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Adm inistração e Econom ia Criativa ADMINISTRAÇÃO E ECONOMIA CRIATIVA Rodrigo Vinícius Sartori ADMINISTRAÇÃO E ECONOMIA CRIATIVA Rodrigo Vinícius Sartori GRUPO SER EDUCACIONAL gente criando o futuro Todo livro que carrega o título de “fundamentos” precisa primordialmente priorizar a compreensão de conceitos associados ao domínio de conhecimento ao qual é dire- cionado. Não é diferente com os fundamentos de Economia – a� nal, dominar com cla- reza os conceitos econômicos é a base para o entendimento tanto da Economia como uma ciência em si quanto do próprio processo de tomada de decisão fundamentada. É assim que se constituem verdadeiras ferramentas analíticas para que se possa apre- ciar questões econômicas tanto em esfera pessoal quanto social. Assim, convido o aluno a absorver estes conhecimentos, que são úteis para qualquer cidadão e pro� ssional da atualidade – portanto, é um conteúdo que não se restrin- ge a estudantes de Economia. A� nal, com as pessoas conscientes ou não que vivem imersas em um sistema econômico, o mínimo de letramento a respeito é necessário para melhor desempenho do cidadão, seja no papel de produtor ou de consumidor de bens e serviços. Nesse tocante, esta obra percorre os mais elementares conceitos associados à área econômica, investiga as principais correntes teóricas a seu respeito e oferece especial atenção a ferramentas de análise, o que permite su� ciente domínio em aspectos tão essenciais como escassez, produção, oferta, demanda, concorrência, pontos de equi- líbrio e desequilíbrio, linearidade, entre tantos outros. SER_ECPME_FUECOAD_CAPA.indd 1,3 10/03/20 11:02 © Ser Educacional 2020 Rua Treze de Maio, nº 254, Santo Amaro Recife-PE – CEP 50100-160 *Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Imagens de ícones/capa: © Shutterstock Presidente do Conselho de Administração Diretor-presidente Diretoria Executiva de Ensino Diretoria Executiva de Serviços Corporativos Diretoria de Ensino a Distância Autoria Projeto Gráfico e Capa Janguiê Diniz Jânyo Diniz Adriano Azevedo Joaldo Diniz Enzo Moreira Rodrigo Vinícius Sartori DP Content DADOS DO FORNECEDOR Análise de Qualidade, Edição de Texto, Design Instrucional, Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico e Revisão. SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 2 10/03/20 14:34 Boxes ASSISTA Indicação de filmes, vídeos ou similares que trazem informações comple- mentares ou aprofundadas sobre o conteúdo estudado. CITANDO Dados essenciais e pertinentes sobre a vida de uma determinada pessoa relevante para o estudo do conteúdo abordado. CONTEXTUALIZANDO Dados que retratam onde e quando aconteceu determinado fato; demonstra-se a situação histórica do assunto. CURIOSIDADE Informação que revela algo desconhecido e interessante sobre o assunto tratado. DICA Um detalhe específico da informação, um breve conselho, um alerta, uma informação privilegiada sobre o conteúdo trabalhado. EXEMPLIFICANDO Informação que retrata de forma objetiva determinado assunto. EXPLICANDO Explicação, elucidação sobre uma palavra ou expressão específica da área de conhecimento trabalhada. SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 3 10/03/20 14:34 Unidade 1 - Introdução à Economia Objetivos da unidade ........................................................................................................... 13 Conceito de economia ......................................................................................................... 14 Escassez e escolha ........................................................................................................ 15 Custo da oportunidade e trade-offs ............................................................................. 16 Produtividade ................................................................................................................... 17 Sistemas econômicos ..................................................................................................... 17 Instituições e incentivos econômicos ......................................................................... 18 Troca, dinheiro e interdependência ............................................................................. 19 O problema econômico fundamental ............................................................................... 20 Problema de alocação de recursos ............................................................................. 22 Problema do pleno emprego dos recursos ................................................................. 23 Problema do crescimento econômico ......................................................................... 23 Curva de possibilidade de produção/custo de oportunidade ...................................... 24 Posição .............................................................................................................................. 27 Propriedades .................................................................................................................... 28 Forma ................................................................................................................................. 30 Custo de oportunidade ................................................................................................... 33 Fatores de produção ............................................................................................................ 35 Algumas escolas de economia ..................................................................................... 36 Sistema econômico.............................................................................................................. 39 Componentes ................................................................................................................... 40 Tipologia ............................................................................................................................ 42 Sumário SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 4 10/03/20 14:34 Relação da economia com as demais ciências ............................................................. 44 Divisão do estudo econômico ............................................................................................ 45 Sintetizando ........................................................................................................................... 47 Referências bibliográficas ................................................................................................. 48 5 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 5 10/03/20 14:34 Sumário Unidade 2 – Fundamentos de economia e administração Objetivos da unidade ........................................................................................................... 52 Introdução à teoria da demanda ....................................................................................... 53 Deslocadores da demanda ............................................................................................ 55 Fatores que afetam a função demanda ............................................................................ 56 Renda do consumidor ..................................................................................................... 57 Preços de bens relacionados ........................................................................................ 58 Publicidade e preferência do consumidor .................................................................. 59 População ......................................................................................................................... 60 Expectativas do consumidor .........................................................................................econômico. As estruturas de to- mada de decisão de uma economia determinam o uso de insumos eco- nômicos (os fatores de produção), a distribuição da produção, o nível de centralização na tomada de decisão e quem toma essas decisões. As de- cisões podem ser tomadas por con- selhos industriais, por uma agência governamental ou por proprietários privados. É preciso considerar que um sistema econômico tem o caráter macro de um sistema de produção, alocação de recursos, troca e distribuição de bens e serviços em uma sociedade ou em uma determinada área geográfi ca. 42 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 42 10/03/20 14:36 Toda economia é, portanto, um sistema que aloca recursos para troca, produção, distribuição e consumo. O sistema costuma ser estabilizado por meio de uma combinação de ameaça e confiança, que são o resultado de acordos institucionais. Nesse sentido, um sistema econômico reúne as se- guintes instituições: • Métodos de controle sobre os fatores ou meios de produção: isso pode in- cluir a propriedade ou os direitos de propriedade sobre os meios de produção e, portanto, pode dar origem a reclamações sobre o produto da produção. Os meios de produção podem ser de propriedade privada, do Estado, daqueles que os utilizam ou serem mantidos em comum. • Um sistema de tomada de decisão: determina quem é elegível para tomar decisões sobre atividades econômicas. Agentes econômicos com poder de de- cisão podem celebrar contratos vinculativos entre si. • Um mecanismo de coordenação: determina como as informações são ob- tidas e usadas na tomada de decisões. As duas formas dominantes de coorde- nação são planejamento e mercados; o planejamento pode ser descentralizado ou centralizado, e os dois mecanismos de coordenação não são mutuamente exclusivos e geralmente coexistem. • Um sistema de incentivos: induz e motiva os agentes econômicos a se envolverem em atividades produtivas. Pode se fundamentar em recompensa material (compensação ou interesse próprio) ou persuasão moral (por exem- plo, prestígio social ou por meio de um processo democrático de tomada de decisão que vincula os envolvidos). O sistema de incentivos pode incentivar a especialização e a divisão do trabalho. • Forma organizacional: existem duas formas básicas de organização, que são os atores e os reguladores. Os atores econômicos incluem famílias, gru- pos de trabalho e equipes de produção, empresas, joint ventures e cartéis. Organizações economicamente reguladoras são representadas pelas autori- dades do poder público e de mercado – estes últimos podem ser entidades públicas ou privadas. • Um sistema de distribuição: aloca o produto da atividade produtiva, que é distribuída como renda entre organizações econômicas, indivíduos e gru- pos da sociedade, como proprietários, trabalhadores e não trabalhadores ou o Estado (impostos). 43 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 43 10/03/20 14:36 • Um mecanismo de escolha pública para legislar, estabelecendo regras, normas e padrões e cobrando impostos. Geralmente, isso é de responsabilida- de do Estado, mas outros meios de tomada de decisão coletiva são possíveis, como câmaras de comércio ou conselhos de trabalhadores. Tipologia Existem várias questões básicas que devem tentar ser respondidas para que uma economia funcione satisfatoriamente. O problema da escassez, por exem- plo, requer respostas para perguntas essenciais, como o que produzir, como produzi-lo e quem recebe o que é produzido. Um sistema econômico, como vis- to, é uma maneira de responder a essas perguntas básicas: diferentes sistemas econômicos respondem de maneira diferente, espelhando seus matizes ideoló- gicos. De todo modo, muitos objetivos diferentes podem ser vistos como dese- jáveis para uma economia, como efi ciência, crescimento, liberdade e igualdade. Os sistemas econômicos são geralmente segmentados pelo regime de di- reitos de propriedade dos meios de produção e pelo mecanismo dominante de alocação de recursos. Economias que combinam propriedade privada com alocação de mercado são chamadas de “capitalismo de mercado” e economias que combinam propriedade privada com planejamento econômico são deno- minadas “capitalismo de comando” ou dirigismo. Da mesma forma, sistemas que misturam propriedade pública ou cooperativa dos meios de produção com planejamento econômico são chamados de “economias socialistas planejadas” e sistemas que combinam propriedade pública ou cooperativa com mercados são chamados “socialismo de mercado”. Algumas perspectivas se baseiam nessa nomenclatura básica para levar em consideração outras variáveis, como processos de classe dentro de uma economia. Isso leva alguns economistas a categorizar, por exemplo, a economia da antiga URSS como capitalismo de estado, com base na análise de que a classe trabalhadora foi explorada pela liderança do partido. Em vez de considerar a propriedade nomi- nal, essa perspectiva leva em consideração a forma orga- nizacional das empresas econômicas. 44 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 44 10/03/20 14:36 Nos sistemas econômicos socialistas, a produção para uso é realizada; as decisões sobre o uso dos meios de produção são ajustadas para satisfazer a demanda econômica, e o investimento é determinado por meio de procedi- mentos de um centralizado planejamento econômico. Existe uma ampla gama de procedimentos de planejamento e estruturas de propriedade propostos para sistemas socialistas, sendo característica comum en- tre eles a propriedade social dos meios de produção. Isso pode assumir a forma de propriedade pública por toda a sociedade ou propriedade de forma cooperativa por seus funcionários. Um sistema econômico socialista que possui propriedade social, mas que se baseia no processo de acumulação de capital e utilização de mercados de capital para a alocação de bens de capital entre empresas de pro- priedade social, adentra usualmente a subcategoria de socialismo de mercado. Por sua vez, em um sistema econômico capitalista, a produção é realizada para lucro privado e as decisões relativas ao investimento e à alocação de fato- res são determinadas pelos proprietários dos negócios nos mercados de fato- res. Os meios de produção pertencem principalmente a empresas privadas e as decisões sobre produção e investimento são determinadas pelos proprietá- rios nos mercados de capitais. Os sistemas capitalistas variam do laissez-faire, com mínima regulamentação governamental e empresa estatal, aos sistemas regulamentados e de mercado social, com o objetivo de melhorar as falhas do mercado ou complementar o mercado privado com políticas sociais para pro- mover a igualdade de oportunidades, respectivamente. CURIOSIDADE Laissez-faire é sentença escrita em francês, parte da expressão “laissez faire, laissez aller, laissez passer” que significa, em tradução livre, “deixai fazer, deixai ir, deixai passar”. É, portanto, o símbolo do liberalismo econô- mico na versão mais pura de capitalismo, que preconiza que o mercado deve funcionar de modo absolutamente livre, sem interferência, taxas, tampouco subsídios, apenas com regulamentos suficientes para proteger os direitos de propriedade. 45 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 45 10/03/20 14:36 Relação da economia com as demais ciências Não resta dúvida que a economia está intimamente relacionada a muitas outras ciências. Inicialmente, há que se considerar que toda a discussão so- bre juízo de valor, evidentemente, depende intimamente de considerações de ordem psicológica. Não por acaso, a escola de economia que desenvol- veu mais extensivamente a teoria do valor é comumente chamada de esco- la psicológica. Dela, derivam abordagens bastante interessantes, como é o caso da economia comportamental. ASSISTA A economia comportamental se ocupa do estudo do im- pacto de fatores de naturezas psicológica, social, cognitiva e emocional combinados com fatores econômicospara indivíduos e organizações. Nesta entrevista com a econo- mista Flávia Ávila, é possível compreender um pouco mais a respeito desse fenômeno. São abordados temas como a irracionalidade no ato de consumo e ancoragem de preços. A Sociologia, por vezes, é defi nida como a ciência social, ou seja, a ciência de todas as relações sociais. Se a Sociologia é considerada nesse preâmbulo, a Economia é com toda legitimidade um ramo da Sociologia. Há, claro, escritores mais ortodoxos que sustentam que a Sociologia lida apenas com as leis mais gerais que se aplicam a toda a estrutura social e que é em algum nível coorde- nada com economia, política e ética, mas não inclui todas elas; além disso, mais recentemente, abordagens mais integradoras têm se proliferado na academia. A Política é a ciência do Estado e, devido às muitas e importantes maneiras pelas quais o Estado infl uencia e é infl uenciado pela maneira como a população vive, os campos das duas ciências – Política e Economia – estão intimamente entrelaçados e têm muitos problemas em comum. A Ética é a ciência da conduta moral; ela faz a pergunta acerca do que deve- ria ser. Houve um tempo em que os economistas sustentaram que a Economia estava preocupada apenas com a questão “o que é” (abordagem descritiva) e não com a pergunta “o que deveria ser” (abordagem normativa). Nos dias atuais, porém, praticamente todos os economistas sustentam que a Economia é uma ciência ética e também uma ciência positiva, isto é, preocupa-se com o 46 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 46 10/03/20 14:36 que deveria estar na esfera econômica e com o que é. Assim como a Economia está intimamente relacionada à ciência da Política, também está intimamente relacionada à ciência do Direito. O governo e a lei formam uma estrutura na qual as forças econômicas agem. Pondere-se sobre signifi cado das leis econômicas. Afi nal, o termo “lei”, ou “legal”, é usado em uma ampla diversidade de aplicações. Por exemplo, na ju- risprudência, signifi ca uma regra de conduta estabelecida por um Estado para orientação de seus cidadãos; mas nas ciências em geral, onde há regularidade na recorrência de fenômenos, diz-se que existe lei científi ca. Afi nal, onde os fe- nômenos que se repetem com regularidade são fenômenos econômicos, isto é, onde eles têm a ver com as relações do homem com a riqueza, estabelecem-se leis econômicas. Por exemplo, quando as pessoas derretem moedas de ouro para produ- zir lingotes, geralmente derretem moedas com peso total, de preferência as moedas muito gastas e, portanto, leves. A regularidade de tal ação é uma lei econômica e tem muita consequência na economia. Contudo, que se confrontem o direito econômico e a liberdade de vontade: às vezes, é recomendado que as leis econômicas não sejam leis reais porque se preocupam com as ações humanas e que, como o livre arbítrio é livre, não ha- verá regularidade sufi ciente nessas ações para permitir que sejam chamadas literalmente de leis. Essa afi rmação, no entanto, deixa de levar em conta o signifi cado das leis econômicas. Afi nal, uma pessoa não é obrigada a obedecer às leis econômicas, mas os motivos que a infl uenciam no trato com os fenômenos econômicos ge- ralmente o levam a agir de acordo com as leis econômicas. Assim, o homem que derrete moedas de ouro para produzir lingotes é perfeitamente livre para derreter as moedas mais leves, mas o motivo do interesse próprio geralmente o leva a derreter moedas com peso total. Divisão do estudo econômico A ciência da Economia tem a ver com o homem em suas relações com a riqueza. Por conveniência em melhor discutir o assunto, muitos escritores divi- dem o campo da Economia em quatro seções principais, a saber: 47 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 47 10/03/20 14:36 • Consumo de riqueza; • Produção de riqueza; • Troca de riqueza; • Distribuição de riqueza. Em suma, o consumo de riqueza significa o uso dado à riqueza; a produção de riqueza significa trazer à existência a riqueza; a troca de riqueza significa a transferência da propriedade da riqueza de uma pessoa para outra em consi- deração a uma transferência correspondente da propriedade de outra riqueza desta última para a primeira; e a distribuição da riqueza significa o comparti- lhamento da riqueza que foi produzida entre aqueles que a reivindicam. 48 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 48 10/03/20 14:36 Sintetizando Essa unidade se ocupou, primeiramente, em oferecer um entendimento dos conceitos da economia, que perfazem o mais básico vocabulário desse campo do conhecimento. Foi visto que é possível considerar ao menos seis conceitos eco- nômicos fundamentais: escassez e escolha, custo da oportunidade e trade-offs, produtividade, sistemas econômicos, instituições e incentivos econômicos e troca, dinheiro e interdependência. O problema econômico fundamental é a escassez. Como consequência, entender a economia também sob esse prisma, de como a sociedade aloca seus recursos, tende a fundir, senão sobrepor parcial- mente, o planejamento econômico normativo e o estudo empírico de como os agentes econômicos operam nessas condições. Foi explicado que, na área econômica, os termos fronteira de possibilidade de produção e curva de possibilidade de produção são sinônimos. O conceito se associa a um gráfico, na forma de uma curva, que mostra várias combina- ções das quantidades de dois bens que podem ser produzidos dentro dos re- cursos e das tecnologia disponíveis. No contexto da interpretação de uma curva de possibilidade de produção, o cus- to de oportunidade está diretamente relacionado ao formato do gráfico. É sabido que se o formato da curva for linear, o custo de oportunidade será constante confor- me a produção de diferentes mercadorias estiver mudando; entretanto, o custo da oportunidade geralmente varia dependendo dos pontos de partida e de chegada. Na economia, fatores de produção – também denominados recursos ou in- sumos – são usados no processo produtivo para que se viabilize a elaboração de produtos resultantes desse processo – ou seja, bens e serviços acabados. O que produzir? Como produzir e em que quantidades? Quem recebe a produção? Estas questões-chave direcionam a proposição de sistemas econô- micos, geralmente segmentados pelo regime de direitos de propriedade dos meios de produção e pelo mecanismo dominante de alocação de recursos Finalmente, não resta dúvida que a Economia está intimamente relaciona- da a muitas outras ciências, como Sociologia, Psicologia, Direito, Ecologia etc. Disso decorre que a divisão do estudo econômico se dê em função do consumo de riqueza, da sua produção, se sua troca e de sua distribuição. 49 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 49 10/03/20 14:36 Referências bibliográficas COMPORTAMENTO econômico com Flávia Ávila. Postado por Canal Futura. (12min. 10s.). son. color. port. Disponível em: . Acesso em: 02 mar. 2020. DALY, H.; FARLEY, J. Ecological economics: principles and applications. Washington: Island Press, 2003. MARTIN, A.; PETERSEN, M. Poverty alleviation as an economic problem. Dis- ponível em: . Acesso em: 02 mar. 2020. O’HARA, F. Introduction to economics. Londres: Forgotten Books, 2015. OUTHWAITE, W.; BOTTOMORE, T. The Blackwell dictionary of twentieth– century social thought. 2. ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 1994. ROSSER, J.; ROSSER, M. Comparative economics in a transforming world economy. 2. ed. Cambridge: MIT Press, 2018. SAMUELSON, P.; NORDHAUS, W. Microeconomics. 19. ed. Nova Iorque: McGraw Hill Education, 2013. SAUNDERS, P.; GILLIARD, J. A framework for teaching basic economic con- cepts: with scope and sequence guidelines, K-12. Nova Iorque: Council for Economic Education, 2005. TANGEN, S. Understanding the concept of productivity. Disponível em:. Acesso em: 02 mar. 2020. 50 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 50 10/03/20 14:36 FUNDAMENTOS DE ECONOMIA E ADMINISTRAÇÃO 2 UNIDADE SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 51 10/03/20 14:34 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Compreender os fatores inerentes às funções de oferta e de demanda; Avaliar os aspectos que determinam o comportamento de equilíbrio e de desequilíbrio de mercado; Aplicar a teoria da elasticidade para dimensionar correlações entre variáveis de um estudo econômico e identificar o ponto de maximização de receita. Introdução à teoria da demanda Deslocadores da demanda Fatores que afetam a função demanda Renda do consumidor Preços de bens relacionados Publicidade e preferência do consumidor População Expectativas do consumidor Outros fatores Modelagem da função demanda Excedente do consumidor Introdução à teoria da oferta Deslocadores da oferta Fatores que afetam a função oferta Preços dos insumos Nível de tecnologia e regula- ções governamentais Número de empresas no mercado Substitutos para produção Impostos Expectativas dos produtores Modelagem da função oferta Excedente do produtor O ponto de equilíbrio O desequilíbrio de mercado Teoria da elasticidade Receita total e elasticidade 52 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 52 10/03/20 14:34 Introdução à teoria da demanda O planejamento é a base do sucesso empresarial (O’HARA, 2015). Nesses termos, as empresas procuram um mínimo de antevisão da consequência de possíveis decisões a serem tomadas. Supondo que uma fabricante de roupas busque informações sobre o impacto da precifi cação de suas jaquetas para o atendimento de determinado nicho de consumidores, por exemplo, é comum que se invista em pesquisas de mercado. A pesquisa, nesse caso, serviria para informar quantas unidades de jaqueta os consumidores comprariam a cada ano para cada possível opção de preço. Os valores revelados por essa pesquisa poderiam ser como os ilustrados na Tabela 1. Nela se identifi ca que, caso a jaqueta custasse R$ 100, seriam vendi- das 60.000 unidades do produto por ano. Já com o preço de R$ 300, o que se conseguiria seria a venda de 20.000 unidades por ano. PREÇO DA JAQUETA (R$) QUANTIDADE DE JAQUETAS VENDIDAS POR ANO (MIL PEÇAS) RENDA MÉDIA MENSAL DO CONSUMIDOR (R$) GASTOS COM PROPAGANDA (R$ MIL) PREÇO UNITÁRIO MÉDIO DAS CALÇAS JEANS (R$) 0 80 2.500 50 80 50 70 2.500 50 80 100 60 2.500 50 80 150 50 2.500 50 80 200 40 2.500 50 80 250 30 2.500 50 80 300 20 2.500 50 80 350 10 2.500 50 80 400 0 2.500 50 80 TABELA 1. PESQUISA DE MERCADO PARA JAQUETAS PARA DETERMINADO NICHO DE MERCADO Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). Sempre que não há risco de cair em ambiguidade, é comum, por econo- mia de fala, que se diga simplesmente “preço” no lugar de “preço por par” ou 0 50 100100 80 150 200 70 200 60 250 300 50 300 2.500 40 350 2.500 2.5002.500 30 400 2.500 20 2.500 20 2.500 10 50 2.5002.500 0 50 2.500 50 2.500 2.5002.500 50 2.500 80 50 2.500 2.5002.500 80 50 8080 50 80 50 80 50 80 80 80 80 53 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 53 10/03/20 14:34 “preço por unidade”. Por exemplo, se alguém diz que o preço da gasolina é R$ 3,89 em um posto de com- bustíveis de determinada rua, qualquer um enten- de que esta pessoa está se referindo ao preço de R$ 3,89 por litro do produto. Um olhar mais atento à Tabela 1 revela, ainda, que os únicos valores variantes são os referentes aos preços da jaqueta e da quantidade de jaquetas vendidas por ano. Todos os demais campos que cer- tamente influenciam as decisões de compra do consumidor, por exemplo, sua renda média, propaganda e até mesmo o preço de outros bens, como calças jeans, mostram-se constantes. De fato, a pesquisa de mercado não questiona potenciais consumidores de variados níveis de renda e expostos a diferentes tipos de propaganda, ela simplesmente procura determinar quanto seria com- prado diante de alternativas de preços. Objetivamente, o que a pesquisa de mercado revela é que, mantendo todos os outros aspectos constantes, a quantidade de jaquetas que os consumidores estão dispostos e aptos a comprar diminui à medida que o preço aumenta. Conforme frisam Baye e Prince (2016), esse é o princípio econômico fundamental conhecido como lei da demanda: preço e quanti- dade demandada inversamente relacionados. Isso significa que, conforme o preço de um bem aumenta, e todos os outros fatores permanecem cons- tantes, a quantidade demandada do bem diminui. Isso equivale a dizer que, consequentemente, manter constantes os demais itens de influência de decisão de compra diminui o preço de um bem e aumenta sua quanti- dade demandada. É evidente que, diante do revelado pela pesquisa de mercado, é inútil extrapolar o levantamento dos dados da Tabela 1 para, por exemplo, mais que R$ 400 o preço da jaqueta, uma vez que já se identificou o ponto em que não há mais demanda para preços maiores. Igualmente, não é costu- me considerar os valores de demanda para preços menores que o custo ou mesmo preço zero, salvo identificação de possíveis políticas de subsídio, campanhas promocionais de sacrifício da lucratividade de um produto, em prol de outro de um portfólio, e medidas afins. 54 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 54 10/03/20 14:34 Figura 1. Curva de demanda do mercado. Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). 400 350 300 250 200 150 100 0 10 20 30 40 50 60 70 80 Quantidade (milhares por ano) Preço (R$) 50 Na Figura 1 são traçados os dados disponíveis na Tabela 1, mais precisamen- te, os aspectos de interesse quantidade demanda e preço. A linha reta que liga esses pontos, denominada curva de demanda do mercado, interpola as quantidades que os consumidores estariam dispostos e/ou seriam capazes de comprar a preços não explicitamente tratados na pesquisa de mercado. Usando essa ferramenta gráfi ca, é fácil concluir, por exemplo, que os consumidores esta- riam dispostos e poderiam comprar 35.000 jaquetas a um preço de R$ 225, uma vez que todas as demais variáveis permanecem inalteradas. Observa-se que a linha está inclinada para baixo, o que refl ete a lei da demanda, e que todos os outros fatores que infl uenciam a demanda são mantidos constantes em cada ponto da linha. Deslocadores da demanda Os estudos econômicos reconhecem que outras variáveis além do preço do produto afetam a demanda. Por exemplo, o número de jaquetas que as pessoas estão dispostas e são fi nanceiramente capazes de comprar também depende de aspectos como o preço de outras peças de roupa, renda do consu- 55 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 55 10/03/20 14:34 midor, nível de investimento em publicidade e assim por diante. Baye e Prince (2016) destacam que outras variáveis que não sejam o preço do produto e que infl uenciam a demanda são conhecidas como deslocadores da demanda. Quando se representa grafi camente a curva de demanda para um produto qualquer, salvo o preço, os demais aspectos são mantidos constantes. Uma curva de demanda típica é identifi cada por D0, como na Figura 2. Figura 2. Mudanças na demanda. Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). Preço Aumento da demanda A BDiminuição da demanda 0 D2 D0 D1 Quantidade O movimento ao longo de uma curva de demanda, como o movimento de A para B sobre D0, é chamado de mudança na quantidade demandada. Sem- pre que aspectos como publicidade, renda ou preço de bens relacionados mu- dam, implica em uma mudança na demanda, mudando a posição de toda a sua curva. Um deslocamento para a direita na curva da demanda (como em D1) é chamado de aumento da demanda, pois mais unidades do produto são deman- dadas a cada preço. Por sua vez, uma mudança para a esquerda na curva de demanda (como em D2) é chamada de diminuição na demanda. Fatoresque afetam a função demanda Uma vez entendida a importante distinção entre uma mudança em uma curva de demanda e um movimento ao longo de uma determinada curva, cabe analisar a 56 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 56 10/03/20 14:34 infl uência dos cinco deslocadores clássicos sobre a demanda: renda do consumidor, preços de bens relacionados, publicidade e prefe- rência do consumidor, população, e expectativas do consumidor. Renda do consumidor Como a renda afeta a capacidade de compra dos consumidores, mudanças nessa variável afetam sensivelmente a compra de produtos pelos consu- midores por qualquer preço. Em termos gráfi cos, é inevitável que uma mudança na renda mude toda a curva de demanda. O aumento na renda muda a cur- va de demanda para a direita ou para a esquerda, dependendo da natureza dos padrões de consumo. Tanto é assim que os economistas usualmente distin- guem dois tipos de bens: produtos normais e produtos inferiores. Por defi nição, um bem cuja demanda aumenta (muda para a direita) quando a renda do consumidor aumenta é chamado de produto normal. Nessa categoria, estão inclusos itens de consumo como carne, viagens aé- reas e roupas de grife. Afi nal, à medida que a renda aumenta, os consumi- dores geralmente compram mais desses produtos a qualquer preço. Por outro lado, quando os consumidores sofrem uma diminuição na renda, a demanda por um bem normal diminui (muda para a esquerda). Daly e Farley (2003) observam que as mudanças na renda tendem a ter efeitos profundos na demanda por bens duráveis, e esses efeitos são ge- ralmente amplifi cados nos países em desenvolvimento e nas áreas rurais. Baye e Prince (2016) relatam, por exemplo, que em 2004 os agricultores da Índia desfrutaram de maiores rendimentos graças ao impacto de monções benéfi cas nas colheitas. Como resultado, a demanda por tratores e motoci- cletas nas áreas rurais indianas aumentou, quase triplicando o nível de de- manda do ano anterior. Contudo, em 2009, esse ritmo de demanda regrediu devido a reduções signifi cativas na renda dos consumidores, decorrentes da recessão econômica global. Justamente por ser revés de efeito mundial, a de- 57 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 57 10/03/20 14:34 manda por bens duráveis nos países desenvolvidos também diminuiu drasti- camente, e, assim, as montadoras foram duramente atingidas. CURIOSIDADE Monções são ventos que mudam de direção de acordo com as estações do ano. Levam o ar úmido do oceano para o continente em determinada época, e o ar seco da terra para o mar noutro momento. Esse fenômeno ocorre em quase 1/4 da área tropical do globo. Contudo, seus efeitos mais visíveis se dão nas regiões Sul e Sudeste da Ásia, especialmente na Índia, no Paquistão e em Bangladesh. Lá, as monções são responsáveis por chuvas torrenciais no verão, mas deixam a região praticamente à míngua no inverno. Na Índia, a importância das monções é tamanha que, se as chuvas não ocorrem na intensidade e no momento que se espera, o plantio de arroz, principal atividade econômica da região, fi ca seriamente comprometido. No entando, em alguns casos, o aumento na renda reduz a demanda por um bem. Nesse caso, os economistas se referem a este bem como um bem inferior. Mortadela, viagens de ônibus e roupas “genéricas” são típicos exem- plos dessa categoria. O comportamento que se observa é que, à medida que a renda aumenta, os consumidores normalmente consomem menos desses produtos a cada preço. É importante ressaltar que, apesar do nome da ca- tegoria, não se trata necessariamente de produtos de baixa qualidade, mas que são mais facilmente preteridos quando o consumidor tem melhor poder de compra, e pode, por exemplo, comprar comida mais requintada, viajar de avião no lugar de ônibus e investir em roupas de grife. Com efeito, ele compra menos bens inferiores quando a renda aumenta, e mais quando a renda cai. Preços de bens relacionados Mudanças nos preços de bens relacionados geralmente alteram a curva de demanda por um bem. Por exemplo, se o preço do leite vegetal à base de soja aumentar, boa parte de seus consumidores começará a substituí-lo por néctar de fruta, pelo preço relativo da bebida à base de soja estar mais alto do que antes. À medida que mais e mais consumidores fazerem essa transição de um produto para outro, a quantidade exigida de néctar de fruta a cada preço tende a aumentar. Portanto, um aumento no preço da bebida à base de soja aumenta 58 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 58 10/03/20 14:34 a demanda por néctar de fruta. Isso é ilustrado por uma mudança na demanda do suco néctar de fruta para a direita. Os bens que se comportam dessa maneira são conhecidos como substitu- tos. Inúmeros são seus exemplos: carne de frango e bovina, serviços de trans- porte privado por aplicativos de mobilidade urbana, capas de chuva e guarda- -chuvas, etc. Esses binômios são entendidos como opções de substitutos para a maioria dos consumidores. No entanto, os substitutos não precisam ter a mesma função. Por exemplo, televisores e outros itens de mobiliário poderiam ser substitutos: à medida que o preço das televisões aumenta, consumidores podem optar por adquirir móveis adicionais para a casa em vez de uma tele- visão adicional. Bens são substitutos quando o aumento no preço de um bem aumenta a demanda por outro. Nem todos os bens são substitutos. Com efeito, o aumento no preço de um bem, como um seguro de automóvel, pode levar os consumidores a comprar menos automóveis a cada preço. Os bens que interagem dessa maneira são chamados de complementos. A cerveja e o amendoim são outros exemplos de bens complementares. Se o preço da cerveja aumenta, boa parte de seus apreciadores diminui o consumo de amendoim. Observa-se que, quando um produto X é um complemento de um produto Y, uma redução no preço do produto Y provoca aumento (desloca- mento para a direita) na demanda pelo produto X. Mais do X é comprado a cada preço devido à redução no preço do complemento, que é o Y. Publicidade e preferência do consumidor Outra variável que é mantida constante ao desenhar uma curva de de- manda é o nível de publicidade. Um aumento na publicidade muda a curva de demanda para a direita, de D1 para D2, como indica a Figura 3. Observa-se que o impacto da publicidade sobre a demanda pode ser interpretado de duas ma- neiras: na curva de demanda inicial D1, por exemplo, os consumidores compra- riam 50.000 unidades de um produto de alto padrão por mês, condicionado ao preço de R$ 400. Após a publicidade, a curva de demanda mudaria para D2, e os consumidores passariam, então, a comprar 60.000 unidades do produto ao mesmo preço de R$ 400. Como alternativa, quando a demanda é D1, e os consu- 59 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 59 10/03/20 14:34 midores pagam um preço de R$ 400 consumindo 50.000 unidades do produto, a publicidade muda a curva de demanda para D2, para que eles paguem um preço mais alto (R$ 500) pelas mesmas 50.000 unidades. Figura 3. Publicidade e demanda para produtos de alto padrão. Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). R$ 500 50.000 60.000 Preço de produto de alto padrão Devido ao aumento de publicidade D 1 D 2 Quantidade de produtos de alto padrão 0 R$ 400 Por que a publicidade muda a demanda para a direita? O que ocorre é que a publicidade geralmente provê aos consumidores informações sobre a existên- cia ou a qualidade de um produto, o que, por sua vez, induz mais consumidores a comprar o produto. Esse tipo de mensagem publicitária é conhecido como publicidade informativa. Por outro lado, a publicidade também pode infl uenciar a demanda ao al- terar os gostos subjacentes dos consumidores. Por exemplo, uma campanha publicitária que promova a moda mais recente no vestuário pode aumentar a demanda por um item de moda específi co, fazendo com que os consumidores o percebam como mais imprescindível do que antes. Por esse motivo, esse tipo demensagem publicitária é conhecido como publicidade persuasiva. População A demanda por um produto também é infl uenciada por mudanças no ta- manho e na composição da população, nos seus atributos de quantidade e qualidade. No geral, conforme a população aumenta, mais e mais pessoas de- 60 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 60 10/03/20 14:34 sejam comprar determinado produto, e isso tem o efeito de mudar a curva de demanda para a direita. Por exemplo, é notório que, ao longo do século XX, a curva de demanda por produtos alimentícios mudou consideravelmente para a direita em função do aumento da população mundial. De todo modo, é importante observar que mudanças na composição da população também podem afetar a demanda por um produto, por exemplo, no que tange ao atributo qualitativo da idade das pessoas: uma vez que os con- sumidores de meia-idade revelem desejos sensivelmente distintos dos tipos de produtos que os aposentados almejam, um aumento no número de consumi- dores na faixa etária de 30 a 40 anos recai sobre a demanda por produtos como imóveis. Do mesmo modo, à medida que uma parcela maior da população en- velhece, a demanda por serviços médicos tende a aumentar. Expectativas do consumidor Mudanças nas expectativas do consumidor também podem alterar a posi- ção da curva de demanda de um produto. Por exemplo, se os consumidores de repente esperarem que o preço dos automóveis majore signifi cativamente no próximo ano, por uma política de subsídio de preços que perca efeito, por exemplo, a demanda por automóveis no momento presente vai aumentar. De fato, comprar um carro hoje é um substituto para a compra de um carro no próximo ano. Ao mesmo tempo, se os consumidores esperarem que os preços futuros fi quem mais baixos, eles vão substituir as compras atuais por compras futuras. Esse tipo de comportamento do consumidor, de antecipação de compra por percepção de preço melhor, geralmente é chamado de armazenamento em es- toque, que ocorre quando os produtos são de natureza durável. Às vezes se observa esse comportamento também para bens durá- veis menos caros. Os consumidores podem resolver arma- zenar sabão em pó em casa em resposta a uma campa- nha promocional em supermercados. Por outro lado, a demanda atual por um produto perecível, como fru- tas, geralmente não é afetada pelas expectativas de preços futuros mais altos. 61 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 61 10/03/20 14:34 Outros fatores Qualquer variável, que não o preço, que afete a disposição ou a capacida- de dos consumidores de comprar um produto, é um deslocador de demanda. Nos estudos econômicos, há cinco deslocadores que são considerados clássicos, pelo alto grau de infl uência que têm sobre a demanda. Evidente- mente, não são os únicos fatores. Cada indústria e cada segmento podem ter suas particularidades, que revelem aspectos com maior ou menor grau de infl uência no que tange à demanda. Por exemplo: fumantes que tenham enfrentado problemas de saúde decorrentes de seu vício podem afetar subs- tancialmente a demanda por cigarros. O nascimento de um bebê altera subs- tancialmente o planejamento doméstico das famílias, implicando, entre ou- tros, em aumento de demanda por fraldas. ASSISTA No episódio A renda da família brasileira da série Entre- vista, do canal Futura, o economista Sany Dana entrevista o publicitário e pesquisador Renato Meirelles, que explica metodologias, como a pesquisa etnográfi ca, para o estudo mais realista do comportamento do consumo doméstico das famílias brasileiras. Modelagem da função demanda Vários aspectos infl uenciam a demanda por determinado produto em um dado mercado. Gráfi cos podem ser usados para ilustrar os diferentes tipos e níveis de infl uência. O passo fi nal da análise da demanda de mercado é a fun- ção demanda: uma modelagem matemática que sumariza todos os fatores de infl uência em uma única equação. A função demanda para um produto X descreve quantas unidades serão compradas, a preços variados, dele e de bens relacionados, de diferentes ní- veis de rendimento do consumidor, e de outras variáveis que possam afetar signifi cativamente a demanda. Considerando a fórmula: Qx d = f(Px , Py , M, H) 62 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 62 10/03/20 14:34 Tem-se: Qx d representa a quantidade demandada de um produto X; Px é o preço do produto X; Py é o preço de um bem relacionado; M é a renda do consumidor; H é o valor de qualquer outra variável que afete a demanda, como nível de investimento em publicidade, tamanho da população, etc. A função demanda reconhece explicitamente que a quantidade de absor- ção de um bem no mercado depende de seu preço e de deslocadores da de- manda. Naturalmente, diferentes produtos terão funções demanda distintas, com formatos diferentes. Um formato bastante simples, mas especialmente útil, é a representação linear da função demanda. Nela, constata-se que a de- manda é linear se Qx d for uma função linear de preços, renda e outras variáveis que influenciem a demanda. A seguinte equação é um exemplo de função de demanda linear: Qx d = α0 + αxPx + αyPy + αMM + αHH Os coeficientes αn são valores constantes que a área de pesquisa de uma empresa ou uma consultoria econômica contratada usualmente provê para uma gestão. Eles dosam precisamente o grau de influência de cada aspecto considerado no resultado final da equação. Pela lei da demanda, um aumento em Px leva ao decréscimo na quantidade demandada do produto X. Isto signi- fica que αxQx d = 6.060 - 3Px Isolar a variável do preço do produto X na fórmula implica reescrever a equação em um formato conhecido como função demanda inversa, especial- mente útil para traçar gráfico, uma vez que o mais usual é dispor o preço como variável do eixo vertical. Para o presente exemplo, equivale à expressão: Px = 2.020 - 1 3 Qx d O gráfico correspondente é ilustrado na Figura 4. Traduzindo o levanta- mento da pesquisa de mercado, primeiro para um modelamento matemático e depois para uma apresentação visual, fica revelado quanto os consumido- res desejam e estão aptos a pagar por cada unidade adicional do produto X. 64 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 64 10/03/20 14:34 Preço R$ 2.020 0 6.060 Quantidade Px = 2.020 - Qd x 1 3 Figura 4. Representação gráfi ca da função demanda inversa. Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). Excedente do consumidor A capacitação para utilizar a curva de demanda, a fi m de determinar o valor que um consumidor ou grupo de consumidores recebe de determinado produto, é uma competência gerencial importante. Este conhecimento é es- pecialmente útil em marketing e outras disciplinas que enfatizam estratégias como precifi cação e discriminação de preços. Pela lei da demanda, o valor que um consumidor está disposto a pagar por uma unidade adicional de um bem diminui à medida que este bem é consu- mido. É possível imaginar, por exemplo, a demanda imediata de um atleta por água após participar de uma corrida de 10 km. Inicialmente, não é de se sur- preender que ele esteja disposto a pagar um preço bastante alto, – supondo, para ilustrar, R$ 5,00 por litro – para beber a primeira dose d’água. Contudo, conforme o atleta consome mais água, o valor que ele está disposto a pagar por uma dose a mais diminui de R$ 5,00 para R$ 4,99, e assim por diante, acompanhando a redução na curva da demanda. Tal situação é ilustrada pela Figura 5. 65 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 65 10/03/20 14:34 Preço por litro Excedente do consumidor Preço Px 0 Qx 0 (a) (b) D D Quantidade (litros) Quantidade0 01 1 2 2 3 3 4 4 5 5 Figura 5. Excedente do consumidor. Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). Pelo gráfico, depois de consumir 1 litro inteiro de água, a disposição do atleta é pagar apenas R$ 4,00 por litro para uma próxima dose. Depois de consumir 2 litros de água, a disposição de consumo dele é limitada a R$ 3,00 por litro por uma eventual dose adicional. Para se encontrar o valor total ou benefício de 2 litros de água, basta adicio- nar o valor máximo que o atleta estava disposto a pagar por cada gota disponí- vel, entre 0 e 2 litros. Esse valor corresponde à área abaixo da curva de demanda no gráfico (a) da Figura 5, até a quantidade de 2 litros. Como a área desta região é de R$ 8, o valor total advindo de 2 litros de água é R$ 8. Obviamente, não é preciso pagar preços diferentes pelas diferentes gotas de água que se consome. Em vez disso, o consumidor enfrenta um suposto preço uni- tário de R$ 3 por litro e compra quantas “gotas” desejar (mililitros ou mesmo litros) por esse preço. Dada a curva de demanda do gráfico (a) (Figura 5), quando o preço for R$ 3, a opção será comprar 2 litros de água. Nesse caso, a despesa total desem- bolsada pelos 2 litros de água é de R$ 6. Como o consumidor avalia 2 litros de água a R$ 8 e paga apenas R$ 6 para sua aquisição, a percepção é de receber R$ 2 em valor agregado na operação. Esse valor “extra” é conhecido como excedente do consumidor, isto é, o valor que os consumidores usufruem de um bem, mas que não precisam pagar por ele. Esse conceito é importante para os gestores empre- sariais, porque indica quanto dinheiro extra os consumidores estariam dispostos a pagar por uma determinada quantidade de um produto adquirido. 66 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 66 10/03/20 14:34 Na interpretação gráfi ca, o excedente do consumidor é a área acima do preço pago por um bem, mas abaixo da curva de demanda. O triângulo hachurado no gráfi co (b) da Figura 5 ilustra precisamente o excedente do consumidor que compra Qx 0 unidades de um produto a um preço de Px 0 . Para entender a razão, é preciso considerar que cada ponto da curva de demanda indica o valor para o consumidor de outra unidade do bem. A diferença entre cada preço na curva de demanda e o preço Px 0 pago representa um excedente, o valor pelo qual o con- sumidor acaba não pagando. Quando somados os superávits recebidos para cada unidade entre 0 e Qx 0 (soma correspondente à região sombreada), é obtido o excedente do consumidor associado à compra de Qx 0 unidades do produto a um preço de Px 0 cada. EXPLICANDO Superavit, palavra do latim, também escrita na versão aportuguesada “superávit”, é um termo econômico aplicado em diversas áreas do conhe- cimento. Na visão contábil, superávit é o termo genérico que se atribuiu a uma conta de balanço de empreendimentos com fi nalidades lucrativas ou da administração pública, que usualmente corresponde à conta “lucro do exercício” dos balanços empresariais das organizações empresariais. Assim, gestores empresariais podem utilizar a noção de excedente do consumidor para determinar o valor total que consumidores estariam dis- postos a pagar por pacotes de várias unidades de consumo de um produto ofertado. Introdução à teoria da oferta Pode-se afi rmar que metade das forças que determinam o preço em um mercado diz respeito a questões inerentes à demanda. A outra metade refe- re-se à oferta. Ocorre que, em um mercado competitivo como é a realidade imposta à ampla maioria dos segmentos de exploração econômica, existem inúmeros produtores de bens e serviços, cada um produzindo uma oferta si- milar em maior ou menor grau. Sendo assim, a curva de oferta de mercado sintetiza a quantidade total de itens que todos os produtores estão dispostos e capazes de produzir a preços alternativos, mantendo todos os outros fatores que afetam a oferta constantes. 67 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 67 10/03/20 14:34 Embora a oferta de mercado de um item dependa de muitas variáveis, na representação gráfi ca da curva de oferta, salvo o preço, tudo se mantém constante. O movimento ao longo de uma curva de oferta, como o de A para B na Figura 6, é chamado de mudança na quantidade ofertada. O fato da curva de oferta do mercado se inclinar para cima refl ete a lei inversa da oferta: à medida que o preço de um bem aumenta ou cai, e outros aspectos perma- necem constantes, a quantidade fornecida do bem aumenta, ou cai. Dito de outra forma, os produtores estão naturalmente dispostos a produzir mais quando o preço está alto do que quando está baixo. Figura 6. Mudanças na oferta. Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). Preço Redução na oferta A B Aumento na oferta S 1 S 0 S 2 Quantidade Deslocadores da oferta A mudança de S0 para S2, na Figura 6, é chamada de aumento da oferta, uma vez que os produtores vendem mais unidades de produção a cada preço. Por sua vez, a mudança de S0 para S1 representa uma diminuição na oferta, visto que os produtores vendem unidades de produção a cada preço. De forma análoga ao que ocorre com as análises da demanda, os estudos econômicos também reconhecem que diversas variáveis infl uenciam a oferta. 68 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 68 10/03/20 14:34 Outras variáveis que não sejam o preço do produto e que infl uenciam a oferta são conhecidas como deslocadores da oferta (BAYE; PRINCE, 2016). Fatores que afetam a função oferta As variáveis que afetam a posição da curva de oferta, os deslocadores da oferta, incluem os preços dos insumos, o nível de tecnologia e regulações go- vernamentais, o número de empresas no mercado, os substitutos para produ- ção, os impostos e as expectativas dos produtores. Sempre que uma ou mais dessas variáveis são alteradas, a posição de toda a curva de oferta muda. Essa alteração é conhecida como mudança na oferta. Preçosdos insumos A curva de oferta revela quão dispostos os produtores estão a pro- duzir a preços alternativos. Conforme os custos de produção mu- dam, o ímpeto dos produtores de produzir seus bens e serviços a determinado preço muda. Em particular, à medida que o preço de um insumo aumenta, os produtores estão dis- postos a produzir menos produtos a cada preço. Então, essa diminuição na oferta é representada como uma mudança para a esquerda na curva de oferta. Nível de tecnologia e regulações governamentais Mudanças nos aspectos de tecnologia e regulamentações governa- mentais também podem afetar a posição da curva de oferta. Alterações que possibilitam entregar uma unidade de produção a um custo menor têm o efeito de aumentar a oferta. Por outro lado, falhas inerentes às incertezas subjacentes a novas tecnologias, por exemplo, uma eventual confirmação de efeito danoso do uso de transgênicos, e súbitas modifi- cações regulatórias, como mudanças de governo que podem implicar em insegurança jurídica para investimentos, mudam a curva de oferta para a esquerda. 69 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 69 10/03/20 14:34 Número de empresas no mercado A quantidade de empresas presentes em um setor afeta a posição da curva de oferta. Ao passo que empresas adicionais adentram o setor, mais e mais produtos estão disponíveis a cada preço. Isso se reflete em uma mudança para a direita na curva de oferta. Da mesma forma, enquanto as empresas saem do setor, menos unidades são ofertadas a cada preço, e quando a oferta diminui, o gráfico é deslocado mais para a esquerda. Substitutos para produção Muitas empresas possuem tecnologias prontamente adaptáveis a vá- rios produtos diferentes. É o que comumente se denomina plataformas tecnológicas. Uma montadora, por exemplo, pode converter uma fábrica de monta- gem de caminhões em uma fábrica de automóveis, alterando suas insta- lações de produção. Quando o preço dos carros aumenta, essa empresa pode converter algumas de suas linhas de montagem de caminhões em li- nhas de montagem para aumentar a quantidade de carros fornecidos. Isso tem o efeito de mudar a curva de oferta de caminhões para a esquerda. Impostos A posição da curva de oferta também é bastante afetada por impostos. Um imposto especial de consumo se impõe como um valor fixo cobrado a cada unidade de produção vendida, sendo a receita tributária coletada diretamente do fornecedor. Suponha-se que, devido a um novo imposto em caráter especial, o governo passe a cobrar R$ 0,20 por litro de gasolina. Como cada fornecedor deverá pagar esse valor por litro de gasolina, cada um precisará agregar na venda um adicional de R$ 0,20 por litro para estar disposto a fornecer a mesma quantidade de gasolina de antes do imposto. Um imposto especial de consumo perturba a curva de oferta, conforme ilustra a Figura 7. Observa-se que os fornecedores estão dispostos a ven- 70 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 70 10/03/20 14:34 der a dado preço menos gasolina com imposto do que sem imposto. Con- sequentemente, um imposto especial de consumo tem o efeito de diminuir a oferta de um bem. Preço da gasolina Quantidade de gasolina por semana t = Imposto unitário de R$ 0,20 t = 20¢ S0 + t S0 t $1,20 $1 Figura 7. Imposto fixo por unidade produzida. Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). Outra forma de imposto bem mais comum adotada nas políticas governa- mentais é o imposto ad valorem, que significa literalmente “com o valor”. É o que ocorre, por exemplo, no sistema fiscal brasileiro com o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Um imposto ad valorem é um imposto percentual, sendo o imposto sobre vendas um exemplo típico. Nessa situação, se o preço de um bem for de R$ 1 e um imposto ad valorem de 10% for aplicado a esse produto, o preço final após o imposto será de R$ 1,10. Como um imposto ad valorem é um imposto percentual, ele consequentemente se torna mais alto para produtos mais caros. Na Figura 8, S0 representa a curva de oferta de um produto antes de vigorar a incidência de um imposto ad valorem de 20%. Observa-se no exemplo que 1.100 produtos são ofertados para venda quando o preço unitário é de R$ 10, e 2.450 produtos, quando o preço é de R$ 20. 71 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 71 10/03/20 14:34 Preço do produto S1 = 1,20 X S0 S0 R$ 24 R$ 20 R$ 12 R$ 10 0 1.100 2.450 Quantidade de produtos por semana Figura 8. Imposto ad valorem. Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). Contudo, uma vez vigente o imposto de 20%, o preço necessário para pro- duzir cada unidade aumentará 20% em qualquer nível de produção. Portanto, o preço vai aumentar R$ 2 para um lote de 1.100 unidades, e R$ 4 num lote de 2.450 unidades. Um imposto ad valorem gira a curva de oferta no sentido anti-horário, e a nova curva se afasta da curva original à medida que o preço aumenta. Isso explica a razão de S1 ser mais íngreme que S0 na Figura 8. Expectativas dos produtores Segundo Daly e Farley (2003), as expectativas do produtor sobre preços futuros também afetam a posição da curva de oferta. De fato, as alterna- tivas de vender uma unidade produzida hoje e vender a mesma unidade produzida amanhã são mutuamente substitutas para a produção. Se por qualquer motivo as empresas subitamente esperarem que os preços se- jam mais altos no futuro e não se trate de produto perecível, os produtores podem partir para uma estratégia de estocagem, retendo a produção atual e a vendendo mais tarde a um preço mais alto. Isso tem o efeito de deslo- car a curva de oferta atual para a esquerda. 72 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 72 10/03/20 14:34 Modelagem da função oferta Uma vez compreendidas as características da oferta, reconhecendo os fato- res que infl uenciam a posição em uma curva de oferta, o passo fi nal da análise econômica é a função oferta: uma modelagem matemática que sumariza to- dos os fatores de infl uência em uma única equação. A função oferta para um produto X descreve quantas unidades serão pro- duzidas a preços variados do item X, com diferentes níveis de preços de insu- mos e de outras variáveis que possam afetar signifi cativamente a oferta. Considerando a fórmula: Qx S = f(Px ,Pr , W, H) Tem-se: Qx S representa a quantidade ofertada de um produto X; Px é o preço do produto X; Pr é o preço de bens tecnologicamente relacionados; W é o preço dos recursos empregados (tal como salários); H é o valor de qualquer outra variável que afete a oferta, como tecnologia existente, expectativas dos produtores, etc. A função oferta reconhece explici- tamente que a quantidade disponibili- zada de um bem no mercado depende não apenas de seu preço, mas também dos deslocadores da oferta. Embora diferentes formatos dessa função se apliquem aos mais diversos produ- tos, um formato bastante corriqueiro e efetivo é a representação linear da função oferta: nela se constatará que a oferta é linear se Qx S for uma função linear de preços, insumos e outras va- riáveis que infl uenciem a oferta. A seguinte equação é um exemplo de função de oferta linear: Qx S = β0 + βxPx + βrPr + βWW + βHH 73 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 73 10/03/20 14:35 Os coeficientes βn são valores constantes que a área de pesquisa da empre- sa ou a consultoria econômica contratada usualmente proveem para a gestão. Eles são, precisamente, a dosagem do grau de influência de cada aspecto con- siderado no resultado final da equação. Por exemplo: uma consultoria especializada poderia entregar ao seu cliente fabricante de televisores a seguinte equação como resultado dos es- tudos realizados: Qx S = 2.000 + 3Px - 4Pr - 1Pw Neste caso, Px é o preço de um televisor, Pr representa o preço de monitores de computador e Pw é o preço de um recurso qualquer consumido na produção de televisores. Supondo que o televisor seja vendido pelo preço unitáriode R$ 400, os monitores de computador por R$ 100, a renda do consumidor seja R$ 10 mil, e o preço dos insumos seja R$ 2.000, a questão de interesse mais ime- diato a se responder é: quantos televisores conseguem ser produzidos nessas condições? Substituindo os valores na equação dada, tem-se: Qx S = 2.000 + 3(400) - 4(100) - 1(2.000) A produção resultante, portanto, é de 800 unidades de televisores. Mais importante que o efeito de deixar o preço do produto X como variável, a única no lado direito da equação, é deixá-lo constante. Isso permite desenvol- ver a fórmula para que se resulte simplificadamente em: Qx S = 3Px - 400 Isolar a variável do preço do produto X na fórmula implica reescrever a equação em um formato conhecido como função oferta inversa, que é especialmente útil para traçar o gráfico, uma vez que o mais usual é dispor o preço como variável do eixo vertical. Para o presente exemplo, equivale a expressão: Px = +400 1 3 3 Qx S O gráfico correspondente é ilustrado na Figura 9. Traduzindo o le- vantamento da consultoria primeiro para um modelamento ma- temático e depois para uma apresentação visual, fica revelado quanto os produtores devem receber para se motivarem a pro- duzir cada unidade adicional do produto X. 74 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 74 10/03/20 14:35 100 C A B S 0 200 300 400 500 600 700 800 900 Quantidade Preço R$ 400 R$ 400/3 400 1 3 3Px = + Q S x Figura 9. Representação gráfi ca da função oferta inversa. Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). Excedente do produtor Assim como é compreensível que os consumidores desejem que o preço seja o mais baixo possível, os produtores, por sua vez, almejam que o preço seja tão alto quanto possível. A curva de oferta revela, pois, a quantidade que os produtores estão dispostos a produzir a um preço. Além disso, ela indica o preço que as empresas teriam que aproveitar para se dispor a produzir uma unidade adicional de um bem. A curva de oferta na Figura 9, por exemplo, indica que um total de 800 uni- dades será produzido quando o preço for R$ 400. Ainda, se forem produzidas 800 unidades, os produtores terão que receber R$ 400 para serem induzidos a produzir outra unidade do bem. O excedente do produtor é uma situação análoga à do excedente do con- sumidor. É o valor fi nanceiro que os produtores recebem a mais da quantida- de necessária para induzi-los a produzir o bem. No exemplo dado, observa-se mais especifi camente que os produtores estão dispostos a vender cada unida- de de produção abaixo de 800 unidades a um preço inferior a R$ 400. Mas se o preço for de R$ 400, os produtores receberão uma quantia deste valor para Excedente do produtor 75 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 75 10/03/20 14:35 cada unidade de produção abaixo de 800, apesar da disposição de vender es- sas unidades individuais por um preço mais baixo. De uma forma geométrica, o excedente do produtor é a área acima da curva de oferta, mas abaixo do preço de mercado do bem. Assim, a área preenchida na Figura 9 representa os excedentes que os produtores recebem vendendo 800 unidades a um preço de R$ 400, uma quantia acima do que seria neces- sário, efetivamente, para produzir cada unidade do bem. A área sombreada, formada na ilustração por ABC, é o excedente do produtor quando o preço é de R$ 400. Matematicamente, essa área é metade de 800 vezes R$ 266,67, portanto, R$ 106.666,67. O excedente do produtor pode ser uma ferramenta gerencial realmente po- derosa. Supondo que o gerente de uma grande rede de restaurantes compre 10.000 kg de tomates por semana de um fornecedor a um preço de R$ 1,25 por kg, o excedente do produtor que o fornecedor de tomate ganha com a venda de 10.000 kg a R$ 1,25 sinaliza ao gerente do restaurante o valor que o forne- cedor está recebendo além do que estaria disposto a aceitar pelo tomate. Em outras palavras, o excedente do produtor do fornecedor de tomate é a quantia máxima que o restaurante poderia economizar nos custos do tomate, nego- ciando com o fornecedor um lote de 10.000 kg do produto. O ponto de equilíbrio O ponto de equilíbrio, em termos de preço e quantidade em um mer- cado competitivo, é determinado pelas interações de todos os compradores e vendedores num mercado. Os conceitos de oferta e demanda de mercado tornam essa noção de interatividade mais precisa: o preço de um bem em um mercado competitivo é determinado pela interação da oferta e da demanda de mercado deste bem. Racionalizando a análise de mercado para um único bem, toma-se P como preço desse produto e Q como sua respectiva quantidade. A Figura 10 mos- tra as curvas de oferta e demanda do mercado sobrepostas para esse bem. Para se entender como o preço competitivo é determinado, suponha-se ini- cialmente o preço do bem em PL. Esse preço corresponde ao ponto B na cur- va de demanda do mercado; os consumidores desejam comprar Q1 unidades 76 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 76 10/03/20 14:35 daquele item. Ao mesmo tempo, o preço PL corresponde ao ponto A na curva de oferta do mercado; os produtores estão dispostos a produzir apenas Q0 unidades a esse preço. Assim, quando o preço é PL, há uma escassez do bem, isto é, não há produtos suficientes para satisfazer todos os consumidores dis- postos a comprá-los a esse preço. Preço Excedente Quantidade Escassez 0 S GF A B D PH Q0 QC Q1 Pe PL Figura 10. Equilíbrio de mercado. Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). Para Samuelson e Nordhaus (2013), nas situações em que existe escassez, há uma tendência natural para o preço subir. Consumidores incapazes de comprar o bem podem oferecer aos produtores a motivação de um preço mais alto na tentativa de obter o produto. À medida que o preço sobe de PL para Pe, na Figura 10, os produtores têm incentivo para expandir a produção de Q0 para Qe. Ao mesmo tempo, conforme o preço aumenta, os consumido- res estão menos dispostos a comprar aquele bem. Quando o preço sobe para Pe, a quantidade demandada é Qe. A esse preço, apenas a quantidade sufi- ciente do bem é produzida para satisfazer todos os consumidores dispostos e capazes de comprar a esse preço. Nota-se que a quantidade demandada é igual à quantidade ofertada. 