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O SUS e a Integralidade do Cuidado MÓDULO 01 | PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA APS E DO SUS DISCIPLINA 01 Brasília (DF) 2026 O SUS e a Integralidade do Cuidado DISCIPLINA 01 Tiragem: 1ª edição – 2026 – versão eletrônica 2026 Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde. A.C Camargo Câncer Center. Esta obra é disponibilizada nos termos da Licença Creative Commons – Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte. A coleção institucional da Oferta de Aperfeiçoamento da Prática em Coordenação do Cuidado a partir da Atenção Primária à Saúde pode ser acessada, na íntegra, na Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde: http://bvsms.saude.gov.br Elaboração, distribuição e informações: MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Atenção Primária à Saúde - SAPS Esplanada dos Ministérios Bloco G, Edifício Sede CEP: 70058-900 – Brasília/DF CONSELHO NACIONAL DE SECRETARIAS MUNICIPAIS DE SAÚDE - CONASEMS Esplanada dos Ministérios, Bloco G, Anexo B, Sala 144 Zona Cívico-Administrativo CEP: 70058-900 – Brasília/DF A.C CAMARGO CANCER CENTER R. Prof. Antônio Prudente, 211 – Liberdade CEP: 01509-010 - São Paulo/S - Brasil Colaboração: Bárbara Patrícia da Silva Lima – A.C. Camargo Beatriz Guterres de Souza Lima – SAPS/MS Cibele Dayana de Souza – SAPS/MS José Eudes de Lorena Sobrinho – A.C. Camargo Leila Medeiros Melo – SAPS/MS Priscylla Alves Nascimento de Freitas – SAPS/MS Renata Gomes Soares – SAPS/MS Designer educacional: Gustavo Henrique de Faria Barra – CONASEMS Coordenação de desenvolvimento gráfico: Cristina Perrone – CONASEMS Diagramação e projeto gráfico: Júlia Gutierrez Souza Carmo – CONASEMS Luciana Monteiro Campello – CONASEMS Ygor Baeta Lourenco – CONASEMS Fotografias e ilustrações: Biblioteca do Banco de Imagens do Conasems Imagens: Freepik Flickr - Ministério da Saúde Revisão Linguística: Keylla Manfili Fioravante Coordenação-geral: Ana Cláudia Cardozo Chaves – SAPS/MS Ana Luiza Ferreira Rodrigues Caldas – SAPS/MS Ana Paula Pinho – A.C. Camargo Cristiane Martins Pantaleão – CONASEMS Hisham Mohamad Hamida – CONASEMS Mauro Junqueira – CONASEMS Verônica Savatin Wottrich – CONASEMS Organização: Núcleo Pedagógico do CONASEMS Coordenação técnica e pedagógica: Beatriz Zocal da Silva – SAPS/MS Danylo Santos Silva Vilaça – SAPS/MS Jacirene Gonçalves Lima Franco – SAPS/MS Kelly Cristina Santana – CONASEMS Maria da Penha Marques Sapata – CONASEMS Marta de Sousa Lima – CONASEMS Patricia da Silva Campos – CONASEMS Soane Cristina Almeida dos Santos – CONASEMS Valdívia França Marçal – CONASEMS Assessoria executiva: Antônio Jorge de Souza Marques Elaboração de conteúdo: Brígida Gimenez Carvalho João Felipe Marques da Silva Revisão técnica de conteúdo: Beatriz Zocal da Silva – SAPS/MS Daiane Celestino Melo – SAPS/MS Jacirene Gonçalves Lima Franco – SAPS/MS Maria da Penha Marques Sapata – CONASEMS Patricia da Silva Campos – CONASEMS Soane Cristina Almeida dos Santos – CONASEMS COMO NAVEGAR NESTE E-BOOK Antes de iniciar a leitura do material, veja, aqui, algumas dicas para aproveitar ao máximo os recursos disponíveis. SUMÁRIO: uma forma rápida de acessar facilmente as temáticas. Quer retornar à lista das temáticas? Basta clicar no ícone, no canto superior da página. Sempre que surgir o QR CODE, aponte a câmera do seu celular para acessar o conteúdo. Você, também, pode clicar sobre ele, com o botão direito do mouse, para abrir em uma nova aba ou navegador. QR CODE Caso tenha dificuldade para visualizar os elementos visuais, utilize a função de zoom do PDF. ZOOM Este é o seu e-book da Disciplina 1 – O SUS e a Integralidade do Cuidado, que marca o início do “Aperfeiçoamento da Prática em Coordenação do Cuidado a partir da APS”. Nesta disciplina, abordaremos a Atenção Primária à Saúde (APS) como porta de entrada do sistema e como eixo de articulação com a rede de atenção. Um convite para olhar para a APS não apenas como um nível de atenção, mas como o espaço onde o cuidado se constrói. BEM-VINDO! Aqui, iniciamos juntos o caminho da integralidade. Ao longo deste conteúdo, exploraremos o papel da APS como porta de entrada preferencial, e como ponto central de comunicação com os demais serviços da rede. Vamos compreender seus atributos essenciais e como eles dialogam com os princípios e diretrizes do SUS. Mais do que isso, veremos como esses princípios se expressam no cotidiano dos serviços, nas relações entre profissionais e usuários e nas decisões que moldam as trajetórias de cuidado. A partir de agora, vamos compreender, de maneira integral, os conteúdos já abordados na teleaula e na aula interativa da disciplina, reafirmando o compromisso com um cuidado mais humano, resolutivo e integral. Leia com atenção e bons estudos! LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS AAE | Atenção Ambulatorial Especializada AB | Atenção Básica AIDS | Síndrome da Imunodeficiência Adquirida APS | Atenção Primária à Saúde AVA | Ambiente Virtual de Aprendizagem CAPS | Centro de Atenção Psicossocial CES | Conselho Estadual de Saúde CF | Constituição Federal CIB | Comissão Intergestores Bipartite CIR | Comissão Intergestores Bipartite Regional CIT | Comissão Intergestores Triparte CMS | Conselho Municipal de Saúde CNS | Conselho Nacional de Saúde CONASEMS | Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde CONASS | Conselho Nacional de Secretários de Saúde COSEMS | Conselho de Secretarias Municipais de Saúde CRAS | Centro de Referência de Assistência Social EP | Emendas Parlamentares eAP | equipes de Atenção Primária eAPP | equipe de Atenção Primária Prisional eCR | equipe de Consultório na Rua eMulti | equipes multiprofissionais na APS eSF | equipes de Saúde da Família ESF | Estratégia de Saúde da Família eSFR | equipe de Saúde da Família Ribeirinha GM | Gabinete do Ministro HAS | Hipertensão Arterial Sistêmica HIV | Vírus da Imunodeficiência Humana IBGE | Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IED | Índice de Equidade e Dimensionamento IMC | Índice de Massa Corporal IPEA | Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada IST | Infecção Sexualmente Transmissível ITU | Infecção do Trato Urinário IVS | Índice de Vulnerabilidade Social LGBTQIA+ | Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros (Travestis, Transexuais), Queer, Intersexo, Assexuais, outras orientações e identidades de gênero não especificadas nas letras anteriores MRA | Migrantes, Refugiados e Asilados MS | Ministério da Saúde NASF | Núcleo de Apoio à Saúde da Família NASF-AB | Núcleo Ampliado de Saúde da Família na Atenção Básica LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS OCDE | Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico OCI | Oferta de Cuidados Integrados PA | Pressão Arterial PAB | Piso da Atenção Básica PDR | Plano Diretor de Regionalização PMS | Plano Municipal de Saúde PNAB | Política Nacional da Atenção Básica PNAES | Política Nacional de Atenção Especializada PNAISARI | Política Nacional de Atenção Integral à Saúde de Adolescentes em Conflito com a Lei, em Regime de Internação, Internação Provisória e Semiliberdade PNAISP | Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema Prisional PNH | Política Nacional de Humanização PNI | Programa Nacional de Imunização PSE | Programa Saúde na Escola PSF | Programa Saúde da Família PTS | Projeto Terapêutico Singular RAS | Rede de Atenção à Saúde REMUME | Relação Municipal de Medicamentos Essenciais RENAME | Relação Nacional de Medicamentos Essenciais RENASES | Relação Nacional de Ações e Serviços de Saúde LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS RESME | Relação Estadual de Medicamentos Essenciais RSB | Reforma Sanitária Brasileira SES | Secretaria de Estado de Saúde SRAG | Síndrome Respiratória Aguda Grave SUS | Sistema Único de Saúde TDO | Tratamentodiferenciadas para alcançar resultados semelhantes. Como, por exemplo: população negra; povos indígenas; população do campo, da floresta e das águas; povos e comunidades tradicionais (quilombolas e ribeirinhas), povos ciganos e migrantes; pessoas LGBTQIA+; pessoas em situação de rua; crianças e adolescentes em conflito com a lei; pessoas com deficiência. 98 Para saber mais sobre políticas, ações, programas e estratégias que a APS tem instituído, nos últimos anos, para ampliar a equidade, clique sobre os itens ou escaneie os QR codes, a seguir: eCR - Equipe de Consultório na Rua eAPP - Equipe de Atenção Primária Prisional (Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema Prisional - PNAISP) eSFR - Equipe de Saúde da Família Ribeirinha e UBSF - Unidade Básica de Saúde Fluvial 99 https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/esf/consultorio-na-rua https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/esf/consultorio-na-rua https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/pnaisp/sobre-a-pnaisp https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/pnaisp/sobre-a-pnaisp https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/esf/esfr https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/esf/esfr https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/esf/esfr https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/esf/consultorio-na-rua https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/pnaisp/sobre-a-pnaisp https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/esf/esfr Emergências Climáticas População LGBTQIAPN+ PNAISARI - Política Nacional de Atenção Integral à Saúde de Adolescentes em Conflito com a Lei Migrantes, Refugiados e Asilados (MRA) 100 https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/e/emergencias-climaticas https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude/populacao-lgbtqiapn https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude/adolescentes-em-cumprimento https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude/adolescentes-em-cumprimento https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude/adolescentes-em-cumprimento https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude/adolescentes-em-cumprimento https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude/migrantes-refugiadas-e-apatridas https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude/migrantes-refugiadas-e-apatridas https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude/populacao-lgbtqiapn https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude/adolescentes-em-cumprimento https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade-em-saude/migrantes-refugiadas-e-apatridas https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/e/emergencias-climaticas V O C Ê SA B IA ? Atualmente, o MS tem desenvolvido o Programa Nacional de Equidade de Gênero, Raça e Valorização das Trabalhadoras no SUS. O programa tem com foco o combate às iniquidades entre gêneros, raças, etnias e sexualidade, e é voltado às trabalhadoras do SUS, com intuito de reconhecer a diversidade, a jornada múltipla das mulheres no SUS, e qualificar processos de gestão do trabalho e educação na saúde para construção de pontes de equidade, com vistas à igualdade entre os trabalhadores. 