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MICROCOSMOS:
TEORIA DOS CAMPOS
PIERRE BOURDIEU
edusp
3.2
A HISTÓRIA SINGULARDA RAZÃO: OCAMPO CIENTÍFICo
Para Darwin, viver é submeter ao julgamentode todos os seres vivos umadiferença tnabvia
Taljulgamento comporta apenas duas sancões: ou bem morrerou bem fazer parte do jurtdurante algum tempo.Masenguanto vivemos, somos sempreréu ejuiz.
GEORGES CANGUILHEM, LA CONNAISSANCE DE LA VIE
Dois homens, se realmente quiseremse entender. precisaram antes de mais nada se contradizer.
A verdade éfilha da discuss�o, e não filha da simpatia.
GASTON BACHELARD, LA PHILOSOPHIE DU NON
Sãopoucos os domíniosemque aalternativa comum, entre a análise interna-que
trataaprática científica como uma atividade pura e perfeitamente independente detoda
determinaçãoeconômica ou social -,ea análise externa -que considera a ciência como
um reflexo direto das estruturas econômicasesociais-,seimpôscom mais força queno
campo da ciência. Sem dúvidaporqueoque estava em jogonão era pouco: com efeito,
tratava-se, nada mais,nada menos, que da possibilidade de aplicar, àprópria ciência, o
modo de pensamento genético, que éa própria ciência e assim expor-se àdescoberta de
que a razão, que se consideralivre da história,também tem uma história. A alternativa.
nesse caso como em outros, aprisiona o pensamento;ela delimita brutalmente o espaço
do pensável edo impensável,reduzindoo espaço das possibilidades teóricas a pares
de oposiçõeselementares,fora
das quais não há posição concebível. Assim,o realismo
absolutista dos que sustentamque a ciência, sobretudo nas regiões mais avançadas da
física, apresentaomundo como ele érealmente, ou pelo menos fornece a representação
mais aproximada do que ele seja na realidade (háquem caracterize esta posição como
representationism),
secontrapõeaorelativismo historicistadosque veem
aciência como
umaconstruçãosocial, ou seja, convencional,
refletindo as estruturas objetivas
eas crenças
características de um universosocial particular.
Esse binômio epistemológicoimpõe-se
com tamanha força que encobre um dos
antagonismossociais
mais constantes
epoderososde todo ouniverso intelectual,oque
opõe,desde meados
do séculoxIX,afilosofia àsciências humanas
(biologia, psicologia,
241
MICROCOSMOS
sociologia).
Por uma ruptura análoga àquela operadapela
astronomia e pela
fsica
efe.
tuaram ao excluir
a indagação metafisicasobre o porquêem proveitoddo
questionamento
positivo (ou positivista)
do como, as ciências humanas substituem a
interrogação
sobre
a vedade das crenças (naexistência
de Deus ou do mundo exterior, ou na
validade
dos
princfpios matemáticos
ou lógicos) porum inquérito histórico sobreagêneseJas
cren
ças, levando os filósofos a diferentes tentativas de conferir à ciência um fun
fundamento
não empírico e salvar a necessidade das leis da lógica, como
Husserl,
construindo
Uma
lógica pura, livre de todopressuposto empírico, especialmente psicológico, e
desprovida
dequalquer outro fundamentosenãosuaprópria coerência interna.
O efeito detenazexercido poressa alternativa,altamente e sobrecarregada aem
termos
polfticos, étão forte que, funcionandocomo princípio de visão e de divisão,ela
leva a
maioria dos historiadores da ciência a se recusar a relacionar a história das
ideias cien-
tíficas à história das condições sociais de seu desenvolvimnento (sendo a exceção mais
notável representada por Thomas Kuhn, que eventualmente se assume como sociólogo).
Issoétão óbvio para eles que oestabelecimento dessa relação sópode assumir afoma de
curto-circuitoefetuado, quase sempreemnome do marxismo, portodos osqueassociem
diretamente aatividade científicaàs estruturas econômicas e sociais do momento -com
Franz Borkenau, que vincula osurgimentoda filosofiamecanicista eda mecânicapor ela
fundadaaosurgimento da manufatura e das novas formasde divisão do trabalho que ela
impõe'. E nãoéraro que, vítimas desuas categorias de percepção, eles acreditem opor-se
à sociologia da ciência quando,como AlexandreKoyré', por exemplo,Ihe contrapõem
tarefas que na realidade fazem parte de seu projeto, como a análise do surgimento dos
problemas, istoé,do universo dos possíveis, encarnadosespecialmente em adversários
eteorias concorrentes, em relação aos quaiscadaum dos cientistas do passado se situou,eque determinavam ouniverso do pensável no momento considerado.
(Trata-se da mesma alternativa entre análise interna eanálise externa, persoin
cada, no campo dahistóriada arte, porfiguras como Arnold Hauser ou Frédérick Antal,
que leva um historiadortão perspicaz como Ernst Gombrich apropor, contra a detiniça0
1. Ver F.
Borkenau, Der Ubergang vom
feudalen zum
Burgerlische Weltbild, Shudien zur Geschichte der Philosophie der
Mamufakturperiode, 1934. Como Enrico
Castelnuovobem demonstrano caso da história da arte,esse tipo de análise segue a lógica de um albergue
espanhol*, onde se pode encontrar a contribuição
levadaanteriormente: porum círculo vicioso
evidente, a
relação entre obras culturais e sociedade é estabelecida
graças àmanobra pela qual são
redescobertas na produção cultural (arte, ciência etc.) deumaepoca est�
turas e
tendências
estabelecidas
previamente e por outros
meios, e vice-versa (cf. E. CastelnuOVo,
Arte,
Industria,
Rivoluzioni, Temi
d'Historia dell 'Arte, 1985,pp.X-XI).
Expressão
idiomática
francesa que
designa um lugar de
hospedagem ao qual se deve levar a própria
comi-
da, ou, de
maneira mais
genérica,
qualquer ideia ou
situação em que se consiga encontrar algo
do próprio
interesse ou
conveniência.
Originou-se namáreputaçãodas
hospedarias espanholas noséculo xVII
(N.T).
2.VerA.Koyré,Erudes
d'histoire dela pensée
scientifique, 1966.
242
A
HISTÓRIA
SINGULARDA
RAZÃO:0
CAMPO
CIRNTIPICO
brutalmente
reducionista da
históriada arte
identificada por elena
sociologia - o
marxismo -,o
programa -sem
dúvida
incompleto -deuma
verdadeira
sociologiado
campo de produção
artística, Em
outras
palavras,a
análise das
estruturas
institucionais
especficas nas quais se
realiza a
produção
artística de uma
época, eque
permitemuma
compreensão
adequada das
linguagens
artísticas.)
Como asduasvisões
antagônicas têmemcomum ofato de
ignoraro
universo no
anala
ciência se
origina, essecampo deprodução
culturalcuja
autonomia é
conquistada
progressivamente e no
interior do qual o
próprio campo
científico tende ase constituir
como subespaço separado,
diferenciando-se das
esferas por
tanto tempo entremeadas da
teologia e da
filosofia, elas não podem
suscitar a
questão da
especificidade docampo
científico. Quaissão,então, ascondições
sociais
(excepcionais) aserem
atendidas para
que, no universo "puro"em que aciência mais "pura" é
produzida e
reproduzida e que,
sobcertos
aspectoOs, éum campo social como
qualquer outro,comsuasrelaçõesdeforça,
seuspoderes,suas lutas eseus lucros,
mecanismos
genéricos como os queregem em
todocanmpo aseleçãodos
recém-chegadosou a
concorrência entre os diferentesprodu
tores assumam uma forma tal que
possibilitem osurgimento das verdades
científicas,
produtossociais mais ou menos
independentes desuas condições sociaisdeprodução?
Desse modo, longe deseapresentar como aciência suprema,a sociologia,pormeiodasociologia da ciência(eda sociologia propriamente dita), éapenas arazão científica que
se volta sobre si mesma, colocandoa questão da gênese da razão científica em termosque lhe permitam merecer uma resposta científica.
ALuta pelo Monopólio da CompetênciaEspecífica
O campo científico éum mundo àparte edistinto, no qual seexerce uma lógica
social absolutamente particular, que se afirma cadavezmais à medida que se impõem
relações irredutíveis de forçasimbólicas tanto àsquevigoramno campo político quanto
âS que são instituídas no campo jurídico ou teológico. Análises como ade lan Hacking
sobreo surgimento das probabilidades' ea de StevenShapine Simon Shaffer sobre a
Invençãodo método experimental dão uma ideiado que poderia ser uma história estru
curalda gênese docampo científico, como universo no qual seespecífica em notoriedade junto ao grande público no interior
do campo restrito,e aos demais, um atalho paraa notoriedade intema".
Eis a ocasião de lembrarque a autonomia reinvidicada pelas ciências "duras"e pelas artes "puras"talvez
não passe da contrapartida de indiferença com queéencarada a "pureza", a liberdade que pode ser concedida
sem risco a um universo fechado sobre si mesmo, sobre seus jogos formais e suas discussões esotéricas, em
suma, o resgate cobrado por uma autoexclusão. E os formalismosde toda espécie muitas vezes são a gaiola
douradana qualseaprisionam os que têm liberdade para dizer o que bem entendem,desde que não digam nada
de essencial ou odigam de tal forma que nada possa sair do círculo dos iniciados0,
AHistória Singularda Razão
Assim,apenasaorecusar adivisão entre aanálise positivado universo social no qual
seproduza ciência, comseusmodelos decarreira,mecanismos de sanção
erecompensa,
normas,motivações
e valores, eodiscurso epistemológico destinado a fundamentare
justificara ciência na epor meio de uma metodologianormativa associada auma recons
trução lógica do progressoda razão-sob,a condição, portanto, de conduzir a análise
até ocerne do terreno indevidamenteentregue
à filosofiapela sociologia da ciência a la
Merton,ou seja, atéosprocessos
sociais devalidação doconhecimentoede legitimação
dosaber,podemos, paradoxalmente,fazer
uma ciência da gênesehistórica da verda
de sem incorrer em relativismo autodestrutivo.
Sem dúvidaas pretensões de validade
38. VerG. Canguilhem, ldéologieetrationalité dans les sciences de la vie, 1977.
39. Ver L. Boltanski eP.Maldidier, "Carrière scientifique, moralescientifique et vulgarisation",
1970, pp. 99.-118;
ver também B. Barnes,"On the Reception ot Scientific
Beliefs", 1972, pp. 269-291.
0.Sabemos do problema que representa
para a vanguarda literária, à frente Sollers e Kristeva, o escândalo
Céline, grandeinovador literário que inspira seguidores e autor de panfletos antissemitas.
(Pode-seler um
balanço das diferentes tentativas de "abafar"esse escândalo no artigo de Joseph Jurt, "Céline, prophète
de la modernitéet pierre d'achoppement,
la critique célinienne aujourd'hui",
Euvres et critiques, VI, 2,
1984, pp.33-55.
263
MICROCOSMOS
científica podem mascarar as pretensões de dominaçãosimbólica,
os debates
científicos
podem encobrir. por trás doconfronto das proposições
com a realidade,
a luta
pelo
poder
daqueles queasenunciam. Mas nem por isso, sob certas condições, ou seja, em
certog
estados da lógica social do funcionamentodesse campo
de lutas pelo poder
simbólico
que é o campo científico, tais estratégias,submetidas
à censura cruzada que
constitui a
razão constituinte do campo, produzemsua própria superação�".
