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HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 1 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Humanização da Saúde As palavras têm muitos sentidos, que tanto têm a ver com os significados que o dicionário lhes atribui com relação às coisas que designam quanto com o enunciado ou frase, ou com o discurso, ou com o texto todo, no qual estão incluídas e entram em relação com outras palavras. Mas, principalmente, as palavras se caracterizam pelo seu "uso", ou seja, por quem as pronuncia, onde, quando, para quem, para que, como, quanto são ditas. E, ainda, as palavras mudam totalmente de sentido se a especificidade de seu "contexto" é filosófico, científico, literário, político, religioso ou mitológico, popular, ou seja, pelo "gênero" do texto ou discurso que integram. Nas diferentes épocas ou eras da História, os sentidos das palavras humano e humanidade têm muito mais de diferente do que de comum. Precisa-se estabelecer o que é o humano e a humanidade. O que é um homem? Poder-se-ia defini-lo justamente como aquele que se coloca essa pergunta. Quem é ele? Diferente de todos os outros seres vivos para os quais não há a necessidade de responder essa pergunta e, cuja possibilidade de formulá-la é inexistente, o homem passa a vida tentando respondê-la. O que é ser homem? Com quem vai se casar? Vai ter filhos? Quantos? Qual seu hábitat? Qual será a sua língua? Qual o sentido da vida e da morte? Para todas essas questões, as quais terá que ir respondendo ao longo de sua vida, o homem conta com os limites de seu corpo biológico e um saber parcial que lhe vem de seus semelhantes, a respeito do qual ele deverá formular sua versão singular adaptada (ou não) ao grupo cultural no qual nasceu. Nesse trabalho, busca-se resgatar o sentido da humanização na assistência à saúde do ser humano, refletindo sobre as práticas do serviço de saúde hospitalar no cuidado ao humano, resgatando a história da humanização até à proposta do Estado de um programa nacional de humanização para os hospitais da rede pública. Para subsidiar essa proposta realizou-se busca bibliográfica digital em bases de dados e textual no período dos últimos dois anos, a partir das quais selecionou-se o referencial para dar sustentação à reflexão que, aliada à prática profissional permitiu estabelecer as considerações que se traça nessa abordagem sobre a humanização da assistência. Atualmente discute-se a necessidade de humanizar o cuidado, a assistência, a relação com o usuário do serviço de saúde. O SUS instituiu uma política pública de saúde que, apesar dos avanços acumulados, hoje, ainda enfrenta fragmentação do processo de trabalho e das relações entre os diferentes profissionais, fragmentação da rede assistencial, precária interação nas equipes, burocratização e verticalização do sistema, baixo investimento na qualificação dos trabalhadores, formação dos profissionais de saúde distante do debate e da formulação da política pública de saúde, entre outros aspectos tão ou mais importantes do que os citados aqui, resultantes de ações consideradas desumanizadas na relação com os usuários do serviço público de saúde. Nesse sentido, justifica-se a reflexão sobre a humanização, que deve considerar a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores; fomento da autonomia e do protagonismo desses sujeitos; aumento do grau de co-responsabilidade na produção de saúde; estabelecimento de vínculos solidários e de participação coletiva no processo de gestão; identificação das necessidades sociais de saúde; mudança nos modelos de atenção e gestão dos processos de trabalho, tendo como foco as necessidades dos cidadãos e a produção de saúde. O Homem, O Humano E A Humanidade: Abordagem Histórica Em muitas comunidades primitivas a diferença entre os animais, os deuses da terra (humus) e os homens (tanto entre os vivos como entre os mortos) era relativamente pouco clara. Em algumas delas, o pronome pessoal eu não existia na língua e o equivalente do que para nós é um ser humano, era grupal ou coletivo. Não obstante, algo equivalente à condição de humano era reservada aos membros do clã ou da tribo, sendo que os "outros", às vezes, não eram considerados humanos. Seus médicos eram os xamãs, ou os bruxos da tribo, e a noção e a vivência de saúde ou de enfermidade HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 2 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR estavam estreitamente ligadas à harmonia ou desarmonia com os deuses da terra, com os antepassados e com o cumprimento dos códigos que regiam a vida da comunidade(1). Nos grandes Impérios Orientais, o imperador déspota era filho direto do Deus e, ao mesmo tempo que divino, ele era o único ser parecido ao que hoje se chama de humano, nem os nobres nem os escravos eram "humanos" nessa magnitude. Seus médicos eram "magos" e algo vagamente equiparável ao que se chama de saúde ou enfermidade só interessava no concernente à família imperial e à nobreza. A saúde e a enfermidade tinham a ver com a harmonia ou desarmonia com os deuses das alturas, os prêmios e castigos correspondentes(1). Na Grécia Antiga e na Clássica, as mulheres, as crianças, os escravos e estrangeiros não eram cidadãos e, em graus variáveis, não eram tidos como humanos. Tal tradição discriminatória se prolongou no Império Romano, especialmente em suas numerosas colônias, assim como com os bárbaros que, decididamente, não eram considerados humanos (apesar de, amiúde, ter uma organização nômade muito mais "democrática" que a imperial). A palavra "bárbaro" quer dizer, "que não fala latim"(1). Com o surgimento das grandes cidades comerciais ou mercantis, seus habitantes "cidadãos" tornaram-se privativamente sinônimos de humanos, seu modo de organização social era uma "civilização" (de civitas, cidade) e sua forma de comportar-se se qualificava pela "urbanidade" (urbe), assim resulta clara a propriedade da natureza humana pelos civilizados em oposição aos bárbaros e aos selvagens(1). A Reforma, constituída pelo protestantismo luterano, calvinista ou puritano, ao mesmo tempo em que "mundanizou" as relações do homem com a divindade e que criticou e racionalizou a mediação da Igreja católica obscurantista e corrupta, preparou um conceito de homem próprio da Modernidade, dotado de todas as potências da razão científica, mas submetido ao culto ao trabalho e à produção