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CORPO, GÊNERO E 
SEXUALIDADE 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Victor Hugo Brandão Meireles 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Olá, caro estudante! Nesta aula aprenderemos sobre os aspectos 
culturais que compõem a sexualidade na contemporaneidade, a população 
LGBTI, a violação de direitos e as contribuições da psicologia no exercício da 
profissão com essa população. 
Os objetivos para esta aula são: estudar sobre a população LGBTI e os 
termos principais da comunidade; aprender sobre o que é orientação sexual e 
identidade de gênero, e suas diferenças; discutir os marcos históricos de 
retrocessos sociais e políticos que violam o direito dessa população; e as 
contribuições da psicologia na prática profissional com essa população. 
TEMA 1 – SEXUALIDADE HUMANA ENQUANTO PLURALIDADE 
A sexualidade humana, como já vimos, é histórica, social e cultural, mas 
também é plural. Hoje, em nossa profissão, em qualquer campo de atuação, 
atendemos diversos grupos sociais que fazem parte da sociedade, e que 
diariamente reivindicam direitos, para melhorias em suas condições de vida. 
Nesse contexto, em que os direitos das pessoas (cujas performances e 
corpos são marcados pelo discurso hegemônico) são invisibilizados por 
mecanismos de controle social, fica evidente o papel da sociedade em buscar 
justiça e igualdade, para o enfrentamento dessa realidade no Brasil. Isso porque 
não é mais possível negligenciar o genocídio que se tem praticado contra a 
população LGBTI no Brasil. 
Segundo Prado e Machado (2008), a sexualidade sempre esteve presente 
na sociedade, sendo um dos fatores determinantes da vida das pessoas. Porém, 
a sexualidade é um dos comportamentos menos naturais do ser humano, 
carregado de símbolos, valores e rituais que estruturam e dão coesão às práticas 
e instituições sociais. Em tese, a sexualidade é constituidora de várias formas de 
expressão, de prazer, de visibilidade e de relações sociais e afetivas. 
Nesse contexto, as relações sociais afetivas/sexuais, historicamente, 
trouxeram as pessoas homossexuais para uma categoria social legitimada por 
diferentes formas de desigualdade social e exclusão, tornando uma vivência 
sexual em uma vivência social com menos direitos sociais. Essas formas de 
inferiorização transformaram a “não-heterossexualidade” em um problema 
político (Prado; Machado, 2008). 
 
 
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Questões sore as sexualidades, ao longo dos séculos, têm se tornando 
um problema para o âmbito religioso, médico e moral, buscando a negação do 
elemento político, legitimando assim o discurso e as práticas que colaboram para 
a manutenção de uma hierarquia social em que “as homossexualidades 
aparecem como subalternizadas” (Prado; Machado, 2008, p. 16). 
Segundo Sonia Koehler (2013), a urgência de se discutir e contextualizar 
questões sociais sobre a diversidade sexual e de gênero é essencial, pois muitos 
indivíduos de direitos reivindicam suas novas formas de “ser”. Esses indivíduos 
não podem ser “representados” como categorias universais, partindo da ideia de 
que os modelos tradicionais normativos existem como reguladores da 
sexualidade dos indivíduos. 
Vários estudos, e também a mídia, nos mostram as violências vivenciadas 
e protagonizadas por diferentes pessoas de nossa sociedade que compõem a 
diversidade sexual e de gênero. Vemos formas de discriminação e preconceito 
que conduzem à marginalização, exclusão e violação de direitos de pessoas ou 
grupos sociais, com base em sua orientação sexual ou identidade de gênero. 
Segundo Koehler (2013), essas práticas, que acabam sendo reproduzidas 
diariamente na vida dessas pessoas, se traduzem por violências físicas, verbais 
e psicológicas, com consequências sexistas, misóginas, racistas, transfóbicas, 
lesbofóbicas, homofóbicas, bifóbicas etc. 
Nesse sentido, é importante para nós, profissionais e futuros psicólogos, 
estudar a sexualidade da população LGBTI, que tem sofrido diversos ataques e 
retrocessos em seus direitos, com uma luta constante pela sobrevivência em 
nossa sociedade. 
Nesta aula, usarei a sigla LGBTI para designar lésbicas, gays, bissexuais, 
travestis, transexuais e intersexuais, o que está vinculado às políticas públicas 
de assistente social e de saúde, e também aos movimentos sociais. Há diversas 
siglas, sempre com a tentativa de definir o sujeito político do movimento, que 
passa a conviver com a necessidade de sempre repensá-las, visto que a 
sociedade está em constante transformação. 
