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CORPO, GÊNERO E SEXUALIDADE AULA 3 Prof. Victor Hugo Brandão Meireles 2 CONVERSA INICIAL Olá, caro estudante! Nesta aula aprenderemos sobre os aspectos culturais que compõem a sexualidade na contemporaneidade, a população LGBTI, a violação de direitos e as contribuições da psicologia no exercício da profissão com essa população. Os objetivos para esta aula são: estudar sobre a população LGBTI e os termos principais da comunidade; aprender sobre o que é orientação sexual e identidade de gênero, e suas diferenças; discutir os marcos históricos de retrocessos sociais e políticos que violam o direito dessa população; e as contribuições da psicologia na prática profissional com essa população. TEMA 1 – SEXUALIDADE HUMANA ENQUANTO PLURALIDADE A sexualidade humana, como já vimos, é histórica, social e cultural, mas também é plural. Hoje, em nossa profissão, em qualquer campo de atuação, atendemos diversos grupos sociais que fazem parte da sociedade, e que diariamente reivindicam direitos, para melhorias em suas condições de vida. Nesse contexto, em que os direitos das pessoas (cujas performances e corpos são marcados pelo discurso hegemônico) são invisibilizados por mecanismos de controle social, fica evidente o papel da sociedade em buscar justiça e igualdade, para o enfrentamento dessa realidade no Brasil. Isso porque não é mais possível negligenciar o genocídio que se tem praticado contra a população LGBTI no Brasil. Segundo Prado e Machado (2008), a sexualidade sempre esteve presente na sociedade, sendo um dos fatores determinantes da vida das pessoas. Porém, a sexualidade é um dos comportamentos menos naturais do ser humano, carregado de símbolos, valores e rituais que estruturam e dão coesão às práticas e instituições sociais. Em tese, a sexualidade é constituidora de várias formas de expressão, de prazer, de visibilidade e de relações sociais e afetivas. Nesse contexto, as relações sociais afetivas/sexuais, historicamente, trouxeram as pessoas homossexuais para uma categoria social legitimada por diferentes formas de desigualdade social e exclusão, tornando uma vivência sexual em uma vivência social com menos direitos sociais. Essas formas de inferiorização transformaram a “não-heterossexualidade” em um problema político (Prado; Machado, 2008). 3 Questões sore as sexualidades, ao longo dos séculos, têm se tornando um problema para o âmbito religioso, médico e moral, buscando a negação do elemento político, legitimando assim o discurso e as práticas que colaboram para a manutenção de uma hierarquia social em que “as homossexualidades aparecem como subalternizadas” (Prado; Machado, 2008, p. 16). Segundo Sonia Koehler (2013), a urgência de se discutir e contextualizar questões sociais sobre a diversidade sexual e de gênero é essencial, pois muitos indivíduos de direitos reivindicam suas novas formas de “ser”. Esses indivíduos não podem ser “representados” como categorias universais, partindo da ideia de que os modelos tradicionais normativos existem como reguladores da sexualidade dos indivíduos. Vários estudos, e também a mídia, nos mostram as violências vivenciadas e protagonizadas por diferentes pessoas de nossa sociedade que compõem a diversidade sexual e de gênero. Vemos formas de discriminação e preconceito que conduzem à marginalização, exclusão e violação de direitos de pessoas ou grupos sociais, com base em sua orientação sexual ou identidade de gênero. Segundo Koehler (2013), essas práticas, que acabam sendo reproduzidas diariamente na vida dessas pessoas, se traduzem por violências físicas, verbais e psicológicas, com consequências sexistas, misóginas, racistas, transfóbicas, lesbofóbicas, homofóbicas, bifóbicas etc. Nesse sentido, é importante para nós, profissionais e futuros psicólogos, estudar a sexualidade da população LGBTI, que tem sofrido diversos ataques e retrocessos em seus direitos, com uma luta constante pela sobrevivência em nossa sociedade. Nesta aula, usarei a sigla LGBTI para designar lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais, o que está vinculado às políticas públicas