de bens de troca. Na Modernidade, a cadegoria humano tendeu a universalizar-se, todos os tipos de homens foram considerados humanos e integrantes de uma espécie comum, a humanidade(1). Pode-se dizer ainda que o humano é o efeito da combinação de três elementos: a materialidade do corpo, a imagem do corpo e a palavra que se inscreve no corpo. O que diferencia o ser humano da natureza e dos animais é que seu corpo biológico é capturado desde o início numa rede de imagens e palavras, apresentadas primeiro pela mãe, depois pelos familiares e em seguida pelo social, que vai moldando o desenvolvimento do corpo biológico, transformando-o num ser humano, com estilo de funcionamento e modo de ser singulares(2). O fato de se ser dotado de linguagem torna possível a todos a construção de redes de significados que se compartilha em maior ou menor medida com os semelhantes e que dão certa identidade cultural. Em função da dinâmica de combinação desses três elementos, o homem é capaz de transformar imagens em obras de arte, palavras em poesia e literatura e sons em fala e música, ignorância em saber e ciência, sendo capaz de produzir cultura e, a partir dela, intervir e modificar a natureza. Por exemplo, transformando doença em saúde(3). O saber de cada sociedade veio mudando ao longo dos tempos e nas diferentes civilizações. Assim, como se viu anteriormente, ser homem na Antigüidade não foi o mesmo que na Idade Média e nos dias de hoje; ou ser homem na África não é o mesmo que ser homem na Ásia. Cada sociedade, cada cultura nas diferentes épocas propuseram um certo modo de saber, certas respostas acerca do mundo,das coisas, das relações com os semelhantes, o prazer, os sentimentos, o bem e o mal, o destino, a vida e a morte. Ou seja, constituíram pontos de referência para se orientar precisamente naquilo que o ser humano nasce ignorando. Essas referências são o que legitima, nos diferentes campos da produção humana (no campo da arte, da ciência e da moral), a atuação de cada indivíduo(1). As grandes descobertas realizadas pelo homem no Renascimento: a descoberta das Américas, a perspectiva na pintura, a descoberta de Copérnico de que o Sol não gira ao redor da Terra, foram deslocando Deus do centro do universo e colocando em seu lugar o homem racional(1). Surge o ideal de autonomia do homem e a crença de que toda sabedoria pode ser transformada em conhecimento. Os avanços da ciência vão assim firmando-se como promessa de resolver as angústias humanas e dominar a vida e a morte. A ciência passa a formalizar e legitimar a produção HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 3 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR humana. Nesse sentido, toda a subjetividade fica no imperativo de ser trocada pela objetividade. As manifestações subjetivas, então, encontram dificuldade de se expressar de forma legítima. Tal aposta, endereçada a um conhecimento científico que poderia responder por todo o campo do humano e das relações sociais, implica também na geração de um novo homem: o homem moderno. Aquele que se instala na ilusão de uma autonomia fictícia, um homem supostamente construído por si mesmo. Na verdade, trata-se de um delírio de autonomia que, para se sustentar, acaba implicando em relações humanas mais distantes e menos significativas, isto é, num homem muito menos "humanizado", um homem centrado em si e em seu trabalho, cada vez mais distante de quem está a seu lado, do cotidiano em família, da vida entre amigos e sem perceber as relações interpessoais como a fonte de vida e a interação entre os homens como forma de contribuir para o crescimento da humanidade. A Humanização Na Humanidade Foi no seio do Império e a partir da religião judaica das colônias do Oriente Médio que nasceu o humanismo do Cristianismo primitivo, cuja concepção das virtudes que eram paradigma de humanidade (por imagem e semelhança com a divindade) teve influência incalculável na cultura ocidental. Apesar de sua fundamentação deísta, transcendente e ultraterrena, teológica e metafísica, com suas limitações moralizantes e piedosas, a ética e a organização social implícitas nesse Cristianismo primordial foram uma contribuição irreversível ao conceito de Humanidade e à prática da Humanização, matizados depois pela Reforma e a Contra-reforma(1). As deformações do conceito e o valor de humanidade próprios da Idade Média (e ainda até metade do século XVII) foram muito negativas. Simultaneamente, coexistiam as campanhas de evangelização humanitária com os genocídios da conquista e das cruzadas. Ao mesmo tempo em que os animais eram julgados pelos tribunais como responsáveis por delitos (como se fossem humanos), os não católicos, os heréticos, as supostas feiticeiras eram qualificados como demônios e não como membros da humanidade (1). Na civilização contemporânea, as condições objetivas e subjetivas para obter um alto grau de humanidade para todos os membros da espécie humana estão já dadas pelo alto grau de potência produtiva. Para essas orientações, humanizar consiste simplesmente em canalizar tais capacidades no sentido de estender e distribuir, integral e igualitariamente à humanidade uma série de benefícios e resultados considerados propriedades sine qua non da condição humana. Essas podem ser definidas como: atenção às necessidades básicas de subsistência, por mais variáveis que elas sejam (alimentação, moradia, vestuário...), educação, segurança, justiça, trabalho, acesso à liberdade de associação, de pensamento e de expressão, de ir e vir, de prática política, científica, arte, esporte, tempo livre, culto religioso e, para o que aqui interessa especialmente: o cuidado à saúde. É claro que a definição da qualidade e quantidade dessas necessidades é histórica e culturalmente produzida, e deve ser concebida e realizada de acordo com o que manifestam os homens, e não apenas determinada por "alguns". Há uma definição que resume a humanidade como o funcionamento de toda a espécie humana que vise conseguir que "a todos seja dado acesso ao que precisam, segundo suas necessidades e a cada um as condições para desenvolver e exercitar suas capacidades". Especialmente, as necessidades daqueles cujas capacidades sejam decididamente significativas para contribuir a que todos tenham suas necessidades satisfeitas e que tais necessidades se definam mais e mais além do que historicamente se considera como "básicas"(1). Tal