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Psicoterapia Fenomenológico-Existencial

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Psicoterapia Fenomenológico- existencial: Fundamentos filosófico-antropológicos José Paulo GiovanettiPsicoterapia fenomenológico-existencial: fundamentos filosófico-antropológicos José Paulo Giovanetti FEAD Belo Horizonte 2012Publicado por FEAD Copyright©2012 FEAD Diretoria Geral José Roberto Franco Tavares Paes Capa FEAD VISUAL Todos direitos reservados ao Sistema Integrado de Ensino de Minas Gerais - SIEMG Rua Cláudio Manoel, 1.162 - Savassi - Belo Horizonte - - MG Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, armazenada ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, seja ele eletrônico, mecânico, fotocópia ou gravação, sem autorização do SIEMG. Atenção: pode acontecer de algum desses sites indicados não estar mais disponível devido ao dinamismo que caracteriza essa fonte de informação. Giovanetti, José Paulo G342p Psicoterapia fundamentos filosófico- antropológicos / José Paulo Giovanetti - Belo Horizonte: FEAD, 2012. 120p. I Título 1- Psicologia 2- Fenomenologia 3- Antropologia CDU:159.9ÍNDICE Parte: BASES FILOSÓFICAS PARA A CLÍNICA 1 Impactos das Idéias Humanistas, Fenomenológicas e Existenciais na Psicoterapia 11 2 Diferencial psicoterapêutico na fenomenologia existencial 37 3 Fundamentação antropológica da prática psicoterápica 49 4 O existir humano na obra de Ludwig Binswanger 59 II a Parte: QUESTÕES DE PSICOTERAPIA EXISTENCIAL 5 A relação terapêutica na perspectiva fenomenológico-existencia 81 6 O encontro na perspectiva terapêutica existencial 101 7 Pós-modernidade e 0 vazio existencial 111APRESENTAÇÃO Já há algum tempo queria reunir em um livro alguns artigos que escrevi ao longo dos últimos anos e que foram apresentados em vários congressos e se encontram espalhados em múltiplas re- vistas. Os artigos aqui reunidos abordam tema da Psicoterapia, principalmente de seus fundamentos filosóficos, especialmente aqueles baseados em uma antropologia filosófica. Por isso, título escolhido foi "Psicoterapia fundamen- tos filosófico-antropológicos". Um dos grandes desafios da Psicologia Clínica é explicitar uma concepção de ser humano que lhe sirva de parâmetro para trabalho clínico. A ciência que possibilita lançar as bases para esse trabalho é a Filosofia. Entre as diversas abordagens teóricas da atividade clínica, a Psicologia Existencial vai buscar na reflexão filosófica sua inspiração para compreender melhor O ser humano e, com isso, ajudá-lo a enfrentar OS percalços da existência e OS sofrimentos que podem advir de seu caminhar. A perspectiva aqui adotada, dentre as diversas intervenções clínicas, é a Psicoterapia Fenomenológico-existencial que tem como ponto de partida uma antropologia filosófica, a qual pretende compreender as diversas dimensões que compõem a vida huma- na e suas articulações intrínsecas. O livro é apresentado em duas partes. A primeira, intitulada "Bases filosóficas para a clínica", com- posta pelos quatro primeiros textos, visa a explicitar a perspectiva filosófica que embasa, destacando as teorias de sustentação das intervenções clínicas, a Fenomenologia e Existencialismo, cor- rentes filosóficas com berço na Europa. A segunda parte do livro, intitulada "Questões de Psicoterapia que se compõe de três capítulos, mostra a nossa compreensão do que seja um "encontro humano", condição sine qua non para trabalho tera- pêutico.O campo da Psicologia Existencial é muito vasto e diversificado e tem como inspiração várias correntes de pensamento. Por isso, procuraremos explicitar as diferentes fontes dessas abordagens. O primeiro texto, "Impacto das ideias humanistas, fenomenológicas e existenciais na pretende mostrar de forma sucinta as três fontes que inspiram as abordagens da Psicologia de orienta- ção Existencial, distinguindo-a da Psicologia Humanista, cuja base se refere ao contexto americano, diferente do contexto europeu. O segundo texto, diferencial fenomenológico na psicotera- pia", procura lançar algumas luzes sobre a especificidade do mé- todo fenomenológico para trabalho clínico, lembrando que esse método pode ser frutífero em vários domínios da Psicologia, mas que psicoterapeuta pode muito bem utilizá-lo no seu trabalho. Uma vez destacada a perspectiva da Psicologia Existencial por nós utilizada, é necessário mostrar que, após elegermos uma cor- rente filosófica, torna-se imprescindível falar da importância de uma antropologia filosófica como ponto de sustentação de todo desenrolar do trabalho. Esse é sentido do terceiro texto, "Funda- mentação antropológica da prática Ludwig Binswanger foi um psiquiatra-filósofo suíço que vislum- brou a necessidade de sedimentar seu trabalho médico em uma visão de homem mais abrangente do que aquela oferecida pelas ciências médicas. Em uma grande obra de 1942, Grundformen und Erkenntnis menschlichen Daseins, explicitou as bases de sua antropologia filosófica. O quarto texto, "O existir humano na obra de Ludwig Binswanger", é um resumo das linhas de sustentação de sua compreensão do ser humano. Com o titulo "Questões de psicoterapia a segunda parte do livro, trata de alguns temas específicos da psicoterapia existencial, principalmente a relação terapêutica entendida como um encontro inter-humano.O texto "A relação terapêutica na perspectiva fenomenológico- -existencial", que abre a segunda parte do livro, procura definir a relação terapêutica na perspectiva partindo da explicitação dos elementos que compõem uma relação humana, para, em seguida, destacar a especificidade da relação terapêutica. Sob a perspectiva existencial, a relação entre ser humano que sofre e busca uma ajuda e terapeuta é vivida na direção de um encontro intersubjetivo, em que as duas pessoas crescem no seu caminho existencial. O titulo dessa reflexão é "O encontro na perspectiva terapêutica existencial". O último texto, "Pós-modernidade e vazio procura abordar um dos grandes problemas do homem contemporâneo, que vive mergulhado em uma sociedade cada vez mais comple- xa, a qual gera formas de adoecimentos típicos da globalização a que somos submetidos. O vazio existencial é uma das formas mais típicas de sofrimento humano, neste novo começo de século em uma sociedade dita pós-moderna ou, como denominada por alguns, hipermoderna. Esperamos que OS textos aqui apresentados possam contribuir para despertar no psicólogo clínico desejo de buscar na filosofia uma base sólida para seu trabalho do dia-a-dia.PARTE BASES FILOSÓFICAS PARAA CLÍNICAIMPACTOS DAS IDÉIAS HUMANISTAS, FENOMENOLÓGICAS E EXISTENCIAIS NA PSICOTERAPIA I INTRODUÇÃO Estamos assistindo a um ressurgimento das terapias ditas Pequenos grupos espalhados por várias lugares começam a se organizar para sistematizarem seus estu- dos. Como exemplo deste revigoramento do que já foi chamada a 3a. força da Psicologia em algumas décadas passadas, tivemos, em setembro de 1993, II Congresso Brasileiro de Psicoterapia Existencial; em setembro de 1994, a Segunda Conferência Inter- nacional de Psicologia y Psiquiatria Fenomenologica; em outubro de 1994, 1o. Encontro Latino Americano da abordagem centrada na pessoa e, hoje, estamos iniciando II Encontro Mineiro de Psi- cologia Humanista, que tem como objetivo reunir reflexões de pro- fissionais para que possam explicitar melhor as características do ser humano, e, assim, compreenderem homem como pessoa. O desafio diante do qual nos deparamos é de vermos agrupa- dos sob nome da Psicologia Humanista, e mais especificamente, Psicoterapia humananista-existencial as mais diversas práticas de psicoterapais, algumas meras técnicas que não têm nada a ver com a Psicologia Humanista ou Este desafio se manifesta de uma dupla maneira. Em primeiro lugar, se- ria necessário separarmos as práticas terapêuticas de orientação humanista-existencial das meras práticas alternativas que se proli- feram no mundo moderno. Em segundo lugar, dentro das práticas humanista-existenciais, separamos as diversas orientações que, * Texto publicado pela primeira vez nos Anais dos Encontros Mineiros de Psiciologia Humanista 1993-1995, p. 41-53. Em uma segunda vez, 0 texto foi editado pela Revista Café de Flore, Rio de Janeiro. Boletim n° 6, out.-nov. 95, p. 25-43.. 11num primeiro momento, podem parecer iguais, mas apresentam fundamentações teóricas divergentes. O objetivo desta conferência, sem querer esgotar assunto e muito menos julgá-la completa, pretende traçar algumas linhas gerais das diversas terapias contemporâneas ditas humanista- -existenciais, a partir de suas fontes e de suas idéias chaves, res- pondendo, assim, ao segundo aspecto do desafio proposto. Para levarmos a contento propósito estabelecido, dividiremos a expo- sição em dois momentos: a) Análise das diferentes fontes do movimento psicoterápico b) Impacto destas idéias na prática clínica denominada psico- terapia. II AS FONTES DA PSICOTERAPIA HUMANISTA EXISTENCIAL Para entendermos as diversas forças que vão moldar as psi- coterapias de cunho comecemos a distin- guir as idéias humanistas das idéias fenomenológicas e das idéias existenciais. Em determinados momentos da história, estas idéias se intercruzam, mas é necessário distinguirmos suas origens. 