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FORMAÇÃO DO CONTRATO - Importância da determinação do momento da formação do contrato: é de suma importância se aferir o momento exato em que o contrato esteja formado para efeito de: - Capacidade das partes: Analisar se as partes eram capazes de contratarem. - Normas reguladoras: Estabelecer as normas vigentes em relação ao contrato. - Competência judicial: Estabelecer a competência para julgar litígios derivados do contrato. - Riscos e danos da coisa : Estabelecer o termo para a responsabilidade pelos riscos e perdas da coisa alienada. - Arrependimento: em regra, é possível antes da formação do contrato. - REQUISITOS: O mecanismo de formação do contrato compõem-se de declarações convergentes de vontades emitidas pelas partes. Para a perfeição do contrato, requerem-se: em primeiro lugar, a existência de duas declarações, cada uma das quais, individualmente considerada, há de ser válida e eficaz; em segundo lugar, uma coincidência de fundo entre as duas declarações. (...). Há contratos que não se formam com o só simples consentimento das partes. Tais são, por exemplo, o depósito, o empréstimo, que só se tornam perfeitos e acabados com a entrega da coisa por uma das partes à outra. Outros requerem forma solene para o acordo de vontade, não valendo, se preterida. (Orlando Gomes). Forma de exteriorização das vontades: Salvo quando a lei estabelecer a necessidade de ser expressa, a manifestação da vontade pode ser tácita, desde de que inequívoca. - Não é mister que o agente faça uma declaração formal, por meio da palavra escrita ou falada, pois é suficiente que se possa traduzir o seu querer por uma atitude inequívoca, evidente e certa, de modo expresso, quando os contraentes se utilizam de qualquer veículo para exteriorizar sua vontade, seja verbalmente, usando a palavra falada, seja por mímica, exprimindo-se por um gesto tradutor de seu querer, como por ex., em um leilão... (Maria H. Diniz). FASES DA FORMAÇÃO DO CONTRATO: O contrato nasce através da conjugação de duas ou mais vontades, mas apresenta várias fases para que atinja este momento e seja considerado perfeito e acabado: a) “negociações preliminares” (conversações, estudos, puntuação): se referem aos primeiros entendimentos, mas ainda não há uma manifestação efetiva das vontades, retratadas pela oferta e aceitação. Desistência: Em regra, a desistência do contratante nesta fase não gera qualquer responsabilidade, salvo se ficar comprovada a deliberada intenção de prejudicar o outro contratante (ex: perda de outro negócio, realização de despesas etc), o que caracteriza um ilícito civil (art. 186 do CC) e gera a responsabilidade aquiliana, principalmente quando caracterizar a ofensa ao princípio da boa-fé. Não obstante faltar-lhe obrigatoriedade, pode surgir responsabilidade civil para os que participam das negociações preliminares, não no campo da culpa contratual, porém da aquiliana, somente no caso de um deles induzir no outro a crença de que o contrato será celebrado, levando-o a despesas ou a não contratar com terceiro etc. e depois recusar, causando-lhe dano. (Caio Mário da Silva Pereira) -Acordos parciais Das negociações preliminares as partes podem passar à minuta (puntuazione, como preferem os italianos), reduzindo a escrito alguns pontos constitutivos do conteúdo do contrato (cláusulas ou condições) sobre os quais já chegaram a um acordo, para que sirva de modelo ao contrato que depois realizarão, mesmo que nem todos os detalhes tenham sido acertados. Ainda assim não se tem vínculo jurídico entre as partes. Somente se obtiver o completo acordo sobre todos os pontos essenciais da relação contratual é que surgirá o contrato: portanto, acordos parciais, que forem eventualmente estabelecidos, carecem de valor e de obrigatoriedade. (Maria H. Diniz). b) Proposta: É a oferta realizada e, em regra, vincula o proponente (ofertante, policitante). c) Aceitação: É a concordância do aceitante (oblato, solicitado) com os termos da proposta. PROPOSTA –(OFERTA, POLICITAÇÃO) - CONCEITO: proposta, oferta ou policitação é uma declaração receptícia de vontade, dirigida por uma pessoa a outra (com quem pretende celebrar um contrato), por força da qual a primeira manifesta sua intenção de se considerar vinculada, se a outra parte aceitar (Orlando Gomes). NATUREZA JURÍDICA – É um negócio jurídico receptício, porque somente gera efeitos próprios quando ocorre a aceitação do oblato. REQUISITOS: “ a proposta deve conter todos os elementos essenciais do negócio proposto, como preço, quantidade, tempo de entrega, forma de pagamento etc. Deve também ser séria e consciente, pois vincula o proponente (CC, art. 427). Deve ser, ainda, clara, completa e inequívoca, ou seja, há de ser formulada em linguagem simples, compreensível ao oblato, mencionando todos os elementos e dados do negócio necessários ao esclarecimento do destinatário e representado a vontade inquestionável do proponente”. (Carlos R. Gonçalves). Seriedade da proposta: “Meras conjecturas ou declarações jocosas não traduzem proposta juridicamente válida e exigível” (Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona). EFEITOS DA PROPOSTA: Desde de que séria e consciente, a proposta vincula o proponente (policitante). Todavia, a vinculação não existirá se: - existir cláusula expressa afastando a vinculação: quando o proponente reserva expressamente o direito de desistência. Na prática, normalmente se utilizam as expressões: “proposta sujeita a confirmação”, “salvo confirmação”, “sem compromisso” ou “não vale como proposta”. - Natureza do negócio: algumas espécies de oferta, pela própria natureza do negócio, não vinculam o policitante de forma absoluta, ex: proposta de liquidação de mercadoria limitada ao estoque existente. - Circunstância do caso: Embora prevista de certa forma no art. 428, a hipótese é genérica e admite outras formas de exclusão da obrigatoriedade da proposta, conforme o caso concreto. DESISTÊNCIA DA PROPOSTA: obriga o proponente (policitante) a responder pelo pagamento de perdas e danos, com exceção das seguintes hipótese previstas pelo art. 428: . I - se, feita sem prazo a pessoa presente, não foi imediatamente aceita. Considera-se também presente a pessoa que contrata por telefone ou por meio de comunicação semelhante; Contrato entre presentes: é aquele em que o contratante recebe pessoalmente, ou por representante, a oferta do policitante ou de seu representante, mesmo que não esteja no mesmo local deste e que a receba através de qualquer meio de comunicação que permita o contato direto (ex: telefone). Para que seja caracterizado desta maneira é necessário : - a presença jurídica (não necessariamente física) das partes - a transmissão direta das vontades - aceitação imediata do oblato. Contrato entre ausentes: é aquela que não recebe a proposta de forma direta e pessoal (ex: através de corretor, via correspondência, telegrama). Também será considerado entre ausentes se a proposta for realizada de forma pessoal, mas a aceitação for de forma indireta (por ex: por carta). Ausência de aceitação imediata: uma vez realizada a proposta, sem prazo de validade, e inexistindo aceitação imediata, poderá o proponente desistir da oferta. “É pegar ou largar, e se o oblato não responde logo, dando pronta aceitação, caduca a proposta, liberando-se o proponente” (Caio M da S. Pereira). Contato pela Internet: “estando ambas em contato simultâneo, a hipótese merece o mesmo tratamento jurídico conferido às propostas feitas por telefone, por se tratar de comunicação semelhante, só se tornando obrigatória a policitação se for imediatamente aceita. Todavia, o mesmo não deve suceder com a proposta feita por via e-mail, não estando ambos os usuários da rede simultaneamente conectados” (Carlos R. Gonçalves). II - se, feita sem prazo a pessoapermanecer na qualidade de contratante. Aquele que aceita o pacto é denominado promitente. CARACTERÍSTICA: é a indeterminação que durante algum tempo se mantém quanto a uma das partes. No momento da estipulação, subsiste um estado de incerteza quanto à parte contratante. (Sílvio Venosa). UTILIDADE PRÁTICA: Trata-se de avença comum nos compromissos de compra e venda de imóveis, nos quais o compromissário comprador reserva-se a opção de receber a escritura definitiva ou indicar terceiro para nela figurar como adquirente. A referida cláusula é denominada “pro amico eligendo ou sibi aut amico vel eligendo” (grifei). Tem sido utilizada para evitar despesas com nova alienação, nos casos de bens adquiridos com o propósito de revenda, com a simples intermediação do que figura como adquirente. (Carlos R. Gonçalves). Apesar da maior aplicação nos contratos de compra e venda, o instituto pode ser utilizado em qualquer contrato, com exceção de eventual incompatibilidade (ex: contrato personalíssimo). PRAZO PARA INDICAÇÃO DO NOMEADO: se o contrato for omisso, o promittens deve ser comunicado no prazo de cinco dias sobre a definição do nomeado. FORMA E EFEITO DA ACEITAÇÃO: A aceitação deve ser realizada da mesma forma utilizada para a celebração do contrato e, uma vez realizada, faz com que o nomeado (electus) seja titular dos direitos perante o promittens, liberando-se o indicante (stipulants), possuindo assim efeito ex tunc. VINCULAÇÃO DOS CONTRATANTES ORIGINÁRIOS: Eventualmente o contrato não atingirá terceiros, como nos casos previstos pelo art. 470 e 471. - percebe-se que o negócio é aleatório, o indicante aceita o risco da insolvência do indicado e, diante do princípio da boa fé, a cláusula da responsabilidade pela idoneidade do indicado está ínsita contratualmente, por isso quem nomeia terceiro responderá se este for inidôneo ou insolvente. (Maria H. Diniz). Diferenças em relação a outros institutos: - Estipulação em favor de terceiro: se assemelha porque envolve a extensão dos efeitos do contrato a um terceiro, porém, neste o estipulante e o promitente permanecem vinculados à relação contratual o tempo todo, enquanto que no contrato com pessoa a declarar o estipulante é substituído pelo nomeado, que passa a figurar na posição de contratante retroativamente ao momento de formação do contrato. Na estipulação o terceiro aufere apenas benefícios, já na declaração assume os direitos e obrigação de um dos contratantes. Cessão de contrato: ambos representam a substituição de um dos contratantes por outra pessoa, mas na cessão a substituição ocorre posteriormente à formação do contrato e de forma ex nunc, no contrato com pessoa a declarar a cessão da posição é previamente prevista e o terceiro assume a condição de contratante de forma retroativa (ex tunc). JURISPRUDÊNCIA– EFEITOS CONTRATUAIS A TERCEIROS - Estipulação em favor de terceiro DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE INDENIZAZÃO. ACIDENTE DE VEÍCULO. DEMANDA PROPOSTA DIRETAMENTE CONTRA A SEGURADORA. POSSIBILIDADE. ESTIPULAÇÃO EM FAVOR DE TERCEIRO. RELAÇÃO JURÍDICA DE DIREITO MATERIAL APTA A LEGITIMAR PASSIVAMENTE A SEGURADORA.PEDIDO FORMULADO PELO AUTOR NÃO ABRANGIDO NO CONTRATO DE SEGURO. NÃO CONHECIMENTO, PENA DE SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E NESSA PARTE DESPROVIDO. 