proposta responsabiliza toda a humanidade por esse objetivo, em proporção com o grau de potência da qual cada segmento social dispõe atualmente. Não há relação com a proposição apenas da igualdade de oportunidades para competir no mercado, tão em voga atualmente, deixando exclusivamente para o Estado (afetado por considerável impotência) o dever de velar pela satisfação das necessidades e pela capacitação elementar dos menos favorecidos (que são a imensa maioria da população mundial). Tal proposta deixa toda ação de ajuda (além das obrigações tributárias) ao livre critério e vontade dos que mais podem e sabem, mas apenas quando, quanto e como queiram(4). Humanizar é, ainda, garantir à palavra a sua dignidade ética. Ou seja, o sofrimento humano, as percepções de dor ou de prazer no corpo para serem humanizadas precisam tanto que as palavras com que o sujeito as expressa sejam reconhecidas pelo outro, quanto esse sujeito precisa ouvir do HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 4 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR outro palavras de seu reconhecimento. Pela linguagem faz-se as descobertas de meios pessoais de comunicação com o outro, sem o que se desumaniza reciprocamente(5). Isto é, sem comunicação não há humanização. A humanização depende da capacidade de falar e de ouvir, pois as coisas do mundo só se tornam humanas quando passam pelo diálogo com os semelhantes, ou seja, viabilizar nas relações e interações humanas o diálogo, não apenas como uma técnica de comunicação verbal que possui um objetivo pré-determinado, mas sim como forma de conhecer o outro, compreendê-lo e atingir o estabelecimento de metas conjuntas que possam propiciar o bem-estar recíproco. Em determinado momento da história, a saúde passa a ser valorizada como um bem acima de qualquer discussão, justificando assim formas coercitivas de controle social em nome da utilidade e da felicidade do maior número, da piedade compassiva pelos que sofrem e do condicionamento de comportamentos considerados mais saudáveis pelo saber médico científico higienista do momento. Tudo isso sem qualquer tipo de questionamento a respeito do que as pessoas envolvidas pensam e têm a dizer sobre o assunto(3). A utopia da saúde perfeita surge de forma clara na própria definição da saúde proposta pela OMS, em 1948, como sendo o "estado de completo bem-estar físico, mental e social, não meramente a ausência de doença ou enfermidade". Essa definição tem o mérito de ampliar o escopo de um modelo estritamente biomédico de saúde como presença/ausência da doença ou enfermidade enquanto desvio da normalidade, causada por uma etiologia específica e única, tratada pela suposta neutralidade científica da ciência médica. O aspecto utópico está contido na idéia de um estado de completo bem-estar. Sabe-se que um estado de completo bem-estar é quase impossível de existir, a não ser na morte, como estado absoluto de ausência de tensão. Bem ao contrário do que a utopia da saúde perfeita propõe, a civilização moderna vem exigindo da humanidade cada vez mais renúncias às satisfações de seus impulsos e oferecendo cada vez menos referências simbólicas em nome das quais essas renúncias poderiam ser suportadas(3). A Humanização Na Saúde O propósito oumeta de humanizar, em todos os sentidos apontados, mais objetivamente no caso da saúde, implica aceitar e reconhecer que nessa área e nas suas práticas, em especial, subsistem sérios problemas e carências de muitas das condições exigidas pela definição da concepção, organização e implementação do cuidado da saúde da humanidade, tanto por parte dos organismos e práticas estatais, como da sociedade civil. As organizações, agentes e práticas contemporâneas da saúde variam entre um tratamento (dito em geral e particularmente comunicacional, entre si e com os usuários) que vai desde o uso de uma linguagem técnica impessoal (que supõe expressar certos ideais de cientificidade) até outro autoritário ou paternalista que infantiliza os usuários, passando por modalidades que vão da homogeneização à indiferença (os agentes não chamam o paciente pelo seu nome, não olham para seu rosto quando falam, gritam com ele etc). Se os hospitais começaram sendo "derivados" dos cárceres, dos abrigos para indigentes e de espaços de clausura e isolamento para enfermos de doenças epidêmicas incuráveis, estabelecimentos esses nos quais o tratamento correspondia à intenção de castigo, eliminação ou segregação social, os hospitais "modernos" correm o perigo de se tornarem equipamentos de controle social sobre "grupos de risco", para a identificação e manipulação das "minorias" excluídas, marginalizadas, desinseridas, desfiliadas, que ameaçam a ordem instituída dominante e as pessoas dos seus proprietários e beneficiários(6). Se tivesse que resumir a missão de humanização num sentido amplo, além da melhora do tratamento intersubjetivo, dir-se-ia que se trata de incentivar, por todos os meios possíveis, a união e colaboração interdisciplinar de todos os envolvidos, dos gestores, dos técnicos e dos funcionários, assim como a organização para a participação ativa e militante dos usuários nos processos de prevenção, cura e reabilitação. Humanizar não é apenas "amenizar" a convivência hospitalar, senão, uma grande ocasião para organizar-se na luta contra a inumanidade, quaisquer que sejam as formas que a mesma adote. Por outro lado, o problema em muitos locais é justamente a falta de condições técnicas, seja de capacitação, seja de materiais, e torna-se desumanizante pela má qualidade resultante no HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 5 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR atendimento e sua baixa resolubilidade. Essa falta de condições técnicas e materiais também pode induzir à desumanização na medida em que profissionais e usuários se relacionem de forma desrespeitosa, impessoal e agressiva, piorando uma situação que já é precária. Nesse sentido, humanizar a assistência em saúde implica dar lugar tanto à palavra do usuário quanto à palavra dos profissionais da saúde, de forma que possam fazer parte de uma rede de diálogo, que pense e promova as ações, campanhas, programas e políticas assistenciais a partir da dignidade ética da palavra, do respeito, do reconhecimento mútuo e da solidariedade. A possibilidade de se colocar no lugar do outro, de abrir espaço para que o outro saiba algo que