77 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 77 10/03/20 14:35 Entretanto, supondo que o preço esteja em um nível mais alto, como PH, pode-se afi rmar que esse preço corresponde ao ponto F na curva de deman- da do mercado, indicando que os consumidores desejam comprar Q0 unida- des do bem. O preço PH corresponde ao ponto G na curva de oferta do mer- cado, e os produtores estão dispostos a produzir Q1 unidades a esse preço. Assim, quando o preço é PH, há um excedente do bem, no sentido de que as empresas estão produzindo mais do que podem vender a um preço de PH. Inevitavelmente, sempre que existe um excedente, há uma tendência na- tural do preço cair para igualar a quantidade fornecida à quantidade deman- dada. Os produtores que não puderem vender seus produtos podem aceitar fechar negócio a um preço mais baixo, na tentativa de reduzir seus estoques não vendidos. Como o preço cai de PH para Pe, os produtores fi cam propensos a reduzir a quantidade fornecida a Qe. Ao mesmo tempo, ao passo que o preço cai, os consumidores fi cam mais dispostos a comprar aquele bem. Quando o preço cai para Pe, a quantidade demandada é Qe, e mais uma vez se atinge o equilí- brio com a quantidade demandada igual à quantidade ofertada. Em última análise, a interação entre oferta e demanda determina um pre- ço competitivo, Pe, de modo que não haja escassez nem excedente daquele bem. Esse preço é chamado de preço de equilíbrio e a quantidade correspon- dente, Qe, é chamada de quantidade de equilíbrio para o mercado competiti- vo. Uma vez que esse preço e quantidade são realizados, as forças de oferta e demanda do mercado são equilibradas, e não há tendência para os preços subirem ou descerem. O desequilíbriode mercado Embora qualquer mercado esteja constantemente suscetível à perturba- ções de seu ponto de equilíbrio, em função dos deslocadores de demanda (renda do consumidor, preços de bens relacionados, publicidade e preferência do consumidor, população e expectativas do consumidor, entre outros) e des- locadores da oferta (preços dos insumos, nível de tecnologia e regulações go- vernamentais, número de empresas no mercado, substitutos para produção, impostos e expectativas dos produtores, entre outros), ocorrem não raramen- 78 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 78 10/03/20 14:35 te movimentos de deslocamentos simultâneos na demanda e na oferta. Para ser exato, o equilíbrio de mercado é usualmente uma condição bastante delicada, senão instável. Um exemplo trágico ocorreu no final do século passado, quando um terremo- to atingiu Kobe, no Japão. Entre outros estragos, o evento causou danos expressi- vos também à indústria de saquê, diminuindo drasticamente a oferta da bebida como consequência. O estresse causado pela tragédia levou muitos japoneses a aumentar a demanda por saquê e também por outras bebidas alcoólicas. Diante desse cenário, é possível utilizar as ferramentas de análise econômi- ca para examinar como essas mudanças simultâneas na oferta e na demanda afetaram o preço de equilíbrio e a quantidade de saquê. Na Figura 11, que retrata o cenário descrito, o mercado está inicialmente em equilíbrio no ponto A, onde a curva de demanda D0 cruza a curva de oferta de mercado S0. Como o terremoto levou a uma redução simultânea da oferta e ao aumento da demanda por saquê, o efeito foi a oferta diminuir de S0 para S1, e, ao mesmo tempo, a demanda aumentar de D0 para D1. Nesse caso, um novo equilíbrio competitivo ocorre no ponto B, uma vez que o preço do saquê au- menta de P0 para P1 e a quantidade consumida aumenta de Q0 para Q1. 0 A B C Q 2 Q 0 Q 1 D 1 D 0 S 1 S 2 P 0 P 1 P 2 S 0 Preço Quantidade Figura 11. Simultâneo aumento na demanda e redução na oferta elevando o ponto de equilíbrio. Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). 79 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 79 10/03/20 14:35 Como mostram as curvas na Figura 11, o efeito fi nal da diminuição da oferta e do aumento da demanda foi aumentar o preço e a quantidade. Mas e se a curva de oferta se deslocar muito mais para a esquerda em vez de passar de S0 para S1, nesse caso S2, de modo a cruzar a nova curva de demanda no ponto C em vez de B? Nessa situação, o preço resultante ainda seria maior que o preço de equilíbrio inicial P0. Contudo, a quantidade resultante seria menor que o equilíbrio inicial: o ponto C implica uma quantidade menor que o ponto A. É possível compreender que, quando a demanda aumenta e a oferta diminui, o preço de mercado aumenta, mas a quantidade de mercado pode subir ou diminuir (ambiguidade), dependendo da magnitude relativa das mudanças. Ao se usar a análise de oferta e demanda para prever os efeitos de mudan- ças simultâneas, tanto em uma quanto em outra característica, é preciso ter cuidado para que as previsões respeitem mais realisticamente o deslocamento das curvas. Conforme mostra o Quadro 1, mudanças simultâneas na demanda e na oferta geralmente levam a ambiguidades: o preço ou a quantidade de equi- líbrio aumentam ou diminuem. Por esse motivo, é bastante prudente traçar várias mudanças simultâneas na oferta e na demanda para verifi car os resul- tados sintetizados. NATUREZA DA MUDANÇA AUMENTO NA DEMANDA REDUÇÃO NA DEMANDA Aumento na oferta Preço: ambíguo Quantidade: aumenta Preço: reduz Quantidade: ambíguo Redução na oferta Preço: aumenta Quantidade: ambíguo Preço: ambíguo Quantidade: reduz QUADRO 1. PONTO DE EQUILÍBRIO: IMPACTO DE MUDANÇAS NA DEMANDA E NA OFERTA Teoria da elasticidade Diante das perturbações do equilíbrio que qualquer mercado sofre cons- tantemente, supondo que algumas variáveis aumentem 10%, como o preço do produto, o que aconteceria com a quantidade demandada do bem? Com base na lei da demanda, sabe-se que a quantidade demandada cairia. Aumento na ofertaAumento na ofertaAumento na oferta Redução na oferta Aumento na oferta Redução na oferta Aumento na oferta Redução na ofertaRedução na ofertaRedução na oferta Preço: ambíguo Quantidade: aumenta Preço: ambíguo Quantidade: aumenta Preço: ambíguo Quantidade: aumenta Preço: aumenta Quantidade: ambíguo Preço: ambíguo Quantidade: aumenta Preço: aumenta Quantidade: ambíguo Preço: ambíguo Quantidade: aumenta Preço: aumenta Quantidade: ambíguo Quantidade: aumenta Preço: aumenta Quantidade: ambíguo Quantidade: aumenta Preço: aumenta Quantidade: ambíguoQuantidade: ambíguoQuantidade: ambíguo Preço: reduz Quantidade: ambíguo Preço: reduz Quantidade: ambíguo Preço: reduz Quantidade: ambíguo Preço: ambíguo Quantidade: reduz Preço: reduz Quantidade: ambíguo Preço: ambíguo Quantidade: reduz Quantidade: ambíguo Preço: ambíguo Quantidade: reduz Quantidade: ambíguo Preço: ambíguo Quantidade: reduz Preço: ambíguo Quantidade: reduzQuantidade: reduz Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). 80 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 80 10/03/20 14:35 Como ponderam Saunders e Gilliard (2005), é de notório interesse es- tratégico para qualquer organização ter a capacidade de dimensionar, mais precisamente, se a quantidade demandada cairia 5%, 10% ou outro patamar. Nesses termos, a principal ferramenta usada para determinar a magnitude de uma alteração é a análise de elasticidade. Elasticidade é um conceito geral. Ela mede a capacidade de resposta de uma variável a alterações em outra variável. Ou seja, trata-se do percentual de variação em uma variável que surge devido a dada variação percentual em outra variável. Dois aspectos da elasticidade são importantes: 1) se ela é positiva ou ne- gativa, e 2) se é maior que 1 ou menor que 1 em valor absoluto. O sinal da elasticidade determina a relação entre duas variáveis A e B correlacionadas. Se a elasticidade é positiva, um aumento em A leva a um aumento em B. Se a elasticidade é negativa, um aumento em A leva a uma diminuição em B. O fato do valor absoluto da elasticidade ser maior ou menor que 1 de- termina como A responde às mudanças em B. Se o valor absoluto da elas- ticidade for maior que 1, uma pequena mudança percentual em A levará a uma mudança percentual relativamente grande em B. Por outro lado, se o valor absoluto da elasticidade for menor que 1, uma determinada mu- dança percentual em A levará a uma mudança percentual relativamente pequena em B. Um dos mais importantes conceitos associados à teoria da elasticidade na área da economia é a chamada elasticidade-preço da demanda, que mede a capacidade de resposta da quantidade demandada a uma mudança de preço. Na prática, gestores industriais costumam recorrer a essa medida para deter- minar o impacto quantitativo de aumentos ou cortes de preços nas vendas e receitas da empresa. A elasticidade-preço da demanda por um bem X, comu- mente denotada por EQx, Px , é definida pela fórmula: EQx, Px = %∆Qx S %∆Px Se a elasticidade-preço da demanda por um produto tiver valor -3, por exem- plo, sabe-se que um aumento de 10% no preço do produto levará a um declínio de 30% na quantidade demandada do bem, uma vez que -30% ÷ 10% = -3. 81 SER_ECPME_FUECOAD_UNID2.indd 81 10/03/20 14:35 Há dois aspectos importantes na análise de elasticidade-preço da demanda: sinal (negativo) e valor (maior ou menor que 1 em valor absoluto). Pela lei da demanda, há uma relação inversa entre preço e quantidade demandada. Assim, a elasticidade-preço da demanda é um número negativo. O valor absoluto da elasticidade da demanda do próprio preço pode ser maior ou menor que 1, de- pendendo de alguns fatores. Em primeiro lugar, diz-se que a demanda é elástica se o valor absoluto da elasticidade-preço da demanda for maior que 1: |EQx, Px | > 1 Por sua vez, a demanda é considerada inelástica se o valor absolutoda elasticidade-preço da demanda for menor que 1: |EQx, Px |61 Outros fatores .................................................................................................................. 62 Modelagem da função demanda .................................................................................. 62 Excedente do consumidor ............................................................................................. 65 Introdução à teoria da oferta ............................................................................................. 67 Deslocadores da oferta .................................................................................................. 68 Fatores que afetam a função oferta .................................................................................. 69 Preços dos insumos ........................................................................................................ 69 Nível de tecnologia e regulações governamentais .................................................. 69 Número de empresas no mercado ............................................................................... 70 Substitutos para produção ............................................................................................ 70 Impostos ............................................................................................................................ 70 Expectativas dos produtores ......................................................................................... 72 Modelagem da função oferta ........................................................................................ 73 Excedente do produtor ................................................................................................... 75 O ponto de equilíbrio ........................................................................................................... 76 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 6 10/03/20 14:34 O desequilíbrio de mercado ............................................................................................... 78 Teoria da elasticidade ......................................................................................................... 80 Receita total e elasticidade ........................................................................................... 82 Sintetizando ........................................................................................................................... 85 Referências bibliográficas ................................................................................................. 86 7 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 7 10/03/20 14:34 Sumário Unidade 3 – Produção Objetivos da unidade ........................................................................................................... 88 A teoria clássica da produção ........................................................................................... 89 Adam Smith (1723-1790) ................................................................................................. 89 David Ricardo (1772-1823) ............................................................................................. 96 Karl Marx (1818-1883) ................................................................................................... 101 A elasticidade, função exponencial e os rendimentos da escala de produção ................. 104 Comportamento do consumidor .................................................................................. 104 Restrições ....................................................................................................................... 109 Mudanças na renda ...................................................................................................... 111 Mudanças no preço ...................................................................................................... 113 Equilíbrio do consumidor .............................................................................................. 114 Custo econômico de produção ........................................................................................ 116 Custos de curto prazo ................................................................................................... 116 Custo médio e custo marginal ..................................................................................... 117 Custos fixos e irrecuperáveis ...................................................................................... 119 Custos a longo prazo ..................................................................................................... 121 Sintetizando ......................................................................................................................... 123 Referências bibliográficas ............................................................................................... 125 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 8 10/03/20 14:34 Sumário Unidade 4 - Produção, concorrência e custos Objetivos da unidade ......................................................................................................... 127 Onde, quando e quanto produzir ...................................................................................... 128 O que e quanto produzir ............................................................................................... 128 Como e para quem produzir ......................................................................................... 129 A estrutura de mercado de concorrência perfeita ...................................................... 129 Condições idealizadoras de concorrência perfeita ................................................ 133 Lucro normal .................................................................................................................. 134 Mercados competitivos e disputados ........................................................................ 135 Mercados não competitivos ........................................................................................ 137 Intervenção governamental ........................................................................................ 138 Resultados ...................................................................................................................... 140 Lucratividade .................................................................................................................. 142 Ponto de desligamento ................................................................................................. 143 Curva de oferta de curto prazo ................................................................................... 146 Críticas ............................................................................................................................ 147 Custos não lineares............................................................................................................ 149 Aplicação ........................................................................................................................ 150 Curvas de custos totais e curvas unitárias ................................................................... 151 Notação ........................................................................................................................... 152 Curvas CTCP e CTLP ..................................................................................................... 153 Curvas CVCP e CFCP ou CV e CF ................................................................................ 154 Curvas CVMED ou CVMEDCP ...................................................................................... 154 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 9 10/03/20 14:34 Curvas CMARCP e CMARLP ........................................................................................ 156 Relação entre diferentes curvas ................................................................................ 157 Relação entre curvas de curto e longo prazos ........................................................defendidas. Não é diferente nos estudos econômicos – e, embora não haja exatamente uma unanimidade no meio acadêmico entre os nomes que devem fi gurar no panteão dos economistas, ao menos três deles são de indis- cutível recorrência no tocante a examinar o tema da produção pela lente econômica: Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx. Tais autores oferecem importantes contribuições para o cons- truto econômico dos sistemas de produção e temas associados (livre mercado, concorrência etc.) e são, de fato, objetos de estudo até os dias atuais, em meio aos embates científi cos que promovem ora sua con- fi rmação, ora sua refutação, pelos mais variados argumentos e teses derivadas. Adam Smith (1723-1790) Com a publicação em 1776 do seu clássico The Wealth of Nations (no Brasil, a obra ganhou o título traduzido A Riqueza das Nações), o britânico Adam Smith inovava ao argumentar que a visão do excedente diz respeito à produção em geral, e não apenas à produção agrí- cola, como costumava ser sustentado pelos teóricos até então. Smith ainda concebeu o lucro como um segundo componente do excedente, juntamente com o aluguel da terra. Então, em condições de livre concorrência, supunha-se obter uma taxa de lucro tendendo à igualdade em todos os setores. É essa perspec- tiva que defi niu o quadro no qual a teoria clássica de valor e distribuição foi elaborada. 89 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 89 10/03/20 14:35 A tentativa de entender o que são as forças fundamentais que governam a “sociedade comercial” está bem delineada na distinção de Smith entre preço de mercado e preço natural. O entendimento é de que o preço real pelo qual qualquer mercadoria é comumente vendida é chamado preço de mercado, que pode estar acima, abaixo ou até mesmo corresponder exatamente ao preço natural. O preço de mercado de qualquer mercadoria é regulado pela proporção entre a quantidade que é ofertada no mercado, por um lado, e a demanda da- queles que estão dispostos a pagar o preço natural da mercadoria ou o valor total do aluguel, mão de obra e lucro, que devem ser pagos sustentar a oferta. Para Smith, quando o preço de qualquer mercadoria não é nem mais nem menos do que o suficiente para pagar o aluguel das instalações, o salário do trabalho contratado e os lucros das ações empregadas na empreitada, a mer- cadoria é vendida pelo que pode ser chamado de preço natural. Evidentemente, o preço natural também precisa pagar as matérias-primas consumidas e a amortização do capital fixo. No entanto, com o argumento de que os preços dos meios de produção também são compostos de salários, lucros e aluguel, mais o capital utilizado, Smith conclui que o preço de cada mercadoria, em última análise, define-se em uma ou outra, ou todas essas três partes. Esse viés de análise enseja, naturalmente, algumas considerações. Primei- ramente, o preço de mercado não é uma variável teórica: não sendo pura- mente empírica, ela envolve algum grau de abstração. Smith não acreditava que os preços de mercado devessem ou pudessem ser objeto de análises eco- nômicas sistemáticas. Por estarem sujeitos ao impacto de uma multiplicidade de fatores acidentais que interferem nas forças fundamentais do trabalho, os preços de mercado, por sua própria natureza, resistem a uma explicação generalizante. Ainda, registre-se que o conceito de Smith de “demanda eficaz” se refere a um único ponto definido na dimensão preço-quantidade, e não a uma agenda de demanda, como tratado por correntes teóricas posteriores. Algo que é considerado uma novidade é a abordagem do lucro, com seu papel na racionalização dos preços relativos. Em abordagens teóricas ante- riores, lucro era algo mais restrito ao rendimento empresarial – sobretudo, o salário dos administradores do negócio. Mas Smith alertava que, enquanto 90 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 90 10/03/20 14:35 o lugar-comum do entendimento econômico instaurado até então era tomar lucro apenas como a diferença entre salários de pessoas de chão de fábri- ca e de direção, ele teria uma definição muito mais complexa, regulado por princípios bastante diferentes, sem proporção à quantidade, dificuldades ou engenhosidade dos cargos funcionais em questão. O lucro seria totalmen- te regulado pelo valor das ações empregadas pelo pessoal envolvido, sendo maior ou menor proporcionalmente à extensão dessas ações. A obra é valorizada pela tentativa de compreender toda a dinâmica e adap- tação das forças de produção, sobretudo em seu impacto junto às mais diver- sas classes sociais. Foi interesse de investigação de Smith a compreensão das razões pelas quais, em sua época, a produtividade era percebida como significativamente maior do que em séculos anteriores. Ele faz sua proposi- ção relacionando este cenário diretamente com a questão da divisão do tra- balho. Para ele, é inequívoco que um único trabalhador produzindo qualquer bem tem desempenho bastante inferior ao da alternativa de composição de trabalho especializado, ou seja, dividido entre mais pessoas. Se uma única pessoa, por exemplo, produz uma bolsa em quatro dias, o arranjo de mais pessoas – cada uma delas responsável pela produção de um único estágio de produção, como corte, colagem, acabamento etc – conseguiria resultar na entrega de muito mais bolsas em bem menos tempo. Do ponto de vista de planejamento de sistemas de produção, a novidade foi bastante significativa ao finalmente apontar, então, a relação causal entre produtividade fabril e grau de especialização das funções da força de traba- lho. Não foi meramente um ensaio teórico, mas bastante empírico, uma vez que, naquela época, diversos empresários começaram a adotar a disposição defendida por Smith em suas linhas de produção e, com isso, conseguiram de fato dispor de mais produtos realizados em menor prazo – consequentemente, a produção de riqueza se tornava, de fato, maior. Isso foi suficiente para que Smith propusesse clara distinção entre sociedades que adotaram ou não a divisão do trabalho naqueles termos: essa passa- ria a ser a divisão entre sociedades desenvolvidas e sociedades rudimentares. 91 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 91 10/03/20 14:35 Alguns fatores infl uenciam bastante o efeito proporcionado pela divisão do trabalho especializado, a começar pelo aspecto do tamanho do mercado. Quanto maior a população de determinada região, maior é o grau de especia- lização do trabalhador. Como ninguém produz bens inteiros, mas apenas suas partes, é imperativo que haja um sistema de trocas para que todas as pessoas possam, dessa forma, sobreviver (negociando seus próprios excedentes de produção, que lhe são inúteis para particular consumo, pelo excedente de pro- dução de outros – desnecessários para esses terceiros, ao mesmo tempo em que são estritamente vitais para si). Nesse sentido, é indispensável um equilí- brio entre o poder de troca e a quantidade de riqueza – ou valor – que é pro- duzido (equilíbrio este que envolve, entre outros, a ampla aceitação social). Tal poder de troca pode ser traduzido na forma de moeda: dinheiro é, pois, o articulador necessário para viabilizar trocas entre diferentes produtores e trabalhadores assalariados. Afi nal, é muito mais fácil e prático a permuta de dinheiro por produtos do que trocar produtos por produtos (escambo). E é com essa visão que Smith propõe a decomposição dos componentes formadores dos preços na forma de salário dos trabalhadores contratados, o lucro do em- preendedor e custos fi xos, tais como o aluguel de instalações. Ele também é o precursor da defi nição de capital, uma vez que o conceito até a época feudal ainda não havia sido tema de discussão central. Por defi ni- ção, capital é o recurso que apresenta a capacidade de proporcionar rendimen- to. Nesses termos, propõem-se três tipos: capital imediato, capital circulante e capital fi xo, com respectivas características descritasno Quadro 1. CAPITAL IMEDIATO Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como roupa e alimentos. CAPITAL CIRCULANTE Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). CAPITAL FIXO Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior produtividade e lucratividade. QUADRO 1. TIPOS DE CAPITAL Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como roupa e alimentos. Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como roupa e alimentos. Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como roupa e alimentos. Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como roupa e alimentos. Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como roupa e alimentos. Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior produtividade e lucratividade. Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior produtividade e lucratividade. Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior produtividade e lucratividade. Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior produtividade e lucratividade. Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior produtividade e lucratividade. Destinado ao consumo imediato de bens básicos, tais como Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior produtividade e lucratividade. Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior produtividade e lucratividade. Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior produtividade e lucratividade. Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando lucro (que só se concretiza após a venda do produto). Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior produtividade e lucratividade. Utilizado para viabilizar compra e venda de produtos, visando Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior Reinvestimento na própria empresa, objetivando maior 92 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 92 10/03/20 14:35 O acúmulo de capital é o terceiro e o determinante fator para aumentar a ri- queza das nações: conforme exposto anteriormente, o primeiro fator é a divisão do trabalho e o segundo é o tamanho do mercado. O argumento é de que o acú- mulo possibilita a pessoas reinvestirem o capital, com consequente aumento de produtividade e da riqueza da sociedade como um todo, em um ciclo virtuoso. A despeito de suas contribuições teóricas acerca da função do trabalho, do mecanismo das trocas, da produção do lucro e do estabelecimento das relações sociais subjacentes a tudo isso, é certo que Adam Smith ficou notoriamente co- nhecido nos meios acadêmico e econômico pela linha de pensamento denomi- nada liberalismo econômico, sendo praticamente sinônimo dela. Ocorre que, com o término do período histórico correspondente à Idade Mé- dia, eclodem os assim chamados Estados Nacionais, muito bem caracterizados por monarquias absolutistas e o mercantilismo. Smith reflete que, apesar das di- ferentes estruturas políticas e econômicas surgidas, a mentalidade da sociedade não consegue acompanhar o mesmo grau de mudança. A visão de que a riqueza de uma nação era medida pela quantidade de ouro e prata que se consegue acu- mular era bastante presente, inclusive no Império Romano. A partir da época dos grandes descobrimentos, a vigorosa exploração de jazidas de minerais preciosos nas Américas passou a ser propelida com essa motivação. Disto decorre a insti- tuição do mercantilismo, com efeito de protecionismo alfandegário: as tarifas so- bre produtos importados eram majoradas visando desestimular a saída de ouro e prata das nações. Todavia, observa-se que a mentalidade mercantil conflitava com interesses de uma das partes mais enaltecidas por Smith com o liberalismo econômico: o consumidor. O liberalismo é, por certo, merecedor da fama que lhe é atribuída de vanguardismo na imputação de algum sentido para que as pes- soas produzam na sociedade mediante o mecanismo das trocas voluntárias e da onipresente “mão invisível” do mercado. CITANDO “Não é da benevolência do açougueiro, do fabricante de cerveja ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse” (SMITH, 2010, p. 330). Tal visão exprime, na teoria liberal, a explicação de que quando os indivíduos agem em função de seus interesses pessoais (ego- ístas), eles são conduzidos por uma “mão invisível” do mercado: a articulação das leis de oferta e demanda produziria, consequentemente, o bem-estar social. 93 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 93 10/03/20 14:35 A crítica liberal não se limita ao protecionismo, mas igualmente se opõe a qualquer iniciativa de intervenção estatal que vise modificar as leis de mer- cado. De fato, Smith se notabilizou por ser um ferrenho crítico das leis que interferiam no livre comércio. Seu entendimento é que tais intervenções do poder público acabam por distorcer as leis de oferta e demanda com inevitável desestímulo à produtividade e aumento irracional de custos. Na cosmovisão liberal, esvaziado de outras funções que não lhe competem, o Estado ainda tem atribuições essenciais e indispensáveis: a promoção da educação, a segurança pública e a justiça. O entendimento de Smith é que a divisão do trabalho poderia eventualmente induzir à alienação, o que é nocivo à saúde das pessoas. Essaseria, precisamente, a oportunidade do Estado se ocupar de iniciativas que previnam o prejuízo social – bem como da responsa- bilidade pela defesa nacional, coibindo a invasão de outras nações indepen- dentes, e da justiça, com seu objetivo de garantia da propriedade privada e do cumprimento dos contratos. Estes são, aliás, aspectos fundamentais para pro- duzir a percepção de confiança na sociedade e do estímulo ao livre comércio. Em suma, Smith tem uma importância histórica indiscutível nas ciências econômicas. Afinal, pela consolidação de suas ideias, se deu forma a uma explicação estrutural para tudo o que começou a se manifestar no quadro social após o final da Idade Média. Há de se reconhecer que, na so- ciedade feudal, não se ponderava acerca de divisão do trabalho como meio de aumentar a riqueza: juros eram tidos como “pecado de usura”, a economia era mo- vimentada pela tradição ou pela imposição de go- vernos – características completamente adversas ao posicionamento defendido por Smith. EXPLICANDO A usura é entendida como a prática de cobrar uma remuneração abu- siva pelo uso de capital. Isso implica em um empréstimo pecuniário poder ser distorcido por juros excessivamente altos, lesando, assim, o devedor. Além de ser uma prática que causa repulsa social, é ainda tipificada como conduta criminosa em diversos ordenamentos jurídi- cos, inclusive no âmbito do Brasil. 94 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 94 10/03/20 14:35 Na ciência, nenhuma teoria é acabada em si – e isso não é diferente com as ciências econômicas. O fato é que a teoria de Adam Smith serviu de subs- trato para desenvolvimentos subsequentes, a exemplo do trabalho de econo- mistas como David Ricardo, conhecido por aprofundar o entendimento do liberalismo mediante a teoria do valor-trabalho e da vantagem comparativa. Na sequência, Karl Marx viria a fazer oposição frontal, com base em suas propostas de socialismo científico e comunismo. Com efeito, é bastante comum que as linhas de pensamento econômico até hoje sejam comparadas ao grau de adesão que possuem à visão de Smith. É o caso, entre inúmeros outros exemplos, de Keynes, com sua leitura econô- mica da macroeconomia caminhando em sentido oposto à visão de liberdade de Smith, por defender a figura de um Estado forte e desenvolvimentista, e de Schumpeter, que, para além de suas críticas ao sistema concebido por Smith, se notabilizou pela inserção da variável da tecnologia no sistema de mercado. Reconhece-se que, talvez em função dos ciclos tão típicos da histó- ria humana, a sociedade que Adam Smith preconizou e que de fato se desen- volvia de forma vigorosa e produtiva em função da liberdade econômica e da propriedade privada viria a sofrer um forte revés durante o século XX, época em que se observava uma maior proliferação de governos de atuação mais intervencionista. Ocorre que o liberalismo sempre é pauta para animar debates econômi- cos, não sendo diferente no Brasil: é recorrente e permanente a discussão acerca de privatizações, do grau de intervenção do estado na economia e da abrangência dos impostos. Às vezes, tratam-se de embates profundos e sustentados por abordagens científicas consistentes, mas, em outras vezes, trata-se de um confronto ideológico mais raso, de contexto eleitoreiro. Em suma, em meio a apoiadores e detratores, a obra de Adam Smith é de importância inconteste para a economia, com sua proposta assumidamente em defesa da liberdade e do livre comércio operados por um sistema econômico que tem no livre mercado sua engrenagem principal. Historicamente, sua contribuição teórica foi crucial para desestabilizar os antigos paradigmas, abrin- do espaço para o desenvolvimento das nações. 95 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 95 10/03/20 14:35 David Ricardo (1772-1823) Embora Smith tivesse um entendi- mento claro da tendência da unifor- midade da taxa de lucro em condições competitivas, ele não conseguiu ofere- cer uma solução consistente e lógica para o problema da determinação do nível da taxa de lucro. É esse, precisa- mente, o tema dos estudos econômi- cos principais do economista britânico David Ricardo. Em termos de método econômico, Ricardo expressa plena concordância com Adam Smith. Na sua obra, encontram-se elogios pela habilidade acerca da proposição de preços naturais versus os de mercado. Ele se sustenta de for- ma lúcida em Smith, diferenciando-se, no entanto, em função da maior ênfase dada às decisões dos proprietários de capital aplicado com fi ns lucrativos em geral e dos membros da assim chamada “classe monetária”, ou seja, capitalis- tas fi nanceiros, em particular. Ricardo pondera que, embora todo homem seja livre para empregar seu capital quando e como quiser, naturalmente ele procurará aplicá-lo de forma mais vantajosa. Diante da possibilidade, por exemplo, de auferir 15% de lucra- tividade, conseguir 10% vai naturalmente descontentá-lo. Essa inquietude por parte de todos os investidores (empreendedores ou não) quanto ao abandono de um negócio menos vantajoso em detrimento de outro mais vantajoso, tem em si a forte tendência de igualar a taxa de lucros de todos, ou fi xá-los propor- cionalmente, como na estimativa de compensação de qualquer vantagem que uma parte possa ter, ou possa parecer ter sobre a outra. ASSISTA Neste documentário do Canal Futura, o economista Samy Dana entrevista o também economista Leonardo Lima, que explica como é possível reduzir a pobreza e a desigualdade no quadro social das nações com os meios do próprio capitalismo. 