101 Nesse contexto, o conceito de equidade comporta distintas dimensões em sua análise: equidade na oferta (distribuição de recursos humanos e capacidade instalada); acesso e utilização de serviços; financiamento das ações; qualidade da atenção; situação de saúde; condições de vida da população. (Fonte: Barros, Souza, 2016). ACESSE O QR CODE Para aprofundar o entendimento sobre Equidade, incluindo seus conceitos, significados e implicações para o SUS, clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado. 102 https://www.scielo.br/j/sausoc/a/Kdc66VGb5mXkMnHTHYkzVPv/?format=html&lang=pt https://www.scielo.br/j/sausoc/a/Kdc66VGb5mXkMnHTHYkzVPv/?format=html&lang=pt Vamos resgatar o exemplo anterior: Você sabia que a vacina contra VSR também é indicada para pessoas acima de 60 anos? No entanto, o PNI a incorporou, por enquanto, somente às gestantes. Além dos aspectos voltados à eficácia e efetividade do imunizante, há de se considerar, na implementação de ações de saúde, os custos e a disponibilidade de recursos orçamentários. Dessa forma, a análise de dados, como os de mortalidade e morbidade infantil, indicam a prioridade da vacinação em gestantes. Sendo assim, um exemplo de equidade na oferta. 103 Na APS, a equidade, também, deve ser norteadora para a priorização das ações, e para o direcionamento de recursos e materiais às UBS e territórios com maiores necessidades. Inclusive, o regramento sobre o financiamento do SUS e a partilha de recursos em saúde devem ser balizadas por critérios de equidade, conforme estabelecido nos termos: Inciso II do § 3º do art. 198 da Constituição Federal – acesse clicando aqui ou escaneando o QR Code, ao lado. Lei Complementar nº 141/2012 – acesse clicando aqui ou escaneando o QR Code, ao lado. 104 https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10653403/paragrafo-3-artigo-198-da-constituicao-federal-de-1988 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp141.htm https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10653403/paragrafo-3-artigo-198-da-constituicao-federal-de-1988 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp141.htm https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10653403/paragrafo-3-artigo-198-da-constituicao-federal-de-1988 V O C Ê SA B IA ? Atualmente, o cofinanciamento federal do MS utiliza um critério de equidade para o repasse do Componente Fixo da APS, conhecido como Índice de Equidade e Dimensionamento (IED), instituído pela Portaria GM/MS 3493/2024. Clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado, para acessá-la na íntegra. O IED classifica os municípios considerando a vulnerabilidade social (Índice de Vulnerabilidade Social – IVS do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea), e o porte populacional (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE). O resultado é apresentado em 4 estratos (1 a 4), sendo que o estrato 1 elenca os municípios mais vulneráveis e de menor porte populacional. O IED auxilia na distribuição dos recursos federais da APS para os municípios, considerando a equidade. 105 https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2024/prt3493_11_04_2024.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2024/prt3493_11_04_2024.html Dados de 2022 revelaram que as EP compunham cerca de 25,5% do financiamento federal da APS. Um estudo de Ulinski et al. (2024), realizado entre o período de 2015 a 2022, identificou que o aumento do repasse de EP pelo MS favoreceu a redução da alocação de receitas municipais com a APS, ou seja, os municípios substituem a receita própria (que podem ter sido direcionadas para outras finalidades de gasto no SUS) pelos recursos recebidos por emendas parlamentares (EP). Por outro lado, o financiamento por meio de emendas parlamentares (EP), sem critérios sanitários e regionais específicos, podem ferir o princípio da equidade, uma vez que as maiores beneficiárias nem sempre são as localidades que mais necessitam. SAIBA MAIS 106 Em outras palavras, os recursos recebidos por EP para esse nível de atenção não se somam aos recursos previstos de fonte própria. Outro achado do estudo, é que a distribuição de EP entre os municípios, considerando o porte municipal, é desigual. Ao analisar as implicações das EP para o modelo de alocação equitativa de recursos aos municípios, no período de 2015 a 2019, Sulpino e Lima (2022) concluíram que a distribuição de recursos por emenda parlamentar não contemplou todos os municípios, mesmo aqueles mais vulneráveis, além de ter havido grande desigualdade no repasse de recursos per capita segundo os grupos de municípios. O financiamento adequado e equitativo é condição estruturante para a integralidadedo cuidado, conectando gestão financeira e prática assistencial. Para conhecer mais detalhes sobre o tema, acesse os artigos, abaixo: Clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado, para ler o artigo “Efeitos das emendas parlamentares no financiamento municipal da Atenção Primária à Saúde do Sistema Único de Saúde”. 107 https://www.scielo.br/j/csp/a/9ZCwyxLFP6pCVz4krScFcmB/?format=html&lang=pt https://www.scielo.br/j/csp/a/9ZCwyxLFP6pCVz4krScFcmB/?format=html&lang=pt Outros instrumentos que buscam garantir a equidade na atenção são a estratificação de risco e a priorização do acesso a partir de critérios clínicos e de gravidade. Todavia, devemos refletir que ao ordenar o atendimento assistencial na APS, a partir do momento da chegada do usuário, ou seja, aquele que chega mais cedo, e/ou priorizar exames e procedimentos para aqueles que estão há mais tempo na fila, embora sejam “critérios”, não vinculam-se ao princípio da equidade. Dessa forma, é possível observar que a equidade é um princípio amplo que norteia as ações nos serviços de saúde, e pode relacionar-se com a oferta; com o acesso e utilização de serviços; com o financiamento; com a qualidade da atenção, com a situação de saúde; e, ainda, com as condições de vida da população. Clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado, para acessar o artigo “Distorções das emendas parlamentares na alocação equitativa de recursos federais ao Piso da Atenção Básica (PAB)”. 108 https://www.scielosp.org/article/rsp/2022.v56/123/pt/ https://www.scielosp.org/article/rsp/2022.v56/123/pt/ 03 Integralidade A integralidade no SUS pressupõe duas análises principais: a primeira está relacionada a não limitar ou reduzir as pessoas à suas queixas principais ou à condição de saúde, ou seja, o cuidado aos indivíduos deve envolver outras dimensões e necessidades, e deve estar relacionado com aspectos familiares e comunitários, com o território, e com os condicionantes e determinantes sociais; a outra, está vinculada à garantia da atenção contínua à saúde das pessoas, por meio de um conjunto de ações e serviços, preventivos e/ou curativos, no âmbito individual e/ou coletivo, em diferentes níveis de complexidade que compõem a RAS. 109 Conceito de Integralidade na PNAB Dessa forma, a INTEGRALIDADE DO CUIDADO está relacionada à garantia de acompanhamento na APS de forma resolutiva e sua continuidade na Atenção Especializada Ambulatorial e Hospitalar, mas, também, a um conjunto de ações que envolvem diferentes formas e locais de cuidado, serviços (intra e intersetoriais) e equipes profissionais. A PNAB (2017) conceitua Integralidade como: […] conjunto de serviços executados pela equipe de saúde que atendam às necessidades da população adscrita nos campos do cuidado, da promoção e manutenção da saúde, da prevenção de doenças e agravos, da cura, da reabilitação, redução de danos e dos cuidados paliativos. Da mesma forma, ainda em seu texto: […] Inclui a responsabilização pela oferta de serviços em outros pontos de atenção à saúde e o reconhecimento adequado das necessidades biológicas, psicológicas, ambientais e sociais causadoras das doenças, e manejo das diversas tecnologias de cuidado e de gestão necessárias a estes fins, além da ampliação da autonomia das pessoas e coletividade (PNAB, 2017). 110 Essas ações abrangem o cuidado domiciliar e ambulatorial realizado por toda a equipe multidisciplinar que atua na APS, o acolhimento e o acompanhamento do usuário na RAS, além das ações de promoção e prevenção, individuais e coletivas, de doenças e agravos, e a articulação necessária com outros serviços, estabelecimentos de saúde, instituições de ensino, associações, e demais organizações, para que o cuidado se materialize. A garantia da integralidade do cuidado, também, é condicionada à disponibilização de recursos financeiros, essa limitação esbarra, especialmente, no processo de judicialização de tratamentos, medicamentos e procedimentos. Nesse sentido, o Decreto 7508/2011 teve como proposta regulamentar a Lei nº 8.080/90, com foco na organização da RAS, e estabelecer instrumentos para nortear as ações na atenção à saúde, como a RENASES e a RENAME, visando à integralidade do cuidado. Quer saber mais? Clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado, para acessar o artigo “A integralidade na prática (ou sobre a prática da integralidade)”. 111 https://www.scielo.br/j/csp/a/4fSwnHx3nWnW49Tzq8KZLKj/?format=pdf&lang=pt https://www.scielo.br/j/csp/a/4fSwnHx3nWnW49Tzq8KZLKj/?format=pdf&lang=pt Você sabe que instrumentos são esses? RENASES: A Relação Nacional de Ações e Serviços de Saúde (RENASES) compreende todas as ações e serviços que o SUS oferece ao usuário, para atendimento da integralidade da assistência à saúde. RENAME: A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) compreende a seleção e a padronização de medicamentos indicados para atendimento de doenças ou de agravos no âmbito do SUS. A RENAME ainda se desdobra na relação estadual de medicamentos essenciais (RESME) e na municipal (REMUME). 112 Ainda assim, o SUS tem limitações e nem sempre consegue ofertar a atenção integral de acordo com as necessidades da população. Entretanto, na tentativa de ofertar uma atenção integral, além das estratégias de definir o escopo das ações e terapias disponibilizadas, por meio do Decreto 7508/2011, têm sido adotadas inúmeras estratégias para a garantia de um cuidado integral pelo SUS. Entre elas, destacam-se a ampliação e o fortalecimento da APS, especialmente, da Estratégia de Saúde da Família (ESF) e de ações e programas vinculados à esse nível de atenção, e, mais recentemente, também, por meio do escopo de ações e serviços instituídos pela: Política Nacional de Atenção Especializada (PNAES) – acesse clicando aqui ou escaneando o QR Code, ao lado. Ofertas de Cuidados Integrados (OCI) - acesse clicando aqui ou escaneando o QR Code, ao lado. 113 https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2023/prt1604_20_10_2023.html https://portal.conasems.org.br/noticias/1333_experiencia-de-ofertas-de-cuidados-integrados-no-ambito-do-programa-agora-tem-especialistas-em-curitiba-e-o-tema-do-910-estacao-sus https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2023/prt1604_20_10_2023.html https://portal.conasems.org.br/noticias/1333_experiencia-de-ofertas-de-cuidados-integrados-no-ambito-do-programa-agora-tem-especialistas-em-curitiba-e-o-tema-do-910-estacao-sus Percebam que a Integralidade é um conceito amplo e condicionada por diversos fatores. A integralidade do cuidado não se concretiza sem a garantia da universalidade e da equidade nos serviços de saúde, portanto, devem ser pensadas de forma indissociável. Nessa perspectiva, o enfrentamento dos problemas de saúde do território necessitam de uma visão integral. Assim, podemos observar na próxima situação problema um conjunto de estratégias para a integralidade do cuidado a partir da APS. 114 Enfrentando as Arboviroses No clima quente dos bairros e ruas movimentadas, o zumbido de um mosquito pode carregar consigo mais do que um incômodo, pode trazer medo, dor e incertezas. As Arboviroses, como Dengue, Zika e Chikungunya, não são apenas nomes difíceis de pronunciar, são histórias de famílias interrompidas, de trabalhadores que perdem dias de sustento, e de crianças que deixam de brincar. N A P R TÁ TI CA Enfrentar essas doenças é, hoje, um dos maiores desafios da gestão em saúde. Todavia, não basta oferecer apenas o tratamento quando a febre já chegou ou quando a dor já se instalou. O cuidado precisa ser integral, precisa acontecer antes da doença e caminhar junto com a comunidade. 