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PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM 
PSICANÁLISE 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Gabriela Eyng Possolli 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
A produção científica em Psicanálise confunde-se com a própria pesquisa, 
ou seja, a Psicanálise em seus processos terapêuticos é uma pesquisa. A 
Psicanálise, enquanto experiência original, pode ser formalizada na obra de 
Freud como a pesquisa psicanalítica. 
Freud deu início a uma escola de pensamento que influenciou 
significativamente a psicologia e outras áreas do conhecimento. A Psicologia, 
como ciência moderna, e o trabalho de Sigmund Freud estão intimamente 
ligados, já que Freud foi uma das figuras mais influentes no desenvolvimento do 
entendimento dos processos psicológicos, da prática clínica e do tratamento 
psicanalítico como disciplina acadêmica e clínica. 
No final do século XIX, a Psicologia ainda era uma área de conhecimento 
incipiente, com diferentes teorias e abordagens que buscavam entender a mente 
e as emoções humanas. Foi nesse contexto que Freud iniciou sua carreira 
médica e começou a “desenvolver suas ideias sobre a mente inconsciente e a 
influência dos instintos e desejos reprimidos na vida psíquica” (Gay, 1998, p. 42, 
tradução própria). Com o tempo, o trabalho de Freud ganhou reconhecimento, 
tanto no meio acadêmico quanto entre os pacientes que se beneficiavam de suas 
teorias e métodos terapêuticos. 
Nas cinco Psicanálises que Freud apresentou (Freud, 1976), por meio de 
cinco casos clínicos que relatou em suas obras completas, é possível apreender 
a transmissão da pesquisa psicanalítica, um processo de comunicação e ensino 
do que é Psicanálise por meio das análises detalhadas feitas por Freud. 
Ao longo do nosso estudo, abordaremos as especificidades da 
Psicanálise como método investigativo, trazendo orientações ao pesquisador 
psicanalítico, dicas de como estruturar as pesquisas e pressupostos da 
Psicanálise e como eles devem ser encaminhados na produção científica. 
De forma geral, podemos classificar as pesquisas nos seguintes tipos: 
1. Quanto à natureza: pura ou aplicada; 
2. Quanto ao objetivo: exploratória, descritiva ou explicativa; 
3. Quanto à abordagem: quantitativa, qualitativa ou mista; 
4. Quanto à coleta de dados: pesquisa bibliográfica, pesquisa de campo, 
estudo de casos clínicos ou ainda pesquisas laboratoriais. 
 
 
3 
Saberemos mais sobre isso ao longo desta etapa com o objetivo de 
compreender quais são os tipos de pesquisa mais pertinentes à Psicanálise. 
TEMA 1 – PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE 
Falamos há pouco que o método psicanalítico é, por si só, uma pesquisa. 
A Psicanálise é uma das poucas áreas de pesquisa que possui um marco 
histórico muito claro a partir da vida, estudos e prática clínica de Freud, sendo 
seus escritos (livros, artigos, aulas e cartas) um marco fundante das teorias, 
linhas de análise e da metodologia de pesquisa em Psicanálise. 
O objeto de estudo é o ser humano em sua complexidade, o que requer 
uma abordagem interdisciplinar e crítica, levando em conta a diversidade cultural 
e a complexidade das interações sociais. É um grande desafio ter o Homem 
como objeto de estudo, “abrangendo tanto o indivíduo quanto suas relações 
sociais, envolvendo a compreensão integral do ser humano e de suas interações 
com o meio e a sociedade, tanto em questões teóricas como práticas” (Chizzotti, 
2014, p. 38). 
A produção científica é fortemente guiada por fatores históricos, políticos, 
psicológicos, culturais e sociais, e é moldada por diferentes perspectivas teóricas 
e metodológicas. 
A Psicanálise se mistura com o tratamento, de forma que, quando se 
pensa em Psicanálise, se pensa em tratamento, em intersubjetividade, fazendo 
com que a pesquisa em Psicanálise se baseie fortemente em estudos de casos 
clínicos, e neste caso não há afastamento entre sujeito e objeto, o que é comum 
na pesquisa em outras áreas. Isso ocorre por conta da transferência. A 
transferência é um fenômeno humano, não necessariamente psicanalítico, e 
acontece nas relações entre os falantes: analista e paciente. Desse modo, a 
Psicanálise abre campo para uma investigação inédita antes dos estudos de 
Freud. 
É importante elencar algumas contribuições importantes da pesquisa 
científica que se aplicam à Psicanálise, que demonstram a relevância da 
investigação sistemática e aprofundada nas seguintes áreas: 
• Avanço do conhecimento: a pesquisa científica na Psicanálise permite o 
avanço do conhecimento em diversas áreas, tais como psicologia, 
antropologia, história, filosofia, educação, entre outras. 
 
 
4 
• Compreensão da diversidade humana: a produção de ciência na 
Psicanálise ajuda a compreender a diversidade humana por meio de 
relatos de casos clínicos, contribuindo para a promoção da tolerância e do 
respeito às diferenças, aplicando os pressupostos psicanalíticos para 
compreender e tratar a psique humana. 
• Desenvolvimento de políticas públicas: a pesquisa científica na 
Psicanálise é essencial para a elaboração de políticas públicas voltadas 
para o bem-estar psicológico e social, e para a melhoria da qualidade de 
vida das pessoas. Políticas de saúde no SUS já contemplam processos 
terapêuticos baseados em princípios da Psicanálise. 
• Desvendar a pluralidade da psique humana: as pesquisas específicas em 
psicologia e Psicanálise auxiliam na documentação de casos e métodos 
de pesquisa para compreender a diversidade das manifestações da alma 
humana, seus comportamentos, reações e emoções, dentro de um 
paradigma intersubjetivo de ciência. 
Para produzir pesquisas científicas em Psicanálise com casos clínicos, é 
indispensável que o pesquisador seja um psicanalista. O método de coleta de 
dados é a associação livre e isso só ocorre na relação transferencial entre o 
psicanalista e o paciente. 
Por outro lado, também é possível produzir cientificamente em Psicanálise 
sem ser psicanalista, por exemplo, se o tipo de pesquisa for uma revisão 
bibliográfica. Nesse caso, qualquer pesquisador pode realizar a pesquisa, sem 
necessariamente ser um psicanalista. 
TEMA 2 – PESQUISA PURA OU APLICADA 
A escolha do método de pesquisa em Psicanálise dependerá do problema 
de pesquisa e dos objetivos específicos do estudo. Em linhas gerais, pode-se 
afirmar que os pesquisadores utilizam abordagens interdisciplinares e críticas, 
levando em conta a diversidade cultural e a complexidade das interações 
psíquicas e sociais. 
Com relação à natureza da pesquisa, ela pode ser pura ou aplicada. 
Geralmente, as pesquisas puras ocorrem primeiro, e seus resultados tornam 
possível a realização de uma pesquisa aplicada. 
 
 
5 
Essa é a classificação mais básica; a pesquisa aplicada e a pura irão 
acompanhá-lo ao longo de sua vida acadêmica e profissional. O investimento no 
desenvolvimento científico e tecnológico, especificamente para a consolidação 
da Psicanálise como ciência, é fundamental para o crescimento das pesquisas, 
formação de profissionais e grupos de estudos, e desenvolvimento dessa área 
do conhecimento. 
2.1 Pesquisa pura (ou básica) 
A pesquisa pura, também chamada de pesquisa básica, desenvolve o 
conhecimento por si só, com o objetivo de gerar conhecimento benéfico para a 
ciência e tecnologia, concentrando-se na compreensão e entendimento das 
informações, sem as quais não há como planejar a aplicação prática. O foco é 
na teoria e no planejamento, sem a aplicação prática, que faz parte da pesquisa 
aplicada. 
A pesquisa pura, portanto, está relacionada a tipos de pesquisa teóricas, 
que investigam e aprofundam o conhecimento sobre um conceito, um método, 
sem, contudo, aplicá-lo. 
Vamos ver um exemplo de pesquisa pura em Psicanálise no exemplo a 
seguir, com base na pesquisa de Paula (2020): 
• Título: Ciência e Psicanálise em Jacques Lacan 
• Objetivo da pesquisa: Investigar as posições de Lacan referentes às 
ciências, à Psicanálise e à cientificidadeeles. 
Chegamos à 3ª etapa, quando devem ser verificadas informações 
pertinentes nos estudos selecionados. Essa fase diz respeito à definição das 
informações a serem extraídas dos estudos incluídos, usando uma planilha ou 
quadro para registrar as informações-chave. O grau de evidência dos estudos 
incluídos, considerando as relações entre os estudos, deve ser avaliado para 
estruturar a argumentação e as categorias de análise, buscando fortalecer os 
resultados da revisão, que irão estabelecer o estado do conhecimento da 
temática investigada. Nessa etapa, os pesquisadores objetivam extrair e 
sumarizar informações de forma concisa, criando um banco de dados 
organizado. Esse banco, geralmente organizado em uma planilha, pode 
abranger dados de estudos, como ano da publicação, autores, título da obra, 
objetivos, palavras-chave, metodologia, resultados e principais conclusões. 
A 4ª etapa é de apreciação dos estudos incluídos na revisão integrativa. 
Ela equivale à análise de dados em uma pesquisa convencional, com uso de 
instrumentos apropriados. A fim de garantir a legitimidade da revisão, os estudos 
incluídos precisam ser considerados detalhadamente, com análise crítica, 
buscando convergências e divergências entre as obras. “Dentre as abordagens, 
o revisor pode optar para a aplicação de análises estatísticas; a listagem de 
fatores que mostram um efeito na variável em questão ao longo dos estudos; a 
escolha ou exclusão de estudos frente ao delineamento de pesquisa” (Unesp, 
2015, p. 8). Cada abordagem de apresentação da revisão tem as suas vantagens 
e desvantagens. A escolha é uma tarefa para os pesquisadores, na busca por 
resultados imparciais, justificando suas escolhas e trazendo explicações para as 
variações argumentativas. 
 
 
17 
A habilidade clínica dos pesquisadores em psicanálise é importante para 
a avaliação crítica dos estudos na revisão integrativa, direcionando a tomada de 
decisão sobre a aplicação de resultados obtidos prática clínica. 
A conclusão da quarta etapa leva a mudanças nas recomendações e na 
conclusão da revisão para a prática psicanalítica. Cabe apontar algumas 
questões indicadas para a avaliação crítica dos estudos selecionados, a saber: 
qual o problema de pesquisa dos estudos; a base contextual dos problemas; a 
aproximação entre os problemas de pesquisas; a metodologia indicada nos 
estudos como aprendizagem para pesquisa em psicanálise; os participantes 
selecionados nos estudos e sua abordagem na clínica psicanalítica; como o 
problema de pesquisa é respondido; quais as pesquisas futuras indicadas ou 
suscitadas após a revisão. 
A 5ª etapa é de interpretação dos resultados. Corresponde à fase de 
discussão e explicitação dos resultados da pesquisa, em que os pesquisadores 
embasam os resultados da avaliação crítica dos estudos incluídos, realizando 
uma comparação com o conhecimento teórico, além da identificação de 
conclusões e implicações resultantes da revisão integrativa. 
Como a revisão integrativa é abrangente, a ampla revisão de resultado 
leva à identificação de aspectos que afetam a condução de casos clínicos em 
psicanálise. Assim, a leitura de revisões integrativas com temáticas de 
psicanálise é uma ótima forma de estar por dentro dos avanços científicos da 
área. O apontamento de lacunas de conhecimento a partir das revisões leva os 
pesquisadores e a comunidade científica da psicanálise a levantar sugestões 
para futuras pesquisas, buscando ampliar os estudos e as evidências científicas 
do método psicanalítico. 
A 6ª etapa abarca a apresentação da revisão e a síntese do 
conhecimento. A estruturação da revisão integrativa e a escrita da argumentação 
devem incluir informações para que o leitor compreenda a pertinência dos 
encaminhamentos utilizados na elaboração da revisão, os aspectos relativos ao 
tópico abordado e o detalhamento dos estudos incluídos. É essencial seguir os 
passos para a confecção da revisão integrativa. Se as iniciativas tomadas pelos 
pesquisadores forem adequadas, teremos diminuição dos vieses e 
inconsistências. 
 
 
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NA PRÁTICA 
O quadro a seguir apresenta um exemplo de revisão integrativa com tema 
pertinente à psicanálise. 
Quadro 5 – Exemplo de revisão integrativa em psicanálise 
Referência SANTOS, Álvaro da Silva (et.al.). Sobre a Psicanálise e o Envelhecimento: 
focalizando a produção científica. Psicologia: Teoria e Pesquisa, n. 35, 
2019. Disponível em: . 
Método / Objetivo Revisão integrativa. Objetivo Geral: Conhecer a produção científica em 
psicanálise na relação entre o idoso e o envelhecimento. 
Detalhamento da 
busca 
Período: 2011 a 2015; Bases de dados: Index-Psicologia, LILACS e MedLine. 
Descritores (palavras-chave da busca): Aged (Idoso), Elderly (Envelhecimento) 
e Psychoanalysis (Psicanálise). Resultando em 89 estudos antes de aplicar 
critérios de exclusão. 
Critério de Exclusão Excluíram-se editoriais, artigos repetidos e aqueles que não se adequavam à 
questão norteadora, restando 11 artigos selecionados. 
Estudos Incluídos Dos 11 artigos, em português foram 81,8% (9), uma publicação em inglês e 
outra em francês. Anos de 2014 e 2011 tiveram quatro publicações cada, cuja 
maioria (72,7%) foi encontrada na base Index-Psi. Os estudos se qualificaram 
como Reflexão (7), Relato de Experiência (2), Atualização (1) e Pesquisa (1), 
sendo que, seis publicados em revistas específicas de psicanálise. 
Categorias de 
Análise 
Quatro categorias foram construídas a partir do material recuperado: 
1- Clínica Psicanalítica com Idosos (sete artigos); 2- Abordagens Psicanalíticas 
do Envelhecimento (dois artigos); 3- Representação do Envelhecimento para 
Profissionais de Saúde à Luz da Psicanálise (um artigo); 4- Geracionalidade e 
Psiquismo (um artigo). 
Características dos 
Estudos incluídos 
Estudos incluídos foram categorizados por similaridades temáticas e 
apresentados em quadro com a referência (identificação da produção pelo autor 
e dados do periódico), a proposta do estudo (que sintetizam numa releitura 
crítica a direção do artigo - objetivo, e o caminho seguido - metodologia, sem a 
pretensão de copiar as afirmações dos autores da produção, por isso, a releitura 
crítica) e, a sinopse (interpretação na leitura dos autores dos artigos as 
contribuições, novidades, resultados e abordagens defendidas). 
Conclusões A psicanálise pode ser bastante útil aos idosos e pessoas em processo de 
envelhecimento, uma vez que pode estabelecer uma ponte entre aquilo que 
fomos, somos e seremos. É notável que existem poucos estudos que 
relacionem a psicanálise e o idoso. A comunidade e os periódicos científicos 
precisam criar movimentos pendulares (de diálogo, de ir e vir, de crítica) que 
estimulem não só a produção e interesse da psicanálise no envelhecimento, 
como a formação de psicanalistas também interessados em atuar com este 
grupo, demanda que possivelmente será destaque das novas décadas. 
Fonte: Possolli, 2023. 
FINALIZANDO 
Nesta etapa, estudamos a importância da fundamentação teórica. A partir 
dela, o pesquisador assume as bases para a argumentação, estabelecendo uma 
visão científica sobre certa temática. Nesse contexto, avaliamos a revisão 
integrativa, método de revisão abrangente, que possibilita levantar evidências 
 
 
19 
cientificas mais amplas sobre um assunto, sendo a primeira fase teórica 
relevante, inclusive para estudos empíricos. 
Posteriormente, vamos estudar a revisão sistemática, que é o tipo de 
revisão mais aceito pela ciência, estando presente em protocolos de pesquisa 
de laboratório, institutos e comunidade científica, por apresentar um método 
rígido de registro das evidências e uma análise estatística e qualitativa 
integradas para a compreensão dos resultados. 
A pesquisa teórica sempre será o primeiro passo para que você se 
aproxime de um assunto de interesse dentro das temáticas da psicanálise. Nestaetapa, aprendemos os passos para estabelecer essa aproximação de forma 
científica, o que pode inclusive render um trabalho de apresentação em eventos 
e outras publicações. Que tal começar? 
 
 
 
 
20 
REFERÊNCIAS 
BARROS, J. D. Projeto de pesquisa em história. Petrópolis: Vozes, 2005. 
BVS – Biblioteca Virtual em Saúde. DeCS/MeSH: Descritores em Ciências da 
Saúde. Disponível em: . Acesso em: 27 jun. 2023 
CALEFFE, L. G.; MOREIRA, H. Metodologia da pesquisa para o professor 
pesquisador. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. 
FONSECA, J. S. Metodologia da Pesquisa Científica. Fortaleza: UEC, 2002. 
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 
36. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 
LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos de metodologia científica. 
5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. 
LAMEIRA, V. M.; COSTA, M. C. da S.; RODRIGUES, S. de M. Fundamentos 
metodológicos da pesquisa teórica em psicanálise. Rev. Subj., v. 17, n. 1, jan. 
2017. Disponível em: 
. Acesso em: 27 jun. 2023. 
SANTOS, Á. da S et al. Sobre a Psicanálise e o Envelhecimento: focalizando a 
produção científica. Psicologia: Teoria e Pesquisa, n. 35, 2019. Disponível em: 
. Acesso em: 27 jun. 2023. 
UNESP – Universidade Estadual Paulista. Tipos de Revisão de Literatura. 
Botucatu: Unesp, 2015. Disponível em: 
. 
Acesso em: 27 jun. 2023. 
 
 
 
 
 
 
 
PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM 
PSICANÁLISE 
 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Gabriela Eyng Possolli 
 
 
 
 
CONVERSA INICIAL 
Na pesquisa clínica, o sujeito em análise está tão envolvido quanto o próprio 
pesquisador, porém pode ser surpreendente notar que o mesmo acontece com a 
pesquisa teórica, quando se considera a implicação do pesquisador diante do objeto 
de estudo. Iribarry (2012) pontua que, ao se estudar e comparar as aplicações da 
pesquisa clínica e teórica em psicanálise, observa-se que a transferência está 
presente em ambos os contextos. Reconhecemos o mecanismo da transferência na 
prática clínica, mas em uma pesquisa teórica como isso ocorre? Em um método de 
pesquisa com objeto abstrato como uma revisão, que tipo de transferência pode haver 
com base no vínculo do pesquisador com seu campo de estudo? 
Mesmo em uma pesquisa teórica há transferência, pois ao debruçar-se sobre 
um contexto teórico-explicativo sobre o qual se quer avançar, o pesquisador assume 
uma relação transferencial com o conteúdo em investigação conforme essas leituras 
e aprofundamentos levam para além da racionalidade e se estabelece uma relação 
intersubjetiva entre o sujeito e o objetivo em construção. Ao ler, estudar e esforçar-se 
para compreender a articulação teórica, não é apenas a nossa cognição que entra em 
ação, mas justamente com a razão, os processos inconscientes são disparados pela 
aproximação com o objeto e campo em investigação que é a própria teoria (Iribarry, 
2012). 
O estranhamento experimentado pelo pesquisador psicanalítico para além de 
um não-senso compreensivo implica um provável remanejamento de sua posição 
como sujeito sob o olhar de sua vivência clínica (da perspectiva de analista e de 
paciente). Isso distingue decididamente uma pesquisa teórica sobre psicanálise e uma 
pesquisa em psicanálise como referimos em etapa anterior. Por meio dessa 
articulação marca-se a posição de que a pesquisa teórica sobre psicanálise pode ser 
realizada por um pesquisador que não seja analista. Porém, uma pesquisa em 
psicanálise implica um desenvolvimento teórico que é impregnado pelas vivências do 
pesquisador como analista ou paciente no processo psicanalítico. 
A instrumentalização na pesquisa teórica em psicanálise se refere a uma 
sistematização sobre o que o pesquisador transfere inconscientemente a respeito de 
teorias que estuda, que o deslocam de contexto e que, ao interpretá-las, deixa algo 
de si e mobiliza intuitivamente seu aparelho psíquico. 
 
 
O processo de produção científica teórica em psicanálise não se dá apenas 
por meio de leituras com rigor e aprofundamento para preencher lacunas de 
entendimento sobre o pensamento freudiano. Ele mobiliza no pesquisador a 
intuição e dispositivos cognitivo-afetivos ao se contatar com o caráter peculiar da 
própria psicanálise, que versa sobre o próprio sujeito, sua constituição e processos 
intersubjetivos, que se transferem aos temas em estudo. Ao acessar e refletir a 
respeito da obra psicanalítica, e ao agir e argumentar sobre ela como investigador 
do arcabouço teórico, o pesquisador implica sua psiquê no processo, à medida que 
os assuntos em estudo dizem respeito ao funcionamento humano e a ele mesmo 
como sujeito. 
Com base nesse entendimento sobre a relevância e a possibilidade de 
pesquisa em psicanálise com bases teóricas, abordaremos aqui a revisão sistemática 
de literatura. Trata-se do tipo mais rigoroso metodologicamente e que entrega 
resultados relevantes para o avanço da ciência psicanalítica. 
Saiba mais 
Revisões sistemáticas são estudos observacionais retrospectivos ou pesquisas 
experimentais de registro e análise crítica da literatura. Elas testam hipóteses, 
objetivando identificar, organizar e apreciar criticamente a metodologia da pesquisa e 
sistematizar resultados de uma coletânea de estudos primários. 
Assim como na revisão integrativa, a sistemática procura responder a uma 
questão de pesquisa que esteja claramente estabelecida. Aplica métodos sistemáticos 
e explícitos para buscar e tornar explícitos os resultados de estudos proeminentes em 
psicanálise por meio da reunião e argumentação a respeito de dados de estudos 
primários. A revisão sistemática é aceita pela comunidade científica como evidência 
de maior grandeza em um campo científico, que apoia não apenas pesquisas práticas, 
mas também a tomada de decisão clínica, de gestão e de projetos posteriores. 
TEMA 1 – BASES CONCEITUAIS DA REVISÃO SISTEMÁTICA 
A revisão sistemática da literatura tem por finalidade agrupar estudos 
convergentes, avaliando-os criticamente em sua estrutura, metodologia e 
resultados, realizando análise estatística (metanálise). Ao sintetizar pesquisas 
primárias de boa qualidade, a revisão sistemática é reconhecida como o melhor nível 
de evidência para guiar a tomada de decisão no contexto terapêutico. A fim de 
 
 
impedir viés de análise na revisão sistemática, os procedimentos de seleção e 
apreciação das informações são definidos antes de a construção da revisão ser 
iniciada, por meio de um processo bem estruturado. 
Quanto à origem das revisões sistemáticas, a primeira publicada foi elaborada 
em 1955 sobre um cenário clínico no Journal of American Medical Association 
(Beecher, 1955). Existem registros anteriores de publicações a respeito de métodos 
estatísticos (embrião da metanálise) para compilar resultados de estudos 
independentes e sintetizar conjuntos de pesquisas em temas próximos. O termo 
metanálise foi cunhado pela primeira vez em meados da década de 1970, em um 
artigo na revista Educational Research (Glass, 1976). 
A era das revisões sistemáticas junto com os recursos da metanálises, na 
área da Saúde, consolidou-se com a publicação do livro Effective care during 
pregnancy and childbirth (Chalmers; Enkin; Keirse, 1989). Na década de 1990 foi 
criada a fundação da Cochrane Collaboration, uma instituição internacional com a 
finalidade de capacitar, registrar e disseminar revisões sistemáticas na área da 
Saúde (incluindo a área de Psicologia). Na Europa, existem sete centros Cochrane 
(Alemanha, Itália, França, Espanha, Inglaterra, Holanda e Dinamarca), e outros seis 
centros em outros lugares do mundo: China, Austrália, Nova Zelândia, África doSul, 
Canadá e Brasil (Cochrane, S.d.). A Cochrane registra os protocolos das pesquisas 
de revisão sistemática que são acessíveis para que os pesquisadores cadastrados 
possam verificar se existe alguma revisão na área que pretendem investigar. Além 
disso, divulgam-se relatórios e resultados de revisões para propagar as evidências 
científicas na área da saúde. 
Um grupo de cientistas em um congresso na Alemanha em 1995 conceituou 
revisão sistemática como “aplicação de estratégias científicas de forma a limitar o 
viés e avaliar com espírito científico as pesquisas, sintetizando os estudos relevantes 
em tópicos específicos seguindo metodologia adequada” (Cochrane, S.d.). 
Saiba mais 
O acesso à Biblioteca Cochrane é feita pela BVS (Biblioteca Virtual da Saúde) 
que é mantida pela OPAS (Organização Pan-americana da Saúde), acessível pelo link 
a seguir, disponível para profissionais de saúde, resultado de acordo cooperativo entre 
a BIREME/OPAS e o Centro Cochrane do Brasil: 
PORTAL REGIONAL DA BVS. Disponível em: . Acesso em: 
24 jun. 2023. 
 
