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HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 
 
 
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Humanização da Saúde 
As palavras têm muitos sentidos, que tanto têm a ver com os significados que o dicionário lhes atribui 
com relação às coisas que designam quanto com o enunciado ou frase, ou com o discurso, ou com o 
texto todo, no qual estão incluídas e entram em relação com outras palavras. Mas, principalmente, as 
palavras se caracterizam pelo seu "uso", ou seja, por quem as pronuncia, onde, quando, para quem, 
para que, como, quanto são ditas. 
E, ainda, as palavras mudam totalmente de sentido se a especificidade de seu "contexto" é filosófico, 
científico, literário, político, religioso ou mitológico, popular, ou seja, pelo "gênero" do texto ou 
discurso que integram. 
Nas diferentes épocas ou eras da História, os sentidos das palavras humano e humanidade têm 
muito mais de diferente do que de comum. 
Precisa-se estabelecer o que é o humano e a humanidade. O que é um homem? Poder-se-ia defini-lo 
justamente como aquele que se coloca essa pergunta. Quem é ele? Diferente de todos os outros 
seres vivos para os quais não há a necessidade de responder essa pergunta e, cuja possibilidade de 
formulá-la é inexistente, o homem passa a vida tentando respondê-la. 
O que é ser homem? Com quem vai se casar? Vai ter filhos? Quantos? Qual seu hábitat? Qual será a 
sua língua? Qual o sentido da vida e da morte? Para todas essas questões, as quais terá que ir 
respondendo ao longo de sua vida, o homem conta com os limites de seu corpo biológico e um saber 
parcial que lhe vem de seus semelhantes, a respeito do qual ele deverá formular sua versão singular 
adaptada (ou não) ao grupo cultural no qual nasceu. 
Nesse trabalho, busca-se resgatar o sentido da humanização na assistência à saúde do ser humano, 
refletindo sobre as práticas do serviço de saúde hospitalar no cuidado ao humano, resgatando a 
história da humanização até à proposta do Estado de um programa nacional de humanização para os 
hospitais da rede pública. 
Para subsidiar essa proposta realizou-se busca bibliográfica digital em bases de dados e textual no 
período dos últimos dois anos, a partir das quais selecionou-se o referencial para dar sustentação à 
reflexão que, aliada à prática profissional permitiu estabelecer as considerações que se traça nessa 
abordagem sobre a humanização da assistência. 
Atualmente discute-se a necessidade de humanizar o cuidado, a assistência, a relação com o usuário 
do serviço de saúde. O SUS instituiu uma política pública de saúde que, apesar dos avanços 
acumulados, hoje, ainda enfrenta fragmentação do processo de trabalho e das relações entre os 
diferentes profissionais, fragmentação da rede assistencial, precária interação nas equipes, 
burocratização e verticalização do sistema, baixo investimento na qualificação dos trabalhadores, 
formação dos profissionais de saúde distante do debate e da formulação da política pública de saúde, 
entre outros aspectos tão ou mais importantes do que os citados aqui, resultantes de ações 
consideradas desumanizadas na relação com os usuários do serviço público de saúde. 
Nesse sentido, justifica-se a reflexão sobre a humanização, que deve considerar a valorização dos 
diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores; 
fomento da autonomia e do protagonismo desses sujeitos; aumento do grau de co-responsabilidade 
na produção de saúde; estabelecimento de vínculos solidários e de participação coletiva no processo 
de gestão; identificação das necessidades sociais de saúde; mudança nos modelos de atenção e 
gestão dos processos de trabalho, tendo como foco as necessidades dos cidadãos e a produção de 
saúde. 
O Homem, O Humano E A Humanidade: Abordagem Histórica 
Em muitas comunidades primitivas a diferença entre os animais, os deuses da terra (humus) e os 
homens (tanto entre os vivos como entre os mortos) era relativamente pouco clara. Em algumas 
delas, o pronome pessoal eu não existia na língua e o equivalente do que para nós é um ser humano, 
era grupal ou coletivo. Não obstante, algo equivalente à condição de humano era reservada aos 
membros do clã ou da tribo, sendo que os "outros", às vezes, não eram considerados humanos. Seus 
médicos eram os xamãs, ou os bruxos da tribo, e a noção e a vivência de saúde ou de enfermidade 
HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 
 
 
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estavam estreitamente ligadas à harmonia ou desarmonia com os deuses da terra, com os 
antepassados e com o cumprimento dos códigos que regiam a vida da comunidade(1). 
Nos grandes Impérios Orientais, o imperador déspota era filho direto do Deus e, ao mesmo tempo 
que divino, ele era o único ser parecido ao que hoje se chama de humano, nem os nobres nem os 
escravos eram "humanos" nessa magnitude. Seus médicos eram "magos" e algo vagamente 
equiparável ao que se chama de saúde ou enfermidade só interessava no concernente à família 
imperial e à nobreza. A saúde e a enfermidade tinham a ver com a harmonia ou desarmonia com os 
deuses das alturas, os prêmios e castigos correspondentes(1). 
Na Grécia Antiga e na Clássica, as mulheres, as crianças, os escravos e estrangeiros não eram 
cidadãos e, em graus variáveis, não eram tidos como humanos. Tal tradição discriminatória se 
prolongou no Império Romano, especialmente em suas numerosas colônias, assim como com os 
bárbaros que, decididamente, não eram considerados humanos (apesar de, amiúde, ter uma 
organização nômade muito mais "democrática" que a imperial). A palavra "bárbaro" quer dizer, "que 
não fala latim"(1). 
Com o surgimento das grandes cidades comerciais ou mercantis, seus habitantes "cidadãos" 
tornaram-se privativamente sinônimos de humanos, seu modo de organização social era uma 
"civilização" (de civitas, cidade) e sua forma de comportar-se se qualificava pela "urbanidade" (urbe), 
assim resulta clara a propriedade da natureza humana pelos civilizados em oposição aos bárbaros e 
aos selvagens(1). 
A Reforma, constituída pelo protestantismo luterano, calvinista ou puritano, ao mesmo tempo em que 
"mundanizou" as relações do homem com a divindade e que criticou e racionalizou a mediação da 
Igreja católica obscurantista e corrupta, preparou um conceito de homem próprio da Modernidade, 
dotado de todas as potências da razão científica, mas submetido ao culto ao trabalho e à produção 
de bens de troca. Na Modernidade, a cadegoria humano tendeu a universalizar-se, todos os tipos de 
homens foram considerados humanos e integrantes de uma espécie comum, a humanidade(1). 