de assistente social e de saúde, e também aos movimentos sociais. Há diversas siglas, sempre com a tentativa de definir o sujeito político do movimento, que passa a conviver com a necessidade de sempre repensá-las, visto que a sociedade está em constante transformação. O movimento se multiplicou a partir da década de 1990, com categorias sociais de referência em um sujeito político. Em 1993, aparece como MGL (movimento de gays e lésbicas), em 1995 aparece como movimento GLT (gays, lésbicas e travestis) e posteriormente, em 1999, passa a figurar como um movimento GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros). Todavia, passa a 4 ser LGBT a partir de hierarquizações e estratégias de visibilização dos segmentos de cada grupo social (Facchini; Rodrigues, 2018). Nos dias atuais, as pessoas intersexuais têm se fortalecido como sujeitos políticos, e hoje fazem parte da sigla, formando o LGBTI. Todavia, isso não significa que outras que encontramos hoje como, LGBTI+, LGBTQIA+, dentre outras, não sejam certas. Aqui iremos nos concentrar em apenas uma, como já explicitado. TEMA 2 – O QUE É ORIENTAÇÃO SEXUAL E IDENTIDADE DE GÊNERO? O termo orientação sexual é recente. Tem sido utilizado em maior escala no final do século XX, como forma de designar pessoas que sentem atração afetivo-sexual por um ou mais sexo/gênero específicos. Antes, havia o termo opção sexual, que essencializa essa forma de relação, como uma ideia de escolha livre e espontânea (Amaral, 2019). Uma das suas definições feitas pelo governo federal foi a do Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLBT e de Promoção da Cidadania de Homossexuais “Brasil Sem Homofobia”, criado pelo Governo Federal em 2004, em conjunto com as organizações do movimento LGBTI da época: Orientação sexual é a atração afetiva e/ou sexual que uma pessoa sente pela outra. A orientação sexual existe num continuum que varia desde a homossexualidade exclusiva até a heterossexualidade exclusiva, passando pelas diversas formas de bissexualidade. Embora tenhamos a possibilidade de escolher se vamos demonstrar, ou não, os nossos sentimentos, os psicólogos não consideram que a orientação sexual seja uma opção consciente que possa ser modificada por um ato da vontade. (Brasil, 2004, p. 29) No documento, consta que a definição de orientação sexual partia da ideia de que os psicólogos não consideravam que a orientação sexual fosse uma opção consciente, como se fosse algo que mudasse por uma vontade imediata. O que chama atenção nessa definição é que inclui a parte emocional do sujeito, e já colocava a psicologia, no exercício da profissão, como ciência comprometida com a legitimação social da homossexualidade. O movimento LGBTI participava de discussões com diversas agendas políticas, para que fossem incluídos e aprovados projetos de lei que buscassem garantir melhor qualidade de vida e de cidadania para essa população. Nesse sentido, uma outra definição se aproxima do que a psicologia pode contribuir. A orientação sexual é um produto singular da subjetividade humana, 5 e tem como base material a legitimação, que se caracteriza pelas significações nas relações sociais afetivas, sexuais e simbólicas (Amaral, 2019). É um aspecto do ser humano que está presente em qualquer relação que o constitui. Considerando ambas as formas de pensar a orientação sexual, fica evidente a expansão do conhecimento e de estudos sobre a população LGBTI. Muitos outros termos ainda têm sido discutidos, que possam contemplar as necessidades e os direitos dessa população. O essencial aqui é não se articular com nenhum saber que produza patologização,discriminação e estigmatização contra essa população, visto que a psicologia tem uma enorme responsabilidade no combate a tais e ideologias. Não é possível chegar em uma das duas definições, pensando em certo ou errado, pois todas elas abrem possibilidades para que possamos acolher essa população, sem que haja algum tipo de exclusão na comunicação, mas com reflexões para as áreas de atuação da psicologia. Identidade de gênero não é a mesma coisa que orientação sexual. Segundo Jaqueline Gomes de Jesus (2012, p. 