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Unidade 4
A Psicologia e as Questões Relacionadas à Saúde
Aula 1
Estrutura e Dinâmica da Personalidade
Estrutura e dinâmica da personalidade
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conteúdos importantes para a sua formação profissional. Vamos assisti-la?
Bons estudos!
Ponto de Partida
Olá, estudante! Na aula de hoje, veremos questões da personalidade, sua estrutura e dinâmica,
que é um tema bastante interessante e que desperta muito a nossa curiosidade, uma vez que
explora a forma como nos constituímos enquanto sujeitos singulares.
Para isso, falaremos de conceitos psicanalíticos e das fases do desenvolvimento psicossexual.
Trataremos da formação da personalidade, quais estruturas ela envolve e como funciona a
questão psicodinâmica nesse processo.
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Para nos embasar, partiremos da seguinte situação: você já imaginou como funciona uma casa
de repouso? Então, conheceremos um pouco desse universo acompanhando o trabalho de
Patrícia, uma estudante de Psicologia que faz estágio na Casa de Repouso Vida. A unidade em
que ela trabalha está localizada em uma cidade de pequeno porte e abriga idosos que
apresentam os mais variados estados de saúde: pessoas saudáveis e ativas, enfermos e
portadores de psicopatologias, os chamados doentes mentais. A casa de repouso foi construída
em um amplo terreno. São várias casas que abrigam seus internos em função do quadro de
saúde. A casa também conta com uma equipe multidisciplinar bastante atuante e aberta a novos
métodos terapêuticos. Em relação aos pacientes com bom estado de saúde, Patrícia identificou
que dona Célia, uma senhora de 70 anos, ativa e independente na execução de suas atividades,
começou a questionar as escolhas que fez ao longo da vida, o que tem provocado nostalgia e
apatia, além de afastá-la das atividades sociais realizadas na casa de repouso. Neste momento,
Patrícia está encarregada de elaborar um estudo sobre a situação de dona Célia. Ajude-a a
elaborar um parecer e a indicar como atuar nesse caso.
Vamos Começar!
Conceitos de psicanálise e desenvolvimento de personalidade
Estudante, hoje, abordaremos conceitos psicanalíticos para compreendermos a base do
desenvolvimento do homem.
Quando falamos em desenvolvimento, estamos tratando dos processos da construção da
personalidade, que constituirão a subjetividade do sujeito.
Lembra-se de que subjetividade tem a ver com as especificidades de cada um e o modo como
nos expressamos e vemos o mundo? Isso tem ligação direta com a nossa personalidade. Pensar
nas subjetividades e na personalidade é muito importante quando pensamos em como cada
indivíduo "funciona" do ponto de vista psíquico e como isso pode interferir nas interações que
nós, profissionais de saúde, teremos com cada um deles.
A fim de compreender o todo, precisamos explicar as fases do desenvolvimento. Para isso,
abordaremos alguns conceitos de psicanálise que você já deve ter ouvido falar por aí.
Comentamos sobre Freud, o idealizador da psicanálise, que é um dos pioneiros a abordar
aspectos de desenvolvimento humano que iam além da questão biológica. Ele tratava do
desenvolvimento a partir de uma perspectiva psicológica, levando em consideração experiências
prévias, traumas, desejos, emoções, pensamentos etc.
Observe a imagem a seguir e entenda que nossa personalidade é constituída por aspectos
conscientes e inconscientes. Relembre também os seus componentes: Id, Ego e Superego, que já
tratamos nas aulas iniciais.
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Figura 1 | Conceitos psicanalíticos.
Outro conceito importante para compreendermos em psicanálise é o da pulsão. Segundo Freud
(2004a), pulsão é o desejo, ou seja, é o processo dinâmico que faz o organismo se orientar para
uma meta, que suprimirá um possível estado de tensão ou excitação corporal que seria a fonte
desse processo.
A partir daí teremos dois conceitos de pulsão que designarão movimentos naturais para o limiar
da existência:
Pulsão de vida: preservação da existência.
Pulsão de morte: erradicação da existência (Laplanche; Pontalis, 2001).
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
A partir desses conceitos, seguimos resumidamente para as fases do desenvolvimento
psicossexual. De acordo com Freud (2006), a teoria do desenvolvimento psicossexual ocorre
desde o início da infância através de cinco estágios: oral, anal, fálico, latência e genital.
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Figura 2 | Fases do desenvolvimento psicossexual de Freud.
A sexualidade ainda segue como um tema tabu até os dias de hoje, e existem muitas
preocupações com “conteúdos impróprios” para as crianças. Porém, como profissionais de
saúde, devemos compreender que a sexualidade é algo impossível de se desvincular de nossa
vida. A energia sexual, chamada de libido (conceito psicanalítico), é uma força motora para todos
os seres humanos. É o que nos move, e vai muito além do ato sexual (Freud, 2006).
A personalidade é formada a partir dessas vivências e experiências da criança. Ela é uma
característica do ser humano que tem a função de organizar os sistemas físicos, fisiológicos,
psíquicos e morais, de forma que, interligados, determinam a individualidade de cada ser.
Mecanismos de defesa
Quando pensamos em personalidade, precisamos compreender os mecanismos de defesa, os
quais, segundo Freud (2007), são as manifestações do Ego frente às exigências ou "invasões"
das outras instâncias psíquicas (Id e Superego), ou seja, os mecanismos de defesa servem para
uma melhor estruturação da nossa personalidade. Um controle que, quando bem direcionado,
tende a ser mais racional e consciente.
Porém, quando ele age de forma mais inconsciente, precisamos compreender melhor as reações
menos racionais e objetivas, e isso ocorre, na psicanálise, por meio do entendimento dos
mecanismos de defesa utilizados com a finalidade de proteger o Ego de um possível sentimento
de ansiedade, medo, culpa, entre outros (Freud, 1996).
Os mecanismos acontecem com certo investimento de energia, e eles podem ser classificados
como mecanismos de defesa bem-sucedidos ou ineficazes. Os bem-sucedidos são aqueles que
conseguem diminuir a ansiedade diante de algo que é perigoso. Os ineficazes são aqueles que
não conseguem diminuir a ansiedade e acabam por constituir um ciclo de repetições.
Existem muitos mecanismos de defesa descritos em psicologia, mas vamos nos ater aos mais
básicos: compensação, expiação, fantasia, formação reativa, identificação, isolamento, negação,
projeção e regressão (Freud, 1996).
NOME EXPLICAÇÃO EXEMPLO
Compensação Tentativa do indivíduo de
equilibrar suas qualidades e
deficiências.
Uma pessoa que não tem
boas notas e se consola por
ser boa em esportes.
Deslocamento Refere-se a uma troca, em que
a representação muda de um
lugar para outro.
Alguém que teve um problema
com um psicólogo e passa a
rejeitar todos os psicólogos.
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Identificação Assimilação de características
de outros, que se transformam
em modelos.
Alguém que se identifica com
um artista e tenta reproduzir
isso na sua vida pessoal.
Negação Negar a dor ou outras
sensações de desprazer.
Alguém que nega sua dor ao
perder um amor.
Projeção É um mecanismo que coloca
para fora (no outro) o que não
admitimos em nós mesmos.
Pensar em ser infiel e ter
medo de que seu(sua)
namorado(a) o seja.
Regressão Retorno a uma fase anterior
do desenvolvimento, na qual
as satisfações eram mais
imediatas.
Alguém que sofre um colapso
mental assume uma posição
fetal, balançando e chorando.
Quadro 1 | Mecanismos de defesa.
Siga em Frente...
Compreendendo os conceitos na práticaVideoaula de Encerramento
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Ponto de Chegada
Olá, estudante!
Para desenvolver a competência desta unidade de ensino, que versa sobre a avaliação das
principais ações de saúde frente ao comportamento humano, começamos pelos conceitos
psicanalíticos utilizados para entendermos o desenvolvimento humano, destacando a
construção da personalidade e a subjetividade. Para tanto, exploramos a perspectiva
psicanalítica, desenvolvida por Sigmund Freud sobre o desenvolvimento psicológico,
considerando experiências prévias, traumas, desejos e emoções. Destacamos a dualidade da
personalidade entre aspectos conscientes e inconscientes, incluindo seus componentes: Id, Ego
e Superego. Nesse contexto, Freud define o inconsciente como sendo o reservatório de
pensamentos e sentimentos, e o consciente como o aspecto acessível à razão. Além disso,
introduz os conceitos de pulsão de vida e de morte, relacionados aos desejos e à busca de
metas para aliviar a tensão corporal. Por fim, menciona-se as fases do desenvolvimento
psicossexual propostas por Freud, abordando a sexualidade como parte intrínseca da vida e
destacando a libido como sendo a energia motora. Exploramos, portanto, a formação da
personalidade a partir das vivências e experiências da criança.
Além disso, discutimos os mecanismos de defesa, manifestações do Ego frente às exigências de
outras instâncias psíquicas. Indicamos que esses mecanismos contribuem para a estruturação
da personalidade e destacamos a necessidade de compreender as reações inconscientes. E, por
fim, classificamos os mecanismos de defesa como bem-sucedidos ou ineficazes, mencionando
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
exemplos, como compensação, expiação, fantasia, formação reativa, identificação, isolamento,
negação, projeção e regressão.
Todo esse estudo se faz necessário para que possamos compreender o comportamento para o
momento da avaliação da saúde mental, ressaltando que, mesmo em contextos de saúde geral, o
comportamento do paciente é crucial para avaliação e tratamento.
Desta forma, definimos o comportamento como sendo as reações internas e externas do ser
humano às interações e renovações proporcionadas pelo ambiente. Nesse sentido, Freud
novamente surge apresentando as estruturas de funcionamento propostas por ele (neuroses,
psicoses e perversões), para que possamos explorar a questão de normalidade e patologia,
considerando a perspectiva médica e psicológica. Assim, abordamos a ideia de sintomas como
expressões de conflitos psíquicos e destacamos a dificuldade em definir o que é normal e
patológico.
Seguindo essa linha de pensamento, refletimos sobre a tendência humana de repetir padrões de
comportamento, muitas vezes aprendidos na infância, e a dificuldade de mudá-los. Abordamos,
assim, a importância de profissionais de saúde compreenderem os padrões de funcionamento
de seus pacientes para oferecer um cuidado mais eficaz. Discutimos como comportamentos
específicos podem impactar o atendimento e destacamos a importância da compreensão e
apoio para aqueles que apresentam comportamentos fora do padrão, sem rotulá-los.