Pode-se dizer ainda que o humano é o efeito da combinação de três elementos: a materialidade do 
corpo, a imagem do corpo e a palavra que se inscreve no corpo. 
O que diferencia o ser humano da natureza e dos animais é que seu corpo biológico é capturado 
desde o início numa rede de imagens e palavras, apresentadas primeiro pela mãe, depois pelos 
familiares e em seguida pelo social, que vai moldando o desenvolvimento do corpo biológico, 
transformando-o num ser humano, com estilo de funcionamento e modo de ser singulares(2). 
O fato de se ser dotado de linguagem torna possível a todos a construção de redes de significados 
que se compartilha em maior ou menor medida com os semelhantes e que dão certa identidade 
cultural. Em função da dinâmica de combinação desses três elementos, o homem é capaz de 
transformar imagens em obras de arte, palavras em poesia e literatura e sons em fala e música, 
ignorância em saber e ciência, sendo capaz de produzir cultura e, a partir dela, intervir e modificar a 
natureza. Por exemplo, transformando doença em saúde(3). 
O saber de cada sociedade veio mudando ao longo dos tempos e nas diferentes civilizações. Assim, 
como se viu anteriormente, ser homem na Antigüidade não foi o mesmo que na Idade Média e nos 
dias de hoje; ou ser homem na África não é o mesmo que ser homem na Ásia. Cada sociedade, cada 
cultura nas diferentes épocas propuseram um certo modo de saber, certas respostas acerca do 
mundo,das coisas, das relações com os semelhantes, o prazer, os sentimentos, o bem e o mal, o 
destino, a vida e a morte. Ou seja, constituíram pontos de referência para se orientar precisamente 
naquilo que o ser humano nasce ignorando. Essas referências são o que legitima, nos diferentes 
campos da produção humana (no campo da arte, da ciência e da moral), a atuação de cada 
indivíduo(1). 
As grandes descobertas realizadas pelo homem no Renascimento: a descoberta das Américas, a 
perspectiva na pintura, a descoberta de Copérnico de que o Sol não gira ao redor da Terra, foram 
deslocando Deus do centro do universo e colocando em seu lugar o homem racional(1). 
Surge o ideal de autonomia do homem e a crença de que toda sabedoria pode ser transformada em 
conhecimento. Os avanços da ciência vão assim firmando-se como promessa de resolver as 
angústias humanas e dominar a vida e a morte. A ciência passa a formalizar e legitimar a produção 
HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 
 
 
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humana. Nesse sentido, toda a subjetividade fica no imperativo de ser trocada pela objetividade. As 
manifestações subjetivas, então, encontram dificuldade de se expressar de forma legítima. 
Tal aposta, endereçada a um conhecimento científico que poderia responder por todo o campo do 
humano e das relações sociais, implica também na geração de um novo homem: o homem moderno. 
Aquele que se instala na ilusão de uma autonomia fictícia, um homem supostamente construído por si 
mesmo. Na verdade, trata-se de um delírio de autonomia que, para se sustentar, acaba implicando 
em relações humanas mais distantes e menos significativas, isto é, num homem muito menos 
"humanizado", um homem centrado em si e em seu trabalho, cada vez mais distante de quem está a 
seu lado, do cotidiano em família, da vida entre amigos e sem perceber as relações interpessoais 
como a fonte de vida e a interação entre os homens como forma de contribuir para o crescimento da 
humanidade. 
A Humanização Na Humanidade 
Foi no seio do Império e a partir da religião judaica das colônias do Oriente Médio que nasceu o 
humanismo do Cristianismo primitivo, cuja concepção das virtudes que eram paradigma de 
humanidade (por imagem e semelhança com a divindade) teve influência incalculável na cultura 
ocidental. Apesar de sua fundamentação deísta, transcendente e ultraterrena, teológica e metafísica, 
com suas limitações moralizantes e piedosas, a ética e a organização social implícitas nesse 
Cristianismo primordial foram uma contribuição irreversível ao conceito de Humanidade e à prática da 
Humanização, matizados depois pela Reforma e a Contra-reforma(1). 
As deformações do conceito e o valor de humanidade próprios da Idade Média (e ainda até metade 
do século XVII) foram muito negativas. Simultaneamente, coexistiam as campanhas de 
evangelização humanitária com os genocídios da conquista e das cruzadas. Ao mesmo tempo em 
que os animais eram julgados pelos tribunais como responsáveis por delitos (como se fossem 
humanos), os não católicos, os heréticos, as supostas feiticeiras eram qualificados como demônios e 
não como membros da humanidade (1). 
Na civilização contemporânea, as condições objetivas e subjetivas para obter um alto grau de 
humanidade para todos os membros da espécie humana estão já dadas pelo alto grau de potência 
produtiva. Para essas orientações, humanizar consiste simplesmente em canalizar tais capacidades 
no sentido de estender e distribuir, integral e igualitariamente à humanidade uma série de benefícios 
e resultados considerados propriedades sine qua non da condição humana. 
Essas podem ser definidas como: atenção às necessidades básicas de subsistência, por mais 
variáveis que elas sejam (alimentação, moradia, vestuário...), educação, segurança, justiça, trabalho, 
acesso à liberdade de associação, de pensamento e de expressão, de ir e vir, de prática política, 
científica, arte, esporte, tempo livre, culto religioso e, para o que aqui interessa especialmente: o 
cuidado à saúde. É claro que a definição da qualidade e quantidade dessas necessidades é histórica 
e culturalmente produzida, e deve ser concebida e realizada de acordo com o que manifestam os 
homens, e não apenas determinada por "alguns". 
Há uma definição que resume a humanidade como o funcionamento de toda a espécie humana que 
vise conseguir que "a todos seja dado acesso ao que precisam, segundo suas necessidades e a cada 
um as condições para desenvolver e exercitar suas capacidades". Especialmente, as necessidades 
daqueles cujas capacidades sejam decididamente significativas para contribuir a que todos tenham 
suas necessidades satisfeitas e que tais necessidades se definam mais e mais além do que 
historicamente se considera como "básicas"(1). 
