-se a práticas internacionais que tratam o tema como uma prioridade. 4.3 Importância da proteção de dados na monitoração eletrônica A proteção de dados não se limita a aspectos técnicos ou tecnológicos, mas envolve uma abordagem abrangente que considera os direitos fundamentais das pessoas, especialmente em um contexto de crescente digitalização e vigilância, incluindo as pessoas monitoradas, as mulheres em situação de violência doméstica e familiar que usam UPR, e terceiros que tenham seus dados coletados. A proteção de dados na monitoração requer a implementação de protocolos rigorosos que garantam a transparência no tratamento das informações, a segurança contra acessos não autorizados e a finalidade específica no uso dos dados. Esses protocolos devem ser baseados em princípios éticos e legais, assegurando que os dados pessoais sejam tratados de forma proporcional e adequada, sem comprometer a liberdade, a privacidade e a dignidade dos indivíduos. 66 No contexto da monitoração eletrônica no Brasil, a proteção de dados é fundamental para garantir os direitos fundamentais das pessoas monitoradas, ampliando direitos atinentes à sua dignidade e privacidade. O tratamento adequado desses dados é imprescindível para evitar práticas que podem estigmatizar ou prejudicar a pessoa monitorada, como o uso indiscriminado de informações sensíveis por instituições de segurança pública. Nesse sentido, a implementação de protocolos rigorosos é essencial para orientar a gestão das informações coletadas, incluindo dados de geolocalização, preservando o sigilo e restringindo o acesso às autoridades devidamente autorizadas, pois: (...) Em qualquer tempo, durante ou após a medida de monitoração, o simples fato de ter sido monitorado é potencialmente lesivo e discriminatório. Isso já é suficiente para gerar constrangimentos injustificados, impedir ou dificultar, por exemplo, a inserção no mercado de trabalho e o acesso a serviços públicos ou espaços privados de uso coletivo, conforme indicam os relatos dos gestores das centrais e das pessoas monitoradas. Logo, dados pessoais utilizados na monitoração eletrônica são sensíveis por natureza, pois podem ensejar discriminação e tratamento degradante às pessoas monitoradas. PIMENTA et al, 2019, p.64 A ausência de protocolos claros pode levar a violações de direitos, como o compartilhamento não autorizado de dados com forças policiais, expondo os monitorados a práticas repressivas e invasivas. Segundo Pimenta et al 2019, a utilização de informação sobre a localização geográfica de uma pessoa é um dado demasiadamente sensível: 67 (...) justamente por proporcionar um panorama extremamente esmiuçado sobre os deslocamentos físicos de uma pessoa, a partir do qual podem ser inferidos seus hábitos, relacionamentos, preferências e uma série de outras ilações – inclusive podendo comprometer a sua segurança física. Esses dados interessam a atores e instituições com propósitos distintos dos serviços de monitoração, podendo servir como uma “moeda de trocaˮ altamente valorizada no mercado de banco de dados ou mesmo facilitar ações direcionadas a pessoas monitoradas. (idem, p.6465 Para evitar tais abusos, o documento “Diretrizes para Tratamento e Proteção de Dados na Monitoração Eletrônica de Pessoas ,ˮ publicado em 2016 pelo extinto DEPEN em parceria com o PNUD, enfatiza a necessidade de alinhar os serviços de monitoração com as políticas penais nacionais, promovendo uma abordagem que privilegie a proteção de dados e a segurança da informação. Essas diretrizes incluem medidaspara garantir que os dados sejam utilizados exclusivamente para os fins determinados judicialmente e de forma proporcional: (...) o uso indiscriminado e indevido do banco de dados contendo informações pessoais sobre os indivíduos monitorados eletronicamente, as mulheres em situação de violência doméstica, assim como seus familiares, amigos, vizinhos e conhecidos, por culpa ou dolo, tem um potencial discriminatório enorme. A circulação de tais informações na Internet pode promover não somente a discriminação, mas igualmente a criminalização destas pessoas (mesmo aquelas que não estejam em cumprimento de medida de monitoração eletrônica), mantendo-as afastadas de uma vida social dentro da normalidade, com acesso ao trabalho, saúde, educação, etc. A privacidade dos indivíduos monitorados é ainda mais sensível porque os dados pessoais de geolocalização apresentam maior potencialidade lesiva no que se refere à exposição excessiva da intimidade, não estipulada na medida judicial, ou seja, uma forma abusiva de poder Brasil, 2020, p.110. 68 Recentemente, o Conselho Nacional de Justiça, inspirado pelo documento supracitado, pelo Modelo de Gestão e os pressupostos da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais LGPD, pautou o assunto de forma incisiva: Art. 13. Os dados coletados durante o acompanhamento das medidas de monitoramento eletrônico possuem finalidade específica, relacionada ao cumprimento das condições estabelecidas judicialmente, podendo ser utilizados como meio de prova para apuração penal e estando, de qualquer forma, abrangidos pelo direito previsto no art. 5o, X, da Constituição Federal e legislação de proteção de dados pessoais. § 1º Os sistemas de registro de informações do monitoramento eletrônico serão estruturados de modo a preservar o sigilo dos dados e das informações da pessoa monitorada, da pessoa em situação de violência doméstica e familiar e de terceiros. § 2º O compartilhamento dos dados, inclusive com instituições de segurança pública, dependerá de autorização judicial, mediante representação da autoridade policial ou requerimento do Ministério Público. § 3º Nas situações excepcionais em que configurado iminente risco à vida, os órgãos de segurança pública poderão requisitar diretamente à Central de Monitoramento Eletrônico a localização em tempo real da pessoa monitorada, hipótese em que o controle judicial do compartilhamento dos dados será realizado posteriormente. § 4º Nas hipóteses do parágrafo anterior, o compartilhamento de dados realizado nas circunstâncias excepcionais será formalmente registrado, com informação sobre a data e o horário do tratamento, a identidade do servidor que obteve e do que concedeu o acesso ao dado, a justificativa apresentada, bem como quais os dados tratados, a fim de permitir o controle, além de eventual auditoria. 69 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm § 5º As informações mencionadas no parágrafo anterior serão encaminhadas pela Central de Monitoramento Eletrônico ao juízo competente em até 24 (vinte e quatro) horas após o compartilhamento. § 6º Nos casos de incidentes específicos ocorridos no âmbito de medidas protetivas de urgência, a Central de Monitoramento Eletrônico poderá acionar preventivamente órgãos de segurança pública e compartilhar dados relativos à identificação e localização da pessoa monitorada, nos termos do Protocolo anexo à presente Resolução. § 7º A Central de Monitoramento manterá os dados produzidos durante o acompanhamento de medidas de monitoramento eletrônico pelo prazo de 6 (seis) meses após o término da medida. § 8º O titular dos dados tem livre acesso à integralidade dos dados produzidos durante o acompanhamento de medidas de monitoramento eletrônico e à consulta facilitada sobre a forma e duração do tratamento. CNJ, 2021 Além de estabelecer diretrizes fundamentais para a coleta, o tratamento e o compartilhamento de dados no âmbito da monitoração eletrônica, garantindo sua utilização exclusivamente para a finalidade judicial a que se destinam, a norma avança na medida em que impõe limites ao compartilhamento de dados. 70 Ou seja, o compartilhamento de informações é condicionado à autorização judicial, exceto em situações excepcionais de iminente risco à vida, em que órgãos de segurança pública podem requisitar dados em tempo real, com posterior controle judicial e registro formal das circunstâncias e justificativas do acesso. Essa e outras disposições da normativa visam equilibrar o uso eficaz da tecnologia no cumprimento de medidas judiciais com a proteção dos direitos fundamentais, promovendo um sistema de monitoração mais ético, seguro e alinhado às garantias constitucionais. Outro aspecto crucial da proteção de dados é a necessidade de capacitar os operadores e gestores das centrais de monitoração eletrônica. Muitos profissionais desconhecem as implicações legais e éticas do manejo inadequado de dados sensíveis, o que reforça a urgência de desenvolver mecanismos educativos e de fiscalização. Além disso, o uso de sistemas seguros e a adoção de tecnologia que garanta a integridade e a confidencialidade das informações são imprescindíveis para evitar acessos não autorizados ou vazamentos. Por fim, a proteção de dados na monitoração eletrônica deve estar integrada a uma política que valorize a inclusão social e o respeito aos direitos humanos. A abordagem deve evitar que os monitorados sejam tratados exclusivamente como sujeitos do direito penal, reconhecendo-os como cidadãos plenos com direito à privacidade e à reintegração social. Assim, a proteção de dados não é apenas uma questão técnica, mas um elemento central para uma política de monitoração eletrônica mais justa e eficaz para toda sociedade. 71 Referências ANDERSON, Emma. The evolution of electronic monitoring devices. NPR, USA 2014. Brasil. Conselho Nacional de Justiça. Resolução nº 412, de 24 de agosto de 2021. Estabelece diretrizes e procedimentos para a aplicação e o acompanhamento da medida de monitoramento eletrônico de pessoas. _______. Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Recomendação nº 3, de 26 de março de 2024. Recomenda, nos casos de violência doméstica e familiar contra mulher, a submissão do agressor à monitoração eletrônica, a fim de assegurar a efetividade das medidas protetivas de urgência. _______. Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Resolução nº 31, de 1º de dezembro de 2022. Regulamenta a implementação, acompanhamento, fiscalização e encerramento das medidas de monitoração eletrônica, decorrentes de ordens judiciais; estabelece providências em caso de descumprimento das condições impostas; e revoga a Resolução nº 5, de 10 de novembro de 2017. ________. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado, 1988. _______. Decreto nº 7.627, de 24 de novembro de 2011. Regulamenta a monitoração eletrônica de pessoas prevista no Decreto no 3.689, de 3 de outubro de 1941 - Código de Processo Penal, e na Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984 - Lei de Execução Penal. _______. Departamento Penitenciário Nacional. Modelo de gestão para monitoração eletrônica de pessoas [recurso eletrônico] / Departamento Penitenciário Nacional, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento; coordenação de Luís Geraldo Sant A̓na Lanfredi ... [et al.]. Brasília: Conselho Nacional de Justiça, 2020. 72 _______. Lei de Execução Penal, Lei 7.210, de 11 de julho de 1984. _______. Lei nº 12.258, de 15 de junho de 2010. Altera o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 Código Penal), e a Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984 Lei de Execução Penal), para prever a possibilidade de utilização de equipamento de vigilância indiretapelo condenado nos casos em que especifica. _______. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais LGPD. _______. Lei nº 12.403, de 04 de julho de 2011. Altera dispositivos do Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941 - Código de Processo Penal, relativos à prisão processual, fiança, liberdade provisória, demais medidas cautelares, e dá outras providências. _______. Lei nº 14.843, de 11 de abril de 2024. Altera a Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984 Lei de Execução Penal), para dispor sobre a monitoração eletrônica do preso, prever a realização de exame criminológico para progressão de regime e restringir o benefício da saída temporária. _______. Ministério da Justiça / Departamento Penitenciário Nacional / Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Diretrizes para Tratamento e Proteção de Dados na Monitoração Eletrônica de Pessoas. Brasília: PNUD, 2016. DE VITTO, Renato; DAUFEMBACK, Valdirene (orgs.). Para além da prisão reflexões e propostas para uma nova política penal no Brasil. Belo Horizonte: Editora Letramento, 2018. DONEDA, Danilo. A proteção dos dados pessoais como um direito fundamental. Espaço Jurídico Joaçaba, v. 12, n. 2, p. 91108, jul./dez. 2011. GARLAND, David. On the concept of moral panic. In: Crime, Media, Culture. April, 2008, 4, p. 930. GRAHAM, Hannah. Apps, tags, tracks: ten questions about uses of technology in probation, 2018. 73 IBCCRIM. A Inconstitucionalidade da Lei 14.843/2024. Boletim IBCCRIM – ano 32 – n.º 383 – outubro de 2024. KILGORE, James. Understanding e-carceration: electronic monitoring, te surveillance state and the future of mass incarceration. The New Press, NY 2022. MARIATH, Carlos Roberto. Monitoramento eletrônico: liberdade vigiada. Ministério da Justiça. Brasília, 2009 PIMENTA, Victor Martins; PIMENTA, Izabella Lacerda; DONEDA, Danilo. "Onde eles estavam na hora do crime?": Ilegalidades no tratamento de dados pessoais na monitoração eletrônica. Revista Brasileira de Segurança Pública. V.13. n. 1. Fev/Mar. 2019. 74 Módulo 1 - Histórico e aspectos técnicos da monitoração eletrônica de pessoas 1.1 Das origens da monitoração eletrônica 1.2 Algumas modalidades de monitoração eletrônica de pessoas 1.2.1 Radiofrequência (RF) 1.2.2 Sistema de Posicionamento global (GPS) 1.2.3 Reconhecimento de voz 1.2.4 Outras tecnologias de monitoração virtual 1.2.5 Unidades portáteis de rastreamento: o caso das medidas protetivas de urgência Módulo 2 - Marcos legais e infralegais da monitoração eletrônica de pessoas 2.1 A monitoração no ordenamento jurídico brasileiro 2.1.1 A Lei nº 12.258/2010 e o Decreto nº 7.627/2011 2.1.1 A Lei nº 12.403/2011 2.1.3 A Lei nº 11.340/2006 2.1.4 A Lei nº 14.843/2024 2.2 O Modelo de Gestão para a Monitoração Eletrônica de Pessoas 2.3 Resoluções e recomendações 2.3.1 Resolução CNJ nº 412/2021 2.3.2 Resolução CNPCP nº 31/2022 A Resolução nº 31/2022, publicada pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), apresenta um marco normativo para a regulamentação da monitoração eletrônica no Brasil, abrangendo desde a implementação até o encerramento da medida. Essa normativa, desenhada no âmbito do Poder Executivo na figura no CNPCP, reforça o papel das Centrais de Monitoração Eletrônica, que são responsáveis pela gestão e acompanhamento dessas medidas. A resolução também busca padronizar os procedimentos em nível nacional, garantindo uniformidade e eficiência na execução das medidas. 2.3.3 Recomendação CNPCP nº 3/2024 Módulo 3 - Metodologia de acompanhamento da monitoração eletrônica no Brasil 3.1 Como são estruturados os serviços de monitoração? 3.2 A Central de Monitoração Eletrônica – acompanhamento da medida judicial 3.3 Procedimentos do acompanhamento da medida de monitoração eletrônica 3.3.1 Sensibilização e encaminhamento pelo Judiciário para comparecimento à Central 3.3.2 Primeiro atendimento 3.3.3 Acolhimento 3.3.4 Estudo de casos 3.3.5 Encaminhamentos 3.3.6 Retornos/Atendimentos de rotina 3.3.7 Tratamento de incidentes 3.3.8 Tratamento de incidentes nos casos de medidas protetivas de urgência 3.3.9 Ajustamento de cumprimento da medida 3.3.10 Descumprimentos 3.3.11 Relação com o Sistema de Justiça Criminal 3.3.12 Relação com o Sistema de Segurança Pública 3.3.13 Gestão da informação Módulo 4 - Proteção de dados e uso racional da monitoração eletrônica 4.1 A monitoração eletrônica não é infinita 4.2 O que é proteção de dados? Finalizando nosso curso, é essencial trazer aspectos atinentes à proteção de dados, pois a monitoração eletrônica envolve, necessariamente, o tratamento de dados pessoais. Quando um juiz determina a aplicação da medida de monitoração eletrônica, a central de monitoração deve seguir os procedimentos e regras estabelecidos na decisão judicial. 4.3 Importância da proteção de dados na monitoração eletrônica Referências3.3.13 Gestão da informação 58 6 Módulo 4 - Proteção de dados e uso racional da monitoração eletrônica 59 4.1 A monitoração eletrônica não é infinita 59 4.2 O que é proteção de dados? 64 4.3 Importância da proteção de dados na monitoração eletrônica 66 Referências 72 7 Módulo 1 - Histórico e aspectos técnicos da monitoração eletrônica de pessoas Olá, cursista! Neste primeiro módulo, estudaremos alguns aspectos históricos e técnicos da monitoração. Ou seja, a ideia é entendermos onde surgiu a monitoração e com qual intuito, bem como os principais tipos de tecnologias e equipamentos usados no mundo e, principalmente, no Brasil. Os serviços de monitoração eletrônica apresentam marcos históricos, legais e infralegais, incluindo metodologias próprias para a aplicação e o acompanhamento da medida nas fases de instrução e execução penal. É essencial que os serviços estejam alinhados com os princípios que regem a monitoração no Brasil, sendo necessários o constante aprimoramento e a capacitação dos profissionais com base nas diretrizes e no desenho metodológico que orientam a política nacional, expressos no Modelo de Gestão para a Monitoração Eletrônica de Pessoas Brasil, 2020. 8 Nesse sentido, o curso tem o objetivo principal de disseminar conhecimento para os trabalhadores que atuam nos serviços de monitoração eletrônica, incluindo metodologias, protocolos, dimensões legais e multidisciplinares para a racionalização da medida com foco na garantia de direitos. Ademais, espera-se compartilhar conteúdo específico aos servidores e demais trabalhadores afetos aos serviços de monitoração eletrônica de pessoas, e que isso seja capaz de auxiliá-los num acompanhamento integral da pessoa monitorada. Para tanto, consoante aos princípios do Estado democrático de direito, a medida deve ser capaz de assegurar direitos fundamentais e o cumprimento de deveres prescritos judicialmente, compreendendo que a efetividade da medida deve estar alinhada com o pressuposto da liberdade, ainda que vigiada, e nos princípios da normalidade, da adequação social, do menor dano, da provisoriedade, entre outros. Ou seja, o propósito da monitoração não é – ou não deveria ser – o aprisionamento de pessoas, tampouco a retroalimentação do cárcere. Daí, a importância de trabalhadores qualificados e alinhados com as metodologias aqui expostas. Para aprofundar o conhecimento aqui compartilhado, destacamos a importância da leitura do Modelo de Gestão para a Monitoração Eletrônica de Pessoas: https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/ 2020/09/Modelo_Monitoracao_miolo_FINAL_ eletronico.pdf 9 https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/ https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/ https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/ Vale a pena ainda assistir os dois vídeos a seguir. Eles são voltados para a sociedade em geral e aos aplicadores da monitoração eletrônica, respectivamente: 1. Monitoração eletrônica - O que é e como funciona Monitoração eletrônica - O que é e como funciona https://www.youtube.com/watch?v=jKWNuptg5co 2. Monitoração eletrônica - Auxiliando a prestação de Justiça Monitoração eletrônica - Auxiliando a prestação de Justiça https://www.youtube.com/watch?v=H9RiaagqBQg 1.1 Das origens da monitoração eletrônica A monitoração eletrônica de pessoas encontra suas raízes em experimentos no Canadá nos anos 1940, mas passa a ganhar forma mais consolidada nas décadas seguintes. A criação da tornozeleira é inspirada, entre outras coisas, pela ficção, sendo posteriormente adotada como mecanismo de controle penal e punitivo em inúmeros países do globo. 