 
TEMA 2 – PRODUÇÃO DE REVISÃO SISTEMÁTICA E PASSOS PARA ELABORAÇÃO 
As revisões sistemáticas são classificadas como investigações científicas, 
qualificadas como pesquisas observacionais retrospectivas. Outros autores as 
colocam entre os estudos experimentais e observacionais (Dixon-Woods, 2005). 
Para termos uma visão geral desde o princípio, cabe ressaltar que a revisão 
sistemática começa com a elaboração da questão norteadora, ou seja, o objetivo de 
estudo dentro de uma proposta de revisão. Após isso, é realizado um amplo 
levantamento de literatura para se identificar a maior quantidade de estudos possível 
dentro do escopo da revisão. Uma vez selecionados os estudos a serem incluídos, 
são aplicados critérios de avaliação dos objetivos de pesquisa, qualidade 
metodológica e detalhes de organização. Quando as convergências entre os estudos 
estiverem sistematizadas, os resultados podem ser evidenciados em uma metanálise 
(Mulrow, 1994). 
Uma revisão sistemática bem elaborada baseia-se na formulação adequada da 
questão norteadora. Uma pergunta bem elaborada é o primeiro passo para uma boa 
revisão, já que pontua as estratégias que serão utilizadas para selecionar os estudos 
a serem incluídos e quais dados serão coletados para os estudos. Para descobrir a 
questão norteadora da revisão, é preciso identificar cinco elementos: o problema (P), 
a intervenção (I), o escopo a ser comparado (C), o desfecho (D) e, quando se aplicar, 
o tempo (T) transcorrido para aferição do desfecho. 
Nas revisões sistemáticas os participantes da pesquisa são os estudos 
primários (chamadas unidades de análise) por meio de método sistemático e 
preconcebido. Tradicionalmente, a revisão sistemática é um estudo retrospectivo, 
debruçando-se sobre pesquisas já publicadas com base no delineamento inicial do 
problema que dá causa à revisão. 
A revisão sistemática como um tipo de estratégia de pesquisa com método de 
síntese de evidências é útil em variados campos científicos, trazendo resultados para 
a evolução do conhecimento. Dentre os aspectos mais relevantes de uma revisão 
sistemática, é possível elencar os seguintes: 
1. A pesquisa desenvolve um protocolo a priori registrado em plataformas como 
Prospero, Cochrane, entre outras conforme a área de saber; 
 
 
2. O pesquisador procede uma busca ampla por obras vinculadas ao tema e usa 
estratégias diversificadas para busca em bancos de dados nacionais e 
internacionais; 
3. Avaliam-se qualitativamente os estudos incluídos na revisão sistemática, 
registrando os metadados de casa pesquisa. 
4. Os autores buscam, selecionam e extraem dados em fontes confiáveis, 
categorizam os achados científicos e realizam a argumentação dos resultados. 
TEMA 3 – ASPECTOS IMPORTANTE PARA CRIAR UM ARTIGO DE REVISÃO 
SISTEMÁTICA 
Ao elaborar um artigo de revisão sistemática, a divulgação científica publicada 
oferece aos leitores informações atualizadas e esclarecedoras sobre um tema de 
interesse em um campo de saber, sistematizando a evolução da ciência daquele 
campo. Para que a pesquisa tenha qualidade e alcance os objetivos, deve ponderar 
os seguintes aspectos: 
a. Partir de uma questão norteadora de pesquisa adequada; 
b. Estruturar a revisão de modo orientado aos objetivos; 
c. Avaliar a qualidade e nível de evidência das obras selecionada; 
d. Organizar recomendações segundo a evidência científica encontrada; 
e. Os procedimentos da revisão sistemática devem estar detalhados 
metodologicamente de forma que se possa reproduzir em outra pesquisa; 
f. Os resultados obtidos orientam uma comunidade científica em aspectos de 
organização e prática para outras pesquisas e para mudança na realidade. 
Alguns passos-chave precisam ser seguidos pelos pesquisadores, sabendo-se 
que a estruturação de uma revisão sistemática envolverá as seguintes ações 
(Cordeiro et al., 2007): 
• Formular a questão norteadora para o estudo de revisão e seus objetivos; 
• Planejar os critérios de seleção das pesquisas incluídas; 
• Estruturar a metodologia da revisão sistemática; 
• Definir os estudos que estarão na revisão; 
• Aplicar os critérios de seleção; 
• Registrar os dados dos estudos incluídos em uma planilha; 
 
 
• Avaliar os estudos com relação aos encaminhamentos metodológicos, 
estrutura e resultados frente aos objetivos da revisão; 
• Definir categorias de análise com base nos objetivos e nos estudos incluídos; 
• Interpretar e analisar os resultados e escrever as conclusões; 
• Realizar a divulgação científica e depois de um tempo atualizar a revisão. 
TEMA 4 – ETAPAS DE ORGANIZAÇÃO, QUESTÃO NORTEADORA E VARIÁVEIS 
A seguir, um detalhamento de sete etapas a serem consideradas na elaboração 
de um artigo de revisão sistemática, segundo Assis e Arruda (S.d.): 
4.1 Organizar os recursos informativos 
A primeira fase é elaborar planilhas e documentos para estruturar o relatório de 
pesquisa, criar uma folha de cálculos (Excel, Numbers etc.), conforme descrito no 
quadro a seguir: 
 
Quadro 1 – Como deve ser montada a estrutura do artigo de revisão sistemática 
Atividades Estrutura 
Planilha para registrar a estrutura 
do artigo de revisão sistemática 
1- Título, autor, ano 
2- Resumo, palavras-chave 
3- Problema, objetivos 
4- Método 
5- Categorias presente no estudo 
6- Resultados e Discussão 
7- Conclusões 
Base para cálculos para o artigo Aba 1 – Tabela geral 
Aba 2 – Pesquisas incluídas 
Aba 3 – Tabela de resultados 
Documento para gerir citações 
dos estudos para a revisão 
sistemática 
Organização das citações para o artigo de revisão 
sistemática nas normas ABNT ou outra conforme as 
regras da revista para qual será submetida. 
Fonte: Possolli, 2023. 
 
 
Pontua-se como importante criar uma pasta para salvar os estudos incluídos 
na revisão, ação que dará suporte para o desenvolvimento do artigo de revisão 
sistemática, auxiliando a gerenciar as citações relevantes que poderão ser usadas na 
argumentação e detalhamento da discussão das informações na revisão. 
4.2 Questão norteadora para a revisão sistemática 
Com base na definição do tema de pesquisa, a lacuna de conhecimento que se 
pretende investigar deve ser traduzida como um problema de pesquisa. Desse 
problema sairá o próprio título do artigo, as palavras-chave, os objetivos geral e 
específicos e os critérios de inclusão. 
Saiba mais 
Elaboração do problema de pesquisa 
É uma das etapas mais cruciais para o sucesso da pesquisa dada a sua 
importância. Portanto, ao se aproximar de um tema de interesse, o pesquisador deve 
realizar leituras, entender bem o contexto e, se não tiver experiência prévia, pode 
também conversar com profissionais com vivência no tema. Assim, terá clareza para 
problematização do contexto e formulação do problema. 
A pesquisa de revisão de uma temática parte justamente dessa questãonorteadora da pesquisa e não pode iniciar-se adequadamente se esse problema não 
estiver bem delimitado e aprofundado no entendimento dos pesquisadores. 
4.3 Variáveis para elaboração do artigo de revisão sistemática 
Os pesquisadores da revisão deverão elaborar a tabela de resultados gerais 
conforme especificado na etapa 1, com as variáveis que serão extraídas dos estudos 
incluídos. As variáveis podem ser qualitativas ou quantitativas, conforme exemplos no 
Quadro 1. 
Na planilha, deve-se criar uma coluna para cada variável e adicionar quantas 
forem necessárias. A primeira coluna deve ter o ano da publicação, na segunda o 
sobrenome dos autores do estudo, e assim por diante. O restante das colunas será 
para as variáveis importantes conforme definido para a revisão. Cada uma das linhas 
da planilha corresponde aos registros dos estudos que farão parte dos artigos de 
revisão integrativa. A planilha auxiliará em todo o processo da pesquisa e também 
 
 
para a elaboração do quadro resumo fará parte do artigo de revisão sistemática para 
apresentar os dados dos estudos incluídos. 
TEMA 5 – BUSCA NA LITERATURA, SELEÇÃO, ANÁLISE DE ESTUDOS E ESCRITA 
DO ARTIGO 
5.1 Busca na literatura 
Levando em conta o problema, são elencadas as palavras-chave, com variadas 
estratégias de busca em bases de dados e formulados os objetivos de pesquisa. 
A procura por estudo deve ser realizada em variadas bases de dados (como: 
Google Acadêmico, Periódicos da Capes, BVS, Sciello, PubMed, PePSIC, entre 
outras). Os bancos de dados dos portais de busca possibilitam pesquisar por 
palavra-chave, período, idioma, entre outros filtros, facilitando a identificação de 
obras dentro do escopo desejado. A ferramentas disponível nas bases de dados 
otimiza o tempo de busca com base nas palavras-chave e resumo das pesquisas 
localizadas em uma primeira busca, auxiliando para decidir quais são úteis para 
revisão que se pretende desenvolver. 
5.2 Seleção de estudos incluídos 
A seleção dos artigos ocorre por meio de critérios de inclusão previamente 
estabelecidos a partir do contexto que emerge do estudo do tema. Critérios como tipos 
de pesquisa, variáveis dos estudos, temática central, comparações, pressupostos 
teóricos, resultados etc. 
5.3 Análise dos estudos 
Os resultados e a discussão da revisão são a parte mais importante para que 
as evidências científicas fiquem estabelecidas e se construirão pela análise dos 
estudos selecionados sob um olhar qualitativo, que pode ainda ter um levantamento 
quantitativo de algumas variáveis por meio da metanálise. O quadro resumo final é 
produzido em função dos resultados obtidos 
 
 
 
5.4 Escrita final do artigo de revisão sistemática 
Tendo por base as etapas anteriores e as orientações recomendadas nos itens, 
pode-se estruturar a redação da revisão sistemática, a ser realizada 
progressivamente, à medida que se prossegue no desenvolvimento da argumentação. 
Enquanto estrutura do texto, um artigo de revisão sistemática deve possuir os 
seguintes elementos: título, questão norteadora, objetivos, métodos, quadro de 
resumo dos estudos incluídos, resultados, discussão, considerações finais. 
NA PRÁTICA 
A compreensão prática de como fica uma revisão sistemática em psicanálise 
pode ser esclarecida utilizando-se de um exemplo real de um artigo publicado, 
conforme sistematizado no Quadro 2: 
Quadro 2 – Exemplo de revisão sistemática em psicanálise 
Referência LEITÃO, I. B. A construção do estudo de caso em psicanálise: revisão de 
literatura. Contextos Clínicos, São Leopoldo, v. 11, n. 3, set./dez.2018. 
Disponível em: . Acesso em: 24 
jun. 2023. 
Método / Objetivo Revisão sistemática com objetivo de descrever como a literatura científica 
em psicanálise tem discutido e situado o estudo de caso, seja enquanto lente 
metodológica ou objeto de estudo. 
Detalhamento da 
busca 
Bases de dados: PePSIC e SciELO. Descritores e operadores booleanos da 
busca: “estudo de caso” OR “relato clínico” OR “caso clínico” OR “construção 
do caso”. 
Categorização As cinco categorias de análise: “O caso clínico como dispositivo para 
transmissão da experiência”; “O lugar da escrita na psicanálise”; “A 
construção do relato clínico”; “Construção do caso versus estudo de caso: 
dispositivos de elaboração”; “A singularidade do caso e o seu caráter 
ficcional”. 
Estudos Incluídos 
(critérios de inclusão 
e exclusão) 
43 artigos que tratam do estudo de caso em psicanálise. Inicialmente foram 
filtrados 178 artigos. Para filtragem à luz dos objetivos da revisão, 
estabeleceu-se os seguintes critérios de inclusão: ser um artigo científico 
que tem como lente teórica e metodológica a psicanálise. Foram excluídos 
os artigos que não apresentaram algum caso ou relato clínico, ou que não 
tiveram como objetivo discutir a temática do estudo de caso psicanalítico. 
Registro dos 
Estudos incluídos 
Os estudos analisados foram classificados em dois grandes grupos: 1. 
Estudos que discutiram os aspectos epistemológicos do estudo de caso, 
segundo os pressupostos teóricos e metodológicos da psicanálise; 2. 
Estudos que utilizaram estudo de caso para desenvolver questões 
relevantes para a clínica. 
 
 
Conclusões Considerando a relevância do estudo de caso para a metodologia de 
pesquisa psicanalítica, e uma importância nas publicações não apenas em 
psicanálise, e também no âmbito da psicologia clínica, foram estabelecidos 
guias e referências para a construção de estudos de caso. Conclui-se que o 
estudo de caso possibilita transmitir a singularidade de cada experiência 
clínica, por intermédio dos desdobramentos de uma análise e seu processo 
com o analista. Contribuindo ainda para a construção teórica e técnica da 
psicanálise. O estudo de caso como método de pesquisa clínica, destaca 
uma noção fundamental para a fazer clínico, que é o ato de tomar as 
palavras, onde a prática desafia a teoria e a convoca constantemente para 
a sua reformulação. 
Fonte: Possolli, 2023. 
FINALIZANDO 
A evidência científica advinda de uma revisão sistemática pode ser 
considerada um ensaio metapsicológico. Ao debruçar-se sobre um ensaio 
metapsicológico, estamos desenvolvendo uma pesquisa de natureza abstrata 
mesmo que tenha aplicação prática. A condução do método psicanalítico precisa se 
ater a certas características peculiares na relação entre pesquisador e objeto, 
entendendo o conceito de transferência como vimos anteriormente. 
Freud (1996) concebeu um método investigativo sobre o próprio ser humano, 
no qual, apesar de existirem alguns pressupostos, também destaca que a 
psicanálise precisa ser reinventada em cada caso em estudo, por isso a necessidade 
de uma revisão sistemática de pesquisa teórica em que se desejam avanços na 
própria teoria para esta possa embasar a prática. Nesse sentido, sobre a pesquisa 
psicanalítica Iribarry (2012, p. 12) destaca que é um tipo de pesquisa “que sempre 
terá uma apropriação do pesquisador, que ao pesquisar o método freudiano, acaba 
por descobrir um tipo de investigação propriamente sua, que o singulariza na 
condução da pesquisa”. 
Ao nos aprofundarmos em uma pesquisa teórica de revisão sistemática em 
psicanálise, que tem como produto um ensaio metapsicológico, é fundamental que 
o pesquisador lance mão da objetividade em suas argumentações, por meio do 
entendimento aprofundado de elementos conceituais. Mas ainda é preciso que o 
pesquisador tenha a habilidade de estar sensível às determinações subjetivas que 
emergem do seu vínculo com o objeto. Isto é, o diálogo que faz consigo mesmo e 
com o outro em função do contato humano com o seu objeto em estudo. 
 
 
Na psicanálise, todo saber é também projeção, já que supõe, para além de 
impressões recebidas via órgãos dos sentidos, um esforço de reflexão por meio do 
qual o sujeito elabora uma narrativa no formato de um saber estruturado. Isso implicadeixar algo de seu na produção do novo, uma vez que o sujeito entrega ao real mais 
do que recebeu (Rouanet, 1989). 
Assim, não existe produção científica em psicanálise com conteúdo novo sem 
que haja a mobilização da própria subjetividade na estruturação de sentidos 
plausíveis. Nessa perspectiva, concebe-se que o atributo subjetivo da produção de 
uma revisão sistemática, como ensaio metapsicológico, deve ser entendido como 
condição de avanços teórico-práticos por meio das evidências científicas levantadas. 
A probabilidade de evolução teórica e a base para a prática em psicanálise, ainda 
que fundamentadas em um certo escopo temático ou ainda caso clínico, dependem 
da produção criativa e dedicada dos pesquisadores psicanalíticos. 
 
 
 
REFERÊNCIAS 
ASSIS, M. S.; ARRUDA, J. C. Guia completo de artigo de Revisão Sistemática. Artigo 
Científico, S.d. Disponível em: . Acesso em: 24 jun. 2023. 
BEECHER, H. K. The powerful placebo. Journal of American Medical Association., 
n. 159, v. 17. p. 1602-6, dez., 1955. 
CHALMERS, I.; ENKIN, M.; KEIRSE, M. J. N. C. Effective care in pregnancy and 
childbirth. Oxford: Oxford University Press, 1989. 
COCHRANE. Trusted evidence and informed decisions. Cochrane Brasil, USP, 
S.d. Disponível em: . Acesso em: 24 jun. 2023. 
CORDEIRO, A. M. et al. Revisão sistemática: uma revisão narrativa – Comunicação 
Científica, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, n. 34, v. 6, dez 2007. 
DIXON-WOODS, M. et al. Synthesising qualitative and quantitative evidence: a review 
of possible methods. Journal of Health Service Research Policy, v. 1, n. 10, p. 45-
53, jan. 2005. 
FREUD, S. Sobre o início do tratamento. In: STRACHEY, J. (ed.). Edição Standard 
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: 
Imago, 1996. v. 12. p.137-158. 
GLASS, G. Primary, secondary and meta-analysis of research. Educational 
Researcher, v. 5, p. 3-8, 1976. doi.org/10.2307/1174772 
IRIBARRY, I. N. O que é pesquisa psicanalítica? Ágora: Estudos em Teoria 
Psicanalítica, v. 1, n. 6, 20 ago. 2012. Disponível em: 
. Acesso em: 24 jun. 2023. 
LEITÃO, I. B. A construção do estudo de caso em psicanálise: revisão de literatura. 
Contextos Clínicos, São Leopoldo, v. 11, n. 3, set./dez. 2018. Disponível em: 
. Acesso em: 24 jun. 2023. 
MULROW, C. D. Rationale for systematic reviews. BMJ, n. 39, p. 591-599, 1994. 
ROUANET, S. P. Teoria crítica e psicanálise. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 
1989. 
 
 
1 
 
 
 
 
 
 
 
 
PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM 
PSICANÁLISE 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Gabriela Eyng Possolli
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Revisão narrativa e revisão de escopo em psicanálise 
Essa é a última etapa, na qual abordaremos as revisões narrativas e de 
escopo, que mesmo menos prevalentes na literatura, são importantíssimas 
para o desenvolvimento da ciência psicanalítica. 
Sobretudo a partir dos anos 2010 em diante, a prática profissional com 
base em evidência científica cresceu muito, mostrando ser um importante 
instrumento para tomar decisões clínicas, de gestão e em políticas sociais. 
Cresceu assim a produção científica e a procura por conhecimento 
sistematizado, com aumento vertiginoso de revisões da literatura publicadas 
no Brasil. O reconhecimento de configurações diversas de evidências em 
pesquisas de revisão, com objetos de estudo e problemas variados, 
favoreceram a criação de abordagens e aplicação de métodos de diversos 
tipos na psicanálise, como vimos em etapas anteriores e iremos concluir 
agora antes de abordar os pressupostos de pesquisa em psicanálise e a 
pesquisa de casos clínicos nas próximas etapas. 
A revisão narrativa é a maneira mais simples de explorar e atualizar 
uma comunidade profissional sobre um tema. Ela descomplica o processo de 
pesquisa por possuir uma metodologia flexível, que pode ser conduzida 
conforme as bases e intenções do pesquisador. Aqueles que desejem fazer 
um TCC, artigo ou pesquisa organizada e sem tanta rigidez de método pode 
se basear na revisão narrativa. Ela não se aplica para pesquisas de campo, já 
que é elaborada com base no levantamento de literatura, leitura, registro de 
informações e análise crítica. 
Na área de políticas públicas de saúde, por exemplo, é notório o 
movimento para o desenvolvimento de metodologias abrangentes, em que a 
revisão de escopo se encaixa. A revisão de escopo tem se destacado 
mundialmente na área de síntese de evidências em saúde, com notável 
crescimento no Brasil a partir de 2014. Esse tipo de revisão propõe a 
realização de mapeamento da literatura em um certo campo de interesse, 
sobretudo quando pesquisas aprofundadas acerca do tema ainda não foram 
publicadas, especialmente importante para temas emergentes e atuais. 
 
 
3 
TEMA 1 – REVISÃO NARRATIVA: CONCEITO, IMPORTÂNCIA E APLICAÇÃO 
O avanço constante na produção do conhecimento científico, assim 
como a crescente produção e vertiginosa divulgação on-line em todo mundo, 
gera um contingente imenso de produções. Isso exige que os profissionais e 
pesquisadores obtenham processos e ferramentas para estarem sempre 
atualizados. É nesse contexto que surge a Revisão Narrativa, como um método 
estratégico para formação permanente e atualização profissional. 
“A revisão narrativa de literatura permite fazer a inclusão de diferentes 
tipos de informação, considerando distintas fontes, assim como exige 
habilidades críticas e reflexivas por parte do pesquisador” (Bernardo; Nobre; 
Jatene, 2004, p. 2). A revisão narrativa proporciona: 
• Aprendizagem por meio de definições e detalhes de um contexto 
conceitual; 
• Acesso a estudos prévios sobre um tema, trazendo uma perspectiva 
histórica e a evolução na área; 
• Identificação de referenciais, metodologias e técnicas para atualização e 
uso em pesquisas vindouras. 
As revisões narrativas são pesquisas amplas, focadas em descrever e 
esclarecer o chamado estado da arte (que é o desenvolvimento de uma área) 
de um certo campo do saber, abrangendo questões teóricas ou contextuais. 
Esse tipo de revisão se distingue das demais ao não informar fontes de 
informação, não detalha rigidamente a metodologia de busca de referências, 
nem mesmo os critérios para avaliação e escolha dos estudos. Mas, então, o 
que uma revisão narrativa mapeia e registra? Realiza uma análise da literatura 
em uma temática disponível em livros, artigos de periódicos e outros materiais 
selecionados conforme o assunto central, fazendo a interpretação e análise 
crítica do pesquisador. 
Uma revisão narrativa é útil para aplicação na educação continuada de 
profissionais, uma vez que possibilita a aquisição e atualização do 
conhecimento em uma área, em um tempo curto. Assim, o próprio processo de 
construção da revisão narrativa é, em si, um processo educativo. Porém, não 
há uma metodologia fixa que permita reproduzir dados para outros contextos 
 
 
4 
ou que fornece resultados quantitativos para questões específicas, já que 
possui esse caráter reflexivo do pesquisador com base em fundamentos 
teóricos por ele propostos. Por isso os artigos de revisão narrativa são 
pesquisas de abordagem qualitativa. 
Comparativamente à revisão sistêmica, o rigor científico é menor, o que 
não é um problema, mas uma necessidade dentro dos propósitos reflexivos da 
revisão narrativa. De modo que o pesquisador não necessita justificar seus 
critérios de seleção e aplicação de fontes de pesquisa, desde que haja 
coerência nos argumentos e encadeamento das fontes. Escolher o material 
base é algo mais aberto, pois é realizado a partir do repertório e análise 
pessoal do pesquisador a respeito do que será ou não citado.Os objetivos essenciais da revisão narrativa são: discutir temas, 
apresentar elementos e explicar contextos. O pesquisador, portanto, analisa 
não só livros, artigos de periódicos e teses, mas também reportagens de jornal 
e outras fontes bibliográficas que não são necessariamente científicas (Rother, 
2007). Vamos sintetizar as características mais importantes da revisão 
narrativa (RN) para a psicanálise: 
• Realiza uma discussão temática sobre questões abrangentes em 
psicanálise – exemplo de temas: transferência; sinais da relação 
consciente e inconsciente; 
• A RN é sujeita à subjetividade do pesquisador – exemplo: a qualidade da 
fundamentação do pesquisador em psicanálise e sua experiência clínica 
influenciará diretamente na profundidade das análises e argumentação 
da revisão; 
• Conhecimento atualizado sobre um assunto – exemplo: ao abordar a 
transferência na sala de aula, por exemplo, cabe ao pesquisador, além 
de aplicar sua habilidade reflexiva, buscar fontes e fundamentação 
atual e coerente para elaborar uma pesquisa que sirva de base para 
novos enfoques de pesquisa e auxiliar outros estudantes da área; 
• Mapeia o conhecimento em uma área – exemplo: tocando o mesmo 
assunto sobre a transferência na relação professor-aluno, o pesquisador 
irá mapear o que já foi publicado no assunto, vinculando suas bases de 
conhecimento com as fontes selecionadas para a RN; 
 
 
5 
• Sem necessidade de rigor metodológico – exemplo: como se trata do 
único tipo de revisão sem protocolo fixo, o pesquisador tem liberdade 
para definir as fontes e os principais argumentos e categorias de análise 
para a RN. 
Vejamos um exemplo de revisão narrativa em psicanálise para 
consolidar os conceitos e característica que vimos até aqui: 
Quadro 1 – Exemplo de revisão narrativa em psicanálise 
Título Contribuições psicanalíticas a uma revisão narrativa da depressão infantil. 
Referência BRANDÃO JUNIOR, P. M. C.; OLIVEIRA, S. C.; SILVA, I. T. da. Contribuições 
psicanalíticas a uma revisão narrativa da depressão infantil. Revista Tempo 
Psicanalítico, v. 55, abril 2023. Disponível em: 
. Acesso 
em: 26 jun. 2023. 
Contexto 
temático 
A depressão é um problema de saúde pública que pode ter afetado cerca de 
trezentas milhões de pessoas no mundo em 2018, segundo dados da 
Organização Mundial da Saúde (OMS). A literatura científica aponta que as 
alterações do humor que configuram esse transtorno podem ocorrer em 
qualquer faixa etária, sendo os estudos sobre sua ocorrência na infância ainda 
considerados escassos, com necessidade de maior aprofundamento (Brandão 
Junior; Oliveira; Silva, 2023). 
Desenho da 
pesquisa 
Revisão narrativa da produção científica sobre depressão infantil, com 
categorização e análise de conteúdo temática das publicações selecionadas 
com suporte teórico em psicanálise. 
Resultados A depressão infantil exige atenção e estratégias com políticas públicas, em 
especial com relação aos critérios para diagnósticos e a contribuição 
psicanalítica. É importante que as propostas de tratamento estejam adequadas 
aos ideais de infância do tempo atual e das descobertas recentes da ciência. 
Resultados foram debatidos pelo referencial conceitual da psicanálise, com 
articulação entre saberes e seus encontros discursivos. 
 Fonte: Possolli, 2023. 
 
Como estrutura mínima, um artigo de Revisão Narrativa deve conter, 
pelo menos: Introdução, Desenvolvimento (composto por seções e categorias 
estabelecidas conforme a condução do autor para o assunto em estudo), 
Comentários e Referências. A depender do tipo de artigo ou publicação que o 
pesquisador fará, essa estrutura pode conter outros itens. Os passos para sua 
construção veremos no próximo tópico. 
 
 
 
6 
TEMA 2 – COLOCANDO A REVISÃO NARRATIVA EM PRÁTICA: PASSOS E 
ESTRUTURA 
As etapas para se fazer uma revisão narrativa que reúna dicas de vários 
autores podem ser sintetizadas, em Mendes (2023), nas oito etapas a seguir: 
1. Definir objetivo e problema: toda pesquisa de revisão, inclusive a 
narrativa, deve ter um objetivo claro e enunciado junto com o problema 
em estudo. Um tipo de objetivo comum gira em todo de “fornecer uma 
visão geral do estado atual da literatura em um determinado campo ou 
identificar lacunas no conhecimento” (Mendes, 2023, p. 16); 
2. Selecionar fontes: é importante realizar uma busca ampla na literatura 
para identificar estudos relevantes, com base em critérios que o próprio 
pesquisador escolhe. Podem ser incluídos artigos científicos, revisões 
sistemáticas, livros e outras fontes confiáveis; 
3. Escolha de estudos participantes: nessa fase avaliam-se os estudos 
encontrados para decidir quais são relevantes para atingir o objetivo e 
problema da revisão. Uma boa consideração está em verificar a 
qualidade metodológica nessa seleção e a relevância dos resultados 
dentro do estudo maior que está conduzindo; 
4. Organizar os estudos: nessa fase os estudos selecionados serão 
agrupados conforme os subtemas, tópicos ou aspectos emergentes para 
a discussão. Essa fase é fundamental para criar categorias e uma 
estrutura para a revisão; 
5. Análise crítica: momento de interpretar os resultados dos estudos 
incluídos. Uma dica é registrar as semelhanças, lacunas e diferenças 
entre os achados na literatura, fazendo anotações e pequenas sínteses 
de cada estudo com foco na argumentação para revisão. 
6. Estruturar o texto: chegou o momento de organizar todos os registros e 
escrever o texto de forma encadeada e coesa, dentro do tipo de 
publicação ou material que resultará dessa pesquisa, não descuidando 
das normas para citar as fontes e dar embasamento; 
7. Escrever de modo consistente: usar linguagem objetiva e argumentar 
com base em suas vivências e reflexões, mas também trazendo os 
 
 
7 
autores participantes da revisão. O texto precisa ser fluido e ter como 
pontos de partida e chegada o objetivo/problema, além de ser 
compreensível aos leitores interessados no assunto em discussão; 
8. Revisar e editar: revise detalhadamente todo o trabalho, ler em voz alta 
ajuda nesse momento, para buscar eventuais erros gramaticais, coesão 
e regras de formatação. Caso não seja um trabalho com um orientador, 
peça a opinião de colegas da área para ter um feedback e, se 
necessário, aumentar a qualidade do texto; 
9. Incluir referências corretamente: tanto nas citações ao longo do texto 
como na listagem ao final, é preciso ter os estudos incluídos e outros 
materiais acessados, de maneira completa, seguindo as normas 
adequadas, seja ABNT, APA, Vancouver ou outra; 
10. Atualização permanente: sabemos que a literatura científica estará 
sempre em evolução. Por isso, se o tema da revisão narrativa é 
importante na sua atuação e atualização profissional, é relevante manter 
o estudo em constante renovação incluindo novos estudos, para refletir 
sobre os avanços recentes nessa área de pesquisa. 
Com base nestes passos para realização de uma revisão narrativa, fica 
mais fácil compreender como seria a estrutura de um trabalho acadêmico ou 
científico, definindo os tópicos para escrita, são eles: 
Título: simples e mais claro possível, o título precisa dar uma ideia do 
tema e abordagem do trabalho científico. 
Introdução: apresentar a fundamentação conceitual da revisão, o 
contexto, problema e objetivo, assim como a justificativa para a pesquisa. 
Metodologia: dentro dos pressupostos da revisão narrativa, o 
pesquisador realiza uma descrição das estratégias escolhidas no estudo e os 
passos que foram adotados, bem como os critérios de seleção determinados 
para seleção de estudos incluídos. 
Resultados: expor os achados teórico-práticos nos estudos 
selecionados. Discutir sobre os resultados construídos pelo autor, destacando 
o que se percebeu no estudo, características principais, argumentação do autor 
e as linhasteóricas que colaboram para sua compreensão para que se traga 
conhecimento atualizado na temática. 
 