2.1. CONTEXTO HISTÓRICO DAS FONTES a) HUMANISMO INDIVIDUAL O conceito histórico-cultural de humanismo se refere à época do Renascimento e tinha como objetivo uma volta aos estudos dos autores clássicos greco-latinos. Dessa maneira, a recuperação dos grandes modelos de sabedoria do pensamento antigo pos- sibilitava o crescimento do homem. Por outro lado, 0 humanismo, enquanto possuidor de um significado ideal, designa uma concep- 12ção do mundo e da existência que tem por centro homem. As- sim temos tantos humanismos quantas concepções de homem. É nesta perspectiva que devemos entender movimento humanista que surgiu na sociedade americana è que foi responsável pelo aparecimento da Psicologia humanista que se apresentou como a terceira força da Psicologia e como alternativa a psicanálise de Freud, que tinha como preocupação central estudo do incons- ciente, e a Psicologia behaviorista, que tinha como objeto de es- tudo comportamento. A psicologia humanista é um retorno ao estudo da experiência consciente. "Esta psicologia constitui-se em oposição à objetividade do behaviorismo, e, embora em acordo com a ênfase subjetiva da psicanálise, opõe-se ao reducionismo do comportamento a defesas e O movimento cultural que sustentou esta transformação foi chamado por Gomes (1986) de humanismo individual e "sua história está associada com desempenho da economia. Com a economia em ascensão, decorren- te das transformações sociais pós-guerra, valores tais como, independência, hedonismo, dissidência, tolerân- cia, permissividade, auto-expressão, ganham proemi- nência. Todo este movimento liberalizante e permissivo alcança seu pico no governo Kennedy onde suas qua- lidades anunciam mudanças rápidas e Nós assistimos à invasão da sociedade pelo Eu, onde tudo, a partir dos anos 60, se estruturou tendo nas preocupações pes- soais seu lugar privilegiado. A lei, a seguir, formou-se depois da percepção de que a política não leva a nada: Sentir e viver plena- mente suas emoções. O impacto desta maneira de viver pode se sentir também na psicologia e é descrita por Gomes assim: 1 Gomes, William. Movimentos Humanistas; Psicologia Humanista e Abordagem centrada na Pessoa. In: Psicologia, Reflexão e Crítica, Porto Alegre, vol. 1, no. 1, 1986, p. 44. 2 Idem, p. 44-45. 13"Exemplos da atmosfera dominante podem ser vistas em frases que ficaram célebres como a oração da Ges- talt: 'Você cuide da sua vida que eu cuido da minha. Eu estou aqui para não viver as suas expectativas e nem você está aqui para viver as minhas'. Ou como Marlow (1968) costumava dizer que uma pessoa é valorizada não pelo que ela produziu mas pelo que pode vir a ser. Ou ainda, na teoria rogeriana da confiança irrestrita na pessoa". 3 Este clima de centramento no sujeito é a matriz de vários mo- vimentos terápicos e, hoje, a exacerbação do eu como centro, em tudo que se faz, provoca a onda de técnicas de auto-ajuda que assistimos proliferarem na sociedade contemporânea. b) FENOMENOLOGIA Ao contrário do humanismo individual, a fenomenologia é um movimento filosófico que se estruturou no início do século XX, através de Husserl. A palavra Fenomenologia foi utilizada pela primeira vez pelo médico francês J.H. Lambert em meados do século XVIII, para designar estudo ou a "descrição da na quarta parte do seu livro intitulado New Organon (1764). Este sentido pré-husserliano é recolhido por Kant e retomado por Hegel na Fenomenologia do Espírito já para designar a sucessão, por necessidade dialética, dos fenômenos da consciência, desde as simples aparências sensíveis até saber absoluto. Sem se esquecer que termo foi também utilizado por Hartmann, Pierce e Stumpf, chegamos ao sentido husserliano, anunciado na obra Logische Untersuchungen (1900-1901) onde Fenomenologia é entendida como um método para fundar a lógica pura, e, posteriormente, pensada por Husserl para fundamentar a totalidade dos objetos possíveis. 3 Idem, p. 45. 14É necessário lembrar que a concepção da Fenomenologia não foi colocada por Husserl de maneira acabada na referida obra. Ela sofre uma evolução ao longo do pensamento husserliano. Como nos mostra Van Breda no seu excelente artigo Phenomenologie, existe, em Husserl, duas grandes concepções de Fenomenologia. Na primeira, Husserl "define Fenomenologia como uma ciência filosófica propedêutica, que tem como objeto a descrição das es- sências fundamentais para uma problemática filosófica A segunda concepção, que se desenvolveu a partir do escrito de 1907, "Idéias para uma fenomenologia pura", proclama a feno- menologia possuidora da seguinte tarefa: "redescobrir a gênese intencional da consciência e OS passos constitutivos que a consci- ência coloca em Hoje, quando falamos que um pensador é influenciado pela fenomenologia, devemos ter O cuidado de detectar qual é a sua concepção de fenomenologia subjacente ao seu trabalho teórico, pois a primeira concepção de fenomenologia influenciou um gran- de número de psicólogos, psiquiatras, crítico de artes dos quais podemos citar Jagers como primeiro que trouxe esta concepção para domínio da psicopatologia. Já a segunda concepção foi uti- lizada mais pelos filósofos nas suas investigações. No pensamen- to francês, podemos citar Sartre, Merleau-Ponty e Ricoeur. Cada um dos inspirados pela fenomenologia vai, porém, tri- Ihar um caminho próprio. É por esta razão que teremos diversas concepções de fenomenologia ao longo da história do pensamen- to psicológico.⁶ Uma observação se faz necessária no sentido de 4 Van Breda, H.L. La Phenomenologie em Les courrants philosophiques, vol. III, 423, infelizmente sem data e referência editorial. 5 Idem, p. 421. 6 Para acompanhamento de impacto da fenomenologia nas suas diversas variáveis no campo da psicologia e da psiquiatria, consultar excelente livro de Spiegelberger, H., Phenomenology in Psychology and Psychiatry: A Historical Introduction, Northwestern University Press, 1972 15precisar que todos que adotam método fenomenológico se opõem ao método científico clássico e à análise central dos fenô- menos psíquicos. Desta maneira, a fenomenologia é uma nova maneira de se abordar fenômenos psíquicos. c) EXISTENCIALISMO Enquanto a Fenomenologia é compreendida pelos discípulos como um método, Existencialismo é entendido como uma dou- trina filosófica sobre homem. As filosofias da Existência surgirão como uma oposição a toda filosofia clássica a qual é entendida como estudo das essências, cuja idéia principal seria a compre- ensão das dimensões estáveis. Os filósofos da existência vão re- direcionar as perguntas sobre homem. Em vez de se perguntar: que é homem, se perguntará: quem é homem? Evidentemente a palavra existencialismo começou a ser usa- da depois da primeira guerra mundial para designar justamente movimento de alguns pensadores e de alguns literatos sobre a investigação de quem é homem. Este movimento, que se estru- turou com mais força no entreguerras, isto é, entre 1918 e 1945, teve suas raízes históricas no pensamento de Kierkegaard quan- do filósofo dinamarquês se opôs ao pensamento pós-hegeliano dominante do seu tempo. A idéia central de luta de Kierkegaard era reagir contra caráter universal, intelectual e determinista do hegelianismo, afirmando interese pelo singular e pela vontade. Segundo os historiadores, movimento existencialista se inicou na Alemanha, em 1919, quando Barth publicou um comentário sobre a epístola aos Romanos e Jaspers publicou A Psicologia da Mun- dividência. De um lado, movimento existencialista ganha forças justamente a partir da década de 20, uma vez que entreguerras foi um período de muito sofrimento, desespero e angústias. Estes temas se tornaram temas preferidos dos existencialistas, pois 16estes se preocupavam em falar e refletir sobre 0 que homem estava vivendo naquele instante. Por outro lado, este movimento só veio a se expandir fora do contexto europeu a partir do fim da segunda guerra mundial. A década de 50 foi, talvez, a década de divulgação do movimento existencialista. É necessário observar que, embora encontramos um número muito grande de escritores ditos existencialistas, Büber, Bultmann, Guardini, Camus, Dostoievski, entre outros, só são considerados clássicos filósofos existencialistas Heidegger, Jaspers, Sartre e Marcel. E uma segunda observação é que todos estes quatro fi- lósofos, que passaram para OS anais da história da filosofia como OS filósofos da existência⁷, utilizaram, cada um a partir de uma inspiração pessoal, método fenomenológico para concretizarem as suas reflexões sobre homem. A Filosofia da existência pode ser concretizada através de duas grandes características. A primeira é que todos OS filósofos e escritores procuram valorizar homem. A segunda é que todos procuram descrever e explicitar modo concreto do homem viver, isto é, refletindo sobre a angústia, a liberdade. Salientamos que desenvolvido até aqui visa explicitar a ne- cessidade de um cuidado de se detectar as diversas fontes da psicoterapia e, mais ainda, observar que os três movimentos, que ora analisamos, possuem as origens mais diversas e idéias forças diretrizes muito diferentes. 2.2. AS IDÉIAS FORÇAS DE CADA MOVIMENTO Gostaria, agora, de desenvolver as idéias chaves ou forças de cada um dos movimentos. Visto que tempo de exposição não permite uma análise exaustiva, escolherei uma idéia chave de cada uma das fontes das psicoterapias humanistas-existenciais A escolha não reflete nenhuma escala de valores, mas procura des- 7 Wahl, Jean. As Filosofias da Lisboa, Publicações Europa-América s/d. 17tacar as categorias mais significativas no nosso entender. Do pen- samento humanista, escolhemos 0 conceito de auto-realização, da fenomenologia, da intencionalidade da consciência, e da filosofia existencial conceito de Existência. a) Auto-realização e Autodesenvolvimento A psicologia humanista procura entender a vida humana na sua totalidade e, assim, a compreensão do homem pelos psicólo- gos humanistas é entendê-lo como um ser que, em primeiro lugar, possui uma unidade. A diferença entre as diversas abordagens está em que cada uma, ao descrever as características principais do homem, sublinhará pontos diferentes. Como exemplo podemos citar que coloca acento sobre projeto humano e na superação de si, quando fala das experiências culminantes. A ênfase sobre ciclo da vida é outra característica da Psico- logia Humanista. Seus representantes têm enfatizado que a vida humana possui uma dinâmica na qual, em cada fase da vida, ser humano deve alcançar um certo grau de realização, a fim de que possa, ao longo da vida, se estruturar como uma pessoa plena, integrada. Ora, essa ênfase dos humanistas nos faz perceber que homem é compreendido, em primeiro lugar, como processo e evolução. Somente a partir deste processo é que podemos com- preender a sua estrutura. Assim, Poelman, no seu livro homem a caminho de si mesmo", afirma que esse processo da evolução é inerente à própria vida e que "essa evolução não ocorre ao acaso, mas segue uma certa direção, tem um certo fim em vista; não é um processo que ocorre somente por acertos e erros ou por tentativas desconexas, não é um no 8 Maslow, Abraham. Introdução à Psicologia do Ser, RJ, Ed. s/d, 2a. ed. 9 Poelman, Johannes. O Homem a caminho de si mesmo. SP. Ed. 1993, p. 13. A primeira parte do livro coloca com clareza as idéias mestras da psicologia humanista e desenvolve as posições teóricas de alguns dos seus principais representantes. 