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PESSOAS IDOSAS E A SAÚDE Enquanto esperamos viver, a vida passa. Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida. Sêneca Figura 18 - PUERTO CABEZAS, Nicarágua (15 de agosto de 2008) A voluntária do Projeto Esperança Sara Joyce, embarcada a bordo do navio de assalto anfíbio USS Kearsarge (LHD 3), examina a mão de uma idosa nicaraguense em uma clínica médica na Juan Comenius High School durante um projeto de assistência humanitária promessa contínua de 2008. Kearsarge é a principal plataforma para a fase caribenha da Promessa Contínua, uma missão de parceria igualitária envolvendo os Estados Unidos, Canadá, Holanda, Brasil, Nicarágua, Panamá, Colômbia, República Dominicana, Trinidad e Tobago e Guiana. Fonte: Marinha dos EUA por Especialista em Comunicação em Massa 1ª Classe David G. Crawford, 2008. O Brasil, seguindo as diretrizes das Organizações Unidas (ONU) segue o parâmetro cronológico dos 60 anos de idade para considerar uma pessoa como idosa. Contudo, o envelhecimento não é um ato que ocorre do dia para noite, apesar de que muitas pessoas esperam avidamente pelos 60 anos para terem direitos à vaga de estacionamento, à preferência em serviços públicos, ao desconto nas atividades culturais, à gratuidade no transporte urbano em alguns Estados da Federação e, até mesmo, se presentes os requisitos de renda mínima, a gratuidade no transporte interestadual. A velhice não é uma fotografia, mas um filme em câmera lenta, um processo gradual, construindo individual, social e culturalmente. Entre 60 e 100 anos, são 40 anos de diferentes existências, faixas etárias, experiências de como envelhecer. Dessa forma, é meio estranho pensar em saúde como um tópico específico em um curso sobre a pessoa idosa, porque a saúde está em todos os aspectos da vida. Ao mesmo tempo, o conceito de saúde é tão amplo que abrange a ideia de saúde física, saúde mental, saúde psicológica e saúde social. Contudo, depois desse esclarecimento reflexivo, é fato que é próprio do envelhecimento o declínio do estado de saúde, em razão do próprio desgaste de uso da máquina biológica, porque, afinal, desde o nascimento, caminha-se para a morte. Pensar envelhecimento com saúde é uma das vertentes do chamado envelhecimento ativo, um conceito da Organização Mundial de Saúde, que promove a otimização das oportunidades para melhora da saúde e da participação social, cultura e cívica, bem como da seguridade social da pessoa idosa, visando promover a qualidade de vida no processo de envelhecimento. Dessa forma, a primeira atitude para garantir um envelhecimento ativo é preservar o tal “IKIGAI” da pessoa, independentemente de sua idade. Ikigai é traduzido como uma “razão para sair da cama de manhã” (WINDANDY, 2021). Ou seja, se não é mais a necessidade de trabalho fora do lar, do cuidado com a família, deve ser alguma coisa, seja passear, viajar, fazer trabalho voluntário, passar o tempo com os amigos, sair para dançar, conviver com os netos. A ideia guia todo tempo a viver e ser melhor do que ontem. Essa razão para acordar todos os dias é que vai garantir a vontade de praticar exercícios, de visitar médicos, de falar sobre seus sentimentos e expressar suas emoções. Muitas pessoas pensam que cultivar relacionamentos é um ato automático. Se se tem a amizade de alguém é porque isso aconteceu natural ou organicamente. Da mesma forma, as pessoas pensam que o que as mantém casadas por anos é a tal da paixão, ou mesmo do amor incondicional. Não. Não? Não mesmo. Relacionamento interpessoal, qualquer seja a modalidade, familiar, amoroso, de amizade ou coleguismo de trabalho, demanda esforço, trabalho, cultivo. Em vários momentos, nossas pessoas não estão na sua “melhor versão; e, mesmo assim, os “interlocutores” continuam se relacionando com elas em homenagem aos bons momentos daquela relação. Por isso é importante demais cultivar bons momentos com os familiares, com os amigos, com os colegas de trabalho, para cultivar flores no jardim enquanto se envelhece. Plantar a flor, adubar, regá-la, cultivá-la