O movimento se multiplicou a partir da década de 1990, com categorias 
sociais de referência em um sujeito político. Em 1993, aparece como MGL 
(movimento de gays e lésbicas), em 1995 aparece como movimento GLT (gays, 
lésbicas e travestis) e posteriormente, em 1999, passa a figurar como um 
movimento GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros). Todavia, passa a 
 
 
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ser LGBT a partir de hierarquizações e estratégias de visibilização dos 
segmentos de cada grupo social (Facchini; Rodrigues, 2018). Nos dias atuais, 
as pessoas intersexuais têm se fortalecido como sujeitos políticos, e hoje fazem 
parte da sigla, formando o LGBTI. Todavia, isso não significa que outras que 
encontramos hoje como, LGBTI+, LGBTQIA+, dentre outras, não sejam certas. 
Aqui iremos nos concentrar em apenas uma, como já explicitado. 
TEMA 2 – O QUE É ORIENTAÇÃO SEXUAL E IDENTIDADE DE GÊNERO? 
O termo orientação sexual é recente. Tem sido utilizado em maior escala 
no final do século XX, como forma de designar pessoas que sentem atração 
afetivo-sexual por um ou mais sexo/gênero específicos. Antes, havia o termo 
opção sexual, que essencializa essa forma de relação, como uma ideia de 
escolha livre e espontânea (Amaral, 2019). 
Uma das suas definições feitas pelo governo federal foi a do Programa de 
Combate à Violência e à Discriminação contra GLBT e de Promoção da 
Cidadania de Homossexuais “Brasil Sem Homofobia”, criado pelo Governo 
Federal em 2004, em conjunto com as organizações do movimento LGBTI da 
época: 
Orientação sexual é a atração afetiva e/ou sexual que uma pessoa 
sente pela outra. A orientação sexual existe num continuum que varia 
desde a homossexualidade exclusiva até a heterossexualidade 
exclusiva, passando pelas diversas formas de bissexualidade. Embora 
tenhamos a possibilidade de escolher se vamos demonstrar, ou não, 
os nossos sentimentos, os psicólogos não consideram que a 
orientação sexual seja uma opção consciente que possa ser 
modificada por um ato da vontade. (Brasil, 2004, p. 29) 
No documento, consta que a definição de orientação sexual partia da ideia 
de que os psicólogos não consideravam que a orientação sexual fosse uma 
opção consciente, como se fosse algo que mudasse por uma vontade imediata. 
O que chama atenção nessa definição é que inclui a parte emocional do sujeito, 
e já colocava a psicologia, no exercício da profissão, como ciência comprometida 
com a legitimação social da homossexualidade. 
O movimento LGBTI participava de discussões com diversas agendas 
políticas, para que fossem incluídos e aprovados projetos de lei que buscassem 
garantir melhor qualidade de vida e de cidadania para essa população. 
Nesse sentido, uma outra definição se aproxima do que a psicologia pode 
contribuir. A orientação sexual é um produto singular da subjetividade humana, 
 
 
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e tem como base material a legitimação, que se caracteriza pelas significações 
nas relações sociais afetivas, sexuais e simbólicas (Amaral, 2019). É um aspecto 
do ser humano que está presente em qualquer relação que o constitui. 
Considerando ambas as formas de pensar a orientação sexual, fica 
evidente a expansão do conhecimento e de estudos sobre a população LGBTI. 
Muitos outros termos ainda têm sido discutidos, que possam contemplar as 
necessidades e os direitos dessa população. O essencial aqui é não se articular 
com nenhum saber que produza patologização,discriminação e estigmatização 
contra essa população, visto que a psicologia tem uma enorme responsabilidade 
no combate a tais e ideologias. Não é possível chegar em uma das duas 
definições, pensando em certo ou errado, pois todas elas abrem possibilidades 
para que possamos acolher essa população, sem que haja algum tipo de 
exclusão na comunicação, mas com reflexões para as áreas de atuação da 
psicologia. 
Identidade de gênero não é a mesma coisa que orientação sexual. 