Tal proposta responsabiliza toda a humanidade por esse objetivo, em proporção com o grau de 
potência da qual cada segmento social dispõe atualmente. Não há relação com a proposição apenas 
da igualdade de oportunidades para competir no mercado, tão em voga atualmente, deixando 
exclusivamente para o Estado (afetado por considerável impotência) o dever de velar pela satisfação 
das necessidades e pela capacitação elementar dos menos favorecidos (que são a imensa maioria 
da população mundial). Tal proposta deixa toda ação de ajuda (além das obrigações tributárias) ao 
livre critério e vontade dos que mais podem e sabem, mas apenas quando, quanto e como queiram(4). 
Humanizar é, ainda, garantir à palavra a sua dignidade ética. Ou seja, o sofrimento humano, as 
percepções de dor ou de prazer no corpo para serem humanizadas precisam tanto que as palavras 
com que o sujeito as expressa sejam reconhecidas pelo outro, quanto esse sujeito precisa ouvir do 
HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 
 
 
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outro palavras de seu reconhecimento. Pela linguagem faz-se as descobertas de meios pessoais de 
comunicação com o outro, sem o que se desumaniza reciprocamente(5). 
Isto é, sem comunicação não há humanização. A humanização depende da capacidade de falar e de 
ouvir, pois as coisas do mundo só se tornam humanas quando passam pelo diálogo com os 
semelhantes, ou seja, viabilizar nas relações e interações humanas o diálogo, não apenas como uma 
técnica de comunicação verbal que possui um objetivo pré-determinado, mas sim como forma de 
conhecer o outro, compreendê-lo e atingir o estabelecimento de metas conjuntas que possam 
propiciar o bem-estar recíproco. 
Em determinado momento da história, a saúde passa a ser valorizada como um bem acima de 
qualquer discussão, justificando assim formas coercitivas de controle social em nome da utilidade e 
da felicidade do maior número, da piedade compassiva pelos que sofrem e do condicionamento de 
comportamentos considerados mais saudáveis pelo saber médico científico higienista do momento. 
Tudo isso sem qualquer tipo de questionamento a respeito do que as pessoas envolvidas pensam e 
têm a dizer sobre o assunto(3). 
A utopia da saúde perfeita surge de forma clara na própria definição da saúde proposta pela OMS, 
em 1948, como sendo o "estado de completo bem-estar físico, mental e social, não meramente a 
ausência de doença ou enfermidade". Essa definição tem o mérito de ampliar o escopo de um modelo 
estritamente biomédico de saúde como presença/ausência da doença ou enfermidade enquanto 
desvio da normalidade, causada por uma etiologia específica e única, tratada pela suposta 
neutralidade científica da ciência médica. O aspecto utópico está contido na idéia de um estado de 
completo bem-estar. Sabe-se que um estado de completo bem-estar é quase impossível de existir, a 
não ser na morte, como estado absoluto de ausência de tensão. Bem ao contrário do que a utopia da 
saúde perfeita propõe, a civilização moderna vem exigindo da humanidade cada vez mais renúncias 
às satisfações de seus impulsos e oferecendo cada vez menos referências simbólicas em nome das 
quais essas renúncias poderiam ser suportadas(3). 
A Humanização Na Saúde 
O propósito oumeta de humanizar, em todos os sentidos apontados, mais objetivamente no caso da 
saúde, implica aceitar e reconhecer que nessa área e nas suas práticas, em especial, subsistem 
sérios problemas e carências de muitas das condições exigidas pela definição da concepção, 
organização e implementação do cuidado da saúde da humanidade, tanto por parte dos organismos e 
práticas estatais, como da sociedade civil. 
As organizações, agentes e práticas contemporâneas da saúde variam entre um tratamento (dito em 
geral e particularmente comunicacional, entre si e com os usuários) que vai desde o uso de uma 
linguagem técnica impessoal (que supõe expressar certos ideais de cientificidade) até outro 
autoritário ou paternalista que infantiliza os usuários, passando por modalidades que vão da 
homogeneização à indiferença (os agentes não chamam o paciente pelo seu nome, não olham para 
seu rosto quando falam, gritam com ele etc). 
Se os hospitais começaram sendo "derivados" dos cárceres, dos abrigos para indigentes e de 
espaços de clausura e isolamento para enfermos de doenças epidêmicas incuráveis, 
estabelecimentos esses nos quais o tratamento correspondia à intenção de castigo, eliminação ou 
segregação social, os hospitais "modernos" correm o perigo de se tornarem equipamentos de 
controle social sobre "grupos de risco", para a identificação e manipulação das "minorias" excluídas, 
marginalizadas, desinseridas, desfiliadas, que ameaçam a ordem instituída dominante e as pessoas 
dos seus proprietários e beneficiários(6). 
Se tivesse que resumir a missão de humanização num sentido amplo, além da melhora do tratamento 
intersubjetivo, dir-se-ia que se trata de incentivar, por todos os meios possíveis, a união e 
colaboração interdisciplinar de todos os envolvidos, dos gestores, dos técnicos e dos funcionários, 
assim como a organização para a participação ativa e militante dos usuários nos processos de 
prevenção, cura e reabilitação. Humanizar não é apenas "amenizar" a convivência hospitalar, senão, 
uma grande ocasião para organizar-se na luta contra a inumanidade, quaisquer que sejam as formas 
que a mesma adote. 
Por outro lado, o problema em muitos locais é justamente a falta de condições técnicas, seja de 
capacitação, seja de materiais, e torna-se desumanizante pela má qualidade resultante no 
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atendimento e sua baixa resolubilidade. Essa falta de condições técnicas e materiais também pode 
induzir à desumanização na medida em que profissionais e usuários se relacionem de forma 
desrespeitosa, impessoal e agressiva, piorando uma situação que já é precária. 
Nesse sentido, humanizar a assistência em saúde implica dar lugar tanto à palavra do usuário quanto 
à palavra dos profissionais da saúde, de forma que possam fazer parte de uma rede de diálogo, que 
pense e promova as ações, campanhas, programas e políticas assistenciais a partir da dignidade 
ética da palavra, do respeito, do reconhecimento mútuo e da solidariedade. 
