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CAPÍTULO 1 NOÇÕES FUNDAMENTAIS DE POSSE, DETENÇÃO E PROPRIEDADE RECADO Caro(a) leitor(a), O Direito Agrário é uma disciplina indiscutivelmente autônoma, o que ficará demonstrado no próximo capítulo. Não obstante, é certo que dialoga com outras disciplinas, tanto de Direito Público como de Direito Privado, sendo marcante a influência do Direito Civil, primordialmente do Direito das Coisas. Ora, como poderemos observar, o objeto do Direito Agrário é a Atividade Agrária, que se desenvolve num Imóvel Rural, onde cotidianamente são deflagrados conflitos das mais diversas naturezas, por exemplo, envolvendo contratos agrários, usucapião, reforma agrária e regularização fundiária. Por esse motivo, entendemos (a partir da terceira edição) não ser possível fazer um bom estudo de Direito Agrário, sem antes termos bem fundamentados os conceitos de posse, detenção e propriedade. Boa leitura! 1. CONCEITO DE POSSE Um dos primeiros desafios do Direito das Coisas, neste caso aplicado ao Direito Agrário, é conceituar posse. Uma tarefa que não é tão fácil, uma vez que comumente o termo é utilizado de forma inapropriada, em certas situações até mesmo como sinônimo de propriedade. Definitivamente, posse não se confunde com propriedade, embora estejam intimamente relacionadas, inclusive nos seus conceitos. A posse é o exercício aparente de uma das faculdades ou poderes inerentes ao direito de propriedade (CC, art. 1.196). E quais são estes poderes? São os de usar; gozar (fruir); dispor; e reivindicar a coisa daquele que injustamente a detenha (CC, art. 1.228). CC/02, Art. 1.196. Considera-se possuidor todo aquele que tem de fato exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade. CC/02, Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha. Observe, portanto, que o conceito de posse se conecta naturalmente ao conceito de propriedade, sendo até possível afirmar que aquela é a aparência desta. Alguns doutrinadores lecionam que a propriedade encontra- se no plano da legalidade, da certeza, pois necessita ser comprovada (por documentação, por exemplo), enquanto a posse está no plano da aparência. Se não tenho a certeza da propriedade, não posso afirmá-la, mas o exercício de algum dos seus atributos me permite constatar a posse. Nas palavras de Paulo Nader: “(...) A posse se substancializa no exercício de algum dos poderes conferidos pelos direitos reais. E quais são esses poderes? São os de uso, gozo, disposição e de reaver a coisa de quem injustamente a possua”. Todavia, o ilustre professor completa ensinando que o exercício em si não é o que determina a posse, mas sim o poder que o indivíduo tem sobre a coisa, que o possibilita exercer um dos atributos. POSSE Conceito → Exercício aparente de algum dos poderes inerentes à propriedade. ATRIBUTOS DA PROPRIEDADE GRUD → Gozar; Reaver; Usar e Dispor. 2. TEORIAS DA POSSE A tarefa de conceituar a posse nunca foi simples. Ao longo da história várias escolas de direito expuseram suas teorias, objetivando delimitar e desenvolver o instituto, mas duas delas se destacaram e acabaram se tornando clássicas nesse estudo. São elas: 2.1. Teoria Subjetiva Ao conceituar a posse, Friedrich Karl Von Savigny formulou uma teoria que valoriza um elemento psicológico, ou seja, o ânimo do indivíduo de ter a coisa como se fosse sua. Nesses termos, seria considerado possuidor aquele que tivesse a possibilidade de dispor fisicamente de uma coisa, com a intenção de tê-la como própria e de defendê-la contra outros que tentassem possuí-la injustamente. Savigny explica que existem dois elementos constitutivos da posse, a saber: (i) o corpus (elemento material), que é o poder físico sobre a coisa, ou seja, a detenção do bem; e (ii) o animus domini (elemento psicológico), que é a intenção de ser dono. Se o indivíduo tem o corpus sem o animus domini, ele não é possuidor, mas mero detentor. Por outro lado, se houver apenas o animus sem o corpus, configura-se apenas um estado psicológico, irrelevante para o direito. Ihering, discordando dessa posição, apresentou uma teoria diversa, mas antes a resumiu com fórmulas algébricas. • D (DETENÇÃO) = C (corpus) + A (animus tenendi). • P (POSSE) = C (corpus) + A1 (animus tenendi) + A2 (animus domini). Embora tenha recebido adesão de muitos doutrinadores da época, essa teoria foi se tornando obsoleta, principalmente porque, segundo essa concepção, não seriam considerados possuidores, mas apenas detentores da coisa (por lhes faltar o animus domini), sujeitos como: o locatário, o comodatário, o depositário, o mandatário etc. Ensina-nos Maria Helena Diniz que “pela teoria subjetiva é inadmissível a posse por outrem, porque não podemos ter, para terceiro, a coisa com o desejo de que seja nossa, pois se não há vontade de ter a coisa como própria, haverá apenas detenção”. 2.2. Teoria Objetiva Em oposição à teoria subjetiva, surgiu a teoria objetiva, elaborada por Rudolf Von Ihering, amplamente reconhecida por afastar o elemento psicológico, o animus domini, como critério caracterizador da posse. Para essa escola a posse é configurada pela simples visualização, exteriorização ou exercício de algum dos atributos/direitos inerentes à propriedade, ainda que o sujeito não tenha a intenção de ser dono da coisa. Em regra, o proprietário também é possuidor do bem, pois a posse é inerente ao domínio (jus possidendi). Entretanto, o poder de direito (domínio) e o poder de fato (posse) podem ser separados quando o proprietário transfere voluntariamente a posse – onerosa ou gratuitamente – ou quando essa lhe é retirada. No primeiro caso teremos a posse justa (possessio justa), no segundo caso a posse injusta (possessio iniusta). Leciona Flávio Tartuce: Na verdade, mesmo sendo exteriorização da propriedade, o que também comprova a sua função social, a posse com ela não se confunde. É cediço que determinada pessoa pode ter a posse sem ser proprietária do bem, uma vez que ser proprietário é ter o domínio pleno da coisa. A posse pode significar apenas ter a disposição da coisa, utilizar-se dela ou tirar dela os frutos com fins socioeconômicos³. Nacionalmente, tanto o Código Beviláqua quanto o Código Reale consagraram a teoria de Ihering, ainda que apresente algumas nuanças da teoria subjetiva. 3. DETENÇÃO E POSSE Conforme explicado no tópico anterior, posse não se confunde com propriedade. Além disso, posse também não se confunde com detenção. Objetivamente, a detenção é a disponibilidade da coisa em nome de outrem, seja porque existe uma relação de subordinação entre detentor e possuidor, ou porque aquele está incumbido de conservar a coisa sob as instruções deste. Em ambos os casos, regra geral, existe uma relação de trabalho entre detentor e possuidor. Ensina-nos Paulo Nader que “o detentor não se encontra na posse, apenas conserva a coisa em seu poder e em nome de outrem, do possuidor, sendo, por isso, considerado fâmulo da posse, gestor da posse, detentor da posse, ou servidor da posse. Semelhantemente, Maria Helena Diniz leciona que “o ‘fâmulo da posse’ é aquele que, em virtude de sua situação de dependência econômica ou de um vínculo de subordinação em relação a uma outra pessoa (possuidor direto ou indireto), exerce sobre o bem não uma posse própria, mas a posse desta última e em nome desta, em obediência a uma ordem ou instrução” O Código Civil brasileiro prevê algumas situações de detenção, tais como a descrita no artigo 1.198, que estipula: “Considera-se detentor aquele que, achando-se em relação de dependência para com outro, conserva a posse em nome deste e em cumprimento de ordens ou instruções suas”. Com base nisso, temos que motoristas, empregados domésticos, caseiros, administradores, bibliotecários entre outros, não são possuidores, mas sim detentores de bens. A doutrina é pacífica no sentido de que a detençãoPaulo: Saraiva, 2017. OLIVEIRA, Umberto Machado de. Princípios de Direito Agrário na Constituição Vigente. Curitiba: Juruá, 2004. Reforma Agrária – Assentamento e Pós- Desapropriação 1. Introdução A reforma agrária brasileira constitui um dos mais relevantes instrumentos de política pública para a promoção da justiça social no campo. Prevista na Constituição Federal de 1988, tem como objetivo redistribuir terras improdutivas a trabalhadores rurais sem-terra, assegurando a função social da propriedade. O processo de assentamento de famílias beneficiárias é complexo e envolve diversas etapas, desde a desapropriação judicial do imóvel até a emancipação do projeto de assentamento. Esta aula percorre cada uma dessas fases, com destaque para os aspectos jurídicos, procedimentais e sociais que regem o assentamento rural no Brasil. 2. Fundamento Constitucional e Legal 2.1. Constituição Federal de 1988 A Constituição Federal de 1988 confere à União a competência exclusiva para desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social. Os dispositivos fundamentais são: Dispositivo Conteúdo Art. 184 Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não cumpra sua função social, mediante prévia e justa indenização em Títulos da Dívida Agrária (TDAs). Art. 185 São insuscetíveis de desapropriação: a pequena e média propriedade rural (desde que o proprietário não possua outra) e a propriedade produtiva. Art. 186 A função social é cumprida quando atende: aproveitamento racional e adequado, utilização adequada dos recursos naturais, observância das relações de trabalho e exploração que favoreça o bem-estar. Art. 189 Os beneficiários da distribuição de imóveis rurais pela reforma agrária receberão títulos de domínio ou concessão de uso, inegociáveis pelo prazo de 10 anos. Art. 191 Aquele que possuir como sua área de terra em zona rural, não superior a 50 hectares, tornando-a produtiva por seu trabalho, terá a propriedade (usucapião especial rural). 2.2. Legislação Infraconstitucional A legislação infraconstitucional detalha e regulamenta o processo de reforma agrária previsto na Constituição: Lei nº 8.629/1993 – Regulamenta os dispositivos constitucionais relativos à reforma agrária. Define os conceitos de propriedade produtiva, classificação de imóveis, seleção de beneficiários e procedimentos de assentamento. Lei Complementar nº 76/1993 – Dispõe sobre o procedimento contraditório especial, de rito sumário, para o processo de desapropriação por interesse social. Lei nº 4.504/1964 (Estatuto da Terra) – Marco fundacional da reforma agrária no Brasil. Estabelece a base estrutural da política agrícola e fundiária. Decreto nº 9.311/2018 – Regulamenta a seleção de famílias beneficiárias e a titulação nos projetos de assentamento. 3. A Sentença de Desapropriação 3.1. O Decreto Presidencial O processo de desapropriação para fins de reforma agrária inicia-se com a edição de um Decreto Presidencial que declara o imóvel rural como de interesse social para fins de reforma agrária. Este decreto é publicado no Diário Oficial da União e autoriza o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) a propor a ação de desapropriação. A competência para a emissão do decreto é privativa do Presidente da República, conforme o art. 184 da CF/88. O decreto tem validade de dois anos para a propositura da ação judicial, findo o qual caduca. 3.2. A Ação de Desapropriação (LC 76/93) A ação de desapropriação por interesse social segue rito sumário, previsto na Lei Complementar nº 76/1993. O INCRA ajuíza a ação perante a Justiça Federal, devendo realizar o depósito prévio em juízo do valor ofertado. As principais características do procedimento são: A petição inicial deve conter a oferta do preço e ser instruída com o decreto desapropriatório, laudo de vistoria e avaliação do imóvel; O depósito prévio compreende o valor da terra nua em Títulos da Dívida Agrária (TDAs) e o valor das benfeitorias úteis e necessárias em dinheiro; O juiz pode deferir de imediato liminar na posse pelo INCRA, mediante o depósito; A contestação do réu não impede o prosseguimento sobre o valor da indenização (a legalidade do decreto não é discutida nesta ação, mas em mandado de segurança). 3.3. A Sentença e seus Efeitos O juiz federal profere sentença fixando a justa indenização, que compreende: Valor da terra nua: pago em Títulos da Dívida Agrária (TDAs), resgatáveis em até 20 anos, conforme o grau de utilização da terra (GUT) e o grau de eficiência na exploração (GEE); Valor das benfeitorias úteis e necessárias: pago em dinheiro, mediante depósito judicial; Juros compensatórios e moratórios: conforme jurisprudência do STJ e STF. Com o trânsito em julgado da sentença, o domínio do imóvel é transferido ao patrimônio público federal, sob administração do INCRA. A sentença é registrada no Cartório de Registro de Imóveis (CRI) competente, operando-se a transferência da propriedade. 4. Imissão na Posse 4.1. Conceito e Natureza jurídica A imissão na posse é o ato judicial pelo qual o INCRA é investido na posse do imóvel desapropriado, podendo iniciar as ações de assentamento. Trata-se de uma medida que pode ser concedida liminarmente, antes mesmo da sentença definitiva de desapropriação, desde que atendidos os requisitos legais. 4.2. Requisitos para a Imissão Liminar (LC 76/93, art. 6º) Para a concessão da imissão liminar na posse, devem estar presentes os seguintes requisitos: i) Depósito do valor correspondente à terra nua em TDAs, na forma do art. 184 da CF; ii) Depósito em dinheiro do valor das benfeitorias úteis e necessárias; iii) Comprovação da oferta realizada pelo INCRA ao proprietário; iv) Despacho do juiz federal competente, concedendo a liminar. 