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AULA 39 – CAPÍTULO 17 
PARTE 02 – O COMPLEXO DE ÉDIPO 
Prof. Agosttinho Almeida 
Formação em Psicanálise Clínica 
 
 Prof. Agosttinho Almeida 
 
FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE CLÍNICA 
Capítulo 17 
O complexo de Édipo 
O complexo de Édipo deve ser observado sem nenhuma participação do 
sentido sexual característico da criança. Os afetos infantis têm uma 
intensidade igual à da energia do instinto sexual do adulto. A criança gostaria 
de ter a mãe só para ela e afastar o pai, e chega a reagir de maneira muito 
ciumenta. Esses desejos e intenções aumentam no inconsciente de forma 
concreta e dramática. 
A psique das crianças é arcaica e primitiva, sempre pronta a destruir (como nas 
brincadeiras com bonequinhos em que os destrói). Essa ideia é facilmente 
concebível: no inconsciente, o ciúme (inveja) expressa-se de forma bastante 
dramática. Como a criança, “via de regra”, é inofensiva, estes desejos e 
impulsos destrutivos também o são, de maneira indireta e também direta. A 
criança é incapaz de intuitos planejados; em geral, isto vale também para o 
intuito edipiano com relação à mãe. Os indícios dessa fantasia podem ser 
controlados pelo consciente (com auxílio dos pais); quando não, podem ser 
tratados em clínica. 
A história da fantasia de Édipo é especialmente interessante porque ensina 
muito sobre o desenvolvimento das fantasias em geral. Normalmente pensa-se 
que o problema de Édipo seja um problema do filho homem. A libido tem um 
caráter afetivo indiferenciado, que se denomina também assexuado. Portanto 
não é surpreendente que também meninas carreguem o complexo de Édipo. 
Pelo que se sabe até agora, o primeiro amor sempre se dirige à mãe, seja a 
criança do sexo 
masculino ou feminino. 
Neste estágio, quando o 
amor da mãe é intenso, o 
pai é mantido à distância 
como rival; 
evidentemente a mãe 
não tem nenhum 
significado sexual, mas 
sim uma intensa 
afetividade para a 
criança nesta tenra idade. 
Para a criança a mãe 
tem o sentido de proteção, acolhimento, segurança e nutrição, é o modelo 
da primeira namorada e, como tal, uma fonte inesgotável de prazer afetivo. 
Em geral os bebês começam a chamar a mamãe de mama, termo similar ao 
usado para designar o seio materno ou mamadeira, e quando se pergunta à 
criança para definir sua mãe, é aquela que dá comida, chocolate, etc. Por isto 
pode-se afirmar que para a criança nessa idade o alimento é símbolo de afeto 
tão intenso como uma energia sexual é para o adolescente e também para o 
adulto. Basta um olhar superficial sobre a história das civilizações para ver quão 
 
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poderoso é o prazer de comida. Nas festanças colossais no Império Romano 
decadente existia de tudo, menos a sexualidade reprimida; ao menos disso 
não se pode acusar os romanos daquele tempo. 
Na primeira infância, a 
participação da afetividade no 
relacionamento da criança com a 
mãe e com o pai é muito intensa; 
as sensações de prazer são 
reciprocas. Nem por isso o 
ciúme deixa de ter s eu papel; a 
inveja alimenta boa parte das 
primeiras manifestações de 
ciúme. Esse sentimento vai se 
fortalecendo até o complexo de 
Édipo assumir sua forma 
clássica. Com o passar do 
tempo, o conflito assume, no filho, uma forma mais masculina e, portanto, mais 
típica; enquanto na filha se desenvolve a inclinação específica pelo pai, com 
a correspondente atitude de ciúme contra a mãe (nas meninas é chamado de 
complexo de Electra). 
É sabido que, no mito, Electra jurou vingança contra sua mãe Clitemnestra que 
assassinou o marido e, portanto, tirou de Electra o amado pai. A rivalidade entre 
mãe e filha existe e é frequente, em um grau menos intenso e duradouro, embora 
constitua “uma relação tão delicada” como no caso do pai e filho. 
Uma outra razão consiste no fato de o pai sentir-se incomodado com o 
carinho e a atenção que sua mulher tem pelo filho homem tanto quanto a 
mãe é atingida pelas atenções e o carinho do marido para com a filha. A 
disputa entre pai e filho pelo amor da mesma mulher (vice-versa) de certa forma 
é análoga às batalhas que se travam entre certos animais que vivem em bandos, 
quando o macho mais velho expulsa os filhotes mais crescidos que começam a 
cobiçar as fêmeas do rebanho ( até que um dia, fraco e velho, é expulso ou morto 
por um deles). A grande e fundamental diferença é que, no caso, o ser humano 
pensa, sente, ama e, principalmente, é ensinado a entender como inadmissível 
um pai não amar ou sentir-se hostil em relação ao próprio filho e vice-versa. 
A um observador mais atento, todavia, não passará despercebido o maior rigor, 
a impaciência, a implicância e até 
mesmo a aberta hostilidade com que 
o filho homem é tratado pelo pai em 
comparação ao tratamento que esse 
mesmo pai dispensa à filha, ainda 
que denomine como necessidade de 
uma educação mais dura (educação 
de macho!). Tal conflito 
habitualmente se inicia entre os três e 
os sete anos e perdura até por volta 
 