96 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 96 10/03/20 14:35 Ricardo acrescenta que talvez seja muito difícil traçar os passos pelos quais essa mudança é realizada. De todo modo, o que se pode afirmar é que o processo de ajus- te não exige que os capitalistas mudem radicalmente seus negócios: mudanças mais brandas servem ao intento. E é exatamente nesse contexto que ele enaltece o papel dos empresários e dos banqueiros. Essas partes detêm um capital circulante – ou seja, fundos líquidos – de grande quantia. A tese é de que não há empreendedor, por mais rico que seja, que limite seus negócios na medida em que seus próprios recur- sos permitem: sempre se parte desse capital flutuante, aumentando ou diminuin- do seu emprego de acordo com o nível de demanda de suas mercadorias. Por causa desse capital flutuante, as variações da lucratividade são reduzidas mais efetivamen- te. No geral, o princípio de que se distribui capital a cada operação na quantidade exata necessária é mais próximo da verdade do que geralmente se supõe. Em síntese, é a ambição que todo capitalista tem de desfavorecer a destinação de seus recursos de uma opção menos lucrativa frente a outra mais lucrativa o que impede que o preço de mercado das mercadorias perdure algum tempo em patamar muito acima ou muito abaixo do preço natural. É justamente essa competição que ajusta o valor permutável das mercadorias: assim, depois de se pagar os salários pelo trabalho necessário à produção e assumir todas as outras despesas necessárias para colocar o capital empregado em seu estado original de eficiência, o valor restante ou excesso produzido pelo negócio se torna proporcional ao valor do capital empregado. Na premissa de que tal argumentação seja válida, e ainda na premissa adicio- nal de que uma análise geral dos preços de mercado seja praticamente impossível de ser feita, parece perfeitamente sensato deixar de lado os “efeitos temporários” produzidos por casualidades e concentrar-se nas leis que regem os preços naturais, os salários naturais e os lucros naturais – efeitos em absoluto independentes das causas acidentais. Ricardo criticava a explicação de Smith sobre os níveis normais de preços e as variáveis distributivas. Como na visão dele o problema da distribuição de renda é a questão principal da política econômica, sua maior preocupação foi tentar elaborar umateoria coerente quanto à taxa de lucro, com base no conceito de superávit. Afi- nal, os lucros provêm do excedente de produção. Nestes termos, o desenvolvimen- to da linha de pensamento de Ricardo sobre o tema pode ser dividido em quatro etapas. Essas etapas refletem as tentativas consecutivas de Ricardo de simplificar o problema de distribuição. 97 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 97 10/03/20 14:35 O primeiro passo consistiu em eliminar o problema do aluguel da terra em termos da teoria do aluguel. Isso permitiu que ele concentrasse a atenção nas terras marginais, ou seja, sem aluguel. Ao livrar-se da variável do aluguel, o que se pode fazer com a mercadoria produzida com o último capital empregado e com todas as demais mercadorias produzidas pelo trabalho de manufatura, a questão da distribuição entre capitalista e trabalhador torna-se algo muito mais simples. A teoria do aluguel também serviu de base para uma primeira crítica ao que Ricardo chamou de erro original em relação ao valor de Smith, ou seja, a doutrina deste último de que o preço natural em si varia com a taxa natural de cada uma de suas partes componentes, de salário, lucro e aluguel. Como ele enfatizou em seus estudos, o preço do produto não é alto porque o aluguel é pago, mas o aluguel é pago porque o produto é caro. O segundo passo consistia em tentar se livrar do problema do valor assu- mindo o “modelo do milho”: com o grão de milho como o único bem de capital e os salários pagos em termos de milho, a taxa de lucro obtida na produção pode ser apurada diretamente como uma relação entre as quantidades de milho – nesse caso, a do produto excedente e o capital do milho empregado – sem a necessidade de recorrer aos preços. Com o alimento entrando na hipotética produção de todas as outras mercadorias (na forma de único salário possível e possivelmente também como insumo), os preços dessas mercadorias teriam que se ajustar de modo que a mesma taxa competitiva de retorno pudesse ser obtida em sua produção. No entanto, Ricardo teve que aceitar a objeção de Malthus de que não existe um setor em que a composição do produto seja exatamente igual à do capital avançado. É neste aspecto que as teorias da distribuição baseadas no conceito de superávit social são confrontadas com o problema do valor. EXPLICANDO Thomas Robert Malthus é considerado o pai da demografia em fun- ção da sua teoria para o controle do aumento populacional, conhe- cida como malthusianismo. Muitas vezes creditado como “cientista econômico da desesperança”, para Malthus, a diferença entre as classes sociais é, em última análise, inevitável, de tal forma que a pobreza e o sofrimento seriam o destino para a grande maioria das pessoas. 98 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 98 10/03/20 14:35 Afinal, em termos físicos, a taxa geral de lucro é a razão entre o exceden- te social e o capital social. Contudo, como os dois agregados de mercadorias heterogêneas geralmente diferem na composição, eles não podem ser compa- rados a menos que sejam expressos como magnitudes de valor. Portanto, em uma terceira etapa, Ricardo apresentou uma teoria do valor segundo a qual os valores de troca das mercadorias são regulados pelas quantidades de traba- lho necessárias direta e indiretamente em sua produção. O produto exce- dente e o capital social, isto é, as duas magnitudes cuja razão fornece a taxa geral de lucro, poderiam, assim, ser mensuradas em termos de trabalho in- corporado. Por isso, a proposta passou a ser conhecida como teoria do valor do trabalho, introduzida precisamente para superar a dificuldade analítica encontrada na tentativa de explicar os lucros em termos do produto excedente deixado depois de considerar o custo de pro- dução, incluindo os salários dos trabalhadores produtivos. A suposição de que as mercadorias são trocadas de acordo com as quantida- des de trabalho nelas incorporadas permitiu a Ricardo dissipar a ideia, sugerida pela noção de preço de Adam Smith como uma soma de salários e lucros (e alu- guel), de que a taxa salarial e a taxa de lucro podem ser determinadas indepen- dentemente uma da outra. As mudanças vinculativas das restrições nas duas variáveis distributivas, ou, mais exatamente, a quantidade de trabalho incorpo- rada no agregado de bens salariais, ou consumo necessário e a taxa de lucro, se fundamentam na visão de que os lucros, que não podem ser repetidos com muita frequência, dependem dos salários – não dos salários nominais, mas reais. Igualmente, na tese de que quanto maior a parte do resultado do trabalho que é dada ao trabalhador, menor deve ser a taxa de lucros e vice-versa. Portanto, na visão de Ricardo, Smith havia abandonado prematuramente a regra do valor da quantidade de trabalho, como se, quando os lucros e o aluguel fossem pagos, existisse alguma influência sobre o valor relativo das mercadorias, independen- temente da mera quantidade de trabalho necessária à sua produção. 99 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 99 10/03/20 14:35 No entanto, Ricardo logo perceberia que o princípio de que a quantidade de trabalho concedido à produção de mercadorias regula seu valor trocável não pode ser sustentado como uma regra geral de valor: afinal, ele é consi- deravelmente modificado pelo emprego de máquinas e outros equipamentos fixos e duráveis. Ocorre que, com diferentes proporções de mão de obra direta e meios de produção em diferentes indústrias (e com diferentes durabilidades desses meios de produção), os preços relativos dependeriam não apenas da quantidade de trabalho total incorporado nas várias mercadorias, mas tam- bém do nível da taxa de lucro, mudando de acordo com esse nível. Isso ocorre porque, com juros compostos, o peso do componente de lucro nos preços de- pende da taxa de lucro. A taxa e as variações contrárias associadas na taxa de lucro podem ser consideradas como a etapa final dos esforços do economista para simplificar a teoria da distribuição. A medida de valor que Ricardo pro- curava pretendia corroborar sua convicção de que as leis da distribuição não estão essencialmente ligadas à doutrina do valor. A constatação de que os preços relativos dependem da distribuição do pro- duto entre salários e lucros poderia ser considerada como uma confirmação da doutrina de valor de Smith. No entanto, Adam Smith sustentava que um aumento no preço da mão de obra seria uniformemente seguido por um au- mento no preço de todas as mercadorias. Isso não foi sustentado. Como parte da crítica à doutrina de valor de Smith, Ricardo pensava ter conseguido de- monstrar que apenas as mercadorias que subiam de preço têm menos capi- tal fixo empregado. Em suma, embora devidamente ciente de que o princípio da quanti- dade de trabalho incorporado não pode servir como uma regra geral de valor, Ricardo a considerava a aproxi- mação mais próxima da verdade – e, por isso mesmo, a entendia como su- ficiente para desenvolver sua análise em seus termos. 100 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 100 10/03/20 14:36 Karl Marx (1818-1883) O alemão Karl Marx elogiou Ricar- do por ter elaborado a teoria do valor do trabalho, que em sua opinião, era o instrumento mais poderoso da política econômica, embora o tenha acusado de não ter percebido que os desvios de preços em relação aos valores trabalhis- tas não exigiam modifi cações da lei do valor, mas que podiam ser explicados com base nessa mesma lei. O relato do processo competitivo apresentado por Marx parece ser amplamente consistente com o de Smith e Ri- cardo. Marx explica que o capital se retira de uma esfera com uma baixa taxa de lucro e invade outras, que produzem um lucro maior. Por meio desta incessante distribuição entre as várias esferas, cria-se uma proporção de oferta e demanda que resulta no lucro médio nas várias esferas de produção. Marx enfatiza ainda que esse movimento de capitais é causado principalmentepelo nível de preços de mercado, que elevam os lucros acima da média geral em um lugar e os deprimem abaixo em outro. Ele ressalta que várias circunstâncias podem impedir a mobilidade do capital e do trabalho e, assim, diminuir a velocida- de da equalização das taxas de lucro. Sua visão é de que, assim que a produção capitalista atinge certo nível de de- senvolvimento, a equalização das diferentes taxas de lucro nas esferas individuais com a taxa geral não procede mais apenas pelo jogo de atração e repulsa, pelo qual os preços de mercado atraem ou repelem o capital. Depois que os preços mé- dios e seus correspondentes preços de mercado se tornam estáveis por um tem- po, fi ca claro aos capitalistas individuais que essa equalização equilibra diferenças defi nidas, de modo que podem ser incluídas em seus cálculos mútuos. Ele conclui que o lucro médio é a concepção básica – a concepção de que capitais de igual magnitude devem produzir lucros iguais em períodos de tempo iguais. Isso, novamente, baseia-se na ideia de que todo capital indi- vidual deve ser considerado meramente uma parte do total. Marx chama o 101 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 101 10/03/20 14:36 preço, incluindo a margem de lucro, de “preço de produção”. Assinala, ainda, que o que realmente Adam Smith chama de preço natural, Ricardo chama de preço de produção ou custo de produção, e os fisiocratas chamam de preço necessário, porque, em longo prazo, é um pré-requisito de suprimento, de continuidade de produção de mercadorias em todas as esferas individuais. CURIOSIDADE Fisiocracia, que do original em grego se traduz por “governo da nature- za”, é uma teoria econômica desenvolvida por um grupo de estudiosos franceses do século XVIII que defendiam que a riqueza das nações era derivada unicamente do valor de “terras agrícolas” ou do “desenvol- vimento da terra”, de tal forma que os produtos agrícolas deveriam ter preços elevados – dado o enorme valor da atividade. Foi uma linha de pensamento que ecoou mais fortemente na segunda metade do século XVIII; para muitos, esta talvez seja a primeira teoria bem desenvolvida no campo econômico. Na visão de Marx, a teoria do valor do trabalho é indispensável porque, supostamente, permitiria determinar a taxa de lucro independentemente dos preços relativos. Em um segundo momento, essa taxa de lucro pode então ser usada para calcular preços, começando pelos custos setoriais de produção ou “preços de custo” medidos. Um primeiro e óbvio erro diz respeito ao fato de que, em suas equações, os capitais constantes e variáveis devem ser expressos em termos de preços, não de valor. Marx parecia ciente dessa falha em seu argumento, mas pensou que po- deria ser remediado. No entanto, ao tentar executar as correções necessá- rias, fica claro que não se pode presumir que a transformação de valores em preços de produção seja relevante apenas em relação a mercadorias únicas, enquanto é irrelevante em relação a agregados de mercadorias, como o excedente de produção ou capital social, cuja razão fornece a taxa de lucro. Em outras palavras: geralmente, não se pode excluir que a suposta redistribuição da mais-valia envolva um desvio do preço do produto exce- dente e do capital social de suas expressões de valor da mesma maneira que envolve um desvio dos preços de mercadorias únicas de seus valores. Assim, preços e taxa de lucro devem ser determinados simultaneamente, não sucessivamente. 102 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 102 10/03/20 14:36 Em suma, a teoria da mais-valia é calcada na teoria do valor-trabalho. Mas en- tender como se determina o valor de uma mercadoria não é algo trivial. A teoria do valor-trabalho é considerada ultrapassada pelos economistas modernos. De fato, já nos idos do século XIX, muitos economistas já tinham se dado conta que não é a quantidade de trabalho embutida em um bem que determina o seu valor. Por exemplo, supondo-se que um operário trabalhe oito horas em uma em- presa, ele receberá salário proporcional a essas oito horas de disponibilidade. Ocorre que, esse salário está sempre situado no nível de subsistência – Marx e grande parte dos economistas daquela época assumiam que os salários sempre eram posicionados nesse nível. No mesmo exemplo, pode-se supor ainda que tempo de trabalho necessário para que o funcionário produza o valor equivalen- te ao custo de sua subsistência seja de três horas. Nesse caso, o que aconteceria com as cinco horas que sobram? O valor produzido nesse período é capturado pelo capitalista. Por isso, o conceito da mais-valia é a materialização do trabalho excedente. Na visão de Marx, a exploração no capitalismo se dá pela extração de mais-valia. Das inúmeras críticas que essa linha de pensamento induz, algumas refuta- ções se destacam como mais facilmente evidentes. Afinal, reconhece-se apenas o trabalho humano como elemento gerador de valor. A figura do capitalista ape- nas parasitaria a relação do trabalho, extraindo mais-valia dos trabalhadores. É um cenário em que o capital, na forma de máquinas, equipamentos, instalações, entre outros, é assumido como simplesmente incapaz de produzir valor. Logo, para que não exista exploração, é necessário que todo valor gerado na produção pertença à classe operária. Heinz Kurz e Neri Salvadori afirmam em sua obra de 1995, Theory of produc- tion: a long-period analysis, que essa é uma concepção claramente enviesada. Afinal, o capitalista, em algum momento, precisou se esforçar e pou- par recursos para reunir condições de empreender. É indiscutível que todo fruto da riqueza resulte do sacrifício das pessoas. O sacri- fício dos operários é bastante evidente. Contudo, possuir meios de produção exige também sacrifícios por parte dos capitalistas. Diante deste quadro, trabalhadores e capitalistas têm justificativas morais plausíveis e seme- lhantes para seus ganhos. 103 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 103 10/03/20 14:36 A elasticidade, função exponencial e os rendimentos da escala de produção É importante que gestores disponham de ferramentas para tentar entender o comportamento de indivíduos, seja como consumidores, seja como trabalha- dores, sobretudo no que diz respeito ao impacto de incentivos alternativos nas decisões do dia a dia. Não é algo tão trivial: os seres humanos usam processos complexos de pensamento para tomar decisões. Essa complexidade é explicada pelos níveis de volatilidade, ambiguidade e incerteza que caracterizam as informa- ções que transitam pelo cotidiano das pessoas. Não à toa, o cérebro humano se mostra capaz de processar tamanha quantidade e qualidade de informação. A despeito da complexidade inerente aos processos de pensamento humano, o fato é que os gestores e os economistas precisam de um modelo que explique como os indivíduos se comportam no mercado e no ambiente de trabalho. Obvia- mente, as tentativas de modelar a conduta individual não podem capturar toda a gama de comportamentos do mundo real, mas uma aproximação válida já ajuda. Nesses termos, o modelo de comportamento é uma abstração da maneira como os indivíduos realmente tomam decisões. Ele começa por um modelo sim- ples, que se concentra no essencial em vez de se dispersar em características com- portamentais que pouco fariam para melhorar a compreensão dos padrões de decisão. Tal modelo é, com efeito, o que fundamenta as ferramentas analíticas da economia, como a elasticidade dos preços, possíveis efeitos de função exponen- cial e rendimentos da escala de produção. Comportamento do consumidor É desafi ador entender como os consumidores responderão às escolhas al- ternativas que os confrontam. E ocorre ainda que nem sempre quem compra um produto ou serviço é quem o consome: gestores empresariais se interes- sam, então, não apenas em quem consome o bem, mas principalmente em quem o compra. Por exemplo, um bebê de poucos meses de idade consome mercadorias, mas não éresponsável pelas decisões de compra. Nesse caso, para quem trabalha em um fábrica de comida para bebês, é o comportamen- to dos pais que precisa ser compreendido (muito mais do que o do bebê). 104 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 104 10/03/20 14:36 Na caracterização do comportamento do consumidor, há dois fatores importantes a serem considerados: oportunidades e preferências do con- sumidor. As oportunidades do consumidor representam os possíveis bens e serviços que os consumidores podem se dar ao luxo de consumir. Por sua vez, as preferências do consumidor determinam quais desses produtos serão consumidos. A distinção é muito importante: embora alguém eventualmente possa pagar (e, portanto, ter a oportunidade de consumir) um quilo de picanha por semana, suas preferências podem ser tais que, dificilmente, se esco- lheria consumir esse alimento nessa proporção. A despeito dos milhões de produtos e serviços à venda hoje na econo- mia global, uma modelagem simples começa pela suposição da existência hipotética de apenas dois produtos. Trata-se de uma suposição feita ape- nas para simplificar a análise: evidentemente, todas as conclusões que se tiram desse cenário de dois bens ainda permanecem válidas quando há muitos bens. Considere, portanto, que X representa a quantidade de um bem e Y a quantidade do outro bem. Ao usar essa notação para represen- tar os dois produtos, prevalece um modelo geral, no sentido de que X e Y podem ser quaisquer dois bens. Suponha-se que um consumidor possa ordenar suas preferências por pacotes ou combinações alternativas de bens, do melhor para o pior. De- nota-se essa ordenação pelo símbolo ≻, resultando em A ≻ B sempre que o consumidor preferir o pacote A ao pacote B. Se o consumidor entende os dois pacotes como igualmente satisfatórios, diz-se que ele é indiferente aos pacotes A e B, adotando-se A ~ B como notação abreviada. Em suma, se A ≻ B, ao ser dada uma escolha entre o pacote A e o pacote B, o consu- midor escolherá o pacote A. Por sua vez, se A ~ B, o consumidor, tendo a opção entre o pacote A e o pacote B, não se importa em receber qualquer um deles. A ordem das preferências preci- sa satisfazer quatro propriedades básicas: completude, mais é melhor, taxa marginal de substituição decrescente e transitividade. 105 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 105 10/03/20 14:36 Propriedade 1: completude. Para dois pacotes A e B, com qualquer configura- ção (A ≻ B, B ≻ A ou A ~ B). Assumindo que as preferências sejam completas, implica que o consumidor é capaz de expressar uma preferência ou indiferença entre todos os pacotes. Isso sig- nifica que, se as preferências não estivessem completas, poderia haver casos em que um consumidor alega não saber afirmar se prefere A ante B, B ante A ou se é indiferente aos dois. Evidentemente, se o consumidor não puder expressar sua pró- pria preferência ou indiferença entre os bens, o gestor dificilmente poderá prever os padrões de consumo desse indivíduo com alguma precisão. Propriedade 2: mais é melhor. Se o pacote A tiver ao menos o tanto de bens do pacote B acrescido de alguns adicionais, o pacote A será preferido ante o pacote B. Se mais é melhor, o consumidor entende que quantidade é qualidade. Grafica- mente, isso implica que, à medida que se avança na direção nordeste no Gráfico 1, passa-se a pacotes que o consumidor entende como melhores do que pacotes na di- reção sudoeste. Por exemplo, o pacote A é preferido em relação ao pacote D, porque ele, apesar de deter a mesma quantidade do bem X que o pacote D, possui mais do bem Y. O pacote C também tem a preferência em relação a D, porque ele possui mais dos dois produtos X e Y. Por razões análogas, o pacote B tem a preferência, quando comparado com o pacote D. GRÁFICO 1. CURVA DA INDIFERENÇA 6 5 4 3 2 1 0 X I C D B A 1 2 3 4 5 6 Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). 106 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 106 10/03/20 14:36 Embora a suposição de que mais é melhor forneça informações importan- tes sobre as preferências do consumidor, isto por si só não é fator decisivo na tarefa de determiná-la. Por exemplo, conforme o Gráfico 1, a propriedade “mais é melhor” não revela se o pacote B tem a preferência em relação ao A ou vice-versa. Para poder fazer essas comparações, é preciso fazer algumas suposições adicionais. A exemplo do ilustrado no Gráfico 1, denomina-se curva de indiferença o gráfico que define as combinações de bens X e Y que dão ao consumidor o mes- mo nível de satisfação; isto significa afirmar que o consumidor é indiferente entre qualquer combinação de bens ao longo de uma curva de indiferença. Assim, todas as combinações de X e Y localizadas na curva de indiferença fornecem ao consumi- dor o mesmo nível de satisfação. Por exemplo, se fosse perguntado ao consumi- dor: “qual você prefere: pacote A, pacote B ou pacote C?”, ele responderia que não importa, porque os pacotes A, B e C estão todos na mesma curva de indiferença. O formato da curva de indiferença depende das preferências do consu- midor: diferentes perfis de consumidores geralmente resultam em curvas de indiferença de diferentes formas. Uma maneira importante de resumir infor- mações sobre as preferências de um consumidor se dá através dos termos da taxa marginal de substituição, comumente abreviada por TMS ou TMgS. Essa taxa é o valor absoluto da inclinação de uma curva de indiferença. Assim, a TMS entre dois bens é a taxa na qual um consumidor está disposto a substituir um bem pelo outro e ainda manter o mesmo nível de satisfação. O conceito de TMS é simples. Na Gráfico 1, o consumidor é indiferente entre os pacotes A e B. Ao passar de A para B, o consumidor ganha uma unidade do bem X. Para permanecer na mesma curva de indiferença, ele abre mão de duas unidades do bem Y. Assim, ao passar do ponto A para o ponto B, a TMS entre as mercadorias X e Y é 2. Um olhar atento mostra que a taxa marginal de substituição associada à mudança de A para B difere da taxa na qual o consumidor está disposto a subs- tituir entre as duas mercadorias na mudança de B para C. Em particular, na mudança de B a C, o consumidor ganha uma unidade do bem X. Mas agora fica disposto a desistir de apenas uma unidade do bem Y para obter a unidade adicional de X. O motivo é que essa curva de indiferença satisfaz a propriedade de diminuir a TMS. 107 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 107 10/03/20 14:36 Propriedade 3: taxa marginal de substituição decrescente. À medida que um consumidor obtém mais do bem X, a quantidade de bem Y que ele ou ela está dis- posto a desistir para obter outra unidade do bem X diminui. Essa suposição implica que as curvas de indiferença são convexas desde a ori- gem; isto é, eles se parecem visualmente com a curva de indiferença ilustrada no Gráfico 1. Para perceber como os locais de várias curvas de indiferença podem ser usados para ilustrar diferentes níveis de satisfação do consumidor, é necessário fa- zer uma suposição adicional: a suposição de que as preferências são transitivas. Propriedade 4: transitividade. Para quaisquer três pacotes, A, B e C, se A ≻ B e B ≻ C, então A ≻ C. Da mesma forma, se A ~ B e B ~ C, então A ~ C. A premissa de preferências transitivas, juntamente com a propriedade “mais é melhor”, implica que as curvas de indiferença não se cruzam. Isso também elimina a possibilidade de o consumidor ser pego em um ciclo perpétuo em que nunca se faz uma escolha. As implicações dessas quatro propriedades estão sintetizadas no Gráfico 2, que discrimina três curvas de indiferença. Cada pacote situado na curva de indiferença III é preferido ante a qualquer um na curva II, assim como todo pacote presente na cur- va de indiferença II tem a preferência em relação aos pacotes da curva I. As três cur- vas de indiferença são convexas e não se cruzam. As curvas mais distantes da origem implicam níveis mais altos de satisfaçãodo que as curvas mais próximas da origem. GRÁFICO 2. UMA FAMÍLIA DE CURVAS DE INDIFERENÇA Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). I II III 0 Y X 108 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 108 10/03/20 14:36 Restrições Ao tomar decisões, os indivíduos enfrentam restrições de todas as naturezas: legais, de tempo, físicas e, invariavelmente, restrições orçamentárias. Por isso, é im- portante examinar o papel que os preços e a renda desempenham na restrição do comportamento do consumidor. Em síntese, a restrição orçamentária limita o comportamento do consumidor, forçando-o a selecionar um pacote de mercadorias que lhe seja fi nanceiramente acessível. Para demonstrar como a presença de restrição orçamentária restringe a escolha do consumidor, é necessário compor a seguinte notação: M representa a renda do consumidor, que pode ser qualquer valor. Ao se utilizar M em vez de um valor específi co de renda, entende-se melhor o fato de que a teoria é válida para consumidores de qualquer nível de renda. Além disso, PX e PY representam os preços dos produtos X e Y, respectivamente. Nesses termos, o conjunto de opor- tunidades (também chamado de horizonte orçamentário) pode ser expresso ma- tematicamente como: PXX + PYY ≤ M Ou seja, a equação do orçamento defi ne as combinações de bens X e Y acessíveis ao consumidor: os gastos do consumidor com o bem X mais suas despesas com o bem Y não excedem a renda do consumidor. Observa-se que, se o consumidor gasta toda a sua renda com os dois bens, essa equação torna-se uma igualdade (“=” no lu- gar de “≤”). Essa confi guração é chamada de linha do orçamento, que defi ne todas as combinações dos bens X e Y que exaurem por completo a renda do consumidor. PXX + PYY = M Isolando-se Y na equação, tem-se: Y = (M ÷ PY) - (PX ÷ PY)X Resulta-se, assim, na verifi cação de que Y é uma função linear de X, com uma interceptação vertical de M/PY e uma inclinação de -PX / PY. Com base nessa equação, a restrição orçamentária do consumidor está ilustrada no Gráfi co 3. A área hachura- da representa o horizonte de orçamento ou de oportunidades do consumidor. Em particular, qualquer combinação de mercadorias X e Y dentro da área hachurada, como no caso do ponto G, representa uma combinação acessível de X e Y. Qualquer ponto acima da área sombreada, como o ponto H, representa uma composição de mercadorias inacessível. 109 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 109 10/03/20 14:36 GRÁFICO 3. HORIZONTE ORÇAMENTÁRIO Fonte: BAYE; PRINCE, 2016 (Adaptado). H G 0 Y Y = X X M Py M Px Px Py M Py Px Py A inclinação da linha do orçamento é dada por -PX/PY e representa a taxa marginal de substituição entre os bens X e Y. Para melhor compreensão das implicações decorrentes dessa taxa, o Gráfico 4 exemplifica uma linha de orçamento para um consumidor que tenha R$ 10 em renda disponível e se depara com o preço de R$ 1 pelo bem X e R$ 2 pelo bem Y. Ao substituir esses respectivos valores de PX, PY e M na fórmula da linha de orçamento, observa-se que a interceptação vertical da linha do orçamento (ou seja, a quantidade máxima acessível de bens Y ) é M/PY = 10/2 = 5. A interceptação horizontal é M/PX = 10/1 = 10 e representa a quantidade máxima de merca- dorias do bem X que podem ser compradas. A inclinação da linha do orça- mento é -PX / PY = -(1/2). 110 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 110 10/03/20 14:36 GRÁFICO 4. A LINHA DO ORÇAMENTO Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). Linha do orçamento 5 B A Y X 0 2 4 10 4 3 A inclinação da linha do orçamento representa a taxa de substituição do mercado entre dois bens, e facilitar essa visualização é a principal contribuição da ferramenta gráfi ca. Supondo um pacote A adquirido pelo consumidor no Gráfi co 4, que representa a situação em que ele compra três unidades do bem Y e quatro unidades do bem X: se o consumidor comprasse o pacote B em vez do pacote A, ele obteria uma unidade adicional do bem Y. Mas, para isso, ele deve abrir mão de duas unidades (4 - 2 = 2) do bem X. Para cada unidade do bem Y que o consumidor compra, ele deve desistir de duas unidades do bem X. Assim, a taxa de substituição do mercado é ΔY / ΔX = (4 - 3) / (2 - 4) = -1/2, que é a inclinação da linha do orçamento. Mudanças na renda O horizonte de oportunidades do consumidor depende dos preços de mercado e de sua renda. Assim, à medida que esses parâmetros mudam, as oportunidades do consumidor também mudam. Por isso, convém examinar os efeitos no horizonte de oportunidades advindos de mudanças na receita, assumindo que os preços permaneçam constantes. 