 
8 
Conclusão: são as considerações finais do trabalho, que fazem um 
diálogo com o objetivo e problema do estudo, apresentando destaques e links 
para novas pesquisas. Uma dica é evitar afirmações não respaldadas por 
dados da revisão, por isso a conclusão deve ser estruturada e assertiva. 
Referências: apresenta os referenciais e publicações usadas ao longo 
da revisão narrativa. Tudo o que foi mencionado, como citação direta ou 
indireta, precisa estar na seção de referência ao final do trabalho. Para 
publicações no Brasil, em geral, usamos a ABNT, na área de Psicologia é 
comum o uso da APA, norma da Associação Americana de Psicologia. 
Anexos: seção para inclusão de elementos complementares, 
questionários, escalas etc. 
Algumas dicas ajudam a construir uma revisão narrativa com qualidade, 
conforme os pressupostos de Bernardo, Nobre e Jatene (2004), e organizado 
no Quadro 2, a seguir: 
Quadro 2 – Dicas para uma revisão narrativa de qualidade 
Leia obras 
variadas na 
área 
 
Antes de conduzir sua revisão, leia livros e referenciais de autores 
reconhecidos, marcando as ideias principais. Olhar relatórios de outras 
revisões narrativas e de pesquisa atuais ajuda muito para compor o contexto do 
tema. 
Elabore o 
roteiro da 
sua revisão 
A revisão precisa de um caminho para o raciocínio, como um fio condutor que 
estará no seu roteiro. O roteiro terá o seu planejamento, os itens e subitens 
para escrita e os principais argumentos e autores que auxiliarão na sua análise 
ao longo do texto. 
Foque em 
conceitos 
O trabalho de revisão narrativa deve basear-se na conceituação de tópicos 
essenciais para o tema. Cite conceitos usando pelo menos duas referências 
para cada tópico. 
Contexto 
histórico 
Aborde o contexto histórico, como um pano de fundo contando com base na 
literatura explorada por você. 
Escrita 
explicativa 
Explique os conceitos e contexto envolvidos no tema da revisão narrativa por 
meio de uma estrutura textual explicativa e argumentativa. 
Visão crítica A revisão narrativa traz para você a necessidade de postura crítica, com 
liberdade para analisar os estudos e formar seu posicionamento e 
conhecimento. Lembre-se que é importante inserir autores para dialogar com 
seus argumentos para expor a narrativa crítica. 
Método 
adotado 
No tópico destinado à metodologia da revisão, defina a abordagem utilizada, 
meios para seleção e outras opções como pesquisador. Classifique a sua 
revisão narrativa em um desses três tipos: 1. Dialética: incorpora estudos com 
pontos de vista diversos dentro de um mesmo tema; 2. Descritiva: descreve 
características, conceitos e estrutura bases para prática; 3. Holística: foca no 
todo e na relação entre as partes, buscando as conexões e a interdependência 
entre os estudos. 
 Fonte: Possolli, 2023. 
 
 
9 
TEMA 3 – REVISÃO DE ESCOPO 
Revisões de escopo, também denominadas scoping review, são 
aplicadas para mapear a produção de literatura dentro de um certo assunto ou 
área de pesquisa com a finalidade de obter conceitos-chave publicados, bem 
como identificar lacunas de conhecimento no tema. Desse modo, o objetivo 
primordial da revisão de escopo está em proporcionar uma análise descritiva 
dos materiais revisados, a fim de embasar novas pesquisas. 
É importante compreender que esse tipo de revisão não objetiva buscar 
a melhor evidência para uma intervenção na psicanálise, ou trazer um 
consenso de especialistas na área sobre uma abordagem psicanalítica, mas 
sim, agrupar e deixar claro o modo pelo qual diversas evidências foram 
construídas. Sem classificar ou analisar profundamente essa evidência, tendo 
como foco rastrear e indicar caminhos e potenciais para pesquisa e prática em 
psicanálise. 
Por essa explicação fica fácil entender que revisões de escopo são 
diferentes de revisões sistemáticas, que são mais aprofundadas e voltadas 
para avaliar a qualidade das evidências. Olhar para o escopo de um tema de 
pesquisa objetiva algo mais assertivo, apontando, por exemplo, os conceitos 
principais que suportam conjunto de estudos de casos clínicos na prática 
psicanalítica, sem detalhar esses casos. 
Uma revisão de escopo é adequada para ser utilizada para tópicos e 
assuntos abrangentes, já que pode reunir muitos desenhos de pesquisa para 
assim reconhecer traços gerais e tendência a respeito de evidências 
produzidas. Rastreiam-se e levantam-se possibilidades sobre as 
potencialidades dos achados em um escopo, para apoiar comunidades de 
pesquisadores, assim como trabalhadores de saúde, formadores e 
supervisores em psicanálise, e até mesmo formuladores de políticas sociais 
(Levas; Colquhoun; O´Brien, 2010). 
Em trabalho sobre metodologia de revisões, os propósitos da revisão de 
escopo são descritos como: “examinar a abrangência e a natureza de 
produções e/ou esclarecer conceitos que fundamentem uma área; identificar a 
viabilidade ou relevância de realizar revisão sistemática” (Arksey; O´Malley, 
2005, p. 21), destacando-se que devido a isso a pesquisa de revisão de escopo 
 
 
10 
pode ser considerada um exercício anterior à revisão sistemática, que já 
direciona a pergunta norteadora de revisão e produz uma revisão muito melhor. 
Outro propósito citado por Peters et al. é “sistematizar e disseminar achados 
que podem contribuir para as práticas e políticas e para a pesquisa; identificar 
lacunas na literatura existente, bem como compreender como a pesquisa é 
conduzida em uma área” (2017, p. 43). A prática de aliar revisões de escopo 
como prévias para revisões integrativas faz muito sentido quando o 
pesquisador psicanalítico precisa examinar evidências que são emergentes, 
em temas de estudo com produção recente e/ou incipiente e, também, quando 
é necessário verificar como as pesquisas geralmente são conduzidas em 
campos já consolidados. Para todas essas situações as revisões de escopo 
são fundamentais. 
Na psicanálise, a revisão de escopo é adequada para examinar 
pesquisas e materiais publicados a fim de realizar tomada de decisão no 
campo prático, mas também com relação à produção científica teórico-
metodológica, levantando um escopo por meio da varredora de teorias, 
autores, conceitos e metodologias. A seguir temos um exemplo de uma revisão 
de escopo, que trata de pressupostos teóricos importantes na psicanálise 
dentro do assunto anorexia, com o título: “Concepções da psicanálise sobre a 
anorexia no brasil: uma revisão de escopo”, pesquisa de Gomes, Silva, Moita e 
Gonzaga (2020), com o seguinte resumo: 
Os transtornos alimentares são percebidos a partir de múltiplas 
compressões. Apesar de distintas, é pertinente que haja interlocuções 
entre os saberes construídos para que seja possível uma maior 
compreensão acerca destes transtornos, além de possibilitar 
intervenções mais eficientes. O presente artigo trata de uma revisão 
de escopo que objetiva esclarecer as concepções psicanalíticas 
acerca do transtorno alimentar de anorexia nervosa. Foram utilizadas 
duas bases de dados, Literatura Latino Americana em Ciências da 
Saúde (LILACS) e Scientific Eletronic Library Online (SciELO), para 
busca das evidências. Um total de 16 artigos foram selecionados para 
análise após a adoção dos critérios de elegibilidade: estudos 
realizados no Brasil; publicados em idioma português; e artigos 
científicos publicados em periódicos entre os anos de 2009 e 2019. 
Com base na análise dos dados, foram percebidas divergências em 
relação às perspectivas de interpretações sobre o transtorno 
alimentar de anorexia nervosa no que diz respeito às estruturas 
clínicas nas quais ele pode se manifestar. Além disso, foi notada a 
aproximação da anorexia com questões relativas à adolescência, 
feminilidade e aos efeitos provenientes do arranjo estabelecido 
durante o Complexo de Édipo. (p. 104) 
 
 
11Metodologicamente essa pesquisa sobre conceitos psicanalíticos 
relacionados à anorexia apresentou como desenho do método o seguinte 
problema: quais as concepções psicanalíticas acerca da anorexia no Brasil?”. 
Importante notar que neste artigo os autores explicaram as fases da revisão de 
escopo adotada “baseadas no quadro de revisão de escopo proposto por 
Arksey e O’Malley, que se estrutura em: identificação da questão de busca; 
identificação dos estudos relevantes; seleção dos estudos; extração de dados; 
e análise dos resultados” (Gomes et al., 2020, p. 106). 
TEMA 4 – PASSOS PARA REALIZAR REVISÃO DE ESCOPO 
Pesquisas de escopo tem aumentado a qualidade de estudos mais 
amplos como parte de processos amplos de investigação. Os pesquisadores 
têm a possibilidade de acionar uma gama de desenhos metodológicos de 
revisões de literatura, abordando questões de escopo que ajudam a 
compreender a área como um todo, focando o olhar para além da eficácia da 
intervenção, incentivando descobertas ampliadas, argumentos fundamentados 
e abordagens terapêuticas que contribuem para discussão de casos clínicos. 
Após compreender a aplicação e as possibilidade das revisões de 
escopo, você pode estar se perguntando: como se faz uma revisão de escopo? 
Quais passos devo seguir? 
O processo de construção de uma revisão de escopo inicia com a escrita 
da pergunta norteadora de pesquisa (ou problema de pesquisa) e a definição 
do objetivo da pesquisa de escopo. A seguir identificam-se as fontes de dados 
para seleção de estudos relevantes, que após a aplicação de critérios de 
inclusão e exclusão, são classificados e sistematizados, conforme objetivos, 
metodologias e discussão de resultados do escopo. 
Damásio (2023) elenca sete passos para realização de revisão de 
escopo: 
1. Elabore a pergunta norteadora, o objetivo geral e a delimitação dos 
dados iniciais para a revisão de escopo: a partir do problema, 
direciona-se a composição do objetivo da revisão, para então criar os 
critérios de inclusão ou exclusão de estudos na revisão, assim como 
período de busca, idiomas etc.; 
 
 
12 
2. Busque as fontes para revisão definindo as bases de dados: 
selecionar os portais de busca e repositório relevantes no campo em 
estudo, para buscar artigos e outros estudos publicados conforme as 
palavras-chave definidas, podendo abranger bases bibliográficas, 
registros clínicos, protocolos de atendimento, documentos digitais, 
manuais, entre outros; 
3. Selecione os estudos para revisão: identificar os estudos que atendam 
aos critérios detalhados na Etapa 1, e que não apresentem fuga do tema 
do escopo em construção; 
4. Leia na íntegra fazendo anotações: ler os estudos incluídos a fim de 
registrar informações relevantes e organizar a coleta de dados: título, 
nome dos autores, ano de publicação, linhas teóricas, método, palavras-
chave, resultados, outras anotações relevantes; 
5. Sintetize informações: sintetizar informações de estudos incluídos e 
estruturá-las em categorias de análise; 
6. Analise resultados: analisar os apontamento sintetizados nas etapas 4 
e 5, a fim de identificar tendências na literatura e delinear o cenário do 
escopo em estudo; 
7. Conclua o que o escopo em estudo indica: a revisão de escopo deve 
ser fechada, apresentando-se o cenário referente ao escopo estudado, 
com uma visão geral da literatura e destaque de tendências e lacunas, 
respondendo ao problema de pesquisa. 
Para exemplificar os passos acima indicados, com base na pesquisa de 
Lollo (2021) foi extraída uma síntese referente a cada um dos passos para 
deixar o processo mais claro com um exemplo na psicanálise, intitulado: 
“Pacientes renais crônicos em hemodiálise e atendimento psicológico: revisão 
de escopo segundo referencial psicanalítico”. Resumo da pesquisa de escopo 
como exemplo em psicanálise: 
Fruto da experiência clínica de 20 anos de atendimento psicológico 
a pacientes renais crônicos em hemodiálise e em virtude de lacuna 
identificada na literatura acerca de atendimento psicológico a esses 
pacientes – especialmente estudos utilizando a fundamentação 
teórica e técnica da psicanálise –, o presente estudo se justifica pela 
alta prevalência desta doença na população e pelos inúmeros sinais 
de sofrimento psíquico. Uma revisão de literatura com base na 
metodologia para revisões de escopo do Instituto Joanna Brigss foi 
conduzida para identificar publicações sobre atendimento 
psicológico a pacientes renais crônicos em hemodiálise. A amostra 
foi composta por 23 artigos. Foram encontrados estudos utilizando 
 
 
13 
diferentes fundamentos teóricos técnicos, diferentes tipos de 
intervenções psicológicas e todos referem ter identificado melhora 
nos sintomas psíquicos, no enfrentamento e na adaptação ao 
tratamento e nas novas condições de vida. Entre os estudos que 
compuseram a amostra, foram identificados aqueles utilizando a 
teoria comportamental cognitiva (N=7), a análise do comportamento 
(N=2), a psicoterapia de orientação psicanalítica (N=2), a psicologia 
positiva (N=1), entre outros. Quanto ao tipo de estudo, foram 
identificados, principalmente, aqueles com características de estudo 
descritivo (N=5), estudos experimentais randomizados (N=3), 
estudos de caso (N=03), com características de relatos de 
experiência (N=3), com características de quase experimento (N=2), 
estudos clínicos de grupo único (N=2), relatos de experiência (N=2). 
De modo geral, os estudos relatam melhorias na qualidade de vida, 
nos sintomas de humor e depressão, melhora clínica e na saúde 
mental. Apresenta-se, neste estudo, uma reflexão acerca da 
psicossomática psicanalítica e suas possíveis contribuições, a partir 
de intervenção psicológica aos pacientes renais crônicos em 
hemodiálise, com base na promoção da capacidade de 
representação e simbolização dos afetos. (Lollo, 2021, p. 9) 
1. Pergunta norteadora, objetivo geral e a delimitação dos dados 
iniciais para a revisão de escopo: 
- Problema: sobre o que versam as pesquisas sobre atendimento 
psicológico a pacientes renais crônicos e a contribuição da psicanálise? 
- Objetivo: identificar o escopo de conhecimento sobre atendimento 
psicológico a pacientes renais crônicos e refletir sobre a contribuição da 
psicanálise. 
- Idiomas inglês, francês, português e espanhol; período de busca de 
1998 até 2018. 
2. Busque as fontes para revisão definindo bases de dados: PsysINFO, 
PubMed, LILACS, CINAHL, Embase. 
3. Selecione os estudos para revisão: 155 artigos, sendo 58 da 
PsysINCO, 20 da LILACS, 3 da PubMed, 30 da CINAHL, 33 da Web of 
Science e 11 da Embase. Após excluir 32 artigos repetidos, a seleção 
resultou em 15 da Lilacs, 2 da PubMed, 28 da CINAHL, 35 da 
PsycINFO, 33 da Web of Science e 10 da Embase, com total de 123 
artigos. 
4. Leia na íntegra fazendo anotações: os estudos incluídos, lidos na 
íntegra, foram seis estudos do Brasil (Garcia; Bittencourt, 2004; Resende 
et al., 2007; Vieira et al., 2009; Cherer; Quintana; Leite, 2012; Paula et 
al., 2017 e Ferreira, 2017) dois da França (Roques; Pourrat, 2011 e 
Jean-Dit-Pannel; Riazuelo; Cupa, 2018); três do Canadá (CAMPBELL; 
SINHA, 1999; CAMPBELL; SINHA, 2003 e Devins et al., 2005); um do 
 
 
14 
México (Almanza Muñoz et al., 1998); um de Israel (De-Nour, 2007); um 
da Inglaterra (Hudson et al., 2017), dois do Irã (Hosseini; Espahbodi; 
Goudarzi, 2012 e Toulabi et al., 2016); dois da Coréia do Sul (Koo et al., 
2005 e Sohn et al., 2018); quatro dos USA (Tuckman, 2001; Hailey et al., 
2007; Cukor, 2011; e Hernandez et al., 2018) e um da Australia (Chan et 
al., 2016). 
5. Sintetize informações: observou-se nesta revisão de escopo que os 
estudos selecionados foram publicados nos últimos 20 anos, dando 
publicidade ao cuidado psicológico especializado aos pacientes renais 
crônicos em hemodiálise. São estudos realizados em diversos países e 
em vários continentes, apontando a preocupação com esse cuidadopsicológico como um fenômeno mundial. A revisão realizada (786 
estudos), mesmo antes que refinada em todos os seus critérios, sugere 
a relevância científica do cuidado da saúde mental da pessoa portadora 
de doença renal crônica – tanto na máquina de hemodiálise como em 
diálise peritoneal – e que tem sido objeto de interesse, tema de pesquisa 
e de estudo com muita frequência nos últimos anos. Na amostra 
selecionada (23 estudos), de acordo com os critérios de inclusão e 
exclusão estabelecidos, sempre há alguma intervenção psicológica 
proposta aos pacientes em hemodiálise, na realidade, diversas 
modalidades de intervenção ou cuidado psicológico, com o objetivo de 
contribuir aos sintomas psíquicos manifestados e, também, aos 
principais impactos psíquicos da hemodiálise. A começar que o 
diagnóstico pode surpreender o paciente, o qual, muitas vezes, nem 
sabia que tinha a doença e já há a necessidade da escolha de um 
método dialítico e preparo de um acesso à diálise, requerendo ainda 
mudanças nos hábitos de vida e a adesão a todas as recomendações e 
tratamentos para evitar o agravamento da doença. Ocorre 
frequentemente uma recusa e negação em compreender, aceitar e lidar 
com estas repercussões da doença. 
6. Analise resultados: para análise dos resultados, as categorias 
estruturadas foram: a) Atendimento psicológico de orientação 
psicanalítica ao paciente renal crônico em hemodiálise; b) Sintomas 
psíquicos: angústia, ansiedade e depressão; c) Fundamentação teórica 
técnica utilizada na intervenção psicológica na clínica. No caso de um 
 
 
15 
renal crônico em hemodiálise, com seus sintomas físicos e psíquicos, é 
necessário levar em conta as contribuições da psicossomática 
psicanalítica no que se refere à compreensão do fenômeno, mas 
também, e principalmente, as recomendações técnicas acerca do 
atendimento psicológico de orientação psicanalítica, especificamente a 
estes pacientes com sintomas e doenças somáticas. 
7. Conclua o que o escopo em estudo indica: os resultados desta 
revisão de escopo apontaram que, embora as intervenções psicológicas 
tenham características bem diferentes entre si e, do ponto de vista 
metodológico, a maioria dos estudos possuam desenhos mais simples e 
de natureza exploratória, as diversas abordagens teóricas técnicas 
utilizadas levaram à obtenção de resultados positivos em relação às 
queixas e aos sintomas identificados nesses pacientes, além de uma 
evolução no enfrentamento à doença e ao tratamento. Conclui-se que, 
em geral, o conhecimento produzido e divulgado nas bases de dados 
consultadas, sobre o atendimento psicológico a pacientes renais 
crônicos, aponta para escassez de estudos e lacunas metodológicas, 
com ausência, por exemplo, de estudos longitudinais ou realizados com 
amostras mais expressivas de pacientes. Identificou-se, ainda, a 
necessidade de maior rigor metodológico em relação às intervenções 
psicológicas realizadas, com apresentação de definições conceituais e 
operacionais mais consistentes. 
Com base nesse exemplo mais detalhado, quando você precisar fazer 
ou se deparar com um estudo de revisão de escopo, saberá o que é e como é 
realizado. 
TEMA 5 – DESAFIOS PARA PRODUZIR REVISÕES EM PSICANÁLISE 
Vimos, em etapas anteriores, como construir revisões integrativas, 
sistemáticas, narrativas e de escopo. Certamente, ao ler todas as etapas para 
construir pesquisas de revisão, podem ter ficado algumas dúvidas, não é 
mesmo? Por isso é importante você buscar artigos de revisão na internet, 
com temas em psicanálise, assim como exemplos de trabalhos nas últimas 
etapas. Ao ver uma revisão publicada e a forma como o autor estruturou, 
 
 
16 
muita coisa fica esclarecida. Fazer uma boa revisão tem seus desafios, como 
fugir do viés. Mas o que é viés em pesquisa? 
Viés de pesquisa é um termo que denomina situações em que o 
pesquisador direciona os dados, interpreta com sua opinião sem base em 
autores, ou comete outros erros que interfere de maneira não científica, por 
exemplo, na elaboração de um instrumento de pesquisa ou na forma de 
analisar os dados. Com relação a instrumentos de pesquisa mal elaborados o 
viés pode induzir os participantes do estudo a selecionarem uma resposta que 
não reflita o que realmente pensam sobre o assunto em questão, e assim os 
resultados da pesquisa estarão comprometidos. 
Cabe pontuar que qualquer pesquisa, mesmo com pesquisadores 
experientes, pode apresentar viés de algum tipo, porém pode-se tomar 
cuidados para reduzir a ocorrência e melhorar a confiabilidade e qualidade 
do seu estudo científico. Sendo primordial conhecer os diversos tipos de 
vieses em pesquisa e qual deles é mais comum em estudos de revisão de 
literatura. 
Existem vários tipos de viés, especialmente em pesquisa prática, podem 
ocorrer cinco tipos de viés: viés de amostragem, viés de resposta, viés de não 
resposta, viés do entrevistador e viés do pesquisador. Especialmente esse 
último é muito comum em pesquisas de revisão, pois está relacionado ao modo 
como o profissional interpreta os resultados do estudo (Mininel, 2021). 
O viés do pesquisador pode ocorrer pela própria transferência, conceito 
psicanalítico, que o pesquisador faz não apenas em pesquisas práticas ou 
entre pessoas (paciente – analista), mas também ao se relacionar com um 
objetivo de estudos. Por meio das suas visões de mundo, experiências e 
expectativas a respeito do desfecho da pesquisa, o pesquisador possui 
tendências a interpretar os resultados de modo tendencioso, ou ainda ter 
resistência a enxergar possíveis erros em sua argumentação. Isso é natural na 
psiquê humana, pois ficamos empolgados ao verificar que as informações que 
coletamos parecem aprovar nossos desejos e pontos de vista a respeito do 
tema em estudo. “Como evitar o viés do pesquisador? Sendo o mais neutro 
possível durante a interpretação dos resultados para que as expectativas não 
provoquem esse viés. Submetendo suas possíveis conclusões às bases 
teóricas e linhas de análise da pesquisa” (Mininel, 2021, p. 11). 
 
 
17 
Em linhas gerais, podemos dizer que o maior desafio para demarcar a 
metodologia, resultados e as conclusões da revisão integrativa está em um 
registro mal detalhado nas fases anteriores, ou seja, se as características de 
cada estudo incluído, sobretudo metodologia e conclusões, não forem 
especificados nas fases anteriores, haverá dificuldade nessa fase final. A 
proposta essencial de uma revisão é agrupar e sintetizar evidências da 
literatura, a fim de responder ao problema disparador da revisão. 
Nessa etapa será elaborado o documento, contemplando a descrição 
das etapas desenvolvidas para composição do documental final da revisão 
integrativa. É uma etapa minuciosa, em que se revisa também as normas 
cientificas (ABNT, APA ou outra), produzindo impacto na apresentação do 
conhecimento construído sobre o tema pesquisado. A divulgação dos 
resultados e publicação da investigação é fundamental, muitas revistas 
científicas, com ótimo fator de impacto, aceitam revisão integrativa, dentro 
das exigências de cada periódico científico. 
NA PRÁTICA 
A fim de consolidar a aprendizagem sobre o processo de construção de 
uma revisão narrativa, veremos um exemplo prático de uma revisão com a 
temática “Abandono de psicoterapia psicanalítica por adolescentes: uma 
revisão narrativa”, de Brenner, Essarts e Ramires (2022). Observe a 
importância de compreender o tema, o objetivo que guiou o estudo, os 
detalhes metodológicos, os achados na literatura e os destaques dos 
resultados. Observar como esses pesquisadores articularam esses elementos 
será de grande valia para que você também desenvolva revisões narrativas 
com qualidade. 
A contextualização dessa revisão narrativa contextualiza que o 
abandono da psicoterapia psicanalítica por adolescentes é algo frequente, 
porém um assunto pouco estudado, ainda que preocupante nocenário de 
problemas de saúde mental. Com base nesta problemática, a revisão narrativa 
objetivou “compreender por que os jovens abandonam a psicoterapia 
psicanalítica”. Relata que atributos dos adolescentes podem ser vinculados 
com o abandono (idade, gênero, aspectos clínicos). No processo terapêutico, 
alguns fatores influenciam bastante o abandono, como a qualidade do vínculo 
 
 
18 
terapêutica e características do terapeuta, que se associam à continuidade ou 
não da psicoterapia. 
O desenho metodológico da revisão narrativa, a respeito do abandono 
de psicoterapia por adolescentes, define esse tipo de revisão como utilizadora 
de “metodologia mais flexível e busca mais aberta de fontes, dando maior 
autonomia do pesquisador e na abrangência de aspectos subjetivos para 
responder ao problema e objetivo” (Cordeiro; Rentería; Guimarães citados por 
Brenner; Essarts; Ramires, 2022, p. 3). Os autores justificaram a escolha desse 
tipo de revisão como método pelo fato de existir uma quantidade limitada de 
pesquisas nesse tema, ainda mais tendo em conta a abordagem psicanalítica. 
As bases de dados consultadas foram EBSCO, Scientific Electronic 
Library Online (Scielo) e o portal da Coordenação de Aperfeiçoamento de 
Pessoal de Nível Superior (Capes). A busca foi realizada no idioma inglês com 
os descritores “dropout, adolescent, psychoanalytic psychotherapy e 
psychodynamic psychotherapy”, que foram pesquisados de forma isolada ou 
conjunta, visando ampliar os retornos com estudos pertinentes para a revisão. 
Uma dissertação de mestrado foi considerada por adequar-se fortemente ao 
tema. Foram também consultados livros e guias de referência sobre o tema da 
psicanálise com adolescentes. 
A informações coletada nos artigos identificaram oito estudos de 
abordagem psicanalítica sobre abandono da psicoterapia na adolescência, 
publicados entre 2008 e 2019, sobretudo nos Estados Unidos e Inglaterra. 
Houve diversificação de métodos nos estudos incluídos, com quatro estudos 
quantitativos, dois qualitativos e duas pesquisas mistas. 
Os estudos quantitativos buscaram verificar a associação entre 
abandono da psicoterapia e aliança terapêutica, comparar grupos de 
pacientes que aderiram ao tratamento e grupos que interromperam, 
investigar fatores preditivos de abandono, sendo um deles um ensaio 
controlado randomizado. Quanto aos estudos qualitativos, um era um 
estudo exploratório e o outro uma revisão de literatura. Sobre os de 
delineamento misto, um era um estudo sistemático de caso único e o 
outro buscou identificar categorias de abandono entre pacientes 
adolescentes. O conteúdo dessas pesquisas foi examinado com base 
na apresentação e discussão das principais temáticas abordadas em 
cada uma. Três categorias foram formuladas e apresentadas. 
(Brenner; Essarts; Ramires, 2022, p. 6) 
 
As categorias analisadas na revisão narrativa foram: 1. Conceito e 
critérios de abandono na psicoterapia psicanalítica de adolescentes; 2. 
Características dos pacientes adolescentes que abandonam a psicoterapia 
 