18Encontrar as categorias fundamentais que traduziriam estas duas características principais do pensamento humanista é 0 de- safio do intelectual. Penso, porém, que, sob conceitos de auto- -realização e autodesenvolvimento, poderíamos agrupar as diver- sas contribuições humanistas. O conceito de auto-realização quer acentuar que esse proces- so de crescimento inerente à dinâmica da vida deve ser entendido na sua globalidade, isto é, no desenvolvimento de todas as dimen- sões humanas, sejam elas biológicas, psicológicas, espirituais e sociais. Gostaria de citar Rogers e Maslow como OS representantes mais significativos da explicitação das fases do processo de auto- -realização do homem. Rogers, no seu livro "Tornar-se na quarta parte, quando trata da Filosofia da Pessoa, traça carac- terísticas deste processo de auto-realização. Por outro lado, Mas- low, no seu livro "Motivation and na parte que trata da Teoria da Motivação humana, desenvolve as dimensões do ser humano que devem ser atingidas no processo de auto-realização. O conceito de autodesenvolvimento nos ajuda a entender a evolução do ciclo da vida do homem. Entre OS humanistas citaria Bühler e um neoculturalista que traduz bem este processo, Erikson. Enquanto Bühler mostra que ser humano deve passar por cinco fases, Erikson enumera oito fases, destacando sempre, em cada uma delas, uma dialética entre dois polos opostos.¹² As duas interpretações estão baseadas no fato de que a vida é vivida como um todo por uma pessoa que atinge seu pleno desenvolvimento no instante em que percorre as diversas fases, cada uma com uma conquista integrativa, retratadas através de seus sucessos e de seus fracassos. 10 Rogers, Carl. Tornar-se Pessoa. Lisboa, Moraes Editora, 1970. 11 Maslow, Abraham N. Motivation and Personality. NY. Harper and Row, 1970, 2a. ed. 12 Buhler, Charlotte. Der menschliche Lebenslauf as psychologisches Problem (o curso de vida humana como problema psicológico). Leipzig, Hirzel, 1933. Erikson, Eric.H.Identity and the life cycle. N.Y. International Universities Press, 1959. 19b) Teoria da Intencionalidade Sem querer fazer um estudo exaustivo sobre a fenomenolo- gia, psicólogos devem se interrogar sobre quais conceitos fun- damentais da Fenomenologia são úteis para seu trabalho. Assim, não se trata de fazer Filosofia Fenomenológica, mas captar os conceitos que nos ajudariam a entender melhor fenômenos psi- cológicos. De um modo geral, utilizamos uma compreensão do método fenomenológico para nossos estudos. Este método tem, porém, alguns fundamentos e procedimentos que podem ser tematizados através da explicitação de suas características. Para um certo domínio da fenomenologia, será necessária a compreensão do retorno "às coisas mesmas", conceito de redu- ção eidética e a redução transcendental, a teoria da intencionalida- de, a intuição das essências, mundo da vida a intersubjetividade. Diante do tempo limitado desta conferência, destacaremos o que nos parece ser a descoberta mais significativa de Husserl, que é a teoria da intencionalidade. A afirmação de Husserl é que a consciência é intencionalida- de, isto é, que ela é sempre consciência de alguma coisa. Hus- serl avança conceito de intencionalidade dos escolásticos re- tomado por Brentano, pois "a intencionalidade husserliana não é apenas uma propriedade do ato ou vivência, como em Brentano que não fala ainda de consciência intencional. Segundo Husserl, a intencionalidade vivifica a vivência, tornando-a designativa do objeto, em virtude de um processo mais radical, inerente à própria "A novidade, aqui, é que a consciência se esgota em visar algo que não é ela mesma: ela se define pelo objeto que visa.¹⁴ 13 Fragata, Julio. A Fenomenologia de Husserl como fundamento da Filosofia. Braga, Livraria Cruz, 1959, 131. 14 Tavares, Hugo C. da Silva. A Fenomenologia de Husserl em Kriterion, vol. XXV, no. 72, jan./jun. 1984, p. 39. 20Assim, a idéia de intencionalidade que começou a ser desen- volvida por Brentano e retomada por Husserl, vai se articular inde- pendentemente da idéia que 0 sujeito e objeto são duas subs- tâncias separadas, justamente contrário da filosofia cartesiana onde Cogito separa radicalmente mundo do pensamento e a realidade do corpo. Podemos concluir com Forghieri dizendo que a intencionalidade é, essencialmente, ato de atribuir um sentido: é ela que unifica a consciência e objeto, sujeito e mundo. "Com a intencionalidade há reconhecimento de que mundo não é pura exterioridade e sujeito não é pura interioridade, mas a saída de si para um mundo que tem uma significação para c) O conceito de Existência Se também percorrermos OS principais existencialistas, como citamos os principais humanistas, vamos destacar os temas mais relevantes para a Psicologia Existencial. Antes de destacar as principais categorias da Filosofia da Existência, faria duas obser- vações. A primeira é que ditos filósofos oficiais do existencialis- mo Sartre, Jaspers, Heidegger, Marcel cada um, a seu modo, utilizou método fenomenológico para elaborar a sua filosofia da existência, unido assim os dois conceitos fenomenologia e exis- tencialismo. A segunda observação é que a Psicologia Existen- cial não se baseia só nas filosofias "oficiais" do Existencialismo, mas utiliza também os conceitos elaborados pelos outros escrito- res existencialistas supracitados. Sem corrermos risco de, sob nome de Existencialismo, abrigarmos todo tipo de pensamento an- ti-racionalista, é necessário procurarmos explicitar os fundamentos teóricos, isto é, analisar e esclarecer nossas próprias pressuposi- ções de entendermos a existência humana. 15 Forghieri, Yolanda. C. Psicologia Fenomenologia. SP. Ed. Pioneira, 1993, p. 15. 21Dentre a vasta temática das filosofias da Existência, podemos destacar as categorias de Existência, ser-no-mundo, liberdade, outro, a Angústia, Temporalidade, 0 Amor etc. Escolhemos falar sobre a Existência pois é ela que nos explicita melhor as dimen- sões do ser humano. A pergunta inicial seria a seguinte: é possível definir conceito de Existência? A palavra Existência, diz Jaspers, um dos sinônimos da palavra realidade", mas, graças à maneira de como Kierkegaard a acentua, ela tomou um aspecto novo: "ela designa O que eu sou fundamentalmente por mim".¹⁶ Existência não deve ser entendida no sentido trivial de ser- -no-mundo, como simplemente um ente no meio de outros entes. Ex-sistere deve ser compreendida como ex = fora de e sistere = ter sua postura. Existir é, pois, ter sua postura fora. A existência di- fere radicalmente do comportamento de todo outros entes. Nós somos destino de nós mesmo. Esta postura, que está sempre em construção, nunca acabada nos permite captar algumas carac- terísticas do existir humano. Em primeiro lugar, existir é ir sendo, que se fará através da escolha e da decisão. Em segundo lugar, é estar em conflito consigo mesmo, e uma preocupação infinita de si próprio. Em terceiro lugar, ela não é definível. Ela não pode tornar-se objeto.¹⁷ Cada filósofo, através de seus escritos, procura precisar as ca- racterísticas de Existência. Heidegger deve ser lembrado como, talvez, que fez um esforço gigantesco na sua obra Ser e Tem- po para analisar a estrutura da Existência, mostrando a estrutura Dasein, estar fora de si e estar-no-mundo. Por isso, vai falar de existência autêntica e existência mantêutica. No aprofundamento do pensamento de Heidegger, vamos encontrar que, mostrando limite das análises heideggerianas, quando compre- ende Dasein como cuidado (Sorge), mostra que amor (Liebe) 16 Citação de Jaspers retirada do livro de Wahl, Jean, op. cit, p. 41. 17 Wahl, Jean. Op. cit, 42-43. 22é uma outra dimensão do Dasein (de Existência) que não mereceu atenção dos filósofos. Depois destas breves consderações, passemos à análise da repercussão destas idéias na psicoterapia. III IMPACTO NAS PSICOTERAPIAS O passo agora é estarmos atentos a qual destas fontes anali- sadas acima lançar alicerces para a prática clínica denominada psicoterapia. Sem querer esgotar O assunto, tentaremos mostrar, em linhas gerais, quais as bases das mais significativas psicote- rapias e A di- visão agora não é arbitrária, mas tem sua razão de ser e é que tentarei mostrar. Creio, porém, ser necessário destacar que tanto as terapias humanistas, as terapias existenciais, quanto as terapias fenome- nológico-existenciais, possuem uma concepção mais ou menos homogênea do que seja Psicoterapia. Sem medo de errar, pode- mos dizer que, para todas as principais tendências do mesmo solo epistemológico, a psicoterapia é entendida como um encontro in- terpessoal entre cliente e terapeuta. Encontro que só tem sen- tido se tipo de relação estabelecida entre dois seres humanos for vivida como uma relação pessoal intersubjetiva, isto é, quando dois protagonistas tabalharem juntos a um nível subjetivo, nível este que deixa aflorar as vivências mais intensas do cliente.¹⁸ Desta maneira, descartamos, de uma vez por todas, que não entendemos psicoterapia como uma aplicação de técnica. Ela é uma relação pessoal intersubjetiva. Para melhor entendermos o vasto panorama das diversas te- rapias, dividi-lo-ei em dois grandes grupos. No início, estes grupos se estruturam independentemente um do outro, mas, com pas- sar do tempo, os contactos vão se estreitando, e as influências 18 Burcher, Richard. A Psicoterapia pela Fala. EPU, 1989, p. 117. 