não se sabe de antemão depende de se aceitar que todo saber é limitado: algo que não se sabe e que, portanto, poderá vir de outro. Apenas quando se corre o risco de não pretender tudo saber é que se pode compreender o outro, aceitando que ele tem algo a dizer, com toda a dimensão de falta que coloca a palavra, mas também de um saber que, por não ser total, pode se expandir infinitamente. O contato direto com seres humanos coloca o profissional diante de sua própria vida, saúde ou doença, dos próprios conflitos e frustrações. Se ele não tomar contato com esses fenômenos correrá o risco de desenvolver mecanismos rígidos de defesa, que podem prejudicá-lo tanto no âmbito profissional quanto no pessoal. Os profissionais da saúde submetem-se, em sua atividade, a tensões provenientes de várias fontes: contato freqüente com a dor e o sofrimento, com pacientes terminais, receio de cometer erros, contato com pacientes difíceis. Assim, cuidar de quem cuida é condição sine qua non para o desenvolvimento de projetos e ações em prol da humanização da assistência. Contratação de profissionais em número suficiente para atender à demanda da população, aquisição de novos equipamentos médico-hospitalares, abertura de novos serviços, melhoria dos salários, das condições de trabalho e da imagem do serviço público de saúde junto à população são outros objetivos a serem buscados para a melhoria da assistência. O Programa Nacional De Humanização Da Assistência Hospitalar Ao apresentar essa proposta, o Estado coloca que a dimensão humana e subjetiva, inserida na base de toda intervenção em saúde, das mais simples às mais complexas, tem enorme influência na eficácia dos serviços prestados pelos hospitais. Para cuidar dessa dimensão fundamental do atendimento à saúde, foi criado o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH). Sua implantação envolveu o Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde e entidades da sociedade civil, prevendo a participação de gestores, profissionais de saúde e comunidade(2). Embora se saiba que a assistência à saúde não está centrada apenas na instituição hospitalar, é nesse espaço onde se percebe que a desumanização no cuidado com o outro se faz mais evidente. Ainda que haja longas filas de espera nos serviços públicos ambulatoriais, para citar apenas um dos problemas, quando o ser humano necessita de hospitalização, encontra-se fragilizado pelo processo de adoecimento, o que se agrava com a falta de humanização da assistência(7). Espera-se com a implantação do referido programa, a oferta de um tratamento digno, solidário e acolhedor por parte dos que atendem o usuário não apenas como direito, mas como etapa fundamental na conquista da cidadania. Para os profissionais que atuam nos hospitais há a oportunidade de resgatar o verdadeiro sentido de suas práticas, sentido e valor de se trabalhar numa organização de saúde. Como todo trabalho, esse é produzido por sujeitos e produtor de subjetividade. Não há humanização da assistência sem cuidar da realização pessoal e profissional dos que a fazem. Não há humanização sem um projeto coletivo em que toda a organização se reconheça e, nele, se (re)valorize. É seu objetivo fundamental resgatar as relações entre profissional de saúde e usuário, dos profissionais entre si, da instituição com os profissionais e do hospital com a comunidade. Os multiplicadores do programa de humanização têm como função a criação de um Grupo de Trabalho de Humanização em cada um dos hospitais, constituído por lideranças representativas do coletivo de profissionais, cujas tarefas são: difundir os benefícios da assistência humanizada; pesquisar e levantar os pontos críticos do funcionamento da instituição; propor uma agenda de mudanças que possa beneficiar os usuários e os profissionais de saúde; divulgar e fortalecer as iniciativas humanizadoras já existentes; melhorar a comunicação e a integração do hospital com a comunidade de usuários(2). HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 6 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR A divulgação das iniciativas humanizadoras existentes é propiciada por meio da rede nacional de humanização, que tem como função primordial o intercâmbio de informações e conta com um portal, no qual, além de se obter informações sobre humanização e o andamento do Programa, pessoas e hospitais interessados podem se cadastrar para receber mais informações via e-mail. No entanto, mesmo contando com um grau razoável de sensibilização das instituições para sua inserção numa rede ampla de trabalho e troca de informações e experiências com outras instituições (seja com instituições de saúde ou com instituições representativas de outros setores da comunidade), há um segundo desafio a enfrentar, que se constitui no processo de capacitação das instituições e de seus profissionais. Toda instituição pública é umaorganização idealmente destinada a atender a comunidade, embora nem sempre isso aconteça da forma desejada. Pressionadas por grandes demandas, por carências de recursos materiais e humanos e atuando, muitas vezes, em situações-limite, as preocupações de muitas dessas instituições, especialmente as instituições hospitalares, acabam freqüentemente se circunscrevendo às questões que acontecem em seu espaço interno, o que as torna isoladas e pouco permeáveis a um contato mais aberto e efetivo com a comunidade da qual fazem parte e para a qual atuam. Por melhor que seja a ação dessas instituições os resultados de seu trabalho permanecem pouco conhecidos e pouco compartilhados com outras instituições. Outra peculiaridade essencial do Programa de Humanização, tanto nos hospitais como na formação e funcionamento da Rede, é o trabalho com equipes interdisciplinares. Nessas equipes, tende-se à mútua formação elementar contínua dos seus membros nas teorias, métodos e técnicas das suas respectivas especificidades e profissões, com o fim de, sem provocar nenhum tipo de confusão, propiciar tanto a exploração das interfaces das suas capacidades e funções, como a mobilidade, a substitutividade dos papéis teórico-técnicos e, ainda, a invenção de novos papéis requeridos pela tarefa. Essa equipe inclui, eventual ou regularmente, os que desempenham os denominados "ofícios" (não qualificados como profissões) e, ainda, da mesma forma, os usuários e/ou seus representantes, assim como representantes da comunidade organizada(8). Os