Prévia do material em texto
Hepatites Virais As hepatites agudas são processos inflamatórios que acometem de maneira difusa o parênquima hepático e que têm duração, em geral, inferior a seis meses. Os quadros de hepatite aguda caracterizam-se pela presença de alterações predominantemente lobulares, representadas por infiltrado inflamatório misto de intensidade variável e presença de sinais de degeneração de hepatócitos, como a balonização (é um sinal morfológico de lesão celular grave e reversível dos hepatócitos.) e figuras de retração. Na maior parte dos casos há necrose focal, que acomete difusamente o parênquima. Várias são as etiologias das hepatites agudas, entre as quais as mais importantes e frequentes são as virais, quer por vírus hepatotrópicos, quer por outros agentes virais, que no seu envolvimento sistêmico acometem também o fígado, como na mononucleose ou na infecção por citomegalovírus. Entretanto, outros processos podem ocasionar quadros clínicos e histopatológicos muito semelhantes aos das hepatites virais, e devem ser lembrados como diagnósticos diferenciais: hepatites infecciosas de outras naturezas (bactérias, protozoários), isquemia, doença autoimune e lesões tóxicas causadas por medicamentos ou outras substâncias, notadamente o álcool. VÍRUS HEPATOTRÓPICOS As hepatites agudas virais podem ser causadas por cinco diferentes tipos de vírus: A, B, C, D (delta) e E, denominados vírus hepatotrópicos. Conforme a via de transmissão, os vírus hepatotrópicos podem ser classificados em dois grupos: enterais, cuja transmissão se faz por via fecal-oral, e parenterais, nos quais a transmissão ocorre através do sangue ou outras secreções. O Brasil registra presença dos cinco vírus hepatotrópicos, porém, são mais importantes as infecções causadas pelos vírus A, B e C. Vírus A: O vírus da hepatite A (HAV) é do tipo RNA, classificado entre os picornavírus. O HAV é transmitido principalmente por via fecal-oral, sendo rara a via parenteral, dado o curto período de viremia. A transmissão pessoa a pessoa é a forma mais frequente de disseminação da doença, ocorrendo em situações de contato íntimo e prolongado, como nos domicílios, nas creches, em escolas, instituições e acampamentos militares. Alimentos crus ou malcozidos que estiveram em contato com água contaminada, como frutos do mar, podem gerar surtos epidêmicos da doença. Em Xangai, em 1988, 300 mil pessoas adquiriram hepatite A ao ingerir ostras contaminadas. Outras formas de transmissão da doença já foram descritas, mas com menor importância epidemiológica: transmissão sexual, uso de drogas ilícitas injetáveis e transfusão de sangue ou por via vertical, em que o vírus é transmitido da mãe para o recém-nascido no momento do parto. A hepatite A é a forma mais comum de hepatite aguda em muitas partes do mundo. Nos países desenvolvidos a doença ocorre na vida adulta, o que pode acarretar maior índice de complicações, como formas prolongadas ou graves da doença. O período de incubação dura em média 28 dias, podendo variar de 15 a 45 dias. O HAV é excretado nas fezes por 1 a 2 semanas antes do início dos sintomas e mantém-se por uma semana após o aparecimento do quadro clínico. Esta é, portanto, a fase de maior transmissibilidade da doença. Vírus B: O vírus da hepatite B (HBV) é do tipo DNA, classificado entre os hepaDNAvírus. O HBV pode ser transmitido por via parenteral, sexual e vertical. Atinge todas as faixas etárias, predominando entre os 20 e os 40 anos de idade, já que a via sexual é hoje a principal forma de disseminação da doença. Atualmente há um controle rigoroso com relação as transfusões de sangue, o que torna essa via praticamente nula com relação as transmissões. Outras formas de transmissão: uso de drogas intravenosas, acidentes ocupacionais, tatuagens, acupuntura e outros procedimentos envolvendo materiais altamente infectados. Os portadores funcionam como um grande reservatório da infecção, e são responsáveis pela ocorrência das formas agudas de infecção. O período de incubação da infecção pelo HBV é de 45 a 90 dias, podendo se estender até 180 dias. Vírus C: O vírus C da hepatite (HCV) é do tipo RNA, semelhante aos flavivírus e classificado