115 Esse enfrentamento se constrói em muitas mãos, e por meio de: ações de promoção e prevenção; educação em saúde; vigilância em saúde; garantia de apoio diagnóstico; articulação intra e intersetorial;mobilização social; participação popular; programação orçamentária; planejamento para o contingenciamento de risco; elaboração de protocolos e fluxos assistenciais; garantia de retaguarda hospitalar; formação profissional contínua; integração entre a APS e vigilância; assistência farmacêutica. 116 Durante esse ano, o município de Cabo da Boa Fé enfrenta uma epidemia de Chikungunya, doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti. A Chikungunya manifesta-se, principalmente, por febre alta, dores articulares intensas, e, em alguns casos, pode evoluir para formas crônicas, impactando fortemente a qualidade de vida dos indivíduos. A epidemia sobrecarrega as Unidades Básicas, ambulatórios e serviços hospitalares, demandando ações que garantam a integralidade da atenção à saúde dos usuários. O aumento expressivo de casos impõe desafios ao sistema de saúde local, exigindo respostas articuladas e integradas entre os profissionais, serviços e outros setores da sociedade. A G O R A É S U A V EZ 117 Considerando o que discutimos, até aqui, reflita e responda às seguintes questões: 1. Como e quais ações a equipe de saúde devem desenvolver, para garantir a integralidade da atenção aos usuários nesse município? 2. Como a comunidade pode ser envolvida nesse processo? 118 04 Limites e desafios para a garantia da integralidade Garantir a integralidade do cuidado não é uma atividade simples. Uma vez que, para executá-la, a APS precisa assumir a condição de ordenadora da RAS e de coordenação do cuidado. Nesse sentido, é importante que façamos uma reflexão sobre os limites e os desafios da APS no exercício dessas funções. No entanto, a APS ainda é vista, por muitos usuários, como um lugar de coisas simples. Há, também, fragilidades, por vezes percebidas, por usuários e equipes, quando se trata da APS funcionar como coordenadora do cuidado, indicando que ela não reuniria condições materiais, sejam tecnológicas, operacionais e organizacionais; e, tampouco simbólicas (valores, significados e representações), para deter a posição central da coordenação da RAS (Cecilio et al., 2012). A vida dos brasileiros seria mais difícil sem ela. A rede básica [APS] é uma produtora de valores de uso para milhões de cidadãos. Nesse sentido, ela deve ser defendida como uma conquista a ser consolidada e aperfeiçoada (Cecilio et al., 2012, p. 2900). A literatura aponta que APS é um lugar onde as pessoas buscam recursos fundamentais para compor o cuidado de que precisam: 119 Nesse sentido, é preciso refletir sobre essas limitações: Quais aspectos estão envolvidos para que APS não tenha condições de assumir a coordenação do cuidado do seu território? Como, por exemplo: Seria possível afirmar que essas limitações têm relação com condições estruturais da APS e do próprio sistema de saúde? Necessidade de formação específica aos profissionais que a compõem, no sentido de que para atuar na APS é preciso ampliar nossa capacidade de compreensão desse nível de atenção, refletindo sobre suas responsabilidades, e sobre o modelo de atenção adotado. Isso significa, a grosso modo, perceber se o processo de trabalho realizado, atualmente, é convergente com aquilo que se pretende alcançar. Sobrecarga de trabalho, na perspectiva que a coordenação do cuidado implica a presença de equipes suficientes, de acordo com as necessidades do território e na concepção que o escopo de atuação da APS é grande, envolvendo políticas e programas de diversas áreas. 120 Valorização da atenção especializada, no sentido de que os usuários, gestores e profissionais tendem a valorizar serviços e intervenções que utilizam tecnologias duras, ou seja, aquelas que se utilizam de equipamentos sofisticados, normas, estruturas organizacionais, e centradas no conhecimento técnico. Para superar tais desafios, os autores recomendam reconhecer que a estruturação de redes apresenta elevada complexidade e pode assumir diferentes dimensões e escalas, conforme as características do território. Dessa forma, investimentos para a coordenação de redes se tornam necessários, além disso esse nível de atenção exige um financiamento adequado e sustentável. Quanto ao financiamento, dados levantados pelo Conasems (2019) apontam que cerca de 60% dos custos da APS são bancados pelos municípios, seguidos da União (37%) e dos estados (3%). Isso significa que esse nível de atenção é majoritariamente financiado pelo ente municipal, e esse dado nos ajuda a compreender os limites para ampliação de serviços. 121 Outros desafios relativos à ordenação da RAS e coordenação do cuidados pelo APS estão relacionados aos distintos contextos e realidades brasileiras, como diferentes arranjos de equipe, territórios com áreas geográficas extensas e/ou, com um grande número de pessoas vinculadas. Além da ausência de Sistemas de Informação que possam garantir dados interoperáveis, com vistas à integração do cuidado em diferentes serviços. Esses fatores, muitas vezes, impedem que a APS assuma seu protagonismo na ordenação da rede e na coordenação do cuidado dos usuários sob sua responsabilidade. 122 05 Finalizando Essa disciplina abordou a importância da integralidade do cuidado como elemento essencial para o fortalecimento do SUS e da Atenção Primária à Saúde (APS). Além disso, buscou analisar a organização do SUS e da APS, identificando: seus princípios e diretrizes; discussões sobre as funções de ordenação e coordenação do cuidado pela APS; aplicação dos atributos essenciais e derivados da APS em situações práticas; reconhecimento dos limites e desafios da APS na função de ordenação da RAS e na coordenação do cuidado. 124 O cuidado em saúde se materializa a partir de um conjunto de diferentes ações, como a organização dos pontos de atenção, padronização de estratégias de estratificação, realização de estimativas e planejamento da oferta, construção de fluxos, aplicação de instrumentos regulatórios, entre outras estratégias e tecnologias de cuidado, que, sobretudo, envolvem pessoas cuidando de pessoas, e, portanto, o sentido do “cuidar” deve ser considerado o principal propósito dos profissionais que atuam na APS. Isso significa que a implementação de processos com intuito de atingir o cuidado são necessários, mas há de termos cautela para que eles não sejam priorizados quando comparados ao “ATO DE CUIDAR”. 125 06 Bibliografia ARANTES, L. J.; SHIMIZU, H. E.; MERCHÁN-HAMANN, E. Contribuições e desafios da Estratégia Saúde da Família na Atenção Primária à Saúde no Brasil: revisão da literatura. Ciência & Saúde Coletiva, v. 21, n. 5, p. 1499-1510, 2016. BARROS F. P. C. de, SOUZA M. F. de. Equidade: seus conceitos, significações e implicações para o SUS. Saude soc [Internet]. 2016 Jan; 25(1):9–18. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-12902016146195. Acesso em: 13 de Janeiro de 2026. BOFF, L. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. BRASIL. Decreto nº 7.508, de 28 de junho de 2011. 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Foi instituído, formalmente, na Constituição Federal (CF) 1988 e institucionalizado por meio das Leis Orgânicas da Saúde (8080/90 e 8142/90), e de uma vasta legislação infralegal para sua implementação e operacionalização. Antes de iniciar a leitura deste e-book, é importante lembrar que a Atenção Primária à Saúde (APS) é reconhecida como uma política de Estado do Sistema Único de Saúde (SUS). VOCÊ SABIA? 15 A Reforma Sanitária Brasileira (RSB) foi um movimento que ocorreu na década de 1970, envolvendo profissionais da saúde, Academia e sociedade civil, que buscou por reformas no sistema de saúde conjuntamente à formulação do pensamento crítico na política de saúde (Carvalho et al., 2017). Se constitui como um importante marco para a VIII Conferência Nacional de Saúde de 1986, e para a redação da Constituição Federal, que trata do Sistema Único de Saúde. O movimento da RSB ainda está em curso, uma vez que a defesa de um SUS público e universal deve ser defendido constantemente. 16 Veja, a seguir, como esses conceitos podem ser compreendidos. Os preceitos constitucionais do SUS preveem princípios doutrinários e diretrizes organizativas que norteiam a execução e elaboração de programas, políticas públicas de saúde e ações estratégicas. Isto é, as ações, políticas e programas no SUS devem estar em consonância com seus princípios e diretrizes, para que não sejam consideradas inconstitucionais. 17 Princípios doutrinários Um princípio doutrinário é considerado uma base fundamental, um valor ideológico ou filosófico, que orienta a estrutura e o funcionamento de um sistema. São princípios doutrinários do SUS: Equidade “Tratar desigualmente os desiguais” de modo a alcançar a igualdade de oportunidades, de desenvolvimento pessoal e social entre os membros da sociedade. Contempla o conjunto de ações de promoção, de prevenção, de assistência e de recuperação da saúde. Integralidade Garantia de atenção à saúde para todo e qualquer cidadão.Universalidade 18 V O C Ê SA B IA ? A atenção humanizada foi instituída como um novo princípio do SUS, por meio da Lei nº 15.216/2025. Embora a Política Nacional de Humanização (PNH) e outras normas infralegais a tenham instituído como uma prática a ser alcançada nos serviços de saúde, a atenção humanizada ainda não era tida como uma norma expressa do SUS. Dessa forma, o atendimento acolhedor, respeitoso e empático, e de acordo com as necessidades dos usuários do SUS, ganha força de lei. A atenção humanizada na área da saúde coloca o paciente no centro do cuidado, e o reconhece a partir de necessidades físicas, emocionais e sociais únicas. Essa abordagem valoriza princípios como empatia, respeito, escuta ativa e dignidade, promovendo vínculos entre profissionais, pacientes e familiares. Ao unir competência técnica com acolhimento e uma comunicação aberta, esse princípio garante que todos se sintam ouvidos, respeitando os sujeitos e tornando o cuidado mais completo e efetivo. 