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CORPO, GÊNERO E SEXUALIDADE AULA 4 Prof. Victor Hugo Brandão Meireles 2 CONVERSA INICIAL Olá, estudante. Nesta aula, iremos aprender um pouco sobre corpos na sociedade contemporânea, com discursos e enunciados que fazem parte de uma rede e um sistema produzidos na sociedade, que não seguem o padrão de heterossexualidade e cisgeneridade. Também iremos aprender sobre as relações de poder, entendendo como geram a homofobia, comum hoje em dia como lgbtifobia. Além disso veremos as práticas discursivas de heteronormatividade e cisnormatividade. Os objetivos desta aula são aprender sobre corpos, discurso e enunciado; discutir a relação de saber e poder e em como produzem a homofobia e lgbtifobia; e discutir sobre os fenômenos da heteronormatividade e cisnormatividade, como partes da regulação dos corpos em sociedade. TEMA 1 – PRODUÇÃO DE CORPOS NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA O corpo por muito tempo esteve relacionado ao biológico. Diversos estudos sobre gênero e sexualidade têm desnaturalizado essa concepção de sujeito apenas biológico, essencialista e único, como se o próprio desejo sexual fosse reduzido ao sexo, por exemplo. Temos visto que a sexualidade é um conceito que amplia a concepção de sexo, de gênero e de relações sociais pela, considerando a historicidade e a construção dos corpos em sociedade, o que já era de se esperar pelas instituições sociais que procuram manter o seu domínio. Nesta seção, iremos aprender qual a concepção de corpo utilizada nos estudos de gênero e sexualidade, perpassando os conceitos de Foucault e sua história da sexualidade. Segundo Jeffrey Weeks (2000), Foucault ainda tem sido central na atualidade para o debate sobre corpo e sexualidade, por conta de sua crítica às instituições sociais. Para Guacira Lopes Louro (2000), os corpos se constituem pela identidade. Como vimos em aulas anteriores, a identidade na psicologia assume uma forma de transformação social e de metamorfose, sendo o que determina (e é determinado) no meio em que estamos inseridos e na cultura. Os corpos ganham significados pela cultura, e assim, por ela alterados, se transformam ao longo de mudanças nos contextos históricos e sociais, vistas 3 em pequenos detalhes: doença, mudança de âmbitos alimentares, rompimento de uma relação afetiva, possibilidades e impossibilidades do cotidiano (Louro, 2000). Vamos tomar como exemplo a epidemia do HIV/Aids, que viralizou na década de 80, tendo aumentado a visibilidade pública sobre a homossexualidade, com a lenta expansão de um mercado de bens de serviço destinado ao público homossexual (Facchini, 2011). Surgiram diversos discursos sobre um “sexo seguro”, além de novas formas de prazer corporal e modos de relacionamentos entre as pessoas (Louro, 1999). Nessa época, a população LGBTI entrou em maior escala na cena pública, como alvo de processos de estigmatização e discriminação. No combate ao HIV/Aids, com base em experiências, conhecimento e acesso às comunidades, os movimentos sociais passaram a coordenar projetos de prevenção, financiados por programas estatais. As pautas do movimento nas políticas públicas não buscam o reconhecimento das demandas de cidadania dos LGBTI, ou a criação de conselhos de direitos, mas se volta à política de saúde em combate às ISTs e à Aids (Facchini, 2011). Segundo Weeks (2000, p. 24), foi um contexto histórico em que diversos meios midiáticos sensacionalistas escolheram o discurso da vingança da natureza em corpos que quebravam os padrões dos limites sexuais. “A suposição parecia ser que o corpo expressa uma verdade fundamental sobre a sexualidade”. Hoje, sabemos que HIV/Aids não afeta um corpo em específico, mas pessoas heterossexuais, mulheres, homens, jovens, idosos, dentre outros grupos sociais; todavia, não afeta todas as pessoas desses grupos sociais, ou quem tem parceiros infectados (Weeks, 2000). Dessa forma, devemos nos atentar aos discursos que produzimos sobre a doença e o vírus, que por décadas estigmatizaram