23recíprocas ajudam a enriquecer ambas as partes. Porém, no meu entender, é possível ver, com grande nitidez, duas grandes esco- las. A primeira escola chamarei de escola americana, a segunda, de escola européia. 3.1. A ESCOLA AMERICANA O Humanismo individual é fruto da sociedade americana e foi este momento cultural juntamente com as peocupações do exis- tencialismo de Kierkegaard responsáveis pela primeira fase das terapias ditas May diz seguinte: "No pen- samento e nas atitudes americanas também é muito importante a desconfiança em relação às categorias abstratas ou a teorização 'per uma desconfiança tão veementemente manifestada por Kierkegaard, assim como a rejeição da dicotomia A primeira tendência da escola americana é que chamaremos Psicoterapia 3.1.1. Psicoterapia Humanista-Existencial a) Terapia centrada na Pessoa de Carl Rogers. É impossível, aqui, no contexto desta apresentação, analisar- mos com profundidade os desdobramentos de cada teoria. Des- tacaremos só os pontos mais significativos que mereçam a nossa atenção. O pensamento terapêutico de Rogers passa por três grandes fases: a não-diretiva (1940-1950), a fase reflexiva (1950-1957) e a fase experiencial (1957-1970). No âmbito geral, a fundamentação de Rogers é mais no pensamento de Kierkegaard e Buber, ten- do contacto com a fenomenologia ocorrido mais tade, em dois momentos distintos. O primeiro, através de Suygs e Combs e 19 May Rollo. Terapia Existencial e a Cena Americana em Psicologia e Dilema Humano. RJ, Zahar Editores, 1973, p. 136 24segundo, por intermédio de seu discípulo Gendlin, que influenciou na passagem da segunda para a terceira fase de sua teoria. Como próprio Rogers escreve, "a identificação com a psico- logia humanista está baseada na sua advocacia pela dignidade e valor da pessoa individual na sua busca pelo Sua teoria da Personalidade, que sustenta toda a prática terápica, vai apresentar uma interligação entre esta e a experiência que será feita pelo organismo. Esta afirmação retrata um dualismo que, aos olhos da fenomenologia, trará problemas. O fato de Rogers ter uma confiança nas forças positivas do organismo, que são utilizadas de forma exata, ajudará indivíduo a ter uma vivência mais plena. Ele diz que em cada organismo "há um fluxo subjacente de movimento em direção à realização cons- trutiva das possibilidades que lhe são Este posiciona- mento rogeriano coloca mais próximo das idéias humanistas do que das idéias fenomenológicas. b) Psicoterapia existencial de Whitaker e Malone Outra abordagem de psicoterapia, que se alinha tendo as idéias humanistas como inspiradoras, é a psicoterapia existencial de Whitaker e Malone. O livro Metas de Psicoterapias²², escrito pe- los dois clínicos em 1953 e reeditado em 1981, traduz as idéias de que o indivíduo está inserido num meio cultural e deve ser enten- dido como uma pessoa, isto é, deve ser percebido no dinamismo filosófico e na sua inserção como ser social. 20 Meador, Betty e Rogers, Carl, Person Centered Therapy em Corsiri (ed) Current Psychotherapies, Elasca. Peacock Publishers, 1979, 2a. ed., p. 134. 21 Rogers Carl. Um jeito de ser. SP, EPU, 1983, p. 40. 22 Whitaker, Carl e Malone, Thomas. The Roots of Psychotherapy, NY, Brunner/Mazel, 1981, 2a. ed. 253.1.2. Psicoterapia fenomenológico-existencial O movimento fenomenológico surgido na Europa teve tam- bém suas ramificações nas Américas, porém, a nosso ver, ainda se estruturou de uma forma acadêmica ou escolar, tanto assim que historiador do impacto das idéias fenomenológi- cas na Psicologia e Psiquiatria, divide em duas épocas distintas a vinculação das idéias fenomenológicas nos EUA. A publicação de Existência em 1958, um livro organizado por Rollo May e outros, tornou-se marco divisório das idéias fenomenológicas. É nesse livro que se tem, pela primeira vez, uma divulgação das idéias de Binswanger, Strauss, Minkowsky e Kuhn, teóricos da fenomenolo- gia no campo da psiquiatria Um ano depois, na Convenção Anual da Associação America- na de Psicologia, Maslow, numa conferência, diz seguinte: "A fenomenologia tem uma certa história no pensamento psicológico americano, mas, no todo, penso tem enfraquecido. Os fenome- nólogos europeus, com suas demonstrações torturantemente cui- dadosas e laboriosas, podem nos re-ensinar que melhor modo de compreendermos outro ser humano ou, pelo menos, um modo necessário para algumas finalidades é penetrar em seu weltans- chamung e ser capaz de ver seu mundo através de seus Este revigoramento vai se traduzir com aparecimento de várias revistas de cunho fenomenológico e a) Psicoterapia Existencial de Rollo May May tem se tornado porta-voz, nos Estados Unidos, das idéias fenomenológico-existenciais. May é mais conhecido como 23 May, R. Angel, E. e H. Existence: A new Dimension in Psychiatry and Psychology. NY, Basic Books, 1958. 24 Maslow, A. Psicologia Existencial: que há nela para nós? em May, Rollo (org.) Psicologia Existencial, P. A., Ed. Globo, 1976, p. 62. 25 Em 1960 The Journal of Existencial Psychiatry, em 1961. Review of Existencial Psychology and Psychiatry, etc. 26existencialista, pois sua ênfase na fenomenologia tem sido recen- te. No seu artigo "Uma abordagem fenomenológica da Psicotera- pia", ele nos diz: "Nós, psicoterapeutas, esperamos que a fenome- nologia nos indique um caminho para a compreensão da natureza fundamental do A trajetória de May em seu contacto primeiro com existen- cialismo se deve ao fato de ter convivido com dois refugiados ale- mães: Goldstein e Tillich, tendo, assim, acesso ao pensamento de Kierkegaard e Heidegger.²⁷ Rollo May não escreveu muito explicitamente sobre a conduta do terapeuta nesta perspectiva fenomenológica. O que temos é a explicitação de conceitos centrais no livro Existência, e retomados posteriormente, no livro A descoberta do como Ser e não- -ser, Ser-no-mundo, que servem para fundamentação do trabalho terapêutico na linha b) Psicoterapia Existencial de Eugene Gendlin O Psicólogo e filósofo Gendlin é responsável pela reorien- tação da obra de Rogers, transformando-a em fenomenologia e existência. É também criador da psicoterapia experiencial, "que constitui-se, basicamente, numa fusão das terapias centradas no cliente e existencial. Contudo, é uma fusão criativa que vai além destes dois sistemas, invertendo as regras da Terapia centrada no cliente e ampliando a Terapia Eugene, no artigo onde dá uma visão geral da sua terapia, enumera os principais pensadores que constituem as raízes de 26 May Rollo. Uma abordagem Fenomenológica da Psicoterapia em Psicologia e Dilema Humano, op. cit, p. 122. 27 Spigelberg, H. op. cit., 159. 28 May Rollo. A descoberta do Ser. RJ., ed. Rocco, 1988. 29 Gomes, William. A Psicoterapia experiencial de Eugene Gendlin e suas relações com a fenomenologia em Psicologia: Reflexão e Crítica, P. Alegre, 1988, V. 3, no. 1/2, p. 38-48. 27seu trabalho. Dos filósofos, ele é devedor a Kierkegaard, Husserl, Heidegger, Buber, Sartre e Merleau-Ponty; dos psicólogos, ele destaca Whitaker e Malone, Rank, Rogers, Binswanger, Boss e May. Seu pensamento se traduz num esforço, gigantesco de en- contrar um método que fosse adequado para estudar fenômeno da subjetividade. Gendlin estrutura a terapia experiencial em torno de quatro conceitos básicos: a) sentir experiências (experiential felt sense) b) diferenças (differentiation) c) ir adiante (carrying forward) d) interagir O processo de experiências se dá através dos três primeiros conceitos. "No sentir descreve este contato imediato com todo situacional. Esta consciência pré-reflexiva é possível quando indivíduo está, interiormente, quieto e preparado para interagir com próprio corpo. No "diferenciar", define elementos emergentes da informação organística e é, portanto, uma reflexão. O "ir adiante" indica movimento resultante da tensão dialética, que ocorre quando a informação organística é diferenciada e cada sentimento é Porém, para Gendlin, este processo só ocorre se ser humano possui um corpo, que está em contínua interação com seu meio ambiente. Nota-se aqui a grande influ- ência do pensamento de Merleau-Ponty. Assim, Gendlin estrutura toda a sua técnica terapeutica numa condição fenomenológica da teoria e consegue atingir a subjetivi- dade ao ser humano, objeto de abordagem das teorias fenomeno- lógico-existenciais. 30 Gendlin, Eugene. Experiential Psychotherapy, em Corsini (ed.). Curent Psychoterapies, op. cit, p. 340-373. 31 Gomes, William, op. cit., p. 45. 283.1.3. Terapias Existenciais dos anos 80-90. O mundo contemporâneo está passando por grandes transfor- mações, e temos assistido a um questionamento de que parâ- metros antigos não são suficientemente claros para se entender determinados fenômenos. É que se chama a "crise dos para- digmas". No bojo desta problemática, tem surgido um novo eixo de organização da ciência, onde, para se entender um fenômeno, não basta hipótese simplista, pois fenômeno é extremamente complexo. Fala-se também que a referência não é mais a objetivi- dade pura e simples, mas ela deve ser compreendida a partir da intersubjetividade. É novo conceito de ciência e de homem que deve emergir neste final de milênio. As práticas terapêuticas devem se estruturar não mais dentro do paradigma newtoniano-cartesiano (Determinismo, Reducionis- mo, Fragmentação e Separação radical do sujeito-objeto), mas dentro de um novo quadro referencial que seja sistêmico, lingüísti- CO, fenomenológico, existencial e Dentro desta perspectiva desafiante, é que gostaria de citar dois estudos, em psicoterapia existencial que devem nos motivar e buscar diálogo com que há de mais novo no pensamento contemporâneo. A psicoterapia existencial de Irvin Yalon e a de Salvatori Maddi³³. 