10 https://www.youtube.com/watch?v=jKWNuptg5co https://www.youtube.com/watch?v=H9RiaagqBQg Com base nos estudos de Kilgore 2022, esse conceito foi aprofundado na década de 1960 pelos gêmeos Robert e Ralph Schwitzgebel (que mudaram seus sobrenomes para Gable em 1983. Os Gable desenvolveram dispositivos para o controle de jovens em conflito com a lei, tendo como um dos principais parceiros de trabalho, o psicólogo norte americano B. F. Skinner, considerado o pai do behaviorismo radical. Naquele momento, a ideia baseava-se na explicação equivocada e simplista de que as pessoas vão parar na prisão por conta de “mau comportamentoˮ e “escolhas ruins .ˮ Assim, “uma suposta cura estava fundada no uso da tecnologia correta para estimular a mudança de comportamento, ao invés de remodelar a consciência ou reconstruir o ambiente social onde o suposto mau comportamento ocorreu.ˮ 11 Kilgore, 2022, p.3622 Nessa direção, a tornozeleira eletrônica emerge inspirada também pela ficção, um instrumento tecnológico que, a partir dos anos 1980, ganhou forte impulso nos Estados Unidos. Naquela ocasião, o juiz Jack Love, do Novo México, encomendou o projeto do dispositivo ao engenheiro Michael Goss, inspirado por um episódio da série Homem-Aranha, em que o herói era rastreado por um bracelete eletrônico. 2 Mais adiante vamos ver que a tecnologia por si só, isto é, a tornozeleira é incapaz de mudar comportamentos, valores e visões de mundo. 1 Tradução livre da autora. 11 Em 1983, Love autorizou experimentalmente o uso do dispositivo em sentenciados na cidade de Albuquerque e, rapidamente, a prática se expandiu pelo país. Para se ter uma ideia desse crescimento exacerbado, em 1988, cerca de 2.300 pessoas privadas de liberdade eram monitoradas eletronicamente nos EUA, número que saltou para 95.000 uma década depois, refletindo a crescente população carcerária global e o avanço de tecnologias de controle penal, conforme será aprofundado mais adiante. Podemos dizer, então, que uma das nações que mais impulsionou o desenvolvimento dessa tecnologia foram os Estados Unidos na década de 1980, pois a vigilância eletrônica passou a ser adotada no controle de pessoas condenadas judicialmente. Teoricamente, é possível dizer que a monitoração eletrônica surgiu numa perspectiva associada à ideia de gerar menor impacto na vida social das pessoas monitoradas. Ou seja, fazê-las cumprir determinadas restrições em sua vida cotidiana, prevendo horários específicos de recolhimento, territórios permitidos (áreas de inclusão) e territórios proibidos (áreas de exclusão), evitando aprisioná-las em unidades prisionais. É possível entender que as modernas formas de utilização da monitoração vão aproximá-la cada vez mais das contemporâneas formas de vigilância disciplinar, prevendo restrições não apenas na liberdade e na circulação das pessoas monitoradas, mas limitando o acesso a serviços públicos fundamentais, conforme trataremos ao longo do curso. Considerando o estigma imposto pela tornozeleira eletrônica, é comum que várias pessoas monitoradas tenham dificuldades em conseguir trabalho, tratamento de saúde, educação, entre outros direitos constitucionalmente previstos no Brasil. Se olharmos ao redor do mundo, há inúmeros equipamentos que foram desenvolvidos para a monitoração eletrônica de pessoas, com o foco, sobretudo, na localização. A seguir temos, de forma resumida, as principais modalidades de monitoração eletrônica em termos de tecnologias, adotadas, principalmente, no escopo da justiça criminal. 12 1.2 Algumas modalidades de monitoração eletrônica de pessoas 1.2.1 Radiofrequência RF Esta tecnologia usa um receptor – um aparelho que se assemelha a um telefone fixo – que requer uma fonte de energia elétrica e uma linha telefônica fixa para transmitir dados. As pessoas monitoradas sob essa tecnologia usam um transmissor não removível (tornozeleira), à prova dʼágua e resistente a choques, fixado no pulso ou tornozelo 24 horas por dia. Em geral, os países que adotam a radiofrequência na monitoração eletrônica têm optado pela instalaçãono tornozelo, sendo o pulso uma opção em caso de necessidade médica comprovada. A tornozeleira de radiofrequência costuma ter uma bateria interna e não precisa ser recarregada diariamente, como ocorre com a tornozeleira de GPS. A tornozeleira RF envia sinais de rádio constantes ao receptor quando está dentro do alcance detectável do receptor (base assemelhada à um telefone fixo). Assim, quem acompanha a pessoa monitorada – a central de monitoração eletrônica – é notificada caso o equipamento seja manipulado ou quando a pessoa monitorada entra ou sai de uma localização específica (como a residência). A tornozeleira de tecnologia RF é amplamente utilizada para casos envolvendo prisão domiciliar e seus variados arranjos, permitindo à Central verificar se a pessoa monitorada está em sua residência (onde fica instalada a base fixa - receptor), durante horários específicos. Casos em que o Poder Judiciário – ou quem prescreve a monitoração – entende ser necessário o maior controle no que se refere à localização, extrapolando apenas a residência, como costuma ocorrer nas prisões domiciliares, há outras opções disponíveis no mercado pautadas noutras tecnologias. 13 Você sabia que em alguns países há outros atores envolvidos na prescrição da monitoração eletrônica? Isso mesmo! Há vários sistemas de justiça criminal que têm um profissional chamado probation officer, instituído em seu ordenamento jurídico de maneira a acompanhar/supervisionar as pessoas que estão em cumprimento de pena ou alguma medida diversa da prisão - meio aberto, semiaberto, monitoração eletrônica, alternativas penais, livramento condicional. Esse profissional, que não é um policial penal, é um funcionário voltado para a reinserção social, acompanhando, no nosso caso específico, a monitoração eletrônica com foco na pessoa monitorada. Em algumas situações, o probation officer pode impor, modificar ou revogar condicionalidades da medida, sempre com o propósito de (re)integrar os indivíduos à sociedade. Noutros casos, apenas o magistrado impõe, modifica ou revoga as condicionalidades, ficando o probation responsável pelo acompanhamento da pessoa monitorada com atenção à prescrição judicial, garantia de direitos e de serviços públicos já instituídos. De todo modo, esse profissional extrapola a dimensão do controle estrito e próprio da monitoração, incorporando atividades destinadas à inserção social e de aderência às normas/leis e regras sociais. TORNOZELEIRA DE RADIOFREQUÊNCIA BASE FIXA (receptor) 14 1.2.2 Sistema de Posicionamento global GPS Conforme destacamos, diversas nações do mundo optam por adotar as tornozeleiras de radiofrequência quando se trata de, por exemplo, prisão domiciliar. Existe um entendimento de que a radiofrequência é suficiente para monitorar o recolhimento da pessoa em sua residência. De todo modo, há países que, além da tornozeleira de radiofrequência, também combinam o uso de equipamentos de GPS. Em tais situações, observam-se casos concretos em que há necessidade de acompanhamento mais detido da geolocalização da pessoa. Nessas localidades, quem aplica a medida pode, além de indicar condicionalidades específicas, informar que tipo de tecnologia é mais adequada para cada situação. As tornozeleiras que funcionam com base no sistema de posicionamento global têm um rastreador de geolocalização não removível. Teoricamente, esse equipamento deve ser à prova dʼágua, resistente a choque e a superaquecimento, pois deve permanecer fixado ao tornozelo da pessoa monitorada 24 horas por dia. Ainda nessa direção, a pessoa monitorada, segundo o princípio da normalidade e do menor dano Brasil, 2020, deve estar apta a realizar as mais variadas atividades no seu dia a dia. Todavia, a pessoa monitorada, principalmente no Brasil, precisa carregar a tornozeleira uma ou mais vezes ao dia, podendo chegar até 4 horas diárias de recarga, depende da qualidade da bateria adotada. 15 Você sabia que há diversos modelos de tornozeleira? Dependendo do modelo da tornozeleira, a recarga pode acontecer mantendo a pessoa monitorada conectada à uma tomada de energia elétrica por até mais de 4 horas diárias. Mas, existem modelos também que conseguem permanecer carregados por 1 até 2 semanas, o que minimiza os incidentes associados aos processos de carga e recarga do equipamento. Há modelos de tornozeleira existentes que adotam um carregador portátil que é acoplado no equipamento durante a recarga, aumentando o peso e o volume da tornozeleira, mas permitindo o deslocamento da pessoa monitorada durante o procedimento e, segundo a literatura, evitando descargas elétricas e superaquecimento. A geolocalização é detectada via satélite, de forma combinada com torres de celular e/ou Wi-Fi. As tornozeleiras de GPS recebem sinais de satélite, mas não transmitem dados nem requerem visão desobstruída do céu. Dessa maneira, os fluxos operados por esse tipo de tecnologia permitem com que cada satélite GPS transmita dados, indicando a localização e a hora atual da pessoa monitorada. Esse tipo de tornozeleira costuma ser adotada quando há necessidade de acompanhamento da geolocalização da pessoa monitorada de forma integral, especialmente em casos de risco a terceiros, o que inclui mulheres em situação de violência doméstica e familiares no contexto da Lei Maria da Penha. No cenário brasileiro, os aspectos técnicos da monitoração incluem o uso de tornozeleiras eletrônicas, isto é, dispositivos de rastreamento que emitem sinais para uma central de controle (comumente denominada Central de Monitoração Eletrônica), monitorando a localização do indivíduo em tempo quase real e acompanhando as restrições impostas pelo Poder Judiciário. Ou seja, o Estado brasileiro optou pela utilização exclusiva de tornozeleiras de GPS. Não há tornozeleiras com tecnologia de radiofrequência sendo utilizadas no Brasil, uma prática que poderia ser revisada, pois inúmeros países adotam as duas tecnologias. 