principais obstáculos para a constituição e desenvolvimento das equipes interdisciplinares são: o individualismo, as hierarquias injustas dadas pela divisão técnica e social do trabalho, a onipotência de cada profissão que acredita paradoxalmente ser "a única e a melhor", o sentimento de superioridade dos experts por relação ao saber e o saber fazer espontâneo dos usuários, o medo da perda da identidade e à suposta caotização das diferenças, o temor à crítica quando o dispositivo propicia a plena exposição das limitações e erros de cada especialidade e de cada agente, a possível perda de privilégios etc. Outro aspecto fundamental a ser destacado diz respeito às condições estruturais de trabalho do profissional de saúde, quase sempre mal remunerado, muitas das vezes pouco incentivado e sujeito a carga considerável de trabalho. Humanizar a assistência é humanizar a produção dessa assistência. As idéias de humanização favorecendo a não-violência e a comunicabilidade reforçam a posição estratégica das ações centradas na ética, no diálogo e na negociação dos sentidos e rumos da produção de cuidados em saúde(9). Considerações Finais Na humanidade, a palavra pode fracassar e quando a palavra fracassa o ser humano é capaz também das maiores barbaridades. A destrutividade faz parte do humano e a história testemunha a que ponto o homem pode chegar em nome de destruir os humanos que considera diferentes e por isso mesmo acha que constituem ameaça a ser eliminada. Pode falhar também quando a comunicação não consegue se estabelecer de forma efetiva. As instituições de assistência pública de saúde, por exemplo, se fundamentam há dois séculos, nos critérios de bem-estar geral, urgência social e de felicidade e interesse comuns. E suas ações, campanhas e programas partem das certezas de que sempre atuam em nome e pelo bem daqueles a quem pretendem ajudar, sendo que supõem conhecer esse bem de um modo claro e distinto, sem necessidade de consultar (comunicar-se) antes os (com os) "beneficiados". Uma política de assistência fundamentada sobre esses pressupostos prescinde de argumentos, exclui a palavra e emudece qualquer diálogo. HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 7 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Tal prática, por si só, é desumanizante, pelo fato de colocarem os princípios acima dos sujeitos envolvidos, banindo as decisões tomadas coletivamente com base no diálogo e argumentação, pois que consideram que os princípios utilizados são os únicos que podem determinar de antemão o que deve ser levado em consideração e efeito. Outro aspecto que precisa ser abordado é trazido pelo discurso técnico-científico e o sentimento que a suposição de objetividade e neutralidade da ciência desperta no homem moderno. O desenvolvimento científico e tecnológico tem trazido uma série de benefícios, sem dúvida, mas tem como efeito colateral a inadvertida promoção da desumanização. Com a suposta objetividade da ciência pode-se perceber a eliminação da condição humana da palavra, da palavra que não pode ser reduzida à mera informação (de anamnese, por exemplo). Quando se preenche uma ficha de histórico clínico, não se está escutando a palavra daquela pessoa e sim apenas recolhendo a informação necessária para o ato técnico. Indispensável, sem dúvida. Mas o lado humano ficou de fora. O ato técnico, por definição, elimina a dignidade ética da palavra, pois essa é necessariamente pessoal, subjetiva e precisa do reconhecimento na palavra do outro. A dimensão desumanizante da ciência e tecnologia se dá, portanto, na medida em que se fica reduzido a objetos da própria técnica e objetos despersonalizados de uma investigação que se propõe fria e objetiva. O saber técnico supõe saber qual é o bem de seu paciente independentemente de sua opinião. A humanização é um processo amplo, demorado e complexo, ao qual se oferecem resistências, pois envolve mudanças de comportamento, que sempre despertam insegurança e resistência. É claro que a não adesão envolve, além da relação do paciente com o profissional, fatores relacionados aos pacientes (idade, sexo, estado civil, etnia, contexto familiar, escolaridade, auto-estima, crenças, hábitos de vida), às doenças (cronicidade, ausência de sintomas), aos tratamentos (custo, efeitos indesejáveis, esquemas complexos), à instituição (política de saúde, acesso ao serviço de saúde, tempo de espera, tempo de atendimento). Os padrões conhecidos parecem mais seguros, além disso, os novos não estão prontos nem em decretos nem em livros, não tendo características generalizáveis, pois cada profissional, cada equipe, cada instituição terá seu processo singular de humanização. E se não for singular, não será de humanização. E, ainda, para que esse processo se efetive, devem estar envolvidas várias instâncias: profissionais de todos os setores, direção e gestores da instituição, além dos formuladores de políticas públicas, conselhos profissionais e entidades formadoras. Para a implementação do cuidado com ações humanizadoras é preciso valorizar a dimensão subjetiva e social em todas as práticas de atenção e gestão no SUS, fortalecer o trabalho em equipe multiprofissional, fomentar a construção de autonomia e protagonismo dos sujeitos, fortalecer o controle social com caráter participativo em todas as instâncias gestoras do SUS, democratizar as relações de trabalho e valorizar os profissionais de saúde. O movimento da Reforma Sanitária representou uma mudança paradigmática na saúde do Brasil não apenas pela ênfase dada à Atenção Primária à Saúde (APS), mas também pela importância dos determinantes sociais no processo saúde – doença1-3. Com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) a saúde passa a ser direito de todo cidadão brasileiro, sendo dever do Estado prover políticas econômicas e sociais que visem a redução dos riscos de adoecer4. Especificamente, relacionado às ações e serviços, estas devem ser garantidas por meio de políticas de promoção, proteção e recuperação, com participação da sociedade civil organizada nas decisões e na implementação das ações3,5-8. Na trajetória de construção do SUS, há que se destacar os muitos avanços obtidos, especialmente aqueles relacionados à universalidade e à descentralização. Não obstante, ainda persistem alguns entraves, apontando para a necessidade de aperfeiçoamento na implementação do sistema em suas diretrizes