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Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo Abordagem clínica, diagnóstica, fisiopatológica e terapêutica com base nos slides de aula e em fontes médicas confiáveis Figura 1. Demência como síndrome de múltiplos domínios cognitivos, sempre interpretada à luz da funcionalidade. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 1. Por que estudar demências? As demências estão entre os maiores desafios clínicos, familiares e econômicos da medicina contemporânea porque combinam alta prevalência, progressão funcional, necessidade de cuidado prolongado e enorme impacto sobre autonomia, segurança, finanças, família e sistemas de saúde. A Organização Mundial da Saúde descreve a demência como uma prioridade de saúde pública e estimou, em dados recentes, dezenas de milhões de pessoas vivendo com demência no mundo, com quase 10 milhões de casos novos por ano. O envelhecimento populacional faz com que a carga absoluta aumente mesmo quando a incidência por faixa etária se estabiliza ou cai em determinados contextos. Do ponto de vista clínico, estudar demência é aprender a reconhecer um padrão de perda cognitiva adquirida que interfere na vida real. O problema não é apenas “esquecer nomes”; é perder a capacidade de administrar medicamentos, preparar refeições com segurança, lidar com dinheiro, orientar-se em trajetos habituais, interpretar riscos, manter higiene, sustentar relações sociais e tomar decisões. A gravidade médica não está apenas no escore do teste cognitivo, mas na combinação entre cognição, funcionalidade, comportamento, comorbidades, vulnerabilidade social e sobrecarga do cuidador. A relevância acadêmica também é enorme porque demência é um tema integrador. Ela exige neuroanatomia, neuroquímica, patologia, geriatria, psiquiatria, clínica médica, farmacologia, infectologia, endocrinologia, neurorradiologia e medicina de família. O bom raciocínio em demência começa antes de pensar em Alzheimer: é preciso perguntar se a queixa é verdadeira, se o início foi agudo ou insidioso, se há flutuação, se há alteração de consciência, se existe depressão grave simulando declínio, se há medicamentos anticolinérgicos, sedativos ou hipnóticos, se houve AVC, trauma, intoxicação, infecção crônica, hidrocefalia, tumor ou deficiência vitamínica. Um erro comum é transformar todo idoso esquecido em “paciente com Alzheimer”. Esse atalho é perigoso porque algumas causas são reversíveis ou tratáveis, como hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12, neurossífilis, HIV, hematoma subdural crônico, hidrocefalia de pressão normal e depressão maior. Mesmo quando a causa é degenerativa, o diagnóstico correto muda conduta: demência com corpos de Lewy exige cautela extrema com antipsicóticos; demência frontotemporal pode ter piora com inibidores de acetilcolinesterase em alguns quadros comportamentais; demência vascular exige controle agressivo de fatores de risco; Alzheimer em fase inicial pode envolver biomarcadores e, em centros especializados, terapias modificadoras de doença. 2. Definição de demência e transtornos neurocognitivos Demência é uma síndrome clínica caracterizada por declínio cognitivo adquirido, geralmente progressivo, que acomete um ou mais domínios cognitivos e interfere de forma significativa na independência do indivíduo. A palavra-chave é “adquirido”: não se trata de deficiência intelectual do desenvolvimento nem de baixa escolaridade isolada. Também é fundamental a palavra “funcionalidade”: um indivíduo pode apresentar alterações em testes cognitivos e ainda ser independente; nesse caso, fala-se mais adequadamente em transtorno neurocognitivo leve ou comprometimento cognitivo leve, não em demência. O DSM-5 substituiu o termo clássico “demência” pela categoria “transtorno neurocognitivo maior”, mantendo a ideia central de declínio adquirido em relação a um nível prévio de funcionamento. A alteração deve ser Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo sustentada por preocupação do próprio paciente, de um informante confiável ou do clínico, e preferencialmente por avaliação neuropsicológica ou teste cognitivo padronizado. Além disso, o déficit precisa interferir na independência nas atividades cotidianas. Quando há declínio objetivo, mas a independência está preservada, ainda que com maior esforço, compensações ou estratégias, fala-se em transtorno neurocognitivo leve. Os domínios cognitivos relevantes incluem atenção complexa, funções executivas, aprendizagem e memória, linguagem, função perceptivo-motora e cognição social. A aula enfatiza memória, linguagem, funções executivas, praxias, gnosias e cognição social, que correspondem à aplicação clínica desses domínios. Memória envolve codificação, armazenamento e evocação; linguagem envolve nomeação, compreensão, repetição, fluência e pragmática; funções executivas envolvem planejamento, flexibilidade mental, inibição, tomada de decisão e resolução de problemas; praxias correspondem à execução de atos motores aprendidos; gnosias são reconhecimento de objetos, sons, faces e estímulos; cognição social envolve interpretação de emoções, empatia, julgamento social e adequação comportamental. É muito importante não reduzir a demência à memória. A Doença de Alzheimer típica começa com amnésia episódica, mas demências frontotemporais podem iniciar com desinibição, apatia ou perda de empatia; demência vascular pode começar com lentificação e disfunção executiva; demência com corpos de Lewy pode se apresentar com flutuações atencionais, alucinações visuais e transtorno comportamental do sono REM; variantes atípicas de Alzheimer podem iniciar com sintomas visuoespaciais ou de linguagem. Portanto, a pergunta correta não é apenas “o paciente esquece?”, mas “qual rede cognitiva falhou primeiro e como isso afetou sua vida?”. Figura 2. Espectro do declínio cognitivo: o divisor prático entre CCL/TCL e demência é a funcionalidade. 2.1 Domínios cognitivos em profundidade Domínio Tradução clínica Memória episódica Capacidade de registrar e evocar eventos contextualizados no tempo e no espaço. Depende fortemente de hipocampo, córtex entorrinal e circuitos límbicos. Em Alzheimer típico, o paciente repete perguntas, esquece conversas recentes e tem baixo benefício com pistas. Memória semântica Conhecimento de fatos, conceitos, nomes e significados. Pode ser muito afetada em demência frontotemporal variante semântica, com perda progressiva do significado das palavras e objetos. Linguagem Nomeação, fluência, compreensão, repetição, leitura e escrita. Anomia precoce pode aparecer no Alzheimer; afasias progressivas primárias apontam para degeneração frontotemporal ou Alzheimer logopênico. Funções executivas Planejamento, organização, julgamento, flexibilidade, inibição e monitoramento de erros. Déficit executivo precoce é típico de demência vascular subcortical, DFT comportamental e doença com corpos de Lewy. Praxias Execução de gestos aprendidos e sequências motoras voluntárias. Apraxia ideomotora, construtiva ou do vestir sugere acometimento parietal, corticobasal ou Alzheimer com envolvimento parietal. Gnosias e visuoespacial Reconhecimento de estímulos, faces, objetos e relações espaciais. Prejuízo visuoespacial precoce sugere corpos de Lewy, atrofia cortical posterior ou doença parietal. Cognição social Empatia, teoria da mente, adequação social, leitura de emoções e julgamento moral. Alteração precoce é a assinatura da demência frontotemporal comportamental. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 3. Envelhecimento normal, declínio cognitivo leve, delirium e depressão O envelhecimento normal podeantecedente, comportamento e consequência. O que aconteceu antes? O que exatamente o paciente fez? O que aconteceu depois que pode reforçar o comportamento? Tratar o gatilho costuma ser mais efetivo do que sedar. Apatia é falta de motivação e iniciativa, não necessariamente tristeza. Ela é comum em Alzheimer, vascular e DFT, e pode ser devastadora para a família, que a interpreta como preguiça ou oposição. O manejo envolve rotina, atividades simples, reforço positivo, exercício, luz solar e redução de demandas complexas. Alucinações visuais devem fazer pensar em Lewy, especialmente quando precoces, detalhadas e acompanhadas de flutuação e parkinsonismo. Sundowning, a piora no fim da tarde/noite, melhora com luz diurna, rotina, redução de cochilos longos, ambiente calmo e tratamento de dor/noctúria. Medicação para SCPD deve ser consequência de avaliação, não reflexo automático. Antidepressivos podem ajudar depressão, ansiedade e irritabilidade. Antipsicóticos podem ser necessários em psicose/agitação perigosa, mas exigem consentimento informado, monitorização e tentativa de retirada quando possível. Benzodiazepínicos tendem a piorar quedas e delirium; os anticolinérgicos devem ser evitados. O cuidador precisa ser tratado como parte da unidade clínica: sem orientação e descanso do cuidador, o melhor plano falha. 