16 Você sabia que a tornozeleira de radiofrequência, além de ser mais barata para o Estado, ela é menos danosa para a pessoa monitorada? Isso! A pessoa monitorada não precisa carregar a tornozeleira de radiofrequência porque sua bateria interna, como acontece com os relógios digitais de pulso, podem durar meses ou anos. Além disso, ela é mais leve do que a tornozeleira de GPS. Alguns exemplos de tornozeleiras com base em tecnologia de GPS 17 1.2.3 Reconhecimento de voz Você sabia que além das tornozeleiras de radiofrequência e de GPS, há dispositivos que funcionam com base em Reconhecimento de Voz? Nesses casos, chamadas telefônicas programadas ou aleatórias são realizadas pela Central e devem ser recebidas da residência da pessoa monitorada para verificar sua presença. De forma geral e simplificada, esta tecnologia requer uma linha telefônica fixa. Além disso, os incidentes costumam não exigir uma resposta imediata da Central. Por outro lado, os servidores/trabalhadores da Central devem, assim como ocorre nos exemplos de monitoração, atuar com base em protocolos no tratamento de incidentes, informando o juízo quando há um incidente não solucionado que se configurou em descumprimento da decisão judicial, como vamos ver mais adiante. De forma geral, essa tecnologia costuma ser empregada para pessoas consideradas de baixo risco. 1.2.4 Outras tecnologias de monitoração virtual Apesar de vários países adotarem tornozeleiras – RF e/ou GPS – quando o assunto é justiça criminal, ou seja, para monitorar pessoas que estão respondendo por um crime ou que cumprem uma condenação judicial, já existem no mercado aplicativos instalados em smartphones para controlar a geolocalização. 18 Assim, há aplicativos que, de tempos em tempos, exigemque a pessoa informe sua localização usando os serviços de localização do dispositivo e tecnologia de identidade (como reconhecimento facial, impressão digital e/ou senha). Essa tecnologia não é disseminada no campo da justiça criminal e, quando o assunto é monitoração eletrônica de pessoas em cumprimento de cautelar ou mesmo na execução penal, o que temos, tanto no mundo, quanto no Brasil, são as tornozeleiras eletrônicas de radiofrequência e/ou GPS. 1.2.5 Unidades portáteis de rastreamento: o caso das medidas protetivas de urgência Por fim, longe de esgotar o cenário de possibilidades tecnológicas e de dispositivos da monitoração eletrônica de pessoas, mas focando no caso brasileiro, temos nos casos envolvendo violência doméstica e familiar, o uso facultativo pela mulher de uma unidade portátil de rastreamento UPR, comumente chamada “botão do pânico .ˮ A UPR permite a criação de áreas de exclusão dinâmica, indicando para a central de monitoração eletrônica uma eventual aproximação entre o homem autor de violências monitorado e a mulher em uso de UPR. 19 Originalmente, a monitoração eletrônica tinha uma proposta teórica de reduzir o impacto do encarceramento na vida social dos monitorados. A ideia era permitir que cumprissem determinadas restrições fora do ambiente prisional, observando-se horários de recolhimento, áreas de inclusão e exclusão, possibilitando que permanecessem inseridos em seus contextos sociais, familiares e laborais. Na prática, no entanto, o uso da monitoração eletrônica se aproximou das contemporâneas formas de vigilância disciplinar, restringindo não só a liberdade de ir e vir, mas também o acesso a serviços essenciais. O estigma associado à tornozeleira gera obstáculos na obtenção de trabalho, atendimento de saúde e acesso à educação, limitando direitos que, em tese, deveriam ser garantidos aos monitorados, como previsto pela Constituição brasileira. Contudo, a expansão da monitoração eletrônica traz à tona ambiguidades e desafios, especialmente no que diz respeito à sua eficácia na redução do encarceramento e ao estigma que impõe. Ao transformar o corpo do monitorado em um espaço de vigilância, a tornozeleira cria uma liminaridade entre prisão e liberdade, reforçando simbolicamente a conexão com o sistema punitivo e comprometendo engajamentos sociais dentro do princípio da normalidade. A monitoração eletrônica, assim, representa uma ferramenta que mistura aspectos de vigilância tradicional com tecnologias modernas de controle, sublinhando o desafio de equilibrar a responsabilização penal com a preservação de direitos fundamentais, especialmente no que tange à promoção da dignidade e à reintegração social dos monitorados. 20 Na ilustração ao lado, baseada em uma fotografia de meados da década de 1960, Gable, cofundador do cinturão de monitoração eletrônica, utiliza equipamento de localização de mísseis excedentário de guerra para localizar jovens em conflito com a lei que usam os primeiros dispositivos de monitoração eletrônica. Para fecharmos esse módulo e continuarmos o curso, é importante compreender que: Não importa o que a tecnologia é capaz de fazer, não devemos nunca perder de vista o porquê ela tem sido usada, ou mesmo se precisa ser usada em certos casos. Novos usos da tecnologia não são necessariamente inovadores se não forem éticos e efetivos, e esse assunto é um campo fértil, justificando a necessidade de mais pesquisas 13 (GRAHAM, 2018. 3 Tradução livre da autora 21 Módulo 2 - Marcos legais e infralegais da monitoração eletrônica de pessoas Olá, cursista! Neste Módulo 2, estudaremos os marcos legais e infralegais da monitoração eletrônica no Brasil, discutindo-os como sendo alternativas ao encarceramento, à medida cautelar, e como ferramenta de proteção às mulheres em situação de violência doméstica. Também serão abordados o princípio da subsidiariedade, a proteção de dados e a atuação de equipes multidisciplinares. Por fim, reforça a importância da integração com redes de proteção social para além do controle penal. Continuando o nosso percurso formativo acerca da monitoração eletrônica, é essencial pontuar que a medida, tanto na instrução penal (momento processual em que a pessoa não tem uma condenação judicial), quanto na execução penal (etapa processual na qual a pessoa já tem uma condenação judicial e está em cumprimento de pena), advém de uma decisão judicial. Com isso, queremos dizer que, no nosso ordenamento jurídico, a monitoração eletrônica é uma medida judicialmente imposta, amparada por leis e outras normativas, além de contar com um arcabouço principiológico e metodológico próprio expresso no Modelo de Gestão para Monitoração Eletrônica de Pessoas Brasil, 2020 que orienta a política nacionalmente. 22 Por isso, é importante compreendermos os principais pontos de cada um desses documentos orientadores e leis nesse momento. Iniciaremos esse módulo com as leis que versam sobre a monitoração de forma direta e indireta. Em seguida, trataremos do aspecto principiológico da monitoração sublinhado no Modelo de Gestão. Finalmente, indicaremos pontos essenciais da Resolução CNJ nº 412/2021, Resolução CNPCP nº 31/2022 e a Recomendação CNPCP nº 3/2024. 2.1 A monitoração no ordenamento jurídico brasileiro No Brasil, no início dos anos 2000, mais especificamente em 2001, propostas legislativas começaram a ser apresentadas no Congresso Nacional com o objetivo de regulamentar a monitoração eletrônica de pessoas. Esse movimento surgiu, em grande medida, como uma tentativa de resposta à crescente crise de superlotação nos estabelecimentos prisionais, que já evidenciava a precariedade estrutural do sistema penitenciário nacional Mariath, 2009. O contexto à época viabilizou o debate sobre os primeiros projetos de lei relativos ao tema, notadamente ancorados na ideia da alegada “falênciaˮ do sistema prisional. Um dos intuitos era a busca de possibilidades para solucionar os problemas do universo prisional que, desde seus primórdios, viola o princípio basilar da Constituição Federal de 1988, seja qual for a dignidade da pessoa humana. Na narrativa que acompanhava essas iniciativas, destacava-se a promessa de redução de custos para o Estado e a possibilidade de promover a “reinserção socialˮ de pessoas em privação de liberdade que passariam a estar monitoradas eletronicamente. 23 No entanto, na prática, os resultados alcançados ficaram aquém do esperado. Longe de cumprir as metas declaradas, a monitoração eletrônica não se apresentou como uma possibilidade efetiva para frear o encarceramento em massa no Brasil, tampouco colaborou para processos de reintegração social de fato. 2.1.1 A Lei nº 12.258/2010 e o Decreto nº 7.627/2011 A primeira lei a regulamentar a monitoração eletrônica foi instituída em 2010 no Brasil. A Lei nº 12.258/2010 introduziu algumas possibilidades de aplicação da monitoração eletrônica: Saída temporária ao preso que estiver em cumprimento de pena em regime semiaberto (art. 146B, inciso II; Quando a pena estiver sendo cumprida em prisão domiciliar (art. 146B, IV. Ainda tímida e lacunosa, a lei supracitada não apresenta sequer o conceito da monitoração eletrônica. No ano seguinte, o Decreto nº 7.627/2011 que regulamenta a referida lei passa a estabelecer algumas diretrizes fundamentais para os serviços de monitoração eletrônica, destacando que os direitos e deveres das pessoas monitoradas devem ser claramente definidos e registrados em documento oficial. 