 
19 
psicanalítica; 3. Aspectos do processo terapêutico de adolescentes que 
abandonam a psicoterapia. 
Como resultado dessa RN evidenciou-se que, dentre os estudos, 
aqueles que trabalham com variáveis sociodemográficas e clínicas foram a 
maioria. Esses estudos apontam que a idade do paciente é uma variável que 
eleva a chance de abandono da psicoterapia. Além disso, demonstrou-se que 
comportamentos antissociais e delituosos também contribuem para o 
abandono do tratamento. Para aumentar a adesão à psicoterapia, os fatores 
com influência preditiva e protetiva se relacionam principalmente à Aliança 
Terapêutica (AT) como fator essencial para que o adolescente permaneça em 
tratamento. 
A AT tem um papel central na psicoterapia para diferentes faixas 
etárias como preditora de resultados positivos no processo de tratamento. A 
maior parte dos estudos incluídos na revisão utilizou a definição de Bordin 
(1979), que conceitua AT como multidimensional composta por três 
elementos fundamentais (acrônimo OTV): objetivos (combinados entre 
analista e analisando quanto às metas do tratamento), tarefas (acordos 
sobre atividades) e vínculo (ligação entre os dois, estabelecendo confiança e 
uma relação de transferência). 
A qualidade da aliança terapêutica influencia diretamente a adesão ao 
processo terapêutico na psicanálise, especialmente na etapa inicial (três 
primeiros meses). Os analistas, que desde o início focam nas dimensões OTV 
para engajar melhor os pacientes, observam que o abandono por parte dos 
adolescentes reduz bastante. A relação com os pais demonstra ser importante 
nessa idade, especialmente para pacientes com doenças crônicas, no começo 
da adolescência ou com questões mais graves. 
Por meio do detalhamento dessa revisão integrativa percebe-se a 
relevância desse tipo de pesquisa para consolidar e demonstrar os avanços do 
conhecimento em uma temática, auxiliando na formação continuada dos 
profissionais em psicanálise. 
FINALIZANDO 
Nesta etapa, vimos as revisões narrativa e de escopo, importantíssimas 
para a produção científica na psicanálise. Os exemplos trouxeram a exposição 
sobre os tipos de revisões mais utilizados para uma dimensão prática da teoria 
 
 
20 
psicanalítica e da pesquisa como suporte fundamental para a prática clínica. 
Como vimos, as revisões de literatura são importantíssimas, a principal forma 
para publicar pesquisas teóricas em psicanálise. 
O interesse do psicanalista ao propor uma pesquisa teórica de revisão 
de literatura tem como bússola explorar o saber sobre o inconsciente. Saber 
esse que é ativado pela causa do desejo, possibilitando ao pesquisador se 
deslocar da posição clínica para a posição de produtor de conhecimento em 
psicanálise, direcionando-se de um objeto de desejo de saber. 
Com base nos quatro tipo de revisões que vimos, e no potencial que 
elas têm para desenvolver ainda mais a ciência em psicanálise, gostaríamos de 
destacar um pensamento de Freud (1912, 1915), que estabelece uma profunda 
vinculação existente na psicanálise entre a observação empírica e a reflexão 
teórica. Freud entende a práxis e a produção conceitual como articuladas ao 
mesmo processo, de modo que, ao analisar fenômenos do inconsciente, nem 
sempre se pode separar a teoria da prática. Portanto, prossiga pesquisando, e 
desafia-se a criar e publicar uma pesquisa de revisão em psicanálise. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
21 
REFERÊNCIAS 
ARKSEY H.; O’MALLEY, L. Scoping studies: towards a methodological 
framework. Int J Soc Res Methodol., n. 8, v. 1, 2005, p. 19-32. 
BERNARDO, W. M.; NOBRE, M. R. C.; JATENE, F. B. A prática clínica 
baseada em evidências. Parte II: buscando as evidências em fontes de 
informação. Rev Assoc Med Bras., n. 50, v. 1, p. 1-9, 2004. 
BORDIN, E. S. The generalizability of the psychoanalytic concept of the working 
alliance. Psychotherapy: theory, research and practice, n. 16, v. 3, 1979, p. 
252-260. Doi: . 
BRANDÃO JUNIOR, P. M. C.; OLIVEIRA, S. C.; SILVA, I. T. da. Contribuições 
psicanalíticas a uma revisão narrativa da depressão infantil. Revista Tempo 
Psicanalítico, v. 55, abril/2023. Disponível em: 
. Acesso 
em: 26 jun. 2023. 
BRENNER, E.; ESSARTS, G.; RAMIRES, V. R. Abandono de psicoterapia 
psicanalítica por adolescentes: uma revisão narrativa. Psicologia USP, n. 33, 
2022. Doi: . 
DAMÁSIO, B. F. Como fazer uma revisão de escopo. São Paulo: 
Psicometria, 2023. 
FREUD, S. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. In: 
STRACHEY, J. (Ed.). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas 
Completas de Sigmund Freud, v. 12, p.123-133. Rio de Janeiro: Imago, 
1996a. Originalmente publicado em 1912. 
FREUD, S. (1996d). Os instintos e suas vicissitudes.desta. Criar as bases para 
estudos clínicos que serão realizados a médio e longo prazo e que 
ajudarão a corroborar ou refutar a tese, presente em Freud, de que a 
Psicanálise é uma ciência. 
• Metodologia: 
o Quanto à sua natureza: pesquisa pura (ou básica); 
o Quanto aos objetivos (ou fins): pesquisa exploratória; 
o Quanto à abordagem: pesquisa qualitativa; 
o Quanto à coleta de dados: pesquisa bibliográfica. 
Ao produzir uma pesquisa pura, temos duas questões essenciais a serem 
feitas: 
1. Para que serve aquele conhecimento? 
2. Por que estudar aquele tema? 
 
 
6 
É esperado que as pesquisas puras resultem em informações importantes 
para a difusão do conhecimento para a comunidade científica, bem como para a 
comunidade em geral, subsidiando a tomada de decisão. 
No caso do exemplo usado acima, a relevância da pesquisa foi 
apresentada na definição do objetivo da pesquisa: criar as bases para estudos 
clínicos que serão realizados a médio e longo prazo e que ajudarão a corroborar 
ou refutar a tese, presente em Freud, de que a Psicanálise é uma ciência. 
2.2 Pesquisa aplicada 
A pesquisa aplicada, por sua vez, tem um objetivo diferenciado da 
pesquisa pura, uma vez que visa aplicar o conhecimento de forma prática. Volta-
se, assim, para a solução de problemas que avançam para a dimensão real, 
agregando os avanços científicos da pesquisa pura. Os objetivos específicos da 
pesquisa aplicada podem ser de médio ou curto prazo, possibilitando 
investigações financiadas com apoio de instituições públicas ou privadas como 
contexto de prática. Os estudos de casos clínicos são exemplos de pesquisa 
aplicada em Psicanálise. 
A pesquisa aplicada se relaciona com a pesquisa pura ao determinar um 
uso prático para as descobertas feitas pelas pesquisas puras. Trazendo para 
esse processo o conhecimento sistematizado disponível, de variadas fontes, 
para que, ao final, tenha-se uma descoberta científica com utilidade social e 
econômica para todos. 
Freud formulou a Psicanálise por meio de pesquisas. Considerado um 
método dialético, a Psicanálise se fez por meio de investigações científicas, tanto 
teóricas (pesquisa básica) quanto aplicadas (prática clínica), sendo que a teoria 
se reformulava com base nos resultados de estudos de casos clínicos. 
TEMA 3 – PESQUISA EXPLORATÓRIA, DESCRITIVA OU EXPLICATIVA 
No que se refere ao objetivo central de uma pesquisa, é possível 
classificá-la em três grandes grupos (Marconi; Lakatos, 2001): 
• exploratórias; 
• descritivas; 
• explicativas. 
 
 
7 
Pesquisas exploratórias têm como objetivo principal proporcionar 
intimidade com o problema a fim de torná-lo explícito. As investigações 
exploratórias contemplam levantamento bibliográfico, pesquisas de revisão de 
literatura, entrevistas e grupos focais com pessoas relacionadas ao objeto de 
estudo, assim como análise de casos e vivências. Um exemplo de temática 
delineada como pesquisa exploratória seria um estudo sobre metodologias 
pedagógicas utilizadas para o ensino em Psicanálise: identificar as ferramentas 
e métodos que institutos de formação na área de Psicanálise utilizam como 
estratégias didáticas para o ensino, como o currículo é organizado dentro dos 
grandes temas da Psicanálise, realizando uma investigação que elenque os 
achados e analise comparativamente cenários encontrados na exploração que 
responda à pergunta de pesquisa, explorando o fenômeno em estudo. 
Vamos ver um exemplo de pesquisa exploratória publicada, apresentando 
o resumo do artigo intitulado “Diálogo entre literatura e Psicanálise: contribuições 
dos contos de fadas no desenvolvimento infantil”, de Coutinho e Rodrigues 
(2021). 
Elucidado principalmente pelos pensamentos de Bettelheim (2002) e 
Perrault (2017), o presente artigo discute acerca do Impacto dos 
Contos de Fadas no desenvolvimento da criança, com base em uma 
metodologia de pesquisa exploratória. Realiza uma análise que propõe 
elucidar as contribuições psicológicas e literárias que os contos 
fornecem para o crescimento interno e formação crítica durante a 
infância. Em paralelo com a pesquisa, será exemplificado um dos 
conhecidos contos de fadas e seu significado de uma perspectiva 
analítica e representativa para diversas crianças, independentemente 
de gênero e faixa etária. Verifica-se a escolha deste tema na extensão 
da imaginação infantil, porque contribui significativamente na formação 
e no desenvolvimento da personalidade da criança. (Coutinho; 
Rodrigues, 2021, p. 1) 
Pesquisas descritivas têm como finalidade descrever as características de 
determinada população ou fenômeno, podendo determinar ainda a vinculação 
entre variáveis específicas. Trata-se de um tipo de pesquisa que “se concentra 
na descrição de características ou propriedades, ou ainda, nas relações entre 
essas propriedades e fatos/fenômenos relacionados a uma determinada 
realidade” (Silva; Schappo, 2002, p. 39). O estudo descritivo permite caracterizar 
o o que, detalhando uma população estudada e especificando condutas 
humanas, por exemplo, mas sem aprofundar-se na explicação do porquê dessas 
condutas. É por esse motivo que é comum denominar pesquisas como 
exploratório-descritivas, quando estas irão mapear o que e aproximar-se de um 
fato científico para entender como ele ocorre. 
 
 
8 
Uma temática que pode ser abordada em uma pesquisa descritiva em 
Psicanálise poderia ser um estudo dos Sinais e Sintomas de Esquizofrenia em 
homens com mais de cinquenta anos: pesquisa que busca elencar, com base no 
preenchimento de instrumento quanti-qualitativo e dados de estudos de casos 
clínicos, quais os sinais e sintomas mais prevalentes em uma população 
determinada, podendo-se comparar com outros recortes populacionais 
específicos, para assim relacionar os achados com a teoria psicanalítica e trazer 
sugestões para a condução de casos clínicos semelhantes. 
Outro exemplo de pesquisa descritiva em Psicanálise, que foi publicada, 
intitula-se: Caracterização da clientela que busca a psicoterapia psicanalítica de 
casais e famílias: 
Este estudo objetivou caracterizar a clientela que buscou a psicoterapia 
psicanalítica conjugal e familiar, atendimento ofertado em um serviço-
escola de Psicologia. Trata-se de uma pesquisa descritiva, delineada 
como retrospectiva documental. Foram analisados dados referentes à 
composição familiar, religião, renda, concomitância com tratamentos 
médicos e via de encaminhamento, além da categorização das queixas 
elencadas pelos casais e famílias. Os resultados apontaram para uma 
presença maior de mulheres, famílias com filhos menores de 12 anos, 
com adultos na faixa dos 30 a 39 anos de idade, com ensino médio, 
faixa salarial de 2 a 4 salários-mínimos, católicos, com residência na 
própria cidade na qual o serviço está alocado e concomitância com 
outros tratamentos médicos. A maioria buscou o serviço por iniciativa 
própria e com queixa relativa a problemas emocionais de um dos 
familiares. Espera-se que tais resultados contribuam para o 
aprimoramento de serviços similares. (Sei; Gomes, 2017) 
Pesquisas Explicativas destinam-se a identificar fatores que determinam ou 
contribuem para a ocorrência dos fenômenos, sendo que o foco dessa pesquisa 
está no porquê. É o tipo que aprofunda o conhecimento da realidade, 
apresentando maior complexidade metodológica nos instrumentos de pesquisa 
e nas abordagens de análise das informações coletadas. De acordo com Gil 
(1989), a pesquisa explicativa tem como objetivo identificar os fatores que 
contribuem para que os fenômenos ocorram da forma como ocorrem. 
Busca-se, assim, aprofundar o conhecimento da realidade, com foco em 
explicar a razão, o porquê das coisas. Importa destacar que as pesquisas 
explicativas basear-se-ão em estudos anteriores, como pesquisas descritivas e 
exploratórias, uma vez que só é possível entender o porquê de uma problemática 
de pesquisa após compreender o que é esse fenômenoIn: STRACHEY, J. 
(Ed.). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de 
Sigmund Freud, v. 14, p. 117-144. Rio de Janeiro: Imago, 1996b. 
Originalmente publicado em 1915. 
GOMES, D. F. Concepções da Psicanálise sobre a Anorexia no Brasil: uma 
revisão de escopo. Sanare (Sobral, on-line), jan.-jun./2020, v. 19, n. 1, p. 104-
112. Disponível em: 
. 
Acesso em: 26 jun. 2023. 
 
 
22 
LEVAC, D.; COLQUHOUN, H.; O´BRIEN, K. K. Scoping studies, advancing 
the methodology. Implementation Sci 5, 69, 2010. Doi: 
. 
LOLLO, M. C. Di. Pacientes renais crônicos em hemodiálise e atendimento 
psicológico: revisão de escopo segundo referencial psicanalítico. Tese 
apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da 
Universidade Federal de São Carlos, 2021. Disponível em: 
. Acesso 
em: 26 jun. 2023. 
MENDES, C. Como elaborar uma revisão narrativa de literatura. Projeto 
Acadêmico, n. 5, maio 2023. Disponível em: 
. Acesso em: 26 jun. 2023. 
PETERS, M. D. J. et al. Scoping reviews. In: AROMATARIS, E.; MUNN, Z. 
(Ed.). Joanna Briggs Institute Reviewer’s Manual. Australia: Joanna Briggs 
Inst., 2017. 
ROTHER, E. T. Revisão sistemática X revisão narrativa. Acta Paulista de 
Enfermagem, n. 20, junho 2007. Doi: . 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM 
PSICANÁLISE 
AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Gabriela Eyng Possolli 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Vamos aprofundar os pressupostos da pesquisa em Psicanálise. Até aqui, 
abordamos a pesquisa na Psicanálise como um campo de pesquisa com 
interações com a psicologia e a saúde, conhecendo os tipos de pesquisa, 
abordagens e delineamentos, bem como os quatro principais tipos de revisão 
(integrativa, sistemática, narrativa e de escopo). A metodologia científica em 
Psicanálise confunde-se com a própria pesquisa, ou seja, a Psicanálise em seus 
processos terapêuticos é uma pesquisa. A Psicanálise, enquanto experiência 
original, pode ser formalizada na obra de Freud como a pesquisa psicanalítica. 
Aprofundamos a pesquisa teórico-prática como base para as evidências 
científicas da Psicanálise por meio da produção de fundamentação teórica e dos 
quatro tipos de revisão de literatura abordados. Detalhamos os alicerces que 
possibilitam estruturar e desenvolver pesquisas sobre as bases conceituais no 
campo psicanalítico, que apresentem alicerces teóricos, linhas de análise, que 
servem de contexto argumentativo para pesquisas em Psicanálise. Certamente, 
todos os exemplos práticos de pesquisa reais na Psicanálise que vimos até aqui 
ajudam muito na sua trajetória como pesquisador nesse campo. 
Os pressupostos e guias que serão abordados nesta etapa são 
imprescindíveis para a realização de pesquisas psicanalíticas, seja qual for o seu 
escopo, objetivos ou metodologia aplicada. A Psicanálise é em si um processo 
de pesquisa, tal qual documentado por Freud, e desenvolvido também por outros 
analistas e pesquisadores que se basearam nele. Por um lado, a pesquisa 
aplicada é o tratamento psicanalítico, e por outro, é também o que escapa ao 
foco do tratamento psicanalítico: a teoria psicanalítica, são as bases e conceitos 
que o psicanalista acessa por meio da investigação da natureza e das ações 
humanas. 
Cabe destacar que a produção científica psicanalítica em relação à prática 
e à teoria se desenvolve na associação livre, em que não há distanciamento 
entre sujeito e objeto, o que é esperado na pesquisa em outras áreas. Esse não 
distanciamento acontece por causa da transferência, entendida como um 
fenômeno humano, não exclusivamente psicanalítico, que ocorre entre os 
falantes da relação psicanalítica: paciente e analista. 
 
 
3 
Assim, podemos dizer que a Psicanálise inaugura uma área de estudos 
inédita, fundamentada a partir dos estudos de Freud. E, como tal, a Psicanálise 
acaba por se misturar com o próprio tratamento. De modo que, quando se aborda 
a Psicanálise, aborda-se o tratamento e os conceitos por ele mobilizados, no 
contexto da intersubjetividade, implicando que a pesquisa em Psicanálise se 
baseie em estudos de casos clínicos, assim como Freud fez em suas obras 
completas, cartas, aulas e estudos. 
Como guias e pressupostos para a pesquisa psicanalítica, abordaremos 
principalmente: inconsciente, significante, associação livre, atenção flutuante, 
transferência, casos clínicos. Por meio dessas bases, chegaremos a algumas 
conclusões sobre a importância da compreensão desses elementos para a 
pesquisa em Psicanálise. 
TEMA 1 – DISCURSO SUJEITO DO INCONSCIENTE 
Quando dizemos que o método psicanalítico também é um método de 
pesquisa, é porque se trata de uma análise do discurso do inconsciente. O 
primeiro pressuposto que iremos abordar é o inconsciente, enquanto objeto e 
matéria de trabalho da Psicanálise, conceito por meio do qual se estrutura a 
teoria e a clínica psicanalítica. 
Qual é a diferença entre a metodologia de análise de discurso e de 
conteúdo com o método psicanalítico? 
Caregnato e Mutti (2006) abordam o método de análise do discurso e de 
análise de conteúdo. O artigo publicado na base de dados Scielo, intitulado 
“Pesquisa qualitativa: análise de discurso versus análise de conteúdo”, descreve 
com detalhes essas metodologias de análise em pesquisa. 
Em Psicanálise, cabe ressaltar que analisar discurso ou conteúdo difere 
no sentido de que se faz análise do discurso do sujeito do inconsciente. Na 
metodologia qualitativa clássica, a análise de discurso e de conteúdo ocorre 
considerando o discurso do ego, já significado pela cultura. Assim, trata-se de 
pesquisar o sujeito do inconsciente conforme expressão criada por Lacan. 
Freud considerava que tinha um conteúdo inconsciente que se 
manifestava na fala das pessoas. A partir dessa colocação de Freud, Lacan 
passou a postular que esse inconsciente se comunica, e disso decorreu: o 
 
 
4 
inconsciente se comunica como uma linguagem, a linguagem do inconsciente, e 
por isso o inconsciente é um sujeito. 
Esse sujeito do inconsciente é o que desmente a pessoa (discurso 
racional do ego). É o que comete atos falhos, é o que demonstra irritação e faz 
a pessoa pedir desculpas, ou seja, é aquele que constrange, que envergonha, 
que faz a pessoa se sentir transparente. 
Vamos ver um exemplo: um menino internado em um hospital estava com 
medo de ir para a UTI depois de uma grande cirurgia que faria no dia seguinte. 
A psicanalista foi chamada para atendê-lo e, no primeiro contato, fez perguntas 
fáceis para que o menino respondesse, com a intenção de estabelecer um 
rapport, uma aliança terapêutica positiva: qual é o seu nome, quantos anos você 
tem, em que série está no colégio, e coisas assim. A psicanalista já sabia que 
ele tinha 13 anos, mas não o interpelou nem confrontou quando ele disse que 
tinha oito anos. Seguiu a conversa, pois a intenção não era acessar discursos 
racionais e sim os do inconsciente. Em seguida, perguntou como ele imaginava 
a UTI e o menino descreveu um lugar pequeno, quadrado, escuro e onde ele 
ficava sozinho. A psicanalista imaginou um túmulo, mas não disse nada. 
Perguntou a ele o que poderia ajudá-lo a suportar ficar naquele lugar. Ele disse 
que tinha medo de ficar sozinho no escuro e que não queria ir. Como a cirurgia 
já seria no dia seguinte e não havia possibilidade de adiá-la, a intervenção 
buscou diminuir a ansiedade e, para tanto, ele foi convidado a ir à UTI para ver 
como era. Ele viu um ambiente grande, iluminado e cheio de gente. As crianças 
estavam acompanhadas de suas mães. Então, concordou em fazer a cirurgiae, 
quando acordou no pós-operatório, a equipe garantiu que o ambiente era 
diferente daquele que ele havia imaginado. A mãe e a enfermeira estavam com 
ele, a televisão estava ligada em um filme que ele gostava, alguns objetos 
pessoais estavam com ele, havia muita luz e, da posição em que estava na 
cama, era possível ver a porta de entrada e o balcão de prescrição, sempre com 
a presença de membros da equipe de saúde. Nos dias seguintes, ele mesmo 
abordou esse assunto com a psicanalista, dizendo que estava gostando da UTI, 
mas achava que seu irmão tinha sido internado em outro lugar. Contou que seu 
irmão tinha a mesma doença, operou aos 8 anos de idade, foi para a UTI e 
morreu. 
 
 
5 
O discurso que interessa é aquele do sujeito do inconsciente, que de fato 
determina o comportamento. Como visto no exemplo, o engano e os atos falhos 
são muito mais relevantes do que o discurso bem educado mediado pelo filtro 
do ego. Assim, temos que: 
O discurso do sujeito do inconsciente é o conteúdo expressado como 
manifestação do inconsciente, irracional, desprovido de sentido. Discurso do 
ego: material consciente já organizado, censurado, adequado, coerente, que 
pode ser explicado, comprovado, entendido e que faz sentido. 
Freud defendia a importância do reconhecimento da existência do 
inconsciente por meio de reconhecimento científico, como objetivo dos estudos 
da Psicanálise. Nesse sentido, Freud discorreu sobre dados que comprovam sua 
existência. Ele aponta que manifestações do consciente expressam uma 
quantidade significativa de lacunas, independentemente de as pessoas serem 
saudáveis ou não. Freud também complementou, afirmando que, por meio de 
sua experiência clínica, percebeu que os atos conscientes ficam imperceptíveis 
quando há insistência de que os atos mentais devem ser experimentados apenas 
pela consciência. Por outro lado, mesmo reivindicando o reconhecimento 
científico da teoria psicanalítica, Freud também admitia a impossibilidade de que 
todos os fenômenos ocorridos na mente e nas emoções humanas pudessem ser 
conhecidos pela consciência. 
Freud estruturou o aparelho psíquico como constituído de instâncias que 
ele chamou de topos. A partir da obra A interpretação dos sonhos, a primeira 
estrutura freudiana era composta de inconsciente, pré-consciente e consciente. 
Para ele, o que mais importa é o lugar relativo que cada instância tem em relação 
às demais. Mais adiante no desenvolvimento de sua teoria, Freud propôs a 
substituição da estrutura, renomeando-a como id, ego e superego, como 
estrutura psíquica. 
Os “processos mentais são inconscientes em si mesmos, e assemelham 
a percepção deles por meio da consciência à percepção do mundo externo por 
meio dos órgãos sensoriais” (Garcia-Roza, 2005, p. 46). A Psicanálise alerta os 
sujeitos para não estabelecer correspondência entre impressões vindas da 
consciência e processos mentais inconscientes, que de fato são o objeto de 
análise psicanalítica. 
 
 
6 
TEMA 2 – O SIGNIFICANTE EM PSICANÁLISE 
Quando falamos em significante na Psicanálise, estamos nos referindo ao 
campo de estudos da Semiótica, que estuda os Signos e sua interface com os 
estudos da Psicanálise. De maneira breve, podemos dizer que um signo diz 
respeito a um objeto ou fenômeno que representa outro, como um sinal, 
composto por significante e significado. O significante é o elemento perceptível 
ou material do signo, enquanto o significado é o conceito, a parte abstrata do 
signo. Como exemplo, pense em uma placa de trânsito de proibido estacionar 
(E): o significante é a placa em si, o símbolo da E cortado; o significado é 
conhecido pelas pessoas que dominam as regras de trânsito e compreendem o 
conceito de que naquele local não se pode estacionar. Assim, o significante 
remete a um determinado significado. 
A discussão sobre o significante na Psicanálise diz respeito à 
compreensão do conjunto de sinais e signos tangíveis e perceptíveis que 
representam as manifestações do inconsciente, que precisam ser interpretadas 
no processo clínico em Psicanálise. Essa discussão ganhou corpo com a obra 
de Lacan. Na Psicanálise, o significante lacaniano aparece nas discussões 
teóricas como um conceito citado por Lacan. 
Foi Michel Arrivé quem relacionou o significante lacaniano com o signo de 
Saussure (um dos maiores linguistas da Semiótica), buscando estudar na área 
da Linguística a teoria do significante lacaniano. Arrivé (1999) destaca que, 
considerando a teoria lacaniana, não podemos deixar de estabelecer uma 
conexão entre Linguística e Psicanálise, entre linguagem e inconsciente. 
Entre a área da Linguística e a Psicanálise, há duas principais 
possibilidades de vinculação: a primeira é com a estrutura, e a segunda é com o 
sujeito. Ao atuar em um campo de estudos na interface entre duas áreas do 
conhecimento, não se pode supor uma mera articulação, pois articular supõe 
unir partes para construir um elemento. É por isso que Flores (1999) afirma que 
entre as duas áreas há uma implicação, ou seja, uma afinidade entre as 
proposições. 
Desse modo, trata-se de um desafio de interdisciplinaridade, que precisa 
ser encarado sob dois princípios: 1) o cuidado para que os conceitos da 
Linguística e da Psicanálise não sejam justapostos sem a devida interpretação 
 
 
7 
do arcabouço teórico exigido por cada área; 2) deve-se assumir um ponto de 
partida para as análises conjuntas — ou Linguística, ou Psicanálise — para que 
seja possível argumentar sem misturar os pressupostos, por mais atraente que 
possa parecer a simples mistura de conceitos. Aqui, portanto, destacamos a 
Psicanálise como ponto de análise e utilizamos pressupostos de outros campos, 
como a Linguística e a Semiótica, para compreender os atributos do significante 
na Psicanálise. 
Cabe ressaltar que tanto para Saussure quanto para Lacan, há a visão de 
que na produção do discurso há algo que escapa ao consciente do sujeito, 
questões que vão além da expressão objetiva, uma vez que, ao falar, sempre 
dizemos mais do que pretendemos, inclusive por meio da linguagem corporal. 
Nesse contexto de vinculação entre Psicanálise e Linguística, o sentido 
para a Psicanálise está justamente no lugar em que o sentido parece não estar. 
A linguagem não se revela com transparência, a comunicação nem sempre é 
clara, é frequentemente um espaço de ocultamento. Ao interagir por meio da 
fala, nunca se adota uma dimensão única, sempre há outros aspectos e sentidos 
ocultos naquilo que se diz. A investigação psicanalítica introduzirá ao processo 
científico uma compreensão de sentido que não existe na Linguística, seria a 
noção do sentido a ser refletido no sem-sentido. No campo da Psicanálise, o 
discurso consciente do sujeito está cheio de arestas do discurso consciente, 
assim sempre há um discurso oculto que se inscreve no inconsciente e que 
precisa de pressupostos para ser interpretado (Arrivé, 1999). 
Lacan (1999, p. 52) explica que as leis que compõem o inconsciente, 
designadas por ele como leis do significante, coincidem com as leis do discurso. 
A estrutura do inconsciente, pontua Lacan, diz respeito àquilo que “a análise 
Linguística permite situar como sendo os meios essenciais de formação do 
sentido, na medida em que este é gerado pelas combinações do significante”. 
Portanto, ele estabelece uma relação clara entre inconsciente e linguagem, 
entendendo a linguagem como constituidora do inconsciente. 
O significante será sempre “uma expressão involuntária de um ser falante, 
podendo ser um lapso, um relato do sonho, uma impressão provocada por um 
signo, ou mesmo um gesto, um som, ou até um silêncio” (Nasio, 1993, p. 17). O 
que é recalcado pelo sujeito pertence à representação da palavra, sendo assim 
da ordem do significante (Lacan, 1999). 
 