12-13), é o gênero com o qual uma pessoa se identifica, concordando ou não com o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento. É diferente da orientação sexual: não corresponde à realidade pensar que toda pessoa é naturalmente cisgênero. Tal qual as demais pessoas, uma pessoa trans pode ser bissexual, heterossexual ou homossexual, dependendo do gênero que adota e do gênero com relação ao qual se atrai afetivossexualmente: mulheres transexuais que se atraem por homens são heterossexuais, tal como seus parceiros; homens transexuais que se atraem por mulheres também o são. Já mulheres transexuais que se atraem por outras mulheres são homossexuais, e homens transexuais que se atraem por outros homens também. Não se pode esquecer, igualmente, das pessoas com orientação sexual bissexual. Nem todas as pessoas trans são gays ou lésbicas, apesar de serem identificados como membros do mesmo grupo político, o de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais – LGBT. Segundo Guacira Lopes Louro (1999), as inscrições dos gêneros nos corpos dos sujeitos são sempre atreladas ao contexto de uma determinada cultura, e consequentemente a suas marcas. As identidades de gênero e sexuais são compostas e definidas pelas relações sociais, sendo moldadas pelas redes de poder de uma determinada sociedade. É por meio da cultura e da história que são definidas as identidades sociais (gênero, sexual, raça, classe etc.), constituindo os sujeitos na medida em que são inscritos em diferentes situações, instituições ou grupos sociais. 6 Reconhecer-se numa identidade é afirmar a sua inscrição e estabelecer um sentido de pertencimento a esse grupo social de referência, o que não elimina a possibilidade de descartá-la ou rejeitá-la. Assim, somos sujeitos de identidades transitórias e contingentes, tendo um caráter fragmentado, instável, histórico e plural (Louro, 1999). Por fim, as relações sociais podem produzir meios em que a existência de determinados sujeitos ou grupos oprimidos não sejam percebidos; consequentemente, fortalecem comportamentos que colaboram para a manutenção das relações de poder. Por isso, como profissionais da psicologia, não buscamos uma definição de sexualidade humana que se reduz ao biológico, visto que somos seres sociais, mas uma definição que possa garantir a legitimidade de sujeitos e grupos sociais que buscam melhorias das suas condições de vida em sociedade. TEMA 3 – POPULAÇÃO LGBTI Agora que já aprendemos sobre orientação sexual e identidade de gênero, vamos falar um pouco sobre os grupos sociais e políticos que fazem parte da sigla LGBTI. Ressaltamos que as definições dessa população não se esgotam apenas em uma sigla, levando sempre em consideração a singularidade e a subjetividade de cada um. Suas experiências e vivências de vida devem sempre ser levadas em consideração, evitando uma prática profissional estigmatizante. Como já falamos no primeiro tema, LGBTI é a sigla que designa os grupos sociais de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais. Dessa sigla, apenas lésbicas, gays e bissexuais são orientações sexuais, como vimos anteriormente. Nesse sentindo, pessoas que se autodenominam lésbicas e gays são homossexuais, pois sentem atração, de modo afetivo, sexual e simbólico, por pessoas do mesmo sexo/gênero. Já pessoas bissexuais se atraem por mais de um sexo/gênero, não se limitando apenas a homem e mulher. Travestis, transexuais e intersexuais são identidades de gênero, ou outras categorias sociais em que se autodefinem. As travestis são pessoas que vivenciam papéis de gênero feminino, mas que não se reconhecem como homem ou mulher, podendo desempenhar um terceiro gênero ou nenhum (Jesus, 2012). 