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CORPO, GÊNERO E 
SEXUALIDADE 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Victor Hugo Brandão Meireles 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Olá, estudante. Nesta aula, iremos aprender um pouco sobre corpos na 
sociedade contemporânea, com discursos e enunciados que fazem parte de uma 
rede e um sistema produzidos na sociedade, que não seguem o padrão de 
heterossexualidade e cisgeneridade. Também iremos aprender sobre as 
relações de poder, entendendo como geram a homofobia, comum hoje em dia 
como lgbtifobia. Além disso veremos as práticas discursivas de 
heteronormatividade e cisnormatividade. 
Os objetivos desta aula são aprender sobre corpos, discurso e enunciado; 
discutir a relação de saber e poder e em como produzem a homofobia e 
lgbtifobia; e discutir sobre os fenômenos da heteronormatividade e 
cisnormatividade, como partes da regulação dos corpos em sociedade. 
TEMA 1 – PRODUÇÃO DE CORPOS NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA 
O corpo por muito tempo esteve relacionado ao biológico. Diversos 
estudos sobre gênero e sexualidade têm desnaturalizado essa concepção de 
sujeito apenas biológico, essencialista e único, como se o próprio desejo sexual 
fosse reduzido ao sexo, por exemplo. Temos visto que a sexualidade é um 
conceito que amplia a concepção de sexo, de gênero e de relações sociais pela, 
considerando a historicidade e a construção dos corpos em sociedade, o que já 
era de se esperar pelas instituições sociais que procuram manter o seu domínio. 
Nesta seção, iremos aprender qual a concepção de corpo utilizada nos 
estudos de gênero e sexualidade, perpassando os conceitos de Foucault e sua 
história da sexualidade. Segundo Jeffrey Weeks (2000), Foucault ainda tem sido 
central na atualidade para o debate sobre corpo e sexualidade, por conta de sua 
crítica às instituições sociais. 
Para Guacira Lopes Louro (2000), os corpos se constituem pela 
identidade. Como vimos em aulas anteriores, a identidade na psicologia assume 
uma forma de transformação social e de metamorfose, sendo o que determina 
(e é determinado) no meio em que estamos inseridos e na cultura. 
Os corpos ganham significados pela cultura, e assim, por ela alterados, 
se transformam ao longo de mudanças nos contextos históricos e sociais, vistas 
 
 
3 
em pequenos detalhes: doença, mudança de âmbitos alimentares, rompimento 
de uma relação afetiva, possibilidades e impossibilidades do cotidiano (Louro, 
2000). 
Vamos tomar como exemplo a epidemia do HIV/Aids, que viralizou na 
década de 80, tendo aumentado a visibilidade pública sobre a 
homossexualidade, com a lenta expansão de um mercado de bens de serviço 
destinado ao público homossexual (Facchini, 2011). Surgiram diversos discursos 
sobre um “sexo seguro”, além de novas formas de prazer corporal e modos de 
relacionamentos entre as pessoas (Louro, 1999). Nessa época, a população 
LGBTI entrou em maior escala na cena pública, como alvo de processos de 
estigmatização e discriminação. 
 No combate ao HIV/Aids, com base em experiências, conhecimento e 
acesso às comunidades, os movimentos sociais passaram a coordenar projetos 
de prevenção, financiados por programas estatais. As pautas do movimento nas 
políticas públicas não buscam o reconhecimento das demandas de cidadania 
dos LGBTI, ou a criação de conselhos de direitos, mas se volta à política de 
saúde em combate às ISTs e à Aids (Facchini, 2011). 
Segundo Weeks (2000, p. 24), foi um contexto histórico em que diversos 
meios midiáticos sensacionalistas escolheram o discurso da vingança da 
natureza em corpos que quebravam os padrões dos limites sexuais. “A 
suposição parecia ser que o corpo expressa uma verdade fundamental sobre a 
sexualidade”. 
Hoje, sabemos que HIV/Aids não afeta um corpo em específico, mas 
pessoas heterossexuais, mulheres, homens, jovens, idosos, dentre outros 
grupos sociais; todavia, não afeta todas as pessoas desses grupos sociais, ou 
quem tem parceiros infectados (Weeks, 2000). Dessa forma, devemos nos 
atentar aos discursos que produzimos sobre a doença e o vírus, que por décadas 
estigmatizaram corpos de sujeitos que transgridem as normas de gênero e as 
sociais. Ambos não são sinônimos, nem os corpos que o carregam. 