Não é preciso recorer à magia de um saltotranscendental
para fundamentar: a
ver-
dade. É possível explicar geneticamente
umateoria sem minarsuas reivindicações de
verdade. Há estados docampo científicoem que oantagonismo
anárquico ddos
interesses
particulares seconverte em dialéticaracionalenos quais alutadetodos Contra todos sucede
em meio à retificação crítica de todos por todos. Para isso, é necessário
e
suficiente que
se instaure no campo uma�rganizacáo social da comunicacáoeda troca, de tal ordem
que cada um só consiga fazer prevalecer seu interesse específico mobilizando todos os
recursos científicos disponíveis para superar as dificuldades compartilhadas com seus
Concorrentes. A títulode exemplo,podemos citar GeorgesCanguilhem,ao descrever o
processode unificação do mercadoque corresponde àconstituição de um campo:"Em
história das ciências, deve-se ter comno fiocondutor oreconhecimentode que, em dada
época–esingularmente desde o século xvl–asdiscordâncias e rivalidades na comu.
nidadecientífica não podem,de formaalguma,constituir
um obstáculo à comunicação.
Por um lado, não podemos deixar de ser tocados por aquilo que recusamos. Por outro.
ainda que a troca fosse impossível, permaneceo fato de nos abastecermosno mesmo
mercado"42, O confronto generalizado de produtos comparáveise concorrentes, que se
criticam e seretificam mutuamente,sópode produzir a ratificação oficial e pública que
define odiscurso homologado quando estiver instituído um campo de possibilidades e,
sobretudo, de impossibilidades, de tal modo que,como na teoria darwiniana, a arbitra
gem das variações competitivas seja possível ea coexistência social dos defensores de
posições logicamente exclusivas nãopossa seprolongar indefinidamente (como acontece
na flosofia, com 0s partidários e os �ponentes da existéncia de Deus ou da liberdade,
por exemplo)®,Na verdade, à medidaque o campo científico se unifica (naescala das
41. Algunsdos trabalhos, muitas vezes categorizados sob a etiqueta de "construtivistas", que se desenvolveram
no prolongamento das minhasprimeiras pesquisas sobre o campo cientifico foram levados a uma espécie
de nilismo irracionalista por terem esquecido que as estratégias "construtoras" são determinadas em sua
força eem sua orientação pela própria estrutura que visam a conservarou transformar, e que, portanio,
podem, em certos estados dessa estrutura, concorrer para a realização de fins transcendentes às motivaçóes
particulares que as determinam.A razão imanente do campose impõe às estratégias individuais, cujo
resultado é iredutivel ao mero produto deagregaçãomecânica das estratégias.
42.G.Canguilhem, ldéologie el ralionalié,�p. cit, pp. 75-76.
43. Quando,como acontece em filosofia, diferentes possibilidades logicanmente contraditórias podem coexistr
SoCialmente, contanto que as tomadas de posição nas quais se afinam manifestem explicitamente que
264
A HISTORIA SINGULAR DA RAZÄO:0CAMPO CIENTÍFIC0
diferentes disciplinas ou mesmo em níveis mais elevados de integração) e que, com oAumento dos recursos acunmulados, aumenta também ocapital necessário para entrarde maneiraeficaz na competição,o mercado em que podem ser trocados os produtos
científicos torna-se lugar de concorrência cada vez mais intensa entre produtores cadavezmaisbem preparados(emaisnumerosos),conferindo plena eficácia àcríticaarmada
implicada na produção de soluçõesconcorrentes e,nesse caso, mutuamente exclusivas,
pelo menos no longo prazo.
Assim, €na história que reside a razáo dos progressos de uma raza0 historicd
por inteiro e,apesardisso, irredutível à história.A razão científicasó serealiza quando
seinscreve, não em normas éticas de uma razão prática ou em regras técnicas de uma
metodologiacientífica, mas nos mecanismos sociais da concorrência, aparentemente
anárquica, entre estratégias munidas de instrumentos de açãoede pensamento capazes
de ajustar as próprias condiçõesde sua utilização, bem como nas disposições duráveis
inculcadas pelainstituição escolar ereforçadas pelo funcionamentodo campo. Longede
serem produtoda obediênciaa normas ideais que sóseriam impedidasde alcançar sua
plena realização pela interferência de relações de dominação (comoquerHabermas), as
"situações de discursos ideais" tornam-serealidade quando se instauram mecanismos
sociais de comunicação e troca que,muitas vezes em funçãoda busca da dominação, e
a despeito de qualquerreferência a normas morais, impõem as censuras inexoráveis da
críticaarmada. Só épossível entender alógica específica do campo científico indo além
da alternativa escolar entre causas e razões, que leva a apreender como atentado histori
cista contra os direitos da razão qualquermenção realistadas determinações sociais das
produçõesculturais.
Contra todos os que não veem outra possibilidade de "fundar"a razão senão inscrevendo-aem uma
"natureza humana"trans-histórica e independente dos condicionamentos sociais, cumpre reconhecerque a
razãosó serealiza na história quando se inscreve nos mecanismos objetivos de uma concorrênciacompul
sória, capaz de obrigaras pretensõesinteressadas pelomonopólio a se converter em contribuições forçadas
ao universal, e de fazercom que, ao se submeter a causas, também se obedeça a razões. Nãoépossível
fundaracidade científica ideal escorada apenas na virtude dos cientistas. A objetividade, tanto nas ciências
da naturezacomo nas ciências sociais, não repousa na supostaimparcialidade de "intelectuais livres", mas
na lógica da competição pública que, por meio do exercício livre e generalizadoda crítica, exerce uma
verdadeira políicia simb�lica a serviço de um código de verificação. Em suma, a representaçãoda cidade
implicamo conhecimento do espaço presente e passado das tomadas de posiçãocompossiveis,a história
não detém esse tipo de poder de arbitragem,relativamente protelado, de que se dispõe no dominio da
ciência (Georges Canguilhem fala da "juisdiçãocritica sobre o estado anterior de um presente científico,
garantido, precisamente por ser científico, a ser superado ou retificado"); e épossivel efetuar revoluções
que, como em arte, sejam "retornos"a posições antigas, nunca realmente ultrapassadas e invalidadas
(basta pensar, por exemplo, nas inúmeras retomadas de Kant").Ver P. Bourdieu,L'Ontologie politique
de Martin Heidegger,op. cit.
265
MICROCOSMOS
científica como realização da cidade ideal sóé aceitável se pensarmos em uma república
maquiaveliana
em
que os cidadaosfossem virtuosos por terem interesse na virtude. A diversidade praticamente
infinita dos
móveis em jogo constituídos como dignos deinteresse pela lógica doscampos atesta a extrema
plasticidade
dessa suposta natureza na qual se pretende inscrever uma únicaforma, extremamente particular. de
interesse
egoísta: a eficácia constituinte da instituiç�o pode, em grande parte, obter quase tudo dos
agentes
sociais.
desde que lhes ofereça reptos e móveis eem jogo capazes de lhes propiciar razões interessadas a
realizar
ações
consideradas desinteressadas por serem indiferentes aos ganhos ordinários. De fato, é preciso
resignar-se a
reconhecer que, salvo exigindo de todos a todo momento as disposições extraordinárias de um
santo, gènio
ou herói, só se pode esperar uma razão ou uma virtude comuns, de uma ordem social capaz de
transformá-la
emuma forma particular de interesse bem determinado.
A história social do campo científico situa oobservador diante de uma ificuldade
semelhanteàquela enfrentada pelos especialistas das ciências da vida: assim como e
deve reconhecer que os fenômenos vitais se devem apenasa causas fisico-químicas e
que oorganismo apresenta uma organização queo torna irredutível àssuas bases fisicn
-químicas“,assimtambém sedeve recusar a ideia de que o campo científico seja uma
exceçãoàs leis fundamentaisdetodo campo, especialmente à lei do interesse, o qual, soh
asformas específicas que assume nesse campo, pode conferir uma violência impiedosa
àslutas científicas;cumpre ainda reconhecer a iredutibilidade da organizaçãosingular
dessejogo social,emque a verdadeira ideia pode serdotadade força porque os quedela
participam têminteresse na verdade emvez seagarrar, como em outros jogos, à verdade
de seusinteresses.
Na medida em que aborda cientificamente a questão das condições históricas
dosurgimentodessa forma de discurso universal que éodiscurso científico, a análise
sociológica do campo científicopode surgir como uma redefinição científica (outros
diriam cientificista) do projeto kantiano: uma análisereflexiva visando a descobrir
universais ignorados(comoos universais da capacidadehumana de falar,por exemplo)
ésubstituída por uma exploraçãoempíricadas leis de funcionamento dos campos so
ciais (quepodem ser considerados mercados linguísticos), entendidascomo condições
institucionais inscritas em uma situação histórica determinada e funcionando como
condiçõessociais de possibilidade desseou daquele tipo de produção simbólica. Não
basta registrar o fato de que,paracada campo,como "forma de vida" (Lebensform),
coresponde um "jogode linguagem":é preciso buscar, mediante uma análise soci�
lógica, as leis de funcionamento particulares de cada um desses espaços de jogo, Os
fundamentos objetivos do quadro deconstrições eregras de produção de expressocs
(logo,de conhecimentos)que definem de maneira única cada um desses"jogosde
linguagem"(poruma redefinição resolutamente historicista doprojeto kantianode de
44. Cf.G.Canguilhem, ldéologie et
rationalité.., op. cit., pp.133ess.
266
AHISTÓRIA SINGULARDA RAZÃO:oCAMPO CIENTÍFICO
preenderdas conquistasdas ciências uma representação definitiva das condições de
produção do conhecimento).
Ocaso particular do campo científico ganha sentido plenoquando seconsidera uma
análise histórica do processoparadoxal pelo qual asconstrições eoscontroles da dialética
racional foram gradualmente inventadas e instituídas em estruturas e disposiçóes. ISsO
permitirá superaro círculo lógico que tal análise cria sem recorrer ao último vestigi0 do
milagre criacionista que perpetuaem qualquerbuscaporum fundamento a priori: uma
epistemologia historicizada (maisque "naturalizada", como diz Quine)deve reconhecer
eexplicar o surgimento de um mundo social que, embora não seja fundamentalmente
diferente dosoutros em termos de motivação, difere significativamente nas constriçóes
edireções que Ihesimprime, por sera consumação de uma história que aos poucos ins
creveu ascoisas da lógica na lógica das coisas.
As formas lógicas são independentesda atividade construtiva das razões individuais
(comoqueriam HusserleFrege), mas essa transcendência é ade um nomos, de uma cons
tituição,e não a de uma physis; éa transcend�ncia do social sob a forma deum campo
cuja razaoimanente € a razao(em sua defnicaohistórica no momento considerado). A
forna lógica surgeem uma "forma de vida",ou seja,em uma historicidade contingente
na quala lógica é instituída como forma obrigatória da luta social. O sujeito racional
sóexiste como "união dos trabalhadores da prova", na expressão de Bachelard,união
forçadaque se impõe por meio da "polêmicacientífica",a guerrade todoscontra todos
na qual a razãoéa melhor das armas.
Assim, embora não existamuniversais trans-históricos na comunicação, existem
formas de organização social da comunicação propensasa favorecer a produção do
universal, que seinstauramna confluência (histórico) entre oprodutode duas histórias
parcialmente independentes:um agentehistórico com disposições particulares, adquiridas
e desenvolvidas em condições sociais particulares (ontogênese), eum campo histórico
ele próprio produtode uma história coletiva eque impõea essas disposições condições
institucionais igualmenteespeciais para suarealização (filogênese)4s, Se,emvez de serem
"estruturas categoriais" da existência humana, os "interesses cognitivos" identificados
pela hermenêuticatranscendental são,na realidade, produtode condiçõeshistóricas par
ticulares, entãocompreende-se que,paraabolir "astrocas sistematicamente distorcidas"
que subsistem,aqui e ali,até mesmo na ordem cultural, não basta mudar os sujeitos,
lembrando-0sdo respeito pelosuniversais ignoradose ridicularizados pelohomem co
mum,como ofilósofo redescobre. É necessário também esobretudoalterar asestruturas
instituídas da comunicação mediante uma verdadeira política da razão munida de uma
45.Asinvençõessimultâncaspodem ser perfeitamente entendidas nessa lógica.