Assim, para que a compreensão seja efetiva, faz-se necessário o entendimento acerca do
surgimento da psicologia da saúde, que data da década de 1970, impulsionada pela evolução na
área da saúde. Destacamos a mudança nos padrões de doenças, com as doenças crônicas,
associadas ao estilo de vida, tornando-se as principais causas de mortalidade nos dias de hoje.
Vimos que a expectativa de vida aumentou, mas surgiram novos desafios, exigindo uma visão
mais abrangente da saúde e, com isso, foi introduzido o modelo biopsicossocial, que considera
fatores biológicos, psicológicos e sociais na compreensão da saúde.
Com a introdução do modelo biopsicossocial, novos olhares se abriram para a questão da saúde,
abrindo espaço para a medicina psicossomática e sua complexa interação entre fatores
psicológicos e físicos na experiência da dor, destacando a importância da percepção individual,
crenças e influências culturais. Além disso, examinamos o papel da psicologia da saúde em
algumas áreas, como comportamentos relacionados à saúde, estresse, adesão ao tratamento e
intervenções psicológicas e temas básicos, incluindo o modelo biopsicossocial na psicologia da
saúde, tais como a relação entre médico e paciente, a qualidade de vida relacionada à saúde e a
prevenção de doenças. Desta forma, fica evidente a importância da colaboração entre
profissionais de saúde abordando tanto os aspectos físicos quanto os mentais (psicológicos)
para uma compreensão holística e um tratamento eficaz dos indivíduos, considerando a
interconexão entre mente e corpo.
Para finalizar, mas não menos importante, ao abordar a questão mente-corpo, faz-se necessário
trabalhar com as questões relacionadas à saúde mental. Desta forma, enfoca-se a evolução da
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
saúde mental no Brasil, destacando diferentes modelos de assistência ao longo do tempo.
Inicialmente, a institucionalização no Hospício Pedro II refletia preceitos higienistas, com ênfase
em aspectos religiosos. A fase republicana intensificou a abordagem medicalizante nos
hospícios, marcada por práticas violentas.
Críticas a hospitais psiquiátricos, aliadas a influências internacionais, impulsionaram a Reforma
Psiquiátrica Brasileira a partir da década de 1970. A desinstitucionalização tornou-se o foco,
visando à reinserção social de pacientes por meio de uma rede de serviços substitutivos. O
Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental e a criação do CAPS foram marcos nesse
processo.
Assim, as políticas de saúde mental no Brasil, desde a criação do SUS, refletem a transição de
um modelo hospitalocêntrico para serviços abertos e comunitários. A década de 1980 foi
marcada pelo Movimento da Luta Antimanicomial, e a descentralização e a regionalização foram
propostas na década de 1990. A Lei da Reforma Psiquiátrica, de 2001, e a criação da RAPS, em
2011, consolidaram avanços legais e organizacionais.
Ademais, destaca-se a importância de iniciativas como a Lei nº 10.216/2001, que regulamenta
direitos dos pacientes e promove desinstitucionalização. Além disso, a Política Nacional de
Saúde Mental (2005) e a RAPS representam compromissos com a Reforma Psiquiátrica, visando
integrar cuidados, descentralizar a gestão e combater o estigma.
Na prática, estratégias para promoção da saúde mental incluem autoconhecimento, construção
de relacionamentos saudáveis, equilíbrio entre trabalho e vida, resiliência, prevenção ao estigma,
apoio psicoterapêutico, inclusão, empoderamento e educação contínua. Essas práticas
contribuem para ambientes que estimulam o bem-estar emocional, a resiliência e a qualidade de
vida.
É Hora de Praticar!
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Sônia é uma mulher de 32 anos que busca atendimento psicológico devido a desafios
significativos em sua vida pessoal e profissional. Ela relata sentir-se constantemente
sobrecarregada, com dificuldades para lidar com suas emoções e estabelecer relacionamentos
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
saudáveis. Sônia trabalha em um ambiente corporativo exigente, no qual a competição e a
pressão por resultados são constantes.
Sônia cresceu em um ambiente familiar com expectativas rigorosas. Seu pai sempre enfatizou a
importância do sucesso profissional,enquanto sua mãe, embora amorosa, tinha padrões
elevados de comportamento. Durante a adolescência, Sônia enfrentou desafios em relação à sua
identidade e sexualidade, o que gerou conflitos com seus pais.
A partir da perspectiva psicanalítica, observamos a influência do desenvolvimento psicossexual
proposto por Freud. Sônia pode estar enfrentando conflitos relacionados a fases específicas,
impactando sua forma de lidar com desejos e emoções. Os mecanismos de defesa, como a
negação e a projeção, podem estar presentes em suas interações e reações diárias.
No contexto da psicologia da saúde, percebemos que os desafios de Sônia vão além do âmbito
psicológico, envolvendo também fatores sociais e profissionais. A pressão no ambiente de
trabalho pode estar contribuindo para seus sintomas, enquanto a dificuldade em estabelecer
relacionamentos saudáveis pode afetar sua qualidade de vida.
Diante desse quadro, responda: quais são os principais conceitos psicanalíticos que podem ser
aplicados ao caso de Sônia? Como esses conceitos contribuem para a compreensão de seus
desafios emocionais? Além disso, como a abordagem biopsicossocial pode ser integrada para
fornecer uma compreensão holística da situação de Sônia? Identifique fatores biológicos,
psicológicos e sociais que podem impactar sua saúde mental.
1. Descreva os principais conceitos psicanalíticos relacionados ao desenvolvimento humano,
destacando a dualidade da personalidade e os componentes Id, Ego e Superego. Como esses
conceitos contribuem para a compreensão da formação da personalidade?
RESPOSTA: os conceitos psicanalíticos incluem a dualidade da personalidade que abrange
aspectos conscientes e inconscientes. Sigmund Freud propõe a divisão da mente em Id,
responsável por impulsos e desejos; Ego, mediador entre o Id e a realidade; Superego,
representando normas sociais e morais. Esses componentes interagem na formação da
personalidade, em que o inconsciente, reservatório de pensamentos e sentimentos, influencia as
ações conscientes. A dualidade reflete a complexidade do comportamento humano, envolvendo
experiências prévias, traumas, desejos e emoções.
2. Explique como os mecanismos de defesa contribuem para a estruturação da personalidade.
Dê exemplos de mecanismos de defesa bem-sucedidos e ineficazes e discuta a importância de
compreender as reações inconscientes para a avaliação da saúde mental.
RESPOSTA: os mecanismos de defesa são manifestações do Ego frente às exigências psíquicas.
Eles contribuem para a estruturação da personalidade ao lidar com conflitos e tensões internas.
Exemplos incluem compensação, expiação, projeção, entre outros. Mecanismos bem-sucedidos
ajudam na adaptação, enquanto ineficazes podem levar a distorções. Compreender essas
reações é crucial para avaliação da saúde mental, permitindo identificar padrões
comportamentais inconscientes e fornecer cuidados mais eficazes.
3. Como o modelo biopsicossocial contribui para uma compreensão holística da saúde,
especialmente no contexto da psicologia da saúde? Destaque a importância da colaboração
entre profissionais de saúde, considerando a interconexão entre mente e corpo.
RESPOSTA: o modelo biopsicossocial considera fatores biológicos, psicológicos e sociais na
compreensão da saúde. Na psicologia da saúde, ele amplia a visão sobre o impacto psicológico
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
em doenças físicas, destacando a medicina psicossomática. A interconexão mente-corpo é
essencial, e a colaboração entre profissionais de saúde é crucial para uma abordagem holística.
A psicologia da saúde abrange áreas, como comportamentos relacionados à saúde, estresse,
adesão ao tratamento, enfatizando a necessidade de compreensão conjunta para um tratamento
eficaz.
A dualidade da personalidade, conforme destacada por Freud, também se torna evidente em
Sônia. Sua tentativa de atender às expectativas externas pode ser vista como o conflito entre o
Ego e o Superego, enquanto seus desejos e suas emoções não expressos representam o Id. A
formação da personalidade de Sônia parece ter sido influenciada por vivências familiares e
desafios na adolescência.
Assim, os conceitos psicanalíticos aplicáveis ao caso de Sônia incluem o desenvolvimento
psicossexual, mecanismos de defesa e a dualidade da personalidade. O conflito entre suas
expectativas internas e externas, bem como as influências da infância, destaca a relevância
desses conceitos na compreensão de seus desafios emocionais.
Quanto à abordagem biopsicossocial, deve-se considerar não apenas os aspectos psicológicos,
mas também os fatores sociais e profissionais presentes na vida de Sônia. O ambiente de
trabalho, suas experiências familiares e as demandas psicológicas podem ser entendidos e
tratados de maneira integrada para promover uma abordagem holística à sua saúde mental.
Algumas intervenções podem ser propostas no sentido de auxiliar Sônia neste seu contexto, são
elas:
Abordagem psicoterapêutica: implementar uma abordagem psicoterapêutica baseada em
técnicas psicanalíticas para explorar os conflitos emocionais e identificar padrões de
comportamento inconscientes.
Apoio no ambiente de trabalho: colaborar com a empresa de Sônia para promover um
ambiente de trabalho mais saudável, incentivando práticas de equilíbrio entre vida pessoal
e profissional.
Educação sobre saúde mental: fornecer informações sobre saúde mental, incluindo
estratégias de promoção do autoconhecimento, resiliência e prevenção ao estigma.
 
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
BACKES, D. S. et al. Humanização hospitalar: percepção dos pacientes. Acta Sci. Health Sci.,
Maringá, v. 27, n. 2, p. 103-107, 2005.
BRASIL. Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde. As causas sociais das
iniquidades em saúde no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2008.
BUSS, P. M.; PELLEGRINI FILHO, A.  A saúde e seus determinantes sociais. PHYSIS, Rio de
Janeiro, v. 17, n. 1, p. 77-93, 2007. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-
73312007000100006. Acesso em: 7 dez. 2023.
DAHLGREN, G.; WHITEHEAD, M. Policies and Strategies to Promote Social Equity in Health
Stockholm. [S. l.]: Institute for Future Studies, 1991.