Diversos mecanismos de controle e poder tornaram-se importantes, por 
questões sociais e políticas, com divergências a respeito do tema, considerando 
ainda os efeitos que causam nos corpos. Existe a regulação de várias formas de 
expressões corporais, de gênero e sexuais, controladas desde o nascimento. 
Esse controle pode se dar por vários preceitos que estabelecem o que o 
“homem” e a “mulher”, ou outros grupos de pessoas, podem ou não fazer, desde 
 
 
4 
a ação e o que vestir até o modo como se comportar e ocupar cargos específicos, 
como se as pessoas já estivessem pré-determinadas e direcionadas a 
apresentar características inerentes à sua “condição biológica”. 
A construção de corpos ocorre pelas vias de controle, em discursos pelas 
instituições sociais em sociedade, como no exemplo do HIV/Aids, que tem sido 
pauta em discursos na saúde e em políticas públicas sobre corpos. Trata-se de 
um discurso que tinha, e ainda tem, a intenção de modificar e estigmatizar corpos 
de grupos sociais que, por muito tempo, antes da epidemia, já eram 
discriminados e excluídos. 
Portanto, as práticas atuais contêm a produção e a construção de 
discursos sobre a sexualidade, em corpos que se modificam e se multiplicam 
conforme a sociedade se transforma. Os “discursos emergem e buscam se 
impor; estabelecem-se controvérsias e contestações, afirmam-se, política e 
publicamente, identidades silenciadas e sexualmente marginalizadas. 
Aprendemos, todos, em meio a (e com) essas disputas” (Louro, 2000, p. 22). 
TEMA 2 – DISCURSO E ENUNCIADO EM FOUCAULT 
E o que é discurso e enunciado, tema frequentemente mencionado nos 
estudos da história da sexualidade de Foucault? Nesta seção, iremos aprender, 
de forma sucinta, sobre esses dois conceitos que Foucault elabora em seus 
estudos sobre sexualidade. É importante frisar que chamo de “história” o que 
Foucault, em seu método de análise de discursos, chama de “arqueologia”. 
Segundo Marisa Faermann Eizirik (2006), a arqueologia é um método que 
trabalha com problemas específicos que surgiram e surgem na história, além de 
determinar como se constituem os saberes, privilegiando as práticas discursivas 
na relação com as instituições sociais. Todavia, não iremos focar nesse conceito 
nesta disciplina. 
Você já deve ter se perguntado o que é discurso. Para produzir um saber, 
ele precisa ser praticado por uma via de discurso. O discurso vai muito além da 
utilização de letras, palavras e frases, e não poder ser entendido como um 
fenômeno que se reduz à expressão de alguma coisa, pois apresenta-se como 
regularidades intrínsecas a si, a partir das quais é possível defini-lo como uma 
rede conceitual própria (Fischer, 2001). 
 
 
5 
Um discurso pode ser conceituado como uma rede de signos que se 
conectam com outros discursos em um sistema aberto, com reprodução e 
estabelecimento dos valores de uma determinada sociedade (Foucault, 2012). 
Assim, é possível definir discurso como sendo um conjunto de 
enunciados que derivam de um sistema em formação, que está constituído por 
um “número limitado de enunciados para os quais se pode definir um conjunto 
de condições de existência” (Tagliamento, 2012, p. 53; Foucault 1984, p. 153). 
Para Rosa Maria Bueno Fischer (2001), em quase todas as formulações 
sobre discurso, Foucault refere-se ao enunciado, como sendo uma função em 
que um domínio de estruturas e de unidades se cruzam, fazendo com que 
apareçam com conteúdo concreto no tempo e no espaço (Foucault, 1984). Os 
enunciados se apoiam em um conjunto de signos; para isso, essa “função” se 
caracteriza por quatro elementos básicos: um referente, um sujeito, um campo 
associado e uma materialidadeespecífica. Fischer (2001, p. 202) descreve: 
1. A referência a algo que identificamos (o referente, no caso, a figura 
de mestre associada a doação e amor); 2. o fato de ter um sujeito, 
alguém que pode efetivamente afirmar aquilo (muitos professores e 
professoras ocupam o lugar de sujeito desse enunciado [...]; 3. o fato 
de o enunciado não existir isolado, mas sempre em associação e 
correlação com outros enunciados, do mesmo discurso (no caso, o 
discurso pedagógico) ou de outros discursos (por exemplo, o discurso 
religioso, missionário, ou mesmo o discurso sobre a mulher, a 
maternidade, e assim por diante); 4. finalmente, a materialidade do 
enunciado, as formas muito concretas com que ele aparece, nas 
enunciações que aparecem em textos pedagógicos, em falas de 
professores, nas mais diferentes situações, em diferentes épocas. 
