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Doença Renal Crônica Definição e classificação: é definida por lesão renal ou uma TFG estimada abaixo de 60 mL/min/1,73 m², persistente por 3 meses ou mais; consiste na perda dos néfrons funcionantes dos rins com deterioração progressiva da filtração glomerular, da capacidade de reabsorção tubular e das funções endócrinas dos rins. É classificada dentro de 6 categorias relacionadas com a TFG (G1 a G5, com G3 dividida em 3a e 3b) e com base nos níveis de albuminúria (A1, A2 e A3) As limitações do uso de estimativas baseadas em creatinina induziram à busca de biomarcadores de filtração alternativos, como a proteína β-traço (bTP), cistatina C e β₂-microglobulina (β₂M). A microalbuminúria isolada é uma característica comum do envelhecimento e pode estar associada a muitas doenças inflamatórias agudas e crônicas, bem como a doenças vasculares. Também é associada ao tabagismo, obesidade e dietas pouco saudáveis. Dessa forma, a albuminúria não é o melhor biomarcador para definir DRC. A grande maioria dos indivíduos acometidos pela DRC possuem mais de 60 anos. O KDIGO sugere definir a DRC progressiva como um declínio sustentado da TFG. Epidemiologia: A DRC leve a moderada geralmente é assintomática, sendo difícil definir a verdadeira prevalência e incidência na comunidade. Estudos epidemiológicos sugerem que a DRC é prevalente em cerca de 10% a 14% da população geral; A alta prevalência de DRC pode ser confundida por uma série de fatores, dentre eles estão: - baixo nível de albuminúria - a maioria dos indivíduos testados serem idosos, com declínio da função renal pela idade A detecção precoce de DRC é necessária para possibilitar indivíduos de risco e possíveis complicações nas comunidades, incluindo doença cardiovascular e mobimortalidades associadas. A recomendação de rastreio de DRC engloba idosos, hipertensos, DM, aterosclerose, doença cardiovascular, insuficiência cardíaca, doença urológica, litíase, ITU de repetição, doenças sistêmicas autoimunes, drogas nefrotóxicas, grupos étnicos de alto risco e história familiar de DRC. A DRC antecipa a morbimortalidade cardiovascular em idosos. A DRC da comunidade, é, em grande parte, de pessoas idosas com comorbidades, associada a um declínio da TFG leve e muito lento. Já a DRC encaminhada geralmente tem nefropatia significativa, herdada ou adquirida, que causa dano precoce à função renal. Em pacientes idosos com DRC da comunidade, um histórico de manifestações de doenças cardiovasculares ou até mesmo sinais subclínicos, tais como aumento da espessura intimal da carótida ou microinfartos cerebrais foram associados à incidência de DRC. Fatores de risco para DRC: Idade, raça ou etnia (não caucasianos), genética, baixo peso ao nascer, HAS, DM, DCV, albuminúria, obesidade ou sd. metabólica, dislipidemia, tabagismo, baixo nível socioeconômico, AINEs, analgésicos, fitoterápicos populares, metais pesados. Fisiopatologia: Caracteriza-se por 2 amplos grupos de mecanismos lesivos: - mecanismos iniciais específicos da etiologia subjacente (anormalidades do desenvolvimento ou da integridade renal, deposição de imunocomplexos e inflamação em alguns tipos de glomerulonefrite, ou exposição a toxinas em algumas doenças dos túbulos e do interstício renais) - hiperfiltração e hipertrofia dos néfrons viáveis remanescentes, que são uma consequência comum da redução da massa renal a longo prazo, independentemente da etiologia subjacente e que leva ao declínio adicional da função renal *Na obesidade, por exemplo, é encontrado um estado de hiperfiltração e aumento da pressão glomerular na tentativa de atender às demandas do peso corporal, de modo que se comporta como um fator que pode tanto