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TERMODINÂMICA Germano Scarabeli Custódio Assunção Introdução aos ciclos de potência Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Descrever o conceito de ciclos de potência. � Comparar o ciclo Otto com o ciclo Diesel. � Explicar o funcionamento de turbinas a gás. Introdução O desenvolvimento das leis da termodinâmica ocorreu de forma paralela ao desenvolvimento de ciclos de potência, ao longo principalmente dos séculos XVIII e XIX. Tanto as leis da termodinâmica quanto o desenvolvi- mento matemático envolvido nelas iniciaram a partir da necessidade de explicar os comportamentos dos ciclos que estavam sendo desenvolvidos e melhorados desde a primeira máquina de potência, inventada por Thomas Savery em 1697. Assim, a evolução da termodinâmica ocorreu em constante sinergia com o mundo prático da época, buscando explicar tanto de forma qualitativa quanto de quantitativa os ciclos observados e desenvolvidos. Neste capítulo, você verá como se definir um ciclo de potência e seus princípios básicos de funcionamento. Além disso, você verá como funcionam os ciclos padrão a ar Otto e Diesel, que são os ciclos ideais dos ciclos reais de motores alternativos a gasolina (ou a álcool) e diesel, respectivamente. Finalmente, o estudo de turbinas a gás será apresentado, mostrando seus principais componentes e as caracte- rísticas básicas do ciclo ideal que regem seu funcionamento, o ciclo padrão a ar Brayton. Ciclos de potência A termodinâmica clássica teve como princípios fundamentais de sua origem explicar de forma teórica o funcionamento de novos equipamentos que surgiram a partir do �nal do século XVII, as máquinas de potência a vapor. O princípio básico de funcionamento desses equipamentos era basicamente retirar energia do vapor da água para produzir movimento, ou seja, traba- lho. Por esse motivo, esses ciclos são até hoje classi�cados como ciclos de potência (trabalho por tempo), cujo princípio é produzir potência a partir de u��uido de trabalho. À medida que a termodinâmica foi se desenvolvendo, em termos teóricos e empíricos, novos equipamentos e novos fluidos de trabalho foram também desenvolvidos, com maiores complexidades em seu funcionamento, demandado maiores complexidades matemáticas para descrevê-los. Atualmente, os prin- cipais fluidos de trabalho utilizados para gerar potência a partir de princípios termodinâmicos são: vapor, gás, gasolina, álcool e diesel. A grande maioria dos dispositivos que produzem potência a partir de um fluido de trabalho opera em ciclos, sendo o estudo desses ciclos uma parte fundamental dentro do estudo da termodinâmica. Entretanto, os ciclos reais, conforme conhecemos, do funcionamento de máquinas e equipamen- tos são difíceis de analisar, por causa da presença de efeitos como o atrito e da caracterização dos estados que o fluido passa durante o processo: (1) os atritos são reconhecidos em termos práticos, mas são extremamente difíceis de serem modelados e estudados, pois dependem de diversas variá- veis, desde características construtivas até temperatura de funcionamento; (2) como o ciclo é dinâmico, os fluidos de trabalho não se encontram em equilíbrio, havendo dificuldade em caracterizá-lo ao longo de cada ponto do processo de forma acurada. Introdução aos ciclos de potência2 Assim, pela dificuldade de modelagem, usualmente no estudo teórico de máquinas de potência, as partes mais complexas de se modelar, embora conhecidas sua existência, são retiradas do estudo, para possibilitar a exis- tência de estados de equilíbrio termodinâmico e, assim, possibilitar, de forma básica, estudar o ciclo em questão. Tais ciclos, com essas simplificações, são conhecidos como ciclos ideais, enquanto que os ciclos que efetivamente ocorrem quanto as máquinas e equipamentos estão em funcionamento são os ciclos reais. Conforme apresentam Çengel e Boles (2013), as principais idealizações e simplificações de um ciclo de potência ideal em relação a um ciclo real são: (1) o ciclo não tem atrito, (2) todos os processos de expansão e compressão ocorrem de forma quase estática, (3) a perda térmica de energia ao longo do funcionamento do ciclo, em razão da transferência de calor dos componentes, pode ser considera nula, (4) variações de energia cinética e potencial do fluidos ao longo do escoamento e (5) utilização