Para descrever um enunciado, deve-se dar conta dessas especificidades 
descritas, e ainda apreendê-lo como acontecimento, algo que age em um certo 
tempo e em um certo lugar. Para Fischer (2001, o. 202), o que permite situar 
uma certa organização do emaranhado de enunciados é “o fato de eles 
pertencerem a uma certa formação discursiva”. 
Cabe aqui falar sobre as práticas discursivas, que implicam em uma 
variedade de produções sociais, que se transformam em expressões, 
correspondendo a momentos ativos do uso da linguagem em ressignificações, 
rupturas e produção de sentido (Spink; Medrado, 2013). Assim, definimos 
práticas discursivas: 
Podemos definir, assim, práticas discursivas como linguagem em ação, 
ou seja, as maneiras a partir das quais as pessoas produzem sentidos 
e se posicionam em relações sociais cotidianas. As práticas discursivas 
têm como elementos constitutivos: a dinâmica, ou seja, os enunciados 
orientados por vozes; as formas, que são os speech genres (definidos 
 
 
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acima); e os conteúdos, que são os repertórios interpretativos. (Spink; 
Medrado, 2013, p. 26) 
É pela linguagem e pela prática discursiva que somos capazes de acessar 
as práticas cotidianas. Segundo Foucault, devemos nos atentar às coisas 
faladas, à palavra e ao convite às narrativas sobre as práticas cotidianas, fonte 
importante para a análise dos processos de subjetivação e assujeitamento 
(Tagliamento, 2012). 
TEMA 3 – RELAÇÕES ENTRE SABER E PODER 
Agora vamos estudar as relações de saber e poder, uma união entre duas 
funções presentes no discurso e nas práticas discursivas. 
Um saber, para Foucault (1984), é aquilo que está presente em uma 
prática discursiva, trazendo um domínio específico dentro de um conhecimento 
científico. É um espaço no qual o indivíduo toma uma posição, de modo a falar 
sobre objetos dos quais se ocupa em seu discurso e de um campo que 
sistematiza e subordina os enunciados em que os conceitos surgem, se aplicam, 
se definem e se transformam (Foucault, 1984). 
O saber se define pela possibilidade de utilizar a sua apropriação pelos 
discursos, do que já foi falado e ainda é, para assim produzir um conhecimento 
que vai além do que está contido nas demonstrações, pois também pode estar 
em ficções, reflexões, narrativas, regulamentos instituições e decisões políticas 
(Foucault, 1984, p. 205). 
Já o poder é definido, segundo Tamara Maria Bordin (2014), como 
verdade estabilizada nos discursos, pautada por aqueles que legitimam o poder. 
Pode ser um direito, por estarmos inseridos em uma sociedade regida por leis, 
de modo que sejamos disciplinados. Dessa forma, os discursos de verdade são 
expressos por meio de linguagem, comportamentos e valores que se refletem 
nas relações de poder. Tais relações podem aprisionar o indivíduo, 
subordinando-o subjetivamente. 
Entretanto, o poder não é apenas exercido por um superior sobre seus 
subordinados, mas está presente em todas as relações e em todas as práticas. 
O poder pode ocorrer de subordinado para subordinado, pois o trabalho no 
sistema capitalista produz competitividade. Podemos trazer o exemplo de poder 
do sistema médico. Podemos citar como exemplo de exercício de poder 
aconteceu o contexto do surgimento da lepra: as pessoas que tinham a doença 
 
 
7 
eram exiladas e internadas em locais distantes, e muitas vezes não podiam nem 
receber visitas de familiares. As pessoas chegavam a queimar a casa das 
pessoas que já tinham contraído a doença, como forma de controle (Bordin, 
2014). 
Desde então, muita coisa tem mudado dentro do sistema médico; novas 
formas de poder, com suas relações, têm surgido em outros setores da 
sociedade – ou seja, o poder gera exclusão. 