corpos de sujeitos que transgridem as normas de gênero e as sociais. Ambos não são sinônimos, nem os corpos que o carregam. Diversos mecanismos de controle e poder tornaram-se importantes, por questões sociais e políticas, com divergências a respeito do tema, considerando ainda os efeitos que causam nos corpos. Existe a regulação de várias formas de expressões corporais, de gênero e sexuais, controladas desde o nascimento. Esse controle pode se dar por vários preceitos que estabelecem o que o “homem” e a “mulher”, ou outros grupos de pessoas, podem ou não fazer, desde 4 a ação e o que vestir até o modo como se comportar e ocupar cargos específicos, como se as pessoas já estivessem pré-determinadas e direcionadas a apresentar características inerentes à sua “condição biológica”. A construção de corpos ocorre pelas vias de controle, em discursos pelas instituições sociais em sociedade, como no exemplo do HIV/Aids, que tem sido pauta em discursos na saúde e em políticas públicas sobre corpos. Trata-se de um discurso que tinha, e ainda tem, a intenção de modificar e estigmatizar corpos de grupos sociais que, por muito tempo, antes da epidemia, já eram discriminados e excluídos. Portanto, as práticas atuais contêm a produção e a construção de discursos sobre a sexualidade, em corpos que se modificam e se multiplicam conforme a sociedade se transforma. Os “discursos emergem e buscam se impor; estabelecem-se controvérsias e contestações, afirmam-se, política e publicamente, identidades silenciadas e sexualmente marginalizadas. Aprendemos, todos, em meio a (e com) essas disputas” (Louro, 2000, p. 22). TEMA 2 – DISCURSO E ENUNCIADO EM FOUCAULT E o que é discurso e enunciado, tema frequentemente mencionado nos estudos da história da sexualidade de Foucault? Nesta seção, iremos aprender, de forma sucinta, sobre esses dois conceitos que Foucault elabora em seus estudos sobre sexualidade. É importante frisar que chamo de “história” o que Foucault, em seu método de análise de discursos, chama de “arqueologia”. Segundo Marisa Faermann Eizirik (2006), a arqueologia é um método que trabalha com problemas específicos que surgiram e surgem na história, além de determinar como se constituem os saberes, privilegiando as práticas discursivas na relação com as instituições sociais. Todavia, não iremos focar nesse conceito nesta disciplina. Você já deve ter se perguntado o que é discurso. Para produzir um saber, ele precisa ser praticado por uma via de discurso. O discurso vai muito além da utilização de letras, palavras e frases, e não poder ser entendido como um fenômeno que se reduz à expressão de alguma coisa, pois apresenta-se como regularidades intrínsecas a si, a partir das quais é possível defini-lo como uma rede conceitual própria (Fischer, 2001). 5 Um discurso pode ser conceituado como uma rede de signos que se conectam com outros discursos em um sistema aberto, com reprodução e estabelecimento dos valores de uma determinada sociedade (Foucault, 2012). Assim, é possível definir discurso como sendo um conjunto de enunciados que derivam de um sistema em formação, que está constituído por um “número limitado de enunciados para os quais se pode definir um conjunto de condições de existência” (Tagliamento, 2012, p. 53; Foucault 1984, p. 153). Para Rosa Maria Bueno Fischer (2001), em quase todas as formulações sobre discurso, Foucault refere-se ao enunciado, como sendo uma função em que um domínio de estruturas e de unidades se cruzam, fazendo com que apareçam com conteúdo concreto no tempo e no espaço (Foucault, 1984). Os enunciados se apoiam em um conjunto de signos; para isso, essa “função” se caracteriza por quatro elementos básicos: um referente, um sujeito, um campo associado e uma materialidadeespecífica. Fischer (2001, p. 202) descreve: 1. A referência a algo que identificamos (o referente, no caso, a figura de mestre associada a doação e amor); 2. o fato de ter um sujeito, alguém que pode efetivamente afirmar aquilo (muitos professores e professoras ocupam o lugar de sujeito desse