3.2. A ESCOLA EUROPÉIA A Europa, pela sua tradição filosófica, será berço das princi- pais idéias fenomenológicas e existenciais. Está em sua maneira de ser uma busca rigorosa na estruturação dos conceitos, e não 32 Para o desenvolvimento deste novo paradigma em Psicoterapia, consultar Diniz Neto, Orestes. Um experimento sobre os efeitos de cognitiva em Psicoterapia breve de grupo. Tese de mestrado em Psicologia na UFMG, 1993, p. 50-88. 33 Yalom, Irvin. Existential Psychotherapy, N.Y., Basic Books, s/d Maddi, Salvatore. Psicoterapia existencial. 29poderia ser de outra maneira. Assim, as mais fecundas e apare- cimento dos primeiros discípulos dos mestres filósofos no campo da prática clínica se dá com mais força na Alemanha, sem, eviden- temente, esquecermos as contribuições do pensamento francês. 3.2.1. Psicoterapia Fenomenológico-Existencial a) Daseinsanalyse de Ludwig Binswanger Podemos resumir em duas as contribuições de Binswanger para a prática clínica. A primeira são estudos fenomenológicos no campo da psicopatologia onde sua abordagem, a partir dos es- tudos de Husserl, marca um passo a mais nos estudos iniciados por Jaspers. A segunda é a construção da teoria terapêutica intitu- lada Daseinsanalyse. Porém, estas duas contribuições devem ser entendidas dentro de uma preocupação mais ampla que pautou todo seu trabalho clínico, que foi a de encontrar uma fundamen- tação "científica" para a Psiquiatria do seu tempo. Binswanger foi diretor da clínica "Bellevue", fundada por seu avô, em Kreuzilnig, e de promoveu muitos encontros com intele- cutais e mestres da época. Estas jornadas de estudos contaram com a presença de Husserl, Scheller, Heidegger, Buber e muitos outros que marcaram pensamento binswangeriano. No campo da psicologia, Binswanger fez sua tese de doutorado sob a direção de Carl Jung e foi através deste que, em 1907, conheceu Freud do qual iria se tornar amigo, permanecendo psicanalista até fim da vida, mesmo depois do rompimento intelectual com Freud. Foi, no ano de 1930, com lançamento de Sonho e Existên- cia³⁴, que Binswanger começou a lançar as bases de Daseinsa- 34 Binswanger, L. Traum und Existenz em Neue Schweiz Rundschau, sept. okt. 1930, 766-799. Existe uma tradução francesa com uma introdução de Michel Foucault. Réve et Existence. Paris, Desclée de Brouwer, 1954. Recentemente, veio a público uma tradução brasileira que foi editada pela revista Natureza Humana, vol. IV, n° 2, São Paulo, dez, 2002 30nalyse que tem seus fundamentos filosóficos e antropológicos ex- plicitados em 1942 na obra Sua compreensão do Dasein vai além da heideggeriana no sentido que este não deve ser entendido só como Sorge (cuidado), mas também como Liebe (Amor). Estas duas dimensões do Dasein possibilitam que ele não seja só entendido como ser-no-mundo (in-der-welt-sein), mas, também, como um ser-que-ultrapasse-o-mundo (uber-die-welt- -hinaus-sein). b) Análise Existencial de Medard Boss Boss funda, em Zurick, um Instituto de Psicoterapia chamado Daseinsanalyse, mesmo nome do trabaho de Binswanger, e que tem como principal inspirador Martin Heidegger. Porém, antes de se iniciar ao pensamento de Heidegger, Boss foi muito influenciado por Jung. As análises do ser-no-mundo introduzidas por Heidegger vão ajudar Boss, que não estava contente com as análises freudia- nas, a encontrar alternativas de uma concepção não-naturalista do homem como aberto ao ser. Assim, a função da terapia seria a completa liberação do paciente através da experiência fenomenal, à qual terapeuta terá acesso através das análises dos sonhos que Boss desenvolveu em alguns dos seus mais importantes es- critos.³⁶ Boss pontua suas divergências com a Psicanálise e podería- mos citar duas. Em primeiro lugar, enfatiza que conflitos indivi- duais não estão na mente; eles são conflitos entre OS diferentes modos de relação do nosso mundo e do mundo dos outros. Em segundo lugar, Boss ressalta que expressões de sentimento dos pacientes estão diretamente ligados à situação presente. 35 Binswanger, L. Grundformen und Erkenntnis menschlichen Daseins. Munchen, Reinhart, 1973, 5a. ed. 36 Boss, Medard. Trad. port. Na Noite Passada, eu sonhei, SP, Editorial Summus, 1979. 313.2.2. Psicoterapias Antropológicas Entendemos por psicoterapias antropológicas as práticas tera- pêuticas que partem de uma elaboração explícita do ser humano trabalhado. Todos procedimentos serão decorrentes da concep- ção de homem explicitada. a) Logoterapia de Viktor Frankl Frankl viveu situações dramáticas existenciais como prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz, as quais são retratadas no livro homem em busca do sentido.³⁷ Sua teoria terapêutica estaria muito influenciada pelas experiências limite mais terríveis do totalitarismo, vividas durante três anos, como prisioneiro. Após a segunda guerra, ele quis estudar filosofia e defendeu sua tese de doutorado aos 44 anos sobre a presença inconsciente de Deus. Assim, a sólida base filosófica veio apoiar suas experiên- cias existenciais e médicas. A concepção de homem explícita de Frankl pode ser resumi- da no sentido de que homem deve ser entendido como um ser biopsicoespiritual, isto é, como uma totalidade. Desta antropologia tripartida, Frankl dará maior ênfase à dimensão noética, isto é, a dimensão do espírito, onde o homem será entendido como um ser em busca do sentido. Ele diz que o homem "no final das contas, O que procura mais é a felicidade em si, mais uma razão para ser feliz. Com efeito, no dia-a-dia da clínica, vemos que é precisamen- te por não contar com uma para ser feliz" que neurótico sexualmente perturbado, impotente ou frígido, encontra-se impos- sibilitado de obter a A diferença fundamental entre a Logoterapia e a Análise Exis- tencial é que a primeira tem como finalidade incluir logos na psico- 37 Frankl, Viktor. Man's Searsch for meanig. Boston, Beacon Press, 1959. 38 Frankl, Viktor. Fundamentos antropológicos da Psicoterapia, RJ. Zahar Ed. 1978. 32terapia e a segunda é incluir a existência na psicoterapia. Segundo Frankl, "a reflexão regressiva psicoterapêutica sobre logos signi- fica mesmo que reflexão regressiva sobre O sentido e valores. A auto-reflexão regressiva psicoterapêutica sobre a existência é igual a auto-reflexão sobre a liberdade e a 39 b) Psicoterapia Antropológico-fenomenológica A escola de Heidelberg que desenvolveu a aplicação da fe- nomenologia da psicopatologia através, primeiro, de Jaspers e, posteriormente, através de Tellenbach, que faleceu no último se- tembro, foi também a responsável pelo desenvolvimento de uma antropologia fenomenológica aplicada ao campo da medicina psi- cossomática. Viktor Von foi responsável pela elaboração da antropologia, que desenvolveu uma nova compreensão da relação médico-paciente, trazendo, assim, novas luzes para uma relação terapêutica mais libertadora. Weizsäcker diz que a pessoa está determinada pelas categorias do devir, do encontro, do sucesso, da confirmação e da responsabilidade. Esta antropologia teve seus discípulos dos quais podemos destacar Paul Christian, que faz uma análise da compreensão da pessoa no moderno pensamento médico, e Walter que desenvolve a dimensão antropológica da psicoterapia. 3.2.3. Psicoterapia Antropológica dos anos 80-90. Temos assistido, na Europa, a uma efervescência de novas idéias que provaram um repensar de algumas posições defendi- das pelas terapias apresentadas anteriormente. É necessário en- 39 Frankl. Idem, 197. 40 Christian, Paul. Das Personenverständnis im modernen medizinischen Durken. Tubigen, 1952. 41 Bräutigam, Walter. La psicoterapia en su aspectos antropológicos. Madrid. Ed. Gredos, 1964. 33trar em diálogo com as ciências desta segunda parte do séc. XX, para não correr 0 risco de se perder 0 bonde da história. Dentro deste esforço, quero citar a Psicoterapia Dialytica de Luis Cencillo na Espanha. Dialysis hologênica que, literalmente, significa dissolução gerada pela totalidade, isto é, gerada pela compulsão da totalidade de todos dados, elementos e regis- tros disponíveis e verificáveis. "Dialysis conota processo, um pro- cesso translaborativo que vai dissolvendo fixações, barreiras, blo- queios e as vai canalizando integralmente na totalidade funcional O autor parte, portanto, de uma explicitação da totalidade do ser humano para gerar a sua prática clínica. O segundo exemplo é de que tem elaborado uma Psicoterapia antropológica integrativa, na qual define a psicote- rapia como um encontro intersubjetivo da comunicação. autor desenvolve também toda uma reflexão sobre que seja a comuni- cação e as suas implicações na relação terapêutica. IV - CONCLUSÃO Neste final de século, permeado por grandes transformações, as psicoterapias humanistas, existenciais e as psicoterapias feno- menológico-existenciais se encontram diante de desafios novos e nunca pensados. Citarei só dois. O primeiro grande desafio, no nosso entender, é a neessidade de se explicitar de maneira rigorosa os fundamentos da atividade terapêutica para tirarmos, de uma vez por todas, a idéia de que humanista é uma mera aplicação ou técnica ou conversa livre (amigável). A prática terapêutica deve se fundamentar numa coerente visão de homem, isto é, numa antropologia filosófica, e na explicitação dos fundamentos filosóficos, psicológicos, antropo- lógicos e epistemológicos. 42 Cencillo Ramirez L. Transferencia y sistema de Psicoterapia, Madrid Ediciones Ruámide, 1977. 43 Wyss Dieter. Der Kranke als Partner. 2 vols. Gottigen, Vandenhoeck e Ruporeckt, 1982. 34O segundo desafio é a busca de um diálogo com outro domínio da psicologia a fim de que uma visão mais abrangente possibilite um trabalho clínico mais consistente. Aqui, refiro-me à busca de integração dos conhecimentos gerados pelas teorias da comuni- cação, pela cibernética, e também pelas novas pesquisas da psi- cologia cognitiva entre outras. Almejamos que ressurgimento das terapias existenciais bus- que um aprofundamento do seu referencial teórico e não seja mais um modismo dentro da psicologia. 