Segundo Isabella Maria Nunes Ferreirinha e Tânia Regina Raitz (2010), o 
poder é uma ação sobre ações. As relações de poder estão postas pelas 
instituições sociais, como já vimos, e contam com a disciplina como forma de 
punição. 
As formas de exercício de poder, para Bordin (2014), podem ser um 
instrumento de análise para explicar a produção de saberes que constam do 
poder em todas as relações, pelos mais variados discursos, e os saberes que 
legitimam determinados discursos, afetando com isso as relações de poder. 
Todo saber produz relações de poder. 
O poder está nas relações, não somente nas instituições ou no chefe de 
uma empresa; ele apresenta fluidez na sociedade, enquanto saber em uma 
relação de conteúdos e discursos. O poder se estabelece pela força e estabelece 
o saber no ensinar (Ferreirinha; Raitz, 2010). Para que isso acontecesse, as 
relações de poder e saber precisavam andar juntas, para que uma produzisse 
um poder sobre a outra. 
TEMA 4 – HOMOFOBIA OU LGBTIFOBIA? 
Nesta seção, vamos falar um pouco sobre as formas como as relações de 
poder produzem a discriminação contra a população LGBTI, pensando as 
violências que essa população sofre em termos mais contemporâneo. 
Inicialmente, o termo homofobia foi usado para explicar e denunciar as 
discriminações e violências que a população LGBTI tem sofrido e sofre 
diariamente em nossa sociedade. Segundo Rogério Junqueira (2007), a 
homofobia é um fenômeno plural que faz referências a conjuntos de emoções 
negativas, que vão desde aversão e desprezo até medo ou ódio. 
Apresenta ligação com as relações de poder e com os processos de 
produção de diferentes culturas que promovem vínculos entre a homofobia e os 
 
 
8 
processos de construção de padrões sociais, preconceitos e mecanismos 
discriminatórios reguladores de gênero. 
Com isso, as normas de gênero dão base para a construção de 
preconceitos, desencadeando discriminações homofóbicas na mesma estrutura 
dos campos de disputas de modelos que definem socialmente as 
masculinidades e as feminilidades, assim como o neutro, o ambíguo, o fronteiriço 
ou o semovente (Junqueira, 2007). 
A relação entre a homofobia e as normas de gênero se traduzem em 
formas de crenças, valores, expectativas e atitudes, trazendo consequências 
para aqueles que não se identificam com os modelos normativos postos pela 
sociedade (Junqueira, 2007). São modelos normativos pautados por um sistema 
binário, disciplinar e normatizador, em que a heterossexualidade ganha um papel 
social naturalizado, correspondente a determinado sexo/gênero. 
A homofobia transcende os aspectos de ordem psicológica, a hostilidade 
e a violência contra pessoas gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, 
transexuais, travestis, intersexuais etc. (Junqueira, 2007). Nesse contexto, os 
valores postos por tais normas permitem e legitimam uma única possibilidade de 
vivenciar experiências afetivas e amorosas, considerando sexualidades que 
sejam iguais a pessoas heterossexuais. Nesse sentido: 
valores, mecanismos de exclusão, disposições e estruturas 
hierarquizantes, relações de poder, sistemas de crenças e de 
representação, padrões relacionais e identitários, todos eles voltados 
a naturalizar, impor, sancionar e legitimar uma única sequência sexo-
gênero-sexualidade, centrada na heterossexualidade e rigorosamente 
regulada pelas normasde gênero. (Junqueira, p. 9, 2007) 
Observa-se um sistema binário, normatizador e disciplinador, que carrega 
a heterossexualidade como uma expressão social a partir do gênero considerado 
naturalmente correspondente a determinado “sexo”, tido como natural, dado, 
como já vimos. 
Segundo Daniel Borrillo (2016), a homofobia é vista como uma categoria 
de análise de cunho epistemológico, que não trata apenas de conhecer ou 
compreender a gênese e o funcionamento da homossexualidade, mas busca 
ainda analisar a hostilidade que surge com relação a essa forma específica de 
orientação sexual. Tal forma não se refere unicamente às orientações sexuais, 
mas inclui ainda as identidades de gênero e sexuais – além de expressarem 
seus desejos afetivos e sexuais, também expressam suas identidades nos mais 
variados espaços sociais. 