19 Diretrizes organizativas Diretrizes organizativas podem ser compreendidas como um conjunto de ações e práticas, técnicas e políticas, que orienta e norteia a organização de um sistema. Se constituem por meio de arranjos políticos-institucionais e expressam as relações interfederativas para a organização dos serviços de saúde. Entre as diretrizes organizativas do SUS, podemos destacar: Descentralização, com direção única em cada esfera de governo Transferência de poder de decisão sobre a política de saúde do nível federal para os estados e municípios. Organização das ações de saúde em subdivisões ou agregações do espaço político-administrativo. Hierarquização e Regionalização 20 A descentralização é uma diretriz fundamental do SUS, estabelecida no Art. 198, inciso I, da Constituição Federal de 1988, e detalhada na Lei nº 8.080/90, em seu Art. 7º, inciso IX: IX - descentralização político-administrativa, com direção única em cada esfera de governo: a) ênfase na descentralização dos serviços para os municípios; b) regionalização e hierarquização da rede de serviços de saúde (Brasil, 1988). Participação da população no controle e na formulação de políticas públicas. Participação da Comunidade Esse princípio significa que a responsabilidade de gestão, planejamento, execução e controle das ações e serviços de saúde é distribuída entre os três entes federados (União, estados e municípios), cada um com sua direção única (Ministro, Secretário Estadual e Secretário Municipal, respectivamente). 21 Dessa forma, o SUS se constitui como uma rede de ações e serviços de saúde, organizados de forma regionalizada e hierarquizada, em níveis de complexidade crescente, com comando único em cada esfera de governo e participação popular. Significa dizer que o SUS deve garantir o acesso dos cidadãos e a continuidade do cuidado dentro de uma rede de atenção, organizada a partir do território de residência do usuário e com garantia de referências para outros serviços, a depender de sua necessidade e complexidade de sua condição de saúde, na região e/ou macrorregião de saúde. Essa organização deve respeitar as responsabilidades específicas e compartilhadas de cada ente (União, Distrito Federal, estados e municípios), e possibilitar a participação da comunidade na decisão e no monitoramento da política de saúde. Mas, o que isso significa? 22 Todos esses princípios e diretrizes serão detalhados nesse e-book, bem como a forma com que se relacionam com a APS. Vale ressaltar, que normativas recentes promoveram atualizações relevantes na Lei nº 8.080/1990, incorporando novas diretrizes ao seu texto. Lei nº 13.427/2017 – Garante atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica em geral. Lei nº 14.679/2023 – Assegura a proteção integral dos direitos humanos de todos os usuários. Lei nº 15.126/2025 – Estabelece a Atenção Humanizada como princípio no âmbito do SUS. Clique sobre as leis ou escaneie o QR Code para acessá-las: 23 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13427.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14679.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2025/Lei/L15126.htm#art1 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13427.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14679.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2025/Lei/L15126.htm#art1 O SUS possui uma estrutura institucional de gestão complexa, articulada entre a União, estados e municípios. Nos municípios, a maior autoridade sanitária é exercida pelo Secretário Municipal de Saúde e/ou cargo correspondente, nos estados esse papel é do Secretário de Estado da Saúde, e no governo federal, pelo Ministro da Saúde. O processo decisório no SUS envolve o consenso entre os atores políticos em diferentes espaços de pactuação:a) na região de saúde, por meio da Comissão Intergestores Regional (CIR) com representação dos municípios e da Secretaria de Estado – SES, regional; b) no âmbito estadual, por meio da Comissão Intergestores Bipartite (CIB) com representação dos municípios e da Secretaria de Estado – SES; c) no âmbito federal, por meio da Comissão Intergestores Triparte (CIT) com representação dos municípios, dos estados e da União. 24 Na esfera nacional, a representação dos municípios é realizada pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, o Conasems; e os estados são representados pelo Conselho Nacional de Secretarias de Saúde, o Conass. Já na esfera estadual, os municípios são representados pelo Conselho Estadual de Secretarias Municipais de Saúde, os Cosems. O controle social organizado, também, possui representação em cada nível de gestão: nos municípios, o Conselho Municipal de Saúde – CMS; nos estados, o Conselho Estadual de Saúde – CES; na União, o Conselho Nacional de Saúde – CNS. As instâncias de pactuação gestora (CIR, CIB, CIT) são espaços estratégicos para organização da rede de atenção e para a superação dos vazios técnicos e assistenciais do SUS. Além disso, esses espaços fortalecem programas, políticas e ações que visam a integralidade do cuidado. 25 Governo Federal CIT – Tripartite MS CONASS CONASEMS CNS Governo Estadual CIB – Bipartite SES COSEMS CES Governo Municipal CIR – Regional SES COSEMS CMS A gestão na área da saúde é compreendida como a atividade e a responsabilidade de comandar o Sistema, por meio de atividades políticas e técnico administrativas, desenvolvidas com o propósito de assegurar a condução, o planejamento, a organização e o controle do sistema e dos serviços de saúde em sua totalidade (Teixeira; Molesini, 2002). Nesse sentido, a função de gestão é exclusivamente pública, e, portanto, não pode ser transferida nem delegada. Fonte: elaborado pelo autor, 2026. Quadro 1 ─ Instâncias de gestão, pactuação, representação e controle social no SUS Gestão Controle SocialInstância de Pactuação Representação 26 01 Oferta de Serviços Se pudéssemos classificar as macro funções, conforme a natureza de seus processos, a Oferta dos Serviços seria a grande função chave, ou seja, para qual todas as demais convergem. É a razão de ser do ente público e para a qual todo planejamento, financiamento e coordenação/ regulação se articulam. Mais do que um administrador, o gestor do SUS é a autoridade sanitária em cada esfera de governo, cuja ação política, ética e técnica deve estar pautada pelos princípios do SUS e da reforma sanitária. De maneira geral, as responsabilidades gestoras podem ser reunidas em quatro grandes macrofunções, que você verá, a seguir: 27 02 Planejamento Na área da saúde pública as práticas de planejamento estão presentes em todo o processo, que é conhecido como Gestão do SUS. Definir metas, estabelecer objetivos e planejar ou programar ações representam o dia a dia dos gestores do setor público em saúde. O processo de planejamento no SUS deve ser ascendente, participativo, integrado, dinâmico, contínuo e respeitar as pactuações realizadas entres os entes federativos. 28 03 Financiamento O planejamento financeiro e orçamentário, também, se constitui como uma macro função gestora. Cabe lembrar, que o financiamento do SUS é tripartite, e, portanto, responsabilidade conjunta das três esferas de gestão. No âmbito da APS, por exemplo, os municípios têm arcado com um percentual superior de despesas, quando comparados proporcionalmente aos outros entes – estado e União. A utilização de recursos do SUS deve ser realizada de forma responsável e estratégica, e de acordo com o regramento da administração pública. 29 04 Coordenação/Regulação Dentre as funções gestoras, uma de suas macrofunções compete à coordenação da rede de serviços de saúde, pública e privada, do território municipal. Nesse sentido, o gestor é o responsável pela regulação, pelo controle e pela avaliação dos serviços de seu território, a depender do nível de suas responsabilidades. Nas próximas seções, veremos como essas macro funções se relacionam com a APS e com seus atributos e responsabilidades. 30 02 A APS como porta de entrada e centro de comunicação da RAS Essa é uma frase bastante conhecida e frequentemente repetida, mas nem sempre simples de ser executada. Esse trecho está descrito na Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), em sua última atualização, publicada em 2017. Clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado, para acessar a política na íntegra. Para entendê-lo precisamos, primeiro, alinhar que, no Brasil, os termos Atenção Básica (AB) e Atenção Primária à Saúde (APS) são considerados equivalentes. Na década de 1990 o Brasil optou pelo termo Atenção Básica, para que esse nível de atenção não estivesse associado a uma APS seletiva, ou seja, um serviço restrito a populações específicas, com um conjunto estabelecido de práticas (Giovanella, 2018). Você deve estar se perguntando: o que esse conceito quer dizer? VOCÊ JÁ OUVIU ESSA AFIRMAÇÃO? “A atenção básica é a ordenadora da rede e a coordenadora do cuidado.” 32 https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prc0002_03_10_2017.html#ANEXOXXII https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prc0002_03_10_2017.html#ANEXOXXII https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prc0002_03_10_2017.html#ANEXOXXII Na atualidade, embora essa questão ainda não tenha sido superada, quando nos referimos à AB estamos falando da APS, isso quer dizer, que poderíamos, nesse caso, escrever essa mesma frase da seguinte forma: “A Atenção Primária à Saúde (APS) é a ordenadora da rede e a coordenadora do cuidado.” É preciso conceber, também, que a AB é um nível de atenção à saúde que se articula com os outros serviços do território, seja do setor saúde ou de setores públicos diversos, que visem ao atendimento dos usuários, a depender de suas necessidades. Essas funções não são automáticas. Exige intencionalidade de gestores e profissionais, instrumentos de gestão, conhecimento do território e comunicação permanente com os demais pontos da RAS. 33 SA IB A M A IS Que tal conhecer mais sobre a Atenção Primária à Saúde (APS)? A Atenção Primária à Saúde (APS) compreende um nível de atenção estratégico por ser o serviço de primeiro contato, próximo ao usuário, de grande capilaridade e com alto poder de resolutividade (Carvalho et al., 2022). Em virtude de tais características, a APS possui centralidade na configuração de sistemas públicos e universais de diversos países, reunindo características específicas quanto à abrangência da oferta, à cobertura assistencial e aos mecanismos para coordenação e integração do cuidado (Franklin White, 2015; Sacks et al., 2020; Van Weel; Kidd, 2018; Fiocruz; CNS, 2018). No Brasil, gradativamente, a partir da segunda metade dos anos 1990, o modelo da Estratégia de Saúde da Família (ESF) foi estabelecido como referência para organização da APS no Sistema Único de Saúde (SUS) (Pinto; 2018; Giovanella, 2018). 34 A criação do Programa Saúde da Família (PSF), em 1994, e sua transformação em Estratégia Saúde da Família (ESF), em 1996. A implantação de modalidades de repasse de recursos e incentivos financeiros federais direcionados para o financiamento da APS (o Piso de Atenção Básica fixo e variável), a partir de 1998. A publicação da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), em 2006, e suas revisões, em 2011 e 2017 (Carvalho et al., 2022). Entre os marcos desse processo, destacam-se: Clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado, para conhecer as principais políticas, programas e ações instituídos ao longo da trajetória da Atenção Primária à Saúde no SUS (Adaptado de Pereira et al., 2022, p. 28).35 https://api.arca.fiocruz.br/api/core/bitstreams/1cbc5223-90c8-4268-92e3-97a9c31dced2/content https://api.arca.fiocruz.br/api/core/bitstreams/1cbc5223-90c8-4268-92e3-97a9c31dced2/content Observe, a seguir, as datas das principais normativas da Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil: 1991 Criação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde. 1994 Criação do Programa Saúde da Família (PSF). 1998 Implantação do Piso da Atenção Básica (PAB fixo e variável). 1999 Publicação da Política Nacional de Alimentação e Nutrição. 2001 Implantação da saúde bucal no Programa Saúde da Família. 