Prévia do material em texto
PASSOS DO PROCESSO PSICODIAGNÓSTICO - CAPÍTULO 11 O psicodiagnóstico pede perguntas específicas, cujas respostas se estruturam em hipóteses que serão confirmadas ou não durante o processo. Geralmente o encaminhamento é o ponto de partida, pois qualquer pessoa que faz um encaminhamento para um psicólogo o faz sob o pressuposto de que este paciente apresenta problemas de explicação psicológica. A expressão pode se apresentar com uma pergunta rasa, assim, cabe ao psicólogo transformar a pergunta rasa em perguntas baseadas em termos psicológicos, que se tornarão hipóteses a serem testadas através do psicodiagnóstico, além de esclarecer e organizar as questões pressupostas no encaminhamento. Quando o encaminhamento é feito por um profissional, algumas informações podem estar explicitas ou não, os casos diferem entre si, podendo ou não ser possível levantar as primeiras questões a partir do próprio encaminhamento. Os objetivos do psicodiagnóstico dependem das perguntas iniciais, mas eventualmente, as entrevistas iniciais com o paciente levantarão perguntas complementares, que definem novos objetivos e estabelecem objetivos, nesse momento, há condições para estabelecer um plano de avaliação com base nas hipóteses e realizar o contrato de trabalho. Em casos em que só é possível levantar hipóteses no início da história clínica, a condução do restante da história clínica e da história pessoal será estruturada em termos de uma sondagem para a obtenção de subsídios que reforcem a fundamentação da hipótese ou para a busca de dados comprobatórios (CUNHA, 2007). A duração de um psicodiagnóstico constitui uma estimativa de tempo em que se pode realizar as tarefas que fazem parte do plano de avaliação, além de completar as tarefas subsequentes até comunicar os resultados e recomendações. Quando for possível ter uma previsão, deve-se formalizar com o paciente ou responsável as diretrizes do desenvolvimento do trabalho de psicodiagnóstico, deixando claro as responsabilidades mútuas (CUNHA, 2007). Recomenda-se que o contrato de trabalho seja estabelecido apenas após o profissional se familiarizar com o desemprenho do paciente, o psicólogo se compromete a realizar um exame durante um número de sessões, cada uma com duração prevista, em horário predeterminado, definindo com o paciente ou responsável os tipos de informes necessários e quem terá acesso aos dados do exame. Enquanto ao paciente cabe comparecer no horário, nos dias agendados e colaborar para que o plano de avaliação seja realizado da melhor forma possível (CUNHA, 2007). Porém, Cunha (2007) salienta que o contrato também deve ser flexível em certos aspectos, devendo ser repensado sempre que o desenvolvimento do processo precisar de alterações. Nessa questão cabe uma ressalva: caso o psicólogo precise de mais um encontro com o paciente, deve-se explicar a necessidade de se submeter a mais um teste, mas sem ônus para ele. O estabelecimento de um plano de avaliação é um processo que tem como objetivo identificar recursos que permitem relacionar as perguntas iniciais e suas possíveis respostas. Cunha (2007), ressalta a importância de técnicas que reduzam a ansiedade inicial dos pacientes durante uma bateria de testes, como por exemplo as técnicas gráficas (uma vez que a sessão não seja centrada somente nelas e, também, não restrita a elas), tais técnicas podem ser utilizadas tanto de maneira introdutória (mais comum com crianças) como para diminuir níveis de ansiedade. Com adultos, também podem ser utilizados o desenho da figura humana ou o HTP, frisando a necessidade de levar em consideração as características do sujeito, uma vez que algo pode ser ansiogênico para um, mas não para outro. Cunha (2007) também destaca três pontos importantes: 1) possuir recursos para lidar com situações ansiogênicas; 2) introdução de tarefas simples, breve e fáceis, para enfrentar o cansaço do paciente e 3) evitar acúmulo de técnicas gráficas no início da testagem, devido ao seu caráter lúdico, principalmente com crianças, pois há o risco de resistência por parte do paciente na troca de técnicas. Outra questão a ser considerada é o tempo de administração de cada teste e técnica dentro de uma bateria, ressaltando a necessidade de um plano de avaliação revisado , como entender a particularidades da administração de cada teste, a familiaridade com o instrumento e técnica utilizada e a organização prévia do material utilizado de acordo com o teste aplicado, além de sempre buscar manter um bom rapport, para não só assegurar o desempenho de teste como diminuir a ansiedade natural do paciente. Buscar manter condições ideais e padronizadas de ambiente durante as aplicações de testes garante a fidedignidade de seus resultados, assim como suas instruções devidamente explicadas, mantendo sempre a cautela para evitar intervenções. Para o profissional o paciente deve ser o foco principal de sua atenção, de