267
MICROCOSMOS
ciência racional da história darazão parapromover
a razão na história
trabalhando,
por exemplo, no sentido de abolir as bases sociais
do abuso de poder simbólico efazer
avançar as condições econômicas e sociais dosurgimento
de novas formas de
interesse,
comunicativas ou cognitivas6.
Não é o sociólogoque, cego por um partipris
redutor e destrutivo. inventa asleis
a que obedecem as práticas humanas, mesmo emsuas liberdades em relação às neces.
sidades comuns. Não é ele que sefaz cúmplice
cínico oudesiludido
dessas leis que ele
apenas descobre, mas os que, recusando-se
a enfrentá-las,
Ihesdão livre
curso: esses
defensores farisaicos dos direitos da humanidade
e da liberdade
de consciência cedem.
na verdade,sem lutar contra os poderes
de um inconsciente
quenão é outra coisa senão
uma consciência ignorante desuaspróprias
leis. Quando relaciona
a intenção científica
às condiçõessociais das quais elaé produto, quando trabalha no sentido de produzir uma
ciência da história das categorias do pensamento
científico
e de objetivar as estruturas
objetivas docampo científico,bem como asestruturas
cognitivas eavaliativas que são an
mesmo tempo condiçãoe produto de seu funcionamento,o sociólogonão aniquila sue
própria ciência, como imaginam osquejulgampoder
confiná-lo ao círculo relativista e
assim,fazerdesaparecer
magicamentea ameaça de
relativizaç�o que sua ciência projeta
sobretodaciência. Como poderia ele ignorar queopróprio campo da sociologia funciona
segundo as leis que regemofuncionamento detodocampo científico? Ele bem sabeaue
às diferentes posições no campo estão associadas representações prováveisdo mundo
social e da ciência desse mundo. E esse conhecimento,longe de minar seus próprios
fundamentos,Iheconfere um domínioteórico das determinações sociais doconhecimento
que pode estar na origem de um domínioprático dessas determinações.A crítica episte
mológicaaí implicada, maispróximada crítica einsteiniana da "absolutasimultaneidade
de objetos distantes" que da especulação ex postde um observador externo, integra a
própria atividade científica.
Construir o campo de produçãodessa forma é obrigar-se a objetivar o sistema
completo das estratégias e posições a partir do qual elas são geradas, logo, no caso
particular de uma sociologia dasociologia, aprópria posiç�ão do sociólogoesuas estra
tégias.A sociologia daciência assimconduzidaéum dos instrumentosmais poderosos
deque a sociologia podesevaler para controlar os efeitos dos determinismos sociais,
46. Como evidencia a exploração empirica de relações de comunicação, como as estabelecidas, por exemplo,
entre professores e alunos, trocas
"sistematicamente distorcidas" nas quais as aparências da comunicação
podem se perpetuar na ausência quase total de compreensão real, as relacões de pseudocomunicayenraízam em relações de poder e, no caso particular, um mal-entendido instituído constitui um abuso
de
poder cuja possibilidade está inscrita na própria estrutura da relação
pedagógica, paradigma
detodas as
relações de autoridade (ver P. Bourdieu, J. C. Passeron e M. de
Saint-Martin, Rapport pédagogi�uecommunication, 1965).
AHISTÓRIA SINGUIARDA RAZÃO: oCAMPO CIENTÍFICO
internos eexternos, aos quais está particularmente exposta, em irtude da própria im
portância do móvel político em jogo inerente a uma visão científica do mundo social.
Longe de conduzirao sociologismo,ela oferece ao sociólogo (e a todos os outros por
meio dele) a possibilidade de apreenderconscientemente, para decidir aceitá-las ou
rejeitá-las,as tomadas de posiçãoprováveis que Ihe sãoatribuídas pelo fato de ocupar
uma posiçãono jogo que pretendeanalisar. E se ele não compreendesseo interesse,
dessa vez propriamente científico, que pode ter em aplicar a si mesmo o tratamento
liberador, a própria disseminaçãoda arma simbólica constituída pela análise do campo
sociológico sem dúvida teria como efeito generalizar e sistematizar, em virtude das
críticas cruzadas,uma autoanálise que, tornando-se verdadeiramentecoletiva, estaria
menos e�posta a uma indulgenciaea uma complacénciaconsigomesmo tendentes a
limitar seus efeitos.
269opera uma formaespecial
de acumulação, princípio de reinterpretação metódicade todas asdemandas externas,
ojam elas provenientes,comono casodas probabilidades, do campo jurídico,docampo
OnapineS.Shaffer. Léyiathan et lapompeà ai: Hobbes et Boyle entre science et politique, 1993
3. IHacking, TheEmergenceof Probability, l973.
[1985].
243
MICROCOSMOS
econômico ou mesmo da experiência comum. Essa "série causal independente" de
pro-blemasque engendram problemas sópode se instaurar(nãosem "interseções" com
outros
campos) a partir do momento em que uma cidade científica se institui a um sótempo
aberta e
pública (por oposição a hermética e privada), mas também fechadae
seletiva.
Esse espaçopúblicoe
oficial (em oposição ao universo secreto, sem controle e
incontro-
lável da alquimia) é, ao mesmotempo, cada vez mais estritamente reservado
àqueles que
cumpriram o requisito de entrada exigido, que conhecem e reconhecem oS
pressupostos
cognitivos e avaliativos,implícitos ou explícitos,
que constituem a lei fundamental do
valnpono momento considerado, e que dominam os recursos especificOS necessários
para reformular
as questões ingenuamentesuscitadas pela lógicaprática das
diferentes
Pratcassociais,sejamelaseruditas ou comuns (como os problemasdojogo do Chevalier
Mere, pOr exemplo): � laboratório aberto"cuja génese é evocadapor StevenShanin
eSimon Shaffer constituiuma dasmaterializações mais significativas desse espaçosocial
fora do comum no qual se realizam, sobo controle coletivo de testemunhasconfiáveig
Porque especializadas, experiências capazes de constituir o fato científico como tal. iste
€,como suscetível de ser universalmente conhecidoereconhecido.
Enquantoojogo obedece a regras explícita e expressamente estabelecidas, logo, conhecidase reconbe.
cidas comotais,eque até certo ponto são inclusive "constituintes" ou "constitutivas"` do jogo,ao qual precedem
e tornam possível, os campos obedecem a regularidades que regem as práticas sem ser colocadascomo tais
eque devem ser identificadas expost, a partir de uma observaçãoe de uma análise dos fatos dos quais elas
constituem as leis. Isso vai contra a ilusão artificialista, simbolizada pelo mito do contrato social, que leva a
conceber as instituições comoproduto de intenções e invenções. Embora sejao caso de falar de "invenção"do
campo artístico e do artista ou do campo científico e do cientista, para lembrarocaráter histórico de instiui.
ções que, ao serem inscritas tanto nas coisas quantonas mentes,parecem naturais, não devemos esquecer que
a "invenção"€, nesse caso, oresultado deum trabalho coletivo quase completamente obscuro para si mesmo,
mesmopara os que af mais contribuíram, comoManet no casodo campo da pintura.
Ocampo científicoéum campo de forças cuja estrutura édefinida peladistribuição
contínua do capital específico detido, no momento considerado,pelos diferentes agen
tesou instituições eficientes no campo. E também um campo de lutas ou um espaçode
competiçãono qual se enfrentam agentesou instituições trabalhandopela valorização
deseu próprio capital medianteestratégias deacumulação impostaspela concorrência e
propensas adeterminar aconservaçãoou a transformaçãoda estrutura (nenhum detentor
de capital,pormaiorque seja atendência àautoperpetuaçãoinerente auma posição de
5. Antoine Gombaud (1607-1684),ensaísta ejogador francês que,embora n�o fosse nobre,adotouo pseuoo
nimo de Chevalier deMéré(suacidadenatal);
notabilizou-se por contribuições àteoria das probabilleu
oemprego de cálculos matemáticos emjogosdeazar-especialmente asoucãode unm problema de or
antiga conhecidocomo"problemadospontos" (N.I).
244
A HISTÓRIA SINGULARDA RAZÃO: 0CAMPO CIENTÍFICO
monopólioestá isento de maneiraduradoura das intrusões noespaçode competição). Mas
essas lutas sãodeterminadas pela estrutura, na medidaem que asestratégias científicas,
sempresocialmente sobredeterninadas, pelo menos em seusefeitos,dependem do volume
de capital possuído, logo, da posição diferencial nessa estrutura e da representação do
presente edo futuro do campo associada a essa posição. Com efeito, as estratégias dos
agentes s�o determinadas em sua orientação, seja em direção à subversão (científica e
social) ou à conservação, pelos interesses específicos associados à posse de um volume
relativamente substancial das diferentes espécies de capital específico que são, a um só
tempo,tanto mobilizadas nojogo quanto aí geradas. O capital específico, adquirido nas
lutasanteriores, que orientam asestratégias deconservação destinadas aperpetuá-lo, con
tém sempredois componentes,o capitalde autoridade propriamente científica,lastreado
noreconhecimentopelos pares/concorrentes dacompetência comprovadaporconquistas
específicas (em especial soluções consideradas legítimas para problemastidos como
legítimos no estado do campo considerado), eocapital de autoridade socialem matéria
de ciência, parcialmente independente do anterior (sobretudo quandoocampo é menos
autônomo),baseadona delegação deuma instituição, quase sempreo sistema de ensino.
Como a autoridade propriamente científica tende a se converter, com o tempo,
em autoridade social capazde resistir àafirmação de uma nova autoridade científica,e
também porque a autoridade social no interior do campo científico tende a legitimar-se
apresentando-se como purarazão técnica, alémde os signos reconhecidos da autoridade
estatutária modificarem a percepção social da capacidade propriamente técnica, fazen
do com que os juízos sobre asconquistas científicas sempre sejam contaminados pelo
conhecimentoda posição ocupadanas hierarquias propriamente sociais (a posição das
instituições de filiação, das grandes escolas na França ou das universidades nos Estados
Unidos), ésomentepor meiode uma distinção derazão que podemos dissociar no capital
específicoo que seria pura representação social, poder juridicamente garantido, doque
seria pura capacidade técnica. Na verdade, a contaminação da autoridade propriamente
científica pela autoridade estatutáriabaseada naarbitrariedadeda instituição étanto mais
forte, e a capacidade dos detentores do poder propriamente temporal sobre as institui
Ções -e particularmente sobre as instâncias de reprodução -de exercer uma autoridade
propriamente científica(pelo menos em seusefeitos)é tanto maior quanto mais reduzida
fora autonomiado campo científico.
Dizer que ocampo éum lugar delutas nãoé apenas rompercom a imagem idílica
da "comunidadecientífica" descrita pela hagiografia científica -e muitas vezes, depois
dela,pela sociologia da ciência –,ou melhor, com a ideia de uma espécie de "'reinado
dos fins" que s� conheceria a leida concorrência pura e perfeita das ideias, infalivel
mente ressolvida pela força intrínseca da ideia verdadeira. Ê também lembrar que as
práticas científicas sóaparecemcomo "desinteressadas" em relação a interesses dife
245
MICROCOSMOS
rentes, produzidos e exigidos por outros campos(especialmente
o o
campo
econômico),e
que o próprio funcionamentodo campo
científico produz e supõe umaforma
especifica
de interesse, ou melhor, de illusio, Emborao campo não conheça
necessariamente as
fronteiras que delimitam o espaço
de jogo, a entrada no campo, assim Como a
entrada
no jogo, pressupõe uma metamorfose do recém-chegado, ou melhor. uma
espéciede me.
tanoia marcada sobretudopela suspensãodas crenças e dos modos de
pensamento e de
inguagem ordinários, correlata a uma adesão tácita aos móveisemjogoeàs
leis do
jogo.