25. Casos clínicos comentados Caso 1 - Alzheimer típico Mulher de 72 anos apresenta esquecimentos progressivos há dois anos, perde objetos, repete perguntas, está desorientada no tempo, tem MEEM 18/30 e RM com atrofia hipocampal bilateral. O padrão é altamente sugestivo de Doença de Alzheimer em fase demencial, porque há início insidioso, progressão gradual, amnésia episódica Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo recente, desorientação temporal e biomarcador estrutural compatível. A funcionalidade precisa ser documentada: ela ainda administra medicações, finanças, cozinha e sai sozinha? O MEEM 18 sugere gravidade pelo menos moderada, mas deve ser interpretado pela escolaridade. A conduta inicial inclui excluir causas reversíveis com exames laboratoriais, revisar medicamentos, avaliar depressão/delirium, confirmar impacto funcional, orientar família, discutir segurança e iniciar tratamento sintomático se não houver contraindicações. Donepezila, rivastigmina ou galantamina podem ser considerados; a memantina pode entrar em fase moderada. Se fosse fase inicial e houvesse interesse em terapia modificadora, seria necessário confirmar amiloide, avaliar elegibilidade, APOE, RM basal e riscos. Caso 2 - Demência vascular Homem de 68 anos, hipertenso e diabético, com dois AVCs prévios, declínio em degraus, déficit executivo proeminente, RM com leucoaraiose extensa e lacunas. Esse caso é típico de comprometimento cognitivo vascular/demência vascular. A história em degraus e as lesões isquêmicas sustentam relação temporal e anatômica. O fenótipo executivo/subcortical, mais do que amnésico puro, reforça doença de pequenos vasos e lesão fronto-subcortical. A conduta central é prevenção secundária vascular: pressão, diabetes, lipídios, tabagismo, fibrilação atrial, antiagregação/anticoagulação quando indicada, exercício, dieta, sono e reabilitação. Deve-se avaliar marcha, quedas, disfagia, depressão, apatia e autonomia. Anticolinesterásicos podem ser considerados em casos selecionados, especialmente quando há suspeita de componente misto Alzheimer, mas não substituem tratamento vascular. Caso 3 - Demência com corpos de Lewy Homem de 70 anos tem flutuações cognitivas diárias, alucinações de figuras humanas, parkinsonismo leve e encenação de sonhos há anos. O conjunto é praticamente a assinatura clínica de demência com corpos de Lewy. O transtorno comportamental do sono REM precedendo o quadro por anos sugere sinucleinopatia. Alucinações visuais precoces e detalhadas, flutuação e parkinsonismo completam o raciocínio. A conduta inclui revisar medicamentos que pioram a cognição, tratar sono REM quando há risco de lesão, orientar segurança noturna, considerar rivastigmina/donepezila para cognição e alucinações, manejar parkinsonismo com cautela e evitar antipsicóticos típicos. Se a psicose for perigosa, usar estratégia especializada e conservadora. Esse é o caso em que prescrever haloperidol de rotina pode ser desastroso. Caso 4 - Demência frontotemporal Mulher de 58 anos apresenta desinibição, piadas inapropriadas, hiperoralidade, memória relativamente preservada e PET com hipometabolismo frontal bilateral. O quadro favorece demência frontotemporal variante comportamental. A idade precoce, o predomínio comportamental e a preservação inicial da memória se diferenciam de Alzheimer típico. A hiperoralidade e a inadequação social são sinais frontotemporais fortes. A investigação deve incluir RM, avaliação neuropsicológica, história familiar e rastreio de sinais de DNM/parkinsonismo atípico. O manejo é principalmente não farmacológico e comportamental, com orientação familiar, segurança financeira/legal, restrição de direção quando necessário e tratamento de sintomas específicos. ISRS podem reduzir compulsões, irritabilidade e desinibição em alguns pacientes. Anticolinesterásicos geralmente não são a primeira escolha na DFT comportamental e podem piorar o comportamento em alguns casos. 26. Perguntas de discussão clínica respondidas Pergunta Resposta comentada Qual a diferença entre CCL/TCL e demência leve de Alzheimer? A diferença principal é a funcionalidade. No CCL há declínio objetivo, mas independência preservada, ainda que com esforço. Na demência leve há perda de independência em AIVDs. Se a etiologia for Alzheimer, biomarcadores podem sustentar que o CCL é devido a DA. Quando indicar punção lombar? Início precoce, evolução rápida, quadro atípico, suspeita infecciosa/inflamatória/priônica/neoplásica, imunossupressão, sinais Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo meníngeos, ou necessidade de biomarcadores de Alzheimer para decisão diagnóstica/terapêutica especializada. Por que cuidado com antipsicóticos na DCL? Pela hipersensibilidade neuroléptica: piora intensa do parkinsonismo, sedação, confusão, rigidez, síndrome neuroléptica maligna, quedas e maior mortalidade. Alucinações leves podem não requerer fármaco. Familiar de 75 anos “está com Alzheimer”: exames iniciais? Primeiro confirmar síndrome com história + informante + testes + funcionalidade. Depois excluir delirium/depressão/medicamentos, solicitar hemograma, eletrólitos, função renal/hepática, TSH, B12, glicemia/HbA1c, e neuroimagem estrutural, preferencialmente RM. VDRL/HIV e outros conforme contexto. 27. Pegadinhas de prova e sinais de alarme ● Demência não é sinônimo de Alzheimer; Alzheimer é uma das etiologias, embora seja a mais frequente. ● O divisor entre CCL e demência não é apenas escore cognitivo: é perda de independência funcional. ● Delirium tem início agudo, curso flutuante, desatenção e alteração de consciência; pode coexistir com demência. ● Depressão pode simular declínio cognitivo, mas também pode ser pródromo ou comorbidade de demência. ● Piora cognitiva súbita em paciente demenciado é delirium até prova em contrário. ● Alucinações visuais precoces + flutuação + parkinsonismo + sono REM comportamental = pensar em corpos de Lewy. ● Antipsicóticos podem ser perigosos em corpos de Lewy; haloperidol é uma grande armadilha. ● Mudança de personalidade em adulto jovem com memória preservada sugere DFT, mas tumor frontal precisa ser excluído. ● Marcha magnética + déficit executivo + urgência/incontinência urinária + ventriculomegalia = pensar em HPN. ● Idoso anticoagulado com queda leve e declínio subagudo = pensar em hematoma subdural crônico. ● Demência rapidamente progressiva exige investigaçãourgente de príon, autoimune, infecciosa, metabólica, tóxica e neoplásica. ● Leucoaraiose em RM é comum em idosos; só deve ser considerada causa principal quando carga, fenótipo e fatores de risco combinam. ● Biomarcador amiloide positivo não explica automaticamente todos os sintomas; doença mista é comum. ● Antes de rotular como degenerativa, investigue causas reversíveis: TSH, B12, HIV/sífilis conforme contexto, medicações e neuroimagem. 28. Checklist prático para consulta de suspeita de demência 1. Confirmar que há declínio adquirido em relação ao nível prévio, com informante confiável. 2. Definir o primeiro domínio acometido: memória, executivo, linguagem, visuoespacial, comportamento, marcha ou flutuação. 3. Estabelecer velocidade de progressão: aguda, subaguda, em degraus, lentamente progressiva ou rapidamente progressiva. 4. Avaliar funcionalidade com exemplos concretos de AVDs e AIVDs, preferencialmente usando Pfeffer ou instrumento similar. 5. Excluir delirium, depressão, baixa audição/visão, distúrbio do sono e efeitos medicamentosos. 6. Aplicar teste cognitivo adequado à escolaridade: MEEM, MoCA, relógio, fluência verbal, 10-CS, QMC8 conforme cenário. 7. Fazer exame neurológico dirigido: sinais focais, marcha, parkinsonismo, reflexos primitivos, mioclonias, neuropatia, mielopatia. 8. Solicitar laboratório inicial: hemograma, eletrólitos, cálcio, função renal/hepática, TSH, B12, glicemia/HbA1c; ampliar conforme caso. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 9. Solicitar neuroimagem estrutural, preferencialmente RM; TC é alternativa quando RM indisponível/contraindicada. 10. Classificar síndrome provável e etiologia: Alzheimer, vascular, Lewy, DFT, mista, tratável ou indeterminada. 11. Planejar tratamento: educação familiar, segurança, exercício, rotina, suporte ao cuidador, fármacos sintomáticos quando indicados. 12. Definir seguimento e reavaliar: cognição, funcionalidade, comportamento, eventos adversos, sobrecarga do cuidador e diretivas futuras. 29. Atualização sobre terapias anti-amilóide no Brasil e no mundo Os slides citam aducanumabe, lecanemabe e donanemabe, e este ponto precisa ser lido com atualização. Aducanumabe foi aprovado pelo FDA em 2021 sob via acelerada, mas sua comercialização/desenvolvimento foi descontinuado pela empresa em 2024, de modo que hoje tem importância histórica e conceitual maior do que uso prático. Lecanemabe e donanemabe representam a fase atual das terapias anti-amilóide, com benefício estatístico de redução do declínio em populações selecionadas de Doença de Alzheimer inicial, mas com necessidade de confirmação de patologia amiloide, infusões, monitorização por RM e manejo de ARIA. No Brasil, a Anvisa aprovou o donanemabe em 2025 para comprometimento cognitivo leve e/ou demência leve associados à Doença de Alzheimer em pacientes adultos não portadores ou heterozigotos para ApoE ε4, com restrições e necessidade de avaliação de risco. Em 2026, a Anvisa aprovou o lecanemabe para pacientes adultos com comprometimento cognitivo leve e demência leve decorrentes da Doença de Alzheimer em fase inicial, com patologia amiloide confirmada e que não sejam portadores ou sejam heterozigotos para ApoE ε4. Essas aprovações não transformam esses medicamentos em tratamento universal: elegibilidade, acesso, custo, contraindicações e estrutura de monitorização limitam o uso. Anticolinesterásicos e memantina são fármacos sintomáticos; anticorpos anti-amilóide são terapias modificadoras de doença em fase inicial e população selecionada; ARIA é o evento adverso-chave; APOE ε4 e anticoagulação aumentam preocupação; e a decisão deve ocorrer em ambiente especializado com consentimento claro. 30. Conclusão Reconhecer demência precocemente permite tratar causas reversíveis, reduzir iatrogenia, planejar segurança, orientar família, preservar autonomia e, quando indicado, iniciar terapias sintomáticas ou modificadoras em janela apropriada. O diagnóstico é essencialmente clínico e funcional, mas apoiado por laboratório e neuroimagem. A pergunta mais importante não é “qual exame fecha Alzheimer?”, mas “qual síndrome este paciente tem, qual rede cerebral está falhando, qual etiologia é mais provável e o que eu não posso deixar passar?”. O raciocínio maduro em neurologia cognitiva é sempre duplo: localizar e etiologizar. ● Localizar significa entender se o padrão é hipocampal, frontal, parietal, temporal, subcortical, vascular, flutuante ou difuso. ● Etiologizar significa separar degenerativo, vascular, misto, infeccioso, metabólico, tóxico, estrutural, inflamatório, psiquiátrico e sistêmico. Quando esses dois eixos se unem à avaliação funcional, o diagnóstico deixa de ser uma lista decorada e passa a ser medicina de verdade. Referências selecionadas ● American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed. DSM-5. Washington, DC: APA; 2013. ● Ropper AH, Samuels MA, Klein JP, Prasad S. Adams and Victor’s Principles of Neurology. McGraw-Hill. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo ● Harrison’s Principles of Internal Medicine. McGraw-Hill. Seções de neurologia cognitiva, demências e doenças neurodegenerativas. ● Academia Brasileira de Neurologia / Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento. Recomendações brasileiras para diagnóstico e tratamento das demências e uso de biomarcadores. ● Caramelli P et al. Treatment of dementia: recommendations of the Scientific Department of Cognitive Neurology and Aging of the Brazilian Academy of Neurology. Dement Neuropsychol. 