111 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 111 10/03/20 14:36 Supondo-se que a renda inicial do consumidor no Gráfico 5 seja M0, o que acontece se M0 aumentar para M1 enquanto os preços permanecerem inalte- rados? Uma vez que a inclinação da linha do orçamento é dada por -PX/PY, ante a premissa de que os preços permaneçam inalterados, o aumento da receita não afeta a inclinação da linha do orçamento. GRÁFICO 5. MUDANÇAS NA RENDA ENCOLHEM OU EXPANDEM OPORTUNIDADES Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). M¹ Py Y X0 M 0 Py M 2 M 2 P 1 x 113 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 113 10/03/20 14:36 Equilíbrio do consumidor O interesse do consumidor é escolher o pacote de consumo que maximiza sua utilidade ou satisfação. Não fosse pela escassez, a propriedade “mais é melhor” implicaria que o consumidor poderia escolher quantidades infi nitas de mercado- rias. No entanto, uma das implicações da escassez é a de que o consumidor pre- cise selecionar um pacote incluído no orçamento, ou seja, um pacote acessível. Combinar a teoria das preferências do consumidor com a análise de restrições permite visualizar como o consumidor seleciona o melhor pacote acessível. Por exemplo, considerando um pacote como A no Gráfi co 7, a combinação de bens X e Y está na linha do orçamento, de modo que o custo do pacote A exaure completamente a receita do consumidor. GRÁFICO 7. EQUILÍBRIO DO CONSUMIDOR Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). A B C 0 D Equilíbrio do consumidorI II X Y III 114 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 114 10/03/20 14:36 Dada a renda e os preços correspondentes à linha do orçamento, o con- sumidor pode se posicionar melhor – ou seja, o consumidor pode obter uma curva de indiferença mais elevada. Se o consumidor optar pelo pacote B em vez do pacote A, a vantagem é maior, pois a curva de indiferença II, que passa por B, fica acima da curva de indiferença I, que passa por A. Além disso, o pacote B está na linha do orçamento e, portanto, é acessível. Em suma, não é a melhor decisão para o consumidor optar pelo pacote A por- que o pacote B, além de igualmente acessível, proporciona-lhe um maior nível de bem-estar. Contudo, isso não significa que o pacote B seja ideal: ele esgota o orçamen- to do consumidor, mas há outro pacote acessível ainda melhor, que é o C. Cabe observar que existem pacotes, como D, que o consumidor preferiria em re- lação ao pacote C, mas pacotes nessa região não lhe são acessíveis. Assim, o pacote C representa a escolha de equilíbrio do consumidor. O termo equilíbrio se refere ao fato de que o consumidor não tem incentivo para mudar para um pacote acessível diferente quando esse ponto é alcançado. Um ponto importante sobre o equilíbrio do consumidor é o fato de que, exatamente no ponto de equilíbrio, a inclinação da curva de indiferença é igual à inclinação da linha do orçamento. É importante lembrar que o valor absoluto da inclinação da curva de indiferença é chamado de taxa marginal de substi- tuição e que a inclinação da linha do orçamento é dada por -PX/PY, resultando no ponto de equilíbrio do consumidor, TMS = PX/PY. Se essa condição não se mantiver, a taxa que o consumidor estaria disposto a adotar na substituição entre os bens X e Y seria diferente da taxa de mercado com a qual se pode substituir esses bens. Por exemplo, no ponto A do Gráfico 7, a inclinação da curva de indiferença é mais acentuada que a incli- nação da linha do orçamento. Isso significa que o consumidor está disposto a desistir de mais bens Y para obter uma unidade adicio- nal do bem X, com base nos preços de mercado. Conse- quentemente, é do interesse do consumidor consumir menos do bem Y e mais do bem X. Essa substituição continua até que o consumidor esteja em um ponto como C no Gráfico 7, em que a TMS é igual à razão dos preços de X e Y. 115 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 115 10/03/20 14:36 Custo econômico de produção É fato que diferentes confi gurações de curvas de indiferença e de horizontes de orçamento acarretam em diferentes custos de produção, permitindo, desta maneira, o estudo da composição ideal entre capital e trabalho. Cada uma dessas confi gurações corresponde a um nível diferente de produção, de tal modo que o custo efetivo da produção se dá pela função das escolhas dessas confi gurações. Evidentemente, o conhecimento mais apurado (e real) de custos de um sis- tema produtivo se mostra altamente valioso, afi nal, através dele são fornecidas as informações essenciais que um gestor precisar dispor para poder determinar um nível de produção que maximize o lucro do empreendimento. Não obstante, a função de custo resume informações cruciais sobre o processo de produção. Na prática, esta função reduz a quantidade de informações que o gerente preci- sa processar para tomar decisões mais efetivas sobre o sistema produtivo. Custos de curto prazo Em uma análise econômica, o que precisamente defi ne o termo “curto prazo” é o período que possui uma duração curta o sufi ciente para que os valores de algumas entradas sejam, para todos os efeitos, fi xos. Na prática, no curto prazo, o gestor é livre para ajustar o uso de recursos e insumos variáveis, mas fi ca sem a mesma ação no que se refere aos níveis existentes de entradas fi xas (no sentido de não haver variação em função do nível de produção). Enfi m, como os insumos são costumei- ramente caros, sejam eles fi xos ou variáveis, vale frisar que o custo total (CT) da pro- dução no curto prazo consiste no somatório de custo fi xos (CF) e de custos variáveis (CV). Os CV incluem os custos de insumos que variam com a produção. Como todos os custos se enquadram em uma categoria ou outra, a soma dos custos fi xos e variáveis é a função de custo de curto prazo da empresa. Na presença de fatores fi xos de produção, a função de custo de curto prazo resume o custo mínimo possível para produzir cada nível de produção quando fatores variáveis estão sendo usados com vistas à minimização de custos. O Gráfi co 8 ilustra as relações entre CT, CV e CF. Como os CF não mudam com a produção, são constantes para todos os níveis da mesma, devendo ser pagos mesmo com produção zero. Os CV, por outro lado, são zero em caso de nenhuma 116 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 116 10/03/20 14:36 produção, mas expandem à medida que a produção aumenta acima de zero. Visto que CT é a soma de CV e CF, a distância entre as curvas CT e CV no Gráfi co 8 é simplesmente o nível de CF. Observa-se que as curvas se aproximam à medida que fi cam mais íngremes; no entanto, isso se deve ao fato de que, com uma di- ferença vertical fi xa nas curvas, a diferença horizontal fi ca menor à medida que elas fi cam mais exponenciais, fazendo com que pareçam mais próximas dessa dimensão (ou seja, quando os CV começam a se tornar proporcionalmente muito maiores que os CF). GRÁFICO 8. A RELAÇÃO ENTRE OS CUSTOS Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). Custos Total, variáveis e fi xos 0 Q CF CT = CV + CF CF CF CF CF CF CV CF Custo médio e custo marginal Uma suposição equivocada e muito comum sobre custos é a de que as gran- des empresas os têm em patamares mais baixos que as pequenas, pois produ- zem maiores quantidades de produto. Contudo, um fato fundamental sobre a escassez é que, para produzir mais, é preciso gastar mais. O que o senso 117 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 117 10/03/20 14:36 comum provavelmente considera quando reflete acerca das vantagens de pro- duzir grandes quantidades de produção é o fato de que o esforço se distribui por um nível maior de produção. Trata-se da ideia intrinsecamente relacionada ao conceito econômico de custo fixo médio. O custo fixo médio (CFM) é defini- do como o patamar de CF dividido pelo número de unidades de produção (Q): CFM = CF ÷ Q Como os CF não variam com a produção, à medida que mais e mais produ- tos são produzidos, os CF são alocados por uma quantidade maior de produ- tos. Como consequência, o CFM diminui à medida que a produção é expandida. De forma análoga, o custo variável médio fornece uma medida de custos variáveis por unidade. O custo variável médio (CVM) é definido como custo variável (CV) dividido por Q: CVM = CV ÷ Q Consequentemente, o custo total médio (CTM) se dá pela razão entre o custo total (CT) e Q. CTM = CT ÷ Q O conceito de custo mais importante é o custo marginal (ou incremental). Conceitualmente, o custo marginal (CM) é o custo de produção de uma unidade de produção adicional, ou seja, a alteração no custo atribuível à última unidade de produção: CM = ΔC ÷ ΔQ Quando apenas um insumo de produção é variável, o CM é o preço deste di- vidido pelo seu produto marginal. É interessante observar que o produto mar- ginal aumenta em um primeiro momento, atinge o máximo e depois diminui. Como o CM é o inverso do produto marginal multiplicado pelo preço do insu- mo, ele diminui à medida que o produto marginal aumenta, e aumenta quando o produto marginal está diminuindo. O Gráfico 9 sintetiza o comportamento dos custos CM, CTM, CFM e CVM. Convém observar que as formas das cur- vas indicam a relação entre os custos marginais e os médios. São relações que revelam importantes in- formações, a começar pela observação de que a curva de CM cruza as curvas CTM e CVM em seus pontos mínimos. 118 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 118 10/03/20 14:36 GRÁFICO 9. A RELAÇÃO ENTRE CUSTO MÉDIO E CUSTO MARGINALFonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). Quando o CM está abaixo de uma curva de custo médio, ele está diminuin- do, e quando o CM está acima do custo médio, ele aumenta. Outra informação importante é o fato de que as curvas CTM e CVM se apro- ximam à medida que a produção aumenta. Isso ocorre porque a única diferen- ça entre elas é o CFM. Como os patamares de CFM diminuem à medida que a produção é expandida, essa diferença diminui conforme os custos fi xos são distribuídos por níveis crescentes de produto. CM$ CTM CVM CFM Q Mínimo do CVM Mínimo do CTM Custos fixos e irrecuperáveis Existe uma importante distinção entre custos fi xos e os chamados cus- tos irrecuperáveis (ou “afundados”). Por defi nição, custo fi xo é aquele que não muda quando a saída de produção é alterada. Um conceito relacionado é o custo irrecuperável, que é aquele que se perde irreversivelmente após o pagamento. 119 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 119 10/03/20 14:36 Para ilustrar, suponha que o gerente de uma empresa de carvão acabou de pa- gar R$ 10.000 para alugar um vagão de trem por um mês. Essa despesa reflete um custo fixo para a empresa – incorre em R$ 10.000 independentemente de se usar o vagão para transportar dez quilogramas ou dez toneladas de carvão. O quanto desse dinheiro é um custo irrecuperável depende dos termos do aluguel. Se o con- trato não permitir que se recupere parcela alguma, uma vez pagos, os R$ 10.000 por inteiro são um custo irrecuperável – afinal, já incorreu no custo, e não há nada que se possa fazer para alterá-lo. Contudo, se o contrato de locação indicar que se recebe R$ 6.000 de “bônus” no caso de não se colocar o vagão para trabalhar, ape- nas R$ 4.000 de R$ 10.000 em custos fixos serão um custo irrecuperável. Os custos irrecuperáveis são, em última análise, o valor desses custos fixos que não podem ser recuperados sob nenhuma hipótese. Mesmo que os custos irrecuperáveis sejam perdidos para sempre depois de pagos, eles não devem ser considerados irrelevantes para a tomada de decisões, especialmente para formulação de estratégias mais elaboradas de gestão financei- ra. Para ilustrar com mais clareza: continuando no mesmo exemplo, suponha que o gestor, de fato, pagou uma quantia não reembolsável de R$ 10.000 para alugar um vagão por um mês, mas imediatamente após a assinatura do contrato ele se dá conta que não precisa dele (eventualmente, a demanda por carvão pode se mostrar significativamente menor do que o esperado). Um fazendeiro se aproxima e propõe a sublocação do vagão por R$ 2.000. Se os termos do contrato de locação permiti- rem sublocar o vagão, o gestor deveria aceitar a oferta recebida? Há quem possa pensar que não, afinal, a empresa aparentemente perde R$ 8.000 sublocando um vagão de R$ 10.000 por míseros R$ 2.000. Contudo, não é um raciocínio consistente. O pagamento da locação de fato não é reembolsável, o que significa que os R$ 10.000 são um custo inevitável que já foi perdido. Como não há nada que se possa fazer para eliminar diretamente esse custo de R$ 10.000, a única questão relevante é se algo pode ser feito para aumentar o fluxo de caixa. Nesse caso, é evidente que a decisão ideal é sublocar o vagão, pois isso gera R$ 2.000 em receitas que a empresa não obteria de outra forma. Observe-se que, embora os cus- tos irrecuperáveis sejam irrelevantes na tomada de sua decisão pela perspectiva do custo de um insumo em si, eles não o são em termos de equacionamento financeiro como um todo, afetando o cálculo do lucro total. Afinal, se a empresa não sublocar o vagão, simplesmente perde R$ 10.000; se o sublocar, perde apenas R$ 8.000. 120 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 120 10/03/20 14:36 Custos a longo prazo Em uma perspectiva de longo prazo, todos os custos são variáveis, afi - nal, o gestor é livre para ajustar os níveis de todos os insumos. Observe, no Gráfi co 10, que a curva de custo médio de curto prazo CTM0 é traçada sob a suposição de que existem alguns fatores fi xos de produção. O custo total médio da produção do nível de produção Q0, dados os fatores fi xos de produção, é CTM0(Q0). No curto prazo, se a empresa aumentar a produção para Q1, não poderá ajustar os fatores fi xos e, portanto, os custos médios subirão para CTM0(Q1). Todavia, no longo prazo, a empresa pode ajustar os fatores fi xos (como, por exemplo, uma nova planta fabril). Considere CTM1 a curva de custo médio após a empresa ajustar os fatores fi xos da maneira ideal. Agora a empresa pode produzir Q1 com curva de custo médio CTM1. Se a empresa produzisse Q1 com curva de custo médio CTM0, seus custos médios seriam CTM0(Q1). GRÁFICO 10. TAMANHO IDEAL DE SISTEMA PRODUTIVO E CUSTO MÉDIO A LONGO PRAZO Fonte: BAYE; PRINCE, 2016. (Adaptado). CTM0 (Q1) Q0 Q1 Q2 CTM0 Saída CTM1 CTM2 S CTM2 (Q1) CTM2 (Q2) CTM1 (Q1) 0 CTM1 (Q2) CTM0 (Q0) 121 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 121 10/03/20 14:36 Ao ajustar os fatores fixos de maneira a otimizar a escala de operação, a empresa economiza na produção e pode produzir Q1 unidades a um custo médio mais baixo, CTM1 (Q1). Observe que a curva denominada CTM1 é uma curva de custo médio de curto prazo com base nos novos níveis de insumos fixos que foram selecionados para minimizar o custo de produção de Q1. Se a empresa deseja expandir ainda mais a produção – por exemplo, para Q2 – seguiria a curva CTM1 no curto prazo para CTM1(Q2) até mudar novamente seus fatores fixos, para incorrer em custos médios mais baixos da produção de Q2 unidades, identificado como CTM2(Q2). A curva de custo médio de longo prazo, denotada como CMLP no Grá- fico 10, define o custo médio mínimo para produzir níveis alternativos de produção, permitindo a seleção ideal de todas as variáveis de produção (fa- tores fixos e variáveis). Ela é o envelope mais baixo de todas as curvas de custo médio de curto prazo. Isso significa que a curva de CMLP fica abaixo de cada ponto nas curvas de custo médio de curto prazo, exceto onde ela é igual a cada curva de custo médio de curto prazo, nos pontos em que a curva de curto prazo usa fatores fixos de maneira ideal. Em essência, podemos interpretar cada curva de custo médio de curto prazo, no Gráfico 10 como o custo médio de produção em uma planta fabril ou sistema produti- vo de tamanho fixo. Diferentes curvas de custo médio de curto prazo estão associadas a diferentes tamanhos de siste- mas produtivos. A longo prazo, o gestor da empresa é livre para escolher o tamanho ideal da planta fa- bril para operar o nível desejado de produção, de- terminando, desta maneira, o CMLP para trabalhar nesse nível de produção. 122 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 122 10/03/20 14:36 Sintetizando Ao menos três teóricos são de indiscutível recorrência quanto ao exame do tema da produção pela lente econômica: Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx. Smith, considerado o “pai” do liberalismo econômico, é conheci- do pelos mais básicos estudos, tais como o da divisão do trabalho e do lucro como racionalizador dos preços relativos. Ricardo se dedicou à determinação do nível da taxa de lucro, propondo, entre outras abordagens de análise econômica, a teoria do valor do traba- lho. Calcado na teoria do valor de trabalho de Ricardo, Karl Marx apresenta sua explicação da mais-valia para fundamentar sua visão sobre a supos- ta exploração parasitária dos empresários nos sistemas produtivos, o que gera discussões até os dias de hoje. É sempre desafiador entender como os consumidores respondem às es- colhas alternativas que os confrontam. Modelos simples, embora úteis, ma- peiam aspectos como oportunidade e preferência do consumidor. Ao tomar decisões, os indivíduos enfrentam restrições de todas as na- turezas, sobretudo orçamentárias. Então, é importante examinar o papel que os preços e a renda desempenham na restrição do comportamento do consumidor. A inclinação da linha do orçamento representa a taxa desubs- tituição do mercado entre dois bens. No gráfico do horizonte de orçamento, interpretamos que mudanças na renda encolhem ou expandem oportunida- des, e que mudanças no preço alteram a inclinação da linha de orçamento. O interesse do consumidor é escolher aquilo que maximiza a utilidade ou satisfação. Combinar a teoria das preferências do consumidor com a análise de restrições nos permite visualizar a maneira como o consumidor selecio- na a melhor alternativa possível. Finalmente, o conhecimento dos custos de um sistema produtivo se mostra valioso, pois ele fornece as informações essenciais que um gestor precisa ter para poder determinar um nível de produção que maximize o lucro do empreendimento. Quanto aos custos de curto prazo, é importante identificar os compo- nentes variáveis e fixos dos custos totais, bem como saber trabalhar com o custo médio e o custo marginal. 123 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 123 10/03/20 14:36 Observe que, embora os custos irrecuperáveis sejam irrelevantes na toma- da de sua decisão pela perspectiva do custo de um insumo em si, eles não o são em termos de equacionamento financeiro como um todo, afetando o cálculo do lucro total. Em uma perspectiva de longo prazo, todos os custos são variáveis, porque o gestor é livre para ajustar os níveis de todos os insumos. A curva de custo médio de longo prazo define o custo médio mínimo para produzir níveis alter- nativos de produção, permitindo a seleção ideal de todas as variáveis. 124 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 124 10/03/20 14:36 Referências bibliográficas BAYE, M.; PRINCE, J. Managerial economics and business strategy. 9. ed. Nova Iorque: McGraw-Hill, 2016. CAPITALISMO, incentivos e pobreza com Leonardo Lima. Postado por Canal Futura. (13min. 59s.). son. color. port. Disponível em: . Acesso em: 29 fev. 2020. KURZ, H.; SALVADORI, N. Theory of production: a long-period analysis. Cam- bridge: Cambridge University Press, 1995. MARX, K. Capital: a critique of political economy. Londres: Penguin Classics, v. 1, 1992. RICARDO, D. The principles of political economy and taxation. Mineola: Do- ver Publications: 2004. SMITH, A. The Wealth of nations: an inquiry into the nature and causes of the wealth of nations. Hampshire: Harriman House, 2010. STEVENS, E. Fuzzy front-end learning strategies: exploration of a high- -tech company. Disponível em: . Acesso em: 29 fev. 2020. 125 SER_ECPME_FUECOAD_UNID3.indd 125 10/03/20 14:36 PRODUÇÃO, CONCORRÊNCIA E CUSTOS 4 UNIDADE SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 126 10/03/20 14:35 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Assimilar os critérios objetivos que norteiam as decisões inerentes aos sistemas de produção; Analisar os elementos que movem os sistemas de produção de modelos de concorrência mais imperfeita, para uma concorrência mais perfeita; Entender os conceitos e aplicações das estruturas não lineares de preços; Relacionar as diferentes informações acerca das mais variadas curvas de custo. Onde, quando e quanto produzir O que e quanto produzir Como e para quem produzir A estrutura de mercado de concorrência perfeita Condições idealizadoras de concorrência perfeita Lucro normal Mercados competitivos e dis- putados Mercados não competitivos Intervenção governamental Resultados Lucratividade Ponto de desligamento Curva de oferta de curto prazo Críticas Custos não lineares Aplicação Curvas de custos totais e curvas unitárias Notação Curvas CTCP e CTLP Curvas CVCP e CFCP ou CV e CF Curvas CVMED ou CVMEDCP Curvas CMARCP e CMARLP Relação entre diferentes curvas Relação entre curvas de cur- to e longo prazos 127 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 127 10/03/20 14:35 Onde, quando e quanto produzir A produção, a distribuição e a disposição de bens e serviços são as atividades econômicas básicas do co- tidiano. Inevitavelmente, no curso dessas atividades, toda sociedade precisa enfrentar o fato da escassez de recursos. E, justamente por causa dessa escas- sez, toda sociedade precisa decidir como melhor alocar os recursos escassos. No modelo capi- talista, os problemas centrais do que produzir, quanto produzir, como produzir e para quem produ- zir são determinados pelo mecanismo de preços livres. ASSISTA Um cenário de infl ação controlada aparentemente favo- rece a viabilidade econômica dos sistemas de produção. Contudo, conforme explica o economista Samy Dana, em seu quadro na Jovem Pan News, defl ações devem ser pontuais, e não sistêmicas, sob risco de prejudicar grave- mente a equação de oferta e de demanda. O que e quanto produzir Primeiramente, a questão essencial que se impõe é: afi nal, quais merca- dorias devem ser produzidas e em que quantidades? A premissa é que as mercadorias que não refl etem preços positivos no mercado não devem ser produzidas. Por isso, somente mercadorias que apresentem expectativa de viabilidade econômica devem ser produzidas, de maneira que sejam absorvi- das tão imediatamente quanto possível pelo mercado. Por isso, a quantidade na qual uma mercadoria deve ser produzida é esta- belecida no nível em que a demanda é igual à oferta. Se a quantidade produ- zida for maior ou menor, haverá desequilíbrio no mercado e o preço fl utuará. Portanto, para manter um preço de equilíbrio estável, torna-se necessário pro- curar igualar a demanda e a oferta. Esta regra se aplica a todo tipo de merca- doria e, dessa maneira, o primeiro problema central é devidamente abordado. 128 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 128 10/03/20 14:35 Como e para quem produzir Nestes termos, tecnologia signifi ca a proporção adequada na qual os di- ferentes fatores de produção devem ser combinados e empregados. Assim, essencialmente, existem dois tipos de técnicas: o trabalho intensivo, carac- terizado por empregar relativamente mais labor humano e menos capital; e a técnica intensiva em capital, que signifi ca justamente o oposto: mais capital e menos labor. Evidentemente, a escolha da técnica depende dos preços dos fatores de produção. Ou seja, se a mão de obra é barata e o capital é caro, uma técnica de trabalho intensivo é a preferida, e vice-versa. Devemos sempre levar em consideração que os preços do trabalho e do capital são determinados pela demanda e oferta de trabalho e de capital, respectivamente. Dessa forma, o segundo problema pode ser sanado. Uma mercadoria, seja na forma de bem físico manufaturado ou de serviço prestado, só pode ser consumida por pessoas que têm o devido poder de compra. O mecanismo de preços leva em consideração a renda dos trabalha- dores e, consequentemente, o poder de compra do proprietário do capital. Portanto, o terceiro problema é devidamente equalizado quando os preços de todas as mercadorias e de todos os fatores de produção estiverem devida- mente determinados. A estrutura de mercado de concorrência perfeita No campo das ciências econômicas, mais precisamente na teoria do equilíbrio geral, existe o conceito de mercado perfeito (também conheci- do como mercado atomístico). Trata-se da concretização de várias condi- ções idealizadoras, que resultam na confi guração de competição perfeita ou competição atomística. Nos modelos teóricos em que as tais condições são observadas, a teoria prevê que o mercado alcance um equilíbrio, no qual a quantidade ofertada para cada produto ou serviço, incluindo-se aí mão de obra, seja igual à quantidade de- mandada pelo preço atual. Esse equilíbrio equivale a um ótimo de Pareto. 129 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 129 10/03/20 14:35 EXPLICANDO Eficiência de Pareto, ou ótimo de Pareto, é uma proposição concebida pelo cientista e economista italiano Vilfredo Pareto. Em sua definição de um estado de alocação de recursos, se torna impossível157 Sintetizando ......................................................................................................................... 160 Referências bibliográficas ............................................................................................... 160 10 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 10 10/03/20 14:34 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 11 10/03/20 14:34 Todo livro que carrega o título de “fundamentos” precisa primordialmente priorizar a compreensão de conceitos associados ao domínio de conhecimento ao qual é direcionado. Não é diferente com os fundamentos de Economia – afi nal, dominar com clareza os conceitos econômicos é a base para o entendi- mento tanto da Economia como uma ciência em si quanto do próprio processo de tomada de decisão fundamentada. É assim que se constituem verdadeiras ferramentas analíticas para que se possa apreciar questões econômicas tanto em esfera pessoal quanto social. Assim, convido o aluno a absorver estes conhecimentos, que são úteis para qualquer cidadão e profi ssional da atualidade – portanto, é um conteúdo que não se restringe a estudantes de Economia. Afi nal, com as pessoas conscientes ou não que vivem imersas em um sistema econômico, o mínimo de letramento a respeito é necessário para melhor desempenho do cidadão, seja no papel de produtor ou de consumidor de bens e serviços. Nesse tocante, esta obra percorre os mais elementares conceitos associa- dos à área econômica, investiga as principais correntes teóricas a seu respeito e oferece especial atenção a ferramentas de análise, o que permite sufi ciente domínio em aspectos tão essenciais como escassez, produção, oferta, deman- da, concorrência, pontos de equilíbrio e desequilíbrio, linearidade, entre tantos outros. Bons estudos! 12 Apresentação SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 12 10/03/20 14:34 Este livro é dedicado a todos os pais e mães de família, que, além de outras atribuições obrigatórias, são também exímios economistas das instituições de seus lares. O professor Rodrigo Sartori é doutor em Administração pela Universidade Positivo (2018), com período-sanduí- che na University of Massachusetts, Amherst, EUA (2017), mestre em En- genharia da Produção pela UTFPR (2012), especialista em Gestão do Co- nhecimento nas Organizações pela UTFPR (2005) e Engenheiro Industrial Elétrico pela UTFPR (1999). Possui mais de 20 anos de experiência em indústrias de alta tecnologia. Atua como consultor empresarial e pesqui- sador, com concentração em campos como gestão e inovação, incluindo atividades nos EUA e na Espanha. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7251100963170657 13 O autor SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 13 10/03/20 14:34 INTRODUÇÃO À ECONOMIA 1 UNIDADE SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 14 10/03/20 14:35 Objetivos da unidade Tópicos de estudo Compreender os diversos conceitos fundamentais relacionados à economia; Aprofundar o entendimento da curva de possibilidade de produção como categoria analítica em economia; Examinar os vínculos de fatores de produção com sistemas econômicos variados. Conceito de economia Escassez e escolha Custo da oportunidade e trade-offs Produtividade Sistemas econômicos Instituições e incentivos econô- micos Troca, dinheiro e interdepen- dência O problema econômico fundamental Problema de alocação de recursos Problema do pleno emprego dos recursos Problema do crescimento econômico Curva de possibilidade de produção/custo de oportunidade Posição Propriedades Forma Custo de oportunidade Fatores de produção Algumas escolas de economia Sistema econômico Componentes Tipologia Relação da economia com as demais ciências Divisão do estudo econômico 15 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 15 10/03/20 14:35 Conceito de economia Uma economia (do grego οίκος, “agregado familiar”, e νέμoμαι, “ad- ministrar”) é uma área de produção, distribuição e comércio, bem como consumo de bens e serviços por di- ferentes agentes. Entendido em seu sentido mais amplo, a economia é de- fi nida como um domínio social que en- fatiza práticas, discursos e expressões materiais associados à produção, ao uso e ao gerenciamento de recursos. Agentes econômicos podem ser indivíduos, empresas, organizações ou governos. Diz-se que transações econômicas ocorrem quando dois grupos ou partes concordam com o valor ou preço do bem ou serviço transacionado, co- mumente expresso em uma determinada moeda. No entanto, as transações monetárias representam apenas uma pequena parte do domínio econômico. A atividade econômica é estimulada pela produ- ção que utiliza recursos naturais, trabalho e capital. Isso mudou ao longo do tempo devido à tecnologia e à inovação – e continua e continuará sempre a mudar devido a essas mesmas razões. Uma dada economia é o resultado de um conjunto de processos que envol- ve sua cultura, valores, educação, evolução tecnológica, história, organização social, estrutura política e sistemas jurídicos, além de sua geografi a, recursos naturais e ecologia, como principais fatores. Esses fatores fornecem contex- to, conteúdo e defi nem as condições e parâmetros nos quais uma economia funciona. Em outras palavras, o domínio econômico é um domínio social das práticas e transações humanas – essencialmente, de uma coletividade. Convém entender os conceitos da economia como a constituição do mais bási- co vocabulário desse campo do conhecimento. Conforme apresentado no Quadro 1, é possível considerar ao menos seis conceitos econômicos fundamentais. Trata- -se de uma lista que reúne aspectos que grande parte dos economistas considera os mais básicos dentre inúmeros conceitos que se pode enunciar em economia. 16 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 16 10/03/20 14:35 1. Escassez e escolha 2. Custo da oportunidade e trade-off s 3. Produtividade 4. Sistemas econômicos 5. Instituições e incentivos econômicos 6. Troca, dinheiro e interdependência QUADRO 1. OS SEIS CONCEITOS ECONÔMICOS FUNDAMENTAIS Fonte: SAUNDERS; GILLIARD, 2005. (Adaptado). Escassez e escolha O dilema econômico que se impõe a indivíduos, grupos e sociedade como um todo é que os recursos produtivos são limitados em relação às necessida- des das pessoas; em suma, não se pode ter tudo o que se almeja. Essa é, precisamente, a condição básica da escassez, que se desdobra então em um aspecto bastante prático: a exigência que as pessoas façam escolhas sobre como utilizar os recursos disponíveis de maneira mais efi caz para satis- fazer seus desejos. De fato, a escassez resulta do desequilíbrio entre níveis relativamente ilimi- tados de desejos, por um lado, e recursos relativamente limitados disponíveis para satisfazer tais desejos, por outro. É interessante observar que, em estrita análise, nenhuma sociedade, mes- mo no ápice de seu desenvolvimento, jamais teve recursos sufi cientes para produzir quantidade e variedade completa de bens e serviços que seus mem- bros desejavam. Por isso, a escassez implica invariavelmente em escolha: se as pessoas não podem ter tudo o que gostariam, não resta alternativa senão escolher e, con- sequentemente, defi nir prioridades. 17 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 17 10/03/20 14:35 Custo da oportunidade e trade-offs O que se entende por custo da oportunidade é o benefício que se sacri- fica da próxima melhor alternativa quando recursos escassos são usados para um determinado propósito e não para outro. Isso vale, evidentemen- te, para todo tipo de escolha: por exemplo, se um jovem opta por se tornar chefe de cozinha, em vez de advogado, arquiteto ou engenheiro, o custo da oportunidade se refere à inevitável perda das alternativas mais impor- tantes perdidas. Termo técnico bastante comum na área da economia, trade-off signifi- ca aceitar ou escolher menos de uma determinada coisa para, justamente devido a isso, conseguir se obter mais de outra coisa. EXPLICANDO Na traduçãorealocá-los de tal forma que a situação de uma parte qualquer seja melhorada sem piorar a situação de outra parte. Dada sua amplitude conceitual, suas aplicações se dão em variados campos, como a informática, a economia, a engenha- ria e as ciências sociais. Para Robert H. Frank (2014), a concorrência perfeita provê tanto eficiência aloca- tiva quanto eficiência produtiva. Primeiramente, é necessário considerar que merca- dos com essa característica são alocativamente eficientes, pois a produção sem- pre ocorrerá no ponto em que o custo marginal (CMAR) coincida com a receita média (RMED), ou seja, preço CMAR = RMED. Em concorrência perfeita, qualquer produtor que maximiza o lucro enfrenta um preço de mercado igual ao CMAR (P = CMAR). Isso implica que o preço de um fator é igual ao produto de receita marginal da- quele fator e ainda permite derivar a curva de oferta na qual a abordagem neoclás- sica se baseia. Essa também é a razão por trás da máxima de que “um monopólio não possui uma curva de oferta”, afinal, o monopólio produz apenas no ponto ótimo e, uma vez que inexiste função para apenas um ponto, não dá para traçar uma “cur- va” de oferta. De tal modo, o abandono da tomada de preços cria dificuldades con- sideráveis para a demonstração de um equilíbrio geral, exceto sob outras condições muito específicas, como a da concorrência monopolista (Gráficos 1 e 2). GRÁFICO 1. EQUILÍBRIO DE CURTO PRAZO DA EMPRESA SOB CONCORRÊNCIA MONOPOLISTA Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013, n.p. (Adaptado). CMED O Q RMAR RMED CMED CMAR Produção P $ 130 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 130 10/03/20 14:35 No Gráfico 1, a empresa maximiza seus lucros e produz uma quantidade em que sua receita marginal (RMAR) é igual ao seu custo marginal (CMAR). A em- presa é capaz de adotar um preço com base na curva de receita média (RMED). A diferença entre a receita média da empresa e o custo médio, multiplicada pela quantidade vendida (Q), determina o lucro total. GRÁFICO 2. EQUILÍBRIO DE LONGO PRAZO DA EMPRESA SOB CONCORRÊNCIA MONOPOLISTA Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013, n.p. (Adaptado). Por sua vez, o Gráfico 2 demonstra que a empresa ainda produz no ponto em que custo marginal (CMAR) e receita marginal (RMAR) se igualam. Contudo, a curva de demanda (RMAR e RMED) se desloca à medida que outros concor- rentes adentram o mercado, acirrando a competição. A empresa, então, não vende mais seus bens e serviços acima do custo médio e, assim, não consegue mais auferir lucro. As características de longo prazo de um mercado monopolisticamente com- petitivo são quase as mesmas de um mercado perfeitamente competitivo. Po- rém, duas diferenças entre tais mercados são que a concorrência monopolista produz produtos heterogêneos e envolve um alto nível de concorrência, não relacionada aos preços, que se baseia na diferenciação sutil do produto. Uma empresa que obtém lucros no curto prazo, no entanto, conseguirá no máximo atingir o ponto de equilíbrio (breakeven) no longo prazo, porque a demanda diminuirá e o custo total médio aumentará. Dito de outra forma, isso significa que, a longo prazo, uma empresa mono- polisticamente competitiva obterá lucro econômico zero. Isso tem o poder de O Q RMAR RMED CMED de longo prazo CMAR de longo prazo Produção P $ 131 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 131 10/03/20 14:35 mostrar o nível de influência que a empresa exerce sobre o mercado, afinal, por causa da lealdade à marca, a empresa pode aumentar seus preços sem perder todos os seus clientes. Isso significa que a curva de demanda de uma empresa individual é inclinada para baixo, em contraste com a concorrência perfeita, que possui um cronograma de demanda de mercado perfeitamente elástico. EXPLICANDO O cronograma de demanda de mercado perfeitamente elástico se dá quando a demanda pode variar de zero até o máximo, com pequenas os- cilações de preço. Se refere a um comportamento que ocorre, na prática, para a demanda de uma empresa atuando em um mercado perfeitamente competitivo, em que o preço é determinado exclusivamente pelo mercado. No que tange a eficiência produtiva, no curto prazo, mercados per- feitamente competitivos não são necessariamente eficientes em produ- ção, pois nem sempre ela ocorre com o custo marginal igual ao custo médio (CMAR = CMED). No entanto, a longo prazo, a eficiência produtiva ocorre quando novas empresas entram no setor. Isto se explica pelo fato de que a concorrên- cia reduz o preço e o custo ao mínimo dos custos médios de longo prazo. Nesse ponto, o preço é igual ao custo marginal e ao custo total médio de cada bem (P = CMAR = CMED). A teoria da concorrência perfeita remonta ao pensamento econômico do final do século XIX. O matemático e economista francês Léon Walras é reco- nhecido por ser o vanguardista de uma definição científica mais rigorosa de concorrência perfeita e seus efeitos associados. Décadas depois, já nos anos 1950, a teoria foi formalmente enunciada pelo norte-americano Kenneth Arrow e pelo francês Gérard Debreu – ambos matemáticos e economistas ganhado- res de prêmios Nobel de Economia. Concorrência perfeita, como bem lembram Samuelson e Nordhaus (2013), é uma abstração conceitual: mercados reais nunca são perfeitos. Os econo- mistas que se fundamentam na concorrência perfeita como uma aproximação útil dos mercados reais usualmente recorrem a classificações comparativas, variando do quase perfeito ao muito imperfeito. Na prática, é dito que os mer- cados de ações e de câmbio são os que mais se aproximam de um comporta- mento de mercado perfeito. 