1. A jurisprudência hodierna já firmou entendimento de que pode a vítima em acidente de veículos ajuizar ação, também, diretamente contra a seguradora, sendo irrelevante que o contrato envolva apenas segurado e seguradora. 2. Ao prever o contrato a indenização devida por "danos pessoais a terceiros", a seguradora e o segurado estipularam, a rigor, uma vantagem patrimonial em favor de terceiro, pessoa indeterminada no momento da celebração do ajuste, porém determinável quando da ocorrência do sinistro. Na espécie, o veículo segurado envolveu-se em acidente e neste instante, identificou-se o "terceiro" previsto no instrumento contratual de seguro. 3. como em agravo de instrumento somente é permitida a análise do despacho combatido, não cabe analisar a existência ou não de previsão de cobertura no contrato de seguro dos pedidos formulados pelo autor. O exame desta questão compete ao MM. Juiz a quo quando no julgamento do mérito da ação de indenização, sob pena de supressão de instância. 4. Agravo de instrumento conhecido e desprovido. (TJ-PR - AI: 2808806 PR Agravo de Instrumento - 0280880- 6, Relator: Macedo Pacheco, Data de Julgamento: 10/03/2005, 19ª Câmara Cível, Data de Publicação: 08/04/2005 DJ: 6844) - Promessa de fato de terceiro OBRIGAÇÃO DE FAZER - CONTRATO DE PERMUTA DE VEÍCULOS - DOCUMENTAÇÃO - TRANSFERÊNCIA -DETRAN - VEÍCULO EM NOME DE TERCEIRO -ILEGITIMIDADE DE PARTE - INOCORRENCIA - PROMESSA DE FATO DE TERCEIRO INERENTE AO NEGÓCIO -VALIDADE - EXEGESE DO ART. 439, DO CÓDIGO CIVIL 1. Ocorrida permuta de veículos, com obrigação pessoal de transferir a documentação para o nome do adquirente, é legítima a parte que se obrigou a fazê-lo, ainda que para tal transferência seja necessário o concurso de terceiro, em cujo nome ainda se encontra a documentação do veículo e o registro na repartição de trânsito.2. É válida a obrigação onde se assumiu fato de terceiro,consistente em obter a transferência para o nome do adquirente da documentação do veículo que se encontra em nome de terceiro, nos termos do art 439, do Código Civil. (TJ-SP - SR: 1182040007 SP , Relator: Fábio Rogério Bojo Pellegrino, Data de Julgamento: 01/07/2008, 31ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 10/07/2008) - Contrato com pessoa a declarar CONTRATO COM PESSOA A DECLARAR. SOCIEDADE A SER CONSTITUIDA. TITULARIDADE DA LOCACAO. ILE GITIMIDAE ATIVA RECONHECIDA. Estabelecendo o contrato, que locataria seria a Apelante, ou firma que viesse a ser organizada e da qual participasse a recorrente ou seu socio-gerente, com a constituição dessa novel sociedade, que passou a explorar o imovel locado, tornou-se esta a titular da locacao em tela, estando, pois, legitimada a propor a renovatoria. A legitimidade extraordinaria e concorrente da ora Apelante, nos termos da Lei Inquilinaria (art. 51, inciso 2), so se verificaria, se ela participasse dessa novel sociedade, o que nao ocorreu na especie, nao sendo, assim, legitimada a propor este pleito - Ilegitimadade ativa reconhecida, com a extincao do processo - Desprovimento do recurso. (TJ-RJ - APL: 00033321519968190000 RJ 0003332-15.1996.8.19.0000, Relator: DES. JOAO CARLOS PESTANA DE AGUIAR SILVA, Data de Julgamento: 07/05/1996, SÉTIMA CAMARA CIVEL, Data de Publicação: 20/08/1996 10:30) ESTIPULAÇÃO EM FAVOR DE TERCEIRO – SEGURADORA – NOVA POSIÇÃO DO STJ A ministra Nancy Andrighi, Recurso Especial nº 1.245.618 - RS (2011/0065463- 7), relatou e decidiu que: “CIVIL E PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. INDENIZAÇÃO SECURITÁRIA. AÇÃO PROPOSTA DIRETAMENTE EM FACE DA SEGURADORA SEM QUE O SEGURADO FOSSE INCLUÍDO NO POLO PASSIVO. LEGITIMIDADE. (...) 3. A interpretação do contrato de seguro dentro de uma perspectiva social autoriza e recomenda que a indenização prevista para reparar os danos causados pelo segurado a terceiro seja por este diretamente reclamada da seguradora. 4. Não obstante o contrato de seguro ter sido celebrado apenas entre o segurado e a seguradora, dele não fazendo parte o recorrido, ele contém uma estipulação em favor de terceiro. E é em favor desse terceiro – na hipótese, o recorrido – que a importância segurada será paga. Daí a possibilidade de ele requerer diretamente da seguradora o referido pagamento. 5. O fato de o segurado não integrar o pólo passivo da ação não retira da seguradora a possibilidade de demonstrar a inexistência do dever de indenizar. 6. Recurso especial conhecido em parte e, nessa parte, não provido”. Entenda o caso: Trata-se de uma ação de cobrança de indenização securitária e compensaçãopor danos morais por pessoa que não é parte do contrato de seguro (beneficiário). Aduziu o autor, em síntese, que seu táxi foi batido por automóvel segurado, razão pela qual o conserto teria sido pago pela seguradora, mas, sendo o veículo de praça (taxi), o autor também deveria receber valor correspondente aos lucros cessantes, além de compensação por danos morais sofridos. A seguradora aduziu em sua defesa, preliminarmente, a ilegitimidade ativa do autor e a sua ilegitimidade passiva, sob o fundamento de que não poderia ser demandada diretamente pelo terceiro prejudicado, pois sua relação jurídica era estabelecida unicamente com o segurado. No mérito, impugnou outros pontos. A ação foi julgada parcialmente procedente, tendo sido afastadas as preliminares de ilegitimidade. As partes interpuseram apelação, na parte que sucumbiram. O acórdão deu parcial provimento ao recurso do autor (majoração de valores) e negou provimento ao da ré (preliminar de ilegitimidade). Foi interposto recurso especial pela seguradora, com base na violação dos seguintes dispositivos legais: arts. 3º; 267, VI e § 3º, do CPC e art. 787 do Código Civil, sob o fundamento de que “não pode ser aceita a ação direta do terceiro contra a http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10739110/artigo-3-da-lei-n-5869-de-11-de-janeiro-de-1973 http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10713365/artigo-267-da-lei-n-5869-de-11-de-janeiro-de-1973 http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/111984001/c%C3%B3digo-processo-civil-lei-5869-73 http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10686201/artigo-787-da-lei-n-10406-de-10-de-janeiro-de-2002 http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/111983995/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 seguradora sem a participação do segurado no pólo passivo, com quem a seguradora possui um liame contratual que lhe obriga ao ressarcimentos dos prejuízos que seu segurado vier a suportar em função de danos provocados a terceiros”, entre outros. O recurso especial foi admitido na origem pelo TJ/RS. O entendimento do STJ firmou-se no sentido de que é cabível a ação direta do terceiro, em face da seguradora, em razão da função social do contrato. Argumentos do STJ: A interpretação do contrato de seguro dentro dessa perspectiva social autoriza e recomenda que a indenização prevista para reparar os danos causados pelo segurado a terceiro seja por este diretamente reclamada da seguradora. Sem se afrontar a liberdade contratual das partes - as quais quiseram estipular uma cobertura para a hipótese de danos a terceiros - maximiza-se a eficácia social do contrato com a simplificação dos meios jurídicos pelos quais o prejudicado pode haver a reparação que lhe é devida. Além do mais, se a seguradora pode ser demandada diretamente, como devedora solidária – em litisconsórcio com o segurado – e não apenas como denunciada à lide, em razão da existência da obrigação de garantia, ela também pode ser demandada diretamente, sem que, obrigatoriamente, o segurado seja parte na ação. Com efeito, o contrato de seguro de automóvel que prevê o ressarcimento dos danos ocasionados pelo segurado a terceiros retrata a figura jurídica da estipulação em favor de terceiro, prevista nos arts. 436 a 438 do Código Civil. Esse terceiro não precisa ser previamente determinado, bastando ser determinável. Muito embora o beneficiário não figure na relação contratual, o princípio que fomentou a aceitação da estipulação em favor de terceiro, de modo a permitir que um estranho viesse pedir o cumprimento de obrigação contratada por outros, é o mesmo que nos auxilia a compreender e encontrar solução ajustada à dificuldade criada em casos tais. A permitir a ação direta do lesado contra a seguradora está a lição de Aguiar Dias: "Em última análise, o que se faz, com a ação direta, é dar pleno cumprimento à vontade das partes. Na verdade, que quis o segurado? Livrar-se de todos os ônus e incômodos decorrentes de sua responsabilidade civil. Quanto ao segurador, o objeto de sua estipulação é satisfazer essas obrigações. Ora, que faz a ação direta? Proporciona a exoneração objetivada pelo segurado e não prejudica o segurador, porque mais não se lhe exige senão o que pagaria, realmente, ao segurado" (Da Responsabilidade Civil, II/849). Assim, inobstante o contrato de seguro tenha sido celebrado apenas entre o segurado e a seguradora, dele não fazendo parte o recorrido, ele contém uma estipulação em favor de terceiro. E é em favor desse terceiro – na hipótese, o recorrido – que a importância segurada será paga. Daí a possibilidade de ele requerer diretamente da seguradora o referido pagamento8. 