desencadear uma DRC quanto atuar na sua progressão. As respostas à redução da quantidade de néfrons são mediadas por hormônios vasoativos, citocinas e fatores de crescimento. Por fim, a hiperfiltração e hipertrofia, para manter a TFG, tornam-se mal- adaptativas à medida que a pressão e o fluxo sanguíneo aumentados dentro do néfron predispõem à distorção da arquitetura dos glomérulos, função anormal dos podócitos e rompimento da barreira de filtração, levando à esclerose e à destruição dos néfrons remanescentes. Mecanismo de progressão da DRC: Fibrose renal progressiva com destruição da microarquitetura normal do rim e a sua substituição por tecido fibroso feito de matriz colágena extracelular, levando à perda da função, afetando os 3 compartimentos funcionais do rim (glomérulos, túbulos e insterstício). Fibrose renal: - uma resposta inflamatória com infiltração nos rins lesados por células inflamatórias extrínsecas aos rins - ativação, proliferação e perda de células renais intrínsecas (por apoptose ou necrose) - ativação e proliferação da matriz extracelular (MEC), produzindo células, inclusive miofibroblastos e fibroblastos - deposição de MEC substituindo a arquitetura renal normal Achados clínicos: Hipertensão: Cerca de 50% a 70% dos pacientes com DRC estágio 3 a 5 são hipertensos. O controle adequado da HAS é o principal fator de retardo da DRC, além de ser importante para diminuir o dano causado a outros órgãos-alvo. A retenção hídrica é mais evidente em pacientes estágio 4 e 5 da DRC e uma droga diurética deve ser incluída no tratamento destes pacientes. Os diuréticos poupadores de K⁺ e os IECA devem ser usados com CAUTELA nesse grupo de pacientes. Dislipidemia: Pacientes com DRC a partir do estágio 3 apresentam alterações no metabolismo das lipoproteínas e triglicerídeos. É caracterizado pelo acúmulo de moléculas de VLDL parcialmente metabolizadas e distúrbios na metabolização do HDL, ocasionando altos níveis de triglicerídeos e baixos de HDL. DRC e risco cardiovascular: A DRC confere alto risco cardiovascular, sendo a principal causa de óbito tantos nos pacientes pré- dialíticos quanto naqueles em terapia renal substitutiva. Alterações hematológicas: A anemia da DRC é multifatorial e tem como fator mais importante a deficiência de eritropoietina. Tem como característica ser normocítica e normocrômica com redução de massa eritrocitária. Outros fatores são a deficiência de ferro, diminuição do tempo de meia vida das hemácias ocasionado por produtos urêmicos, hemólise e perda crônica ocasionados durante o procedimento dialítico, além de perdas insensíveis no TGI. A anemia também é mais prevalente em pacientes com DRC de etiologia diabética macroalbuminúricos. Os pacientes apresentam sintomas como fadiga, dispneia, diminuição da atividade intelectual, depressão, perda de libido, distúrbios do sono, anorexia. A hipertrofia ventricular esquerda está associada aos níveis de Hb em pacientes com DRC devido ao efeito compensatório de aumento do débito cardíaco. Distúrbios ósseos: A gênese é multifatorial, destacando-se a retenção de fósforo e hiperfosfatemia, o déficit de vitamina D, a hipocalemia, alterações funcionais nos receptores de cálcio e vitamina D das paratireoides, além da resistência óssea à ação do PTH e outras fosfatoninas. O processo tem início com a retenção de fósforo devido a sua incapacidade de excreção pela baixa TFG, associado à isso, há diminuição da conversão de vitamina D em sua forma ativa pelo rim e consequente hipocalemia. Estas alterações acarretam em elevação do PTH, que é o hormônio responsável pela manutenção da calcemia em uma faixa fisiológica. Com a hiperfosfatemia e hipercalcemia, há a hiperplasia das paratireoides, diminuindo a expressão