2022. ● Studart Neto A et al. Guidelines for the use and interpretation of Alzheimer’s disease biomarkers in clinical practice in Brazil. Dement Neuropsychol. 2024. ● Jack CR Jr et al. Revised criteria for diagnosis and staging of Alzheimer’s disease. Alzheimer’s & Dementia. 2024. ● World Health Organization. Global action plan on the public health response to dementia 2017-2025; WHO dementia fact sheets and global status reports. ● Alzheimer’s Association. Alzheimer’s Disease Facts and Figures; MCI and dementia clinical resources. ● FDA. Prescribing information and approvals for lecanemab and donanemab. U.S. Food and Drug Administration. ● ANVISA. Registros e comunicados oficiais sobre donanemabe (Kisunla) e lecanemabe (Leqembi) para doença de Alzheimer. ● Ngandu T et al. A 2 year multidomain intervention of diet, exercise, cognitive training, and vascular risk monitoring versus control to prevent cognitive decline in at-risk elderly people: FINGER trial. Lancet. 2015. ● Brucki SMD et al. Sugestões para o uso do Mini-Exame do Estado Mental no Brasil. Arq Neuropsiquiatr. 2003. ● Apolinario D et al. 10-Point Cognitive Screener (10-CS). 2016. ● Damin AE et al. Questionário de Mudanças Cognitivas de 8 itens (QMC8). 2015. ● Slides da aula: Demências - Abordagem Clínica e Diagnóstica. Dr. Samuel Damin Carr De Muzio, Disciplina de Neurologia/Neurocirurgia, Universidade Nove de Julho - UNINOVE. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida 1. Por que estudar demências? 2. Definição de demência e transtornos neurocognitivos 2.1 Domínios cognitivos em profundidade 3. Envelhecimento normal, declínio cognitivo leve, delirium e depressão 4. Classificação das demências 5. Neuroanatomia da cognição: por que cada demência parece diferente? 6. Fisiopatologia geral das demências 7. Doença de Alzheimer 7.1 Neuropatologia: beta-amiloide, tau e degeneração hipocampal 7.2 Critérios diagnósticos, biomarcadores e interpretação clínica 7.3 RM e PET-FDG no Alzheimer 7.4 Tratamento específico da Doença de Alzheimer 8. Demência vascular e comprometimentocognitivo vascular 9. Demência com corpos de Lewy 10. Demência frontotemporal 11. Comparação entre Alzheimer, vascular, Lewy e frontotemporal 12. Causas reversíveis e potencialmente tratáveis 13. Hematoma subdural crônico 14. Hidrocefalia de pressão normal 15. Tumores cerebrais e síndrome demencial 16. Neuroinfecções, príons e demência rapidamente progressiva 17. Demência em pacientes jovens (cursar com lentificação do processamento, maior dificuldade para dividir atenção, queda discreta de velocidade de evocação e pequenos esquecimentos benignos. No entanto, o idoso cognitivamente saudável preserva independência, aprende com pistas, usa estratégias compensatórias, mantém coerência longitudinal e não apresenta perda progressiva clara das atividades instrumentais. Esquecer onde colocou a chave eventualmente é diferente de não reconhecer a função da chave, repetir a mesma pergunta dez vezes em uma manhã ou perder a capacidade de administrar as próprias contas. O comprometimento cognitivo leve, também chamado de transtorno cognitivo leve, é uma zona de transição clínica. O paciente apresenta queixa cognitiva e/ou alteração objetiva em testes, mas mantém funcionalidade essencial. Pode haver maior esforço, lentidão, uso de agendas, ajuda pontual da família ou redução de atividades complexas, mas não há perda franca de independência. Esse grupo é heterogêneo: alguns indivíduos permanecem estáveis, alguns melhoram quando a causa é tratável, e outros evoluem para demência, especialmente quando há biomarcadores compatíveis com Alzheimer ou doença vascular relevante. A demência se diferencia do CCL pelo impacto funcional. Um MEEM reduzido não basta se a baixa escolaridade, limitação sensorial ou ansiedade explicam o desempenho; por outro lado, um teste aparentemente “normal” pode não excluir demência em pessoa de alta escolaridade quando a história funcional é convincente. A avaliação funcional deve incluir atividades básicas de vida diária, como banho, vestir-se, alimentação e continência, e atividades instrumentais, como finanças, medicações, transporte, compras, preparo de refeições, telefone e administração doméstica. O Questionário de Pfeffer, citado nos slides, é útil porque transforma a suspeita funcional em informação estruturada. Delirium é um diagnóstico diferencial obrigatório porque representa alteração aguda e flutuante da atenção e da consciência, frequentemente causada por infecção, distúrbio metabólico, desidratação, dor, retenção urinária, constipação, intoxicação medicamentosa, internação ou pós-operatório. Diferente da demência degenerativa, o delirium surge em horas a dias, oscila ao longo do dia, piora à noite, cursa com desatenção intensa e alteração do nível de consciência. Um paciente com demência têm risco muito maior de delirium, e a coexistência é comum; por isso, piora cognitiva súbita em paciente com Alzheimer não deve ser atribuída automaticamente à progressão da doença. Depressão pode simular demência, especialmente em idosos, fenômeno historicamente chamado de “pseudodemência depressiva”. O paciente deprimido pode apresentar baixa iniciativa, lentificação, queixa intensa de memória, dificuldade de concentração e desempenho ruim em testes. Alguns achados ajudam: início subagudo, humor deprimido, anedonia, alterações de sono e apetite, sentimento de culpa, respostas “não sei” frequentes e flutuação conforme engajamento. No entanto, a fronteira é complexa: depressão pode ser fator de risco, pródromo, comorbidade ou consequência da demência. A abordagem correta é tratar depressão quando presente e reavaliar cognição e funcionalidade longitudinalmente. Característica Demência Delirium Depressão Início Insidioso, meses a anos; pode ser em degraus na vascular. Agudo, horas a dias. Subagudo, semanas a meses. Curso Progressivo ou em degraus; relativamente estável no dia. Flutuante, piora noturna comum. Episódico: varia com humor e motivação. Atenção Pode estar relativamente preservada no início, exceto DCL e vascular. Gravemente comprometida; desatenção é núcleo. Pode estar reduzida por desânimo ou ruminação. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo Consciência Preservada até fases avançadas ou intercorrências. Alterada: hiperalerta, sonolência ou alternância. Preservada. Reversibilidade Frequentemente irreversível, mas tratável e modificável em alguns casos. Potencialmente reversível com correção da causa. Potencialmente reversível com tratamento adequado. Pegadinha Demência não exclui delirium; piora súbita exige investigar causa clínica. Delirium hipoativo é subdiagnosticado e confundido com “idoso quieto”. Depressão pode coexistir com doença neurodegenerativa inicial. 4. Classificação das demências A classificação etiológica organiza o raciocínio. ● As demências degenerativas decorrem de processos progressivos de acúmulo protéico, disfunção sináptica, neuroinflamação, perda neuronal e colapso de redes. Nesse grupo estão a Doença de Alzheimer, a demência com corpos de Lewy, a demência frontotemporal e a demência associada à Doença de Parkinson. ● As demências vasculares decorrem de lesões isquêmicas ou hemorrágicas, doença de pequenos vasos, infartos múltiplos ou lesões estratégicas em áreas críticas. As demências mistas, muito comuns em idosos, combinam patologia Alzheimer e doença cerebrovascular. A classificação também deve separar síndromes potencialmente reversíveis ou tratáveis. O termo “reversível” precisa ser usado com cuidado: nem toda causa tratável gera recuperação completa, especialmente quando há dano crônico. Mesmo assim, identificar hipotireoidismo, deficiência de B12, neurossífilis, HIV, hidrocefalia de pressão normal, hematoma subdural, tumores, efeitos medicamentosos e depressão grave pode mudar dramaticamente o prognóstico. Por isso, toda síndrome demental deve ter investigação mínima antes de receber rótulo degenerativo. Outra forma útil de classificar é pela velocidade: Demências lentamente progressivas sugerem Alzheimer, DFT, Lewy e doença vascular crônica; Demências rapidamente progressivas, em semanas a poucos meses, exigem investigação urgente de causas priônicas, autoinmunes, paraneoplásicas, infecciosas, tóxicas, metabólicas, neoplásicas e vasculares. Doença de Creutzfeldt-Jakob, encefalite autoimune, linfoma do SNC, vasculite, neurossífilis, HIV, encefalopatias tóxico-metabólicas e status epiléptico não convulsivo entram aqui. Grupo etiológico Principais exemplos Pistas clínicas Degenerativas Alzheimer, corpos de Lewy, frontotemporal, demência da doença de Parkinson. Início insidioso; padrão cognitivo e comportamental relacionado à rede acometida; neuroimagem com atrofia regional. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo Vasculares Múltiplos infartos, doença de pequenos vasos, lacunas, microbleeds, infarto estratégico. Declínio em degraus ou lentificação executiva; fatores de risco cardiovasculares; sinais focais ou marcha alterada. Mistas Alzheimer + doença vascular; Alzheimer + corpos de Lewy. Idoso com amnésia episódica e lesões vasculares; fenótipo sobreposto. Potencialmente tratáveis HPN, subdural, tumor, B12, hipotireoidismo, neurossífilis, HIV, depressão, drogas. Curso atípico, rápido, sinais sistêmicos, cefaleia, marcha precoce, alteração urinária, imunossupressão, medicações de risco. 