8http://flaviaribeiro2.jusbrasil.com.br/artigos/121816491/atuacao-direta-do-terceiro-contra-a-seguradora http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10703864/artigo-436-da-lei-n-10406-de-10-de-janeiro-de-2002 http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10703731/artigo-438-da-lei-n-10406-de-10-de-janeiro-de-2002 http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/111983995/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 FORMAÇÃO DO CONTRATO Forma de exteriorização das vontades: Salvo quando a lei estabelecer a necessidade de ser expressa, a manifestação da vontade pode ser tácita, desde de que inequívoca. - Não é mister que o agente faça uma declaração formal, por meio da palavra escrita ou falada, pois é suficiente que se possa traduzir o seu querer por uma atitude inequívoca, evidente e certa, de modo expresso, quando os contraentes se utilizam de qu... PROPOSTA –(OFERTA, POLICITAÇÃO) ACEITAÇÃO (OBLAÇÃO) INTERPRETAÇÃO DOS CONTRATOS EFEITOS DOS CONTRATOS a) -ESTIPULAÇÃO EM FAVOR DE TERCEIRO b) - PROMESSA DE FATO DE TERCEIRO (Contrato por terceiro) c) - CONTRATO COM PESSOA A DECLARARausente, tiver decorrido tempo suficiente para chegar a resposta ao conhecimento do proponente; Proposta sem prazo de validade a pessoa ausente: uma vez decorrido o prazo suficiente para resposta, o proponente estará desobrigado a sustentar a proposta. A análise do prazo “suficiente” (prazo moral) dependerá do caso concreto. III - se, feita a pessoa ausente, não tiver sido expedida a resposta dentro do prazo dado; Proposta com prazo de validade a pessoa ausente: por evidente, uma vez decorrido o prazo de resposta concedido, o ofertante poderá desistir da oferta. IV - se, antes dela, ou simultaneamente, chegar ao conhecimento da outra parte a retratação do proponente. Retratação do ofertante: se a oferta for recebida simultaneamente ou posteriormente à retratação, não obrigará o ofertante. OFERTA AO PÚBLICO: Código Civil x Código de Defesa do Consumidor: O CDC estipula (art. 30/35) que a oferta dirigida a pessoas indeterminadas vincula o fornecedor e, em caso de descumprimento, o consumidor poderá optar por perdas e danos, execução específica ou substituição por produto/serviço equivalente. No Código Civil, que regula as hipóteses que não se inserem nas relações de consumo, também ocorrerá a vinculação do ofertante, contudo, em princípio, o descumprimento possibilitará apenas o pedido de perdas e danos. Revogação da oferta: A oferta ao público poderá ser revogada, desde que a revogação se dê pela mesma forma em que a oferta foi realizada e que a proposta ressalve tal faculdade (CC, art. 429, parágrafo único). Oferta por outdoor deve ser revogada por outdoor. Da mesma forma que oferta em revista deve ser revogada por publicação em revista (José Fernando Simão). PROPOSTA – GENERALIDADES: Prova da proposta: pode ser provada por testemunhas, qualquer que seja o seu valor. Morte ou interdição do policitante: “nestes dois casos, respondem, respectivamente, os herdeiros e o curador do incapaz pelas conseqüências jurídicas do ato. Com efeito, a morte intercorrente não desfaz a promessa que se insere como elemento passivo da herança. A proposta se transmite aos herdeiros como qualquer outra obrigação” (Arnaldo Rizzardo). Negociações preliminares x oferta: a oferta “representa ela o impulso decisivo para a celebração do contrato, consistindo em uma declaração de vontade definitiva. Distingue-se nesse ponto das negociações preliminares, que não têm esse caráter e não passam de estudos e sondagens, sem força obrigatória. Aquela, ao contrário, cria no aceitante a convicção do contrato em perspectiva, levando-o à realização de projetos e às vezes de despesas e à cessação de alguma atividade. Por isso, vincula o policitante, que responde por todas essas conseqüências, se injustificadamente retirar-se do negócio”. ACEITAÇÃO (OBLAÇÃO) CONCEITO: É a concordância com os termos da proposta, consiste “na formulação da vontade concordante do oblato feita dentro do prazo e envolvendo adesão integral à proposta recebida” (Sílvio Rodrigues). PERDA DA EFICÁCIA DA ACEITAÇÃO: Ainda que expedida no prazo, se, por circunstância imprevista, a aceitação chegar tarde ao conhecimento do aceitante não produzirá efeitos, porém, se o policitante deixar de comunicar o recebimento tardio ao aceitante responderá por perdas e danos. FORMA DA ACEITAÇÃO: Pode ser expressa ou tácita, quando revelada pela conduta do oblato (policitado), porém, deve ser pura e simples, já que, se conter adições, restrições, modificações, condições ou se for apresentada fora do prazo será considerada não como aceitação, mas sim como uma contraproposta. Contraproposta: A aceitação que não se dá de maneira integral, com mudanças, restrições ou acréscimos, bem como aquela formulada fora do prazo, significa nova proposta, também chamada da contraproposta (CC, art. 431). O oblato assume a posição do proponente e vice-versa. Tal atitude retira da proposta original sua força vinculante. (José Fernando Simão) Aceitação tácita: ocorre quando não seja costume a aceitação expressa ou o proponente a tiver dispensado, bastando que não exista a manifestação de recusa pelo aceitante. Todavia, é uma exceção, já que a regra é que a aceitação seja expressa. - Se, por exemplo, um fornecedor costuma remeter os seus produtos a determinado comerciante, e este, sem confirmar os pedidos, efetua os pagamentos, instaura-se uma praxe comercial. Se o último, em dado, quiser interrompê-la, terá de avisar previamente o fornecedor, sob pena de ficar obrigado ao pagamento de nova remessa, nas mesmas bases anteriores. Costuma-se mencionar, como exemplo da situação descrita na letra b, a hipótese do turista que remete um fax a determinado hotel, reservando acomodações, informando que a chegada se dará em tal data, se não receber aviso em contrário. Não chegando a tempo a negativa, reputar-se-á concluído o contrato. (Carlos R. Gonçalves). Silêncio x aceitação tácita: “quem recebe um jornal com o aviso de que se não o devolver será tido como assinante não pode ser considerado juridicamente vinculado, para efeito de pagar o preço da assinatura, porque seu silêncio não pode ser interpretado como manifestação de vontade, já que nada o obriga a devolver jornal não encomendado. O proponente não pode impor a falta de resposta como aceitação de sua oferta” (Washington de B. Monteiro). RETRATAÇÃO: Assim como o policitante em relação à oferta, o oblato pode desistir da aceitação, desde de que a desistência seja comunicada de forma simultânea ou anterior ao recebimento da aceitação. MOMENTO DO APERFEIÇOAMENTO DO CONTRATO: entre os “presentes”, reputa-se concluído o contrato no exato instante da aceitação da proposta. Se inexistir prazo para a aceitação, esta deverá ser imediata. Entre os ausentes (ex: carta, telegrama, fax, e-mail), a doutrina apresenta os seguintes posicionamentos: Teorias sobre a aceitação (momento da conclusão do contrato) entre ausentes: A doutrina apresenta divergência sobre o momento da conclusão do contrato no caso de ausentes: a) Teoria da Informação (cognição): o contrato está concluído no momento em que o policitante receber a informação do oblato, ou seja, não basta que receba a resposta, mas que tenha conhecimento do teor desta. A crítica que se faz a esta teoria é que o aperfeiçoamento do contrato fica sujeito ao arbítrio do proponente, que pode deixar de tomar conhecimento da resposta, mesmo com o recebimento desta. b) Teoria da Declaração (agnição): divide-se em três tipos: I) Declaração propriamente dita: a conclusão do contrato coincide com o da redação da correspondência epistolar (ou, por ex, e-mail), ou seja, no momento em que o aceitante expressa a sua anuência. A crítica a esta teoria se refere ao fato de que, até este momento, o consentimento permanece restrito ao âmbito do aceitante que pode, por exemplo, deixar de enviar a correspondência, ademais, a prova do fato é extremamente difícil. II) Expedição (transmissão): a conclusão ocorre com a expedição da aceitação, independentemente do momento da recepção pelo ofertante. A maioria da doutrina entende que esta corrente foi adotada pelo CC, em razão do disposto no art. 434, “caput”. III) Recepção: a conclusão ocorre com o recebimento da aceitação. Distingue-se da teoria da informação porque nesta é necessário não somente o recebimento, mas que o ofertante tenha ciência da aceitação (ex: aberto a correspondência). Há doutrinadores que defendem que esta seria a corrente adotada pelo CC. Embora o legislador pátrio tenha se filiado a corrente da teoria da expedição (posição não pacífica na doutrina1), os incisos do art. 434 excepcionam a aplicação desta. 1 - Ora, se sempre é permitida a retratação antes de a resposta chegar às mãos do proponente, e se, ainda, não sereputa concluído o contrato na hipótese de a resposta não chegar no prazo convencionado, na realidade o referido diploma filiou-se à teoria da recepção, e não da expedição. (Carlos R. Gonçalves). A terceira exceção apresentada no retrotranscrito art. 434 do Código Civil (“se a resposta não chegar no prazo convencionado”) é inútil e injustificável, como reconhece a doutrina, pois, se há prazo convencionado e a resposta não chega no intervalo determinado, não houve acordo e sem ele não há contrato. (Sílvio Rodrigues). * Enunciado 173 do CJF – Art. 434: A formação dos contratos realizados entre pessoas ausentes, por meio eletrônico, completa-se com a recepção da aceitação pelo proponente. JURISPRUDÊNCIA – FORMAÇÃO DOS CONTRATOS Negociação preliminar VÍNCULO DE EMPREGO. NÃO OCORRÊNCIA. Caracteriza-se o vínculo de emprego quando concomitantemente presentes todos os requisitos previstos no art. 3º da CLT, quais sejam, onerosidade; pessoalidade na prestação dos serviços; não eventualidade e, sobretudo, subordinação jurídica. O período destinado às trocas de informações nas negociações preliminares do processo seletivo constitui um procedimento da fase pré-contratual que não pressupõe a contratação e nem formação de vínculo empregatício, tratando-se apenas de aferição da aptidão do trabalhador para ocupação do cargo pretendido, gerando mera expectativa de um contrato de emprego. (RO nº 0001247-17.2012.5.03.0089, 4ª Turma do TRT da 3ª Região/MG, Rel. Convocado Oswaldo Tadeu B. Guedes. Publ. 12.05.2014). indenização por dano moral, material - processo seletivo - promessa de contratação. À luz do disposto no art. 427 do Código Civil, "A proposta de contrato obriga o proponente, se o contrário não resultar dos termos dela, da natureza do negócio, ou das circunstâncias do caso". E mais, nos termos do art. 186 do Código Civil, "Aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito". No caso, constatado o ilícito praticado pela reclamada, que deveria ter agido com mais cautela e precaução na condução do processo seletivo