atualmente como um hepacivírus. O HCV transmite-se por via parenteral, através do sangue ou seus derivados. Embora possam ocorrer, as transmissões por via sexual ou vertical são pouco relevantes na epidemiologia da doença. O período de incubação da hepatite C é variável, em função da carga do inóculo. Pode variar de 30 a 180 dias. Vírus D (delta): O vírus da hepatite Delta (HDV) é do tipo RNA, defectivo, que necessita do vírus B para sua sobrevivência. É o único representante da família Deltaviridae. Ocorre mais frequentemente entre usuários de drogas injetáveis em países desenvolvidos, e nas populações que habitam a região da Amazônia ocidental. A infecção aguda pelo HDV pode ocorrer de duas formas: coinfecção e superinfecção. Na coinfecção adquirem-se, a um só tempo, o HBV e o HDV. A evolução, embora possa ser grave na fase aguda, em geral resulta no clareamento (eliminação do vírus pelo sist. imunológico) de ambos os vírus. Na superinfecção o portador crônico de HBV adquire a infecção aguda pelo Delta, o que acarreta evolução para formas graves de doença, com alta incidência de hepatite fulminante e evolução para cronicidade do HDV em 70% dos casos. A transmissão do HDV ocorre por via parenteral, sendo o uso de drogas ilícitas injetáveis a principal forma de disseminação da doença. Vírus E: O vírus E da hepatite (HEV) também é do tipo RNA, classificado como único membro da família Hepeviridae. Sua transmissão é fecal-oral, à semelhança da hepatite A. A prevalência elevada de anticorpos contra o HEV em usuários de drogas intravenosas e em hemodialisados sugere que a via parenteral possa estar envolvida na transmissão da doença. E um genótipo específico do vírus E (genótipo 3) tem características de zoonose e pode ser transmitido por meio da ingestão de carne de porco ou outros animais malcozidos. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS O quadro clínico das hepatites agudas virais é bastante semelhante, seja qual for o vírus envolvido, e compreende quatro períodos distintos: de incubação, prodrômico, de estado e de convalescença. 1 – Incubação: é o período que se estende desde o momento da contaminação até o aparecimento do primeiro sintoma. É variável conforme o tipo de vírus responsável. 2 – Prodrômico: caracteriza-se por manifestações de quadro viral inespecífico. Dura em média uma semana, podendo ser mais prolongado. Às vezes, manifestações decorrentes da formação de imunocomplexos podem ocorrer, como artralgias, púrpuras, glomerulites e manifestações dermatológicas. 3 – Estado: nas formas ictéricas clássicas, a colúria é o primeiro sintoma que faz sugerir o diagnóstico de hepatite. Precede de 1 a 2 dias o quadro ictérico. Conforme este se acentua, as fezes ficam descoradas ou até acólicas. Nesse período, os sintomas inespecíficos da fase prodrômica tendem a desaparecer e o paciente sente-se melhor. De acordo com a intensidade da icterícia, pode ser acompanhado por prurido. O exame físico mostra hepatomegalia dolorosa (70% dos casos) e esplenomegalia (20%). A rápida regressão do tamanho do fígado e a piora da icterícia podem sugerir má evolução. O período ictérico dura de 4 a 6 semanas, em geral. 4 – Convalescença: os sintomas desaparecem e exames laboratoriais tendem à normalização, que em geral ocorre até o quarto mês. As hepatites agudas, em geral, têm boa evolução. A hepatite A não cronifica. Relatos recentes mostraram que a hepatite E, em pacientes imunossuprimidos, pode ser responsável por quadros de infecção crônica. Já as hepatites B, C e D devem ser cuidadosamente acompanhadas, poiscronificam em porcentagens elevadas de casos, sobretudo a hepatite C, cuja taxa de cronificação é de cerca de 80%. Hepatite anictérica: é a forma mais comum de hepatite (70% dos casos). Em geral esta forma passa despercebida e o diagnóstico de hepatite aguda não chega a ser estabelecido e confirmado laboratorialmente. Parece acarretar maior tendência à cronificação, quando causada pelos vírus B e C. Hepatite fulminante: ocorre em menos de 1% dos casos de hepatite, independentemente da etiologia, e é bastante rara nas infecções pelo HCV. É a forma mais temida da doença, pois apresenta elevada taxa