enunciado [...]; 3. o fato de o enunciado não existir isolado, mas sempre em associação e correlação com outros enunciados, do mesmo discurso (no caso, o discurso pedagógico) ou de outros discursos (por exemplo, o discurso religioso, missionário, ou mesmo o discurso sobre a mulher, a maternidade, e assim por diante); 4. finalmente, a materialidade do enunciado, as formas muito concretas com que ele aparece, nas enunciações que aparecem em textos pedagógicos, em falas de professores, nas mais diferentes situações, em diferentes épocas. Para descrever um enunciado, deve-se dar conta dessas especificidades descritas, e ainda apreendê-lo como acontecimento, algo que age em um certo tempo e em um certo lugar. Para Fischer (2001, o. 202), o que permite situar uma certa organização do emaranhado de enunciados é “o fato de eles pertencerem a uma certa formação discursiva”. Cabe aqui falar sobre as práticas discursivas, que implicam em uma variedade de produções sociais, que se transformam em expressões, correspondendo a momentos ativos do uso da linguagem em ressignificações, rupturas e produção de sentido (Spink; Medrado, 2013). Assim, definimos práticas discursivas: Podemos definir, assim, práticas discursivas como linguagem em ação, ou seja, as maneiras a partir das quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas. As práticas discursivas têm como elementos constitutivos: a dinâmica, ou seja, os enunciados orientados por vozes; as formas, que são os speech genres (definidos 6 acima); e os conteúdos, que são os repertórios interpretativos. (Spink; Medrado, 2013, p. 26) É pela linguagem e pela prática discursiva que somos capazes de acessar as práticas cotidianas. Segundo Foucault, devemos nos atentar às coisas faladas, à palavra e ao convite às narrativas sobre as práticas cotidianas, fonte importante para a análise dos processos de subjetivação e assujeitamento (Tagliamento, 2012). TEMA 3 – RELAÇÕES ENTRE SABER E PODER Agora vamos estudar as relações de saber e poder, uma união entre duas funções presentes no discurso e nas práticas discursivas. Um saber, para Foucault (1984), é aquilo que está presente em uma prática discursiva, trazendo um domínio específico dentro de um conhecimento científico. É um espaço no qual o indivíduo toma uma posição, de modo a falar sobre objetos dos quais se ocupa em seu discurso e de um campo que sistematiza e subordina os enunciados em que os conceitos surgem, se aplicam, se definem e se transformam (Foucault, 1984). O saber se define pela possibilidade de utilizar a sua apropriação pelos discursos, do que já foi falado e ainda é, para assim produzir um conhecimento que vai além do que está contido nas demonstrações, pois também pode estar em ficções, reflexões, narrativas, regulamentos instituições e decisões políticas (Foucault, 1984, p. 205). Já o poder é definido, segundo Tamara Maria Bordin (2014), como verdade estabilizada nos discursos, pautada por aqueles que legitimam o poder. Pode ser um direito, por estarmos inseridos em uma sociedade regida por leis, de modo que sejamos disciplinados. Dessa forma, os discursos de verdade são expressos por meio de linguagem, comportamentos e valores que se refletem nas relações de poder. Tais relações podem aprisionar o indivíduo, subordinando-o subjetivamente. Entretanto, o poder não é apenas exercido por um superior sobre seus subordinados, mas está presente em todas as relações e em todas as práticas. O poder pode ocorrer de subordinado para subordinado, pois o trabalho no sistema capitalista produz competitividade. Podemos trazer o exemplo de poder do sistema médico. Podemos citar como exemplo de exercício de poder aconteceu o contexto do surgimento da lepra: as pessoas que tinham a doença 7 eram exiladas e internadas em locais distantes, e muitas vezes não podiam nem receber visitas de familiares. As pessoas chegavam a queimar a casa das pessoas que já tinham contraído a doença, como forma de controle (Bordin, 2014). Desde então, muita coisa tem mudado dentro do sistema médico; novas formas