132 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 132 10/03/20 14:35 Por sua vez, o mercado imobiliário é um exemplo notório de mercado muito imperfeito. Em tais mercados, a teoria do segundo melhor (fruto dos estudos do economista canadense Richard Lipsey e do economista australiano Kelvin Lancaster) sustenta que, se uma condição de otimização em um modelo eco- nômico não puder ser satisfeita, é possível que a próxima melhor solução en- volva mudar outras variáveis dos valores que, de outra forma, seriam ótimos (decorrendo então a situação em que uma ou mais condições de otimização não podem ser satisfeitas). Condições idealizadoras de concorrência perfeita Há um conjunto de diferentes con- dições de mercado que se apresenta como requisito para a confi guração de concorrência perfeita, conforme des- crito por Frank (2014) e O’Hara (2015). Entre elas: • Grande número de comprado- res e vendedores: é necessário um grande número de consumidores, com vontade e capacidade de comprar o produto a um determinado preço, e um grande número de fornecedores, com vontade e capacidade de ofertar o produto a um determinado preço; • Informação perfeita: é preciso que todos os consumidores e fornecedo- res conheçam todos os preços de produtos e utilidades/benefícios passíveis de obtenção ao dispor de cada produto; • Produtos homogêneos: os produtos são substitutos perfeitos um para o outro, signifi cando que as qualidades e características de um bem ou ser- viço de mercado não variam entre os diferentes fornecedores (enquadra- mento como commodities); • Direitos de propriedade bem defi nidos: determinação do que pode ser vendido e quais direitos são conferidos ao comprador; • Sem barreiras à entrada ou saída: pressupõe um livre mercado legítimo; • Todo participante é um tomador de preço: não há participante com po- der de mercado para defi nir preços; 133 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 133 10/03/20 14:35 • Mobilidade perfeita de fatores: a longo prazo, os fatores de produção são perfeitamente móveis, permitindo ajustes sem custo para as mudanças nas condições do mercado; • Maximização do lucro dos vendedores: as empresas vendem onde é ge- rado o maior lucro, ou seja, no ponto em que os custos marginais atendam à receita marginal; • Compradores racionais: os compradores se baseiam no critério de fazer apenasnegócios que aumentem sua utilidade econômica. Por isso, sem um aumento de utilidade evidente, não há negócio; • Sem externalidades: Os custos ou benefícios de uma atividade não afe- tam terceiros, excluindo também qualquer intervenção do governo; • Custos de transação nulos: compradores e vendedores não incorrem em custos na troca de mercadorias, em um mercado perfeitamente competitivo; • Retornos não crescentes de escala e ausência de efeito de rede: a falta de economias de escala ou efeitos de rede garante que sempre haverá um número sufi ciente de empresas no setor; • Regulamentação anticoncorrencial: pressupõe-se que um mercado de concorrência perfeita deva estabelecer regulamentações e proteções implíci- tas, no controle e na eliminação da atividade anticoncorrencial no mercado. Lucro normal Em um mercado perfeito, os vendedores operam com superávit econômi- co zero, porque eles obtêm um nível de retorno do investimento conhecido como lucro normal. Isso se trata de um componente dos custos implícitos, e não um componente do lucro comercial. Afi nal, ele engloba também o custo de oportunidade, pois o tempo que o proprietário gasta administrando sua empresa poderia muito bem ser empregado na administração de um empreendimento diferente. O parâmetro do lucro normal é, portanto, o lucro que o proprietário de uma empresa considera necessário para fazer com que a empresa valha a pena, ou seja, é com- parável ao próximo melhor valor que o empresário poderia auferir ao desempenhar algum outro trabalho. 134 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 134 10/03/20 14:35 Particularmente, se o empreendimento não é contabilizado como um fator de produção, ainda pode ser considerado o retorno sobre o capital de investido- res, incluindo o empreendedor, equivalente então ao retorno que o proprietá- rio do capital poderia esperar (comparando com a alternativa de aplicar em um investimento seguro), além de uma compensação pelo risco assumido. Em suma, o custo do lucro normal varia dentro de um setor e entre os setores, e é proporcional ao risco associado a cada tipo de investimento, conforme o espectro risco-retorno. Somente os lucros normais surgem em circunstâncias de concorrência perfeita, quando o equilíbrio econômico de longo prazo é alcançado, em tal confi guração que não há incentivo para que as empresas entrem ou saiam do setor. Mercados competitivos e disputados Conforme ilustra o Gráfi co 3, é somente no curto prazo que uma empre- sa, que opera em um mercado perfeitamente competitivo, pode obter lucro econômico. GRÁFICO 3. LUCRO ECONÔMICO CONDICIONADO AO CURTO PRAZO Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013, n.p. (Adaptado). Com efeito, como comenta Robert H. Frank (2014), o lucro econômico não ocorre em concorrência perfeita, em equilíbrio de longo prazo. Se assim o fosse, haveria incentivo para que novas empresas entrassem no setor, auxi- liadas pela falta de barreiras à entrada, até que não houvesse mais lucro eco- P Preço Lucro econômico CMAR CMED RMED = CMAR Q Quantidade C 135 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 135 10/03/20 14:35 nômico. Na medida em que novas empresas adentram o setor, elas aumentam a oferta do produto disponível no mercado, e essas novas empresas são, assim, forçadas a cobrar um preço mais baixo para atrair os consumi- dores a comprar a oferta adicional disponibilizada no mercado, uma vez que todas as empresas compe- tem por clientes. As empresas existentes no setor são compelidas a enfrentar a perda de seus clientes para as novas em- presas, que entram no setor e, portanto, são forçadas a baixar seus preços para corresponder aos preços mais baixos. Novas empresas tendem a conti- nuar entrando no setor, até que o preço do produto seja reduzido ao ponto de ser o mesmo que o custo médio de produção, de tal forma que todo o lucro econômico se esvai. Quando isso acontece, agentes econômicos fora do se- tor não encontram vantagem em formar novas firmas para o setor, a oferta do produto para de aumentar e o preço cobrado pelo produto se estabiliza, chegando em um equilíbrio. O mesmo se aplica aos equilíbrios de longo prazo das indústrias mono- polisticamente competitivas e, de modo mais geral, a qualquer mercado que seja considerado disputado. Normalmente, uma empresa que introduz um produto diferenciado pode garantir, inicialmente, um poder de mercado por uma curta duração. Nessa fase, o preço inicial que o consumidor deve pagar é alto, e a demanda e disponibilidade do produto no mercado são limitados. A longo prazo, no entanto, quando a lucratividade do produto estiver bem estabelecida, havendo poucas barreiras à entrada, o número de empresas que produzem esse produto aumentará, até que a oferta disponível acaba se tornando relativamente grande. Consequentemente, o preço do produto diminui até o nível do seu custo médio de produção. Quando isso finalmente ocorre, todo o lucro do monopólio, associado à produção e venda do produto, desaparece e, assim, aquilo que era inicialmente monopólio se transforma em um setor competitivo convencional. No caso de mercados disputados, o ciclo geralmente termina com a saída dos ex-participantes do mercado, retornando à indústria ao seu estado ante- rior, apenas com um preço mais baixo e sem lucro econômico para as empre- 136 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 136 10/03/20 14:35 sas estabelecidas. No entanto, o lucro pode ocorrer em mercados competiti- vos e disputados a curto prazo, à medida que as empresas disputam posição de mercado. Assim que o risco é contabilizado, o lucro econômico duradouro em um mercado competitivo é visto como resultado de constantes cortes de custos e melhoria de desempenho, à frente dos concorrentes do setor, permi- tindo que os custos fi quem abaixo do preço defi nido pelo mercado. Mercados não competitivos Conforme ilustra o Gráfi co 4, um monopolista encontra condições para fi xar um preço acima dos custos, obtendo lucro econômico. Observa-se, então, que um oligopólio geralmente também tem lucro econômico. Nesse caso, a ope- ração se dá em um mercado com mais de uma empresa (confi guração em que os competidores compartilham a demanda disponível pelo preço de mercado). GRÁFICO 4. LUCRO ECONÔMICO DE UM MONOPOLISTA Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013, n.p. (Adaptado). De fato, o lucro econômico é muito mais prevalente em mercados não competitivos, como ocorre diante de uma situação perfeita de monopólio ou oligopólio. Nesses cenários, as empresas individuais têm algum elemento de poder de mercado: embora os monopolistas sejam limitados pela demanda do consumidor, eles não são tomadores de preço, mas sim fazedores de pre- ços ou determinadores de quantidades. Isso permite que a empresa defi na um preço mais alto do que o encontrado em um setor semelhante, mas mais Preço P Q RMAR RMED = P CMED CMAR Quantidade Lucro econômico 137 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 137 10/03/20 14:35 competitivo, permitindo o lucro econômico tanto no longo, quanto no curto prazo. EXPLICANDO No jargão da Economia, existem os price-makers (fazedores de preço, em tradução livre) e os price-takers (tomadores de preço, em tradução livre). Usualmente, o que os distingue é o volume de operações comerciais: como os primeiros giram maiores valores, é dito que o mercado se dire- ciona conforme seus movimentos. Os segundos, por outro lado, tendo um volume bem mais inexpressivo, apenas operam conforme as condições de mercado impostas pelos primeiros. A existência de lucros econômicos depende da prevalência de barreiras à entrada: elas impedem que outras empresas entrem no setor e comprome- tam a lucratividade geral, como fariam em um mercado mais competitivo. Nos casos em que existem barreiras, mas mais de uma empresa, as empresas podem entrar em conluio para limitar a produção, restringindo a oferta e garantindo que o preço do produto permaneça alto o sufi ciente para garantirque todas as empresas daquele setor alcancem um lucro econômico. No entanto, alguns economistas argumentam que mesmo uma quantida- de muito pequena de poder de mercado pode permitir que uma empresa produza lucro, e que a ausência de lucro econômico em um setor, ou mesmo meramente o fato de que alguma produção ocorra sob prejuízo, por si só constitui uma barreira à entrada. No caso de produtores de bens únicos, o lucro econômico positivo ocorre quando o custo médio da empresa é menor que o preço do produto ou serviço na produção que maximiza o lucro, uma vez que o lucro econômico é igual à quantidade de produto, multiplicada pela diferença entre o custo médio e o preço. Intervenção governamental Conforme ilustra o Gráfi co 5, em um setor econômico regulamentado, o governo examina a estrutura de custos marginais das empresas e restringe os preços a um patamar que não seja maior que esse custo marginal. Isso não implica necessariamente em um lucro econômico zero para a empresa, mas elimina um lucro do tipo “puro monopólio”, naquele sistema de produção. 138 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 138 10/03/20 14:35 GRÁFICO 5. COMPORTAMENTO DE MERCADO REGULADO Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013, n.p. (Adaptado). É bastante comum que governos tentem intervir em mercados não (tão) competitivos, para torná-los mais competitivos. Leis antitruste, de fomen- to à concorrência, costumam ser criadas para impedir que empresas pode- rosas usem sua força econômica para criar artificialmente barreiras à en- trada, a fim de resguardar seus lucros econômicos. Isso inclui, por exemplo, valer-se da estratégia do uso de preços predatórios para intimidar concor- rentes menores. Por exemplo, um caso famoso ocorreu nos Estados Unidos, quando a Microsoft foi condenada por violar a lei antitruste local e se envolver em comportamento anticoncorrencial, com vistas à formação de umas dessas barreiras. Após a devida negociação judicial, a Microsoft firmou acordo com o Departamento de Justiça daquele país, passando a ser submetida perio- dicamente a procedimentos rigorosos de supervisão e de atendimento de requisitos para coibir a repetição desse comportamento predatório. A par- tir de então, com barreiras mais baixas, novas empresas puderam entrar no mercado novamente, tornando o equilíbrio de longo prazo muito mais parecido com o de uma indústria competitiva, sem lucro econômico para as empresas participantes. Se um governo considera impraticável ter um mercado competitivo, como ocorre no caso de um monopólio natural, às vezes tentará regular o mercado não competitivo existente, controlando o preço que as empresas cobram pelo seu produto. Na prática, há de se observar que, embora uma Preço Lucro perdido Lucro obtido P Q Qreg Preg RMAR RMED = P CMED CMAR Quantidade 139 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 139 10/03/20 14:35 empresa regulamentada não tenha lucro econômico tão alto quanto em um enquadramento não regulamentado, ainda pode obter lucros bem acima de uma empresa competitiva em um mercado verdadeiramente competitivo. Resultados É possível para uma empresa individual obter lucro econômico no curto prazo. Afi nal, conforme indicado no Gráfi co 6, o preço ou a receita média, indi- cada por P, está em um patamar acima do custo médio indicado por C. GRÁFICO 6. LUCRO ECONÔMICO NO CURTO PRAZO Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013, n.p. (Adaptado). Por sua vez, o lucro econômico não pode ser sustentado no longo pra- zo (Gráfico 7). Afinal, a chegada de novas empresas ou a expansão de empresas existentes no mercado (se o retorno da escala for constante) faz com que a curva de demanda de cada empresa individual mude para baixo, diminuindo ao mesmo tempo o preço, a receita média e a receita marginal. O resultado final é que, no horizonte de longo prazo, a empresa Preço P C Q Quantidade CMED CMAR RMED = RMAR Lucro anormal Custos da produção (incluindo lucro normal) 140 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 140 10/03/20 14:35 GRÁFICO 7. LUCRO ECONÔMICO NO LONGO PRAZO obterá apenas lucro normal (lucro econômico zero) e sua curva de deman- da horizontal tocará sua curva de custo total médio no ponto mais baixo. Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013, n.p. (Adaptado). Com efeito, em um mercado perfeitamente competitivo, a curva de demanda de uma empresa é perfeitamente elástica. O modelo de concorrência perfeita, se interpretado como aplicável também a comportamentos de curto ou muito curto período, é aproximado apenas por mercados de produtos homogêneos, produ- zidos e comprados por muitos vendedores e compradores, geralmente mercados organizados para produtos agrícolas ou matérias-primas (commodities). Nos mercados do mundo real, suposições como informações perfeitas não podem ser assumidas e são aproximadas apenas em mercados organi- zados de leilão duplo, nos quais a maioria dos agentes envolvidos espera e observa o comportamento dos preços, antes de definir negócio. De todo modo, na interpretação de longo prazo, informações perfeitas não são necessárias, pois a análise visa apenas determinar a média em torno da qual os preços de mercado gravitam e, para que a mera gravitação opere, não é estritamente necessária a informação perfeita. Na ausência de externalidades e bens públicos, os equilíbrios perfeitamente competitivos são ótimos de Pareto, implicando, assim, que nenhuma melhoria na utilidade para um consumidor é possível sem uma piora na utilidade junto a outro consumidor. Tal efeito corresponde à enunciação do primeiro teorema da economia do bem-estar. Preço QuantidadeQ P RMED = RMAR CMAR CMED 141 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 141 10/03/20 14:35 A razão básica é que nenhum fator produtivo, com um produto marginal diferente de zero, é deixado sem uso e as unidades de cada fator são alocadas de modo a produzir a mesma utilidade marginal indireta em todos os usos, uma condição básica de efi ciência. Afi nal, se essa utilidade marginal indireta fosse mais alta em um uso do que em outro, uma melhoria de Pareto poderia ser alcançada, transferindo uma pequena quantidade do fator para o uso em que ele produz uma maior utilidade marginal. Na prática, o monopólio viola a condição de alocação ideal, porque em um mercado monopolizado o preço de mercado está acima do custo marginal, e isso signifi ca que os fatores são subutilizados no setor, possuindo uma utilida- de marginal indireta mais alta do que em seus usos em setores competitivos. O que se observa é que esse teorema é considerado irrelevante por economistas, que não acreditam que a teoria do equilíbrio geral prediga corretamente o funcionamento das economias de mercado. Por outro lado, é dada suma im- portância aos economistas neoclássicos, tendo sido dada por eles a fundamen- tação teórica para combater os monopólios e para o estabelecimento de uma legislação antitruste. Lucratividade Diante da constatação de que, ao contrário de um monopólio ou oligopólio, na concorrência perfeita se torna impossível para uma empresa obter lucro eco- nômico a longo prazo (ou seja, uma empresa não pode ganhar mais dinheiro do que o necessário para cobrir seus custos econômicos), é importante esclarecer conceitualmente o que se toma por lucro. Afi nal, para não interpretar equivoca- damente essa tese de lucro zero a longo prazo, adverte-se que o termo lucro é empregado de distintas maneiras nas ciências econômicas (O’HARA, 2015). Por um lado, a teoria neoclássica defi ne lucro como o que resta da re- ceita, após todos os custos terem sido subtraídos. Inclui-se nessa conta juros normais sobre o capital, mais o adicional normal, exigido para cobrir o risco, e o salário normal para a atividade gerencial. Isso signifi ca que o lucro é calcu- lado depois que todos os atores são compensados por seus custos de opor- tunidade. Contudo, por outro lado, os economistas clássicos defi nem lucro como o que resta depois de subtrairos custos, com a exceção da cobertura de 142 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 142 10/03/20 14:35 juros e riscos. Em suma, a abordagem clássica não leva em consideração os custos de oportunidade. Assim, deixando de lado a cobertura do risco por uma questão de simplicidade, a tese neoclássica de lucro zero no longo prazo seria expressa, na linguagem clás- sica, como lucros coincidindo com os juros no longo período. Isto implica coincidir a taxa de lucro com a taxa de juros. Frisemos aqui que os lucros na abor- dagem clássica não desaparecem, necessariamente, no longo período, mas tendem ao patamar de lucro normal. Diante desse quadro, se uma empresa estiver obtendo lucro anormal no curto prazo, isso atuará como um gatilho motivacional para que outras empresas entrem no mercado. Mas na medida em que outras empresas entram para competir, a curva de oferta do mercado muda, fazendo com que os preços inevitavelmente caiam. Consequentemente, as empresas tradicionais do mercado reagirão a esse preço mais baixo, ajustando seu capital social para baixo. Esse ajuste faz com que seu custo marginal se desloque para a esquerda e, assim, a curva de oferta do mercado se desloca para dentro. No entanto, o efeito da entrada de novas empresas e do ajuste por empresas existentes será mudar a curva de oferta para fora. O preço de mercado será reduzido até que todas as empresas obte- nham apenas lucro normal. É importante observar que a concorrência perfeita é uma condição sufi - ciente para a efi ciência alocativa e produtiva, mas não é uma condição neces- sária: experiências de laboratório, nas quais os participantes têm um poder signifi cativo de fi xação de preços e pouca ou nenhuma informação sobre suas contrapartes, produzem resultados consistentes, dadas as instituições comer- ciais apropriadas. Ponto de desligamento No horizonte de curto prazo, uma empresa que opera com prejuízo (re- ceita menor que o custo total, ou preço menor que o custo unitário) precisa decidir se continua operando ou se encerra ou suspende operações – mesmo que temporariamente. A regra de desligamento enuncia o critério de que, no 143 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 143 10/03/20 14:35 curto prazo, uma empresa deve conti- nuar operando se o preço exceder os custos variáveis médios. Isto posto, para uma empresa continuar produ- zindo no curto prazo, ela deve obter receita suficiente para cobrir seus custos variáveis (FRANK, 2014). A lógica da regra é bastante direta: ao fechar uma empresa, deixam de existir custos variáveis – todos eles. No entanto, a empresa ainda deve pagar seus custos fixos. Contudo, como tais custos precisam ser pagos, independentemente de uma empresa operar ou não, na prática isso implica que custos fixos não devem ser consi- derados na decisão de continuar ou encerrar operações. Por isso, para a tomada da decisão gerencial sobre a continuidade do em- preendimento, deve-se comparar a receita total com o custo variável total, em vez do custo total (soma de todos os custos fixos e variáveis). Se a receita que a empresa está produzindo for maior que seu custo variável total, a em- presa está cobrindo todos os custos variáveis e ainda há uma receita adicio- nal (a chamada margem de contribuição), que pode ser aplicada para cobrir custos fixos. É interessante observar que o tamanho dos custos fixos (por maiores que sejam) é irrelevante, pois se trata de um custo irrecuperável. O critério para um custo fixo de poucos reais a milhões de reais é estritamente o mesmo. Por outro lado, se os custos variáveis excedem a receita, a empresa não está conseguindo cobrir seus custos de produção e, portanto, a decisão mais as- sertiva é a interrupção imediata das atividades. Por convenção, a regra é usualmente trabalhada em termos de preço (re- ceita média) e custos variáveis médios. As regras são equivalentes: ao se di- vidir os dois fatores pela quantidade produzida, o que continua se obtendo é que o preço precisa ser maior que os custos variáveis médios. Sendo assim, se a empresa vê condições de continuar operando, ela continuará produzindo, 144 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 144 10/03/20 14:36 sendo regulado ao ponto em que a receita marginal é igual aos custos margi- nais, porque essas condições garantem não apenas a maximização do lucro (portanto, minimização de perdas), mas também a contribuição máxima. Outra maneira de aplicar a regra é que uma empresa deve comparar os lucros que aufere quando opera, com o que obtém quando parada, optando pela alternativa que produz maior lucro. Naturalmente, uma empresa que está fechada está gerando receita zero e não incorre em custos variáveis. No entanto, a empresa ainda tem que pagar um custo fixo. Portanto, o lucro da empresa é igual a custos fixos. Uma empresa operacional está gerando receita, incorrendo em custos va- riáveis e pagando custos fixos. O lucro da empresa operacional é a receita (R), menos os custos variáveis (CV) e menos os custos fixos (CF). A empresa deve continuar operando se R - CV - CF ≥ −CF, que, de forma simplificada, impõe que R ≥ CV. A diferença entre R e CV é a contribuição para os custos fixos – e qualquer contribuição é melhor que nenhuma. Portanto, se R ≥ CV, a em- presa deve operar. Mas se Rmédio mínimo. Como lembra O’Hara (2015), embora não exista um mercado perfeitamen- te competitivo no mundo real, existem várias aproximações ao conceito. Um exemplo é o de uma instância de mercadorias idênticas com todos os po- tenciais compradores e vendedores presentes. Por defi nição, uma bolsa de valores se assemelha a isso, não com uma adesão completa (pois nenhum mercado pode atender a todos os requisitos do modelo), mas como uma boa aproximação. Por outro lado, a falha em considerar a bolsa de valores como um exemplo de concorrência perfeita é o fato de que grandes investidores institucionais (por exemplo, bancos de investimento) podem, com alguma facilidade, in- fl uenciar o preço de mercado (por exemplo, uma grande aquisição de lotes de dólares fazendo com que a cotação da moeda dispare). Isso é uma evidente 146 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 146 10/03/20 14:36 violação da condição hipotética de que nenhum vendedor pode infl uenciar o preço de mercado. As apostas em cavalos também são uma situação muito próxima. Ao fazerem apostas, os consumidores podem verifi car circunstancialmente quem está oferecendo as melhores chances e, assim, nenhum agenciador de apostas pode oferecer probabilidades piores do que as oferecidas pelo mercado como um todo, já que, nesse caso, os consumidores facilmente optariam por outra alternativa. Isso torna os agenciadores de apostas “to- madores de preço”. Além disso, o produto oferecido é muito homogêneo, sendo a recompensa e o cavalo as únicas diferenças entre as apostas indivi- duais. Obviamente, não há uma quantidade infi nita de apostadores, e exis- tem algumas barreiras à entrada, como uma licença e o capital necessário para as instalações. Críticas O uso da suposição de concorrência perfeita como fun- damento da teoria dos preços para os mercados de pro- dutos é frequentemente criticado por representar todos os agentes como passivos, desconsiderando assim as iniciativas de aumentar o bem-estar ou os lucros de uma pessoa por fatores como precifi cação predató- ria, design de produtos, publicidade e inovação, ati- vidades que (de acordo com os críticos) caracterizam a maioria das indústrias e mercados. Essas críticas apontam para a frequente falta de realismo dos pressupostos de homogeneidade do produto e a impossibilidade de diferenciá-los. No en- tanto, além disso, a acusação de passividade parece justa apenas para análises de curto ou muito curto período. Em análises de longo período, a incapacidade de o preço divergir do preço natural ou a longo prazo deve-se a reações ativas da entrada ou saída de competidores (FRANK, 2014). Alguns economistas têm um tipo diferente de crítica a respeito do mode- lo de concorrência perfeita, não criticando a suposição do tomador de preço por tornar os agentes econômicos demasiado passivos, mas sim levantando 147 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 147 10/03/20 14:36 a questão acerca de quem define os preços. De fato, se todos são tomadores de preços, há a necessidade de um planejador benevolente, que dê e defina os preços. Em outras palavras, é necessário um formador de preços. Portanto, torna-se apropriado o modelo de concorrência perfeito, não para descrever uma economia descentralizada de mercado, mas uma economia centralizada. Isso, por sua vez, significa que esse tipo de modelo tem mais a ver com a economia planejada pelo Estado do modelo comunista, do que com o livre mercado do modelo capitalista. Outra crítica frequente é que, muitas vezes, não é verdade que, a curto pra- zo, as diferenças entre oferta e demanda causem mudanças de preço. Espe- cialmente na manufatura, observa-se que o comportamento mais comum é a alteração da produção, sem quase nenhuma alteração no preço. Os críticos da suposição de uma concorrência perfeita, nos mercados de produtos, raramente questionam a visão neoclássica básica do funcionamen- to das economias de mercado. A Escola Austríaca insiste fortemente nessas críticas, mas, ao mesmo tempo defende a visão neoclássica do funcionamento das economias de mercado como fundamentalmente eficiente, refletindo as escolhas dos consumidores e atribuindo a cada agente sua contribuição para o bem-estar social. Algumas escolas não neoclássicas, como os pós-keynesianos, rejeitam a abordagem neoclássica de valor e distribuição, mas não devido à rejeição da concorrência perfeita como uma aproximação razoável ao funcionamento da maioria dos mercados de produtos. As razões para a rejeição da visão neoclás- sica são perspectivas diferentes dos determinantes da distribuição de renda e da demanda agregada. Em particular, a rejeição da concorrência perfeita geralmente não implica a rejeição da livre concorrência, como característica da maioria dos mercados de produtos. De fato, argumenta-se que a concorrência é mais forte nos dias atuais do que no capitalismo do século XIX, devido à crescente capacidade das grandes empresas conglomeradas de entrar virtualmente em qualquer setor. Portanto, prevalece a ideia clássica de uma tendência a uma taxa uniforme de retorno do investimento em todos os setores. Por exemplo, a razão pela qual a Google e a Apple não entram nas indústrias de automóveis e farmacêuticos não é por supostas barreiras intransponíveis à 148 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 148 10/03/20 14:36 entrada, mas pelo fato de que a taxa de retorno nesses setores produtivos já está sufi cientemente alinhada com a taxa média de retorno em outros lugares, para não justifi car a entrada. Poucos economistas, mesmo entre os neoclás- sicos, parecem discordar nesse ponto. Assim, em um quadro de normalidade de competição, ou a longo prazo, aceitar ou não a premissa de concorrência perfeita não parece implicar diferenças importantes na existência ou não de uma tendência das taxas de retorno à uniformidade. Custos não lineares Por defi nição, um preço é considerado não linear quando o valor que se paga não corresponde à proporcionalidade da quantidade adquirida. Exem- plos incluem pagamentos em diversas prestações (com valores iguais ou não), a tarifa em blocos e os descontos concedidos em função de quantidade. O Gráfi co 8 ilustra o comportamento de diferentes tipos de tarifa, incluindo a função de custos não lineares, permitindo verifi car que um custo não linear, também denominado de custo curvilíneo, é uma despesa que aumenta a uma taxa inconsistente, à medida que o volume de produção aumenta. Em outras palavras, o custo irregular aumenta por meio de uma sucessão de taxas dife- rentes (produzindo efeito de não proporcionalidade direta, portanto, não linea- ridade) à medida que a produção total aumenta. GRÁFICO 8. TIPOS DE TARIFA Fonte: REISS; WHITE, 2013. (Adaptado). Acesso em: 27/0/2020. P(Q) Q Número de unidades $ Três partes Linear Duas partes Tarifa única Blocos Preços não lineares 149 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 149 10/03/20 14:36 Aplicação Tipicamente, mercados que fazem uso de estruturas de precifi cação não li- near são as concessionárias de energia elétrica, as prestadoras de serviços de te- lecomunicações, as companhias aéreas, as agências publicitárias e os locadores de maquinário produtivo e de infraestrutura fabril. Entre as motivações que justifi cam a adoção desse modelo de precifi cação, é possível destacar que isso responde à heterogeneidade de consumidores: afi nal, há inúmeras atribuições de utilidade para incrementos marginais (por exemplo, comprar de dia ou à noite; pela internet ou presencialmente; receber em casa ou ter que se deslocar até o fornecedor). Com efeito, isso implica em discriminação de preços e estratégia de poder de mercado. Outra justifi cativa de sua adoção é em função da efi ciência do negócio, uma vez que a estrutura de custos da empresa baliza o preço pelo custo marginal. Como estratégia de recuperação de custos, ele pode ser adotado, por uma fi rma monopolistaregulada, para que consiga atingir seu patamar de lucro operacional. Em mercados competitivos, recorre-se comumente à política de descontos em função de volume: quanto maior a quantidade adquirida, melhor é o preço unitário estabelecido. Observa-se, então, que o aumento dos lucros é originado do poder de mercado que determinada empresa detém, valendo-se, entre ou- tros, de aspectos como inovação e marketing, envolvendo uma melhor discri- minação entre os consumidores. Portanto, enuncia-se, como condição fundamental para a prática de preços não lineares, existir poder de mercado. Isso não