2004 Criação da Política Nacional de Saúde Bucal. 2006 Publicação da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB 2006)/Programa Saúde da Família (PSF) se torna Estratégia Saúde da Família (ESF). 2007 Criação do Programa Saúde na Escola (PSE). 36 2008 Criação do Núcleo de Apoio à Saúde da Família. 2011 Reformulação da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB 2011). 2017 Reformulação e publicação da nova Política Nacional de Atenção Básica (PNAB 2017). 2019 Publicação do Programa Previne Brasil. 2019 Mudanças na forma de financiamento do NASF. 2023 Criação das Equipes Multiprofissionais na APS (eMulti). 2024 Nova metodologia de cofinanciamento federal da APS. O modelo da ESF prioriza, na sua organização, o fortalecimento do trabalho de equipes multiprofissionais de base territorial voltadas para ações, sobretudo, de promoção e prevenção da saúde, provisionando o cuidado individual e coletivo, considerando a longitudinalidade da atenção, integrada a uma rede de serviços regionalizada (Mendonça et al., 2023; Carvalho et al., 2022). 37 A aposta nessa forma de organização foi a que mais favoreceu a implantação dos princípios e diretrizes do SUS (Carvalho et al., 2017). Para Macinko e Mendonça (2018), a ESF contribuiu para a melhoria do acesso e da equidade, com resultados quase alcançando os níveis observados nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Estudos indicam que a implantação e a expansão das ESF ampliaram o acesso da população aos serviços de saúde (Marques; Mendes, 2002), favoreceram a redução da mortalidade infantil e das internações por condições sensíveis à APS (Arantes; Shimizu, 2016; Malta; Santos; Stopa, 2016). 38 Voltando à afirmação: “A Atenção Primária à Saúde (APS) é a ordenadora da rede.” A Rede de Atenção à Saúde (RAS) pode ser compreendida como um arranjo de ações e serviços, ou seja, pontos de atenção de diferentes densidades tecnológicas, que se comunicam entre si, para oferecer cuidado integral aos usuários do SUS. A seguir, vamos entender melhor o conceito de Rede de Atenção à Saúde (RAS). Mas, o que é Rede? 39 Redes são estruturas policêntricas, envolvendo diferentes atores, organizações ou nódulos vinculados entre si, a partir do estabelecimento e da manutenção de objetivos comuns e de uma dinâmica gerencial compatível e adequada (Teixeira; Ouverney, 2012). Segundo a Portaria de Consolidação nº 03, de 28 de setembro de 2017, as redes são arranjos organizativos de ações e serviços de saúde, de diferentes densidades tecnológicas, que integradas por meio de sistemas de apoio técnico, logístico e de gestão, buscam garantir a integralidade do cuidado (Brasil, 2017). 40 A Portaria nº 4.279, de 30/12/2010, estabeleceu diretrizes para a organização das Redes de Atenção à Saúde no âmbito do SUS e o Decreto nº 7.508, de 28/06/2011, conceitua, no art. 7º, que as Redes de Atenção à Saúde estarão compreendidas no âmbito de uma região de saúde, ou de várias delas, em consonância com diretrizes pactuadas nas comissões intergestores. Clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado, para acessar a Portaria nº 4.279, de 30/12/2010. Clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado, para acessar o Decreto nº 7.508, de 28/06/2011. 41 https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2010/prt4279_30_12_2010.html https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7508.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7508.htm https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2010/prt4279_30_12_2010.html Para tal, lançamos mão do processo de territorialização, definidos nos termos de Pessoa et al. (2013), os quais reforçam que a territorialização vai além da análise de situação de saúde, envolvendo a apropriação do território como um espaço de relações sociais e de produção de saúde. Os autores destacam que a identificação dos determinantes sociais – como pobreza, desigualdade de gênero, acesso à educação e condições ambientais – é essencial para compreender as necessidades de saúde de uma população. Ocorre que para ordenar [dispor de forma organizada; arrumar, organizar], ou seja, promover a organização dos serviços de saúde, a AB precisa, antes de tudo, conhecer esse território e compreender as necessidades de saúde da sua população, para que consiga planejar o cuidado e organizar a oferta de serviços. Constituir a rede de atenção também envolve o olhar das equipes multiprofissionais e dos serviços de apoio, como a vigilância em saúde, a assistência farmacêutica, o serviço de regulação, urgência e emergência, entre outros. 42 A territorialização, nesse contexto, permite que os serviços de saúde sejam planejados com base nas especificidades locais, promovendo ações que vão além do tratamento de doenças e incluem promoção da saúde e prevenção. A territorialização, nesse sentido, é o processo de apropriação e análise dessas dinâmicas para planejar ações de saúde contextualizadas. Os autores argumentam que a saúde não pode ser dissociada do território, pois fatores como condições de vida e aspectos socioeconômicos influenciam diretamente os padrões de morbimortalidade. Assim, a territorialização é uma ferramenta essencial para identificar vulnerabilidades e organizar serviços de saúde, incluindo o financiamento, a organização da rede e o acesso aos serviços, que respondam às necessidades específicas de cada população. 43 Além de todos os dados levantados por meio dos Sistemas Oficiais de Informação, e/ou dos que já estão disponíveis nos instrumentos de planejamento do SUS, como no Plano Municipal de Saúde (PMS), os profissionais devem se questionar sobre os problemas mais prevalentes de seu território e como a AB responde a cada um deles. Como, por exemplo: • Quantas famílias existem no território em que atuo? • Quantas dessas famílias possuem riscos atribuídos? • É possível quantificá-los? • De que vivem as pessoas deste território? • Quais repercussões essas ocupações podem ocasionar na saúde? • Este território costuma ter alagamentos, queimadas ou desabamentos? • Quais os pontos mais seguros para a proteção da população, caso isso aconteça? 44 • Para onde são encaminhados os pacientes que necessitam de terapia renal substitutiva (Hemodiálise)? • Existe algum serviço de referência aqui ou na região de saúde? • É longe, né? • Como os usuários se sentem percorrendo essas distâncias? • Como está o quadro de segurança alimentar dessas famílias? • Existem crianças ou idosos com quadro de desnutrição? • Existem famílias sem conseguir realizar refeições diariamente? • Recebemos tantos pacientes hipertensos na Unidade, alguns em estágio avançado! A Unidade consegue saber quem são eles? • E os pacientes diabéticos? • É tão difícil quando o paciente não possui como armazenar a Insulina, né! A equipe sabe se temos pacientes nessa condição dentro do território? 45 Essas e outras questões demonstram não só a importância da apropriação do território pelos profissionais, mas, sobretudo, que, com base nessas informações, a AB deve pensar em estratégias e tensionar outros níveis de gestão para organizar a rede, a fim de que os casos atendidos na UBS, eque necessitem de continuidade do cuidado em outros serviços, sejam garantidos. Para tal a AB se articula intra e intersetorialmente. • E nos casos de violência sexual, que envolvem crianças e adolescentes, como se dá a articulação da UBS com o Sistema de Garantia de Direitos? • Essa rede está estabelecida, aqui? 46 N A P R Á TI CA A equipe da Atenção Primária à Saúde (APS), atenta ao seu estado, levantou a suspeita de Tuberculose Pulmonar. Os exames de escarro e a radiografia de tórax confirmaram aquilo que já se temia. Clóvis, homem de 52 anos, morador do Jardim das Araucárias, chegou à UBS Esperança trazendo no corpo e na alma sinais de sofrimento: uma tosse que não o deixava, há mais de três semanas, noites interrompidas pela sudorese, o peso, que se esvaía sem explicação, o cansaço, que lhe roubava forças e a febre, que insistia em aparecer ao entardecer. Observe o caso: entre “redes” e “linhas”, a APS “costura” direitos. 47 Clóvis, trabalhador informal e marcado pelo uso crônico de álcool, iniciou o Tratamento Diretamente Observado (TDO) na própria UBS. Não estava sozinho: diariamente, a equipe de enfermagem o acompanhava, e o Agente Comunitário de Saúde visitava sua casa, levando não apenas orientações e cuidados, mas, também, esperança. Esse mesmo Agente investigava os contatos próximos, protegendo sua família e sua comunidade. A equipe reconheceu que a luta de Clóvis ia além da doença. Havia vulnerabilidades sociais, que precisavam ser enfrentadas. Por isso, articularam ações intersetoriais: encaminharam-no ao CRAS, onde foi incluído em programas de transferência de renda e segurança alimentar. Da mesma forma, lhe mostraram que tinha direitos — acesso gratuito ao tratamento e acompanhamento multiprofissional —, reafirmando que sua vida importava. Nesse percurso, a UBS manteve diálogo constante com a Vigilância em Saúde do município. O caso foi notificado, como manda o protocolo, e a Vigilância apoiou a investigação dos contatos, organizou o rastreamento de possíveis novos casos e ofereceu suporte técnico para monitorar a evolução clínica e a adesão ao tratamento. Assim, o cuidado com Clóvis se transformou em uma estratégia coletiva de enfrentamento da Tuberculose, fortalecendo a proteção de toda a comunidade. 48 Entretanto, a caminhada não ocorreu sem obstáculos. Os exames revelaram complicações pulmonares, e a equipe buscou referência em Pneumologia, conforme previsto no Plano Diretor de Regionalização (PDR). Foi, então, que veio a dura constatação: essa referência simplesmente não existia. Diante da ausência, a APS e a coordenação municipal de saúde não se resignaram. Buscaram alternativas, acionaram a Secretaria de Estado da Saúde e levaram a discussão às instâncias locais de pactuação intergestores. Descobriram que o problema não era apenas de Clóvis ou de seu município, mas de toda a região de saúde: faltava referência especializada, havia alta incidência de Tuberculose e diagnósticos tardios eram frequentes. Essas constatações se tornaram um chamado à ação. A gestão municipal iniciou um processo amplo de reorganização da rede de atenção, para que pacientes como Clóvis não enfrentassem sozinhos o peso da doença. A nova estratégia passou a envolver promoção, prevenção, tratamento e reabilitação, reafirmando que cada vida merece cuidado digno e que a luta contra a Tuberculose é, acima de tudo, uma luta coletiva. 49 O caso de Clóvis evidencia como a APS atua não apenas no diagnóstico e tratamento, mas, também, na articulação com outros setores e níveis de gestão, para assegurar direitos sociais e de saúde. A integração entre os serviços e a articulação intersetorial foram fundamentais, contemplando algumas das dimensões que abrangem o cuidado integral, como a dimensão clínica e social do paciente, conforme ilustrado no esquema a seguir: Itinerário de cuidado do senhor Clóvis Clóvis procura a UBS com sintomas persistentes. A APS acolhe, escuta e avalia o caso. A equipe suspeita de Tuberculose e confirma o diagnóstico por exames. O tratamento é iniciado na UBS, com acompanhamento da equipe e visitas domiciliares. A APS articula ações com a Vigilância em Saúde e com a assistência social. A falta de referência especializada evidencia a necessidade de reorganizar a rede. 50 Além disso, a APS identificou questões que necessitavam ser melhor organizadas, como o acesso à atenção especializada e a formação continuada de profissionais para identificação precoce de casos, provocando inclusive, discussão em nível regional para organização da linha de cuidado. Dessa forma, podemos afirmar que a APS tem o papel de ordenar a rede de atenção! A seguir, vamos entender melhor como Atenção Primária à Saúde (APS) atua como ordenadora da Rede de Atenção à Saúde (RAS). 