Segundo Jaqueline Gomes de Jesus (2012, p. 12-13), é o gênero com o qual 
uma pessoa se identifica, concordando ou não com o gênero que lhe foi atribuído 
ao nascimento. É diferente da orientação sexual: 
não corresponde à realidade pensar que toda pessoa é naturalmente 
cisgênero. Tal qual as demais pessoas, uma pessoa trans pode ser 
bissexual, heterossexual ou homossexual, dependendo do gênero que 
adota e do gênero com relação ao qual se atrai afetivossexualmente: 
mulheres transexuais que se atraem por homens são heterossexuais, 
tal como seus parceiros; homens transexuais que se atraem por 
mulheres também o são. Já mulheres transexuais que se atraem por 
outras mulheres são homossexuais, e homens transexuais que se 
atraem por outros homens também. Não se pode esquecer, 
igualmente, das pessoas com orientação sexual bissexual. Nem todas 
as pessoas trans são gays ou lésbicas, apesar de serem identificados 
como membros do mesmo grupo político, o de Lésbicas, Gays, 
Bissexuais, Travestis e Transexuais – LGBT. 
Segundo Guacira Lopes Louro (1999), as inscrições dos gêneros nos 
corpos dos sujeitos são sempre atreladas ao contexto de uma determinada 
cultura, e consequentemente a suas marcas. As identidades de gênero e sexuais 
são compostas e definidas pelas relações sociais, sendo moldadas pelas redes 
de poder de uma determinada sociedade. É por meio da cultura e da história que 
são definidas as identidades sociais (gênero, sexual, raça, classe etc.), 
constituindo os sujeitos na medida em que são inscritos em diferentes situações, 
instituições ou grupos sociais. 
 
 
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Reconhecer-se numa identidade é afirmar a sua inscrição e estabelecer 
um sentido de pertencimento a esse grupo social de referência, o que não 
elimina a possibilidade de descartá-la ou rejeitá-la. Assim, somos sujeitos de 
identidades transitórias e contingentes, tendo um caráter fragmentado, instável, 
histórico e plural (Louro, 1999). 
Por fim, as relações sociais podem produzir meios em que a existência de 
determinados sujeitos ou grupos oprimidos não sejam percebidos; 
consequentemente, fortalecem comportamentos que colaboram para a 
manutenção das relações de poder. Por isso, como profissionais da psicologia, 
não buscamos uma definição de sexualidade humana que se reduz ao biológico, 
visto que somos seres sociais, mas uma definição que possa garantir a 
legitimidade de sujeitos e grupos sociais que buscam melhorias das suas 
condições de vida em sociedade. 
TEMA 3 – POPULAÇÃO LGBTI 
Agora que já aprendemos sobre orientação sexual e identidade de 
gênero, vamos falar um pouco sobre os grupos sociais e políticos que fazem 
parte da sigla LGBTI. Ressaltamos que as definições dessa população não se 
esgotam apenas em uma sigla, levando sempre em consideração a 
singularidade e a subjetividade de cada um. Suas experiências e vivências de 
vida devem sempre ser levadas em consideração, evitando uma prática 
profissional estigmatizante. 
Como já falamos no primeiro tema, LGBTI é a sigla que designa os grupos 
sociais de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais. Dessa 
sigla, apenas lésbicas, gays e bissexuais são orientações sexuais, como vimos 
anteriormente. Nesse sentindo, pessoas que se autodenominam lésbicas e gays 
são homossexuais, pois sentem atração, de modo afetivo, sexual e simbólico, 
por pessoas do mesmo sexo/gênero. Já pessoas bissexuais se atraem por mais 
de um sexo/gênero, não se limitando apenas a homem e mulher. 
Travestis, transexuais e intersexuais são identidades de gênero, ou outras 
categorias sociais em que se autodefinem. As travestis são pessoas que 
vivenciam papéis de gênero feminino, mas que não se reconhecem como 
homem ou mulher, podendo desempenhar um terceiro gênero ou nenhum 
(Jesus, 2012). 
 
 
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O termo travesti é mais antigo que o conceito de transexual, tendo sido 
por muito tempo sido utilizado e consolidado em nosso vocabulário com sentido 
pejorativo, estigmatizante e discriminativo. É importante ressaltar que, 
independentemente da forma como as travestis se autodenominam, é respeitoso 
que a chamem sempre no feminino (Jesus, 2012). 