 
 
9 
A homofobia é classificada, segundo Borrillo (2016), em quatro categorias 
específicas. Primeiro, a homofobia irracional, comoviolência correspondente a 
uma atitude irracional do próprio indivíduo, podendo gerar conflitos individuais, 
pela negação de própria orientação sexual. A homofobia cognitiva, que o autor 
também chama de social, designa as diferenças entre hétero/homo, baseando-
se em preconceitos que são naturalizados. A homofobia geral consiste 
basicamente na “vigilância do gênero”, que questiona a identidade do sujeito. 
Nesse caso, as discriminações passam a ser direcionadas, independentemente 
de qualidades ou defeitos, com base em um gênero diferente do modelo padrão 
normativo – no caso, a dominação masculina, a negação do feminino e a rejeição 
das diversidades sexuais. Por fim, a homofobia específica é especialmente 
direcionada a um tipo de pessoa cuja orientação sexual seja diferente da hétero. 
O autor separa a homofobia em alguns casos, nos levando a questionar 
a amplitude se tomar esse fenômeno, dadas as relações de poder. Por isso, é 
importante destacar que, atualmente, o movimento LGBTI tem mobilizado 
discussões mais diretas sobre a homofobia específica e a geral. Por exemplo, 
hoje mulheres lésbicas que sofrem discriminação estão relacionadas à 
lesbofobia. Diferentemente de homens trans e mulheres trans, que podem estar 
relacionados à transfobia. A mulher lésbica sofrerá uma rede diversa de 
preconceitos, como machismo, sexismo e lesbofobia; a mulher trans sofrerá 
transfobia, machismo e também lesbofobia, pois há mulheres trans que são 
lésbicas. É preciso levar em consideração as especificidades das experiências 
e vivências que se relacionam às identidades. 
Também há discriminação e preconceito contra pessoas bissexuais, que 
são alvos de discursos sobre confusão, dificuldade de escolha e fase, o que se 
caracteriza como bifobia. A bissexualidade não é confusão, tampouco uma fase, 
como se em algum momento a pessoa chegasse em alguma escolha. Ela é 
possível, visto que a sexualidade em sua totalidade é histórica, cultural e social, 
certo? É também a partir de possibilidades de relações de afeto, de desejo e 
sexuais que nos constituímos. 
O ponto dessa discussão é: a discriminação nem sempre vem sozinha, 
independente de um marcador social. Geralmente, na disputa por poder, 
diversos discursos são produzidos em um único corpo. Por isso, fique atento e 
escute o que a pessoa tem para dizer. A vivência de cada pessoa é muito 
 
 
10 
importante, e pode revelar a tentativa de deslegitimar sua identidade e 
subjetividade por meio das relações de poder. 
Dessa forma, com os movimentos sociais LGBTI, a mídia e outros 
veículos midiáticos têm ampliado o discurso sobre a discriminação que essa 
população sofre, caracterizada como lgbtifobia, o que evidencia que o sentindo 
produzido sobre a discriminação é perpassado por diversos mecanismos de 
controle. 
Portanto, não é errado usar o termo homofobia, mas é importante 
entender a razão de usá-lo. Hoje, o STF reconhece como discriminação a 
homofobia e também a transfobia. Trata-se de um diálogo importante com o 
direito, e hoje estudos da área têm defendido os direitos sociais e as políticas da 
população LGBTI. 
 O exercício de reflexão deve nos ajudar a pensar juntos, considerando 
tais conceitos em nossos espaços sociais e de trabalho, de modo a ampliar a 
visibilidade de grupos sociais que sofrem, e que por muito tempo têm sido 
invisibilizados dentro do próprio movimento. Isso implica dizer que a mulher 
lésbica não sofrerá a mesma discriminação do homem gay. Para uma melhor 
compreensão de termos, com possíveis questionamentos sobre os mais 
adequados, na próxima seção vamos tratar dos fenômenos da 
heteronormatividade e da cisnormatividade, que concentram a legitimidade de 
práticas em vivências relacionadas à sexualidade em um único grupo social: 
heterossexuais cisgêneros. 
TEMA 5 – HETERONORMATIVIDADE E CISNORMATIVIDADE 
Os conceitos de heteronormatividade e cisnormatividade ampliam o olhar 
para fenômenos que se fortalecem no sistema capitalista, estando colados nas 
relações de poder em sociedade. Nesta seção, discutiremos esses dois 
fenômenos, pois eles legitimam a sexualidade da população, reduzida à assim 
heterossexual cisgênera. 