51 A Atenção Primária à Saúde (APS), base de organização do sistema de saúde, atua como ordenadora da RAS, mas, para isso, deve utilizar a territorialização como instrumento que subsidie o mapeamento de riscos e o planejamento das ações assistenciais, fluxos regulatórios e preventivos (Brasil, 2017). O levantamento das características do território, incluindo os vazios e as insuficiências de oferta, devem apontar as necessidades de alocação de serviços, bem como a organização de referências assistenciais, na região ou macrorregião de saúde, que garantam a integralidade do cuidado e o acesso universal, como, por exemplo, a distribuição de equipes de Atenção Primária. Além disso, colabora com o dimensionamento de recursos financeiros e materiais, considerando o critério da equidade. Há, também, de se levar em conta, as desigualdades socioeconômicas e a grande diversidade geográfica do território brasileiro, com áreas de difícil acesso, conglomerados urbanos, e outras de alta vulnerabilidade. Vamos entender melhor? 52 Isto é, o cuidado está ligado à atenção, à preocupação e expressa, em geral, a ideia de ação. Na APS é necessário gerir o cuidado, ou seja, organizar o provimento ou a disponibilização das tecnologias de saúde, de acordo com as necessidades de cada pessoa. O cuidado refere-se a um conjunto de práticas, atitudes e relações voltadas à proteção, à manutenção e à promoção da vida, da saúde e do bem-estar, reconhecendo a vulnerabilidade e as necessidades do outro. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, responsabilização e envolvimento afetivo com o outro, com a vida e com o planeta. Nesse sentido, o cuidado se opõe ao descuido e ao descaso (Boff, 1999). Por que a APS é a coordenadora do Cuidado, e como esse cuidado pode ser compreendido? 53 Cecilio (2011) sistematiza a gestão do cuidado em saúde, em seis dimensões, a saber: 01 Individual A gestão do cuidado individual é aquela que o usuário faz para si, na perspectiva que cada pessoa pode ou tem a potência de produzir modos e escolhas de conduzir sua vida. 02 Familiar A gestão do cuidado familiar está relacionada ao cuidado que ocorre no âmbito da família, promovido por cuidadores, familiares, vizinhos e amigos. 03 Profissional A gestão do cuidado profissional emerge a partir do encontro entre o profissional e o usuário, e está fortemente relacionado à competência técnica do profissional, sua postura ética e sua capacidade de estabelecer vínculos. 54 05 Sistêmica A gestão do cuidado sistêmica é a dimensão onde se pretende construir os fluxos e as normas entre os serviços de saúde para a organização de linhas e/ou redes de cuidado, com vistas à garantia da integralidade. 06 Societária A gestão do cuidado societária é a que envolve em cada sociedade a produção de políticas públicas e a relação entre sociedade civil e Estado, para promoção da cidadania e do acesso à saúde. 04 Organizacional A gestão do cuidado organizacional éaquela que ocorre nos serviços de saúde, a partir de elementos como o trabalho em equipe, a coordenação, a comunicação e a função gerencial. 55 Individual Cada um de nós Cuidar de si Autonomia Escolhas Familiar Família Ciclo de amigos Vizinhos Apoio Proximidade Mundo da vida Profissional Profissionais da saúde O médico O preparo técnico Ética e vínculo Organizacional A equipe de saúde O gerente Divisão técnica do trabalho Coordenação Sistêmica Os gestores Linhas ou rede de cuidado Financiamento Societária O Estados A Sociedade Civil Políticas sociais A partir desta proposta, Gariglio (2012) organizou o Quadro 2, demonstrado, a seguir, visando elucidar, em cada dimensão, os protagonistas da ação e seus principais elementos: Fonte: Cecilio, 2011, p. 592 (Adaptado). Quadro 2 ─ Dimensões do cuidado Dimensões da gestão do cuidado Principais elementos: a lógica da dimensãoAtores ou protagonistas 56 Todas essas dimensões se conectam, em alguma medida, formando uma rede complexa e dinâmica de cuidado. Isto é, o cuidado não é de responsabilidade exclusiva do profissional/setor saúde, mas isso não exime sua responsabilidade para com o cuidado das pessoas e população do território. Dessa forma, os trabalhadores devem reconhecer a autonomia das pessoas em levar sua vida, reconhecer que sua inserção familiar e social está envolvida em como desenvolver o cuidado, e que a atitude profissional é fundamental para o cuidado, mas não é suficiente para garanti-lo, porque depende, também, da organização da atenção à saúde (do processo de trabalho coletivo e da organização dos serviços em rede), e da organização social, política e econômica do país. Tudo isso está implicado na gestão do cuidado. Embora reconheçamos a importância de todas essas dimensões, de forma mais geral, nos concentraremos na interface entre a gestão do cuidado profissional, organizacional e sistêmica. 57 Se basearmos no caso anterior, fica explícito que, ainda que o paciente tenha sido encaminhado ao especialista, a responsabilidade pelo cuidado não é transferida para o outro nível de atenção, pelo contrário, ela passa a ser compartilhada entre a APS e a atenção especializada e/ou com outros serviços da RAS. Na APS é possível desenvolver muitas formas de cuidado. Prescrever um medicamento, por exemplo, é uma maneira de cuidar. Isso, também, ocorre quando profissionais seguem protocolos de tratamento, fluxos de atendimento ou se baseiam em diretrizes clínicas e terapêuticas. Essas formas mais convencionais de cuidado, são essenciais, mas, também, existem outras formas de prestar cuidado, “menos” prescritivas. A orientação e/ou educação em saúde, por meio de conversas, visitas domiciliares, grupos de apoio, rodas, entre outras, também, se manifestam como formas de gerar cuidado. 58 Embora a responsabilidade pelo cuidado em saúde também pertença, em certa medida, ao próprio usuário, é importante reconhecer que a transferi-lá unilateralmente aos indivíduos, é desconsiderar as profundas desigualdades sociais e econômicas presentes no território brasileiro. Tais desigualdades influenciam diretamente a capacidade das pessoas de exercer o autocuidado, tornando necessário, o olhar atento dos profissionais às condições de vida e aos contextos em que as pessoas estão inseridas. Diante desse cenário, o fortalecimento da autonomia das pessoas e das comunidades surge como condição fundamental para o exercício do autocuidado. Isso implica em promover ações que possibilitem aos indivíduos o acesso à informação, aos recursos e o apoio necessários para tomar decisões conscientes sobre sua saúde. O incentivo à participação ativa das comunidades na construção de práticas de saúde contribui para a valorização do protagonismo dos usuários, respeitando suas particularidades, saberes e necessidades. FIQUE ATENTO! 59 Nesse sentido, a APS tem o papel de coordenar o cuidado das pessoas, não na perspectiva de retirar a autonomia dos cidadãos sobre o cuidado com sua própria saúde, ao contrário disso, mas, sim, de desenvolver estratégias de compartilhamento do cuidado. O processo de produção do cuidado entre o serviço e os usuários, denomina-se “autocuidado apoiado”. Em outra perspectiva, a gestão do cuidado está relacionada à oferta de tecnologias de saúde a serem disponibilizadas, de acordo com a necessidade de cada pessoa, em busca de seu bem-estar e autonomia (Cecilio, 2011). Quais ferramentas ou tecnologias da Atenção Primária à Saúde podem contribuir para a gestão do cuidado? 60 Os profissionais de saúde podem lançar mão de ferramentas para a gestão do cuidado, tais como: Para a Política Nacional de Humanização (PNH) acolher é reconhecer a necessidade de saúde do outro como algo legítimo e singular. Como valor das práticas de saúde, o acolhimento é construído de forma coletiva e tem como objetivo a construção de relações de confiança, compromisso e vínculo entre as equipes/serviços, trabalhador/equipes e usuário (Brasil, 2013). A clínica ampliada é uma ferramenta teórica e prática, cuja finalidade é contribuir para uma abordagem clínica do adoecimento e do sofrimento, que amplie a visão dos profissionais, que considere a singularidade dos sujeitos e a complexidade do processo saúde/doença (Brasil, 2013). Acolhimento Clínica Ampliada 61 O apoio matricial é uma estratégia de organização do trabalho em saúde que integra equipes, seja entre profissionais da APS (eSF/ eAP e eMulti), ou entre a APS e atenção especializada, com objetivo de ampliar a resolutividade do cuidado, promovendo horizontalidade, colaboração e aprendizado mútuo. A equipe matriciadora deve ofertar, além de retaguarda assistencial, o suporte técnico e pedagógico aos demais profissionais das equipes de Saúde da Família (eSF) e das equipes de Atenção Primária (eAP) matriciadas. O Projeto Terapêutico Singular (PTS) é um conjunto de propostas de condutas terapêuticas articuladas com um indivíduo, uma família ou um grupo, que resulta da discussão coletiva de uma equipe multi e interdisciplinar. Geralmente, o PTS é dedicado a situações mais complexas, buscando a singularidade como elemento central (SES/RS, 2022). Apoio Matricial Projeto Terapêutico Singular 62 Da mesma forma que para ordenar a rede, a APS precisa estar apropriada de seu território, para coordenar o cuidado, também. Como mencionado, é necessário que a APS tenha dados quantitativos e qualitativos para lançar mão de tecnologias do cuidado. Uma dessas tecnologias é a estratificação de risco. Atualmente, existem diversos protocolos de estratificação de risco para APS: priorização de atendimento; risco familiar; cardiovascular; metabólico; renal; risco gestacional; saúde mental; entre outros. 63 Se em determinado território, onde a APS não tem clareza do número de hipertensos e o risco a eles atribuídos, como podemos organizar o cuidado dessas pessoas, uma vez que, não seria adequado cuidar de todas as pessoas da mesma forma, concordam? Alguns usuários terão baixo risco atribuído, outros alto risco, portanto, o cuidado é diferente em cada caso. Ainda que em um mesmo grupo, cada caso tem suas especificidades. Nesse sentido, a APS organiza o cuidado de maneira individual, considerando os condicionantes e determinantes de saúde envolvidos. Na mesma medida, a intenção não é burocratizar o papel da APS, mas, sim, dotá-la de mecanismos que possibilitem o cumprimento de suas responsabilidades, respeitando os seus atributos, além de promover atendimento equânime e ofertas oportunas de cuidado. Vamos pensar juntos? 64 No entanto, em determinadas Unidades, aplica-se a estratificação à medida que os usuários as acessam. Essa é uma alternativa. Ocorre que ela só é aplicada a quem procura o serviço de saúde espontaneamente. Realizar escuta ativa e respeitosa das pessoasque procuram a Unidade, seja para atendimento assistencial ou para uma demanda burocrática. O vínculo entre o usuário e os trabalhadores, é uma ferramenta importante para o êxito no cuidado. Acolhimento humanizado e oportuno de pessoas que acessam a Unidade Seguem, abaixo, algumas estratégias importantes: E as outras pessoas? Como podemos organizar o cuidado daquelas que não procuram o serviço? 