24 Essa exigência visa garantir transparência e segurança jurídica, assegurando que todos os aspectos relacionados à medida sejam compreendidos pelas partes envolvidas. O decreto também indica quecabe aos órgãos de gestão penitenciária a responsabilidade pela administração, execução e fiscalização das medidas de monitoração, ressaltando a necessidade de equipes multidisciplinares para acompanhar de forma integral a aplicação da tecnologia. Nesse contexto, passa a ser essencial a articulação da monitoração eletrônica com os serviços da rede de proteção social. Essa integração tem como objetivo, entre outras coisas, mitigar práticas discriminatórias, abusivas e prejudiciais durante a execução da medida, ao mesmo tempo em que busca assegurar a manutenção e ampliação do acesso das pessoas monitoradas ao trabalho, à educação, à saúde e ao fortalecimento de vínculos sociais e comunitários. A legislação, ao definir essas diretrizes, reforça que a monitoração não pode limitar o direito da pessoa monitorada de exercer atividades laborais, educacionais ou de convivência comunitária, desde que estejam em conformidade com os requisitos da medida prescritos judicialmente. Igualmente, não deve haver punições, sanções ou exigências adicionais além daquelas previstas nas condições expressamente definidas para a monitoração pelo juízo. 25 A Central de Monitoração Eletrônica CME, portanto, é responsável por acompanhar a prescrição judicial de forma estrita. Os encaminhamentos realizados pelas equipes multidisciplinares são realizados para colaborar no cumprimento da medida e no acesso a direitos pelas pessoas monitoradas, sempre em caráter voluntário. Com isso, queremos dizer que as pessoas monitoradas ou as mulheres em situação de violência doméstica e familiar são encaminhadas para serviços da rede de forma voluntária. A CME não pode gerar deveres e obrigações que não estejam prescritos judicialmente. O decreto, igualmente, reconhece os impactos negativos da monitoração eletrônica, como os danos físicos, psicológicos e sociais, e por isso enfatiza que o uso dos dispositivos deve respeitar a integridade física, moral e social das pessoas monitoradas. Ademais, o documento sublinha a responsabilização direta dos gestores das Centrais de Monitoração e de seus funcionários no tratamento e manipulação dos dados pessoais gerados durante os serviços. Essas informações, que incluem dados de localização e rotina das pessoas monitoradas, são classificadas como sensíveis. Isso quer dizer que tais dados, se mal utilizados, podem levar à discriminação, à exposição ou a tratamentos degradantes das pessoas monitoradas, das mulheres em situação de violência doméstica que utilizam UPR e de terceiros que tenham seus dados coletados pelas Centrais. Tal abordagem reforça o compromisso que o Estado deve ter na garantia da proteção integral dos direitos humanos das pessoas monitoradas, assegurando que a tecnologia seja utilizada de forma ética e responsável. 26 2.1.1 A Lei nº 12.403/2011 Ampliando o escopo das hipóteses legais de aplicação da monitoração eletrônica, em 2011, a chamada Lei das Cautelares passa a prever a medida como uma possibilidade à prisão preventiva: I - comparecimento periódico em juízo, no prazo e nas condições fixadas pelo juiz, para informar e justificar atividades; II - proibição de acesso ou frequência a determinados lugares quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado permanecer distante desses locais para evitar o risco de novas infrações; III - proibição de manter contato com pessoa determinada quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado dela permanecer distante; IV - proibição de ausentar-se da Comarca quando a permanência seja conveniente ou necessária para a investigação ou instrução; V - recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga quando o investigado ou acusado tenha residência e trabalho fixos; VI - suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza econômica ou financeira quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais; VII - internação provisória do acusado nas hipóteses de crimes praticados com violência ou grave ameaça, quando os peritos concluírem ser inimputável ou semi-imputável (art. 26 do Código Penal) e houver risco de reiteração; VIII - fiança, nas infrações que a admitem, para assegurar o comparecimento a atos do processo, evitar a obstrução do seu andamento ou em caso de resistência injustificada à ordem judicial; IX - monitoração eletrônica. Lei nº 12.403/2011, Art. 319 27 É importante notar que as medidas cautelares diversas da prisão são ferramentas previstas na legislação que podem ser aplicadas isoladamente ou em conjunto, dependendo das especificidades de cada caso concreto. Dentro desse rol, a monitoração eletrônica é classificada como a última alternativa disponível, conforme estabelecido no dispositivo jurídico aplicável. Esse posicionamento reflete o entendimento de que a monitoração eletrônica deve ser utilizada de forma subsidiária e residual, sendo acionada somente após a análise de outras modalidades menos restritivas previstas em lei. Tal abordagem reforça seu caráter de instrumento complementar para evitar o encarceramento desnecessário e para lidar com o elevado número de pessoas em privação de liberdade provisória, conforme preconizado pela Resolução nº 213 do Conselho Nacional de Justiça 2015. Em suma, a monitoração eletrônica deve ser considerada apenas quando nenhuma outra medida cautelar menos gravosa se mostrar adequada ao caso. Nesse sentido, ela deve funcionar como uma alternativa ao cárcere, e não como uma forma de restringir liberdades que poderiam ser mantidas sem tal controle. Este princípio é fundamental para assegurar que a medida não seja empregada como um instrumento de ampliação do controle penal sobre indivíduos que poderiam permanecer em liberdade sem necessidade de monitoração. 28 Ademais, é importante observar que a utilização da monitoração eletrônica como medida cautelar ainda é limitada, tanto em termos quantitativos quanto em sua aplicação prática. Esse cenário reflete um potencial subaproveitado da ferramenta no contexto das medidas cautelares, como uma possibilidade de enfrentar os elevados índices de prisão provisória no país. Há maior aplicabilidade da medida no âmbito da execução penal. Ainda, é necessário ampliar a capacitação dos operadores do sistema de justiça para que a monitoração seja utilizada de forma estratégica, respeitando seu caráter excepcional e subsidiário. 2.1.3 A Lei nº 11.340/2006 Os usos cautelares da monitoração eletrônica são ampliados com o entendimento de que a medida é uma ferramenta capaz de reforçar a eficácia das medidas protetivas de urgência, sobretudo no que se refere à aproximação entre o autor e a mulher em situação de violência doméstica e familiar. Para serem efetivas, as medidas protetivas, além de apresentarem caráter cautelar, devem ter celeridade na sua aplicação, ampliando a eficácia das ações preventivas e restritivas quando o assunto é o fortalecimento da proteção às mulheres em situação de violência. Quando associada às medidas protetivas de urgência, a monitoração eletrônica permite um controle mais preciso da localização do autor de violência, utilizando tornozeleiras e, quando disponível no estado, a Unidade Portátil de Rastreamento UPR. Esse sistema possibilita a criação de áreas de exclusão fixas e dinâmicas, como o domicílio da mulher, que o monitorado não pode acessar. 29 Caso haja violação dessas áreas, a Central de Monitoração Eletrônica é acionada para adotar medidas necessárias com objetivo de garantir a segurança da mulher e o cumprimento das condições judicialmente impostas. Mesmo na ausência da UPR, as áreas de exclusão estabelecidas em juízo são fixadas e registradas no sistema, sendo possível o acompanhamento e a intervenção em casode incidentes que representem risco à integridade da mulher. Vale destacar! É fundamental destacar que o uso da UPR, embora possa ser um recurso complementar para as medidas protetivas de urgência, não deve ser de uso obrigatório. Com isso, queremos dizer que a recusa de seu uso não deve resultar em penalizações ou restrições de direitos, uma vez que a legislação não exige tal dispositivo para a efetivação das medidas protetivas. Isto é, o acompanhamento do cumprimento das condições estabelecidas pode ser realizado apenas com base no monitoramento do autor de violência, assegurando a proteção da mulher e respeitando sua autonomia na decisão de utilizar ou não equipamentos adicionais capazes de gerar áreas de exclusão dinâmicas que indicam – quase que em tempo real – a aproximação entre autor e ofendida. Cumpre ressaltar que, embora a monitoração eletrônica seja uma ferramenta importante, ela não resolve por si só as causas estruturais e relacionais das violências de gênero. Trata-se de uma medida que opera no âmbito do controle penal e não na resolução efetiva dos conflitos que originaram essas situações. 