35DIFERENCIAL PSICOTERAPÊUTICO NA FENOMENOLOGIA EXISTENCIAL A Fenomenologia é uma corrente filosófica que tem fecunda- do a Psicologia já há alguns anos. Essa presença, usando como ponto de partida a data que nos parece mais significativa, co- meçou no domínio da Psicopatologia quando, em 1913, psi- quiatra e filósofo KARL JASPERS (1883-1969) escreveu a sua Psicopatologia Geral. De lá até hoje, esse impacto tem crescido e provocado uma grande fecundidade, atingindo vários domínios, como a Psicologia Experimental (ALBERT MICHOTTE 1881- 1965), a Psicologia Comparada e a Fisiologia Antropológica (FJ.J. BUYTENDIJK, 1887-1974), a concepção holística do or- ganismo (KURT GOLDSTEIN, 1978-1965). O impacto maior tem sido entre OS psiquiatras como, para nos atermos apenas a dois expoentes, LUDWIG BINSWANGWER (1881-1956) e MEDARD BOSS ( 1903- ), que fundaram seus próprios métodos de análise terapêutica. Do outro lado do Atlântico, a influência da fenomenologia tem sido grande, com destaque para a Universidade de Duquene de Pittsburgh, Centro de Pesquisa em Psicologia Fenomenológi- ca, sob impulso de AMADEU GIORGI que publicou um livro "Psychology as a human science", em 1970, no qual defende a idéia de uma renovação radical da psicologia, sobre bases feno- menológicas. É necessário notar que ROLLO MAY, em 1958, ao organizar um livro intitulado "Existence: a new dimension in Psychiatry and Psychology", desencadeou, nos Estados Unidos, uma influência marcante da Fenomenologia, pois apresentou ao público ameri- cano alguns dos principais representantes europeus da aplica- ção da fenomenologia à Psicologia. Ainda nos USA, é importante 37destacar, surgimento do Journal of Phenomenological Psycho- logy dirigido por A. GIORGI (Pittsburgh), K. GRAUMANN (Hei- delberg) e G. THINÈS (Louvain), representantes dos principais centros nascentes da Fenomenologia. A partir desse início, que alguns pesquisadores olhavam com uma certa desconfiança, a Fenomenologia tem sido uma corrente filosófica de grande fecundidade na psicologia. Para ter-se uma idéia da amplitude desse impacto, cito livro de H. SPEIGELBERG "Phenomenology in the Psychiatrie and Diante desse breve quadro, gostaria agora de destacar e salientar nesta apresentação, impacto da Fenomenologia na Psicoterapia, destacando diferencial psicoterápico na Fenome- nologia Existencial. Assim, dividirei trabalho em três partes: A relação entre a Fenomenologia e a Psicologia; A especificidade da psicoterapia; a atitude fenomenológica na Psicoterapia. I - FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA A Fenomenologia surge no início do século com HUSSERL (1859-1938), cujo grande ideal era de encontrar uma base sólida para a ciência, fazendo para isso uma crítica ao psicologismo que veio a constituir um poderoso método de investigação. Ri- coeur explicita que "a fenomenologia é um vasto projeto que se fecha sobre uma obra ou um grupo de obras precisas; ela é me- nos uma doutrina e mais um método, capaz de encarnações múl- tiplas, e, dela, HUSSERL explorou somente um pequeno número de possibilidades". 44 Daí a necessidade de observar, às vezes, modo como certos autores aplicaram método fenomenológico a diversos temas e problemas humanos como fizeram os filósofos existencialistas para captarmos a especificidade da abordagem fenomenológica. 44 RICOEUR, P. Husserl (1859-1938) em L'École de la Phenoménologie. Paris, Librairie Urui, 1986, p.8. 38Muitas vezes, aprendemos que é a Fenomenologia, obser- vando a maneira pala qual alguns autores e pesquisadores utili- zam seu método de investigação. A Fenomenologia apresenta-se como um método de abordar a realidade diferente do método das ciências naturais, que visam a entender seu objeto por meio de explicações formais. Aqui, a novidade está, em que fenomenólogo busca compreender as ra- zões que suscitam determinada atitude. DARTIGUES define, com precisão, que "compreender um comportamento é percebê-lo, por assim dizer, do interior, do ponto de vista da intenção que o anun- cia, logo, naquilo que torna propriamente humano e distingue de um movimento 45 Ora, a Fenomenologia é um método compreensivo, pois busca explicitar a intenção específica do "visada" ( a maneira de como homem dirige sua atenção implicada na percepção ) que cada ser humano tem ao entender algo. Como exemplo, podemos dizer que duas pessoas, um viajante e um madeireiro olham de maneira diferente uma mesma árvore. O primeiro mira a árvore como algo que lhe servirá como alívio para cansaço da caminhada fatigan- te, enquanto segundo olhará a árvore na perspectiva de que ela possa oferecer-lhe uma madeira de qualidade para a fabricação de um móvel. A intenção, ao abordar a árvore, é completamente diferente e, é a captação dessa intencionalidade, desse sentido orientador, que é a tarefa da fenomenologia. Captar, na sua profundidade, a relação específica entre ob- jeto "visto" e sujeito que visa ao objeto é desafio primordial de uma abordagem fenomenológica. VAN DER LEEUW explicita que a Fenomenologia procura captar 0 fenômeno, definindo-o da seguinte maneira: "fenômeno é, por sua vez, um objeto que se refere ao sujeito e um sujeito em relação ao objeto. Com isso, não se quer dizer que 0 sujeito sofreria alguma apropriação por parte 45 DARTIGUES, A. O que é fenomenologia? São Paulo: Editora Morais, 1992, ed., p. 51. 39do objeto, ou vice-versa. O fenômeno não é produzido pelo sujei- to; muito menos corroborado ou demonstrado por ele. Toda a sua essência consiste em se mostrar, em se mostrar a "alguém". Logo que esse alguém começa a falar daquilo que se mostra, tem-se a A Fenomenologia apresenta-se, dessa maneira, como um mé- todo de abordar fenômeno, como uma metodologia da compre- ensão, e não da explicação. Não nos interessa, aqui, descrever quais são procedimentos para se atingir esse objetivo. Isso nos levaria muito longe da nossa intenção. Queremos, outrossim, des- tacar que aquilo a que se visa, fenômeno que se mostra, é me- ramente, entrelaçamento do sujeito com um objeto, por meio da intencionalidade. O que, em terminologia mais específica, seria a descrição direta da diversidade das estruturas noético-noemáticas JEANSON, no seu estudo sobre Fenomenologia, conclui, de maneira brilhante, dizendo que "método é, em primeiro lugar, um caminho que se abre dentro de uma certa direção, é uma certa maneira que se tem de pesquisar, de colocar OS problemas, de in- terrogar mundo e de se interrogar". 47 Assim, esse caminho, deve ser fecundo, pois nos leva a compreender as coisas. E mais do que isso, JEANSON completa um "método é, antes de tudo, uma atitude ao olhar objeto 48 Assim seguir OS passos do método fenomenológico é incorporar uma atitude fenomenológica. Resta-nos, agora, a pergunta: qual é a possibilidade de essa postura fenomenológica ajudar as ciências psicológicas, estabele- cendo um laço de interligação? Essa colaboração pode vir de várias maneiras. Uma primeira colaboração ocorre quando fenomenólogo debruça-se sobre um 46 VAN DER LEEWW, G. Epílogo do livro "La dans son essence et ses manifestations phenménologie de la Paris: Payot, 1970, tradução de Erika Lourenço (mimeo). 47 JEANSON, F. La phenoménologie. Paris: Editora Tequi, s/d., p. 67. 48 Ibidem, p. 67. 40fenômeno, descrevendo-o em sua mais completa concretude, e 0 psicólogo então verificará quais são componentes psicológicos do fenômeno descrito. Por exemplo, na Psicologia religiosa, pode- mos ter uma descrição do fenômeno da fé, destacando todos os elementos observáveis num ato de fé. Num segundo momento, psicólogo destacará componentes psicológicos que dão inteligi- bilidade ao fenômeno descrito. Uma segunda colaboração da Fenomenologia é que ela faz aparecer, com a sua maneira de ver mundo, categorias novas (como, por exemplo, a noção de que a consciência é sempre cons- ciência de alguma coisa), e temas novos, por exemplo, quando Heidegger aplicou método fenomenológico no desvelamento do DASEIN. Ele, em "Ser e Tempo", mostra processo de desvela- mento do ser que não pode ser estabelecido dedutivamente. Ao analisar as características do Dasein, seus existenciais, ele vai revelando a estrutura profunda, ontológica, que constitui homem. Com esse trabalho de HEIDEGGER chamado de "Analítica Exis- tencial", surgem novos temas que podem ajudar psicólogos na sua prática. Existe uma terceira maneira de percebermos a contribuição da Fenomenologia para a Psicologia, quando essa nova maneira de compreender a realidade traz uma nova luz sobre determina- dos problemas enfocados tradicionalmente pela psicologia. Como exemplo, podemos citar a noção de comportamento, não mais compreendido como uma simples cadeia de reflexo, mas como algo que brota de uma intencionalidade, ou seja, "uma maneira pela qual homem realiza-se como subjetividade encarnada, um projeto em direção ao mundo a partir de uma 49 O autor 49 DONDEYNE, A. Psychologie et Phenoménologie em, Recherches et Debats Psychologie Moderne et Reflexion chrétienne Cahiers n° 3, Janvier, 1953, Paris, Libraire Arthéme, Fayard, p. 193. Para o referido autor, 0 "comportamento humano mesmo que ele se desenrola sobre 0 plano da vida irrefletida (não consciente) apresenta uma estrutura noético-noemática, caracterizada pela imbricação da noese e do 41quer dizer que, para compreendermos a relação do homem e de seu mundo, será necessário abandonar as categorias baseadas na causalidade natural e até mesmo a perspectiva do paralelismo psicofisiológico. É necessário um outro olhar sobre a realidade. Para uma melhor compreensão do impacto da fenomenologia na psicologia é necessário lembrar que a concepção de Fenome- nologia não foi colocada por HUSSERL, de maneira acabada, em sua obra Investigações Lógicas (1900-1901). O termo sofre uma evolução ao longo do pensamento husserliano. Os estudiosos de HUSSERL, especialmente VAN BREDA, responsável por haver le- vado escritos de HUSSERL para Louvain, a salvo da ascensão nazista, distingue duas grandes concepções de Fenomenologia no pensamento deste. A primeira concepção define a "Fenomenolo- gia como uma ciência filosófica propedêutica, que tem como objeto a descrição das essências fundamentais para uma problemática filosófica A segunda concepção, que se desenvolveu a partir dos escritos de 1907 "Idéias para uma Fenomenologia" e de 1013 "Idéias diretrizes para uma fenomenologia pura e uma filo- sofia proclama a Fenomenologia incumbida da seguinte tarefa: "redescobrir a gênese intencional da consciência e passos constitutivos que esta põe em movimento". 