a que submeteu o reclamante, de modo a não ultrapassar os limites do pré-contrato, tornando-se responsável pelas expectativas que criou ao garantir-lhe a contratação, impõe-se a sua condenação ao pagamento de indenização por danos morais e materiais. (TRT-3 - RO: 01615201307703005 0001615-28.2013.5.03.0077, Relator: Convocado Jesser Goncalves Pacheco, Quinta Turma, Data de Publicação: 08/09/2014 05/09/2014. DEJT/TRT3/Cad.Jud. Página 248. Boletim: Não.) Indenização por dano moral, material - processo seletivo - promessa de contratação. À luz do disposto no art. 427 do Código Civil, "A proposta de contrato obriga o proponente, se o contrário não resultar dos termos dela, da natureza do negócio, ou das circunstâncias do caso". E mais, nos termos do art. 186 do Código Civil, "Aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito". No caso, constatado o ilícito praticado pela reclamada, que deveria ter agido com mais cautela e precaução na condução do processo seletivo a que submeteu o reclamante, de modo a não ultrapassar os limites do pré-contrato, tornando-se responsável pelas expectativas que criou ao garantir-lhe a contratação, impõe-se a sua condenação ao pagamento de indenização por danos morais e materiais. (TRT-3 - RO: 01615201307703005 0001615-28.2013.5.03.0077, Relator: Convocado Jesser Goncalves Pacheco, Quinta Turma, Data de Publicação: 08/09/2014 05/09/2014. DEJT/TRT3/Cad.Jud. Página 248. Boletim: Não.) CONTRATO. FORMAÇÃO DO CONTRATO. COMPRA E VENDA DE ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL. NEGOCIAÇÕES PRELIMINARES. RESPONSABILIDADE CIVIL. Indenização por danos morais e materiais decorrentes de suposto desfazimento de avença. 1. Embora a autora tenha afirmado que a prova oral confirmou a conclusão do negócio jurídico, houve, no caso em exame, apenas negociações verbais preliminares. As partes ajustaram que o réu iria à empresa com o fim de tomar conhecimento da atividade desenvolvida e daí decorreria a conclusão, ou não, do negócio jurídico. Havia justa causa que apoiava a desistência do réu. A autora não expôs ao réu, com clareza, as circunstâncias que dificultariam o desenvolvimento da atividade empresarial, notadamente as dívidas que não foram pagas. Não é por outra razão que a autora, alienante, exigiu do réu o pagamento de garantia, pois intencionava tornar segura a conclusão futura do contrato. Entretanto, sequer o pagamento pode ser exigido do réu, pois a autora, como visto, contrariou os deveres da boa-fé. 2. A atuação de boa-fé dos parceiros também é exigida na fase de tratativas, em consonância ao disposto no art. 422, do Código Civil. O autor omitiu informações essenciais a respeito da atividade empresarial, notadamente dados que impediam a concretização da avença. Diante disso, não se vê a atuação de boa-fé. Sentença de improcedência dos pedidos mantida. Recurso não provido. (TJ-SP - APL: 90580704220098260000 SP 9058070- 42.2009.8.26.0000, Relator: Carlos Alberto Garbi, Data de Julgamento: 11/06/2013, 10ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 17/06/2013) Ausência de aceitação RESCISÃO DE CONTRATO c/c. PERDAS E DANOS - COMPRA E VENDA DE IMÓVEL - PROPOSTA NÃO ACEITA PELO OBLATO. AUSÊNCIA DE PROVA DE ABUSO DE DIREITO. PRÉ - CONTRATO - RESPONSABILIDADE AQUILIANA. INOCORRÊNCIA - ART. 187, CC. INTELIGÊNCIA ART. 427, CC. VEÍCULO ENTREGUE PARA AVALIAÇÃO - IRRELEVÂNCIA - SINAL DE NEGÓCIO SOMENTE SE ACEITA A PROPOSTA.RECURSOS 1 e 3 PROVIDOS.RECURSO 2 IMPROVIDO. 1)"Art. 427. A proposta de contrato obriga o proponente, se o contrário não resultar dos termos dela, da natureza do negócio, ou das circunstâncias do caso."2) Não demonstrado nos autos ter o oblato atuado com abuso de direito por ocasião da recusa da proposta à compra e venda de imóvel, afasta-se a responsabilidade civil prevista no artigo 187 do NCC.3) O veículo que consta da proposta à aquisição de imóvel cujo valor será abatido do preço somente pode ser tido como sinal de negócio em caso de aceitação pelo oblato. (TJ-PR - AC: 2074191 PR Apelação Cível - 0207419-1, Relator: Miguel Pessoa, Data de Julgamento: 31/03/2004, Setima Câmara Cível (extinto TA), Data de Publicação: 16/04/2004 DJ: 6602) Proposta "AÇÃO DECLARATÓRIA C/C INDENIZATÓRIA. SERVIÇO DE TELEFONIA MÓVEL. OFERTA. VINCULAÇÃO DO FORNECEDOR. FATURAS QUE NÃO CORRESPONDEM ÀS VANTAGENS PROMETIDAS. COBRANÇA INDEVIDA. DANO MORAL CONFIGURADO. 1) Nos termos do art. 427 do CC/02, a proposta formulada por qualquer meio obriga o fornecedor a cumpri-la. 2) A empresa que cobra por serviços em desacordo com o pactuado responde civilmente pelos danos morais causados ao consumidor. 3) A quantificação do dano moral obedece ao critério do arbitramento judicial, que, norteado pelos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, fixará o valor, levando-se em conta o caráter compensatório para a vítima e o punitivo para o ofensor, devendo o valor arbitrado observar os princípios da razoabilidade e se aproximar dos parâmetros adotados por este egrégio Tribunal e pelo Superior Tribunal de Justiça. (Apelação Cível nº 6306030-49.2009.8.13.0024 (1), 11ª Câmara Cível do TJMG, Rel. Marcos Lincoln. j. 23.04.2014 maioria). Proposta entre presentes – ausência de aceitação imediata RECURSO INOMINADO. CONSUMIDOR. TELEFONIA MÓVEL. OBRIGAÇÃO DE FAZER CUMULADO COM DANO MORAL. CUMPRIMENTO DA OFERTA REALIZADA VIA CALL CENTER. AUSENTE A ACEITAÇÃO IMEDIATA POR PARTE DO AUTOR. DANO MORAL NÃO CONFIGURADO. MERO DISSABOR. SENTENÇA MANTIDA. RECURSO DESPROVIDO. Não tendo o autor aceito a proposta imediatamente, conforme fls.04, a oferta deixa de ser vinculante, nos termos do artigo 428 do Código Civil, bem como não possui direito o autor de exigir o cumprimento forçado da oferta. Prejuízo imaterial é aquele que decorre de um ato ilícito capaz de lesar aos atributos de personalidade... (TJ-RS , Relator: Adriana da Silva Ribeiro, Data de Julgamento: 26/01/2012, Terceira Turma Recursal Cível) Proposta Pública PROPOSTA DE SALÁRIO VARIÁVEL - ANÚNCIO EM JORNAL DE GRANDE CIRCULAÇÃO - OBRIGAÇÃO DO PROPONENTE - Proponente que anuncia em jornal de grande circulação pagamento de salário variável àquele que for admitido como seu empregado tem obrigação de honrar a declaração exteriorizada. Nos termos do art. 429, do CC/2002, "a oferta ao público equivale a proposta quando encerra os requisitos essenciais ao contrato, salvo se o contrário resultar das circunstâncias ou dos usos". A aludida exceção não restou caracterizada nos autos. (TRT-3 - RO: 1663004 00883-2004-013-03-00-0, Relator: Convocado Ricardo Marcelo Silva, Segunda Turma, Data de Publicação: 08/12/2004 DJMG . Página 11. Boletim: Não.) Contraproposta DIREITO CIVIL. CONTRATO DE LOCAÇÃO NÃO RESIDENCIAL. RENOVAÇÃO. CONTRAPROPOSTA DA LOCATÁRIA. SILÊNCIO DA LOCADORA. NÃO COMPROVAÇÃO DO ACEITE. TÉRMINO DO CONTRATO. AÇÃO DE DESPEJO. PROCEDÊNCIA. - Cuida-se de ação de despejo movida contra a CAIXA. A locadora alega que a CAIXA respondeu a sua proposta de renovação do contrato com termo aditivo diferente do que propusera. Embora esse termo aditivo não tenha sido acostado aos autos, a sentença entendeu que a locatária, ao não recusar explicitamente o termo aditivo enviado pela CAIXA, anuiu ao mesmo. - A aceitação fora do prazo, com adições, restrições, ou modificações, importará nova proposta (art. 431, do CC/02, já em vigor na época em que as propostas e contrapropostas foram feitas). O silêncio da locadora, ao receber o termo aditivo do contrato de aluguel com condições diversas das previstas em sua proposta, implica não-aceitação da nova proposta (art. 428, I, do CC/02). Precedentes: STJ, AGA 54180, Sexta Turma, rel. Des. Federal Luiz Vicente Cernicchiaro, DJ 28/11/1994; TRF4, AC 9004024611, Terceira Turma, rel. Des. Federal Fábio Bittencourt Da Rosa, pub. DJ 11.12.91. Rejeitados, assim, os fundamentos da sentença. - Encontra-se nos autos a proposta da locadora, mas não se verifica comprovação do aceite imediato (inc. I, do art. 428) da locatária. Em face ao ônus da prova (art. 333, II), caberia à CAIXA provar que aceitou a proposta da locadora, tornando-a, assim, obrigatória entre as partes. Como o contrato de locação já foi denunciado nos termos do art. 57, da Lei 8245, tem a autora direito ao despejo que pleiteia. Apelação provida. Inversão do ônus sucumbencial. (TRF-5 - AC: 200984000099642 , Relator: Desembargador Federal Paulo Gadelha, Data de Julgamento: 12/07/2011, Segunda Turma, Data de Publicação: 21/07/2011) NOTICIAS – FORMAÇÃO DO CONTRATO: Admissão frustrada exige reparação moral, decide TRT-RS2 É dano moral indenizável a frustração experimentada pelo candidato que não conseguiu o emprego, depois de ter preenchido todos os requisitos e já com os documentos e atestados prontos para a assinatura do contrato de trabalho. Com esse entendimento, a 5ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul reformou sentença para reconhecer dano moral numa admissão ''abortada'', ocorrida em São Jerônimo. A relatora do recurso na corte, juíza convocada Brígida Barcelos Toschi, constatou que a cópia da Carteira de Trabalho do 2 http://www.conjur.com.br/2013-out-27/empregador-pagar-dano-moral-quebrar-promessa-emprego http://s.conjur.com.br/dl/trt-rs-manda-pagar-dano-moral-quebra.pdf autor traz o carimbo de contratação, datado de 21 de março de 2012, sobreposto por outro, marcado como ‘‘anulado’’, com a assinatura do empregador. Também viu o atestado de saúde ocupacional, devidamente assinado pelo médico examinador. ‘‘A anotação do contrato de trabalho na CTPS do reclamante, ainda que tenha ocorrido antes da devolução do documento, revela o ânimo na contratação e invariável certeza subjetiva, que foi frustrada em razão de fato superveniente, acarretando ao reclamante abalo na sua esfera psicológica, e sua expectativa de melhora na sua condição social’’, reconheceu a relatora. Com a falta de regulamentação dos efeitos do pré-contrato na Consolidação das Leis do Trabalho, conforme autoriza o artigo 8º, a relatora entendeu cabível a aplicação subsidiária do Código Civil. O artigo 427 do Código, na Seção II, diz que ‘‘a proposta de contrato obriga o proponente, se o contrário não resultar dos termos dela, da natureza do negócio, ou das circunstâncias do caso’’. Assim, a juíza deu provimento ao recurso para condenar o empregador ao pagamento de indenização por dano moral, pela frustração de promessa, no valor arbitrado de R$ 2,2 mil, considerado como parâmetros