FERREIRA, A. M. V. Identidade: qual é a sua? São Paulo: Labrador, 2021. Disponível em:
https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Loader/194616/pdf. Acesso em: 7 dez. 2023.
PAIM, J. S.; ALMEIDA FILHO, N. A crise da saúde pública e a utopia da saúde coletiva. Salvador:
Casa da Qualidade, 2000.
SOUZA, L. E. P. F. de. Saúde pública ou saúde coletiva? Espaço para a Saúde, v. 15, n. 4, p. 7-21,
2014. Disponível em:
https://espacoparasaude.fpp.edu.br/index.php/espacosaude/article/view/545. Acesso em: 07
dez 2023.
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
https://doi.org/10.1590/S0103-73312007000100006
https://doi.org/10.1590/S0103-73312007000100006
https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Loader/194616/pdf
https://espacoparasaude.fpp.edu.br/index.php/espacosaude/article/view/545Para pensarmos na prática sobre esses conceitos de desenvolvimento da personalidade,
imaginaremos um exemplo dentro do ambiente de saúde.
Como podemos reconhecer os comportamentos que aprendemos nessa aula nos casos que
lidamos no dia a dia? Você já parou para se perguntar sobre isso? Diversas são as situações em
que precisamos parar para observar, com certo afastamento, o comportamento do outro que
está à nossa frente. Isso serve para não misturar nossos afetos com os de outras pessoas, e
para conseguirmos de fato empatizar e lidar com a dor e o sofrimento do outro.
Você imagina que esse processo é fácil? Claro que não! Primeiro, precisamos ter consciência
dos nossos afetos para fazer isso. Essa consciência pode vir por meio de conversas com outros
colegas, supervisão, psicoterapia, autocompreensão etc. Por esse e outros motivos, o cuidado
com os profissionais de saúde é fundamental. Quanto mais saudável estamos, mais
conseguimos cuidar dos outros, não é mesmo?
Partindo desse princípio, como podemos fazer, por exemplo, para perceber se o paciente com o
qual estamos lidando está frente a uma resistência de defesa? Nesse momento, é fundamental
lembrarmos do que significa subjetividade: a individualidade que caracteriza o ser humano e
diferencia um indivíduo do outro. Logo, é o modo particular com que cada sujeito compreende
sua existência.
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Para pensar mais na prática, imaginaremos que você está estagiando em um posto de saúde
com a equipe de saúde da família. Chega até a sua equipe um jovem, Paulo, de 20 anos,
buscando apoio para parar de fumar. Na triagem, ele conta que já tentou parar de fumar por três
vezes, por conta própria, sem sucesso. E cada vez que voltava, fumava ainda mais. Entretanto,
hoje em dia, ele está tendo sintomas físicos de falta de ar e dificuldade para realizar as
atividades cotidianas. Durante a primeira consulta, Paulo relata que até os oito anos ele usava
chupeta para dormir, e na adolescência roía unha por conta de ansiedade (o que piorava na
véspera de provas). A equipe de saúde da família é composta por psicólogos, assistentes
sociais, médicos de família, enfermeiros e nutricionistas. Por conta da hipótese de que fatores
emocionais estão relacionados ao hábito de fumar, a proposta foi uma avaliação da psicologia.
Você, como estagiário, acompanhará essa avaliação, para depois contar na reunião de equipe
quais propostas pensaram para Paulo. Pensando na aula de hoje, na perspectiva psicanalítica,
como podemos investigar o que impede Paulo de parar de fumar?
Na avaliação específica da psicologia, mais dados sobre a questão da oralidade de Paulo vieram
à tona, ficando mais claro que aspectos de sua saúde emocional estão ligados a essa fase do
seu desenvolvimento. Uma das hipóteses pensadas é uma certa fixação na fase oral.
Ao retornar para a discussão em equipe, todos pensam em um acompanhamento
medicamentoso para ajudar Paulo nessa empreitada de parar de fumar e em um processo de
psicoterapia. A psicoterapia seria mais focada nas questões de desenvolvimento da
personalidade de Paulo, buscando entender o que o mantém fixado nessa fase do seu
desenvolvimento psicossexual, aumentando seu arsenal de recursos emocionais para lidar
melhor com o ato de deixar de fumar. A equipe propõe adicionalmente mudanças
comportamentais, como atividade física regular, melhor alimentação e manejo de estresse. Esse
modelo mais completo de intervenção amplia as chances de Paulo conseguir largar de vez o
tabagismo. Interessante pensar assim, não é mesmo? Como a psicoterapia pode ser um recurso
adicional para emplacar uma mudança de hábito e melhorar a saúde dos seus pacientes!
Vamos Exercitar?
Patrícia ficou responsável por elaborar um estudo sobre a personalidade de dona Célia, o que
realizou com êxito. Identificou que ela evita conversar com outros internos para não se lembrar
de períodos felizes de sua vida, pois acredita que essas lembranças trarão sofrimento,
principalmente porque esse tempo não voltará. Agora, Patrícia precisa explicar conceitualmente
o que se passa com a interna, além de indicar como trabalhar para reverter essa questão. Ajude-
a a elaborar um parecer indicando como abordar a questão com dona Célia.
A tentativa de evitar boas lembranças do passado corresponde ao mecanismo de defesa
chamado recalque. Dona Célia acredita que não lembrar dessas experiências a deixa protegida
do sofrimento que a saudade traria. Uma vez diagnosticado o comportamento, o passo seguinte
é indicar como ajudar dona Célia a abandonar sua estratégia. Quando usados por longo tempo,
os mecanismos de defesa trazem mais sofrimento do que enfrentar a situação real, e isso deve
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
ser apontado. Além disso, faz-se importante apontar que as lembranças mostram o quanto ela
foi feliz em determinado período da sua vida. É indicado perguntar à dona Célia o que é felicidade
para ela nesse momento, pois, à medida que as pessoas amadurecem, a compreensão da vida
também muda. Portanto, uma pergunta que pode ser muito útil é: a senhora seria feliz vivendo
exatamente da mesma forma como viveu no passado? O que pode fazê-la feliz hoje? Essas
perguntas abrirão caminho para dona Célia enxergar o presente e o que tem à sua disposição.
Indicará, ainda, que, ficando presa ao passado, ela deixa de usufruir as atividades que são
interessantes para ela, por exemplo, o bate-papo com os colegas da casa de repouso e outras
atividades que poderia desenvolver com esse grupo, como passeios, visitas a museus ou outras
atividades que os divirtam.
Saiba mais
Uma leitura bastante interessante acerca desses temas é Mecanismos de Defesa em Pacientes
Oncológicos Recidivados: um estudo clínico-qualitativo, da autoria de Gizelle Mendes Borges e
Rodrigo Sanches Peres. Neste artigo, você perceberá como a regressão se manifesta no discurso
do paciente.
Além disso, o livro O que é psicanálise: para iniciantes ou não..., da autoria de Fabio Hermann, faz
uma introdução ao tema da psicanálise com uma linguagem bastante clara, facilitando o
aprendizado.
Referências
FREUD, S. Neuropsicoses de defesa. In: FREUD, S. Obras psicológicas completas de Sigmund
Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 53-77.
FREUD, S. Alguns comentários sobre o conceito de inconsciente em psicanálise. In: FREUD, S.
Escritos sobre a psicologia do inconsciente. v. 1. Rio de Janeiro: Imago, 2004. p. 79-93.
FREUD, S. O recalque. In: FREUD, S. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. v. 1. Rio de
Janeiro: Imago, 2004. p. 175-193.
FREUD, S. O inconsciente. In: FREUD, S. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. v. 2. Rio de
Janeiro: Imago, 2006. p. 13-74.
FREUD, S. Além do princípio do prazer. In: FREUD, S. Escritos sobre a psicologia do inconsciente.
v. 2. Rio de Janeiro: Imago, 2006. p. 121-198.
FREUD, S. O ego e os mecanismos de defesa. Porto Alegre: Artmed, 2006.
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
FREUD, S. O eu e o id. In: FREUD, S. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. v. 3. Rio de
Janeiro: Imago, 2007. p. 13-92.
FREUD, S. A cisão do eu no processo de defesa. In: FREUD, S. Escritos sobre a psicologia do
inconsciente. v. 3. Rio de Janeiro: Imago, 2007. p. 171-179.
HERRMANN, F. O que é psicanálise: para iniciantes ou não... 14. ed. São Paulo: Blucher, 2015.
Disponível em:
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788521209324/pageid/4. Acesso em: 9
dez. 2023.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
Aula 2
Aspectos Fundamentais para Estudo do Comportamento
Aspectos fundamentais para o estudo do comportamento
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Hoje, falaremos sobre alguns aspectos em relação a como profissionais de saúde
podem interpretar alguns comportamentos percebidos em seus pacientes.
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Talvez, o mais importante a pensar seja bem básico: o que é comportamento? E ainda: o que é
considerado comportamento normal e patológico? Falaremos sobre como esses
comportamentos podem interagir com a atenção em saúde mental. Além disso, introduziremos
uma classificação mais clássica e muito difundida sobre os comportamentos, no viés da
psicanálise, que deve facilitar o entendimento inicial dessas questões.
Vamos lá? Você conheceu o funcionamento da Casa de Repouso Vida. Patrícia é uma estudante
de Psicologia e estagiária nesse local, que conta com uma equipe multidisciplinar bastante
atuante e aberta a novos métodos terapêuticos. Patrícia identificou que o Sr. Maurício, de 59
anos, tem uma patologia mental bem acentuada. Ele se distancia dos aspectos reais da vida,
uma vez que suas conversas são delirantes. O interno afirma que os enfermeiros substituíram
seus remédios por pílulas de veneno, por isso tem recusado a medicação, e isso agrava seu
quadro. Diz sentir-se em excelente estado de saúde, em suas palavras: “mais lúcido do que
qualquer um dos membros da equipe de saúde”. Afirma também que não precisa de medicação
porque os anjos têm falado para ele que seus poderes mentais o curaram. Patrícia recebeu a
tarefa de reavaliar o estado de saúde mental do Sr. Maurício, o que significa elaborar um parecer
explicando o quadro psíquico desse interno. Ajude-a a compreender o comportamento desse
paciente e a escrever um parecer para compartilhar com os demais profissionais da equipe de
saúde.
Vamos Começar!