Essa illusioimplica, por um lado, oinvestimnento
nojogo comoital, a propensão a jogá-lo
(em vez de sair dele, desinteressar-se dele), e, por outro, o senso do jogo.
dominado no
estado prático deum princípio de pertinência incorporado que orienta os
investimentos
(de tempo,detrabalho etambém de afetos), permitindo estabelecer a
diferença entre as
coisasinteressantes, importantes (problemas, debates, objetos, leituras, mestres etc.) e
ascoisas sem interesse, insignificantes.
(Asduas dimensõesda illusio, a proneneš
capacidade,sãoindissociáveis: acapacidade de diferenciar, o"gosto", distingue auel.
que, capazdeestabelecer diferenças, nãoéindiferente,para quem certas coisas importam
maisque outras, daquele para quem, como sediz, "qualquercoisa serve".)
Opensamento científico nuncateve outro fundamentosenãoa crença coletiva em
seusfundamentosproduzida esuposta pelo próprio funcionamentodo campo científico. 0
reconhecimento doxológico (implcito e inconsciente) ou dogmático(explícitoecodifica
do)dedeterminada definiçãodo conhecimento, ou seja,dafronteira entre o conhecimento
autênticoea falsaciência, entre problemasverdadeiros efalsos, objetos de ciênciareais
e falsos,os métodosou soluções legítimos eos métodos ou soluçõesabsurdos, repousa
na orquestração objetiva dos esquemaspráticos inculcados peloensino explícitoe pela
familiarização,queporsuavez encontra seu próprio fundamentonasoma dos mecanismos
institucionaisgarantidores da seleção social eescolar dos pesquisadores legítimos (em
função, porexemplo, dahierarquia estabelecida das disciplinas),na formaçãodos agentes
selecionados, no controle do acesso aos instrumentos de pesquisa e publicação etc.' A
área dos móveisem discussão delineada em meio àslutas pela ortodoxiaea heterodoxia
delineia-se sobreopanode fundodo universo da doxa,conjuntode pressupostos que os
antagonistas admitem como evidentes, fora de qualquer discussão, porque constituem
a condição tácita da discussão: a censura exercida pela ortodoxia-e denunciada pela
6.Acrença genérica no valor do jogo edas questões emjogo inerente ao engajamento no jogo se dissimua
sob acrença num "partido" cientifico, associada a uma posição particular eàposse de trunfos singulares
7.0habinus produzido pela primeira educação de classe e o habits secundário inculcado pela educaçao
escolar contribuem, com pesos diferentes no caso das ciências sociais e das ciências da natureza, que
termina uma adesão pré-reflexiva aos pressupostos tácitos do campo (sobre o papel da socialização,
cf. W.
0. Hagstrom, The Scientific Community, 1965, p. 9 e T. S. Khn, "TheFunction of Dogma in Scientific
Research", 1963, pp.347-369).
246
AHISTÓRIA SINGULARDA RAZÃO:0CAMPO CIENTÍFICO
beterodoxia –esconde uma censuramais radical, também mais invisível,por serconsti
utiva do próprio funcionamento do campo edizer respeito a tudooque éadmitidopelo
mero fato da filiação.
As escolhas quelevam de uma visãocientífica do mundo aoutra obedecem à lógica
daconversão, mais que à docálculo racional, como evidencia, entre outras coisas, ofato,
observadocom frequência, de que essas escolhas são efetuadas antes de serem visíveis
ouacessíveis a todas asrazões propriamentecientíficas que poderãojustificá-lasexpost.
Tais escolhas tendem aserevelar razoáveis, ou seja, objetivamente ajustadas (ou propor
cionais) à estrutura das oportunidadesde sucessoque lhes sãoobjetivamenteoferecidas,
sem porisso serem produto de uma deliberação racional ou de um cálculo cínico, quando
(comoé mais comum) têmcomoprincípio um sensode oportunidadeque é produtoda
incorporaç�o das regularidades objetivas do campo em disposições, podendo assim as
reconversões mais diretamenteadaptadas às transformações das chancesde lucro serem
vivenciadas comoconversões.
PosiçõeseTomadas de Posição
A estrutura docampo científico édefinida, acadamomento,pelo estado da relação
de força entre os protagonistas da luta, ou seja, pela estrutura da distribuição do capital
específico (em suas diferentes espécies) que acumularam ao longo das lutas anteriores.
Éessa estrutura que confere a cada pesquisador, em funçãoda posiçãoque nela ocupa,
suas estratégias e tomadas de posição científicas, assim como as chances objetivas de
sucesso. Não háescolhacientífica -escolhado terreno de pesquisa, dos métodos empre
gados,dolugar depublicação,escolha,como bem descrito por Hagstrom®,de uma rápida
publicação dos resultados parcialmenteverificados ou da publicaçãotardia de resultados
controlados por inteiro-que não sejatambém,de alguma forma,uma estratégia social de
investida orientada paraa maximização dolucro específico, indissociavelmente político e
científico, proporcionado pelo campo,e que não possa serentendidocomo resultado da
relação entre uma posição no campo e as disposiçöes (habitus) de seu ocupante.
Contraa representaçãoidealista que atribui àciência opoder de sedesenvolver se
gundo sualógica imanente (como aindafazKuhn ao sugerir que as"revoluções científicas"
S�Ocorem após oesgotamento dos "paradigmas"), énecessáio postular que -estando
a direção do movimento científico (ou,em outros contextos, do movimento literário ou
artístico) inscrita em estado potencial no campo das tomadas de posiçãoatuais ou poten
6. W.O.Hagstrom, The Scientific Commnity,op. ct., p. 100.
247
MICROCOSMOS
ciais, espaço dos possíveis que o campo apresenta a cada momento ao
pesquisador -,o
motor desse movimento reside no espaço das posições, ou, mais exatamente.,na
homologia
estrutural que se estabelece entre o espaço das tomadas de posição possíveiseo
espaço
das posições sociais.O espaço dos possíveis éesse conjunto de potencialidades
objetivas
que, de certaforma,aguardamrealização
e estão inscritas na própria estrutura da
relaç�o
entre astomadas de posição científicas de fato eficientes, defendidas pelos
ocupantes das
diferentes posições existentes. Esse universo dos problemas e objetos
legítimos, questões a
serem resolvidas,teorias a seremrefutadas ou superadas, experiências a serem
verificadas
ou invalidadas,impõe-secom insistência à atenção de todos os que pretendam
afirmar
suaexistência no campo e tenham a competênciaespecífica necessária para conba
ereconhecer essas virtualidades insistentes.As injunções mais prementes queo ca
possa estabelecer - e que podem seguir caminhos enviesados, e não raroimpenetráveis,
da rivalidade reverencial com os grandes antecessores, da competiçãocom adversários
íntimos ou da indignação contra os pressupostos metaffsicos, religiosos ou políticos das
posições científicas combatidas -voltam-se apenas, poróbvio, para osqueestão dispostos
a percebê-las e a reconhecê-las?.
Desse modo, aspossibilidades objetivas concretamenteoferecidas aos diferentes
agentes envolvidos no campo sãodeterminadas na relação entre, de um lado, o universo
daspossibilidades a determinar, nomomento considerado, nãosóoestado dos problemas
dasteoriasecrenças subjacentes, mastambém a natureza dos objetos tornados acessíveis
àanálise graças ao equipamentotécnico e mental (sobretudo a linguagemdisponível)
necessário para observá-los e descrevê-los' e, de outro, os recursos que cadaum dos
pesquisadores écapaz de mobilizar e que definem para ele o universo das coisasa
serem feitas". Isto significa que os agentes não são puros criadores a inventar no vazio.
exnihilo, mas,por assim dizer, atualizadores que realizam potencialidades socialmente
instituídas que na verdade sóexistem como tais para agentes dotadosdas disposições
socialmente constituídas que predispõemapercebê-las como taisea concretizá-las.Mas
também significa que tais potencialidades, asquais podem parecer resultado do desen
volvimentodas tendências imanentesda ciência não abrigam em si mesmas o princípio
de suaprópria atualização esósetornam realidade histórica por intervenção de agentes
9. Apenas uma fenomenologia da experiência íntima da existência cientifica comum permitiria escapar a
alternativa entre inocência angelical ecinismocalculista na qual habitualmente se abrigam a descrição e a
análise das estratégias cientificas. Seria necessário analisar a relação ambivalentecom os grandes predeces
sores que ainda podem orientar as escolhas dos sucessores, impondo-se àcritica daqueles que ambicionam
substituí-los ou superá-los ecom isso impondo-lhesseuobjeto; ou a relacão eminentemente obscura com os
adversários intimos; ou ainda aexperiència subieránea,jamaisexplicitada, de rostos. vOZeS, maneir ,�
gera simpatias ou antipatias; as relações oficialmente cientificas com teorias cientificas eseus pressuposis
metafisicos, religiosos ou politicos.
10.F.Jacob, LaLogique du vivant, 1970,p.20.
248
AHISTÓRIA SINGULAR DA RAZÃO: 0CAMPO CIENTÍFICO
capazes de superar a ciênciaajá
constituída (poroutros agentes) para perceber nela, graçasa ela e para além dela, possíveis a seremrealizados e para “fazer o necessário"(oque émoletamente diferente de sesubmetermecanicamentea uma necessidade física). Aanálise do campo científico
contrapõe-se, assim, a um sótempo, àstentativas de relacionardiretamente as obras científicas de uma época,caracterizadas global egrosseiramente,com asestruturas da sociedade correspondente eàs tentativas, a mais consequente a deMichelFoucault, decompreenderocampo dastomadasdeposição em si epara si mesmo,ou seja, independentementedo campo das posições. Ela pretende, com efeito, aplicaromodo de pensamento estrutural (ou relacional) não apenasaos sistemas simbólicos,comoatradição dita estruturalista,mas tambémàsrelações sociais expressas pelos usos
diferenciais desses sistemas simbólicos.
Em umaperspectiva bastante característica do estruturalismo simbólico, Michel Foucault, ciente de que
nenhuma obraexiste por simesma,ou seja, fora das relações que a conectama outras obras, propõedenominar
"campo de possibilidades estratégicas" osistema regulado de diferenças edispersões emcujo interior cadaobra
singular édefinida". Entretanto, nesse sentido, ele émuitopróximo dos semiólogos e dos usos que fizeram -no
caso de Trier, por exemplo –de uma noção como"campo semântico". Ele se recusa a buscar fora do "campo
do discurso" o princípio de elucidação de cada um dos discursos nele inserido: "Se a análise dos fisiocratas
faz parte dos mesmos discursos que a dos utilitaristas, não é porque viviam na mesma época, nem porque se
enfrentavam em umamesma sociedade, tampouco porque seus interesses se confundiamem umamesmaeco
nomia,mas porque suasduas opções decorriamn deuma única e mesma distribuição de pontos de escolha, de
um único emesmocampoestratégico"2. MichelFoucault transfere ao plano do campo simbólico das tomadas
de posição possíveis as estratégias geradas e efetuadas no campo social das posições, recusando-se assim a
relacionar as obras com as condições sociais de sua produção, mesmo daquelas absolutamente específicas que
se determinam no interior do campo de produção:sendomais consciente e mais consequente que a maioria dos
historiadores das ciências, os quais, por não se darem conta da própria questão do mundo científico como mundo
social, permanecem confusos nesse ponto, ele recusa explicitamente como "ilus�o doxológica" a pretensäo de
encontrarno "campo dapolémica"enas divergèncias deinteresses ou de hábitos mentais dos individu0s� 0
princípio do que sucede no campo das possibilidades estratégicas" eque Ihe parece determinado apenaspelas
"possibilidades estratégicas dos jogos conceituais".