As pessoas transexuais desenvolvem suas dissidências ao gênero 
imposto ao nascimento (Almeida, 2018). A transexualidade é uma questão de 
identidade. Há diferentes formas de como as pessoas se autodefinem, em 
diferentes graus, por exemplo: “Mulher transexual é toda pessoa que reivindica 
o reconhecimento social e legal como mulher. Homem transexual é toda pessoa 
que reivindica o reconhecimento social e legal como homem” (Jesus, 2012, p. 
15). É importante salientar: o que determina a identidade de gênero transexual 
não é um procedimento cirúrgico. Caso você escute alguém afirmando isso, essa 
pessoa está sendo transfóbica. O que determina a identidade de gênero 
transexual da pessoa é a autonomia de legitimar suas vivências e experiências 
de vida na sociedade. 
Pessoas intersexuais são aquelas cujo corpo varia quanto ao padrão 
construído culturalmente de masculino ou feminino, referindo-se a configuração 
de cromossomos, localização dos órgãos genitais etc. Trata-se de um grupo 
social que tem se mobilizado bastante a nível mundial, para que a 
intersexualidade não seja entendida como uma patologia. Esse grupo muitas 
vezes acaba passando por mutilação e adequação de órgãos genitais, o que não 
necessariamente condiz com a sua identidade de gênero. Por isso, é muito 
importante, antes de produzir qualquer tipo de saber profissional sobre esse 
grupo, e sobre outros também, nos embasar cientificamente a respeito do 
acolhimento e da autonomia, sem nunca reproduzir um discurso patologizante. 
Na realidade brasileira, é mais comum que as pessoas se considerem 
travestis e/ou transexuais, mas também há outros grupos sociais, de pessoas 
que podem se autodenominar como agêneras, transgêneras, não-binárias, 
dentre outras categorias autoidentificatórias (Almeida, 2018). Isso não significa 
que não devemos estudar os outros grupos. Pode ser que você os encontre em 
siglas com o prefixo “+”, que considera que existem outras identidades e grupos 
sociais na comunidade: LGBTI+. Recomendo que leiam o “Manual de 
comunicação LGBTI+”, criado pela parceria da rede GayLatino com a Aliança 
Nacional LGBTI, lançado em 2018. 
 
 
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Em síntese, transgênero é um conceito guarda-chuva que abrange um 
grupo social diversificado de pessoas que reivindicam comportamentos e/ou 
papéis sociais de gênero, para além daquele que foi atribuído no seu 
nascimento. Cisgênero é um conceito guarda-chuva de pessoas que reivindicam 
o mesmo gênero que lhe é atribuído no nascimento. Sendo assim, o homem cis 
é aquele que, ao nascer recebeu gênero masculino, e ele próprio se reivindica 
como homem; a mulher cis é aquela que, ao nascer recebeu gênero feminino, e 
ela própria se reivindica como mulher. 
TEMA 4 – VIOLÊNCIA CONTRA DIREITOS DA POPULAÇÃO LGBTI 
Neste tema, vamos discutir alguns dos marcos históricos e dos 
retrocessos em direitos sociais e políticos da população LGBTI. Salientamos que 
há várias problematizações possíveis nessa área, sendo importante olhar os 
dados com um olhar crítico. 
A ideia de LGBTI como sujeitos de direitos começa a se construir 
publicamente com o projeto de lei da união civil ou da parceria civil, que teve 
vasto cobertura nos meios de comunicação, recebendo uma reação 
conservadora, o que deu início a um debate abertoe amplo, em escala nacional 
e social, sobre os direitos LGBTI. Surgem as Paradas do Orgulho LGBTI por todo 
o Brasil, como ato político e de resistência, evidenciando a importância das 
relações entre o movimento e o Estado. 
No dia 5 de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal reconhece a união 
estável entre pessoas do mesmo sexo/gênero, assim como outras ações 
originadas do programa do governo federal “Brasil Sem Homofobia”, de 2004, 
que fazia parte da extinta Secretaria de Direitos Humanos (SDH) (César; Duarte, 
2017). Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça aprovou uma resolução que 
obriga todos os cartórios do país a celebrar o casamento entre pessoas do 
mesmo gênero. 