30 Atenção! O uso indiscriminado da monitoração pode agravar vulnerabilidades e até mesmo intensificar conflitos nas esferas doméstica e familiar. Sua aplicação sem a devida análise individualizada pode gerar impactos negativos, como restrições em atividades essenciais, incluindo saúde, trabalho e educação, comprometendo ainda mais a autonomia e a qualidade de vida das partes envolvidas. Nessa direção, é indispensável que o Sistema de Justiça adote uma abordagem calcada na análise dos casos concretos, promovendo a escuta das partes e o trabalho de equipes multidisciplinares para compreender a complexidade de cada situação específica. Relembrando, a monitoração deve ser aplicada apenas como última alternativa, quando outras medidas menos gravosas não forem viáveis. Finalmente, no âmbito da violência doméstica, é essencial assegurar o encaminhamento das mulheres para redes de proteção social e implementar práticas que promovam a responsabilização dos autores e o empoderamento das mulheres. O enfrentamento da violência de gênero requer mais do que controle punitivo da monitoração eletrônica, reverter quadros de violência doméstica e familiar demanda soluções integradas entre os entes estatais e diversos setores da sociedade que abordem suas raízes estruturais e relacionais. 31 2.1.4 A Lei nº 14.843/2024 Na contramão do que foi apontado até o momento em torno das leis que versam sobre a monitoração, direta ou indiretamente, a Lei nº 14.843/2024 pode ser lida como um retrocesso para a política nacional de monitoração eletrônica. Ela desconsidera os fundamentos da Lei de Execução Penal 1984 e as garantias da própria Constituição Federal 1988, bem como viola acordos internacionais sobre políticas penais e direitos humanos dos quais o Brasil é signatário. O caráter subsidiário da medida é deixado de lado, assim como o princípio da execução progressiva da pena: A noção de que o sistema progressivo integra a própria pena, bem como o entendimento de que a CRFB impõe a individualização judicial durante a execução foram afirmados, no bojo dos Tribunais Superiores, pelo julgamento do Habeas Corpus 82.959/SP, em que o STF declarou a inconstitucionalidade da vedação à progressão de regime constante da redação original da Lei dos Crimes Hediondos Lei 8.072/90. Assim, não resta dúvida acerca da patente inconstitucionalidade da Lei 14.843/2024, eis que resulta, ao igualar os regimes fechado e semiaberto, em frustrar a progressividade da pena. (...) Assim, quer do ponto de vista da política de segurança pública, quer do ponto de vista constitucional, a normativa impugnada é manifestamente equivocada, seja por vulnerar a segurança interna dos estabelecimentos penais, seja por ferir de morte a individualização da pena, a proporcionalidade e a dignidade humana IBCCRIM, 2024. 32 Além disso, a lei supracitada amplia as hipóteses de aplicação da monitoração, incorporando até mesmo o livramento condicional. Ao passo em que viola os dispositivos legais que regulamentam a execução penal no Brasil, bem como a Carta Magna, estão em curso quatro ações diretas de inconstitucionalidade sobre o tema – ADIs nº 7.663/DF, 7665/DF, 7672/DF e 7678/DF. Ou seja, a ADI é um instrumento jurídico interposto junto ao Supremo Federal que permite declarar, ou não, a inconstitucionalidade de uma lei ou ato normativo, uma vez que contraria a Constituição Federal. No caso em tela, “aguarda-se que a Corte Maior, ao enfrentar o tema, não se esqueça de seu papel contramajoritário na preservação da coerência sistêmica da Constituição Federal CRFB no que concerne à execução penal.ˮ IBCCRIM, 2024. 2.2 O Modelo de Gestão para a Monitoração Eletrônica de Pessoas O Modelo de Gestão para a Monitoração Eletrônica de Pessoas foi publicado em 2017 pelo extinto Departamento Penitenciário Nacional – hoje a Secretaria Nacional de Políticas Penais – em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, republicado pelas mesmas instituições e o Conselho Nacional de Justiça em 2020. O documento fundamenta a política nacional de monitoração eletrônica de pessoas, desenvolvida pela SENAPPEN e instituições afetas ao assunto no Brasil. Sua elaboração, entre os anos de 2015 e 2016, ocorreu em função da disciplina lacunosa e da inexistência de protocolos no âmbito da monitoração. A indução da política nacional necessitava de um instrumento orientador com profundidade principiológica e metodológica. 33 Nessa direção, o material trouxe o primeiro diagnóstico da monitoração, um retrato quantitativo e qualitativo nacional, além de direcionamentos principiológicos, metodológicos, focados na delimitação de competências e no estabelecimento de protocolos para os serviços, observando deveres e direitos das pessoas monitoradas e os papéis de cada um dos atores afetos ao assunto. A partir de então, a indução nacional dos serviços realizada pela SENAPPEN, passa a estar fundamentada no Modelo de Gestão Brasil, 2020, observando, igualmente, as especificidades de cada Unidade da Federação, mas sem perder de vista os horizontes delimitados no material. Em seguida, o Conselho Nacional de Justiça e o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, inspirados no documento supracitado, reforçam diretrizes e protocolos em normativos específicos, conforme trataremos a seguir. 2.3 Resoluções e recomendações 2.3.1 Resolução CNJ nº 412/2021 A Resolução CNJ nº 412/2021 estabelece diretrizes fundamentais para a aplicação e o acompanhamento da medida de monitoração eletrônica de pessoas. Sob a perspectiva do Conselho Nacional de Justiça, a normativa reforça a proteção dos direitos fundamentais, a segurança jurídica e a eficiência do sistema de justiça penal. Ainda, com base nos protocolos estabelecidos no Modelo de Gestão Brasil, 2020, são sintetizados procedimentos para o tratamento de incidentes durante a medida de monitoração. 34 Os protocolos para os serviços de monitoração eletrônica desempenham um papel crucial ao estabelecer padrões claros e consistentes para a aplicação e o acompanhamento da monitoração eletrônica. Eles garantem que as ações sejam realizadas de maneira uniforme, transparente e em conformidade com os direitos fundamentais das pessoas monitoradas. Além disso, os protocolos orientam a atuação das equipes multidisciplinares, promovendo uma gestão de incidentes orientada pela normalidade, proporcionalidade e legalidade em todas as fases da medida. Os protocolos buscam evitar intervenções punitivas desnecessárias, assegurando uma gestão gradativa e proporcional das situações que interfiramno cumprimento das medidas. O objetivo é promover a eficiência das ações, garantindo a manutenção das condições estabelecidas judicialmente sem gerar constrangimentos e violações desproporcionais. Essa padronização é essencial para fortalecer a segurança jurídica, minimizar erros operacionais e proteger os dados pessoais sensíveis, contribuindo para que a monitoração eletrônica seja uma ferramenta que não se resuma apenas ao controle penal, mas seja capaz, por meio das equipes multidisciplinares, de mobilizar inclusão social de forma alinhada aos princípios do Estado Democrático de Direito. 35 Cumpre sublinhar que a referida normativa fortalece igualmente o papel das equipes multidisciplinares, já indicado no Modelo de Gestão. Informa, portanto, que a atuação das equipes multidisciplinares é essencial para qualificar o acompanhamento das pessoas monitoradas. Composta por profissionais de diversas áreas, como Direito, Psicologia e Serviço Social, essas equipes são responsáveis por auxiliar o tratamento de incidentes, mobilizar a rede de proteção social e o cumprimento das medidas determinadas judicialmente. Essa abordagem promove não apenas o cumprimento técnico da monitoração, mas também a inserção social e o respeito aos direitos da pessoa monitorada. Outro aspecto primordial da resolução é a proteção de dados pessoais. Os dados coletados durante a monitoração são classificados como sensíveis e, portanto, sujeitos a padrões rigorosos de segurança, sigilo e uso adequado. O compartilhamento de informações, incluindo com órgãos de segurança pública, é restrito e depende de autorização judicial, salvo em situações excepcionais de risco iminente à vida. Além disso, é garantido o acesso pleno da pessoa monitorada aos seus dados, em conformidade com os princípios da transparência e do controle sobre informações pessoais. Por fim, a Resolução CNJ nº 412/2021 reforça o compromisso com uma política pública baseada em evidências e centrada na dignidade da pessoa monitorada. Ela busca equilibrar o controle penal – próprio da monitoração – com a inclusão social, contribuindo para a racionalidade do sistema de justiça e a prevenção de violações de direitos no contexto da monitoração eletrônica. 36 2.3.2 Resolução CNPCP nº 31/2022 A Resolução nº 31/2022, publicada pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária CNPCP, apresenta um marco normativo para a regulamentação da monitoração eletrônica no Brasil, abrangendo desde a implementação até o encerramento da medida. Essa normativa, desenhada no âmbito do Poder Executivo na figura no CNPCP, reforça o papel das Centrais de Monitoração Eletrônica, que são responsáveis pela gestão e acompanhamento dessas medidas. A resolução também busca padronizar os procedimentos em nível nacional, garantindo uniformidade e eficiência na execução das medidas. Entre os principais pontos abordados, destacam-se a definição das responsabilidades das Centrais de Monitoração, que incluem a instalação e supervisão dos dispositivos eletrônicos, bem como o acompanhamento regular das condições impostas judicialmente. Outro aspecto relevante é o papel atribuído às equipes multidisciplinares das Centrais, que devem oferecer suporte técnico e psicossocial às pessoas monitoradas, bem como encaminhá-las a redes de apoio social, quando necessário. Essas equipes também são responsáveis pela elaboração de relatórios circunstanciados e pela comunicação com o Poder Judiciário em casos de descumprimento das condições impostas, promovendo um fluxo contínuo de informação e acompanhamento integral da pessoa monitorada. Além disso, o documento aborda a utilização de dispositivos específicos para proteção de mulheres em situação de violência doméstica, as Unidades Portáteis de Rastreamento UPR, destacando a importância de garantir a segurança e evitar a revitimização. 