A possibilidade de se colocar no lugar do outro, de abrir espaço para que o outro saiba algo que não 
se sabe de antemão depende de se aceitar que todo saber é limitado: algo que não se sabe e que, 
portanto, poderá vir de outro. Apenas quando se corre o risco de não pretender tudo saber é que se 
pode compreender o outro, aceitando que ele tem algo a dizer, com toda a dimensão de falta que 
coloca a palavra, mas também de um saber que, por não ser total, pode se expandir infinitamente. 
O contato direto com seres humanos coloca o profissional diante de sua própria vida, saúde ou 
doença, dos próprios conflitos e frustrações. Se ele não tomar contato com esses fenômenos correrá 
o risco de desenvolver mecanismos rígidos de defesa, que podem prejudicá-lo tanto no âmbito 
profissional quanto no pessoal. Os profissionais da saúde submetem-se, em sua atividade, a tensões 
provenientes de várias fontes: contato freqüente com a dor e o sofrimento, com pacientes terminais, 
receio de cometer erros, contato com pacientes difíceis. Assim, cuidar de quem cuida é condição sine 
qua non para o desenvolvimento de projetos e ações em prol da humanização da assistência. 
Contratação de profissionais em número suficiente para atender à demanda da população, aquisição 
de novos equipamentos médico-hospitalares, abertura de novos serviços, melhoria dos salários, das 
condições de trabalho e da imagem do serviço público de saúde junto à população são outros 
objetivos a serem buscados para a melhoria da assistência. 
O Programa Nacional De Humanização Da Assistência Hospitalar 
Ao apresentar essa proposta, o Estado coloca que a dimensão humana e subjetiva, inserida na base 
de toda intervenção em saúde, das mais simples às mais complexas, tem enorme influência na 
eficácia dos serviços prestados pelos hospitais. Para cuidar dessa dimensão fundamental do 
atendimento à saúde, foi criado o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar 
(PNHAH). Sua implantação envolveu o Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais de 
Saúde e entidades da sociedade civil, prevendo a participação de gestores, profissionais de saúde e 
comunidade(2). 
Embora se saiba que a assistência à saúde não está centrada apenas na instituição hospitalar, é 
nesse espaço onde se percebe que a desumanização no cuidado com o outro se faz mais evidente. 
Ainda que haja longas filas de espera nos serviços públicos ambulatoriais, para citar apenas um dos 
problemas, quando o ser humano necessita de hospitalização, encontra-se fragilizado pelo processo 
de adoecimento, o que se agrava com a falta de humanização da assistência(7). 
Espera-se com a implantação do referido programa, a oferta de um tratamento digno, solidário e 
acolhedor por parte dos que atendem o usuário não apenas como direito, mas como etapa 
fundamental na conquista da cidadania. Para os profissionais que atuam nos hospitais há a 
oportunidade de resgatar o verdadeiro sentido de suas práticas, sentido e valor de se trabalhar numa 
organização de saúde. Como todo trabalho, esse é produzido por sujeitos e produtor de 
subjetividade. Não há humanização da assistência sem cuidar da realização pessoal e profissional 
dos que a fazem. Não há humanização sem um projeto coletivo em que toda a organização se 
reconheça e, nele, se (re)valorize. É seu objetivo fundamental resgatar as relações entre profissional 
de saúde e usuário, dos profissionais entre si, da instituição com os profissionais e do hospital com a 
comunidade. 
Os multiplicadores do programa de humanização têm como função a criação de um Grupo de 
Trabalho de Humanização em cada um dos hospitais, constituído por lideranças representativas do 
coletivo de profissionais, cujas tarefas são: difundir os benefícios da assistência humanizada; 
pesquisar e levantar os pontos críticos do funcionamento da instituição; propor uma agenda de 
mudanças que possa beneficiar os usuários e os profissionais de saúde; divulgar e fortalecer as 
iniciativas humanizadoras já existentes; melhorar a comunicação e a integração do hospital com a 
comunidade de usuários(2). 
HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 
 
 
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A divulgação das iniciativas humanizadoras existentes é propiciada por meio da rede nacional de 
humanização, que tem como função primordial o intercâmbio de informações e conta com um portal, 
no qual, além de se obter informações sobre humanização e o andamento do Programa, pessoas e 
hospitais interessados podem se cadastrar para receber mais informações via e-mail. 
No entanto, mesmo contando com um grau razoável de sensibilização das instituições para sua 
inserção numa rede ampla de trabalho e troca de informações e experiências com outras instituições 
(seja com instituições de saúde ou com instituições representativas de outros setores da 
comunidade), há um segundo desafio a enfrentar, que se constitui no processo de capacitação das 
instituições e de seus profissionais. 
Toda instituição pública é umaorganização idealmente destinada a atender a comunidade, embora 
nem sempre isso aconteça da forma desejada. Pressionadas por grandes demandas, por carências 
de recursos materiais e humanos e atuando, muitas vezes, em situações-limite, as preocupações de 
muitas dessas instituições, especialmente as instituições hospitalares, acabam freqüentemente se 
circunscrevendo às questões que acontecem em seu espaço interno, o que as torna isoladas e pouco 
permeáveis a um contato mais aberto e efetivo com a comunidade da qual fazem parte e para a qual 
atuam. Por melhor que seja a ação dessas instituições os resultados de seu trabalho permanecem 
pouco conhecidos e pouco compartilhados com outras instituições. 
Outra peculiaridade essencial do Programa de Humanização, tanto nos hospitais como na formação e 
funcionamento da Rede, é o trabalho com equipes interdisciplinares. Nessas equipes, tende-se à 
mútua formação elementar contínua dos seus membros nas teorias, métodos e técnicas das suas 
respectivas especificidades e profissões, com o fim de, sem provocar nenhum tipo de confusão, 
propiciar tanto a exploração das interfaces das suas capacidades e funções, como a mobilidade, a 
substitutividade dos papéis teórico-técnicos e, ainda, a invenção de novos papéis requeridos pela 
tarefa. Essa equipe inclui, eventual ou regularmente, os que desempenham os denominados "ofícios" 
(não qualificados como profissões) e, ainda, da mesma forma, os usuários e/ou seus representantes, 
assim como representantes da comunidade organizada(8). 