No mesmo ano, é desenvolvido um projeto de lei que prevê a inclusão de 
uma política de direitos LGBTI no espaço escolar, intitulada “Escola Sem 
Homofobia”, projeto criado em 2011, que busca a implementação e a efetivação 
de ações que promovam ambientes políticos e sociais favoráveis à garantia dos 
direitos humanos e de respeitabilidade às orientações sexuais e identidades de 
gênero no âmbito escolar brasileiro. Alguns deputados ligados a setores 
religiosos posicionaram-se contra o projeto, chamando-o de “kit gay”, e 
 
 
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acusando-o de ser “doutrinador”. Maria Rita de Assis César e André de Macedo 
Duarte (2017, p. 147) chamaram o ocorrido de “marco zero do nosso recente 
pânico moral”. Houve também a retirada da orientação sexual e da identidade de 
gênero da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em 2017; antes, tinha sido 
implementada formalmente por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais 
pelo Ministério da Educação, em 1997. 
Para população trans, a Portaria n. 1.707/2008 autorizou procedimentos 
MTF (masculino para feminino), beneficiando mulheres transexuais com serviços 
de hormonioterapia, cirurgias para retirada do pomo de Adão, alongamento das 
cordas vocais e cirurgias de neocolpovulvoplastia (mudança de sexo MTF). 
Todavia, somente em 2013, com a ampliação do Processo Transexualizador do 
SUS, a partir da Portaria n. 2.803, homens transexuais e travestis tiveram suas 
demandas atendidas: hormonioterapia e procedimentos FTM (feminino para 
masculino), como mastectomia, histerectomia e neofaloplastia (mudança de 
sexo FTM), foram incorporados pelo SUS. 
O nome utilizado pelo SUS para esse procedimento é “Processo 
Transexualizador” e “Cirurgia de Redesignação Sexual”, termos bastante 
questionados pelo próprio movimento das pessoas travestis e transexuais. 
Entretanto, essa população vivencia diariamente a insegurança do acesso a 
esse direito, por ele não ser estabelecido por lei, mas apenas em portarias do 
SUS. Para essa população, esse direito faz parte da busca por reconhecimento 
social, apesar de gerar inseguranças, que podem proporcionar diversas 
experiências e vivências desagradáveis. Uma delas é a demora da fila para 
conseguir acesso a esse direito. 
Também temos o Decreto n. 8.727, de 28 de abril de 2016, que dispõe 
sobre o uso do nome social e seu reconhecimento da identidade de gênero das 
pessoas travestis e transexuais, nas esferas públicas federais. Pesquisas 
recentes têm revelado processos de estigmatização por parte dos profissionais 
da área da saúde, que não respeitam o nome social dessa população (Baccarim, 
2017). 
Em termos de dados sobre violência e assassinatos, de acordo com 
relatório elaborado pelo Grupo Gay da Bahia (2020) em 2019, ocorreram 329 
mortes violentas no Brasil, sendo 297 homicídios (90,3%) e 32 suicídios (9,7%). 
Em relação aos anos anteriores, o ano recorde foi 2017, com 445 mortes, 
 
 
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seguido de 2018, com 420. Quanto ao perfil das pessoas: 174 gays (52,8%), 118 
travestis e transexuais (35,8%), 32 lésbicas (9,7%), e 5 bissexuais (1,5%). 
No dossiê de assassinatos e violências contra travestis e transexuais de 
2020, produzido por Bruna G. Benevides e Sayonara N. B. Nogueira (2021), 
consta que o Brasil ainda segue na liderança no ranking de assassinatos contra 
essa população no mundo inteiro, segundo relatório da Trangender Europe 
(TGEU). 
Segundo Benevides e Nogueira (2021), em 2020 o Anuário Brasileiro de 
Segurança Pública trouxe dados sobre violência contra a população LGBTI pela 
primeira vez. Todavia, consta que, em 15 estados mais o Distrito Federal, não 
houve qualquer tipo de informação sobre violências motivadas por identidade de 
gênero e orientação sexual. Isso faz pensar que ainda há resistência, por parte 
do Governo Federal, no comprometimento com uma segurança pública que 
também contemple essa população. 
Em 2020, houve 175 assassinatos de pessoas trans; todas se 
autodefiniam como travestis e mulheres transexuais. Não há informações sobre 
assassinatos de homens trans ou pessoas transmasculinas nas pesquisas do 
dossiê. Em comparação, no ano de 2019, foram registrados 163 casos de 
assassinatos dessa população no Brasil, sendo 158 travestis e mulheres 
transexuais, 4 homens transexuais e 1 pessoa não binária. Houve um aumento 
de quase 8% de mortes dessa população no nosso país. 