37 2.3.3 Recomendação CNPCP nº 3/2024 A Recomendação nº 3, de 26 de março de 2024, publicada pelo Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, reforça a importância do uso da monitoração eletrônica como mecanismo para garantir a efetividade das medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha. Voltada para casos de violência doméstica e familiar contra mulheres, a recomendação destaca a necessidade de aprimorar o acompanhamento e a proteção das mulheres em situação de violência doméstica e familiar, buscando prevenir reincidências e ampliar a segurança. Entre os aspectos centrais, a recomendação propõe que, aplicadas as medidas protetivas previstas no artigo 22, incisos II e III, da Lei nº 11.340/2006, o autor seja submetido à monitoração eletrônica. A medida deve ser fundamentada e embasada no Formulário Nacional de Avaliação de Risco, garantindo a individualização das condições, como delimitação de áreas de inclusão e de exclusão, além de horários específicos. Adicionalmente, sugere a disponibilização de Unidades Portáteis de Rastreamento UPR para as mulheres em situação de violência doméstica e familiar, criando áreas de exclusão dinâmica para aumentar a proteção e evitar novos atos de violência. 38 A recomendação também orienta que as Centrais de Monitoração Eletrônica priorizem o tratamento de incidentes nos casos envolvendo violência doméstica. Essas diretrizes incluem a articulação com redes de proteção social e forças de segurança para mitigar riscos à integridade física, psicológica, ou moral, das mulheres em situação de violência doméstica e familiar. Em casos de descumprimento das medidas, a autoridade judiciária deve ser prontamente informada, permitindo a designação de audiência com o autor para avaliação e adequação da resposta judicial. A recomendação busca, assim, um equilíbrio entre a eficácia na proteção das mulheres em situação de violência doméstica e familiar e a adequação das medidas às circunstâncias de cada caso, promovendo a prevenção de feminicídios e demais formas de violência de gênero. Em conjunto, esse conjunto de leis e normativas formam uma estrutura que regula a aplicação da monitoração eletrônica no Brasil, buscando equilibrar noções atreladas ao cumprimento de deveres e garantia de direitos fundamentais das pessoas monitoradas. Embora fundada em um conjunto de normativas legais e infralegais, a medida ainda enfrenta desafios significativos para alcançar todo o seu potencial como alternativa ao encarceramento e ferramenta de proteção no âmbito da violência doméstica. 39 As legislações e resoluções apresentadas demonstram avanços importantes na regulamentação e na integração de princípios, mas apontam a necessidade de uma aplicação criteriosa, subsidiária e contextualizada, sempre respeitando os direitos fundamentais e as especificidades de cada caso. O fortalecimento das Centrais de Monitoração Eletrônica, a atuação de equipes multidisciplinares e a integração com redes de proteção social são elementos indispensáveis para que a medida se afirme como um mecanismo eficaz, não somente no campo do controle penal, mas também na promoção de direitos. O uso ético e responsável da tecnologia, aliado à capacitação contínua dos operadores do sistema de justiça, é essencial para evitar distorções e ampliar a efetividade da política de monitoração eletrônica no país, garantindo que ela esteja sempre alinhada aos preceitos constitucionais e às diretrizes internacionais de direitos humanos. 40 Módulo 3 - Metodologia de acompanhamento da monitoração eletrônica no Brasil Olá, cursista! Neste módulo 3, vamos nos dedicar à compreensão de uma etapa essencial dos serviços: a metodologia de acompanhamento na monitoração eletrônica no Brasil. Veremos que essa metodologia desempenha um papel crucial na estruturação e na efetividade da monitoração,entendendo-se que o acompanhamento integral das pessoas monitoradas, com base em protocolos, é fundamental. Esta abordagem metodológica busca não apenas favorecer o cumprimento das condições impostas judicialmente, mas também garantir o respeito aos direitos fundamentais das pessoas monitoradas, contribuindo para o cumprimento da medida com foco em deveres e direitos fundamentais. O que realmente muda o comportamento são os fatores motivacionais, como diversão e aventura, orgulho e realização, reconhecimento, carinho. (...) Infelizmente, a tecnologia eletrônica foi para a punição em vez do uso de reforço positivo Gable apud Anderson, 2014. 14 4 Traducao livre da autora 41 O acompanhamento inclui diversas etapas que iremos descrever de forma sucinta, como o acolhimento inicial, a análise de incidentes e as visitas residuais para tratamento de incidentes. Ao estabelecer uma estrutura gerencial e administrativa que envolve o Poder Executivo, a Justiça Criminal e a rede de proteção social, a metodologia visa facilitar a articulação entre os atores envolvidos, permitindo um acompanhamento contínuo e integral da pessoa monitorada. O acompanhamento orientado por protocolos visa, portanto, a qualificação do serviço, oferecendo um sistema de monitoração que abarca tanto a noção do controle penal – própria da medida – quanto a prerrogativa do acesso a direitos das pessoas monitoradas para uma prestação jurisdicional alinhada com os princípios do Estado Democrático de Direito. 3.1 Como são estruturados os serviços de monitoração? Como já vimos no módulo anterior, a monitoração eletrônica é uma imposição, uma prescrição judicial que encontra respaldo no ordenamento jurídico brasileiro. Portanto, todos os serviços de acompanhamento, que são de responsabilidade do Poder Executivo estadual, não podem impor condições que não tenham sido prescritas pelo juízo. Todo o trabalho de acompanhamento da medida deve ser orientado por cada decisão judicial, que apresenta, por sua vez, regras específicas de acordo com cada indivíduo monitorado. 42 Uma vez que a medida de monitoração existe enquanto imposição judicial, cabe ao Poder Executivo estadual, na figura das Centrais de Monitoração Eletrônica – CMEs – realizar o acompanhamento da medida através de metodologia específica. Vamos sintetizar algumas etapas principais dessa metodologia, compreendendo a necessidade de, ao seguir os horizontes delineados pela política nacional de monitoração eletrônica, também compreender a importância de permanentes avanços, estudos e aprimoramentos orientados pelos arranjos empíricos. 3.2 A Central de Monitoração Eletrônica – acompanhamento da medida judicial As Centrais de Monitoração Eletrônica CMEs no Brasil desempenham papel fundamental no acompanhamento das medidas de monitoração eletrônica no âmbito do Poder Executivo. As CMEs são estruturas especializadas responsáveis pela operacionalização e acompanhamento das medidas de restrição de liberdade que utilizam dispositivos eletrônicos, as tornozeleiras, garantindo o monitoramento contínuo em prol da efetividade das determinações judiciais. De acordo com o Modelo de Gestão para Monitoração Eletrônica de Pessoas Brasil, 2020, as CMEs possuem atribuições abrangentes que incluem instalação, manutenção e substituição dos equipamentos de monitoração eletrônica, bem como o tratamento de incidentes relacionados às medidas aplicadas. Sua atuação é norteada por princípios que visam a proteção dos direitos fundamentais das pessoas monitoradas, como a dignidade humana, a legalidade, o menor dano, a normalidade e a transitoriedade da medida . 43 As metodologias empregadas nas centrais devem priorizar ações de caráter educativo voltadas para a aderência à medida pela pessoa monitorada, compreendendo, igualmente, o acompanhamento por equipes multidisciplinares. Essa abordagem é essencial para o cumprimento das medidas e elaboração de subsídios técnicos pelas equipes multidisciplinares para eventuais ajustes a serem realizados pelo juízo para que a pessoa monitorada possa ter uma vida cada vez mais próxima da normalidade. As CMEs também desempenham um papel central na articulação com a rede de proteção social e no encaminhamento de pessoas monitoradas para serviços da rede de proteção social e demais serviços públicos existentes. Este processo inclui o desenvolvimento de protocolos de acolhimento e acompanhamento, considerando as necessidades específicas de cada indivíduo monitorado . Ainda, é importante lembrar que todos os encaminhamentos realizados pelas CMEs são realizados de forma voluntária. A pessoa monitorada não pode sofrer sanções ou punições pela central caso opte por não ser encaminhada para serviços públicos, atividades ou afins durante o cumprimento da medida de monitoração: A Central deve trabalhar em função de seu principal sujeito – a pessoa monitorada. É fundamental assegurar que os serviços sejam executados para que a pessoa monitorada tenha conhecimento de seus direitos e deveres, permitindo entendimento integral sobre a medida e amplas condições de cumpri-la BRASIL, 2020, p. 140. 