de mortalidade (superior a 80%) nos centros que não dispõem de transplante de fígado. Vômitos, sonolência, confusão mental, piora da icterícia e regressão rápida da hepatomegalia prenunciam esta condição, que laboratorialmente se caracteriza por queda rápida das aminotransferases e elevação das bilirrubinas. Hepatite prolongada: é aquela em que a fase aguda se arrasta por mais de quatro meses, com sinais de melhora progressiva, porém lenta. A evolução para cura, entretanto, é regra nesses casos. Muitas vezes pode se apresentar com características de quadro recorrente, com reativação clínica e bioquímica após recuperação aparentemente completa do quadro. Tem sido frequentemente relatada em adultos com hepatite A. Hepatite colestática: caracterizada por prurido intenso, elevação significativa das enzimas colestáticas e da bilirrubina, é importante estabelecer o correto diagnóstico diferencial com icterícia obstrutiva. Em geral, a evolução é favorável, com recuperação completa do quadro em 2 a 6 meses. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL: Do ponto de vista bioquímico, não é possível diferenciar o agente etiológico causador da hepatite. As hepatites agudas virais caracterizam-se por níveis de aminotransferases (ALT/TGP e AST/TGO) em geral superiores a 10 vezes o limite superior da normalidade. A persistência de níveis elevados de aminotransferases por período superior a seis meses indica diagnóstico de hepatite crônica, que necessita ser confirmado por estudo histológico do fígado. Formas colestáticas podem ocorrer, com importante elevação dos níveis de bilirrubinas, fosfatase alcalina e gama-GT; o diagnóstico diferencial com icterícias obstrutivas extra-hepáticas, nesses casos, impõe-se, estando indicado o emprego da ultrassonografia. O diagnóstico etiológico das hepatites é realizado por meio dos marcadores sorológicos, que são antígenos e anticorpos detectados no soro em consequência da infecção viral. Hepatite A: é confirmado pela presença do marcador sorológico anti-HAV IgM, cuja positividade coincide com o início do quadro clínico e dura cerca de 6 a 12 meses. Após a fase aguda, os anticorpos IgM desaparecem do soro e passam a ser detectáveis anticorpos anti-HAV IgG, que perduram para o resto da vida, conferindo imunidade à doença. A identificação de partículas virais e antígenos nas fezes também é possível, mas muito pouco utilizada na prática clínica. Hepatite B: a presença no soro do HBsAg, inicialmente denominado antígeno Austrália, e do anticorpo anti-HBc IgM confirma o diagnóstico. O HBsAg é o primeiro marcador a aparecer no soro, e já pode ser detectado no período de incubação, 2 a 6 semanas antes do início do quadro clínico. A cicatriz sorológica da hepatite B será caracterizada pela presença de anticorpos anti-HBc IgG e aparecimento dos anticorpos anti-HBs. Hepatite C: não há um teste diagnóstico que permita diferenciar a hepatite C aguda da forma crônica da doença. Na infecção aguda o diagnóstico baseia-se na presença do anti-HCV, se possível com documentação da soroconversão (paciente anteriormente negativo para o teste torna-se positivo). O diagnóstico de infecção aguda baseia-se na história clínica, epidemiologia compatível e elevação de aminotransferases, acompanhada da presença do anti- HCV. É importante ressaltar que o anticorpo anti- HCV é um anticorpo de aparecimento tardio, tornando-se positivo cerca de 8 a 12 semanas após a contaminação. O diagnóstico poderá ser feito mais precocemente pela pesquisa no soro do HCV RNA, por técnica de PCR. Hepatite D: o diagnóstico pode ser feito no soro, pela presença de antígeno Delta e anticorpo anti-Delta IgM. Na coinfecção, além dos marcadores de hepatite aguda Delta, detectam- -se os marcadores de infecção pelo HBV, ou seja, o HBsAg e o anti-HBc IgM. Já na superinfecção estão presentes os marcadores de infecção crônica pelo HBV: HBsAg, anti-HBc IgG e, em geral, está positivo o anti-HBe, indicando a inibição da replicação do HBV ocasionada pela superinfecção Delta. Hepatite E: a infecção aguda pelo HEV pode ser detectada pela presença no soro de anticorpos anti- HEV IgM, que permanecem positivos por cerca de 4 a 6 meses após o episódio