essenciais, tais como a regionalização e a hierarquização, a equidade,a integralidade, uma efetiva participação social e o investimento na formação e capacitação de recursos humanos em saúde3,8-10. Dentre os principais obstáculos presentes no cotidiano do SUS, salienta-se a presença marcante do modelo biomédico na práxis dos profissionais de saúde2,7,11, as relações de trabalho precarizadas, a fragilidade na relação usuário-serviço de saúde, a necessidade de ampliação do acesso com qualidade aos serviços de saúde, a pobre participação dos usuários na gestão dos serviços, o HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 8 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR despreparo profissional aliado ao modelo centralizado e vertical10, ou seja: a implantação e execução das políticas públicas no país ainda não é exercida de modo satisfatório7,12. Frente à necessidade de mudança do cenário vigente, foi instituído a "Política Nacional de Humanização da Atenção e Gestão no Sistema Único de Saúde", entendida como uma estratégia de fortalecimento do sistema público de saúde. Seu propósito é o de contribuir para a melhoria da qualidade da atenção e da gestão da saúde no Brasil, por meio do fortalecimento da humanização como política transversal na rede, afirmando a indissociabilidade do modelo de atenção e de gestão10. Nestes termos, as principais prioridades alvo da Política Nacional de Humanização (PNH) são: construção de autonomia e protagonismo dos sujeitos e coletivos implicados na rede do SUS; corresponsabilidade desses sujeitos nos processos de gestão e atenção; fortalecimento do controle social com caráter participativo em todas as instâncias gestoras do SUS; fortalecimento de trabalho em equipe multiprofissional, fomentando a transversalidade e a grupalidade; apoio à construção de redes cooperativas, solidárias e comprometidas com a produção de saúde e de sujeitos; valorização da dimensão subjetiva e social em todas as práticas de atenção e gestão no SUS, fortalecendo o compromisso com os direitos do cidadão, destacando-se o respeito às questões de gênero, etnia, orientação sexual e às populações específicas10. Por humanização entende-se "a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores"10. O protagonismo dos sujeitos e sua autonomia, o estabelecimento de vínculos solidários entre os atores, a participação coletiva no processo de gestão, bem como a elaboração de tramas de cooperação norteiam essa política10. A humanização como estratégia de intervenção nos processos de trabalho e na geração de qualidade da saúde, vai ao encontro dos princípios do SUS, ao enfatizar a necessidade de se assegurar atenção integral à população, bem como estratégias que ampliem a condição de direitos e de cidadania dos indivíduos. A humanização depende ainda de modificações no modo de pensar e agir das pessoas, na ênfase aos valores atrelados à defesa da vida, a fim de tornar criativo e prazeroso o modo de fazer o trabalho13,14. Considerando ser o SUS um processo social em construção, e sendo os profissionais de saúde importantes sujeitos desse processo, destaca-se o papel da educação permanente como um dos mais relevantes instrumentos para a garantia de um cuidado humanizado. Assim, o objetivo deste trabalho foi discutir a experiência do curso de capacitação dos profissionais de uma Unidade de Saúde, com base na perspectiva da humanização, visando a sensibilização para o exercício pleno e consciente de seu papel na implementação de um modelo de sistema sanitário comprometido com os valores essenciais de alteridade e solidariedade, impressos nos ideais do SUS. Métodos Em outubro de 2009, realizou-se, o curso de capacitação intitulado "Debates Atuais em Humanização e Saúde: Quem Somos Nós?", por demanda dos próprios profissionais da Unidade de Saúde pública ambulatorial, da Universidade Federal de Viçosa (USUFV), instituição esta, que atende aos respectivos docentes, discentes, pessoal técnico-administrativo e familiares. As atividades desenvolvidas no curso tiveram como objetivo central aperfeiçoar os conhecimentos referentes à PNH, visando melhoria do cuidado oferecido ao público alvo, assim como do espaço de trabalho (social, afetivo, físico e técnico) dos profissionais da USUFV. O curso teve duração de 16 horas, sendo o mesmo realizado a partir de exposições dialogadas, seguidas de dinâmicas de grupo e processamento de uma Situação Problema (SP). Os temas abordados durante a realização do curso foram: Humanização no Sistema Único de Saúde; Bioética e humanização; Mudança na formação e no trabalho em saúde; humanização e o trabalho em saúde: o atendimento na sala de trauma, na urgência e emergência. A seguir, apresentamos a SP trabalhada ao longo do curso. Um dia na Unidade de Atenção Primária à Saúde (UAPS) de Saramandaia Maria Alice trabalha como médica em uma UAPS, desde 2005. Estudou muito durante sua formação, sendo aluna dedicada do começo ao fim do curso. Contudo, quando se formou e foi trabalhar como médica, tomou consciência de que não conseguia, em muitas oportunidades, juntar coerentemente os HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 9 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR saberes necessários para resolver os problemas dos usuários que a procuravam precisando de ajuda. Tinha ouvido falar do Sistema Único de Saúde do Brasil, o SUS, dito um dos mais avançados do mundo, que garantia o acesso universal, a integralidade do cuidado, mas não sabia direito como garantir que seus pacientes fossem atendidos nas unidades secundárias, quando os mesmos precisavam de um especialista. Tinha ouvido falar de escuta ativa, de clínica ampliada, mas via a agenda sempre cheia, a equipe super estressada, os colegas mal olhando para os pacientes... Conversando com a enfermeira Zildete escutava as mesmas queixas, os mesmos questionamentos. Em sua formação, na escola de enfermagem, ninguém havia falado das filas, da equipe sobrecarregada, do número enorme de famílias excedente. Como fazer as visitas domiciliares, supervisionar as agentes comunitárias e ainda preencher a papelada com o tempo que tinha? Humanização? Ética? Bioética? O jeito era correr para atender as pessoas que já estavam reclamando, pois tinham chegado à unidade às seis horas... e já eram dez horas da manhã... - Entra o próximo, chamou a Dra. Maria Alice. - Bom dia doutora. Vim colher o preventivo, disse