Considerando esse cenário, tivemos, no dia 13 de junho de 2019, a 
decisão do STF de considerar as práticas de homofobia e transfobia crimes de 
racismo (Lei n. 7.716/1989), mas como tem sido depois disso? Será que 
aconteceram mudanças, como apontam os dados? 
No campo da Educação, é importante que as políticas afirmativas gerem 
cotas públicas no ensino superior, para que vozes das minorias se apropriem do 
sistema educacional. Porém, ainda assim, aqueles que chegam na graduação e 
na pós-graduação são alvo de estigmatização e discriminação, conforme foi 
evidenciado por uma ação de sensibilização por mim coordenada no Centro de 
Assessoria e Pesquisa em Psicologia e Educação (CEAPPE), com referência à 
data de 28 de junho, dia do Orgulho LGBTI. Nesse trabalho, foram levantadas, 
via formulário, frases a respeito da vivência de universitários LGBTI da UFPR; a 
adesão desses estudantes revelou que tais processos estão presentes nesse 
contexto (Meireles, 2019). 
 
 
11 
Desse modo, a psicologia enfrenta o desafio de apresentar estratégias 
para que haja um entendimento mais amplo sobre a importância da cidadania e 
dos direitos dessa população, pensando já na formação de ensino superior e em 
pós-graduações. Prado e Machado (2008) enfatizam a necessidade de um 
esforço por parte das pesquisas, além de ações coletivas e práticas sociais 
inovadoras, que ajudem a combater a estrutura e a dinâmica do preconceito 
sexual e suas consequências. Dessa forma, concluímos que os movimentos 
sociais LGBTI são fundamentais para a consolidação de um pensamento 
científico-crítico capaz de apontar as consequências dos modelos normativos 
identitários e políticos presentes em nossa sociedade. 
TEMA 5 – PSICOLOGIA EM INTERFACE COM A POPULAÇÃO LGBTI 
Agora vamos estudar as resoluções e normas técnicas que ajudam na 
prática profissional do psicólogo, no atendimento de pessoas LGBTI em 
diferentes campos de atuação. Salientamos ainda que a construção das 
resoluções federais da psicologia não diminui a luta que tem sido construir uma 
ciência e profissão que não seja patologizante, classificatória, estigmatizante ou 
discriminativa. 
A primeira resolução criada pelo Conselho Federal de Psicologia, 
relacionada às questões da sexualidade, foi a de n. 01, de 1999, que estabelece 
normas de atuação para os psicólogos em relação à questão das orientações 
sexuais. Essa resolução em particular sofreu diversos ataques recentes, na 
tentativa de derrubá-la, por patê de um grupo de psicólogos que defendiam 
terapias de reversão sexual, mais conhecidas como “cura gay”. 
Em especial nessa resolução, fica bem clara a contribuição que o 
profissional de psicologia pode oferecer para a produção de saber que busque a 
eliminação da discriminação contra a população LGBTI. Essa contribuição não 
precisa ser somente pela produção de manuscritos, masinclui a própria prática 
profissional, na relação com outros profissionais que compõem as equipes. 
Assim, consta na resolução: “Art. 2° – Os psicólogos deverão contribuir, 
com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o 
desaparecimento de discriminações e estigmatização contra aqueles que 
apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas” (CFP, 1999). 
A segunda resolução é a n. 01, de 2018, que estabelece normas de 
atuação para os psicólogos em relação às pessoas travestis e transexuais. Essa 
 
 
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resolução foi lançada em 2018, no dia 29 de janeiro, dia nacional da visibilidade 
trans. É uma resolução extremamente importante, cabendo ressaltar este item: 
“Art. 4º – As psicólogas e os psicólogos, em sua prática profissional, não se 
utilizarão de instrumentos ou técnicas psicológicas para criar, manter ou reforçar 
preconceitos, estigmas, estereótipos e discriminações em relação às pessoas 
transexuais e travestis” (CFP, 2018, p. 3). 
Nenhuma conduta técnica deve ser feita como forma de produzir algum 
tipo de desconforto e constrangimento, que configure uma situação de 
discriminação. O papel do psicólogo é promover o acolhimento, o 
acompanhamento, a autonomia da pessoa e a despatologização de discursos e 
saberes transfóbicos. Dessa forma, o Conselho Federal de Psicologia do Paraná 
produziu uma norma técnica, de n. 02, de 2018. Tive a oportunidade de participar 
de sua construção. Ela orienta os profissionais da psicologia na prática ao 
atendimento de pessoas travestis e transexuais. 