51 Hoje, quando falamos que um pensador é influenciado pela Fenomenologia, devemos ter cuidado de detectar qual é a con- cepção fenomenológica que tem como ponto de partida e que está subjacente a todo seu trabalho teórico, pois não se pode exigir, de um estudo, algo que ele não pode dar, de vez que seu ponto de partida está limitado a uma concepção ainda precária, e não totalmente desenvolvida. Como exemplo, podemos dizer que a primeira concepção influenciou um grande número de psicólogos, psiquiatras e críticos de artes, entre quais podemos citar JAS- 50 VAN BREDA, H.L. La phenoménologie, em Les Courrants Philosophiques, V. III, p. 423. Infelizmente sem data e referência editorial. 51 Idem, p. 421. 42PERS, primeiro que trouxe essa concepção para 0 domínio da psicopatologia. A segunda concepção, mais fecunda, tem influen- ciado muitos filósofos e psiquiatras, e podemos citar, no pensa- mento francês, SARTRE, MERLEAU-PONTY e RICOEUR. Entre OS psiquiatras, talvez OS mais conhecidos do público brasileiro, podemos citar VAN DEN BERG, com seu livro "O Paciente Psi- quiátrico" e Binswanger, com livro "As três formas de Existência II - A ESPECIFICIDADE DA PSICOTERAPIA O segundo ponto da nossa reflexão é clarearmos a especifici- dade de um trabalho terapêutico para no último momento, mostrar como a Fenomenologia pode lançar uma nova luz na tarefa sem- pre árdua do clínico-terapeuta. A explicitação do que seja psicoterapia começa com a caracte- rização de que essa atividade do psicólogo é uma prática clínica, e que tem como objeto ser humano. O objeto que se impõe à aten- ção do terapeuta é O sofrimento do ser humano. O que sustentará a prática clínica serão conflitos e OS problemas que a pessoa humana trouxer para a psicoterapia. As questões existenciais sub- jacentes aos conflitos é que devem alimentar a ação do terapeuta. Por outro lado, essa ação terapêutica tem muitas especifici- dades e características que a diferenciam de outra atividade do psicólogo, constituindo-a como uma atividade profissional, isto é, uma atividade que exige uma formação, seja ela de cunho teórico ou prático. A primeira especificidade dessa intervenção é que ela é curativa e não preventiva, uma vez que quando alguém busca terapia, é para tratar de um determinado problema ou questão que está gerando um sofrimento do qual a pessoa não é capaz de sair sozinha. É curativa no sentido de proporcionar ao "cliente" instru- mentos capazes de enfrentar conflito que está vivendo. Seria preventiva se a intervenção ocorresse antes do conflito manifestar- 43-se, 0 que, em alguns casos, pode ocorrer, mas não é habitual na psicoterapia. Uma segunda característica que mostra a especificidade da psicoterapia é fato de que a intervenção do profissional chamado a atuar é uma intervenção psicológica, e não médica. Normalmen- te, médico usa de agentes químicos para sustentar a sua ação, e sua intervenção acaba sendo feita no organismo, com conse- qüências para a vida do paciente. A intervenção do psicólogo deve ser uma intervenção não medicamentosa e no nível psicológico. A questão que fica é: que é psicológico no ser humano para po- dermos delimitar sua área específica de ação? Essa é uma ques- tão complexa, que exigiria a explicitção dos dois eixos constituin- tes do psiquismo. A terceira característica é que a intervenção dá-se numa rela- ção de intimidade, isto é, numa relação intersubjetiva. BUCHER diz seguinte: "Na relação psicoterápica, não há instrumentos ou agentes: esta relação não é mediatizada por nenhum intermediá- rio. Seu único meio é ambiente humano em si, numa configura- ção muito especial que é aquela do diálogo humano, da conversa, onde não intervêm outras forças além da O diálogo é caminho por meio do qual se cria a intimidade entre duas pes- soas, para que O trabalho terapêutico seja desenvolvido. BUCHER completa: "só existe compreensão intersubjetiva se, nos diálogos ou "comunicações" que travamos, sentido das palavras, noções e locuções utilizadas for esclarecido, a respeito das suas implica- ções, pressupostos e alcances". 53 Finalmente, a última característica que nos ajuda a entender que seja a psicoterapia, é nos perguntarmos quais são ins- trumentos que psicólogo possui para construir a relação de in- timidade e ajudar homem a encontrar um alívio para os seus 52 BUCHER, R.A psicoterapia pela fala. São EPU, 1989, p. 27. 53 Idem, p. 32. 44sofrimentos. É somente a fala que terapeuta tem ao seu alcance. Assim, BUCHER diz: "Psicoterapia refere-se, portanto, a um modo muito particular de encarar 0 ser humano e, por conseguinte, os processos de intervenção terapêutica, possibilitados entre duas (ou mais) pessoas pela mera ação da fala". 54 Aqui, quando explicitamos essas características, tínhamos em mente um tipo de psicoterapia. É a abordagem intitulada Dasein- sanalyse, ou Análise Existencial, desenvolvida por BINSWANGER, um psiquiatra suíço, que define fundamento último da psicotera- pia da seguinte maneira: "A possibilidade da psicoterapia não re- pousa sobre um segredo ou um mistério, como se poderia pensar, nem sobre nada de novo ou inabitual, mas, ao contrário, sobre um traço fundamental da estrutura do ser humano como ser-no- -mundo (Heidegger) ser com e para outro". 55 Essa abordagem criada por BINSWANGER tem como base a fenomenologia e a analítica existencial de HEIDEGGER, no seu livro "Ser e Tempo", e a psicoterapia, dentro dessa perspectiva, deve ajudar a compreender a estrutura existencial. BUCHER co- mentando BINSWANGER, diz seguinte: "A "estrutura existencial" (Daseins-Struktur) não deve ser entendida num sentido estático, mas como uma realidade em permanente transformação. Uma psicoterapia de base daseinsanalítica, insiste BINSWANGER, in- vestiga a história de vida do paciente "como qualquer outro método psicoterápico, porém de um modo totalmente próprio", pelo fato de não explicá-la nas suas alterações patológicas, segundo a doutri- na de uma escola psicoterápica particular: ela a entende "como a mutação da estrutura global do 56 Essa nova abordagem em psicoterapia prova haver uma nova luz nos métodos até então vigentes na psicologia clínica. Embora 54 Idem, p. 27 55 BINSWANGER, L. De la Psychothérapie in Introduction à l'analyse existencielle. Paris: Editions de Minuit, 1971, p. 122. 56 BUCHER, R., op. cit., p. 31. 45todo esforço de BINSWANGER tenha sido de dar uma base científica à Psiquiatria, sua contribuição extrapolou 0 mundo da medicina e fecundou 0 campo da psicoterapia. Assim, podemos dizer, a Daseinsanalyse busca superar a antiga separação que ha- via na medicina entre médico e cliente. "A Fenomenologia, bem como a terapia existencial, propõe-se a superar a dicotomia que impregna racionalismo da filosofia ocidental com respeito à cisão entre sujeito e III A atitude fenomenológica em psicoterapia Nessa parte de nosso trabalho, é necessário reafirmar, como dissemos acima, que, ao seguir método fenomenológico, psi- coterapeuta está-se imbuindo de uma atitude, pois assume OS pressupostos do método. Assim, não vai explicitar todos OS passos do método fenomenológico, mas tirar algumas conseqüências do que significa uma adesão à abordagem fenomenológica. A primeira observação de que se utiliza a Fenomenologia no seu trabalho clínico pode ser expressa pelas palavras de RUDIO, quando afirma que a base do processo terapêutico é fenômeno. "A base que fenomenologista realiza como terapeuta não se en- contra nos "fatos", mas nos "fenômenos" que lhe são transmitidos pelo relato do cliente. Conhecer e compreender "mundo interior" do cliente é conhecer e compreender fenômenos que povoam a sua consciência, tal como ele conhece, compreende e sente". 58 Isto quer dizer que a Fenomenologia estuda os fenômenos, e que a atitude do terapeuta de inspiração fenomenologista é de buscar compreender fenômeno. Outra conseqüência: terapeuta fenomenológico deve ficar atento aos fenômenos da consciência, que se produzem na cons- ciência do cliente, pois este está implicado na produção do fenô- meno, ele é autor do fenômeno da consciência. RUDIO define 57 Idem, p. 30. 58 RUDIO, F.V. Diálogo e psicoterapia existencial. São José dos Campos, Novos Horizontes Editora, 1998, p. 130. 46fenômeno dizendo que "a palavra "fenômeno", de origem grega, quer dizer etimologicamente "o que Significa aquilo que é percebido pelos sentidos e que se revela (aparece) à consciên- cia quando esta entra em contato com a realidade. Consiste, é ver- dade, na apreensão imediata, não-reflexiva, da realidade, mas in- clui também, nela, as significações e avaliações que são atribuídas naturalmente pelo indivíduo ao que apreende". 59 Assim, entender fenômenos produzidos pelo cliente é desvelar sentido que ele atribui quando entra em contato com a realidade. Se tal contato é sofrível e me faz sentir um certo incômodo, eu experimento como doloroso. O sentido de doloroso é, portanto, a intenção segundo a qual eu vivo O doloroso. Nessa perspectiva, podemos entender a observação de RUDIO, quando diz: "Um ponto fundamental para fenomenologista é que comportamento do indivíduo não é uma reação à realidade como tal, mas sim ao significado que ele atri- bui a ela. Quer dizer, indivíduo se comporta como resposta ao significado que ele dá ao que Assim, "explicitar um com- portamento é desvelar a maneira de ser do sujeito, isto é, possibi- litar que esse sujeito reviva sentido que está subjacente ao seu Surge, então, a seguinte pergunta: que um terapeuta feno- menológico deve fazer com material que emerge na relação te- rapêutica? "Tudo o que ele pode e deve fazer é explorar material tão profundamente e cuidadosamente quanto possível por meio da abertura que paciente lhe deu". 