Nãose trata, naturalmente, de negar adeterminação própria exercida sobre a orien
tação das escolhas pelos possíveis inscritosemum estado do espaçodas tomadasde po
Sição,pois uma das funçõesda noção de campo relativamente autônomo,dotado de uma
história e,por assim dizer, de uma memnóriaprópria, é descrev�-la. E certo que a ordem
das representações simbólicas, ou melhor,oconjunto dos recursos culturais objetivados,
11. M.Foucault, “Sur l'archéologie des sciences. Réponse au cercle d'épistémologie", 1968,pp. 9-40(espe
Cialmentep. 40), apud Dits et Écrits I (1954-1969),1994,pp. 696-731.
12. M. Foucault, "Sur l'archéologie des sciences...", op. c�.,p. 29.
een,p.37. Nãopodemos deixarde identificar aqui umaestratégia de referência tácita comum, se não de
regra, nas relações entre adversários íntimos.
249
MICROCOSMOS
produtoda história acumulada na objetividade sob a formadelivros,artigos,
,documentoa,instrumentose instituições, cquivalendo a traços ou a realizações
de
teorias,
problemá.ticas ou sistemasconceituais do passado,apresenta-S€coo um mundo
autônomo
que,apesar de nascido da ação histórica, tem suas próprias leis, transcendentes em
relaç�nàs experiências históricas dos indivíduos singulares, propensoa indicar,e
mesmo
impor
a orientação de seu próprio desenvolvimento, mediante o espaço dos possíveis (e
dos
mpossiveis) que seapresenta a qualquer pesquisador competente.
No entanto, nãoé possível conferir-lhe, nem mesmo no casSo das
ciências
mais
avançadas, o poder de se transformar por uma forma misteriosa de
Selbstbewegung que
encontraria seu princípio, como em Hegel, em suas tensões ou contradições intermagle
Esses recursos virtuais só existem e subsistem como capital cultural material le
simbok-
camente ativo nas
e pelas lutas a quedãolugar os campos de produção cultural. -eem
especialocampo científico -enas quais os agentes
mobilizam forças e obtêm
lucros
proporcionais ao domínioque têm desse patrimônio objetivado, logo, na medida de se
capital incorporado.Se não resta dúvida de que a orientação damudança depended
repertório de possibilidades atuais epotenciais oferecidas pelo espaço das tomadas da
posição culturais tal como se apresenta no momento considerado, ela também depende
das relações de força entre os agentes e as instituições que, tendo interesses absoluta
mente vitais nessa ou naquela das pOssibilidades propostas como instrumentos ou m�veis
de luta pela problemáica legítima, seempenham,por todos os meiose poderes de aue
dispõem,em fazer com que entrem em açãoasque maisconv�m às suas disposições e à
Sua posição, comn isso, a seus interesses específicos.
A atualização dos diferentes possíveis depende,com efeito, da capacidade de cada
um de apreendê-los como tais e se apropriar deles, fazendo-osseus. Eles não existem
para oautodidata carente do dominiode todoo saberacumulado do qual o próprio
paço dos possíveis vem a sera manifestação objetivada: emergem na relação entre um
conjuntode recursos científicos objetivados eo detentor dos instrumentos de percepção
eapreciação necessários para apreendê-los como tais. Entretanto, para apropriar-se deles,
sem dúvidaénecessário algo mais,que semanifesta nacorrespondência, constantemente
certificada, entre astomadasde posição virtuais easdisposições dos que as viabilizam.
14. Ashomologias entre campos também se expressam em pares de erros teóricos homólogos: por exemplo,
em história da arte, a oposição entre a história externa de Hauser ou Antal ea pura história das formas, de
Wölflin (que, assim como os historiadores idealistas da ciência, sustenta ser a arte impulsionada por um
movimento autônomo e "autonecessitante"), ou,em história literäria, a oposição entre a história social de
Lukács ou Goldmann ea história do desenvolvimentoimanente do sistema literário proposta pelos 10
listas russos etc. E poderiamos prosseguir com a história das ideias religiosas ou filosóficas. A ls
movimentoautônomo da ordem cultural ressurge em Adorno, que interpreta o atonalismo como produto
do desenvolvimento das tendências imanentesda própria música, do efeito das constrições impost P
material musical e toda sua história sedimentada.
250
AHISTÓRIA SINGULARDA RAZÃO:O CAMPO CIENTÍFICO
Embora possa atuarapenaspelamediação das motivaçõesmais desinteressadas, a atra
cão exercida, sobretudosobre os mais informadosdentre os postulantes, pelos objetos
socialmenteconstituídos como importantesn�ão é independentedos lucros simbólicos
que eles prometem; asescolhas sempre são guiadaspela intuição prática da relação de
conveniênciaque seestabelece acada momento entre os valores atribuídos, na bolsa dos
valores científicos ou acadêmicos,aos diferentes objetos possíveis eaos diferentes pes
quisadores suscetíveis de seapropriar deles. Essa consciência obscuradas possibilidades
objetivamente reconhecidascomo razoáveis aos ocupantes de uma posição determinada,
eque por isso mesmo se Ihes impõem como imperativos práticos, fazcom que os inveS
timentos sejam orientados por uma antecipação prática das chances de lucro que os
diferentes objetos prometem aosdiferentes pesquisadores em funçãodo capitalquedetem,
sem serem objeto de uma estratégia calculada de colocação ",
Observa-seassimque,em um estado determinadodo campo, os investimentos dos
diferentes pesquisadores dependem do volume de seu capital atual e potencial e de sua
posição atual e potencial no campo (inscritana curvade sua trajetória), e isso a um só
tempo em sua importância(mensurável,por exemplo,em tempo dedicado àpesquisa)
eem sua destinação (de risco variável). Segundo uma lógica observadamuitas vezes,
as aspirações-comumente chamadas de "ambições científicas"-são proporcionais ao
capital possuído:a posse do capital conferido pela instituição escolar desde o início da
carreira científica na forma de um título raro implica e impõe,por mediaçõescomplexas,
abuscaporobjetivos portentosos socialmente exigidos egarantidos por esse títulol�. As
sim,osquepretendem mensurar arelação estatística estabelecida entre oprestígio de um
pesquisador eo prestígio deseustítulosacadêmicosde origem, uma vez neutralizados os
efeitosde suaprodutividade'", formulam implicitamente ahipótese de que a produtividade
eo prestígio no momento consideradosão independentes entre si e independentesdos
títulos de origem.Na verdade,uma vez que o título, enquantocapital escolar reconver
sível em capital científico, abriga uma trajetóriaprovável, ele determina, por meio das
"aspirações razoáveis" que suscita, toda a relação com a atividade científica,escolhade
objetos mais ou menos ambiciosos", produtividade maior ou menor, escolhas mais ou
menos abertas de investimentos e produtosetc.
Oprestígio das instituições de ensino não age apenasde maneira direta, "conta
minando"o juízo sobreascapacidadesientíficas
manifestadas pela quantidade epela
qualidade dos trabalhos, nem mesmo, de maneiraindireta, mediante
os contatos com os
15, Sobrea escolhadeum tema edeum orientador de tese, P. Bourdieu, Homo Academicus, op. c�.,p. 125.
16. ldem, p. 126.
t7. Ver, por exemplo, L. L.Hargens
eW.O. Hagstrom,"Sponsoredand
ContestMobility of AmericanAcade
mic Scientists", 1967,pp. 24-38.
251
MICROCOSMOS
professores
mais prestigiosos
s proporcionados poruma escolaridade de escol
(quase
sempreassociada a uma origem social elevada); ele intervémtambém e sobretudo
por
meiodoefeito de consagração(noblesseoblige) que oreconhecimento educacional
inicial
exercesobre os quesãopor ele beeneficiados, destinando-os com isso a um
"futuro
grandioso"ou seja,em virtude das aspirações autorizadasou favorecidas pelas
chances
objetivasmais elevadas associadas auma escolaridade excepcional (ou, pela mesma
1ógica,aumaorigem
social elevada emparelhada a títulos escolares iniciais de peso
semelhante).
Eis porque,por exemplo, a oposição entre os investimentos segurosda
pesquisaintensivae especializada e os investimentosarriscados da pesquisa extensiva -
que, n0caso da fisica, analisado por Fred Reif, consistem em se informarsobre os
desdobramentoscientíficos ocorridos forados limites estritos da especialidade, em vez de se
limitar
numa
direção de pesquisajácomprovada, e que podem darem nada oufornecer
analogias fe
cundas,capazesde fundamentar vastas sínteses teóricas -corresponde a oposição entre
trajetórias elevadas e astrajetórias baixas nos campos educacionalecientífico. Da
mesma
forma,atransformaçãoda atividade científica que em regra acompanha oenvelheciment
eaevoluç�o ao longo dotempodas estratégias científicas,como, por exemplo, atrans.
ção do investimentomaciço eextensivo apenasna pesquisa ao investimento moderadoe
intensivo na pesquisa, associadoa investimentos na administraçãocientífica, devem ser
atribuídas, não ao efeito direto da idade–nomínimo porque cada campodefine suas eis
própriasde envelhecimentosocial!%-, mas à importância do capital científico possuído:
com efeito, é ele que, definindo a cada momento as chances objetivas de ganhos nesse
ounaquele setor de atividade possível, administração ou investigação, pesquisa pura o�
aplicadaetc., define asestratégias "razoáveis"de investimento ede reconversão.
Entre os fatores que levam o capital a reforçar ocapital, um dos mais importantes
é, sem dúvida,que os detentores de um grande volume de capital específico se sentem
autorizadosemesmo obrigados(sempresegundo alógica do noblesse oblige) aos investi
mentos arriscados, geradores dealtos lucros simbólicos, conforme lhes sugereo sentimento
desua dignidadeparticular. Em sentido inverso, os "seguidores" propensospor seu fraco
capital àprudênciaeà dependência,tendem a percebercomo interessante e importante
oque ésuscetível de serreconhecidocomo tal pelos outros e, em particular,pelos que,
sendo reconhecidoscomo importantes, estão bem posicionados a impor a hierarquiados
problemas eobjetos importantes. Ao convergir para os objetos que Ihes sãodesignados
como prestigiosos, sobretudopelo interesse neles depositadopelos pesquisadores de
18. A análise estatistica mostra,por exemplo, que, no tocante às gerações passadas, a idade máxima o
dutividade cientifica sesituava entre 26e 30anos entre os químicos, entre 30e 34 entre os fisicoS
matemáticos,entre 35e 39 entre os bacteriologistas, geólogos efisiologistas (H. C. Lehman, g
Achievement, 1953).
252
AHISTÓRIA SINGULARDA RAZÃO:O CAMPO CIENTÍFICO
maiorprestígio, eles contribuema determinar uma concentração dos investimentos que,por sua vez, determinauma intensificação da concorrência, de molde a acarretar uma�ueda das taxas de lucros materiais esimbólicos.