signifi ca necessariamente a im- posição de confi guração de monopólio, mas qualquer conjunto de medidas que implique garantir preço maior que o custo. Para Reiss & White (2006), preços não lineares podem ser aplicados para políticas de precifi cação distintas, de acordo com a linha ou o portfólio de produtos da empresa. Isso pode considerar diferenças acessórias ou centrais da linha de produtos, desde aspectos como tamanhos de embalagem até quesitos funcionais (como durabilidade, velocidade, precisão etc.). Nos processos logísticos, a precifi cação não li- near é atrativa para diferenciar condições de entrega 150 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 150 10/03/20 14:36 e distâncias envolvidas, ajudando a defi nir alternativas melhores, como preço FOB (cliente responsável por frete, custos e riscos logísticos) e CIF (fornecedor responsável por frete, custos e riscos logísticos). Usualmente, entende-se como condição mais ideal a absorção parcial dos custos de transporte pela empresa. Do mesmo modo, o prazo de entrega também pode fi gurar como apreça- mento não linear: afi nal, em muitas situações (como para delivery de refeições prontas), o tempo de entrega é um importante atributo de qualidade e pode ser considerado para fi ns de esquemas não lineares de preços. Como curiosidade, o conceito pode até mesmo se estender à relação entre cidadãos e o poder público: afi nal, não há como excluir uma instância como im- posto de renda progressivo como uma forma de estabelecimento de “preço” não linear. Neste caso, o “produto” adquirido é o direito do cidadão aos serviços pú- blicos custeados pelos impostos. Curvas de custos totais e curvas unitárias No campo da Economia, uma das mais difundidas e importantes ferra- mentas gráfi cas de análise é a curva de custo, que, em suma, é um gráfi co da evolução dos custos de produção em função da quantidade total produ- zida. Em uma economia de livre mer- cado, empresas produtivas efi cientes otimizam seu processo de produção, minimizando os custos consistentes com cada nível possível e observando o resultado como uma curva de custos. Na prática, as empresas recorrem à análise das curvas de custo, visando maximizar lucros e decidindo a quantidade de produção a ser adotada para de- terminada situação. Existem vários tipos de curvas de custo, e todas, de algum modo, guardam relação entre si, incluindo curvas de custo total e custo médio; curvas de custo marginal (ou seja, decorrido para produzir cada unidade adicio- 151 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 151 10/03/20 14:36 nal), que são matematicamente iguais ao diferencial das curvas de custo total; e curvas de custo variável. Algumas dessas curvas são aplicáveis a curto prazo, outras, a longo prazo. Notação A literatura da área econômica costuma adotar siglas, de forma razoavelmen- te padronizada, para expressar cada conceito de custo, resultando nos seguintes principais descritores: • Primeiro grupo: • C = custo; • R = receita. • Segundo grupo: • F = fi xo (não ajustável); • V = variável (ajustável); • T = total (fi xo mais variável). • Terceiro grupo: • MED (ou M, ou MD) = média (por unidade de produção); • MAR (ou Mg) = marginal (para uma unidade de produção adicional). • Quarto grupo: • CP = curto prazo (quando a quantidade de capital físico não pode ser ajustada); • LP = longo prazo (quando todos os valores podem ser ajustados). Acerca das convenções para o terceiro grupo, observa-se que, na língua in- glesa (idioma de produção da mais vasta obra na área de Economia, incluindo os livros e artigos originais das teorias centrais deste campo do conhecimento), “média” e “marginal” costumam ser simplesmente abreviados por A e M, uma vez que tais iniciais correspondem respectivamente às palavras corresponden- tes naquele idioma (“average” e “marginal”). Em Português, a diferenciação torna- -se um pouco mais desafi adora na sigla, porque tanto “média” quanto “marginal” iniciam com a letra M, justifi cando, portanto, uma maior diversidade de siglas de diferenciação. Esses descritores podem ser combinados de várias maneiras, para expressar diferentes conceitos de custo. Na prática, os termos CP e LP (e mesmo o T) são 152 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 152 10/03/20 14:36 comumente omitidos quando o contexto de análise é sufi cientemente claro. A combinação usual então é formar uma sigla, composta por esta sequência de quatro termos ou quatro componentes: • C, como primeiro termo; • Um ou nenhum item do segundo grupo (F, V ou T), como segundo termo; • Um ou nenhum item do terceiro grupo (MED ou MAR), como terceiro termo; • Um ou nenhum item do quarto grupo (CP ou LP), como quarto e último termo. Das várias combinações, resulta-se a codifi cação das seguintes curvas de cus- to de curto prazo: • Custo fi xo médio de curto prazo (CFMED ou CFMEDCP); • Custo total médio de curto prazo (CTMED ou CTMEDCP); • Custo variável médio de curto prazo (CVMED ou CVMEDCP); • Custo fi xo de curto prazo (CF ou CFCP); • Custo marginal de curto prazo (CMAR ou CMARCP); • Custo total de curto prazo (CT ou CTCP); • Custo variável de curto prazo (CV ou CVCP). E as seguintes curvas de custo de longo prazo: • Custo total médio de longo prazo (CMEDLP ou CTMEDLP); • Custo marginal de longo prazo (CMARLP); • Custo total de longo prazo (CTLP). Curvas CTCP e CTLP As curvas de custo total de curto prazo (CTCP) e custo total de longo prazo (CTLP) aumentam quanto maior for a quantidade de produto realizado, porque produzir mais requer mais uso de mão de obra, tanto no curto quanto no longo prazo, e porque, no longo prazo, uma maior produção envolve o uso de mais ca- pital físico, além de que, o uso de mais insumos sempre implica em mais custos. Com apenas uma entrada variável no curto prazo, cada quantidade possível de produção requer uma quantidade específi ca de uso de mão de obra. Assim, o custo total de curto prazo, em função do nível de produção, é essa quantidade única de trabalho multiplicada pelo custo unitário da mão de obra. Porém, no longo prazo, com a possibilidade de escolha das quantidades de trabalho e de capital físico, o custo total de produção de um determinado nível 153 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 153 10/03/20 14:36 de produção é o resultado de um problema de otimização: a soma das despe- sas com mão de obra (a taxa salarial, multiplicada pela taxa escolhida do nível de uso de mão de obra) com as despesas de capital (o custo unitário do capital, multiplicado pelo nível escolhido de uso físico de capital) é minimizada, com base no uso de mão de obra e uso de capital, sendo sujeita à igualdade da fun- ção de produção que a relaciona com os dois usos de entradas. Desse modo, resulta-se que o nível (mínimo) do custo total é o custo total da produção da quantidade pretendida. Curvas CVCP e CFCP ou CV e CF Como o custo fi xo de curto prazo (CF ou CFCP) não varia com o nível de produção, sua curva corresponde a uma linha horizontal (Gráfi co 9). É interes- sante observar que, se a curva de custo total é não linear, isso pode represen- tar retornos marginais crescentes e decrescentes. Os custos variáveis de curto prazo (CV ou CVCP) aumentam com o nível de produção, uma vez que, quanto mais produção é realizada, mais entradas variáveis precisam ser usadas e, con- sequentemente,pagas. Curvas CVMED ou CVMEDCP O custo variável médio (CVMED ou CVMEDCP) é um conceito de curto prazo, que representa o custo variável (normalmente o custo de mão de obra) expresso GRÁFICO 9. CURVA DE CUSTO TOTAL Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013, n.p. (Adaptado). Custo CT CVT CFT Quantidade 154 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 154 10/03/20 14:36 por unidade de produção. Sua fórmula (CVMED = ST/Q) apresenta S como taxa salarial, T como quantidade utilizada de trabalho e Q como a quantidade produ- zida. A CVMED representa o comportamento do custo variável médio de curto prazo em relação ao nível de produção, e é tipicamente traçada com formato de U (Gráfico 10). GRÁFICO 10. CURVA EM U CVMED Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013, n.p. (Adaptado). Observa-se que, como o custo fixo, por definição, não varia com a pro- dução, o custo fixo médio de curto prazo (CFMED) por unidade de produ- ção é menor quando a produção é maior, dando origem à curva inclinada para baixo, apresentada no Gráfico 10. Nota-se, ainda, que o custo médio de curto prazo (CMED ou CMEDCP) é sempre igual aos custos fixos médios (CFMED) mais os custos variáveis médios (CVMED). Em especial, o formato da curva de CVMED é determina- do diretamente pelo aumento e, em seguida, pela diminuição dos retornos marginais do insumo variável (labor convencional). Por fim, a curva de custo médio de longo prazo (CMEDLP) é graficamen- te semelhante à curva de curto prazo, mas a partir dela permite-se variar o uso de capital físico. Afinal, quando se toma um horizonte de variação de anos, e não de meses ou semanas, na prática, a maioria dos custos tor- na-se variável. Por exemplo, empregados podem ser desligados do quadro funcional, ou mesmo não serem substituídos. Maquinário pode ser even- tualmente vendido ou deixar de ser reposto, em caso de obsolescência ou dano funcional. Custo por unidade Quantidade CMAR CMED CVMED CFMED 155 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 155 10/03/20 14:36 Curvas CMARCP e CMARLP Uma curva de custo marginal de curto prazo (CMAR- CP) representa grafi camente a relação entre o custo marginal (isto é, incremental), incorrido por uma em- presa na produção de curto prazo de um bem ou serviço, e a quantidade de produto produzido. Essa curva é construí- da para capturar a relação entre custo marginal e nível de produção, mantendo constantes todas as outras variáveis, como tecnologia e preços de recursos. A curva de custo mar- ginal é geralmente em forma de U (vide a curva dos Gráfi cos 3 a 7 com a identifi cação CMAR). Na prática, o custo marginal costuma se apresentar relativamente alto, em pequenas quantidades de produção. Então, à medida que a produção aumenta, o custo marginal diminui, atinge um valor mínimo e depois torna a aumentar. O custo marginal é usualmente comparado, nos gráfi cos de curvas de custo, à receita marginal (RMED), que é a quantidade incremental de receita de vendas que uma unidade adicional do produto ou serviço traz para a empresa. Esse formato da curva de CMARCP é diretamente atribuível ao aumento (pri- meiramente) e à diminuição (logo depois) dos retornos marginais (e à lei dos re- tornos marginais decrescentes). Como fi ca evidenciado pelo Gráfi co 10, a curva CMAR cruza as curvas CVMED e CMED exatamente nos seus pontos mínimos. Quando a curva CMAR está acima de uma curva de custo médio, a curva média aumenta. Quando a curva CMAR está abaixo de uma curva média, a curva média cai. É interessante observar que essa relação se mantém independentemente da curva CMAR estar subindo ou descendo. Por sua vez, a curva de custo marginal de longo prazo (CMARLP) mostra para cada unidade de produção o custo total adicionado incorrido no longo prazo, ou seja, o período conceitual em que todos os fatores de produção são variáveis. Dito de outra forma, CMARLP é o aumento mínimo no custo total, associado a um aumento de uma unidade de saída quando todas as entradas são variáveis. Uma diferença importante é que a curva CMARLP é modelada por retornos de escala, que é um conceito de longo prazo, e não pela lei de retornos margi- nais decrescentes, que é um conceito de curto prazo. Consequentemente, a cur- 156 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 156 10/03/20 14:36 va CMARLP tende a ser mais plana que sua contraparte de curto prazo (CMARCP), devido ao aumento da fl exibilidade dos insumos. Mais uma vez, de forma aná- loga ao que ocorre no curto prazo, a curva CMARLP cruza a curva CMEDLP no ponto mínimo dessa última. Por fi m, quando o CMARLP está abaixo do CMEDLP, esse segundo está caindo (à medida que unidades de produção adicionais são consideradas), e quando o CMARLP está acima do CMEDLP, esse segundo está aumentando. Relação entre diferentes curvas Custos total, fi xo, variável, marginal e médio são conceitos distintos, mas in- discutivelmente relacionados. Consequentemente, seus gráfi cos (curvas) tam- bém apresentam relações conhecidas. Em suma: • Custo total = custos fi xos (CF) + custos variáveis (CV) = custo total médio (CTMED) x quantidade (Q); • Custo marginal (CMAR) = dC/dQ. CMAR é igual à inclinação da função de custo total e da função de custo variável; • Custo total médio (CTMED) = CT/Q; • Custo fi xo médio (CFMED) = CF/Q; • Custo variável médio (CVMED) = CV/Q; • CTMED = CFMED + CVMED. A partir disso, obtemos alguns resultados: em um nível de Q no qual a curva CMAR está acima do CMED ou do CVMED, a última curva está subindo; se CMAR estiver abaixo do CMED ou do CVMED, a última curva está caindo. Consequente- mente, se CMAR for igual ao CMED, então CMED está no seu valor mínimo; e, se CMAR é igual ao CVMED, então CVMED está no seu valor mínimo. Relação entre curvas de curto e longo prazos Para cada quantidade de produto, existe um nível de capital que minimi- za os custos, e uma curva CMEDCP única associada à produção da quantidade especifi cada. As sínteses a seguir assumem que a empresa está usando o nível ótimo de capital para a quantidade produzida. Caso contrário, a curva CMEDCP fi caria totalmente acima do CMEDLP, sem fi car tangente em nenhum momento. 157 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 157 10/03/20 14:36 Cada curva CTCP pode ser tangente à curva CTLP em apenas um ponto, não podendo cruzar (interceptar) a curva CTLP. Contudo, a curva CTCP pode estar totalmente acima da outra, sem ponto algum de tangência. Assim, uma cur- va CTCP é tangente ao CTLP no nível de produção que minimiza os custos a longo prazo. Fora isso, no ponto de tangência, o CTCP é igual ao CTLP e, em todos os outros níveis de produção, o CTCP excederá o CTLP. As funções de CMED são a função de CT dividida pelo nível de produção. Portanto, a curva CTMEDCP também é tangente à curva CTMEDLP, no nível de produção que minimiza os custos. No ponto de tangên- cia, o CTMEDCP é igual ao CTMEDLP e, em todos os outros níveis de produção, o CTMEDCP é maior do que o CTMEDLP. À esquerda do ponto de tangência, a empresa está usando muito capital e os CF são altos demais, enquanto à direita, a empresa está usando muito pouco capital e retornos decrescentes do labor estão causando um aumento nos custos. A inclinação das curvas de CT é igual ao CMAR. Portanto, quando o CTCP é tangente ao CTLP, o CMARCP é igual ao CMARLP. Desse modo, no nível de longo prazo da minimização de custos, o CTCP é igual ao CTLP, o CMEDCP é igual ao CMEDLP e o CMARCP é igual ao CMARLP. O nível de produção que minimiza os custos em LP pode ser diferente do CMEDCP mínimo: • Com os custos unitários fixos de insumos, se a função de produção tiver retornos constantes de escala, no nível mínimo da curva CTMEDCP, tem-se CTMEDCP = CTMEDLP = CMARCP = CMARLP; • Com os custos unitários fixos de insumos, se a função de produção tiver retornos crescentes de escala, o mínimo da curva CTMEDCP está à direita do ponto de tangência entre as curvas CMEDCP e CMEDLP; • Com os custos unitários fixos de insumos e retornosdecrescentes, o míni- mo da curva CMEDCP fica à esquerda do ponto de tangência entre o CMEDCP e o CMEDLP; • Com os custos fixos de insumos unitários, uma empresa que está experi- mentando retornos crescentes (ou decrescentes) à escala, e está produzindo seu CMEDCP mínimo, pode sempre reduzir o custo médio a longo prazo, ex- pandindo (reduzindo) o uso dos insumos fixos. 158 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 158 10/03/20 14:36 O CMEDLP sempre será igual ou menor ao CMEDCP. Se o processo de pro- dução estiver exibindo retornos constantes de escala, o CMEDCP mínimo será igual ao CMEDLP mínimo. O CMEDCP e o CMEDLP se cruzam em seus valores mínimos comuns. Assim, sob retornos constantes de escala, tem-se CMARCP = CMARLP = CMEDCP = CMEDLP. Se o processo de produção estiver diminuindo ou aumentando, o CMEDCP mínimo não será igual ao CMEDLP mínimo. Se existirem retornos crescentes de escala, o CMEDLP mínimo ocorrerá em um nível de pro- dução inferior ao CMEDCP. Isso ocorre porque existem economias de escala que não são exploradas e, no longo prazo, uma empresa sempre pode produzir uma quantidade a um preço menor que o CMEDCP mínimo, simplesmente usando uma planta fabril maior. Com retornos decrescentes, o CMEDCP mínimo ocorre em um nível de produção mais baixo que o CMEDLP mínimo, porque uma empresa pode reduzir os custos médios simplesmente diminuindo o tamanho da estrutura ou reduzin- do as operações. O mínimo de um CMEDCP ocorre quando possui inclinação zero. Assim, os pontos de tangência entre a curva CMEDLP em formato de U e o mínimo da curva CMEDCP coincidem apenas com a porção da curva CMEDLP, exibindo constantes economias de escala. Para aumentar o retorno de escala, o ponto de tangência entre o CMEDCP e o CMEDLP teria que ocorrer em um nível de produção abaixo do nível associado ao mínimo da curva CMEDCP. 159 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 159 10/03/20 14:36 Sintetizando O que se observa no modo de produção capitalista é que os proble- mas centrais no tocante ao que produzir, quanto produzir, como produ- zir e para quem produzir são regidos pelo mecanismo de preços livres, apresentado como as engrenagens que proporcionam o equilíbrio entre oferta e demanda, em busca de viabilizar economicamente o sistema de produção. Ressalta-se que equilíbrio, em uma perspectiva de concorrência perfeita, é o ponto no qual as demandas do mercado se igualam à oferta do mercado. E é nesse momento que se determina o preço praticado pela empresa. Em horizonte de curto prazo, a demanda afeta o equilíbrio. Contudo, em longo prazo, a demanda e a oferta dos produtos alteram o equilíbrio na condição de perfeita concorrência. Por consequência, uma empresa consegue, no máximo, perceber lucro normal no longo prazo, trabalhando no ponto de equilíbrio. Em quadro típico, mercados que se prevalecem de estruturas de precificação não linear são as companhias aéreas, as con- cessionárias de energia elétrica, as prestadoras de serviços de telecomu- nicações, as agências publicitárias e os locadores de maquinário produtivo e de infraestrutura fabril. Quanto à interpretação visual, uma curva de custo é definida como o gráfico da evolução dos custos incorridos na produção, em função da quan- tidade total que é produzida. Dentro de uma economia de livre mercado, a situação corriqueira é que as empresas produtivas eficientes otimizem seu processo de produção. Ao fazê-lo, minimizam os custos consistentes com cada nível possível de produção. A partir daí, resulta-se o correspondente traçado da curva de custos. Com efeito, a curva CMARLP é modelada não pela lei de retornos mar- ginais decrescentes (conceito de curto prazo), mas sim por retornos de escala (conceito de longo prazo). Dessa forma, a curva CMARLP apresenta a clara tendência de ser visualmente mais plana que sua a correspondente de curto prazo (CMARCP), e isso se explica dado o aumento da flexibilidade dos insumos. E, novamente fazendo analogia ao que ocorre no curto pra- zo, a curva CMARLP cruza a curva CMEDLP em seu ponto mínimo. 160 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 160 10/03/20 14:36 É importante sempre ter em mente que, para cada quantidade de pro- duto, existe um correspondente nível de capital que proporciona a mini- mização dos custos de produção. Por isso, sempre há uma curva de custos médios de curto prazo (CMEDCP) que é única, em associação à produção da quantidade em questão. 161 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 161 10/03/20 14:36 Referências bibliográficas BAYE, M.; PRINCE, J. Managerial economics and business strategy. 9. ed. Nova York: McGraw-Hill, 2016. FRANK, R. Microeconomics and behavior. 9. ed. Nova York: McGraw-Hill, 2014. KURZ, H.; SALVADORI, N. Theory of production: a long-period analysis. Cambridge: Cambridge University Press, 1995. O’HARA, F. Introduction to economics. Londres: Forgotten Books, 2015. REISS, P. C.; WHITE, M. W. Evaluating welfare with nonlinear prices. National bureau of economic research working papers, 2006. Disponível em: . Acesso em: 27/02/2020. SAMUELSON, P.; NORDHAUS, W. Microeconomics. 19. ed. Nova York: McGraw Hill Education, 2013. SEXTON, R.; GRAVES, P.; LEE, D. The short-and long-run marginal cost curve: a pedagogical note. The Journal of Economic Education, v. 24, n. 1, 1993, p. 34-37. 162 SER_ECPME_FUECOAD_UNID4.indd 162 10/03/20 14:36livre para a língua portuguesa, trade-off signifi ca “troca”. Sob a ótica econômica, indivíduos que escolhem um bem ou serviço em espe- cial em vez de outro, ou mais de uma coisa e menos de outra, estão clara- mente fazendo uma troca. A sociedade também faz trocas dessa natureza: entre outros, a necessidade de mais energia versus o desejo de preservar o meio ambiente, por exemplo. É importante apontar que, em estudos econômicos conduzidos de maneira cuidadosa e sistemática, a avaliação de trade-off s envolve a comparação dos custos e benefícios de cada uma das alternativas disponíveis. É inevitável que as compensações feitas pela sociedade também exijam determinar como os custos e benefícios das decisões tomadas afetam os diferentes grupos sociais (ricos em relação aos pobres, moradores de áreas urbanas frente aos residen- tes em regiões rurais etc.). É importante destacar que a maioria das escolhas e trocas não são propo- sições do tipo “tudo ou nada”: em vez disso, geralmente envolvem pequenas alterações na margem – um pouco mais disso, um pouco menos daquilo. Efetivamente, as decisões sobre pequenas mudanças na margem são to- madas com bem mais frequência do que aquelas sobre grandes mudanças. Não obstante, as primeiras são geralmente mais fáceis de avaliar do que as últimas. 18 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 18 10/03/20 14:35 Produtividade Produtividade é a quantidade de produção (tanto bens como serviços) que resulta por unidade de produção (recursos produtivos) que é utilizada. De tal forma, um aumento na produtividade signifi ca: • Produzir mais bens e serviços com a mesma quantidade de recursos; • Produzir a mesma quantidade de bens e serviços com menos recursos; • Uma combinação dessas duas possibilidades. Vale destacar que o aumento da produtividade ajuda a reduzir a escassez, embora não a elimine completamente. Além disso, o aumento da produtividade em si implica também em custos de oportunidade, uma vez que os recursos utilizados para aumentar a produti- vidade em um empreendimento não podem ser empregados em outro. Sistemas econômicos Pessoas e sociedades organizam a vida econômica para lidar com os pro- blemas básicos originados da escassez e dos custos de oportunidade por meio de sistemas econômicos. Isto posto, um sistema econômico pode ser descrito como a coleção de instituições, leis, atividades, valores de controle e motiva- ções humanas que, de modo coletivo, fornece uma estrutura para a tomada de decisões econômicas. Sem dúvida, podemos considerar que sistemas econômicos sejam tão anti- gos quanto a própria civilização. O que dá para classifi car como o mais primitivo dos sistemas remonta à época das movimentações nômades dos primeiros an- cestrais humanos. Trata-se, evidentemente, de um contexto em que não havia a fi gura de um estado. Todo relacionamento entre os indivíduos de determinado grupo era fundamentado em puro coletivismo: signifi ca que tudo o que era ca- çado, construído ou mesmo encontrado passava a ser propriedade de todos. O que surgiria na sequência, a partir das primeiras aglomerações humanas em sociedades com maior ou menor organização formal, é o que muitos costu- mam nominar de sistema asiático. Como característica básica, destaca-se a fi gura de um estado rigidamente absolutista – normalmente, centrado em fi guras como reis, imperadores e faraós. Não há como deixar de reconhecer que costumes eco- 19 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 19 10/03/20 14:35 nômicos eram bastante regidos por crenças religiosas, em sociedades de predo- mínio politeísta. Nessa confi guração, o que se encontrava era uma exclusividade do Estado como dono das terras; o modelo econômico dominante era o agrícola, em um primeiro momento, evoluindo posteriormente também para um comer- cial à medida que as organizações sociais se tornavam mais elaboradas. Com efeito, o que se observa nas antigas civilizações grega e romana era o sistema econômico de cunho escravista. Trata-se de época em que já havia a difusão de cidades – signifi cando, com isso, que já estavam instituída a divisão de terras e o conceito de propriedade privada. É um cenário de alta disparidade econômica na população: os mais nobres tinham posse de muitas terras, e os menos favorecidos geralmente não tinham posse alguma. Tal hierarquização da sociedade favoreceu para que formas de trabalho como a escravidão e a servidão passassem a ser opções. Trabalhadores nessa condição eram absor- vidos para trabalhar nas terras fragmentadas pela divisão social e conquistas de novas terras (como, por exemplo, nas reconfi gurações sociais pós-guerra). Um tanto quanto derivado do sistema escravista, o sistema feudal se fun- damentava em uma sociedade baseada no relacionamento entre servos e se- nhores. Estes últimos detinham a propriedade das terras, sendo que os servos costumavam trabalhar tendo como moeda de pagamento proteção, alimento e moradia. Como característica, tinha-se nesse sistema uma economia predomi- nantemente agrícola, além de autossufi ciente em cada unidade feudal. Muitos consideram que o que levou este sistema a entrar em crise foi o progressivo aumento de abertura dos feudos frente às cidades e com o comércio institucio- nalizado, enquanto também há os que avaliam que a exploração mais exacer- bada dos servos levaria o modelo ao colapso. Instituições e incentivos econômicos Instituições econômicas são de vários tipos: além de famílias, existem or- ganizações formais, como corporações, agências governamentais, bancos, sindicatos e cooperativas. Também existem maneiras costumeiras de fazer as coisas, como o uso do dinheiro, a negociação coletiva e a observância de feriados; existem, ainda, diferentes valores e crenças de controle que per- meiam diferentes sistemas econômicos. 20 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 20 10/03/20 14:35 No cerne das instituições econômicas, há que se observar que todas as so- ciedades têm algum tipo de sistema de propriedade. Nos EUA, por exemplo, a propriedade privada é o alicerce do livre mercado – portanto, do próprio capi- talismo como realidade instituída. Em outros países, como é o caso da China, a propriedade do governo é a re- gra – exceto em algumas pequenas empresas e bens pessoais ou domésticos. Alinhado à ideologia que lá imperava, o planejamento do governo havia sido altamente centralizado e abrangente na antiga URSS. Ao mesmo tempo, podia-se encontrar um modelo mais descentralizado na Hungria, enquanto na França se trabalhou com um planejamento econômico indicativo e de extensa propriedade por parte do Estado. Algumas instituições existem apenas em certos tipos de sistemas econômi- cos; por exemplo, a negociação coletiva sobre salários e condições de trabalho ocorre apenas em países industrializados democráticos. Por sua vez, incentivos são fatores que motivam e infl uenciam o comporta- mento humano. Os incentivos econômicos funcionam oferecendo conveniências maiores ou menores a bens e serviços para infl uenciar o comportamento das pessoas, geralmente por meio de recompensas e multas fi nanceiras. Sem dúvi- da, o desejo de obter ganhos fi nanceiros ou materiais e evitar perdas de mesma natureza são poderosas forças motivadoras (embora não sejam as únicas). Troca, dinheiro e interdependência Indivíduos, grupos, regiões e países geralmente se especializam na produ- ção de bens específi cos e no desempenho de serviços específi cos. Isso leva à produção de mais bens ou serviços do que os próprios produtores desejam consumir. Em tais situações, os produtores trocam seus excedentes por outros bens e serviços produzidos por pessoas localizadas em outros lugares e, como resultado, ao menos em tese, todos fi cam em situação melhor. De fato, o princípio da troca voluntária se baseia no fato de que todas as partes envolvidas esperam obter ganhos com o comércio – afi nal, se assim não o fosse, não haveria troca. A forma maissimples de troca é o comércio direto de bens ou serviços entre as pessoas, mas como a troca pura (escambo) é ge- ralmente inconveniente, foi instituído o dinheiro para facilitar o intercâmbio. 21 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 21 10/03/20 14:35 CURIOSIDADE O dinheiro não precisa ter nenhum valor intrínseco para servir como meio de troca. Não há, por exemplo, nenhum custo diferenciado de produção de uma cédula de R$ 2 e uma outra de R$ 100. O que ocorre é que é a disposi- ção das pessoas em aceitá-lo em pagamento que dá valor ao dinheiro no processo de troca. Consequentemente, a especialização e a troca reduzem a autossufi ciência e, assim, aumentam a interdependência. Isso signifi ca que decisões ou eventos em uma parte do mundo ou em um setor da economia afetam decisões e even- tos em outras partes e em outros setores da economia. O problema econômico fundamental É possível aprofundar a análise acerca da escassez como eixo estrutu- rante do mais fundamental problema econômico – que a literatura especia- lizada frequentemente nomeia também de problema econômico básico ou central. Afi nal, a partir da premissa que os recursos fi nitos de uma econo- mia são insufi cientes para satisfazer todas as vontades e necessidades hu- manas, pode-se agregar à economia a atribuição de estudo de como, pois, alocar recursos em condições de escassez. Como consequência, entender a economia também sob esse prisma, de como a sociedade aloca seus recur- sos, tende a fundir, senão sobrepor parcialmente, o planejamento econômi- co normativo e o estudo empírico de como os agentes econômicos operam nessas condições. Na economia neoclássica convencional, supõe-se que as pessoas bus- cam seus próprios interesses e que o mecanismo de mercado satisfaz me- lhor os vários desejos que diferentes indivíduos possam ter. Esses desejos são usualmente divididos em desejos individuais (que dependem das pre- ferências do indivíduo e da paridade do poder de compra) e desejos coleti- vos (que são os desejos de grupos inteiros de consumidores). Daí que itens como alimentos e roupas podem ser classifi cados como desejos ou necessi- dades, dependendo do tipo e da frequência com que um bem é demandado. É interessante observar que, por vezes, os economistas caracterizaram o “como” produzir como um problema de ordem tecnológica, inerente então à efi ciência, restando à alocação do que é produzido como um problema 22 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 22 10/03/20 14:35 de instância econômico. Classifica- ções à parte, em um mercado livre, o “como” produzir e a alocação de re- cursos são funções mescladas entre os agentes econômicos. Por sua vez, em uma economia planejada central- mente, um decisor se responsabiliza por determinar como e o que pro- duzir em nome dos agentes. Entre um extremo e outro, as economias modernas são tidas frequentemente como “capitalistas do bem-estar so- cial”, sujeitas ao variado arcabouço de regulamentações, o que tenderia a tornar o sistema econômico mais equitativo, mantendo ainda a égide de livre mercado. Frise-se: o problema econômico fundamental reside no aspecto huma- no. Inegavelmente, os desejos humanos são ilimitados – desejar parece algo arraigado à própria concepção de ser humano. Ricos ou pobres, ninguém pode afirmar que todos os seus desejos já foram satisfeitos, nada mais res- tando a ser ambicionado. A começar pela constatação de que a sensação de saciedade não é permanente: é fato que todo mundo sente fome em algum momento, sede em outro, e isso se dá de forma cíclica e permanente. Por vezes, atender um desejo evoca despertar outro, por exemplo conseguir se vestir bem e então precisar de um bom transporte para algum compromisso específico. Enfim, quando todas as vontades existentes são (aparentemen- te) satisfeitas, novas vontades começam a ser criadas, e a série de vontades vai se renovando indefinidamente, até o último momento da vida. Portanto, reforça-se que o problema econômico advém da existência de de- sejos humanos ilimitados. Não obstante, é possível apreciá-lo em componentes – o problema econômico poderia ser dividido em três partes distintas, a saber: • Problema de alocação de recursos; • Problema do pleno emprego dos recursos; • Problema do crescimento econômico. 