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TERAPIA OCUPACIONAL | AVDs em Pediatria 
Apostila 4 — Pediatria | Pág. 1 
 
APOSTILA DE TERAPIA OCUPACIONAL 
AVDs EM PEDIATRIA 
Desenvolvimento, Funcionalidade e Intervenção na Infância 
Módulo 4 — Avaliação e Intervenção em TO Pediátrica 
Terapia Ocupacional | Saúde da Criança e do Adolescente 
 
Conteúdo sobre o desenvolvimento infantil típico e atípico, avaliação e 
estratégias de intervenção em AVDs para crianças e adolescentes. 
 
TERAPIA OCUPACIONAL | AVDs em Pediatria 
Apostila 4 — Pediatria | Pág. 2 
1. DESENVOLVIMENTO INFANTIL E AQUISIÇÃO DAS AVDs 
 
O desenvolvimento das Atividades de Vida Diária na infância é um processo gradual que acompanha a 
maturação neurológica, o desenvolvimento motor, cognitivo e sensorial da criança. O terapeuta 
ocupacional pediátrico avalia o desempenho nas AVDs considerando marcos desenvolvimentais 
esperados para cada faixa etária. 
 
Perspectiva Desenvolvimentista nas AVDs 
A aquisição das AVDs segue uma sequência previsível: primeiro as habilidades de autocuidado 
básico (alimentação, higiene), seguidas pelas de vestuário e, mais tarde, as atividades 
instrumentais. O papel do terapeuta é facilitar esse processo respeitando o ritmo individual de 
cada criança. 
 
1.1 Marcos de Independência nas AVDs por Faixa Etária 
Faixa Etária Alimentação Vestuário Higiene 
1–2 anos Come com colher com 
auxílio 
Colabora ao vestir Aceita escovação 
2–3 anos Come de forma 
independente 
Tira roupas simples Lava mãos com 
supervisão 
3–4 anos Usa garfo com destreza Veste roupas simples Escova dentes 
(supervisionado) 
4–5 anos Corta alimentos macios Abotoa e fecha zíper Banho com supervisão 
5–6 anos Usa faca com supervisão Veste-se de forma 
independente 
Higiene quase 
independente 
7+ anos Independência completa Independência completa Independência completa 
 
1.2 Condições que Impactam o Desenvolvimento das AVDs 
• Paralisia Cerebral (PC): alterações de tônus, movimento e controle postural 
• Transtorno do Espectro Autista (TEA): hipersensibilidade sensorial, rigidez de rotinas 
• Síndrome de Down: hipotonia, déficits cognitivos e motores 
• TDAH: dificuldades de atenção, impulsividade e organização 
• Distrofias musculares: fraqueza muscular progressiva 
• Deficiência visual e auditiva: impacto nas estratégias de execução 
 
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2. AVALIAÇÃO DAS AVDs EM PEDIATRIA 
 
A avaliação das AVDs em crianças requer instrumentos específicos que considerem o desenvolvimento 
típico esperado e o contexto familiar e escolar em que a criança está inserida. A participação dos pais e 
cuidadores é fundamental no processo avaliativo. 
 
2.1 Instrumentos de Avaliação Pediátrica em AVDs 
Instrumento Sigla Faixa Etária O que Avalia 
Pediatric Evaluation of Disability 
Inventory 
PEDI 6 meses–7,5 
anos 
Autocuidado, mobilidade, função 
social 
WeeFIM — Functional 
Independence Measure 
WeeFIM 6 meses–7 anos Independência funcional (18 itens) 
Assessment of Motor & Process 
Skills 
AMPS Acima de 2 anos Habilidades motoras e processuais 
Vineland Adaptive Behavior 
Scales 
VABS 0–90 anos Comportamento adaptativo e 
AVDs 
Bruininks-Oseretsky Test BOT-2 4–21 anos Proficiência motora (grossa e fina) 
 
2.2 Processo de Avaliação Centrada na Família 
Em pediatria, a avaliação deve ser centrada na família, reconhecendo os pais e cuidadores como 
parceiros essenciais no processo terapêutico. O terapeuta deve: 
1. Realizar entrevista estruturada com os pais sobre rotinas, prioridades e contexto 
2. Observar a criança realizando AVDs em ambiente natural (domicílio/escola) 
3. Aplicar instrumentos padronizados adequados à faixa etária 
4. Avaliar o ambiente físico e o suporte disponível 
5. Identificar as prioridades da família e da criança 
 
2.3 Processamento Sensorial e AVDs 
Integração Sensorial (Teoria de Ayres) 
Crianças com dificuldades de processamento sensorial frequentemente apresentam 
comportamentos de evitação ou busca sensorial que interferem nas AVDs. A hipersensibilidade 
tátil, por exemplo, pode tornar o banho, o vestuário e a alimentação experiências aversivas que 
geram conflitos cotidianos. 
 
Padrão Sensorial Comportamentos Observados Impacto nas AVDs 
Hipersensibilidade tátil Evita texturas, recusa toque Dificuldade com banho, vestuário, 
alimentos 
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Apostila 4 — Pediatria | Pág. 4 
Hiposensibilidade 
proprioceptiva 
Busca pressão intensa, torpeza Força excessiva, quebra objetos, 
derrama líquidos 
Déficit vestibular Medo de alturas, evita 
movimento 
Dificuldade em transferências, 
subir/descer escadas 
Disfunção visual-espacial Desorientação no espaço Dificuldade para se vestir, navegar 
no ambiente 
 
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3. INTERVENÇÃO EM AVDs NA INFÂNCIA 
 
A intervenção em AVDs pediátricas utiliza abordagens lúdicas e significativas para a criança, integrando 
o brincar como principal meio terapêutico. As estratégias devem ser prazerosas, motivadoras e 
generalizáveis para o cotidiano. 
 