Os principais obstáculos para a constituição e desenvolvimento das equipes interdisciplinares são: o 
individualismo, as hierarquias injustas dadas pela divisão técnica e social do trabalho, a onipotência 
de cada profissão que acredita paradoxalmente ser "a única e a melhor", o sentimento de 
superioridade dos experts por relação ao saber e o saber fazer espontâneo dos usuários, o medo da 
perda da identidade e à suposta caotização das diferenças, o temor à crítica quando o dispositivo 
propicia a plena exposição das limitações e erros de cada especialidade e de cada agente, a possível 
perda de privilégios etc. 
Outro aspecto fundamental a ser destacado diz respeito às condições estruturais de trabalho do 
profissional de saúde, quase sempre mal remunerado, muitas das vezes pouco incentivado e sujeito 
a carga considerável de trabalho. Humanizar a assistência é humanizar a produção dessa 
assistência. As idéias de humanização favorecendo a não-violência e a comunicabilidade reforçam a 
posição estratégica das ações centradas na ética, no diálogo e na negociação dos sentidos e rumos 
da produção de cuidados em saúde(9). 
Considerações Finais 
Na humanidade, a palavra pode fracassar e quando a palavra fracassa o ser humano é capaz 
também das maiores barbaridades. A destrutividade faz parte do humano e a história testemunha a 
que ponto o homem pode chegar em nome de destruir os humanos que considera diferentes e por 
isso mesmo acha que constituem ameaça a ser eliminada. 
Pode falhar também quando a comunicação não consegue se estabelecer de forma efetiva. As 
instituições de assistência pública de saúde, por exemplo, se fundamentam há dois séculos, nos 
critérios de bem-estar geral, urgência social e de felicidade e interesse comuns. E suas ações, 
campanhas e programas partem das certezas de que sempre atuam em nome e pelo bem daqueles a 
quem pretendem ajudar, sendo que supõem conhecer esse bem de um modo claro e distinto, sem 
necessidade de consultar (comunicar-se) antes os (com os) "beneficiados". Uma política de 
assistência fundamentada sobre esses pressupostos prescinde de argumentos, exclui a palavra e 
emudece qualquer diálogo. 
HUMANIZAÇÃO DA SAÚDE 
 
 
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Tal prática, por si só, é desumanizante, pelo fato de colocarem os princípios acima dos sujeitos 
envolvidos, banindo as decisões tomadas coletivamente com base no diálogo e argumentação, pois 
que consideram que os princípios utilizados são os únicos que podem determinar de antemão o que 
deve ser levado em consideração e efeito. 
Outro aspecto que precisa ser abordado é trazido pelo discurso técnico-científico e o sentimento que 
a suposição de objetividade e neutralidade da ciência desperta no homem moderno. O 
desenvolvimento científico e tecnológico tem trazido uma série de benefícios, sem dúvida, mas tem 
como efeito colateral a inadvertida promoção da desumanização. Com a suposta objetividade da 
ciência pode-se perceber a eliminação da condição humana da palavra, da palavra que não pode ser 
reduzida à mera informação (de anamnese, por exemplo). Quando se preenche uma ficha de 
histórico clínico, não se está escutando a palavra daquela pessoa e sim apenas recolhendo a 
informação necessária para o ato técnico. Indispensável, sem dúvida. Mas o lado humano ficou de 
fora. O ato técnico, por definição, elimina a dignidade ética da palavra, pois essa é necessariamente 
pessoal, subjetiva e precisa do reconhecimento na palavra do outro. A dimensão desumanizante da 
ciência e tecnologia se dá, portanto, na medida em que se fica reduzido a objetos da própria técnica e 
objetos despersonalizados de uma investigação que se propõe fria e objetiva. O saber técnico supõe 
saber qual é o bem de seu paciente independentemente de sua opinião. 
A humanização é um processo amplo, demorado e complexo, ao qual se oferecem resistências, pois 
envolve mudanças de comportamento, que sempre despertam insegurança e resistência. É claro que 
a não adesão envolve, além da relação do paciente com o profissional, fatores relacionados aos 
pacientes (idade, sexo, estado civil, etnia, contexto familiar, escolaridade, auto-estima, crenças, 
hábitos de vida), às doenças (cronicidade, ausência de sintomas), aos tratamentos (custo, efeitos 
indesejáveis, esquemas complexos), à instituição (política de saúde, acesso ao serviço de saúde, 
tempo de espera, tempo de atendimento). 
Os padrões conhecidos parecem mais seguros, além disso, os novos não estão prontos nem em 
decretos nem em livros, não tendo características generalizáveis, pois cada profissional, cada equipe, 
cada instituição terá seu processo singular de humanização. E se não for singular, não será de 
humanização. E, ainda, para que esse processo se efetive, devem estar envolvidas várias instâncias: 
profissionais de todos os setores, direção e gestores da instituição, além dos formuladores de 
políticas públicas, conselhos profissionais e entidades formadoras. 
Para a implementação do cuidado com ações humanizadoras é preciso valorizar a dimensão 
subjetiva e social em todas as práticas de atenção e gestão no SUS, fortalecer o trabalho em equipe 
multiprofissional, fomentar a construção de autonomia e protagonismo dos sujeitos, fortalecer o 
controle social com caráter participativo em todas as instâncias gestoras do SUS, democratizar as 
relações de trabalho e valorizar os profissionais de saúde. 
O movimento da Reforma Sanitária representou uma mudança paradigmática na saúde do Brasil não 
apenas pela ênfase dada à Atenção Primária à Saúde (APS), mas também pela importância dos 
determinantes sociais no processo saúde – doença1-3. 
Com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) a saúde passa a ser direito de todo cidadão 
brasileiro, sendo dever do Estado prover políticas econômicas e sociais que visem a redução dos 
riscos de adoecer4. Especificamente, relacionado às ações e serviços, estas devem ser garantidas 
por meio de políticas de promoção, proteção e recuperação, com participação da sociedade civil 
organizada nas decisões e na implementação das ações3,5-8. 
Na trajetória de construção do SUS, há que se destacar os muitos avanços obtidos, especialmente 
aqueles relacionados à universalidade e à descentralização. Não obstante, ainda persistem alguns 
entraves, apontando para a necessidade de aperfeiçoamento na implementação do sistema em suas 
diretrizes essenciais, tais como a regionalização e a hierarquização, a equidade,a integralidade, uma 
efetiva participação social e o investimento na formação e capacitação de recursos humanos em 
saúde3,8-10. 