do ar como fluido de trabalho, para análise qualitativa do ciclo. Conforme apresenta Moran et al. (2013), um processo de quase equilíbrio é um tipo idealizado de processo em que o afastamento do equilíbrio termodinâmico é infini- tesimal. Assim, todos os estados que o fluido passa ao longo do processo ou ciclo podem ser considerados estados de equilíbrio. Essa hipótese de quase equilíbrio, embora não aconteça de fato em ciclos reais, é fundamental para: (1) a dedução das relações que existem entre as propriedades dos sistemas em equilíbrio e (2) produzir informações qualitativas sobre o ciclo (processo em estudo) partindo da teoria desenvolvida na termodinâmica clássica. A Figura 1 a seguir ilustra a diferença entre um ciclo real e um ciclo ideal. Observe que, embora os ciclos ideais sejam simplificações da realidade, as principais conclusões retiradas de ciclos ideais também se aplicam a ciclos reais, tais como: (1) relação pressão versus volume ao longo do funcionamento do ciclo e (2) variáveis que interferem na eficiência de um ciclo. 3Introdução aos ciclos de potência Figura 1. Diferença entre um ciclo real e um ciclo ideal em funcionamento. Fonte: Çengel e Boles (2013, p. 488). Pelo fato de os ciclos com essas simplificações utilizar o ar como fluido de trabalho padrão, esses ciclos ideais são também conhecidos como ciclos padrão a ar. Dentre as hipóteses de se utilizar ar nesses ciclos ideais, as prin- cipais características aplicadas são: (1) o ar se comporta como gás ideal, (2) todos os processos no ciclo ideal são reversíveis, (3) o processo de com- bustão é substituído por um processo de fornecimento de energia na forma de calor e (4) o processo de exaustão é substituído por um processo de perda de energia na forma de calor. Como o objeto do ciclo de potência é produzir trabalho a partir da energia que determinado fluido de trabalho tem, de forma global, a eficiência térmica desses equipamentos podem ser expressas pela seguinte equação: (1) onde Wliq é o trabalho líquido produzido pelo equipamento (trabalho total produzido – trabalho gasto no próprio ciclo), no caso do ciclo de Rankine o trabalho líquido é o trabalho produzido pela turbina menos o trabalho gasto na bomba. Qent é o calor de entrada, ou seja, a energia total que o combustível fornece ao sistema. Introdução aos ciclos de potência4 Diferença do ciclo de Carnot e os demais ciclos de potência Um ciclo ideal em especí�co é de total relevância para a engenharia é o ciclo Carnot. Ele consiste no ciclo de potência teórico que tem a maior e�ciência térmica de todas as máquinas de potência dentro de um faixa de temperatura de�nida. Sua relevância no estudo de ciclos de potência consiste no fato de ele indicar a máxima energia que pode ser retirada na forma de trabalho para determinado ciclo, servindo como referência aos demais. Entretanto, é importante notar que, embora ele forneça esse valor de referência, em razão de suas características, tais ciclos não podem ser de fato construídos. A maioria dos ciclos encontrados em situações reais difere significativa- mente da forma de operar de um ciclo Carnot, que, por definição, operam com dois processos isentrópicos e dois processos adiabáticos. Cada ciclo termodinâmico tem uma combinação específica de processos, cujos principais são: isobáricos, isovolumétricos, isentrópicos, isentálpicos e isotérmicos. Assim, é importante ficar claro ao leitor que, embora o ciclo de Carnot seja um ciclo ideal, ele é somente um entre diversos ciclos ideais possíveis. Ele tem de fato maior relevância por fornecer a maior eficiênciapossível, en- tretanto, para cada ciclo real, há seu respectivo ciclo ideal, com as respectivas simplificações, e mesmo com essas simplificações, os ciclos ideais ainda têm menor eficiência que a eficiência do ciclo de Carnot, que pode ser calculada por meio da seguinte forma: (2) onde TL é a temperatura do reservatório de temperatura fria e TH é a temperatura do reservatório de fonte quente. Diagramas pressão-volume específico (P-v) e temperatura-entropia (T-s) O estudo de ciclos termodinâmicos envolve diferentes transformações de diferentes estados termodinâmicos. Uma forma de facilitar o estudo e a carac- terização desses ciclos é apresentá-los na forma de diagramas pressão-volume especí�co (P-v) e temperatura-entropia (T-s). Ambos os diagramas