7 O termo travesti é mais antigo que o conceito de transexual, tendo sido por muito tempo sido utilizado e consolidado em nosso vocabulário com sentido pejorativo, estigmatizante e discriminativo. É importante ressaltar que, independentemente da forma como as travestis se autodenominam, é respeitoso que a chamem sempre no feminino (Jesus, 2012). As pessoas transexuais desenvolvem suas dissidências ao gênero imposto ao nascimento (Almeida, 2018). A transexualidade é uma questão de identidade. Há diferentes formas de como as pessoas se autodefinem, em diferentes graus, por exemplo: “Mulher transexual é toda pessoa que reivindica o reconhecimento social e legal como mulher. Homem transexual é toda pessoa que reivindica o reconhecimento social e legal como homem” (Jesus, 2012, p. 15). É importante salientar: o que determina a identidade de gênero transexual não é um procedimento cirúrgico. Caso você escute alguém afirmando isso, essa pessoa está sendo transfóbica. O que determina a identidade de gênero transexual da pessoa é a autonomia de legitimar suas vivências e experiências de vida na sociedade. Pessoas intersexuais são aquelas cujo corpo varia quanto ao padrão construído culturalmente de masculino ou feminino, referindo-se a configuração de cromossomos, localização dos órgãos genitais etc. Trata-se de um grupo social que tem se mobilizado bastante a nível mundial, para que a intersexualidade não seja entendida como uma patologia. Esse grupo muitas vezes acaba passando por mutilação e adequação de órgãos genitais, o que não necessariamente condiz com a sua identidade de gênero. Por isso, é muito importante, antes de produzir qualquer tipo de saber profissional sobre esse grupo, e sobre outros também, nos embasar cientificamente a respeito do acolhimento e da autonomia, sem nunca reproduzir um discurso patologizante. Na realidade brasileira, é mais comum que as pessoas se considerem travestis e/ou transexuais, mas também há outros grupos sociais, de pessoas que podem se autodenominar como agêneras, transgêneras, não-binárias, dentre outras categorias autoidentificatórias (Almeida, 2018). Isso não significa que não devemos estudar os outros grupos. Pode ser que você os encontre em siglas com o prefixo “+”, que considera que existem outras identidades e grupos sociais na comunidade: LGBTI+. Recomendo que leiam o “Manual de comunicação LGBTI+”, criado pela parceria da rede GayLatino com a Aliança Nacional LGBTI, lançado em 2018. 8 Em síntese, transgênero é um conceito guarda-chuva que abrange um grupo social diversificado de pessoas que reivindicam comportamentos e/ou papéis sociais de gênero, para além daquele que foi atribuído no seu nascimento. Cisgênero é um conceito guarda-chuva de pessoas que reivindicam o mesmo gênero que lhe é atribuído no nascimento. Sendo assim, o homem cis é aquele que, ao nascer recebeu gênero masculino, e ele próprio se reivindica como homem; a mulher cis é aquela que, ao nascer recebeu gênero feminino, e ela própria se reivindica como mulher. TEMA 4 – VIOLÊNCIA CONTRA DIREITOS DA POPULAÇÃO LGBTI Neste tema, vamos discutir alguns dos marcos históricos e dos retrocessos em direitos sociais e políticos da população LGBTI. Salientamos que há várias problematizações possíveis nessa área, sendo importante olhar os dados com um olhar crítico. A ideia de LGBTI como sujeitos de direitos começa a se construir publicamente com o projeto de lei da união civil ou da parceria civil, que teve vasto cobertura nos meios de comunicação, recebendo uma reação conservadora, o que deu início a um debate abertoe amplo, em escala nacional e social, sobre os direitos LGBTI. Surgem as Paradas do Orgulho LGBTI por todo o Brasil, como ato político e de resistência, evidenciando a importância das relações entre o movimento e o Estado. No dia 5 de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal reconhece a união estável entre pessoas do mesmo sexo/gênero, assim como outras ações originadas do programa do governo federal “Brasil Sem Homofobia”, de 2004, que fazia parte da extinta Secretaria de Direitos Humanos (SDH) (César; Duarte, 2017). Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça aprovou uma resolução que obriga todos os cartórios do país a celebrar o casamento entre pessoas do mesmo gênero. No mesmo ano, é desenvolvido um projeto de lei que prevê a inclusão de uma política de direitos LGBTI no espaço escolar, intitulada “Escola Sem Homofobia”, projeto criado em 2011, que busca a implementação e a efetivação de ações que promovam ambientes políticos e sociais favoráveis à garantia dos direitos humanos e de respeitabilidade às orientações sexuais e identidades de gênero no âmbito escolar brasileiro. Alguns deputados ligados a setores religiosos posicionaram-se contra o projeto, chamando-o de “kit gay”, e 9 acusando-o de ser “doutrinador”. Maria Rita de Assis César e André de Macedo Duarte (2017, p. 147) chamaram o ocorrido de “marco zero do nosso recente pânico moral”. Houve também a retirada da orientação sexual e da identidade de gênero da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em 2017; antes, tinha sido implementada formalmente por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais pelo Ministério da Educação, em 1997. Para população trans, a Portaria n. 1.707/2008 autorizou procedimentos MTF (masculino para feminino), beneficiando mulheres transexuais com serviços de hormonioterapia, cirurgias para retirada do pomo de Adão, alongamento das cordas vocais e cirurgias de neocolpovulvoplastia (mudança de sexo MTF). Todavia, somente em 2013, com a ampliação do Processo Transexualizador do SUS, a partir da Portaria n. 2.803, homens transexuais e travestis tiveram suas demandas atendidas: hormonioterapia e procedimentos FTM (feminino para masculino), como mastectomia, histerectomia e neofaloplastia (mudança de sexo FTM), foram incorporados pelo SUS. O nome utilizado pelo SUS para esse procedimento é “Processo Transexualizador” e “Cirurgia de Redesignação Sexual”, termos bastante questionados pelo próprio movimento das pessoas travestis e transexuais. Entretanto, essa população vivencia diariamente a insegurança do acesso a esse direito, por ele não ser estabelecido por lei, mas apenas em portarias do SUS. Para essa população, esse direito faz parte da busca por reconhecimento social, apesar de gerar inseguranças, que podem proporcionar diversas experiências e vivências desagradáveis. Uma delas é a demora da fila para conseguir acesso a esse direito. Também temos o Decreto n. 8.727, de 28 de abril de 2016, que dispõe sobre o uso do nome social e seu reconhecimento da identidade de gênero das pessoas travestis e transexuais, nas esferas públicas federais. Pesquisas recentes têm revelado processos de estigmatização por parte dos profissionais da área da saúde, que não respeitam o nome social dessa população (Baccarim, 2017). Em termos de dados sobre violência e assassinatos, de acordo com relatório elaborado pelo Grupo Gay da Bahia (2020) em 2019, ocorreram 329 mortes violentas no Brasil, sendo 297 homicídios (90,3%) e 32 suicídios (9,7%). Em relação aos anos anteriores, o ano recorde foi 2017, com 445 mortes, 10 seguido de 2018, com 420. Quanto ao perfil das pessoas: 174 gays (52,8%), 118 travestis e transexuais (35,8%), 32 lésbicas (9,7%), e 5 bissexuais (1,5%). No dossiê de assassinatos e violências contra travestis e transexuais de 2020, produzido por Bruna G. Benevides e Sayonara N. B. Nogueira (2021), consta que o Brasil ainda segue na liderança no ranking de assassinatos contra essa população no mundo inteiro, segundo relatório da Trangender Europe (TGEU). Segundo Benevides e Nogueira (2021), em 2020 o Anuário Brasileiro de Segurança Pública trouxe dados sobre violência contra a população LGBTI pela primeira vez. Todavia, consta que, em 15 estados mais o Distrito Federal, não houve qualquer tipo de informação sobre violências motivadas por identidade de gênero e orientação sexual. Isso faz pensar que ainda há resistência, por parte do Governo Federal, no comprometimento com uma segurança pública que também contemple essa população. Em 2020, houve 175 assassinatos de pessoas trans; todas se autodefiniam como travestis e mulheres transexuais. Não há informações sobre assassinatos de homens trans ou pessoas transmasculinas nas pesquisas do dossiê. Em comparação, no ano de 2019, foram registrados 163 casos de assassinatos dessa população no Brasil, sendo 158 travestis e mulheres transexuais, 4 homens transexuais e 1 pessoa não binária. Houve um aumento de quase 8% de mortes dessa população no nosso país. Considerando esse cenário, tivemos, no dia 13 de junho de 2019, a decisão do STF de considerar as práticas de homofobia