4.3. Efeitos da Imissão na Posse Com a imissão na posse, o INCRA assume o controle efetivo da área e pode iniciar os trabalhos de levantamento topográfico, vistoria, elaboração do Plano de Desenvolvimento do Assentamento (PDA) e seleção dos beneficiários. O antigo proprietário é desalojado do imóvel, podendo levantar 80% do depósito em dinheiro. 5. Criação do Projeto de Assentamento 5.1. Portaria de Criação Após a imissão na posse, o INCRA publica uma Portaria de Criação do Projeto de Assentamento (PA), formalizando a destinação da área para fins de reforma agrária. Essa portaria define a localização geográfica, a área total do projeto, a capacidade de famílias, a modalidade do assentamento e as condicionantes ambientais. 5.2. Modalidades de Assentamento O INCRA opera diversas modalidades de assentamento, adequadas às características regionais e ambientais: PA (Projeto de Assentamento): Modelo convencional com lotes individuais, área de uso comum e reserva legal coletiva. Mais comum no Brasil PDS (Proj. Desenv. Sustentável): voltado para áreas de interesse ambiental. Exploração coletiva, foco na sustentabilidade e agroecologia. PAE (Proj. Agroextrativista): destinado a populações extrativistas tradicionais. Áreas da Amazônia e outros biomas. PAF (Proj. de Assentamento Florestal): assentamentos com base na produção florestal sustentável e manejo comunitário. PE (Proj. Estadual): implementado em parceria entre INCRA e governos estaduais, com obtenção de terras pelo ente estadual. 6. Seleção e Classificação dos Beneficiários 6.1. Requisitos Legais (Lei 8.629/93, art. 19) Para ser beneficiário da reforma agrária, o candidato deve atender cumulativamente aos seguintes requisitos: • Não ser proprietário de imóvel rural; • Não ser funcionário público, ressalvados professores e profissionais de saúde que prestem serviços na comunidade rural; • Não auferir renda familiar proveniente de atividade não agrária superior a três salários mínimos mensais; • Não ter sido beneficiário anteriorde programa de reforma agrária; • Dispor-se a residir na parcela ou município onde se situa o assentamento; • Possuir aptidão e experiência para a atividade agrária. 6.2. Critérios de Classificação e Pontuação Dentre os candidatos habilitados, o INCRA realiza a classificação segundo critérios de pontuação que priorizam: • Família mais numerosa, com maior número de filhos menores; • Tempo de atividade rural e experiência agrícola do candidato; • Residência no município ou comarca onde se localiza o assentamento; • Chefes de família com idade superior a 50 anos (prioridade); • Filhos em idade escolar matriculados em instituições de ensino. A Relação de Beneficiários (RB) é elaborada pelo INCRA e publicada no Diário Oficial da União, assegurando transparência e possibilidade de impugnação administrativa. 7. Distribuição dos Lotes 7.1. Plano de Desenvolvimento do Assentamento (PDA) A divisão dos lotes é realizada com base no Plano de Desenvolvimento do Assentamento (PDA), documento técnico que define a capacidade produtiva do solo, a fração mínima de parcelamento (FMP), as áreas de preservação, a infraestrutura necessária e a organização espacial do projeto. 7.2. Estrutura Espacial do Assentamento O assentamento é dividido nas seguintes áreas: Área Descrição Proporção Lotes individuais Parcela destinada a cada família, dimensionada conforme o módulo rural da região e a capacidade produtiva do solo. ~60% Área comunitária Espaço de uso coletivo: sede do assentamento, escola, posto de saúde, centro comunitário, estradas internas. ~10% Reserva legal Percentual de vegetação nativa obrigatória conforme o bioma (20% no Sudeste/Sul, 35% no Cerrado, 80% na Amazônia), na forma do Código Florestal. 20–80% APP Áreas de Preservação Permanente: margens de rios, topos de morros, encostas íngremes. Proteção integral. Variável O tamanho dos lotes individuais varia conforme a região e a qualidade da terra, devendo respeitar a fração mínima de parcelamento e o módulo fiscal do município. Em regiões do Nordeste semiárido, os lotes tendem a ser maiores em razão da menor produtividade do solo. 8. Emissão de Títulos aos Assentados A titulação dos assentados é o ato pelo qual o Estado confere segurança jurídica ao beneficiário sobre o lote recebido. Existem três instrumentos principais: 8.1. Contrato de Concessão de Uso (CCU) O CCU é o documento inicial e provisório que autoriza o assentado a ocupar e explorar o lote. Tem caráter precário e instaura uma relação obrigacional entre o beneficiário e o INCRA. Não transfere a propriedade do imóvel. O assentado deve cumprir uma série de cláusulas, como residência efetiva no lote, cultivo da terra e preservação ambiental. 8.2. Título de Domínio (TD) O Título de Domínio é o instrumento que transfere a propriedade plena do lote ao beneficiário. Contém cláusula resolutiva de inalienabilidade pelo prazo de 10 anos, conforme determina o art. 189 da Constituição Federal. Pode ser concedido a título oneroso ou gratuito, dependendo da legislação vigente e das condições do beneficiário. A cláusula de inalienabilidade tem como finalidade impedir a reconcentração fundiária e garantir que a terra cumpra sua função social pelo prazo mínimo estabelecido constitucionalmente. 8.3. Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) A CDRU é uma alternativa ao Título de Domínio, utilizada especialmente em assentamentos ambientalmente diferenciados (PDS, PAE, PAF). Trata-se de um direito real, transmissível por herança, que confere ao beneficiário o uso do lote sem transferir a propriedade do imóvel, que permanece público. É o instrumento preferencial em áreas de domínio da União e em terras públicas. 8.4. Evolução dos Títulos A evolução típica da titulação segue o seguinte percurso: CCU (provisório) → Cumprimento das cláusulas contratuais → TD ou CDRU (definitivo). Somente após a verificação pelo INCRA do cumprimento das obrigações assumidas no CCU é que se outorga o título definitivo. 9. Assistência do Estado aos Assentados O Estado tem o dever constitucional e legal de prestar assistência aos assentados da reforma agrária, viabilizando sua permanência na terra e seu desenvolvimento produtivo. As principais formas de assistência são: 9.1. Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) A ATER consiste na prestação de orientação técnica gratuita aos assentados, abrangendo técnicas de produção agrícola, manejo do solo, gestão da propriedade, comercialização e organização comunitária. É prestada pelo próprio INCRA ou por entidades credenciadas (empresas de assistência técnica, ONGs, universidades). 9.2. Crédito Instalação O Crédito Instalação é um apoio financeiro concedido pelo INCRA diretamente aos assentados, nas seguintes modalidades: Apoio Inicial: para construção ou reforma de moradia e aquisição de itens de primeira necessidade; Fomento: para aquisição de insumos, sementes, ferramentas e pequenos animais; Adicional do Fomento: complementação do crédito de fomento para ampliar a produção; Semiárido: específico para convivência com a seca (cisternas, barragens subterrâneas); Recuperação/Manutenção: para recuperação de infraestrutura danificada ou manutenção de equipamentos. 9.3. PRONAF – Grupo A O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), em seu Grupo A, é específico para assentados da reforma agrária. Oferece linhas de crédito com juros subsidiados para custeio e investimento na produção agrícola, pecuária e agroindustrial. 9.4. Programas de Comercialização (PAA e PNAE) O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) garantem a compra institucional da produção dos assentados pelo governo, com preços mínimos de referência. No PNAE, pelo menos 30% dos recursos devem ser utilizados na aquisição de alimentos da agricultura familiar. 10. Infraestrutura e Desenvolvimento A implantação de infraestrutura básica nos assentamentos é responsabilidade do INCRA, em articulação com estados, municípios e programas federais. As principais obras e serviços incluem: Abertura e manutenção de estradas vicinais internas ao assentamento, para escoamento da produção e acesso aos lotes; Abastecimento de água: poços artesianos, cisternas, sistemas de distribuição e captação de água pluvial; Energia elétrica: extensão da rede elétrica por meio do Programa Luz para Todos; Habitação rural: construção de moradias pelo Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR); Educação e saúde: construção ou melhoria de escolas rurais e postos de saúde; Recuperação ambiental: recuperação de áreas degradadas, implantação de reserva legal e Áreas de Preservação Permanente. 11. Consolidação e Emancipação do Assentamento 11.1. Conceito de Consolidação A consolidação é o estágio final do ciclo de vida de um projeto de assentamento. Representa o momento em que as famílias assentadas atingem autonomia econômica e social suficiente para dispensar a tutela direta do INCRA. O P.A é então emancipado, deixando de figurar como projeto sob gestão do órgão fundiário. 11.2. Requisitos para Consolidação Para que o assentamento seja consolidado, devem estar atendidos os seguintes critérios: Concessão de créditos de instalação e crédito produtivo a todas as famílias; Infraestrutura básica implantada (estradas, água, energia, habitação); Outorga de títulos definitivos (TD ou CDRU) a todos os beneficiários; Prestação de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) pelo prazo mínimo legal; Licenciamento ambiental regular e recuperação da reserva legal; Quitação ou renegociação dos créditos iniciais pelos beneficiários. 11.3. Efeitos da Emancipação Após a emancipação, os assentados passam a ser considerados agricultores familiares autônomos, com plenos direitos sobre seus lotes (observadas as restrições de inalienabilidade, quando aplicáveis). O assentamento deixa de receber assistênciadireta do INCRA, passando a ser atendido pelas políticas públicas gerais destinadas à agricultura familiar. 12. Conclusão O processo de assentamento na reforma agrária brasileira é um percurso longo e complexo, que envolve múltiplas etapas jurídicas, administrativas e sociais. Da desapropriação judicial à emancipação do projeto de assentamento, o Estado assume compromissos fundamentais para garantir que a redistribuição de terras alcance sua finalidade social. Os principais pontos a serem retidos desta aula são: A desapropriação por interesse social é instrumento constitucional fundamental, previsto no art. 184 da CF/88; A imissão na posse pode ser liminar, garantindo celeridade ao processo de assentamento; A seleção de beneficiários segue critérios legais objetivos, assegurando isonomia e transparência; Os títulos (CCU, TD, CDRU) conferem segurança jurídica progressiva aos assentados; A assistência estatal (ATER, créditos, infraestrutura, comercialização) é direito do assentado e dever do Estado; A consolidação encerra o ciclo, emancipando o assentamento e seus beneficiários. Referências Legislativas Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (arts. 184 a 191) Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964 (Estatuto da Terra) Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993 Lei Complementar nº 76, de 6 de julho de 1993 Decreto nº 9.311, de 15 de março de 2018 Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012 (Código Florestal) Pronto — essa é a transcrição literal da oitava página, concluindo o documento. Você gostaria que eu agora junte todas as páginas que já transcrevemos (1 a 8) em um texto contínuo único, para facilitar a leitura e uso?Perfeito, Giana. Aqui está a transcrição literal completa da oitava página, fiel ao texto e sem cabeçalhos técnicos ou marcações de paginação: Reforma Agrária – Assentamento e Pós-Desapropriação Após a emancipação, os assentados passam a ser considerados agricultores familiares autônomos, com plenos direitos sobre seus lotes (observadas as restrições de inalienabilidade, quando aplicáveis). O assentamento deixa de receber assistência direta do INCRA, passando a ser atendido pelas políticas públicas gerais destinadas à agricultura familiar. 