e garantir seu perfume e beleza no seu jardim para afastar os momentos de solidão. E não se engane! Dá muito trabalho cultivar flores no seu jardim. Tem que ter paciência, sacrifício, amor, doação. Você dá e depois recebe em troca. Você planta e depois colhe. Cultivar relacionamentos saudáveis é também garantir a saúde mental e psicológica, fatores fundamentais para o não desenvolvimento de doenças físicas. Relações interpessoais são ótimas fontes de IKIGAI e trocas de experiências de vida. Apesar de todos os alertas dos profissionais da saúde, muitas pessoas não sabem ou ainda não absorveram a informação de que a falta de sono é uma das grandes causas do aparecimento de sinais de envelhecimento precoce e também de doenças mentais. Há vários motivos para a má qualidade do sono, que vão desde causas genéticas e biológicas, até as psicológicas relacionadas à ansiedade, o tal chamado “excesso de futuro”, ou mesmo à melancolia, o “excesso de passado”. A negação de viver o presente, de olhar de frente para os problemas atuais leva a estágios de ansiedade e depressão, prejudicando o sono, intensificando o processo de envelhecimento e dando azo ao surgimento de doenças oportunistas. Daí a necessidade de compartilhar pensamentos, emoções, sentimentos com pessoas do convívio familiar, profissional ou entre amigos. Além disso, o autocuidado para monitorar os horários de sono é uma boa dica para melhorar a qualidade do sono. Assim, quando você encontrar com uma pessoa idosa, além de questioná- la sobre sua saúde física, mental, psicológica, saiba também qual é seu IKIGAI. Se ela não conseguir se expressar claramente, ajude a encontrá-lo. Pergunte sobre boas memórias, sobre o que a faz rir, sobre momentos de alegria na infância, sobre seus amigos, sobre sua comida favorita. Seja criativo e empático! Isso fará toda a diferença na forma como ela mesma olha para o conflito que talvez tenha motivado sua visita no local. Um assunto interditado relacionado ao envelhecimento é a questão da demência, uma espécie de termo ”guarda-chuva” que abrange diversas doenças que atingem cerca de 7% das pessoas acima de 65 anos, sendo a mais comum o Alzheimer, com cerca de 60% a 70% dos casos1. As demências estão entre as 10 doenças mais cansativas para os pacientes e familiares entre as pessoas idosas. (ANSTEY et. ali., 2020) e a sobrecarga do cuidador é um importante fator de risco de violência contra esse grupo. Até 2050, espera-se que o número de pacientes com demência triplique, passando dos atuais 50 milhões para 150 milhões. No Brasil, 55 mil casos são diagnosticados todos os anos e os atuais 1,4 milhão de pessoas com essas enfermidades serão cerca de 6 milhões em três décadas. (TAVARES, 2020, p. 42). Mas por que há esse aumento considerável de demência no envelhecimento? Uma primeira causa é simplesmente o crescimento da expectativa de vida. Depois, segundo a International Research Network on Dementia Prevention, embora o hábito de fumar tenha reduzido bastante, o que é algo bom para prevenção, o aumento dos níveis de obesidade e diabetes, especialmente entre pessoas jovens juntamente com o cenário da COVID-19, com sequelas biológicas ainda desconhecidas, preocupam os pesquisadores no mundo todo (ANSTEY et. ali., 2020). Contudo, trabalhos recentes de vários membros do Comitê Internacional de Prevenção à Demência são categóricos ao apontar os fatores chaves de proteção contra o aparecimento da demência. São eles: educação das crianças; exercícios físicos; cultivo do engajamento social; o abandono do tabagismo; o acompanhamento da perda gradativa de audição que prejudica a socialização e, por sua vez, leva à depressão, o controle dos níveis de obesidade, diabetes ao longo da vida, observar o funcionamentodos rins e de eventuais doenças pulmonares obstrutivas crônicas, distúrbios do sono, e evitar ambientes com 1 Segundo o Guia para jornalista na cobertura do envelhecimento, em seu glossário envelhecimento 2.0, “demência, também conhecida como transtorno neuro cognitivo maior, é uma síndrome clínica que envolve