O psicólogo que for trabalhar em algum serviço do SUS terá um papel 
importante no acompanhamento psicológico para quem escolher passar pelo 
processo transexualizador. Esse acompanhamento não deve ter caráter 
avaliativo sobre a identidade de gênero da pessoa, mas proporcionar 
acolhimento sobre suas demandas pré e pós-cirúrgicas. O acompanhamento 
deve respeitar a autonomia da pessoa sobre sua identidade de gênero, 
garantindo seu acesso aos serviços de saúde. 
Nesse sentido, pode ser que o psicólogo precise elaborar um documento 
para que essas pessoas realizem cirurgia do processo transexualizador, 
tratamentos hormonais e demais procedimentos. Também pode ajudar com a 
retificação do nome e/ou gênero nos registros civis. O nome desse documento é 
relatório psicológico, e ele deve considerar que existem diversidades de 
experiências que são legítimas, e que cada trajetória do indivíduo em sociedade 
é singular. Portanto, é um documento que respeita a autonomia e a dignidade 
humana. 
Por último, temos a nota técnica de n. 001, de 2019, também produzida 
pelo CRP do Paraná, que orienta os psicólogos no atendimento às pessoas 
lésbicas, gays, bissexuais e de demais orientações sexuais, também 
promovendo acolhimento, acompanhamento, autonomia e despatologização. 
Essa nota tem ênfase apenas nas identidades de pessoas relacionadas às suas 
 
 
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orientações sexuais, exercendo papel esclarecedor na prática profissional de 
atendimentos a esse público, independentemente do campo de atuação. 
Vale salientar que há outras notas técnicas. Cada conselho regional 
produz suas próprias notas, para a melhoria da prática profissional dos 
psicólogos da região, segundo o que for considerado necessário. Já as 
resoluções são feitas pelo conselho federal, e todos os conselhos regionais 
precisam acatá-las. 
Em síntese, precisamos sempre aprimorar a nossa prática profissional, 
nos atualizando conforme a sociedade transforma o seu meio. Se tais resoluções 
e notas técnicas existem, é porque há profissionais que têm usado da psicologia 
para produzir saberes e discursos discriminatórios, punitivos, excludentes e 
patológicos. A psicologia é uma ciência e uma profissão pautada em direitos 
humanos. 
NA PRÁTICA 
A psicologia tem diversos campos de atuação, dialogando e 
compartilhando o cotidiano com diversas profissões. Vimos que o psicólogo tem 
um papel muito importante na garantia de acesso a serviços da saúde para a 
população travesti e transexuais. Nesse sentido, se uma mulher trans escolhe 
passar pelo processo transexualizador do SUS, o psicólogo precisa produzir que 
tipo de documento para ser entregue a um médico? E o que precisaria constar 
nesse documento para aprovação médica? Pergunte ao seu tutor em caso de 
dúvidas. 
FINALIZANDO 
Nesta aula, aprendemos um pouco sobre: sexualidade, em sua 
diversidade; população LGBTI e violências de direitos; o que é orientação sexual 
e identidade de gênero; e principalmente como a psicologia atua com essa 
população. Podemos concluir que essa ciência e profissão tem um papel muito 
importante na garantia de direitos de alguns grupos sociais em sociedade, 
buscando principalmente a melhoria da qualidade de saúde mental da 
população. É uma grande responsabilidade, visto que o sujeito está em 
constante transformação, junto com a sociedade. Por isso, é muito importante 
ficar atento à prática profissional, sempre nos pautando no código de ética, e 
ainda em resoluções pertinentes, notas técnicas e na produção científica como 
um todo, nas mais diversas áreas que estudam o ser humano. 
 
 
14 
REFERÊNCIAS 
ALMEIDA, G. Identidade de gênero com ênfase nas pessoas trans: 
particularidades e acesso à saúde, trabalho e educação. In: NOGUEIRA, L. et 
al. (Org.). Hasteemos a bandeira colorida: diversidade sexual e de gênero no 
Brasil. 1. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2018. 
AMARAL, M. M. do. Dimensão subjetiva da masculinidade: significações de 
homens gays sobre o papel da escola no processo de constituição da 
masculinidade. 243 f. Dissertação (Mestrado em Educação: Psicologia da 
Educação) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2019. 
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