23 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 23 10/03/20 14:35 Problema de alocação de recursos O problema da alocação de recursos surge como consequência da escassez dos mesmos. Diante da constatação, debruça-se sobre a corriqueiramente desa- fi adora questão de quais desejos devem ser satisfeitos e quais, em função disso, devem ser deixados de lado – essencialmente, o que produzir e quanto produzir. A problematização surge naturalmente: mais produção de um bem impli- ca, claro, em mais recursos necessários para a produção desse bem; contudo, recursos são escassos. Esses dois fatos juntos impõem que, se uma sociedade decide aumentar a produção de algum determinado bem, deve inevitavelmen- te retirar alguns recursos da produção de outros bens. Em suma, mais pro- dução de uma mercadoria desejada qualquer se viabiliza apenas reduzindo a quantidade de recursos utilizados na produção de outros bens. O problema da alocação envolve a questão de produzir bens de capital ou bens de consumo. Ocorre que se a comunidade decide produzir bens de capi- tal, os recursos devem ser retirados da produção de bens de consumo. A longo prazo, no entanto, o investimento em bens de capital aumenta a produção de bens de consumo. Inegavelmente, bens de capital e de consumo são importan- tes – e ambos necessários em última análise. O desafi o, portanto, é determinar a taxa (proporção) ideal de produção entre os dois. Se recursos são escassos, como de fato o são, é importante usá-los da ma- neira mais efi ciente e inteligente possível. Portanto, é essencial saber se a produ- ção e a distribuição do produto entregues por uma economia são efi cientes em máximo grau. Não é difícil concluir que a produção se torna efi ciente apenas se os recursos produtivos forem utilizados de tal maneira que qualquer realocação não produza mais de um bem sem reduzir a produção de qualquer outro bem. Por assim dizer, uma distribuição efi ciente signifi ca que a redistribuição de bens não pode melhorar uma parte envolvida sem prejudicar outra parte. Na prática, as inefi ciências de produção e distribuição existem em todos os tipos de economias. Evidentemente, o bem-estar da população aumenta à medida que tais inefi ciências sejam devidamente tratadas. Porém, incorre-se em custos específi cos da iniciativa de combater inefi ciências, e é neste ponto que a questão se fecha: se o custo de remover as inefi ciências de produção e distribuição for superior ao ganho, obviamente não vale a pena removê-las. 24 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 24 10/03/20 14:35 Problema do pleno emprego dos recursos Em vista da onipresente e universal escassez de recursos, a questão quan- to a saber se todos os recursos dis- poníveis são totalmente utilizados é crucial. Impõe-se que uma comunida- de deva alcançar a máxima satisfação necessariamente usando os recursos escassos da melhor maneira possível; isso signifi ca não desperdiçá-los ou usá-los de modo inefi ciente. Sob essa ótica, existem dois tipos de emprego de recursos: • Intensivo em trabalho; • Intensivo em capital. Nas economias capitalistas, tais recursos disponíveis não são totalmen- te utilizados. Ocorre ainda que, por exemplo, em tempos de depressão, muitas pessoas queiram trabalhar, mas isso seja insuficiente para encon- trar efetivamente emprego. Por isso conclui-se que, apesar de escassos, os recursos podem, ainda, não ser totalmente utilizados – uma face adicional ao problema exposto. Problema do crescimento econômico Se a capacidade produtiva cresce, uma economia pode produzir progressi- vamente mais bens, o que eleva o padrão de vida. Por isso, o aumento daca- pacidade produtiva de uma economia é chamado de crescimento econômico. Existem vários fatores que afetam o crescimento econômico. Os proble- mas inerentes ao crescimento econômico foram discutidos por vários mo- delos de crescimento, incluindo o modelo Harrod-Domar, os modelos neo- clássicos de Solow e Swan e os modelos de crescimento de Cambridge de Kaldor e Joan Robinson. Essa parte do problema econômico é estudada nas economias do desenvolvimento. 25 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 25 10/03/20 14:36 Enfi m, a problemática fundamental da economia transita entre necessida- des e desejos. Por um lado, necessidades são coisas ou itens materiais que as pessoas precisam para sobreviver, como comida, roupas, moradia e água. Evi- dentemente, admite-se alguma relativização, pois cada qual, em cada época, tem necessidades diferentes. Por exemplo, até a Revolução Industrial, a grande maioria da população mundial lutava pelo acesso ao atendimento das necessi- dades humanas mais básicas. Por outro lado, desejos são ambições frente a um produto em particular ou para algo que só pode ser obtido trabalhando orientado a essa conquista (por exemplo, ser aprovado em um vestibular). Desejos, todavia, não podem ser confundidos com meros supérfl uos: afi nal, a escala entre a mais pura sobrevi- vência, em um extremo, e luxos sem propósito outro que não ostentação pura e simples, em outro, é extensa, permeada por objetivos de conquistas pessoais e coletivas. De todo modo, embora as necessidades fundamentais de sobrevivência se- jam cruciais na função da economia, os desejos são a força motriz que intensa- mente estimula a demanda por bens e serviços. Para gerenciar o problema econômico, os economistas precisam classifi car a natureza e as diferentes necessidades dos consumidores, bem como priorizar tais necessidades e organizar a produ- ção para satisfazer o maior número possível delas. Curva de possibilidade de produção/custo de oportunidade Na área econômica, os termos fron- teira de possibilidade de produção (FPP) e curva de possibilidade de pro- dução (CPP) são sinônimos. O conceito se associa a um gráfi co na forma de uma curva que mostra várias combi- nações das quantidades de dois bens que podem ser produzidos dentro dos recursos e da tecnologia disponíveis – vide exemplo ilustrado no Gráfi co 1. 26 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 26 10/03/20 14:36 GRÁFICO 1. EXEMPLO DE CPP Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013. (Adaptado). Quantidade de manteiga produzida Qu an tid ad e de a rm as p ro du zid as B D X A C Portanto, é uma representação gráfica mostrando todas as opções possí- veis de saída para dois produtos que podem ser produzidos usando todos os fatores de produção, em que os recursos fornecidos são total e eficientemente utilizados por unidade de tempo. Uma CPP ilustra, assim, vários conceitos eco- nômicos, como eficiência alocativa, economias de escala, custo de oportuni- dade (ou taxa marginal de transformação), eficiência produtiva e escassez de recursos – este último, o já analisado problema econômico fundamental que todas as sociedades precisam enfrentar. Esse trade-off normalmente é estabelecido em análise econômica, embo- ra também se aplique a cada indivíduo, família e organização econômica. Em suma, um bem só pode ser produzido desviando recursos de outros bens e produzindo menos deles. Limitando graficamente o conjunto de produção para quantidades fixas de entrada, o gráfico CPP mostra o nível de produção máximo possível de uma mercadoria para qualquer nível de produção da outra, dado o esta- do existente da tecnologia. Ao fazê-lo, se define a eficiência produtiva no 27 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 27 10/03/20 14:36 contexto desse conjunto de produção. No caso do Gráfico 1, a interpreta- ção ocorre assim: um ponto na fronteira indica o uso eficiente dos insumos disponíveis (como é o caso dos pontos B, D e C ); um ponto abaixo da curva (como o ponto A) indica ineficiência; finalmente, um ponto além da curva (como o ponto X ) indica impossibilidade. Na prática, os gráficos CPP são normalmente desenhados como abaulados para cima ou para fora a partir da origem (por isso, “côncavos” quando vistos a partir dela). De todo modo, ainda podem ser representados como abaula- mentos para baixo (ou seja, para dentro) ou lineares (retos), isso a depender de várias suposições e premissas. O fato é que uma mudança externa da CPP resulta do crescimento da dispo- nibilidade de insumos, como capital físico ou trabalho, ou do progresso tecno- lógico no conhecimento de como transformar insumos em produtos (aprimo- ramento ou inovação tecnológica). Essa mudança reflete, por exemplo, o crescimento econômico de uma econo- mia que já opera com sua produtividade total (na CPP), o que significa que então mais de ambas as saídas podem ser produzidas durante o período especificado, sem sacrificar a saída de qualquer bem. Por outro lado, a CPP muda para dentro (“encolhe”) se a força de trabalho diminuir, o suprimento de matérias-primas se esgotar ou um desastre natural diminuir o estoque de capital físico. No entanto, a maioria das contrações econômicas reflete não necessaria- mente que menos pode ser produzido, mas que a economia começou a operar abaixo da fronteira, pois usualmente o capital físico e o trabalho estão subem- pregados, permanecendo, portanto, ociosos em maior ou menor grau. Em microeconomia, a CPP mostra as opções possíveis a um indivíduo, famí- lia ou empresa. Por definição, cada ponto na curva é produtivamente eficiente, mas, dada a natureza da demanda do mercado, alguns pontos acabarão se revelando mais lucrativos que outros. Portanto, o equilíbrio para uma empresa será a combinação de produtos na CPP mais rentável. Já a partir de uma perspectiva macroeconômica, a CPP revela as possibilida- des de produção disponíveis para uma nação ou economia durante um determi- nado período de tempo para amplas categorias de produtos. Tradicionalmente, o gráfico é adotado para mostrar o movimento entre comprometer todos os fun- dos ao consumo no eixo vertical versus investimento no eixo horizontal. 28 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 28 10/03/20 14:36 No entanto, é importante ressaltar que uma economia pode alcançar efi ciência produtiva sem necessariamente ser alocativamente efi ciente. Condições tais como falhas de mercado (como concorrência imperfeita ou externalidades variadas) e algumas instituições de tomada de decisões sociais (como governo e tradição cul- tural) podem levar à combinação errada de bens produzidos (daí advindo a mistura errada de recursos sendo alocada entre a produção dos dois bens) em comparação com o que os consumidores preferem, dado o que é possível segundo a CPP. Posição Os dois principais determinantes da posição da CPP em um dado momento são o estado da tecnologia e a capacidade gerencial (que são refl etidos nas funções de produção disponíveis) e as quantidades disponíveis de fatores de produção (materiais, mão de obra direta e custos indiretos da fábrica). Pela interpretação gráfi ca, somente pontos sobre ou dentro de uma CPP são realmente possíveis de alcançar a curto prazo. A longo prazo, se a tecnolo- gia melhorar ou se a oferta de fatores de produção aumentar, a capacidade da economia de produzir os dois bens aumenta; assim, se esse potencial é realiza- do, ocorre crescimento econômico. Esse aumento é mostrado por uma mudança da fronteira de possibilidade de produção para a direita no gráfi co. Por outro lado, um desastre natural, militar ou ecológico pode mover a CPP para a esquerda em resposta a uma redução na capacidade produtiva de uma economia. Assim, todos os pontos sobre ou den- tro da curva fazem parte do conjunto de produção: eles representam as diversas combinações de bens que a economia poderia potencialmente produzir. Não obstante, se os dois bens de produção representadossão investimento de capital (para aumentar as possibilidades de produção futura) e bens de con- sumo atuais, quanto maior o investimento no ano atual, em tese, mais a CPP mudaria nos anos seguintes. Observa-se que mudanças na curva podem representar como o fator progresso tecnológico, que favorece as possibilidades de produção de um bem tal como armas (Gráfi co 1) mais do que o outro, desloca a CPP para fora mais ao longo do eixo do bem favorecido, “infl uenciando” as possibilidades de produção nessa direção. Da mesma forma, se um bem faz mais uso do 29 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 29 10/03/20 14:36 capital e se o capital cresce mais rapidamente do que outros fatores, as pos- sibilidades de crescimento podem, evidentemente, ser tendenciosas a favor do bem intensivo em capital. Propriedades São duas as propriedades a se considerar ao realizar análises com CPP: efi - ciência e taxa marginal de transformação. No que se refere à efi ciência, há que se considerar que a CPP delineia a quan- tidade máxima de produtos (bens/serviços) que uma economia pode alcançar, da- dos os fi xos recursos (fatores de produção) e o progresso tecnológico. Em suma: • Pontos que estão sobre ou abaixo da curva das possibilidades de produ- ção são possíveis/alcançáveis: as quantidades podem ser produzidas com os recursos e a tecnologia atualmente disponíveis; • Pontos acima da curva das possibilidades de produção são inatingíveis, porque as quantidades não podem ser produzidas usando os recursos e a tec- nologia atualmente disponíveis; • Pontos estritamente abaixo da curva são inefi cientes, porque a economia pode produzir mais de pelo menos um bem sem sacrifi car a produção de qual- quer outro bem com os recursos e a tecnologia existentes; • Os pontos que estão na curva são, a rigor, efi cientes. Com efeito, ao longo de todos os pontos que constituem a curva do gráfi co, a economia alcança plena efi ciência produtiva: não é possível obter mais ne- nhum bem sem sacrifi car outro. Alguns pontos produtivos efi cientes são considerados como de efi ciência de Pareto, que é quando se identifi ca um estado de alocação de recursos em que impossibilita-se realocá-los de tal modo que qualquer participante seja benefi ciado sem piorar a situação individual de outro participante. A efi ciência de Pareto é alcançada quando a taxa marginal de transformação (inclinação da fronteira/custo de oportunidade dos bens) é igual à taxa marginal de substitui- ção de todos os consumidores. Da mesma forma, nem todos os pontos efi cientes de Pareto na linha da curva são de efi ciência alocativa; afi nal, esta só é alcançada quando a economia produz em quantidades que correspondem à preferência da sociedade. 30 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 30 10/03/20 14:36 Como visto, uma CPP normalmente assume a forma da curva ilustrada no Gráfico 1. Assim, diz-se que uma economia que está operando na CPP é efi- ciente, pois nessa condição é impossível produzir mais de um bem sem dimi- nuir a produção do outro bem. Por outro lado, se a economia estiver operando abaixo da curva, considera-se que está operando ineficientemente porque, em tese, poderia realocar recursos para produzir mais bens. Provavelmente, al- guns recursos, como trabalho ou capital, estão ociosos e podem ser totalmente empregados para produzir mais de ambos os bens. Por exemplo, evocando ainda o exemplo sugerido pelo Gráfico 1, se alguém assumir que as quantidades disponíveis de fatores de produção da economia não mudam ao longo do tempo e que o progresso tecnológico não ocorre, se a economia estiver operando na CPP, a produção de armas (defesa nacional) precisará ser sacrificada para produzir mais manteiga (bens de consumo). É claro que, se a produção é eficiente, a economia pode escolher entre combina- ções (pontos) na CPP: nesse caso, o ponto B, se as armas forem de interesse; o ponto C, se for necessária mais manteiga; ou o ponto D, se for necessária uma combinação igual de oferta de manteiga e de armas. Já o Gráfico 2 é útil para se compreender o conceito da taxa marginal de transformação. GRÁFICO 2. TAXA MARGINAL DE TRANSFORMAÇÃO Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013. (Adaptado). Qu an tid ad e de a rm as p ro du zid as Quantidade de manteiga produzida AA BB 31 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 31 10/03/20 14:36 Por defi nição, a inclinação da CPP em qualquer ponto é chamada de taxa marginal de transformação (TMT). A seguinte interpretação é aplicada: a inclinação na curva defi ne a taxa na qual a produção de um bem pode ser re- direcionada (pela realocação de recursos produtivos) para a produção do outro item. Por isso, é também usualmente denominado de “custo de oportunida- de” (marginal) de uma mercadoria. Isto signifi ca que é o custo de oportunidade de X em termos de Y na mar- gem; ele mede quanto do bem Y é dado para mais uma unidade do bem X e vice-versa. Com efeito, a forma de uma CPP é comumente desenhada como côncava em relação à origem para representar o aumento do custo de oportunidade com o aumento da produção de um bem. Assim, a TMT aumenta em tamanho absoluto à medida que se move da parte superior esquerda da CPP para o canto inferior direito do gráfi co. Sem dúvida, a TMT pode ser expressa em termos de qualquer mercado- ria. No caso ainda do exemplo sobre armas e manteiga, o custo marginal de oportunidade das armas em termos de manteiga é simplesmente o recíproco do custo marginal de oportunidade da manteiga em termos de armas. Se no mesmo exemplo ilustrado no Gráfi co 2 a inclinação (absoluta) no ponto BB no diagrama for igual a dois, para produzir mais um pacote de manteiga, a produ- ção de duas armas precisa ser sacrifi cada. Contudo, se em AA o custo marginal de oportunidade da manteiga em termos de armas é igual a 0,25, o sacrifício de uma arma pode produzir então quatro pacotes de manteiga, resultando que o custo de oportunidade das armas em termos de manteiga é quatro. Enfi m, pelo gráfi co, é possível observar que a taxa marginal de transformação aumenta quando a transição é feita de AA para BB. Forma O aumento dos custos de oportunidade, ilustrado com uma curva côn- cava à origem, é a forma mais comum de CPP. Contudo, se reta ou convexa, o que também pode acontecer, a interpretação quanto ao custo é signifi ca- tivamente diferente. 32 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 32 10/03/20 14:36 GRÁFICO 3. CPP COM FORMA CÔNCAVA Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013. (Adaptado). +10 Quantidade de manteiga produzida Qu an tid ad e de a rm as p ro du zid as -5 -5 0 +10 A B C D No caso mais corriqueiro (curva côncava), o que se representa é uma dis- paridade nas intensidades fatoriais e nas tecnologias dos dois setores produ- tivos. Ou seja, como uma economia se especializa cada vez mais em um único produto (como passar do ponto B para o ponto D, no exemplo do Gráfico 3), o custo de oportunidade de produzir esse produto aumenta, porque se está empregando cada vez mais recursos me- nos eficientes na produção. Em tal exemplo, com o aumento da produção de manteiga, os trabalhadores da indústria de armas mi- gram para lá. Na prática, a princípio, os trabalha- dores menos qualificados (ou de funções mais básicas) serão transferidos para produzir mais manteiga, sendo que a mudança desses trabalha- dores acarreta pouco impacto no custo de oportu- nidade do aumento da produção de manteiga: por assim dizer, a perda na produção de armas será pequena. 33 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 33 10/03/20 14:36 GRÁFICO 4. CPP COM FORMA RETA Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013. (Adaptado). No entanto, o custo de produção de unidades sucessivas de manteiga sem dúvida aumenta à medida que os recursos cada vez mais especializados na produção de armas forem transferidos para a indústria de manteiga (como, por exemplo, pessoal mais qualificado – e mais caro). Evidentemente, se os custosde oportunidade forem constantes, uma CPP linear é produzida (uma “curva reta”). Este caso reflete uma situação em que os recursos não são especializados e podem ser substituídos um pelo outro por qualquer custo adicional. Os produtos que requerem recursos semelhantes (pão e pastelaria, para citar um exemplo) terão uma CPP praticamente reta, e, portanto, custos de oportunidade quase constantes. Mais especificamente, com retornos constantes de escala, há duas opor- tunidades para uma CPP linear: se houvesse apenas um fator de produção a considerar ou se as razões de intensidade de fator nos dois setores fossem constantes em todos os pontos da curva de possibilidades de produção. Com retornos variados de escala, no entanto, ocorre de não poder ser totalmente linear nos dois casos. Qu an tid ad e de a rm as p ro du zid as Quantidade de manteiga produzida -2 5 A B +10 +10 C D-2 5 34 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 34 10/03/20 14:36 GRÁFICO 5. CPP COM FORMA CONVEXA Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013. (Adaptado). Com economias de escala, a CPP se recolheria, com o custo de oportunida- de de um bem caindo à medida que mais dele fosse produzido. A especializa- ção na produção de unidades sucessivas de um bem determina seu custo de oportunidade (por exemplo, a partir de métodos de produção em massa ou especialização do trabalho). Enfi m: • CPP comum: representa aumento do custo de oportunidade; • CPP linear: representa custo de oportunidade constante; • CPP invertido: representa redução do custo de oportunidade. Custo de oportunidade Como bem indica o Gráfi co 6, aumentar a manteiga de A a B acarreta pouco custo de oportunidade, mas, no caso de um movimento de C a D, esse custo se torna muito maior. Qu an tid ad e de a rm as p ro du zid as Quantidade de manteiga produzida +10 -5-5 -5 0 +10 C A B D 35 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 35 10/03/20 14:36 GRÁFICO 6. AVALIAÇÃO DO CUSTO DE OPORTUNIDADE Fonte: SAMUELSON; NORDHAUS, 2013. (Adaptado). Desde o ponto inicial da curva, se não houver aumento nos recursos pro- dutivos, impõe-se que aumentar a produção de um primeiro bem implica di- minuir a produção de um segundo, porque os recursos devem ser transferidos para o primeiro e, assim, afastados do segundo. Os pontos ao longo da curva descrevem o trade-off entre dois bens em análise. Como visto, o sacrifício na produção do segundo bem é chamado de custo de oportunidade – justamente porque aumentar a produção do primeiro bem implica em abrir mão da opor- tunidade de produzir uma certa quantidade do segundo. Por isso, o custo de oportunidade é medido no número de unidades renunciadas do segundo bem por uma ou mais unidades do primeiro bem. No contexto da interpretação de uma CPP, o custo de oportunidade está diretamente relacionado ao formato da curva (vide Gráficos 3 a 5). Sabe-se que se o formato da curva no gráfico CPP for linear, o custo de oportunidade será constante conforme a produção de diferentes mercadorias estiver mudando; entretanto, o custo da oportunidade geralmente varia dependendo dos pon- tos de partida e de chegada. Qu an tid ad e de a rm as p ro du zid as Quantidade de manteiga produzida D C A -5 -5 0 +10 +10 B 36 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 36 10/03/20 14:36 No exemplo ilustrado na Gráfi co 6, a produção de mais dez pacotes de mantei- ga em um nível baixo de produção custa a renúncia de produção de cinco armas (mostradas como um movimento de A para B). No ponto C, a economia já está próxima do seu potencial máximo de produção de manteiga; isso im- plica que, a fi m de se produzir mais dez pacotes de manteiga, 50 ar- mas devem ser sacrifi cadas (representado pelo movimento de C para D). De tal forma, emprega-se o conceito já visto de TMT para estabelecer precisamente essa relação entre ganhos e perdas. Fatores de produção Na economia, fatores de produção – também denominados recursos ou in- sumos – são usados no processo produtivo para que se viabilize a elaboração de produtos resultantes desse processo – ou seja, bens e serviços acabados. As quantidades utilizadas dos vários insumos determinam a quantidade de pro- duto de acordo com o relacionamento chamado função de produção. Existem quatro recursos ou fatores básicos de produção: terra, trabalho, em- presa e capital. Os fatores também são frequentemente rotulados como “bens ou serviços de produtor” a fi m de distingui-los dos bens ou serviços adquiridos pe- los consumidores, que são frequentemente rotulados como “bens de consumo”. Existem dois tipos de fatores: primário e secundário. Os fatores primários já mencionados são terra, trabalho, empresa e bens de capital; materiais e ener- gia são considerados fatores secundários na economia clássica porque são obtidos de terras, mão de obra e capital. Os fatores primários facilitam a pro- dução, mas ocorre que não se tornam parte do produto (como nas matérias- -primas) nem se transformam signifi cativamente pelo processo de produção (como no combustível usado para alimentar as máquinas). A terra inclui não apenas o local da produção, mas também recursos na- turais acima ou abaixo do solo. A abordagem mais recente distingue o capital humano (o “estoque” de conhecimento na força de trabalho) do labor propria- mente dito. Muitas vezes, o empreendedorismo também é considerado um fator de produção, assim como o estado geral da tecnologia. Evidentemente, o que se observa é que a quantifi cação e a qualifi cação de fatores variam, de- pendendo do objetivo teórico, da ênfase empírica ou da escola de economia. 37 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 37 10/03/20 14:36 Algumas escolas de economia Na economia clássica, em que os estudos conduzidos por Adam Smith e David Ricardo são os baluartes, o foco são os recursos físicos na defi nição dos fatores de produção, discutindo-se, a partir deles, a distribuição de custo e valor entre esses fatores. Nessa perspectiva teórica, as chamadas “partes com- ponentes do preço” são custos relacionados aos seguintes usos: • Terra ou recurso natural: bens naturais, como água, ar, solo, minerais, fl ora, fauna e clima, usados na criação de produtos. O pagamento dado a um proprietário de terra é aluguel, lealdade, comissão e boa vontade. • Labor: esforço humano usado na produção, que também inclui conheci- mentos técnicos e de marketing. O pagamento pelo trabalho de outra pessoa e toda a renda recebida do próprio trabalho são salários. O trabalho também pode ser classifi cado como a contribuição física e mental de um funcionário para a produção dos bens resultantes. • Estoque de capital: bens intermediários fabricados pelo homem que são utilizados na produção de outros bens fi nalísticos. Isso inclui máquinas, ferramentas e edifícios. Eles são de dois tipos: fi xos e funcionais. Fixos são investimentos únicos, como máquinas, ferramentas e trabalho, que consis- tem em dinheiro líquido ou em dinheiro na mão e em matérias-primas; os demais são funcionais. É interessante observar que os economistas clássicos também emprega- ram a palavra “capital” em referência ao dinheiro. O dinheiro, no entanto, não foi considerado um fator de produção no sentido do estoque de capital, uma vez que não é usado para produzir diretamente nenhum bem. O retorno ao dinheiro emprestado ou ao estoque emprestado é denominado como juros, enquanto o retorno ao proprietário real do estoque de capital (ferramentas etc.) é denominado como lucro. Por sua vez, a economia neoclássica, um dos ramos da economia conven- cional, começou também com os fatores clássicos de produção de terra, labor e capital. No entanto, desenvolveu uma teoria alternativa de valor e distribuição. Muitos de seus expoentes adicionaram vários outros fatores de produção. Assim, vale ressaltar que distinções adicionais das microeconomias clássica e neoclássica incluem o seguinte entendimento: 38 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd38 10/03/20 14:36 • Capital: o conceito envolve muitos significados, incluindo o capital finan- ceiro levantado para operar e expandir um negócio. Em grande parte da eco- nomia, no entanto, “capital” (sem qualquer qualificação adicional) significa essencialmente bens que podem ajudar a produzir outros bens no futuro; re- sultado de investimento. Refere-se, portanto, a máquinas, estradas, fábricas, escolas, infraestrutura e edifícios de escritórios que as pessoas produziram com a finalidade de poder criar bens e serviços. • Capital fixo: é um recorte conceitual, que inclui máquinas, fábricas, equipamentos, novas tecnologias, edifícios, computadores e outros bens projetados para aumentar o potencial produtivo da economia nos próxi- mos anos. Atualmente, muitos consideram que o software é uma forma de capital fixo. Esse tipo de capital não muda devido à produção do bem (é, portanto, preservado). • Capital de giro: inclui os estoques de bens acabados e semiacabados que serão consumidos economicamente no futuro próximo ou que serão transformados em bens de consumo acabados no futuro próximo. Estes são frequentemente chamados de inventário. O termo “capital de giro” também se adota para se referir a ativos líquidos (dinheiro) necessários para despe- sas imediatas relacionadas ao processo de produção (para pagar salários, faturas, impostos, juros etc.). De qualquer forma, a característica básica é que o valor ou a natureza deste tipo de capital geralmente muda durante o processo de produção. • Capital financeiro: é simplesmente a quantidade de dinheiro que o em- preendedor do negócio investiu nele. “Capital financeiro” geralmente se refe- re ao patrimônio líquido vinculado ao negócio (ativos menos passivos), mas a expressão geralmente inclui dinheiro emprestado de terceiros (como bancos). • Progresso tecnológico: há pelo menos mais de um século, os economis- tas admitem que capital e trabalho não são responsáveis por todo o cresci- mento econômico. Isso se reflete na produtividade total dos fatores usados em modelos econômicos chamados funções de produção que respondem pelas contribuições de capital e trabalho, e ainda assim têm algum compo- nente “imprevisível” que é comumente chamado de progresso tecnológico – não raro, uma tecnologia de próxima geração tem potencial de redefinir por completo negócios, mercados e a economia como um todo. 39 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 39 10/03/20 14:36 EXPLICANDO Modelos econômicos são formulações matemáticas: uma tentativa utiliza- da pelos economistas para procurar explicar as interações entre as pes- soas e as empresas. Modelos econômicos são, pois, simplificações das interações entre os agentes econômicos da vida real. Por meio delas é possível melhor compreender como as pessoas interagem na economia e qual o equilíbrio de longo prazo para qual um mercado avança. A despeito de simplificação, o que implica que os modelos podem não retratar fiel- mente a realidade, ocorre que mesmo os mais simples ajudam os econo- mistas a atingir conclusões que impactam os negócios na vida real. Por fim, a economia ecológica se apresenta como uma alternativa à eco- nomia neoclássica. Essa abordagem econômica integra, entre outras coisas, a primeira e a segunda leis da Termodinâmica como elementos de analogia para formular sistemas econômicos mais realistas, aderindo a limitações físi- cas fundamentais. Além do foco neoclássico na alocação eficiente, a economia ecológica en- fatiza a sustentabilidade da escala e a distribuição justa. Ela também difere das teorias neoclássicas em suas definições de fatores de produção, substi- tuindo-as pelos seguintes itens: • Matéria: o material substancial a partir do qual os bens são produzidos. A matéria pode ser reciclada ou reutilizada por meio de refino ou reforma, mas, a rigor, não pode ser criada ou destruída, colocando um limite supe- rior na quantidade de material que pode ser retirado e usado. Consequen- temente, a quantidade total de matéria disponível é fixa e, uma vez que toda a matéria disponível é usada, nada mais pode ser produzido sem reciclar ou reutilizar a matéria de produtos anteriores. • Energia: os insumos físicos, embora não materiais, da produção. Pode- -se colocar diferentes formas de energia em uma escala de utilidade, depen- dendo de como seja útil para criar um produto. Devido à lei da entropia, a energia tende a diminuir em utilidade ao longo do tempo. Por exemplo, eletri- cidade, uma forma muito útil de energia, é usada para acionar uma máquina que constrói um brinquedo; no processo, no entanto, a eletricidade é con- vertida também em calor, uma forma menos útil de energia – normalmente desperdiçada no processo produtivo. Como a matéria, a energia não pode ser criada nem destruída e, portanto, há também um forçoso limite superior à quantidade total de energia utilizável. 40 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 40 10/03/20 14:36 • Inteligência de design: é um fator que incorpora o conhecimento, a criatividade e a efi ciência de como os produtos são criados. Nesse sentido, quanto melhor o design, mais efi ciente e benéfi ca é a criação. Projetos geral- mente são melhorias em relação a seus antecessores, já que o estoque de conhecimento acumulado cresce com o tempo (lições aprendidas/memória organizacional). Curiosamente, um possível análogo neoclássico da inteligên- cia de design é o progresso tecnológico. A seguinte noção é preceito central da economia ecológica: nas taxas má- ximas de matéria sustentável e captação de energia, a única maneira de au- mentar a produtividade é por meio do aumento da inteligência do projeto. Isso fornece a base para um princípio básico da economia ecológica, que pre- coniza que o crescimento infi nito é virtualmente impossível. Sistema econômico Um sistema econômico (ou ordem econômica) é um complexo de pro- dução, alocação de recursos e distribuição de bens e serviços dentro de uma sociedade ou de uma determinada área geográfica. Inclui a combina- ção de várias instituições, agências, entidades, processos de tomada de decisão e padrões de consumo que compõem a estrutura econômica de uma determinada comunidade. Como tal, um sistema econômico é neces- sariamente um tipo de sistema social. O modo de produção é um conceito relacionado. Todos os sistemas econômicos têm três perguntas básicas a serem feitas: • O que produzir? • Como produzir e em que quantidades? • Quem recebe a produção? O estudo dos sistemas econômicos inclui como essas várias agências e instituições estão ligadas entre si, como as informações fluem entre elas e as relações sociais dentro do sistema (incluindo direitos de proprieda- de e estrutura de gestão). De início, a análise dos sistemas econômicos tradicionalmente costumava focar nas dicotomias e comparações entre economias de mercado e economias planejadas e nas distinções entre ca- pitalismo e socialismo. 41 SER_ECPME_FUECOAD_UNID1.indd 41 10/03/20 14:36 Posteriormente, a categorização dos sistemas econômicos se expandiu para incluir outros tópicos e modelos que não estão de acordo com a dicoto- mia tradicional. Atualmente, a forma dominante de organização econômica em nível mundial é baseada em economias mistas orientadas para o mercado. O estudo comparativo de sistemas econômicos comparativos inclui as se- guintes categorias analíticas: • Planejamento, coordenação e reforma; • Empresas produtivas, mercados de fatores e produtos, preços e população; • Economia pública e economia fi nanceira; • Renda nacional, produto e despesa, dinheiro e infl ação; • Comércio internacional, fi nanças, investimentos e ajuda; • Economia do consumidor, bem-estar e pobreza; • Desempenho e perspectivas; • Recursos naturais, energia, meio ambiente e estudos regionais; • Economia política, instituições legais e direitos de propriedade. Componentes Como já ficou evidente, existem variados componentes em um siste- ma