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dos nove anos. Nesta idade, normalmente o menino se dá conta da 
impossibilidade de ter a mãe para si e adota a única solução que lhe é possível: 
renuncia a ela e busca identificar-se com o pai. É nesse processo de 
identificação com a figura paterna que o menino passa, a partir de então, a 
imitar a forma de ser do pai, a admirá-lo e procurar sua companhia. Diz-se que 
a problemática edipiana foi “bem resolvida”. Quando a identificação ocorre de 
forma satisfatória, não deixa sequelas de competição e/ou ódio evidentes entre 
pai e filho. É provável, no entanto, que a competição latente (e não 
conscientizada) perdure para sempre. 
Ambos os complexos de fantasia se desenvolvem com o amadurecimento, e 
entram em um novo estágio apenas no período da puberdade, quando os jovens 
se separam dos pais. O símbolo dessa separação é o do sacrifício. Quanto mais 
se desenvolve a sexualidade, tanto mais o indivíduo se força para fora da família 
a fim de conseguir a independência e a autonomia. Acontece, porém, que a 
história da criança está estreitamente vinculada à família e sobretudo aos pais, 
de modo que é muito difícil 
libertar-se inteiramente de 
seu meio infantil, ou seja, 
de suas atitudes infantis. 
Se não conseguir libertar-
se inteiramente, o 
complexo de Édipo ou de 
Electra fará surgir um 
conflito e, então está 
aberta a possibilidade para 
perturbações neuróticas. 
A libido, já sexualmente 
desenvolvida, apodera-se 
de forma incontrolada do complexo e produz fantasias que provam cabalmente 
a existência ativa dos complexos até agora inconscientes e relativamente 
inativos. A primeira consequência é o aparecimento de fortes resistências contra 
os impulsos imorais que brotam dos complexos agora ativados. 
As consequências para o comportamento consciente podem ser de natureza 
diversa. Se forem diretas, manifesta-se nos filhos vigorosa resistência contra o 
pai e uma atitude terna e de dependência com relação à mãe. Se forem indiretas, 
ou seja, compensadas, ao invés de resistências contra o pai, há uma submissão 
peculiar a ele e uma atitude irritadiça e de rejeição para com a mãe. 
Pode ocorrer também que consequências diretas e compensadas se alternem; 
o mesmo vale para o complexo de Electra. Se a libido sexual estagnasse nessa 
forma de conflito, nos casos extremos os complexos de Édipo e de Electra 
levariam ao assassinato e incesto. Evidentemente não se chega a essas 
consequências entre pessoas normais, nem mesmo entre os homens primitivos 
“amorais”, senão a humanidade já teria perecido. A contrário, é fato que as 
coisas que rodeiam o ser humano todos os dias percam o atrativo sedutor e 
 
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levem a libido a procurar objetos mais novos, isto é, um importante regulador 
que previne o assassinato e o incesto.O normal e o natural, portanto, é o desenvolvimento da “libido para objetos fora 
da família”; a estagnação da libido dentro da família é o fenômeno anormal e 
doentio. Contudo, é sempre um fenômeno que pode ser encontrado também em 
pessoas normais. 
Para Jung, a fantasia inconsciente do sacrifício que acontece após a puberdade, 
ou seja, na idade madura, é uma continuação direta dos complexos infantis. A 
fantasia do sacrifício significa a desistência dos desejos infantis. Não é de 
admirar que este problema tenha papel importante na religião, pois a religião é 
um dos auxílios mais eficazes nos processos psicológicos de adaptação, o que 
auxilia a impedir novos processos psicológicos, o apego conservador ao antigo, 
ou seja, as atitudes primitivas. 
A religião é de grande valia porque, através de pontes adequadas de símbolos, 
conduz o indivíduo, que se encontra em seus relacionamentos com os objetos 
infantis (pai-mãe), para outros representantes - para os deuses, santos, ou 
espíritos - facilitando assim a transição do mundo in fantil para o mundo adulto. 
Assim a libido se torna apta à função social posterior. 
Para Freud, o complexo de Édipo é 
quase sempre inconsciente e supõe 
ser uma consequência da repressão 
moral. Contudo, em sua concepção, 
o complexo aparece como 
reprimido, ou seja, deslocado para o 
inconsciente por uma reação das 
tendências conscientes, de forma a 
parecer que o complexo nasceria na 
consciência se o desenvolvimento 
da criança se processasse 
livremente e sem influências de tendências culturais. 
Freud chama a barreira que impede a manifestação aberta de complexo de 
Édipo de “barreira do incesto”; deduz-se de suas proposições que a barreira do 
incesto é constituída de uma experiência que atua para trás, ou seja, uma 
correção da realidade, onde o inconsciente se esforça por encontrar uma 
satisfação ilimitada e imediata, sem considerar os outros. 
O complexo de Édipo, assim como o drama grego que inspirou a denominação 
utilizada por Freud, é uma tragédia sem culpados e que traz enormes 
sofrimentos aos envolvidos. Deixará de existir, provavelmente, quando as 
pessoas amadurecerem e se tornarem seguras, a ponto de amarem de forma 
menos infantil, isto é, menos possessiva, e aceitarem, por conseguinte, 
compartilhar, sem angústias, seus desejos amorosos com outras pessoas.

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