dos receptores de cálcio e calcitriol. Pode ser classificada como de alta remodelação, baixa remodelação ou doença mista. Ela manifesta-se por meio de dores ósseas e articulares, miopatia, lesões e roturas em ligamentos e tendões, perda funcional dearticulações e risco de fraturas patológicas. Na maioria das vezes é assintomática ou oligossintomática, sendo identificada apenas quando a agressão ao osso é exuberante. Alterações endócrinas: As anormalidades endócrinas na DRC se dão por diminuição no clearence renal dos hormônios (insulina, glucagon, PTH, calcitonina e prolactina); diminuição da secreção renal (eritropoietina, renina e vitamina D3); redução da atividade de outras glândulas e alteração no tecido alvo de ação hormonal. Alterações neurológicas: São comumente observadas em pacientes com DRC. O espectro dessas alterações inclui anormalidades no sensório, disfunção cognitiva, fraqueza generalizada e neuropatia periférica. A encefalopatia urêmica se refere a sinais e sintomas decorrentes da perda de função renal que se inicia geralmente quando a TFG está abaixo de 10mL/min. A neuropatia periférica acomete cerca de 65% dos pacientes com DRC estágio 5. Acidose metabólica: A acidose metabólica se deve sobretudo à incapacidade renal de excretar íons hidrogênio e pode ser composta ainda de bicarbonatúria nos casos de doenças em que há acometimento intersticial. Desnutrição: Frequente nos pacientes com DRC e está associada a aumento na mortalidade. Os marcadores bioquímicos são albumina sérica, transferrina e colesterol. Alterações imunológicas: As infecções são a segunda maior causa de óbito nos pacientes com DRC. Há deficiência na resposta antigênica dos linfócitos T, causada parcialmente pela incapacidade de apresentação dos antígenos pelos monócitos. A ativação neutrofílica é deficiente e, apesar dos níveis séricos de imunoglobulinas serem normais, a resposta vacinal é pobre. Síndrome Urêmica: A Doença Renal Crônica (DRC) e a Síndrome Urêmica estão diretamente ligadas pela perda progressiva da função renal. De forma simples: a DRC é a patologia de base (a causa), enquanto a síndrome urêmica é o conjunto de manifestações clínicas (as consequências) que surgem quando essa falha atinge níveis críticos. 1. Fisiopatologia da Transição À medida que a Taxa de Filtração Glomerular (TFG) cai, o rim perde a capacidade de manter a homeostase do organismo. A síndrome urêmica geralmente se torna clinicamente evidente quando a TFG cai abaixo de 15-20 mL/min/1,73m² (Estágios 4 e 5 da DRC). O acúmulo não é apenas de ureia (que é um marcador), mas de centenas de toxinas urêmicas (compostos nitrogenados, fenóis, indóis, etc.) que o rim deveria excretar. 2. Principais Eixos de Manifestação A síndrome urêmica é multissistêmica porque essas toxinas afetam quase todos os órgãos: • Disfunção Neurológica: O acúmulo de toxinas leva à encefalopatia urêmica (desorientação, asterixe/flapping) e polineuropatia periférica. • Alterações Cardiovasculares: A uremia causa um estado inflamatório sistêmico, podendo gerar a pericardite urêmica (uma urgência dialítica) e acelerar a aterosclerose. • Disfunção Gastrointestinal: Náuseas, vômitos e anorexia são os sinais mais precoces da uremia. Em casos graves, pode ocorrer o hálito urêmico (odor amoniacal). • Hematologia: A uremia interfere na função plaquetária (disfunção de adesão e agregação), aumentando o risco de sangramentos, além da anemia multifatorial (baixa de eritropoietina + toxicidade medular). • Distúrbios Hidroeletrolíticos e Ácido- Base: Acidose metabólica, hipercalemia e hiperfosfatemia. 