e transfobia crimes de racismo (Lei n. 7.716/1989), mas como tem sido depois disso? Será que aconteceram mudanças, como apontam os dados? No campo da Educação, é importante que as políticas afirmativas gerem cotas públicas no ensino superior, para que vozes das minorias se apropriem do sistema educacional. Porém, ainda assim, aqueles que chegam na graduação e na pós-graduação são alvo de estigmatização e discriminação, conforme foi evidenciado por uma ação de sensibilização por mim coordenada no Centro de Assessoria e Pesquisa em Psicologia e Educação (CEAPPE), com referência à data de 28 de junho, dia do Orgulho LGBTI. Nesse trabalho, foram levantadas, via formulário, frases a respeito da vivência de universitários LGBTI da UFPR; a adesão desses estudantes revelou que tais processos estão presentes nesse contexto (Meireles, 2019). 11 Desse modo, a psicologia enfrenta o desafio de apresentar estratégias para que haja um entendimento mais amplo sobre a importância da cidadania e dos direitos dessa população, pensando já na formação de ensino superior e em pós-graduações. Prado e Machado (2008) enfatizam a necessidade de um esforço por parte das pesquisas, além de ações coletivas e práticas sociais inovadoras, que ajudem a combater a estrutura e a dinâmica do preconceito sexual e suas consequências. Dessa forma, concluímos que os movimentos sociais LGBTI são fundamentais para a consolidação de um pensamento científico-crítico capaz de apontar as consequências dos modelos normativos identitários e políticos presentes em nossa sociedade. TEMA 5 – PSICOLOGIA EM INTERFACE COM A POPULAÇÃO LGBTI Agora vamos estudar as resoluções e normas técnicas que ajudam na prática profissional do psicólogo, no atendimento de pessoas LGBTI em diferentes campos de atuação. Salientamos ainda que a construção das resoluções federais da psicologia não diminui a luta que tem sido construir uma ciência e profissão que não seja patologizante, classificatória, estigmatizante ou discriminativa. A primeira resolução criada pelo Conselho Federal de Psicologia, relacionada às questões da sexualidade, foi a de n. 01, de 1999, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão das orientações sexuais. Essa resolução em particular sofreu diversos ataques recentes, na tentativa de derrubá-la, por patê de um grupo de psicólogos que defendiam terapias de reversão sexual, mais conhecidas como “cura gay”. Em especial nessa resolução, fica bem clara a contribuição que o profissional de psicologia pode oferecer para a produção de saber que busque a eliminação da discriminação contra a população LGBTI. Essa contribuição não precisa ser somente pela produção de manuscritos, masinclui a própria prática profissional, na relação com outros profissionais que compõem as equipes. Assim, consta na resolução: “Art. 2° – Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatização contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas” (CFP, 1999). A segunda resolução é a n. 01, de 2018, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação às pessoas travestis e transexuais. Essa 12 resolução foi lançada em 2018, no dia 29 de janeiro, dia nacional da visibilidade trans. É uma resolução extremamente importante, cabendo ressaltar este item: “Art. 4º – As psicólogas e os psicólogos, em sua prática profissional, não se utilizarão de instrumentos ou técnicas psicológicas para criar, manter ou reforçar preconceitos, estigmas, estereótipos e discriminações em relação às pessoas transexuais e travestis” (CFP, 2018, p. 3). Nenhuma conduta técnica deve ser feita como forma de produzir algum tipo de desconforto e constrangimento, que configure uma situação de discriminação. O papel do psicólogo é promover o acolhimento, o acompanhamento, a autonomia da pessoa e a despatologização de discursos e saberes transfóbicos. Dessa forma, o Conselho Federal de Psicologia do Paraná produziu uma norma técnica, de n. 02, de 2018. Tive a oportunidade de participar de sua construção. Ela orienta os profissionais da psicologia na prática ao atendimento de pessoas travestis e transexuais. O psicólogo que for trabalhar em algum