o valor do salário ajustado e a carga horária de 220 horas. O acórdão foi lavrado dia 17 de outubro. O caso O autor contou, na inicial, que passou por todo o processo seletivo na empresa, a fim de preencher uma vaga em obra a ser realizada no estado do Ceará. Disse que após promessa de contratação imediata, se submeteu à consulta médica para aquisição de atestado de saúde ocupacional, deixando a documentação necessária na empresa em 20 de março de 2012. A contratação teria duração de sete meses. Entretanto, após duas semanas de espera da confirmação da viagem, foi surpreendido com a informação de que a empresa não tinha mais interesse na sua contratação. Pediu o pagamento de indenização pela quebra contratual e de indenização por danos morais, em valor a ser arbitrado pela Justiça. A juíza Lila Paula Flores França, da Vara do Trabalho de São Jerônimo, afirmou na sentença que o autor da reclamatória não produziu prova de promessa de emprego, mas somente entrega de documentação para fins de análise. Para ela, a realização do exame admissional pelo candidato não implica em efetivação da contratação, tendo em vista que o documento tem justamente o objetivo de demonstrar se o trabalhador tem capacidade para ocupação da vaga pretendida. ‘‘Ainda, não se teve um direito moral lesado, visto que não foi dada garantia de contratação, tendo este criado uma mera expectativa de preenchimento da vaga. Por tudo isso, julga-se improcedente os pedidos de condenação da reclamada ao pagamento de indenização pela quebra contratual e indenização por danos moral’’, disse a juíza. A decisão acabou revertida Empregador é condenado a cumprir promessa verbal3 Ainda que a proposta seja feita verbalmente, aquele que prometeu fica obrigado a cumpri-la, principalmente quando ela ocorre na esfera trabalhista, pois, nos termos do artigo 443, da CLT, o contrato de trabalho pode ser acordado tácita ou expressamente, verbalmente ou por escrito. Com esse entendimento, a 8a Turma do TRT-MG manteve a decisão de 1o Grau que condenou a fundação reclamada a ressarcir o trabalhador dos gastos que ele teve com alimentação e transporte. Segundo esclareceu o desembargador Márcio Ribeiro do Valle, o artigo 427, doCódigo Civil, estabelece que "a proposta de contrato obriga o proponente, se o contrário não resultar dos termos dela, da natureza do negócio, ou das circunstâncias do caso”. Assim, quem promete, obriga-se a cumprir os termos da promessa. No caso, o contrato de trabalho escrito não contém cláusula indicando que a reclamada tenha se obrigado a ressarcir as despesas do autor com alimentação e transporte. Mas as demais provas do processo deixam claro que a fundação se comprometeu, verbalmente, a reembolsar esses gastos ao trabalhador. “Neste contexto, conclui-se que a reclamada formulou uma promessa verbal ao reclamante, a qual se converteu em adendo benéfico ao contrato de trabalho, sendo o suficientepara obrigar a proponente a cumpri-la”- finalizou o relator, mantendo a condenação. O desembargador ressaltou que os reflexos da ajuda alimentação também são devidos, porque, conforme já pacificado na jurisprudência, por meio da Súmula 241, do TST, essa parcela tem natureza de salário, exceto quando fornecida nos moldes do Programa de Alimentação ao Trabalhador, ou quando estabelecida a sua natureza indenizatória em norma coletiva, o que não ocorreu no caso. (RO nº 00064-2009-075-03-00-3) 3 http://direito-vivo.jusbrasil.com.br/noticias/1863188/empregador-e-condenado-a-cumprir-promessa- verbal http://www.jusbrasil.com/topicos/10714720/artigo-443-do-decreto-lei-n-5452-de-01-de-maio-de-1943 http://www.jusbrasil.com/legislacao/91896/consolida%C3%A7%C3%A3o-das-leis-do-trabalho-decreto-lei-5452-43 http://www.jusbrasil.com/topicos/10704550/artigo-427-da-lei-n-10406-de-10-de-janeiro-de-2002 http://www.jusbrasil.com/legislacao/1027027/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 Validação de contrato de seguro não depende de apólice4 O contrato de seguro é consensual e aperfeiçoa-se com manifestação de vontade, mesmo se não houve a emissão da apólice. Com base nesse entendimento, a 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça negou provimento ao Recurso Especial de uma seguradora e determinou a indenização de um cliente que teve o carro roubado antes de receber a apólice em sua casa. O segurado teve o carro roubado apenas 13 dias após firmar o contrato, mas, ao pedir o pagamento, foi informado de que o acordo não foi consolidado por conta de irregularidades no CPF de um condutor. Ele regularizou a situação e pediu o pagamento, negado pela empresa sob a argumentação de sinistro preexistente, o que motivou a ação judicial. Tanto a sentença como o recurso ao Tribunal de Justiça de São Paulo resultaram em procedência do pedido de indenização, mas a empresa recorreu ao STJ, afirmando que só seria obrigada a pagar o sinistro com a formalização do contrato, o que é ligado à emissão da apólice ou de documento comprovando o pagamento do prêmio. Relator do caso, o ministro Luis Felipe Salomão negou a necessidade de emissão da apólice, pois a existência do acordo não pode depender apenas de um dos contratantes. Se isso ocorrer, continuou, há risco de a parte ter uma conduta puramente potestativa, o que é vedado pelo artigo 122 do Código Civil de 2002. Como informou o ministro citando como base o artigo 758 do Código Civil, a emissão da apólice não é requisito para que o contrato seja considerado existente, e a apólice tampouco é a única prova capaz de atestar a celebração do acordo. A matéria foi regulamentada pela Susep por meio do artigo 2º, caput, parágrafo 6º, da Circular 251/04, pois há aceitação tácita da cobertura de risco se a seguradora não se manifesta em até 15 dias. Segundo Salomão, aplica-se ao caso em questão o artigo 432 do Código Civil, segundo o qual “se o negócio for daqueles em que não seja costume a aceitação expressa, ou o proponente a tiver dispensado, reputar-se-á concluído o contrato, não chegando a tempo a recusa”. Ele citou a falta de indicação de fraude e o fato de o acidente ocorrer após a contratação como justificativas para o dever de a empresa pagar a indenização, sendo que aceitar a 4 http://www.conjur.com.br/2014-mar-27/emissao-apolice-nao-fundamental-validacao-contrato-seguro contratação, permanecer inerte e só depois recusar o acordo vai contra a boa-fé contratual, concluiu LOCAL DE CELEBRAÇÃO DO CONTRATO: o legislador optou por considerar o local da proposta como o da celebração do contrato. “O problema tem relevância na apuração do foro competente e, no campo do direito internacional, na determinação da lei aplicável” (Carlos R. Gonçalves). - Assim, por exemplo, se o comprador brasileiro adquire um produto pelo meio virtual fabricado por uma empresa italiana junto a um site cujo provedor eletrônico é francês, a lei aplicável para dirimir as questões decorrentes do contrato celebrado será a lei francesa. (Roberto S. Lisboa). - Aparentemente, tal solução encontra-se em contradição com a expressa adoção da teoria da expedição, no dispositivo anterior. Entretanto, para quem, como nós, entende que o Código Civil acolheu, de fato, a da recepção, inexiste a apontada contradição. Por sua vez, a Lei de Introdução ao Código Civil estatui que “a obrigação resultante do contrato reputa-se constituída no lugar em que residir o proponente” (art. 9°, § 2°). Tal dispositivo aplica- se aos casos em que os contratantes residem em países diferentes (Carlos R. Gonçalves). Formação do contrato pela Internet5: O direito brasileiro ainda não possui uma legislação direcionada ao tema, embora a Medida Provisória n° 2.200/2001, que instituiu a Infra-Estrutura de Chaves Públicas Brasileira – ICP-Brasil, discipline a questão da integridade, autenticidade e validade dos documentos eletrônicos. Venda de produtos pela Internet – Legislação aplicável : está submetida ao CDC. No caso do comércio internacional, aplica-se a lei do domicílio do comerciante (fornecedor) – art. 9°, § 2°, da Lei da Introdução ao Código Civil . “Por essa razão, se um brasileiro faz a aquisição de algum produto oferecido pela Internet por empresa 5 compilado integralmente da obra Direito Civil Brasileiro, v. III, Saraiva, Carlos R. Gonçalves. estrangeira, o contrato então celebrado rege-se pelas leis do país do contratante que fez a oferta ou proposta”. Responsabilidade do provedor pelas informações: “cautelas devem ser tomadas pelo anunciante e fornecedor dos produtos e serviços, como único responsável pelas informações veiculadas, pois o titular do estabelecimento eletrônico onde é feito o anúncio não responde pela regularidade deste nos casos em que atua apenas como veículo. Do mesmo modo, não responde o provedor de acesso à Internet, pois os serviços que presta são apenas instrumentais e não há condições técnicas de avaliar as informações nem o direito de interceptá-las e de obstar qualquer mensagem”. Contratação Internet x ausentes/presentes: Entende Sílvio Venosa que, embora seja utilizada a linha telefônica, a contratação eletrônica não pode ser tida como realizada entre presentes, devido a ausência de colóquio direto entre as partes. Somente pode ser reputada entre presentes quando cada pessoa se utiliza de seu computador de forma simultânea e concomitante, como se ocorresse uma conversa normal, com remessa recíproca de dados: “remetemos a proposta, o destinatário está à espera, lê- a no monitor e envia a aceitação ou rejeição, ou formula contraproposta (...). Desse modo, a contratação por computadores assim como pelos aparelhos de fax será entre presentes ou entre ausentes, dependendo do posicionamento das partes quando das remessas das mensagens e documentos. Assinatura digital: a doutrina, em face do elevado grau de certeza jurídica da autenticidade da assinatura digital, tem preconizado a sua equiparação, desde logo, a um original escrito e assinado de forma autógrafa pelo seu subscritor, independentemente de lei específica ou complementar. Vários projetos estão em tramitação visando equiparar o documento eletrônico assinado pelo autor mediante sistema criptográfico de chave pública ao documento escrito (art. 386 do CPC). INTERPRETAÇÃO DOS CONTRATOS - A interpretação do contrato é indiscutivelmente similar à da lei, podendo-se até afirmar que há certa coincidência entre as duas. Aplicam-se, por isso, à hermenêutica do contrato princípios concernentes à interpretação da