12. Conclusão O processo de assentamento na reforma agrária brasileira é um percurso longo e complexo, que envolve múltiplas etapas jurídicas, administrativas e sociais. Da desapropriação judicial à emancipação do projeto de assentamento, o Estado assume compromissos fundamentais para garantir que a redistribuição de terras alcance sua finalidade social. Os principais pontos a serem retidos desta aula são: A desapropriação por interesse social é instrumento constitucional fundamental, previsto no art. 184 da CF/88; A imissão na posse pode ser liminar, garantindo celeridade ao processo de assentamento; A seleção de beneficiários segue critérios legais objetivos, assegurando isonomia e transparência; Os títulos (CCU, TD, CDRU) conferem segurança jurídica progressiva aos assentados; A assistência estatal (ATER, créditos, infraestrutura, comercialização) é direito do assentado e dever do Estado; A consolidação encerra o ciclo, emancipando o assentamento e seus beneficiários. Referências Legislativas Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (arts. 184 a 191) Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964 (Estatuto da Terra) Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993 Lei Complementar nº 76, de 6 de julho de 1993 Decreto nº 9.311, de 15 de março de 2018 Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012 (Código Florestal) PARTE I — MÓDULO RURAL E MÓDULO FISCAL 1. NOÇÕES INTRODUTÓRIAS No Direito Agrário brasileiro, a dimensão do imóvel rural não é aferida simplesmente em hectares absolutos. A legislação adotou unidades de medida específicas — o módulo rural e, posteriormente, o módulo fiscal — com o objetivo de compatibilizar a extensão da terra com a capacidade produtiva e com a função social da propriedade. Essas unidades servem a diversos fins práticos, entre os quais se destacam a classificação fundiária (minifúndio, pequena, média e grande propriedade); a incidência e cálculo do ITR; a aferição da chamada pequena gleba para fins de impenhorabilidade e de usucapião especial rural; o enquadramento da agricultura familiar; a desapropriação por interesse social para fins de reforma agrária; e a delimitação das áreas de reserva legal. Ambas as unidades — módulo rural e módulo fiscal — convivem no ordenamento, mas respondem a lógicas e a finalidades distintas. A aula seguinte detalha cada uma e expõe o quadro comparativo. 2. MÓDULO RURAL 2.1 Previsão legal O módulo rural é figura originária do Estatuto da Terra (Lei 4.504, de 30 de novembro de 1964), em seu artigo 4º, inciso III, combinado com o conceito de propriedade familiar do inciso II. Art. 4º Para os efeitos desta Lei, definem-se: [...] II — Propriedade familiar: o imóvel rural que, direta e pessoalmente explorado pelo agricultor e sua família, lhes absorva toda a força de trabalho, garantindo-lhes a subsistência e o progresso social e econômico, com área máxima fixada para cada região e tipo de exploração, e eventualmente trabalhado com a ajuda de terceiros; III — Módulo rural: a área fixada nos termos do inciso anterior. 2.2 Conceito Módulo rural é, portanto, a área mínima necessária para que uma família, explorando-a direta e pessoalmente, obtenha sua subsistência e progresso socioeconômico. Trata-se de unidade casuística: é calculada para cada imóvel rural, individualmente, considerando-se o tipo de exploração predominante e as condições específicas daquela região. 2.3 Características • Individualizado: fixado para cada imóvel em concreto, e não para o município ou região. • Vinculado à propriedade familiar: seu cálculo leva em conta a capacidade de sustento da família rural. • Função histórica: serviu como base do sistema agrário brasileiro entre 1964 e 1979, sendo gradativamente substituído, para fins classificatórios, pelo módulo fiscal. • Permanece em vigor: o módulo rural não foi revogado; continua aplicável em matérias específicas, sobretudo para a caracterização da propriedade familiar em contextos particulares. 3. MÓDULO FISCAL 3.1 Previsão legal O módulo fiscal foi criado pela Lei 6.746, de 10 de dezembro de 1979, que alterou dispositivos do Estatuto da Terra, originando-se de uma necessidade prática: uniformizar, em âmbito municipal, a unidade de medida para fins tributários e de política fundiária. 3.2 Conceito O módulo fiscal é uma unidade de medida, expressa em hectares, fixada para cada município do país, levando em consideração os seguintes fatores: • Tipo de exploração predominante no município (hortifrutigranjeira, cultura permanente, cultura temporária, pecuária ou florestal); • Renda obtida com a exploração predominante; • Outras explorações existentes que, embora não predominantes, sejam expressivas em função da renda ou da área utilizada; • Conceito de propriedade familiar aplicado à realidade local. No Brasil, o módulo fiscal varia, em regra, de 5 a 110 hectares, conforme o município. Em Lages/SC, por exemplo, o módulo fiscal é de 16 hectares — parâmetro que se aplica a qualquer imóvel rural do município, independentemente de sua extensão individual. 3.3 Finalidades (por que ele importa) • Classificar o imóvel rural em minifúndio, pequena, média ou grande propriedade (Lei 8.629/1993, art. 4º); • Definir a base de cálculo e a alíquota do Imposto Territorial Rural — ITR (Lei 9.393/1996); • Enquadrar o agricultor familiar (Lei 11.326/2006, art. 3º, I); • Delimitar a pequena propriedade rural para fins de impenhorabilidade (CF, art. 5º, XXVI) e para a usucapião especial rural; • Fixar parâmetros de desapropriação por interesse social para reforma agrária, resguardando a pequena e a média propriedade produtivas (CF, art. 185, I); 4. QUADROCOMPARATIVO — MÓDULO RURAL X MÓDULO FISCAL O quadro abaixo sintetiza, em paralelo, as principais distinções entre as duas figuras, permitindo fixar com rapidez pontos frequentemente cobrados em prova e em peças processuais. Critério Módulo Rural Módulo Fiscal Base legal Estatuto da Terra, art. 4º, II e III (Lei 4.504/1964) Lei 6.746/1979 (alterou o Estatuto da Terra) Natureza Unidade individualizada (por imóvel) Unidade padronizada (por município) Parâmetro Área que sustenta a família com exploração direta Área em hectares definida por município Variação Caso a caso (tipo de exploração + condições do imóvel) De 5 a 110 hectares, conforme o município Finalidade Caracterizar propriedade familiar Classificação fundiária, ITR, reforma agrária, agricultura familiar Ponto central Casuístico (foco no imóvel e na família) Geral (foco no município) 5. CLASSIFICAÇÃO DOS IMÓVEIS RURAIS A Lei 8.629/1993, que regulamenta os dispositivos constitucionais relativos à reforma agrária, utiliza o módulo fiscal como parâmetro para classificar os imóveis rurais em quatro categorias: Categoria Extensão Observações Minifúndio 4 até 15 módulos fiscais Também não pode ser desapropriada (se não possuir outro imóvel) Grande propriedade > 15 módulos fiscais Pode ser desapropriada se não cumprir função social Observe-se que a Constituição Federal, no art. 185, I, protege a pequena e a média propriedade produtivas da desapropriação para fins de reforma agrária, desde que o proprietário não possua outro imóvel rural. Essa imunidade constitucional só se opera, portanto, mediante a correta classificação feita pelo módulo fiscal do município. 6. APLICAÇÕES PRÁTICAS DO MÓDULO FISCAL Saber o módulo fiscal do município em que está localizado um imóvel rural permite responder, de imediato, a diversas perguntas com relevância jurídica e econômica. Enumeram-se as principais: • Reforma agrária — aferir se o imóvel é ou não suscetível de desapropriação (CF, art. 184 e 185). • ITR — definir a alíquota aplicável, que varia conforme o grau de utilização e a área total em módulos fiscais (Lei 9.393/1996). • Agricultura familiar — verificar se o produtor se enquadra no conceito legal (Lei 11.326/2006), que limita a propriedade a 4 módulos fiscais. • Usucapião especial rural — a CF exige que a área usucapienda não exceda 50 hectares, parâmetro que dialoga diretamente com o conceito de pequena gleba rural. • Reserva legal — o Novo Código Florestal (Lei 12.651/2012) permite, em imóveis de até 4 módulos fiscais, consolidar áreas rurais com regramento mais flexível. • Impenhorabilidade — a pequena propriedade rural, trabalhada pela família, é impenhorável por dívida decorrente da atividade produtiva (CF, art. 5º, XXVI; CPC, art. 833, VIII). PARTE II — ESPÉCIES DE USUCAPIÃO 1. CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA Usucapião é modo originário de aquisição da propriedade (e de outros direitos reais) pelo exercício prolongado e qualificado da posse, observados os requisitos fixados em lei. Trata-se de instituto que realiza, simultaneamente, dois princípios basilares do sistema: a segurança jurídica, ao estabilizar situações fáticas consolidadas pelo tempo, e a função social da propriedade, ao premiar quem efetivamente habita, cultiva ou destina o bem a finalidade socialmente útil. Por ser modo originário, o adquirente recebe a propriedade livre de ônus reais anteriores incompatíveis com a nova situação, independentemente de qualquer transmissão pelo antigo titular. A sentença na ação de usucapião tem natureza meramente declaratória da aquisição, que se opera pelo decurso do prazo aliado ao preenchimento dos demais requisitos. 2. REQUISITOS GERAIS Embora cada espécie tenha particularidades, é possível reunir os elementos comuns a todas elas: • Posse ad usucapionem: posse com animus domini, ou seja, o possuidor se comporta como se dono fosse. • Posse mansa e pacífica: sem oposição efetiva do proprietário ou de terceiros. • Posse contínua: sem interrupções que descaracterizem a permanência no imóvel. • Decurso do prazo legal: variável conforme a espécie de usucapião invocada. • Coisa hábil: o bem deve ser passível de usucapião (não o são, por exemplo, os bens públicos). Requisitos específicos — como justo título, boa-fé, metragem máxima, destinação da posse (moradia, produção), inexistência de outro imóvel — variam conforme cada espécie, como se verá adiante. 3. USUCAPIÃO EXTRAORDINÁRIA Base legal: Código Civil, art. 1.238. Art. 1.238. Aquele que, por quinze anos, sem interrupção, nem oposição, possuir como seu um imóvel, adquire-lhe a propriedade, independentemente de título e boa-fé; podendo requerer ao juiz que assim o declare por sentença, a qual servirá de título para o registro no Cartório de Registro de Imóveis. Parágrafo único. O prazo estabelecido neste artigo reduzir-se-á a dez anos se o possuidor houver estabelecido no imóvel a sua moradia habitual, ou nele realizado obras ou serviços de caráter produtivo. Requisitos • Posse mansa, pacífica, contínua e com animus domini; • Prazo de 15 anos — reduzido para 10 anos se houver moradia habitual ou obras/serviços produtivos; • Independe de justo título e de boa-fé; • Qualquer imóvel, urbano ou rural, sem limitação de metragem. 4. USUCAPIÃO ORDINÁRIA Base legal: Código Civil, art. 1.242. Art. 1.242. Adquire também a propriedade do imóvel aquele que, contínua e incontestadamente, com justo título e boa-fé, o possuir por dez anos. Parágrafo único. Será de cinco anos o prazo previsto neste artigo se o imóvel houver sido adquirido, onerosamente, com base no registro constante do respectivo cartório, cancelado posteriormente, desde que os possuidores nele tiverem estabelecido a sua moradia, ou realizado investimentos de interesse social e econômico. Requisitos • Posse mansa, pacífica, contínua e com animus domini; • Justo título: instrumento formalmente apto a transferir a propriedade, ainda que padeça de algum vício; • Boa-fé: convicção do possuidor de que é dono; • Prazo de 10 anos — reduzido para 5 anos na hipótese de aquisição onerosa com registro cancelado, somada à moradia ou a investimentos de interesse social e econômico. 5. USUCAPIÃO ESPECIAL RURAL (PRO LABORE) Base legal: CF, art. 191; CC, art. 1.239; Lei 6.969/1981. CF, art. 191. Aquele que, não sendo proprietário de imóvel rural ou urbano, possua como seu, por cinco anos ininterruptos, sem oposição, área de terra, em zona rural, não superior a cinquenta hectares, tornando-a produtiva por seu trabalho ou de sua família, tendo nela sua moradia, adquirir-lhe-á a propriedade. Parágrafo único. Os imóveis públicos não serão adquiridos por usucapião. Requisitos • Posse mansa, pacífica e ininterrupta por 5 anos; • Área rural não superior a 50 hectares; • Tornar o imóvel produtivo por seu trabalho ou de sua família (requisito pro labore); • Utilização do imóvel como moradia (requisito pro misero); • Não ser proprietário de outro imóvel, rural ou urbano; • Impossibilidade quando o imóvel for público (súmula 340 do STF; CF, art. 191, § único). Observação didática: é a espécie por excelência do Direito Agrário. Reúne, em um só instituto, os elementos pro labore (trabalho) e pro misero (moradia), concretizando a função social da propriedade rural estampada no art. 186 da Constituição. 6. USUCAPIÃO ESPECIAL URBANA (PRO MISERO) Base legal: CF, art. 183; CC, art. 1.240; Lei 10.257/2001, art. 9º (Estatuto da Cidade). CF, art. 183. Aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinquenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietáriode outro imóvel urbano ou rural. Requisitos • Área urbana de até 250 m²; • Posse ininterrupta e sem oposição por 5 anos; • Utilização do imóvel para moradia própria ou da família; • Não ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural; • O direito não será reconhecido mais de uma vez ao mesmo possuidor. 7. USUCAPIÃO COLETIVA URBANA Base legal: Lei 10.257/2001 (Estatuto da Cidade), art. 10. Criada pelo Estatuto da Cidade, destina-se à regularização fundiária de núcleos urbanos informais habitados por população de baixa renda, quando não for possível identificar os terrenos ocupados por cada possuidor. Requisitos • Núcleo urbano informal ocupado por população de baixa renda para fins de moradia; • Posse coletiva, ininterrupta e sem oposição, por 5 anos; • Impossibilidade de identificar individualmente os terrenos ocupados; • Os possuidores não podem ser proprietários de outro imóvel urbano ou rural; • A sentença atribuirá igual fração ideal do terreno a cada possuidor, ressalvada hipótese de acordo escrito entre os condôminos. 