5. Neuroanatomia da cognição: por que cada demência parece diferente? Figura 3. Redes neuroanatômicas da cognição. O padrão clínico reflete a rede mais acometida. A cognição não fica em um único “centro da memória”. Ela emerge de redes distribuídas que conectam córtex associativo, sistema límbico, tálamo, núcleos da base, cerebelo e tronco encefálico. Por isso, duas pessoas com o mesmo escore cognitivo global podem ter síndromes completamente diferentes: uma pode ser amnésica e Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo repetitiva; outra pode ser desinibida e socialmente inadequada; outra pode ter alucinações visuais e flutuaçãode atenção; outra pode ter lentificação executiva e marcha instável. A neuroanatomia é o mapa que transforma sintomas em localização de rede. O hipocampo e o córtex entorrinal são estruturas centrais para memória episódica, especialmente a formação e consolidação de novas lembranças autobiográficas. O hipocampo recebe informação de múltiplas áreas corticais associativas via córtex entorrinal, processa relações temporais e espaciais e participa da transferência de memórias de curto prazo para armazenamento distribuído de longo prazo. Na Doença de Alzheimer típica, a degeneração inicial de regiões entorrinais e hipocampais explica o padrão de amnésia anterógrada: o paciente não apenas esquece, mas falha em consolidar novas informações. O córtex pré-frontal sustenta funções executivas, julgamento, controle inibitório, planejamento e comportamento direcionado a metas. Lesões ou degeneração frontal podem produzir apatia, impulsividade, desinibição, perseveração, perda de flexibilidade mental e tomada de decisões socialmente inadequadas. É por isso que a demência frontotemporal comportamental pode ser confundida com transtorno psiquiátrico: antes de falhar em memória, o paciente falha em freios sociais, empatia e julgamento. O lobo temporal lateral participa da linguagem e da memória semântica. Quando as regiões temporais anteriores degeneram, pode haver perda do significado de palavras, objetos e faces, como na variante semântica da afasia progressiva primária. O lobo parietal participa de atenção, orientação espacial, cálculo, praxias e integração visuoespacial; sua disfunção gera apraxia, desorientação, dificuldade de desenhar, vestir-se, dirigir ou interpretar ambientes complexos. A demência com corpos de Lewy e a atrofia cortical posterior frequentemente têm componente visuoespacial marcante. Circuitos fronto-subcorticais conectam córtex pré-frontal, estriado, globo pálido, tálamo e substância branca profunda. Eles são muito vulneráveis à doença de pequenos vasos e a processos extrapiramidais. Quando esses circuitos falham, o quadro costuma ser de lentificação cognitiva, apatia, déficit executivo, alteração de marcha e instabilidade postural, muitas vezes com memória relativamente melhor do que a capacidade de organização e velocidade mental. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 6. Fisiopatologia geral das demências Figura 4. Convergência fisiopatológica: deposição proteica, disfunção sináptica, neuroinflamação, perda neuronal e colapso de redes. Embora cada demência tenha assinatura molecular própria, muitos mecanismos convergem. A primeira dimensão é a falência de proteostase: proteínas que deveriam ser produzidas, dobradas, transportadas e degradadas adequadamente passam a se acumular em formas oligoméricas, fibrilares ou insolúveis. No Alzheimer predominam beta-amiloide e tau; na demência com corpos de Lewy, alfa-sinucleína; em várias demências frontotemporais, tau, TDP-43 ou FUS; em doenças priônicas, proteína príon mal conformada. Esses acúmulos não são apenas “lixo celular”: interferem na sinapse, no transporte axonal, no metabolismo energético, na homeostase cálcica e na resposta glial. A disfunção sináptica costuma preceder a morte neuronal macroscópica. O cérebro pode manter volume relativamente preservado enquanto já há falha de comunicação entre redes, redução de plasticidade, perda de potenciação de longo prazo, desequilíbrio excitatório-inibitório e alteração de neurotransmissores. Essa é uma razão pela qual exames funcionais, como FDG-PET, podem detectar hipometabolismo em regiões ainda não muito atróficas na RM. Também explica por que sintomas sutis podem surgir antes de grandes alterações estruturais. A neuroinflamação é uma resposta de micróglia, astrócitos, complemento, citocinas e barreira hematoencefálica às proteínas mal conformadas, lesão vascular, trauma, infecção ou degeneração. Ela pode ter papel inicialmente protetor, removendo detritos e modulando sinapses, mas torna-se lesiva quando crônica e desregulada. A inflamação perpetua dando, facilita perda sináptica e interage com fatores vasculares e metabólicos, como hipertensão, resistência à insulina, obesidade, dislipidemia e tabagismo. A perda neuronal e a atrofia regional traduzem dano acumulado. O padrão anatômico é essencial: atrofia hipocampal e entorrinal sugere Alzheimer típico; atrofia frontal e temporal anterior sugere DFT; atrofia relativamente menor do hipocampo com maior disfunção occipital/visuoespacial pode sugerir Lewy; leucoaraiose extensa, lacunas e microbleeds sugerem contribuição vascular. Quando redes inteiras deixam de funcionar, surgem os sintomas clínicos: memória, linguagem, praxias, comportamento, sono, marcha e autonomia. O conceito de reserva cognitiva ajuda a entender por que pessoas com carga neuropatológica semelhante podem ter sintomas diferentes. Escolaridade, atividades intelectuais, exercício, vínculo social, audição preservada, sono adequado e controle vascular podem aumentar a capacidade de compensação. A reserva não impede indefinidamente a doença, mas pode atrasar manifestação clínica e modular a trajetória funcional. Por isso, a prevenção de demência não se limita a remédio: é uma estratégia de vida e saúde pública. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 7. Doença de Alzheimer A Doença de Alzheimer é a causa mais frequente de demência degenerativa e, classicamente, manifesta-se por início insidioso, piora gradual e déficit de memória episódica recente. O paciente passa a repetir perguntas, esquecer conversas, perder objetos, ter dificuldade de lembrar compromissos, depender mais de anotações e apresentar desorientação temporal. A família costuma perceber antes do paciente quando há anosognosia. Com a progressão, surgem anomia, dificuldade visuoespacial, prejuízo executivo, desorientação espacial, alterações de comportamento, perda de AIVDs e, tardiamente, dependência para atividades básicas. O fenótipo típico é amnéstico porque o processo neuropatológico compromete precocemente regiões temporais mediais, especialmente córtex entorrinal e hipocampo. A memória episódica no Alzheimer não falha apenas por desatenção; há problema de codificação e consolidação. Por isso, em testes de aprendizagem verbal, o paciente frequentemente apresenta baixa evocação tardia e pouco benefício com pistas, diferentemente de quadros subcorticais ou depressivos, nos quais a pista pode melhorar desempenho. A apresentação não amnéstica também existe e é clinicamente importante. A atrofia cortical posterior pode se manifestar com dificuldade visuoespacial, leitura, reconhecimento visual, cálculo, direção e praxias, muitas vezes em pacientes mais jovens. A variante logopênica da afasia progressiva primária costuma estar associada à patologia Alzheimer e cursa com dificuldade de encontrar palavras, pausas, comprometimento de repetição de frases e memória fonológica de trabalho. Uma apresentação frontal/executiva pode simular DFT, com apatia e disfunção executiva proeminentes. O diagnóstico clínico de Alzheimer provável exige história típica de piora progressiva e exclusão de causas alternativas. Critérios modernos incorporam biomarcadores, especialmente quando o quadro é atípico, precoce, duvidoso ou quando se considera terapia anti-amilóide. A noção contemporânea separa a síndrome clínica, isto é, demência amnéstica progressiva, da doença biológica, caracterizada por patologia amiloide e tau. Na prática geral, porém, a clínica ainda é o pilar; os biomarcadores refinam probabilidade, elegibilidade terapêutica e diagnóstico diferencial. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências| Material de estudo 7.1 Neuropatologia: beta-amiloide, tau e degeneração hipocampal A beta-amiloide deriva da clivagem da proteína precursora amiloide (APP). Quando a clivagem favorece peptídeos Aβ, especialmente Aβ42, há tendência à agregação em oligômeros e placas extracelulares. Durante anos, a hipótese amilóide propôs que a deposição de Aβ iniciaria uma cascata de eventos que culmina em disfunção sináptica, hiperfosforilação da tau, inflamação e neurodegeneração. Hoje a visão é mais complexa: amiloide é central para definir Alzheimer biológico, mas não explica sozinha a gravidade clínica; tau, inflamação, vascularidade, metabolismo e reserva cognitiva modulam sintomas. Tau é uma proteína associada a microtúbulos, importante para a estabilidade axonal. Na Doença de Alzheimer, a tau hiperfosforilada se desprende dos microtúbulos, agrega-se em emaranhados neurofibrilares intraneuronais e acompanha de modo mais próximo a topografia da neurodegeneração e a gravidade clínica. A distribuição da tau segue padrão relativamente previsível nos estágios de Braak: começa em regiões transentorrinais/entorinais, envolve hipocampo, depois córtex temporal, parietal e frontal associativo. É por isso que a progressão clínica tende a sair de memória episódica para linguagem, orientação, praxias e comportamento. A degeneração hipocampal é uma consequência anatômica dessa cascata. Na RM, especialmente em cortes coronais, observa-se redução do volume hipocampal, alargamento do corno temporal do ventrículo lateral e atrofia do córtex entorrinal. A escala de Scheltens, ou MTA, graduando atrofia temporal medial, ajuda a padronizar a avaliação. O achado deve ser interpretado com idade, escolaridade, contexto clínico e assimetria: atrofia leve pode ocorrer no envelhecimento, enquanto atrofia importante ou desproporcional aumenta a probabilidade de doença neurodegenerativa. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo Figura 5. Linha temporal didática dos biomarcadores da Doença de Alzheimer: amiloide tende a se alterar antes dos sintomas; tau e neurodegeneração se aproximam mais do declínio clínico. 