são úteis por fornecer informações globais do funcionamento de determinado ciclo, já que, embora o �uido de trabalho de um ciclo de potência opere um circuito 5Introdução aos ciclos de potência fechado, cada ciclo tem uma combinação especí�ca de processos termodinâ- micos que o caracteriza. Além da informação visual, tais diagramas são úteis porque a área de- limitada pelas curvas de determinado ciclo representa o trabalho líquido produzido por esse ciclo. Além disso, é possível observar como as propriedades termodinâmicas estão quantitativamente e qualitativamente relacionadas. A Figura 2 a seguir, por exemplo, apresenta os diagramas P-v (Figura 2a) e T-s (Figura 2b) para o ciclo de Carnot. Ao longo das demais seções, os digramas de outros ciclos serão apresenta- dos, de forma a mostrar que, embora possam atuar em faixas de temperaturas específicas, cada ciclo de potência tem características específicas em termos de transformações entre cada estado. Ciclos Otto e Diesel Dentre os diversos ciclos de potência utilizados, quatro são os mais aplicados: (1) ciclo Rankine, (2) ciclo Otto, (3) ciclo Diesel e (4) ciclo Brayton. O ciclo Rankine é amplamente utilizado em termelétricas, sendo sua principal aplica- ção a geração de energia elétrica a partir do vapor de água. Os demais ciclos listados constituem os chamados ciclos de potência a gás, sendo que a principal característica é que o �uido de trabalho se mantém como um gás em todo o ciclo. Nesses três ciclos, a energia é fornecida pela queima de um combustível fóssil. Figura 2. (a) Digrama P-v de um ciclo de Carnot e (b) diagrama T-s de um ciclo de Carnot. Fonte: Çengel e Boles (2013, p. 490). (a) (b) Introdução aos ciclos de potência6 O ciclo Otto utiliza a queima de gasolina ou álcool e é usado no fun- cionamento de motores de ignição por centelha, amplamente utilizado nos carros populares. O ciclo Diesel utiliza o diesel como combustível, sendo que a combustão ocorre por compressão, sendo usualmente aplicados em caminhões, ônibus e pickups. O ciclo Brayton utiliza usualmente o querosene aeronáutico e constituem o princípio de funcionamento de turbinas aplicadas tanto na indústria aeronáutica quanto em termelétricas (sendo usualmente nessa situação aplicadas em ciclos combinados com turbinas a vapor, a fim de aumentar a eficiência do ciclo Rankine). Nesta seção, serão apresentados os princípios básicos dos motores alter- nativos, além da descrição detalhada dos ciclos Otto e Diesel. Princípios básicos dos motores alternativos Por de�nição, as máquinas alternativas são quaisquer dispositivos que reali- zam movimentos repetitivos de translação, sendo os principais exemplos os motores alternativos, que incluem motores a ciclos Otto e Diesel. Os principais componentes desses motores são apresentados na Figura 3: (1) válvulas de admissão e exaustão, (2) câmara de combustão e (3) pistão. As válvulas são as responsáveis pela entrada e saída da mistura ar-combus- tível na câmara de combustão. O pistão é o dispositivo responsável por realizar o movimento alternativo, ora comprimindo o gás, ora sendo movimentado por ele – recebendo trabalho a partir do gás. Quando o pistão atinge a posição que forma o menor volume no cilindro, essa posição é chamada de ponto morto superior (PMS) e quando atinge o extremo oposto, ou seja, quando o volume de gás na câmara é máximo, ele está no ponto morto inferior (PMI). A distância entre o PMS e o PMI é o chamado curso do motor e o volume total entre esses dois pontos é chamado de razão de compressão, usualmente designado pela letra r, sendo que pode ser calculado pela seguinte equação: (3) onde VPMI é o volume ocupado pela mistura ar-combustível no ponto morto inferior e VPMS é o volume ocupado pela mistura ar-combustível no ponto morto superior. 