agudo, dando lugar a anticorpos da classe IgG, conferindo imunidade definitiva. TRATAMENTO: A ingestão de bebidas alcoólicas é desaconselhável durante a evolução da doença, e alguns sugerem que a proibição deva ser mantida até seis meses após o quadro. Naqueles pacientes com prurido importante secundário à colestase, o emprego de colestiramina (4 g/dia) pode ser benéfico. No caso da hepatite B, a terapia antiviral tem sido recomendada para pacientes com hepatite aguda grave. Essa situação é caracterizada pela presença de alteração da coagulação (INR > 1,6 ou atividade de protrombinaé o emprego de manitol 20% (0,5 a 1 g/kg) por via intravenosa. Nos indivíduos que apresentam comprometimento da função renal, utiliza-se hemofiltração associada ao manitol. PROFILAXIA: Com relação à hepatite pelo vírus A, a vacina encontra-se disponível e já faz parte do calendário de vacinação para crianças entre 12 e 23 meses. É empregada em duas doses (0 e 6 meses) e confere imunidade duradoura em 97% dos casos. A imunização ativa contra o HBV pode ser feita com vacina obtida por recombinação genética. A vacinação promove aparecimento de anticorpos em níveis protetores em cerca de 95% dos indivíduos vacinados com três doses de 20 microgramas de antígeno, que devem ser administradas por via intramuscular aos 0, 30 e 180 dias. A vacina contra o HBV induz a formação de anticorpos anti-HBs, que permanecem detectáveis no soro por períodos variáveis de indivíduo para indivíduo, porém, tendem a se tornar indetectáveis após 7 a 10 anos. A imunoprofilaxia passiva contra o HBV é feita com a gamaglobulina hiperimune contra hepatite B (HBIG), que tem altos títulos de anti-HBs. Seu emprego atualmente se restringe a duas situações específicas: RN de mães HBsAg positivas e pós- exposição acidental com sangue de paciente potencialmente infectante. A dose a ser utilizada deve ser de 0,06 mL/ kg até no máximo 48 horas após a exposição. No que diz respeito à hepatite pelo vírus C, a obtenção de vacina eficaz parece ser tarefa difícil, uma vez que a indução de anticorpos anti-HCV não confere proteção à doença, que pode se repetir em um mesmo indivíduo, por meio da infecção por diferentes cepas do vírus. Hepatite B Sua prevalência tem sido reduzida em países onde a vacinação foi implantada, porém, permanece alta em populações de risco e em países onde as transmissões vertical e horizontal intradomiciliar não são controladas, o que torna a hepatite B crônica um relevante problema de saúde pública no Brasil e no mundo. ETIOLOGIA: O VHB pertence à família dos hepadnavírus, vírus de DNA, com aproximadamente 3.200 pares de bases. Tem tropismo pelo tecido hepático e necessita do hospedeiro para completar seu ciclo de vida. Pode ser detectado no sangue e derivados, saliva, sêmen, secreção vaginal e exsudatos serosos de úlceras cutâneas. Tais possibilidades de propagação, aliadas ao fato de o indivíduo infectado poder se tornar portador crônico, explicam a alta prevalência na população geral e sua distribuição em diferentes regiões do mundo. O VHB possui dez grupos, da letra A a J. Sendo que os genótipos F e G já foram encontrados nas Américas Central e do Sul. No Brasil, os genótipos predominantes são A, D e F, sendo o A mais prevalente. PATOGENIA: O VHB é encontrado no sangue em altas concentrações. As vias parenteral e sexual são altamente efetivas para a transmissão. Sabe-se que o vírus é estável em superfícies inanimadas e pode persistir viável no meio ambiente por cerca de sete dias sem perder sua infectividade. O VHB é passível de infecção quando localizado em soro, sêmen, secreção vaginal, exsudatos, serosas e liquor. Porém, o risco de infecção por contato com saliva, urina, fezes, lágrima, suor e bile é pequeno em virtude do baixo inócuo viral. Apesar de detectado no leite materno, a transmissão pelo leite não se mostra efetiva. As manifestações clínicas e complicações da infecção pelo VHB geralmente refletem os danos à célula hepática. No entanto, o VHB não é um vírus diretamente citopático; os hepatócitos não são agredidos de forma direta pelos vírus, mas provavelmente pelo sistema imune do hospedeiro, na tentativa de remover a infecção. Células