de poder, com suas relações, têm surgido em outros setores da sociedade – ou seja, o poder gera exclusão. Segundo Isabella Maria Nunes Ferreirinha e Tânia Regina Raitz (2010), o poder é uma ação sobre ações. As relações de poder estão postas pelas instituições sociais, como já vimos, e contam com a disciplina como forma de punição. As formas de exercício de poder, para Bordin (2014), podem ser um instrumento de análise para explicar a produção de saberes que constam do poder em todas as relações, pelos mais variados discursos, e os saberes que legitimam determinados discursos, afetando com isso as relações de poder. Todo saber produz relações de poder. O poder está nas relações, não somente nas instituições ou no chefe de uma empresa; ele apresenta fluidez na sociedade, enquanto saber em uma relação de conteúdos e discursos. O poder se estabelece pela força e estabelece o saber no ensinar (Ferreirinha; Raitz, 2010). Para que isso acontecesse, as relações de poder e saber precisavam andar juntas, para que uma produzisse um poder sobre a outra. TEMA 4 – HOMOFOBIA OU LGBTIFOBIA? Nesta seção, vamos falar um pouco sobre as formas como as relações de poder produzem a discriminação contra a população LGBTI, pensando as violências que essa população sofre em termos mais contemporâneo. Inicialmente, o termo homofobia foi usado para explicar e denunciar as discriminações e violências que a população LGBTI tem sofrido e sofre diariamente em nossa sociedade. Segundo Rogério Junqueira (2007), a homofobia é um fenômeno plural que faz referências a conjuntos de emoções negativas, que vão desde aversão e desprezo até medo ou ódio. Apresenta ligação com as relações de poder e com os processos de produção de diferentes culturas que promovem vínculos entre a homofobia e os 8 processos de construção de padrões sociais, preconceitos e mecanismos discriminatórios reguladores de gênero. Com isso, as normas de gênero dão base para a construção de preconceitos, desencadeando discriminações homofóbicas na mesma estrutura dos campos de disputas de modelos que definem socialmente as masculinidades e as feminilidades, assim como o neutro, o ambíguo, o fronteiriço ou o semovente (Junqueira, 2007). A relação entre a homofobia e as normas de gênero se traduzem em formas de crenças, valores, expectativas e atitudes, trazendo consequências para aqueles que não se identificam com os modelos normativos postos pela sociedade (Junqueira, 2007). São modelos normativos pautados por um sistema binário, disciplinar e normatizador, em que a heterossexualidade ganha um papel social naturalizado, correspondente a determinado sexo/gênero. A homofobia transcende os aspectos de ordem psicológica, a hostilidade e a violência contra pessoas gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, transexuais, travestis, intersexuais etc. (Junqueira, 2007). Nesse contexto, os valores postos por tais normas permitem e legitimam uma única possibilidade de vivenciar experiências afetivas e amorosas, considerando sexualidades que sejam iguais a pessoas heterossexuais. Nesse sentido: valores, mecanismos de exclusão, disposições e estruturas hierarquizantes, relações de poder, sistemas de crenças e de representação, padrões relacionais e identitários, todos eles voltados a naturalizar, impor, sancionar e legitimar uma única sequência sexo- gênero-sexualidade, centrada na heterossexualidade e rigorosamente regulada pelas normasde gênero. (Junqueira, p. 9, 2007) Observa-se um sistema binário, normatizador e disciplinador, que carrega a heterossexualidade como uma expressão social a partir do gênero considerado naturalmente correspondente a determinado “sexo”, tido como natural, dado, como já vimos. Segundo Daniel Borrillo (2016), a homofobia é vista como uma categoria de análise de cunho epistemológico, que não trata apenas de conhecer ou compreender a gênese e o funcionamento da homossexualidade, mas busca ainda analisar a hostilidade que surge com relação a essa forma específica de orientação sexual. Tal forma não se refere unicamente às orientações sexuais, mas inclui ainda as identidades de gênero e sexuais – além de expressarem seus desejos afetivos e sexuais, também expressam suas identidades nos mais variados espaços sociais. 