7Introdução aos ciclos de potência Motores alternativos dividem-se basicamente por duas características: (1) pelo número de tempos, que é o período de percurso de um pistão, do ponto morto inferior ao ponto morto superior, sendo o mais comum motores a quatro tempos e (2) pela forma que ocorre o início da combustão no cilindro: por centelha ou por compressão. Figura 3. Ilustração dos principais componentes de um motor alternativo. Fonte: Moran et al. (2013, p. 390). Ciclo padrão a ar Otto O ciclo Otto consiste no ciclo ideal em que operam os motores alternativos por centelha. A combustão da mistura de ar e combustível é iniciada por uma vela de ignição. Esse motor recebe o nome de um de seus construtores, o alemão Nicolaus August Otto. Ele e Eugen Langen construíram os primeiros motores Introdução aos ciclos de potência8 funcionando segundo esse ciclo em 1876, aproveitando o projeto desenvolvido pelo francês Beau de Roche, que desenvolveu teoricamente o ciclo em 1862. Em sua grande maioria, esses motores funcionam em quatro tempos, que são: (1) admissão, (2) compressão, (3) combustão e (4) exaustão. A Figura 4 apresenta de forma esquemática o funcionamento de um motor real. A primeira etapa do ciclo apresentado na Figura 4 consiste na compressão da mistura ar-combustível, em uma situação em que as válvulas de admis- são e exaustão se encontram fechadas. O pistão, chega ao ponto de máxima compressão, PMS, local que ocorre a faísca da vela, gerando a combustão da mistura ar-combustível. Essa combustão gera pressão no sentido decrescente, que se transforma em força no contato com o cabeçote do pistão. Essa força, desloca o pistão que está acoplado ao virabrequim, gerando movimento rotativo (a função básica do virabrequim é transforma o movimento alternativo do pistão em movimento rotativo no motor). A mistura ar-combustível expande até que o PMI do pistão seja alcançado, local onde a válvula de exaustão dos gases se abre, expelindo os produtos da combustão e permitindo que o pistão retorne, em um movimento ascendente ao PMS. Ao alcançar o PMS, a válvula de admissão se abre e o pistão recua em um processo descente, iniciando o ciclo novamente. Usualmente, há quatro cilindros em um motor, sendo que cada um está em uma das quatros fases, assim, a cada instante, somente um cilindro está de fato produzindo potência (fase da expansão), enquanto os demais estão nas fases complementares, que não geram potência significativas. Figura 4. Ilustração do funcionamento de um motor real operando em ciclo Otto. Fonte: Çengel e Boles (2013, p. 493). 9Introdução aos ciclos de potência A descrição dessas fases pode ser apresentada também em um diagrama de pressão por volume específico, conforme mostra a Figura 5a. Observe que para a admissão ser efetiva, a pressão dentro da câmara é menor que a atmosférica, gerando um “vácuo” na entrada. Além disso, na prática, as válvulas de admissão e exaustão são abertas e fechadas antes que o PMI e o PMS sejam alcançados e permanece por um instante após a passagem do pistão por esses pontos, conforme mostra também a Figura 5a. Isso acontece porque, caso contrário, não haveria tempo suficiente para a entrada da mistura ar-combustível ou para a saída total dos gases de exaustão. Outro ponto que se pode destacar no processo real a partir do diagrama pressão volume é que não há estados bem definidos ao longo de cadaprocesso, pois o ciclo ocorre dinamicamente. Figura 5. Ilustração (a) do diagrama P–v de um ciclo Otto real, (b) de um diagrama P–v de um ciclo Otto ideal e (c) de um diagrama T–s de um ciclo Otto ideal. Fonte: Çengel e Boles (2013, p. 494 e 496). (a) (b) (c) Introdução aos ciclos de potência10 Assim, para facilitar o estudo teórico de tais ciclos, usualmente se estuda o ciclo padrão a ar Otto, que é o ciclo ideal, que se baseia em algumas simpli- ficações, tais como uso somente do ar no ciclo, sistema fechado e combustão e exaustão substituídas por troca de energia na forma de calor. Essas simplifi- cações são apresentadas no diagrama pressão-volume específico da Figura 5b. A Figura 5c representa o diagrama temperatura-entropia para esse ciclo ideal. Pode-se notar que nessa situação, os pontos que demarcam cada estado são mais definidos, bem como as linhas que delimitam cada processo. Nessa situação, o ciclo Otto consiste em quatro processos internamente reversíveis: (1) compressão isentrópica, (2) fornecimento de calor a volume constante, (3) expansão isentrópica e (4) rejeição de calor a volume constante. Partindo dessas simplificações e das leis da termodinâmica, é possível chegar na seguinte relação para o rendimento de um ciclo Otto ideal: (4) onde r representa a razão de compressão (cujos valores típicos se encontram entre 8 e 11) e k representa a razão entre os valores específicos a pressão constante (cp) e a volume constante (cv). Para a determinação dos estados termodinâmicos no ciclo