Dentre os principais obstáculos presentes no cotidiano do SUS, salienta-se a presença marcante do 
modelo biomédico na práxis dos profissionais de saúde2,7,11, as relações de trabalho precarizadas, a 
fragilidade na relação usuário-serviço de saúde, a necessidade de ampliação do acesso com 
qualidade aos serviços de saúde, a pobre participação dos usuários na gestão dos serviços, o 
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despreparo profissional aliado ao modelo centralizado e vertical10, ou seja: a implantação e execução 
das políticas públicas no país ainda não é exercida de modo satisfatório7,12. 
Frente à necessidade de mudança do cenário vigente, foi instituído a "Política Nacional de 
Humanização da Atenção e Gestão no Sistema Único de Saúde", entendida como uma estratégia de 
fortalecimento do sistema público de saúde. Seu propósito é o de contribuir para a melhoria da 
qualidade da atenção e da gestão da saúde no Brasil, por meio do fortalecimento da humanização 
como política transversal na rede, afirmando a indissociabilidade do modelo de atenção e de 
gestão10. Nestes termos, as principais prioridades alvo da Política Nacional de Humanização (PNH) 
são: construção de autonomia e protagonismo dos sujeitos e coletivos implicados na rede do 
SUS; corresponsabilidade desses sujeitos nos processos de gestão e atenção; fortalecimento 
do controle social com caráter participativo em todas as instâncias gestoras do SUS; 
fortalecimento de trabalho em equipe multiprofissional, fomentando a transversalidade e a 
grupalidade; apoio à construção de redes cooperativas, solidárias e comprometidas com a 
produção de saúde e de sujeitos; valorização da dimensão subjetiva e social em todas as 
práticas de atenção e gestão no SUS, fortalecendo o compromisso com os direitos do cidadão, 
destacando-se o respeito às questões de gênero, etnia, orientação sexual e às populações 
específicas10. 
Por humanização entende-se "a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de 
produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores"10. O protagonismo dos sujeitos e sua 
autonomia, o estabelecimento de vínculos solidários entre os atores, a participação coletiva no 
processo de gestão, bem como a elaboração de tramas de cooperação norteiam essa política10. 
A humanização como estratégia de intervenção nos processos de trabalho e na geração de qualidade 
da saúde, vai ao encontro dos princípios do SUS, ao enfatizar a necessidade de se assegurar 
atenção integral à população, bem como estratégias que ampliem a condição de direitos e de 
cidadania dos indivíduos. A humanização depende ainda de modificações no modo de pensar e agir 
das pessoas, na ênfase aos valores atrelados à defesa da vida, a fim de tornar criativo e prazeroso o 
modo de fazer o trabalho13,14. 
Considerando ser o SUS um processo social em construção, e sendo os profissionais de saúde 
importantes sujeitos desse processo, destaca-se o papel da educação permanente como um dos 
mais relevantes instrumentos para a garantia de um cuidado humanizado. Assim, o objetivo deste 
trabalho foi discutir a experiência do curso de capacitação dos profissionais de uma Unidade de 
Saúde, com base na perspectiva da humanização, visando a sensibilização para o exercício pleno e 
consciente de seu papel na implementação de um modelo de sistema sanitário comprometido com os 
valores essenciais de alteridade e solidariedade, impressos nos ideais do SUS. 
Métodos 
Em outubro de 2009, realizou-se, o curso de capacitação intitulado "Debates Atuais em Humanização 
e Saúde: Quem Somos Nós?", por demanda dos próprios profissionais da Unidade de Saúde 
pública ambulatorial, da Universidade Federal de Viçosa (USUFV), instituição esta, que atende aos 
respectivos docentes, discentes, pessoal técnico-administrativo e familiares. 
As atividades desenvolvidas no curso tiveram como objetivo central aperfeiçoar os conhecimentos 
referentes à PNH, visando melhoria do cuidado oferecido ao público alvo, assim como do espaço de 
trabalho (social, afetivo, físico e técnico) dos profissionais da USUFV. O curso teve duração de 16 
horas, sendo o mesmo realizado a partir de exposições dialogadas, seguidas de dinâmicas de grupo 
e processamento de uma Situação Problema (SP). Os temas abordados durante a realização do 
curso foram: Humanização no Sistema Único de Saúde; Bioética e humanização; Mudança na 
formação e no trabalho em saúde; humanização e o trabalho em saúde: o atendimento na sala de 
trauma, na urgência e emergência. 
A seguir, apresentamos a SP trabalhada ao longo do curso. 
Um dia na Unidade de Atenção Primária à Saúde (UAPS) de Saramandaia 
Maria Alice trabalha como médica em uma UAPS, desde 2005. Estudou muito durante sua formação, 
sendo aluna dedicada do começo ao fim do curso. Contudo, quando se formou e foi trabalhar como 
médica, tomou consciência de que não conseguia, em muitas oportunidades, juntar coerentemente os 
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saberes necessários para resolver os problemas dos usuários que a procuravam precisando de 
ajuda. Tinha ouvido falar do Sistema Único de Saúde do Brasil, o SUS, dito um dos mais avançados 
do mundo, que garantia o acesso universal, a integralidade do cuidado, mas não sabia direito como 
garantir que seus pacientes fossem atendidos nas unidades secundárias, quando os mesmos 
precisavam de um especialista. Tinha ouvido falar de escuta ativa, de clínica ampliada, mas via a 
agenda sempre cheia, a equipe super estressada, os colegas mal olhando para os pacientes... 
Conversando com a enfermeira Zildete escutava as mesmas queixas, os mesmos questionamentos. 
Em sua formação, na escola de enfermagem, ninguém havia falado das filas, da equipe 
sobrecarregada, do número enorme de famílias excedente. Como fazer as visitas domiciliares, 
supervisionar as agentes comunitárias e ainda preencher a papelada com o tempo que tinha? 
Humanização? Ética? Bioética? O jeito era correr para atender as pessoas que já estavam 
reclamando, pois tinham chegado à unidade às seis horas... e já eram dez horas da manhã... 
- Entra o próximo, chamou a Dra. Maria Alice. 