9 A homofobia é classificada, segundo Borrillo (2016), em quatro categorias específicas. Primeiro, a homofobia irracional, comoviolência correspondente a uma atitude irracional do próprio indivíduo, podendo gerar conflitos individuais, pela negação de própria orientação sexual. A homofobia cognitiva, que o autor também chama de social, designa as diferenças entre hétero/homo, baseando- se em preconceitos que são naturalizados. A homofobia geral consiste basicamente na “vigilância do gênero”, que questiona a identidade do sujeito. Nesse caso, as discriminações passam a ser direcionadas, independentemente de qualidades ou defeitos, com base em um gênero diferente do modelo padrão normativo – no caso, a dominação masculina, a negação do feminino e a rejeição das diversidades sexuais. Por fim, a homofobia específica é especialmente direcionada a um tipo de pessoa cuja orientação sexual seja diferente da hétero. O autor separa a homofobia em alguns casos, nos levando a questionar a amplitude se tomar esse fenômeno, dadas as relações de poder. Por isso, é importante destacar que, atualmente, o movimento LGBTI tem mobilizado discussões mais diretas sobre a homofobia específica e a geral. Por exemplo, hoje mulheres lésbicas que sofrem discriminação estão relacionadas à lesbofobia. Diferentemente de homens trans e mulheres trans, que podem estar relacionados à transfobia. A mulher lésbica sofrerá uma rede diversa de preconceitos, como machismo, sexismo e lesbofobia; a mulher trans sofrerá transfobia, machismo e também lesbofobia, pois há mulheres trans que são lésbicas. É preciso levar em consideração as especificidades das experiências e vivências que se relacionam às identidades. Também há discriminação e preconceito contra pessoas bissexuais, que são alvos de discursos sobre confusão, dificuldade de escolha e fase, o que se caracteriza como bifobia. A bissexualidade não é confusão, tampouco uma fase, como se em algum momento a pessoa chegasse em alguma escolha. Ela é possível, visto que a sexualidade em sua totalidade é histórica, cultural e social, certo? É também a partir de possibilidades de relações de afeto, de desejo e sexuais que nos constituímos. O ponto dessa discussão é: a discriminação nem sempre vem sozinha, independente de um marcador social. Geralmente, na disputa por poder, diversos discursos são produzidos em um único corpo. Por isso, fique atento e escute o que a pessoa tem para dizer. A vivência de cada pessoa é muito 10 importante, e pode revelar a tentativa de deslegitimar sua identidade e subjetividade por meio das relações de poder. Dessa forma, com os movimentos sociais LGBTI, a mídia e outros veículos midiáticos têm ampliado o discurso sobre a discriminação que essa população sofre, caracterizada como lgbtifobia, o que evidencia que o sentindo produzido sobre a discriminação é perpassado por diversos mecanismos de controle. Portanto, não é errado usar o termo homofobia, mas é importante entender a razão de usá-lo. Hoje, o STF reconhece como discriminação a homofobia e também a transfobia. Trata-se de um diálogo importante com o direito, e hoje estudos da área têm defendido os direitos sociais e as políticas da população LGBTI. O exercício de reflexão deve nos ajudar a pensar juntos, considerando tais conceitos em nossos espaços sociais e de trabalho, de modo a ampliar a visibilidade de grupos sociais que sofrem, e que por muito tempo têm sido invisibilizados dentro do próprio movimento. Isso implica dizer que a mulher lésbica não sofrerá a mesma discriminação do homem gay. Para uma melhor compreensão de termos, com possíveis questionamentos sobre os mais adequados, na próxima seção vamos tratar dos fenômenos da heteronormatividade e da cisnormatividade, que concentram a legitimidade de práticas em vivências relacionadas à sexualidade em um único grupo