8. USUCAPIÃO FAMILIAR (POR ABANDONO DO LAR) Base legal: Código Civil, art. 1.240-A, incluído pela Lei 12.424/2011. Art. 1.240-A. Aquele que exercer, por 2 (dois) anos ininterruptamente e sem oposição, posse direta, com exclusividade, sobre imóvel urbano de até 250m² (duzentos e cinquenta metros quadrados) cuja propriedade divida com ex-cônjuge ou ex- companheiro que abandonou o lar, utilizando-o para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio integral, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. Requisitos • Imóvel urbano de até 250 m² em copropriedade com ex-cônjuge ou ex-companheiro; • Abandono do lar pelo coproprietário; • Posse direta, exclusiva, ininterrupta e sem oposição, por 2 anos; • Utilização do imóvel para moradia própria ou da família; • Não ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural; • O direito não será reconhecido ao mesmo possuidor mais de uma vez. 9. USUCAPIÃO INDÍGENA Base legal: Lei 6.001/1973 (Estatuto do Índio), art. 33. Art. 33. O índio, integrado ou não, que ocupe como próprio, por dez anos consecutivos, trecho de terra inferior a cinquenta hectares, adquirir-lhe-á a propriedade plena. Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica às terras do domínio da União, ocupadas por grupos tribais, às áreas reservadas de que trata esta Lei, nem às terras de propriedade coletiva de grupo tribal. Requisitos • Possuidor indígena, integrado ou não; • Posse por 10 anos consecutivos, como própria; • Área inferior a 50 hectares; • Não recai sobre terras da União ocupadas por grupos tribais, áreas reservadas ou terras de propriedade coletiva do grupo tribal. 10. USUCAPIÃO EXTRAJUDICIAL Base legal: Lei 6.015/1973 (LRP), art. 216-A, incluído pelo CPC/2015 (art. 1.071); Provimento 65/2017 do CNJ. Não se trata propriamente de nova espécie material de usucapião, mas de via procedimental alternativa. Permite que qualquer das espécies reconhecidas no ordenamento seja requerida diretamente perante o cartório de registro de imóveis, desde que haja consenso (ou anuência presumida) dos interessados e a prova documental seja suficiente. Requisitos procedimentais • Requerimento por advogado, instruído com ata notarial lavrada por tabelião de notas; • Planta e memorial descritivo do imóvel assinados por profissional habilitado, com ART ou RRT; • Certidões negativas dos distribuidores da comarca de situação do imóvel e do domicílio do requerente; • Justo título: ou quaisquer documentos que comprovem a origem, a continuidade, a natureza e o tempo da posse; • Anuência dos titulares de direitos registrados e dos confrontantes — o silêncio, após notificação, é interpretado como concordância (art. 13 do Prov. 65/2017); • Havendo impugnação, o oficial remeterá os autos ao juízo competente. 11. BENS INSUSCETÍVEIS DE USUCAPIÃO Nem todo imóvel pode ser adquirido por usucapião. As principais vedações são: • Bens públicos: a Constituição, nos arts. 183, § 3º e 191, parágrafo único, bem como o CC, art. 102, são expressos em vedar o usucapião. A Súmula 340 do STF consagra a vedação; • Bens gravados com cláusula de inalienabilidade: enquanto subsistir a cláusula, não podem ser usucapidos; • Bens fora do comércio: em razão de sua natureza ou de disposição legal; • Terras tradicionalmente ocupadas por indígenas: CF, art. 231, § 4º (indisponíveis e inalienáveis). 12. QUADRO-RESUMO DAS ESPÉCIES O quadro sintetiza, para fins de estudo rápido, os elementos essenciais de cada espécie. Recomenda-se, em prova ou peça, voltar ao texto de cada instituto para a correta aplicação. ESPÉCIE PRAZO METRAGEM REQUISITOS ESPECIAIS BASE LEGAL Extraordinária 15 anos (10 se moradia/obras) Sem limite Independe de justo título e boa-fé CC, art. 1.238 Ordinária 10 anos (5 se registro cancelado) Sem limite Justo título + boa-fé CC, art. 1.242 Especial rural (pro labore) 5 anos Até 50 hectares Moradia + trabalho produtivo; não ter outro imóvel CF, art. 191; CC, art. 1.239; Lei 6.969/81 Especial urbana (pro misero) 5 anos Até 250 m² Moradia; não ter outro imóvel CF, art. 183; CC, art. 1.240 Coletiva urbana 5 anos Sem limite individual Núcleo urbano informal de baixa renda; posse coletiva Lei 10.257/01, art. 10 Familiar (abandono do lar) 2 anos Até 250 m² (urbano) Copropriedade com ex- cônjuge/companheiro; abandono CC, art. 1.240-A ESPÉCIE PRAZO METRAGEM REQUISITOS ESPECIAIS BASE LEGAL Indígena 10 anos Inferior a 50 hectares Possuidor indígena; posse como própria Lei 6.001/73, art. 33 Extrajudicial Varia (segue a espécie material) Varia Requerimento em cartório; anuência ou silêncio dos confrontantes LRP, art. 216-Apode ser convertida em posse, notadamente quando cessa a relação de subordinação. De acordo com o Enunciado 301 da IV Jornada de Direito Civil: “Art. 1.198 c/c o art. 1.204. É possível a conversão da detenção em posse, desde que rompida a subordinação, na hipótese de exercício em nome próprio dos atos possessórios”. Além do “fâmulo da posse”, o artigo 1.208 do Código Civil prevê outra situação configuradora de detenção, ao afirmar que “não induzem posse os atos de mera permissão ou tolerância assim como não autorizam a sua aquisição os atos violentos, ou clandestinos, senão depois de cessar a violência ou a clandestinidade”. O mesmo artigo ainda menciona que não gera posse, a “detenção independente” advinda de atos violentos ou clandestinos, em consonância com o disposto no artigo 1.224, o qual estabelece: “só se considera perdida a posse para quem não presenciou o esbulho, quando, tendo notícia dele, se abstém de retomar a coisa, ou, tentando recuperá-la, é violentamente repelido”. Exemplos de detenção independente incluem situações como ingresso forçado em propriedade alheia, realização de obras em terreno de outrem, invasão ou ocupação. Em todos esses casos, enquanto o real possuidor desconhecer o esbulho, o terceiro será mero detentor. No momento em que, ao tomar conhecimento da ocupação, o possuidor se abstiver de retomar a coisa ou for impedido de fazê-lo, o terceiro passa a ser considerado possuidor, ainda que injusto e de má-fé, cabendo ao titular do direito buscar a reintegração de posse. Por derradeiro, uma última situação de detenção, muito relevante para o Direito Agrário, é aquela decorrente da ocupação indevida de bens públicos. Como será detalhado em capítulo específico, a Constituição Federal e o Código Civil dispõem sobre a impossibilidade de se adquirir a propriedade de bens públicos por usucapião, uma vez que tal ocupação configura mera detenção, de natureza precária (STJ, AgRg no REsp 1.470.182-RN). Em algumas decisões, a Corte superior chegou a admitir a possibilidade de posse de bens públicos dominicais, reacendendo nos estudiosos a discussão sobre a possibilidade de usucapião de terras devolutas, outrora prevista em lei (Lei n° 6.969/81). Não obstante, contrariando completamente as referidas decisões, em outubro de 2018 o STJ aprovou a Súmula n° 619, segundo a qual: “a ocupação indevida de bem público configura mera detenção, de natureza precária, insuscetíveis de retenção ou indenização por acessões e benfeitorias”. 4. CLASSIFICAÇÃO DA POSSE Embora seja um todo unitário, a posse pode, por vezes, ser compartilhada, simultaneamente exercida, fundamento ou não para o pleito de usucapião, passível ou não de ser defendida contra terceiros, estar eivada de vício ou possibilitar medida liminar em ação possessória. Todas essas possibilidades dependem da modalidade configurada no caso concreto. 4.1. Quanto à Extensão da Garantia Possessória CC/02, Art. 1.197. A posse direta, de pessoa que tem a coisa em seu poder, temporariamente, em virtude de direito pessoal, ou real, não anula a indireta, de quem aquela foi havida, podendo o possuidor direto defendê-la contra o indireto. Conforme o disposto no artigo 1.197 do Código Civil de 2002, a posse direta é exercida pela pessoa que tem coisa em seu poder (poder físico imediato), temporariamente, como decorrência de um direito pessoal ou real. Por sua vez, a posse indireta é exercida por aquele que, sendo titular do direito real (em regra, direito real de propriedade), voluntariamente transferiu a outrem a utilização da coisa. Assim, temos que duas pessoas exercem simultaneamente a posse, mas não com os mesmos direitos. De fato, como consequência da adoção da teoria objetiva de Ihering, o intuito do legislador foi estender ao proprietário da coisa a possibilidade de defendê-la através de garantias possessórias, mesmo não tendo o corpus. Ademais, do ponto de vista técnico, não há equívoco nesse intento, pois o proprietário, mesmo após a transferência da posse, continua a exercer alguns dos atributos da propriedade, tais como a fruição e possibilidade de alienação da coisa. O artigo citado acima fornece outras informações que nos ajudam a melhor compreender essa classificação. A posse direta é derivada, pois advém do direito do cedente, e temporária, pois, uma vez extinta a relação pessoal, será extinto o desdobramento possessório, consolidando-se a posse em favor do possuidor indireto. Exemplos práticos dessa modalidade ocorrem na relação entre locador e locatário, depositante e depositário, comodante e comodatário, nu-proprietário e usufrutuário. Em todas essas situações, o primeiro será o possuidor indireto e o segundo, o possuidor direto da coisa. Outrossim, é importante observar que esse desmembramento pode resultar de uma relação pessoal, em virtude de obrigação oriunda de contrato, ou também de uma relação real, como ocorre no caso do usufrutuário e do credor pignoratício. Por fim, o possuidor direto é legitimado a proteger a posse contra terceiro e até mesmo contra o possuidor indireto, considerando uma situação prática, por exemplo, em que o locador queira insistente e reiteradamente, sem necessidade aparente, vistoriar a coisa locada. Igualmente, o possuidor indireto goza de proteção possessória, contra a turbação ou esbulho causados por terceiro e, apesar da omissão legislativa, também em relação ao possuidor direto, caso sua posse se torne injusta e de má-fé. Nos termos do Enunciado 76 do CJF, publicado após a I Jornada de Direito Civil: “Art. 1.197 – O possuidor direto tem direito de defender a sua posse contra o indireto, e este, contra aquele (art. 1.197, in fine, do novo Código Civil)”. 4.2. Quanto ao Compartilhamento da Posse CC/02, Art. 1.199. Se duas ou mais pessoas possuírem coisa indivisa, poderá cada uma exercer sobre ela atos possessórios, contanto que não excluam os dos outros compossuidores. Em regra, a posse é exercida de forma exclusiva e não compartilhada, situação em que apenas uma pessoa dispõe da coisa. Nesse caso, a posse poderá ser direta ou indireta, hipótese em que, embora duas pessoas sejam possuidoras, os seus direitos são distintos, exclusivos e limitados. Como vimos, o objetivo do legislador foi, primordialmente, permitir ao proprietário proteger a posse, mesmo sem estar diretamente com a coisa. Diferentemente, o que está tipificado no artigo acima é a possibilidade de composse, ou seja, o partilhamento da posse por duas ou mais pessoas, o que pode surgir no mundo jurídico em razão de ato inter vivos por exemplo como decorrência do casamento ou união estável e também por causa mortis, quando os herdeiros terão composse da herança até que se dê a partilha dos bens. Conforme entendimento de Maria Helena Diniz: “verifica-se que a composse não se confunde com a dualidade da posse: a direta e a indireta, porque nesta última o possuidor fica privada da utilização imediata da coisa e na composse todos podem utilizá-la diretamente, desde que uns não excluam os outros. Em suma, a composse pressupõe: a) pluralidade de sujeitos; b) iguais poderes; c) mesmo bem. Como diz o texto legal, nessa situação cada pessoa pode exercer os atos possessórios, desde que não obstrua o exercício dos demais. Se um perturbar o desenvolvimento da composse, poderão os demais intentar as garantias possessórias em face dele. Há quem visualize, ainda, duas espécies de composse: (i) pro diviso, quando a coisa em si é divisível e, embora não exista a divisão de direito, é possível a repartição fática da posse; (ii) pro indiviso, quando o objeto encontra-se materialmente indivisível, de modo que cada possuidor exerce igual poder sobre a totalidade da coisa, de fato e de direito. 4.3. Quanto à Existência de Vício CC/02, Art. 1.200. É justa a posse que não for violenta, clandestina ou precária. O artigo acima é praticamente autoexplicativo, quanto à existência de vícios a posse pode ser justa ou injusta. Primeiro, a posseé justa se não for violenta, ou seja, se não for obtida mediante força física ou violência moral, como ocorre nas invasões de terra, onde um grupo de pessoas adentra abruptamente em determinado terreno derrubando cercas e outros implementos, expulsando pessoas que estejam utilizando a coisa e cumprindo sua função social. É injusta, ainda, a posse clandestina ou precária. Clandestina é a posse adquirida sem o conhecimento do possuidor, às ocultas, sorrateiramente, sem publicidade. Precária é a posse adquirida em abuso de confiança, como quando a pessoa se nega a restituir a coisa lhe fora entregue. Segundo Flávio Tartuce: De início, a posse, mesmo que injusta, ainda é posse e pode ser defendida por ações do juízo possessório, não contra aquele de quem se roubou a coisa, mas sim em face de terceiros. Isso porque a posse somente é viciada em relação a uma determinada pessoa (efeito inter partes), não tendo o vício efeitos contra todos, ou seja, erga omnes. 