Vemos entãoquea ideia dedescrever aspropriedades genéricas dasdiferentes tasesda "carreira científica", até mesmo acarreira média" em um campoparticular", n�o
fazmuito sentido. De fato, toda trajetóriaadquire significadoe valor objetivo e subje
tivo a partir da posiçãoocupada na estrutura do sistema das trajetórias compossÍveis".Uma descrição limitada às características genéricas de uma carreira "qualquer"acaba
poromitiroessencial, fazendodesaparecer asdiferenças", A diminuiçãoda quantidade
e da qualidadedas produções científicas à medida que envelhecemos,observada no
caso das "carreiras médias".
equeaparentementesecompreende quando seadmiteque
o aumento do capital de consagraçãotende a reduzir a urgência da alta produtividade
necessaria a obte-lo, mascaraasdefasagens - que,do pontode vista dos efeitos psicol�
gicosesociais, sãooessencial- entre ascurvas das diferentes trajetórias,em particular
entre a desmotivaçãorelativamente rápida sucedida em carreiras inferiores ou médiaseo
incentivo prolongadoaoinvestimento garantido pelas carreiras mais prestigiosas: apenas
as carreiras científicas de maior prestígio garantem até o fim o capital simbólicoque,
porcontadas obrigações aí exigidas, em especial as ligadas à defesade um estatuto, em
regra demanda anovos investimentos.
Capital ePoder Sobreo Capital
A luta ocorre entre agentes desigualmente dotados de capital específico, logo,
em condiçõesdesiguais de seapropriar dos recursos herdados do passadoe,ao mesmo
tempo,dos ganhosdotrabalho científico queo conjunto dos concorrentes produzem, por
sua colaboraçãoobjetiva na implementaçãode todos os meios de produção científica
19. Ver F. Reife A.Strauss, "TheImpact of RapidDiscoveryupon the Scientist's Career", 1965, pp. 297-311.
A comparação sistemática desse artigo -no qual o fisico colaborou com o sociólogo -com o que fora
escrito anos antes pelo fisico (F. Reif, "The CompetitiveWorld ofthe Pure Scientist", 1961,pp. 1957-1962)
mostra como a imposicáo da teoria das profissóes", que nada mais € do que a retraducáo semierudita
deuma representação nativa, tendea suprimir qualquer referência ao campo comoum todo e, em parti
cular, ao sistemadas trajetórias (ou das carreiras) que confere a cada carreira singular suas propriedades
mais imnportantes.
20. Ver B. G.Glaser, “Variations in the Importance of Recognition in Scientist's Careers", 1963, pp.268-276.
21. Segundo Gottfried Wilhelm Leibniz(1646-1716),o queépassível de coexistir de maneira integrada no
mundo real comoum conjuntode possibilidades concretas e realizadas, em contrasteàjustaposição de
posibilidades imagináveis, porém incompatíveis na realidade objetiva (N.ED.).
22. Ver P. Bourdieu,Les catégories de l'entendement professoral", 1975,pp. 68-93.
253
MICROCOSMOS
disponfveis.
Setodos os participarntes
precisampossuir
um
capital
propriamente
ciient-ficn, tanto mais importante quanto maiores os recursos
científicos
acumulados
(em
dadomomento emum subcampo determinado),
pode acontecerqueum pequeno
número deagentes ou instituiçõesdetenha
um volume de capital suficiente para
exerce um
podersobre o capital possufdo pelos outros agentes, mediante o poder quetêm dde
agir
sobrea estruturada distribuição
das chances de lucro, impondo como norma
universal dovalor das produções científicas os princípios mobilizados emsua
prática, na
escolha deseus objetos, de seus métodos etc. Constatamos assim,entre outras
manifestações
dessepoder, que os dominantes consagram certos objetos ao lhes
dedicarem seus
investimen-tos, e que, por meio do próprio objeto de seus investimentos,tendem a
influenciaraestrutura das oportunidades delucro e, por conseguinte, os
ganhos
proporcionados
pelos
diferentesinvestimentos.
Na concorrência que os contrapõe, os pesquisadores, Ou pelo
menos OS
maSricos emcapital específico, se esforçam não só por obter os
melhoresganhos
para
suasproduções nos limites do modo de formação dos preçosem vigor, mas
também porpromover o modo deformaçãodos preços mais favorável 1 às
capacidadesde
produção
que detêm atítulo pessoal ou institucional, por exemplo, como antigosalunos de
umaparticular instituição educacional ou como membros deuma
instituição
científica
determinada. Deforma mais concreta, eles tentamimpor a definição de
ciência maisajustada a seu interesse específico, ou seja,a mais indicadaa lhes
permitir
Conservarou aumentarseu capital.
Eis porque os debates sobre a prioridade das descobertas com muita frequênciasecontrapõem aquele
que descobriu o fenômeno até então desconhecido, mas apenas como uma simples anomalia,umafalha das
teorias existentes, àquele queotransformou em verdadeiro fatocientífico ao incorporá-lo emumaconstrucão
teórica. Nessas discussões políticas sobre odireito de propriedadecientífica, que são tanto debates científicos
sobre o sentido do queé descoberto quantodiscussões epistemológicas sobreanaturezada descobeta científica,
confrontam-se, na realidade, pormeio dos
protagonistas em liça, dois princípios de
hierarquização das práticas
científicas, um
conferindo primazia à observaçãoe à
experimentação, logo, às
disposiçõeseàs capaciades
correspondentes, eooutro
privilegiando a teoria e os
"interesses" científicos
correlatos, debateque nunca
deixou de ocupar ocentro da reflexão
epistemológica. De maneira mais geral, se as lutas
epistemologes
sobre a
hierarquia dos momentos da
abordagem científica, apesar de serem todos igualmente decisivos -
teoria ou
experiência,
construção das
hipóteses ou
elaboraçãodos procedimentos de verificação, explicaçio
pelo
estabelecimento de leis formais ou
descrição
metódica –, ou ainda a respeito da importância relativa dos
problemas edo valor
relativo das
diferentes
metodologias envolvidasem sua resolução, às vezes atingem um
nível de
violência
�ramática queasassemelha às guerras
religiosas. Isso acontece Porque,lendocomo
móvel
23. A cada
momento,
existe uma
hierarquia
social dos
subcampos cientificos -as disciplinas -que orienta
fortemente as
práticas, em
particular as
escolhas" de
vocação",,,no interior de cada um delcs,
una
hierarquia
social dos
objetos e
métodosde
tratamento.
AHISTÓRIA SINGULARDA RAZÃO:0CAMPO CIENTÍFICO
em iogo a própria definição da ciencia, ou seja, os princípios da construção do objeto de estudo como objeto
oientfficoe da delimitação dos problemnas pertinentes e dos métodos a serem empregados para resolve-los e
avaliar a exatidão das soluçðes, tais lutas se referem ao princípio fundamental do valor das diferentes espécies
de capital científico (muitas vezes descritas como formas de "temperamentointelectual"), tocando assim em
questões de vida ou morte científica.
A definição do que está em jogo na luta científica (especialmente a delimitação
dos problemas, métodosemodos de expressão que podem ser considerados científicos)
faz parte dos móveis em jogona luta científica. Os dominantes sãoos que têmo poder
de impor a definição de ciência segundoa qual a realização maiscompletada ciência
consiste em ter, serefazer aquilo que eles têm, são oufazem.Ao contrário da represen
tação da ciência maiscomumente aceita pelos sociólogos daciência, propensa a reduzir
asrelações específicas de dominação àsrelações entre um "centro" e uma "periferia",
segundoa metáfora emanatista, cara a Halbwachs,da distância em relação ao "abrigo"
dos valores centrais, a ciência oficial nãoéo sistema de normas e valores reconhecido
por unanimidadeque a "comunidade científica",grupo indiferenciado, imporia e in
culcaria a todos os seusmembros, para obem da ciência e da "comunidadecientífica",
sendoa anomia revolucionária atribuída exclusivamente aosmal-sucedidos em matéria
de socialização científica.
Eprecisamente porque a definição do que está em jogo na luta émóvel de luta, mesmoem ciências
nas quais o consenso aparente sobre os móveisemjogoémuito elevado, que constantemente nos defrontamos
com a antinomia da legitimidade: seja no campo científico ou em outros, não existe instância a legitimar as
instâncias de legitimidade, e as reivindicações de legitimidade têm um peso proporcional à força simbólica
dos grupos cujos interesses específicos expressam. Podemos perceber, assim, a ingenuidade da técnica dos
"juízes" a que a tradição sociológica recorre para definir "objetivamente" as hierarquias características de um
campo determinado (hierarquia dos agentes ou das instituições -como as universidades nos Estados Uni
dos, hierarquia dos problemas,domínios ou métodos,hierarquia dos próprios campos etc.). Essa técnica se
inspira na mesma filosofia da objetividade que o recurso a "especialistas internacionais" (como se a posição
de observador estrangeiro excluísse afinidades ou incompatibilidades de interesses relacionadas às posições
respectivas do juiz e das partes em um campo científico que, sem excluir os antagonismosentre tradições e
interesses nacionais, enão raro em funçãodosjogosde alianças que permitem,tende a se unificar, de maneira
desigual segundo as disciplinas).
24. Ver por exemplo J. Ben-David, The Scientist sRole in Society, 1971,e E. Shils, "Centerand Periphery"
1961, pp. 117-130.
25. Basta ignorar as diferenças de capital eos antagonismosde interesses, fazendo da "comunidade científica"
o sujeito das práticas, para cair no "funcionalismno", o qual esquece que as funções, assim concebidas,
funcionam primeiramenteno interesse dos dominantes(no interior deum campo determinadoou do campO
social comoum todo). Assim, um autor como Kuhn, que incorporaoconflito em sua teoria da evolução
cientifica, nem sempre escapaao "funcionalismo"; "Uma comunidade de especialistas sempre darå o seu
melhor para garantira progressãodo acúmulo de dados que ela pode utiliza com precisão e em detalhes
(T.Kuhn, La Structure des révolutions scientifiques, op.cu,p. l66).
255
MICROCOSMOS
AS revoluçõescientfcas,que alteram a tabela dos valores epistemológicos, lte.
ramsimultancamente a hierarquia dos valores sociais associadosàs diferentes formas
de prática científica,logo,a hierarquia social das diferentes categorias de
cientistas: o
novoregime científico redistribui por completo os significados
e valores associados às
diferentes escolhas científicas,impondo novas normas deinterpretação
enovas categorias
de percepção e apreciaçãoda importância. Como numa dessasreestruturações percep
dvastacultadas por formas ambíguas,oque era central se torna marginal, secundário
tnsignificante, enquanto objetos, problemasemétodos até entãoconsiderados
menores
e, por isso, relegados a agentes menores e secundários,
são trazidos ao primeiro planona
noalta, proporcionando
aos que estão af vinculados repentina visibilidade.
As Variações Segundo oGrau deAutonomia
Quanto maioraautonomiado
domíniocientíficoem causa, maisplenamentese afir
mam tais princípios de funcionamento. Ograude autonomia varia, diacronicamente,
con
forme osestados sucessivos do campo científicoe,sincronicamente,
segundoos subcampos
(disciplinas) eovolume dos recursos científicos acumuladosem estado objetivado, oqual.
porintermédio do capital incorporado necessáio à apropriação desses recursos, institui uma
clivagemrelativamente
nitidaentre profissionaise le�gOS, uma censura reciproca algo intensa
entre ospesquisadores, eem funçãoda intensidade das constrições econtroles exercidos.
direta ou indiretamente, por poderes externos, oque parece depender do grau em que as
revelações daciência sejamsuscetíveis
deafetar asrepresentações legítimas do mundo social.