padrão a ar Otto, as seguintes relações podem ser empregadas: (5) (6) 11Introdução aos ciclos de potência Para motores ciclo Diesel, a principal distinção em relação ao ciclo Otto consiste no fato de não haver centelha para a combustão da mistura ar-com- bustível. Nesses casos, somente o ar é comprimido até uma temperatura acima da temperatura de autoignição do combustível e nesse ponto diesel começa a ser injetado, gerando a combustão quando o combustível entra em contato com o ar comprimido. Nesses motores, como somente ar é comprimido, não existe a possibilidade de ignição antes do previsto, pois ela só ocorre quando o combustível é injetado. Assim, é comum esses dispositivos operaram com taxas de compressões mais altas que os motores a ciclo Otto, em valores usualmente entre 16 e 24, o que possibilita maiores rendimentos. As simplificações supostas para o ciclo padrão a ar Otto são as mesmas suposições para o desenvolvimento do ciclo padrão a ar Diesel. A Figura 6a ilustra o diagrama P-v para o ciclo Diesel, enquanto a Figura 6b ilustra o diagrama T-s. A única diferença em termos de processo do ciclo Diesel em relação ao ciclo Otto consiste no fato de o processo de combustão do ciclo Diesel se aproximar de um processo à pressão constante, ao invés de ser um processo a volume constante, como acontece nos ciclos Otto ideal. Nos ciclos Diesel, em razão das suas características de funcionamento, além da razão de compressão definida na equação (3), há também outro parâmetro usual, a razão de corte (rc), que pode ser definida pela equação: Introdução aos ciclos de potência12 Ciclo padrão a ar Diesel O ciclo Diesel consiste no ciclo ideal em que operam os motores alternativos por compressão. Recebe esse nome em homenagem a Rudolph Diesel, que registrou a patente desse ciclo em seu motor-reator em 23 de fevereiro de 1897, aproximadamente 20 anos após a construção do ciclo Otto. A razão de corte é uma grandeza definida como a razão entre os volumes do cilindro após e antes do processo de combustão. Esta razão apresenta uma relação com a eficiência de um Ciclo diesel: à medida que a razão de corte diminui, a eficiência do ciclo aumenta. A partir das leis da termodinâmica e das simplificações do inerentes ao ciclo ideal, é possível chegar à seguinte relação para o cálculo da eficiência de ciclos padrão a ar Diesel: (8) onde r representa a razão de compressão, k representa a razão entre os calores específicos a pressão constante (cp) e a volume constante (cv)e rc é a razão de corte. 13Introdução aos ciclos de potência Figura 6. Ilustração (a) do diagrama P-v de um ciclo Diesel ideal e (b) de um diagrama T-s de um ciclo Diesel ideal. Fonte: Çengel e Boles (2013, p. 500). (a) b)( (7) onde V3 representa o volume do sistema no estado 3 e V2 representa o volume do sistema no estado 2. Em uma comparação rápida entre a equação 8 e a equação 4, é possível notar que para a mesma razão de compressão, o rendimento do ciclo Otto é maior que o rendimento do ciclo Diesel. Entretanto, em razão do fato de não haver risco de detonação nos motores a diesel (ignição antes da hora), as razões de compressão desses motores usualmente são maiores que os motores ciclo Otto, o que possibilita, como consequência direta, maiores eficiências. Outro fator que influencia positivamente nos motores a diesel é o fato de apresentarem uma razão entre a massa de ar e o combustível injetado relativa- mente mais alta que essa relação em motores por centelha, possibilitando uma combustão mais eficiente, já que mais ar significa que há mais combustível para ser queimado. Para a determinação dos estados termodinâmicos no ciclo padrão a ar Diesel, as seguintes relações podem ser empregadas: (9) (10) 14 Introdução aos ciclos de potência onde r representa a razão de compressão, k representa a razão entre os calores específicos a pressão constante (cp) e a volume constante (cv), rc é a razão de corte e T representa as temperaturas em cada estado indicado na Figura 6. As turbinas a gás As turbinas a gás, diferentemente dos motores alternativos, são máquinas rotativas. Tradicionalmente, a expressão turbina a gás é usualmente empre- gada para descrever o conjunto de três equipamentos: compressor, câmara de combustão e turbina propriamente dita. Esse conjunto de dispositivos forma um conjunto de processos cujo ciclo real pode