citotóxicas, linfócitos B e os linfócitos T (células natural killer) buscam combater o vírus, mas acabam eliminando as células infectadas. O sistema imunológico também produz citocinas, como os interferons, que apresentam atividade antiviral e inibem a replicação viral, a capacidade dos vírus de infectar novas células, e modulam a resposta imune à infecção. O sist. imunológico possui alta importância em pacientes imunossuprimidos, uma vez que apresentaram leves danos no fígado apesar da alta carga viral. Da mesma forma, os pacientes infectados no início da vida, geralmente, são assintomáticos e evoluem com pouca lesão hepática por décadas, apesar da alta carga viral; isso porque o sistema imune tolera a infecção inicialmente sem causar danos. QUADRO CLÍNICO: A hepatite B é uma doença necroinflamatória do fígado causada por infecção persistente pelo VHB. Respostas do hospedeiro em eliminar os hepatócitos infectados pelo VHB: 1 – Fase de tolerância: geralmente ocorre na infância e no adulto jovem. Observam-se replicação intensa do VHB, elevada viremia e níveis séricos de DNA do VHB, expressão do AgHBe e limitada reatividade imunológica. As lesões hepáticas são discretas, assintomáticas e não há elevação das aminotransferases. 2 – Fase de atividade da doença/clareamento (hepatite crônica AgHBe positiva): há perda da tolerância imunológica, com episódios de exacerbações semelhantes aos da hepatite aguda B. Caracteriza-se por resposta imune celular com eliminação dos hepatócitos infectados, queda dos níveis séricos do AgHBe e aumento do anti-HBe (soroconversão - soroconversão HBeAg para anti-HBe é um marco biológico que indica a transição de uma fase de alta replicação viral para uma fase de baixa replicação (ou latência)), com diminuição dos níveis séricos de DNA do VHB. O prolongamento dessa fase de atividade, com múltiplas exacerbações de ALT/TGP, pode resultar em fibrose progressiva e cirrose. 3 – Fase de integração do DNA do VHB e tolerância (hepatite crônica inativa): a replicação ativa do VHB cessa nos hepatócitos, mas as células contendo o DNA do VHB integrado continuam a expressar o AgHBs. O anti-HBe é detectado no soro. 4 – Fase de reativação (hepatite crônica AgHBe negativa): apesar da seroconversão do AgHBe, ocorre a reativação da replicação do VHB em virtude da seleção de VHB mutantes. Caracteriza-se pela positividade do anti-HBe, níveis flutuantes dos níveis de DNA do VHB e ALT e alto risco de progressão para fibrose. As exacerbações periódicas intercaladas com períodos de normalização da ALT dificultam a distinção entre hepatite crônica AgHBe negativa e hepatite crônica inativa, portanto, seguimento contínuo dos pacientes é necessário para designá-los como portadores de doença inativa. 5 – Fase de AgHBs negativa: após o clareamento do AgHBs, baixos níveis do VHB podem persistir com detecção no DNA do VHB no fígado, mas raramente no soro. Assim, em decorrência das diferentes situações e formas de apresentação da hepatite viral pelo VHB, é importante conhecer as definições relacionadas a essa infecção: Hepatite crônica B: é a doença necroinflamatória do fígado causada por infecção persistente pelo VHB. Pode ser classificada em: - hepatite crônica B AgHBe positivo; - hepatite crônica B AgHBe negativo. Critérios diagnósticos: AgHBs positivo por mais de seis meses, DNA do VHB > 20.000 UI/mL, elevações persistentes de transaminases e histologia compatível com hepatite crônica (métodos não invasivos de medição de fibrose ainda não são confiáveis para avaliação de atividade inflamatória). Portador crônico do AgHBs inativo: infecção persistente pelo VHB sem doença necroinflamatória significativa. Critérios diagnósticos: AgHBs positivo por mais de seis meses, AgHBe negativo/anti-HBe positivo, DNA do VHBmaiores que 10 vezes o limite superior normal (LSN) ou 2 vezes o valor basal. Reativação: reaparecimento da atividade necroinflamatória do fígado em paciente reconhecidamente portador crônico do AgHBs inativo ou hepatite B resolvida. Clareamento do AgHBe: desaparecimento do AgHBe em paciente previamente AgHBe positivo. Seroconversão do AgHBe: desaparecimento do AgHBe e detecção do anti-HBe em paciente