Conhecimento de normal e patológico sobre diferentes
perspectivas
Quando tratamos de atenção à saúde mental, o principal elemento que avaliamos é o
comportamento do indivíduo. E mesmo quando pensamos em saúde de uma forma geral, o
comportamento do paciente pode ser um determinante importante para sua avaliação e seu
tratamento. Falar sozinho, rir sem motivos, introversão extrema, ansiedade, roer unhas, tudo isso
são comportamentos que podem dar pistas importantes para o profissional em saúde.
Mas, você sabe qual é a definição de comportamento?
Do ponto de vista psicológico, o comportamento pode ser sintetizado como o modo que o ser
humano age perante o seu ambiente. É o conjunto de reações, internas e externas, às interações
e renovação propiciadas pelo contato com si mesmo e com o meio em que está envolvido
(incluindo o meio social), que ocorrem de maneira dinâmica, viva (Comportamento, 2022).
A partir desse conceito, uma consequência que remete ao pai da psicanálise, Sigmund Freud, é a
estrutura dos nossos funcionamentos. Funcionamentos são padrões de resposta estabelecidos
pelos indivíduos. Geralmente, as pessoas respondem de maneira estereotipada, repetindo alguns
padrões usuais.
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Ele mesmo, Freud, criou três principais eixos de estrutura psíquica que podem determinar
funcionamentos e comportamentos: neurótica, psicótica e perversa (Freud, 2016).  O que são
eles?
Neuroses: são funcionamentos em que a pessoa fica com um conflito psíquico mantido em
segredo, oculto, inclusive de si mesmo. Por conta disso, o que incomoda fica recalcado
(escondido), e o sofrimento e suas causas não podem ser claramente identificados, ou
seja, o indivíduo apenas sente. Por falta da identificação da origem, a pessoa pode passar a
apresentar sintomas recorrentes.
Psicoses: na psicose, a pessoa vê fora de si tudo o que tem dificuldade de lidar como
sendo seu, o problema está sempre externo a ela. É fundamental diferenciar a visão
psicanalítica do que a psiquiatria considera um quadro de psicose, que ocorre quando há
uma quebra de contato com a realidade, com alucinações e delírios, por exemplo.
Perversões: são formas de obtenção de prazer a partir de relações não comuns, por
exemplo, os fetiches. Frequentemente, vêm associadas à recusa em reconhecer um
problema, uma dor.
Para Freud, uma vez estruturados, esses padrões de funcionamento não podem ser modificados,
apenas atenuados a partir da busca de ajuda, por exemplo, na psicoterapia.
E sempre fica uma dúvida: o que é normal ou patológico? O que é um comportamento normal e o
que é sintoma? Para isso, temos que olhar o conceito de patologia, que é a forma com que
definimos uma ou mais doenças.
Conforme o modelo médico, patologia ou doença é uma estrutura de sofrimento, com
características similares, evolução ao longo do tempo, que aumenta riscos para situações
específicas e responde a tratamentos de diversas maneiras.
Todavia, aqui, usaremos um conceito mais amplo de patologia, que vem da psicologia, que inclui
os adoecimentos psicológicos, os complexos, em que a patologia está associada ao excesso de
um padrão de funcionamento. As pessoas passam a responder de forma quase exclusiva,
repetida, e a resposta fica enraizada e cristalizada em uma das estruturas que vimos aqui
(neurose, psicose e perversão). Esse modelo de patologia pode ou não estar associado a um
adoecimento médico (Canguilhem, 2009).
E o que são sintomas?
“Na psicologia usamos sintoma para descrever uma forma de expressão de um conflito psíquico.
Este sintoma não necessariamente aparece no contexto de um adoecimento” (Calazans; Lustoza,
2012, p. 22).
E o normal?
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Epidemiologicamente, baseado na matemática, normal é aquilo que ocorre com maior
frequência. Mas a normalidade para a saúde e a psicologia não é apenas isso, envolve tudo que
não é considerado patológico seja perante o modelo médico, seja perante o que é considerado
patológico para a psicologia. (WHO, 1946, p. 983)
Comportamento normal e patológico
Já traçamos uma linha para discutirmos o conhecimento de normal e patológico sobre diferentes
perspectivas e falamos um pouco sobre funcionamentos e estruturas de comportamento. Mas,
você sabe como eles dialogam entre si?
Nós temos como tendência repetir padrões, mesmo que de forma inconsciente. É aparentemente
mais fácil. Se funcionou uma vez, seja para nós, seja para alguém que admiramos (como mãe,
pai, avô ou tia), a tendência é que repetiremos isso e usaremos o mesmo modelo para diversas
situações e áreas distintas. Isso também é parte de nossa cultura, do nosso aprendizado social.
No entanto, quando estamos repetindo algo que pode não fazer bem para nós ou para os outros,
devemos manter o comportamento, simplesmente por fazer parte da nossa cultura ou do modelo
aprendido em casa? Nossa resposta imediata e racional é "não"! Mas, e quando é um processo
tão precoce, tão enraizado que não conseguimos nem perceber o que fazemos ou pensar em um
comportamento diferente? Talvez, nesse caso, fique mais difícil!
Daí surgem as estruturas de funcionamento sugeridas por Freud. Ele, inclusive, fala que elas têm
uma origem precoce, na infância. E a questão não é brigar com a pessoa, não é exigir que ela
funcione de maneira correta, mas fazê-la entender que aquilo faz mal para ela e pode atrapalhar
no desenvolvimento de suas potencialidades. Ela não escolhe funcionar daquela maneira, mas,
enquanto profissionais de saúde, será que podemos ajudá-la a entender e repensar esses
padrões?
Será que temos que ser todos um pouco psicólogos? Será que essas mudanças são fáceis? Não
adianta pensar que qualquer um pode ajudar o outro a resolver seus conflitos em um piscar de
olhos, nem que basta falar que um problema existe para que ele se dissolva no ar. Por isso, é
importante conhecer esses aspectos e essas dimensões para pensar em como encaminhar e,
principalmente, como não cair na armadilha de funcionar como um modelo complementar.
Complementar? O que significa?Quando falamos de um modelo complementar, falamos de
alguém cujo comportamento sustenta os funcionamentos inadequados de outra pessoa. A
parceira que oferece mais bebida para o dependente de álcool, por exemplo. É um erro achar que
podemos corrigir o funcionamento do outro. No entanto, podemos ajudá-lo nesse processo de
busca e descobertas.
E aí aparece aquela palavra: normal. A normalidade, entendida como ausência total de
sofrimento e de qualquer sentimento negativo, é algo impossível. Algum grau de sofrimento faz
parte da existência humana, seja pelas perdas que testemunhamos nos últimos anos, seja pelas
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
coisas que já passaram e deixaram saudade. Algum grau de sofrimento faz parte, é considerado
normal. Porém, o sofrimento em excesso, que paralisa e bloqueia possibilidades, merece ser
entendido e tratado.
Siga em Frente...
Como lidar no dia a dia?
Já aprendemos que comportamentos são as maneiras como as pessoas reagem ao ambiente. A
tendência é que elas respondem de maneiras estereotipadas, com padrões de funcionamento, os
quais podem corresponder a estruturas psíquicas que podem ou não ser consideradas normais.
Agora, pensaremos em como os profissionais de saúde, de posse dessas informações, podem
entender melhor o atendimento de seus pacientes, seja no SUS ou em outros contextos.
Ter o domínio desses funcionamentos impacta, na prática, não apenas na qualidade do cuidado
prestado, mas também nas relações humanas dentro dos sistemas de saúde. Se sabemos, por
exemplo, que alguém tende a não se responsabilizar pelos seus problemas, por suas eventuais
faltas e falhas, colocando-se sempre no lugar de vítima, ela não está psicótica no sentido
psiquiátrico, mas pode apresentar um funcionamento psicótico do ponto de vista psicanalítico, o
que impede que ela desempenhe suas funções ou cuide de sua saúde de forma adequada.
E como isso impacta a nossa vida? Temos que entender que esse é um funcionamento daquela
pessoa (não nosso), e que a questão é fazê-la perceber o que está fazendo e que pense em
possibilidades de mudar determinados padrões de comportamento que podem ser prejudiciais.
Não adiantará terceirizar responsabilidades. Ela deve se apropriar do que é dela.
Outro exemplo é quando um paciente apresenta uma tendência a não falar claramente de seus
sintomas. É comum que ele seja rotulado como "chato" ou "poliqueixoso". Todavia, temos que
considerar que, muitas vezes, é uma pessoa que tem dificuldades em expressar seus afetos e
seus conflitos. A compreensão dessas limitações pode fazer com que consigamos ser mais
efetivos no acolhimento e no adequado encaminhamento desses casos.
E entre aqueles que apresentam comportamentos dentro da esfera das perversões, temos que
ter clareza que eles não fazem isso porque são maus, como alguns entendem no significado
mais leigo da palavra. Falar em perversão é falar de diversas maneiras de ter prazer, que podem
ser prejudiciais ou não à sociedade. Um político corrupto que tem prazer em fraudar, por
exemplo, pode impactar negativamente seu grupo.
Um paciente pode apresentar uma perversão que aparece no desrespeito a funcionários na
unidade, como recepcionistas, exercendo alguma fantasia rudimentar de poder, enquanto
apresenta atitudes submissas frente aos médicos. A identificação desses potenciais é
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
importante, não apenas para apontar a necessidade de correção desse comportamento por parte
do usuário, mas também para poder orientar e dar o suporte necessário para os funcionários que
eventualmente ele fere.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer e informar aqueles que não compreendem o
fenômeno, seja por serem vítimas, seja por não perceberem o que pode estar por trás de um
padrão de funcionamento. Dessa maneira, podemos ajudar de forma mais efetiva os usuários
dos sistemas de saúde não os rotulando, mas compreendendo que eles podem se comportar de
uma maneira pouco usual como reflexo de um sofrimento, de um conflito próprio deles que
carregam para todas as suas relações.
Vamos Exercitar?
Patrícia identificou que o Sr. Maurício, de 59 anos, tem uma patologia mental bem acentuada. Ele
se distancia dos aspectos reais da vida, uma vez que suas conversas são delirantes. O interno
afirma que os enfermeiros substituíram seus remédios por pílulas de veneno, por isso tem
recusado a medicação, e isso agrava seu quadro. Diz sentir-se em excelente estado de saúde, em
suas palavras: “mais lúcido do que qualquer um dos membros da equipe de saúde”. Afirma
também que não precisa de medicação porque os anjos têm falado para ele que seus poderes
mentais o curaram. Patrícia recebeu a tarefa de reavaliar o estado de saúde mental do Sr.