Segundo João Manuel de Oliveira (2013), o conceito de 
heteronormatividade surgiu na literatura de estudos LGBT em artigo de Morin, 
de 1977, descrito como um “enviesamento” heterossexual: um sistema 
normativo de crenças considera a heterossexualidade como mais “natural” e 
“superior” que as homossexualidades. 
 
 
11 
Oliveira (2013) analisa as normas de gênero, pela representação da 
heterossexualidade hegemônica, recorrendo ao conceito de 
homonormatividade, como categoria da heteronormatividade. Essa categoria 
torna a heteronormatividade menos visível e evidente por parte do movimento 
LGBT, que omite esse mecanismo por se sujeitar às normas de gênero e 
sexuais. 
Nesse sentido, a homonormatividade acaba se baseando no modo como 
a população LGBTI reforça o binarismo de gênero, com a perda do caráter 
político de reivindicação de direitos sociais e políticos, que acabam sendo 
constituídos por uma hierarquia de grau de aceitabilidade e conformidade, de 
acordo com as normas de gênero. 
Como descreve Oliveira (2013, p. 69): 
Assim o conceito de homonormatividade torna-se particularmente 
relevante para entender o modo como a população LGBTIQ faz 
perdurar o legado da heteronormatividade no plano de uma cidadania 
voltada para o consumo num quadro neoliberal, na despolitização das 
reivindicações e no reforço do binarismo de género dentro da própria 
comunidade, constituindo assim uma hierarquização dentro dessa 
comunidade em termos de grau de aceitabilidade e de conformidade 
dos corpos às normas de género. 
A heteronormatividade determina que outras sexualidades e relações 
afetivas/sexuais sejam vividas apenas no âmbito privado, pois o âmbito público 
é domínio exclusivo da heterossexualidade. Nessa perspectiva, a cidadania é 
desde sempre sexualizada, e assim a ocupação do espaço público depende de 
um tipo único de sexualidade e gênero, o que exclui as homossexualidades 
(Oliveira, 2013). 
Portanto, a heteronormatividade como expressão da homonormatividade 
se baseia em uma estratégia de adaptação, como duas faces de um mesmo 
mecanismo, há muito implantado nas sociedades contemporâneas. Legislações, 
direitos legais, leis e normas sociais já permitem certos acessos a direitos 
políticos e civis, mas na prática ainda há modelos discriminativos que se baseiam 
em sexualidades. Aqui é importante pensar que, pelo viés da hierarquização de 
corpos, as facetas do preconceito, além de baseadas na sexualidade, também 
controlam os espaços sociais, de modo a garantir que sejam usufruídos apenas 
por aqueles que seguem tais normas de gênero e normas sexuais. 
Segundo Grazielle Tagliamento (2012), a heteronormatividade pode ser 
entendida pelo campo dos enunciados (Foucault), por ser capaz de determinar 
o campode possibilidades da existência de proposições, frases e 
 
 
12 
consequentemente práticas. Com isso, a heteronormatividade faz parte de um 
conjunto de práticas discursivas que regulam e produzem as subjetividades das 
pessoas LGBTI, sendo produto dos processos de estigmatização e 
discriminação, o que dificulta a garantia de direitos por parte dessa população. 
A heteronormatividade, e toda regulação produzida por esse ideal, podem 
estabelecer processos de estigmatização e de discriminação, por meio do 
conjunto de práticas discursivas que “regulam e produzem as subjetividades” 
(Tagliamento, 2012, p. 53). 
Nesse sentido, a heteronormatividade é um conceito importante para 
caracterizar a cisnormatividade, especificamente em seu caráter de diversidades 
corporais e de gênero na produção da heterossexualidade cisgênera (Simakawa, 
2015) na ótica analítica dos dois fenômenos. 
Segundo Viviane Vergueiro Simakawa (2015), o conceito de 
cisgeneridade serve fundamentalmente para pensar as formações corporais e 
as identidades de gênero naturalizadas e essencializadas nas normativas de 
gênero, isto é, na cisnormatividade, que no exercício dos mais vários dispositivos 
de poder domina a existência de vivências, identidades e identificações de 
gênero que transgridem as normas de gênero/sexuais. 