modo que os indícios comportamentais sejam observados e registrados durante a administração de testes e técnicas, seguindo a padronizada de testagem, mas sabendo lidar não meramente como um testólogo, de uma maneira também clínica, atento a um sujeito que reage de forma personalizada e única ao aqui e agora da interação. Durante o processo de psicodiagnóstico, o psicólogo acumula observações do comportamento do paciente ao longo das sessões, ele revisa essas observações e a história clínica para entender melhor as respostas do paciente nos testes. Os dados quantitativos dos testes são analisados e transformados em escores para ajudar no diagnóstico e prognóstico. O diagnóstico pode variar em complexidade, desde uma categorização nosológica até uma avaliação mais abrangente, dependendo das necessidades do caso (CUNHA, 2007). Destaca-se a permissão do uso do Código Internacional de Doenças (CID) e outros códigos reconhecidos, obtendo a utilização de sistemas de classificação, como CID-10 e DSM-IV, que é um sistema apresentado como um modelo de categorias com eixos multiaxiais para avaliação abrangente, os quais são, Eixo I: inclui todos os transtornos mentais – exceto os Transtornos de Personalidade e Retardamento Mental, que constituem no Eixo II, enquanto, no Eixo III, são classificadas condições médicas gerais. Os Eixos I, II e III permitem o registro de diagnósticos múltiplos, em casos de comorbidades, já no Eixo IV, são considerados problemas psicossociais, e, no V, o nível de funcionamento. O sistema de classificações diagnósticas é imprescindível durante a coleta de dados, já que auxilia os profissionais da área da saúde a realizar o processo de maneira sistemática, organizada e fidedigna (CUNHA, 2007). A comunicação de resultados segundo Cunha (2207), deverá ser a última etapa dentro do processo, seguindo de orientações pertinentes e pelo encerramento, e seu conteúdo deverá ser definido por questões específicas formuladas logo no início do procedimento. E será dever do profissional definir seu tipo, conteúdo e forma. Enfatiza-se a responsabilidade ética do psicólogo e/ou psiquiatra na divulgação das informações, sempre levando em consideração o sigilo profissional. Em entrevistas ou momentos de devolução, o profissional pode vir a enfrentar momentos e situações cruciais que exijam agilidade, flexibilidade e sensibilidade clínica, deste modo, precisa estar muito consciente do que está acontecendo e manejado para lidar no momento. A divulgação dos resultados pode variar a depender do estilo do profissional, mas pode ocorrer de forma sistemática ou assistemática, sendo relevante uma comunicação oral focada e clara, buscando evitar interpretações errôneas ou equivocadas, fortalecendo o vínculo de confiança entre paciente e profissional (CUNHA, 2007) Cunha (2007) ressalta que a estrutura dos laudos varia, mas deve focar nos objetivos do exame, fornecendo dados pertinentes, como dados de identificação e datas de realização. O psicólogo pode integrar equipes multidisciplinares para a discussão de caso, após, o processo encerra-se com o arquivamento do material, permitindo retomadase necessário. DESCRIÇÃO, HIPÓTESE DIAGNÓSTICA E LAUDO PSICOLÓGICO B.S., homem de 35 anos, casado e com duas filhas, vive em uma pequena localidade. Apresenta um padrão de vida satisfatório, embora sua aparência e comportamento sejam monótonos, mantendo um sorriso constante, mas mostrando-se constrito. Após a morte do pai, enfrentou um período depressivo com culpa e sintomas relacionados à perda. Desenvolveu comportamentos ritualísticos, envolvimento com uma mãe-de-santo e atitudes impulsivas, incluindo desfalque financeiro (CUNHA, 2007). A avaliação psicológica envolve testes como o Teste de Bender, HTP, MMPI, Rorschach, WAIS e TAT, além de entrevista com a esposa. Já as hipóteses iniciais, segundo Cunha (2007), apresentam uma gama de sintomas e características psicopatológicas, apontando um transtorno afetivo, sintomas depressivos, traços de transtornos de personalidade, com evidências mas sem o preenchimento de todos os critérios para borderline ou dependente, segundo descrição feita pela esposa caracterizando uma tipo de personalidade dependente, “como uma pessoa dócil, imatura, passiva e submissa a uma figura mais forte, é ingênuo e facilmente persuadível.” (sic). Resultando no laudo psicológico: “Sumário dos resultados: O paciente apresenta um quadro depressivo, com sinais residuais e/ou incipientes de natureza psicótica. Ao mesmo tempo, os resultados são compatíveis com a presença de transtorno de personalidade esquizotípica, com traços de transtorno borderline, ainda com características de personalidade de tipo dependente.” (CUNHA, 2007). REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA CUNHA, Jurema Alcides. Passos do processo psicodiagnóstico. In: CUNHA, J. A. et al. (Org.). Psicodiagnóstico-V. 5ª. ed. rev. e ampl. Porto Alegre: Artmed, 2007.