ser simpli�cado para um ciclo ideal chamado de ciclo Brayton, em homenagem ao inventor americano George Brayton, que em 1870 patenteou um motor à combustão alternativo com compressão constante na injeção e retirada de calor. Seu modelo serviu de inspiração para o desenvolvimento das turbinas a gás utilizadas hoje. Em termos teóricos, a turbina a gás trabalha em um ciclo idealizado por Brayton, entretanto, em termos construtivos, a primeira patente de uma turbina a gás foi concedida em 1791, ao inglês John Barber. A Figura 7a ilustra os principais componentes de uma turbina a gás. Observe que, de forma real, as turbinas a gás e seus componentes trabalham em ciclo mecânico, entretanto, não funcionam em ciclo termodinâmico, pois o ciclo é aberto, havendo constante renovação do fluido de trabalho. Dessa forma, para simplificar e possibilitar a caracterização e o estudo desses ciclos, é comum acrescentar um trocador de calor fictício (condensador) na saída da turbina, que teoricamente leva o ar do ciclo ideal da saída da turbina para o interior do compressor novamente, conforme apresenta a Figura 7b. Assim, os quatro processos que o descrevem idealmente são: (1) compressão isentrópica, (2) fornecimento de calor a pressão constante, (3) expansão isentrópica e (4) rejeição de calor a pressão constante. Os diagramas de P-v e T- s que descrevem esse ciclo ideal são apresentados na Figura 8a e 8b, respectivamente. Note que esse ciclo apresenta certa semelhança com o ciclo Diesel, sendo que a diferença significativa está na transferência de calor para fora, que ocorre à pressão constante no ciclo Brayton, diferentemente do ciclo Diesel, que ocorre a volume constante. 15Introdução aos ciclos de potência A partir das leis da termodinâmica e das simplificações do inerentes ao ciclo ideal, é possível chegar à seguinte relação para o cálculo da eficiência de ciclos padrão a ar Brayton: (11) Figura 7. Ilustração (a) dos componentes de uma turbina a gás real e (b) dos componentes de uma turbina a gás ideal. Fonte: Moran et al.(2013, p. 403). onde rp representa a razão de pressão nos estados 2 e 1 , que por característica do ciclo é igual à razão de pressão entre os estados 3 e 4 . A variável k, assim como nas demais equações estudadas ao longo deste capítulo, representa a razão entre os calores específicos a pressão constante (cp) e a volume constante (cv). 16 Introdução aos ciclos de potência Os valores típicos de razão de pressão rp desse ciclo estão entre 11 e 16, sendo que quanto maior rp, maior a eficiência, conforme apresenta a equação 11. A eficiência usualmente se encontra na faixa entre 38 e 45%. Uma característica importante desses ciclos é que a razão de trabalho re- verso é alta, o que significa que grande parte do trabalho gerado é consumido pelo compressor e apenas uma pequena porção resta para gerar trabalho. Essa variável é usualmente representada pela sigla bwr, do inglês back work ratio. De forma matemática, o bwr pode ser representado como: (12) onde Wc representa o trabalho consumido pelo compressor e Wt representa o trabalho gerado pela turbina. As faixas típicas de bwr variam de 40% para turbinas a gás utilizadas em plantas termelétricas até 80%, para turbinas aeronáuticas. Em ciclos a vapor, os valores de bwr se encontram entre 1 e 2%, sendo uma diferença muito significativa. Essa diferença se deve ao fato de ciclos a vapor comprimirem água, enquanto o ciclo a gás da turbina comprime gás, requerendo um trabalho muito maior. Para definição dos estados termodinâmicos em ciclo padrão a ar Brayton, as seguintes relações podem ser empregadas: (13) (14) 17Introdução aos ciclos de potência Figura 8. Diagrama (a) P-v e (b) T-s para o ciclo padrão a ar Brayton. Fonte: Çengel e Boles (2013, p. 508). (a) (b) ÇENGEL, Y. A.; BOLES, M. A. Termodinâmica. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. MORAN, M. J. et al. Princípios de termodinâmica para engenheiros. 7. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2013. Leituras recomendadas BORGNAKKE, C.; SONNTAG, R. E. Fundamentos da termodinâmica. 8. ed. São Paulo: Blucher, 2013. (Série Van Wylen). VAN WYLEN, G.; SONNTAG, R.; BORGNAKKE, C. Fundamentos da termodinâmica clássica. 4. ed. São Paulo: Bluncher, 1995. 18 Introdução aos ciclos de potência Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. Página em branco