62 Para aprofundar material, entraríamos, aí, na aplicabilidade dos procedimentos terapêuticos de inspiração fenomenológica, que nos distanciaria do objetivo deste nosso ensaio. 59 Idem, p. 130. 60 Idem, p. 131. 61 JEANSON, F., op. cit., p. 73. 62 MARTINS, J. Contribuição da Fenomenologia à Psicologia Clínica, em Forshieri, Y.C. (Orgs.). Fenomenologia e Psicologia. São Paulo: Cortez e Morais, 1984, p. 141. 47Gostaria, ainda de dizer que a psicoterapia é um lugar muito especial onde se dá um encontro entre pessoas, entre um terapeu- ta que se abre para escutar o cliente, e um cliente que, sofrendo, abre-se, verbalizando que incomoda. A "fenomenologia propi- cia-nos uma compreensão mais pertinente desses processos, a partir da sua análise do Dasein (ou ser-no-mundo), da intersubje- tividade, da linguagem e das significações especificamente huma- nas da E, para finalizar, gostaria de dizer que uma Psicoterapia Exis- tencial de inspiração fenomenológica não deve ser, em nenhuma hipótese, uma teoria sobre ser humano, mas, muito pelo contrá- rio, deve ser um estudo aprofundado sobre seu existir concreto. 63 BUCHER, R., op. cit., pp. 27-28. 48FUNDAMENTAÇÃO ANTROPOLÓGICA DA PRÁTICA INTRODUÇÃO Quando pensamos em prática clínica, vem-nos ao pensamen- to um tipo de intervenção "curativa", isto é, na maioria das vezes, imaginamos uma ação de tratamento que visa "reparar" algo no ser humano. Esse tipo de raciocínio é sustentado pelo fato de que, por um lado, a pessoa busca, no psicoterapeuta, uma ajuda que lhe possibilite sair do impasse existencial em sua vida pessoal. A expectativa é de que psicólogo, com uma intervenção "mágica", vai apresentar uma "luz no fim do túnel". Por outro lado, terapeu- ta pensa que, com a aplicação de uma "técnica", a demanda do cliente será prontamente atendida e, mais do que isso, sua ação terá efeito de provocar um "ajustamento" na personalidade pes- soal, ajustamento esse que provocará uma adaptação quase ime- diata do cliente ao seu contexto social. Podemos afirmar que tanto um lado como outro partem da suposição de que uma intervenção rápida e cirúrgica seria sufi- ciente para restabelecer equilíbrio perdido, qual se manifesta por meio do sintoma do cliente. Convém dizer que mais impor- tante, no tratamento do problema apresentado pelo cliente, me- diante uma psicoterapia, será estabelecimento de uma relação inter-humana capaz de ajudá-lo a reestruturar sua vida. O tipo de interação necessária para sua terapia será uma relação interpessoal subjetiva,⁶⁵ num contexto em que 64 Esse artigo foi publicado pela primeira vez em Coletâneas da ANPEPP, V. 1, n. 9, set. 1996. 65 Explicitaremos mais tarde a definição e as características dessa relação, porém gostaríamos de indicar cap. 4 do livro de BÜCHER, R. Psicoterapia pela Fala, SP, EPU, 1989, em que, mediante uma análise fenomenológica, o autor apresenta os diversos tipos de relações psicológicas e destaca a especialidade da relação terapêutica. 49esta se fortalecerá por intermédio de um encontro profundo e exis- tencial, e não por meio da aplicação de uma técnica. Assim, presente estudo visa, num primeiro momento, expli- citar a fundamentação antropológica desse tipo de relação, para num segundo momento mostrar as especificidades próprias desse encontro terapêutico. que é Encontro Inter-Humano? Fundamentação Antropológica do Encontro "O ser-com é um constituinte do ser-no-mundo" (Ser e Tem- po). Assim, HEIDEGGER chama a atenção para O fato de que homem é, na sua estrutura mais fundamental, um ser com ou- tros. Ele não se pode compreender sem estar em relação com os outros homens. Para designar esses aspectos, utilizamos termo co-existência, dizendo com isso, que homem não está totalmente só em nenhum nível da existência. Nenhum aspecto do ser-homem é que é sem que nele outros homens estejam presentes. O ser-presente de outros em minha existência implica que meu ser-homem é um Sempre nos constituímos pela via da relação com os outros homens. A fenomenologia existencial nos ensina que homem é um ser-no-mundo, que ele não pode ser compreendido sem mundo. Não é possível pensar homem dentro do mundo, como se pensa o giz dentro de uma caixa-de-giz. É da estrutura do eu a sua in- serção no mundo. Daí podermos dizer que Eu, por meio do qual nomeamos homem, não é uma realidade em si, mas relacional. Isso implica fato de que não se pode falar do Eu sem falar do 66 LUIJPEN, W. Introdução à Fenomenologia, SP, EPU, 1973, p. 260. 50mundo. Essa unidade é instrumental do homem e, assim, a rela- ção é elemento anterior à constituição do homem como subjetivi- dade. "A relação entre duas pessoas está dada em uma esfera na qual ambas as constituições atuam significativamente antes que surjam como pessoas e individualidades bem A conseqüência dessa posição na psicologia clínica, que se baseia em tradição filosófica de Max SCHELLER, Mar- tin BUBER, Martin HEIDEGGER e Karl LÖWITH, e que, ao contrário da posição psicanalítica segundo a qual "Eu" é entendido como surgindo dos estados de ânimo e das neces- sidades impulsivas, aqui, O Eu é entendido como possuindo uma vinculação primária, "como um 'estar' em uma mútua Desse modo, sentimentos são matizes da vinculação primordial. A Psicanálise dá muita importância à afetividade no es- tabelecimento das relações interpessoais, pois contato do bebê com a mãe é vivenciado pela via da atualização da pulsão. Na perspectiva existencial, O que conta, em primeiro lugar, é tipo de relação que se estabelece entre a mãe e seu bebê. A afetividade, que entendemos como um dos eixos de organização do psiquismo humano, manifesta-se mediante a ressonância interna dos contactos que eu es- tabelece com mundo. Dessa maneira, podemos concordar com BRÄUTIGAM quando nos diz: "As ressonâncias afeti- vas surgem, entre outras coisas, do êxito ou do fracasso da vinculação, da confiança e do sentimento de segurança que desperta, ou de seus Assim, fato desencade- ador da estruturação do ser humano não está na atualização, em si, de nenhuma força interna do indivíduo que busca uma 67 BRÄUTIGAM, W. La psicoterapia en su aspecto antropológico, Madrid, Ed. Gredos, 1964, 131. 68 Idem, op. cit., p. 132. 69 Idem, op. cit., p. 137. 51satisfação do meio, mas, como homem é sempre um ser mergulhado em um determinado meio, é a qualidade da re- lação com esse meio que marcará a atualização de qualquer força interna do indivíduo. O ser humano concretiza sua dimensão relacional por in- termédio de três esferas: a relação de objetividade com a Natureza, na qual ele se experimenta como sujeito situado; a relação com outros homens que podemos caracterizar como uma relação de intersubjetividade, e, finalmente, a re- lação de transcendência, que designa "a forma de uma relação entre sujeito situado en- quanto pensado no movimento da sua auto-afirmação e uma realidade da qual ele se distingue ou que está para além (trans) da realidade que lhe é imediatamente Das três relações acima citadas, Martin BUBER dá maior ênfa- se à segunda, pois é nela que caráter de reciprocidade é desta- cado e buscado para ser concretizado de maneira mais plena. "A relação de maior valor existencial é encontro dialógico, a relação inter-humana em que a invocação encontra sua verdadeira e plena Assim, O dialógico não é o diálogo concreto que ocorre entre duas pessoas, mas a condição para que haja diálogo. O Eu não é uma realidade em si, mas relacional. Podemos concluir, dizendo que homem a) não é um ser como uma mônada, que se encerra em si mesma, muito pelo 70 VAZ, H.C.L. Filosófica, vol. II, SP, Loyola, 1942, p. 93. O referido livro desenvolve nos três primeiros capítulos desse volume a explicação sobre significado de cada uma dessas relações que dão ao homem seu caráter de constituir um ser por excelência relacional. 71 VON ZUBEN, N.A. Introdução à obra de Martin Buber. Eu e Tu, SP, Cortez e Moraes, 1979, 2. ed., p. LV. 52contrário; b) é um ser que tem como traço fundamental a co- -existência; c) é um indivíduo veiculado a um semelhante.⁷² Dessa maneira, estudos da Psicologia do Desenvol- vimento, principalmente OS de SPITZ, têm mostrado que a vinculação primária se apresenta como ponto de parti- da para todo desenvolvimento da personalidade, sendo que Eu e Tu vão-se estruturar a partir dessa vinculação, que se fundamenta nas oscilações corporais, nem nas emoções, nem na transferência de significações mágicas ou Assim, podemos dizer que é a partir do Nós que se estruturam Eu e Tu. O Eu do bebê começa a se estruturar a partir do outro, isto é do Tu, tendo, porém, como base essa vinculação primária, que nada mais é do que Nós, que se apresenta como condição de possibilidade para a diferenciação dos dois pólos. Encontro A concretização da relação de intersubjetividade se dá, das mais variadas formas, na facticidade, como, por exem- plo, pela via de uma relação de ajuda, de uma relação psi- coterápica etc. Quando, em qualquer uma dessas relações, acontece a vivência da reciprocidade, haverá encontro in- terpessoal. Assim, reservaremos a palavra encontro para de- signar uma situação em que outro afeta de alguma maneira a minha existência, principalmente na dimensão em que ele (o outro) me faz crescer.⁷⁴ Dessa maneira, a palavra encontro concretiza-se por meio de uma relação intersubjetiva em que 72 BRÄUTIGAM, W. op. cit., p. 133. 73 Idem, op. cit., 129. 74 GIOVANETTI, J.P. "O encontro na perspectiva terapêutica existencial". Cadernos de Psicologia da PUC-MG, ano 1, 1, 1993, p. 31-4. O artigo citado descreve, de forma sucinta, que seja um encontro psicoterápico e alguns procedimentos clínicos para o estabelecimento do encontro existencial terapêutico. O presente estudo tem como objetivo explicitar os fundamentos antropológicos do encontro e dos procedimentos clínicos desenvolvidos no artigo citado. 53

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