a paciente. - Qual o seu nome? - Ana Maria. - Ana, acabou a lâmina. Você tem que voltar semana que vem... Maria Alice falou sem olhar para a paciente. - Mas estou esperando desde as seis horas... - Minha filha, não posso fazer nada! A culpa é do governo que não mandou o material! - Mas tem dois anos que não faço o exame... E semana que vem preciso ir trabalhar... - Volta semana que vem... Já disse... Ah! Aproveita ali no guichê e mande a próxima entrar! E assim, transcorre mais um dia de trabalho na UAPS Os profissionais foram incentivados a participar como agentes de transformação social na busca de soluções originais vinculadas a prática cotidiana do trabalho15,16. Para a realização das dinâmicas os participantes foram divididos em três grupos, privilegiando a heterogeneidade profissional. Foram utilizados como materiais de apoio: papel cartão em tamanho de cartolina, pincéis atômicos, folhas de papel ofício, canetas, entre outros. Cada grupo foi acompanhado por um tutor, que atuou como facilitador da discussão, incentivando a integração e a participação de todos. A problematização realizada nas dinâmicas permitiu que os participantes tomassem contato com as informações e a produção do conhecimento, promovendo assim, o seu próprio desenvolvimento17,18. Esta forma de aprendizagem representou um instrumento necessário e significativo para ampliar as possibilidades, as reflexões e os caminhos, permitindo o exercício da liberdade e da autonomia na realização de escolhas e na tomada de decisões18,19. A SP foi distribuída aos participantes, que divididos em pequenos grupos, discutiram as questões abordadase formularam duas questões de aprendizagem, a saber: Como transformar a realidade da Unidade de Atenção Primaria a Saúde (UAPS) no ideal formulado para o SUS?, e Como a formação do profissional de saúde pode transformar a realidade? As discussões em pequenos grupos possibilitaram a construção coletiva de cartazes, instrumento eleito por se tratar de um recurso simples e eficiente para despertar o interesse e curiosidade dos participantes20. Posteriormente, cada grupo apresentou para o grande grupo suas sínteses coletivas, permitindo assim, um amplo debate coletivo em roda de conversa e configuração de uma nova síntese, neste momento com todos os participantes. Resultados E Discussão HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 10 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Participaram do curso 23 profissionais de diferentes categorias – médicos, dentistas, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, fisioterapeutas, auxiliares de laboratórios e pessoal técnico-administrativo. As Figuras 1, 2 e o Quadro 1 apresentam os cartazes confeccionados pelos profissionais de saúde da USUFV em relação aos pontos discutidos na resolução das questões de aprendizagem propostas. A partir dos materiais elaborados pelos participantes, iniciou-se um processo de reflexão-análise das questões levantadas pelo grupo. As atividades realizadas entre os participantes permitiram o debate do cotidiano de trabalho na USUFV, os impasses vivenciados no dia a dia e a criação de estratégias coletivas para a superação dessas dificuldades. _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 11 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Na Figura 1 evidencia-se o papel do Gestor de Saúde na implantação da política de humanização, relatado pelos profissionais após reflexão-análise das questões levantadas pelo grupo, seguido da construção da pergunta Qual o papel da gestão na implantação da política de humanização da busca integral à saúde? A dificuldade de gestão observada na SP, aliada à desvalorização do trabalho e do trabalhador, tanto por parte dos gestores municipais quanto pelo gerente da UAPS, apontam para uma realidade comumente observada em diversos municípios do país. Segundo dados do Ministério da Saúde, a gestão dos recursos humanos é apontada como uma das dificuldades para implantação adequada do SUS desde a sua criação21. Moreira e Pelizzaro22 afirmam que a visão desmedicalizada da saúde, debatida desde muito pelo Movimento da Reforma Sanitária, impulsiona a busca constante por superação do trabalho fragmentado e unidimensional em saúde. Aspectos referentes à formação profissional vêm ganhando contornos próprios no trabalho em saúde, na medida em que a indissociabilidade entre teoria e prática, o desenvolvimento de uma visão integral do homem e a ampliação da concepção de cuidado tornam-se prementes para o adequado desempenho laboral17. A dificuldade em se encontrar profissionais com formação acadêmica voltada para o paradigma da Produção Social da Saúde, nos remete a repensar o modo de atuação destes HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 12 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR profissionais frente à saúde no país23. Gomes et al.24 ressaltam a importância do processo de aprendizagem que permita aos estudantes a aquisição de conhecimentos teóricos, com base na observação da realidade e na reflexão crítica sobre as ações dos sujeitos, de forma que os conteúdos teóricos sejam apreendidos em conexão com a prática. Relatos como o potencial se perde quando se vai a prática e dissociação entre teoria e prática (Figura 1) corroboram com os achados de Stella et al.25, uma vez que, embora as escolas possibilitem que os estudantes se insiram em cenários de práticas profissionais, estas apontam para carências que precisam da formulação de novas políticas públicas que, implementadas, sejam capazes de impulsionar e sustentar as mudanças. Segundo Salgueiro et al.26, o governo tem se empenhado na elaboração de políticas públicas capazes de oferecer maior ressonância e viabilidade na busca da qualidade e humanização em saúde. Outro ponto destacado pelos participantes do curso de capacitação foi a necessidade de equipes e técnicos capacitados para atender às necessidades da população (Figura 1), sendo que o fundamental é perceber que o importante para a humanização, é justamente a permeabilidade do técnico ao não técnico, o diálogo entre essas dimensões interligada27. Guedes et al.28 salientam que as equipes de saúde, muitas vezes, têm dificuldade para dialogar e problematizar situações inerentes ao cotidiano, uma vez que se privilegiam os processos de trabalho em si, em detrimento dos sujeitos dotados de conhecimentos e histórias vivenciadas. Gomes et