3.1 Abordagens de Intervenção 
Abordagem Base Teórica Aplicação nas AVDs 
Integração Sensorial (ASI) Jean Ayres Regulação sensorial para aceitar AVDs 
Terapia orientada à 
ocupação 
Modelo de 
Desempenho 
Ocupacional 
Treino direto em AVDs funcionais 
CO-OP (Cognitive Orient.) Polatajko & Mandich Estratégias cognitivas para resolução de 
problemas nas AVDs 
Abordagem Ecológica Teoria dos Sistemas Modificação da tarefa e do ambiente 
Terapia do 
Neurodesenvolvimento 
Bobath Facilitação motora para PC e outras condições 
 
3.2 O Brincar como Meio Terapêutico nas AVDs 
A incorporação do brincar nas sessões de AVDs aumenta a motivação, facilita a aprendizagem e 
promove a generalização das habilidades para o contexto real. Algumas estratégias incluem: 
 
• Transformar o vestuário em jogo: corrida para se vestir, 'missão secreta' de fechar botões 
• Brincadeiras aquáticas para reduzir aversão ao banho em crianças com hipersensibilidade 
• Jogos de culinária para treino de alimentação e coordenação motora fina 
• Teatrinho e fantasia para treino de vestuário e papéis ocupacionais 
• Apps e jogos digitais adaptados para treino de habilidades cognitivas em AVDs 
 
3.3 Envolvimento Familiar e Orientação Parental 
Programa de Orientação Domiciliar 
O terapeuta deve capacitar os pais a facilitarem a independência nas AVDs no cotidiano, evitando 
o excesso de auxílio (superproteção). Estratégias como 'hand-under-hand' (mão embaixo da 
mão), dividir a tarefa em pequenos passos e celebrar progressos aumentam a autoeficácia da 
criança. 
 
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A orientação aos professores e à escola também é fundamental, pois a criança passa grande parte do 
dia no ambiente escolar, onde AVDs como alimentação, higiene e vestuário devem ocorrer com o 
máximo de independência possível. 
 
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4. CONDIÇÕES ESPECÍFICAS E REFERÊNCIAS 
 
4.1 Paralisia Cerebral (PC) e AVDs 
A Paralisia Cerebral é a causa mais comum de deficiência motora na infância. As alterações de tônus, 
postura e movimento impactam diretamente todas as AVDs. A intervenção deve ser individualizada 
conforme a classificação funcional: 
 
Nível MACS / 
GMFCS 
Perfil Funcional Estratégia Principal 
Nível I Manipulação e mobilidade 
independentes 
Refinamento motor fino, estratégias 
de eficiência 
Nível II Limitações leves, sem necessidade 
de TA 
Adaptações simples, orientação 
parental 
Nível III Requer TA e adaptações ambientais TA, posicionamento terapêutico, 
órteses 
Nível IV Dependência parcial, TA complexa Cadeira adaptada, TA de alta 
tecnologia 
Nível V Dependência total Posicionamento, conforto, 
participação assistida 
 
4.2 TEA e AVDs 
No Transtorno do EspectroAutista, as dificuldades nas AVDs decorrem principalmente de alterações 
sensoriais, rigidez de rotinas, déficits nas funções executivas e dificuldades de comunicação. Estratégias 
eficazes incluem: 
• Uso de apoios visuais: sequências pictográficas das etapas das AVDs 
• Antecipação de mudanças na rotina por meio de calendários e agendas visuais 
• Introdução gradual de estímulos sensoriais aversivos com técnicas de dessensibilização 
• Reforço positivo para cada etapa concluída de forma independente 
 
4.3 Transição para a Vida Adulta 
Preparação para AVDs na Adolescência 
A transição da infância para a vida adulta requer a ampliação do repertório de AVDs 
instrumentais: preparo de refeições simples, gerenciamento de dinheiro, uso de transporte 
público e organização pessoal. O planejamento centrado na pessoa e no futuro (PCP) orienta 
esse processo para jovens com deficiência. 
 
4.4 Referências Bibliográficas 
TERAPIA OCUPACIONAL | AVDs em Pediatria 
Apostila 4 — Pediatria | Pág. 8 
CASE-SMITH, J.; O'BRIEN, J.C. Occupational Therapy for Children and Adolescents. 7th ed. St. Louis: 
Mosby/Elsevier, 2015. 
 
BUNDY, A.C.; LANE, S.J.; MURRAY, E.A. Sensory Integration: Theory and Practice. 2nd ed. 
Philadelphia: F.A. Davis, 2002. 
 
HALEY, S.M. et al. Pediatric Evaluation of Disability Inventory (PEDI). Boston: New England Medical 
Center Hospitals, 1992. 
 
POLATAJKO, H.J.; MANDICH, A. Enabling Occupation in Children: The Cognitive Orientation to Daily 
Occupational Performance (CO-OP) Approach. Ottawa: CAOT, 2004. 
 
ROSENBAUM, P. et al. A report: the definition and classification of cerebral palsy. Developmental 
Medicine & Child Neurology, v. 49, suppl. 109, p. 8-14, 2007.

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