 
8 
Saiba mais 
Para explicar o que pertence à ordem do significante, Lacan (1988) 
exemplifica com a figura do passona areia: Os passos na areia da praia são 
sinais que o objeto deixa para trás. Esses sinais independem do sujeito para 
existir, já que permanecem mesmo sem a presença de alguém para observar. 
Desse modo, o significante se estende a múltiplos elementos do domínio do 
sinal. Enquanto o significante se refere a um sinal que “não remete a um objeto, 
mesmo sob a forma de rastro, embora o rastro anuncie, no entanto, seu caráter 
essencial. Ele é também um sinal de uma ausência. Mas, na medida em que ele 
faz parte da linguagem, o significante é um sinal que remete a um outro sinal, 
que é como tal estruturado para significar a ausência de um outro sinal” (Lacan, 
1988, p. 192). 
Os conteúdos que a rede de significantes revela levam à possibilidade de 
criação de sentidos que ocorre na direção antagônica ao discurso linear, 
contrário ao discurso programado. Dessa forma, a metáfora, por fugir do 
esperado, demonstra algo criativo e que é matéria para análise e reflexão. 
TEMA 3 – ASSOCIAÇÃO LIVRE E ATENÇÃO FLUTUANTE 
Iniciamos com definições mais objetivas elaboradas com base no 
Dicionário de Psicanálise (Roudinesco; Plon, 1998), destacando que a atenção 
flutuante é a condição para que a livre associação ocorra, e esta última é a 
técnica fundamental do método psicanalítico. 
Historicamente, a associação livre surgiu como conceito no final do século 
XIX, quando Freud se desligou progressivamente da hipnose e da catarse, 
criando assim o método psicanalítico baseado na associação livre, que tem como 
fundamento a fala e a linguagem. O termo associação livre, atribuído a Breuer, 
que trabalhava com Freud, foi empregado pela primeira vez em 1896. Uma 
definição importante é que “qualquer implantação da Psicanálise passa pelo 
reconhecimento consciente da existência do inconsciente, da mesma forma que 
a associação livre, como técnica de tratamento, passa pelo princípio político da 
liberdade de associação” (Roudinesco; Plon, 1998, p. 344). 
Já a atenção flutuante, expressão criada por Freud em 1912, designa a 
“regra técnica segundo a qual o psicanalista deve escutar seu paciente sem 
 
 
9 
privilegiar nenhum elemento do discurso deste e deixando que sua própria 
atividade inconsciente entre em ação” (Roudinesco; Plon, 1998, p. 39). 
Assim, tanto a atenção flutuante como a associação livre são técnicas 
facilitadoras evocadas pelo analista para que os elementos latentes do 
inconsciente possam circular com liberdade no discurso dentro do processo 
terapêutico. Em sua autobiografia, Freud refletiu sobre a evolução de seu 
método, insistindo no respeito àquilo que chamou de regra fundamental da 
Psicanálise, que é chegar à associação livre (fluxo discursivo aberto com o 
paciente), meio para fazer surgirem as resistências (indicações de questões 
latentes no inconsciente) e possibilitar a exploração como canal a ser 
interpretado no processo psicanalítico (Freud, 1977). 
Nas pesquisas psicanalíticas, sejam clínicas ou teóricas, todas 
compartilham do método interpretativo e da ruptura de campo. A Psicanálise é 
um método interpretativo em ação, e não apenas uma teoria; mesmo as 
pesquisas teóricas servem para embasar a prática clínica. A Psicanálise é uma 
práxis, um conhecimento empírico que contém um saber sobre o qual é possível 
teorizar. Ao estabelecer o campo de estudos da Psicanálise, Freud desenvolveu, 
acima de tudo, um método de cura pela palavra para tratar as neuroses dos 
pacientes. Esse método vai além da racionalidade habitual e permite o 
surgimento do sujeito durante a interação analítica. “Freud estava introduzindo 
um método novo na arte de curar, um novo caminho que a arte havia explorado 
melhor, fato que certamente não lhe escapou” (Herrmann, 2004, p. 52). 
Ao desenvolver o método da associação livre, Freud rompe com o 
determinismo lógico da razão científica do início do século XX, acessando a 
subjetividade e refletindo sobre o sujeito para esclarecer suas questões 
psíquicas. A prática clínica proposta por Freud se caracteriza 
metodologicamente por uma proposta criativa resultante do processo de 
associação livre, que é específica e adaptada a cada sujeito, em que os sentidos 
latentes expostos pela análise constituem percursos discursivos singulares na 
fala do sujeito no processo terapêutico. Assim, observa-se que a Psicanálise, 
como método, aponta para uma implicação objetiva do sujeito, sendo uma 
característica da pesquisa em Psicanálise que difere da racionalidade científica 
tradicional, que busca neutralidade e imparcialidade no processo científico. 
 
 
10 
Vale ressaltar que a associação livre é um método freudiano para o 
tratamento terapêutico de neuroses, sendo um processo que revela o 
inconsciente e fundamenta uma compreensão teórica dos elementos psíquicos 
que explicam as patologias, como psicose, neurose e perversão. No campo da 
psicopatologia, a Psicanálise contribui para a classificação e descrição de 
doenças mentais, especialmente ao detalhar o conceito de demência precoce. 
Nesse sentido, o método psicanalítico fundamentou-se na observação e 
descrição das expressões clínicas do sujeito, buscando registrar sua evolução e 
técnicas de tratamento. 
Na obra A interpretação dos sonhos, de 1900, Freud estabeleceu como 
base a formulação inicial do aparelho psíquico em uma perspectiva dinâmica e 
empírica, além dos elementos constituintes da neurose. A tarefa de interpretar 
as manifestações inconscientes complementa a tarefa de falar no discurso 
terapêutico, consolidada pela atenção flutuante e pela associação livre. Assim, 
Barbosa define a associação livre e a atenção flutuante: 
A primeira corresponde ao ato de falar sem “censura” tudo o que lhe 
vier à mente, mesmo que pareça “bobagem” para quem fala; a segunda 
significa dizer que o analista não deve dar importância a qualquer 
elemento do discurso; deve permitir que sua escuta funcione o mais 
livremente possível, através da própria atividade do inconsciente, para, 
assim, suspender as motivações que se dirigem a dado elemento. 
(Barbosa, 2018, p. 55) 
Quando o paciente faz associações livres dos elementos discursivos, ele 
evoca seu contexto inconsciente, produzindo algo novo. Não está apenas 
relatando algo que vivenciou, mas evocando o que Freud chamou de 
recordações encobridoras. Essas recordações não são uma reprodução do 
passado, pois são atravessadas pela linguagem do sujeito que as descreve, 
trazendo elementos conscientes e expressões inconscientes que são 
trabalhados na clínica psicanalítica. É por meio dessas recordações 
encobridoras que uma linguagem é construída para se aproximar do 
inconsciente. Um objeto de linguagem é construído entre o analisante e o 
analista: o analisante fazendo sua associação livre e o analista registrando os 
casos e as abordagens terapêuticas. 
Lacan (2008), ao discutir a pesquisa psicanalítica e a técnica da atenção 
flutuante de Freud, ressalta que o analista ouve o que o analisante diz com 
atenção uniforme, sem pré-selecionar ou definir critérios para os conteúdos que 
 
 
11 
serão submetidos à análise. Por meio da escuta analítica, são encontrados no 
discurso os sinais do sujeito desejante, sendo que o próprio sujeito é resultado 
dos significantes inconscientes. Portanto, na Psicanálise não existe um objeto a 
ser minuciosamente estudado e examinado antes da intervenção na prática 
clínica. É por meio do processo clínico que o objeto da Psicanálise encontra seu 
lugar, onde o objeto não é simplesmente buscado, mas sim redescoberto. 
Pode-se considerar, conforme indicado por Lacan, que na regra da 
atenção flutuante está a reafirmação de que o percurso para a produção de 
pesquisas em Psicanálise não pode ser predeterminado. A produção científica 
em Psicanálise deve ser forjada de forma comprometida com a singularidade de 
cada circunstância. Caso contrário, encontraremos apenas o que já foi abordado 
por outras pesquisas, semcontemplar a natureza personalizada que os casos 
clínicos em Psicanálise demandam. 
Coelho e Santos (2012, p. 94), ao abordarem a pesquisa em Psicanálise 
em contextos não estritamente analíticos, fazem uso da técnica que Freud 
chamou de contrapartida do analista à regra da associação livre: a atenção 
flutuante. Toda pesquisa em Psicanálise implica que o pesquisador se submeta 
aos requisitos da prática clínica. É por isso que o método de pesquisa 
psicanalítica se baseia na fala e na escuta, por meio da associação livre e da 
atenção flutuante. 
Mesmo em pesquisas teóricas, é importante ter em mente a 
recomendação de que o pesquisador psicanalítico mantenha sua atenção 
uniformemente suspensa, aberto para o que possa surgir no processo de 
pesquisa. O pesquisador em Psicanálise não deve ter uma visão dogmática em 
que direcione sua atenção apenas para ideias que confirmem o que está previsto 
em suas hipóteses. Dessa forma, ao não rigidificar seus pressupostos teórico-
práticos, o pesquisador adota uma postura compatível com a atenção flutuante, 
chegando assim a uma fundamentação conceitual que não seja totalizante. 
TEMA 4 – ANÁLISE DO PROCESSO PSICANALÍTICO E A TRANSFERÊNCIA 
Por meio da metodologia de estudos de caso, o psicanalista pode 
investigar e produzir conhecimentos sobre os fenômenos dos processos 
psicanalíticos, como os tipos de mecanismos de defesa mais utilizados e o 
 
 
12 
padrão de relacionamento mais comum entre pacientes neuróticos, limítrofes e 
com psicose. Neste tópico, abordaremos a transferência. 
O conceito de transferência em Psicanálise passou por várias mudanças 
desde que Freud o formulou originalmente. A transferência envolve as projeções 
de sentimentos que o analisando faz ao longo do processo de análise. 
A definição de transferência foi desenvolvida nas obras de Freud: 
Dinâmica da transferência (1912), Recordar, repetir e elaborar (1914) e 
Conferências introdutórias sobre Psicanálise (1917). É um fenômeno que ocorre 
dentro do setting analítico, onde, no processo de análise, os sentimentos em 
relação às figuras parentais são ressignificados na relação paciente-analista. A 
transferência é um aspecto extremamente importante da técnica psicanalítica 
(Morettini, 2023). 
Saiba mais 
O setting analítico é um conjunto de instrumentos e estratégias que 
compõem o atendimento terapêutico oferecido ao paciente. Está relacionado ao 
par analítico, ou seja, à relação discursiva e afetiva entre analista e paciente. 
Pelo mecanismo transferencial, o analista identifica sentimentos 
atribuídos aos agentes parentais. As relações primordiais dos seres humanos 
são a materna e a paterna, e também outras pessoas significativas na infância 
do sujeito. 
A transferência é um movimento de conteúdos do inconsciente em direção 
ao pré-consciente, que transcorre por meio de uma projeção que o analisando 
faz em relação ao analista. Esse trânsito de sentimentos é imprescindível para 
que os padrões repetidos do paciente sejam identificados e reelaborados na 
análise. 
Os sentimentos passados evocados pelo paciente e a projeção dos afetos 
para a figura do analista podem ser reconfigurados em uma transferência que 
ocorra de modo guiado pelo processo terapêutico. Quando a transferência 
acontece de modo benéfico, com uma condução adequada pelo manejo do 
analista, o paciente poderá seguir em seu amadurecimento com autonomia e 
independência. No sentido contrário à transferência, há a contratransferência, 
que é uma direção de afetos do analista para o analisando. A contratransferência 
 
 
13 
merece um sinal de alerta, já que, dependendo do nível de envolvimento 
emocional do analista, pode ser prejudicial para o paciente. 
Um psicanalista inexperiente pode ser surpreendido por um conteúdo 
transferencial muito intenso e reagir a isso de modo contratransferencial, 
achando que é algo pessoal do paciente para ele. Por exemplo, o paciente tenta 
seduzir o psicanalista ou discorda de suas intervenções, desqualifica o 
psicanalista e questiona sua competência, com um perfil desafiador opositor. 
Isso pode irritar o analista inexperiente. Para não ser surpreendido pelos 
fenômenos do processo psicanalítico, o analista pode fazer pesquisas sobre 
quais os tipos de relação transferencial mais frequentes entre pacientes 
neuróticos, limítrofes e psicóticos, de modo a se instrumentalizar tecnicamente 
para o manejo. A supervisão dos casos em atendimento contribui para o 
refinamento da habilidade clínica. 
A pesquisa em Psicanálise não está restrita ao âmbito clínico, mas se 
realiza tendo a dimensão clínica em seu horizonte. Da mesma forma que não há 
Psicanálise sem psicanalista, pela sua própria estrutura, que se baseia na 
linguagem, é preciso pontuar que o psicanalista está sujeito à criação de seu 
inconsciente. Os afetos transferenciais convertidos em transferência de trabalho 
constituem uma perspectiva de chegar a uma concepção livre de preconceitos. 
Como sustenta Lacan (2003), a Psicanálise apenas pode ser comunicada de um 
indivíduo para outro via transferência de trabalho. Assim, pontua-se que é a 
transferência de trabalho que abre caminho para a pesquisa teórica que seja 
propriamente psicanalítica. 
Hashimoto e Tavares (2013) destacam, dentre os caminhos relatados em 
suas vivências de trabalho e pesquisa em Psicanálise, a importância de 
compreender a implicação do pesquisador psicanalítico diante de um certo 
objeto de estudo, assinalando a transferência que ocorre no método 
psicanalítico. Os autores apontam que na Psicanálise o pesquisador realiza 
[…] uma relação transferencial com o próprio conteúdo investigado na 
medida em que essas leituras o tocam de determinada forma para além 
da racionalidade empregada na própria leitura de um texto em 
particular. No momento em que lemos, estudamos e nos esforçamos 
para compreender qualquer que seja articulação teórica, não só a 
nossa racionalidade está ativa como também os processos 
inconscientes. (Hashimoto; Tavares, 2013, p. 172) 
 
 
 
14 
TEMA 5 – CASOS CLÍNICOS 
A última categoria importante para a pesquisa em Psicanálise, que será 
abordada de forma mais aprofundada, são os casos clínicos. No campo da 
metodologia de pesquisa, um estudo de caso é um tipo de pesquisa que enfatiza 
a singularidade de um determinado fenômeno, articulando uma teoria para 
analisar esse contexto específico. Trata-se de um método que permite obter 
informações detalhadas, testar hipóteses e desenvolver teorias (Gil, 2002). 
O estudo de caso, como estratégia na pesquisa clínica em Psicanálise, 
deve ser compreendido como resultado do relato de experiência clínica. Para 
conduzir um estudo de caso, Stake (1995) apresenta três tipos de delineamento 
que devem ser considerados na investigação científica: 1) Intrínseco: concentra-
se na compreensão do caso e dos dados e princípios presentes nele que são 
relevantes para a pesquisa; 2) Instrumental: utiliza o caso para gerar reflexões 
sobre um tema, a fim de esclarecer um tópico teórico ou desenvolver 
conhecimento sobre questões que não se limitam apenas àquele caso, de modo 
que o estudo de caso possa trazer entendimento sobre outros fenômenos; 3) 
Coletivo: ocorre quando um caso instrumental abrange vários casos, por meio 
de uma análise comparativa, proporcionando um conhecimento mais abrangente 
sobre o fenômeno teórico-prático em investigação. 
Com base nesses três tipos, as pesquisas psicanalíticas que se debruçam 
sobre estudos de caso são classificadas como Intrínsecas e Instrumentais. O 
objetivo do estudo de caso em Psicanálise não é produzir generalizações, mas 
sim compreender a relação de um sujeito com seus sintomas. Assim, o estudo 
de caso ocupa uma posição fundamental na Psicanálise, registrando e refletindo 
sobre os impasses clínicos, como evidenciado por Freud em seus relatos de 
caso nas obras completas. 
A grande contribuição dos pesquisadorespsicanalíticos na comunidade 
científica está na publicação de pesquisas baseadas em suas experiências 
clínicas. Esses pesquisadores geralmente realizam abordagens qualitativas, 
coletando fragmentos de seus atendimentos para formalizar estudos de caso, 
que são analisados com base nos pressupostos psicanalíticos. O estudo de caso 
em Psicanálise é um relato de experiência sobre o setting analítico em um 
 
 
15 
processo de tratamento, utilizando a transferência e a associação livre para 
acessar o inconsciente e vincular a teoria aos achados clínicos. 
A prática clínica é um contexto privilegiado para a produção científica, pois 
aborda “a prática como um problema de pesquisa, com o objetivo de melhorá-la 
com base em seus próprios resultados” (Avellar, 2009, p. 16). Além dessa 
relevância, as pesquisas de casos clínicos em Psicanálise contribuem para que 
a prática seja transmitida a outros processos psicanalíticos. 
NA PRÁTICA 
A fim de relacionar os conceitos que compõem as bases da Produção 
Científica em Psicanálise, o mapa conceitual a seguir propõe uma estrutura para 
relacionar esses pressupostos: 
Figura 1 – Mapa conceitual de pressupostos para pesquisa em Psicanálise 
 
FINALIZANDO 
Ao compreender o inconsciente como estruturado pela linguagem, 
entendemos que o sujeito que é afetado pelo significante se torna um ser da 
 
 
16 
linguagem. O foco do psicanalista ao realizar pesquisas teóricas é guiado pelo 
conhecimento do inconsciente. O inconsciente encontra na linguagem, em um 
contexto clínico de vinculação, um lugar para sua expressão através da relação 
significado-significante, sob a orientação do psicanalista. 
Para Freud, a norma fundamental da Psicanálise é a associação livre, que 
ele chamou de regra fundamental, que determina a criação do analisando por 
meio da linguagem. Essa regra orienta o trabalho na clínica psicanalítica, e a 
associação livre é a forma adequada de conduzi-la. O analista precisa encontrar 
sua própria posição na transferência, diante da associação livre baseada nas 
falas do paciente. A singularidade da escuta marca a ação do analista através 
da atenção flutuante. A atenção flutuante requer treinamento sólido e um estado 
de alerta peculiar. 
No que diz respeito à transferência na pesquisa psicanalítica, existem 
diferentes finalidades na investigação clínica e teórica. Na prática clínica, a 
transferência é dissolvida por meio da interpretação. Já na pesquisa psicanalítica 
teórica, ela precisa ser instrumentalizada para tornar o texto uma argumentação 
metapsicológica. A instrumentalização diz respeito à sistematização dos 
elementos que o pesquisador transfere de forma inconsciente juntamente com 
as teorias em estudo. 
O estudo de casos clínicos em Psicanálise permite comunicar a 
singularidade das vivências clínicas por meio das peculiaridades de uma análise, 
contribuindo para a construção teórica e técnica da Psicanálise. O estudo de 
caso é uma abordagem ideal para a pesquisa clínica, que traz a noção de que a 
prática sempre desafia a teoria e convoca a uma constante reavaliação. 
 
 
 
17 
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STAKE, R. The art of case study research. Thousand Oaks: Sage, 1995. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM 
PSICANÁLISE 
AULA 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Gabriela Eyng Possolli 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
O estudo de caso é essencial para a fundamentação e construção da 
Psicanálise como campo científico, do ponto de vista terapêutico e conceitual. A 
produção científica psicanalítica não possui rigidez para fornecer parâmetros 
para a construção ou redação de estudos de caso. Freud detalhou muitos 
estudos de caso para apresentar a teoria psicanalítica, porém nunca orientou ou 
trouxe normas para fazê-lo. 
O fato de não haver um método psicanalítico específico para o estudo de 
casos clínicos pode até produzir críticas, porém esse nunca foi o objetivo de 
Freud, nem mesmo de Lacan. Sendo o método de construção do conhecimento 
na Psicanálise extremamente prático, as obras por eles publicadas são o maior 
indicativo de como conduzir a análise de casos clínicos. Dessa forma, tendo 
como base as orientações sobre estudos de caso na área de metodologia da 
pesquisa e usando exemplos da Psicanálise, objetiva-se detalhar orientações e 
linhas de condução expostas na literatura científica sobre o estudo de caso, seja 
como método ou como objeto de estudo. 
Para iniciar, pontua-se a relevância dos estudos de caso para o avanço 
das pesquisas na Psicanálise, com base em Lustoza, Oliveira e Mello (2019), 
que analisaram a produção científica em Psicanálise no Brasil entre 2013 e 2018. 
Identificaram 229 artigos publicados em cinco revistas registradas na base de 
dados da plataforma Scielo. Conforme esse estudo de revisão, essas 229 
pesquisas são diversas, indo desde casos clínicos detalhados com articulações 
na teoria psicanalítica, até outros saberes que têm aPsicanálise como base e 
citam casos clínicos. São dados que demonstram a relevância crescente do 
estudo de casos na Psicanálise, um assunto emergente em pesquisa, que você 
irá aprender a partir de agora. 
TEMA 1 – O MÉTODO DE ESTUDO DE CASOS APLICADO À PSICANÁLISE 
O estudo de caso é um delineamento de pesquisa que estima o caráter 
único de um fenômeno ou conjunto de fenômenos, em articulação com um 
determinado contexto (na Psicanálise, com ligação com a clínica psicanalítica) e 
que se inscreve em um suporte conceitual (especificamente, a teoria 
psicanalítica). O método de estudo de caso possibilita obter informações com 
 
 
3 
maior profundidade, formular hipóteses e desenvolver teorias com suporte de 
dados empíricos. 
Estudos de caso são amplamente utilizados para pesquisa clínica na área 
da saúde, incluindo a saúde mental (psicologia e Psicanálise). Não existe 
consenso entre os especialistas em relação ao início de sua utilização como 
estratégia de pesquisa científica. Ventura (2007) realizou uma investigação e 
oferece três direções sobre a consolidação do uso dos estudos de caso: 
1. psicologia e medicina como precursoras na área de pesquisa; 
2. estudos antropológicos de Malinowski e da Escola de Chicago 
aprofundaram a utilização; 
3. área jurídica, especialmente com Langdell, aprofundou o uso dos casos. 
Independente do campo que originou as pesquisas com estudos de 
casos, certamente as áreas da saúde, antropologia e direito foram 
importantes para a validação científica do estudo de caso como 
metodologia de pesquisa científica. 
Como campo científico, Yin (2005, p. 32) pontua que o estudo de caso é 
uma metodologia de pesquisa que “vincula a exploração empírica e as teorias, 
investigando um fenômeno contemporâneo dentro do contexto de vida real, 
especialmente quando os limites entre o fenômeno e o cenário precisam de 
aprofundamento”. 
Yin (2005) classifica o estudo de caso de acordo com sua aplicação no 
que se refere ao tipo: descritivo, explanatório e exploratório; com relação à 
finalidade: especificidade, pluralidade, contemporaneidade e análise intensiva. 
Os tipos já foram vistos no capítulo 1, e com relação aos atributos, é importante 
esclarecer a definição de cada classificação: 
Quadro 1 – Classificação quanto à finalidade do estudo de caso 
Finalidade Definição Exemplo na Psicanálise 
Estudo de Caso 
por Especificidade 
Objetiva estudar um caso 
único em específico, a fim de 
compreender a interação 
particular do sujeito, uma 
história e entorno. 
Estudo de caso clínico focando em 
um indivíduo, na relação 
terapêutica e nos processos 
psicoterapêuticos particulares. 
Estudo de Caso 
por Pluralidade 
Foca no estudo de um 
conjunto de casos individuais 
dentro de um escopo temático 
para realizar comparações e 
conclusões a respeito de 
Vimos no capítulo 4 uma revisão 
narrativa sobre a prevalência de 
depressão infantil (Brandão; 
Oliveira; Silva, 2023). É um tema 
que pode ser abordado também 
 
 
4 
aspectos psicoterapêuticos 
delimitados. 
com o relato de casos clínicos 
para definir, por exemplo, a 
prevalência de sinais e sintomas 
em uma comunidade. 
Estudo de Caso por 
Contemporaneidade 
Estudo de caso que busca 
abordar problemáticas atuais 
relevantes para a 
compreensão da psique 
humana, buscando casos de 
especificidade e/ou 
pluralidade para condução da 
pesquisa. 
Um estudo de caso que se 
encaixa nessa categoria foi 
realizado por Gomez e Chatelard 
(2020), denominado “A prática 
psicanalítica frente ao sujeito 
contemporâneo”. O contexto de 
onde emergiram os casos foi a 
prática clínica com adultos em 
uma clínica-escola. 
Estudo de Caso por 
Análise Intensiva 
Pesquisa de estudo de caso 
que pode ser de 
especificidade e/ou 
pluralidade com o 
direcionamento de se 
aprofundar em detalhes o 
problema de pesquisa. 
A pesquisa de Herszkowicz e 
Albino (2021), intitulada “A clínica 
da psicose: um estudo de caso”, 
descreveu em detalhes a proposta 
de atendimento e o 
desenvolvimento clínico de um 
paciente psicótico em um período 
de oito anos. 
Fonte: Possolli, 2023. 
A delimitação e trajetória metodológica do estudo de caso devem ser bem 
definidas para que o pesquisador evite utilizar dados da própria instituição em 
que trabalha (risco ético) caso o quantitativo de pacientes seja pequeno. Além 
disso, deve-se ter cuidado para não extrair variáveis imprecisas durante a coleta 
de informações. A pesquisa de estudo de caso deve ser precedida por um 
planejamento rígido, apoiado em um referencial teórico coeso, respeitando as 
características do caso e as ações no processo da pesquisa. 
O pesquisador psicanalítico executará tarefas técnicas conforme a 
natureza do fenômeno e a amplitude do contexto envolvido no caso em estudo. 
Ao longo da pesquisa, podem aparecer variáveis de interesse não previstas. 
Dessa forma, o uso de referenciais variados e evidências científicas dentro da 
temática é uma solução importante para lidar com a análise dos dados coletados. 
No Brasil, o método de estudo de caso vem sendo adotado 
progressivamente nas duas últimas décadas, sobretudo pelas ciências sociais e 
da saúde, incluindo-se a Psicanálise nessa interseção. Roese (1999) aponta que 
a pesquisa de contextos microssociais e realidades individuais, usando métodos 
como história de vida, estudos biográficos, observação e estudo, tem dois fatores 
principais como motivo: 
1. Grupos de pesquisadores têm reagido contrariamente a estudos 
macrossociológicos, por reduzirem a percepção a respeito de 
 
 
5 
microrrealidades, provocando generalizações nocivas para a diversidade 
e a pluralidade. Nessa categoria, também se enquadram as restrições à 
sociologia quantitativista. 
2. Redução dos recursos humanos e orçamento das pesquisas a partir dos 
anos 1990, inviabilizando projetos grandes que têm alto custo e 
cronogramas extensos, muitas vezes não se encaixando nos ciclos letivos 
das instituições. 
TEMA 2 – CASOS CLÍNICOS NA PSICANÁLISE E O RELATO CLÍNICO 
Stake (1995) destaca que o estudo de caso clínico, como metodologia na 
pesquisa em Psicanálise, resulta do testemunho de uma vivência clínica. Para 
conduzir um estudo de caso, o pesquisador deve considerar o tipo mais 
adequado para sua investigação. 
Sabe-se que uma das “exigências para o estabelecimento de qualquer 
ciência diz respeito à comunicabilidade, tanto dos meios de investigação quanto 
dos resultados alcançados” (Barone, 2006, p. 224). Nesse ponto, destaca-se o 
dever científico do psicanalista como pesquisador de relatar e analisar seus 
casos, contribuindo na construção da Psicanálise como ciência, método de 
pesquisa e terapia. Isso amplia o sentido ao se compreender o relato clínico 
como uma permanente edificação teórica em Psicanálise. 
O método psicanalítico de produção científica foi continuamente 
questionado porque não se adequa ao modelo tradicional de ciência, travando 
um debate especialmente com os defensores da Medicina Baseada em 
Evidências. Aprofundar o método clínico psicanalítico, que valoriza a 
transferência, o inconsciente e as singularidades do caso, se justifica pelos 
aportes, sobretudo para a condução de casos clínicos graves (Val; Lima, 2014). 
O uso de estudos de caso como ferramenta de pesquisa auxilia na 
transmissão da teoria psicanalítica. Nesse sentido, torna-se importante deixar 
clara a importância do conceito de transmissão para a Psicanálise nesse 
contexto. A transmissão se opõe ao simples saber, uma vez que foca na 
experiência clínica entre o psicanalista e o analisando, mediados pela 
linguagem. Por isso, considerar a teoria psicanalítica por meio de casos clínicos 
é um suporte para desenvolver a transmissão na Psicanálise de forma aplicada. 
Comunicar fatos clínicos em Psicanálise é oportuno para fazer com que a 
experiência do analista seja transparente para concretizar a vinculação 
 