al.24 afirmam que os processos de capacitação dos trabalhadores devem tomar como referência as necessidades de saúde da população, da gestão e do controle social para qualificar as práticas de saúde e a educação dos profissionais e melhorar a atenção à saúde. O procedimento educativo contextualizado no processo de trabalho agrega o saber científico àquele que emerge do campo para potencializar o conhecimento a partir de ações técnicas e políticas realizadas pelos trabalhadores29. A qualidade dos serviços de saúde resulta de diferentes fatores que se culminam em instrumentos, o que contribui tanto para a definição e análise de possíveis problemas, como para a avaliação do empenho dos profissionais de saúde com as normas técnicas, sociais e humanas30. A formação acadêmica fragmentada e a discrepância entre o aprendido no meio acadêmico e o real vivenciado pelo profissional de saúde foram pontos citados pelos participantes do curso (Quadro 1), aspectos que contribuem para que o profissional de saúde não saiba lidar com os entraves enfrentados. Ainda hoje, a educação em saúde tem sido fundamentada, tradicionalmente, em metodologias de transmissão de conhecimentos, sem se levar em consideração que, o cenário atual necessita de profissionais formados com perfil crítico-reflexivo e com habilidades para trabalho em equipes18,24,31. Torna-se necessário, portanto, ajustar o perfil do profissional de saúde às ações desenvolvidas pelo SUS, através da parceria das instituições formadoras com os serviços de saúde32. Tais mudanças devem ser orientadas de acordo com as necessidades de saúde da população. Defender uma formação profissional voltada para atuar no SUS implica concebê-lo como um importante projeto político em defesa da saúde pública18,24. Segundo Ferreira et al.33, o modo através do qual cada profissional de saúde enxerga o mundo, acaba por determinar um estilo de pensamento, o qual adota como verdade absoluta. A partir de um conhecimento clínico, muitos profissionais se preocupam apenas em tratar o paciente, e não em cuidá-lo. Desde esta perspectiva, como diretriz essencial da humanização destaca-se o acolhimento. O acolhimento ao usuário foi outro ponto citado pelos profissionais de saúde da USUFV. As falhas no acolhimento por parte da equipe e da gestão (Quadro 1 e Figura 2) mostram os entraves e percalços ainda existentes no setor saúde. A postura de acolhimento da equipe de saúde se revela através de atitudes tais como: concentração no atendimento, aproximação ao cliente e sentimento em relação aos seus problemas34. O acolhimentoà pessoa que busca o cuidado em saúde se manifesta na relação ética que se estabelece entre o usuário e o profissional, ou, em outros termos, entre aquele que é cuidado e aquele que cuida. A garantia de acesso ao serviço de saúde para os usuários representa a responsabilidade do serviço para com suas necessidades de saúde35,36. HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 13 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR O acolhimento otimiza o acesso dos usuários aos serviços de saúde, humanizando as relações entre os profissionais e aqueles que buscam por atenção sanitária, referindo-se à forma de recepcionar os usuários e de escutar seus problemas e/ou demandas, em uma abordagem que contemple não apenas a dimensão biológica, mas também a psicológica, a social, a cultural e a ambiental, dentre outras possíveis36,37. Para que as necessidades dos usuários sejam satisfeitas de maneira integral é fundamental que a atividade de recepção do usuário no serviço ocorra de maneira acolhedora38. Nestes termos, o acolhimento aos usuários do SUS deve se dar segundo a necessidade de cada um. É relevante a presença de uma equipe humanizada que atue como facilitadora na concretização de estratégias de acolhimento para que o acesso aos serviços de saúde contemple o princípio da integralidade34. O acolhimento, enquanto estratégia para reconfigurar o processo de trabalho, otimiza o acesso dos usuários aos serviços de saúde, humanizando as relações entre o profissional de saúde e o paciente, contemplando as dimensões biológicas, psicológica, social e cultural37. Outro aspecto merecedor de destaque refere-se ao não olhar nos olhos do paciente, observado e relatado pelos profissionais de saúde da USUFV (Quadro 1). Segundo Deslandes e Mitre39, o processo comunicativo, em seu cotidiano, marcado muitas vezes pelos encontros e desencontros dos diferentes atores envolvidos no setor saúde, ocorre no contexto das relações estabelecidas pelas desigualdades, ainda vigente, entre seus pacientes e profissionais de saúde. Igualmente, a escuta, o acolhimento, a negociação, a interpretação de histórias e a aprendizagem com a experiência do outro constituem-se em pontos cruciais para o desenvolvimento de um serviço humanizado no setor saúde40. Considerações Finais A metodologia ativa de ensino-aprendizagem e neste contexto, a problematização, destaca-se como estratégica inovadora, por estimular a discussão e a análise crítica dos temas apresentados, fundamentais para o aprendizado41 configurando, portanto, uma das possibilidades de discutir o tema na instituição. Tal estratégia afirma as redes de serviços como espaços de sociabilidade, de trocas, em que se enfatiza a produção de saúde como produção de subjetividades, colocando em questão práticas disciplinares28. Assim, as estratégias utilizadas contribuíram para sistematizar os conteúdos trabalhados, através da reflexão sobre os referenciais teóricos apresentados, estimulando o pensamento reflexivo e crítico, aspectos estes fundamentais para ampliar e aprofundar o processo de empoderamento dos profissionais de saúde da USUFV e consequentemente a consolidação das políticas de saúde, em especial a PNH. O processo vivenciado no curso foi marcado por discussões e (re) construções que iam se formando ao longo do desenvolvimento das atividades. Destarte, resgatar o sentido da prática profissional em saúde, bem como reconhecer a importância de se trabalhar nestas organizações, através da reflexão e análise dos atores envolvidos, poderá contribuir para implementar transformações no processo de trabalho via humanização dos serviços. Por fim, conclui-se que o curso estimulou a grupalidade, colocando em pauta na agenda da USUFV, a discussão sobre a humanização das ações em saúde. _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________