Maurício, o que significa elaborar um parecer explicando o quadro psíquico desse interno. Ajude-
a a compreender o comportamento desse paciente e a escrever um parecer para compartilhar
com os demais profissionais da equipe da saúde.
O paciente apresenta um quadro de paranoia bem definido. Ao acreditar que os enfermeiros
substituíram seus remédios por veneno, indica projetar no outro o sentimento de desconfiança
em relação ao mundo externo, e este é sentido como perigoso, capaz de envenená-lo. Além
disso, o paciente tem alucinações auditivas ligadas ao sentimento de onipotência, o que pode ser
observado quando diz que os anjos têm falado que seus poderes mentais o curaram. Outra
característica de onipotência é sentir-se acima de todos: “mais lúcido do que qualquer um dos
membros da equipe de saúde”. Conforme estudamos, a megalomania é um sentimento ilusório
ligado à crença onipotente e ao comportamento do sujeito.
Saiba mais
Um livro bastante interessante e de fácil compreensão é a obra intitulada Psicologias: uma
introdução ao estudo de Psicologia, da autoria de Ana Mercês Bahia Bock, Odair Furtado e Maria
de Lourdes Trassi Teixeira. Leia, mais especificamente, o Capítulo 3, que explica sobre a
Psicanálise.
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Outra obra bastante específica chama-se A personalidade normal e patológica, de Jean Bergeret,
que explica de maneira bem detalhada sobre a formação da nossa personalidade.
Referências
CALAZANS, R.; LUSTOZA, R. Z. Sintoma psíquico e medicina baseada em evidências. Arq. bras.
psicol., Rio de Janeiro, v. 64, n. 1, p. 18-30, abr. 2012. Disponível em:
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-
52672012000100003&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 9 dez. 2023.
CANGUILHEM, G. O Normal e o Patológico. Trad. Maria Thereza Redig de Carvalho Barrocas. 6.
ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.
COMPORTAMENTO. Dicio, 2023. Disponível em: https://www.dicio.com.br/comportamento/.
Acesso em: 9 dez. 2023.
FREUD, S. Explicações, aplicações e orientações. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das
obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 167-191.
FREUD, S. Neurose, psicose, perversão. In: FREUD, S. Obras incompletas de Sigmund Freud. Trad.
Maria Rita Salzano Moraes. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.
MIGUEL, F. K. et al. Atualização em avaliação e tratamento das emoções: as emoções e seu
processamento normal patológico. São Paulo: Vetor, 2016. Disponível em:
https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Loader/189664/epub. Acesso em: 9 dez. 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Constitution of the World Health Organization. Bulletin of the
World Health Organization, v. 80, n. 12, p. 983-984, 1946. Disponível em:
https://apps.who.int/gb/bd/PDF/bd47/EN/constitution-en.pdf?ua=1. Acesso em: 9 dez. 2023.
Aula 3
Psicologia da Saúde e Medicina Psicossomática
Psicologia da saúde e medicina psicossomática
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Ponto de Partida
Olá, estudante! A partir de agora, vamos nos deter mais especificamente aos temas relacionados
à saúde e à medicina psicossomática. Por medicina psicossomática, entendemos uma
abordagem da medicina que reconhece a interconexão entre os aspectos psicológicos e físicos
da saúde. Ela considera a influência das emoções, dos pensamentos e dos comportamentos na
saúde do corpo, bem como o impacto das condições físicas na saúde mental. Em outras
palavras, a medicina psicossomática busca compreender a maneira como fatores emocionais e
psicológicos podem contribuir para o desenvolvimento, a progressão ou o tratamento de
doenças físicas. Neste contexto, entenderemos o conceito de dor e vamos relacioná-lo a alguns
temas atuais na área da saúde, de modo que você possa ter o entendimento acerca do quanto
outros fatores (que não só o biológico) podem interferir no desenvolvimento da relação
saúde/doença.
Para nos embasar, partiremos da seguinte situação: Maria, uma mulher de 45 anos, procura um
profissional de saúde com queixas persistentes de dor crônica nas costas. Ela relata que essa
dor está afetando significativamente sua qualidade de vida, interferindo em suas atividades
diárias e causando perturbação emocional. Maria não possui histórico médico significativo de
lesões nas costas ou condições médicas graves. No entanto, ela menciona que sua dor
começou, aproximadamente, seis meses atrás, após um período de estresse intenso no trabalho
e conflitos familiares. Durante esse período, ela também experimentou insônia e ansiedade. No
momento da entrevista, Maria expressa frustração e preocupação com sua condição de dor
crônica. Ela relata que sua vida se tornou mais restrita devido à dor, evitando atividades que
costumava desfrutar. Maria também compartilha que se sente frequentemente cansada e
desmotivada. Além disso, ela revela um histórico de preocupações persistentes e autocrítica em
relação ao seu desempenho no trabalho e às suas relações familiares. Os exames médicos
convencionais não revelam nenhuma lesão ou anomalia estrutural que explique a intensidade da
dor de Maria.
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
E agora, como podemos ajudar Maria a compreender qual a origem de sua dor? E, mesmo assim,
é possível tratá-la? Como?
Então, mãos à obra!
Vamos Começar!
Conceitos iniciais
O campo da psicologia da saúde emergiu relativamente recentemente, precisamente na década
de 1970, em resposta aos desafios apresentados pela constante evolução no domínio da saúde e
dos cuidados médicos. Há um século, a expectativa de vida média mal alcançava os 50 anos,
substancialmente inferior aos padrões atuais. Nesse período, as principais causas de morte
eram doenças infecciosas, como pneumonia, tuberculose, diarreia e enterite, resultando,
principalmente, do consumo de água contaminada, alimentos inadequadamente processados ou
contato com pessoas doentes (Brannon; Updegraff; Feist, 2023).
Naquela época, os cuidados médicos eram procurados apenas após o adoecimento, com poucas
opções terapêuticas disponíveis. A maioria das doenças infecciosas, como febre tifoide,
pneumonia e difteria, apresentava uma duração relativamente curta, levando à recuperação ou à
morte em questão de semanas. A responsabilidade percebida por contrair doenças contagiosas
e incontroláveis era limitada (Brannon; Updegraff; Feist, 2023).
Hoje, a realidade da vida e morte é drasticamente diferente. A expectativa de vida se aproxima
dos 76 anos, e um número crescente de pessoas vive além dos 100 anos. Além disso, o
saneamento básico melhorou consideravelmente, e vacinas e tratamentos eficazes foram
desenvolvidos para diversas doenças infecciosas.
Contudo, esses avanços levaram a um novo desafio: o surgimento de doenças crônicas como as
principais causas de mortalidade. Doenças cardíacas, câncer e acidente vascular encefálico
(AVE) são agora persistentes e afetam as pessoas por longos períodos. Embora milhões de
pessoas morram anualmente em decorrência das doenças crônicas, inúmeras vivem com pelo
menos uma delas. Notavelmente, a maioria das mortes atualmente está ligada a doenças
associadas ao estilo de vida, como tabagismo, abuso de álcool, alimentação inadequada,
estresse e sedentarismo.
Dado que as principais causas de morte hoje estão relacionadas ao estilo de vida e ao
comportamento, as pessoas têm maior controle sobre sua saúde do que no passado. No
entanto, muitos não exercem esse controle, resultando em comportamentos não saudáveis e
contribuindo para os crescentes custos dos cuidados de saúde. Desta forma, pode-se perceber
as mudanças nos padrões de doenças e incapacidades, assim como os custos em ascensão nos
cuidados de saúde, destacando a necessidade de uma visão mais abrangente da saúde. Os
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
profissionais da área da saúde adotam o modelo biopsicossocial para compreender e abordar
essas complexas interações entre fatores biológicos, psicológicos e sociais (Straub, 2014).
O conceito do modelo biopsicossocial reconhece a influência de fatores psicológicos e
emocionais no desenvolvimento de problemas de saúde física. Essa perspectiva não é uma
novidade, remontando a ideias propostas por filósofos como Sócrates e Hipócrates séculos
atrás. Sigmund Freud também aventurou a ideia de que fatores psicológicos inconscientes
poderiam desempenhar um papel nos sintomas físicos, embora sua abordagem carecesse de
fundamentação em pesquisas científicas sistemáticas.
Em 1932, Walter Cannon observou a relação entre emoções e mudanças fisiológicas,
inaugurando uma busca para entender como as causas emocionais estão ligadas à saúde e à
doença (Kimball, 1981 apud Brannon; Updegraff; Feist, 2023). Cannon demonstrou que as
emoções podem desencadear alterações fisiológicas com potencial para contribuir para o
surgimento de doenças. Helen Flanders Dunbar (1943 apud Brannon; Updegraff; Feist, 2023)
expandiu essa compreensão, propondo que as respostas habituais que as pessoas manifestam
como parte de suas personalidades podem estar associadas a doenças específicas. Em outras
palavras, Dunbar formulou a hipótese de uma relação entre o tipo de personalidade e a
predisposição a certas doenças.
Posteriormente, Franz Alexander, um seguidor de Freud, passou a ver conflitos emocionais como
antecedentes de determinadas doenças. Essas perspectivas levaram à consideração de diversas
condições específicas como "psicossomáticas", incluindo transtornos, como úlcera péptica,
artrite reumatoide, hipertensão, asma, hipertireoidismo e colite ulcerativa. No entanto, a crença
prevalente na época, fundamentada na separação entre mente e corpo, originalmente proposta
por Descartes, levou muitos leigos a desconsiderarem esses transtornos psicossomáticos como
sendo mais de origem psicológica do que real (Brannon; Updegraff; Feist, 2023).
Assim, embora a medicina psicossomática tenha contribuído para a compreensão das
interações entre condições emocionais e físicas, ela também enfrentou resistência ao
menosprezar os componentes psicológicos das doenças. No entanto, a medicina
psicossomática lançou as bases para a transição para o modelo biopsicossocial de saúde e
doença (Novack et al., 2007).
Sobre a dor
A intricada interação entre o cérebro e o corpo se revela de maneira notável no estudo da dor.
Pode-se pensar que uma vida isenta de dor seria algo desejável. Entretanto, a dor desempenha
um papel essencial e fundamental na sobrevivência; é a forma do corpo de sinalizara presença
de lesões. Existem alguns casos de indivíduos que possuem um raro transtorno genético
conhecido como insensibilidade congênita à dor, que não têm a capacidade de sentir dor. Devido
a essa condição, necessitam de monitoramento cuidadoso, frequentemente sofrendo lesões
graves sem qualquer percepção, como fraturas ósseas, mordeduras na língua, cortes,
queimaduras, lesões oculares e infecções. Muitos que enfrentam esse transtorno falecem em
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
idade relativamente jovem devido a problemas de saúde que poderiam ter sido tratados se
tivessem a capacidade de atentar para os sinais de alerta fornecidos pela dor.
Em outros cenários, como nos casos de pessoas que lidam com dor crônica, esta pode persistir
sem uma causa aparente. Em situações extremas, há algumas condições inusitadas, como a dor
no membro fantasma, em que os indivíduos sentem dor em partes do corpo que não existem. No
entanto, para a maioria, a dor é uma experiência desagradável e desconfortável, a ser evitada
sempre que possível. As crenças em relação à dor, como a convicção de um trabalhador da
construção civil de que está ferido, por exemplo, influenciam a experiência do indivíduo perante a
dor. Portanto, existem inúmeros mistérios que envolvem o fenômeno da dor.
Até aproximadamente cem anos atrás, a percepção predominante era de que a dor resultava
diretamente de uma lesão física, sendo a extensão do dano tecidual determinante para a
intensidade da dor. Contudo, no final do século XIX, C. A. Strong desafiou essa visão simplista,
propondo que a dor resulta de dois fatores: a sensação em si e a resposta da pessoa a essa
sensação. Esse enfoque destacava a igual importância de fatores psicológicos e causas físicas,
marcando o início de uma redefinição da experiência da dor e o surgimento de novas teorias
sobre o tema (Portnoi, 2014).
A definição de dor é desafiadora devido à sua natureza multifacetada. Alguns estudiosos
enfocam a fisiologia subjacente à percepção da dor, enquanto outros enfatizam a natureza
subjetiva desse fenômeno. A International Association for the Study of Pain (IASP) define a dor
como uma “experiência sensorial e emocional desagradável associada a dano tecidual real ou
potencial, ou descrita em relação a tal dano”. Essa definição destaca a natureza subjetiva da dor,
reconhecendo que ela pode ser causada por múltiplos fatores, alinhando-se com a abordagem
biopsicossocial (Portnoi, 2014).
Assim, a experiência da dor é individual e subjetiva, podendo também ser ocasionada por fatores
situacionais e culturais. Estudos evidenciam que o significado atribuído à dor desempenha um
papel crucial em sua intensidade. Além disso, a dor é também influenciada por diferenças
individuais, aprendizado social e modelagem de comportamento. Variações culturais na
percepção da dor são evidentes, destacando-se na expressão de comportamentos dolorosos e
nas expectativas culturais relacionadas ao parto, por exemplo.
Diferenças de gênero na percepção da dor também são exploradas, com estereótipos frequentes
sugerindo que as mulheres são mais sensíveis. As pesquisas indicam que as mulheres relatam
dor mais facilmente e experienciam mais condições de dor crônica, embora as diferenças entre
os sexos, especialmente em situações de dor aguda ou crônica, sejam sutis. Fatores, como
papéis de gênero, socialização, hormônios sexuais e estratégias de enfrentamento, contribuem
para a complexidade dessas diferenças.
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Temas básicos
A psicologia da saúde e a medicina psicossomática são áreas interdisciplinares que buscam
compreender a interação entre fatores psicológicos, sociais e biológicos na promoção da saúde
e no desenvolvimento de doenças. A seguir estão alguns conceitos básicos dessas áreas:
A psicologia da saúde é uma área da psicologia que se concentra no estudo e na aplicação
de princípios psicológicos para entender como fatores psicológicos, sociais e
comportamentais afetam a saúde física e o bem-estar. Ela também busca desenvolver
intervenções para melhorar a saúde e prevenir doenças. Envolve alguns aspectos
importantes, tais como:
Modelo biopsicossocial: a psicologia da saúde adota uma abordagem
biopsicossocial reconhecendo a interação entre fatores biológicos, psicológicos e
sociais na saúde e na doença. Esse modelo considera não apenas os aspectos
físicos, mas também os psicológicos e sociais que contribuem para a saúde global de
um indivíduo.
Comportamentos de saúde: estuda como os comportamentos individuais, como
dieta, exercício, tabagismo e consumo de álcool, afetam a saúde. A psicologia da
saúde se preocupa em entender por que as pessoas adotam ou evitam
comportamentos saudáveis.
Estresse e coping: examina a relação entre o estresse psicológico e a saúde física.
Além disso, investiga estratégias de enfrentamento (coping) que as pessoas usam
para lidar com o estresse e suas consequências para a saúde.
Adesão ao tratamento: analisa os fatores psicológicos que influenciam a adesão dos
pacientes aos planos de tratamento médico, incluindo a motivação, as crenças, as
percepções de controle e o suporte social.
Psicologia preventiva: concentra-se em estratégias psicológicas para prevenir
doenças e promover a saúde. Isso inclui a promoção de comportamentos saudáveis e
a identificação de fatores de risco.
Relação médico-paciente: explora como a comunicação entre médicos e pacientes,
bem como a qualidade do relacionamento, afetam a adesão ao tratamento e os
resultados de saúde.
Qualidade de vida: avalia a qualidade de vida relacionada à saúde, considerando não
apenas a ausência de doença, mas também o bem-estar emocional, social e
funcional.
Intervenções psicológicas: desenvolve e implementa intervenções psicológicas para
auxiliar no tratamento de condições médicas, reduzir o estresse e melhorar a
qualidade de vida.
Desta forma, percebe-se que a psicologia da saúde desempenha um papel crucial na promoção
de abordagens holísticas para o cuidado de saúde, reconhecendo a importância de uma
compreensão integrada do indivíduo e de seu contexto para alcançar resultados de saúde
positivos.
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
A medicina psicossomática, por sua vez, estuda como fatores psicológicos podem
influenciar a saúde física e como condições médicas podem afetar o bem-estar emocional
através da investigação de sintomas físicos que podem ter uma base psicológica, muitas
vezes em casos nos quais não há uma explicação médica clara. Alguns pontos relevantes
em relação a essa temática:
Doenças psicossomáticas: são condições médicas em que os fatores psicológicos
desempenham um papel significativo no desenvolvimento, na exacerbação ou no
tratamento da doença.
Placebo e nocebo: estudo dos efeitos positivos (placebo) e negativos (nocebo) que
podem ocorrer devido às expectativas do paciente em relação a um tratamento.
Abordagem integrada: enfatiza a importância de uma abordagem integrada que
combine intervenções médicas e psicológicas para o tratamento eficaz de certas
condições de saúde.
Assim, entende-se que ambas as áreas destacam a importância da colaboração entre
profissionais de saúde física e mental para uma compreensão mais abrangente e tratamento
holístico dos indivíduos, já que a mente e o corpo são considerados interconectados e a saúde é
vista como um resultado da interação dinâmica de vários fatores.
Vamos Exercitar?
Como podemos ajudar Maria que vem sofrendo de fortes dores nas costas sem ter nenhum tipo
de lesão?
O profissional de saúde deve trabalhar com Maria em uma abordagem integrada, considerando
não apenas os aspectos físicos, mas também os fatores psicológicos e sociais. Assim, Maria
deve ser encaminhada a um profissional de saúde mental para avaliação psicológica mais
detalhada. Durante a terapia, deverão ser explorados os fatores emocionais subjacentes à dor de
Maria para descobrir a que essa sua dor crônica está associada.
Com relação ao tratamento, a intervenção deve incluir uma abordagem biopsicossocialtambém,
combinando tratamento médico para alívio da dor com intervenções psicoterapêuticas. Maria
deverá participar de sessões de terapia para lidar com padrões de pensamento negativos e
estratégias de enfrentamento inadequadas. Além disso, deverá ser incentivada a praticar
técnicas de relaxamento e mindfulness para gerenciar o estresse.
Espera-se que, conforme o tempo vá se passando, Maria experimente uma melhoria significativa
na intensidade da dor, bem como no seu bem-estar emocional, com maior capacidade de lidar
com o estresse no trabalho e resolver alguns conflitos familiares. A abordagem biopsicossocial
deverá permitir uma compreensão mais abrangente de sua condição e uma intervenção eficaz,
considerando tanto os aspectos físicos quanto os emocionais.
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Esse caso destaca a complexidade da dor crônica e a necessidade de uma abordagem integrada
que leve em consideração fatores psicológicos e sociais. A medicina psicossomática e a
psicologia da saúde desempenham papéis essenciais na compreensão e no tratamento da
condição de Maria, ilustrando a importância de uma abordagem holística na prática clínica.
Saiba mais
Uma leitura bastante interessante acerca desses temas é Dor Psicossomática, um grito de
socorro do corpo, de Ione Oliveira da Silva Souza e colaboradores, que busca compreender a
relação mente e corpo, podendo desencadear doenças psicossomáticas.
Além disso, outra leitura bastante interessante é a do artigo Fibromialgia: aspectos dolorosos e
psicossomáticos, de Michely Mendes Ciardulo Trajano, em que se realiza um levantamento
histórico da síndrome da fibromialgia e sua relação com aspectos dolorosos psicossomáticos a
partir dos constructos teóricos científicos.
Referências
BRANNON L.; UPDEGRAFF, J. A.; FEIST, J. Psicologia da saúde: uma introdução ao
comportamento e à saúde. São Paulo: Cengage, 2023.
NOVACK, D. H. et al. Psychosomatic medicine: the scientific foundation of the biopsychosocial
model. Academic Psychiatry, v. 31, p. 388-401, 2007.
PORTNOI, A. G. A psicologia da dor. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. 272p.
SERAFIM, A. P.; ROCCA, C. C. A.; GONÇALVES, P. D. Intervenções neuropsicológicas em saúde
mental. Barueri: Manole, 2020.
SOUZA, I. C. W.; KOZASA, E. H. Saúde mental: desafios contemporâneos. Barueri: Manole, 2023.
STRAUB, R. O. Psicologia da saúde: uma abordagem biopsicossocial. 3. ed. Porto Alegre: Artmed,
2014.
Aula 4
As Políticas de Saúde Mental
Disciplina
PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
As políticas de saúde mental
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Bons estudos!
Ponto de Partida
Olá, estudante! Já falamos sobre a medicina psicossomática e a dor. Já compreendemos que,
muitas vezes, as dores físicas podem não se referir apenas a aspectos relacionados aos
componentes biológicos (físicos), mas também a fatores sociais e/ou psicológicos. Além disso,
existe outra condição que se refere ao estado geral do bem-estar psicológico e emocional de
uma pessoa, que envolve a capacidade de lidar com o estresse normal da vida, trabalhar de
maneira produtiva, contribuir para a comunidade e tomar decisões. Essa condição é a saúde
mental. A saúde mental não é apenas a ausência de transtornos mentais, mas também a
presença de aspectos positivos, como resiliência, autoestima e habilidades sociais.
Neste sentido, iniciaremos nossos estudos por essa área de extrema importância, começando
pela nossa situação-problema: o Sr. Oliveira, de 60 anos, tem uma história marcada por desafios
na área de saúde mental. Nascido em uma época em que o modelo asilar era predominante, ele
foi diagnosticado com transtorno mental na juventude e passou grande parte de sua vida em
instituições psiquiátricas. O Hospício Pedro II, no Rio de Janeiro, foi seu primeiro lar institucional.
Nos primeiros anos, a ênfase era em aspectos religiosos e caritativos. Com a Proclamação da
República, houve uma transição para uma abordagem mais “medicalizante”. O Sr. Oliveira, assim
como muitos na época, experimentou práticas intensificadas e, por vezes, violentas no ambiente
asilar. Com o tempo, as instituições psiquiátricas, incluindo o Hospício Pedro II, tornaram-se alvo
de críticas por más condições, superlotação e altas taxas de mortalidade. Influenciado por
modelos adotados em outros países, o Brasil começou a discutir propostas de reforma na saúde
mental. Na década de 1970, surge o Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental e a iniciativa
pela Reforma Psiquiátrica Brasileira. A ideia central era desconstruir o modelo manicomial,
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
promovendo a desinstitucionalização. O Sr. Oliveira, então internado, tornou-se parte desse
movimento. Com a Reforma, a proposta era reintegrar os pacientes à sociedade. Mas, e agora,
como o Sr. Oliveira, que passou a maior parte de sua vida institucionalizado, conseguirá se
reinserir na sociedade? Ele terá amparo (social, psicológico e econômico) para isso?
São essas as questões que analisaremos nesta aula de hoje. Vamos lá?
Vamos Começar!
Histórico
Diversos modelos de assistência marcaram a evolução da saúde mental no Brasil. As
transformações nas concepções epistemológicas e simbólicas da loucura e do adoecimento
mental no país influenciaram a configuração de práticas diversas e formas organizativas de
cuidado. Além disso, os contextos sociopolíticos e econômicos, junto à organização do sistema
de saúde, contribuíram para a metamorfose das instituições e abordagens (Sampaio; Bispo Jr.,
2021).
A origem do cuidado institucionalizado no Brasil remonta à criação do Hospício Pedro II, no Rio
de Janeiro, em 1841, que fora criado com a intenção de afastar do convívio social aqueles
considerados desfavoráveis, desta forma, percebemos que as primeiras ações institucionais se
basearam nos preceitos higienistas e na privação da liberdade daqueles percebidos como
ameaças à ordem pública (Sampaio; Bispo Jr., 2021).
Nesse estágio inicial, o ambiente asilar era caracterizado por uma ênfase em aspectos religiosos
e caritativos. Com a Proclamação da República, o Hospício Pedro II desvinculou-se da Santa
Casa de Misericórdia, assumindo uma abordagem mais intensamente medicalizante na esfera da
psiquiatria científica. A partir desse momento, os hospícios ocuparam um papel central no
modelo de assistência à loucura. Essa fase foi marcada pela ampliação do caráter asilar e da
busca pela normalização social, o que resultou em práticas mais intensificadas de cunho violento
e higiênico (Sampaio; Bispo Jr., 2021).
Consequentemente, os hospitais psiquiátricos passaram a ser alvo de críticas devido a situações
de maus-tratos, abandono, superlotação e elevada taxa de mortalidade (Tenório, 2002). Essas
críticas, aliadas à influência de diferentes modelos adotados em outros países, como França,
Estados Unidos e Itália, impulsionaram propostas de reforma no cuidado em saúde mental no
Brasil (Sampaio; Bispo Jr., 2021).
Uma das principais “batalhadoras” por essa luta foi Nise da Silveira (1905-1999), uma psiquiatra
brasileira conhecida por seu trabalho inovador no campo da psiquiatria e da saúde mental. Ela
desafiou as práticas convencionais da época, especialmente no tratamento de pacientes com
doenças mentais graves, como esquizofrenia. Suas ações mais destacadas aconteceram no
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Hospital Pedro II, no Rio de Janeiro, onde desafiou as práticas convencionais da época, propondo
métodos terapêuticos mais humanizados, baseados na arte e na expressão criativa. Sua
abordagem foi uma tentativa de compreender aexperiência subjetiva dos pacientes e promover a
sua reintegração social, em contraste com as práticas mais restritivas e estigmatizantes que
eram comuns naquela época.
Ao longo das décadas em que Nise da Silveira atuou, suas ideias foram ganhando
reconhecimento, e ela se tornou uma figura influente na transformação das práticas psiquiátricas
no Brasil. Seu trabalho contribuiu para uma mudança de paradigma no tratamento de pacientes
psiquiátricos, destacando a importância da humanização e da compreensão das dimensões
subjetivas da experiência mental.
Assim, no final da década de 1970, surgiram as primeiras iniciativas em prol da Reforma
Psiquiátrica Brasileira e da criação do Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental. Com a
união de diversos atores envolvidos na temática da saúde mental, o principal objetivo do
movimento era criar condições para a desconstrução do modelo manicomial então vigente
(Amarante; Torre, 2017). Segundo Amarante (2013), a Reforma Psiquiátrica Brasileira pressupõe
uma nova relação entre sociedade, sofrimento mental e instituições, com o propósito de oferecer
um novo lugar social para a loucura e promover o aumento das potências de vida das pessoas
em sofrimento mental.
Assim, a ideia central da Reforma Psiquiátrica Brasileira é a proposta da desinstitucionalização,
visando desconstruir a visão manicomial para que os pacientes possam estar reinseridos na
sociedade, adotando a desinstitucionalização como referência. Para tanto, prevê a criação de
uma rede de serviços substitutivos de modo a ofertar o cuidado integral aos pacientes em
sofrimento psíquico que, agora, devem estar reinseridos na sociedade. 
Políticas de saúde mental
As políticas de saúde mental referem-se ao conjunto de estratégias, diretrizes e ações
governamentais voltadas para a promoção, prevenção, tratamento e reabilitação em questões
relacionadas à saúde mental da população. Essas políticas têm como objetivo principal garantir
o bem-estar psicológico e emocional das pessoas, além de combater o estigma associado a
transtornos mentais.
Tudo tem início com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e o questionamento da cultura
manicomial. Durante essa fase, houve uma transição do modelo de atendimento em saúde
mental, substituindo a estrutura hospitalocêntrica por serviços abertos, diversificados e
territoriais, com o objetivo de integrar os indivíduos em sofrimento mental à comunidade. Neste
contexto, a década de 1980 foi marcada por mobilizações, conferências e a criação do
Movimento da Luta Antimanicomial, promovendo ideias de desinstitucionalização e modelo
psicossocial.
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Iniciativas, como a abertura do primeiro CAPS, em 1987, e o fechamento de instituições
hospitalares tradicionais, impulsionaram o cuidado desinstitucionalizante. A década de 1990 foi
crucial para a Reforma Psiquiátrica Brasileira, com a descentralização da gestão e criação de
dispositivos legais e novos modelos assistenciais. A promulgação da Lei da Reforma
Psiquiátrica, em 2001, e a criação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), em 2011,
representaram avanços legais e organizacionais.
Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei nº 10.216/2001): esta lei foi um marco fundamental ao
estabelecer os direitos das pessoas com transtornos mentais e diretrizes para o tratamento
mais humanizado, com ênfase em serviços de base comunitária. Esta legislação aborda
alguns pontos-chave, tais como:
A desinstitucionalização: buscando a substituição progressiva dos manicômios por
serviços comunitários e abertos.
Direitos dos pacientes: estabelece os direitos das pessoas em sofrimento mental,
garantindo-lhes tratamento humanitário, dignidade e respeito à sua autonomia.
Internação involuntária: regulamenta a internação psiquiátrica involuntária, definindo
critérios e limites para sua realização, visando proteger os direitos dos pacientes.
Rede de Atenção Psicossocial (RAPS): contribui para a criação e consolidação da
Rede de Atenção Psicossocial, promovendo uma abordagem mais ampla e integrada
no cuidado em saúde mental.
Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs): reconhece a importância dos SRTs como
parte do processo de desospitalização, oferecendo alternativas de moradia para
pessoas em sofrimento mental.
A Lei nº 10.216/2001 foi uma conquista significativa na busca por uma abordagem mais
humanizada e inclusiva no tratamento de questões relacionadas à saúde mental, alinhada aos
princípios da Reforma Psiquiátrica Brasileira.
Política Nacional de Saúde Mental (2005): a criação desta política reforçou o compromisso
do Brasil com a Reforma Psiquiátrica, promovendo a desinstitucionalização, o
fortalecimento da atenção básica em saúde mental e a inclusão social. Trata-se de um
conjunto de diretrizes, estratégias e ações governamentais voltadas para a promoção da
saúde mental da população. No Brasil, essa política tem evoluído ao longo do tempo,
refletindo mudanças nas abordagens e práticas relacionadas à saúde mental. Alguns
pontos relevantes incluem:
Reforma psiquiátrica: a Política Nacional de Saúde Mental está alinhada com os
princípios da Reforma Psiquiátrica Brasileira, que busca a superação do modelo
manicomial, priorizando a desinstitucionalização e a oferta de serviços comunitários.
Descentralização e regionalização: propõe a descentralização das ações de saúde
mental, buscando uma distribuição mais equitativa dos serviços e recursos em
diferentes regiões do país.
Atenção integral: busca promover uma abordagem integral no cuidado em saúde
mental, considerando não apenas o tratamento de transtornos mentais, mas também
a promoção da qualidade de vida, prevenção e reabilitação psicossocial.
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
Rede de Atenção Psicossocial (RAPS): estabelece a estruturação da Rede de Atenção
Psicossocial, que engloba uma variedade de serviços, como Centros de Atenção
Psicossocial (CAPS), Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs), unidades de
acolhimento, entre outros, visando oferecer opções diversificadas de cuidado.
Participação social: incentiva a participação ativa da sociedade, usuários, familiares e
profissionais de saúde na elaboração, na implementação e no monitoramento das
políticas de saúde mental.
Enfrentamento do estigma: busca combater o estigma associado aos transtornos
mentais, promovendo a inclusão social e o respeito aos direitos das pessoas em
sofrimento mental.
Prevenção ao uso abusivo de substâncias: inclui estratégias de prevenção e
tratamento para questões relacionadas ao uso abusivo de álcool e outras substâncias
psicoativas.
Rede de Atenção Psicossocial (RAPS): foi criada em 2011 como um marco importante no
campo da saúde mental no Brasil. Essa iniciativa teve o objetivo de garantir e ampliar o
acesso da população ao cuidado em saúde mental, promovendo uma articulação entre
diversos pontos de atenção para assegurar um acompanhamento longitudinal e integral. A
RAPS enfatizou a importância do cuidado territorializado e comunitário, representando uma
evolução nas estratégias de assistência em saúde mental.
Apesar dos avanços, o Brasil ainda enfrenta desafios significativos na área de saúde mental,
incluindo a superlotação de hospitais psiquiátricos, o estigma social associado a transtornos
mentais e a necessidade contínua de expandir e melhorar os serviços comunitários.
Ainda assim, a história da saúde mental no Brasil reflete uma trajetória de transformação, com
um movimento contínuo em direção a práticas mais humanizadas, inclusivas e integradas à
comunidade.
Siga em Frente...
Saúde mental na prática
A promoção da saúde mental na prática envolve uma abordagem integrada que considera
diversos aspectos do bem-estar psicológico e emocional das pessoas. Aqui estão algumas
estratégias e práticas relacionadas à saúde mental:
Autoconhecimento e autocuidado: deve ser incentivada a prática do autoconhecimento, que
envolve a compreensão das próprias emoções, limites e necessidades, de modo a
promover o autocuidado, encorajando hábitos saudáveis, como uma boa alimentação,sono
adequado, atividade física regular e pausas para o descanso.
Construção de relacionamentos saudáveis: relacionamentos positivos são fundamentais
para a saúde mental. Deve-se encorajar a construção e a manutenção de conexões sociais
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saudáveis, seja com amigos, familiares ou colegas. O apoio social desempenha um papel
crucial na resiliência emocional.
Equilíbrio entre trabalho e vida: deve-se fazer uso de estratégias para alcançar um equilíbrio
saudável entre vida profissional e pessoal. Isso inclui estabelecer limites, aprender a dizer
não quando necessário e buscar momentos de lazer e relaxamento.
Resiliência e manejo do estresse: desenvolver habilidades de enfrentamento e resiliência é
essencial. Educar sobre técnicas de gerenciamento do estresse, como a prática de
mindfulness, meditação e respiração profunda.
Prevenção ao estigma: trabalhar para reduzir o estigma associado aos transtornos mentais,
promovendo um ambiente inclusivo e respeitoso. Isso pode ser feito por meio de
campanhas de conscientização, educação e promoção da empatia.
Apoio psicoterapêutico e psiquiátrico: incentivar a busca por apoio profissional quando
necessário. Isso pode incluir terapias psicológicas, aconselhamento e, em casos mais
complexos, intervenções psiquiátricas. Certifique-se de que os serviços de saúde mental
estejam acessíveis e desprovidos de estigmatização.
Inclusão e empoderamento: promover a inclusão de pessoas com transtornos mentais,
apoiando ambientes de trabalho e comunidades que reconheçam e valorizem a
diversidade. Empoderar os indivíduos a participarem ativamente das decisões que afetam
suas vidas contribui para a construção de uma sociedade mais saudável.
Educação continuada: fornecer informações sobre saúde mental, seus determinantes e
estratégias de prevenção. Isso contribui para a conscientização e ajuda a eliminar
equívocos comuns associados à saúde mental.
Ao adotar essas práticas, é possível criar um ambiente que promova a saúde mental,
estimulando o bem-estar emocional, a resiliência e a qualidade de vida. Essas ações podem ser
implementadas em diversos contextos, como ambiente de trabalho, escolas, comunidades e
ambientes familiares.
Vamos Exercitar?
O Sr. Oliveira, de 60 anos, enfrentou desafios significativos na área de saúde mental, marcados
pela era asilar e medicalização. Diagnosticado com transtorno mental na juventude, passou
grande parte de sua vida em instituições psiquiátricas, sendo o Hospício Pedro II seu primeiro lar
institucional. Inicialmente, a ênfase era religiosa e caritativa, mas, com a Proclamação da
República, houve uma transição para uma abordagem mais “medicalizante”, resultando em
práticas intensificadas e, por vezes, violentas no ambiente asilar. Na década de 1970, com o
Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental e a iniciativa pela Reforma Psiquiátrica
Brasileira, o Sr. Oliveira finalmente teve a chance de sair do tratamento asilar e se reinserir na
sociedade. Mas, e agora, como o Sr. Oliveira, que passou a maior parte de sua vida
institucionalizado, conseguirá se reinserir na sociedade? Ele terá amparo (social, psicológico e
econômico) para isso?
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
A princípio, o Sr. Oliveira deverá ser transferido para Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs),
oferecendo uma alternativa à hospitalização. A Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei nº 10.216/2001)
foi fundamental nesse contexto, pois garantiu direitos e estabeleceu critérios para internações.
Ao longo dos anos, as políticas de saúde mental evoluíram. A Política Nacional de Saúde Mental
(2005) reforçou o compromisso com a Reforma Psiquiátrica, descentralizando a gestão e
promovendo a atenção integral. A criação da RAPS (2011) ampliou o acesso e articulou serviços
comunitários. Apesar dos avanços, desafios persistem. O Sr. Oliveira, agora na comunidade,
enfrenta estigma social. Estratégias, como educação continuada, apoio psicoterapêutico e
inclusão, são implementadas para promover sua saúde mental.
Além disso, recomenda-se algumas práticas para se poder trabalhar com o Sr. Oliveira de modo
que ele possa se sentir reintegrado à sociedade:
Autoconhecimento e autocuidado: o Sr. Oliveira deve ser incentivado a compreender suas
emoções e adotar hábitos saudáveis.
Construção de relacionamentos: participação em grupos de apoio e atividades
comunitárias para fortalecer conexões sociais.
Equilíbrio entre trabalho e vida: explorar oportunidades de emprego adaptado às suas
habilidades e interesses.
Resiliência e manejo do estresse: aprender técnicas de gerenciamento do estresse.
Apoio psicoterapêutico e psiquiátrico: acesso contínuo a serviços de saúde mental.
Inclusão e empoderamento: participação em iniciativas que reconheçam e valorizem sua
experiência.
Este estudo de caso ilustra a transformação no cuidado em saúde mental no Brasil, destacando
as mudanças históricas, a implementação de políticas e as práticas recomendadas para a
promoção da saúde mental de indivíduos como o Sr. Oliveira.
Saiba mais
Uma leitura bastante interessante acerca desses temas é Mecanismos de Defesa em Pacientes
Oncológicos Recidivados: um estudo clínico-qualitativo, da autoria de Gizelle Mendes Borges e
Rodrigo Sanches Peres. Neste artigo, você perceberá como a regressão se manifesta no discurso
do paciente.
Além disso, o livro O que é psicanálise: para iniciantes ou não..., da autoria de Fabio Hermann, faz
uma introdução ao tema da psicanálise com uma linguagem bastante clara, facilitando o
aprendizado.
Você também pode assistir a dois filmes brasileiros que são fantásticos e explicam muito acerca
das políticas de saúde mental no Brasil. São ele: Nise, o coração da loucura e Bicho de sete
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
cabeças. Não deixe de assistir!
Referências
AMARANTE, P. Saúde mental e atenção psicossocial. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2013.
AMARANTE, P.; TORRE, E. H. G. Loucura e diversidade cultural: inovação e ruptura nas
experiências de arte e cultura da Reforma Psiquiátrica e do campo da Saúde Mental no Brasil.
Interface: Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 21, n. 63, p. 763-774, 2017.
BRASIL. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas
portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.
Brasília: Presidência da República, [2025]. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm. Acesso em: 10 dez. 2023.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações
Estratégicas. Coordenação Geral de Saúde Mental. Reforma psiquiátrica e política de saúde
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Saúde Mental: 15 anos depois de Caracas. Brasília: Ministério da Saúde, 2005.
BRASIL. Portaria nº 3.588, de 21 de dezembro de 2017. Altera as Portarias de Consolidação n. 3
e n. 6, de 28 de setembro de 2017, para dispor sobre a Rede de Atenção Psicossocial, e dá outras
providências. Disponível em:
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prt3588_22_12_2017.html. Acesso em: 10
dez. 2023.
BRASIL. Resolução nº 32, de 14 de dezembro de 2017. Estabelece as Diretrizes para o
Fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Brasília: Comissão Intergestores
Tripartite, [2025]. Disponível em:
http://www.lex.com.br/legis_27593248_RESOLUCAO_N_32_DE_14_DE_DEZEMBRO.aspx. Acesso
em: 10 dez. 2023.
SAMPAIO, M. L.; BISPO JÚNIOR, J. P. Entre o enclausuramento e a desinstitucionalização: a
trajetória da saúde mental no Brasil. Trabalho, Educação E Saúde, v. 19, e00313145, 2021.
https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00313. Acesso em: 10 dez. 2023.
Aula 5
Encerramento da Unidade
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PSICOLOGIA APLICADA À SAÚDE
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prt3588_22_12_2017
http://www.lex.com.br/legis_27593248_RESOLUCAO_N_32_DE_14_DE_DEZEMBRO.aspx
https://doi.org/10.1590/1981-7746-sol00313

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