serviço do SUS terá um papel importante no acompanhamento psicológico para quem escolher passar pelo processo transexualizador. Esse acompanhamento não deve ter caráter avaliativo sobre a identidade de gênero da pessoa, mas proporcionar acolhimento sobre suas demandas pré e pós-cirúrgicas. O acompanhamento deve respeitar a autonomia da pessoa sobre sua identidade de gênero, garantindo seu acesso aos serviços de saúde. Nesse sentido, pode ser que o psicólogo precise elaborar um documento para que essas pessoas realizem cirurgia do processo transexualizador, tratamentos hormonais e demais procedimentos. Também pode ajudar com a retificação do nome e/ou gênero nos registros civis. O nome desse documento é relatório psicológico, e ele deve considerar que existem diversidades de experiências que são legítimas, e que cada trajetória do indivíduo em sociedade é singular. Portanto, é um documento que respeita a autonomia e a dignidade humana. Por último, temos a nota técnica de n. 001, de 2019, também produzida pelo CRP do Paraná, que orienta os psicólogos no atendimento às pessoas lésbicas, gays, bissexuais e de demais orientações sexuais, também promovendo acolhimento, acompanhamento, autonomia e despatologização. Essa nota tem ênfase apenas nas identidades de pessoas relacionadas às suas 13 orientações sexuais, exercendo papel esclarecedor na prática profissional de atendimentos a esse público, independentemente do campo de atuação. Vale salientar que há outras notas técnicas. Cada conselho regional produz suas próprias notas, para a melhoria da prática profissional dos psicólogos da região, segundo o que for considerado necessário. Já as resoluções são feitas pelo conselho federal, e todos os conselhos regionais precisam acatá-las. Em síntese, precisamos sempre aprimorar a nossa prática profissional, nos atualizando conforme a sociedade transforma o seu meio. Se tais resoluções e notas técnicas existem, é porque há profissionais que têm usado da psicologia para produzir saberes e discursos discriminatórios, punitivos, excludentes e patológicos. A psicologia é uma ciência e uma profissão pautada em direitos humanos. NA PRÁTICA A psicologia tem diversos campos de atuação, dialogando e compartilhando o cotidiano com diversas profissões. Vimos que o psicólogo tem um papel muito importante na garantia de acesso a serviços da saúde para a população travesti e transexuais. Nesse sentido, se uma mulher trans escolhe passar pelo processo transexualizador do SUS, o psicólogo precisa produzir que tipo de documento para ser entregue a um médico? E o que precisaria constar nesse documento para aprovação médica? Pergunte ao seu tutor em caso de dúvidas. FINALIZANDO Nesta aula, aprendemos um pouco sobre: sexualidade, em sua diversidade; população LGBTI e violências de direitos; o que é orientação sexual e identidade de gênero; e principalmente como a psicologia atua com essa população. Podemos concluir que essa ciência e profissão tem um papel muito importante na garantia de direitos de alguns grupos sociais em sociedade, buscando principalmente a melhoria da qualidade de saúde mental da população. É uma grande responsabilidade, visto que o sujeito está em constante transformação, junto com a sociedade. Por isso, é muito importante ficar atento à prática profissional, sempre nos pautando no código de ética, e ainda em resoluções pertinentes, notas técnicas e na produção científica como um todo, nas mais diversas áreas que estudam o ser humano. 14 REFERÊNCIAS ALMEIDA, G. Identidade de gênero com ênfase nas pessoas trans: particularidades e acesso à saúde, trabalho e educação. In: NOGUEIRA, L. et al. (Org.). Hasteemos a bandeira colorida: diversidade sexual e de gênero no Brasil. 1. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2018. AMARAL, M. M. do. Dimensão subjetiva da masculinidade: significações de homens gays sobre o papel da escola no processo de constituição da masculinidade. 243 f. Dissertação (Mestrado em Educação: Psicologia da Educação) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2019. BACCARIM, R. C. G. 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