 
6 
intersubjetiva no setting psicanalítico.A transmissão da experiência clínica por 
meio de estudos de caso faz com que as concepções básicas da Psicanálise 
estejam em evidência em cada fase da pesquisa. O estudo de casos 
psicanalíticos permite, mediante a análise discursiva, o registro escrito e a 
transmissão da experiência e perfil de pesquisador do psicanalista (Leitão, 
2018). 
Na clínica psicanalítica, a regra basal da associação livre resulta do 
palavrear, da linguagem e do discurso como ato de liberdade. O analisando 
verbaliza o que vem à mente, e é por meio desse discurso livre que acessa 
elementos inconscientes; assim, o caso clínico vai se construindo, a linguagem 
gestual vai se associando ao falado, e o analista consolida o caso. Expressar-se 
por meio de linguagem (verbal, gestual) diante do analista, que, devido à 
transferência, possui um fio condutor no processo psicoterapêutico, participa, 
nessa troca intersubjetiva, do próprio caso em construção por meio desse 
contexto discursivo (Lacan, 2008). 
Assim, importa destacar que, no caso clínico, para que ele se desenvolva 
como um método de estudo de caso, a fala é sempre endereçada ao Outro, por 
meio da transferência. Por isso, não pode ser considerada uma fala qualquer; 
trata-se de uma fala significante, articulada, cortada e elaborada na relação 
terapêutica. Do mesmo modo, a escrita ao relatar um caso psicanalítico. No 
estudo de caso, a escrita realizada pelo psicanalista-pesquisador passa por um 
processo significante que está em constante reconstrução, pois o caso clínico 
está sendo elaborado a cada sessão de maneira orgânica. Por isso, ao coletar 
os dados anotados nas sessões e elaborar em forma de texto, o analista escreve, 
corrige, relê, produzindo significações enquanto registra e organiza os casos. 
O analista pode ainda tomar como base casos registrados por seus pares 
ou bancos de dados, desde que esses casos estejam suficientemente 
detalhados para os propósitos da pesquisa. Sendo necessário em algumas 
situações a possibilidade de tirar dúvidas com o analista que registrou os casos, 
sempre seguindo os preceitos éticos para pesquisa com seres humanos 
(autorização de uso de dados, preservação do anonimato e minimização de 
riscos de vazamento de dados e viés de pesquisa). 
Cabe destacar que há uma aproximação, mas também uma diferenciação 
entre o relato clínico e o estudo de caso. Estamos tratando do estudo de caso 
como metodologia e especificaremos agora o relato clínico, que é entendido 
 
 
7 
como parte essencial do estudo de caso. O termo relato diz respeito a uma 
narrativa, ao testemunho de uma experiência clínica. A esse respeito, Figueiredo 
(2004, p. 79) afirma que o relato clínico precisa ter riqueza de detalhes, descrição 
de cenas e conteúdo discursivo, já que o caso é “produto do que se extrai das 
intervenções do analista na condução do tratamento e do que é decantado de 
seu relato. Atentando para o fato de que o caso será morto se for reduzido a uma 
fórmula”. 
No relato clínico residem os apontamentos que serão utilizados como 
dados de pesquisa no estudo de caso, examinados e articulados à teoria 
psicanalítica. Dessa forma, as informações serão sintetizadas ou refinadas 
conforme necessário para o que se deseja demonstrar nos objetivos e problema 
de pesquisa. É importante pontuar como princípio ético que o excesso de 
informações fragiliza o sigilo quanto às pessoas mencionadas no relato, mesmo 
com a supressão dos nomes. 
O psicanalista-pesquisador é o guardião do chamado espaço de 
intimidade no processo analítico, que exige confiança. “Um desafio constante 
para o psicanalista na construção de sua ciência, diz respeito à necessidade de 
comunicar suas descobertas, ao mesmo tempo que preserva o sigilo no espaço 
de intimidade que a clínica lhe exige” (Barone, 2006, p. 224). 
TEMA 3 – CONSTRUÇÃO DO CASO VERSUS ESTUDO DE CASO 
Apesar de ser possível escrever relatos clínicos após um considerável 
tempo de relação terapêutica, Freud (1985) pontua como recomendação que o 
psicanalista escreva apenas após o término do tratamento. Essa orientação é 
importante para o distanciamento do pesquisador, a fim de que o “interesse 
científico não atrapalhe a relação transferencial” (Leitão, 2018, p. 419). Outra 
consideração está em ter o cenário completo, pois a aproximação do analista do 
caso clínico se dá progressivamente, e durante o tratamento alguns elementos 
ainda estarão obscuros. 
As percepções de cunho científico quanto ao que ocorre com o analisando 
durante a psicoterapia são delicadas. Devido ao interesse em buscar dados no 
caso, isso pode invariavelmente atrapalhar a escuta do psicanalista, 
contaminando o processo terapêutico e também a própria pesquisa, já que o 
discurso científico precisa refletir sobre a verdade dos fatos. Ou seja, cuidado 
para que não haja manipulação de dados! Deve-se exaltar a postura de escuta 
 
 
8 
atenta do analisando, por meio da atenção flutuante, abrindo espaço para o 
significante. Lembre-se de que se denomina relato de caso, e o termo caso diz 
respeito a uma ação já ocorrida. Segundo o próprio Dicionário Michaelis, significa 
“manifestação individual de uma doença ou ocorrência clínica”, ou ainda “fato em 
torno de um acontecimento passado importante” (Michaelis, 2023). 
Considerando que as construções do estudo e do relato de caso devem 
ocorrer posteriormente, entende-se que são ferramentas de elaboração teórica 
e técnica sobre o setting analítico. Permitindo a escuta da escuta, ou seja, a 
percepção daquilo que o outro escutou com relação ao relato do caso clínico. 
Por isso, a pesquisa entre pares é tão importante. 
No processo terapêutico, o psicanalista compõe uma visão abrangente do 
tratamento, formulando hipóteses que conduzirão a intervenção clínica. Dessa 
forma, é fundamental distinguir a construção do caso do estudo de caso. A 
construção do caso se refere ao tratamento psicanalítico em si, que permite ao 
analista “localizar o seu lugar na transferência para lançar suas interpretações” 
(Val; Lima, 2014, p. 109). Já o estudo de caso aborda a condição de pesquisador 
em Psicanálise, em que o psicanalista constrói um caso retrospectivamente, de 
forma articulada com o desenho da pesquisa, seguindo os preceitos científicos. 
A Psicanálise, no ambiente clínico ou investigativo, “não opera com a 
lógica causal, nem com a dedução ou com a indução” (Guerra, 2010, p. 141). 
Guerra explica que a Psicanálise se posiciona como uma ciência que busca 
compreender menos e escutar mais. Isso não significa que o pesquisador em 
Psicanálise se isentará de formular hipóteses, mas que terá uma direção, assim 
como toda a análise também tem. Não é possível conhecer de antemão os 
detalhes do caminho, dadas as particularidades de cada caso. Sendo que esse 
caminho é pavimentado pela associação livre e pela transferência, tanto na 
clínica quanto na construção dos casos. 
A prática de expor e discutir casos é um meio eficaz para avaliar a 
qualidade de uma comunidade de analistas e melhorar serviços de saúde 
mental. Analisando os fundamentos da Reforma Psiquiátrica Italiana, Viganò 
(2010) explica que a edificação de casos em instituições de saúde mental precisa 
ser democrática, uma vez que cada um dos atores do caso (familiares, 
instituições, analistas, pacientes, supervisores etc.) participa com sua 
contribuição, que na verdade trata-se de: 
 
 
9 
juntar as narrativas dos protagonistas dessa rede social e de encontrar 
o seu ponto cego, encontrar aquilo que eles não viram, cegos pelo seu 
saber e pelo medo da ignorância. Este ponto comum, a falta de saber, 
é o lugar do sujeito e da doença que o acometeu. (Viganò, 2010, p. 2) 
Sintetizando, a diferença fundamental entre a construção do caso e o 
estudo de caso está em que no primeiro não é feita interpretação, pois a 
finalidade é construção e esclarecimento de elementos em um esforço conjunto. 
Em contrapartida,o estudo de caso ocorre por meio de um aparato de 
interpretações. A interpretação, como dispositivo da prática clínica, é uma 
construção, que na clínica se mostra inacabada, já que seu objetivo é alçar novas 
associações, para que um significante remeta a outro, operando assim a rede 
entre consciente e inconsciente. Mesmo que o estudo de caso deseje produzir 
sentidos sobre a narrativa do setting analítico, da mesma forma que a construção 
do caso, não se concluem todas as questões, pois surgem novas. Porém, o mais 
importante para ambos é permitir a partilha da experiência, visto que essa é 
colocada à prova. 
Concluindo, o principal ponto que se estabelece na construção e no 
estudo de casos, uma vez compreendido que não há um saber que explique por 
completo o que está em causa no processo de adoecimento, tanto a construção 
como o estudo permitem chegar a um melhor entendimento sobre as questões 
que necessitam constantemente de investigação, apreensão e compreensão: o 
primeiro para guiar o trabalho clínico, e o outro para elaborar e produzir algum 
sentido sobre este trabalho. Deste modo, o material criado nos procedimentos 
do estudo do caso torna-se uma ferramenta de organização da experiência 
clínica. Um material muito valioso, que, conforme pontuam Conti e Sperb (2010, 
p. 307), servirá para que o psicanalista-pesquisador recorra a qualquer momento 
“para interrogar, avaliar e até mesmo ressignificar a sua ação, refletindo sobre a 
singularidade de cada caso”. 
TEMA 4 – ESTUDO DE CASOS MÚLTIPLOS 
Uma dúvida frequente é sobre analisar mais de um caso em um mesmo 
trabalho de pesquisa. Como vimos na classificação de Yin (2005), existe um tipo 
de estudo de caso que se destina a trabalhar com múltiplos casos, o que deve 
estar fundamentado no método de investigação, nos instrumentos e na 
abordagem para análise de dados. Cabe pontuar que em um estudo de casos 
múltiplos não há um quantitativo fechado de casos que podem ser analisados. 
 
 
10 
Ao investigar múltiplos casos, ou um caso único, é necessária uma linha de 
análise e uma literatura para fundamentação. Os procedimentos metodológicos 
devem possibilitar comparar os casos em série, destacando as especificidades 
e as macroanálises. 
Uma das vantagens de realizar estudo de casos múltiplos é a 
possibilidade de demonstrar a prevalência de sinais e elementos relatados no 
arcabouço de pressupostos da Psicanálise. Para orientar o olhar do pesquisador 
na análise, deve-se acessar o que a literatura da área tem desenvolvido sobre o 
tema em pauta. Quanto mais sólida for a fundamentação teórica do estudo, maior 
será a qualidade da argumentação na análise dos casos, recuperando e 
validando os aspectos destacados na literatura à luz dos casos relatados na 
pesquisa. Convergências e divergências entre os resultados dos casos são bem-
vindas e podem ser aproximadas ou contrastadas na discussão da pesquisa. 
A seleção e análise de mais de um caso clínico não visa à replicação, mas 
possibilitar a comparação. Verztman (2013) destaca que analisar casos em um 
conjunto argumentativo para atingir um objetivo comum levanta grandes 
questões e controvérsias para a pesquisa psicanalítica. A singularidade dos 
sujeitos e as variações contextuais são cruciais, e em alguns casos podem 
apontar para o incomparável. “Comparar abstrações, modelos e práticas que 
servem para dar parâmetros à clínica não é o mesmo que comparar sujeitos” 
(Verztman, 2013, p. 75). 
Ao propor uma pesquisa com múltiplos casos, deve-se levar em 
consideração que os elementos discursivos da psicoterapia evocarão cenários 
variados de análise. 
Para tornar essas considerações mais claras, apresentemos um exemplo 
de estudo de casos sobre casos de depressão. Suponha que, como analista, 
você teve acesso ao histórico de cerca de dez ou doze casos de depressão que 
podem participar da pesquisa que irá conduzir, mediante autorização da clínica 
que compartilhará os dados. Esses pacientes foram atendidos por profissionais 
diferentes com perfis diversos, assim como os pacientes têm características e 
histórias de vida distintas. No entanto, também pode haver pacientes 
diagnosticados com depressão advindos de cenários com elementos 
semelhantes. Para testar suas hipóteses, deve-se apreciar os elementos 
individuais, intersubjetivos e as técnicas aplicadas à terapia. Alguns pacientes 
podem ser submetidos à terapia psicanalítica associada à medicamentosa, 
 
 
11 
enquanto outros podem iniciar com terapia cognitivo-comportamental e migrar 
para Psicanálise usando apenas fitoterápicos. Como formatos distintos estão em 
jogo, é possível interpretar as reações e resultados dos tratamentos em um 
estudo de múltiplos casos, com várias opções de tratamento para uma mesma 
condição clínica inicial: a depressão. 
TEMA 5 – ORGANIZAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS EM ESTUDO DE CASO 
Ao organizar uma pesquisa de estudo de caso, independentemente do 
tipo, existem procedimentos e momentos que devem ser respeitados para que a 
investigação e análise dos casos tenham o rigor científico adequado para a 
produção de conhecimento na Psicanálise. Registrar a clínica psicanalítica 
remete à escrita dos achados de casos concluídos, como vimos na orientação 
de Freud, com base em anotações e em um roteiro de coleta de informações. 
Para elaborar um roteiro, que será seu instrumento de pesquisa, tenha 
em mente que é necessário coletar dados de forma padronizada nos casos 
clínicos que se pretende analisar, registrando informações que não rompam o 
anonimato. Conforme os propósitos e problemas enunciados para a pesquisa, 
itens específicos farão parte desse roteiro. 
Para tornar mais claro o processo de composição do texto científico 
quando abordamos a metodologia de estudo de caso na Psicanálise, a seguir 
detalham-se os três momentos da escrita da clínica em Psicanálise, com base 
na publicação de Guimarães e Bento (2008). 
• Momento 1: escrita da história clínica e do processo analítico 
Moura e Nikos (2001) pontuam que a prática clínica analítica começa com 
o registro da anamnese, necessária para compor a história clínica ou da doença. 
A escrita do caso clínico terá correspondência com a trajetória do processo 
clínico, de modo que iniciará com o relato da história da doença/queixa, 
vinculando-a aos fatos da história de vida do paciente. É o que se verifica nos 
casos que Freud expôs. No relato das cinco Psicanálises clássicas, Freud (1992) 
demonstrou uma sequência para exposição, levantamento de dados e, ao final, 
a análise dos casos: 
1. No caso Dora, a doença da paciente é trazida com detalhes e abordagens 
em um item que ele denominou de O Quadro Clínico. 
 
 
12 
2. Já no caso do pequeno Hans, descreveu a doença do paciente e o 
processo analítico em um item denominado O Caso Clínico e Análise. 
3. No famoso caso do “homem dos ratos”, mais uma vez Freud valorizou a 
descrição da doença para depois detalhar o caso e a análise realizada, 
bem como os caminhos para o tratamento. 
4. Até mesmo na análise de Schreber, que não foi um caso clínico 
propriamente dito, mas uma autobiografia, depois da introdução, Freud 
intitulou o primeiro item da obra como História Clínica. 
5. No quinto e último caso, o homem dos lobos, Freud discorreu a respeito 
da doença do paciente em suas Observações introdutórias logo no 
primeiro item, para no segundo item descrever a “Avaliação Geral do 
Ambiente do Paciente e Histórico do Caso”. 
Em todos esses casos, é perceptível a preocupação de Freud em começar 
a exposição enfatizando a evolução da sintomatologia do paciente, desde seu 
aparecimento, situações anteriores desencadeantes, chegando às 
manifestações atuais, para só depois realizar uma análise do caso. 
Portanto, podemos dizer que nesse primeiro momento a escrita da clínica 
visa apresentar de forma clara a queixa do paciente, as manifestações psíquicas 
e de doença (conscientes ounão), buscando uma descrição neutra. Para 
embasar esse momento 1, a transcrição literal de falas do paciente é 
recomendável. É relevante ainda, não esquecer de delinear uma linha do tempo 
da evolução da doença do paciente, estabelecendo as relações com os 
principais fatos e sintomas manifestados. 
• Momento 2: descrição da transferência e dos detalhes do tratamento 
clínico 
Está em destaque nesse momento a transferência, como já vimos no 
capítulo 5, como um pressuposto imprescindível para a pesquisa em Psicanálise. 
A transferência do paciente para o analista é fundamental para que a cura pela 
palavra ocorra, correspondendo ao segundo momento da clínica analítica. 
Na clínica, o processo psicoterapêutico evolui de um primeiro período, em 
que o paciente relata sua queixa e faz um retrospecto de vida inicial, para um 
segundo período em que o objeto focal de sua queixa não será mais o sofrimento 
pela doença, e passará sua pulsão para a relação transferencial com o analista. 
Nesse sentido, pode-se dizer que “a transferência será herdeira da doença, 
 
 
13 
possuindo uma equivalência funcional com a doença, que Freud denomina como 
transferência como sintoma na obra Estudos sobre a histeria” (Guimarães; 
Bento, 2008, p. 96). 
É natural e desejável, na clínica analítica, uma passagem da queixa pelo 
sofrimento vivido pelo paciente, para o sofrimento provocado pela transferência 
entre analista e analisante. A escrita dos fatos e contexto clínico terá 
correspondência com a evolução do tratamento da clínica propriamente dita. 
Para isso, como já referido, deve-se estudar, como pesquisa científica, casos 
concluídos, seguindo a recomendação de Freud (1985), para que o processo 
analítico não se contamine com os interesses e hipóteses que se espera ver na 
pesquisa. 
Nesse segundo momento, objetiva-se compor a história do tratamento, 
ressaltando principalmente a descrição dos cenários transferenciais e 
contratransferenciais que aparecem na clínica analítica e também da supervisão 
do caso. A descrição dos afetos e das relações no contexto da relação analista-
analisando é fundamental. Portanto, também cabem aqui citações literais dos 
discursos, pontuando em seguida a intervenção ou entendimento do analista. 
• Momento 3: metapsicologia por meio da interpretação da história da 
doença e da transferência por meio da teorização psicanalítica 
A finalidade do terceiro momento é analisar a interpretação da história da 
doença e da evolução da clínica por meio da transferência, embasando em uma 
construção teórica em Psicanálise, a metapsicologia. Momento correspondente 
à discussão clínica dos momentos 1 e 2 por meio dos pressupostos 
psicanalíticos. Para atingir o objetivo dessa etapa, Moura e Nikos (2001) 
destacam que cabe ao terapeuta selecionar uma situação-problema do 
tratamento, que originará o problema de pesquisa. Partindo dessa questão 
central que emerge da clínica do caso, o analista-pesquisador delimitará o objeto 
da investigação, em que são escolhidos tópicos, fenômenos e abordagens para 
a pesquisa. 
O analista-pesquisador se embasa em teorias estabelecidas para 
confirmá-las ou refutá-las conforme os achados no campo da clínica. Podem ser 
refutadas por inadequação em dar conta daquela clínica específica que inspirou 
o estudo de caso, servindo assim para reformular a teoria e reconstruir bases de 
análise. É devido ao sujeito em análise que as teorias se constroem e são 
reformuladas. A clínica, embora singular, sempre desafiará a teoria já construída, 
 
 
14 
e se assim não for, os nós das resistências precisam ser identificados. Se é pela 
clínica que a teoria psicanalítica é concebida, também pode ser por ela 
reformulada, para que dê conta da fala única daquele sujeito em análise. 
Tendo a transferência como mecanismo fundamental para o método de 
pesquisa de Estudo de Caso na Psicanálise, opõe-se ao paradigma positivista 
de ciência, que valoriza o distanciamento entre sujeito e objeto, o que não é 
possível ou desejável na relação analisante-analista. A presença de um 
supervisor contribui para a construção objetiva de um caso. Safra destaca que é 
cada vez mais frequente que pesquisadores em Psicanálise recorram ao 
acompanhamento do trabalho de pesquisa por um supervisor com experiência 
no método para assim “garantir maior objetividade e auxiliar na descrição de 
suas reações contratransferenciais, submetê-las à análise, complementando a 
função analítica do pesquisador, trazendo confiabilidade ao processo de 
pesquisa” (Safra, 1993, p. 131). 
NA PRÁTICA 
A partir das leituras e análises dos temas apresentados sobre estudo de 
caso em Psicanálise, estabeleceram-se alguns pontos centrais que guiam a 
prática de construção e escrita de um estudo de caso psicanalítico, que servem 
de síntese e fundamento para colocar esse tipo de pesquisa em prática: 
1. Situar a função do caso clínico apresentado é algo pertinente logo no 
início do estudo, podendo ser: sustentação da discussão; comprovação 
da possibilidade de articulação teoria-prática; esclarecer ao leitor, 
didaticamente, o desenvolvimento de conceitos no bojo da teoria 
psicanalítica. 
2. O relato clínico e o caso em si precisam ser claros, fornecendo dados 
sobre a queixa, a doença, as falas do analisando, sua história de vida e o 
processo de transferência. 
3. Ter cautela ao descrever antecedentes clínicos do paciente, evitando 
afirmações tendenciosas, julgadoras ou que possam romper o anonimato. 
4. Apontar limitações ou variáveis relevantes para o entendimento da 
evolução clínica, como o tempo do tratamento, intercorrências, conflitos, 
equipe multiprofissional de saúde etc. 
 
 
15 
5. O campo psicanalítico possui linhas que defendem posições divergentes, 
portanto é preciso cautela no uso de autores variados, sobretudo os 
clássicos. Não é possível sustentar uma análise de casos tendo como 
base Lacan, seguido de Winnicott, e depois Melanie Klein, por exemplo. 
6. Especificamente sobre o sigilo de dados, mesmo utilizando-se nomes 
fictícios, publicar casos clínicos é delicado, como advertiu Freud no caso 
Dora. É importante seguir as recomendações da Resolução n. 510/2016 
do Conselho Nacional de Saúde. 
7. Nem todos os estudos de casos resultarão em uma pesquisa científica. 
Relatar práticas clínicas só faz sentido ao estabelecer questões com 
potencial científico, definindo as contribuições dos estudos de caso no 
campo epistemológico, teórico e prático para a Psicanálise e para outros 
campos. 
A seguir, uma síntese conceitual em forma de esquema para reformular 
os principais elementos que contribuem para a compreensão do método de 
estudo de caso aplicado à Psicanálise: 
Figura 1 – Esquema síntese sobre estudo de caso em Psicanálise 
 
Fonte: Possolli, 2023. 
 
 
 
16 
FINALIZANDO 
Conclui-se que o estudo de caso em Psicanálise, como metodologia de 
pesquisa científica, é a escrita da clínica analítica, incluindo a descrição da 
história do paciente, de seus dados clínicos, da doença, da transferência na 
relação clínica e da teorização que interpreta as fases do tratamento. O objeto 
da teorização psicanalítica que analisa o caso está na memória inconsciente. 
Para estudar um caso em Psicanálise, são realizados três momentos como 
procedimentos metodológicos: 
1. escrita da história clínica e do processo analítico; 
2. descrição da transferência e dos detalhes do tratamento clínico; 
3. metapsicologia por meio da interpretação da história da doença e da 
transferência por meio da teorização psicanalítica. 
Para empreender esse tipo de produção científica, o analista-pesquisador 
recorrerá às teorias construídas na área, visando confirmá-las ou refutá-las, de 
acordo com os achados no campo da clínica (estudos de caso selecionados). A 
clínica, sendo única em seus casos, desafia constantemente a teoria 
estabelecida, e a Psicanálise, mesmo com seus fundamentosconceituais, é uma 
ciência aberta. E é pela clínica que a Psicanálise se constrói e se reconstrói, 
como fizeram Freud, Lacan e tantos outros em suas obras com vastos relatos 
clínicos. Dessa forma, estudos de caso não podem ser vinhetas clínicas, como 
meras ilustrações clínicas de uma teoria pronta e acabada, mas sim uma 
possibilidade de acessar a clínica do caso como fonte para construção teórica, 
por meio da sua aceitação ou refutação. 
A participação do analista em uma pesquisa de estudo de caso torna-se 
importante ao entendermos que o psiquismo do pesquisador precisa ser 
considerado como elemento de análise na construção do caso. Quando o objeto 
de investigação faz parte da vida do pesquisador, isso contribui para elucidar 
algum ocultamento. Quando o psicanalista se depara com algo, reage a isso, 
acessa concepções pré-concebidas, uma contratransferência. Se a 
contratransferência ficar oculta, o analista falhará na análise de dados 
inconscientes do analisando, por isso a supervisão é fundamental para que o 
processo psicanalítico flua adequadamente. 
 
 
 
17 
REFERÊNCIAS 
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Psicanálise, v. 39, n. 71, p. 223-230, 2006. 
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YIN, R. K. Estudo de caso: planejamento e métodos. Porto Alegre: Bookman, 2005. 
	CONVERSA INICIAL
	TEMA 1 – PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE
	TEMA 2 – PESQUISA PURA OU APLICADA
	2.1 Pesquisa pura (ou básica)
	2.2 Pesquisa aplicada
	TEMA 3 – PESQUISA EXPLORATÓRIA, DESCRITIVA OU EXPLICATIVA
	TEMA 4 – ABORDAGEM DE PESQUISA: QUANTITATIVA, QUALITATIVA OU MISTA
	TEMA 5 – TIPOS DE MÉTODO DE PESQUISA NA PSICANÁLISE
	NA PRÁTICA
	FINALIZANDO
	REFERÊNCIAS
	CONVERSA INICIAL
	TEMA 1 – O MÉTODO DE ESTUDO DE CASOS APLICADO À PSICANÁLISE
	TEMA 2 – CASOS CLÍNICOS NA PSICANÁLISE E O RELATO CLÍNICO
	TEMA 3 – CONSTRUÇÃO DO CASO VERSUS ESTUDO DE CASO
	TEMA 4 – ESTUDO DE CASOS MÚLTIPLOS
	TEMA 5 – ORGANIZAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS EM ESTUDO DE CASO
	NA PRÁTICA
	FINALIZANDO
	REFERÊNCIASe explorar suas nuances 
e relações micro e macrodeterminantes. 
Como temática possível caracterizada como pesquisa explicativa em 
Psicanálise, pode-se realizar um estudo de casos sobre a prevalência de atos 
 
 
9 
falhos na prática clínica, a fim de identificar casos detalhados de ocorrência, com 
análise do discurso dos pacientes, para estabelecer como o mecanismo 
psicanalítico do ato falho ocorre e por que o indivíduo troca significantes em 
processos de linguagem, acessando as causas inconscientes. 
Um exemplo de resumo de uma pesquisa explicativa em Psicanálise 
publicada, com título: Das representações mentais na gestação às frustrações 
pós-parto: um campo para a Psicanálise: 
O presente estudo tem como objetivo apresentar a correlação entre 
Psicanálise e obstetrícia e os fatores psicológicos advindos desta 
relação, bem como a atuação do psicanalista no processo. Sobre o 
método, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de finalidade básica, 
caracterizada por referência bibliográfica de cunho explicativo. A 
pesquisa foi realizada nas bases de dados Bvs e SciELO, com os 
descritores: obstetrícia, gestante, parto e Psicanálise, entre o período 
de junho a novembro. Este trabalho teve como objetivo revisar os 
processos psicológicos através do olhar psicanalítico no período de 
gestação e nascimento de um sujeito, pontuando algumas etapas e 
suas cargas emocionais e psíquicas que tendem a ser geradas na 
gestante e em seu contexto familiar. Portanto, as releituras permitiram 
compreender que os pensamentos e a verbalização dessas fantasias 
necessitam de um apoio profissional para ajudar essa mãe a elaborar 
suas representações e com consequência melhorar a relação com o 
bebê que irá nascer. (Ferreira; Elias; Corrêa, 2018) 
É relevante pontuar três atributos importantes que caracterizam uma 
pesquisa explicativa. São eles: 
a) Compreensão crescente: ampliar a compreensão do pesquisador sobre 
um determinado tema. Não indica resultados conclusivos devido ao fraco 
poder estatístico das análises, mas tem como ponto forte fazer com que 
o pesquisador entenda como e por que os fenômenos acontecem. 
b) Flexibilidade das fontes: as fontes secundárias, como literatura ou dados 
publicados em relatórios, são comuns em pesquisas explicativas. Porém, 
é preciso ter cuidado na escolha de fontes imparciais, a fim de se ter uma 
compreensão ampla e equilibrada da temática. 
c) Melhores conclusões: as produções científicas do tipo explicativa podem 
ser vantajosas para direcionar abordagens de pesquisas aprofundadas e 
embasar uma compreensão fundamentada. 
A compreensão densa da temática possibilita ao pesquisador refinar sua 
visão e chegar a questões subsequentes para a continuidade do estudo. 
 