65 Para refletir! Por motivos diversos, perdemos a oportunidade de realizar ações de promoção e de prevenção com as pessoas que procuram a Unidade. Estar atento a essas questões, desde a recepção na Unidade até o atendimento pelo profissional é algo que não se pode perder de vista. Como, por exemplo: Cadastramento das pessoas e suas famílias A etapa de cadastramento é fundamental para a territorialização, para organização dos serviços e para coordenar o cuidado. A análise dos dados cadastrais nos dá, não apenas informações individuais relacionadas às pessoas e suas famílias, mas possibilita uma análise dos agravos e condições de saúde mais ou menos prevalentes no território, e, consequentemente, dados e informações para que a equipe possa organizar o processo de trabalho para cuidar das pessoas, a partir de suas necessidades. vacinar de forma oportuna; agendar e/ou realizar procedimentos de triagem; realizar a estratificação de risco; entre outras; 66 O cadastro deve estar sempre atualizado e é importante a realização do cadastro completo, com informações domiciliares e territoriais, além das informações pessoais. Isto é, se a APS sabe a quantidade de mulheres que estão na faixa etária preconizada para a realização de determinado exame de triagem oncológica, é possível, que para além do controle, entre as que realizaram e não realizaram o procedimento, a APS possa acompanhar de forma compartilhada aquelas que foram encaminhadas aos serviços de referência, e, ao mesmo tempo, reunir informações para programar a oferta necessária de exames e procedimentos de triagem, bem como organizar o trajeto pela rede para garantir o acesso aos demais procedimentos complementares inseridos nas linhas de cuidado. Isso significa que, sabendo quantos procedimentos são necessários para o cuidado das mulheres, a APS pode programar e estimar a quantidade a ser contratualizada, e tensionar outros níveis de assistência e gestão, com intuito de dar respostas às necessidades observadas no território. 67 Visitas domiciliares Na APS, a visita domiciliar é um dispositivo de extrema importância para o cuidado. É por meio da visita, que os profissionais fortalecem o vínculo com os usuários e as famílias, além de ser estratégica para analisar o contexto social, econômico e cultural em que os indivíduos estão inseridos. Essa análise amplia as possibilidades de cuidado, para um movimento “vivo” e conectado à realidade dos territórios. Busca ativa É uma estratégia essencial de procura intencional, para identificar, acompanhar e intervir nas necessidades de saúde de indivíduos e famílias, que, por diversos motivos, não acessam ou não retornaram espontaneamente aos serviços. Estabelecer estratégias de acesso aos usuários é uma responsabilidade da APS. Para tal, é possível flexibilizar o horário de funcionamento da Unidade, mas não apenas para a livre demanda. É necessário sempre ter como perspectiva atingir determinado grupo e/ou objetivo do cuidado. Organização de novos formatos e horários de atendimento 68 Por vezes, os usuários acessam a RAS por meio de outros dispositivos, como na Urgência (UPA) e/ou na Atenção Hospitalar. É claro que determinados casos podem ter acesso direto à Atenção Especializada Ambulatorial e Hospitalar, como, por exemplo, o CAPS, Ambulatório Trans, Ambulatório para IST/HIV/AIDS e Hepatites Virais, além de emergências. A ideia é que independente da forma de acesso, a APS consiga monitorar e acompanhar. Até aqui, você já deve ter compreendido que a APS deve ordenar a rede e coordenar o cuidado. Isso significa que ela também assume a posição de centro de comunicação da RAS. Justamente, porque na condição de coordenação do cuidado, esse nível de atenção precisa estar constantemente articulando e trocando informações com os demais serviços e pontos de atenção da rede. Além disso, é preciso que a APS seja a “Porta de Entrada” prioritária da RAS. Mas o que isso quer dizer? 69 No entanto, nem todos os casos precisam ser encaminhados diretamente para a atenção especializada. Já existe uma lista de condições sensíveis à Atenção Primária à Saúde (APS), que pode ser acessada clicando aqui ou escaneando o QR Code, ao lado. Nela, é possível conhecer situações que podem ser manejadas e tratadas adequadamente na Unidade Básica de Saúde. ACESSE O QR CODE Outras vezes, a APS só toma ciência de determinados casos, quando o usuário está em processo de hospitalização. Exemplos comuns são gestantes hospitalizadas com infecção urinária. A Infecção do Trato Urinário (ITU) é uma condição sensível da APS. SE LIGA! A Infecção do Trato Urinário (ITU) é uma das principais causas de parto prematuro no Brasil, além da possibilidade de evolução para Sepse. 70 https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2008/prt0221_17_04_2008.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2008/prt0221_17_04_2008.html https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2008/prt0221_17_04_2008.html Até aqui, discutimos sobre a responsabilidade da APS em ordenar a rede e coordenar o cuidado. Além disso, falamos sobre o território, algumas formas de cuidado, e entendemos por que a APS deve ser a “porta de entrada” prioritária da RAS e seu potencial na articulação entre os serviços para a produção do cuidado. No próximo tópico, ampliaremos um pouco mais nosso olhar para as responsabilidades da APS, e como essas responsabilidade se alinham com os assuntos já apresentados. Vamos lá? 71 03 Atributos da APS Segundo o dicionário Houaiss (2009), ATRIBUTO é definido como uma característica inerente ou qualidade própria de alguém ou de algo, podendo, também, ser entendido como um sinal distintivo ou símbolo. Na área da gramática, representa o termo que confere qualidade ao sujeito (como predicado ou adjetivo), funcionando como sinônimo de qualidade, traço, particularidade ou predicado. Isto é, os atributos da APS são as características que a constituem como um nível singular de atenção à saúde. A professora Bárbara Starfield (2002) organiza os atributos da APS em dois grandes grupos: atributos essenciais e derivativos. Entre os atributos essenciais, temos: acesso de primeiro contato; longitudinalidade; integralidade e coordenação. Entre os derivativos estão: orientação familiar; orientação comunitária e competência cultural. Vamos continuar os estudos? Nesta seção discutiremos sobre os atributos da APS. 73 Vejamos, agora, cada um deles: 01 Atributos essenciais 1.1 Acesso de primeiro contato: implica garantir o acesso à APS para cada problema novo ou para cada novo episódio de um problema já existente. Como já discutimos, na seção anterior, a APS deve ser a “Porta de Entrada” prioritária da RAS, identificando as necessidades do território e oportunizando o acesso daqueles que procuram a Unidade, de forma espontânea ou não. Em resumo, o primeiro contato ocorre quando tanto a população quanto os profissionais reconhecem determinado serviço como a primeira opção diante de uma necessidade ou problema de saúde. 74 O acesso de primeiro contato não é apenas uma “porta de entrada”, mas um ponto de articulação que garante a efetividade dos outros atributos da APS: Quando o usuário reconhece a Unidade como referência inicial, cria-se vínculo contínuo com os profissionais, fortalecendo a confiança e a responsabilização mútua. Veremos que esse aspecto tem relação com a longitudinalidadedo cuidado. O primeiro contato permite identificar necessidades diversas (de promoção, de prevenção e de reabilitação), garantindo que o cuidado não seja fragmentado, tendo portanto, relação com a integralidade do cuidado. Ao ser a primeira referência, a APS organiza fluxos e encaminhamentos, evitando duplicidade de exames e garantindo a coordenação do cuidado entre diferentes níveis da RAS. Como a equipe conhece a comunidade, suas demandas e vulnerabilidades, é possível levantar hipóteses diagnósticas, e ajustar os cuidados e práticas às realidades locais. Dessa forma, o primeiro contato se inter-relaciona com o cuidado familiar e comunitário. 75 Observaremos que o acesso de primeiro contato está relacionado com a garantia dos demais atributos da APS. Por fim, reconhece que o acesso é atravessado por diferenças culturais, sociais e econômicas, por isso, é fundamental que o primeiro contato seja inclusivo e efetivo. Quando esses aspectos não ocorrem, podemos ter falhas na condução do cuidado. Tais falhas incluem a solicitação de exames e procedimentos desnecessários, e. portanto, aumento do custo; além de intervenções desarticuladas com o modo de vida das pessoas e dificuldades em relacionar determinantes sociais com as queixas da população, por conta da ausência de vínculo e apropriação do território. 76 Apesar de serem usados como sinônimos, "acesso" e "acessibilidade" têm diferenças: Acessibilidade se refere às condições oferecidas, que permitem às pessoas chegarem até os serviços, enquanto acesso está relacionado à maneira como essas condições são percebidas pela população. O acesso não significa apenas permitir a entrada nos serviços de saúde; já a acessibilidade envolve a capacidade dos serviços em atender, produzir e responder às demandas de saúde de um grupo específico. Mas acesso e acessibilidade são a mesma coisa? 77 SA IB A M A IS O Brasil é marcado por uma pluralidade cultural, que influencia diretamente o modo como diferentes grupos percebem e acessam os serviços de saúde. Incorporar essa diversidade na APS significa: Respeitar práticas tradicionais: povos indígenas, comunidades quilombolas e populações ribeirinhas possuem saberes próprios de cuidado. O acesso de primeiro contato precisa considerar esses saberes, evitando imposições culturais. Reconhecer barreiras linguísticas e simbólicas: em regiões com línguas indígenas ou forte presença de imigrantes, o acesso não se dá apenas de forma física, mas, também, por meio da comunicação. Considerar desigualdades sociais e raciais: algumas populações enfrentam barreiras históricas de acesso. A APS, a partir de sua competência cultural, deve se adaptar para reduzir essas desigualdades. 78 Respeitar crenças e práticas religiosas e espirituais: muitas pessoas associam práticas e crenças espirituais junto com o cuidado em saúde. A APS deve acolher essas dimensões sem preconceito. Considerar as diversidades de gênero e sexualidade: garantir que pessoas LGBTQIA+ encontrem na APS um espaço seguro e livre de discriminação é parte da acessibilidade cultural. 79 1.2 Longitudinalidade: trata da continuidade de atenção ao longo do tempo. Implica na criação de vínculo entre a população e o estabelecimento de saúde. Em outras palavras, é responsabilizar-se pelo cuidado dos usuários adscritos em seu território em todo o seu ciclo de vida. A relação entre a população e sua fonte de atenção deve se refletir em uma relação interpessoal intensa que expresse a confiança mútua entre os usuários e os profissionais de saúde. 80 A presença do atributo de longitudinalidade tende a produzir diagnósticos e tratamentos mais precisos, que reduzem os encaminhamentos desnecessários para especialistas e a realização de procedimentos de maior complexidade. Por exemplo, o acompanhamento de pacientes com condições, agravos ou doenças crônicas pode ser considerado um cuidado longitudinal, como o acompanhamento de pessoas com Hipertensão e Diabetes. Por serem doenças crônicas, caracterizadas por longa duração e lenta progressão, a atenção a esses pacientes deve ser contínua e integrada, evitando abordagens episódicas e fragmentadas. O cuidado, nesses casos, precisa ser longitudinal e articulado entre os diferentes níveis de assistência e serviços intra e intersetorialmente. 