a deterioração da capacidade cognitiva, mudanças de comportamento e prejuízo funcional. O paciente pode apresentar alterações de memória, desorientação de tempo e espaço, problemas de concentração, raciocínio, aprendizado, linguagem, entre outras coisas. A doença de Alzheimer é um dos tipos de demência, bem como a demência frontotemporal e a demência de corpos de Lewy.” “Doença de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que leva ao declínio das funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem), causada pela morte das células cerebrais. É a mais comum das demências – no Brasil, há cerca de 1,2 milhão de casos. O principal fator de risco é a idade – a partir dos 65 anos, o risco de desenvolver a doença dobra a cada cinco anos. As mulheres parecem ser mais acometidas que os homens. Não há cura para a doença de Alzheimer, mas é possível retardar sua evolução com medicamentos e terapias não medicamentosas.” poluição do ar. (ANSTEY et. ali., 2020). Além disso, estudos ainda comprovam que viver memórias agradáveis ativa os neurotransmissores dopamina e serotonina, responsáveis pela sensação de prazer, ajudando a diminuir o isolamento e também a suavizar sintomas como as frequentes mudanças bruscas no humor. As experiências mais apreciadas são as de contato com a natureza, como estar numa praia, por exemplo, e viagens a lugares exóticos (TAVARES, 2020). Sabendo disso, é possível orientar as famílias com pessoas idosas e também a própria atuação ao conversar com pessoas desse grupo, de forma a cultivar as boas lembranças, passeios em parques, compartilhar uma seção para revistar álbuns de fotos antigos, perguntar sobre a geração passada ou mesmo investigar sua ancestralidade. São hábitos saudáveis que, além de combater, doenças demenciais, também impede outras duas grandes vilãs do nosso tempo: a solidão e a depressão. Recomendação de filme: O Filho da Noiva – Filme argentino com Ricardo Darin. Clique aqui e assista. Além disso, recomende à pessoa idosa ir ao geriatra, que é um especialista médico em envelhecimento. Mostre que o Sistema Único de Saúde (SUS) conta com médicos geriatras na sua rede e, assim como é importante o acompanhamento de um pediatra para o crescimento ou mesmo envelhecimento de uma criança, por que não teria igual relevância o acompanhamento da pessoa idosa para seu crescimento ou envelhecimento saudável? O médico geriatra trabalha na prevenção e promoção do envelhecer saudável, no tratamento e na reabilitação da pessoa idosa. Mas eles não são médicos apenas de pessoas com mais de 60 anos! Para prevenção, recomenda- se que os adultos já busquem o geriatra para avaliar possíveis condições de riscos biológicos e genéticos, a fim de evitar ou mesmo postergar a ocorrência de problemas de saúde crônicos comuns na família. Para ser geriatra é preciso um título de especialista, que é obtido após residência médica na área e também aprovação no concurso de título outorgado pela Sociedade Brasileira de Geriatria e pela Associação Médica Brasileira. https://www.adorocinema.com/filmes/filme-42374/trailer-19428071/ SAIBA MAIS! Dúvida: Geriatra e gerontólogo são a mesma coisa? Não! Geriatria é especialidade médica. O geriatra é um médico. Gerontólogo é o bacharel em gerontologia. Ele obtém um título de graduação na universidade em que fez a faculdade, que dura entre 2 e 4 anos. Já o especialista em gerontologia é o profissional que cursa uma pós- graduação/especialização em envelhecimento e gerontologia. Nesse ponto, vale relembrar que gerontologia é o estudo do envelhecimento nos aspectos biológicos, psicológicos, sociais e outros. A formação dos profissionais de gerontologia, portanto, pode ser em diversas áreas. O título de especialista é obtido por meio de prova de título realizada pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. E aí, ficou com vontade de aprofundar seus conhecimentos em gerontologia? Pois vá em frente que essa área será muito promissora em um futuro bem próximo! Procure sua instituição para saber sobre programas de incentivo à educação continuada!