Se admitirmosque ograu de autonomia
de um campo em relação às determina
Ções externas pode ser medido pela parcela de arbitrário social englobada no sistema
dos pressupostos constitutivos de sua própria crença, podemos situar qualquercampo
científico-odasciências sociais ouoda matemáticahoje, assimcomo oda alquimiaou
da astronomiamatemáticana época de Co�pémico -entre os dois limites representados,
de um lado, por um campo científico do qual todoelemento arbitrário (ou impensado)
social fosse banidoecujos mecanismos sociais realizassem a imposição necessária das
normas universais da razão e,de outro, pelocampo jurídico ou ocampo religioso, espe
cificamente orientados para a imposição legítima (ou seja, arbitrária e não reconhecida
como tal)de um arbitrário cultural que expressaointeresse específico dos dominantes.
Quanto maior a autonomia do campo,mais as lutas pelo poder sobreo capital,
em particular asrevoluções científicas que constituemn sua forma paroxística, tendem a
confinar-se ao terreno propriamentecientífico (muitoembora,como acabamos de ver,
possam acarretar consequênciasnas relações de forçasimbólicano interior do campo).
Nos setores docampo científico que alcançaramomais alto grau de autonomia,odireito
256
A HISTÓRIASINGUIARDA RAZÄO:0CAMPO CIENTÍFICO
de entrada
tende a tornar-se tão oneroso que os produtores sótêm comoclientes possí-
veis seus concorrentes eo único poder efetivo é o conferido pela competênciacientífica
reconhecida
pelos pares concorrentes.
Nesse caso, quem recore a umaautoridade exterior ao campo expõe-se ao descrédito. Segundo Fred
Reif, os que,empenhados
em ver seu trabalho publicado o mais
rapidamente possível, recorremà imprensa
diária (importantes
descobertas na física foram anunciadas no New York Times) suscitam a reprovação dos
pares-concorrentes
em nome da distinção entre publicaçãoe publicidade, a qual também orienta as atitudes
lacão a certas formas de divulgação, sempre sob suspeita de não passarem de formas eufemizadas de
autopromoção.
Basta a citar os comentários do editor da revista oficial dos físicos americanos:"Por cortesia aos
aleoas.os autores costumam impedir qualquerforma de divulgação pública de seus artigos antes que tenham
sido publicados narevista científica. As descobertas científicas não são material I sensacionalista para osjornais,
todos os meios de comunicação de massa devem ter acesso simultaneamenteà informação. A partir de agora,
ortanto,recusaremos os artigos cujoconteúdo já tenha sido publicado na imprensa diáia"26,
O capital de autoridade científica funciona como um capital simbólico de reconhe
cimento que vale, antes de mais nada, e às vezes exclusivamente, nos limites do campo
(emborapossa ser reconvertido em outras espécies de capital,em particular em capital
econômico):opeso social deum cientistatende avariarem funçãodo valor insigne de seus
trabalhos ou da originalidade, no sentido dateoria dainformação, queseus pares-concorren
tes reconhecememsua contribuição". Asim como uma marcade renome,onome próprio
famosoque simbolizaesse capital confere valor aosprodutos aosquais éaplicado, o que
fazcom que seja buscado por si sóepela garantia que representa, porparte dos editores de
grandes coleções científicas,os organizadores de abaixo-assinados e até mesmo partidos e
governos. O conceito de visibility, utilizado na tradição acadèmicaamericana,evoca bem
ovalor distintivo dessecapital como que concentrado em um nome, um nome conhecidoe
reconhecido, emblema que logode saída distingue seu portador, arancando-o de maneira
ostensiva ao fundo indiferenciado no qual pesquisadores sem renome seperdem (donde,
semdúvida, a frequênciadas metáforasperceptivas, cujo paradigma consiste na oposição
entre brilhante eobscuro,na maioriadas taxinomias escolares)28,
26. F. Reif, "The Competitive World of thePure Scientist", pp. 1957-1962, 1961.
27. Donde, também, as dificuldades encontradasnas pesquisas sobre intelectuais, cientistas ou artistas, tanto
na própria pesquisaquanto na publicaç�o dos resultados: proporanonimato é fazer desaparecera principal
motivaçãoparaa participação em uma pesquisa: não o propor, segundo o modelo da pesquisa literária ou
da entrevista, évedar a formulação de perguntas rasteiras, objetivantes e redutoras, de antemão excluídas
da interrogação pessoal. A publicaçãodos resultados apresenta problemas similares, porque o anonimato
tem o efeito de tornar o discurso ininteligível ou transparente, dependendo do grau de informação dos
Ietores (nessecaso,isso éainda mais elevante quando muitas posições contam apenas com um elemento,
um nomepróprio).
0.LA. Zuckerman, "Patterns of Name Ordering amongAuthors of Scientific Papers:A Study of Social
Symbolism and itsAmbiguity", 1968. pp. 276-291.
257
MICROCOSMOS
Alógicada distinção funciona por inteiro no caso das assinaturas múltiplas que, como
tais,
reduzem
o nkrinsignc atribufdo a cada um dos signatários. Eis porque, para
entender as observações de
HarrietA.
Zuckeman sobre os "'padrðes de classificação entre os autores de artigos científicos,
basta
supor queelas säo
produto dc estratégias (sem dúvida inconscientes)
tendentes a minimizar
a perda de valor distintivo.
associada
pluralidade de assinaturas impOsta pelas necessidades
da nova divisão dotrabalhocientífico, Podemos
explicar
o fato de que os contemplados com o Prêmio Nobel não sejam nomeados com mais frequência em
primeiro
lugar que os outros, como se poderia esperar,
considerando-se
que os autores são normalmente
citados na
ordem do valor relativo desuacontribuição,
sem invocar a moral aristocrática
do noblesse
oblige. Comoa
visibilidade de um nome em uma série depende, em primeiro lugar, de sua visibilidade
relativa.
definida pelo
status que ocupa na lista e, em segundo lugar, de sua visibilidade
intrinseca, que resulta do fato,já
conhecido,
de ele sermais facilmente reconbecido elembrado (umdos mecanismos que fazem com que o capital refo
capital), é lógico que a tendência de conferir a outros o primeiro lugar aumente a medida que também aure
ocapitalpossuído,logo,olucro simbólico automaticamenteassegurado
a seu detentor, a despeito da orden
designaç�ão. E temos uma confimação do modelo no fatode oslaureados cederem o primeiro lugar com maior
frequênciadepois da obtenção do prêmioe de sua contribuição àpesquisa premiada ser mais visivelmens.
marcada que a parte que lhes coube emsuas outras pesquisas coletivas.
O campo científico tem, portanto, suaspróprias leis, que nada têm a ver com a
moral.Sob pena de registrar apenasa representação que os agentestêm de si mesmos
épreciso saberreconheceras estratégias de segunda ordem pelas quais, em universos
em que se tenha interesse no desinteresse, eles tendem a dissimular -sem dúvida a et
mesmos,paracomeço deconversa-as suasestratégias.Naverdade,aautoridade proDria.
mente científica conferida pela possede um capital considerável dereconhecimentodeve
contar cada vez mais com opoderinstitucional (oqual pode serproduto da reconvers�o
de uma autoridade científica presente ou passada)sobreas instituições incumbidasdeasseguraraproduçãodos benscientíficos (laboratórios etc.), a reproduçãodos produtores
ou reprodutores e dos consumidoresdesses bens (o sistemade ensino)e sua difusão ou
consagração(especialmente asrevistas científicas), à medida que a autonomia do campo
diminuie os poderes institucionais podem se apresentar ese impor como autoridades
científicas (sobretudo porque os critérios específicos da realização científica não são
claramente enunciados)?°.
Pela seleção que efetuam emfunção dos critérios dominantes, as revistas tendem a consagrar as pro
duçõesconformes aos princípios da ciência oficial, oferecendoassim,em regra, oexemplo do que merece ser
29. Eis porqueossignos da dependênciadas hierarquias internas emrelaçãoàs hierarquias externas, como, por
exemplo,o rendimentonomercado científico do capital social herdado ou adquirido,e o peso relativo dos
atributos do poderpropriamentetemporal sobreos instrumentosde produção ereprodução nesse misio
taxa variável dejustificações técnicas edejustificações sociais que fazocapital especifico dos professor
do ensino superior, aumentam continuamentequando alguém se elevanahierarquia propriamente lenp
das faculdades, desde afaculdade de ciências, depois de letras e ciências humanas, até as faculdades
de
medicinae sobretudo de direito.
258
AHISTORIA SINGUILARDA RAZÄO: 0 CAMPOCENTÍFKO
chamado
de ciência, ea exercer uma censura de fato sobre as produçôes heréticas, ofra rejeitando-as expres
samentc,
ora descncorajando a intenção de publicação mediante a definiçãâo do que seja publicável". Tudo
leva a crer
quc, assim como no campo literário, Os autores sclecionam os lugares de publicação, consciente ou
inconscientemente,
com base na ideia quctêm das respectivas exigências explícitasiouimplícitas. Isso significa
quc a auto-exclusâo.
embora menos perceptível, sem dúvida é pelo menos tãoimportante quanto a eliminação
expressamente
Cxercida pela ação dos gate-keepers (cujo efeito principal consistiria na imposição de uma
norma
socialmente reconhecida do publicável).
Aambiguidadedos mnóveis emjogo,inscritana relação de autonomiarelativaeem
auaisquer formasdedependêncianaepela independência, fazcom que asestratégias dos
agentes tenham dupla face, científica e política, assimcomo as motivações a que
obedecem.
Adistinção estabelecida por Merton (falando das ciências sociais) entre conflitos "so
ciais"(envolvendo"aalocação dos recursos intelectuais entre diferentes tipos detrabalho
sociológico" ou"opapel adequado ao sociólogo") econflitos "intelectuais", "oposições
de ideias sociológicas estritamente formuladas", representa de modo preciso uma dessas
estratégias aum sótempo sociais eintelectuais pelas quais a sociologia oficial pretende
garantir a respeitabilidade acadêmica ao impor uma delimitação do científico e do não
científico de molde a interditar como desrespeito ao decoro científico toda indagação
propensa aquestionar os fundamentosdesuarespeitabilidade³!,Uma análise que tentasse,
nesse caso, isolar uma dimensão puramente política" nos conflitos científicos seria tão
radicalmente falsa quantoa abordagem oposta, mais frequente, de levar em conta apenas
asdeterminaçõespuras"etão somenteintelectuais desses conflitos.A título de exemplo,
aconcorrência em que secontrapõem os especialistas pela obtençãode financiamentos
e recursos de pesquisa nuncasereduz a uma simplesluta pelo poder propriamente"po
lítico": os que lideram asgrandesadministrações científicas são obrigados a impor uma
definição depesquisa segundo aqual a maneiracorreta de fazer ciência supõe a utilização
dos serviços deuma grandeburocracia científica,dotada de financiamento,equipamnentos
técnicos avançados,mão de obra abundante,e a constituir como metodologiauniversal
e eterna a pesquisapor sondagem juntoa vastas amostragens,a análise estatística dos
30. Ver D.Crane,"TheGate-keepersof Science:Some Factors Affecting the Selection of Articlesfor Scientific
Journals", 1967,pp. 195-201.
31. R. K. Merton, The Sociology of Science, 1973, p. 55.Na verdade, sempre que um conflito de dimensão
propriamente científica envolve móveis econômicos e políticos, como ésempre ocaso,por definição, nas
ciências sociais, aoposiçãoentre os detentores da autoridade oficial -porexemplo, no casoda fluoridação,
analisado por Sapolsky, os health officials que se consideram os únicos competentesem matéria de saúde
pública -eos adversários dessa inovação -entre os quais muitos cientistas, que no entanto, aos olhosdos
funcionários, ultrapassam "os limites de seu terreno própriode competência" - se manifesta com toda
Clareza. Nesse caso,é evidente que omóvel da luta é umn poder, a "competência",que seexerce não só no
campo, mas tambénm fora do campo, sobreos leigos, logo,um poder inseparavelmente científico e político,
um poder político exercido enm nome da ciência (H M.Sapolsky,"Science,Voters and the Fluoridation
Controversy", 1968,pp. 427-433).