social: heterossexuais cisgêneros. TEMA 5 – HETERONORMATIVIDADE E CISNORMATIVIDADE Os conceitos de heteronormatividade e cisnormatividade ampliam o olhar para fenômenos que se fortalecem no sistema capitalista, estando colados nas relações de poder em sociedade. Nesta seção, discutiremos esses dois fenômenos, pois eles legitimam a sexualidade da população, reduzida à assim heterossexual cisgênera. Segundo João Manuel de Oliveira (2013), o conceito de heteronormatividade surgiu na literatura de estudos LGBT em artigo de Morin, de 1977, descrito como um “enviesamento” heterossexual: um sistema normativo de crenças considera a heterossexualidade como mais “natural” e “superior” que as homossexualidades. 11 Oliveira (2013) analisa as normas de gênero, pela representação da heterossexualidade hegemônica, recorrendo ao conceito de homonormatividade, como categoria da heteronormatividade. Essa categoria torna a heteronormatividade menos visível e evidente por parte do movimento LGBT, que omite esse mecanismo por se sujeitar às normas de gênero e sexuais. Nesse sentido, a homonormatividade acaba se baseando no modo como a população LGBTI reforça o binarismo de gênero, com a perda do caráter político de reivindicação de direitos sociais e políticos, que acabam sendo constituídos por uma hierarquia de grau de aceitabilidade e conformidade, de acordo com as normas de gênero. Como descreve Oliveira (2013, p. 69): Assim o conceito de homonormatividade torna-se particularmente relevante para entender o modo como a população LGBTIQ faz perdurar o legado da heteronormatividade no plano de uma cidadania voltada para o consumo num quadro neoliberal, na despolitização das reivindicações e no reforço do binarismo de género dentro da própria comunidade, constituindo assim uma hierarquização dentro dessa comunidade em termos de grau de aceitabilidade e de conformidade dos corpos às normas de género. A heteronormatividade determina que outras sexualidades e relações afetivas/sexuais sejam vividas apenas no âmbito privado, pois o âmbito público é domínio exclusivo da heterossexualidade. Nessa perspectiva, a cidadania é desde sempre sexualizada, e assim a ocupação do espaço público depende de um tipo único de sexualidade e gênero, o que exclui as homossexualidades (Oliveira, 2013). Portanto, a heteronormatividade como expressão da homonormatividade se baseia em uma estratégia de adaptação, como duas faces de um mesmo mecanismo, há muito implantado nas sociedades contemporâneas. Legislações, direitos legais, leis e normas sociais já permitem certos acessos a direitos políticos e civis, mas na prática ainda há modelos discriminativos que se baseiam em sexualidades. Aqui é importante pensar que, pelo viés da hierarquização de corpos, as facetas do preconceito, além de baseadas na sexualidade, também controlam os espaços sociais, de modo a garantir que sejam usufruídos apenas por aqueles que seguem tais normas de gênero e normas sexuais. Segundo Grazielle Tagliamento (2012), a heteronormatividade pode ser entendida pelo campo dos enunciados (Foucault), por ser capaz de determinar o campode possibilidades da existência de proposições, frases e 12 consequentemente práticas. Com isso, a heteronormatividade faz parte de um conjunto de práticas discursivas que regulam e produzem as subjetividades das pessoas LGBTI, sendo produto dos processos de estigmatização e discriminação, o que dificulta a garantia de direitos por parte dessa população. A heteronormatividade, e toda regulação produzida por esse ideal, podem estabelecer processos de estigmatização e de discriminação, por meio do conjunto de práticas discursivas que “regulam e produzem as subjetividades” (Tagliamento, 2012, p. 53). Nesse sentido, a heteronormatividade é um conceito importante para caracterizar a cisnormatividade, especificamente em seu caráter de diversidades corporais e de gênero na produção da heterossexualidade cisgênera (Simakawa, 2015) na ótica analítica dos dois fenômenos. Segundo Viviane Vergueiro Simakawa (2015), o conceito