previamente AgHBe positivo e anti-HBe negativo, associado à diminuição do DNA do VHB sérico ( 1 log10 UI/mL, em relação a menor medida já registrada ou reaparecimento do HBV DNA em níveis maiores que 10 vezes o limite mínimo do método após uma medida negativa. R Recidiva bioquímica: elevação da alanina aminotranferase (ALT) acima dos valores da normalidade. R Não resposta primária: queda do DNA do VHBo algoritmo proposto pelo Ministério da Saúde para pacientes cirróticos, o tenofovir estaria indicado em associação com a lamivudina ou com o entecavir nos casos de resistência ou como monoterapia, quando houver impedimento ou contraindicação ao esquema proposto de primeira ou segunda escolha. . Os análogos de nucleos(t)ídeos são, portanto, eficientes no bloqueio da síntese de novos virions, diminuindo a carga de DNA do VHB; Hepatite aguda: Pacientes com hepatite aguda grave devem ser avaliados para o transplante hepático e pode se beneficiar de antivirais orais. A droga mais utilizada é a lamivudina, porém, o entecavir e o tenofovir devem ser fortemente considerados, o tempo de tratamento não é bem estabelecido, porém, recomenda- se pelo menos 3 meses após a soroconversão para anti-HBs ou 12 meses após a soroconversão para anti-HBe sem perda do AgHBs. CONDUTAS GERAIS: Doença de notificação compulsória, e o preenchimento do documento Sinan deve ser realizado ao identificar algum marcador sorológico para o VHB. Por estar presente em qualquer fluido orgânico, é importante fazer o rastreamento familiar. Considerando que a hepatite A em portadores de hepatopatias crônicas pode ocasionar um quadro grave, deve-se imunizar esses pacientes contra o vírus da hepatite A. Outros agentes agressores também podem piorar progressão da hepatite crônica B, assim, o paciente deve ser instruído quanto à abstinência alcoólica e aos cuidados em relação ao uso de medicamentos potencialmente hepatotóxicos (principalmente AINH e antifúngicos, entre outros). Orientar o paciente a manter um peso ideal e, caso apresente comorbidades, obter o bom controle de doenças, como diabete melito e dislipidemias. GESTAÇÃO E HEPATITE B: Paciente com hepatite crônica AgHBe positivas tem 90% de chances de transmitir o VHB para seus filhos, sendo que os dois maiores fatores de risco são a carga viral e a taxa de replicação elevadas. Em geral, pacientes portadoras da hepatite B aguda sem indicação de tratamento formal não têm necessidade de introdução de antivirais por causa de gravidez, exceto se evidência de falência aguda. O monitoramento materno é necessário por pelo menos seis meses após o parto, especialmente em pacientes com AgHBe positivo e naquelas que interromperam o uso das drogas antivirais. IMUNIZAÇÃO CONTRA O VHB: A imunização é o mecanismo mais eficaz para prevenir a infecção pelo VHB. A falha nos programas de vacinação para indivíduos com fatores de risco resultou na recomendação e implantação da vacina contra a hepatite B nos esquemas de rotina para as crianças. No Brasil, a vacinação iniciou-se em 1988 na Amazônia, área de alta endemicidade. Apesar da imunização, alguns adultos falham em produzir níveis suficientes de anticorpos, mas isso não significa que não estão protegidos. Estudos mostraram que a memória imunológica persiste, havendo resposta após o contato com o antígeno. IMUNOSSUPRIMIDOS: O uso de imunossupressores pode ocasionar reativação do VHB, mesmo nos pacientes com AgHBs negativos (anti-HBc positivo isolado ou com anti- -HBs positivo). Geralmente, isso ocorre no momento da suspensão da imunossupressão e da recuperação do sistema imune. Os sintomas são variados, indo desde subclínicos até morte. Hepatite C As principais causas de óbito por doenças hepáticas são a cirrose hepática e a neoplasia maligna do fígado, sendo que provavelmente o vírus da hepatite C (VHC) é responsável por grande parte dos casos. O VHC é membro da família Flaviviridae e único representante do gênero Hepacivirus, sendo composto por pequeno envelope, que contém RNA de fita única e de sentido positivo. O VHC produz proteínas estruturais e não estruturais (non-structural proteins – NS) e circula no sangue em diversas formas: vírions ligados a lipoproteínas