7.2 Critérios diagnósticos, biomarcadores e interpretação clínica Os critérios clínicos tradicionais de Alzheimer provável valorizam início insidioso, história clara de piora cognitiva e déficit inicial proeminente em memória episódica ou outro domínio compatível. O DSM-5 enquadra a condição como transtorno neurocognitivo maior ou leve devido à Doença de Alzheimer, com declínio cognitivo e curso progressivo. Os critérios NIA-AA evoluíram para incorporar biomarcadores de amilóide, tau e neurodegeneração. Em linguagem prática, biomarcadores aumentam ou reduzem a confiança etiológica; em linguagem biológica, podem definir a presença de Alzheimer mesmo antes de demência. Os biomarcadores estruturais incluem RM com atrofia hipocampal, entorrinal e temporal. Biomarcadores funcionais incluem FDG-PET, que avalia metabolismo cerebral da glicose e mostra tipicamente hipometabolismo tempoparietal, cíngulo posterior e pré-cúneo no Alzheimer. Biomarcadores moleculares incluem PET-amilóide e PET-tau, quando disponíveis. No líquor, o padrão clássico é redução de Aβ42 ou da razão Aβ42/Aβ40, associada a aumento de tau total e fosfo-tau. Biomarcadores plasmáticos, como p-tau217, p-tau181, NfL e GFAP, ganharam importância, mas sua aplicação clínica depende de validação, disponibilidade, pré-teste e contexto. Um ponto essencial para prova e prática: biomarcador positivo não substitui raciocínio clínico. Em idosos, a patologia amiloide pode coexistir com doença vascular, Lewy ou outras comorbidades; um PET-amiloide positivo não explica necessariamente todo sintoma. Ao mesmo tempo, biomarcadores negativos em um quadro típico obrigam a reabrir diagnóstico diferencial. Punção lombar é mais útil em casos atípicos, início precoce, dúvida diagnóstica, demência rapidamente progressiva, suspeita infecciosa/inflamatória/priônica ou antes de terapias modificadoras de doença em centros que utilizam essa estratégia. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 7.3 RM e PET-FDG no Alzheimer A RM de crânio é preferível à TC quando disponível porque avalia melhor atrofia regional, substância branca, lacunas, microangiopatia, lesões expansivas, hidrocefalia e sequelas vasculares. No Alzheimer, os achados clássicos são atrofia hipocampal bilateral, atrofia entorrinal, alargamento dos cornos temporais e atrofia temporoparietal progressiva. Cortes coronais perpendiculares ao eixo longo do hipocampo aumentam a sensibilidade visual para atrofia temporal medial. O PET-FDG mede metabolismo de glicose, que funciona como marcador indireto de atividade sináptica. No Alzheimer típico, o padrão esperado é hipometabolismo temporoparietal bilateral, frequentemente envolvendo cíngulo posterior e pré-cúneo, com relativo poupamento de córtex sensorimotor primário, cerebelo e núcleos da base. Esse exame é especialmente útil quando a clínica é atípica ou quando se busca diferenciar Alzheimer de DFT, na qual o hipometabolismo é mais frontal/anterior temporal, ou de Lewy, na qual pode haver hipometabolismo occipital. A TC ainda tem valor em muitos cenários, especialmente pela disponibilidade. Ela pode identificar hematoma subdural, tumor, hidrocefalia e grandes infartos. No entanto, a TC é menos sensível para atrofia hipocampal sutil, microbleeds e doença de pequenos vasos, especialmente sem protocolos adequados. Em demência, neuroimagem estrutural não é luxo: é parte do mínimo diagnóstico para excluir causas estruturais e caracterizar contribuição vascular. 7.4 Tratamento específico da Doença de Alzheimer O tratamento do Alzheimer deve ser compreendido em camadas: medidas gerais e de segurança, intervenções não farmacológicas, fármacos sintomáticos, manejo de sintomas comportamentais e, em casos selecionados de fase inicial com confirmação de patologia amiloide, terapias modificadoras de doença. A família precisa entender desde cedo que o objetivo não é “curar” a demência estabelecida, mas reduzir o declínio, preservar autonomia, tratar sintomas, prevenir complicações, planejar cuidado e proteger qualidade de vida. Os inibidores da acetilcolinesterase — donepezila, rivastigmina e galantamina — aumentam a disponibilidade sináptica de acetilcolina, neurotransmissor reduzido pela degeneração colinérgica do prosencéfalo basal. São usados em Alzheimer leve a moderado e, dependendo da droga e diretriz, também em fases mais avançadas. Efeitos adversos comuns incluem náuseas, vômitos, diarreia, perda de peso, bradicardia, síncope, câimbras, Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo sonhos vívidos e insônia. Devem ser usados com cuidado em pacientes com distúrbios de condução, síncope, bradicardia ou uso de fármacos que reduzem a frequência cardíaca. A memantina é antagonista não competitiva de receptores NMDA, modulando excitotoxicidade glutamatérgica. É indicada principalmente em Alzheimer moderado a grave e pode ser combinada com inibidores da acetilcolinesterase. Seus efeitos são modestos, mas podem ajudar a cognição, função global e comportamento em alguns pacientes. Efeitos adversos incluem tontura, cefaléia, constipação, sonolência, confusão e hipertensão em alguns casos. As terapias anti-amilóide, como lecanemabe e donanemabe, mudaram o cenário porque miram patologia amilóide e não apenas sintomas. Elas são indicadas para pacientes muito selecionados, geralmente com comprometimento cognitivo leve ou demência leve devido a Alzheimer, confirmação de amilóide, avaliação por especialista, monitorização por RM e cuidadosa análise deriscos. O principal risco é a ARIA, isto é, anormalidades de imagem relacionadas ao amiloide, com edema/efusão (ARIA-E) e hemorragias/micro-hemorragias (ARIA-H). O risco é maior em portadores de APOE ε4, especialmente homozigotos, e em pacientes com angiopatia amiloide, microbleeds extensos ou anticoagulação. A decisão exige conversa transparente sobre benefício modesto, custo, logística de infusão, monitorização e risco. 8. Demência vascular e comprometimento cognitivo vascular Demência vascular é uma síndrome de declínio cognitivo causada por doença cerebrovascular. O termo mais amplo “comprometimento cognitivo vascular” inclui desde alterações leves até demência, e é útil porque muitos pacientes têm prejuízo cognitivo vascular sem preencher critérios de demência. Os mecanismos principais incluem múltiplos infartos corticais e subcorticais, doença de pequenos vasos com leucoaraiose, lacunas, microbleeds, hipoperfusão crônica e lesões estratégicas em áreas críticas como tálamo, giro angular, hipocampo, núcleo caudado e substância branca frontal. A clínica depende do mecanismo. Múltiplos infartos podem produzir declínio em degraus, com piora após eventos vasculares. Doença de pequenos vasos frequentemente causa quadro mais subcortical: lentificação do pensamento, disfunção executiva, apatia, dificuldade de alternar tarefas, marcha lenta, instabilidade, quedas, urgência urinária e sinais piramidais discretos. A memória pode parecer alterada, mas muitas vezes o problema é recuperação e organização da informação, não armazenamento hipocampal primário; por isso, pistas podem ajudar mais do que no Alzheimer típico. Os fatores de risco são os mesmos que lesam cérebro e vasos: hipertensão arterial, diabetes, dislipidemia, tabagismo, fibrilação atrial, doença carotídea, sedentarismo, obesidade, apneia do sono, doença renal crônica e história de AVC. O controle rigoroso desses fatores é a principal estratégia preventiva e terapêutica. Em termos práticos, tratar demência vascular é tratar cérebro como órgão-alvo cardiovascular: pressão adequada, controle Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo glicêmico individualizado, cessação de tabagismo, anticoagulação quando indicada na fibrilação atrial, antiagregação quando indicada para prevenção secundária de AVC, estatina conforme risco, exercício e reabilitação. A RM é central. Leucoaraiose aparece como hipersinal em T2/FLAIR na substância branca periventricular e profunda. A escala de Fazekas gradua lesões de substância branca, separando lesões periventriculares e profundas. Lacunas são pequenos infartos cavitados em gânglios da base, tálamo, cápsula interna, ponte e substância branca. Microbleeds são melhor vistos em SWI ou T2*, sugerindo microangiopatia hipertensiva quando profundos ou angiopatia amilóide quando lobares. A carga vascular deve ser correlacionada com clínica; pequenos achados em idosos são comuns e nem sempre explicam demência. Mecanismo vascular Imagem típica Fenótipo clínico esperado Múltiplos infartos Infartos corticais/subcorticais em diferentes territórios. Declínio em degraus, sinais focais, história de AVC/AIT. Doença de pequenos vasos Leucoaraiose em FLAIR, lacunas, microbleeds. Lentificação, déficit executivo, marcha alterada, apatia, quedas. Infarto estratégico Lesão única em tálamo, giro angular, hipocampo, caudado ou substância branca crítica. Déficit cognitivo desproporcional ao tamanho da lesão; início súbito. Hipoperfusão Lesões em zonas de fronteira, atrofia e alterações de substância branca. Piora após hipotensão, parada, cirurgia, estenoses ou baixo débito. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 9. Demência com corpos de Lewy A demência com corpos de Lewy é uma demência degenerativa frequentemente subdiagnosticada. Sua assinatura patológica é o acúmulo de alfa-sinucleína em corpos de Lewy e neuritos de Lewy em regiões corticais e subcorticais. Clinicamente, é definida por uma combinação muito característica: flutuação cognitiva, alucinações visuais recorrentes e bem formadas, parkinsonismo espontâneo e transtorno comportamental do sono REM. A memória pode estar relativamente preservada no início quando comparada ao Alzheimer, enquanto atenção, funções executivas e visuoespacial podem estar mais comprometidas. A flutuação cognitiva é mais do que “dia bom e dia ruim”. O paciente pode alternar períodos de lucidez e confusão no mesmo dia, com sonolência, olhar vago, episódios semelhantes a desligamentos, desatenção intensa e variação de desempenho. Essa flutuação predispõe ao diagnóstico equivocado de delirium recorrente, mas o delirium também pode coexistir. As alucinações visuais costumam ser detalhadas, recorrentes, envolvendo pessoas, crianças, animais ou figuras. Delírios, como síndrome de Capgras, podem ocorrer. O parkinsonismo na DCL inclui bradicinesia, rigidez, alteração de marcha e, às vezes, tremor, mas costuma ser menos responsivo a levodopa do que na Doença de Parkinson típica. A regra temporal ajuda a diferenciar: se a demência surge antes ou até um ano após o parkinsonismo, pensa-se em demência com corpos de Lewy; se a demência surge após anos de Doença de Parkinson estabelecida, fala-se em demência da Doença de Parkinson. Essa regra não é perfeita biologicamente, mas é útil clinicamente. O transtorno comportamental do sono REM é um sinal prodrômico fortíssimo de sinucleinopatia. Normalmente, durante o sono REM há atonia muscular; quando essa atonia falha, o paciente “encena sonhos”, chuta, grita, soca, cai da cama ou machuca o parceiro. Pode preceder a demência por anos. Outros sinais de sinucleinopatia incluem hiposmia, constipação, disautonomia, hipotensão ortostática, sialorréia e hipersensibilidade a antipsicóticos. A cautela com antipsicóticos é uma das maiores pegadinhas de prova e de prática. Pacientes com DCL podem desenvolver reação grave a neurolépticos, com piora intensa do parkinsonismo, sedação, confusão, rigidez, síndrome neuroléptica maligna e queda funcional. Quando alucinações não ameaçam a segurança e não geram sofrimento, muitas vezes não devem ser tratadas farmacologicamente. Quando o tratamento é inevitável, deve-se usar a menor dose, escolher opções com menor bloqueio dopaminérgico e acompanhar estreitamente, idealmente com neurologia/psiquiatria geriátrica. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 10. Demência frontotemporal Demência frontotemporal é um grupo de doenças neurodegenerativas que acometem preferencialmente lobos frontais e temporais, geralmente com início mais precoce que Alzheimer, frequentemente entre 45 e 65 anos. O termo inclui a variante comportamental e as afasias progressivas primárias relacionadas à degeneração frontotemporal. A memória episódica pode estar relativamente preservada no início, o que torna o diagnóstico desafiador quando o clínico espera que toda demência comece por esquecimento. A variante comportamental é marcada por desinibição, impulsividade, perda de empatia, apatia, comportamento compulsivo ou ritualístico, hiperoralidade, mudança alimentar, redução do julgamento social e perda de crítica. O paciente pode fazer comentários inadequados, gastar impulsivamente, cometer infrações, mudar preferências alimentares, negligenciar higiene, perder interesse por família ou trabalho, repetir rotinas rígidas e apresentar comportamento sexual ou social impróprio. A família costuma dizer “ele virou outra pessoa”. Esse relato é mais importante do que qualquer triagem cognitiva isolada. A apatia na DFT merece atenção porque pode ser confundida com depressão. Na depressão, a pessoa sofrecom tristeza, culpa, desesperança ou anedonia; na apatia frontal, há redução de iniciativa e motivação, mas nem sempre tristeza subjetiva. A perda de empatia também é muito característica: o paciente não reconhece o sofrimento dos outros, não se ajusta ao contexto social e parece frio ou indiferente. Isso decorre de disfunção orbitofrontal, ventromedial, insular e temporal anterior. As afasias progressivas primárias incluem variante não fluente/agramática, com fala laboriosa, agramatismo e apraxia de fala; variante semântica, com perda de significado de palavras e objetos, anomia grave e fala fluente porém vazia; e variante logopênica, que frequentemente se associa à patologia Alzheimer, com pausas por dificuldade de evocação lexical e repetição prejudicada. A avaliação da linguagem deve ir além da “fala normal”: é preciso testar nomeação, repetição, compreensão, fluência, leitura, escrita e pragmática. A neuroimagem na DFT costuma mostrar atrofia frontal, insular e/ou temporal anterior, frequentemente assimétrica, com relativo poupamento parietal posterior nas fases iniciais. O FDG-PET pode revelar hipometabolismo frontotemporal quando a RM ainda é sutil. A DFT também se associa a genética, especialmente mutações em C9orf72, GRN e MAPT, e pode sobrepor-se a doença do neurônio motor, paralisia supranuclear progressiva ou degeneração corticobasal. Sinais como fasciculações, fraqueza, disfagia, rigidez axial, distonia, apraxia assimétrica, mão alienígena ou paralisia do olhar vertical devem ampliar o diagnóstico. A DFT não é uma patologia única. Pode envolver acumulação de tau, TDP-43 ou FUS. Algumas formas se associam a doença do neurônio motor, especialmente fenótipo TDP-43, com fraqueza, fasciculações, atrofia, disartria, disfagia e sinais de neurônio motor superior/inferior. Outras se sobrepõem a síndromes parkinsonianas Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo atípicas, como paralisia supranuclear progressiva e degeneração corticobasal, produzindo rigidez axial, quedas precoces, paralisia vertical do olhar, distonia, apraxia assimétrica ou fenômeno da mão alienígena. Na neuroimagem, a DFT mostra atrofia frontal, insular e/ou temporal anterior, muitas vezes assimétrica. O lobo parietal posterior tende a ser relativamente preservado no início, o que ajuda no diferencial com Alzheimer. PET-FDG mostra hipometabolismo frontal e temporal anterior. Um erro comum é excluir DFT porque o paciente "lembra bem"; na verdade, memória relativamente preservada no início é uma pista a favor de DFT em quadro comportamental precoce. 11. Comparação entre Alzheimer, vascular, Lewy e frontotemporal Característica Alzheimer Vascular Corpos de Lewy Frontotemporal Idade típica >65 anos, mas pode ser precoce. >60 anos; risco aumenta com fatores vasculares. >60 anos; pode ter pródromos anos antes. 45-65 anos é comum, mas pode variar. Sintoma inicial Memória episódica recente, repetição, desorientação temporal. Lentificação executiva, declínio em degraus, apatia, marcha. Flutuação, alucinações visuais, visuoespacial, RBD. Mudança de personalidade, desinibição, apatia, linguagem. Memória Muito afetada precocemente no padrão típico. Variável; recuperação pode melhorar com pistas. Pode ser relativamente preservada inicialmente. Relativamente preservada no início da variante comportamental. Neuropsiquiatria Depressão, ansiedade, irritabilidade; psicose mais tardia. Apatia, labilidade, depressão, delírio. Alucinações visuais precoces, delírios, Capgras. Desinibição, compulsões, perda de empatia, hiperoralidade. Neurologia Exame normal no início; sinais tardios. Sinais focais, marcha, espasticidade, parkinsonismo vascular. Parkinsonismo, disautonomia, hipersensibilidade a antipsicóticos. Parkinsonismo atípico, DNM, apraxia, sinais frontais. Imagem Atrofia hipocampal/entorrinal; hipometabolismo temporoparietal. Leucoaraiose, lacunas, infartos, microbleeds. Hipometabolismo occipital; hipocampo menos atrófico que DA. Atrofia frontal, insular e temporal anterior. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 12. Causas reversíveis e potencialmente tratáveis A investigação de causas reversíveis é uma obrigação em qualquer síndrome demencial. A razão é simples: o custo de perder uma causa tratável é alto. Mesmo quando a reversão não é completa, tratar a etiologia pode estabilizar, melhorar sintomas ou evitar dano adicional. Em prova, a frase mais importante é: antes de concluir que um paciente tem demência degenerativa, exclua causas tratáveis e estruturais. As causas endócrinas e metabólicas incluem hipotireoidismo, hipercalcemia, hiponatremia, insuficiência hepática, insuficiência renal, síndrome de Cushing, insuficiência adrenal, hiperparatireoidismo e hipoparatireoidismo. As carenciais incluem deficiência de vitamina B12, tiamina, folato e niacina. A deficiência de B12 pode causar declínio cognitivo, neuropatia periférica, mielopatia subaguda combinada, anemia macrocítica ou manifestações neuropsiquiátricas mesmo sem anemia exuberante. Deficiência de tiamina associa-se a encefalopatia de Wernicke e síndrome de Korsakoff, especialmente em alcoolismo, desnutrição, cirurgia bariátrica ou vômitos persistentes. As causas infecciosas incluem neurossífilis, HIV, tuberculose do SNC, criptococose, doença de Whipple, leucoencefalopatia multifocal progressiva, fungos e parasitoses em imunossuprimidos. As inflamatórias e autoimunes incluem vasculites do SNC, lúpus, Sjögren, sarcoidose, encefalites autoimunes e síndromes paraneoplásicas. As tóxicas incluem álcool, drogas sedativas, anticolinérgicos, benzodiazepínicos, opioides, polifarmácia, metais pesados e solventes. Medicações com carga anticolinérgica são causa comum e subestimada de piora cognitiva em idosos. As estruturas incluem hematoma subdural crônico, hidrocefalia de pressão normal, tumores, abscessos, malformações, sequelas pós-trauma e lesões expansivas frontais. Essas causas justificam a recomendação de neuroimagem estrutural em todo paciente com síndrome demencial, especialmente quando há início rápido, sinais focais, cefaleia, queda, anticoagulação, alteração de marcha precoce, incontinência precoce, papiledema, convulsões, história oncológica ou imunossupressão. Categoria Exemplos Investigação inicial/dirigida Endócrinas/metabólicas Hipotireoidismo, Cushing, adrenal, paratireoide, hiponatremia, hipercalcemia, uremia, hepatopatia. TSH/T4L, eletrólitos, cálcio, função renal/hepática, glicemia/HbA1c conforme caso. Carenciais B12, tiamina, folato, niacina. B12, hemograma, VCM, homocisteína/ácido metilmalônico quando necessário; contexto nutricional. Infecciosas HIV, neurossífilis, TB, criptococose, Whipple, LMP. HIV, VDRL/FTA-ABS, LCR quando indicado, neuroimagem, sorologias/culturas. Estruturais Subdural, HPN, tumor, abscesso. TC/RM; avaliação neurocirúrgica quando achado positivo. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo Inflamatórias/autoimunes Vasculite, lúpus, Sjögren, sarcoidose, encefalite autoimune. Marcadores inflamatórios, autoanticorpos, LCR, RM, EEG, pesquisa neoplásica conforme fenótipo. Tóxicas/medicamentosas Álcool, benzodiazepínicos, anticolinérgicos, opioides, metais pesados. Revisão minuciosa de medicamentos, exposição ocupacional, função hepática/renal, retirada gradual quando apropriado. 13. Hematoma subdural crônico Hematoma subdural crônico é uma causa clássica de síndrome demencial potencialmente tratável em idosos. O mecanismo geralmente envolve ruptura de veias ponte após trauma leve, muitas vezes esquecido,em um cérebro com atrofia que tensiona essas veias. Anticoagulação, antiagregação, alcoolismo, quedas, idade avançada e coagulopatias aumentam risco. Como o sangramento pode evoluir lentamente, o quadro pode parecer neurodegenerativo. A apresentação pode incluir declínio cognitivo subagudo, sonolência, cefaleia, alteração de marcha, hemiparesia leve, assimetria de reflexos, alterações comportamentais, crises epilépticas ou flutuação do nível de consciência. A ausência de trauma evidente não exclui o diagnóstico. Em pacientes anticoagulados, queda aparentemente banal seguida de semanas de lentificação, confusão ou déficit focal deve levantar a hipótese imediatamente. A TC de crânio geralmente mostra coleção extra-axial em crescente, hipodensa, isodensa ou de densidade mista, podendo haver desvio de linha média e compressão ventricular. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo A RM é mais sensível em casos isodensos ou bilaterais. O tratamento por trepanação e drenagem pode ser curativo ou produzir grande melhora, dependendo do estado basal e do tempo de compressão. Essa é uma das razões pelas quais neuroimagem estrutural não deve ser pulada. 14. Hidrocefalia de pressão normal A hidrocefalia de pressão normal, ou HPN, é uma síndrome potencialmente reversível caracterizada pela tríade de Hakim-Adams: alteração de marcha, declínio cognitivo subcortical e sintomas urinários. A marcha é o sintoma mais precoce e mais sugestivo: passos curtos, base alargada, dificuldade de iniciar, sensação de pés grudados no chão, instabilidade e quedas. É chamada de marcha magnética. A cognição costuma mostrar lentificação, apatia e déficit executivo, mais do que amnésia hipocampal pura. A incontinência começa muitas vezes como urgência urinária. O diagnóstico por imagem mostra ventriculomegalia desproporcional à atrofia cortical. Achados como ângulo caloso reduzido, estreitamento dos sulcos de convexidade alta, alargamento de fissuras sylvianas e padrão DESH aumentam suspeita. A punção lombar de alto volume, com retirada de líquido e avaliação objetiva da marcha antes e depois, pode ajudar a predizer resposta à derivação. Testes prolongados de drenagem lombar podem ser usados em centros especializados. O tratamento é derivação ventrículo-peritoneal em pacientes selecionados. A marcha tende a responder melhor que cognição, especialmente quando tratada precocemente. A indicação exige cautela porque idosos podem ter Alzheimer, doença vascular e HPN coexistindo. A pegadinha é considerar todo ventrículo grande como HPN: ventriculomegalia ex vacuo por atrofia cortical não é a mesma coisa que hidrocefalia com potencial de derivação. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 15. Tumores cerebrais e síndrome demencial Tumores cerebrais podem simular demência, especialmente quando acometem lobos frontais, temporais ou regiões profundas. Meningiomas frontais e parassagitais podem crescer lentamente e produzir apatia, desinibição, alteração de personalidade, lentificação, incontinência, crises ou alterações de marcha antes de sinais neurológicos óbvios. Gliomas frontais de baixo grau também podem ter curso insidioso. Metástases podem causar quadro subagudo, especialmente quando múltiplas ou associadas a edema. O diagnóstico diferencial com DFT é uma armadilha importante. Um paciente com alteração comportamental progressiva, desinibição e julgamento ruim pode ter DFT, mas também pode ter tumor frontal. Cefaleia nova, crises epilépticas, papiledema, déficits focais, início relativamente rápido, história de neoplasia, imunossupressão ou assimetria neurológica exigem neuroimagem. A RM com contraste é o exame de escolha quando tumor é suspeito. A relevância prática é que tumor é uma causa não apenas tratável, mas às vezes cirúrgica. O tratamento depende de histologia, localização, grau, performance, status e objetivos do paciente. Mesmo quando não curável, corticosteróide para edema, anticonvulsivantes quando indicados, cirurgia, radioterapia ou terapia sistêmica podem melhorar cognição, comportamento e qualidade de vida. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 16. Neuroinfecções, príons e demência rapidamente progressiva Neuroinfecções devem ser lembradas em demências de evolução atípica, rápida, em pacientes jovens, imunossuprimidos ou com sinais sistêmicos. ● Neurossífilis pode causar comprometimento cognitivo, alterações psiquiátricas, tabes dorsalis, pupila de Argyll-Robertson e sinais meningovasculares. A investigação pode incluir VDRL sérico, testes treponêmicos e análise do líquor. O tratamento com penicilina pode interromper progressão e melhorar sintomas, embora dano crônico possa persistir. ● O HIV pode causar transtorno neurocognitivo associado ao HIV, variando de alteração leve a demência. O fenótipo clássico é subcortical, com lentificação, apatia, déficit executivo e motor. A terapia antirretroviral transformou a epidemiologia, mas o problema ainda existe, especialmente em diagnóstico tardio, baixa adesão, resistência, coinfecções ou imunossupressão. Em pacientes jovens com demência, o HIV deve ser rastreado. A terapia antirretroviral pode melhorar ou estabilizar, mas é necessário avaliar infecções oportunistas, linfoma primário do SNC, LEMP, toxoplasmose e criptococose quando há imunossupressão. ● Tuberculose do SNC e criptococose podem causar meningite crônica, hidrocefalia, vasculite, infartos, hipertensão intracraniana e declínio cognitivo, especialmente em imunossuprimidos. O quadro pode incluir cefaléia, febre, perda de peso, rigidez de nuca discreta, pares cranianos e alteração mental. A punção lombar com análise de pressão, celularidade, proteínas, glicose, tinta nanquim/antígeno criptocócico, culturas e testes moleculares pode ser decisiva. ● Doença de Creutzfeldt-Jakob é uma causa clássica de demência rapidamente progressiva, geralmente com evolução em meses, mioclonias, ataxia, sinais piramidais/extrapiramidais, alterações visuais e mutismo acinético tardio. RM com restrição à difusão cortical ou em núcleos da base, EEG com complexos periódicos em alguns casos e biomarcadores liquóricos como RT-QuIC auxiliam. O diagnóstico é grave e exige exclusão de mimetizadores tratáveis, sobretudo encefalites autoimunes, tóxico-metabólicas e infecciosas. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 17. Demência em pacientes jovens (cruciais porque podem ser tratáveis. Sinais de alerta incluem evolução rápida, crises epilépticas, psicose nova, alteração de movimento, disautonomia, flutuação acentuada, inflamação no LCR, lesões multifocais em RM ou associação com neoplasia. Nesses casos, a abordagem deve ser urgente e especializada, incluindo RM, LCR, EEG, painéis autoimunes/paraneoplásicos e busca de tumor quando indicado. 18. Avaliação clínica inicial: como raciocinar passo a passo Figura 6. Fluxograma prático para abordagem inicial da síndrome demencial. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo A história clínica é o exame mais importante na avaliação de demência. Deve ser obtida com paciente e informante confiável, porque a anosognosia é comum. As perguntas iniciais são: quando começou, quem percebeu primeiro, qual foi o primeiro sintoma, a evolução foi insidiosa, abrupta, em degraus ou flutuante, quais atividades foram perdidas, há sintomas comportamentais, houve delirium, depressão, AVC, trauma, queda, convulsão, mudança de medicamentos, uso de álcool, distúrbio do sono ou sintomas sistêmicos. A funcionalidade deve ser descrita com exemplos concretos. Perguntar “ele é independente?” é insuficiente. É preciso perguntar se paga contas corretamente, controla senhas, administra medicamentos sem erro, cozinha sem esquecer fogão ligado, dirige sem se perder, faz compras, usa celular, organiza compromissos, cuida da higiene, escolhe roupas adequadas, reconhece riscos e fica sozinho com segurança. A perda de atividades instrumentais costuma aparecer antes da perda de atividades básicas. O exame neurológico deve procurar sinais que apontem etiologia. Parkinsonismo sugere Lewy, Parkinson ou vascular; sinais focais sugerem vascular, tumor ou subdural; marcha magnética sugere HPN; neuropatia e mielopatia sugerem B12 ou outras causas; ataxia e mioclonias sugerem príon, metabólico, tóxico ou autoimune; sinais frontais, reflexos primitivos e alteração comportamental sugerem rede frontal; paralisia do olhar vertical sugere paralisia supranuclear progressiva; assimetria com apraxia e distonia sugere degeneração corticobasal. Também é necessário examinar visão, audição, sono, humor, dor, nutrição e ambiente. Um paciente com baixa audição pode parecer desatento ou desmemoriado. A apneia do sono pode causar lentificação e déficit executivo. Dor crônica, insônia, isolamento e polifarmácia pioram a cognição. A boa neurologia cognitiva é clínica ampla, não apenas aplicação de teste. 19. Testes cognitivos padronizados e avaliação funcional Testes cognitivos são instrumentos de triagem e acompanhamento, não substitutos da história. Eles ajudam a objetivar domínios alterados, acompanhar evolução, comunicar gravidade e decidir necessidade de avaliação neuropsicológica. A interpretação deve ser ajustada por escolaridade, idade, cultura, idioma, visão, audição, Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo humor e familiaridade com lápis/papel. No Brasil, a escolaridade tem impacto enorme; por isso, pontos de corte rígidos podem gerar falso positivo em baixa escolaridade e falso negativo em alta escolaridade. O Mini Exame do Estado Mental avalia orientação, registro, atenção/cálculo, evocação, linguagem e cópia. É rápido e útil para quadros moderados a graves, mas menos sensível para comprometimento cognitivo leve, funções executivas e alterações frontais. Os slides citam medianas por escolaridade descritas por Brucki: analfabetos em torno de 20, 1-4 anos em torno de 25, 5-8 anos em torno de 26,5, 9-11 anos em torno de 28 e mais de 11 anos em torno de 29. Isso reforça que o escore bruto deve ser contextualizado. O MoCA é mais sensível para CCL e casos leves porque inclui tarefas de função executiva, atenção, visuoespacial, abstração e evocação. O teste do relógio é simples e rápido; avalia planejamento, compreensão, praxia construtiva, organização visuoespacial e função executiva. Fluência verbal semântica, como nomear animais em um minuto, é sensível para disfunção temporal e frontal; baixo desempenho pode ocorrer em Alzheimer, DFT, vascular e baixa escolaridade, devendo ser interpretado no contexto. O 10-CS, citado nos slides, usa orientação, fluência verbal e evocação, com ajuste por escolaridade, sendo útil em contextos de triagem rápida. O QMC8 é aplicado ao informante e identifica mudanças cognitivas ao longo dos anos; esse tipo de ferramenta é valioso porque a percepção familiar frequentemente capta declínio funcional antes de testes breves. O Questionário de Pfeffer avalia atividades instrumentais e ajuda a separar CCL de demência, pois escore maior que 5 sugere prejuízo funcional relevante. Instrumento O que avalia Ponto forte Limitação/pegadinha MEEM Orientação, memória, atenção, linguagem, cópia. Triagem rápida; bom para moderado/grave. Baixa sensibilidade para CCL e funções executivas; muito influenciado por escolaridade. MoCA Executivo, visuoespacial, atenção, linguagem, abstração, memória. Mais sensível para CCL e quadros leves. Também depende de escolaridade; pode gerar ansiedade/desempenho ruim. Relógio Praxia, visuoconstrução, planejamento, compreensão. Muito rápido e útil para parietal/frontal. Pontuação varia por método; não define etiologia sozinho. Fluência verbal Rede temporal/frontal; velocidade de acesso lexical. Sensível para disfunção frontal e temporal. Escolaridade e cultura influenciam bastante. 