A cisnormatividade, amparada em Judith Butler, define-se em decorrência 
das normativas de discursos entre o sexo e o gênero, macho+homem, 
fêmea+mulher, deslegitimando a existência de corpos e identidades de gênero 
que afrontam as normativas (Simakawa, 2015). 
Já vimos que o cisgênero caracteriza pessoas que reivindicam o mesmo 
gênero que lhes foi atribuído ao nascimento; a cisgeneridade é um conceito 
maior, definindo possibilidades definitórias e restritas de corpos e identidades, 
assim como a decorrente regulação sobre as expressões de gênero (Simakawa, 
2015). 
A cisnormatividade se inscreve em vias pré-discursivas, que definem o 
sexo/gênero por meio de uma marca em corpos relacionados ao sexo biológico, 
com critérios naturais e essencialistas (Pontes; Silva, 2018). É o que associa o 
sexo como biológico e o gênero como cultural. A dicotomia entre sexo e gênero 
separa essas duas instâncias e é produzida pela cisnormatividade. 
Portanto, a cisgeneridade produz a cisnormatividade, de acordo com as 
relações de poder que produzem as regulações de corpo com uma perspectiva 
natural e biológica. Constrói uma rede de discursos heteronormativos e 
 
 
13 
cisnormativos, com uma única forma de vivenciar a sexualidade no público e 
assim apropriar-se do que for direito em todos os âmbitos sociais – direitos 
sociais e políticos, e também o direito de amar. 
Os dois fenômenos estão associados às relações de poder e saber; 
assim, psicologia, como ciência e profissão, produz um saber sobre a 
sexualidade. Esse saber aprisiona subjetividades? Explora corpos e classifica 
sujeitos? 
NA PRÁTICA 
Cotidianamente, na área da saúde, pessoas trans e travestis passam 
pelos serviços do SUS e denunciam a violência e a discriminação que sofrem 
nos atendimentos. Imagina você, psicólogo hospitalar, voltando do almoço e 
presenciando um enfermeiro chamar uma travesti pelo nome de registro dado ao 
nascimento. Nesse momento, há outras pessoas na sala de espera, e você 
percebe o desconforto que a travesti demonstra ao ser chamada por um nome 
que nem mais faz sentido para ela. O que ela presenciou foi um tipo de relação 
de saber e poder: a transfobia em um serviço de saúde. Como você, psicólogo 
hospitalar, pode abordar esse tipo de assunto com outros funcionários do 
serviço? E como pode acolher a travesti que acaba de passar por uma situação 
de transfobia? Para ajudar, salientamos que hoje existe um espaço para nome 
social no cadastro único do SUS – ainda assim, as pessoas travestis e trans têm 
passado por situações de transfobia. 
FINALIZANDO 
Aprendemos hoje que os corpos são construídos e constituídos em 
discursos e práticas discursivas que se produzem nas relações de poder e saber. 
Por exemplo, a homofobia, ou o fenômeno da heteronormatividade, conceitos 
que podem explicar os processos de estigmatização e discriminação que 
nascem em discursos nas instituições sociais que promovem a exclusão, o 
sofrimento e o abondando do próprio Estado. Tais discursos evidenciam as 
complexidades das relações sociais na sociedade, e podem ser analisados por 
meio das vivências e experiências das pessoas. 
A psicologia é uma ciência e uma profissão que está inserida em diversos 
contextos socioculturais, participando da construção de saberes sobre aspectos 
 
 
14 
de vida e bem-estar da população. Entre tais aspectos, temos a sexualidade e 
suas expressões nas relações sociais. Por isso, devemos nos atentar às 
produções de saber, a conceitos que explicam vivências e experiências de 
grupos sociais que desde sempre têm sido negligenciados e excluídos das 
apropriações sociais, culturais e históricas da humanidade. 
 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
BORDIN, T. M. O Saber e o poder: a contribuição de Michel Foucault. Saberes: 
Revista interdisciplinar de Filosofia e Educação, v. 1, n. 10, p. 225-235, nov. 
2014. 
BORRILLO, D. Homofobia: história e crítica de um preconceito. Tradução de 
Guilherme João de Freitas Teixeira. 1 ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 
2016. 
EIZIRIK, M. F. Poder, saber e práticas sociais. Psico, v. 37, n. 1, 3, p. 23-29. jul. 
2006. 
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