de cisgeneridade serve fundamentalmente para pensar as formações corporais e as identidades de gênero naturalizadas e essencializadas nas normativas de gênero, isto é, na cisnormatividade, que no exercício dos mais vários dispositivos de poder domina a existência de vivências, identidades e identificações de gênero que transgridem as normas de gênero/sexuais. A cisnormatividade, amparada em Judith Butler, define-se em decorrência das normativas de discursos entre o sexo e o gênero, macho+homem, fêmea+mulher, deslegitimando a existência de corpos e identidades de gênero que afrontam as normativas (Simakawa, 2015). Já vimos que o cisgênero caracteriza pessoas que reivindicam o mesmo gênero que lhes foi atribuído ao nascimento; a cisgeneridade é um conceito maior, definindo possibilidades definitórias e restritas de corpos e identidades, assim como a decorrente regulação sobre as expressões de gênero (Simakawa, 2015). A cisnormatividade se inscreve em vias pré-discursivas, que definem o sexo/gênero por meio de uma marca em corpos relacionados ao sexo biológico, com critérios naturais e essencialistas (Pontes; Silva, 2018). É o que associa o sexo como biológico e o gênero como cultural. A dicotomia entre sexo e gênero separa essas duas instâncias e é produzida pela cisnormatividade. Portanto, a cisgeneridade produz a cisnormatividade, de acordo com as relações de poder que produzem as regulações de corpo com uma perspectiva natural e biológica. Constrói uma rede de discursos heteronormativos e 13 cisnormativos, com uma única forma de vivenciar a sexualidade no público e assim apropriar-se do que for direito em todos os âmbitos sociais – direitos sociais e políticos, e também o direito de amar. Os dois fenômenos estão associados às relações de poder e saber; assim, psicologia, como ciência e profissão, produz um saber sobre a sexualidade. Esse saber aprisiona subjetividades? Explora corpos e classifica sujeitos? NA PRÁTICA Cotidianamente, na área da saúde, pessoas trans e travestis passam pelos serviços do SUS e denunciam a violência e a discriminação que sofrem nos atendimentos. Imagina você, psicólogo hospitalar, voltando do almoço e presenciando um enfermeiro chamar uma travesti pelo nome de registro dado ao nascimento. Nesse momento, há outras pessoas na sala de espera, e você percebe o desconforto que a travesti demonstra ao ser chamada por um nome que nem mais faz sentido para ela. O que ela presenciou foi um tipo de relação de saber e poder: a transfobia em um serviço de saúde. Como você, psicólogo hospitalar, pode abordar esse tipo de assunto com outros funcionários do serviço? E como pode acolher a travesti que acaba de passar por uma situação de transfobia? Para ajudar, salientamos que hoje existe um espaço para nome social no cadastro único do SUS – ainda assim, as pessoas travestis e trans têm passado por situações de transfobia. FINALIZANDO Aprendemos hoje que os corpos são construídos e constituídos em discursos e práticas discursivas que se produzem nas relações de poder e saber. Por exemplo, a homofobia, ou o fenômeno da heteronormatividade, conceitos que podem explicar os processos de estigmatização e discriminação que nascem em discursos nas instituições sociais que promovem a exclusão, o sofrimento e o abondando do próprio Estado. Tais discursos evidenciam as complexidades das relações sociais na sociedade, e podem ser analisados por meio das vivências e experiências das pessoas. A psicologia é uma ciência e uma profissão que está inserida em diversos contextos socioculturais, participando da construção de saberes sobre aspectos 14 de vida e bem-estar da população. Entre tais aspectos, temos a sexualidade e suas expressões nas relações sociais. Por isso, devemos nos atentar às produções de saber, a conceitos que explicam vivências e experiências de grupos sociais que desde sempre têm sido negligenciados e excluídos das apropriações sociais, culturais e históricas da humanidade. 15 REFERÊNCIAS BORDIN, T. M. 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