4.4. Quanto à Subjetividade CC/02, Art. 1.201. É de boa-fé a posse, se o possuidor ignora o vício ou o obstáculo que impede a aquisição da coisa. Parágrafo único. O possuidor com justo título tem por si a presunção de boa-fé, salvo prova em contrário, ou quando a lei expressamente não admite esta presunção. A boa-fé se projeta no mundo jurídico de duas formas, objetiva e subjetiva. A primeira está relacionada ao comportamento do sujeito, que deve respeitar um padrão de honestidade e probidade, por exemplo, nas relações jurídicas contratuais. A segunda está relacionada ao conhecimento ou não de algum vício, que possa impedir a aquisição de determinado direito. No contexto dos nossos estudos, o que nos interessa é a boa-fé subjetiva. Será considerado possuidor de boa- fé aquele que ignora o vício ou obstáculo que impeça a aquisição da coisa, aquele que tem convicção de não estar prejudicando ninguém. A contrário sensu, será de má-fé a posse daquele que souber da existência de vício que implique na ilegitimidade de ter a coisa consigo, mas mesmo assim pretenda exercer domínio fático sobre o bem. Quanto aos efeitos da posse, esta classificação é certamente a mais importante, determinando as regras referentes às benfeitorias, frutos, responsabilidade por danos e usucapião. Exemplificando, informa-nos o Código Civil que o possuidor de boa-fé tem direito à indenização das benfeitorias necessárias e úteis, aos frutos percebidos e só responde pelos danos que por sua culpa forem causados à coisa. 4.5. Quanto aos Efeitos Esta classificação está diretamente relacionada à origem da posse, fato que influencia na produção dos seus efeitos, especificamente se abrirá prazo para prescrição aquisitiva ou não. Nesses termos, a posse será ad interdicta quando decorrer de uma relação jurídica pessoal (obrigacional) ou de direito real, sendo por isso defensável através de ações possessórias caso seja ameaçada, turbada, esbulhada ou perdida. Contudo, por se tratar de uma posse ad interdicta (que se justifica em razão de obrigação ou direito real sobre coisa alheia) não é capaz de gerar usucapião. Assim é a posse do locatário, que nasce de um contrato e sendo justa o legitima a ajuizar ações possessórias em face de terceiros, e até mesmo em face do próprio locador, mas ao mesmo tempo, esse mesmo contrato é causa impeditiva da usucapião. Em sentido oposto, a posse pode ser classificada como ad usucapionem, quando não há um vínculo obrigacional ou de direito real existente entre possuidor e proprietário. Desse modo, se uma pessoa ocupa determinado terreno, sem autorização do proprietário, poderá usucapir o bem, caso a posse se mantenha mansa, pacífica, contínua e cumpra o prazo da prescrição aquisitiva. 4.6. Quanto à Idade A última classificação da posse é relevante por questões de natureza processual, pois dependendo da modalidade haverá a possibilidade ou não de um pleito liminar. A posse será “nova” até ano e dia do esbulho, período durante o qual, com fundamento no artigo 558 do Código de Processo Civil, será autorizada a propositura de ação possessória de força nova, cujo procedimento prevê uma tutela liminar de reintegração, a ser deferida em cognição sumária. Ultrapassado o prazo de ano e dia, a posse será classificada como velha, fato que obstará a concessão da referida liminar. Nas palavras de Maria Helena Diniz: “esse prazo é importante porque contra a posse nova pode o titular do direito lançar mão do desforço imediato (CC, art. 1.210, §1º) ou obter a reintegração liminar em ação própria (CPC, arts. 926 e ss.) ou, ainda, a concessão da tutela antecipada.” 5. EFEITOS DA POSSE As consequências jurídicas da posse, produzidas em virtude da lei, variam em conformidade com as suas espécies, cumprindo-nos indagar primeiro se a posse é justa ou injusta, de boa-fé ou má-fé, ad usucapionem ou ad interdicta, velha ou nova. Assim, dada a importância do tema, o legislador civilista separou um capítulo só para tratar dos efeitos da posse (CC, arts. 1.210 a 1.222), embora possamos encontrar mais alguns espalhados pelo Código Civil, bem como pelo Código de Processo Civil. De acordo com a doutrina de Clóvis Beviláqua, muito bem ajustada por Paulo Nader e Maria Helena Diniz, os efeitos da posse são classificados em dois grupos: (i) materiais; e (ii) processuais. Nesse sentido, são efeitos da posse: I – Efeitos materiais da posse – a) percepção dos frutos; b) indenização por benfeitorias e direito de retenção; c) responsabilidade pela perda ou deterioração da coisa; d) direito à usucapião. II – Efeitos processuais da posse – a) autotutela – legítima defesa da posse e desforço imediato; b) heterotutela – manutenção, reintegração e interdito proibitório. 5.1. Efeitos Materiais da Posse a. Direito aos Frutos CC/02, Art. 1.214. O possuidor de boa-fé tem direito, enquanto ela durar, aos frutos percebidos. Parágrafo único. Os frutos pendentes ao tempo em que cessar a boa-fé devem ser restituídos, depois de deduzidas as despesas da produção e custeio; devem ser também restituídos os frutos colhidos com antecipação. Os frutos classificam-se em naturais, industriais e civis. CC/02, Art. 1.215. Os frutos naturais e industriais reputam-se colhidos e percebidos, logo que são separados; os civis reputam-se percebidos dia por dia. CC/02, Art. 1.216. O possuidor de má-fé responde por todos os frutos colhidos e percebidos, bem como pelos que, por culpa sua, deixou de perceber, desde o momento em que se constituiu de má-fé; tem direito às despesas da produção e custeio. Simplificando a regra legal, o possuidor de boa-fé tem direito aos frutos percebidos, pois equipara-se a dono quando se encontra de fato com o bem. Assim, enquanto permanecer de boa-fé, poderá gozar da coisa, retirando suas vantagens. A regra geral do Código Civil é de que, ao transferir a posse direta do bem, o proprietário mostra-se desinteressado por aquilo que possa dele ser subtraído. Todavia, o possuidor de boa-fé não tem direito aos frutos que estiverem pendentes quando perder sua posse ou cessar a sua boa-fé, por serem acessórios e partes integrantes da coisa principal. Por sua vez, o possuidor de má-fé não faz jus aos frutos, de modo que deverá restituir aqueles que foram colhidos e percebidos, os que fraudulentamente foram retirados por antecipação, bem como os que, por sua culpa, deixou de perceber. Não obstante, como forma de se evitar o enriquecimento sem causa do proprietário, o possuidor de má-fé terá direito ao ressarcimento das despesas de produção e custeio. POSSUIDOR DE BOA-FÉ (1.214) → Tem direito aos frutos colhidos. → Não tem direito aos frutos pendentes ao tempo em que cessar a boa-fé. POSSUIDOR DE MÁ-FÉ (1.216) → Não tem direito aos frutos. Responde pelos frutos que colheu, bem como pelos que deixou de colher. → Tem direito às despesas com a produção e de custeio. b. Responsabilidade pela Perda ou Deterioração CC/02, Art. 1.217. O possuidor de boa-fé não responde pelaperda ou deterioração da coisa, a que não der causa. CC/02, Art. 1.218. O possuidor de má-fé responde pela perda, ou deterioração da coisa, ainda que acidentais, salvo se provar que de igual modo se teriam dado, estando ela na posse do reivindicante. Conforme a regra prevista nos artigos 238 e 239 do Código Civil (obrigação de restituir coisa certa), res perit domino (a coisa perece para o dono). Assim, fácil é compreender agora a regra do artigo 1.217, nos seguintes termos: “o possuidor de boa-fé não responde pela perda ou deterioração da coisa, a que não der causa”. O possuidor de boa-fé somente responderá pela perda ou deterioração do bem, quando culpado pela ocorrência, ou seja, tiver agido dolosamente, com imprudência, negligência ou imperícia (CC, art. 1.217). Por sua vez, o possuidor de má-fé responde pela perda, ou deterioração da coisa, ainda que acidentais, salvo se provar que de igual modo se teriam dado, estando ela na posse do reivindicante (CC, art. 1.218). No direito obrigacional temos regra semelhante, ao tipificar que o devedor da restituição, quando estiver em mora responde pela impossibilidade da prestação, ainda que resulte de caso fortuito ou de força maior, se estes ocorrerem durante o atraso, salvo se provar isenção de culpa, ou que o dano sobreviria ainda quando a obrigação fosse oportunamente desempenhada (CC, art. 399). O dispositivo obrigacional faz todo sentido, uma vez que, o devedor em mora (inadimplente) é aquele que deveria ter entregado/devolvido a coisa e não o fez, abusando da confiança do credor. Desse modo, a posse do devedor em mora é injusta (por precariedade) e é de má-fé, razão pela qual responde pelos riscos do caso fortuito e da força maior, em exceção à regra de que a coisa perece para o dono. Pelo exposto, concluímos então que a responsabilidade do possuidor de boa-fé é subjetiva, pois depende da comprovação de sua culpa (dolo, imprudência, negligência ou imperícia); enquanto a responsabilidade do possuidor de má-fé é objetiva, pois independe da comprovação de culpa. Sendo a responsabilidade objetiva, inverte-se o ônus da prova, para que o possuidor de má-fé tente demonstrar que o dano à coisa ocorreria mesmo que estivesse com o reivindicante. POSSUIDOR DE BOA-FÉ (1.217) → Responsabilidade SUBJETIVA (depende de culpa). → Só responde pelos danos que por culpa deu causa. POSSUIDOR DE MÁ-FÉ (1.218) → Responsabilidade OBJETIVA (independe de culpa). → Responde pelos danos, ainda que decorrentes de fato acidental. c. Benfeitorias e Direito de Retenção CC/02, Art. 1.219. O possuidor de boa-fé tem direito à indenização das benfeitorias necessárias e úteis, bem como, quanto às voluptuárias, se não lhe forem pagas, a levantá-las, quando o puder sem detrimento da coisa, e poderá exercer o direito de retenção pelo valor das benfeitorias necessárias e úteis. CC/02, Art. 1.220. Ao possuidor de má-fé serão ressarcidas somente as benfeitorias necessárias; não lhe assiste o direito de retenção pela importância destas, nem o de levantar as voluptuárias. CC/02, Art. 1.221. As benfeitorias compensam-se com os danos, e só obrigam ao ressarcimento se ao tempo da evicção ainda existirem. CC/02, Art. 1.222. O reivindicante, obrigado a indenizar as benfeitorias ao possuidor de má-fé, tem o direito de optar entre o seu valor atual e o seu custo; ao possuidor de boa-fé indenizará pelo valor atual. Entende-se por benfeitoria, toda obra realizada na estrutura da coisa com objetivo de conservá-la, melhorá-la ou embelezá-la, podendo ser de três espécies a depender da sua finalidade: i) Necessária (conservação – CC art. 96, § 3º); ii) Útil (melhoramento – CC art. 96, § 2º); iii) Voluptuária (embelezamento – CC art. 96, § 1º). Tratando-se de possuidor de boa-fé, no momento em que restituir a coisa, ele deverá ser indenizado pelo proprietário, no valor atual das benfeitorias necessárias e úteis (CC, art. 1.222), vez que elas valorizaram o bem. No que diz respeito às benfeitorias voluptuárias, é facultado ao possuidor levantá-las e levar consigo, quando for possível (sem detrimento do bem). Ademais, o legislador ainda confere ao possuidor de boa-fé o direito de retenção (jus retentionis), que é a autorização para manter o bem consigo, por tempo indeterminado, até que receba a justa indenização (CC, art. 1.219). Diversa será a regra quando tratar-se de possuidor de má-fé. Nesse caso, ele será indenizado apenas pelas benfeitorias necessárias, ficando a cargo do reivindicante da posse escolher entre pagar o valor atual e o valor do seu custo (CC, art. 1.222). As eventuais benfeitorias úteis e voluptuárias serão perdidas pelo possuidor de má-fé. Em qualquer situação, não lhe assistirá também o direito de retenção, devendo primeiro fazer a entrega do bem e posteriormente pleitear por alguma indenização (CC, art. 1.220). Complementarmente, importa-nos lembrar lições de direito das obrigações, especialmente destacando que os contratos de locação, arrendamento, comodato e outros similares, estabelecem ao possuidor direto uma obrigação de restituir coisa certa, sendo que o próprio artigo 242 do Código Civil prevê que em casos de melhoramento da coisa certa, tendo o devedor empregado trabalho ou dispêndio, o caso se regulará pelas normas do mesmo estatuto atinentes às benfeitorias. Outrossim, nunca é demais observar que enquanto viger o contrato o possuidor direto terá posse justa e de boa-fé, contudo, se não fizer a devolução no termo estipulado, a posse se converterá em injusta e de má-fé, dada a precariedade (abuso de confiança). Assim, as benfeitorias realizadas até o termo final (dies ad quem) seguirão a regra do artigo 1.219, enquanto as realizadas após a referida data seguirão a regra do artigo 1.220. Para concluir a análise deste efeito material, aprofundando o máximo possível do ponto de vista técnico, não poderíamos ignorar as normas especiais da lei de locações. Estabelece o artigo 35 da Lei 8.245/91 que, salvo expressa disposição contratual em contrário, as benfeitorias necessárias introduzidas pelo locatário, ainda que não autorizadas pelo locador, bem como as úteis, desde que autorizadas, serão indenizáveis e permitem o exercício do direito de retenção. Já as benfeitorias voluptuárias não serão indenizáveis, podendo ser levantadas pelo locatário, finda a locação, desde que sua retirada não afete a estrutura e a substância do imóvel. Assim, observemos a possibilidade da previsão de cláusula de renúncia, autorizada, inclusive, por súmula do STJ: “Súmula 335 – Nos contratos de locação, é válida a cláusula de renúncia à indenização das benfeitorias e ao direito de retenção.” Entretanto, em se tratando de contrato de adesão, será considerada abusiva a cláusula que abranger também as indenizações por benfeitorias necessárias, como pacificou interpretação a V Jornada de Direito Civil: “Enunciado n. 433 do CJF – A cláusula de renúncia antecipada ao direito de indenização e retenção por benfeitorias necessárias é nula em contrato de locação de imóvel urbano feito nos moldes do contrato de adesão”. POSSUIDOR DE BOA-FÉ (1.219) → Indenização pelas benfeitorias NECESSÁRIAS e ÚTEIS. → Levantamento das benfeitorias VOLUPTUÁRIAS. → Tem DIREITO DE RETENÇÃO. POSSUIDOR DE MÁ-FÉ (1.220) → Indenização só pelas benfeitorias NECESSÁRIAS. → Não tem direito de levantar as VOLUPTUÁRIAS. → Não tem DIREITO DE RETENÇÃO. 5.2. Efeitos Processuais da Posse CC/02, Art. 1.210. O possuidor tem direito a ser mantido na posse em caso de turbação, restituído no de esbulho, e segurado de violência iminente, se tiver justo receio de ser molestado. §1º O possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força, contanto que o faça logo; os atos de defesa ou de desforço, não podem ir além do indispensável à manutenção ou restituição da posse. §2º Não obsta à manutenção ou reintegração na posse a alegação de propriedade, ou de outro direito sobre a coisa.CC/02, Art. 1.211. Quando mais de uma pessoa se disser possuidora, manter-se-á provisoriamente a que tiver a coisa, se não estiver manifesto que a obteve de alguma das outras por modo vicioso. CC/02, Art. 1.212. O possuidor pode intentar a ação de esbulho, ou a de indenização, contra o terceiro, que recebeu a coisa esbulhada sabendo que o era. CC/02, Art. 1.213. O disposto nos artigos antecedentes não se aplica às servidões não aparentes, salvo quando os respectivos títulos provierem do possuidor do prédio serviente, ou daqueles de quem este o houve. a. Autotutela Possessória De acordo com as lições de introdução ao processo, regra geral, os conflitos de interesses devem ser solucionados a partir da atividade jurisdicional, exercida pelo Estado mediante provocação do interessado. Contudo, em face de algumas situações emergenciais, a própria lei autoriza o não acionamento do judiciário, reconhecendo legalidade à autotutela. Isso é o que ocorre no âmbito do direito das coisas, notadamente no que tange ao primeiro efeito processual da posse, chamado de legítima defesa, desforço imediato ou autodefesa da posse, direito que encontra previsão no §1º do artigo 1.210 do Código Civil: “o possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força, contanto que o faça logo; os atos de defesa, ou de desforço, não podem ir além do indispensável à manutenção, ou restituição da posse”. Conforme as lições do mestre Paulo Nader: Excepcionalmente, quando a via estatal não se revela em condições de atender à urgência do caso concreto, é cabível a autotutela. Na impossibilidade fática de se valer da proteção oficial, seja para conter injusta agressão a seu direito ou a de terceiros, seja para se opor a atos de turbação ou de esbulho, a pessoa pode reagir manu militari, moderadamente e com os meios necessários⁹. Por autorização legal, o possuidor turbado ou esbulhado poderá manter-se ou restituir-se na posse por força própria, desde que observe dois requisitos: i) reação incontinentí, ou seja, imediata (sem demora); ii) reação moderada, limitada aos meios estritamente necessários para a manutenção ou restituição da posse, ou seja, sem abuso de direito. Se o ato for realizado nesses termos, com fulcro no artigo 188 do Código Civil, não haverá configuração de ilícito, caso contrário, estará configurado o ato ilícito decorrente do abuso de direito (CC, art. 187). Do ponto de vista técnico, vale ainda ressaltar que existe diferença entre atos de defesa e desforço, termos que comumente são utilizados — erroneamente — como sinônimos. A expressão legítima defesa da posse deve ser empregada para os atos que visam afastar a turbação, enquanto desforço imediato é aquele voltado para a reação contra a perda da posse decorrente de esbulho, ou seja, situa-se quando já houve a perda da posse. Conforme lições de Flávio Tartuce: “nos casos em que a violência ou clandestinidade na posse não foi desfeita, cabe legítima defesa; havendo esbulho, a medida cabível é o desforço imediato, para a retomada do bem esbulhado”. Ademais, vale dizer que os atos de defesa ou desforço são pessoais e delegáveis, de modo que tanto o possuidor direto quanto o possuidor indireto têm legitimidade para realizá-los. Isso não significa que o possuidor não possa ser auxiliado por amigos ou serviçais, desde que a ação esteja sob sua organização e administração. Ressaltamos, ainda, conforme anotado anteriormente, que o detentor tem legitimidade para exercer a autodefesa da posse (CJF, enunciado 493). b. Heterotutela Possessória Quando a legítima defesa da posse ou desforço imediato não for possível, ou suficiente, eis que se fará indispensável a heterotutela, postulada através de uma das três ações a seguir: a) manutenção de posse; b) reintegração de posse; c) interdito proibitório. Importa-nos mais uma vez lembrar que esses atos são inerentes ao sujeito qualificado como possuidor, seja direto ou indireto, justo ou injusto, de modo que o mero detentor não é legitimado para intentá-los. Não podemos confundir as ações possessórias com as reivindicatórias ou petitórias, pois o êxito daquelas depende apenas da comprovação da posse como elemento autônomo, e do esbulho, turbação ou ameaça. Diferentemente, as outras ações mencionadas versam exclusivamente sobre o direito real de propriedade. Quando se discute a posse não é relevante a questão do domínio. Nesse contexto, especial atenção com o fato de que a ação de imissão na posse NÃO é possessória, mas sim petitória. MANUTENÇÃO DE POSSE → TURBAÇÃO – Ato que embaraça o livre exercício da posse. REINTEGRAÇÃO DE POSSE → ESBULHO – Ato pelo qual o possuidor se vê despojado da sua posse. INTERDITO PROIBITÓRIO → AMEAÇA ou JUSTO RECEIO de sofrer turbação ou esbulho. □ RESUMO NOÇÕES FUNDAMENTAIS DE POSSE, DETENÇÃO E PROPRIEDADE 1. Conceito de Posse Posse é o exercício aparente de algum dos poderes inerentes à propriedade, a saber: i) uso; ii) gozo; iii) disposição; iv) reivindicação. 2. Teorias da Posse Teoria Subjetiva (Savigny): Posse = Corpus + Animus Domini Teoria Objetiva (Ihering): Posse = Corpus 3. Detenção e Posse Detentor do Art. 1.198 (Fâmulo da Posse): Aquele que tem a coisa em seu poder numa relação de subordinação e dependência, recebendo instruções daquele que é o real possuidor. Detentor do Art. 1.208: Aquele que tem a coisa em seu poder por permissão ou tolerância, também aquele que adquiriu a coisa por violência ou clandestinidade (senão depois de cessadas). Detentor da Súmula 619 do STJ: Aquele que ocupa indevidamente bem público. 4. Classificação da Posse Quanto à extensão da garantia possessória: i) Possuidor Direto – Tem a coisa em seu poder, temporariamente, por direito pessoal ou real; ii) Possuidor Indireto – De quem a coisa foi havida. Quanto ao compartilhamento da posse: i) Compossuidores – Duas ou mais pessoas que têm os mesmos poderes sobre a coisa, podendo exercer a posse desde que não excluam o exercício umas das outras. Quanto à existência de vício: i) Possuidor Justo – Aquele cuja posse não é viciada; ii) Possuidor Injusto – Aquele cuja posse se origina de violência, clandestinidade ou precariedade. Quanto à subjetividade: i) Possuidor de Boa-Fé – Aquele que ignora o vício ou obstáculo que impede a aquisição da coisa; ii) Possuidor de Má-Fé – Aquele que tem ciência do vício ou obstáculo que impede a aquisição da coisa. Quanto aos efeitos: i) Posse Ad Interdicta – Aquela que decorre de uma relação obrigacional ou real, que impede a abertura do prazo de usucapião; ii) Posse Ad Usucapionem – Aquela exercida com animus domini e que abre prazo para usucapião. Quanto à idade: i) Posse Nova – Exercida até ano e dia; ii) Posse Velha – Exercida a mais de ano e dia. 5. Efeitos da Posse 5.1. Efeitos Materiais Frutos: i) Possuidor de Boa-Fé: Tem direito aos frutos colhidos enquanto durar a boa-fé; ii) Possuidor de Má-Fé: Responde pelos frutos colhidos, por aqueles que culposamente deixou de colher, mas faz jus às despesas de produção e custeio. Responsabilidade pela Perda ou Deterioração: i) Possuidor de Boa-Fé: Responde subjetivamente pelos danos, ou seja, só por aqueles que culposamente dê causa; ii) Possuidor de Má-Fé: Responde objetivamente pelos danos, ou seja, mesmo pelos danos acidentais. Benfeitorias e Direito de Retenção: i) Possuidor de Boa-Fé: Tem direito à indenização das benfeitorias necessárias e úteis (direito de retenção pela indenização), bem como quanto às voluptuárias, a levantar e levar consigo (se for possível); ii) Possuidor de Má-Fé: Só tem direito à indenização das benfeitorias necessárias. 5.2. Efeitos Processuais da Posse Autotutela possessória: O possuidor tem direito de reintegrar-se ou manter-se na posse por sua própria força, contanto que faça logo e sem exceder os limites do indispensável à manutenção ou restituição. Ações Possessórias: i) Reintegração de Posse: Esbulho; ii) Manutenção dePosse: Turbação; iii) Interdito Proibitório: Justo receio (ameaça). DIREITO AGRÁRIO AULA COMPLETA O PROCEDIMENTO DE DESAPROPRIAÇÃO EM TODAS AS SUAS MODALIDADES Reforma Agrária • Utilidade Pública • Interesse Social Necessidade Pública • Obras Públicas • Urbanística • Confiscatória. Material Didático para Graduação Professor. Bruno Ribeiro SUMÁRIO 1. Introdução e Fundamentos constitucionais 2. Conceito e Natureza Jurídica da Desapropriação 3. Modalidades de Desapropriação 3.1. Desapropriação por Necessidade Pública 3.2. Desapropriação por Utilidade Pública 3.3. Desapropriação por Interesse Social 3.4. Desapropriação para Reforma Agrária 3.5. Desapropriação Urbanística (Estatuto da Cidade) 3.6. Desapropriação Confiscatória (art. 243, CF) 3.7. Desapropriação Indireta 4. Quadro Comparativo das Modalidades 5. Procedimento Administrativo da Desapropriação 6. Procedimento Judicial da Desapropriação 7. O Procedimento Específico da Desapropriação para Reforma Agrária 8. Desapropriação para Obras Públicas – Aspectos Procedimentais 9. Indenização: Critérios e Controvérsias 10. Tresdestinação e Retrocessão 11. Jurisprudência Relevante 12. Exercícios Propostos 13. Referências Bibliográficas 1. INTRODUÇÃO E FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS A desapropriação constitui uma das mais relevantes formas de intervenção do Estado na propriedade privada. Trata-se de instituto jurídico pelo qual o Poder Público, mediante procedimento administrativo ou judicial e sob o fundamento de necessidade pública, utilidade pública ou interesse social, transfere compulsoriamente para si ou para terceiros a propriedade de determinado bem, pagando ao proprietário a devida indenização. No ordenamento jurídico brasileiro, a desapropriação encontra suas raízes mais profundas na Constituição Federal de 1988, que disciplina o instituto em diversos dispositivos, constituindo um sistema normativo complexo e multifacetado. 1.1. Dispositivos Constitucionais Fundamentais Art. 5º, XXIV, CF: “a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição.” Este é o dispositivo-matriz do instituto. Art. 182, §4º, III, CF: Prevê a desapropriação urbanística sancionatória, aplicável ao solo urbano não edificado, subutilizado ou não utilizado, com pagamento em títulos da dívida pública. Art. 184, CF: Trata da desapropriação para fins de reforma agrária, competência exclusiva da União, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária (TDA), com cláusula de preservação do valor real. Art. 185, CF: Estabelece as propriedades insuscetíveis de desapropriação para reforma agrária: a pequena e média propriedade rural (desde que o proprietário não possua outra) e a propriedade produtiva. Art. 243, CF: Prevê a desapropriação-confisco (ou expropriação) de propriedades rurais e urbanas utilizadas para cultivo de plantas psicotrópicas ou exploração de trabalho escravo, sem qualquer indenização ao proprietário. 1.2. Princípios Norteadores A desapropriação é regida por princípios fundamentais que orientam toda a atividade expropriante do Estado. O princípio da supremacia do interesse público sobre o privado justifica a própria existência do instituto. O princípio da legalidade impõe que o procedimento observe estritamente as formas prescritas em lei. O princípio da justa indenização assegura que o expropriado não sofra prejuízo patrimonial além do necessário. O devido processo legal garante ao proprietário o direito de ser ouvido e de contestar os valores oferecidos. 2. CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA DA DESAPROPRIAÇÃO A desapropriação pode ser definida como o procedimento de direito público pelo qual o Poder Público transfere para si a propriedade de terceiro, por razões de utilidade pública, necessidade pública ou interesse social, normalmente mediante o pagamento de justa e prévia indenização. 