10-CS Orientação, fluência verbal, evocação. Rastreio curto com ajuste de escolaridade. Triagem; não substitui bateria completa. QMC8 Mudanças cognitivas informadas por acompanhante. Capta declínio longitudinal e anosognosia. Depende de informante confiável. Pfeffer Atividades instrumentais. Define impacto funcional; separa CCL de demência. Pode refletir limitações físicas/sociais não cognitivas. 20. Exames laboratoriais e quando ampliar investigação Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo A investigação laboratorial inicial deve procurar causas reversíveis, comorbidades que pioram cognição e segurança para tratamento. Um painel básico inclui hemograma completo, ureia, creatinina, eletrólitos, cálcio, função hepática, TSH, vitamina B12, glicemia e/ou HbA1c. Conforme contexto, adicionam-se VDRL, HIV, sorologias para hepatites, folato, vitamina D, VHS/CRP, autoanticorpos, cortisol, PTH, exames toxicológicos e avaliação de sono. Hemograma pode revelar anemia, macrocitose, infecção ou doença sistêmica. Função renal e eletrólitos identificam uremia, hiponatremia, hipercalcemia e efeitos de medicamentos. TSH detecta hipotireoidismo, causa clássica tratável. B12 identifica deficiência carencial com manifestações neuropsiquiátricas e neurológicas. Glicemia e HbA1c não apenas detectam diabetes, mas ajudam a caracterizar risco vascular e hipoglicemias em pacientes tratados. Função hepática pode apontar hepatopatia crônica e encefalopatia. A punção lombar não é obrigatória em todo idoso com quadro típico de Alzheimer, mas é indicada quando há início precoce, evolução rápida, suspeita infecciosa, inflamatória, neoplásica ou priônica, imunossupressão, sinais meníngeos, cefaleia, febre, alteração de consciência, achados de RM sugestivos, ou necessidade de biomarcadores de Alzheimer em contexto especializado. No LCR, podem ser avaliados células, proteínas, glicose, culturas, VDRL, PCRs, bandas oligoclonais, autoanticorpos, citologia, biomarcadores Aβ/tau e testes para príon quando indicado. 21. Neuroimagem nas demências A neuroimagem nas demências tem três objetivos principais: excluir causas estruturais tratáveis, avaliar padrão de atrofiae identificar doença vascular. A TC sem contraste pode ser o primeiro exame em muitos serviços pela disponibilidade e rapidez, especialmente para excluir hematoma, hidrocefalia, tumor volumoso ou grandes infartos. A RM, quando disponível e não contraindicada, é superior para avaliação etiológica por detectar atrofia regional, substância branca, lacunas, microbleeds, lesões inflamatórias, tumores pequenos, sequelas traumáticas e alterações de difusão. O protocolo de RM em demência geralmente inclui T1 volumétrico ou cortes anatômicos, T2, FLAIR, DWI/ADC e sequência sensível a sangue, como SWI ou T2*. Cortes coronais para hipocampo ajudam no Alzheimer. FLAIR evidencia leucoaraiose e lesões desmielinizantes. DWI é indispensável em demência rapidamente progressiva, infartos recentes e doença priônica. SWI mostra microbleeds, siderose superficial e angiopatia amilóide. A interpretação deve ser sindrômica. Atrofia hipocampal bilateral favorece o Alzheimer, mas não é exclusiva. Atrofia frontal/anterior temporal favorece DFT. Hipometabolismo tempoparietal no FDG-PET favorece Alzheimer; hipometabolismo frontal/anterior temporal favorece DFT; hipometabolismo occipital sugere Lewy. Doença vascular extensa pode ser causa principal ou comorbidade. Ventriculomegalia desproporcional à atrofia sugere HPN, especialmente com marcha magnética. Lesão expansiva, subdural ou abscesso muda completamente o caminho. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo 22. Tratamento não farmacológico e prevenção Tratamento não farmacológico não é “opcional” nem “coisa leve”; é pilar do cuidado. Estimulação cognitiva, reabilitação funcional, exercício, rotina estruturada, higiene do sono, adaptação ambiental, suporte ao cuidador, manejo de risco e planejamento antecipado frequentemente têm impacto maior na vida real do que ganhos modestos em escalas cognitivas. O objetivo é preservar função, reduzir sofrimento, evitar acidentes, diminuir agitação e manter dignidade. A estimulação cognitiva deve ser significativa e ajustada ao nível do paciente: leitura, música, reminiscência, jogos simples, tarefas domésticas supervisionadas, atividades manuais, conversa, espiritualidade, interação social e treinamento de estratégias. Não se trata de “forçar” o paciente a acertar tarefas difíceis, o que pode gerar frustração, mas de manter engajamento, identidade e participação. Reabilitação cognitiva é mais individualizada e orientada a metas funcionais, como usar agenda, organizar remédios, rotular ambientes e criar rotinas. A atividade física tem efeito neuroprotetor e funcional. Exercícios aeróbicos, treino de força, equilíbrio e mobilidade reduzem risco vascular, quedas, sarcopenia, depressão, insônia e dependência. Em pacientes com demência, o plano deve considerar segurança, supervisão, risco de queda, doença cardiovascular e prazer. Caminhada acompanhada, musculação adaptada, fisioterapia, dança e exercícios em grupo podem ser excelentes. Rotina estruturada reduz ansiedade e agitação porque o cérebro demenciado lida pior com imprevisibilidade. Horários regulares para sono, alimentação, banho, medicação, luz solar e atividades ajudam na orientação temporal. Os ambientes devem ter boa iluminação, redução de ruído, relógios grandes, calendários, identificação de cômodos, retirada de tapetes soltos, controle de fogão e supervisão de direção/finanças quando necessário. O estudo FINGER, citado nos slides, reforçou a ideia de intervenção multidomínio: nutrição saudável, exercício, treinamento cognitivo e controle de fatores vasculares/metabólicos podem melhorar o desempenho cognitivo em idosos em risco. A mensagem prática é que prevenção de demência começa décadas antes: educação, controle de pressão, diabetes e obesidade, cessação do tabagismo, tratamento de depressão, atividade física, sono, audição, vínculo social e redução de trauma craniano são medidas de saúde cerebral. 23. Tratamento farmacológico: fármacos sintomáticos e terapias modificadoras Fármaco Classe Uso/princípio Efeitos adversos e cuidados Donepezila Inibidor reversível da acetilcolinesterase Aumenta acetilcolina sináptica; uso em Alzheimer leve a grave conforme contexto. Náusea, diarreia, sonhos vívidos, bradicardia, síncope, perda ponderal. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo Rivastigmina Inibidor de acetilcolinesterase e butirilcolinesterase Alzheimer e demência com corpos de Lewy/Parkinson; adesivo pode reduzir efeitos GI. Náusea, vômito, perda de peso, tontura, bradicardia; dermatite no adesivo. Galantamina Inibidor de acetilcolinesterase; modulação nicotínica Alzheimer leve a moderado. Efeitos GI, bradicardia, tontura, perda de peso. Memantina Antagonista NMDA não competitivo Alzheimer moderado a grave; pode combinar com anticolinesterásico. Tontura, cefaléia, sonolência, constipação, confusão. Lecanemabe Anticorpo monoclonal anti-beta-amiloide protofibrilar DA inicial/CCL ou demência leve com amiloide confirmado; infusão e monitorização por RM. ARIA-E/ARIA-H, cefaleia, reações infusionais; cautela APOE ε4 e anticoagulação. Donanemabe Anticorpo monoclonal anti-amiloide direcionado a placas com piroglutamato Aβ DA inicial em pacientes selecionados com patologia amiloide; protocolos específicos e RM seriada. ARIA, micro/hemorragias, reações infusionais; risco maior em APOE ε4, restrições regulatórias. A prescrição deve ser individualizada. Antes de iniciar anticolinesterásico, avalie frequência cardíaca, história de síncope, bloqueios atrioventriculares, uso de betabloqueadores/digoxina, peso, sintomas gastrointestinais e expectativa de benefício. O acompanhamento deve verificar tolerância, peso, quedas, bradicardia, sono e impressão global do cuidador. A ausência de melhora dramática não significa ausência de benefício; muitas vezes o objetivo é estabilização relativa. No entanto, se houver efeitos adversos relevantes ou progressão para fase em que não há benefício percebido, a continuidade deve ser reavaliada. Sintomas associados devem ser tratados com parcimônia. Depressão pode responder a ISRS, como sertralina ou escitalopram, evitando fármacos anticolinérgicos. Distúrbio do sono deve priorizar higiene do sono, luz diurna, rotina e investigação de dor, noctúria, apneia e medicamentos; melatonina e trazodona podem ser consideradas em casos selecionados. Benzodiazepínicos devem ser evitados sempre que possível porque aumentam delirium, quedas, sedação e piora cognitiva. Uso educacional - baseado nos slides enviados e em literatura neurológica/psiquiátrica reconhecida Tratado de Neurologia - Demências | Material de estudo Antipsicóticos em demência exigem indicação clara: risco à segurança, sofrimento intenso ou psicose/agitação refratária a medidas não farmacológicas. Devem ser usados na menor dose, pelo menor tempo e com reavaliação frequente. Há aumento de risco de AVC e mortalidade em idosos com demência. Na demência com corpos de Lewy, a cautela é ainda maior pela hipersensibilidade neuroléptica. 24. Sintomas comportamentais e psicológicos da demência (SCPD) SCPD incluem agitação, agressividade, apatia, depressão, ansiedade, irritabilidade, delírios, alucinações, desinibição, alterações alimentares, comportamento motor aberrante, distúrbios do sono e sundowning. Eles ocorrem em grande parte dos pacientes ao longo da evolução e são uma das principais causas de sobrecarga do cuidador, institucionalização e uso de serviços de urgência. A primeira etapa é procurar a causa. Agitação pode ser dor, constipação, retenção urinária, infecção, fome, sede, calor, frio, medo, ruído, mudança de ambiente, delirium, medicamento novo, privação de sono ou comunicação frustrada. O modelo ABC ajuda: