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PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE AULA 1 Profª Gabriela Eyng Possolli 2 CONVERSA INICIAL A produção científica em Psicanálise confunde-se com a própria pesquisa, ou seja, a Psicanálise em seus processos terapêuticos é uma pesquisa. A Psicanálise, enquanto experiência original, pode ser formalizada na obra de Freud como a pesquisa psicanalítica. Freud deu início a uma escola de pensamento que influenciou significativamente a psicologia e outras áreas do conhecimento. A Psicologia, como ciência moderna, e o trabalho de Sigmund Freud estão intimamente ligados, já que Freud foi uma das figuras mais influentes no desenvolvimento do entendimento dos processos psicológicos, da prática clínica e do tratamento psicanalítico como disciplina acadêmica e clínica. No final do século XIX, a Psicologia ainda era uma área de conhecimento incipiente, com diferentes teorias e abordagens que buscavam entender a mente e as emoções humanas. Foi nesse contexto que Freud iniciou sua carreira médica e começou a “desenvolver suas ideias sobre a mente inconsciente e a influência dos instintos e desejos reprimidos na vida psíquica” (Gay, 1998, p. 42, tradução própria). Com o tempo, o trabalho de Freud ganhou reconhecimento, tanto no meio acadêmico quanto entre os pacientes que se beneficiavam de suas teorias e métodos terapêuticos. Nas cinco Psicanálises que Freud apresentou (Freud, 1976), por meio de cinco casos clínicos que relatou em suas obras completas, é possível apreender a transmissão da pesquisa psicanalítica, um processo de comunicação e ensino do que é Psicanálise por meio das análises detalhadas feitas por Freud. Ao longo do nosso estudo, abordaremos as especificidades da Psicanálise como método investigativo, trazendo orientações ao pesquisador psicanalítico, dicas de como estruturar as pesquisas e pressupostos da Psicanálise e como eles devem ser encaminhados na produção científica. De forma geral, podemos classificar as pesquisas nos seguintes tipos: 1. Quanto à natureza: pura ou aplicada; 2. Quanto ao objetivo: exploratória, descritiva ou explicativa; 3. Quanto à abordagem: quantitativa, qualitativa ou mista; 4. Quanto à coleta de dados: pesquisa bibliográfica, pesquisa de campo, estudo de casos clínicos ou ainda pesquisas laboratoriais. 3 Saberemos mais sobre isso ao longo desta etapa com o objetivo de compreender quais são os tipos de pesquisa mais pertinentes à Psicanálise. TEMA 1 – PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE Falamos há pouco que o método psicanalítico é, por si só, uma pesquisa. A Psicanálise é uma das poucas áreas de pesquisa que possui um marco histórico muito claro a partir da vida, estudos e prática clínica de Freud, sendo seus escritos (livros, artigos, aulas e cartas) um marco fundante das teorias, linhas de análise e da metodologia de pesquisa em Psicanálise. O objeto de estudo é o ser humano em sua complexidade, o que requer uma abordagem interdisciplinar e crítica, levando em conta a diversidade cultural e a complexidade das interações sociais. É um grande desafio ter o Homem como objeto de estudo, “abrangendo tanto o indivíduo quanto suas relações sociais, envolvendo a compreensão integral do ser humano e de suas interações com o meio e a sociedade, tanto em questões teóricas como práticas” (Chizzotti, 2014, p. 38). A produção científica é fortemente guiada por fatores históricos, políticos, psicológicos, culturais e sociais, e é moldada por diferentes perspectivas teóricas e metodológicas. A Psicanálise se mistura com o tratamento, de forma que, quando se pensa em Psicanálise, se pensa em tratamento, em intersubjetividade, fazendo com que a pesquisa em Psicanálise se baseie fortemente em estudos de casos clínicos, e neste caso não há afastamento entre sujeito e objeto, o que é comum na pesquisa em outras áreas. Isso ocorre por conta da transferência. A transferência é um fenômeno humano, não necessariamente psicanalítico, e acontece nas relações entre os falantes: analista e paciente. Desse modo, a Psicanálise abre campo para uma investigação inédita antes dos estudos de Freud. É importante elencar algumas contribuições importantes da pesquisa científica que se aplicam à Psicanálise, que demonstram a relevância da investigação sistemática e aprofundada nas seguintes áreas: • Avanço do conhecimento: a pesquisa científica na Psicanálise permite o avanço do conhecimento em diversas áreas, tais como psicologia, antropologia, história, filosofia, educação, entre outras. 4 • Compreensão da diversidade humana: a produção de ciência na Psicanálise ajuda a compreender a diversidade humana por meio de relatos de casos clínicos, contribuindo para a promoção da tolerância e do respeito às diferenças, aplicando os pressupostos psicanalíticos para compreender e tratar a psique humana. • Desenvolvimento de políticas públicas: a pesquisa científica na Psicanálise é essencial para a elaboração de políticas públicas voltadas para o bem-estar psicológico e social, e para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Políticas de saúde no SUS já contemplam processos terapêuticos baseados em princípios da Psicanálise. • Desvendar a pluralidade da psique humana: as pesquisas específicas em psicologia e Psicanálise auxiliam na documentação de casos e métodos de pesquisa para compreender a diversidade das manifestações da alma humana, seus comportamentos, reações e emoções, dentro de um paradigma intersubjetivo de ciência. Para produzir pesquisas científicas em Psicanálise com casos clínicos, é indispensável que o pesquisador seja um psicanalista. O método de coleta de dados é a associação livre e isso só ocorre na relação transferencial entre o psicanalista e o paciente. Por outro lado, também é possível produzir cientificamente em Psicanálise sem ser psicanalista, por exemplo, se o tipo de pesquisa for uma revisão bibliográfica. Nesse caso, qualquer pesquisador pode realizar a pesquisa, sem necessariamente ser um psicanalista. TEMA 2 – PESQUISA PURA OU APLICADA A escolha do método de pesquisa em Psicanálise dependerá do problema de pesquisa e dos objetivos específicos do estudo. Em linhas gerais, pode-se afirmar que os pesquisadores utilizam abordagens interdisciplinares e críticas, levando em conta a diversidade cultural e a complexidade das interações psíquicas e sociais. Com relação à natureza da pesquisa, ela pode ser pura ou aplicada. Geralmente, as pesquisas puras ocorrem primeiro, e seus resultados tornam possível a realização de uma pesquisa aplicada. 5 Essa é a classificação mais básica; a pesquisa aplicada e a pura irão acompanhá-lo ao longo de sua vida acadêmica e profissional. O investimento no desenvolvimento científico e tecnológico, especificamente para a consolidação da Psicanálise como ciência, é fundamental para o crescimento das pesquisas, formação de profissionais e grupos de estudos, e desenvolvimento dessa área do conhecimento. 2.1 Pesquisa pura (ou básica) A pesquisa pura, também chamada de pesquisa básica, desenvolve o conhecimento por si só, com o objetivo de gerar conhecimento benéfico para a ciência e tecnologia, concentrando-se na compreensão e entendimento das informações, sem as quais não há como planejar a aplicação prática. O foco é na teoria e no planejamento, sem a aplicação prática, que faz parte da pesquisa aplicada. A pesquisa pura, portanto, está relacionada a tipos de pesquisa teóricas, que investigam e aprofundam o conhecimento sobre um conceito, um método, sem, contudo, aplicá-lo. Vamos ver um exemplo de pesquisa pura em Psicanálise no exemplo a seguir, com base na pesquisa de Paula (2020): • Título: Ciência e Psicanálise em Jacques Lacan • Objetivo da pesquisa: Investigar as posições de Lacan referentes às ciências, à Psicanálise e à cientificidadeeles. Chegamos à 3ª etapa, quando devem ser verificadas informações pertinentes nos estudos selecionados. Essa fase diz respeito à definição das informações a serem extraídas dos estudos incluídos, usando uma planilha ou quadro para registrar as informações-chave. O grau de evidência dos estudos incluídos, considerando as relações entre os estudos, deve ser avaliado para estruturar a argumentação e as categorias de análise, buscando fortalecer os resultados da revisão, que irão estabelecer o estado do conhecimento da temática investigada. Nessa etapa, os pesquisadores objetivam extrair e sumarizar informações de forma concisa, criando um banco de dados organizado. Esse banco, geralmente organizado em uma planilha, pode abranger dados de estudos, como ano da publicação, autores, título da obra, objetivos, palavras-chave, metodologia, resultados e principais conclusões. A 4ª etapa é de apreciação dos estudos incluídos na revisão integrativa. Ela equivale à análise de dados em uma pesquisa convencional, com uso de instrumentos apropriados. A fim de garantir a legitimidade da revisão, os estudos incluídos precisam ser considerados detalhadamente, com análise crítica, buscando convergências e divergências entre as obras. “Dentre as abordagens, o revisor pode optar para a aplicação de análises estatísticas; a listagem de fatores que mostram um efeito na variável em questão ao longo dos estudos; a escolha ou exclusão de estudos frente ao delineamento de pesquisa” (Unesp, 2015, p. 8). Cada abordagem de apresentação da revisão tem as suas vantagens e desvantagens. A escolha é uma tarefa para os pesquisadores, na busca por resultados imparciais, justificando suas escolhas e trazendo explicações para as variações argumentativas. 17 A habilidade clínica dos pesquisadores em psicanálise é importante para a avaliação crítica dos estudos na revisão integrativa, direcionando a tomada de decisão sobre a aplicação de resultados obtidos prática clínica. A conclusão da quarta etapa leva a mudanças nas recomendações e na conclusão da revisão para a prática psicanalítica. Cabe apontar algumas questões indicadas para a avaliação crítica dos estudos selecionados, a saber: qual o problema de pesquisa dos estudos; a base contextual dos problemas; a aproximação entre os problemas de pesquisas; a metodologia indicada nos estudos como aprendizagem para pesquisa em psicanálise; os participantes selecionados nos estudos e sua abordagem na clínica psicanalítica; como o problema de pesquisa é respondido; quais as pesquisas futuras indicadas ou suscitadas após a revisão. A 5ª etapa é de interpretação dos resultados. Corresponde à fase de discussão e explicitação dos resultados da pesquisa, em que os pesquisadores embasam os resultados da avaliação crítica dos estudos incluídos, realizando uma comparação com o conhecimento teórico, além da identificação de conclusões e implicações resultantes da revisão integrativa. Como a revisão integrativa é abrangente, a ampla revisão de resultado leva à identificação de aspectos que afetam a condução de casos clínicos em psicanálise. Assim, a leitura de revisões integrativas com temáticas de psicanálise é uma ótima forma de estar por dentro dos avanços científicos da área. O apontamento de lacunas de conhecimento a partir das revisões leva os pesquisadores e a comunidade científica da psicanálise a levantar sugestões para futuras pesquisas, buscando ampliar os estudos e as evidências científicas do método psicanalítico. A 6ª etapa abarca a apresentação da revisão e a síntese do conhecimento. A estruturação da revisão integrativa e a escrita da argumentação devem incluir informações para que o leitor compreenda a pertinência dos encaminhamentos utilizados na elaboração da revisão, os aspectos relativos ao tópico abordado e o detalhamento dos estudos incluídos. É essencial seguir os passos para a confecção da revisão integrativa. Se as iniciativas tomadas pelos pesquisadores forem adequadas, teremos diminuição dos vieses e inconsistências. 18 NA PRÁTICA O quadro a seguir apresenta um exemplo de revisão integrativa com tema pertinente à psicanálise. Quadro 5 – Exemplo de revisão integrativa em psicanálise Referência SANTOS, Álvaro da Silva (et.al.). Sobre a Psicanálise e o Envelhecimento: focalizando a produção científica. Psicologia: Teoria e Pesquisa, n. 35, 2019. Disponível em: . Método / Objetivo Revisão integrativa. Objetivo Geral: Conhecer a produção científica em psicanálise na relação entre o idoso e o envelhecimento. Detalhamento da busca Período: 2011 a 2015; Bases de dados: Index-Psicologia, LILACS e MedLine. Descritores (palavras-chave da busca): Aged (Idoso), Elderly (Envelhecimento) e Psychoanalysis (Psicanálise). Resultando em 89 estudos antes de aplicar critérios de exclusão. Critério de Exclusão Excluíram-se editoriais, artigos repetidos e aqueles que não se adequavam à questão norteadora, restando 11 artigos selecionados. Estudos Incluídos Dos 11 artigos, em português foram 81,8% (9), uma publicação em inglês e outra em francês. Anos de 2014 e 2011 tiveram quatro publicações cada, cuja maioria (72,7%) foi encontrada na base Index-Psi. Os estudos se qualificaram como Reflexão (7), Relato de Experiência (2), Atualização (1) e Pesquisa (1), sendo que, seis publicados em revistas específicas de psicanálise. Categorias de Análise Quatro categorias foram construídas a partir do material recuperado: 1- Clínica Psicanalítica com Idosos (sete artigos); 2- Abordagens Psicanalíticas do Envelhecimento (dois artigos); 3- Representação do Envelhecimento para Profissionais de Saúde à Luz da Psicanálise (um artigo); 4- Geracionalidade e Psiquismo (um artigo). Características dos Estudos incluídos Estudos incluídos foram categorizados por similaridades temáticas e apresentados em quadro com a referência (identificação da produção pelo autor e dados do periódico), a proposta do estudo (que sintetizam numa releitura crítica a direção do artigo - objetivo, e o caminho seguido - metodologia, sem a pretensão de copiar as afirmações dos autores da produção, por isso, a releitura crítica) e, a sinopse (interpretação na leitura dos autores dos artigos as contribuições, novidades, resultados e abordagens defendidas). Conclusões A psicanálise pode ser bastante útil aos idosos e pessoas em processo de envelhecimento, uma vez que pode estabelecer uma ponte entre aquilo que fomos, somos e seremos. É notável que existem poucos estudos que relacionem a psicanálise e o idoso. A comunidade e os periódicos científicos precisam criar movimentos pendulares (de diálogo, de ir e vir, de crítica) que estimulem não só a produção e interesse da psicanálise no envelhecimento, como a formação de psicanalistas também interessados em atuar com este grupo, demanda que possivelmente será destaque das novas décadas. Fonte: Possolli, 2023. FINALIZANDO Nesta etapa, estudamos a importância da fundamentação teórica. A partir dela, o pesquisador assume as bases para a argumentação, estabelecendo uma visão científica sobre certa temática. Nesse contexto, avaliamos a revisão integrativa, método de revisão abrangente, que possibilita levantar evidências 19 cientificas mais amplas sobre um assunto, sendo a primeira fase teórica relevante, inclusive para estudos empíricos. Posteriormente, vamos estudar a revisão sistemática, que é o tipo de revisão mais aceito pela ciência, estando presente em protocolos de pesquisa de laboratório, institutos e comunidade científica, por apresentar um método rígido de registro das evidências e uma análise estatística e qualitativa integradas para a compreensão dos resultados. A pesquisa teórica sempre será o primeiro passo para que você se aproxime de um assunto de interesse dentro das temáticas da psicanálise. Nestaetapa, aprendemos os passos para estabelecer essa aproximação de forma científica, o que pode inclusive render um trabalho de apresentação em eventos e outras publicações. Que tal começar? 20 REFERÊNCIAS BARROS, J. D. Projeto de pesquisa em história. Petrópolis: Vozes, 2005. BVS – Biblioteca Virtual em Saúde. DeCS/MeSH: Descritores em Ciências da Saúde. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2023 CALEFFE, L. G.; MOREIRA, H. Metodologia da pesquisa para o professor pesquisador. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. FONSECA, J. S. Metodologia da Pesquisa Científica. Fortaleza: UEC, 2002. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 36. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. LAMEIRA, V. M.; COSTA, M. C. da S.; RODRIGUES, S. de M. Fundamentos metodológicos da pesquisa teórica em psicanálise. Rev. Subj., v. 17, n. 1, jan. 2017. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2023. SANTOS, Á. da S et al. Sobre a Psicanálise e o Envelhecimento: focalizando a produção científica. Psicologia: Teoria e Pesquisa, n. 35, 2019. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2023. UNESP – Universidade Estadual Paulista. Tipos de Revisão de Literatura. Botucatu: Unesp, 2015. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2023. PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE AULA 3 Profª Gabriela Eyng Possolli CONVERSA INICIAL Na pesquisa clínica, o sujeito em análise está tão envolvido quanto o próprio pesquisador, porém pode ser surpreendente notar que o mesmo acontece com a pesquisa teórica, quando se considera a implicação do pesquisador diante do objeto de estudo. Iribarry (2012) pontua que, ao se estudar e comparar as aplicações da pesquisa clínica e teórica em psicanálise, observa-se que a transferência está presente em ambos os contextos. Reconhecemos o mecanismo da transferência na prática clínica, mas em uma pesquisa teórica como isso ocorre? Em um método de pesquisa com objeto abstrato como uma revisão, que tipo de transferência pode haver com base no vínculo do pesquisador com seu campo de estudo? Mesmo em uma pesquisa teórica há transferência, pois ao debruçar-se sobre um contexto teórico-explicativo sobre o qual se quer avançar, o pesquisador assume uma relação transferencial com o conteúdo em investigação conforme essas leituras e aprofundamentos levam para além da racionalidade e se estabelece uma relação intersubjetiva entre o sujeito e o objetivo em construção. Ao ler, estudar e esforçar-se para compreender a articulação teórica, não é apenas a nossa cognição que entra em ação, mas justamente com a razão, os processos inconscientes são disparados pela aproximação com o objeto e campo em investigação que é a própria teoria (Iribarry, 2012). O estranhamento experimentado pelo pesquisador psicanalítico para além de um não-senso compreensivo implica um provável remanejamento de sua posição como sujeito sob o olhar de sua vivência clínica (da perspectiva de analista e de paciente). Isso distingue decididamente uma pesquisa teórica sobre psicanálise e uma pesquisa em psicanálise como referimos em etapa anterior. Por meio dessa articulação marca-se a posição de que a pesquisa teórica sobre psicanálise pode ser realizada por um pesquisador que não seja analista. Porém, uma pesquisa em psicanálise implica um desenvolvimento teórico que é impregnado pelas vivências do pesquisador como analista ou paciente no processo psicanalítico. A instrumentalização na pesquisa teórica em psicanálise se refere a uma sistematização sobre o que o pesquisador transfere inconscientemente a respeito de teorias que estuda, que o deslocam de contexto e que, ao interpretá-las, deixa algo de si e mobiliza intuitivamente seu aparelho psíquico. O processo de produção científica teórica em psicanálise não se dá apenas por meio de leituras com rigor e aprofundamento para preencher lacunas de entendimento sobre o pensamento freudiano. Ele mobiliza no pesquisador a intuição e dispositivos cognitivo-afetivos ao se contatar com o caráter peculiar da própria psicanálise, que versa sobre o próprio sujeito, sua constituição e processos intersubjetivos, que se transferem aos temas em estudo. Ao acessar e refletir a respeito da obra psicanalítica, e ao agir e argumentar sobre ela como investigador do arcabouço teórico, o pesquisador implica sua psiquê no processo, à medida que os assuntos em estudo dizem respeito ao funcionamento humano e a ele mesmo como sujeito. Com base nesse entendimento sobre a relevância e a possibilidade de pesquisa em psicanálise com bases teóricas, abordaremos aqui a revisão sistemática de literatura. Trata-se do tipo mais rigoroso metodologicamente e que entrega resultados relevantes para o avanço da ciência psicanalítica. Saiba mais Revisões sistemáticas são estudos observacionais retrospectivos ou pesquisas experimentais de registro e análise crítica da literatura. Elas testam hipóteses, objetivando identificar, organizar e apreciar criticamente a metodologia da pesquisa e sistematizar resultados de uma coletânea de estudos primários. Assim como na revisão integrativa, a sistemática procura responder a uma questão de pesquisa que esteja claramente estabelecida. Aplica métodos sistemáticos e explícitos para buscar e tornar explícitos os resultados de estudos proeminentes em psicanálise por meio da reunião e argumentação a respeito de dados de estudos primários. A revisão sistemática é aceita pela comunidade científica como evidência de maior grandeza em um campo científico, que apoia não apenas pesquisas práticas, mas também a tomada de decisão clínica, de gestão e de projetos posteriores. TEMA 1 – BASES CONCEITUAIS DA REVISÃO SISTEMÁTICA A revisão sistemática da literatura tem por finalidade agrupar estudos convergentes, avaliando-os criticamente em sua estrutura, metodologia e resultados, realizando análise estatística (metanálise). Ao sintetizar pesquisas primárias de boa qualidade, a revisão sistemática é reconhecida como o melhor nível de evidência para guiar a tomada de decisão no contexto terapêutico. A fim de impedir viés de análise na revisão sistemática, os procedimentos de seleção e apreciação das informações são definidos antes de a construção da revisão ser iniciada, por meio de um processo bem estruturado. Quanto à origem das revisões sistemáticas, a primeira publicada foi elaborada em 1955 sobre um cenário clínico no Journal of American Medical Association (Beecher, 1955). Existem registros anteriores de publicações a respeito de métodos estatísticos (embrião da metanálise) para compilar resultados de estudos independentes e sintetizar conjuntos de pesquisas em temas próximos. O termo metanálise foi cunhado pela primeira vez em meados da década de 1970, em um artigo na revista Educational Research (Glass, 1976). A era das revisões sistemáticas junto com os recursos da metanálises, na área da Saúde, consolidou-se com a publicação do livro Effective care during pregnancy and childbirth (Chalmers; Enkin; Keirse, 1989). Na década de 1990 foi criada a fundação da Cochrane Collaboration, uma instituição internacional com a finalidade de capacitar, registrar e disseminar revisões sistemáticas na área da Saúde (incluindo a área de Psicologia). Na Europa, existem sete centros Cochrane (Alemanha, Itália, França, Espanha, Inglaterra, Holanda e Dinamarca), e outros seis centros em outros lugares do mundo: China, Austrália, Nova Zelândia, África doSul, Canadá e Brasil (Cochrane, S.d.). A Cochrane registra os protocolos das pesquisas de revisão sistemática que são acessíveis para que os pesquisadores cadastrados possam verificar se existe alguma revisão na área que pretendem investigar. Além disso, divulgam-se relatórios e resultados de revisões para propagar as evidências científicas na área da saúde. Um grupo de cientistas em um congresso na Alemanha em 1995 conceituou revisão sistemática como “aplicação de estratégias científicas de forma a limitar o viés e avaliar com espírito científico as pesquisas, sintetizando os estudos relevantes em tópicos específicos seguindo metodologia adequada” (Cochrane, S.d.). Saiba mais O acesso à Biblioteca Cochrane é feita pela BVS (Biblioteca Virtual da Saúde) que é mantida pela OPAS (Organização Pan-americana da Saúde), acessível pelo link a seguir, disponível para profissionais de saúde, resultado de acordo cooperativo entre a BIREME/OPAS e o Centro Cochrane do Brasil: PORTAL REGIONAL DA BVS. Disponível em: . Acesso em: 24 jun. 2023. TEMA 2 – PRODUÇÃO DE REVISÃO SISTEMÁTICA E PASSOS PARA ELABORAÇÃO As revisões sistemáticas são classificadas como investigações científicas, qualificadas como pesquisas observacionais retrospectivas. Outros autores as colocam entre os estudos experimentais e observacionais (Dixon-Woods, 2005). Para termos uma visão geral desde o princípio, cabe ressaltar que a revisão sistemática começa com a elaboração da questão norteadora, ou seja, o objetivo de estudo dentro de uma proposta de revisão. Após isso, é realizado um amplo levantamento de literatura para se identificar a maior quantidade de estudos possível dentro do escopo da revisão. Uma vez selecionados os estudos a serem incluídos, são aplicados critérios de avaliação dos objetivos de pesquisa, qualidade metodológica e detalhes de organização. Quando as convergências entre os estudos estiverem sistematizadas, os resultados podem ser evidenciados em uma metanálise (Mulrow, 1994). Uma revisão sistemática bem elaborada baseia-se na formulação adequada da questão norteadora. Uma pergunta bem elaborada é o primeiro passo para uma boa revisão, já que pontua as estratégias que serão utilizadas para selecionar os estudos a serem incluídos e quais dados serão coletados para os estudos. Para descobrir a questão norteadora da revisão, é preciso identificar cinco elementos: o problema (P), a intervenção (I), o escopo a ser comparado (C), o desfecho (D) e, quando se aplicar, o tempo (T) transcorrido para aferição do desfecho. Nas revisões sistemáticas os participantes da pesquisa são os estudos primários (chamadas unidades de análise) por meio de método sistemático e preconcebido. Tradicionalmente, a revisão sistemática é um estudo retrospectivo, debruçando-se sobre pesquisas já publicadas com base no delineamento inicial do problema que dá causa à revisão. A revisão sistemática como um tipo de estratégia de pesquisa com método de síntese de evidências é útil em variados campos científicos, trazendo resultados para a evolução do conhecimento. Dentre os aspectos mais relevantes de uma revisão sistemática, é possível elencar os seguintes: 1. A pesquisa desenvolve um protocolo a priori registrado em plataformas como Prospero, Cochrane, entre outras conforme a área de saber; 2. O pesquisador procede uma busca ampla por obras vinculadas ao tema e usa estratégias diversificadas para busca em bancos de dados nacionais e internacionais; 3. Avaliam-se qualitativamente os estudos incluídos na revisão sistemática, registrando os metadados de casa pesquisa. 4. Os autores buscam, selecionam e extraem dados em fontes confiáveis, categorizam os achados científicos e realizam a argumentação dos resultados. TEMA 3 – ASPECTOS IMPORTANTE PARA CRIAR UM ARTIGO DE REVISÃO SISTEMÁTICA Ao elaborar um artigo de revisão sistemática, a divulgação científica publicada oferece aos leitores informações atualizadas e esclarecedoras sobre um tema de interesse em um campo de saber, sistematizando a evolução da ciência daquele campo. Para que a pesquisa tenha qualidade e alcance os objetivos, deve ponderar os seguintes aspectos: a. Partir de uma questão norteadora de pesquisa adequada; b. Estruturar a revisão de modo orientado aos objetivos; c. Avaliar a qualidade e nível de evidência das obras selecionada; d. Organizar recomendações segundo a evidência científica encontrada; e. Os procedimentos da revisão sistemática devem estar detalhados metodologicamente de forma que se possa reproduzir em outra pesquisa; f. Os resultados obtidos orientam uma comunidade científica em aspectos de organização e prática para outras pesquisas e para mudança na realidade. Alguns passos-chave precisam ser seguidos pelos pesquisadores, sabendo-se que a estruturação de uma revisão sistemática envolverá as seguintes ações (Cordeiro et al., 2007): • Formular a questão norteadora para o estudo de revisão e seus objetivos; • Planejar os critérios de seleção das pesquisas incluídas; • Estruturar a metodologia da revisão sistemática; • Definir os estudos que estarão na revisão; • Aplicar os critérios de seleção; • Registrar os dados dos estudos incluídos em uma planilha; • Avaliar os estudos com relação aos encaminhamentos metodológicos, estrutura e resultados frente aos objetivos da revisão; • Definir categorias de análise com base nos objetivos e nos estudos incluídos; • Interpretar e analisar os resultados e escrever as conclusões; • Realizar a divulgação científica e depois de um tempo atualizar a revisão. TEMA 4 – ETAPAS DE ORGANIZAÇÃO, QUESTÃO NORTEADORA E VARIÁVEIS A seguir, um detalhamento de sete etapas a serem consideradas na elaboração de um artigo de revisão sistemática, segundo Assis e Arruda (S.d.): 4.1 Organizar os recursos informativos A primeira fase é elaborar planilhas e documentos para estruturar o relatório de pesquisa, criar uma folha de cálculos (Excel, Numbers etc.), conforme descrito no quadro a seguir: Quadro 1 – Como deve ser montada a estrutura do artigo de revisão sistemática Atividades Estrutura Planilha para registrar a estrutura do artigo de revisão sistemática 1- Título, autor, ano 2- Resumo, palavras-chave 3- Problema, objetivos 4- Método 5- Categorias presente no estudo 6- Resultados e Discussão 7- Conclusões Base para cálculos para o artigo Aba 1 – Tabela geral Aba 2 – Pesquisas incluídas Aba 3 – Tabela de resultados Documento para gerir citações dos estudos para a revisão sistemática Organização das citações para o artigo de revisão sistemática nas normas ABNT ou outra conforme as regras da revista para qual será submetida. Fonte: Possolli, 2023. Pontua-se como importante criar uma pasta para salvar os estudos incluídos na revisão, ação que dará suporte para o desenvolvimento do artigo de revisão sistemática, auxiliando a gerenciar as citações relevantes que poderão ser usadas na argumentação e detalhamento da discussão das informações na revisão. 4.2 Questão norteadora para a revisão sistemática Com base na definição do tema de pesquisa, a lacuna de conhecimento que se pretende investigar deve ser traduzida como um problema de pesquisa. Desse problema sairá o próprio título do artigo, as palavras-chave, os objetivos geral e específicos e os critérios de inclusão. Saiba mais Elaboração do problema de pesquisa É uma das etapas mais cruciais para o sucesso da pesquisa dada a sua importância. Portanto, ao se aproximar de um tema de interesse, o pesquisador deve realizar leituras, entender bem o contexto e, se não tiver experiência prévia, pode também conversar com profissionais com vivência no tema. Assim, terá clareza para problematização do contexto e formulação do problema. A pesquisa de revisão de uma temática parte justamente dessa questãonorteadora da pesquisa e não pode iniciar-se adequadamente se esse problema não estiver bem delimitado e aprofundado no entendimento dos pesquisadores. 4.3 Variáveis para elaboração do artigo de revisão sistemática Os pesquisadores da revisão deverão elaborar a tabela de resultados gerais conforme especificado na etapa 1, com as variáveis que serão extraídas dos estudos incluídos. As variáveis podem ser qualitativas ou quantitativas, conforme exemplos no Quadro 1. Na planilha, deve-se criar uma coluna para cada variável e adicionar quantas forem necessárias. A primeira coluna deve ter o ano da publicação, na segunda o sobrenome dos autores do estudo, e assim por diante. O restante das colunas será para as variáveis importantes conforme definido para a revisão. Cada uma das linhas da planilha corresponde aos registros dos estudos que farão parte dos artigos de revisão integrativa. A planilha auxiliará em todo o processo da pesquisa e também para a elaboração do quadro resumo fará parte do artigo de revisão sistemática para apresentar os dados dos estudos incluídos. TEMA 5 – BUSCA NA LITERATURA, SELEÇÃO, ANÁLISE DE ESTUDOS E ESCRITA DO ARTIGO 5.1 Busca na literatura Levando em conta o problema, são elencadas as palavras-chave, com variadas estratégias de busca em bases de dados e formulados os objetivos de pesquisa. A procura por estudo deve ser realizada em variadas bases de dados (como: Google Acadêmico, Periódicos da Capes, BVS, Sciello, PubMed, PePSIC, entre outras). Os bancos de dados dos portais de busca possibilitam pesquisar por palavra-chave, período, idioma, entre outros filtros, facilitando a identificação de obras dentro do escopo desejado. A ferramentas disponível nas bases de dados otimiza o tempo de busca com base nas palavras-chave e resumo das pesquisas localizadas em uma primeira busca, auxiliando para decidir quais são úteis para revisão que se pretende desenvolver. 5.2 Seleção de estudos incluídos A seleção dos artigos ocorre por meio de critérios de inclusão previamente estabelecidos a partir do contexto que emerge do estudo do tema. Critérios como tipos de pesquisa, variáveis dos estudos, temática central, comparações, pressupostos teóricos, resultados etc. 5.3 Análise dos estudos Os resultados e a discussão da revisão são a parte mais importante para que as evidências científicas fiquem estabelecidas e se construirão pela análise dos estudos selecionados sob um olhar qualitativo, que pode ainda ter um levantamento quantitativo de algumas variáveis por meio da metanálise. O quadro resumo final é produzido em função dos resultados obtidos 5.4 Escrita final do artigo de revisão sistemática Tendo por base as etapas anteriores e as orientações recomendadas nos itens, pode-se estruturar a redação da revisão sistemática, a ser realizada progressivamente, à medida que se prossegue no desenvolvimento da argumentação. Enquanto estrutura do texto, um artigo de revisão sistemática deve possuir os seguintes elementos: título, questão norteadora, objetivos, métodos, quadro de resumo dos estudos incluídos, resultados, discussão, considerações finais. NA PRÁTICA A compreensão prática de como fica uma revisão sistemática em psicanálise pode ser esclarecida utilizando-se de um exemplo real de um artigo publicado, conforme sistematizado no Quadro 2: Quadro 2 – Exemplo de revisão sistemática em psicanálise Referência LEITÃO, I. B. A construção do estudo de caso em psicanálise: revisão de literatura. Contextos Clínicos, São Leopoldo, v. 11, n. 3, set./dez.2018. Disponível em: . Acesso em: 24 jun. 2023. Método / Objetivo Revisão sistemática com objetivo de descrever como a literatura científica em psicanálise tem discutido e situado o estudo de caso, seja enquanto lente metodológica ou objeto de estudo. Detalhamento da busca Bases de dados: PePSIC e SciELO. Descritores e operadores booleanos da busca: “estudo de caso” OR “relato clínico” OR “caso clínico” OR “construção do caso”. Categorização As cinco categorias de análise: “O caso clínico como dispositivo para transmissão da experiência”; “O lugar da escrita na psicanálise”; “A construção do relato clínico”; “Construção do caso versus estudo de caso: dispositivos de elaboração”; “A singularidade do caso e o seu caráter ficcional”. Estudos Incluídos (critérios de inclusão e exclusão) 43 artigos que tratam do estudo de caso em psicanálise. Inicialmente foram filtrados 178 artigos. Para filtragem à luz dos objetivos da revisão, estabeleceu-se os seguintes critérios de inclusão: ser um artigo científico que tem como lente teórica e metodológica a psicanálise. Foram excluídos os artigos que não apresentaram algum caso ou relato clínico, ou que não tiveram como objetivo discutir a temática do estudo de caso psicanalítico. Registro dos Estudos incluídos Os estudos analisados foram classificados em dois grandes grupos: 1. Estudos que discutiram os aspectos epistemológicos do estudo de caso, segundo os pressupostos teóricos e metodológicos da psicanálise; 2. Estudos que utilizaram estudo de caso para desenvolver questões relevantes para a clínica. Conclusões Considerando a relevância do estudo de caso para a metodologia de pesquisa psicanalítica, e uma importância nas publicações não apenas em psicanálise, e também no âmbito da psicologia clínica, foram estabelecidos guias e referências para a construção de estudos de caso. Conclui-se que o estudo de caso possibilita transmitir a singularidade de cada experiência clínica, por intermédio dos desdobramentos de uma análise e seu processo com o analista. Contribuindo ainda para a construção teórica e técnica da psicanálise. O estudo de caso como método de pesquisa clínica, destaca uma noção fundamental para a fazer clínico, que é o ato de tomar as palavras, onde a prática desafia a teoria e a convoca constantemente para a sua reformulação. Fonte: Possolli, 2023. FINALIZANDO A evidência científica advinda de uma revisão sistemática pode ser considerada um ensaio metapsicológico. Ao debruçar-se sobre um ensaio metapsicológico, estamos desenvolvendo uma pesquisa de natureza abstrata mesmo que tenha aplicação prática. A condução do método psicanalítico precisa se ater a certas características peculiares na relação entre pesquisador e objeto, entendendo o conceito de transferência como vimos anteriormente. Freud (1996) concebeu um método investigativo sobre o próprio ser humano, no qual, apesar de existirem alguns pressupostos, também destaca que a psicanálise precisa ser reinventada em cada caso em estudo, por isso a necessidade de uma revisão sistemática de pesquisa teórica em que se desejam avanços na própria teoria para esta possa embasar a prática. Nesse sentido, sobre a pesquisa psicanalítica Iribarry (2012, p. 12) destaca que é um tipo de pesquisa “que sempre terá uma apropriação do pesquisador, que ao pesquisar o método freudiano, acaba por descobrir um tipo de investigação propriamente sua, que o singulariza na condução da pesquisa”. Ao nos aprofundarmos em uma pesquisa teórica de revisão sistemática em psicanálise, que tem como produto um ensaio metapsicológico, é fundamental que o pesquisador lance mão da objetividade em suas argumentações, por meio do entendimento aprofundado de elementos conceituais. Mas ainda é preciso que o pesquisador tenha a habilidade de estar sensível às determinações subjetivas que emergem do seu vínculo com o objeto. Isto é, o diálogo que faz consigo mesmo e com o outro em função do contato humano com o seu objeto em estudo. Na psicanálise, todo saber é também projeção, já que supõe, para além de impressões recebidas via órgãos dos sentidos, um esforço de reflexão por meio do qual o sujeito elabora uma narrativa no formato de um saber estruturado. Isso implicadeixar algo de seu na produção do novo, uma vez que o sujeito entrega ao real mais do que recebeu (Rouanet, 1989). Assim, não existe produção científica em psicanálise com conteúdo novo sem que haja a mobilização da própria subjetividade na estruturação de sentidos plausíveis. Nessa perspectiva, concebe-se que o atributo subjetivo da produção de uma revisão sistemática, como ensaio metapsicológico, deve ser entendido como condição de avanços teórico-práticos por meio das evidências científicas levantadas. A probabilidade de evolução teórica e a base para a prática em psicanálise, ainda que fundamentadas em um certo escopo temático ou ainda caso clínico, dependem da produção criativa e dedicada dos pesquisadores psicanalíticos. REFERÊNCIAS ASSIS, M. S.; ARRUDA, J. C. Guia completo de artigo de Revisão Sistemática. Artigo Científico, S.d. Disponível em: . Acesso em: 24 jun. 2023. BEECHER, H. K. The powerful placebo. Journal of American Medical Association., n. 159, v. 17. p. 1602-6, dez., 1955. CHALMERS, I.; ENKIN, M.; KEIRSE, M. J. N. C. Effective care in pregnancy and childbirth. Oxford: Oxford University Press, 1989. COCHRANE. Trusted evidence and informed decisions. Cochrane Brasil, USP, S.d. Disponível em: . Acesso em: 24 jun. 2023. CORDEIRO, A. M. et al. Revisão sistemática: uma revisão narrativa – Comunicação Científica, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, n. 34, v. 6, dez 2007. DIXON-WOODS, M. et al. Synthesising qualitative and quantitative evidence: a review of possible methods. Journal of Health Service Research Policy, v. 1, n. 10, p. 45- 53, jan. 2005. FREUD, S. Sobre o início do tratamento. In: STRACHEY, J. (ed.). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 12. p.137-158. GLASS, G. Primary, secondary and meta-analysis of research. Educational Researcher, v. 5, p. 3-8, 1976. doi.org/10.2307/1174772 IRIBARRY, I. N. O que é pesquisa psicanalítica? Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, v. 1, n. 6, 20 ago. 2012. Disponível em: . Acesso em: 24 jun. 2023. LEITÃO, I. B. A construção do estudo de caso em psicanálise: revisão de literatura. Contextos Clínicos, São Leopoldo, v. 11, n. 3, set./dez. 2018. Disponível em: . Acesso em: 24 jun. 2023. MULROW, C. D. Rationale for systematic reviews. BMJ, n. 39, p. 591-599, 1994. ROUANET, S. P. Teoria crítica e psicanálise. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989. 1 PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE AULA 4 Profª Gabriela Eyng Possolli 2 CONVERSA INICIAL Revisão narrativa e revisão de escopo em psicanálise Essa é a última etapa, na qual abordaremos as revisões narrativas e de escopo, que mesmo menos prevalentes na literatura, são importantíssimas para o desenvolvimento da ciência psicanalítica. Sobretudo a partir dos anos 2010 em diante, a prática profissional com base em evidência científica cresceu muito, mostrando ser um importante instrumento para tomar decisões clínicas, de gestão e em políticas sociais. Cresceu assim a produção científica e a procura por conhecimento sistematizado, com aumento vertiginoso de revisões da literatura publicadas no Brasil. O reconhecimento de configurações diversas de evidências em pesquisas de revisão, com objetos de estudo e problemas variados, favoreceram a criação de abordagens e aplicação de métodos de diversos tipos na psicanálise, como vimos em etapas anteriores e iremos concluir agora antes de abordar os pressupostos de pesquisa em psicanálise e a pesquisa de casos clínicos nas próximas etapas. A revisão narrativa é a maneira mais simples de explorar e atualizar uma comunidade profissional sobre um tema. Ela descomplica o processo de pesquisa por possuir uma metodologia flexível, que pode ser conduzida conforme as bases e intenções do pesquisador. Aqueles que desejem fazer um TCC, artigo ou pesquisa organizada e sem tanta rigidez de método pode se basear na revisão narrativa. Ela não se aplica para pesquisas de campo, já que é elaborada com base no levantamento de literatura, leitura, registro de informações e análise crítica. Na área de políticas públicas de saúde, por exemplo, é notório o movimento para o desenvolvimento de metodologias abrangentes, em que a revisão de escopo se encaixa. A revisão de escopo tem se destacado mundialmente na área de síntese de evidências em saúde, com notável crescimento no Brasil a partir de 2014. Esse tipo de revisão propõe a realização de mapeamento da literatura em um certo campo de interesse, sobretudo quando pesquisas aprofundadas acerca do tema ainda não foram publicadas, especialmente importante para temas emergentes e atuais. 3 TEMA 1 – REVISÃO NARRATIVA: CONCEITO, IMPORTÂNCIA E APLICAÇÃO O avanço constante na produção do conhecimento científico, assim como a crescente produção e vertiginosa divulgação on-line em todo mundo, gera um contingente imenso de produções. Isso exige que os profissionais e pesquisadores obtenham processos e ferramentas para estarem sempre atualizados. É nesse contexto que surge a Revisão Narrativa, como um método estratégico para formação permanente e atualização profissional. “A revisão narrativa de literatura permite fazer a inclusão de diferentes tipos de informação, considerando distintas fontes, assim como exige habilidades críticas e reflexivas por parte do pesquisador” (Bernardo; Nobre; Jatene, 2004, p. 2). A revisão narrativa proporciona: • Aprendizagem por meio de definições e detalhes de um contexto conceitual; • Acesso a estudos prévios sobre um tema, trazendo uma perspectiva histórica e a evolução na área; • Identificação de referenciais, metodologias e técnicas para atualização e uso em pesquisas vindouras. As revisões narrativas são pesquisas amplas, focadas em descrever e esclarecer o chamado estado da arte (que é o desenvolvimento de uma área) de um certo campo do saber, abrangendo questões teóricas ou contextuais. Esse tipo de revisão se distingue das demais ao não informar fontes de informação, não detalha rigidamente a metodologia de busca de referências, nem mesmo os critérios para avaliação e escolha dos estudos. Mas, então, o que uma revisão narrativa mapeia e registra? Realiza uma análise da literatura em uma temática disponível em livros, artigos de periódicos e outros materiais selecionados conforme o assunto central, fazendo a interpretação e análise crítica do pesquisador. Uma revisão narrativa é útil para aplicação na educação continuada de profissionais, uma vez que possibilita a aquisição e atualização do conhecimento em uma área, em um tempo curto. Assim, o próprio processo de construção da revisão narrativa é, em si, um processo educativo. Porém, não há uma metodologia fixa que permita reproduzir dados para outros contextos 4 ou que fornece resultados quantitativos para questões específicas, já que possui esse caráter reflexivo do pesquisador com base em fundamentos teóricos por ele propostos. Por isso os artigos de revisão narrativa são pesquisas de abordagem qualitativa. Comparativamente à revisão sistêmica, o rigor científico é menor, o que não é um problema, mas uma necessidade dentro dos propósitos reflexivos da revisão narrativa. De modo que o pesquisador não necessita justificar seus critérios de seleção e aplicação de fontes de pesquisa, desde que haja coerência nos argumentos e encadeamento das fontes. Escolher o material base é algo mais aberto, pois é realizado a partir do repertório e análise pessoal do pesquisador a respeito do que será ou não citado.Os objetivos essenciais da revisão narrativa são: discutir temas, apresentar elementos e explicar contextos. O pesquisador, portanto, analisa não só livros, artigos de periódicos e teses, mas também reportagens de jornal e outras fontes bibliográficas que não são necessariamente científicas (Rother, 2007). Vamos sintetizar as características mais importantes da revisão narrativa (RN) para a psicanálise: • Realiza uma discussão temática sobre questões abrangentes em psicanálise – exemplo de temas: transferência; sinais da relação consciente e inconsciente; • A RN é sujeita à subjetividade do pesquisador – exemplo: a qualidade da fundamentação do pesquisador em psicanálise e sua experiência clínica influenciará diretamente na profundidade das análises e argumentação da revisão; • Conhecimento atualizado sobre um assunto – exemplo: ao abordar a transferência na sala de aula, por exemplo, cabe ao pesquisador, além de aplicar sua habilidade reflexiva, buscar fontes e fundamentação atual e coerente para elaborar uma pesquisa que sirva de base para novos enfoques de pesquisa e auxiliar outros estudantes da área; • Mapeia o conhecimento em uma área – exemplo: tocando o mesmo assunto sobre a transferência na relação professor-aluno, o pesquisador irá mapear o que já foi publicado no assunto, vinculando suas bases de conhecimento com as fontes selecionadas para a RN; 5 • Sem necessidade de rigor metodológico – exemplo: como se trata do único tipo de revisão sem protocolo fixo, o pesquisador tem liberdade para definir as fontes e os principais argumentos e categorias de análise para a RN. Vejamos um exemplo de revisão narrativa em psicanálise para consolidar os conceitos e característica que vimos até aqui: Quadro 1 – Exemplo de revisão narrativa em psicanálise Título Contribuições psicanalíticas a uma revisão narrativa da depressão infantil. Referência BRANDÃO JUNIOR, P. M. C.; OLIVEIRA, S. C.; SILVA, I. T. da. Contribuições psicanalíticas a uma revisão narrativa da depressão infantil. Revista Tempo Psicanalítico, v. 55, abril 2023. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2023. Contexto temático A depressão é um problema de saúde pública que pode ter afetado cerca de trezentas milhões de pessoas no mundo em 2018, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A literatura científica aponta que as alterações do humor que configuram esse transtorno podem ocorrer em qualquer faixa etária, sendo os estudos sobre sua ocorrência na infância ainda considerados escassos, com necessidade de maior aprofundamento (Brandão Junior; Oliveira; Silva, 2023). Desenho da pesquisa Revisão narrativa da produção científica sobre depressão infantil, com categorização e análise de conteúdo temática das publicações selecionadas com suporte teórico em psicanálise. Resultados A depressão infantil exige atenção e estratégias com políticas públicas, em especial com relação aos critérios para diagnósticos e a contribuição psicanalítica. É importante que as propostas de tratamento estejam adequadas aos ideais de infância do tempo atual e das descobertas recentes da ciência. Resultados foram debatidos pelo referencial conceitual da psicanálise, com articulação entre saberes e seus encontros discursivos. Fonte: Possolli, 2023. Como estrutura mínima, um artigo de Revisão Narrativa deve conter, pelo menos: Introdução, Desenvolvimento (composto por seções e categorias estabelecidas conforme a condução do autor para o assunto em estudo), Comentários e Referências. A depender do tipo de artigo ou publicação que o pesquisador fará, essa estrutura pode conter outros itens. Os passos para sua construção veremos no próximo tópico. 6 TEMA 2 – COLOCANDO A REVISÃO NARRATIVA EM PRÁTICA: PASSOS E ESTRUTURA As etapas para se fazer uma revisão narrativa que reúna dicas de vários autores podem ser sintetizadas, em Mendes (2023), nas oito etapas a seguir: 1. Definir objetivo e problema: toda pesquisa de revisão, inclusive a narrativa, deve ter um objetivo claro e enunciado junto com o problema em estudo. Um tipo de objetivo comum gira em todo de “fornecer uma visão geral do estado atual da literatura em um determinado campo ou identificar lacunas no conhecimento” (Mendes, 2023, p. 16); 2. Selecionar fontes: é importante realizar uma busca ampla na literatura para identificar estudos relevantes, com base em critérios que o próprio pesquisador escolhe. Podem ser incluídos artigos científicos, revisões sistemáticas, livros e outras fontes confiáveis; 3. Escolha de estudos participantes: nessa fase avaliam-se os estudos encontrados para decidir quais são relevantes para atingir o objetivo e problema da revisão. Uma boa consideração está em verificar a qualidade metodológica nessa seleção e a relevância dos resultados dentro do estudo maior que está conduzindo; 4. Organizar os estudos: nessa fase os estudos selecionados serão agrupados conforme os subtemas, tópicos ou aspectos emergentes para a discussão. Essa fase é fundamental para criar categorias e uma estrutura para a revisão; 5. Análise crítica: momento de interpretar os resultados dos estudos incluídos. Uma dica é registrar as semelhanças, lacunas e diferenças entre os achados na literatura, fazendo anotações e pequenas sínteses de cada estudo com foco na argumentação para revisão. 6. Estruturar o texto: chegou o momento de organizar todos os registros e escrever o texto de forma encadeada e coesa, dentro do tipo de publicação ou material que resultará dessa pesquisa, não descuidando das normas para citar as fontes e dar embasamento; 7. Escrever de modo consistente: usar linguagem objetiva e argumentar com base em suas vivências e reflexões, mas também trazendo os 7 autores participantes da revisão. O texto precisa ser fluido e ter como pontos de partida e chegada o objetivo/problema, além de ser compreensível aos leitores interessados no assunto em discussão; 8. Revisar e editar: revise detalhadamente todo o trabalho, ler em voz alta ajuda nesse momento, para buscar eventuais erros gramaticais, coesão e regras de formatação. Caso não seja um trabalho com um orientador, peça a opinião de colegas da área para ter um feedback e, se necessário, aumentar a qualidade do texto; 9. Incluir referências corretamente: tanto nas citações ao longo do texto como na listagem ao final, é preciso ter os estudos incluídos e outros materiais acessados, de maneira completa, seguindo as normas adequadas, seja ABNT, APA, Vancouver ou outra; 10. Atualização permanente: sabemos que a literatura científica estará sempre em evolução. Por isso, se o tema da revisão narrativa é importante na sua atuação e atualização profissional, é relevante manter o estudo em constante renovação incluindo novos estudos, para refletir sobre os avanços recentes nessa área de pesquisa. Com base nestes passos para realização de uma revisão narrativa, fica mais fácil compreender como seria a estrutura de um trabalho acadêmico ou científico, definindo os tópicos para escrita, são eles: Título: simples e mais claro possível, o título precisa dar uma ideia do tema e abordagem do trabalho científico. Introdução: apresentar a fundamentação conceitual da revisão, o contexto, problema e objetivo, assim como a justificativa para a pesquisa. Metodologia: dentro dos pressupostos da revisão narrativa, o pesquisador realiza uma descrição das estratégias escolhidas no estudo e os passos que foram adotados, bem como os critérios de seleção determinados para seleção de estudos incluídos. Resultados: expor os achados teórico-práticos nos estudos selecionados. Discutir sobre os resultados construídos pelo autor, destacando o que se percebeu no estudo, características principais, argumentação do autor e as linhasteóricas que colaboram para sua compreensão para que se traga conhecimento atualizado na temática. 8 Conclusão: são as considerações finais do trabalho, que fazem um diálogo com o objetivo e problema do estudo, apresentando destaques e links para novas pesquisas. Uma dica é evitar afirmações não respaldadas por dados da revisão, por isso a conclusão deve ser estruturada e assertiva. Referências: apresenta os referenciais e publicações usadas ao longo da revisão narrativa. Tudo o que foi mencionado, como citação direta ou indireta, precisa estar na seção de referência ao final do trabalho. Para publicações no Brasil, em geral, usamos a ABNT, na área de Psicologia é comum o uso da APA, norma da Associação Americana de Psicologia. Anexos: seção para inclusão de elementos complementares, questionários, escalas etc. Algumas dicas ajudam a construir uma revisão narrativa com qualidade, conforme os pressupostos de Bernardo, Nobre e Jatene (2004), e organizado no Quadro 2, a seguir: Quadro 2 – Dicas para uma revisão narrativa de qualidade Leia obras variadas na área Antes de conduzir sua revisão, leia livros e referenciais de autores reconhecidos, marcando as ideias principais. Olhar relatórios de outras revisões narrativas e de pesquisa atuais ajuda muito para compor o contexto do tema. Elabore o roteiro da sua revisão A revisão precisa de um caminho para o raciocínio, como um fio condutor que estará no seu roteiro. O roteiro terá o seu planejamento, os itens e subitens para escrita e os principais argumentos e autores que auxiliarão na sua análise ao longo do texto. Foque em conceitos O trabalho de revisão narrativa deve basear-se na conceituação de tópicos essenciais para o tema. Cite conceitos usando pelo menos duas referências para cada tópico. Contexto histórico Aborde o contexto histórico, como um pano de fundo contando com base na literatura explorada por você. Escrita explicativa Explique os conceitos e contexto envolvidos no tema da revisão narrativa por meio de uma estrutura textual explicativa e argumentativa. Visão crítica A revisão narrativa traz para você a necessidade de postura crítica, com liberdade para analisar os estudos e formar seu posicionamento e conhecimento. Lembre-se que é importante inserir autores para dialogar com seus argumentos para expor a narrativa crítica. Método adotado No tópico destinado à metodologia da revisão, defina a abordagem utilizada, meios para seleção e outras opções como pesquisador. Classifique a sua revisão narrativa em um desses três tipos: 1. Dialética: incorpora estudos com pontos de vista diversos dentro de um mesmo tema; 2. Descritiva: descreve características, conceitos e estrutura bases para prática; 3. Holística: foca no todo e na relação entre as partes, buscando as conexões e a interdependência entre os estudos. Fonte: Possolli, 2023. 9 TEMA 3 – REVISÃO DE ESCOPO Revisões de escopo, também denominadas scoping review, são aplicadas para mapear a produção de literatura dentro de um certo assunto ou área de pesquisa com a finalidade de obter conceitos-chave publicados, bem como identificar lacunas de conhecimento no tema. Desse modo, o objetivo primordial da revisão de escopo está em proporcionar uma análise descritiva dos materiais revisados, a fim de embasar novas pesquisas. É importante compreender que esse tipo de revisão não objetiva buscar a melhor evidência para uma intervenção na psicanálise, ou trazer um consenso de especialistas na área sobre uma abordagem psicanalítica, mas sim, agrupar e deixar claro o modo pelo qual diversas evidências foram construídas. Sem classificar ou analisar profundamente essa evidência, tendo como foco rastrear e indicar caminhos e potenciais para pesquisa e prática em psicanálise. Por essa explicação fica fácil entender que revisões de escopo são diferentes de revisões sistemáticas, que são mais aprofundadas e voltadas para avaliar a qualidade das evidências. Olhar para o escopo de um tema de pesquisa objetiva algo mais assertivo, apontando, por exemplo, os conceitos principais que suportam conjunto de estudos de casos clínicos na prática psicanalítica, sem detalhar esses casos. Uma revisão de escopo é adequada para ser utilizada para tópicos e assuntos abrangentes, já que pode reunir muitos desenhos de pesquisa para assim reconhecer traços gerais e tendência a respeito de evidências produzidas. Rastreiam-se e levantam-se possibilidades sobre as potencialidades dos achados em um escopo, para apoiar comunidades de pesquisadores, assim como trabalhadores de saúde, formadores e supervisores em psicanálise, e até mesmo formuladores de políticas sociais (Levas; Colquhoun; O´Brien, 2010). Em trabalho sobre metodologia de revisões, os propósitos da revisão de escopo são descritos como: “examinar a abrangência e a natureza de produções e/ou esclarecer conceitos que fundamentem uma área; identificar a viabilidade ou relevância de realizar revisão sistemática” (Arksey; O´Malley, 2005, p. 21), destacando-se que devido a isso a pesquisa de revisão de escopo 10 pode ser considerada um exercício anterior à revisão sistemática, que já direciona a pergunta norteadora de revisão e produz uma revisão muito melhor. Outro propósito citado por Peters et al. é “sistematizar e disseminar achados que podem contribuir para as práticas e políticas e para a pesquisa; identificar lacunas na literatura existente, bem como compreender como a pesquisa é conduzida em uma área” (2017, p. 43). A prática de aliar revisões de escopo como prévias para revisões integrativas faz muito sentido quando o pesquisador psicanalítico precisa examinar evidências que são emergentes, em temas de estudo com produção recente e/ou incipiente e, também, quando é necessário verificar como as pesquisas geralmente são conduzidas em campos já consolidados. Para todas essas situações as revisões de escopo são fundamentais. Na psicanálise, a revisão de escopo é adequada para examinar pesquisas e materiais publicados a fim de realizar tomada de decisão no campo prático, mas também com relação à produção científica teórico- metodológica, levantando um escopo por meio da varredora de teorias, autores, conceitos e metodologias. A seguir temos um exemplo de uma revisão de escopo, que trata de pressupostos teóricos importantes na psicanálise dentro do assunto anorexia, com o título: “Concepções da psicanálise sobre a anorexia no brasil: uma revisão de escopo”, pesquisa de Gomes, Silva, Moita e Gonzaga (2020), com o seguinte resumo: Os transtornos alimentares são percebidos a partir de múltiplas compressões. Apesar de distintas, é pertinente que haja interlocuções entre os saberes construídos para que seja possível uma maior compreensão acerca destes transtornos, além de possibilitar intervenções mais eficientes. O presente artigo trata de uma revisão de escopo que objetiva esclarecer as concepções psicanalíticas acerca do transtorno alimentar de anorexia nervosa. Foram utilizadas duas bases de dados, Literatura Latino Americana em Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Eletronic Library Online (SciELO), para busca das evidências. Um total de 16 artigos foram selecionados para análise após a adoção dos critérios de elegibilidade: estudos realizados no Brasil; publicados em idioma português; e artigos científicos publicados em periódicos entre os anos de 2009 e 2019. Com base na análise dos dados, foram percebidas divergências em relação às perspectivas de interpretações sobre o transtorno alimentar de anorexia nervosa no que diz respeito às estruturas clínicas nas quais ele pode se manifestar. Além disso, foi notada a aproximação da anorexia com questões relativas à adolescência, feminilidade e aos efeitos provenientes do arranjo estabelecido durante o Complexo de Édipo. (p. 104) 11Metodologicamente essa pesquisa sobre conceitos psicanalíticos relacionados à anorexia apresentou como desenho do método o seguinte problema: quais as concepções psicanalíticas acerca da anorexia no Brasil?”. Importante notar que neste artigo os autores explicaram as fases da revisão de escopo adotada “baseadas no quadro de revisão de escopo proposto por Arksey e O’Malley, que se estrutura em: identificação da questão de busca; identificação dos estudos relevantes; seleção dos estudos; extração de dados; e análise dos resultados” (Gomes et al., 2020, p. 106). TEMA 4 – PASSOS PARA REALIZAR REVISÃO DE ESCOPO Pesquisas de escopo tem aumentado a qualidade de estudos mais amplos como parte de processos amplos de investigação. Os pesquisadores têm a possibilidade de acionar uma gama de desenhos metodológicos de revisões de literatura, abordando questões de escopo que ajudam a compreender a área como um todo, focando o olhar para além da eficácia da intervenção, incentivando descobertas ampliadas, argumentos fundamentados e abordagens terapêuticas que contribuem para discussão de casos clínicos. Após compreender a aplicação e as possibilidade das revisões de escopo, você pode estar se perguntando: como se faz uma revisão de escopo? Quais passos devo seguir? O processo de construção de uma revisão de escopo inicia com a escrita da pergunta norteadora de pesquisa (ou problema de pesquisa) e a definição do objetivo da pesquisa de escopo. A seguir identificam-se as fontes de dados para seleção de estudos relevantes, que após a aplicação de critérios de inclusão e exclusão, são classificados e sistematizados, conforme objetivos, metodologias e discussão de resultados do escopo. Damásio (2023) elenca sete passos para realização de revisão de escopo: 1. Elabore a pergunta norteadora, o objetivo geral e a delimitação dos dados iniciais para a revisão de escopo: a partir do problema, direciona-se a composição do objetivo da revisão, para então criar os critérios de inclusão ou exclusão de estudos na revisão, assim como período de busca, idiomas etc.; 12 2. Busque as fontes para revisão definindo as bases de dados: selecionar os portais de busca e repositório relevantes no campo em estudo, para buscar artigos e outros estudos publicados conforme as palavras-chave definidas, podendo abranger bases bibliográficas, registros clínicos, protocolos de atendimento, documentos digitais, manuais, entre outros; 3. Selecione os estudos para revisão: identificar os estudos que atendam aos critérios detalhados na Etapa 1, e que não apresentem fuga do tema do escopo em construção; 4. Leia na íntegra fazendo anotações: ler os estudos incluídos a fim de registrar informações relevantes e organizar a coleta de dados: título, nome dos autores, ano de publicação, linhas teóricas, método, palavras- chave, resultados, outras anotações relevantes; 5. Sintetize informações: sintetizar informações de estudos incluídos e estruturá-las em categorias de análise; 6. Analise resultados: analisar os apontamento sintetizados nas etapas 4 e 5, a fim de identificar tendências na literatura e delinear o cenário do escopo em estudo; 7. Conclua o que o escopo em estudo indica: a revisão de escopo deve ser fechada, apresentando-se o cenário referente ao escopo estudado, com uma visão geral da literatura e destaque de tendências e lacunas, respondendo ao problema de pesquisa. Para exemplificar os passos acima indicados, com base na pesquisa de Lollo (2021) foi extraída uma síntese referente a cada um dos passos para deixar o processo mais claro com um exemplo na psicanálise, intitulado: “Pacientes renais crônicos em hemodiálise e atendimento psicológico: revisão de escopo segundo referencial psicanalítico”. Resumo da pesquisa de escopo como exemplo em psicanálise: Fruto da experiência clínica de 20 anos de atendimento psicológico a pacientes renais crônicos em hemodiálise e em virtude de lacuna identificada na literatura acerca de atendimento psicológico a esses pacientes – especialmente estudos utilizando a fundamentação teórica e técnica da psicanálise –, o presente estudo se justifica pela alta prevalência desta doença na população e pelos inúmeros sinais de sofrimento psíquico. Uma revisão de literatura com base na metodologia para revisões de escopo do Instituto Joanna Brigss foi conduzida para identificar publicações sobre atendimento psicológico a pacientes renais crônicos em hemodiálise. A amostra foi composta por 23 artigos. Foram encontrados estudos utilizando 13 diferentes fundamentos teóricos técnicos, diferentes tipos de intervenções psicológicas e todos referem ter identificado melhora nos sintomas psíquicos, no enfrentamento e na adaptação ao tratamento e nas novas condições de vida. Entre os estudos que compuseram a amostra, foram identificados aqueles utilizando a teoria comportamental cognitiva (N=7), a análise do comportamento (N=2), a psicoterapia de orientação psicanalítica (N=2), a psicologia positiva (N=1), entre outros. Quanto ao tipo de estudo, foram identificados, principalmente, aqueles com características de estudo descritivo (N=5), estudos experimentais randomizados (N=3), estudos de caso (N=03), com características de relatos de experiência (N=3), com características de quase experimento (N=2), estudos clínicos de grupo único (N=2), relatos de experiência (N=2). De modo geral, os estudos relatam melhorias na qualidade de vida, nos sintomas de humor e depressão, melhora clínica e na saúde mental. Apresenta-se, neste estudo, uma reflexão acerca da psicossomática psicanalítica e suas possíveis contribuições, a partir de intervenção psicológica aos pacientes renais crônicos em hemodiálise, com base na promoção da capacidade de representação e simbolização dos afetos. (Lollo, 2021, p. 9) 1. Pergunta norteadora, objetivo geral e a delimitação dos dados iniciais para a revisão de escopo: - Problema: sobre o que versam as pesquisas sobre atendimento psicológico a pacientes renais crônicos e a contribuição da psicanálise? - Objetivo: identificar o escopo de conhecimento sobre atendimento psicológico a pacientes renais crônicos e refletir sobre a contribuição da psicanálise. - Idiomas inglês, francês, português e espanhol; período de busca de 1998 até 2018. 2. Busque as fontes para revisão definindo bases de dados: PsysINFO, PubMed, LILACS, CINAHL, Embase. 3. Selecione os estudos para revisão: 155 artigos, sendo 58 da PsysINCO, 20 da LILACS, 3 da PubMed, 30 da CINAHL, 33 da Web of Science e 11 da Embase. Após excluir 32 artigos repetidos, a seleção resultou em 15 da Lilacs, 2 da PubMed, 28 da CINAHL, 35 da PsycINFO, 33 da Web of Science e 10 da Embase, com total de 123 artigos. 4. Leia na íntegra fazendo anotações: os estudos incluídos, lidos na íntegra, foram seis estudos do Brasil (Garcia; Bittencourt, 2004; Resende et al., 2007; Vieira et al., 2009; Cherer; Quintana; Leite, 2012; Paula et al., 2017 e Ferreira, 2017) dois da França (Roques; Pourrat, 2011 e Jean-Dit-Pannel; Riazuelo; Cupa, 2018); três do Canadá (CAMPBELL; SINHA, 1999; CAMPBELL; SINHA, 2003 e Devins et al., 2005); um do 14 México (Almanza Muñoz et al., 1998); um de Israel (De-Nour, 2007); um da Inglaterra (Hudson et al., 2017), dois do Irã (Hosseini; Espahbodi; Goudarzi, 2012 e Toulabi et al., 2016); dois da Coréia do Sul (Koo et al., 2005 e Sohn et al., 2018); quatro dos USA (Tuckman, 2001; Hailey et al., 2007; Cukor, 2011; e Hernandez et al., 2018) e um da Australia (Chan et al., 2016). 5. Sintetize informações: observou-se nesta revisão de escopo que os estudos selecionados foram publicados nos últimos 20 anos, dando publicidade ao cuidado psicológico especializado aos pacientes renais crônicos em hemodiálise. São estudos realizados em diversos países e em vários continentes, apontando a preocupação com esse cuidadopsicológico como um fenômeno mundial. A revisão realizada (786 estudos), mesmo antes que refinada em todos os seus critérios, sugere a relevância científica do cuidado da saúde mental da pessoa portadora de doença renal crônica – tanto na máquina de hemodiálise como em diálise peritoneal – e que tem sido objeto de interesse, tema de pesquisa e de estudo com muita frequência nos últimos anos. Na amostra selecionada (23 estudos), de acordo com os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos, sempre há alguma intervenção psicológica proposta aos pacientes em hemodiálise, na realidade, diversas modalidades de intervenção ou cuidado psicológico, com o objetivo de contribuir aos sintomas psíquicos manifestados e, também, aos principais impactos psíquicos da hemodiálise. A começar que o diagnóstico pode surpreender o paciente, o qual, muitas vezes, nem sabia que tinha a doença e já há a necessidade da escolha de um método dialítico e preparo de um acesso à diálise, requerendo ainda mudanças nos hábitos de vida e a adesão a todas as recomendações e tratamentos para evitar o agravamento da doença. Ocorre frequentemente uma recusa e negação em compreender, aceitar e lidar com estas repercussões da doença. 6. Analise resultados: para análise dos resultados, as categorias estruturadas foram: a) Atendimento psicológico de orientação psicanalítica ao paciente renal crônico em hemodiálise; b) Sintomas psíquicos: angústia, ansiedade e depressão; c) Fundamentação teórica técnica utilizada na intervenção psicológica na clínica. No caso de um 15 renal crônico em hemodiálise, com seus sintomas físicos e psíquicos, é necessário levar em conta as contribuições da psicossomática psicanalítica no que se refere à compreensão do fenômeno, mas também, e principalmente, as recomendações técnicas acerca do atendimento psicológico de orientação psicanalítica, especificamente a estes pacientes com sintomas e doenças somáticas. 7. Conclua o que o escopo em estudo indica: os resultados desta revisão de escopo apontaram que, embora as intervenções psicológicas tenham características bem diferentes entre si e, do ponto de vista metodológico, a maioria dos estudos possuam desenhos mais simples e de natureza exploratória, as diversas abordagens teóricas técnicas utilizadas levaram à obtenção de resultados positivos em relação às queixas e aos sintomas identificados nesses pacientes, além de uma evolução no enfrentamento à doença e ao tratamento. Conclui-se que, em geral, o conhecimento produzido e divulgado nas bases de dados consultadas, sobre o atendimento psicológico a pacientes renais crônicos, aponta para escassez de estudos e lacunas metodológicas, com ausência, por exemplo, de estudos longitudinais ou realizados com amostras mais expressivas de pacientes. Identificou-se, ainda, a necessidade de maior rigor metodológico em relação às intervenções psicológicas realizadas, com apresentação de definições conceituais e operacionais mais consistentes. Com base nesse exemplo mais detalhado, quando você precisar fazer ou se deparar com um estudo de revisão de escopo, saberá o que é e como é realizado. TEMA 5 – DESAFIOS PARA PRODUZIR REVISÕES EM PSICANÁLISE Vimos, em etapas anteriores, como construir revisões integrativas, sistemáticas, narrativas e de escopo. Certamente, ao ler todas as etapas para construir pesquisas de revisão, podem ter ficado algumas dúvidas, não é mesmo? Por isso é importante você buscar artigos de revisão na internet, com temas em psicanálise, assim como exemplos de trabalhos nas últimas etapas. Ao ver uma revisão publicada e a forma como o autor estruturou, 16 muita coisa fica esclarecida. Fazer uma boa revisão tem seus desafios, como fugir do viés. Mas o que é viés em pesquisa? Viés de pesquisa é um termo que denomina situações em que o pesquisador direciona os dados, interpreta com sua opinião sem base em autores, ou comete outros erros que interfere de maneira não científica, por exemplo, na elaboração de um instrumento de pesquisa ou na forma de analisar os dados. Com relação a instrumentos de pesquisa mal elaborados o viés pode induzir os participantes do estudo a selecionarem uma resposta que não reflita o que realmente pensam sobre o assunto em questão, e assim os resultados da pesquisa estarão comprometidos. Cabe pontuar que qualquer pesquisa, mesmo com pesquisadores experientes, pode apresentar viés de algum tipo, porém pode-se tomar cuidados para reduzir a ocorrência e melhorar a confiabilidade e qualidade do seu estudo científico. Sendo primordial conhecer os diversos tipos de vieses em pesquisa e qual deles é mais comum em estudos de revisão de literatura. Existem vários tipos de viés, especialmente em pesquisa prática, podem ocorrer cinco tipos de viés: viés de amostragem, viés de resposta, viés de não resposta, viés do entrevistador e viés do pesquisador. Especialmente esse último é muito comum em pesquisas de revisão, pois está relacionado ao modo como o profissional interpreta os resultados do estudo (Mininel, 2021). O viés do pesquisador pode ocorrer pela própria transferência, conceito psicanalítico, que o pesquisador faz não apenas em pesquisas práticas ou entre pessoas (paciente – analista), mas também ao se relacionar com um objetivo de estudos. Por meio das suas visões de mundo, experiências e expectativas a respeito do desfecho da pesquisa, o pesquisador possui tendências a interpretar os resultados de modo tendencioso, ou ainda ter resistência a enxergar possíveis erros em sua argumentação. Isso é natural na psiquê humana, pois ficamos empolgados ao verificar que as informações que coletamos parecem aprovar nossos desejos e pontos de vista a respeito do tema em estudo. “Como evitar o viés do pesquisador? Sendo o mais neutro possível durante a interpretação dos resultados para que as expectativas não provoquem esse viés. Submetendo suas possíveis conclusões às bases teóricas e linhas de análise da pesquisa” (Mininel, 2021, p. 11). 17 Em linhas gerais, podemos dizer que o maior desafio para demarcar a metodologia, resultados e as conclusões da revisão integrativa está em um registro mal detalhado nas fases anteriores, ou seja, se as características de cada estudo incluído, sobretudo metodologia e conclusões, não forem especificados nas fases anteriores, haverá dificuldade nessa fase final. A proposta essencial de uma revisão é agrupar e sintetizar evidências da literatura, a fim de responder ao problema disparador da revisão. Nessa etapa será elaborado o documento, contemplando a descrição das etapas desenvolvidas para composição do documental final da revisão integrativa. É uma etapa minuciosa, em que se revisa também as normas cientificas (ABNT, APA ou outra), produzindo impacto na apresentação do conhecimento construído sobre o tema pesquisado. A divulgação dos resultados e publicação da investigação é fundamental, muitas revistas científicas, com ótimo fator de impacto, aceitam revisão integrativa, dentro das exigências de cada periódico científico. NA PRÁTICA A fim de consolidar a aprendizagem sobre o processo de construção de uma revisão narrativa, veremos um exemplo prático de uma revisão com a temática “Abandono de psicoterapia psicanalítica por adolescentes: uma revisão narrativa”, de Brenner, Essarts e Ramires (2022). Observe a importância de compreender o tema, o objetivo que guiou o estudo, os detalhes metodológicos, os achados na literatura e os destaques dos resultados. Observar como esses pesquisadores articularam esses elementos será de grande valia para que você também desenvolva revisões narrativas com qualidade. A contextualização dessa revisão narrativa contextualiza que o abandono da psicoterapia psicanalítica por adolescentes é algo frequente, porém um assunto pouco estudado, ainda que preocupante nocenário de problemas de saúde mental. Com base nesta problemática, a revisão narrativa objetivou “compreender por que os jovens abandonam a psicoterapia psicanalítica”. Relata que atributos dos adolescentes podem ser vinculados com o abandono (idade, gênero, aspectos clínicos). No processo terapêutico, alguns fatores influenciam bastante o abandono, como a qualidade do vínculo 18 terapêutica e características do terapeuta, que se associam à continuidade ou não da psicoterapia. O desenho metodológico da revisão narrativa, a respeito do abandono de psicoterapia por adolescentes, define esse tipo de revisão como utilizadora de “metodologia mais flexível e busca mais aberta de fontes, dando maior autonomia do pesquisador e na abrangência de aspectos subjetivos para responder ao problema e objetivo” (Cordeiro; Rentería; Guimarães citados por Brenner; Essarts; Ramires, 2022, p. 3). Os autores justificaram a escolha desse tipo de revisão como método pelo fato de existir uma quantidade limitada de pesquisas nesse tema, ainda mais tendo em conta a abordagem psicanalítica. As bases de dados consultadas foram EBSCO, Scientific Electronic Library Online (Scielo) e o portal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A busca foi realizada no idioma inglês com os descritores “dropout, adolescent, psychoanalytic psychotherapy e psychodynamic psychotherapy”, que foram pesquisados de forma isolada ou conjunta, visando ampliar os retornos com estudos pertinentes para a revisão. Uma dissertação de mestrado foi considerada por adequar-se fortemente ao tema. Foram também consultados livros e guias de referência sobre o tema da psicanálise com adolescentes. A informações coletada nos artigos identificaram oito estudos de abordagem psicanalítica sobre abandono da psicoterapia na adolescência, publicados entre 2008 e 2019, sobretudo nos Estados Unidos e Inglaterra. Houve diversificação de métodos nos estudos incluídos, com quatro estudos quantitativos, dois qualitativos e duas pesquisas mistas. Os estudos quantitativos buscaram verificar a associação entre abandono da psicoterapia e aliança terapêutica, comparar grupos de pacientes que aderiram ao tratamento e grupos que interromperam, investigar fatores preditivos de abandono, sendo um deles um ensaio controlado randomizado. Quanto aos estudos qualitativos, um era um estudo exploratório e o outro uma revisão de literatura. Sobre os de delineamento misto, um era um estudo sistemático de caso único e o outro buscou identificar categorias de abandono entre pacientes adolescentes. O conteúdo dessas pesquisas foi examinado com base na apresentação e discussão das principais temáticas abordadas em cada uma. Três categorias foram formuladas e apresentadas. (Brenner; Essarts; Ramires, 2022, p. 6) As categorias analisadas na revisão narrativa foram: 1. Conceito e critérios de abandono na psicoterapia psicanalítica de adolescentes; 2. Características dos pacientes adolescentes que abandonam a psicoterapia 19 psicanalítica; 3. Aspectos do processo terapêutico de adolescentes que abandonam a psicoterapia. Como resultado dessa RN evidenciou-se que, dentre os estudos, aqueles que trabalham com variáveis sociodemográficas e clínicas foram a maioria. Esses estudos apontam que a idade do paciente é uma variável que eleva a chance de abandono da psicoterapia. Além disso, demonstrou-se que comportamentos antissociais e delituosos também contribuem para o abandono do tratamento. Para aumentar a adesão à psicoterapia, os fatores com influência preditiva e protetiva se relacionam principalmente à Aliança Terapêutica (AT) como fator essencial para que o adolescente permaneça em tratamento. A AT tem um papel central na psicoterapia para diferentes faixas etárias como preditora de resultados positivos no processo de tratamento. A maior parte dos estudos incluídos na revisão utilizou a definição de Bordin (1979), que conceitua AT como multidimensional composta por três elementos fundamentais (acrônimo OTV): objetivos (combinados entre analista e analisando quanto às metas do tratamento), tarefas (acordos sobre atividades) e vínculo (ligação entre os dois, estabelecendo confiança e uma relação de transferência). A qualidade da aliança terapêutica influencia diretamente a adesão ao processo terapêutico na psicanálise, especialmente na etapa inicial (três primeiros meses). Os analistas, que desde o início focam nas dimensões OTV para engajar melhor os pacientes, observam que o abandono por parte dos adolescentes reduz bastante. A relação com os pais demonstra ser importante nessa idade, especialmente para pacientes com doenças crônicas, no começo da adolescência ou com questões mais graves. Por meio do detalhamento dessa revisão integrativa percebe-se a relevância desse tipo de pesquisa para consolidar e demonstrar os avanços do conhecimento em uma temática, auxiliando na formação continuada dos profissionais em psicanálise. FINALIZANDO Nesta etapa, vimos as revisões narrativa e de escopo, importantíssimas para a produção científica na psicanálise. Os exemplos trouxeram a exposição sobre os tipos de revisões mais utilizados para uma dimensão prática da teoria 20 psicanalítica e da pesquisa como suporte fundamental para a prática clínica. Como vimos, as revisões de literatura são importantíssimas, a principal forma para publicar pesquisas teóricas em psicanálise. O interesse do psicanalista ao propor uma pesquisa teórica de revisão de literatura tem como bússola explorar o saber sobre o inconsciente. Saber esse que é ativado pela causa do desejo, possibilitando ao pesquisador se deslocar da posição clínica para a posição de produtor de conhecimento em psicanálise, direcionando-se de um objeto de desejo de saber. Com base nos quatro tipo de revisões que vimos, e no potencial que elas têm para desenvolver ainda mais a ciência em psicanálise, gostaríamos de destacar um pensamento de Freud (1912, 1915), que estabelece uma profunda vinculação existente na psicanálise entre a observação empírica e a reflexão teórica. Freud entende a práxis e a produção conceitual como articuladas ao mesmo processo, de modo que, ao analisar fenômenos do inconsciente, nem sempre se pode separar a teoria da prática. Portanto, prossiga pesquisando, e desafia-se a criar e publicar uma pesquisa de revisão em psicanálise. 21 REFERÊNCIAS ARKSEY H.; O’MALLEY, L. Scoping studies: towards a methodological framework. Int J Soc Res Methodol., n. 8, v. 1, 2005, p. 19-32. BERNARDO, W. M.; NOBRE, M. R. C.; JATENE, F. B. A prática clínica baseada em evidências. Parte II: buscando as evidências em fontes de informação. Rev Assoc Med Bras., n. 50, v. 1, p. 1-9, 2004. BORDIN, E. S. The generalizability of the psychoanalytic concept of the working alliance. Psychotherapy: theory, research and practice, n. 16, v. 3, 1979, p. 252-260. Doi: . BRANDÃO JUNIOR, P. M. C.; OLIVEIRA, S. C.; SILVA, I. T. da. Contribuições psicanalíticas a uma revisão narrativa da depressão infantil. Revista Tempo Psicanalítico, v. 55, abril/2023. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2023. BRENNER, E.; ESSARTS, G.; RAMIRES, V. R. Abandono de psicoterapia psicanalítica por adolescentes: uma revisão narrativa. Psicologia USP, n. 33, 2022. Doi: . DAMÁSIO, B. F. Como fazer uma revisão de escopo. São Paulo: Psicometria, 2023. FREUD, S. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. In: STRACHEY, J. (Ed.). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 12, p.123-133. Rio de Janeiro: Imago, 1996a. Originalmente publicado em 1912. FREUD, S. (1996d). Os instintos e suas vicissitudes.desta. Criar as bases para estudos clínicos que serão realizados a médio e longo prazo e que ajudarão a corroborar ou refutar a tese, presente em Freud, de que a Psicanálise é uma ciência. • Metodologia: o Quanto à sua natureza: pesquisa pura (ou básica); o Quanto aos objetivos (ou fins): pesquisa exploratória; o Quanto à abordagem: pesquisa qualitativa; o Quanto à coleta de dados: pesquisa bibliográfica. Ao produzir uma pesquisa pura, temos duas questões essenciais a serem feitas: 1. Para que serve aquele conhecimento? 2. Por que estudar aquele tema? 6 É esperado que as pesquisas puras resultem em informações importantes para a difusão do conhecimento para a comunidade científica, bem como para a comunidade em geral, subsidiando a tomada de decisão. No caso do exemplo usado acima, a relevância da pesquisa foi apresentada na definição do objetivo da pesquisa: criar as bases para estudos clínicos que serão realizados a médio e longo prazo e que ajudarão a corroborar ou refutar a tese, presente em Freud, de que a Psicanálise é uma ciência. 2.2 Pesquisa aplicada A pesquisa aplicada, por sua vez, tem um objetivo diferenciado da pesquisa pura, uma vez que visa aplicar o conhecimento de forma prática. Volta- se, assim, para a solução de problemas que avançam para a dimensão real, agregando os avanços científicos da pesquisa pura. Os objetivos específicos da pesquisa aplicada podem ser de médio ou curto prazo, possibilitando investigações financiadas com apoio de instituições públicas ou privadas como contexto de prática. Os estudos de casos clínicos são exemplos de pesquisa aplicada em Psicanálise. A pesquisa aplicada se relaciona com a pesquisa pura ao determinar um uso prático para as descobertas feitas pelas pesquisas puras. Trazendo para esse processo o conhecimento sistematizado disponível, de variadas fontes, para que, ao final, tenha-se uma descoberta científica com utilidade social e econômica para todos. Freud formulou a Psicanálise por meio de pesquisas. Considerado um método dialético, a Psicanálise se fez por meio de investigações científicas, tanto teóricas (pesquisa básica) quanto aplicadas (prática clínica), sendo que a teoria se reformulava com base nos resultados de estudos de casos clínicos. TEMA 3 – PESQUISA EXPLORATÓRIA, DESCRITIVA OU EXPLICATIVA No que se refere ao objetivo central de uma pesquisa, é possível classificá-la em três grandes grupos (Marconi; Lakatos, 2001): • exploratórias; • descritivas; • explicativas. 7 Pesquisas exploratórias têm como objetivo principal proporcionar intimidade com o problema a fim de torná-lo explícito. As investigações exploratórias contemplam levantamento bibliográfico, pesquisas de revisão de literatura, entrevistas e grupos focais com pessoas relacionadas ao objeto de estudo, assim como análise de casos e vivências. Um exemplo de temática delineada como pesquisa exploratória seria um estudo sobre metodologias pedagógicas utilizadas para o ensino em Psicanálise: identificar as ferramentas e métodos que institutos de formação na área de Psicanálise utilizam como estratégias didáticas para o ensino, como o currículo é organizado dentro dos grandes temas da Psicanálise, realizando uma investigação que elenque os achados e analise comparativamente cenários encontrados na exploração que responda à pergunta de pesquisa, explorando o fenômeno em estudo. Vamos ver um exemplo de pesquisa exploratória publicada, apresentando o resumo do artigo intitulado “Diálogo entre literatura e Psicanálise: contribuições dos contos de fadas no desenvolvimento infantil”, de Coutinho e Rodrigues (2021). Elucidado principalmente pelos pensamentos de Bettelheim (2002) e Perrault (2017), o presente artigo discute acerca do Impacto dos Contos de Fadas no desenvolvimento da criança, com base em uma metodologia de pesquisa exploratória. Realiza uma análise que propõe elucidar as contribuições psicológicas e literárias que os contos fornecem para o crescimento interno e formação crítica durante a infância. Em paralelo com a pesquisa, será exemplificado um dos conhecidos contos de fadas e seu significado de uma perspectiva analítica e representativa para diversas crianças, independentemente de gênero e faixa etária. Verifica-se a escolha deste tema na extensão da imaginação infantil, porque contribui significativamente na formação e no desenvolvimento da personalidade da criança. (Coutinho; Rodrigues, 2021, p. 1) Pesquisas descritivas têm como finalidade descrever as características de determinada população ou fenômeno, podendo determinar ainda a vinculação entre variáveis específicas. Trata-se de um tipo de pesquisa que “se concentra na descrição de características ou propriedades, ou ainda, nas relações entre essas propriedades e fatos/fenômenos relacionados a uma determinada realidade” (Silva; Schappo, 2002, p. 39). O estudo descritivo permite caracterizar o o que, detalhando uma população estudada e especificando condutas humanas, por exemplo, mas sem aprofundar-se na explicação do porquê dessas condutas. É por esse motivo que é comum denominar pesquisas como exploratório-descritivas, quando estas irão mapear o que e aproximar-se de um fato científico para entender como ele ocorre. 8 Uma temática que pode ser abordada em uma pesquisa descritiva em Psicanálise poderia ser um estudo dos Sinais e Sintomas de Esquizofrenia em homens com mais de cinquenta anos: pesquisa que busca elencar, com base no preenchimento de instrumento quanti-qualitativo e dados de estudos de casos clínicos, quais os sinais e sintomas mais prevalentes em uma população determinada, podendo-se comparar com outros recortes populacionais específicos, para assim relacionar os achados com a teoria psicanalítica e trazer sugestões para a condução de casos clínicos semelhantes. Outro exemplo de pesquisa descritiva em Psicanálise, que foi publicada, intitula-se: Caracterização da clientela que busca a psicoterapia psicanalítica de casais e famílias: Este estudo objetivou caracterizar a clientela que buscou a psicoterapia psicanalítica conjugal e familiar, atendimento ofertado em um serviço- escola de Psicologia. Trata-se de uma pesquisa descritiva, delineada como retrospectiva documental. Foram analisados dados referentes à composição familiar, religião, renda, concomitância com tratamentos médicos e via de encaminhamento, além da categorização das queixas elencadas pelos casais e famílias. Os resultados apontaram para uma presença maior de mulheres, famílias com filhos menores de 12 anos, com adultos na faixa dos 30 a 39 anos de idade, com ensino médio, faixa salarial de 2 a 4 salários-mínimos, católicos, com residência na própria cidade na qual o serviço está alocado e concomitância com outros tratamentos médicos. A maioria buscou o serviço por iniciativa própria e com queixa relativa a problemas emocionais de um dos familiares. Espera-se que tais resultados contribuam para o aprimoramento de serviços similares. (Sei; Gomes, 2017) Pesquisas Explicativas destinam-se a identificar fatores que determinam ou contribuem para a ocorrência dos fenômenos, sendo que o foco dessa pesquisa está no porquê. É o tipo que aprofunda o conhecimento da realidade, apresentando maior complexidade metodológica nos instrumentos de pesquisa e nas abordagens de análise das informações coletadas. De acordo com Gil (1989), a pesquisa explicativa tem como objetivo identificar os fatores que contribuem para que os fenômenos ocorram da forma como ocorrem. Busca-se, assim, aprofundar o conhecimento da realidade, com foco em explicar a razão, o porquê das coisas. Importa destacar que as pesquisas explicativas basear-se-ão em estudos anteriores, como pesquisas descritivas e exploratórias, uma vez que só é possível entender o porquê de uma problemática de pesquisa após compreender o que é esse fenômenoIn: STRACHEY, J. (Ed.). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 14, p. 117-144. Rio de Janeiro: Imago, 1996b. Originalmente publicado em 1915. GOMES, D. F. Concepções da Psicanálise sobre a Anorexia no Brasil: uma revisão de escopo. Sanare (Sobral, on-line), jan.-jun./2020, v. 19, n. 1, p. 104- 112. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2023. 22 LEVAC, D.; COLQUHOUN, H.; O´BRIEN, K. K. Scoping studies, advancing the methodology. Implementation Sci 5, 69, 2010. Doi: . LOLLO, M. C. Di. Pacientes renais crônicos em hemodiálise e atendimento psicológico: revisão de escopo segundo referencial psicanalítico. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos, 2021. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2023. MENDES, C. Como elaborar uma revisão narrativa de literatura. Projeto Acadêmico, n. 5, maio 2023. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2023. PETERS, M. D. J. et al. Scoping reviews. In: AROMATARIS, E.; MUNN, Z. (Ed.). Joanna Briggs Institute Reviewer’s Manual. Australia: Joanna Briggs Inst., 2017. ROTHER, E. T. Revisão sistemática X revisão narrativa. Acta Paulista de Enfermagem, n. 20, junho 2007. Doi: . PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE AULA 5 Profª Gabriela Eyng Possolli 2 CONVERSA INICIAL Vamos aprofundar os pressupostos da pesquisa em Psicanálise. Até aqui, abordamos a pesquisa na Psicanálise como um campo de pesquisa com interações com a psicologia e a saúde, conhecendo os tipos de pesquisa, abordagens e delineamentos, bem como os quatro principais tipos de revisão (integrativa, sistemática, narrativa e de escopo). A metodologia científica em Psicanálise confunde-se com a própria pesquisa, ou seja, a Psicanálise em seus processos terapêuticos é uma pesquisa. A Psicanálise, enquanto experiência original, pode ser formalizada na obra de Freud como a pesquisa psicanalítica. Aprofundamos a pesquisa teórico-prática como base para as evidências científicas da Psicanálise por meio da produção de fundamentação teórica e dos quatro tipos de revisão de literatura abordados. Detalhamos os alicerces que possibilitam estruturar e desenvolver pesquisas sobre as bases conceituais no campo psicanalítico, que apresentem alicerces teóricos, linhas de análise, que servem de contexto argumentativo para pesquisas em Psicanálise. Certamente, todos os exemplos práticos de pesquisa reais na Psicanálise que vimos até aqui ajudam muito na sua trajetória como pesquisador nesse campo. Os pressupostos e guias que serão abordados nesta etapa são imprescindíveis para a realização de pesquisas psicanalíticas, seja qual for o seu escopo, objetivos ou metodologia aplicada. A Psicanálise é em si um processo de pesquisa, tal qual documentado por Freud, e desenvolvido também por outros analistas e pesquisadores que se basearam nele. Por um lado, a pesquisa aplicada é o tratamento psicanalítico, e por outro, é também o que escapa ao foco do tratamento psicanalítico: a teoria psicanalítica, são as bases e conceitos que o psicanalista acessa por meio da investigação da natureza e das ações humanas. Cabe destacar que a produção científica psicanalítica em relação à prática e à teoria se desenvolve na associação livre, em que não há distanciamento entre sujeito e objeto, o que é esperado na pesquisa em outras áreas. Esse não distanciamento acontece por causa da transferência, entendida como um fenômeno humano, não exclusivamente psicanalítico, que ocorre entre os falantes da relação psicanalítica: paciente e analista. 3 Assim, podemos dizer que a Psicanálise inaugura uma área de estudos inédita, fundamentada a partir dos estudos de Freud. E, como tal, a Psicanálise acaba por se misturar com o próprio tratamento. De modo que, quando se aborda a Psicanálise, aborda-se o tratamento e os conceitos por ele mobilizados, no contexto da intersubjetividade, implicando que a pesquisa em Psicanálise se baseie em estudos de casos clínicos, assim como Freud fez em suas obras completas, cartas, aulas e estudos. Como guias e pressupostos para a pesquisa psicanalítica, abordaremos principalmente: inconsciente, significante, associação livre, atenção flutuante, transferência, casos clínicos. Por meio dessas bases, chegaremos a algumas conclusões sobre a importância da compreensão desses elementos para a pesquisa em Psicanálise. TEMA 1 – DISCURSO SUJEITO DO INCONSCIENTE Quando dizemos que o método psicanalítico também é um método de pesquisa, é porque se trata de uma análise do discurso do inconsciente. O primeiro pressuposto que iremos abordar é o inconsciente, enquanto objeto e matéria de trabalho da Psicanálise, conceito por meio do qual se estrutura a teoria e a clínica psicanalítica. Qual é a diferença entre a metodologia de análise de discurso e de conteúdo com o método psicanalítico? Caregnato e Mutti (2006) abordam o método de análise do discurso e de análise de conteúdo. O artigo publicado na base de dados Scielo, intitulado “Pesquisa qualitativa: análise de discurso versus análise de conteúdo”, descreve com detalhes essas metodologias de análise em pesquisa. Em Psicanálise, cabe ressaltar que analisar discurso ou conteúdo difere no sentido de que se faz análise do discurso do sujeito do inconsciente. Na metodologia qualitativa clássica, a análise de discurso e de conteúdo ocorre considerando o discurso do ego, já significado pela cultura. Assim, trata-se de pesquisar o sujeito do inconsciente conforme expressão criada por Lacan. Freud considerava que tinha um conteúdo inconsciente que se manifestava na fala das pessoas. A partir dessa colocação de Freud, Lacan passou a postular que esse inconsciente se comunica, e disso decorreu: o 4 inconsciente se comunica como uma linguagem, a linguagem do inconsciente, e por isso o inconsciente é um sujeito. Esse sujeito do inconsciente é o que desmente a pessoa (discurso racional do ego). É o que comete atos falhos, é o que demonstra irritação e faz a pessoa pedir desculpas, ou seja, é aquele que constrange, que envergonha, que faz a pessoa se sentir transparente. Vamos ver um exemplo: um menino internado em um hospital estava com medo de ir para a UTI depois de uma grande cirurgia que faria no dia seguinte. A psicanalista foi chamada para atendê-lo e, no primeiro contato, fez perguntas fáceis para que o menino respondesse, com a intenção de estabelecer um rapport, uma aliança terapêutica positiva: qual é o seu nome, quantos anos você tem, em que série está no colégio, e coisas assim. A psicanalista já sabia que ele tinha 13 anos, mas não o interpelou nem confrontou quando ele disse que tinha oito anos. Seguiu a conversa, pois a intenção não era acessar discursos racionais e sim os do inconsciente. Em seguida, perguntou como ele imaginava a UTI e o menino descreveu um lugar pequeno, quadrado, escuro e onde ele ficava sozinho. A psicanalista imaginou um túmulo, mas não disse nada. Perguntou a ele o que poderia ajudá-lo a suportar ficar naquele lugar. Ele disse que tinha medo de ficar sozinho no escuro e que não queria ir. Como a cirurgia já seria no dia seguinte e não havia possibilidade de adiá-la, a intervenção buscou diminuir a ansiedade e, para tanto, ele foi convidado a ir à UTI para ver como era. Ele viu um ambiente grande, iluminado e cheio de gente. As crianças estavam acompanhadas de suas mães. Então, concordou em fazer a cirurgiae, quando acordou no pós-operatório, a equipe garantiu que o ambiente era diferente daquele que ele havia imaginado. A mãe e a enfermeira estavam com ele, a televisão estava ligada em um filme que ele gostava, alguns objetos pessoais estavam com ele, havia muita luz e, da posição em que estava na cama, era possível ver a porta de entrada e o balcão de prescrição, sempre com a presença de membros da equipe de saúde. Nos dias seguintes, ele mesmo abordou esse assunto com a psicanalista, dizendo que estava gostando da UTI, mas achava que seu irmão tinha sido internado em outro lugar. Contou que seu irmão tinha a mesma doença, operou aos 8 anos de idade, foi para a UTI e morreu. 5 O discurso que interessa é aquele do sujeito do inconsciente, que de fato determina o comportamento. Como visto no exemplo, o engano e os atos falhos são muito mais relevantes do que o discurso bem educado mediado pelo filtro do ego. Assim, temos que: O discurso do sujeito do inconsciente é o conteúdo expressado como manifestação do inconsciente, irracional, desprovido de sentido. Discurso do ego: material consciente já organizado, censurado, adequado, coerente, que pode ser explicado, comprovado, entendido e que faz sentido. Freud defendia a importância do reconhecimento da existência do inconsciente por meio de reconhecimento científico, como objetivo dos estudos da Psicanálise. Nesse sentido, Freud discorreu sobre dados que comprovam sua existência. Ele aponta que manifestações do consciente expressam uma quantidade significativa de lacunas, independentemente de as pessoas serem saudáveis ou não. Freud também complementou, afirmando que, por meio de sua experiência clínica, percebeu que os atos conscientes ficam imperceptíveis quando há insistência de que os atos mentais devem ser experimentados apenas pela consciência. Por outro lado, mesmo reivindicando o reconhecimento científico da teoria psicanalítica, Freud também admitia a impossibilidade de que todos os fenômenos ocorridos na mente e nas emoções humanas pudessem ser conhecidos pela consciência. Freud estruturou o aparelho psíquico como constituído de instâncias que ele chamou de topos. A partir da obra A interpretação dos sonhos, a primeira estrutura freudiana era composta de inconsciente, pré-consciente e consciente. Para ele, o que mais importa é o lugar relativo que cada instância tem em relação às demais. Mais adiante no desenvolvimento de sua teoria, Freud propôs a substituição da estrutura, renomeando-a como id, ego e superego, como estrutura psíquica. Os “processos mentais são inconscientes em si mesmos, e assemelham a percepção deles por meio da consciência à percepção do mundo externo por meio dos órgãos sensoriais” (Garcia-Roza, 2005, p. 46). A Psicanálise alerta os sujeitos para não estabelecer correspondência entre impressões vindas da consciência e processos mentais inconscientes, que de fato são o objeto de análise psicanalítica. 6 TEMA 2 – O SIGNIFICANTE EM PSICANÁLISE Quando falamos em significante na Psicanálise, estamos nos referindo ao campo de estudos da Semiótica, que estuda os Signos e sua interface com os estudos da Psicanálise. De maneira breve, podemos dizer que um signo diz respeito a um objeto ou fenômeno que representa outro, como um sinal, composto por significante e significado. O significante é o elemento perceptível ou material do signo, enquanto o significado é o conceito, a parte abstrata do signo. Como exemplo, pense em uma placa de trânsito de proibido estacionar (E): o significante é a placa em si, o símbolo da E cortado; o significado é conhecido pelas pessoas que dominam as regras de trânsito e compreendem o conceito de que naquele local não se pode estacionar. Assim, o significante remete a um determinado significado. A discussão sobre o significante na Psicanálise diz respeito à compreensão do conjunto de sinais e signos tangíveis e perceptíveis que representam as manifestações do inconsciente, que precisam ser interpretadas no processo clínico em Psicanálise. Essa discussão ganhou corpo com a obra de Lacan. Na Psicanálise, o significante lacaniano aparece nas discussões teóricas como um conceito citado por Lacan. Foi Michel Arrivé quem relacionou o significante lacaniano com o signo de Saussure (um dos maiores linguistas da Semiótica), buscando estudar na área da Linguística a teoria do significante lacaniano. Arrivé (1999) destaca que, considerando a teoria lacaniana, não podemos deixar de estabelecer uma conexão entre Linguística e Psicanálise, entre linguagem e inconsciente. Entre a área da Linguística e a Psicanálise, há duas principais possibilidades de vinculação: a primeira é com a estrutura, e a segunda é com o sujeito. Ao atuar em um campo de estudos na interface entre duas áreas do conhecimento, não se pode supor uma mera articulação, pois articular supõe unir partes para construir um elemento. É por isso que Flores (1999) afirma que entre as duas áreas há uma implicação, ou seja, uma afinidade entre as proposições. Desse modo, trata-se de um desafio de interdisciplinaridade, que precisa ser encarado sob dois princípios: 1) o cuidado para que os conceitos da Linguística e da Psicanálise não sejam justapostos sem a devida interpretação 7 do arcabouço teórico exigido por cada área; 2) deve-se assumir um ponto de partida para as análises conjuntas — ou Linguística, ou Psicanálise — para que seja possível argumentar sem misturar os pressupostos, por mais atraente que possa parecer a simples mistura de conceitos. Aqui, portanto, destacamos a Psicanálise como ponto de análise e utilizamos pressupostos de outros campos, como a Linguística e a Semiótica, para compreender os atributos do significante na Psicanálise. Cabe ressaltar que tanto para Saussure quanto para Lacan, há a visão de que na produção do discurso há algo que escapa ao consciente do sujeito, questões que vão além da expressão objetiva, uma vez que, ao falar, sempre dizemos mais do que pretendemos, inclusive por meio da linguagem corporal. Nesse contexto de vinculação entre Psicanálise e Linguística, o sentido para a Psicanálise está justamente no lugar em que o sentido parece não estar. A linguagem não se revela com transparência, a comunicação nem sempre é clara, é frequentemente um espaço de ocultamento. Ao interagir por meio da fala, nunca se adota uma dimensão única, sempre há outros aspectos e sentidos ocultos naquilo que se diz. A investigação psicanalítica introduzirá ao processo científico uma compreensão de sentido que não existe na Linguística, seria a noção do sentido a ser refletido no sem-sentido. No campo da Psicanálise, o discurso consciente do sujeito está cheio de arestas do discurso consciente, assim sempre há um discurso oculto que se inscreve no inconsciente e que precisa de pressupostos para ser interpretado (Arrivé, 1999). Lacan (1999, p. 52) explica que as leis que compõem o inconsciente, designadas por ele como leis do significante, coincidem com as leis do discurso. A estrutura do inconsciente, pontua Lacan, diz respeito àquilo que “a análise Linguística permite situar como sendo os meios essenciais de formação do sentido, na medida em que este é gerado pelas combinações do significante”. Portanto, ele estabelece uma relação clara entre inconsciente e linguagem, entendendo a linguagem como constituidora do inconsciente. O significante será sempre “uma expressão involuntária de um ser falante, podendo ser um lapso, um relato do sonho, uma impressão provocada por um signo, ou mesmo um gesto, um som, ou até um silêncio” (Nasio, 1993, p. 17). O que é recalcado pelo sujeito pertence à representação da palavra, sendo assim da ordem do significante (Lacan, 1999). 8 Saiba mais Para explicar o que pertence à ordem do significante, Lacan (1988) exemplifica com a figura do passona areia: Os passos na areia da praia são sinais que o objeto deixa para trás. Esses sinais independem do sujeito para existir, já que permanecem mesmo sem a presença de alguém para observar. Desse modo, o significante se estende a múltiplos elementos do domínio do sinal. Enquanto o significante se refere a um sinal que “não remete a um objeto, mesmo sob a forma de rastro, embora o rastro anuncie, no entanto, seu caráter essencial. Ele é também um sinal de uma ausência. Mas, na medida em que ele faz parte da linguagem, o significante é um sinal que remete a um outro sinal, que é como tal estruturado para significar a ausência de um outro sinal” (Lacan, 1988, p. 192). Os conteúdos que a rede de significantes revela levam à possibilidade de criação de sentidos que ocorre na direção antagônica ao discurso linear, contrário ao discurso programado. Dessa forma, a metáfora, por fugir do esperado, demonstra algo criativo e que é matéria para análise e reflexão. TEMA 3 – ASSOCIAÇÃO LIVRE E ATENÇÃO FLUTUANTE Iniciamos com definições mais objetivas elaboradas com base no Dicionário de Psicanálise (Roudinesco; Plon, 1998), destacando que a atenção flutuante é a condição para que a livre associação ocorra, e esta última é a técnica fundamental do método psicanalítico. Historicamente, a associação livre surgiu como conceito no final do século XIX, quando Freud se desligou progressivamente da hipnose e da catarse, criando assim o método psicanalítico baseado na associação livre, que tem como fundamento a fala e a linguagem. O termo associação livre, atribuído a Breuer, que trabalhava com Freud, foi empregado pela primeira vez em 1896. Uma definição importante é que “qualquer implantação da Psicanálise passa pelo reconhecimento consciente da existência do inconsciente, da mesma forma que a associação livre, como técnica de tratamento, passa pelo princípio político da liberdade de associação” (Roudinesco; Plon, 1998, p. 344). Já a atenção flutuante, expressão criada por Freud em 1912, designa a “regra técnica segundo a qual o psicanalista deve escutar seu paciente sem 9 privilegiar nenhum elemento do discurso deste e deixando que sua própria atividade inconsciente entre em ação” (Roudinesco; Plon, 1998, p. 39). Assim, tanto a atenção flutuante como a associação livre são técnicas facilitadoras evocadas pelo analista para que os elementos latentes do inconsciente possam circular com liberdade no discurso dentro do processo terapêutico. Em sua autobiografia, Freud refletiu sobre a evolução de seu método, insistindo no respeito àquilo que chamou de regra fundamental da Psicanálise, que é chegar à associação livre (fluxo discursivo aberto com o paciente), meio para fazer surgirem as resistências (indicações de questões latentes no inconsciente) e possibilitar a exploração como canal a ser interpretado no processo psicanalítico (Freud, 1977). Nas pesquisas psicanalíticas, sejam clínicas ou teóricas, todas compartilham do método interpretativo e da ruptura de campo. A Psicanálise é um método interpretativo em ação, e não apenas uma teoria; mesmo as pesquisas teóricas servem para embasar a prática clínica. A Psicanálise é uma práxis, um conhecimento empírico que contém um saber sobre o qual é possível teorizar. Ao estabelecer o campo de estudos da Psicanálise, Freud desenvolveu, acima de tudo, um método de cura pela palavra para tratar as neuroses dos pacientes. Esse método vai além da racionalidade habitual e permite o surgimento do sujeito durante a interação analítica. “Freud estava introduzindo um método novo na arte de curar, um novo caminho que a arte havia explorado melhor, fato que certamente não lhe escapou” (Herrmann, 2004, p. 52). Ao desenvolver o método da associação livre, Freud rompe com o determinismo lógico da razão científica do início do século XX, acessando a subjetividade e refletindo sobre o sujeito para esclarecer suas questões psíquicas. A prática clínica proposta por Freud se caracteriza metodologicamente por uma proposta criativa resultante do processo de associação livre, que é específica e adaptada a cada sujeito, em que os sentidos latentes expostos pela análise constituem percursos discursivos singulares na fala do sujeito no processo terapêutico. Assim, observa-se que a Psicanálise, como método, aponta para uma implicação objetiva do sujeito, sendo uma característica da pesquisa em Psicanálise que difere da racionalidade científica tradicional, que busca neutralidade e imparcialidade no processo científico. 10 Vale ressaltar que a associação livre é um método freudiano para o tratamento terapêutico de neuroses, sendo um processo que revela o inconsciente e fundamenta uma compreensão teórica dos elementos psíquicos que explicam as patologias, como psicose, neurose e perversão. No campo da psicopatologia, a Psicanálise contribui para a classificação e descrição de doenças mentais, especialmente ao detalhar o conceito de demência precoce. Nesse sentido, o método psicanalítico fundamentou-se na observação e descrição das expressões clínicas do sujeito, buscando registrar sua evolução e técnicas de tratamento. Na obra A interpretação dos sonhos, de 1900, Freud estabeleceu como base a formulação inicial do aparelho psíquico em uma perspectiva dinâmica e empírica, além dos elementos constituintes da neurose. A tarefa de interpretar as manifestações inconscientes complementa a tarefa de falar no discurso terapêutico, consolidada pela atenção flutuante e pela associação livre. Assim, Barbosa define a associação livre e a atenção flutuante: A primeira corresponde ao ato de falar sem “censura” tudo o que lhe vier à mente, mesmo que pareça “bobagem” para quem fala; a segunda significa dizer que o analista não deve dar importância a qualquer elemento do discurso; deve permitir que sua escuta funcione o mais livremente possível, através da própria atividade do inconsciente, para, assim, suspender as motivações que se dirigem a dado elemento. (Barbosa, 2018, p. 55) Quando o paciente faz associações livres dos elementos discursivos, ele evoca seu contexto inconsciente, produzindo algo novo. Não está apenas relatando algo que vivenciou, mas evocando o que Freud chamou de recordações encobridoras. Essas recordações não são uma reprodução do passado, pois são atravessadas pela linguagem do sujeito que as descreve, trazendo elementos conscientes e expressões inconscientes que são trabalhados na clínica psicanalítica. É por meio dessas recordações encobridoras que uma linguagem é construída para se aproximar do inconsciente. Um objeto de linguagem é construído entre o analisante e o analista: o analisante fazendo sua associação livre e o analista registrando os casos e as abordagens terapêuticas. Lacan (2008), ao discutir a pesquisa psicanalítica e a técnica da atenção flutuante de Freud, ressalta que o analista ouve o que o analisante diz com atenção uniforme, sem pré-selecionar ou definir critérios para os conteúdos que 11 serão submetidos à análise. Por meio da escuta analítica, são encontrados no discurso os sinais do sujeito desejante, sendo que o próprio sujeito é resultado dos significantes inconscientes. Portanto, na Psicanálise não existe um objeto a ser minuciosamente estudado e examinado antes da intervenção na prática clínica. É por meio do processo clínico que o objeto da Psicanálise encontra seu lugar, onde o objeto não é simplesmente buscado, mas sim redescoberto. Pode-se considerar, conforme indicado por Lacan, que na regra da atenção flutuante está a reafirmação de que o percurso para a produção de pesquisas em Psicanálise não pode ser predeterminado. A produção científica em Psicanálise deve ser forjada de forma comprometida com a singularidade de cada circunstância. Caso contrário, encontraremos apenas o que já foi abordado por outras pesquisas, semcontemplar a natureza personalizada que os casos clínicos em Psicanálise demandam. Coelho e Santos (2012, p. 94), ao abordarem a pesquisa em Psicanálise em contextos não estritamente analíticos, fazem uso da técnica que Freud chamou de contrapartida do analista à regra da associação livre: a atenção flutuante. Toda pesquisa em Psicanálise implica que o pesquisador se submeta aos requisitos da prática clínica. É por isso que o método de pesquisa psicanalítica se baseia na fala e na escuta, por meio da associação livre e da atenção flutuante. Mesmo em pesquisas teóricas, é importante ter em mente a recomendação de que o pesquisador psicanalítico mantenha sua atenção uniformemente suspensa, aberto para o que possa surgir no processo de pesquisa. O pesquisador em Psicanálise não deve ter uma visão dogmática em que direcione sua atenção apenas para ideias que confirmem o que está previsto em suas hipóteses. Dessa forma, ao não rigidificar seus pressupostos teórico- práticos, o pesquisador adota uma postura compatível com a atenção flutuante, chegando assim a uma fundamentação conceitual que não seja totalizante. TEMA 4 – ANÁLISE DO PROCESSO PSICANALÍTICO E A TRANSFERÊNCIA Por meio da metodologia de estudos de caso, o psicanalista pode investigar e produzir conhecimentos sobre os fenômenos dos processos psicanalíticos, como os tipos de mecanismos de defesa mais utilizados e o 12 padrão de relacionamento mais comum entre pacientes neuróticos, limítrofes e com psicose. Neste tópico, abordaremos a transferência. O conceito de transferência em Psicanálise passou por várias mudanças desde que Freud o formulou originalmente. A transferência envolve as projeções de sentimentos que o analisando faz ao longo do processo de análise. A definição de transferência foi desenvolvida nas obras de Freud: Dinâmica da transferência (1912), Recordar, repetir e elaborar (1914) e Conferências introdutórias sobre Psicanálise (1917). É um fenômeno que ocorre dentro do setting analítico, onde, no processo de análise, os sentimentos em relação às figuras parentais são ressignificados na relação paciente-analista. A transferência é um aspecto extremamente importante da técnica psicanalítica (Morettini, 2023). Saiba mais O setting analítico é um conjunto de instrumentos e estratégias que compõem o atendimento terapêutico oferecido ao paciente. Está relacionado ao par analítico, ou seja, à relação discursiva e afetiva entre analista e paciente. Pelo mecanismo transferencial, o analista identifica sentimentos atribuídos aos agentes parentais. As relações primordiais dos seres humanos são a materna e a paterna, e também outras pessoas significativas na infância do sujeito. A transferência é um movimento de conteúdos do inconsciente em direção ao pré-consciente, que transcorre por meio de uma projeção que o analisando faz em relação ao analista. Esse trânsito de sentimentos é imprescindível para que os padrões repetidos do paciente sejam identificados e reelaborados na análise. Os sentimentos passados evocados pelo paciente e a projeção dos afetos para a figura do analista podem ser reconfigurados em uma transferência que ocorra de modo guiado pelo processo terapêutico. Quando a transferência acontece de modo benéfico, com uma condução adequada pelo manejo do analista, o paciente poderá seguir em seu amadurecimento com autonomia e independência. No sentido contrário à transferência, há a contratransferência, que é uma direção de afetos do analista para o analisando. A contratransferência 13 merece um sinal de alerta, já que, dependendo do nível de envolvimento emocional do analista, pode ser prejudicial para o paciente. Um psicanalista inexperiente pode ser surpreendido por um conteúdo transferencial muito intenso e reagir a isso de modo contratransferencial, achando que é algo pessoal do paciente para ele. Por exemplo, o paciente tenta seduzir o psicanalista ou discorda de suas intervenções, desqualifica o psicanalista e questiona sua competência, com um perfil desafiador opositor. Isso pode irritar o analista inexperiente. Para não ser surpreendido pelos fenômenos do processo psicanalítico, o analista pode fazer pesquisas sobre quais os tipos de relação transferencial mais frequentes entre pacientes neuróticos, limítrofes e psicóticos, de modo a se instrumentalizar tecnicamente para o manejo. A supervisão dos casos em atendimento contribui para o refinamento da habilidade clínica. A pesquisa em Psicanálise não está restrita ao âmbito clínico, mas se realiza tendo a dimensão clínica em seu horizonte. Da mesma forma que não há Psicanálise sem psicanalista, pela sua própria estrutura, que se baseia na linguagem, é preciso pontuar que o psicanalista está sujeito à criação de seu inconsciente. Os afetos transferenciais convertidos em transferência de trabalho constituem uma perspectiva de chegar a uma concepção livre de preconceitos. Como sustenta Lacan (2003), a Psicanálise apenas pode ser comunicada de um indivíduo para outro via transferência de trabalho. Assim, pontua-se que é a transferência de trabalho que abre caminho para a pesquisa teórica que seja propriamente psicanalítica. Hashimoto e Tavares (2013) destacam, dentre os caminhos relatados em suas vivências de trabalho e pesquisa em Psicanálise, a importância de compreender a implicação do pesquisador psicanalítico diante de um certo objeto de estudo, assinalando a transferência que ocorre no método psicanalítico. Os autores apontam que na Psicanálise o pesquisador realiza […] uma relação transferencial com o próprio conteúdo investigado na medida em que essas leituras o tocam de determinada forma para além da racionalidade empregada na própria leitura de um texto em particular. No momento em que lemos, estudamos e nos esforçamos para compreender qualquer que seja articulação teórica, não só a nossa racionalidade está ativa como também os processos inconscientes. (Hashimoto; Tavares, 2013, p. 172) 14 TEMA 5 – CASOS CLÍNICOS A última categoria importante para a pesquisa em Psicanálise, que será abordada de forma mais aprofundada, são os casos clínicos. No campo da metodologia de pesquisa, um estudo de caso é um tipo de pesquisa que enfatiza a singularidade de um determinado fenômeno, articulando uma teoria para analisar esse contexto específico. Trata-se de um método que permite obter informações detalhadas, testar hipóteses e desenvolver teorias (Gil, 2002). O estudo de caso, como estratégia na pesquisa clínica em Psicanálise, deve ser compreendido como resultado do relato de experiência clínica. Para conduzir um estudo de caso, Stake (1995) apresenta três tipos de delineamento que devem ser considerados na investigação científica: 1) Intrínseco: concentra- se na compreensão do caso e dos dados e princípios presentes nele que são relevantes para a pesquisa; 2) Instrumental: utiliza o caso para gerar reflexões sobre um tema, a fim de esclarecer um tópico teórico ou desenvolver conhecimento sobre questões que não se limitam apenas àquele caso, de modo que o estudo de caso possa trazer entendimento sobre outros fenômenos; 3) Coletivo: ocorre quando um caso instrumental abrange vários casos, por meio de uma análise comparativa, proporcionando um conhecimento mais abrangente sobre o fenômeno teórico-prático em investigação. Com base nesses três tipos, as pesquisas psicanalíticas que se debruçam sobre estudos de caso são classificadas como Intrínsecas e Instrumentais. O objetivo do estudo de caso em Psicanálise não é produzir generalizações, mas sim compreender a relação de um sujeito com seus sintomas. Assim, o estudo de caso ocupa uma posição fundamental na Psicanálise, registrando e refletindo sobre os impasses clínicos, como evidenciado por Freud em seus relatos de caso nas obras completas. A grande contribuição dos pesquisadorespsicanalíticos na comunidade científica está na publicação de pesquisas baseadas em suas experiências clínicas. Esses pesquisadores geralmente realizam abordagens qualitativas, coletando fragmentos de seus atendimentos para formalizar estudos de caso, que são analisados com base nos pressupostos psicanalíticos. O estudo de caso em Psicanálise é um relato de experiência sobre o setting analítico em um 15 processo de tratamento, utilizando a transferência e a associação livre para acessar o inconsciente e vincular a teoria aos achados clínicos. A prática clínica é um contexto privilegiado para a produção científica, pois aborda “a prática como um problema de pesquisa, com o objetivo de melhorá-la com base em seus próprios resultados” (Avellar, 2009, p. 16). Além dessa relevância, as pesquisas de casos clínicos em Psicanálise contribuem para que a prática seja transmitida a outros processos psicanalíticos. NA PRÁTICA A fim de relacionar os conceitos que compõem as bases da Produção Científica em Psicanálise, o mapa conceitual a seguir propõe uma estrutura para relacionar esses pressupostos: Figura 1 – Mapa conceitual de pressupostos para pesquisa em Psicanálise FINALIZANDO Ao compreender o inconsciente como estruturado pela linguagem, entendemos que o sujeito que é afetado pelo significante se torna um ser da 16 linguagem. O foco do psicanalista ao realizar pesquisas teóricas é guiado pelo conhecimento do inconsciente. O inconsciente encontra na linguagem, em um contexto clínico de vinculação, um lugar para sua expressão através da relação significado-significante, sob a orientação do psicanalista. Para Freud, a norma fundamental da Psicanálise é a associação livre, que ele chamou de regra fundamental, que determina a criação do analisando por meio da linguagem. Essa regra orienta o trabalho na clínica psicanalítica, e a associação livre é a forma adequada de conduzi-la. O analista precisa encontrar sua própria posição na transferência, diante da associação livre baseada nas falas do paciente. A singularidade da escuta marca a ação do analista através da atenção flutuante. A atenção flutuante requer treinamento sólido e um estado de alerta peculiar. No que diz respeito à transferência na pesquisa psicanalítica, existem diferentes finalidades na investigação clínica e teórica. Na prática clínica, a transferência é dissolvida por meio da interpretação. Já na pesquisa psicanalítica teórica, ela precisa ser instrumentalizada para tornar o texto uma argumentação metapsicológica. A instrumentalização diz respeito à sistematização dos elementos que o pesquisador transfere de forma inconsciente juntamente com as teorias em estudo. O estudo de casos clínicos em Psicanálise permite comunicar a singularidade das vivências clínicas por meio das peculiaridades de uma análise, contribuindo para a construção teórica e técnica da Psicanálise. O estudo de caso é uma abordagem ideal para a pesquisa clínica, que traz a noção de que a prática sempre desafia a teoria e convoca a uma constante reavaliação. 17 REFERÊNCIAS ARRIVÉ, M. Linguagem e Psicanálise, linguística e inconsciente: Freud, Saussure, Pichon e Lacan. Tradução Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1999. BARBOSA, V. C. A importância do diagnóstico clínico no processo psicoterapêutico: um estudo de caso na formação em clínica escola. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Católica de Goiás, Goiânia, 2018. BLEICHMAR, S. A fundação do inconsciente: desejos de pulsão, desejos de sujeito. Porto Alegre: Artmed, 1994. CAREGNATO, R. A.; MUTTI, R. Pesquisa qualitativa: análise de discurso versus análise de conteúdo. Texto Contexto Enfermagem, Florianópolis, v. 15, n. 4, p. 679-684, out./dez. 2006. Disponível em: . Acesso em: 25 jun. 2023. COELHO, D. M.; SANTOS, M. V. O. Apontamentos sobre o método na pesquisa psicanalítica. 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História da Psicologia Moderna. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 2000. STAKE, R. The art of case study research. Thousand Oaks: Sage, 1995. PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE AULA 6 Prof.ª Gabriela Eyng Possolli 2 CONVERSA INICIAL O estudo de caso é essencial para a fundamentação e construção da Psicanálise como campo científico, do ponto de vista terapêutico e conceitual. A produção científica psicanalítica não possui rigidez para fornecer parâmetros para a construção ou redação de estudos de caso. Freud detalhou muitos estudos de caso para apresentar a teoria psicanalítica, porém nunca orientou ou trouxe normas para fazê-lo. O fato de não haver um método psicanalítico específico para o estudo de casos clínicos pode até produzir críticas, porém esse nunca foi o objetivo de Freud, nem mesmo de Lacan. Sendo o método de construção do conhecimento na Psicanálise extremamente prático, as obras por eles publicadas são o maior indicativo de como conduzir a análise de casos clínicos. Dessa forma, tendo como base as orientações sobre estudos de caso na área de metodologia da pesquisa e usando exemplos da Psicanálise, objetiva-se detalhar orientações e linhas de condução expostas na literatura científica sobre o estudo de caso, seja como método ou como objeto de estudo. Para iniciar, pontua-se a relevância dos estudos de caso para o avanço das pesquisas na Psicanálise, com base em Lustoza, Oliveira e Mello (2019), que analisaram a produção científica em Psicanálise no Brasil entre 2013 e 2018. Identificaram 229 artigos publicados em cinco revistas registradas na base de dados da plataforma Scielo. Conforme esse estudo de revisão, essas 229 pesquisas são diversas, indo desde casos clínicos detalhados com articulações na teoria psicanalítica, até outros saberes que têm aPsicanálise como base e citam casos clínicos. São dados que demonstram a relevância crescente do estudo de casos na Psicanálise, um assunto emergente em pesquisa, que você irá aprender a partir de agora. TEMA 1 – O MÉTODO DE ESTUDO DE CASOS APLICADO À PSICANÁLISE O estudo de caso é um delineamento de pesquisa que estima o caráter único de um fenômeno ou conjunto de fenômenos, em articulação com um determinado contexto (na Psicanálise, com ligação com a clínica psicanalítica) e que se inscreve em um suporte conceitual (especificamente, a teoria psicanalítica). O método de estudo de caso possibilita obter informações com 3 maior profundidade, formular hipóteses e desenvolver teorias com suporte de dados empíricos. Estudos de caso são amplamente utilizados para pesquisa clínica na área da saúde, incluindo a saúde mental (psicologia e Psicanálise). Não existe consenso entre os especialistas em relação ao início de sua utilização como estratégia de pesquisa científica. Ventura (2007) realizou uma investigação e oferece três direções sobre a consolidação do uso dos estudos de caso: 1. psicologia e medicina como precursoras na área de pesquisa; 2. estudos antropológicos de Malinowski e da Escola de Chicago aprofundaram a utilização; 3. área jurídica, especialmente com Langdell, aprofundou o uso dos casos. Independente do campo que originou as pesquisas com estudos de casos, certamente as áreas da saúde, antropologia e direito foram importantes para a validação científica do estudo de caso como metodologia de pesquisa científica. Como campo científico, Yin (2005, p. 32) pontua que o estudo de caso é uma metodologia de pesquisa que “vincula a exploração empírica e as teorias, investigando um fenômeno contemporâneo dentro do contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o cenário precisam de aprofundamento”. Yin (2005) classifica o estudo de caso de acordo com sua aplicação no que se refere ao tipo: descritivo, explanatório e exploratório; com relação à finalidade: especificidade, pluralidade, contemporaneidade e análise intensiva. Os tipos já foram vistos no capítulo 1, e com relação aos atributos, é importante esclarecer a definição de cada classificação: Quadro 1 – Classificação quanto à finalidade do estudo de caso Finalidade Definição Exemplo na Psicanálise Estudo de Caso por Especificidade Objetiva estudar um caso único em específico, a fim de compreender a interação particular do sujeito, uma história e entorno. Estudo de caso clínico focando em um indivíduo, na relação terapêutica e nos processos psicoterapêuticos particulares. Estudo de Caso por Pluralidade Foca no estudo de um conjunto de casos individuais dentro de um escopo temático para realizar comparações e conclusões a respeito de Vimos no capítulo 4 uma revisão narrativa sobre a prevalência de depressão infantil (Brandão; Oliveira; Silva, 2023). É um tema que pode ser abordado também 4 aspectos psicoterapêuticos delimitados. com o relato de casos clínicos para definir, por exemplo, a prevalência de sinais e sintomas em uma comunidade. Estudo de Caso por Contemporaneidade Estudo de caso que busca abordar problemáticas atuais relevantes para a compreensão da psique humana, buscando casos de especificidade e/ou pluralidade para condução da pesquisa. Um estudo de caso que se encaixa nessa categoria foi realizado por Gomez e Chatelard (2020), denominado “A prática psicanalítica frente ao sujeito contemporâneo”. O contexto de onde emergiram os casos foi a prática clínica com adultos em uma clínica-escola. Estudo de Caso por Análise Intensiva Pesquisa de estudo de caso que pode ser de especificidade e/ou pluralidade com o direcionamento de se aprofundar em detalhes o problema de pesquisa. A pesquisa de Herszkowicz e Albino (2021), intitulada “A clínica da psicose: um estudo de caso”, descreveu em detalhes a proposta de atendimento e o desenvolvimento clínico de um paciente psicótico em um período de oito anos. Fonte: Possolli, 2023. A delimitação e trajetória metodológica do estudo de caso devem ser bem definidas para que o pesquisador evite utilizar dados da própria instituição em que trabalha (risco ético) caso o quantitativo de pacientes seja pequeno. Além disso, deve-se ter cuidado para não extrair variáveis imprecisas durante a coleta de informações. A pesquisa de estudo de caso deve ser precedida por um planejamento rígido, apoiado em um referencial teórico coeso, respeitando as características do caso e as ações no processo da pesquisa. O pesquisador psicanalítico executará tarefas técnicas conforme a natureza do fenômeno e a amplitude do contexto envolvido no caso em estudo. Ao longo da pesquisa, podem aparecer variáveis de interesse não previstas. Dessa forma, o uso de referenciais variados e evidências científicas dentro da temática é uma solução importante para lidar com a análise dos dados coletados. No Brasil, o método de estudo de caso vem sendo adotado progressivamente nas duas últimas décadas, sobretudo pelas ciências sociais e da saúde, incluindo-se a Psicanálise nessa interseção. Roese (1999) aponta que a pesquisa de contextos microssociais e realidades individuais, usando métodos como história de vida, estudos biográficos, observação e estudo, tem dois fatores principais como motivo: 1. Grupos de pesquisadores têm reagido contrariamente a estudos macrossociológicos, por reduzirem a percepção a respeito de 5 microrrealidades, provocando generalizações nocivas para a diversidade e a pluralidade. Nessa categoria, também se enquadram as restrições à sociologia quantitativista. 2. Redução dos recursos humanos e orçamento das pesquisas a partir dos anos 1990, inviabilizando projetos grandes que têm alto custo e cronogramas extensos, muitas vezes não se encaixando nos ciclos letivos das instituições. TEMA 2 – CASOS CLÍNICOS NA PSICANÁLISE E O RELATO CLÍNICO Stake (1995) destaca que o estudo de caso clínico, como metodologia na pesquisa em Psicanálise, resulta do testemunho de uma vivência clínica. Para conduzir um estudo de caso, o pesquisador deve considerar o tipo mais adequado para sua investigação. Sabe-se que uma das “exigências para o estabelecimento de qualquer ciência diz respeito à comunicabilidade, tanto dos meios de investigação quanto dos resultados alcançados” (Barone, 2006, p. 224). Nesse ponto, destaca-se o dever científico do psicanalista como pesquisador de relatar e analisar seus casos, contribuindo na construção da Psicanálise como ciência, método de pesquisa e terapia. Isso amplia o sentido ao se compreender o relato clínico como uma permanente edificação teórica em Psicanálise. O método psicanalítico de produção científica foi continuamente questionado porque não se adequa ao modelo tradicional de ciência, travando um debate especialmente com os defensores da Medicina Baseada em Evidências. Aprofundar o método clínico psicanalítico, que valoriza a transferência, o inconsciente e as singularidades do caso, se justifica pelos aportes, sobretudo para a condução de casos clínicos graves (Val; Lima, 2014). O uso de estudos de caso como ferramenta de pesquisa auxilia na transmissão da teoria psicanalítica. Nesse sentido, torna-se importante deixar clara a importância do conceito de transmissão para a Psicanálise nesse contexto. A transmissão se opõe ao simples saber, uma vez que foca na experiência clínica entre o psicanalista e o analisando, mediados pela linguagem. Por isso, considerar a teoria psicanalítica por meio de casos clínicos é um suporte para desenvolver a transmissão na Psicanálise de forma aplicada. Comunicar fatos clínicos em Psicanálise é oportuno para fazer com que a experiência do analista seja transparente para concretizar a vinculação 6 intersubjetiva no setting psicanalítico.A transmissão da experiência clínica por meio de estudos de caso faz com que as concepções básicas da Psicanálise estejam em evidência em cada fase da pesquisa. O estudo de casos psicanalíticos permite, mediante a análise discursiva, o registro escrito e a transmissão da experiência e perfil de pesquisador do psicanalista (Leitão, 2018). Na clínica psicanalítica, a regra basal da associação livre resulta do palavrear, da linguagem e do discurso como ato de liberdade. O analisando verbaliza o que vem à mente, e é por meio desse discurso livre que acessa elementos inconscientes; assim, o caso clínico vai se construindo, a linguagem gestual vai se associando ao falado, e o analista consolida o caso. Expressar-se por meio de linguagem (verbal, gestual) diante do analista, que, devido à transferência, possui um fio condutor no processo psicoterapêutico, participa, nessa troca intersubjetiva, do próprio caso em construção por meio desse contexto discursivo (Lacan, 2008). Assim, importa destacar que, no caso clínico, para que ele se desenvolva como um método de estudo de caso, a fala é sempre endereçada ao Outro, por meio da transferência. Por isso, não pode ser considerada uma fala qualquer; trata-se de uma fala significante, articulada, cortada e elaborada na relação terapêutica. Do mesmo modo, a escrita ao relatar um caso psicanalítico. No estudo de caso, a escrita realizada pelo psicanalista-pesquisador passa por um processo significante que está em constante reconstrução, pois o caso clínico está sendo elaborado a cada sessão de maneira orgânica. Por isso, ao coletar os dados anotados nas sessões e elaborar em forma de texto, o analista escreve, corrige, relê, produzindo significações enquanto registra e organiza os casos. O analista pode ainda tomar como base casos registrados por seus pares ou bancos de dados, desde que esses casos estejam suficientemente detalhados para os propósitos da pesquisa. Sendo necessário em algumas situações a possibilidade de tirar dúvidas com o analista que registrou os casos, sempre seguindo os preceitos éticos para pesquisa com seres humanos (autorização de uso de dados, preservação do anonimato e minimização de riscos de vazamento de dados e viés de pesquisa). Cabe destacar que há uma aproximação, mas também uma diferenciação entre o relato clínico e o estudo de caso. Estamos tratando do estudo de caso como metodologia e especificaremos agora o relato clínico, que é entendido 7 como parte essencial do estudo de caso. O termo relato diz respeito a uma narrativa, ao testemunho de uma experiência clínica. A esse respeito, Figueiredo (2004, p. 79) afirma que o relato clínico precisa ter riqueza de detalhes, descrição de cenas e conteúdo discursivo, já que o caso é “produto do que se extrai das intervenções do analista na condução do tratamento e do que é decantado de seu relato. Atentando para o fato de que o caso será morto se for reduzido a uma fórmula”. No relato clínico residem os apontamentos que serão utilizados como dados de pesquisa no estudo de caso, examinados e articulados à teoria psicanalítica. Dessa forma, as informações serão sintetizadas ou refinadas conforme necessário para o que se deseja demonstrar nos objetivos e problema de pesquisa. É importante pontuar como princípio ético que o excesso de informações fragiliza o sigilo quanto às pessoas mencionadas no relato, mesmo com a supressão dos nomes. O psicanalista-pesquisador é o guardião do chamado espaço de intimidade no processo analítico, que exige confiança. “Um desafio constante para o psicanalista na construção de sua ciência, diz respeito à necessidade de comunicar suas descobertas, ao mesmo tempo que preserva o sigilo no espaço de intimidade que a clínica lhe exige” (Barone, 2006, p. 224). TEMA 3 – CONSTRUÇÃO DO CASO VERSUS ESTUDO DE CASO Apesar de ser possível escrever relatos clínicos após um considerável tempo de relação terapêutica, Freud (1985) pontua como recomendação que o psicanalista escreva apenas após o término do tratamento. Essa orientação é importante para o distanciamento do pesquisador, a fim de que o “interesse científico não atrapalhe a relação transferencial” (Leitão, 2018, p. 419). Outra consideração está em ter o cenário completo, pois a aproximação do analista do caso clínico se dá progressivamente, e durante o tratamento alguns elementos ainda estarão obscuros. As percepções de cunho científico quanto ao que ocorre com o analisando durante a psicoterapia são delicadas. Devido ao interesse em buscar dados no caso, isso pode invariavelmente atrapalhar a escuta do psicanalista, contaminando o processo terapêutico e também a própria pesquisa, já que o discurso científico precisa refletir sobre a verdade dos fatos. Ou seja, cuidado para que não haja manipulação de dados! Deve-se exaltar a postura de escuta 8 atenta do analisando, por meio da atenção flutuante, abrindo espaço para o significante. Lembre-se de que se denomina relato de caso, e o termo caso diz respeito a uma ação já ocorrida. Segundo o próprio Dicionário Michaelis, significa “manifestação individual de uma doença ou ocorrência clínica”, ou ainda “fato em torno de um acontecimento passado importante” (Michaelis, 2023). Considerando que as construções do estudo e do relato de caso devem ocorrer posteriormente, entende-se que são ferramentas de elaboração teórica e técnica sobre o setting analítico. Permitindo a escuta da escuta, ou seja, a percepção daquilo que o outro escutou com relação ao relato do caso clínico. Por isso, a pesquisa entre pares é tão importante. No processo terapêutico, o psicanalista compõe uma visão abrangente do tratamento, formulando hipóteses que conduzirão a intervenção clínica. Dessa forma, é fundamental distinguir a construção do caso do estudo de caso. A construção do caso se refere ao tratamento psicanalítico em si, que permite ao analista “localizar o seu lugar na transferência para lançar suas interpretações” (Val; Lima, 2014, p. 109). Já o estudo de caso aborda a condição de pesquisador em Psicanálise, em que o psicanalista constrói um caso retrospectivamente, de forma articulada com o desenho da pesquisa, seguindo os preceitos científicos. A Psicanálise, no ambiente clínico ou investigativo, “não opera com a lógica causal, nem com a dedução ou com a indução” (Guerra, 2010, p. 141). Guerra explica que a Psicanálise se posiciona como uma ciência que busca compreender menos e escutar mais. Isso não significa que o pesquisador em Psicanálise se isentará de formular hipóteses, mas que terá uma direção, assim como toda a análise também tem. Não é possível conhecer de antemão os detalhes do caminho, dadas as particularidades de cada caso. Sendo que esse caminho é pavimentado pela associação livre e pela transferência, tanto na clínica quanto na construção dos casos. A prática de expor e discutir casos é um meio eficaz para avaliar a qualidade de uma comunidade de analistas e melhorar serviços de saúde mental. Analisando os fundamentos da Reforma Psiquiátrica Italiana, Viganò (2010) explica que a edificação de casos em instituições de saúde mental precisa ser democrática, uma vez que cada um dos atores do caso (familiares, instituições, analistas, pacientes, supervisores etc.) participa com sua contribuição, que na verdade trata-se de: 9 juntar as narrativas dos protagonistas dessa rede social e de encontrar o seu ponto cego, encontrar aquilo que eles não viram, cegos pelo seu saber e pelo medo da ignorância. Este ponto comum, a falta de saber, é o lugar do sujeito e da doença que o acometeu. (Viganò, 2010, p. 2) Sintetizando, a diferença fundamental entre a construção do caso e o estudo de caso está em que no primeiro não é feita interpretação, pois a finalidade é construção e esclarecimento de elementos em um esforço conjunto. Em contrapartida,o estudo de caso ocorre por meio de um aparato de interpretações. A interpretação, como dispositivo da prática clínica, é uma construção, que na clínica se mostra inacabada, já que seu objetivo é alçar novas associações, para que um significante remeta a outro, operando assim a rede entre consciente e inconsciente. Mesmo que o estudo de caso deseje produzir sentidos sobre a narrativa do setting analítico, da mesma forma que a construção do caso, não se concluem todas as questões, pois surgem novas. Porém, o mais importante para ambos é permitir a partilha da experiência, visto que essa é colocada à prova. Concluindo, o principal ponto que se estabelece na construção e no estudo de casos, uma vez compreendido que não há um saber que explique por completo o que está em causa no processo de adoecimento, tanto a construção como o estudo permitem chegar a um melhor entendimento sobre as questões que necessitam constantemente de investigação, apreensão e compreensão: o primeiro para guiar o trabalho clínico, e o outro para elaborar e produzir algum sentido sobre este trabalho. Deste modo, o material criado nos procedimentos do estudo do caso torna-se uma ferramenta de organização da experiência clínica. Um material muito valioso, que, conforme pontuam Conti e Sperb (2010, p. 307), servirá para que o psicanalista-pesquisador recorra a qualquer momento “para interrogar, avaliar e até mesmo ressignificar a sua ação, refletindo sobre a singularidade de cada caso”. TEMA 4 – ESTUDO DE CASOS MÚLTIPLOS Uma dúvida frequente é sobre analisar mais de um caso em um mesmo trabalho de pesquisa. Como vimos na classificação de Yin (2005), existe um tipo de estudo de caso que se destina a trabalhar com múltiplos casos, o que deve estar fundamentado no método de investigação, nos instrumentos e na abordagem para análise de dados. Cabe pontuar que em um estudo de casos múltiplos não há um quantitativo fechado de casos que podem ser analisados. 10 Ao investigar múltiplos casos, ou um caso único, é necessária uma linha de análise e uma literatura para fundamentação. Os procedimentos metodológicos devem possibilitar comparar os casos em série, destacando as especificidades e as macroanálises. Uma das vantagens de realizar estudo de casos múltiplos é a possibilidade de demonstrar a prevalência de sinais e elementos relatados no arcabouço de pressupostos da Psicanálise. Para orientar o olhar do pesquisador na análise, deve-se acessar o que a literatura da área tem desenvolvido sobre o tema em pauta. Quanto mais sólida for a fundamentação teórica do estudo, maior será a qualidade da argumentação na análise dos casos, recuperando e validando os aspectos destacados na literatura à luz dos casos relatados na pesquisa. Convergências e divergências entre os resultados dos casos são bem- vindas e podem ser aproximadas ou contrastadas na discussão da pesquisa. A seleção e análise de mais de um caso clínico não visa à replicação, mas possibilitar a comparação. Verztman (2013) destaca que analisar casos em um conjunto argumentativo para atingir um objetivo comum levanta grandes questões e controvérsias para a pesquisa psicanalítica. A singularidade dos sujeitos e as variações contextuais são cruciais, e em alguns casos podem apontar para o incomparável. “Comparar abstrações, modelos e práticas que servem para dar parâmetros à clínica não é o mesmo que comparar sujeitos” (Verztman, 2013, p. 75). Ao propor uma pesquisa com múltiplos casos, deve-se levar em consideração que os elementos discursivos da psicoterapia evocarão cenários variados de análise. Para tornar essas considerações mais claras, apresentemos um exemplo de estudo de casos sobre casos de depressão. Suponha que, como analista, você teve acesso ao histórico de cerca de dez ou doze casos de depressão que podem participar da pesquisa que irá conduzir, mediante autorização da clínica que compartilhará os dados. Esses pacientes foram atendidos por profissionais diferentes com perfis diversos, assim como os pacientes têm características e histórias de vida distintas. No entanto, também pode haver pacientes diagnosticados com depressão advindos de cenários com elementos semelhantes. Para testar suas hipóteses, deve-se apreciar os elementos individuais, intersubjetivos e as técnicas aplicadas à terapia. Alguns pacientes podem ser submetidos à terapia psicanalítica associada à medicamentosa, 11 enquanto outros podem iniciar com terapia cognitivo-comportamental e migrar para Psicanálise usando apenas fitoterápicos. Como formatos distintos estão em jogo, é possível interpretar as reações e resultados dos tratamentos em um estudo de múltiplos casos, com várias opções de tratamento para uma mesma condição clínica inicial: a depressão. TEMA 5 – ORGANIZAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS EM ESTUDO DE CASO Ao organizar uma pesquisa de estudo de caso, independentemente do tipo, existem procedimentos e momentos que devem ser respeitados para que a investigação e análise dos casos tenham o rigor científico adequado para a produção de conhecimento na Psicanálise. Registrar a clínica psicanalítica remete à escrita dos achados de casos concluídos, como vimos na orientação de Freud, com base em anotações e em um roteiro de coleta de informações. Para elaborar um roteiro, que será seu instrumento de pesquisa, tenha em mente que é necessário coletar dados de forma padronizada nos casos clínicos que se pretende analisar, registrando informações que não rompam o anonimato. Conforme os propósitos e problemas enunciados para a pesquisa, itens específicos farão parte desse roteiro. Para tornar mais claro o processo de composição do texto científico quando abordamos a metodologia de estudo de caso na Psicanálise, a seguir detalham-se os três momentos da escrita da clínica em Psicanálise, com base na publicação de Guimarães e Bento (2008). • Momento 1: escrita da história clínica e do processo analítico Moura e Nikos (2001) pontuam que a prática clínica analítica começa com o registro da anamnese, necessária para compor a história clínica ou da doença. A escrita do caso clínico terá correspondência com a trajetória do processo clínico, de modo que iniciará com o relato da história da doença/queixa, vinculando-a aos fatos da história de vida do paciente. É o que se verifica nos casos que Freud expôs. No relato das cinco Psicanálises clássicas, Freud (1992) demonstrou uma sequência para exposição, levantamento de dados e, ao final, a análise dos casos: 1. No caso Dora, a doença da paciente é trazida com detalhes e abordagens em um item que ele denominou de O Quadro Clínico. 12 2. Já no caso do pequeno Hans, descreveu a doença do paciente e o processo analítico em um item denominado O Caso Clínico e Análise. 3. No famoso caso do “homem dos ratos”, mais uma vez Freud valorizou a descrição da doença para depois detalhar o caso e a análise realizada, bem como os caminhos para o tratamento. 4. Até mesmo na análise de Schreber, que não foi um caso clínico propriamente dito, mas uma autobiografia, depois da introdução, Freud intitulou o primeiro item da obra como História Clínica. 5. No quinto e último caso, o homem dos lobos, Freud discorreu a respeito da doença do paciente em suas Observações introdutórias logo no primeiro item, para no segundo item descrever a “Avaliação Geral do Ambiente do Paciente e Histórico do Caso”. Em todos esses casos, é perceptível a preocupação de Freud em começar a exposição enfatizando a evolução da sintomatologia do paciente, desde seu aparecimento, situações anteriores desencadeantes, chegando às manifestações atuais, para só depois realizar uma análise do caso. Portanto, podemos dizer que nesse primeiro momento a escrita da clínica visa apresentar de forma clara a queixa do paciente, as manifestações psíquicas e de doença (conscientes ounão), buscando uma descrição neutra. Para embasar esse momento 1, a transcrição literal de falas do paciente é recomendável. É relevante ainda, não esquecer de delinear uma linha do tempo da evolução da doença do paciente, estabelecendo as relações com os principais fatos e sintomas manifestados. • Momento 2: descrição da transferência e dos detalhes do tratamento clínico Está em destaque nesse momento a transferência, como já vimos no capítulo 5, como um pressuposto imprescindível para a pesquisa em Psicanálise. A transferência do paciente para o analista é fundamental para que a cura pela palavra ocorra, correspondendo ao segundo momento da clínica analítica. Na clínica, o processo psicoterapêutico evolui de um primeiro período, em que o paciente relata sua queixa e faz um retrospecto de vida inicial, para um segundo período em que o objeto focal de sua queixa não será mais o sofrimento pela doença, e passará sua pulsão para a relação transferencial com o analista. Nesse sentido, pode-se dizer que “a transferência será herdeira da doença, 13 possuindo uma equivalência funcional com a doença, que Freud denomina como transferência como sintoma na obra Estudos sobre a histeria” (Guimarães; Bento, 2008, p. 96). É natural e desejável, na clínica analítica, uma passagem da queixa pelo sofrimento vivido pelo paciente, para o sofrimento provocado pela transferência entre analista e analisante. A escrita dos fatos e contexto clínico terá correspondência com a evolução do tratamento da clínica propriamente dita. Para isso, como já referido, deve-se estudar, como pesquisa científica, casos concluídos, seguindo a recomendação de Freud (1985), para que o processo analítico não se contamine com os interesses e hipóteses que se espera ver na pesquisa. Nesse segundo momento, objetiva-se compor a história do tratamento, ressaltando principalmente a descrição dos cenários transferenciais e contratransferenciais que aparecem na clínica analítica e também da supervisão do caso. A descrição dos afetos e das relações no contexto da relação analista- analisando é fundamental. Portanto, também cabem aqui citações literais dos discursos, pontuando em seguida a intervenção ou entendimento do analista. • Momento 3: metapsicologia por meio da interpretação da história da doença e da transferência por meio da teorização psicanalítica A finalidade do terceiro momento é analisar a interpretação da história da doença e da evolução da clínica por meio da transferência, embasando em uma construção teórica em Psicanálise, a metapsicologia. Momento correspondente à discussão clínica dos momentos 1 e 2 por meio dos pressupostos psicanalíticos. Para atingir o objetivo dessa etapa, Moura e Nikos (2001) destacam que cabe ao terapeuta selecionar uma situação-problema do tratamento, que originará o problema de pesquisa. Partindo dessa questão central que emerge da clínica do caso, o analista-pesquisador delimitará o objeto da investigação, em que são escolhidos tópicos, fenômenos e abordagens para a pesquisa. O analista-pesquisador se embasa em teorias estabelecidas para confirmá-las ou refutá-las conforme os achados no campo da clínica. Podem ser refutadas por inadequação em dar conta daquela clínica específica que inspirou o estudo de caso, servindo assim para reformular a teoria e reconstruir bases de análise. É devido ao sujeito em análise que as teorias se constroem e são reformuladas. A clínica, embora singular, sempre desafiará a teoria já construída, 14 e se assim não for, os nós das resistências precisam ser identificados. Se é pela clínica que a teoria psicanalítica é concebida, também pode ser por ela reformulada, para que dê conta da fala única daquele sujeito em análise. Tendo a transferência como mecanismo fundamental para o método de pesquisa de Estudo de Caso na Psicanálise, opõe-se ao paradigma positivista de ciência, que valoriza o distanciamento entre sujeito e objeto, o que não é possível ou desejável na relação analisante-analista. A presença de um supervisor contribui para a construção objetiva de um caso. Safra destaca que é cada vez mais frequente que pesquisadores em Psicanálise recorram ao acompanhamento do trabalho de pesquisa por um supervisor com experiência no método para assim “garantir maior objetividade e auxiliar na descrição de suas reações contratransferenciais, submetê-las à análise, complementando a função analítica do pesquisador, trazendo confiabilidade ao processo de pesquisa” (Safra, 1993, p. 131). NA PRÁTICA A partir das leituras e análises dos temas apresentados sobre estudo de caso em Psicanálise, estabeleceram-se alguns pontos centrais que guiam a prática de construção e escrita de um estudo de caso psicanalítico, que servem de síntese e fundamento para colocar esse tipo de pesquisa em prática: 1. Situar a função do caso clínico apresentado é algo pertinente logo no início do estudo, podendo ser: sustentação da discussão; comprovação da possibilidade de articulação teoria-prática; esclarecer ao leitor, didaticamente, o desenvolvimento de conceitos no bojo da teoria psicanalítica. 2. O relato clínico e o caso em si precisam ser claros, fornecendo dados sobre a queixa, a doença, as falas do analisando, sua história de vida e o processo de transferência. 3. Ter cautela ao descrever antecedentes clínicos do paciente, evitando afirmações tendenciosas, julgadoras ou que possam romper o anonimato. 4. Apontar limitações ou variáveis relevantes para o entendimento da evolução clínica, como o tempo do tratamento, intercorrências, conflitos, equipe multiprofissional de saúde etc. 15 5. O campo psicanalítico possui linhas que defendem posições divergentes, portanto é preciso cautela no uso de autores variados, sobretudo os clássicos. Não é possível sustentar uma análise de casos tendo como base Lacan, seguido de Winnicott, e depois Melanie Klein, por exemplo. 6. Especificamente sobre o sigilo de dados, mesmo utilizando-se nomes fictícios, publicar casos clínicos é delicado, como advertiu Freud no caso Dora. É importante seguir as recomendações da Resolução n. 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. 7. Nem todos os estudos de casos resultarão em uma pesquisa científica. Relatar práticas clínicas só faz sentido ao estabelecer questões com potencial científico, definindo as contribuições dos estudos de caso no campo epistemológico, teórico e prático para a Psicanálise e para outros campos. A seguir, uma síntese conceitual em forma de esquema para reformular os principais elementos que contribuem para a compreensão do método de estudo de caso aplicado à Psicanálise: Figura 1 – Esquema síntese sobre estudo de caso em Psicanálise Fonte: Possolli, 2023. 16 FINALIZANDO Conclui-se que o estudo de caso em Psicanálise, como metodologia de pesquisa científica, é a escrita da clínica analítica, incluindo a descrição da história do paciente, de seus dados clínicos, da doença, da transferência na relação clínica e da teorização que interpreta as fases do tratamento. O objeto da teorização psicanalítica que analisa o caso está na memória inconsciente. Para estudar um caso em Psicanálise, são realizados três momentos como procedimentos metodológicos: 1. escrita da história clínica e do processo analítico; 2. descrição da transferência e dos detalhes do tratamento clínico; 3. metapsicologia por meio da interpretação da história da doença e da transferência por meio da teorização psicanalítica. Para empreender esse tipo de produção científica, o analista-pesquisador recorrerá às teorias construídas na área, visando confirmá-las ou refutá-las, de acordo com os achados no campo da clínica (estudos de caso selecionados). A clínica, sendo única em seus casos, desafia constantemente a teoria estabelecida, e a Psicanálise, mesmo com seus fundamentosconceituais, é uma ciência aberta. E é pela clínica que a Psicanálise se constrói e se reconstrói, como fizeram Freud, Lacan e tantos outros em suas obras com vastos relatos clínicos. Dessa forma, estudos de caso não podem ser vinhetas clínicas, como meras ilustrações clínicas de uma teoria pronta e acabada, mas sim uma possibilidade de acessar a clínica do caso como fonte para construção teórica, por meio da sua aceitação ou refutação. A participação do analista em uma pesquisa de estudo de caso torna-se importante ao entendermos que o psiquismo do pesquisador precisa ser considerado como elemento de análise na construção do caso. Quando o objeto de investigação faz parte da vida do pesquisador, isso contribui para elucidar algum ocultamento. Quando o psicanalista se depara com algo, reage a isso, acessa concepções pré-concebidas, uma contratransferência. Se a contratransferência ficar oculta, o analista falhará na análise de dados inconscientes do analisando, por isso a supervisão é fundamental para que o processo psicanalítico flua adequadamente. 17 REFERÊNCIAS BARONE, L. M. C. A escrita do analista: investigação, teoria e clínica. 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CONVERSA INICIAL TEMA 1 – PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE TEMA 2 – PESQUISA PURA OU APLICADA 2.1 Pesquisa pura (ou básica) 2.2 Pesquisa aplicada TEMA 3 – PESQUISA EXPLORATÓRIA, DESCRITIVA OU EXPLICATIVA TEMA 4 – ABORDAGEM DE PESQUISA: QUANTITATIVA, QUALITATIVA OU MISTA TEMA 5 – TIPOS DE MÉTODO DE PESQUISA NA PSICANÁLISE NA PRÁTICA FINALIZANDO REFERÊNCIAS CONVERSA INICIAL TEMA 1 – O MÉTODO DE ESTUDO DE CASOS APLICADO À PSICANÁLISE TEMA 2 – CASOS CLÍNICOS NA PSICANÁLISE E O RELATO CLÍNICO TEMA 3 – CONSTRUÇÃO DO CASO VERSUS ESTUDO DE CASO TEMA 4 – ESTUDO DE CASOS MÚLTIPLOS TEMA 5 – ORGANIZAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS EM ESTUDO DE CASO NA PRÁTICA FINALIZANDO REFERÊNCIASe explorar suas nuances e relações micro e macrodeterminantes. Como temática possível caracterizada como pesquisa explicativa em Psicanálise, pode-se realizar um estudo de casos sobre a prevalência de atos 9 falhos na prática clínica, a fim de identificar casos detalhados de ocorrência, com análise do discurso dos pacientes, para estabelecer como o mecanismo psicanalítico do ato falho ocorre e por que o indivíduo troca significantes em processos de linguagem, acessando as causas inconscientes. Um exemplo de resumo de uma pesquisa explicativa em Psicanálise publicada, com título: Das representações mentais na gestação às frustrações pós-parto: um campo para a Psicanálise: O presente estudo tem como objetivo apresentar a correlação entre Psicanálise e obstetrícia e os fatores psicológicos advindos desta relação, bem como a atuação do psicanalista no processo. Sobre o método, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de finalidade básica, caracterizada por referência bibliográfica de cunho explicativo. A pesquisa foi realizada nas bases de dados Bvs e SciELO, com os descritores: obstetrícia, gestante, parto e Psicanálise, entre o período de junho a novembro. Este trabalho teve como objetivo revisar os processos psicológicos através do olhar psicanalítico no período de gestação e nascimento de um sujeito, pontuando algumas etapas e suas cargas emocionais e psíquicas que tendem a ser geradas na gestante e em seu contexto familiar. Portanto, as releituras permitiram compreender que os pensamentos e a verbalização dessas fantasias necessitam de um apoio profissional para ajudar essa mãe a elaborar suas representações e com consequência melhorar a relação com o bebê que irá nascer. (Ferreira; Elias; Corrêa, 2018) É relevante pontuar três atributos importantes que caracterizam uma pesquisa explicativa. São eles: a) Compreensão crescente: ampliar a compreensão do pesquisador sobre um determinado tema. Não indica resultados conclusivos devido ao fraco poder estatístico das análises, mas tem como ponto forte fazer com que o pesquisador entenda como e por que os fenômenos acontecem. b) Flexibilidade das fontes: as fontes secundárias, como literatura ou dados publicados em relatórios, são comuns em pesquisas explicativas. Porém, é preciso ter cuidado na escolha de fontes imparciais, a fim de se ter uma compreensão ampla e equilibrada da temática. c) Melhores conclusões: as produções científicas do tipo explicativa podem ser vantajosas para direcionar abordagens de pesquisas aprofundadas e embasar uma compreensão fundamentada. A compreensão densa da temática possibilita ao pesquisador refinar sua visão e chegar a questões subsequentes para a continuidade do estudo. 10 TEMA 4 – ABORDAGEM DE PESQUISA: QUANTITATIVA, QUALITATIVA OU MISTA A classificação quanto aos objetivos (exploratória, descritiva e explicativa) está presente em muitos autores, assim como a natureza da pesquisa em Pura e Aplicada. No entanto, para seguir uma linha de raciocínio embasada em Gil (1989), detalharemos ainda as abordagens de pesquisa como Quantitativa, Qualitativa e Mista (quanti/quali). A seguir, um esquema representando esses tipos de pesquisa subdivididos nessas três categorias (Figura 1). Figura 1 – Classificação de pesquisa quanto à natureza, objetivos e abordagem Quando falamos em abordagem, destacando o tipo de dados coletados, os instrumentos e técnicas de pesquisa, a abordagem pode ser quantitativa, qualitativa ou mista (quanti-qualitativa). A pesquisa quantitativa trabalha com dados estatísticos e instrumentos de pesquisa fechados com respostas objetivas ou com categorias prévias, partindo de realidades em que se pode mensurar ou quantificar um certo fenômeno, fato ou contexto pesquisado. Além disso, a utilização de “modelos matemáticos e estatísticos para análise dos resultados experimentais, sejam eles obtidos por Pura Tipos de Pesquisa quanto à/aos Abordagem Quantitativa Qualitativa Quanti/Quali Natureza Aplicada Objetivos Exploratória Descritiva Explicativa 11 meio de um ensaio de laboratório, de um questionário ou entrevista que envolva variáveis quantificáveis” (Casarin, 2012, p. 36) é uma característica importante dessa abordagem. A pesquisa qualitativa nas Ciências Humanas destina-se a compreender um contexto que, quando envolve pessoas, seus comportamentos e relações, traz uma complexidade maior para compreender “significados, motivações, aspirações, crenças, valores, emoções e atitudes. Esse conjunto de fenômenos humanos é entendido como parte da realidade social, pois o ser humano se distingue não só por agir, mas por pensar sobre o que faz e por interpretar suas ações na e da realidade pessoal e social” (Minayo, 2009, p. 23). Uma pesquisa qualitativa é mais difícil de ser expressa em números ou variáveis quantitativas, uma vez que atua no âmbito das representações humanas, sua intencionalidade e até suas reações inconscientes. Devido à profundidade histórica e social do objeto de estudo nas humanidades, pode haver uma multiplicidade de possibilidades de análise e visões a respeito de um mesmo cenário ou grupo de indivíduos, devido à subjetividade inerente às evidências coletadas e análises dos dados. O tipo de instrumentos e técnicas de pesquisa influenciará diretamente as evidências produzidas e os fatos interpretados, uma vez que a multiplicidade de interpretações é um efeito direto da subjetividade implícita nas pesquisas qualitativas com seres humanos. Os instrumentos de pesquisa qualitativa exigem um processo de elaboração de roteiros ou das questões a serem abordadas, sendo que os mais comuns na fase de coleta de dados são: • observação; • entrevista; • questionário; • roteiro de análise documental; • roteiro de grupo focal; • roteiro para registro de estudo de caso. Com relação à abordagem mista, quando a abordagem qualitativa opera também com dados estatísticos, buscando utilizar números para representar um determinado contexto social, tem-se uma pesquisa de tipo quanti-qualitativa, chamada pesquisa mista. É preciso cautela ao definir esse tipo de abordagem, 12 pois não basta ter dados em instrumentos abertos e fechados, quantificáveis ou subjetivos, e assim concluir que se trata de uma pesquisa mista. São os objetivos específicos de pesquisa e as técnicas empregadas para coleta de dados nos métodos que determinarão a abordagem da pesquisa. TEMA 5 – TIPOS DE MÉTODO DE PESQUISA NA PSICANÁLISE A escolha do método para produção científica nas humanidades depende do problema de pesquisa e dos objetivos do estudo, bem como do contexto a ser investigado e dos instrumentos aplicados. De modo geral, os pesquisadores utilizam uma condução interdisciplinar e crítica, que considera a diversidade cultural e a complexidade das interações intrapessoais e intersubjetivas. As Ciências Humanas utilizam diversas metodologias de pesquisa, sendo alguns dos principais métodos os seguintes: a) Pesquisa participante: envolve a colaboração ativa de indivíduos ou grupos que são o objeto de estudo. Pode ter abordagem qualitativa, quantitativa ou mista, e busca trazer à luz as perspectivas e experiências dos participantes, bem como envolvê-los no processo de pesquisa. b) Análise de discurso: consiste na análise crítica de textos verbais ou não verbais, que expressam a visão de uma amostragem de participantes, a fim de identificar e interpretar os modos como o discurso constrói significados e relações intrapessoais e sociointerativas. É um método muito utilizado para investigar temáticas relacionadas à linguagem, ao poder, à ideologia e aos paradigmas presentes em uma conjuntura específica. c) Análise cultural: destina-se à análise crítica de produtos culturais, como música, artes plásticas, literatura, cinemae mídias (artes gráficas), com o objetivo de perceber como eles refletem e moldam uma ética social, os valores e as ações em uma sociedade ou cultura. d) Estudo de caso: consiste em um estudo aprofundado de um objeto específico ou, no máximo, de um conjunto de objetos com alguma consistência interna, a fim de possibilitar uma compreensão mais detalhada sobre um determinado fenômeno. Esse método tem a limitação de não permitir uma maior generalização sobre os fenômenos em estudo, uma vez que se concentra em poucos objetos. É necessário aplicar uma 13 abordagem metodológica semelhante a um conjunto maior de casos para comparar resultados e estabelecer linhas de análise. e) Pesquisa documental: refere-se ao uso de material impresso ou digital, como legislações, projetos organizacionais, manuais, relatórios de gestão, fotografias, vídeos, entre outros. Na área da Psicanálise, pode incluir relatórios clínicos, orientações para formação em Psicanálise, documentos de institutos e associações psicanalíticas, atas de fundação e declarações de princípios na prática clínica psicanalítica, registros de casos clínicos, entre outros documentos. f) Pesquisa de revisão de literatura: utiliza como base as teorias já publicadas, como livros, artigos científicos, dissertações de mestrado, teses de doutorado, e utiliza um método para definir termos de busca, período, idiomas e bases de dados para realizar a busca. A pesquisa de revisão tem como objetivo levantar o conhecimento disponível na área, identificar as teorias e práticas produzidas, analisá-las e avaliar sua contribuição para auxiliar na explicação do problema de pesquisa. Esse tipo de pesquisa auxilia na ampliação do conhecimento sobre um determinado objeto de pesquisa, no domínio e no conhecimento aprofundado do assunto, na descrição do estado da arte e nas evidências científicas já existentes sobre a temática. Na Psicanálise, é particularmente relevante utilizar pesquisas de revisão, pois a comunidade de pesquisadores está em constante crescimento e fortalecimento, e é importante basear-se no que já foi pesquisado na área. Ao criar uma revisão, seja do zero ou baseando-se em uma já existente, sempre parte-se de uma evidência científica de outros pesquisadores para avançar na ciência da Psicanálise. Essa é uma dica importante! Existem diferentes tipos de revisão, que serão conceituados de forma sintética no quadro a seguir, e os procedimentos e passos detalhados serão abordados em etapas posteriores. Quadro 1 – Principais tipos de revisão de literatura Revisão Descrição Integrativa A revisão integrativa de literatura tem como finalidade sistematizar resultados de pesquisas, de forma ordenada e abrangente. É mais usada na área clínica, e foca um tema inteiro, evidenciando o que o mundo está escrevendo sobre um assunto. 14 Sistemática A revisão sistemática é um método para responder a um problema em particular. Possui relevância especialmente ao abordar fontes vindas de periódicos, artigos científicos e fontes confiáveis. Busca mostrar as novidades e avanços sobre um problema, sendo muito usada na área de saúde. Narrativa Na revisão narrativa a base está em alguns trabalhos ou fontes sobre o assunto que são reconhecidamente mais importantes em uma comunidade científica. O pesquisador apresenta os resultados com base em resumos realizados, sem um procedimento rígido. Escopo Revisão do escopo é um tipo de revisão que fornece uma avaliação preliminar do potencial e extensão de uma delimitação de pesquisa. Auxilia a compreender a qualidade do escopo, o que possibilita, inclusive, ajustes no caminho da pesquisa. NA PRÁTICA Para o propósito de aprendizagem deste estudo, é importante compreender a aplicação dos tipos de pesquisa e métodos no contexto temático da Psicanálise. A seguir, são apresentados alguns quadros que evidenciam essa compreensão no âmbito psicanalítico. O Quadro 2 aborda a relação entre pesquisas puras e aplicadas com a Psicanálise, por meio de exemplos: Quadro 2 – Natureza da pesquisa: pura e aplicada na Psicanálise Tipo Descrição Psicanálise Pesquisa pura Concentra-se no “conhecimento em si mesmo”, impulsionada pela curiosidade e necessidade de explorar e aprofundar um universo conceitual e as bases teórico-aplicativas. Investigação sistemática proposta para alcançar uma maior compreensão e mais detalhada de um tópico ou fenômeno de pesquisa, como base para resolver problemas específicos, mas sem aplicação no mundo real. Pesquisa teórica no universo conceitual e de pressupostos estruturantes da Psicanálise visando expandir a base de conhecimento e compreensões da área de estudos. Aquilo que não pertence ao tratamento psicanalítico, à prática, é a teoria psicanalítica. Assim, a pesquisa pura está na dimensão daquilo que o psicanalista pode construir, por meio de uma pesquisa formal, com a investigação da psique humana. Como fez Freud com a obra Édipo Rei (de Sófocles) quando aproveitou a tragédia grega para conceituar o Complexo de Édipo. Freud aprendeu com a tragédia para fazer uma teoria psicanalítica. Pesquisa aplicada Focada em construir soluções práticas para um problema específico. Envolve indagações e aplicações na realidade para solução de um fenômeno, um campo de estudo, que emprega metodologias empíricas. Pode ser ainda uma pesquisa para colocar em prática uma pesquisa básica, para validar descobertas e aplicá-las para A Psicanálise aplicada é o tratamento psicanalítico, a dimensão clínica da interação entre o psicanalista e o paciente. O psicanalista, ao realizar seu trabalho clínico, além de coletar dados da prática, faz sua análise pessoal, realizando assim um processo de ação-reflexão-ação transformada, o que passa ainda pela supervisão 15 criar soluções inovadoras para questões específicas. psicanalítica. O psicanalista no exercício de seus estudos clínicos age como um pesquisador que assimila o conhecimento objetivo da sua prática, que por meio de um método científico, pode registrar casos e aplicações das condutas psicanalíticas para produção de ciência na área. O Quadro 3 esquematiza os tipos de pesquisa com relação aos seus Objetivos, estabelecendo relações da Psicanálise com as pesquisas exploratórias, descritivas e explicativas. Quadro 3 – Objetivo da pesquisa: exploratória, descritiva e explicativa Tipo Descrição Psicanálise Pesquisa exploratória Pesquisa sobre tema pouco explorado ou já conhecido sob nova perspectiva, ou quando o pesquisador precisa explorar um determinado fenômeno para aprofundar seu estudo em análises subsequentes. Objetiva proporcionar familiaridade com o problema, para torná-lo mais explícito ou a levantar hipóteses embasadas. É preciso, para entender a obra de Freud, e particularmente a obra de Lacan, compreender essa novidade cultural muito radical, no sentido de que nós não temos nenhuma referência anterior em relação à Psicanálise: a Psicanálise inaugura algo de novo. Nesse sentido, a Psicanálise em si como uma área científica inédita quando da sua construção e difusão apresentou-se como uma pesquisa exploratória. Pesquisa descritiva Detalhamento de um objeto de estudo, descrevendo atributos de um indivíduo ou grupo de acordo com os parâmetros de faixa etária, sexo, cultura, saúde, escolaridade etc. A pesquisa descritiva está mais afastada dos intentos no método psicanalítico, mas pode estar presente em momento estanques em que o psicanalista deseja compreender as características de uma população que desenvolve um determinado transtorno ou complexo, ou ao elencar em suas anotações de acompanhamento clínico os sintomas e sentimentos evocados pelo paciente e determinadas situações gatilho. Pesquisa explicativa Destinada a identificar fatores que determinam ou contribuem para a ocorrência dos fenômenos, procurando explicara razão e o porquê dos fatos. Quando Freud propôs tratar seus pacientes, não investigava sintomas orgânicos, mas trabalhava com a livre associação, não os considerando como objeto de investigação a ser examinado, mas, estabeleceu com os pacientes uma relação entre falantes. Ou seja, é uma ciência humana que busca em cada relação intersubjetiva o porquê dos fenômenos da psique por meio da análise, sendo assim uma pesquisa explicativa qualitativa baseada em um caso clínico. 16 FINALIZANDO Nesta etapa, a Psicanálise foi apresentada como um método científico, pois pode ser abordada tanto como pesquisa pura quanto aplicada. O método da associação livre é um tipo de coleta de dados quando se trata de uma pesquisa aplicada. Iniciamos esta etapa explicando que, quanto à sua natureza, as pesquisas podem ser puras ou aplicadas. Em relação ao objetivo do pesquisador, foram apresentados três tipos de pesquisa: exploratórias, descritivas ou explicativas. Quanto à abordagem, foram apresentadas pesquisas que podem ser quantitativas, qualitativas ou mistas (quanti e quali). Quanto ao tipo de método, as pesquisas podem ser: pesquisa participante, análise de discurso, análise cultural, estudo de caso (em Psicanálise, especificamente voltado para casos clínicos), pesquisa de revisão de literatura, pesquisa documental, entre outras. Ao longo do nosso estudo, abordaremos: 1. Como construir a fundamentação teórica e a revisão integrativa para embasar a construção de conhecimentos em Psicanálise; 2. A revisão sistemática como busca e sistematização de evidências científicas sobre temas em Psicanálise; 3. Pressupostos da pesquisa em Psicanálise, abordando o objetivo de estudo (fenômenos inconscientes), sua técnica (associação livre e atenção flutuante), o significante na pesquisa psicanalítica e a transferência na pesquisa; 4. Pesquisas psicanalíticas com base em casos clínicos; 5. especificidades da Psicanálise como método investigativo, trazendo dicas e erros comuns. 17 REFERÊNCIAS CASARIN, H. de C.; CASARIN, S. Pesquisa científica: da teoria à prática. Curitiba: InterSaberes, 2012. CHIZZOTTI, A. Pesquisa em ciências humanas e sociais. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2014. COUTINHO, S. G.; RODRIGUES, E. M. Diálogo entre literatura e Psicanálise: contribuições dos contos de fadas no desenvolvimento infantil. RCNCD-Plurais, v. 2, n. 3, p. 15-28, 2021. FERREIRA, R. M.; ELIAS, F. J. M.; CORRÊA, A. A. M. Das representações mentais na gestação às frustrações pós-parto: um campo para a Psicanálise. Saúde e Meio Ambiente, v. 7, n. 2, 2018. FREUD, S. Cinco lições de Psicanálise. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 11. GAY, P. Freud: A Life for Our Time. W.W. Norton & Company, 1998. GIL, A. C. 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PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE AULA 2 Profª Gabriela Eyng Possolli CONVERSA INICIAL Anteriormente, estudamos a Psicanálise enquanto área do conhecimento multidisciplinar, considerando que o próprio processo terapêutico da análise é um processo de pesquisa de casos clínicos na prática. A teoria e as práticas fundadas por Freud, e desenvolvidas ao longo do século XX, formaram um arcabouço de conhecimentos, teorias, orientações e práticas psicanalíticas, que por sua vez constituem uma ciência voltada para a técnica da livre associação, como encontro intersubjetivo entre terapeuta e pacientes, na comunicação e na linguagem, operando a cura pela palavra. Assim, a metodologia dos casos clínicos é uma base bem consolidada para o reconhecimento da psicanálise como ciência humana. Nesta etapa, vamos tratar da elaboração de uma fundamentação teórica para compreender um tema de pesquisa. Também veremos as pesquisas de revisão em linhas gerais, a fim de compreender alguns pontos em comum entre elas, como: definição de descritores de busca, tipos e bases de dados para pesquisa, critérios de inclusão e exclusão para a busca, bem com ajustes que possam ser necessários no processo de coleta de dados em revisões de literatura. As pesquisas de revisão seguem um método, que ajuda no levantamento do que foi publicado nos últimos anos sobre temas em psicanálise, o que é fundamental para avançar na ciência psicanalítica, considerando o que já foi estudado na área. Nesta etapa e na seguinte, vamos detalhar os alicerces que permitem estruturar e desenvolver pesquisas teóricas no campo psicanalítico, a partir de bases teóricas, calcadas em fundamentos conceituais que servem de contexto argumentativo para pesquisas em psicanálise. A utilização de pesquisa teórica na psicanálise deve atentar para o que destacam Lakatos e Marconi (2003) sobre a pesquisas de cunho bibliográfico: elas não devem ser mera repetição de conteúdos já escritos sobre um assunto, pois devem buscar sempre um novo enfoque, ou novas abordagens, para a resolução de problemas. A construção de pesquisas teóricas em psicanálise não pode desconsiderar a experiência psicanalítica historicamente acumulada, que ajuda na elaboração de uma série de pressupostos sobre a estrutura e o funcionamento do aparelho psíquico. Nós, que nos dispomos a desenvolver 3 pesquisas em psicanálise, estamos submetidos a esse funcionamento. O pesquisador psicanalítico não pode perceber-se como sujeito que observa, de fora, as bases conceituais e os relatos clínicos. Na psicanálise, assim como na educação, não há neutralidade: “nenhuma educação é neutra, portanto, nenhum educador deveria se isentar da responsabilidade de educar criticamente os seus educandos” (Freire, 1996, p. 57). Portanto, a educação é um ato político, o que também ocorre com a psicanálise: quando o estudante traz para a pesquisa, mesmo que teórica, o trabalho de outros autores, trará também algo de seu em suas análises e compreensões do processo psicanalítico. Saiba mais Qual a distinção entre realizar pesquisa "em psicanálise" e pesquisa "sobre psicanálise"? A pesquisa sobre psicanálise pode estar embasada em construtos psicanalíticos e outros, para refletir sobre conceitos, dados ou fenômenos do campo psicanalítico e de sua prática. Por exemplo, podemos propor uma revisão integrativa do que foi produzido no Brasil nos últimos dez anos sobre o tema “angústia de castração”. Tal pesquisa faria um levantamento bibliográfico, trazendo pressupostos das bases de busca e detalhando categorias de análise, em um formato metodológico vastamente aplicado na ciência, que em si mesmo não é psicanalítico, mas aplica-se a essa área do saber. Já a constituição de pesquisa em psicanálise está associada ao processo de concepção científica de seu fundador, em que é possível identificar momentos de rupturae de continuidade, além de relatos detalhados de práticas psicanalíticas. Se Freud, paulatinamente, se aparta de métodos iniciais em sua trajetória como pesquisador (como pesquisas nos campos da fisiologia, neurologia e zoologia), deve-se reconhecer que foi a partir dessa experiência metodológica, com a qual depois rompeu, que construiu o método de pesquisa psicanalítica em toda a sua originalidade (Lameira; Costa; Rodrigues, 2017). TEMA 1 – FINALIDADE E CONSTRUÇÃO DA FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Na trajetória de uma pesquisa, após a definição de tema, problema e objetivos, uma das primeiras tarefas do pesquisador é construir as bases teóricas que sustentam a elaboração do encaminhamento metodológico da pesquisa. A elaboração dos pressupostos teóricos de uma pesquisa é fruto de reflexão, 4 leituras e estudos a respeito do tema, vinculando o interesse e o conhecimento prévio dos pesquisadores com as fontes e as bases de pesquisa, para aprofundamento e um olhar científico capaz de ir além do senso comum. A fidelidade a um método está no domínio e no emprego de conceitos e procedimentos de uma da visão de mundo evocada. Por isso, é preciso sempre ter em mente a corrente teórico-metodológica que a pesquisa vai seguir. Portanto, a fundamentação teórica não é mera introdução teórica, mas o norte que conduz a argumentação e as análises na pesquisa. Na fase da fundamentação teórica, os autores definem e assumem uma posição com relação ao seu marco teórico, o que é indispensável para a pesquisa científica e a concepção metodológica. Considera-se em que teorias o conhecimento construído na pesquisa está embasado. Para isso, é preciso coerência entre as referências escolhidas nessa fundamentação. Barros (2005) destaca que a fundamentação teórica tem como pressuposto possibilitar a interpretação da realidade e dos fenômenos em análise na investigação científica. A principal finalidade da fundamentação teórica é evidenciar os limites, as lacunas e as disposições da pesquisa, visando auxiliar na definição da problematização e de hipóteses, evidenciando o debate científico de outros pesquisadores sobre a temática. Os passos para uma boa fundamentação são: formular e contextualizar o problema, a fim de esclarecer o que é primordial ou supérfluo, direcionando o olhar para leituras focadas; em seguida, parte-se para a seleção e tabulação de textos e documentos, com posterior apreciação sobre a sua utilização ou não na pesquisa; por último, é feita a escrita do texto da fundamentação teórica, com uma interpretação de textos e citações e um diálogo entre as obras, de forma crítica, estabelecendo uma linha de raciocínio. (Caleffe; Moreira, 2006). A fundamentação teórica explicita os interlocutores do autor, a partir dos quais a argumentação acontece, considerando ainda fundamentos para a análise dos dados da pesquisa. É a apresentação do quadro teórico. Antes de iniciar a escrita da fundamentação teórica, é importante observar três guias importantes: • Quais são os objetivos da pesquisa: eles orientam a busca por referenciais que irão embasar a análise de dados; 5 • Quais são os tipos de referenciais: artigos, livros, documentos, legislações, enfim, onde estão publicadas as bases conforme a temática; • Atualidade e coerência: o quadro teórico apresentado precisa ser atual, mas ao mesmo tempo apresentar bases importante da área, com coerência interna (não podemos utilizar autores com visões opostas para analisar um mesmo cenário). A estruturação de subtemas e assuntos dentro do tema principal é uma forma de iniciar a fundamentação teórica. A definição de conceitos-chave dentro do objeto pesquisado é importante, e ajuda a evitar fuga do tema. Nas ciências humanas, inclusive na psicanálise, temos a publicação de dicionários temáticos especializados que ajudam com conceitos e referências. Os dicionários de psicanálise auxiliam com termos e conceitos específicos do arcabouço da linguagem psicanalítica. Com as considerações descritas até aqui, fica claro que a construção de uma fundamentação teórica não se resume a reunir livros e artigos de forma aleatória, mas envolve um processo sistemático de pesquisa e análise de literatura existente sobre um determinado assunto, tendo em vista o planejamento da pesquisa. “O objetivo da fundamentação teórica é fornecer uma base concreta de conhecimento para a pesquisa, com as principais teorias, conceitos e descobertas relevantes para o tema em estudo” (Fonseca, 2002, p. 46). A respeitos das fontes e obras selecionadas para a fundamentação teórica, além de livros publicados sobre o tema, é importante incluir obras consideradas clássicas (no caso da psicanálise não podem faltar Freud e outros), ou aquelas recentemente publicadas que dão visibilidade ao tema. Uma boa fundamentação deve conter ainda artigos científicos de periódicos da área. Matérias publicadas em revistas ou jornais especializados são interessantes para lidar com temas inéditos ou pouco trabalhados. Consultas a dissertações e teses, por aprofundarem a pesquisa em um tema, também são relevantes. É possível definir passos para elaboração da fundamentação teórica? Sim! O quadro a seguir apresenta os passos básicos para construir uma fundamentação teórica. 6 Quadro 1 – Passos e para a elaboração de fundamentação teórica Passo Descrição 1. Delinear o tema e contexto de pesquisa A definição e contextualização do tema e do problema gerador da pesquisa é o início de tudo. Antes de iniciar a buscar por literatura, deve- se compreender o tema com suas nuances e desafios, definindo claramente os objetivos e as hipótese que podem responder ao problema de pesquisa. 2. Identificar possíveis fontes Buscar diretamente no Google não é uma boa, é importante realizar buscas em bases de dados científicas, bibliotecas físicas e digitais, revistas científicas, livros da área temática e outras fontes confiáveis. 3. Seleção de fontes Ao selecionar o que fará parte da fundamentação teórica, é importante verificar a qualidade e atualidade das fontes encontradas com relação aos objetivos a serem atingidos. 4. Leitura e fichamento Leia as fontes selecionadas com cuidado, compreendendo seus objetivos, metodologias e resultados. Faça anotações, destaque pontos importantes e faça uma síntese das informações. 5. Análise das fontes Analisar e comparar as fontes, verificando semelhanças entre as fontes, relacionando suas conclusões e argumentos. Verifique como elas contribuem para responder as questões de pesquisa. 6. Estruturação e escrita Organizar os subtemas e as fontes conforme a ordem em que o texto da fundamentação será escrito. Ordene as informações obtidas e produza um texto coeso, apresentando conceitos e pressupostos teórico-práticos para a pesquisa. 7. Citação e articulação das fontes É imprescindível citar as fontes perfeitamente, conforme normas da ABNT ou da publicação em pauta. Citações diretas e indiretas devem ser utilizadas, para conferir credibilidade e evitar plágio. Fonte: Possolli, 2023. Ressalta-se que a fundamentação deve ser clara, objetiva e coesa, trazendo uma argumentação estruturada e focada no caminho metodológico que vai ser trilhado pela pesquisa. Além disso, é comum que ela seja revisada e atualizada ao longo da pesquisa, conforme as necessidades teóricas que vão surgindo, inclusive nas fases de análise e discussão de resultados. O quadro a seguir apresenta uma tese de doutorado em psicologia, com pesquisa interessante em psicanálise, para elucidar a relação entre temática, problema, objetivos, metodologia e estrutura da fundamentação teórica construída. Ele destaca os tópicos da fundamentação teórica. Quadro 2 – Exemplo: itens metodológicos e fundamentação teórica em Psicanálise Referência CAMPOS, Viviane C. Barbosa. Tese do Programa de Pós-GraduaçãoStricto Sensu em Psicologia, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. 2017. Tema A importância do diagnóstico no processo terapêutico: um estudo de caso na formação em clínica escola 7 Objetivo Compreender a importância do diagnóstico na direção do tratamento nos processos de atendimentos clínicos em uma clínica-escola de psicologia. Encaminhamen to metodológico As origens da pesquisa remontam a questionamentos sobre a direção do tratamento, tendo como objeto de estudo o “caso Bárbara”, em perspectiva psicanalítica. O encaminhamento metodológico buscou reconstruir um caso clínico problematizando a queixa psicológica com os atendimentos realizados, para refletir sobre a importância do diagnóstico no percurso dos atendimentos psicoterápicos. Tal reconstrução apresenta reflexões sobre a “queixa psicológica”, o sofrimento psíquico, o diagnóstico e a direção do tratamento. A hipótese diagnóstica é importante nessa orientação, devendo ser tratada não como fator estático, mas sim dinâmico. A perspectiva do diagnóstico em psicologia psicanalítica não adota uma postura generalista, e sim um estudo de cada caso para compreender a dinâmica e o funcionamento de cada sujeito, para que seja possível tratar o seu sofrimento. A intenção foi buscar uma metodologia clínica que pudesse compreender o sujeito e orientá-lo a aprender com seu próprio sofrimento. Abordagem de pesquisa Pesquisa de cunho qualitativo com ênfase na abordagem psicanalítica com o intuito de contribuir para a formação de profissionais que trabalham com processos psicoterápicos. Fundamentação teórica: capítulos 1 e 2 CAPÍTULO 1 – PRÁTICA CLÍNICA, DIAGNÓSTICO E PSICANÁLISE 1.1 Evolução histórica dos aspectos psicopatológicos 1.1.1 Configuração atual das psicopatologias e do diagnóstico 1.1.2 Psicopatologia na perspectiva psicanalítica 1.1.3 Entrevista inicial (queixa) na prática clínica 1.2 Prática clínica, avaliação diagnóstica e construção em psicanálise 1.2.1 Transferência e percurso do tratamento 1.2.2 Interpretação e construção em análise 1.2.3 Relato de caso clínico e pesquisa CAPÍTULO 2 – CLÍNICA-ESCOLA E FORMAÇÃO EM PSICOTERAPIA 2.1 Formação do psicólogo para psicoterapia 2.2 Clínica-escola, organização e processo terapêutico 2.3 Procedimentos e avaliação do processo terapêutico Método, relato de caso e discussão: capítulo 3 CAPÍTULO 3 – DIAGNÓSTICO, PROCESSO CLÍNICO E FORMAÇÃO NA CLÍNICAESCOLA: UM ESTUDO DE CASO 3.1 Estratégias metodológicas 3.1.1 Síntese da história do caso de Bárbara, “a estrangeira” 3.2 Discussão do caso clínico com base na relação entre queixa e diagnóstico 3.2.1 Caso de Bárbara, “a estrangeira” 3.2.2 Relação do diagnóstico médico com a queixa e o caso até o fim do processo 3.2.3 Construção do caso clínico Fonte: Possolli, 2023. TEMA 2 – COLETA DE DADOS EM PESQUISAS DE REVISÃO: DEFINIÇÃO DE FONTES DE BUSCA Dentro das pesquisas de revisão, um planejamento minucioso da coleta de dados é fundamental. Para que esse planejamento dê certo, é preciso que o pesquisador faça um roteiro das suas estratégias antes de começar a coletar dados. O roteiro deve conter, especialmente: • Nome e hiperlink de acesso de bases de dados importantes sobre o tema; 8 • Palavras-chave relacionadas ao tema e aos detalhes do estudo, e que possam ser validadas para encontrar estudos, considerando como identificar descritores de busca; • Definição de critérios de inclusão e exclusão de estudos encontrados na busca. • Indicação dos dados a serem registrados na planilha de estudos incluídos. Importante entender que mesmo com esse planejamento, que serve como guia, ajustes podem ser necessários, conforme os resultados encontrados, na efetivação da coleta de dados. As finalidades da base de dados incluem: • Promover acesso à informação; • Fornecer informações atualizadas, assertivas e confiáveis, multidisciplinares ou em uma área específica; • Atender as necessidades de pesquisa do público-alvo; • Fornecer mecanismos eficientes de recuperação de informações. Para definir as fontes de busca, deve-se ter em mente que existem bases de dados (portais de busca) gerais em pesquisa, que congregam variadas fontes de saber, linkando milhares de periódicos científicos, assim como repositórios e sites específicos em alguns campos de conhecimento. Como exemplo de bases de relevância geral, temos: portal Scielo, Google Acadêmico, periódicos da Capes, BDTD e PubMed. Para a psicanálise, os portais da PsycINFO, PEP, BVS e PePSIC são excelentes repositórios para busca. O quadro a seguir apresenta nomes, endereços de acesso online e descrição de escopo de bases de dados reconhecidas para pesquisa em psicanálise. Quadro 3 – Bases de dados para pesquisa em psicanálise Base de Dados Link de Acesso Descrição Scielo (Scientific Eletronic Library Online) https://www.scielo.br/ Portal eletrônico gratuito de periódicos científicos, permitindo acesso eletrônico à artigos completos de revistas no Brasil, América Latina, Caribe, e países de língua portuguesa e espanhola. Google Acadêmico https://scholar.google. com.br/ Base de busca com vasto repositório indexado pelo Google, que acessa também outras bases de dados vinculadas. O Google acadêmico ganhou mais relevância atualmente porque muitas agências de pesquisa (como a Capes) estão em transição do antigo 9 modelo Qualis para o índice H (que usa a plataforma Google) para classificar o impacto das publicações. Portal de Periódicos da Capes https://www.periodicos. capes.gov.br/ Biblioteca virtual gratuita que elenca os melhores artigos científicos do mundo via verificação de fator de impacto e número de citações. Conta também com acervos de pesquisa de instituições de ensino brasileiras, enciclopédias, obras de referência, normas técnicas, material audiovisual. Conta com 39 mil artigos completos, com busca em 126 bases. BDTD (Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações) https://bdtd.ibict.br/ Biblioteca que integra, em portal único, os sistemas de informação de teses e dissertações de várias instituições de ensino e pesquisa brasileiras. Acesso nacional e internacional com busca em outras línguas para dar visibilidade a pesquisas brasileiras. PubMed https://pubmed.ncbi. nlm.nih.gov/ Portal para busca de artigos científicos na área de saúde e biomedicina, organizado pela Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA. Conta com 4.800 revistas dos Estados Unidos e em 70 países. PsycINFO http://psycnet.apa. org/Search Criada pela APA (American Psychological Association), é a mais importante base de dados da área de psicologia e psicanálise. Organiza e divulga literatura relevante publicada na área da psicologia e disciplinas correlatas. PEP http://www.pep- web.org/ Busca exclusivamente por conteúdo em psicanálise. Inclui obras completas de Freud, pesquisa, textos, seminários de psicanalistas, ensaios psicanalíticos de obras literárias, filmes e arte. BVS (Biblioteca Virtual de Saúde) https://bvsalud.org/ A Plataforma da BVS integra fontes de informação em saúde, científica e técnica, na América Latina e no Caribe. Desenvolvida pela Bireme em 3 idiomas (inglês, português e espanhol). Congrega bases de dados produzidas pela Rede BVS, LILACS, Medline, além de recursos educacionais abertos, sites e eventos científicos. Também dá acesso aos DECS. PePSIC http://portal.pepsic. bvsalud.org/ O Portal de Periódicos Eletrônicos de Psicologia (PePSIC) acessa um conjunto de revistas científicas em psicologia e áreas correlatas, com textos completos. A organização e estrutura segue a mesma metodologia da Scielo. Fonte: Possolli, 2023. Não há necessidade de buscar dados em todas as bases aqui indicadas. É possível ainda selecionar outras bases. Uma dica de ouro é iniciar a busca por bases mais abrangentes edepois ir afunilando para bases mais restritas ou temática, conforme a necessidade. Para isso, é preciso ter bons descritores de busca, o que aprenderemos a seguir. TEMA 3 – COMO DEFINIR E TESTAR PALAVRAS-CHAVE DE BUSCA Primeiramente, precisamos deixar bem clara a distinção entre palavras- chave e descritores na pesquisa científica, pois são conceitos que não se aplicam apenas ao processo de elaboração de revisões. 10 As palavras-chave podem ser termos simples ou termos compostos, selecionadas pelo pesquisador para a busca com base no tema, no problema e no desenho da pesquisa. Os descritores são termos necessariamente convencionados, criados por especialistas, para identificar assuntos publicados em artigos científicos, livros e publicações com registro. Há uma base, conforme a área, para pesquisar esses descritores. Os descritores da área da saúde, por exemplo, que incluem descritores em psicologia e psicanálise, podem ser acessados no portal da BVS, por meio dos DECS (Descritores em Ciências da Saúde), acessível pelo link: . A importância de se usar esses descritores junto com o resumo do seu trabalho, ou no cadastramento de sua pesquisa em uma revista científica, é simples de entender: por meio dos descritores, os temas e assuntos publicados são indexados, buscados e divulgados em plataformas científicas. Até mesmo a Biblioteca Nacional, quando registra um livro físico ou um material online, ao atribuir o registro de ISBN ou ISSN, faz a catalogação por meio de descritores. É como um índice de assuntos que conecta a sua produção como pesquisador com outras na área. Vamos entender a partir de um exemplo? Suponha que você irá escrever uma revisão integrativa de literatura sobre a importância da transferência e do rapport na relação terapêutica paciente-analista. Com base no problema e no encaminhamento metodológico da pesquisa, você chega às seguintes palavras, ou termos-chave: psicanálise; transferência; rapport; relação paciente e analista. Esses termos foram definidos por você no papel de pesquisador. Geralmente, fazemos isso ao final do trabalho de pesquisa, quando vamos elaborar o resumo, podemos até ter algumas palavras indicadas de início, mas é ao final que iremos confirmá-las ou reescrevê-las. A partir da definição, você precisa checar quais termos, relacionados ou próximos a esses, estão presentes nos DECS. Para isso, siga os seguintes passos: 1. Acesse a página: . 2. Na barra de pesquisa, digite um a um os termos ou palavras-chave que selecionou para a sua pesquisa. Aqui, cabe um detalhe importante, oferecido nas instruções de pesquisa do portal, logo nessa página, em que encontramos o detalhamento dos cinco métodos para buscar descritores: 11 Qualquer termo: pesquisa pela palavra digitada no campo de busca em todos os termos, Descritores e Termos Alternativos, independentemente da ordem da palavra no termo. Termo exato: pesquisa pelo termo que corresponde exatamente à palavra digitada. ID do descritor: pesquisa pelo identificador único do registro DeCS/MeSH de descritores. Código Hierárquico: pesquisa por código da hierarquia DeCS/MeSH e recupera o registro que possui a posição específica na árvore de conceitos. Qualquer qualificador: pesquisa pela palavra digitada no campo de busca em todos os Qualificadores, independentemente da ordem da palavra no termo. Para pesquisar por parte da palavra utilize o truncador * ou $ antes ou após a sequência digitada. (BVS, 2023) Essas instruções esclarecem como buscar para não cometer erros, com base nas informações temática que o pesquisador tem. Também ajudam a pesquisar trechos de palavras. Por exemplo, ao digitar “análise”, você vai encontrar todos os descritores que terminem com “análise”, como: “psicanálise”, “metanálise” etc. Colocando “psica$” pode-se obter resultados como: “psicanalítico”, “psicanalista” etc. 3. Busque pelas palavras-chave. Caso não encontre, inclua variações. 4. Ao buscar a palavra transferência, encontramos como resultado a aplicação desse termo em várias subáreas em saúde. Temos 72 resultados com expressões que contém a palavra transferência no DECS (ordenadas das mais relevantes, com mais aderência ao termo, às menos relevantes, em que a palavra transferência aparece em alguma descrição ou subtema). Observe o exemplo a seguir: Resultado 1/72: “transferência de gases” em bioquímica; Resultado 2/72: “transferência tendinosa” em ortopedia; Resultado 57/72: “RNA de transferência” em genética; entre tantos resultados não aplicados ao nosso exemplo de temática. Temos alguma descritores que se aplicam, como: Resultado 10/72: “transferência psicológica”, em que encontramos os termos equivalentes (variações no português e nos idiomas inglês, espanhol e francês), código do DECS, e uma curta definição chamada de “nota de escopo”: “A transferência inconsciente a outros (incluindo os psicoterapeutas) de sentimentos e atitudes que estavam originalmente associados a pessoas importantes (pais, irmãos) do início da vida do indivíduo”. Também encontrmaos o link () do correspondente internacional desse DECS no U.S. National Library of Medicine. 12 5. No caso dessa busca, para publicar a pesquisa, considerara-se o termo como “transferência psicológica”, e não apenas “transferência”, como estava previsto. 6. Realizar o mesmo processo para as demais palavras-chave, a fim de selecionar todos os descritores correspondentes presente no DECS. TEMA 4 – CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO Nas pesquisas de revisão de literatura (integrativas, sistemáticas ou narrativas), o processo de registro do caminho metodológico exige que seja assumido um protocolo de inclusão e exclusão de estudo, detalhando o motivo pelo qual inclui-se ou exclui-se um estudo que aparece na busca em bases de dados. A função principal desse protocolo é guiar a pesquisa, para manter coesão e a credibilidade quanto à seleção dos estudos para a revisão. Assim, o pesquisador, ao mapear os resultados nas bases de dados e registrar os achados em uma planilha, deve indicar em uma aba os estudos incluídos com seus dados completos, como: autoria, ano, título, tipo de estudo, link de acesso, palavras-chave e resumo. Em outra aba, deve contabilizar quantos estudos foram excluídos, apresentando o motivo. Entre os critérios de inclusão aplicados junto com as palavras-chave na busca, destacamos: • Definição das bases pertinentes para busca na literatura da área temática; • Idiomas de publicação (aplicando-se assim os termos de busca equivalentes); • Período de busca (geralmente considera-se um período entre 5 a 10, anos conforme a relevância e originalidade do tema escolhido; • Verifica-se se os termos de busca aparecem no título e/ou resumo do artigo, como critério de aderência do estudo ao tema; • Tipo de publicação (pode-se filtrar apenas artigos científico, mas conforme a temática, pode ser muito importante incluir também teses e dissertações, que são trabalhos de validade científica que podem abordar temas atuais com mais profundidade). Dentre os motivos mais comuns para exclusão, estão: 13 • Fuga do tema: quando o estudo tangencia a temática central, mas não entra nela de fato, considera-se fuga do tema alvo da revisão; • Tipo de estudo: a revisão pode incluir apenas artigos publicados em periódicos (o que pode ser critério para temas complexos ou com viés), excluindo-se outros tipos de materiais; • Saturação: quando um aspecto do problema em estudo na revisão já foi suficientemente abordado em vários estudos incluídos, o critério de saturação é aplicado, removendo-se os menos relevantes; • Período da busca: mesmo incluindo na pesquisa da plataforma a vigência de um período, é comum que apareçam estudos fora do período indicado– portanto, eles serão excluídos. Por exemplo, se uma busca em certa base de dados resulta em 150 resultados, dos quais 60 foram incluídos, a partir dos critérios de exclusão especificados é preciso indicar para os não incluídos (no caso, 90 estudos) quais os critérios de exclusão aplicados. Vejamos um exemplo prático na pesquisa de Santos (2019) com o tema "As contribuições da escuta psicanalítica nas enfermarias hospitalares: uma revisão de literatura". Quadro 4 – Exemplo de critérios de inclusão e exclusão em revisão na psicanálise Resumo Objetivou-se explorar as contribuições que a escuta psicanalítica realizada nas enfermarias hospitalares pode oferecer ao sujeito hospitalizado. Utilizou-se a revisão integrativa de literatura orientada nas 4 etapas de sistematização de busca: (a) identificação; (b) triagem; (c) elegibilidade e (d) inclusão. O recorte temporal foi de 10 anos, produções disponíveis na íntegra e de língua portuguesa. Resultados: 28 artigos foram encontrados. Após uma leitura minuciosa, apenas 6 artigos foram selecionados para análise. Conclusão: a escuta é estratégia valiosa para investigar a subjetividade; favorece a singularidade do sujeito, implica a promoção da autonomia ao promover não só a humanização do atendimento, mas também potencialização de significados. Vínculo, adesão e adaptação foram identificados como contribuições, somadas à possibilidade de o psicólogo ser um educador, fortalecendo o sujeito no enfrentamento da hospitalização. Palavras-chave Psicanálise; Enfermaria; Escuta psicanalítica; Psicologia hospitalar. Problema (questão norteadora) Quais as possíveis contribuições da prática da escuta psicanalítica ao sujeito hospitalizado em enfermarias hospitalares? Método Revisão integrativa da literatura, com 4 fases em função dos artigos: (a) identificação; (b) triagem ou seleção); (c) elegibilidade e (d) inclusão. Critérios de Inclusão Busca nas bases BVS, SciELO e PePSIC. Arrtigos originais, de pesquisa no contexto hospitalar com referencial da psicanálise; texto completo disponível, no idioma português e publicados entre 2011 e 2021. 14 Critérios de Exclusão Excluídas 17 publicações por não abordarem o objeto central de pesquisa, resultando em 11 publicações para leitura na íntegra. Apenas 6 artigos foram selecionados para análise e os demais excluídos por estarem fora do período e idioma português. Fonte: Possolli, 2023. TEMA 5 – CONCEITO E FINALIDADE DA REVISÃO INTEGRATIVA Veremos agora a revisão integrativa, para em outro momento analisar outros tipos de revisão. A revisão integrativa surgiu como forma de revisar rigorosamente o que foi publicado sobre um assunto, aproximando obras com variadas metodologias. É um tipo de revisão com potencial de promover estudos teóricos em diversas áreas do conhecimento, mantendo o rigor metodológico. Traz um panorama científico das produções em um tema, o que é importantíssimo como primeiro passo para qualquer pesquisa teórico-prática: basear-se no que a ciência já produziu em um campo do saber. O método de revisão integrativa possibilita combinar “dados da literatura empírica e teórica que podem ser direcionados à definição de conceitos, identificação de lacunas nas áreas de estudos, revisão de teorias e análise metodológica dos estudos sobre um determinado tópico” (Unesp, 2015, p. 2). Para empreender a revisão integrativa, diferentemente da composição de fundamentação teórica, é preciso seguir parâmetros e passos metodológicos que permitam aumentar a clareza de resultados, para identificar características reais dos estudos incluídos. A síntese de conhecimento produzida pela revisão amortiza as incertezas com relação a recomendações práticas, permitindo generalizações relevantes sobre o objeto de estudo, por intermédio de informações que facilitam a arguição na pesquisa e a tomada de decisões quanto às intervenções e à análise em uma pesquisa em psicanálise. A revisão integrativa é o tipo mais amplo, o que é uma vantagem, já que consente incluir simultaneamente pesquisas experimentais e quase- experimentais, proporcionando um entendimento mais completo do objeto de estudo. Também permite vincular, em sua discussão de literatura, dados teóricos e empíricos. Podem ser empregados propósitos variados, como: definição de conceitos; revisão de teorias; análise metodológica dos estudos incluídos; sistematização de práticas e ações em um determinado contexto. Um processo amostral rico também contribui para um cenário compreensivo do objeto de estudo, tornando a pesquisa acessível a diversas 15 realidades de aplicação, o que frequentemente é importante na produção científica em psicanálise. É importante compreender como realizar uma revisão integrativa de literatura, considerando as etapas que vão ser desenvolvidas e como coletar e analisar os resultados da revisão. Vamos estudar esses aspectos com base no manual da Unesp (2015). A 1ª etapa é de identificação de tema, hipótese e problema de pesquisa para a revisão integrativa. A partir da clareza da temática, o processo de revisão integrativa começa com a definição do problema a ser resolvido pela pesquisa e com a formulação de uma hipótese principal para orientar o encaminhamento metodológico. Um aspecto relevante para a pesquisa em psicanálise é a escolha de um tema ligado à prática clínica. Essa primeira etapa norteia a revisão integrativa, levando a um raciocínio teórico que inclui conceitos já aprendidos pelas pesquisador, em consonância com as obras presentes na revisão. Uma vez que o problema de pesquisa está bem delineado, os descritores (palavras-chave) serão prontamente identificados para guiar a busca por estudos em bases dados. O problema de pesquisa, norteador para a revisão, pode ser demarcado, por exemplo, com uma intervenção específica, ou abrangente, com a pesquisa de várias intervenções ou práticas na área da psicanálise. A 2ª etapa implica demarcar critérios de inclusão e exclusão de estudos para busca na literatura. A abrangência do tema gera a seleção de amostragem, ou seja, quanto mais amplo for o objeto em estudo (por exemplo, o estudo de diferentes intervenções psicanalíticas), mais seletivo deverá ser o pesquisados para decidir sobre a inclusão na etapa de revisão. Aqui cabe o cuidado de não selecionar uma quantidade muito alta de literatura na primeira filtragem de estudos, já que uma demanda alta pode inviabilizar a fluidez do processo de revisão ou trazer muitos vieses para as etapas subsequentes. Depois da abrangência do tema e da formulação do problema de pesquisa, iniciamos a varredura em bases de dados, para a coleta de estudos para a decisão sobre a inclusão na revisão integrativa. A internet é indispensável para essa busca, já que as bases de dados hoje têm acesso eletrônico, muitas exclusivamente online, sem versão impressa. A triagem dos estudos relevantes para a temática em estudo é fundamental, pois ajuda a atestar a validade interna do processo de revisão. Um erro do procedimento de coleta da amostragem pode ameaçar a confiabilidade da revisão e tornar o processo não científico. 16 A decisão sobre a inclusão ou exclusão de estudos da revisão deve ser criteriosa e transparente. A representatividade da amostra é um indicador importante sobre a qualidade, a profundidade e a credibilidade das conclusões do estudo de revisão. As decisões tomadas no primeiro filtro, em relação aos critérios de inclusão e exclusão, devem ser registradas e justificadas, para que tenhamos um parâmetro de número de estudos encontrados com os descritores e o número de estudos incluídos para próxima fase da filtragem. Recomenda-se que a busca nas bases de dados e a seleção dos estudos incluídos na revisão sejam feitas por dois pesquisadores, para garantir maior confiabilidade na escolha, a partir da concordância entre