2.1. Natureza Jurídica A doutrina brasileira diverge quanto à natureza jurídica da desapropriação. Para a corrente majoritária, trata-se de forma originária de aquisição da propriedade. Isso significa que a transferência do bem ao patrimônio público não decorre de um negócio jurídico translativo, mas sim do próprio ato do poder estatal. Como consequência prática, eventuais ônus e gravames que incidiam sobre o bem desapropriado se sub-rogam no preço da indenização, não acompanhando o imóvel para o novo titular. “A desapropriação é forma originária de aquisição da propriedade, pois não provém de nenhum título anterior, sendo, portanto, irrelevante que o bem esteja gravado por ônus reais, pois estes se transferem para o preço.” – Hely Lopes Meirelles 2.2. Sujeitos da Desapropriação Sujeito ativo (expropriante): Entidades que podem promover a desapropriação. A competência para declarar a utilidade/necessidade pública ou o interesse social é da União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Contudo, a competência para executar a desapropriação pode ser delegada a autarquias, concessionárias e permissionárias de serviço público, conforme art. 3º do Decreto-lei nº 3.365/41. Sujeito passivo (expropriado): É o proprietário ou possuidor do bem objeto da desapropriação. Pode ser pessoa física, jurídica, de direito público ou privado. 2.3. Objeto da Desapropriação Podem ser desapropriados todos os bens dotados de valoração patrimonial: imóveis, móveis, semoventes, ações, quotas societárias, direitos, espaço aéreo e subsolo. Não podem ser desapropriados direitos personalíssimos, moeda corrente, pessoas, e bens de entidades federativas de nível superior por entidades de nível inferior (salvo autorização legislativa). 3. MODALIDADES DE DESAPROPRIAÇÃO O ordenamento jurídico brasileiro contempla diversas modalidades de desapropriação, cada uma com pressupostos, procedimentos e formas de indenização específicos. A sistematização dessas modalidades é essencial para a compreensão integral do instituto. 3.1. Desapropriação por Necessidade Pública A desapropriação por necessidade pública ocorre quando o Poder Público se encontra diante de situações de urgência que exigem a transferência imediata do bem particular para o domínio público. Diferencia-se da utilidade pública pelo caráter de urgência e imprescindibilidade. Fundamento legal: Art. 5º, XXIV, CF/88 e Decreto-lei nº 3.365/1941. Indenização: Prévia, justa e em dinheiro. Competência declaratória: União, Estados, DF e Municípios. Exemplos típicos: Situações emergenciais de defesa nacional, calamidades públicas, epidemias, casos em que a segurança pública ou a salubridade exigem providências imediatas. 3.2. Desapropriação por Utilidade Pública É a modalidade mais frequente na prática administrativa brasileira. Ocorre quando a transferência do bem ao patrimônio público é conveniente e vantajosa para o interesse coletivo, ainda que não seja imprescindível. Fundamento legal: Art. 5º, XXIV, CF/88 e Decreto-lei nº 3.365/1941 (Lei Geral de Desapropriação). Indenização: Prévia, justa e em dinheiro. O art. 5º do DL 3.365/41 elenca de forma exemplificativa os casos de utilidade pública, entre os quais: segurança nacional, defesa do Estado, socorro público em calamidades, salubridade pública, criação e melhoramento de centros de população, aproveitamento industrial de águas e energia, abertura, conservação e melhoramento de vias públicas, construção ou ampliação de edifícios públicos, entre outros. Art. 5º, DL 3.365/41: Consideram-se casos de utilidade pública: a) a segurança nacional; b) a defesa do Estado, [...] i) a abertura, conservação e melhoramento de vias ou logradouros públicos [...] 3.3. Desapropriação por Interesse Social Destina-se a promovera justa distribuição da propriedade ou condicionar seu uso ao bem-estar social. É disciplinada pela Lei nº 4.132/1962, que define os casos de desapropriação por interesse social. Fundamento legal: Art. 5º, XXIV, CF/88 e Lei nº 4.132/1962. Indenização: Prévia, justa e em dinheiro (regra geral). Os casos de interesse social previstos na Lei 4.132/62 incluem: aproveitamento de todo bem improdutivo ou explorado sem correspondência com as necessidades de habitação, trabalho e consumo dos centros de população; estabelecimento e manutenção de colônias ou cooperativas de povoamento e trabalho agrícola; manutenção de posseiros em terrenos urbanos; construção de casas populares; proteção do solo e preservação de cursos e mananciais de água. 3.4. Desapropriação para Reforma Agrária Esta é a modalidade mais relevante para o Direito Agrário. Trata-se de desapropriação de natureza sancionatória, dirigida ao imóvel rural que não cumpre sua função social, nos termos dos artigos 184 a 191 da Constituição Federal. Fundamento legal: Arts. 184 a 191 da CF/88; Lei nº 8.629/1993 (Lei da Reforma Agrária); Lei Complementar nº 76/1993 (Procedimento); Lei Complementar nº 88/1996; Estatuto da Terra (Lei nº 4.504/1964). Competência exclusiva: União Federal, por meio do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Objeto: Exclusivamente imóvel rural que não cumpra sua função social. Indenização: Prévia e justa, paga em Títulos da Dívida Agrária (TDA), resgatáveis em até 20 anos, a partir do segundo ano de emissão. As benfeitorias úteis e necessárias são indenizadas em dinheiro. 3.4.1. Função Social do Imóvel Rural (art. 186, CF) A propriedade rural cumpre sua função social quando atende, simultaneamente, aos seguintes requisitos: aproveitamento racional e adequado; utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente; observância das disposições que regulam as relações de trabalho; exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores. 3.4.2. Imóveis Insuscetíveis de Desapropriação para Reforma Agrária (art. 185, CF) A Constituição Federal protege de forma expressa duas categorias de imóveis contra a desapropriação para reforma agrária: a pequena e média propriedade rural, desde que o proprietário não possua outra; e a propriedade produtiva. A propriedade produtiva é definida pela Lei nº 8.629/93 como aquela que atinge graus de utilização da terra (GUT) e de eficiência na exploração (GEE) iguais ou superiores aos fixados pelo INCRA. Art. 6º, Lei 8.629/93: Considera-se propriedade produtiva aquela que, explorada econômica e racionalmente, atinge, simultaneamente, graus de utilização da terra e de eficiência na exploração, segundo índices fixados pelo órgão federal competente. 3.5. Desapropriação Urbanística (Estatuto da Cidade) Prevista no art. 182, §4º, III, da CF/88 e regulamentada pela Lei nº 10.257/2001 (Estatuto da Cidade), esta modalidade tem caráter sancionatório e é aplicável ao proprietário de solo urbano não edificado, subutilizado ou não utilizado que não promoveu seu adequado aproveitamento nos termos do plano diretor municipal. Competência: Exclusiva do Município. Indenização: Em títulos da dívida pública de emissão previamente aprovada pelo Senado Federal, resgatáveis em até 10 anos, em parcelas anuais, iguais e sucessivas. Requisito prévio obrigatório: O proprietário deve ter sido notificado para parcelar, edificar ou utilizar o imóvel (art. 5º, EC), e após o descumprimento, ter sido submetido ao IPTU progressivo no tempo por 5 anos consecutivos (art. 7º, EC). 3.6. Desapropriação Confiscatória (art. 243, CF) Também chamada de expropriação, é a modalidade mais severa de desapropriação prevista no ordenamento brasileiro. Não há qualquer indenização ao proprietário. Fundamento legal: Art. 243, CF/88 e Lei nº 8.257/1991. Hipóteses de cabimento: Propriedades rurais e urbanas onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou exploração de trabalho escravo (redação dada pela EC nº 81/2014). Indenização: INEXISTENTE. Não há pagamento de qualquer valor ao proprietário. Destinação: Os bens expropriados serão destinados à reforma agrária e a programas de habitação popular. Os bens apreendidos em decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes serão confiscados e reverterão a fundo especial com destinação específica. 3.7. Desapropriação Indireta A desapropriação indireta ocorre quando o Poder Público se apossa de um bem particular sem observar o devido procedimento legal expropriatório. Trata-se, em essência, de um esbulho praticado pelo Estado, um apossamento administrativo irregular. Natureza: É um fato administrativo, não um ato jurídico. Caracteriza-se pela ocupação de fato do bem pelo Poder Público, sem decreto expropriatório e sem acordo ou processo judicial. Ação cabível: O proprietário deve ajuizar ação de desapropriação indireta (natureza real), pleiteando indenização. O prazo prescricional, segundo o STJ, é de 10 anos (art. 1.238, parágrafo único, CC). Súmula 119, STJ: A ação de desapropriação indireta prescreve em vinte anos. (Nota: entendimento superado – o STJ tem aplicado o prazo de 10 anos com base no CC/2002.) 4. QUADRO COMPARATIVO DAS MODALIDADES O quadro a seguir sintetiza as principais características de cada modalidade de desapropriação: Modalidade Fundamento Competência Indenização Objeto Legislação Necessidade Pública Art. 5º, XXIV, CF U, E, DF, M Prévia, justa, em dinheiro Qualquer bem DL 3.365/41 Utilidade Pública Art. 5º, XXIV, CF U, E, DF, M Prévia, justa, em dinheiro Qualquer bem DL 3.365/41 Interesse Social Art. 5º, XXIV, CF U, E, DF, M Prévia, justa, em dinheiro Qualquer bem Lei 4.132/62 Reforma Agrária Art. 184, CF Somente União (INCRA) TDA (terra) + dinheiro (benfeitorias) Imóvel rural improdutivo LC 76/93; Lei 8.629/93 Urbanística Art. 182, §4º, CF Somente Município Títulos da dívida pública (até 10 anos) Solo urbano subutilizado Lei 10.257/01 Confiscatória Art. 243, CF União SEM indenização Imóvel com cultivo ilícito ou trab. escravo Lei 8.257/91 5. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO DA DESAPROPRIAÇÃO O procedimento de desapropriação compreende duas fases distintas: a fase declaratória (administrativa) e a fase executória (que pode ser administrativa ou judicial). A fase administrativa é comum a todas as modalidades ordinárias de desapropriação. 5.1. Fase Declaratória A fase declaratória tem início com a edição do decreto expropriatório (ou declaração de utilidade pública, necessidade pública ou interesse social) pelo Chefe do Poder Executivo competente. O decreto deve indicar o bem a ser desapropriado, o fundamento legal, a destinação pretendida e os recursos orçamentários disponíveis. 5.1.1. Efeitos do Decreto Expropriatório A publicação do decreto produz os seguintes efeitos: permite o ingresso de autoridades administrativas no imóvel para proceder a avaliações e medições; fixa o estado do bem para fins de indenização (evitando que o proprietário realize benfeitorias com o intuito de aumentar o valor indenizatório); submete o bem à força expropriatória do Estado; e inicia a contagem do prazo de caducidade. 5.1.2. Prazo de Caducidade do Decreto O decreto expropriatório tem prazo de validade. Nos casos de utilidade pública, o prazo é de 5 anos (art. 10, DL 3.365/41), após os quais caduca, somente podendo ser renovado após 1 ano. Nos casos de interesse social (Lei 4.132/62), o prazo é de 2 anos. Decorrido o prazo sem que tenha sido efetivada a desapropriação, o decreto perde sua eficácia. 5.2. Fase Executória Administrativa (Acordo) Após a declaração, o Poder Público deve tentar a via amigável, buscando acordo com o proprietário quanto ao valor da indenização. Se houver acordo, lavra-se escritura pública de compra e venda (ou termo administrativo), com a transferência do bem ao patrimôniopúblico. A fase amigável é preferível por ser mais célere e menos onerosa. Contudo, o expropriado não é obrigado a aceitar o valor oferecido pelo Poder Público. Se não houver acordo, inicia-se a fase judicial. 6. PROCEDIMENTO JUDICIAL DA DESAPROPRIAÇÃO Não havendo acordo na fase administrativa, o Poder Público ajuíza a ação de desapropriação perante o juízo competente. O procedimento judicial segue o rito especial previsto no Decreto- lei nº 3.365/1941, com aplicação subsidiária do Código de Processo Civil. 6.1. Petição Inicial A petição inicial deve conter: a oferta do preço estimado pelo Poder Público, a identificação e descrição do bem, a cópia do decreto expropriatório, a planta ou croqui de localização, a comprovação dos recursos orçamentários, e o pedido de imissão provisória na posse, se for o caso. 6.2. Imissão Provisória na Posse Nos termos do art. 15 do DL 3.365/41, o juiz pode autorizar a imissão provisória na posse do bem, desde que o expropriante declare urgência e deposite em juízo o valor arbitrado. Essa medida é fundamental quando a obra pública não pode aguardar o trâmite completo da ação. Art. 15, DL 3.365/41: Se o expropriante alegar urgência e depositar quantia arbitrada de conformidade com o art. 685 do Código de Processo Civil, o juiz mandará imití-lo provisoriamente na posse dos bens. 6.3. Contestação O expropriado é citado para contestar a ação. Contudo, nos termos do art. 20 do DL 3.365/41, a contestação somente pode versar sobre vício do processo judicial ou a impugnação do preço oferecido. Questões relativas à validade do decreto expropriatório ou à existência de utilidade pública devem ser discutidas em ação autônoma (mandado de segurança ou ação anulatória). Art. 20, DL 3.365/41: A contestação só poderá versar sobre vício do processo judicial ou impugnação do preço, qualquer outra questão deverá ser decidida por ação direta. 6.4. Perícia e Avaliação A prova pericial é o elemento central da ação de desapropriação. O juiz nomeia perito para avaliar o bem, levando em consideração o valor de mercado, a localização, o estado de conservação, as benfeitorias existentes e demais fatores relevantes. As partes podem indicar assistentes técnicos e apresentar quesitos. 6.5. Sentença e Efeitos A sentença fixará o valor da justa indenização. Se o valor fixado for superior ao depositado, o expropriante deverá complementar o depósito. A sentença produz a transferência do domínio do bem ao Poder Público, desde que efetuado o pagamento integral. Os juros compensatórios (12% ao ano, conforme Súmula 618, STF) são devidos desde a imissão provisória na posse, e os juros moratórios (6% ao ano) são devidos a partir do trânsito em julgado. 7. O PROCEDIMENTO ESPECÍFICO DA DESAPROPRIAÇÃO PARA REFORMA AGRÁRIA O procedimento de desapropriação para fins de reforma agrária possui rito próprio, previsto na Lei Complementar nº 76/1993, com as alterações da LC nº 88/1996. Trata-se de procedimento especial, de natureza sumária, com características distintas da desapropriação ordinária. 7.1. Fase Preparatória – Vistoria e Avaliação O procedimento tem início com a notificação prévia do proprietário pelo INCRA, informando sobre a realização de vistoria no imóvel rural. O INCRA realiza a vistoria para verificar o cumprimento da função social da propriedade, apurando os graus de utilização da terra (GUT) e de eficiência na exploração (GEE). Caso o imóvel seja classificado como improdutivo e não cumpridor da função social, o INCRA elabora laudo agronômico de fiscalização e encaminha o processo ao Presidente da República para edição do decreto declaratório. 7.2. Decreto Presidencial O Presidente da República edita decreto declarando o imóvel de interesse social para fins de reforma agrária. Este decreto é de competência privativa e indelegável. Após a publicação, o INCRA tem o prazo de 2 anos para propor a ação judicial de desapropriação (prazo de caducidade). 7.3. Ação Judicial de Desapropriação (LC 76/93) 7.3.1. Petição Inicial A ação é proposta pelo INCRA perante a Justiça Federal da Seção Judiciária onde se situa o imóvel. A petição inicial deve ser instruída com: o decreto declaratório; certidões imobiliárias atualizadas; documento cadastral do imóvel; laudo de vistoria e avaliação administrativa; comprovante de lançamento dos TDAs; e o comprovante de depósito em dinheiro do valor das benfeitorias úteis e necessárias. 7.3.2. Imissão na Posse Nos termos do art. 6º da LC 76/93, o juiz, ao despachar a petição inicial, já determinará a imissão do INCRA na posse do imóvel, desde que comprovado o depósito do valor da terra em TDAs e das benfeitorias em dinheiro. A imissão na posse é obrigatória e imediata, não sendo condicionada à citação do réu. Art. 6º, LC 76/93: O juiz, ao despachar a petição inicial, de plano ou no prazo máximo de quarenta e oito horas, mandará imitir o autor na posse do imóvel. 7.3.3. Citação e Contestação O expropriado é citado para contestar no prazo de 15 dias. A contestação, assim como na desapropriação ordinária, deve se limitar à questão do valor da indenização e eventuais vícios processuais. Eventuais questões sobre a produtividade do imóvel ou a nulidade do decreto devem ser arguidas em mandado de segurança perante o STF ou em ação declaratória na Justiça Federal. 7.3.4. Audiência de Conciliação A LC 76/93, em seu art. 6º, §3º, prevê a realização de audiência de conciliação, na qual o juiz buscará o acordo entre as partes quanto ao valor da indenização. 7.3.5. Perícia Judicial Não havendo conciliação, procede-se à perícia judicial para determinação do valor justo da indenização. O perito deve considerar o valor da terra nua e das benfeitorias separadamente, pois possuem formas distintas de pagamento (terra em TDA, benfeitorias em dinheiro). 7.3.6. Sentença A sentença fixará o valor da indenização, determinando a expedição dos TDAs complementares (se o valor fixado for superior ao depositado) e mandado translativo de domínio. A transferência dominial se opera com o registro da sentença no Cartório de Registro de Imóveis competente. 7.4. Assentamento Após a transferência do domínio, o INCRA procede à criação do projeto de assentamento, selecionando os beneficiários conforme os critérios legais (trabalhadores rurais sem-terra, posseiros, etc.) e promovendo a distribuição dos lotes, com a concessão de títulos de domínio ou de concessão de uso. 8. DESAPROPRIAÇÃO PARA OBRAS PÚBLICAS – ASPECTOS PROCEDIMENTAIS A desapropriação para execução de obras públicas constitui uma das aplicações mais frequentes do instituto, sendo instrumento indispensável para a implementação de projetos de infraestrutura como rodovias, ferrovias, aeroportos, barragens, hospitais, escolas e demais equipamentos públicos. 8.1. Enquadramento Legal A desapropriação para obras públicas se enquadra na modalidade de utilidade pública (DL 3.365/41), sendo o art. 5º, alíneas “i” a “p”, o fundamento mais utilizado. A competência para declarar a utilidade pública é do Chefe do Executivo (Presidente, Governador ou Prefeito), dependendo da esfera federativa responsável pela obra. 8.2. Procedimento O procedimento segue o rito geral do DL 3.365/41, com as seguintes particularidades: Declaração de Utilidade Pública: Decreto do Chefe do Executivo identificando os imóveis necessários à obra, com base em estudos técnicos de engenharia e impacto ambiental. Urgência e Imissão Provisória: É comum a alegação de urgência para obtenção da imissão provisória na posse (art. 15, DL 3.365/41), especialmente quando os cronogramas de obras exigem início imediato dos trabalhos. Desapropriação por Zona: O art. 4º do DL 3.365/41 permite a desapropriação por zona, abrangendo área contígua necessária ao desenvolvimento da obra, bem como áreas que serão extraordinariamente valorizadas em consequência da obra. Neste caso, o poder público pode revender as áreas remanescentes após a conclusãoda obra. 8.3. Delegação para Concessionárias A execução da desapropriação para obras de infraestrutura pode ser delegada a concessionárias e permissionárias de serviço público, nos termos do art. 3º do DL 3.365/41 e da Lei nº 8.987/1995 (Lei de Concessões). Neste caso, a concessionária promove a desapropriação em nome próprio, arcando com os custos indenizatórios, mas a declaração de utilidade pública permanece como competência do Poder Público. 9. INDENIZAÇÃO: CRITÉRIOS E CONTROVÉRSIAS A indenização é o elemento central de qualquer desapropriação (salvo a confiscatória). A Constituição exige que seja justa, prévia e, como regra, em dinheiro. A determinação do valor justo é, frequentemente, o ponto de maior controvérsia nas ações expropriatórias. 9.1. Componentes da Indenização A justa indenização deve abranger: o valor do bem expropriado (terra nua, no caso de imóveis rurais); as benfeitorias úteis e necessárias; os lucros cessantes e danos emergentes comprovados; os juros compensatórios (12% ao ano, desde a imissão na posse); os juros moratórios (6% ao ano, a partir do trânsito em julgado); os honorários advocatícios; a correção monetária. 9.2. Jurisprudência sobre Juros Súmula 618, STF: Na desapropriação, direta ou indireta, a taxa dos juros compensatórios é de 12% ao ano. Súmula 69, STJ: Na desapropriação direta, os juros compensatórios são devidos desde a antecipada imissão na posse e, na desapropriação indireta, a partir da efetiva ocupação do imóvel. Súmula 114, STJ: Os juros compensatórios, na desapropriação indireta, incidem a partir da ocupação, calculados sobre o valor da indenização, corrigido monetariamente. 9.3. Pagamento na Desapropriação para Reforma Agrária Na desapropriação para reforma agrária, o pagamento se desdobra em dois componentes: o valor da terra nua é pago em Títulos da Dívida Agrária (TDA), com prazo de resgate de até 20 anos; o valor das benfeitorias úteis e necessárias é pago em dinheiro, previamente à imissão na posse. As benfeitorias voluptuárias não são indenizáveis. 10. TREDESTINAÇÃO E RETROCESSÃO 10.1. Tresdestinação Tresdestinação é o desvio de finalidade do bem desapropriado, ou seja, quando o Poder Público confere ao bem destinação diversa daquela declarada no decreto expropriatório. Tresdestinação lícita: ocorre quando o bem é destinado a finalidade pública diversa da originalmente prevista, mas que igualmente atende ao interesse público. Exemplo: desapropria- se para construir escola, mas constrói-se um hospital. É aceita pela jurisprudência. Tresdestinação ilícita: ocorre quando o bem é destinado a finalidade particular, sem qualquer interesse público. Neste caso, nasce para o ex-proprietário o direito de retrocessão. 10.2. Retrocessão A retrocessão é o direito do ex-proprietário de reaver o bem desapropriado quando este não é utilizado para a finalidade pública que motivou a desapropriação. A natureza jurídica da retrocessão é controversa: para parte da doutrina, trata-se de direito real (possibilitando a restituição do bem); para outra corrente, trata-se de direito pessoal (gerando apenas perdas e danos). Art. 519, CC/2002: Se a coisa expropriada para fins de necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, não tiver o destino para que se desapropriou, ou não for utilizada em obras ou serviços públicos, caberá ao expropriado direito de preferência, pelo preço atual da coisa. 11. JURISPRUDÊNCIA RELEVANTE A jurisprudência dos Tribunais Superiores tem papel fundamental na interpretação e aplicação das normas sobre desapropriação. Seguem os principais enunciados sumulares e precedentes: 11.1. Súmulas do STF Súmula 157: É necessária prévia autorização do Presidente da República para desapropriação, pelos Estados, de empresa de energia elétrica. Súmula 164: No processo de desapropriação, são devidos juros compensatórios desde a antecipada imissão na posse. Súmula 345: Na chamada desapropriação indireta, os juros compensatórios são devidos a partir da perícia, desde que nesta tenha sido fixado o valor da indenização. Súmula 618: Na desapropriação, direta ou indireta, a taxa dos juros compensatórios é de 12% ao ano. 11.2. Súmulas do STJ Súmula 12: Em desapropriação, são cumuláveis juros compensatórios e moratórios. Súmula 56: Na desapropriação para instituir servidão administrativa são devidos os juros compensatórios pela limitação de uso da propriedade. Súmula 69: Na desapropriação direta, os juros compensatórios são devidos desde a antecipada imissão na posse. Súmula 354: A invasão do imóvel é causa de suspensão do processo expropriatório para fins de reforma agrária. Súmula 408: Nas ações de desapropriação, os honorários advocatícios são calculados sobre a diferença entre a indenização fixada em sentença e o valor ofertado na inicial, corrigidos monetariamente. 12. EXERCÍCIOS PROPOSTOS Questão 1 – Discursiva Diferencie, com fundamento constitucional e legal, a desapropriação por utilidade pública da desapropriação para fins de reforma agrária, abordando: (a) competência para declarar e executar; (b) forma de indenização; (c) objeto; (d) procedimento aplicável. Questão 2 – Caso Prático O Município de Serra Azul pretende desapropriar um terreno urbano não edificado para construção de uma escola pública. O terreno está localizado em área prevista no Plano Diretor para equipamentos públicos. Indaga-se: (a) Qual a modalidade de desapropriação aplicável? (b) É necessário o esgotamento das medidas previstas no art. 182, §4º, CF, antes da desapropriação? (c) Qual a forma de indenização? Fundamente. Questão 3 – Objetiva Assinale a alternativa INCORRETA sobre a desapropriação para reforma agrária: (A) É de competência exclusiva da União Federal. (B) A indenização é paga integralmente em Títulos da Dívida Agrária. (C) A propriedade produtiva é insuscetível de desapropriação para reforma agrária. (D) O procedimento judicial é disciplinado pela Lei Complementar nº 76/1993. (E) O decreto expropriatório é de competência privativa do Presidente da República. Gabarito: Alternativa B. A indenização não é integralmente em TDA: as benfeitorias úteis e necessárias são indenizadas em dinheiro (art. 184, §1º, CF). Questão 4 – Discursiva Disserte sobre a desapropriação confiscatória prevista no art. 243 da CF/88, após a EC 81/2014, abordando: (a) hipóteses de cabimento; (b) questão indenizatória; (c) destinação do bem; (d) possibilidade de defesa do proprietário. 13. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. BRASIL. Decreto-lei nº 3.365, de 21 de junho de 1941 – Lei Geral de Desapropriação. BRASIL. Lei nº 4.132, de 10 de setembro de 1962 – Define os casos de desapropriação por interesse social. BRASIL. Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964 – Estatuto da Terra. BRASIL. Lei nº 8.257, de 26 de novembro de 1991 – Expropriação de glebas utilizadas para cultivo ilegal de plantas psicotrópicas. BRASIL. Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993 – Regulamentação da Reforma Agrária. BRASIL. Lei Complementar nº 76, de 6 de julho de 1993 – Procedimento da desapropriação para reforma agrária. BRASIL. Lei Complementar nº 88, de 23 de dezembro de 1996 – Altera a LC 76/93. BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001 – Estatuto da Cidade. DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 36. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2023. MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 44. ed. São Paulo: Malheiros, 2023. CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. 37. ed. São Paulo: Atlas, 2023. BORGES, Paulo Torminn. Institutos Básicos do Direito Agrário. 12. ed. São Paulo: Saraiva, 2005. MARQUES, Benedito Ferreira. Direito Agrário Brasileiro. 12. ed. São Paulo: Atlas, 2016. OPITZ, Silvia C. B.; OPITZ, Oswaldo. Curso Completo de Direito Agrário. 11. ed. São