 
 
10 
TEMA 4 – ABORDAGEM DE PESQUISA: QUANTITATIVA, QUALITATIVA OU 
MISTA 
A classificação quanto aos objetivos (exploratória, descritiva e explicativa) 
está presente em muitos autores, assim como a natureza da pesquisa em Pura 
e Aplicada. No entanto, para seguir uma linha de raciocínio embasada em Gil 
(1989), detalharemos ainda as abordagens de pesquisa como Quantitativa, 
Qualitativa e Mista (quanti/quali). A seguir, um esquema representando esses 
tipos de pesquisa subdivididos nessas três categorias (Figura 1). 
Figura 1 – Classificação de pesquisa quanto à natureza, objetivos e abordagem 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quando falamos em abordagem, destacando o tipo de dados coletados, 
os instrumentos e técnicas de pesquisa, a abordagem pode ser quantitativa, 
qualitativa ou mista (quanti-qualitativa). 
A pesquisa quantitativa trabalha com dados estatísticos e instrumentos de 
pesquisa fechados com respostas objetivas ou com categorias prévias, partindo 
de realidades em que se pode mensurar ou quantificar um certo fenômeno, fato 
ou contexto pesquisado. Além disso, a utilização de “modelos matemáticos e 
estatísticos para análise dos resultados experimentais, sejam eles obtidos por 
Pura 
Tipos de Pesquisa 
quanto à/aos 
Abordagem 
Quantitativa 
Qualitativa 
Quanti/Quali 
Natureza 
Aplicada 
Objetivos 
Exploratória 
Descritiva 
Explicativa 
 
 
11 
meio de um ensaio de laboratório, de um questionário ou entrevista que envolva 
variáveis quantificáveis” (Casarin, 2012, p. 36) é uma característica importante 
dessa abordagem. 
A pesquisa qualitativa nas Ciências Humanas destina-se a compreender 
um contexto que, quando envolve pessoas, seus comportamentos e relações, 
traz uma complexidade maior para compreender “significados, motivações, 
aspirações, crenças, valores, emoções e atitudes. Esse conjunto de fenômenos 
humanos é entendido como parte da realidade social, pois o ser humano se 
distingue não só por agir, mas por pensar sobre o que faz e por interpretar suas 
ações na e da realidade pessoal e social” (Minayo, 2009, p. 23). Uma pesquisa 
qualitativa é mais difícil de ser expressa em números ou variáveis quantitativas, 
uma vez que atua no âmbito das representações humanas, sua intencionalidade 
e até suas reações inconscientes. 
Devido à profundidade histórica e social do objeto de estudo nas 
humanidades, pode haver uma multiplicidade de possibilidades de análise e 
visões a respeito de um mesmo cenário ou grupo de indivíduos, devido à 
subjetividade inerente às evidências coletadas e análises dos dados. O tipo de 
instrumentos e técnicas de pesquisa influenciará diretamente as evidências 
produzidas e os fatos interpretados, uma vez que a multiplicidade de 
interpretações é um efeito direto da subjetividade implícita nas pesquisas 
qualitativas com seres humanos. 
Os instrumentos de pesquisa qualitativa exigem um processo de 
elaboração de roteiros ou das questões a serem abordadas, sendo que os mais 
comuns na fase de coleta de dados são: 
• observação; 
• entrevista; 
• questionário; 
• roteiro de análise documental; 
• roteiro de grupo focal; 
• roteiro para registro de estudo de caso. 
Com relação à abordagem mista, quando a abordagem qualitativa opera 
também com dados estatísticos, buscando utilizar números para representar um 
determinado contexto social, tem-se uma pesquisa de tipo quanti-qualitativa, 
chamada pesquisa mista. É preciso cautela ao definir esse tipo de abordagem, 
 
 
12 
pois não basta ter dados em instrumentos abertos e fechados, quantificáveis ou 
subjetivos, e assim concluir que se trata de uma pesquisa mista. São os objetivos 
específicos de pesquisa e as técnicas empregadas para coleta de dados nos 
métodos que determinarão a abordagem da pesquisa. 
TEMA 5 – TIPOS DE MÉTODO DE PESQUISA NA PSICANÁLISE 
A escolha do método para produção científica nas humanidades depende 
do problema de pesquisa e dos objetivos do estudo, bem como do contexto a 
ser investigado e dos instrumentos aplicados. De modo geral, os pesquisadores 
utilizam uma condução interdisciplinar e crítica, que considera a diversidade 
cultural e a complexidade das interações intrapessoais e intersubjetivas. As 
Ciências Humanas utilizam diversas metodologias de pesquisa, sendo alguns 
dos principais métodos os seguintes: 
a) Pesquisa participante: envolve a colaboração ativa de indivíduos ou 
grupos que são o objeto de estudo. Pode ter abordagem qualitativa, 
quantitativa ou mista, e busca trazer à luz as perspectivas e experiências 
dos participantes, bem como envolvê-los no processo de pesquisa. 
b) Análise de discurso: consiste na análise crítica de textos verbais ou não 
verbais, que expressam a visão de uma amostragem de participantes, a 
fim de identificar e interpretar os modos como o discurso constrói 
significados e relações intrapessoais e sociointerativas. É um método 
muito utilizado para investigar temáticas relacionadas à linguagem, ao 
poder, à ideologia e aos paradigmas presentes em uma conjuntura 
específica. 
c) Análise cultural: destina-se à análise crítica de produtos culturais, como 
música, artes plásticas, literatura, cinemae mídias (artes gráficas), com o 
objetivo de perceber como eles refletem e moldam uma ética social, os 
valores e as ações em uma sociedade ou cultura. 
d) Estudo de caso: consiste em um estudo aprofundado de um objeto 
específico ou, no máximo, de um conjunto de objetos com alguma 
consistência interna, a fim de possibilitar uma compreensão mais 
detalhada sobre um determinado fenômeno. Esse método tem a limitação 
de não permitir uma maior generalização sobre os fenômenos em estudo, 
uma vez que se concentra em poucos objetos. É necessário aplicar uma 
 
 
13 
abordagem metodológica semelhante a um conjunto maior de casos para 
comparar resultados e estabelecer linhas de análise. 
e) Pesquisa documental: refere-se ao uso de material impresso ou digital, 
como legislações, projetos organizacionais, manuais, relatórios de gestão, 
fotografias, vídeos, entre outros. Na área da Psicanálise, pode incluir 
relatórios clínicos, orientações para formação em Psicanálise, 
documentos de institutos e associações psicanalíticas, atas de fundação 
e declarações de princípios na prática clínica psicanalítica, registros de 
casos clínicos, entre outros documentos. 
f) Pesquisa de revisão de literatura: utiliza como base as teorias já 
publicadas, como livros, artigos científicos, dissertações de mestrado, 
teses de doutorado, e utiliza um método para definir termos de busca, 
período, idiomas e bases de dados para realizar a busca. A pesquisa de 
revisão tem como objetivo levantar o conhecimento disponível na área, 
identificar as teorias e práticas produzidas, analisá-las e avaliar sua 
contribuição para auxiliar na explicação do problema de pesquisa. Esse 
tipo de pesquisa auxilia na ampliação do conhecimento sobre um 
determinado objeto de pesquisa, no domínio e no conhecimento 
aprofundado do assunto, na descrição do estado da arte e nas evidências 
científicas já existentes sobre a temática. Na Psicanálise, é 
particularmente relevante utilizar pesquisas de revisão, pois a 
comunidade de pesquisadores está em constante crescimento e 
fortalecimento, e é importante basear-se no que já foi pesquisado na área. 
Ao criar uma revisão, seja do zero ou baseando-se em uma já existente, 
sempre parte-se de uma evidência científica de outros pesquisadores 
para avançar na ciência da Psicanálise. Essa é uma dica importante! 
Existem diferentes tipos de revisão, que serão conceituados de forma 
sintética no quadro a seguir, e os procedimentos e passos detalhados 
serão abordados em etapas posteriores. 
Quadro 1 – Principais tipos de revisão de literatura 
Revisão Descrição 
Integrativa A revisão integrativa de literatura tem como finalidade sistematizar resultados 
de pesquisas, de forma ordenada e abrangente. É mais usada na área clínica, 
e foca um tema inteiro, evidenciando o que o mundo está escrevendo sobre 
um assunto. 
 
 
14 
Sistemática A revisão sistemática é um método para responder a um problema em 
particular. Possui relevância especialmente ao abordar fontes vindas de 
periódicos, artigos científicos e fontes confiáveis. Busca mostrar as novidades 
e avanços sobre um problema, sendo muito usada na área de saúde. 
Narrativa Na revisão narrativa a base está em alguns trabalhos ou fontes sobre o assunto 
que são reconhecidamente mais importantes em uma comunidade científica. O 
pesquisador apresenta os resultados com base em resumos realizados, sem 
um procedimento rígido. 
Escopo Revisão do escopo é um tipo de revisão que fornece uma avaliação preliminar 
do potencial e extensão de uma delimitação de pesquisa. Auxilia a 
compreender a qualidade do escopo, o que possibilita, inclusive, ajustes no 
caminho da pesquisa. 
NA PRÁTICA 
Para o propósito de aprendizagem deste estudo, é importante 
compreender a aplicação dos tipos de pesquisa e métodos no contexto temático 
da Psicanálise. A seguir, são apresentados alguns quadros que evidenciam essa 
compreensão no âmbito psicanalítico. 
O Quadro 2 aborda a relação entre pesquisas puras e aplicadas com a 
Psicanálise, por meio de exemplos: 
Quadro 2 – Natureza da pesquisa: pura e aplicada na Psicanálise 
Tipo Descrição Psicanálise 
Pesquisa 
pura 
Concentra-se no “conhecimento em si 
mesmo”, impulsionada pela 
curiosidade e necessidade de explorar 
e aprofundar um universo conceitual e 
as bases teórico-aplicativas. 
Investigação sistemática proposta para 
alcançar uma maior compreensão e 
mais detalhada de um tópico ou 
fenômeno de pesquisa, como base 
para resolver problemas específicos, 
mas sem aplicação no mundo real. 
Pesquisa teórica no universo conceitual 
e de pressupostos estruturantes da 
Psicanálise visando expandir a base de 
conhecimento e compreensões da área 
de estudos. Aquilo que não pertence ao 
tratamento psicanalítico, à prática, é a 
teoria psicanalítica. Assim, a pesquisa 
pura está na dimensão daquilo que o 
psicanalista pode construir, por meio de 
uma pesquisa formal, com a 
investigação da psique humana. Como 
fez Freud com a obra Édipo Rei (de 
Sófocles) quando aproveitou a tragédia 
grega para conceituar o Complexo de 
Édipo. Freud aprendeu com a tragédia 
para fazer uma teoria psicanalítica. 
Pesquisa 
aplicada 
Focada em construir soluções práticas 
para um problema específico. Envolve 
indagações e aplicações na realidade 
para solução de um fenômeno, um 
campo de estudo, que emprega 
metodologias empíricas. Pode ser 
ainda uma pesquisa para colocar em 
prática uma pesquisa básica, para 
validar descobertas e aplicá-las para 
A Psicanálise aplicada é o tratamento 
psicanalítico, a dimensão clínica da 
interação entre o psicanalista e o 
paciente. O psicanalista, ao realizar 
seu trabalho clínico, além de coletar 
dados da prática, faz sua análise 
pessoal, realizando assim um processo 
de ação-reflexão-ação transformada, o 
que passa ainda pela supervisão 
 
 
15 
criar soluções inovadoras para 
questões específicas. 
psicanalítica. O psicanalista no 
exercício de seus estudos clínicos age 
como um pesquisador que assimila o 
conhecimento objetivo da sua prática, 
que por meio de um método científico, 
pode registrar casos e aplicações das 
condutas psicanalíticas para produção 
de ciência na área. 
 
O Quadro 3 esquematiza os tipos de pesquisa com relação aos seus 
Objetivos, estabelecendo relações da Psicanálise com as pesquisas 
exploratórias, descritivas e explicativas. 
Quadro 3 – Objetivo da pesquisa: exploratória, descritiva e explicativa 
Tipo Descrição Psicanálise 
Pesquisa 
exploratória 
Pesquisa sobre tema pouco 
explorado ou já conhecido sob 
nova perspectiva, ou quando o 
pesquisador precisa explorar um 
determinado fenômeno para 
aprofundar seu estudo em análises 
subsequentes. Objetiva 
proporcionar familiaridade com o 
problema, para torná-lo mais 
explícito ou a levantar hipóteses 
embasadas. 
É preciso, para entender a obra de 
Freud, e particularmente a obra de 
Lacan, compreender essa novidade 
cultural muito radical, no sentido de que 
nós não temos nenhuma referência 
anterior em relação à Psicanálise: a 
Psicanálise inaugura algo de novo. 
Nesse sentido, a Psicanálise em si como 
uma área científica inédita quando da 
sua construção e difusão apresentou-se 
como uma pesquisa exploratória. 
Pesquisa 
descritiva 
Detalhamento de um objeto de 
estudo, descrevendo atributos de 
um indivíduo ou grupo de acordo 
com os parâmetros de faixa etária, 
sexo, cultura, saúde, escolaridade 
etc. 
A pesquisa descritiva está mais afastada 
dos intentos no método psicanalítico, 
mas pode estar presente em momento 
estanques em que o psicanalista deseja 
compreender as características de uma 
população que desenvolve um 
determinado transtorno ou complexo, ou 
ao elencar em suas anotações de 
acompanhamento clínico os sintomas e 
sentimentos evocados pelo paciente e 
determinadas situações gatilho. 
Pesquisa 
explicativa 
Destinada a identificar fatores que 
determinam ou contribuem para a 
ocorrência dos fenômenos, 
procurando explicara razão e o 
porquê dos fatos. 
Quando Freud propôs tratar seus 
pacientes, não investigava sintomas 
orgânicos, mas trabalhava com a livre 
associação, não os considerando como 
objeto de investigação a ser examinado, 
mas, estabeleceu com os pacientes uma 
relação entre falantes. Ou seja, é uma 
ciência humana que busca em cada 
relação intersubjetiva o porquê dos 
fenômenos da psique por meio da 
análise, sendo assim uma pesquisa 
explicativa qualitativa baseada em um 
caso clínico. 
 
 
16 
FINALIZANDO 
Nesta etapa, a Psicanálise foi apresentada como um método científico, 
pois pode ser abordada tanto como pesquisa pura quanto aplicada. O método 
da associação livre é um tipo de coleta de dados quando se trata de uma 
pesquisa aplicada. Iniciamos esta etapa explicando que, quanto à sua natureza, 
as pesquisas podem ser puras ou aplicadas. 
Em relação ao objetivo do pesquisador, foram apresentados três tipos de 
pesquisa: exploratórias, descritivas ou explicativas. Quanto à abordagem, foram 
apresentadas pesquisas que podem ser quantitativas, qualitativas ou mistas 
(quanti e quali). 
Quanto ao tipo de método, as pesquisas podem ser: pesquisa 
participante, análise de discurso, análise cultural, estudo de caso (em 
Psicanálise, especificamente voltado para casos clínicos), pesquisa de revisão 
de literatura, pesquisa documental, entre outras. 
Ao longo do nosso estudo, abordaremos: 
1. Como construir a fundamentação teórica e a revisão integrativa para 
embasar a construção de conhecimentos em Psicanálise; 
2. A revisão sistemática como busca e sistematização de evidências 
científicas sobre temas em Psicanálise; 
3. Pressupostos da pesquisa em Psicanálise, abordando o objetivo de 
estudo (fenômenos inconscientes), sua técnica (associação livre e 
atenção flutuante), o significante na pesquisa psicanalítica e a 
transferência na pesquisa; 
4. Pesquisas psicanalíticas com base em casos clínicos; 
5. especificidades da Psicanálise como método investigativo, trazendo dicas 
e erros comuns. 
 
 
 
17 
REFERÊNCIAS 
CASARIN, H. de C.; CASARIN, S. Pesquisa científica: da teoria à prática. 
Curitiba: InterSaberes, 2012. 
CHIZZOTTI, A. Pesquisa em ciências humanas e sociais. 11. ed. São Paulo: 
Cortez, 2014. 
COUTINHO, S. G.; RODRIGUES, E. M. Diálogo entre literatura e Psicanálise: 
contribuições dos contos de fadas no desenvolvimento infantil. RCNCD-Plurais, 
v. 2, n. 3, p. 15-28, 2021. 
FERREIRA, R. M.; ELIAS, F. J. M.; CORRÊA, A. A. M. Das representações 
mentais na gestação às frustrações pós-parto: um campo para a Psicanálise. 
Saúde e Meio Ambiente, v. 7, n. 2, 2018. 
FREUD, S. Cinco lições de Psicanálise. In: FREUD, S. Edição standard 
brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de 
Janeiro: Imago, 1976. v. 11. 
GAY, P. Freud: A Life for Our Time. W.W. Norton & Company, 1998. 
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 2. ed. São Paulo: Atlas, 
1989. 
KÖCHE, J. C. Fundamentos de metodologia científica: teoria da ciência e 
iniciação à pesquisa. 34. ed. Petrópolis: Vozes, 2015. 
MARCONI, M. de A.; LAKATOS, E. M. Metodologia do trabalho científico: 
procedimentos básicos, pesquisa bibliográfica, projeto e relatório, publicações e 
trabalhos científicos. 6. ed., rev. e ampl. São Paulo: Atlas, 2001. 
MINAYO, M. C. O desafio da pesquisa social. 28. ed. Petrópolis: Vozes, 2009. 
PAULA, W. de. Ciência e Psicanálise em Jacques Lacan. Unipac, 31 mar. 2020. 
Disponível em: . Acesso em: 
11 jun. 2023, 
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de Psicanálise. São Paulo: Zahar, 
1998. 
SEI, M. B.; GOMES, I. C. Caracterização da clientela que busca a psicoterapia 
psicanalítica de casais e famílias. Psicologia Teoria e Prática, v. 19, n. 3, 2017. 
 
 
18 
SILVA, M. B. da; SCHAPPO, V. L. Introdução à pesquisa em educação. 
Florianópolis: UDESC, 2002. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM 
PSICANÁLISE 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Gabriela Eyng Possolli
 
 
CONVERSA INICIAL 
Anteriormente, estudamos a Psicanálise enquanto área do conhecimento 
multidisciplinar, considerando que o próprio processo terapêutico da análise é 
um processo de pesquisa de casos clínicos na prática. A teoria e as práticas 
fundadas por Freud, e desenvolvidas ao longo do século XX, formaram um 
arcabouço de conhecimentos, teorias, orientações e práticas psicanalíticas, que 
por sua vez constituem uma ciência voltada para a técnica da livre associação, 
como encontro intersubjetivo entre terapeuta e pacientes, na comunicação e na 
linguagem, operando a cura pela palavra. Assim, a metodologia dos casos 
clínicos é uma base bem consolidada para o reconhecimento da psicanálise 
como ciência humana. 
Nesta etapa, vamos tratar da elaboração de uma fundamentação teórica 
para compreender um tema de pesquisa. Também veremos as pesquisas de 
revisão em linhas gerais, a fim de compreender alguns pontos em comum entre 
elas, como: definição de descritores de busca, tipos e bases de dados para 
pesquisa, critérios de inclusão e exclusão para a busca, bem com ajustes que 
possam ser necessários no processo de coleta de dados em revisões de 
literatura. As pesquisas de revisão seguem um método, que ajuda no 
levantamento do que foi publicado nos últimos anos sobre temas em psicanálise, 
o que é fundamental para avançar na ciência psicanalítica, considerando o que 
já foi estudado na área. 
Nesta etapa e na seguinte, vamos detalhar os alicerces que permitem 
estruturar e desenvolver pesquisas teóricas no campo psicanalítico, a partir de 
bases teóricas, calcadas em fundamentos conceituais que servem de contexto 
argumentativo para pesquisas em psicanálise. 
A utilização de pesquisa teórica na psicanálise deve atentar para o que 
destacam Lakatos e Marconi (2003) sobre a pesquisas de cunho bibliográfico: 
elas não devem ser mera repetição de conteúdos já escritos sobre um assunto, 
pois devem buscar sempre um novo enfoque, ou novas abordagens, para a 
resolução de problemas. 
A construção de pesquisas teóricas em psicanálise não pode 
desconsiderar a experiência psicanalítica historicamente acumulada, que ajuda 
na elaboração de uma série de pressupostos sobre a estrutura e o 
funcionamento do aparelho psíquico. Nós, que nos dispomos a desenvolver 
 
 
3 
pesquisas em psicanálise, estamos submetidos a esse funcionamento. O 
pesquisador psicanalítico não pode perceber-se como sujeito que observa, de 
fora, as bases conceituais e os relatos clínicos. 
Na psicanálise, assim como na educação, não há neutralidade: “nenhuma 
educação é neutra, portanto, nenhum educador deveria se isentar da 
responsabilidade de educar criticamente os seus educandos” (Freire, 1996, p. 
57). Portanto, a educação é um ato político, o que também ocorre com a 
psicanálise: quando o estudante traz para a pesquisa, mesmo que teórica, o 
trabalho de outros autores, trará também algo de seu em suas análises e 
compreensões do processo psicanalítico. 
Saiba mais 
Qual a distinção entre realizar pesquisa "em psicanálise" e pesquisa "sobre 
psicanálise"? A pesquisa sobre psicanálise pode estar embasada em construtos 
psicanalíticos e outros, para refletir sobre conceitos, dados ou fenômenos do 
campo psicanalítico e de sua prática. Por exemplo, podemos propor uma revisão 
integrativa do que foi produzido no Brasil nos últimos dez anos sobre o tema 
“angústia de castração”. Tal pesquisa faria um levantamento bibliográfico, 
trazendo pressupostos das bases de busca e detalhando categorias de análise, 
em um formato metodológico vastamente aplicado na ciência, que em si mesmo 
não é psicanalítico, mas aplica-se a essa área do saber. Já a constituição de 
pesquisa em psicanálise está associada ao processo de concepção científica de 
seu fundador, em que é possível identificar momentos de rupturae de 
continuidade, além de relatos detalhados de práticas psicanalíticas. Se Freud, 
paulatinamente, se aparta de métodos iniciais em sua trajetória como pesquisador 
(como pesquisas nos campos da fisiologia, neurologia e zoologia), deve-se 
reconhecer que foi a partir dessa experiência metodológica, com a qual depois 
rompeu, que construiu o método de pesquisa psicanalítica em toda a sua 
originalidade (Lameira; Costa; Rodrigues, 2017). 
TEMA 1 – FINALIDADE E CONSTRUÇÃO DA FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 
Na trajetória de uma pesquisa, após a definição de tema, problema e 
objetivos, uma das primeiras tarefas do pesquisador é construir as bases teóricas 
que sustentam a elaboração do encaminhamento metodológico da pesquisa. A 
elaboração dos pressupostos teóricos de uma pesquisa é fruto de reflexão, 
 
 
4 
leituras e estudos a respeito do tema, vinculando o interesse e o conhecimento 
prévio dos pesquisadores com as fontes e as bases de pesquisa, para 
aprofundamento e um olhar científico capaz de ir além do senso comum. 
A fidelidade a um método está no domínio e no emprego de conceitos e 
procedimentos de uma da visão de mundo evocada. Por isso, é preciso sempre 
ter em mente a corrente teórico-metodológica que a pesquisa vai seguir. Portanto, 
a fundamentação teórica não é mera introdução teórica, mas o norte que conduz 
a argumentação e as análises na pesquisa. 
Na fase da fundamentação teórica, os autores definem e assumem uma 
posição com relação ao seu marco teórico, o que é indispensável para a 
pesquisa científica e a concepção metodológica. Considera-se em que teorias o 
conhecimento construído na pesquisa está embasado. Para isso, é preciso 
coerência entre as referências escolhidas nessa fundamentação. Barros (2005) 
destaca que a fundamentação teórica tem como pressuposto possibilitar a 
interpretação da realidade e dos fenômenos em análise na investigação 
científica. 
A principal finalidade da fundamentação teórica é evidenciar os limites, as 
lacunas e as disposições da pesquisa, visando auxiliar na definição da 
problematização e de hipóteses, evidenciando o debate científico de outros 
pesquisadores sobre a temática. Os passos para uma boa fundamentação são: 
formular e contextualizar o problema, a fim de esclarecer o que é primordial ou 
supérfluo, direcionando o olhar para leituras focadas; em seguida, parte-se para 
a seleção e tabulação de textos e documentos, com posterior apreciação sobre 
a sua utilização ou não na pesquisa; por último, é feita a escrita do texto da 
fundamentação teórica, com uma interpretação de textos e citações e um diálogo 
entre as obras, de forma crítica, estabelecendo uma linha de raciocínio. (Caleffe; 
Moreira, 2006). 
A fundamentação teórica explicita os interlocutores do autor, a partir dos 
quais a argumentação acontece, considerando ainda fundamentos para a 
análise dos dados da pesquisa. É a apresentação do quadro teórico. Antes de 
iniciar a escrita da fundamentação teórica, é importante observar três guias 
importantes: 
• Quais são os objetivos da pesquisa: eles orientam a busca por referenciais 
que irão embasar a análise de dados; 
 
 
5 
• Quais são os tipos de referenciais: artigos, livros, documentos, 
legislações, enfim, onde estão publicadas as bases conforme a temática; 
• Atualidade e coerência: o quadro teórico apresentado precisa ser atual, 
mas ao mesmo tempo apresentar bases importante da área, com 
coerência interna (não podemos utilizar autores com visões opostas para 
analisar um mesmo cenário). 
A estruturação de subtemas e assuntos dentro do tema principal é uma 
forma de iniciar a fundamentação teórica. A definição de conceitos-chave dentro 
do objeto pesquisado é importante, e ajuda a evitar fuga do tema. Nas ciências 
humanas, inclusive na psicanálise, temos a publicação de dicionários temáticos 
especializados que ajudam com conceitos e referências. Os dicionários de 
psicanálise auxiliam com termos e conceitos específicos do arcabouço da 
linguagem psicanalítica. 
Com as considerações descritas até aqui, fica claro que a construção de 
uma fundamentação teórica não se resume a reunir livros e artigos de forma 
aleatória, mas envolve um processo sistemático de pesquisa e análise de 
literatura existente sobre um determinado assunto, tendo em vista o 
planejamento da pesquisa. “O objetivo da fundamentação teórica é fornecer uma 
base concreta de conhecimento para a pesquisa, com as principais teorias, 
conceitos e descobertas relevantes para o tema em estudo” (Fonseca, 2002, p. 
46). 
A respeitos das fontes e obras selecionadas para a fundamentação 
teórica, além de livros publicados sobre o tema, é importante incluir obras 
consideradas clássicas (no caso da psicanálise não podem faltar Freud e outros), 
ou aquelas recentemente publicadas que dão visibilidade ao tema. Uma boa 
fundamentação deve conter ainda artigos científicos de periódicos da área. 
Matérias publicadas em revistas ou jornais especializados são interessantes 
para lidar com temas inéditos ou pouco trabalhados. Consultas a dissertações e 
teses, por aprofundarem a pesquisa em um tema, também são relevantes. 
É possível definir passos para elaboração da fundamentação teórica? 
Sim! O quadro a seguir apresenta os passos básicos para construir uma 
fundamentação teórica. 
 