44 Com isso, reforçamos que os encaminhamentos realizados pelas CMEs são de caráter voluntário, não obrigatório. A pessoa monitorada apenas está condicionada a seguir a prescrição judicial. Por outro lado, os encaminhamentos realizados ao longo da medida viabilizam o acesso a direitos, o que potencializa o regular cumprimento da monitoração, sendo fundamentais para a qualificação dos serviços. Há uma multiplicidade de arranjos organizacionais em torno das Centrais. Nesse contexto, é fundamental que a equipe de monitoramento trabalhe em proximidade e harmonia com a equipe multidisciplinar – composta por assistentes sociais, profissionais do direito e psicólogos – que atua na Central. Esse alinhamento é indispensável, pois o serviço oferecido demanda uma atenção qualificada ao público, caracterizado por diversas vulnerabilidades acrescidas e sobrepostas. Por outro lado, tanto a equipe de monitoramento, quanto a equipe multidisciplinar apresentam natureza e atribuições distintas. O objetivo é que as pessoas monitoradas se sintam incentivadas a comparecer à Central para receber atendimento, quando necessário, promovendo a criação de vínculos essenciais tanto para o pleno cumprimento da medida quanto para sua adesão aos encaminhamentos sociais. Em síntese, o propósito do serviço é garantir o acompanhamento e o atendimento da pessoa monitorada, facilitando a formação ou o restabelecimento de vínculos, e viabilizando a execução adequada da medida judicial, o que pode - e deve - incluir ajustes, de acordo com o princípio da normalidade. Nessa direção, a instalação de serviços de monitoração eletrônica em unidades prisionais ou Centros Integrados de Comando e Controle CICC, devido à sua característica de acesso limitado e à predominância de forças policiais, compromete a efetividade da implementação adequada das Centrais. Sublinhamos que a CME não deve ser a reprodução de uma unidade prisional, uma vez que o foco deve ser a manutenção da medida que consiste em vigilância e controle penal, todavia em meio aberto. 45 Resumidamente, quando um magistrado determina a monitoração eletrônica, existe o entendimento de que essa pessoa pode estar em meio aberto. Ela atende a critérios objetivos para estar em meio aberto, ainda que com restrições de acesso a locais e horários de recolhimento específicos. O pressuposto é a liberdade vigiada, e não o contrário. O aprisionamento não é um indicador de sucesso de uma CME. Por isso, os setores da CME devem desenvolver esforços conjuntos para viabilizar o cumprimento da medida aplicada judicialmente, fornecendo subsídios técnicos elaborados pelas equipesmultidisciplinares para eventuais ajustes judiciais que viabilizem uma vida mais próxima possível da normalidade. Em termos de infraestrutura, as Centrais são organizadas em setores especializados que devem trabalhar de modo integrado para assegurar a efetividade das medidas judiciais de forma combinada com a garantia de direitos das pessoas monitoradas. Portanto, os inúmeros arranjos de centrais existentes devem permitir que a equipe de monitoramento esteja próxima e alinhada com a equipe multiprofissional – assistentes sociais, bacharéis em direito e psicólogos. Busca-se, assim, que as pessoas monitoradas se sintam encorajadas a ir à Central para o atendimento, quando necessário, propiciando a criação de vínculos que são essenciais, tanto para o integral cumprimento da medida, como para a adesão aos encaminhamentos. Em suma, a finalidade do serviço é de atendimento e acompanhamento da pessoa monitorada para permitir a formação/ restauração de vínculos e o adequado cumprimento da medida. 46 3.3 Procedimentos do acompanhamento da medida de monitoração eletrônica Até o momento, vimos que a monitoração eletrônica é uma imposição judicial que deve ser acompanhada pelo Poder Executivo estadual, na figura das centrais de monitoração eletrônica. E como ocorre esse acompanhamento? A seguir, temos sintetizados os principais procedimentos indicados pela política nacional de monitoração. É preciso nos atentar para o fato de que cada unidade federativa, comarca ou mesmo município, pode apresentar múltiplos arranjos, propiciando novos formatos ajustados à realidade empírica de cada localidade: ● Sensibilização e encaminhamento pelo Judiciário para comparecimento à Central; ● Primeiro atendimento; ● Acolhimento; ● Estudo de caso; ● Encaminhamentos; ● Retornos/Atendimentos de rotina; ● Tratamento de incidentes; ● Tratamento de incidentes nos casos de medidas protetivas de urgência; ● Ajustamento de cumprimento da medida; ● Descumprimentos; ● Relação com o Sistema de Justiça Criminal; ● Relação com Sistema de Segurança Pública; ● Gestão da informação. 47 3.3.1 Sensibilização e encaminhamento pelo Judiciário para comparecimento à Central A monitoração eletrônica implica o comparecimento da pessoa à Central para instalação da tornozeleira. Em casos envolvendo medida aplicada após audiência de custódia, a instalação do equipamento individual de monitoração eletrônica e o cadastramento da pessoa no sistema de monitoramento (primeiro atendimento) podem ser realizados nas dependências do Fórum. Esse procedimento economiza recursos com escolta, custódia, e agiliza as demais etapas do serviço de monitoração eletrônica. Por outro lado, é indicado que os demais atendimentos da monitoração sejam realizados na CME, espaço este que deve estar em localidade central com ampla oferta de serviços de transporte público, como já vimos no item anterior do módulo. O comparecimento inicial à Central favorece o acesso a demais serviços, assim como atendimento especializado à pessoa monitorada pelas equipes multidisciplinares. Os serviços de monitoração devem primar pela manutenção da medida judicial, considerando também as demandas emergenciais da pessoa monitorada e a necessidade de inclusão em políticas públicas, bem como orientações e suporte adequados à pessoa monitorada. 3.3.2 Primeiro atendimento O primeiro atendimento envolve a instalação da tornozeleira, cadastro no sistema, agendamento do acolhimento na Central, e possíveis encaminhamentos emergenciais, conforme necessidade. Esses procedimentos devem ser realizados, preferencialmente, logo após a audiência que determinou a medida. Durante esta etapa, profissionais capacitados devem orientar verbalmente e por escrito a pessoa monitorada sobre o uso da tornozeleira, entregar o carregador, e formalizar o “Termo de Uso do Equipamento Individual de Monitoração Eletrônica .ˮ 48 O cadastro no sistema deve incluir as condições determinadas pela decisão judicial, bem como dados opcionais de contatos próximos para o tratamento de eventuais incidentes. Informações sobre tratamento e proteção de dados pessoais devem ser fornecidas, e um termo específico sobre o assunto deve ser assinado com a anuência da pessoa monitorada. Além das orientações técnicas, o profissional responsável deve garantir o entendimento da pessoa sobre as condições e restrições impostas pela medida. 3.3.3 Acolhimento É recomendado que o acolhimento seja realizado no dia seguinte à audiência que determinou a medida de monitoração eletrônica. Conduzido por uma equipe multidisciplinar, esse processo funciona como um espaço de escuta e avaliação de aspectos físicos, sociais e psicológicos, bem como do entendimento da medida imposta. Durante o acolhimento, são identificadas demandas específicas, como a inclusão em serviços públicos. Também são identificados fatores de interferência secundários que possam impactar o cumprimento da medida, como residência em locais com sinal GPS ou de telefonia instável e fornecimento irregular de energia elétrica. Essas informações são registradas e devem orientar o acompanhamento, a inclusão social e o tratamento de incidentes, respeitando a rotina da pessoa monitorada. Caso se verifique a inadequação da medida ou de alguma condicionalidade imposta, a equipe multidisciplinar deve fornecer tais subsídios ao juízo para reavaliação da monitoração. 49 A abordagem integral adotada no acolhimento busca compreender o estado emocional, as condições sociais e as relações interpessoais da pessoa monitorada, promovendo uma relação de confiança entre ela e a equipe. O processo também visa sanar dúvidas jurídicas, superar resistências ao cumprimento da medida e construir vínculos que incentivem a adesão. Além disso, pode-se agendar atendimentos específicos fora das determinações judiciais, caso necessário, e de forma voluntária. As informações sensíveis obtidas no acolhimento devem ser mantidas em sistemas seguros e com acesso restrito, conforme as diretrizes de proteção de dados expressas no Modelo de Gestão. 3.3.4 Estudo de casos Recomenda-se que as Centrais de Monitoração Eletrônica realizem estudos de casos periodicamente, promovendo um olhar interdisciplinar para definir estratégias de acompanhamento, abordagens e encaminhamentos apropriados. Esses encontros devem incluir parceiros das redes de proteção, representantes do Sistema de Justiça Criminal e Instituições de Segurança Pública, quando necessário, para tratar de demandas específicas. Além disso, é essencial que as redes mantenham encontros regulares, com a participação ativa da Central, fortalecendo os vínculos, articulações e o impacto desses espaços no acompanhamento das pessoas monitoradas. 3.3.5 Encaminhamentos As equipes multidisciplinares devem avaliar, durante o acolhimento e ao longo do acompanhamento, se a monitoração eletrônica é plenamente compatível com as condições da pessoa monitorada. Aspectos como horários, trabalho, saúde, crença religiosa e estudo devem ser analisados. Caso sejam identificadas incompatibilidades, a equipe multidisciplinar deve elaborar um relatório ao Juiz, fornecendo subsídios técnicos para que o juízo possa ajustar condições ou mesmo aplicar outra medida. 50 As equipes multidisciplinares realizam encaminhamentos baseados nas demandas da pessoa monitorada, como acesso a serviços públicos. Esses encaminhamentos devem ser voluntários, com sensibilização e consentimento da pessoa, visando minimizar vulnerabilidades sociais e criminais. Após o encaminhamento, a equipe deve acompanhar se o serviço foi acessado, entender os motivos de eventual recusa e avaliar como a pessoa foi acolhida, garantindo um suporte contínuo e efetivo. 3.3.6 Retornos/Atendimentos de rotina