3. A Ureia como Marcador, não apenas Causa É importante lembrar que a ureia em si não é a única responsável pelos sintomas, mas ela serve como um excelente marcador da retenção de outras substâncias mais tóxicas. Níveis de ureia muito elevados (geralmente > 150-200 mg/dL) costumam correlacionar-se com o aparecimento dos sintomas graves. 4. Implicação Clínica Na DRC, o diagnóstico da síndrome urêmica é clínico. A presença de sinais claros de uremia (como pericardite, encefalopatia ou sangramentos intratáveis) é uma indicação clássica para o início imediato de terapia renal substitutiva (diálise), independentemente do valor exato da creatinina. É descrita pelo Harrison como a fase terminal da insuficiência renal não tratada. Eliminação de fármacos: Os rins são responsáveis pela eliminação de vários fármacos e seus metabólitos. A DRC e seu tratamento podem interferir na absorção, distribuição e eliminação dos fármacos. A eliminação renal reduzida possibilita que os fármacos ou seus metabólitos se acumulem no organismo. Diagnóstico: Anamnese e exame físico → elementos específicos da história clínica que sugerem DRC: HAS, DM, anormalidades no exame de urina, distúrbios gestacionais como pré-eclâmpsia ou abortamento precoce. É necessário obter uma história farmacológica detalhada, saber da utilização de AINEs, inibidores da COX-2, antimicrobianos, quimioterápicos, antiretrovirais, IBP, laxantes contendo fosfato e lítio. História familiar detalhada de doença renal; No exame físico é importante prestar atenção na pressão arterial e nas lesões de órgãos-alvo secundárias à hipertensão. Portanto, é necessário realizar exames fundoscópico e precordial. O exame do fundo do olho é importante no paciente diabético para detectar evidências retinopatia diabética, que está associada a nefropatia. Outras MC são edema e polineuropatia sensitiva. Exames laboratoriais: Além dos níveis elevados de creatinina sérica e ureia sanguínea, outros achados como anemia, acidose metabólica, hiperpotassemia, hiperfosfatemia, hipocalemia e hipoalbuminemia também indicam DRC. Os exames bioquímicos devem incluir os níveis de Na⁺, K⁺, Cl⁻, Ca⁺, bicarbonato, fósforo, fosfato alcalino, PTH e ácido úrico. Glicose e hemoglobina alcalina devem ser monitorados em pacientes diabéticos. Os níveis de hemoglobina devem ser monitorados e deve ser investigada a possibilidade de deficiência de ferro. Um baixo nível sérico de ferro ou ferritina aumenta a possibilidade de hemorragia digestiva. Sumário de urina é um dos principais exames a serem feitos na avaliação inicial do paciente com DRC, devendo-se analisar sedimentos de urina e suas anormalidades e a microscopia de sedimentos (células, cilindros, cristais) • Hematúria: presença anormal de eritrócitos na urina (>3 a 5 eritrócitos/campo) • Leucócitos: piúria é definida como acima de 10 leucócitos/campo, sendo indicativa de inflamação do trato urinário • Cilindrúria: excreção aumentada de cilindros na urina. Exames de imagem: USG do aparelho urinário, biópsia renal, TC de abdome total. Riscos da automedicação: É o uso de medicamentos sem prescrição médica. O Brasil é um dos principais consumidores mundiais de medicamentos. Riscos associados à automedicação: Os AINEs provocam problemas no TGI e possuem ALTA nefrotoxidade. Drogas como paracetamol, dipirona e os salicilatos são os mais vendidos. Os salicilatos estão relacionados com hemorragias gastrointestinais, o paracetamol está relacionado com lesões ao fígado e a dipirona com aplasia medular. Medicamentos utilizados incorretamente podem causar: hipersensibilidade, resistência bacteriana, estimular a produção de anticorpos desnecessários, dependência medicamentosa, distúrbios hematológicos, irritação e infecções de pele, danos no fígado, insuficiência renal, cardíaca, intoxicação medicamentosa leve, moderada e grave, podendo levar o indivíduo a óbito.