lei. (Maria H. Diniz). Apesar da similaridade, a interpretação do contrato, diversamente da lei, exige a análise do conteúdo subjetivo, representado pela busca da realvontade das partes. - integração contratual – A integração contratual preenche, pois, as lacunas encontradas nos contratos, complementando-os por meio de normas supletivas, especialmente as que dizem respeito a sua função social, ao princípio da boa-fé, aos usos e costumes do local, bem com buscando encontrar a verdadeira intenção das partes, muitas vezes revelada nas entrelinhas. Seria, portanto, um modo de aplicação jurídica feita pelo órgão judicante, mediante recurso à lei, à analogia, aos costumes, aos princípios gerais de direito ou à equidade, criando norma supletiva, que completará, então, o contrato, que é uma norma jurídica individual. (Maria H. Diniz). CRITÉRIOS DE INTERPRETAÇÃO: O Código Civil não apresenta regras específicas (salvo exceções, ex: o contrato de adesão) para a interpretação do contrato, o que torna aplicável aquelas estabelecidas na parte geral: a) prevalência da intenção das partes em relação ao sentido literal Teoria da vontade (intenção): foi a teoria acolhida pelo Código Civil, em detrimento à Teoria da Declaração, prevalecendo a real intenção das partes sobre a declaração escrita. Princípio da conservação do contrato: se uma cláusula contratual permitir duas interpretações diferentes, prevalecerá a que possa produzir algum efeito, pois não se deve supor que os contratantes tenham celebrado um contrato carecedor de qualquer utilidade. (Carlos R. Gonçalves). Exemplo: “O art. 112 do Código Civil prevê que nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciadas do que ao sentido literal da linguagem. Assim, a procuração outorgada em interesse dos próprios mandatários, em caráter irrevogável, irretratável e dispensado de prestação de contas, constitui-se em verdadeiro título de cessão de direitos e não em um contrato de mandato”. Processo nº 2005.09.1.007353-3 (393484), 4ª Turma Cível do TJDFT, Rel. Hector Valverde Santana. unânime, DJe 30.11.2009. João realiza um contrato de compra e venda a prazo de um imóvel de um apartamento que está sendo construído por uma empresa. Durante o tempo de construção, João efetua um contrato de compra e venda do apartamento com Márcio, repassando o bem para este. Márcio entra com uma ação contra a construtora, para que esta preste contas sobre o andamento da obra. A ação é viável ? Embora tenha denominado como compra e venda, o que Márcio e João fizeram foi uma cessão de contrato, que, assim, dependia da anuência da construtora e, como isso não ocorreu, Márcio não tem legitimidade para exigir a prestação de contas desta. b) critério da boa-fé e costume A interpretação deve ser no sentido de privilegiar a lealdade dos contratantes. “É comum, nos contratos em que se caracteriza a superioridade intelectual, econômica ou profissional de uma parte, e principalmente nos contratos de adesão, a necessidade de invocar-se o princípio da boa-fé para a eventual suspensão da eficácia do primado da autonomia da vontade, a fim de rejeitar-se cláusula abusiva ou imposta sem o devido esclarecimento de seus efeitos, principalmente no tocante à isenção de responsabilidade do estipulante ou à limitação de vantagem do aderente” (Ruy Rosado de Aguiar Júnior). Exemplo: "Na hipótese de o contrato prever a incidência de juros remuneratórios, porém sem lhe precisar o montante, está correta a decisão que considera nula tal cláusula porque fica ao exclusivo arbítrio da instituição financeira o preenchimento de seu conteúdo. A fixação dos juros, porém, não deve ficar adstrita ao limite de 12% ao ano, mas deve ser feita segundo a média de mercado nas operações da espécie. Preenchimento do conteúdo da cláusula de acordo com os usos e costumes, e com o princípio da boa-fé (arts. 112 e 133 do CC/02)" (STJ - REsp 715.894/PR, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, DJ 19.03.2007). É sabido que a fiança dada pela esposa sem a anuência do marido é nula. Joana assina como fiadora de sua irmã na locação de um imóvel e, na ocasião, se declara solteira. Neste caso, a fiança é válida ? Considerando o princípio da boa-fé objetiva e o disposto no artigo 113 do CC, a fiança deve ser considerada válida, todavia, eventual responsabilidade de Joana não poderá afetar o patrimônio do seu esposo. c) negócio benéfico e renúncia – interpretação restrita d) efeito do silêncio: Silêncio qualificado (circunstanciado): quando o efeito do silencio ficar convencionado em um pré-contrato. e) interpretação favorável ao aderente: Além dos dispositivos transcritos, o Código algumas regras específicas para determinados contratos: ex: art. 843 (a transação interpreta-se restritivamente), art. 819 (a fiança não admite interpretação extensiva), art. 1.899 (a cláusula testamentária deve ser interpretada conforme a vontade do testador). Código de Defesa do Consumidor: estabelece que as cláusulas devam ser interpretadas da forma mais favorável ao consumidor (art. 47). Outras regras: A doutrina apresenta como regras práticas de interpretação dos contratos. : - quando a cláusula encerrar expressões de duplo sentido, deve ser acolhido o entendimento condizente com a natureza do negócio jurídico. - As cláusula contratuais interpretam-se uma em relação às outras, sejam antecedentes ou conseqüentes e de forma conjunta. - Na dúvida, interpreta-se contra o estipulante e em favor do promitente e da forma menos onerosa ao devedor. - a intenção dos contratantes deve ser obtida analisando- se o modo pelo qual o contrato estava sendo executado de comum acordo. - A obscuridade deve ser interpretada contra quem redigiu a estipulação, porque tinha a obrigação de redigir o contrato de forma clara. - na cláusula de duplo sentido deve ser dada a interpretação que possibilita que o contrato seja exeqüível (princípio da conservação do contrato). Enunciado dos Conselho Nacional da Justiça Federal – Interpretação dos Contratos - ENUNCIADO Nº 166: Arts. 421 e 422 ou 113. A frustração do fim do contrato, como hipótese que não se confunde com a impossibilidade da prestação ou com a excessiva onerosidade, tem guarida no Direito brasileiro pela aplicação do art. 421 do Código Civil. - ENUNCIADO Nº 409: Art. 113. Os negócios jurídicos devem ser interpretados não só conforme a boa-fé e os usos do lugar de sua celebração, mas também de acordo com as práticas habitualmente adotadas entre as partes. - ENUNCIADO Nº 421: Arts. 112 e 113. Os contratos coligados devem ser interpretados segundo os critérios hermenêuticos do Código Civil, em especial os dos arts. 112 e 113, considerada a sua conexão funcional. - ENUNCIADO Nº 171: Art. 423. O contrato de adesão, mencionado nos arts. 423 e 424 do novo Código Civil, não se confunde com o contrato de consumo - ENUNCIADO Nº 172: Art. 424. As cláusulas abusivas não ocorrem exclusivamente nas relações jurídicas de consumo. Dessa forma, é possível a identificação de cláusulas abusivas em contratos civis comuns, como, por exemplo, aquela estampada no art. 424 do Código Civil de 2002. - ENUNCIADO Nº 364: Arts. 424 e 828. No contrato de fiança é nula a cláusula de renúncia antecipada ao benefício de ordem quando inserida em contrato de adesão. - ENUNCIADO Nº 433: Art. 424. A cláusula de renúncia antecipada ao direito de indenização e retenção por benfeitorias necessárias é nula em contrato de locação de imóvel urbano feito nos moldes do contrato de adesão JURISPRUDÊNCIA – INTERPRETAÇÃO DO CONTRATO - Prevalência da intenção: APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER C/ PEDIDO LIMINAR DE ANTECIPAÇÃO DA TUTELA PARA IMISSÃO NA POSSE - CESSÃO DE POSIÇÃO CONTRATUAL - AUSÊNCIA DE ANUÊNCIA - INEFICÁCIA PERANTE A CEDIDA - PRECEDENTES DESTA CORTE. I - Embora a apelante tenha atribuído ao contrato firmado por ela e terceiro a designação de "instrumento particular de promessa de comprae venda de propriedade imóvel", na verdade, percebe-se tratar de contrato atípico de "cessão de posição contratual". Conforme preceitua o art. 112 do Código Civil: "Nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem". II - E nos autos em mesa, verifica-se que a apelante imiscui-se na relação jurídica previamente existente entre a apelada e terceiro, com a nítida intenção de promover uma completa substituição na relação obrigacional, assumindo o lugar anteriormente ocupado pelo terceiro, assumindo inclusive a obrigação de dar sequência ao pagamento das parcelas vincendas, conforme cláusula quarta do contrato acima mencionado. Logo, o cedente pretendeu transferir a sua própria posição contratual à apelante. Porém, para que essa transferência ocorresse de maneira ampla e irrestrita, era necessário o consentimento da cedida. E não há como obrigá-la a tanto, por se tratar de um direito potestativo da apelada. Portanto, diante da ausência de anuência da parte apelada ao contrato de cessão de posição contratual firmado pela apelante e terceiro, não há como obrigar aquela a respeitar seus efeitos. III – (...) O consentimento da cedida na cessão de posição contratual é imprescindível, visto que o cessionário ao ingressar em um contrato através da cessão de posição contratual, o faz em um complexo obrigacional que orbita em torno do antigo contratante. Daí resulta a necessidade do consentimento do cedido. Situação dos autos que revela não se tratar de mera cessão de crédito. Recurso desprovido. 2. Recurso Adesivo. Honorários Advocatícios. Arbitramento. Majoração que se impõe. Recurso provido". (TJPR - 17ª c. Cível - AC - 476591- 9 - Maringá - Rel.: Edgard Fernando Barbosa - Unânime - j. 27.05.2009). APELAÇÃO NÃO PROVIDA. (Processo nº 1092388-5, 11ª Câmara Cível do TJPR, Rel. Gamaliel Seme Scaff. j. 12.03.2014, unânime, DJ 01.04.2014). - Prevalência da boa-fé PROCESSUAL CIVIL E CIVIL. RECURSO ESPECIAL. OFENSA AO ART. 535 DO CPC INEXISTENTE. FIANÇA SEM AUTORIZAÇÃO MARITAL. PRESTAÇÃO PELA MULHER DECLARANDO ESTADO DE SOLTEIRA. BOA- FÉ OBJETIVA EM PROL DO CREDOR. IMPROVIMENTO. 1 (...) 2. A regra de nulidade integral da fiança prestada pelo cônjuge sem outorga do outro cônjuge não incide no caso de informação inverídica por este de estado de solteira, assinando, no caso, a fiadora, mulher casada, com omissão do nome do marido. 3. A boa-fé objetiva que preside os negócios jurídicos (CC/2002, art. 113) e a vedação de interpretação que prestigie a malícia nas declarações de vontade na prática de atos jurídicos (CC/2002, art. 180) vem em detrimento de quem preste fiança com inserção de dados inverídicos no documento. 4. Quadro fático fixado pelo Tribunal de origem e inalterável no âmbito da competência desta Corte, que vem em prol do reconhecimento da inveracidade e da malícia na prestação da fiança (Súmula 7/STJ). 5. Inocorrência de ofensa à Súmula 332/STJ, validade da fiança, no tocante à fiadora, a comprometer-lhe a meação, sem atingir, contudo, a meação do marido. 6. Recurso Especial improvido. (Recurso Especial nº 1328235/RJ (2011/0165302-7), 3ª Turma do STJ, Rel. Sidnei Beneti. j. 04.06.2013, unânime, DJe 28.06.2013). - Contrato benéfico – interpretação restritiva APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO - CONTRATO PARA DESCONTO DE TÍTULOS - DÍVIDA DECORRENTE DE RENOVAÇÃO AUTOMÁTICA DO AJUSTE - INVIABILIDADE DE PRORROGAÇÃO DA FIANÇA - AUSÊNCIA DE EXPRESSA ANUÊNCIA DOS FIADORES - INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA - EXEGESE DOS ARTS. 819 E 114 DO CÓDIGO CIVIL - INADIMPLEMENTO POSTERIOR AO VENCIMENTO DA GARANTIA - IMPOSSIBILIDADE DE EXIGÊNCIA DA OBRIGAÇÃO EM FACE DOS GARANTES - PRECEDENTES DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA E DESTA CORTE. A existência de cláusula contratual prevendo a possibilidade de prorrogação automática do contrato não detém eficácia perante os fiadores, os quais se comprometem apenas até o primeiro vencimento do pacto, salvo se tenham expressamente anuído às renovações subsequentes. (...)(Apelação Cível nº 2012.017170-8, 2ª Câmara de Direito Comercial do TJSC, Rel. Robson Luz Varella. j. 01.10.2013). - Contrato de adesão APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO CIVIL. CONTRATO. DIVERGÊNCIA NA INTERPRETAÇÃO RELATIVA AO PREÇO. DÚVIDA QUE SE RESOLVE EM FAVOR DO DEVEDOR. Contrato de prestação de serviços de propaganda que traz valores distintos, impossibilitando concluir qual o valor da contratação. Dúvida que se interpreta de forma favorável ao devedor. Inteligência do artigo 423 do Código Civil de 2002. Débito que deve ser desconstituído. (...) (Apelação nº 0134996-78.2010.8.19.0001, 11ª Câmara Cível do TJRJ, Rel. Cherubin Helcias Schwartz. j. 11.09.2013). - Princípio da conservação do contrato RESCISÃO CONTRATUAL Instrumento particular de compromisso de venda e compra de estabelecimento comercial Descumprimento do dever das vendedoras de apresentar certidões negativas Inocorrência de inadimplemento capaz de lesionar o comprador Hipótese do artigo 475 do Código Civil não verificada Necessidade de observância à teoria do adimplemento substancial e ao princípio da conservação dos contratos Interrupção das atividades da empresa que decorreu de culpa exclusiva do autor Rescisão contratual não autorizada Obrigação do autor de quitar o preço da aquisição reconhecida Legitimidade das reconvintes para exigir o pagamento Sentença mantida RECURSO NÃO PROVIDO. (TJ-SP - APL: 00165507720118260554 SP 0016550-77.2011.8.26.0554, Relator: Elcio Trujillo, Data de Julgamento: 19/08/2014, 10ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 19/08/2014) EFEITOS DOS CONTRATOS I) EFEITOS EM RELAÇÃO AO OBJETO: a eficácia dos contratos em relação ao objeto é relativa, porque gera apenas uma obrigação de dar, fazer ou não fazer, mas não produz efeitos reais, translativos de propriedade. Exemplo: Se realizo um contrato de compra de um veículo, mesmo que eu pague o preço, ainda não serei o dono do bem, mas apenas titular de um direito obrigacional, sendo que a propriedade somente se configurará com a tradição do carro. II) EFEITOS ENTRE AS PARTES: O contrato, como fonte de obrigações, tem como principal efeito estabelecer um vínculo jurídico entre os contratantes, como se criasse uma “lei entre as partes”. Como decorrência disso, se pode afirmar que o contrato gera as seguintes decorrências: - Responsabilidade: o descumprimento do contrato permite, em regra, que o lesado pleiteie a execução forçada ou a condenação em perdas e danos. - inalterabilidade unilateral: Uma vez concluído o contrato, não é possível que o contratante, unilateralmente, modifique o conteúdo do pacto ou se arrependa, todavia, isto será admitido se existir previsão contratual ou legal (ex: art. 49 da Lei 8.078/90). - inalterabilidade judicial: em regra, assim como o juiz não pode alterar a lei, mas apenas interpreta-la, não poderá modificar o conteúdo do contrato (“lei entre as partes”), ressalvando situações excepcionais legalmente previstas (ex: onerosidade excessiva). - transmissão: ressalvadas algumas exceções (ex: contrato personalíssimo, cláusula de extinção em caso de morte) os direitos e obrigações de um contrato são transmitidos aos herdeiros e sucessores. III) EFEITOS EM RELAÇÃO A TERCEIROS: Como decorrência do princípio da relatividade, o contrato tem força obrigatória apenas entre os contratantes, não interferindo na esfera jurídica de terceiros, salvo exceções (ex: contratos com efeitos erga omnes, estipulação em favor de terceiro). Apesar disso, o Código Civil disciplina três formas específicas de contratos que atribuem efeitos a terceiros: a) - estipulação em favor de terceiro (art. 436 a 438), b) - promessa de fato de terceiro (art. 439 e 440) e c) - contrato com pessoa a declarar (art. 467 a 471). a) -ESTIPULAÇÃO EM FAVOR DE TERCEIRO DEFINIÇÃO: Há estipulação em favor de terceiro quandouma pessoa (estipulante) convenciona com outra que esta (promitente) concederá uma vantagem ou benefício em favor daquele (beneficiário) que não é parte no contrato. Constitui exceção ao princípio da relatividade dos contratos quanto às pessoas, segundo o qual os efeitos do contrato só se produzem em relação às partes não afetando terceiros. (Carlos R. Gonçalves). No caso, terceiro, estranho ao contrato, se torna credor do promitente. Exemplo: seguro de vida6, indicando terceiro como beneficiário; pai que se compromete, em uma separação judicial, a doar os bens aos filhos. CARACTERÍSTICAS DO CONTRATO: é um contrato consensual e de forma livre, sendo essencial a gratuidade do benefício, não podendo ser imposta contraprestação ao terceiro (nesse sentido: Carlos R. Gonçalves, Orlando Gomes, Arnaldo Rizzardo). Todavia, alguns autores entendem que a gratuidade não é requisito essencial porque não está previsto em lei (neste sentido: Washington de B. Monteiro), de qualquer forma, o contrato somente se aperfeiçoará quando ocorrer a aceitação do beneficiário. REQUISITOS: a) subjetivo: a presença das figuras do promitente, estipulante e beneficiário (estranho ao contrato). A capacidade somente é exigida dos contratantes (estipulante e promitente), podendo o incapaz figurar como beneficiário, e pode, inclusive, sequer ser determinado desde logo (ex: em favor dos filhos que nascerem). 6 O art. 793 do CC proíbe a instituição de benefício em favor de terceiro que está inibido de receber doação (ex: concubina de homem casado). b) objetivo: Além do objeto lícito e possível, é necessária a existência de uma vantagem patrimonial ao beneficiário. Exemplo: Assim, se A, dono de um imóvel no valor de R$ 2.000.000,00, convencionou com B a obrigação de transferi-lo a C (terceiro), mediante o pagamento que este efetuará de R$ 500.000,00, não se poderá alegar que não houve vantagem para C, apesar de não ser gratuita. (Maria H. Diniz). c) formal: o contrato é consensual e apresenta forma livre. NATUREZA JURÍDICA: embora exista uma divergência doutrinária (teoria da oferta, da gestão de negócios, da obrigação unilateral) é um contrato sui generis, porque existe uma relação contratual dupla, formada pelo acordo de vontades do estipulante e do promitente, beneficiando um terceiro. (neste sentido: Clóvis Bevilaqua, Maria H. Diniz, Caio M. S. Pereira). - Aceitação do beneficiário: O direito do beneficiário surge independentemente de sua aceitação, porém, este poderá rejeitá-lo, caso em que surgirá uma condição resolutiva da obrigação. - Desfazimento do contrato (distrato): Com a aceitação, o beneficiário passa a integrar o contrato, de modo que, em regra, não é mais possível o distrato sem a sua concordância. Capacidade do beneficiário: Como já mencionado, para ser contemplado com o benefício não é necessário que o beneficiário possua capacidade. Recusa do beneficiário: “ se o beneficiário não concorda com o benefício, desaparece o objeto do contrato, se as partes não colocaram um substituto na posição do terceiro. Deve o promitente devolver o que recebeu, sob pena de ocorrer injusto enriquecimento” (Sílvio Venosa). - Legitimidade para exigir o cumprimento da obrigação: o cumprimento da obrigação pelo promitente pode ser exigida pelo estipulante ou pelo beneficiário. Esta possibilidade não existirá em favor do beneficiário se o estipulante providenciar a sua substituição (art. 438), que poderá ocorrer na forma do art. 438, § único. De todo modo, o beneficiário deverá aderir às condições que foram previamente estabelecidas entre o estipulante e o beneficiário. - O texto não é suficientemente claro, porque, ao anuir no contrato, deixa o estranho de ser terceiro. E, mesmo que não tenha havido anuência, o promitente não pode ser obrigado a cumprir mais do que se comprometeu. (Sílvio Venosa). - Exoneração do promitente – cláusula de irrevogabilidade da estipulação: o estipulante não poderá exonerar o promitente se foi dado ao beneficiário o direito expresso de reclamar o cumprimento da obrigação (art. 437), fazendo com que a estipulação se torne irrevogável. Caso contrário, é dado ao estipulante o direito de exonerar7 o promitente do cumprimento da obrigação. Exemplo: “João encomenda flores para Maria. As flores não são entregues no dia convencionado. Em princípio, Maria nem sabe da estipulação. Conseqüentemente, João poderá exigir a entrega das flores, ou poderá resolver o contrato, exonerando o devedor. Poderá até mesmo remitir a dívida” (César Fiúza), todavia, se ficar convencionado com a floricultura que caberá a Maria a determinação para a entrega das flores, João não poderá mais dispensar a obrigação ou desfazer a compra. - Impossibilidade do beneficiário exigir o cumprimento – necessidade de cláusula própria: A redação do artigo 437 suscita dúvidas, haja vista que o artigo 436 parece permitir que o terceiro sempre possa exigir o cumprimento do contrato independentemente de cláusula própria, enquanto o artigo 437 exige a existência de cláusula expressa para tanto. Assim, encontram-se os seguintes posicionamentos: - “Quando, no art. 437 do Código Civil, se fala de “se deixar (ao terceiro) o direito de reclamar a execução”, caso em que o estipulante não pode exonerar o devedor, o que se há de entender é que, se não foi expressamente excluído o direito de o terceiro exigir o adimplemento, não pode o estipulante exonerar o devedor. A regra é poder o terceiro exigir. Se não se dispôs diversamente, deixou-se-lhe tal direito e a pretensão” (Pontes de Miranda). 7 - A faculdade de revogar o benefício é pessoal, não passando aos herdeiros do estipulante, no caso do seu falecimento (Sílvio Venosa). Em sentido contrário: “Há o consenso geral de que ao estipulante se reserva a faculdade de exonerar o promitente da obrigação que lhe está afeta, desde que não se encontre no contrato cláusula assegurando ao beneficiário o direito de exigir a execução da promessa”. (Arnaldo Rizzardo). No mesmo sentido: James Eduardo Oliveira, Jones Figueiredo Alves. Assim, segundo este entendimento, inexistindo uma cláusula expressa permitindo ao beneficiário reclamar o cumprimento da obrigação, poderá o estipulante desobrigar o devedor ou substituir o beneficiário, caso contrário - existindo esta cláusula expressa- , isso não será mais possível. Exceções cabíveis ao promitente- Nesse negócio jurídico peculiar, distinguimos claramente dois estágios. Numa primeira fase, existe o pacto entre o estipulante e o promitente. O terceiro somente é mencionado no bojo do contrato como beneficiário da avença. Numa segunda fase, que pode ocorrer somente quando a prestação já for exigível, é necessário saber se o terceiro concorda ou discorda com o benefício. Com a concordância do beneficiário, completamos o negócio em sua integralidade, perante o cumprimento da prestação ou ao menos a sua exigibilidade. O estipulante também pode exigir o cumprimento, mas, se tal exigência é feita tão-somente pelo beneficiário, desaparece a figura do estipulante no contrato, passando o negócio jurídico doravante a interessar apenas ao beneficiário e ao promitente. A aceitação, quando já exigível a prestação, legitima o beneficiário, não podendo mais a atribuição ser revogada. Não sendo o terceiro parte no contrato, apesar de se colocar na posição de credor, não pode ele exigir direito algum fora do assinalado no pacto. Por sua vez, o promitente pode opor contra o terceiro todas as exceções que poderia opor contra o estipulante, nascidas do contrato onde se originou o benefício. Pode o promitente, por exemplo, alegar que não cumpre a prestação porque o estipulante não cumpriu o que lhe cabia no contrato. É aplicação da “exceptio nonadimplenti contractus”. (Sílvio Venosa). - De acordo com a sistematização de Serpa Lopes, a estipulação em favor de terceiro compreende duas fases: i) antes da aceitação do beneficiário; e ii) depois da aceitação do beneficiário. Na primeira fase, isto é, antes da aceitação por parte do beneficiário, o estipulante pode livremente revogar a estipulação (salvo se o contrário for previsto no contrato). Se o terceiro sequer tem conhecimento do benefício, nenhum prejuízo poder-lhe-ia advir da revogação. Na segunda fase, após verificar-se a aceitação por parte do terceiro tem-se como irrevogável a estipulação, salvo nas hipóteses previstas no art. 438. Considera-se que a aceitação do terceiro não faz nascer o seu direito, mas o consolida, tornando-o definitivo e, em princípio (salvo as exceções do art. 438), irrevogável, permitindo-lhe o seu exercício. Assim, resume Clovis Bevilaqua: “Quando cabe ao beneficiário exigir o cumprimento da obrigação, já não tem o estipulante qualidade para exonerar o devedor”. (Gustavo Tepedino) Exoneração nos contratos onerosos: se o negócio não se enquadra entre os gratuitos, por derivar de causa onerosa, a liberalidade do estipulante encontra barreira no interesse do beneficiário. Assim, por exemplo, se a estipulação foi obtida para compensar um débito do estipulante, que desse modo obtém quitação do beneficiário. Substituição do beneficiário: o estipulante poderá substituir o beneficiário, independente da concordância deste e do promitente, por ato entre vivos ou como disposição de última vontade. - Ausência da cláusula: Trata-se de norma dispositiva. No silêncio do contrato, o estipulante pode substituir o beneficiário. (Sílvio Venosa). Por sua vez, Arnaldo Rizzardo entende que: “caso não ressalvada a faculdade da substituição, é ela inadmissível, a partir do momento da aceitação pelo terceiro, o que significa enfatizar a irrevogabilidade da estipulação”. No mesmo entendimento: Theotonio Negrão Forma da substituição: não é necessária nenhuma formalidade especial, basta que exista uma comunicação ao promitente. Interpretação sistemática: “A meu ver, quando a estipulação tiver por causa uma liberalidade do estipulante para com o beneficiário, aquele deve poder revogá-la, ou inová-la, a qualquer tempo, contanto que o faça antes do cumprimento, já exonerando o devedor da obrigação assumida, já substituindo (e independente de sua anuência), o terceiro instituído, por outra pessoa. A menos que expressamente abra mão desse direito. Se, entretanto, o negócio não se enquadra entre os gratuitos, por derivar de causa onerosa, a liberalidade do estipulante encontra barreira no interesse do beneficiário”. (Sílvio Rodrigues). APLICAÇÃO PRÁTICA : - Nos contratos de seguros - Na doação modal (doação com encargo): - Na constituição de renda: - Nas fundações: Art. 62. João realiza um seguro de vida, na qual sua noiva, Maria, é beneficiária. João pode alterar a beneficiária posteriormente ? A seguradora pode se recusar a pagar o seguro à Maria alegando que João não pagou as parcelas do seguro ? Se houvesse uma cláusula estipulando que Maria poderia exigir o pagamento do seguro, João não poderia realizar a substituição (art. 437), caso contrário, poderia (art. 438). A ausência do pagamento do seguro é uma exceção que poderia ser apresentada ao estipulante e a beneficiária b) - PROMESSA DE FATO DE TERCEIRO (Contrato por terceiro) CONCEITO: é um pacto no qual um dos contratantes (promitente) se compromete em conseguir que terceira pessoa faça, ou deixe de fazer, alguma coisa do interesse do outro contratante, assim sendo, o terceiro não faz parte do contrato. - aquele que promete fato de terceiro assemelha-se ao fiador, que assegura a prestação prometida. Se alguém, por exemplo, prometer levar um cantor famoso a uma determinada casa de espetáculos, sem ter obtido dele, previamente, a devida concordância, responderá por perdas e danos perante os promotores do evento, se não ocorrer a prometida apresentação na ocasião anunciada. Na hipótese, o agente não agiu como mandatário do cantor, que não se comprometeu de nenhuma forma. Se o tivesse feito, nenhuma obrigação haveria para quem fez a promessa (art. 440). (Carlos R. Gonçalves). Em verdade, esta forma de contrato impõe ao devedor uma obrigação de fazer, consistente em obter o ato de um terceiro. DESCUMPRIMENTO DO FATO PROMETIDO: o promissário responderá por perdas e danos, já que não há como se obrigar o terceiro a cumprir com a obrigação, salvo a hipótese do art. 439, parágrafo único do CC) . - terceiro cônjuge do promissário: o promissário não responderá por perdas e danos se a indenização recair em bens comuns do casal, haja vista que, caso contrário, o terceiro estaria, indiretamente, respondendo por uma obrigação que não anuiu. Exemplo: “a hipótese de o marido ter prometido obter a anuência da mulher na concessão de uma fiança, tendo esta se recusado a prestá-la. A recusa sujeitaria o promitente a responder por perdas e danos que iriam sair do patrimônio do casal, consorciado por regime de comunhão. Para evitar o litígio familiar o legislador tira a eficácia da promessa” (Sílvio Rodrigues). COMPROMISSO DO TERCEIRO: se o terceiro concorda com a obrigação, o promissário (promitente) fica exonerado, salvo cláusula contrária. CARACTERÍSTICAS: - Responsabilidade do terceiro: o terceiro será responsabilizado somente se anuiu com a obrigação realizada entre as partes. - Responsabilidade do promitente: O credor terá direito contra o contratante até o consentimento do terceiro, e contra este, após a anuência. - Responsabilidade sucessiva: Os devedores (promitente e terceiro) são sucessivos e não simultâneos, de modo que, com a anuência do terceiro, estará excluída a responsabilidade do contratante. - Diferença com a estipulação em favor de terceiro: Diversamente da estipulação, na qual o terceiro é beneficiário, na “promessa”, o terceiro deve prestar uma obrigação. Diferenças de outros institutos: “Desassiste razão aos que aproximam essa figura contratual do mandato, por faltar-lhe a representação. Malgrado a semelhança com a fiança, também com ela não se confunde, visto que a garantia fidejussória é contrato acessório, ao passo que a promessa de fato de terceiro é principal. Igualmente não se confunde esta com a gestão de negócios, pelo fato de o promitente não se colocar na defesa dos interesses do terceiro” (Caio M. da Silva Pereira). João compra um carro de Pedro, todavia, o veículo se encontra registrado em nome de Joaquim. Pedro se compromete a obter a assinatura de Joaquim, a fim de transferir a documentação do carro a Pedro. Qual a consequência jurídica se Joaquim se recusa a assinar o documento ? E se, no momento do compra, Joaquim avisa João que pode comprar o carro do Pedro porque assinará a documentação, mas, depois, se recusa a fazer isso ? Pedro assumiu a obrigação de fazer (promessa de fato de terceiro) e, em caso de descumprimento de Joaquim, Pedro responderá pelas perdas e danos causadas a João. Como Joaquim assumiu a obrigação de fazer, será o único responsável pelo cumprimento da obrigação perante João. c) - CONTRATO COM PESSOA A DECLARAR CONCEITO é o contrato no qual um dos contratantes tem interesse em fazer-se substituir por pessoa cujo nome pretende ocultar, embora tal substituição possa não ocorrer. Pode ser utilizado por quem não deseja, por qualquer razão, ser identificado no início do contrato. Trata-se de cláusula inserida no contrato, pelo qual, no momento da conclusão deste, uma das partes (“stipulans” - estipulante) reserva a si o direito de indicar a pessoa (“electus”) que deverá adquirir direitos ou que assumirá obrigações decorrentes do ato negocial. (Maria H. Diniz). Contudo, o estipulante não é obrigado a indicar um substituto, podendo, se desejar,