 
 
 
6 
Quadro 1 – Passos e para a elaboração de fundamentação teórica 
Passo Descrição 
1. Delinear o tema e 
contexto de pesquisa 
A definição e contextualização do tema e do problema gerador da 
pesquisa é o início de tudo. Antes de iniciar a buscar por literatura, deve-
se compreender o tema com suas nuances e desafios, definindo 
claramente os objetivos e as hipótese que podem responder ao problema 
de pesquisa. 
2. Identificar possíveis 
fontes 
Buscar diretamente no Google não é uma boa, é importante realizar 
buscas em bases de dados científicas, bibliotecas físicas e digitais, 
revistas científicas, livros da área temática e outras fontes confiáveis. 
3. Seleção de fontes Ao selecionar o que fará parte da fundamentação teórica, é importante 
verificar a qualidade e atualidade das fontes encontradas com relação 
aos objetivos a serem atingidos. 
4. Leitura e fichamento Leia as fontes selecionadas com cuidado, compreendendo seus 
objetivos, metodologias e resultados. Faça anotações, destaque pontos 
importantes e faça uma síntese das informações. 
5. Análise das fontes Analisar e comparar as fontes, verificando semelhanças entre as fontes, 
relacionando suas conclusões e argumentos. Verifique como elas 
contribuem para responder as questões de pesquisa. 
6. Estruturação e escrita Organizar os subtemas e as fontes conforme a ordem em que o texto da 
fundamentação será escrito. Ordene as informações obtidas e produza 
um texto coeso, apresentando conceitos e pressupostos teórico-práticos 
para a pesquisa. 
7. Citação e articulação das 
fontes 
É imprescindível citar as fontes perfeitamente, conforme normas da 
ABNT ou da publicação em pauta. Citações diretas e indiretas devem ser 
utilizadas, para conferir credibilidade e evitar plágio. 
Fonte: Possolli, 2023. 
Ressalta-se que a fundamentação deve ser clara, objetiva e coesa, 
trazendo uma argumentação estruturada e focada no caminho metodológico que 
vai ser trilhado pela pesquisa. Além disso, é comum que ela seja revisada e 
atualizada ao longo da pesquisa, conforme as necessidades teóricas que vão 
surgindo, inclusive nas fases de análise e discussão de resultados. 
O quadro a seguir apresenta uma tese de doutorado em psicologia, com 
pesquisa interessante em psicanálise, para elucidar a relação entre temática, 
problema, objetivos, metodologia e estrutura da fundamentação teórica 
construída. Ele destaca os tópicos da fundamentação teórica. 
Quadro 2 – Exemplo: itens metodológicos e fundamentação teórica em 
Psicanálise 
Referência CAMPOS, Viviane C. Barbosa. Tese do Programa de Pós-GraduaçãoStricto Sensu 
em Psicologia, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. 2017. 
Tema A importância do diagnóstico no processo terapêutico: um estudo de caso na 
formação em clínica escola 
 
 
7 
Objetivo Compreender a importância do diagnóstico na direção do tratamento nos processos 
de atendimentos clínicos em uma clínica-escola de psicologia. 
Encaminhamen
to 
metodológico 
As origens da pesquisa remontam a questionamentos sobre a direção do tratamento, 
tendo como objeto de estudo o “caso Bárbara”, em perspectiva psicanalítica. O 
encaminhamento metodológico buscou reconstruir um caso clínico problematizando 
a queixa psicológica com os atendimentos realizados, para refletir sobre a 
importância do diagnóstico no percurso dos atendimentos psicoterápicos. Tal 
reconstrução apresenta reflexões sobre a “queixa psicológica”, o sofrimento 
psíquico, o diagnóstico e a direção do tratamento. A hipótese diagnóstica é 
importante nessa orientação, devendo ser tratada não como fator estático, mas sim 
dinâmico. A perspectiva do diagnóstico em psicologia psicanalítica não adota uma 
postura generalista, e sim um estudo de cada caso para compreender a dinâmica e 
o funcionamento de cada sujeito, para que seja possível tratar o seu sofrimento. A 
intenção foi buscar uma metodologia clínica que pudesse compreender o sujeito e 
orientá-lo a aprender com seu próprio sofrimento. 
Abordagem de 
pesquisa 
Pesquisa de cunho qualitativo com ênfase na abordagem psicanalítica com o intuito 
de contribuir para a formação de profissionais que trabalham com processos 
psicoterápicos. 
Fundamentação 
teórica: 
capítulos 1 e 2 
CAPÍTULO 1 – PRÁTICA CLÍNICA, DIAGNÓSTICO E PSICANÁLISE 
1.1 Evolução histórica dos aspectos psicopatológicos 
1.1.1 Configuração atual das psicopatologias e do diagnóstico 
1.1.2 Psicopatologia na perspectiva psicanalítica 
1.1.3 Entrevista inicial (queixa) na prática clínica 
1.2 Prática clínica, avaliação diagnóstica e construção em psicanálise 
1.2.1 Transferência e percurso do tratamento 
1.2.2 Interpretação e construção em análise 
1.2.3 Relato de caso clínico e pesquisa 
CAPÍTULO 2 – CLÍNICA-ESCOLA E FORMAÇÃO EM PSICOTERAPIA 
2.1 Formação do psicólogo para psicoterapia 
2.2 Clínica-escola, organização e processo terapêutico 
2.3 Procedimentos e avaliação do processo terapêutico 
Método, relato 
de caso e 
discussão: 
capítulo 3 
CAPÍTULO 3 – DIAGNÓSTICO, PROCESSO CLÍNICO E FORMAÇÃO NA 
CLÍNICAESCOLA: UM ESTUDO DE CASO 
3.1 Estratégias metodológicas 
3.1.1 Síntese da história do caso de Bárbara, “a estrangeira” 
3.2 Discussão do caso clínico com base na relação entre queixa e diagnóstico 
3.2.1 Caso de Bárbara, “a estrangeira” 
3.2.2 Relação do diagnóstico médico com a queixa e o caso até o fim do processo 
3.2.3 Construção do caso clínico 
Fonte: Possolli, 2023. 
TEMA 2 – COLETA DE DADOS EM PESQUISAS DE REVISÃO: DEFINIÇÃO DE 
FONTES DE BUSCA 
Dentro das pesquisas de revisão, um planejamento minucioso da coleta 
de dados é fundamental. Para que esse planejamento dê certo, é preciso que o 
pesquisador faça um roteiro das suas estratégias antes de começar a coletar 
dados. O roteiro deve conter, especialmente: 
• Nome e hiperlink de acesso de bases de dados importantes sobre o tema; 
 
 
8 
• Palavras-chave relacionadas ao tema e aos detalhes do estudo, e que 
possam ser validadas para encontrar estudos, considerando como 
identificar descritores de busca; 
• Definição de critérios de inclusão e exclusão de estudos encontrados na 
busca. 
• Indicação dos dados a serem registrados na planilha de estudos incluídos. 
Importante entender que mesmo com esse planejamento, que serve 
como guia, ajustes podem ser necessários, conforme os resultados 
encontrados, na efetivação da coleta de dados. As finalidades da base de 
dados incluem: 
• Promover acesso à informação; 
• Fornecer informações atualizadas, assertivas e confiáveis, 
multidisciplinares ou em uma área específica; 
• Atender as necessidades de pesquisa do público-alvo; 
• Fornecer mecanismos eficientes de recuperação de informações. 
Para definir as fontes de busca, deve-se ter em mente que existem bases 
de dados (portais de busca) gerais em pesquisa, que congregam variadas fontes 
de saber, linkando milhares de periódicos científicos, assim como repositórios e 
sites específicos em alguns campos de conhecimento. Como exemplo de bases 
de relevância geral, temos: portal Scielo, Google Acadêmico, periódicos da 
Capes, BDTD e PubMed. Para a psicanálise, os portais da PsycINFO, PEP, BVS 
e PePSIC são excelentes repositórios para busca. 
O quadro a seguir apresenta nomes, endereços de acesso online e 
descrição de escopo de bases de dados reconhecidas para pesquisa em 
psicanálise. 
Quadro 3 – Bases de dados para pesquisa em psicanálise 
Base de Dados Link de Acesso Descrição 
Scielo (Scientific 
Eletronic Library 
Online) 
https://www.scielo.br/ Portal eletrônico gratuito de periódicos científicos, 
permitindo acesso eletrônico à artigos completos de 
revistas no Brasil, América Latina, Caribe, e países de 
língua portuguesa e espanhola. 
Google Acadêmico https://scholar.google. 
com.br/ 
Base de busca com vasto repositório indexado pelo 
Google, que acessa também outras bases de dados 
vinculadas. O Google acadêmico ganhou mais 
relevância atualmente porque muitas agências de 
pesquisa (como a Capes) estão em transição do antigo 
 
 
9 
modelo Qualis para o índice H (que usa a plataforma 
Google) para classificar o impacto das publicações. 
Portal de 
Periódicos da 
Capes 
https://www.periodicos. 
capes.gov.br/ 
Biblioteca virtual gratuita que elenca os melhores 
artigos científicos do mundo via verificação de fator de 
impacto e número de citações. Conta também com 
acervos de pesquisa de instituições de ensino 
brasileiras, enciclopédias, obras de referência, normas 
técnicas, material audiovisual. Conta com 39 mil 
artigos completos, com busca em 126 bases. 
BDTD (Biblioteca 
Digital Brasileira 
de Teses e 
Dissertações) 
https://bdtd.ibict.br/ Biblioteca que integra, em portal único, os sistemas de 
informação de teses e dissertações de várias 
instituições de ensino e pesquisa brasileiras. Acesso 
nacional e internacional com busca em outras línguas 
para dar visibilidade a pesquisas brasileiras. 
PubMed https://pubmed.ncbi. 
nlm.nih.gov/ 
Portal para busca de artigos científicos na área de 
saúde e biomedicina, organizado pela Biblioteca 
Nacional de Medicina dos EUA. Conta com 4.800 
revistas dos Estados Unidos e em 70 países. 
PsycINFO http://psycnet.apa. 
org/Search 
Criada pela APA (American Psychological 
Association), é a mais importante base de dados da 
área de psicologia e psicanálise. Organiza e divulga 
literatura relevante publicada na área da psicologia e 
disciplinas correlatas. 
PEP http://www.pep-
web.org/ 
Busca exclusivamente por conteúdo em psicanálise. 
Inclui obras completas de Freud, pesquisa, textos, 
seminários de psicanalistas, ensaios psicanalíticos de 
obras literárias, filmes e arte. 
BVS (Biblioteca 
Virtual de Saúde) 
https://bvsalud.org/ A Plataforma da BVS integra fontes de informação em 
saúde, científica e técnica, na América Latina e no 
Caribe. Desenvolvida pela Bireme em 3 idiomas 
(inglês, português e espanhol). Congrega bases de 
dados produzidas pela Rede BVS, LILACS, Medline, 
além de recursos educacionais abertos, sites e 
eventos científicos. Também dá acesso aos DECS. 
PePSIC http://portal.pepsic. 
bvsalud.org/ 
O Portal de Periódicos Eletrônicos de Psicologia 
(PePSIC) acessa um conjunto de revistas científicas 
em psicologia e áreas correlatas, com textos 
completos. A organização e estrutura segue a mesma 
metodologia da Scielo. 
Fonte: Possolli, 2023. 
Não há necessidade de buscar dados em todas as bases aqui indicadas. 
É possível ainda selecionar outras bases. Uma dica de ouro é iniciar a busca por 
bases mais abrangentes edepois ir afunilando para bases mais restritas ou 
temática, conforme a necessidade. Para isso, é preciso ter bons descritores de 
busca, o que aprenderemos a seguir. 
TEMA 3 – COMO DEFINIR E TESTAR PALAVRAS-CHAVE DE BUSCA 
Primeiramente, precisamos deixar bem clara a distinção entre palavras-
chave e descritores na pesquisa científica, pois são conceitos que não se 
aplicam apenas ao processo de elaboração de revisões. 
 
 
10 
As palavras-chave podem ser termos simples ou termos compostos, 
selecionadas pelo pesquisador para a busca com base no tema, no problema e 
no desenho da pesquisa. Os descritores são termos necessariamente 
convencionados, criados por especialistas, para identificar assuntos publicados 
em artigos científicos, livros e publicações com registro. Há uma base, conforme 
a área, para pesquisar esses descritores. Os descritores da área da saúde, por 
exemplo, que incluem descritores em psicologia e psicanálise, podem ser 
acessados no portal da BVS, por meio dos DECS (Descritores em Ciências da 
Saúde), acessível pelo link: . 
A importância de se usar esses descritores junto com o resumo do seu 
trabalho, ou no cadastramento de sua pesquisa em uma revista científica, é 
simples de entender: por meio dos descritores, os temas e assuntos publicados 
são indexados, buscados e divulgados em plataformas científicas. Até mesmo 
a Biblioteca Nacional, quando registra um livro físico ou um material online, ao 
atribuir o registro de ISBN ou ISSN, faz a catalogação por meio de descritores. 
É como um índice de assuntos que conecta a sua produção como pesquisador 
com outras na área. 
Vamos entender a partir de um exemplo? Suponha que você irá escrever 
uma revisão integrativa de literatura sobre a importância da transferência e do 
rapport na relação terapêutica paciente-analista. Com base no problema e no 
encaminhamento metodológico da pesquisa, você chega às seguintes 
palavras, ou termos-chave: psicanálise; transferência; rapport; relação paciente 
e analista. Esses termos foram definidos por você no papel de pesquisador. 
Geralmente, fazemos isso ao final do trabalho de pesquisa, quando vamos 
elaborar o resumo, podemos até ter algumas palavras indicadas de início, mas 
é ao final que iremos confirmá-las ou reescrevê-las. A partir da definição, você 
precisa checar quais termos, relacionados ou próximos a esses, estão 
presentes nos DECS. Para isso, siga os seguintes passos: 
1. Acesse a página: . 
2. Na barra de pesquisa, digite um a um os termos ou palavras-chave que 
selecionou para a sua pesquisa. Aqui, cabe um detalhe importante, 
oferecido nas instruções de pesquisa do portal, logo nessa página, em 
que encontramos o detalhamento dos cinco métodos para buscar 
descritores: 
 
 
11 
Qualquer termo: pesquisa pela palavra digitada no campo de busca 
em todos os termos, Descritores e Termos Alternativos, 
independentemente da ordem da palavra no termo. Termo exato: 
pesquisa pelo termo que corresponde exatamente à palavra digitada. 
ID do descritor: pesquisa pelo identificador único do registro 
DeCS/MeSH de descritores. Código Hierárquico: pesquisa por código 
da hierarquia DeCS/MeSH e recupera o registro que possui a posição 
específica na árvore de conceitos. Qualquer qualificador: pesquisa 
pela palavra digitada no campo de busca em todos os Qualificadores, 
independentemente da ordem da palavra no termo. Para pesquisar por 
parte da palavra utilize o truncador * ou $ antes ou após a sequência 
digitada. (BVS, 2023) 
Essas instruções esclarecem como buscar para não cometer erros, com 
base nas informações temática que o pesquisador tem. Também ajudam 
a pesquisar trechos de palavras. Por exemplo, ao digitar “análise”, você 
vai encontrar todos os descritores que terminem com “análise”, como: 
“psicanálise”, “metanálise” etc. Colocando “psica$” pode-se obter 
resultados como: “psicanalítico”, “psicanalista” etc. 
3. Busque pelas palavras-chave. Caso não encontre, inclua variações. 
4. Ao buscar a palavra transferência, encontramos como resultado a 
aplicação desse termo em várias subáreas em saúde. Temos 72 
resultados com expressões que contém a palavra transferência no 
DECS (ordenadas das mais relevantes, com mais aderência ao termo, 
às menos relevantes, em que a palavra transferência aparece em 
alguma descrição ou subtema). Observe o exemplo a seguir: Resultado 
1/72: “transferência de gases” em bioquímica; Resultado 2/72: 
“transferência tendinosa” em ortopedia; Resultado 57/72: “RNA de 
transferência” em genética; entre tantos resultados não aplicados ao 
nosso exemplo de temática. Temos alguma descritores que se aplicam, 
como: Resultado 10/72: “transferência psicológica”, em que 
encontramos os termos equivalentes (variações no português e nos 
idiomas inglês, espanhol e francês), código do DECS, e uma curta 
definição chamada de “nota de escopo”: “A transferência inconsciente a 
outros (incluindo os psicoterapeutas) de sentimentos e atitudes que 
estavam originalmente associados a pessoas importantes (pais, irmãos) 
do início da vida do indivíduo”. Também encontrmaos o link 
() do correspondente 
internacional desse DECS no U.S. National Library of Medicine. 
 
 
12 
5. No caso dessa busca, para publicar a pesquisa, considerara-se o termo 
como “transferência psicológica”, e não apenas “transferência”, como 
estava previsto. 
6. Realizar o mesmo processo para as demais palavras-chave, a fim de 
selecionar todos os descritores correspondentes presente no DECS. 
TEMA 4 – CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO 
Nas pesquisas de revisão de literatura (integrativas, sistemáticas ou 
narrativas), o processo de registro do caminho metodológico exige que seja 
assumido um protocolo de inclusão e exclusão de estudo, detalhando o motivo 
pelo qual inclui-se ou exclui-se um estudo que aparece na busca em bases de 
dados. 
A função principal desse protocolo é guiar a pesquisa, para manter coesão 
e a credibilidade quanto à seleção dos estudos para a revisão. Assim, o 
pesquisador, ao mapear os resultados nas bases de dados e registrar os 
achados em uma planilha, deve indicar em uma aba os estudos incluídos com 
seus dados completos, como: autoria, ano, título, tipo de estudo, link de acesso, 
palavras-chave e resumo. Em outra aba, deve contabilizar quantos estudos 
foram excluídos, apresentando o motivo. 
Entre os critérios de inclusão aplicados junto com as palavras-chave na 
busca, destacamos: 
• Definição das bases pertinentes para busca na literatura da área temática; 
• Idiomas de publicação (aplicando-se assim os termos de busca 
equivalentes); 
• Período de busca (geralmente considera-se um período entre 5 a 10, anos 
conforme a relevância e originalidade do tema escolhido; 
• Verifica-se se os termos de busca aparecem no título e/ou resumo do 
artigo, como critério de aderência do estudo ao tema; 
• Tipo de publicação (pode-se filtrar apenas artigos científico, mas conforme 
a temática, pode ser muito importante incluir também teses e 
dissertações, que são trabalhos de validade científica que podem abordar 
temas atuais com mais profundidade). 
Dentre os motivos mais comuns para exclusão, estão: 
 
 
13 
• Fuga do tema: quando o estudo tangencia a temática central, mas não 
entra nela de fato, considera-se fuga do tema alvo da revisão; 
• Tipo de estudo: a revisão pode incluir apenas artigos publicados em 
periódicos (o que pode ser critério para temas complexos ou com viés), 
excluindo-se outros tipos de materiais; 
• Saturação: quando um aspecto do problema em estudo na revisão já foi 
suficientemente abordado em vários estudos incluídos, o critério de 
saturação é aplicado, removendo-se os menos relevantes; 
• Período da busca: mesmo incluindo na pesquisa da plataforma a vigência 
de um período, é comum que apareçam estudos fora do período indicado– portanto, eles serão excluídos. 
Por exemplo, se uma busca em certa base de dados resulta em 150 
resultados, dos quais 60 foram incluídos, a partir dos critérios de exclusão 
especificados é preciso indicar para os não incluídos (no caso, 90 estudos) quais 
os critérios de exclusão aplicados. 
Vejamos um exemplo prático na pesquisa de Santos (2019) com o tema 
"As contribuições da escuta psicanalítica nas enfermarias hospitalares: uma 
revisão de literatura". 
Quadro 4 – Exemplo de critérios de inclusão e exclusão em revisão na 
psicanálise 
Resumo Objetivou-se explorar as contribuições que a escuta psicanalítica 
realizada nas enfermarias hospitalares pode oferecer ao sujeito 
hospitalizado. Utilizou-se a revisão integrativa de literatura orientada nas 
4 etapas de sistematização de busca: (a) identificação; (b) triagem; (c) 
elegibilidade e (d) inclusão. O recorte temporal foi de 10 anos, produções 
disponíveis na íntegra e de língua portuguesa. Resultados: 28 artigos 
foram encontrados. Após uma leitura minuciosa, apenas 6 artigos foram 
selecionados para análise. Conclusão: a escuta é estratégia valiosa para 
investigar a subjetividade; favorece a singularidade do sujeito, implica a 
promoção da autonomia ao promover não só a humanização do 
atendimento, mas também potencialização de significados. Vínculo, 
adesão e adaptação foram identificados como contribuições, somadas à 
possibilidade de o psicólogo ser um educador, fortalecendo o sujeito no 
enfrentamento da hospitalização. 
Palavras-chave Psicanálise; Enfermaria; Escuta psicanalítica; Psicologia hospitalar. 
Problema (questão 
norteadora) 
Quais as possíveis contribuições da prática da escuta psicanalítica ao 
sujeito hospitalizado em enfermarias hospitalares? 
Método Revisão integrativa da literatura, com 4 fases em função dos artigos: (a) 
identificação; (b) triagem ou seleção); (c) elegibilidade e (d) inclusão. 
Critérios de 
Inclusão 
Busca nas bases BVS, SciELO e PePSIC. Arrtigos originais, de pesquisa 
no contexto hospitalar com referencial da psicanálise; texto completo 
disponível, no idioma português e publicados entre 2011 e 2021. 
 
 
14 
Critérios de 
Exclusão 
Excluídas 17 publicações por não abordarem o objeto central de 
pesquisa, resultando em 11 publicações para leitura na íntegra. Apenas 
6 artigos foram selecionados para análise e os demais excluídos por 
estarem fora do período e idioma português. 
 Fonte: Possolli, 2023. 
TEMA 5 – CONCEITO E FINALIDADE DA REVISÃO INTEGRATIVA 
Veremos agora a revisão integrativa, para em outro momento analisar 
outros tipos de revisão. A revisão integrativa surgiu como forma de revisar 
rigorosamente o que foi publicado sobre um assunto, aproximando obras com 
variadas metodologias. É um tipo de revisão com potencial de promover estudos 
teóricos em diversas áreas do conhecimento, mantendo o rigor metodológico. 
Traz um panorama científico das produções em um tema, o que é 
importantíssimo como primeiro passo para qualquer pesquisa teórico-prática: 
basear-se no que a ciência já produziu em um campo do saber. 
O método de revisão integrativa possibilita combinar “dados da literatura 
empírica e teórica que podem ser direcionados à definição de conceitos, 
identificação de lacunas nas áreas de estudos, revisão de teorias e análise 
metodológica dos estudos sobre um determinado tópico” (Unesp, 2015, p. 2). 
Para empreender a revisão integrativa, diferentemente da composição de 
fundamentação teórica, é preciso seguir parâmetros e passos metodológicos 
que permitam aumentar a clareza de resultados, para identificar características 
reais dos estudos incluídos. A síntese de conhecimento produzida pela revisão 
amortiza as incertezas com relação a recomendações práticas, permitindo 
generalizações relevantes sobre o objeto de estudo, por intermédio de 
informações que facilitam a arguição na pesquisa e a tomada de decisões quanto 
às intervenções e à análise em uma pesquisa em psicanálise. 
A revisão integrativa é o tipo mais amplo, o que é uma vantagem, já que 
consente incluir simultaneamente pesquisas experimentais e quase-
experimentais, proporcionando um entendimento mais completo do objeto de 
estudo. Também permite vincular, em sua discussão de literatura, dados teóricos 
e empíricos. Podem ser empregados propósitos variados, como: definição de 
conceitos; revisão de teorias; análise metodológica dos estudos incluídos; 
sistematização de práticas e ações em um determinado contexto. 
Um processo amostral rico também contribui para um cenário 
compreensivo do objeto de estudo, tornando a pesquisa acessível a diversas 
 
 
15 
realidades de aplicação, o que frequentemente é importante na produção 
científica em psicanálise. É importante compreender como realizar uma revisão 
integrativa de literatura, considerando as etapas que vão ser desenvolvidas e 
como coletar e analisar os resultados da revisão. Vamos estudar esses aspectos 
com base no manual da Unesp (2015). 
A 1ª etapa é de identificação de tema, hipótese e problema de pesquisa 
para a revisão integrativa. A partir da clareza da temática, o processo de revisão 
integrativa começa com a definição do problema a ser resolvido pela pesquisa e 
com a formulação de uma hipótese principal para orientar o encaminhamento 
metodológico. Um aspecto relevante para a pesquisa em psicanálise é a escolha 
de um tema ligado à prática clínica. 
Essa primeira etapa norteia a revisão integrativa, levando a um raciocínio 
teórico que inclui conceitos já aprendidos pelas pesquisador, em consonância 
com as obras presentes na revisão. Uma vez que o problema de pesquisa está 
bem delineado, os descritores (palavras-chave) serão prontamente identificados 
para guiar a busca por estudos em bases dados. O problema de pesquisa, 
norteador para a revisão, pode ser demarcado, por exemplo, com uma 
intervenção específica, ou abrangente, com a pesquisa de várias intervenções 
ou práticas na área da psicanálise. 
A 2ª etapa implica demarcar critérios de inclusão e exclusão de estudos 
para busca na literatura. A abrangência do tema gera a seleção de amostragem, 
ou seja, quanto mais amplo for o objeto em estudo (por exemplo, o estudo de 
diferentes intervenções psicanalíticas), mais seletivo deverá ser o pesquisados 
para decidir sobre a inclusão na etapa de revisão. Aqui cabe o cuidado de não 
selecionar uma quantidade muito alta de literatura na primeira filtragem de 
estudos, já que uma demanda alta pode inviabilizar a fluidez do processo de 
revisão ou trazer muitos vieses para as etapas subsequentes. 
Depois da abrangência do tema e da formulação do problema de 
pesquisa, iniciamos a varredura em bases de dados, para a coleta de estudos 
para a decisão sobre a inclusão na revisão integrativa. A internet é indispensável 
para essa busca, já que as bases de dados hoje têm acesso eletrônico, muitas 
exclusivamente online, sem versão impressa. A triagem dos estudos relevantes 
para a temática em estudo é fundamental, pois ajuda a atestar a validade interna 
do processo de revisão. Um erro do procedimento de coleta da amostragem 
pode ameaçar a confiabilidade da revisão e tornar o processo não científico. 
 
 
16 
A decisão sobre a inclusão ou exclusão de estudos da revisão deve ser 
criteriosa e transparente. A representatividade da amostra é um indicador 
importante sobre a qualidade, a profundidade e a credibilidade das conclusões do 
estudo de revisão. As decisões tomadas no primeiro filtro, em relação aos critérios 
de inclusão e exclusão, devem ser registradas e justificadas, para que tenhamos 
um parâmetro de número de estudos encontrados com os descritores e o número 
de estudos incluídos para próxima fase da filtragem. Recomenda-se que a busca 
nas bases de dados e a seleção dos estudos incluídos na revisão sejam feitas por 
dois pesquisadores, para garantir maior confiabilidade na escolha, a partir da 
concordância entre

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