81 1.3 Integralidade: a Atenção Primária deve organizar-se para que o cidadão tenha todos os serviços de saúde necessários, proporcionando serviços preventivos, diagnósticos, tratamento e reabilitação. Observe que a integralidade não é apenas um princípio doutrinário do SUS, mas, também, um atributo essencial para a APS. A integralidade do cuidado, no âmbito da APS, é um dos atributos mais valorosos para o processo de trabalho desse nível de atenção. Pressupõe, portanto, a existência de uma rede de serviços em distintos níveis de complexidade e de competências, em que a integração entre as ações nos diversos níveis deve satisfazer o conjunto de cuidados demandados por um indivíduo. Entretanto, como já mencionamos, garantir o cuidado integral, inicia-se com a compreensão das reais necessidades dos usuários para que esses dados forneçam informações, que auxiliem na articulação com a rede para o adequado atendimento. 82 O acolhimento e a escuta atenta das necessidades da população, além de constituir como exemplo de atenção humanizada no SUS, também, auxiliam os profissionais na apropriação de necessidades individuais e coletivas do espaço territorial. Mapear ofertas insuficientes, vazios assistenciais e ofertas superiores à necessidade da população, são características que envolvem a garantia do cuidado. Insuficiência dos serviços de saúde existentes Quando há serviços disponíveis, verifica-se capacidade instalada insuficiente para atendimento da real demanda. Nos casos em que a oferta dos serviços é insuficiente para atender as necessidades em saúde da população, forma-se o que chamamos de “demanda reprimida”, que se constitui de usuários desassistidos, em algum momento, por determinado serviço de saúde. Vamos entender melhor? 83 Obviamente, a Integralidade do cuidado tem relação direta com a coordenação do cuidado pela APS. Como veremos, no próximo item. Vazios assistenciais Quando determinada oferta não está disponível aos usuários por motivos diversos, como por ausência de força de trabalho, densidade tecnológica e custos. Oferta de serviços superior às necessidades Quando a quantidade dos serviços como procedimentos, consultas e/ou atendimentos disponíveis em determinado território apresenta-se superior a necessidade apresentada. Ex.: hospitais atendendo com baixa taxa de ocupação, aparelhos de apoio diagnóstico (como ultrassom) trabalhando com ociosidade, dentre outros problemas. 84 1.4 Coordenação: o serviço de APS deve ser capaz de integrar todo o cuidado que o cidadão recebe nos diferentes níveis do sistema de saúde. A coordenação é especialmente importante porque, sem ela, o primeiro contato seria apenas um procedimento administrativo, a continuidade do cuidado perderia grande parte de sua eficiência e a integralidade ficaria prejudicada. Coordenação versus Integralidade O compartilhamento do cuidado entre os diferentes níveis de atenção é um dos grandes desafios do SUS na atualidade. Para que a APS desempenhe seu papel de coordenadora do cuidado é necessária a garantia da integralidade da atenção. 85 Vejamos, agora, os atributos derivativos da APS: 02 Atributos derivativos 2.1 Orientação familiar: o cuidado na APS tem como foco as pessoas e as famílias, dessa forma, considera a família e a comunidade como elementos centrais do cuidado, adaptando o serviço às suas características e necessidades específicas. 2.2 Orientação comunitária: se baseia na compreensãode que a APS é um serviço que tem como base a sua comunidade, ou seja, o planejamento das ações e serviços deve ser realizado perante às necessidades e do contato direto com a comunidade. 86 FIQUE ATENTO! 2.3 Competência cultural: é a capacidade do profissional de saúde de compreender as características culturais da comunidade atendida, como tradições, hábitos, costumes, e formas de se comunicar. No contexto brasileiro, essa competência ganha ainda mais relevância diante da enorme diversidade que compõe o país, como, por exemplo, povos indígenas de diferentes etnias; comunidades quilombolas; populações ribeirinhas, sertanejas e caiçaras; comunidades migrantes e imigrantes; além da pluralidade religiosa, racial e de orientação sexual presentes em todos os territórios. Notem que os atributos essenciais dependem, fundamentalmente, dos atributos derivativos para serem alcançados, especialmente, a integralidade e a coordenação do cuidado. Notem, ainda, que esses atributos são essenciais para a construção e o engajamento do usuário no seu plano de cuidado. 87 Isto é, não há como avançar na integralidade e/ou na coordenação do cuidado, por exemplo, se a equipe não possui uma prática profissional voltada para a família e para comunidade, bem como a capacidade de compreender suas características culturais. A PNAB traz consigo diversos atributos da APS, além de outros conceitos, que já trabalhamos, até aqui, na condição de diretrizes da Atenção Básica: Você já consultou a Política Nacional da Atenção Básica – PNAB? a) Regionalização e Hierarquização. b) Territorialização. c) População Adscrita. d) Cuidado centrado na pessoa. e) Resolutividade. f) Longitudinalidade do cuidado. g) Coordenação do cuidado. h) Ordenação da rede. i) Participação da comunidade. 88 04 Integralidade, Equidade e Universalidade: conceitos e desafios na prática Como vimos no início deste e-book, os princípios doutrinários do SUS: Integralidade, Equidade e Universalidade devem ser a base para a organização das ações, programas e políticas de saúde, inclusive na APS. EQUIDADE "Tratar desigualmente os desiguais" de modo a se alcançar a igualdade de oportunidades, de desenvolvimento pessoal e social entre os membros da sociedade. UNIVERSALIDADE É a garantia de atenção à saúde para todo e qualquer cidadão. INTEGRALIDADE Contempla o conjunto de ações de promoção, prevenção, assistência e recuperação da saúde. Princípios Doutrinários 90 Vamos entendê-los melhor: 01 Universalidade O conceito de universalidade está relacionado à garantia de atenção à saúde para todo e qualquer cidadão, independente de raça, gênero, etnia, religião, orientação sexual e classe social. Nessa perspectiva, o acesso à saúde é um direito de todas as pessoas que vivem ou estão em território nacional. O Brasil adotou um Sistema Universal de Saúde, e isso pressupõe atingir a garantia de atendimento público a todas as pessoas. Outros países trabalham com a concepção de Cobertura Universal. 91 ACESSE O QR CODE Clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado, para entender melhor o sistema universal de saúde e a cobertura universal. De maneira geral, enquanto os sistemas universais de saúde trabalham com a concepção de acesso público à saúde, compreendendo a saúde como direito básico de vida e cidadania, e socialmente determinada por múltiplos fatores, a cobertura universal de saúde foca na cobertura de serviços básicos à população, ou cobertura por seguros saúde (privados ou subsidiados com coparticipação do governo). Enquanto o discurso da cobertura universal pode conviver com sistemas desiguais, no SUS buscamos o sistema universal. Mas e você? Você sabe a diferença entre sistema universal e cobertura universal? 92 https://www.scielo.br/j/csc/a/7BM4FYp7dWJzyb7wzktwhJH/?lang=pt https://www.scielo.br/j/csc/a/7BM4FYp7dWJzyb7wzktwhJH/?lang=pt Na APS o conceito de universalidade se manifesta em inúmeras ações realizadas pelos profissionais, como, por exemplo, em ações de promoção e prevenção - na vacinação, nas ações da assistência farmacêutica e de vigilância em saúde -, bem como em ações assistenciais, como nos atendimentos a imigrantes e população de fronteira. A ANS estima que cerca de 75% da população não possui plano de saúde, ou seja, utiliza, exclusivamente, o SUS. E mesmo aquelas que possuem planos privados, também, utilizam o sistema de diversas formas, mesmo sem saber. Cabe ressaltar, que existem diferenças expressivas na oferta de serviços entre planos de saúde, muitos deles com um escopo reduzido. 93 V O C Ê SA B IA ? Em 2025, o MS inclui no PNI (Programa Nacional de Imunização) a vacina contra o VSR (Vírus Sincicial Respiratório), causador da Bronquiolite. Clique aqui ou escaneie o QR Code, ao lado, para acessar o site do Programa Nacional de Imunizações (PNI). O Brasil registrou, até novembro de 2025, 43,2 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), causados pelo VSR. A princípio a vacina será destinada para TODAS as gestantes, a partir da 28º semana de gestação, com o intuito de proteção dos bebês, nos primeiros meses de vida. (Fonte: Agência Brasil, 2025). 94 https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/pni https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/pni 02 Equidade Embora o SUS seja universal, suas ações, políticas e programas devem estar voltados a superar as iniquidades presentes no território nacional. Observe que, conforme apresentado, a vacinação está vinculada a todas as gestantes e não apenas aquelas acompanhadas, exclusivamente, pela rede pública, isso é um exemplo de Universalidade. Nesse sentido, o acesso aos serviços de saúde é direito de todos e não está vinculado à condicionalidades sociais. 95 Fonte: World Bank Group,2025 (Adaptado). Figura 1 ─ Diferença entre Igualdade, Equidade e Realidade A equidade no SUS consiste em adequar ações e serviços de saúde às necessidades dos indivíduos e coletividades de acordo com suas diferenças, priorizando a justiça social. Esse princípio visa oferecer atenção diferenciada, conforme a necessidade (familiar, comunitária e/ou cultural), superando barreiras sociais, econômicas e culturais, respeitando as diversidades e as demandas específicas de cada grupo populacional, para garantir a universalidade no acesso às ações e serviços. A equidade é o princípio que trata de enfrentar iniquidades (diferenças injustas e evitáveis), para que as desigualdades (diferenças) não se tornem barreiras de acesso. 96 De forma geral, o conceito de Equidade está vinculado: ao reconhecimento das iniquidades, ou seja, na compreensão que os condicionantes e determinantes sociais afetam diretamente a saúde da população; ao acesso e/ou distribuição de recursos e materiais, por meio de um conjunto de ações, que direciona atenção e recursos aos que mais necessitam; à justiça social, que busca, entre outras, reduzir as injustiças, ou seja as iniquidades, de modo a enfrentar as desigualdades presentes na sociedade. O princípio da equidade está relacionado à garantia de justiça social no cuidado às pessoas. Isso implica reconhecer que as desigualdades não surgem de forma natural ou individual, mas são produzidas por determinações sociais, como condições de trabalho, renda, moradia, acesso a direitos e pela própria organização do modelo de sociedade. Assim, o sistema de saúde deve olhar para os desiguais considerando as estruturas que geram iniquidades e atuar para reduzi-las. Mais do que promover igualdade formal, a equidade exige enfrentar as causas sociais das desigualdades e garantir condições reais para que todas as pessoas alcancem resultados de saúde mais justos. 97 Dessa forma, a APS deve reconhecer que diferentes grupos partem de condições desiguais, e, portanto, necessitam de respostas