259
MICROCOSMOS
dados e aformalização
dos resultados, emsuma, a instaurar como medida
de
toda
práica
cicntíficao
padrâo maisfavorávelàs suas capacidades pessoais e
institucionais.
Aconfusâode poderes étanto mais fácil na medidaemque há lugar,emt
todo
campo,
para estratégias
científicas que, baseadasem uma adesãoinquestionável à
ordem
científica
estabelecida,
estão em.afinidade com a ocupação de posições de poder no interior
do
camp0.
Ainvenção de uma arte de inventarjáinventada, que resolve quaisquerproblemas.
SUscett-
veis de serem formulados noslimites da problemáticaestabelecida, comisso
ocultando0 a0
mesmotempo os problemas aí excluídostacitamente, convém perfeitamente a uma
ciência
institucionallea cujas disposições dóceis (especialmente os oblatos, votados e
devotados
ao sistema orientam rumo às investidas certeiras das estratégias desucess�o,
aptas alhes
garantir,ao fimde uma carreira previsível, os ganhos prometidosaos que cumprem oi
ofcial da excelência científica ao preço de inovaçõescircunscritas nos limites
autorizados.
Quando os poderes institucionais vigentes nocampo científico estão
comprometidos
apoderesextermos, políticos ou econômicos,ainvençãoherética a questionar osprincio
da ordem científica antigaétambém uma estratégia de subversão direcionada conta
ordem científica estabelecida no campo e,por meio dela, contra a ordem social de oue
ésolidária. A medida que aumenta a autonomia do campo, as estratégias de subversi
embora continuem enraizadasem disposições heréticas, não precisam ser tão radicaie
e globais como nos estágios mais antigos dos campos mais autônomos ou nos
campos
menos autônomos do presente.
As análises que relacionam diretamenteas obras culturais (científicas, artísticas, literárias etc.) ans
fenômenos econômicos e sociais, ignorando os efeitos específicos do campode produção, são tanto menos
redutorase deformantes quando seaplicam a situações nas quaiso campode produção cultural está menos esta
belecido.Quanto às análises de campo, devem sempre levar em conta as condições externas que atribuem ao
campo seus pressupostose que,mesmo no casodos campos que alcançaram um graumuito alto de autonomia,
definem (ainda que negativamente,por falta de demanda ou de controle) as constrições estruturais impostas à
lógica específica docampo.
Por conseguinte,historiadores e sociólogosda ciência se ariscam a universalizar o caso particular
(aquele tomado diretamente por objeto). por não perceberem as suas propriedadesestruturais e morfológicas
derivadas de sua posição nesse processo.Assim, ésem dúvida por equiparartacitamentea ciência à fisica
contemporânea que a teoria positivista lhe confereopoder de resolver todas as questöes que coloca, desde que
sejam formuladas em termos científicos, ede impor,pela aplicação de critérios objetivos, oconsensosobre suas
soluções:desseponto de vista, o progressodeum sistemaa outro-deNewton a Einstein, por exemplo-ocome
por mera acumulação de conhecimentos,por refinamentodas medidas e retificação dos princípios. Quantoà filo
sofia da históriada ciência propostapor Kuhn no contrapéda visão positivista, decerto se aplica às revoluçoes
inauguraisda ciência iniciante, particularmente a "revolução coperniciana" analisada por ele e considerada
"úpica de qualquer outra grande mudança da ciência "",Assim, a relativa autonomia da ciência em relaço 0
32. T. Kuhn, LaRévohutioncopernicienne, 1973 (1957],pp. 153e162.
260
AHISTÓRIA SINGULARDA RAZÃO:0CAMPO CIENTÍFICO
poder, em particular em relação à lgreja, sendo ainda muito frágil a revolução científica (na astronomia ma-
temática) passa por uma revolução polftica. Como o campo da astronomiaemque ela se manifesta ainda esta
"mergulhado em relações sociais" (embedded in socialrelationships), segundo a expressão usada por Polanyi
a propósito
do mercado das sociedades arcaicas, a revolução copernicana deve necessariamente reivindicar a
autonomia de um "mercado autorregulado" (self-regulating marke) paraum campo cientfico ainda "imerso"
no campo religioso (e filosófico) e. por meio dele, no campo politico. Essa reivindicação se expressa pela
afirmaçãodo dìreito dos cientistas de resolver as questõescientíficas ("a matemática paraos matemáticos").
emnome da legitimidadeespecífica que lhes que lhes confere sua competência.
Enquantoo método científico ea censuraou a assistência que ele propõe ou impöe
não forem objetivadosem instituições edisposições específicas, as rupturas cientiticas
assumem necessariamenteo feitio de rupturas políticas.Em sentido inverso, quando vem
aserexcluido,graçasàsconquistasdessas revoluções originárias, todo e qualquerrecur
so a armas ou poderes,mesmo puramente simbólicos, a não seros geradosno próprio
campo, éo própriofuncionamento do campo que define cada vez mais completamente
não apenas a ordem ordinária da "ciência normal".mas também as rupturas extra-ordi
nárias, as "revoluçõesordenadas",como diz Bachelard, inscritas na lógica da história
da ciência, ou seja, da polêmica científica. Quando a censura das pulsões sociais não
cientificamente sublimadas inscreveu-se progressivamente na estrutura do campo e nos
mecanismos que controlam a entrada nele, também esobretudoem recursos específicos
cada vez mais completamente objetivados em procedimentosformalizados(em espe
cial,os matemáticos),a revoluçãocontra
aciência instituída ocorre com aajudade uma
instituição que forneceos instrumentosda ruptura com a instituição: ocampo torna-se
lugar deuma revoluçãopermanente,mas cada vez mais destituída de efeitos políticos*,
Como o equipamento intelectual necessário para fazer a revolução científica
só pode ser adquirido na e pela cidade científica", a revoluçãopermanente
pode se
associar, sem contradição,ao "dogmatismo legítimo"%, � medida que aumentam os
recursos científicos acumulados, odireito deentrada, em regra, fica mais oneroso,e o
acessoaos problemas einstrumentoscientíficos,
logo, à concorrênciacientífica,
exi
33.Como Bachelard e Reif (iácitados), D.Bloor percebeu que as transformações na organização
social da
ciência determinaram uma transformação da natureza das revoluções científicas (cf. D. Bloor, "Essay
Review; Two Paradigrnsfor Scientific
Knowledge?", 1971, pp. 101-115).
34. Por isso mesmo o caso da fisica moderna pode servir de argumento tanto àrepresentação
"continuísta"
de tipo positivista (mencionada anteriomente)
quanto à visão "descontinuísta"
defendida por Stephen
Toulmin segundo oqual a ciência avança por uma série de microrrevoluções(cf.
S.Toulmin, "Conceptual
Revolutionsin Science",
1968, pp. 331-337
eHuman Understanding.
t. 1, 1972).
35. Isso também éverdadeiro em um campo
artístico fortementeautônomo,
maso campo científico
deve sua
especificidade
-em especial
sua forte cumulatividade
-ao fato de as construções nascidas da tentativa de
superaro traballho
dos antecessoresdevem,
maisqueem outros contextos,
conservar,de forma
reestrutu
rada, aquiloque superam.
36.G.Bachelard,LeMatérialisme rationnel, 1953,p. 41.
261
MICROCOSMOS
ge um capital incorporadocada vez mais substancial.
Segue-seque a oposição, entre
asestrat�gias de sucessão e de subversãotende
cada vez mais a perder seu
sentido,
pois a acumulação do capital necessário ao sucesso
das revoluções
e a aquisição do
capital asseguradopelas revoluções bem-sucedidas
tendem cada
vez mais a se
realizar
segundo os procedimentosregrados de uma carreira.
Osresponsáveis
porrevoluções
científicas são recrutados entre Os mais bem dotados
cientificamente
e não entre os
recém-chegados mais destituídos. Sabemos, assim, que
asrevoluçõesinaugurais, que
deram origem a novos Campos constituindo
novos terrenos
de objetividade. quase
sempre foramobra de detentores de um forte capital
específico
os quais, em virtude
da filiação auma classe ou a um grupo étnico
ou religioso
improvável
nesse universo,
encontravam-senuma posição emfalsopropícia
a favorecer
disposições pouco con-
vencionais e nada conformistas. Libertos
das pretensões
estatutárias
que suscitam em
outros o temor da infração,eles não hesitaram,
como Fechner,
Freud ou Durkheim,em
investir,em áreas do espaço científico
consideradas
inferiores,
um forte capitaltécnico
acumulado em um campo socialmente
superior.
No entanto, eles não renunciaramàs
grandesambições associadas à sua posição
de origem, o que os levou a recuperar seu
estatuto inicial, ao realçar com seu trabalho
científico
a nova disciplina que tiveram
de criar parase realizar".
A questãoda autonomia
edasrelações entre asrevoluçõesespecíficas
eas revolu
çõespolíticas coloca-se, naturalmente, demaneiramuitoparticular
nas ciências do mundo
social. Primeiro, porque todos os poderes -em especial, os poderes simbólicos-não
podem deixarde sesentir ameaçadospela
existência deum discursocom pretensão de
deter a verdadesobreo mundo
social,sobretudosobre
os poderes:os redutosde
poder.
temporaisou espirituais,desejam discursos ordenados e subordinados aos imperativos
de sua própria reprodução, como técnicas aplicadas de governança ou instrumentosde
legitimação. Além disso, essa demanda externa, tanto em sua dimensão negativa quanto
napositiva, sempre encontra respaldo no interiordos camposdeprodução
cultural,junto a
todos os que têm interesse naheteronomiaeque
podem recorrer auma categoria específica
de leigos paraconferir àsuacausa uma força social deque ela não pode seassegurar no
confrontocom ospares-concorrentes. Assim,nas disciplinas científicas mais vulneráveis
àssolicitações da demanda social porserviços técnicos ou simbólicos,costuma esboçar-se
aoposição, característica dos campos de produção literáia ou artística, entre um camp0
deproduç�ão restrita, que constituiseupróprio mercado,eum campo de grande produção,
com produtores que oferecem serviços ideológicos aos dominantes,como consultores
37. J. Ben-David,"Rolesand Innovation in Medicine",American Journal of Sociology,65,1960,Pp. 557-508;
J. Ben-David e R. Collins, "Social Factors in the OriginsofaNew Science: The Case of Psychology
1966, pp.451-465.
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AHISTÓRIA SINGULARDA RAZÃO:O CAMPO CIENTÍFICO
especializados ou "ideologias científicas", no sentido deGeorges Canguilhem", ouque,
esquivando-se
ao confrontocom os concorrentes, dirigem-se aos leigos e obtêm dessa
relacão direta uma forma depoder simbólicoque podem tentar exercer no próprio terreno
da discussão científica.
Nessa lógica, osjornalistas, capazesde concederumaforma particular de consagração, aconferida pela
notorñedade juntoao grande público, estão emcondiçõesde dificultar ainda mais o entrincheiramento do campo
de produção restritoea afimação dos critérios e hierarquias que lhe são próprios. Portanto, não épor acaso
one nos setores mais autônomos do campo científico o contato direto com os leigos (pormeio das atividades
de vulgarização, por eXemplo) seja objeto de um verdadeiro controle coletivo: os pesquisadores consagradose
Os recém-chegados tendem a se abster mutuamente de qualquer forma de vulgarização capaz de lhes oferecer
umaoportunidadede converter sua autoridade