- Bom dia doutora. Vim colher o preventivo, disse a paciente. 
- Qual o seu nome? 
- Ana Maria. 
- Ana, acabou a lâmina. Você tem que voltar semana que vem... Maria Alice falou sem olhar para a 
paciente. 
- Mas estou esperando desde as seis horas... 
- Minha filha, não posso fazer nada! A culpa é do governo que não mandou o material! 
- Mas tem dois anos que não faço o exame... E semana que vem preciso ir trabalhar... 
- Volta semana que vem... Já disse... Ah! Aproveita ali no guichê e mande a próxima entrar! 
E assim, transcorre mais um dia de trabalho na UAPS 
Os profissionais foram incentivados a participar como agentes de transformação social na busca de 
soluções originais vinculadas a prática cotidiana do trabalho15,16. 
Para a realização das dinâmicas os participantes foram divididos em três grupos, privilegiando a 
heterogeneidade profissional. Foram utilizados como materiais de apoio: papel cartão em tamanho de 
cartolina, pincéis atômicos, folhas de papel ofício, canetas, entre outros. Cada grupo foi 
acompanhado por um tutor, que atuou como facilitador da discussão, incentivando a integração e a 
participação de todos. 
A problematização realizada nas dinâmicas permitiu que os participantes tomassem contato com as 
informações e a produção do conhecimento, promovendo assim, o seu próprio desenvolvimento17,18. 
Esta forma de aprendizagem representou um instrumento necessário e significativo para ampliar as 
possibilidades, as reflexões e os caminhos, permitindo o exercício da liberdade e da autonomia na 
realização de escolhas e na tomada de decisões18,19. 
A SP foi distribuída aos participantes, que divididos em pequenos grupos, discutiram as questões 
abordadase formularam duas questões de aprendizagem, a saber: Como transformar a realidade 
da Unidade de Atenção Primaria a Saúde (UAPS) no ideal formulado para o SUS?, e Como a 
formação do profissional de saúde pode transformar a realidade? 
As discussões em pequenos grupos possibilitaram a construção coletiva de cartazes, instrumento 
eleito por se tratar de um recurso simples e eficiente para despertar o interesse e curiosidade dos 
participantes20. Posteriormente, cada grupo apresentou para o grande grupo suas sínteses coletivas, 
permitindo assim, um amplo debate coletivo em roda de conversa e configuração de uma nova 
síntese, neste momento com todos os participantes. 
Resultados E Discussão 
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Participaram do curso 23 profissionais de diferentes categorias – médicos, dentistas, enfermeiros, 
auxiliares de enfermagem, fisioterapeutas, auxiliares de laboratórios e pessoal técnico-administrativo. 
As Figuras 1, 2 e o Quadro 1 apresentam os cartazes confeccionados pelos profissionais de saúde da 
USUFV em relação aos pontos discutidos na resolução das questões de aprendizagem propostas. A 
partir dos materiais elaborados pelos participantes, iniciou-se um processo de reflexão-análise das 
questões levantadas pelo grupo. As atividades realizadas entre os participantes permitiram o debate 
do cotidiano de trabalho na USUFV, os impasses vivenciados no dia a dia e a criação de estratégias 
coletivas para a superação dessas dificuldades. 
 
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Na Figura 1 evidencia-se o papel do Gestor de Saúde na implantação da política de humanização, 
relatado pelos profissionais após reflexão-análise das questões levantadas pelo grupo, seguido da 
construção da pergunta Qual o papel da gestão na implantação da política de humanização da 
busca integral à saúde? 
A dificuldade de gestão observada na SP, aliada à desvalorização do trabalho e do trabalhador, tanto 
por parte dos gestores municipais quanto pelo gerente da UAPS, apontam para uma realidade 
comumente observada em diversos municípios do país. Segundo dados do Ministério da Saúde, a 
gestão dos recursos humanos é apontada como uma das dificuldades para implantação adequada do 
SUS desde a sua criação21. Moreira e Pelizzaro22 afirmam que a visão desmedicalizada da saúde, 
debatida desde muito pelo Movimento da Reforma Sanitária, impulsiona a busca constante por 
superação do trabalho fragmentado e unidimensional em saúde. 
Aspectos referentes à formação profissional vêm ganhando contornos próprios no trabalho em saúde, 
na medida em que a indissociabilidade entre teoria e prática, o desenvolvimento de uma visão 
integral do homem e a ampliação da concepção de cuidado tornam-se prementes para o adequado 
desempenho laboral17. A dificuldade em se encontrar profissionais com formação acadêmica voltada 
para o paradigma da Produção Social da Saúde, nos remete a repensar o modo de atuação destes 
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profissionais frente à saúde no país23. Gomes et al.24 ressaltam a importância do processo de 
aprendizagem que permita aos estudantes a aquisição de conhecimentos teóricos, com base na 
observação da realidade e na reflexão crítica sobre as ações dos sujeitos, de forma que os conteúdos 
teóricos sejam apreendidos em conexão com a prática. 
Relatos como o potencial se perde quando se vai a prática e dissociação entre teoria e 
prática (Figura 1) corroboram com os achados de Stella et al.25, uma vez que, embora as escolas 
possibilitem que os estudantes se insiram em cenários de práticas profissionais, estas apontam para 
carências que precisam da formulação de novas políticas públicas que, implementadas, sejam 
capazes de impulsionar e sustentar as mudanças. 
Segundo Salgueiro et al.26, o governo tem se empenhado na elaboração de políticas públicas 
capazes de oferecer maior ressonância e viabilidade na busca da qualidade e humanização em 
saúde. 
Outro ponto destacado pelos participantes do curso de capacitação foi a necessidade de equipes e 
técnicos capacitados para atender às necessidades da população (Figura 1), sendo que o 
fundamental é perceber que o importante para a humanização, é justamente a permeabilidade do 
técnico ao não técnico, o diálogo entre essas dimensões interligada27. 