de baixa ou muito baixa densidade (“partículas lipovirais”), que parecem compor a fração infectante; vírions ligados a imunoglobulinas; e vírions livres. Além disso, partículas com propriedades de nucleocapsídios virais não envelopados também já foram encontradas no plasma. Sendo a principal causa de cirrose, de falência hepática e de carcinoma hepatocelular (CHC) nos países ocidentais. Além disso, é responsável por 70% dos casos de hepatites crônicas no mundo todo. Dessa maneira, a infecção pelo VHC é atualmente considerada problema de saúde pública. A história natural da doença traz prognóstico sombrio ao paciente, uma vez que a maioria dos infectados progride para cronicidade, que pode ocasionar cirrose e CHC. A hepatite C aguda é costumeiramente assintomática. A eliminação viral após quadro agudo, impedindo cronificação, pode estar relacionada à imunidade do hospedeiro: ao aumento na expressão de genes ligados ao IFN-gama, à titulação de anticorpos neutralizantes após infecção aguda e aos elementos específicos da imunidade celular; certos genes não imunológicos, como alguns dos relacionados ao metabolismo lipídico, também parecem ter relação com a depuração viral. A evolução da doença para quadros avançados é lenta, e o grau de fibrose na primeira biópsia pode ser preditor da evolução para cirrose e suas complicações. Além disso, uma evolução mais célere da hepatopatia pode ocorrer em homens, pessoas com idade mais avançada quando da infecção, etilistas, coinfectados com o vírus da hepatite B (VHB) ou com o vírus da imunodeficiência humana (HIV), pacientes imunodeprimidos, bem como portadores de esteatose; é possível também que indivíduos contaminados por transfusões tenham pior prognóstico. A via parenteral é a principal via de transmissão viral. O uso de drogas intravenosas tem ganhado importância como forma de infecção: até 90% dos usuários dessas substâncias contraem o vírus. Outros fatores de risco são: exposição ocupacional, hemodiálise, reutilização de equipamentos médicos contaminados e tatuagens. As transmissões vertical e sexual são menos comuns. Vale destacar um estudo realizado no Brasil, em que hepatite aguda C está relacionada predominantemente a procedimentos hospitalares. No que tange à recidiva do VHC após o tratamento, pode-se dizer que ela é muito infrequente. Poderia ser introduzido, então, o conceito de hepatite C oculta, em que há PCR-VHC negativa no soro e RNA do VHC no fígado ou em células mononucleares. Inicialmente, solicita-se anti-HCV e, nos indivíduos em que o exame for positivo, deve-se confirmar o diagnóstico por PCRVHC. A genotipagem do VHC deve ser realizada antes do início do tratamento, para sua planificação, bem como para estimar a probabilidade de resposta terapêutica. Nunca é demais enfatizar que todos os indivíduos infectados pelo VHC devem ser devidamente aconselhados sobre como evitar a transmissão do vírus para outras pessoas. Antes de iniciar tratamento de paciente com VHC, é importante que se faça pesquisa dos marcadores do vírus da hepatite A (VHA) e do vírus da hepatite B (VHB), para realizar profilaxia, quando necessário. Sabidamente, a coinfecção agrava doença hepática existente. No entanto, chama-se a atenção para o fato de que a resposta à vacina em pacientes com hepatopatia crônica não é a ideal. Assim, é possível que essa população de pacientes deva ser vacinada com esquema semelhante ao utilizado em pacientes com imunossupressão. Nas recomendações da ALEH, fica a sugestão de que devemos testar todos os pacientes a partir dos 45 anos,75 recomendação esta referendada pela Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH). Vale ressaltar que, no Brasil, provavelmente, os medicamentos aprovados pela Anvisa e incorporados pela Conitec sejam dispensados brevemente, após a publicação do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite C e Coinfecções. Acredita- se que, em uma primeira etapa, sejamincluídos apenas na portaria os pacientes com fibrose F3 ou F4 (por análise histológica ou por testes não invasivos), embora haja perspectiva de que uma parcela de pacientes F2, não respondedores aos tratamentos anteriores, também possa ser contemplada.