Guedes et al.28 salientam que as equipes de saúde, muitas vezes, têm dificuldade para dialogar e 
problematizar situações inerentes ao cotidiano, uma vez que se privilegiam os processos de trabalho 
em si, em detrimento dos sujeitos dotados de conhecimentos e histórias vivenciadas. Gomes et 
al.24 afirmam que os processos de capacitação dos trabalhadores devem tomar como referência as 
necessidades de saúde da população, da gestão e do controle social para qualificar as práticas de 
saúde e a educação dos profissionais e melhorar a atenção à saúde. O procedimento educativo 
contextualizado no processo de trabalho agrega o saber científico àquele que emerge do campo para 
potencializar o conhecimento a partir de ações técnicas e políticas realizadas pelos trabalhadores29. 
A qualidade dos serviços de saúde resulta de diferentes fatores que se culminam em instrumentos, o 
que contribui tanto para a definição e análise de possíveis problemas, como para a avaliação do 
empenho dos profissionais de saúde com as normas técnicas, sociais e humanas30. 
A formação acadêmica fragmentada e a discrepância entre o aprendido no meio acadêmico e o real 
vivenciado pelo profissional de saúde foram pontos citados pelos participantes do curso (Quadro 1), 
aspectos que contribuem para que o profissional de saúde não saiba lidar com os entraves 
enfrentados. 
Ainda hoje, a educação em saúde tem sido fundamentada, tradicionalmente, em metodologias de 
transmissão de conhecimentos, sem se levar em consideração que, o cenário atual necessita de 
profissionais formados com perfil crítico-reflexivo e com habilidades para trabalho em equipes18,24,31. 
Torna-se necessário, portanto, ajustar o perfil do profissional de saúde às ações desenvolvidas pelo 
SUS, através da parceria das instituições formadoras com os serviços de saúde32. Tais mudanças 
devem ser orientadas de acordo com as necessidades de saúde da população. Defender uma 
formação profissional voltada para atuar no SUS implica concebê-lo como um importante projeto 
político em defesa da saúde pública18,24. 
Segundo Ferreira et al.33, o modo através do qual cada profissional de saúde enxerga o mundo, 
acaba por determinar um estilo de pensamento, o qual adota como verdade absoluta. A partir de um 
conhecimento clínico, muitos profissionais se preocupam apenas em tratar o paciente, e não em 
cuidá-lo. 
Desde esta perspectiva, como diretriz essencial da humanização destaca-se o acolhimento. O 
acolhimento ao usuário foi outro ponto citado pelos profissionais de saúde da USUFV. As falhas no 
acolhimento por parte da equipe e da gestão (Quadro 1 e Figura 2) mostram os entraves e percalços 
ainda existentes no setor saúde. A postura de acolhimento da equipe de saúde se revela através de 
atitudes tais como: concentração no atendimento, aproximação ao cliente e sentimento em relação 
aos seus problemas34. O acolhimentoà pessoa que busca o cuidado em saúde se manifesta na 
relação ética que se estabelece entre o usuário e o profissional, ou, em outros termos, entre aquele 
que é cuidado e aquele que cuida. A garantia de acesso ao serviço de saúde para os usuários 
representa a responsabilidade do serviço para com suas necessidades de saúde35,36. 
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O acolhimento otimiza o acesso dos usuários aos serviços de saúde, humanizando as relações entre 
os profissionais e aqueles que buscam por atenção sanitária, referindo-se à forma de recepcionar os 
usuários e de escutar seus problemas e/ou demandas, em uma abordagem que contemple não 
apenas a dimensão biológica, mas também a psicológica, a social, a cultural e a ambiental, dentre 
outras possíveis36,37. 
Para que as necessidades dos usuários sejam satisfeitas de maneira integral é fundamental que a 
atividade de recepção do usuário no serviço ocorra de maneira acolhedora38. Nestes termos, o 
acolhimento aos usuários do SUS deve se dar segundo a necessidade de cada um. É relevante a 
presença de uma equipe humanizada que atue como facilitadora na concretização de estratégias de 
acolhimento para que o acesso aos serviços de saúde contemple o princípio da integralidade34. O 
acolhimento, enquanto estratégia para reconfigurar o processo de trabalho, otimiza o acesso dos 
usuários aos serviços de saúde, humanizando as relações entre o profissional de saúde e o paciente, 
contemplando as dimensões biológicas, psicológica, social e cultural37. 
Outro aspecto merecedor de destaque refere-se ao não olhar nos olhos do paciente, observado e 
relatado pelos profissionais de saúde da USUFV (Quadro 1). Segundo Deslandes e Mitre39, o 
processo comunicativo, em seu cotidiano, marcado muitas vezes pelos encontros e desencontros dos 
diferentes atores envolvidos no setor saúde, ocorre no contexto das relações estabelecidas pelas 
desigualdades, ainda vigente, entre seus pacientes e profissionais de saúde. Igualmente, a escuta, o 
acolhimento, a negociação, a interpretação de histórias e a aprendizagem com a experiência do outro 
constituem-se em pontos cruciais para o desenvolvimento de um serviço humanizado no setor 
saúde40. 
Considerações Finais 
A metodologia ativa de ensino-aprendizagem e neste contexto, a problematização, destaca-se como 
estratégica inovadora, por estimular a discussão e a análise crítica dos temas apresentados, 
fundamentais para o aprendizado41 configurando, portanto, uma das possibilidades de discutir o tema 
na instituição. Tal estratégia afirma as redes de serviços como espaços de sociabilidade, de trocas, 
em que se enfatiza a produção de saúde como produção de subjetividades, colocando em questão 
práticas disciplinares28. Assim, as estratégias utilizadas contribuíram para sistematizar os conteúdos 
trabalhados, através da reflexão sobre os referenciais teóricos apresentados, estimulando o 
pensamento reflexivo e crítico, aspectos estes fundamentais para ampliar e aprofundar o processo de 
empoderamento dos profissionais de saúde da USUFV e consequentemente a consolidação das 
políticas de saúde, em especial a PNH. 
O processo vivenciado no curso foi marcado por discussões e (re) construções que iam se formando 
ao longo do desenvolvimento das atividades. Destarte, resgatar o sentido da prática profissional em 
saúde, bem como reconhecer a importância de se trabalhar nestas organizações, através da reflexão 
e análise dos atores envolvidos, poderá contribuir para implementar transformações no processo de 
trabalho via humanização dos serviços. 
Por fim, conclui-se que o curso estimulou a grupalidade, colocando em pauta na agenda da USUFV, 
a discussão sobre a humanização das ações em saúde. 
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