Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

CAPÍTULO 1 
NOÇÕES FUNDAMENTAIS 
DE POSSE, DETENÇÃO 
E PROPRIEDADE 
RECADO 
Caro(a) leitor(a), 
O Direito Agrário é uma disciplina indiscutivelmente autônoma, o que ficará demonstrado no próximo 
capítulo. Não obstante, é certo que dialoga com outras disciplinas, tanto de Direito Público como de Direito 
Privado, sendo marcante a influência do Direito Civil, primordialmente do Direito das Coisas. 
Ora, como poderemos observar, o objeto do Direito Agrário é a Atividade Agrária, que se desenvolve num 
Imóvel Rural, onde cotidianamente são deflagrados conflitos das mais diversas naturezas, por exemplo, 
envolvendo contratos agrários, usucapião, reforma agrária e regularização fundiária. Por esse motivo, 
entendemos (a partir da terceira edição) não ser possível fazer um bom estudo de Direito Agrário, sem antes 
termos bem fundamentados os conceitos de posse, detenção e propriedade. 
Boa leitura! 
1. CONCEITO DE POSSE 
Um dos primeiros desafios do Direito das Coisas, neste caso aplicado ao Direito Agrário, é conceituar posse. 
Uma tarefa que não é tão fácil, uma vez que comumente o termo é utilizado de forma inapropriada, em 
certas situações até mesmo como sinônimo de propriedade. Definitivamente, posse não se confunde com 
propriedade, embora estejam intimamente relacionadas, inclusive nos seus conceitos. A posse é o exercício 
aparente de uma das faculdades ou poderes inerentes ao direito de propriedade (CC, art. 1.196). E quais são 
estes poderes? São os de usar; gozar (fruir); dispor; e reivindicar a coisa daquele que injustamente a detenha 
(CC, art. 1.228). 
CC/02, Art. 1.196. Considera-se possuidor todo aquele que tem de fato exercício, pleno ou não, de algum 
dos poderes inerentes à propriedade. 
CC/02, Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do 
poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha. 
Observe, portanto, que o conceito de posse se conecta naturalmente ao conceito de propriedade, sendo até 
possível afirmar que aquela é a aparência desta. Alguns doutrinadores lecionam que a propriedade encontra-
se no plano da legalidade, da certeza, pois necessita ser comprovada (por documentação, por exemplo), 
enquanto a posse está no plano da aparência. Se não tenho a certeza da propriedade, não posso afirmá-la, 
mas o exercício de algum dos seus atributos me permite constatar a posse. 
Nas palavras de Paulo Nader: “(...) A posse se substancializa no exercício de algum dos poderes conferidos 
pelos direitos reais. E quais são esses poderes? São os de uso, gozo, disposição e de reaver a coisa de quem 
injustamente a possua”. 
Todavia, o ilustre professor completa ensinando que o exercício em si não é o que determina a posse, mas 
sim o poder que o indivíduo tem sobre a coisa, que o possibilita exercer um dos atributos. 
 
 
POSSE 
Conceito → Exercício aparente de algum dos poderes inerentes à propriedade. 
ATRIBUTOS DA PROPRIEDADE 
GRUD → Gozar; Reaver; Usar e Dispor. 
2. TEORIAS DA POSSE 
A tarefa de conceituar a posse nunca foi simples. Ao longo da história várias escolas de direito expuseram 
suas teorias, objetivando delimitar e desenvolver o instituto, mas duas delas se destacaram e acabaram se 
tornando clássicas nesse estudo. São elas: 
2.1. Teoria Subjetiva 
Ao conceituar a posse, Friedrich Karl Von Savigny formulou uma teoria que valoriza um elemento 
psicológico, ou seja, o ânimo do indivíduo de ter a coisa como se fosse sua. Nesses termos, seria 
considerado possuidor aquele que tivesse a possibilidade de dispor fisicamente de uma coisa, com a intenção 
de tê-la como própria e de defendê-la contra outros que tentassem possuí-la injustamente. 
Savigny explica que existem dois elementos constitutivos da posse, a saber: (i) o corpus (elemento material), 
que é o poder físico sobre a coisa, ou seja, a detenção do bem; e (ii) o animus domini (elemento 
psicológico), que é a intenção de ser dono. Se o indivíduo tem o corpus sem o animus domini, ele não é 
possuidor, mas mero detentor. Por outro lado, se houver apenas o animus sem o corpus, configura-se apenas 
um estado psicológico, irrelevante para o direito. 
Ihering, discordando dessa posição, apresentou uma teoria diversa, mas antes a resumiu com fórmulas 
algébricas. 
• D (DETENÇÃO) = C (corpus) + A (animus tenendi). 
• P (POSSE) = C (corpus) + A1 (animus tenendi) + A2 (animus domini). 
Embora tenha recebido adesão de muitos doutrinadores da época, essa teoria foi se tornando obsoleta, 
principalmente porque, segundo essa concepção, não seriam considerados possuidores, mas apenas 
detentores da coisa (por lhes faltar o animus domini), sujeitos como: o locatário, o comodatário, o 
depositário, o mandatário etc. 
Ensina-nos Maria Helena Diniz que “pela teoria subjetiva é inadmissível a posse por outrem, porque não 
podemos ter, para terceiro, a coisa com o desejo de que seja nossa, pois se não há vontade de ter a coisa 
como própria, haverá apenas detenção”. 
2.2. Teoria Objetiva 
Em oposição à teoria subjetiva, surgiu a teoria objetiva, elaborada por Rudolf Von Ihering, amplamente 
reconhecida por afastar o elemento psicológico, o animus domini, como critério caracterizador da posse. 
Para essa escola a posse é configurada pela simples visualização, exteriorização ou exercício de algum dos 
atributos/direitos inerentes à propriedade, ainda que o sujeito não tenha a intenção de ser dono da coisa. 
Em regra, o proprietário também é possuidor do bem, pois a posse é inerente ao domínio (jus possidendi). 
Entretanto, o poder de direito (domínio) e o poder de fato (posse) podem ser separados quando o proprietário 
transfere voluntariamente a posse – onerosa ou gratuitamente – ou quando essa lhe é retirada. No primeiro 
caso teremos a posse justa (possessio justa), no segundo caso a posse injusta (possessio iniusta). 
Leciona Flávio Tartuce: 
Na verdade, mesmo sendo exteriorização da propriedade, o que também comprova a sua função social, a 
posse com ela não se confunde. É cediço que determinada pessoa pode ter a posse sem ser proprietária do 
bem, uma vez que ser proprietário é ter o domínio pleno da coisa. A posse pode significar apenas ter a 
disposição da coisa, utilizar-se dela ou tirar dela os frutos com fins socioeconômicos³. 
Nacionalmente, tanto o Código Beviláqua quanto o Código Reale consagraram a teoria de Ihering, ainda que 
apresente algumas nuanças da teoria subjetiva. 
3. DETENÇÃO E POSSE 
Conforme explicado no tópico anterior, posse não se confunde com propriedade. Além disso, posse também 
não se confunde com detenção. Objetivamente, a detenção é a disponibilidade da coisa em nome de outrem, 
seja porque existe uma relação de subordinação entre detentor e possuidor, ou porque aquele está incumbido 
de conservar a coisa sob as instruções deste. Em ambos os casos, regra geral, existe uma relação de trabalho 
entre detentor e possuidor. 
Ensina-nos Paulo Nader que “o detentor não se encontra na posse, apenas conserva a coisa em seu poder e 
em nome de outrem, do possuidor, sendo, por isso, considerado fâmulo da posse, gestor da posse, detentor 
da posse, ou servidor da posse. 
Semelhantemente, Maria Helena Diniz leciona que “o ‘fâmulo da posse’ é aquele que, em virtude de sua 
situação de dependência econômica ou de um vínculo de subordinação em relação a uma outra pessoa 
(possuidor direto ou indireto), exerce sobre o bem não uma posse própria, mas a posse desta última e em 
nome desta, em obediência a uma ordem ou instrução” 
O Código Civil brasileiro prevê algumas situações de detenção, tais como a descrita no artigo 1.198, que 
estipula: “Considera-se detentor aquele que, achando-se em relação de dependência para com outro, 
conserva a posse em nome deste e em cumprimento de ordens ou instruções suas”. Com base nisso, temos 
que motoristas, empregados domésticos, caseiros, administradores, bibliotecários entre outros, não são 
possuidores, mas sim detentores de bens. 
A doutrina é pacífica no sentido de que a detençãoPaulo: 
Saraiva, 2017. 
OLIVEIRA, Umberto Machado de. Princípios de Direito Agrário na Constituição Vigente. 
Curitiba: Juruá, 2004. 
 
 
 
 
 
 
Reforma Agrária – Assentamento e Pós-
Desapropriação 
1. Introdução 
A reforma agrária brasileira constitui um dos mais relevantes instrumentos de política pública 
para a promoção da justiça social no campo. Prevista na Constituição Federal de 1988, tem como 
objetivo redistribuir terras improdutivas a trabalhadores rurais sem-terra, assegurando a função 
social da propriedade. 
O processo de assentamento de famílias beneficiárias é complexo e envolve diversas etapas, 
desde a desapropriação judicial do imóvel até a emancipação do projeto de assentamento. Esta 
aula percorre cada uma dessas fases, com destaque para os aspectos jurídicos, procedimentais 
e sociais que regem o assentamento rural no Brasil. 
2. Fundamento Constitucional e Legal 
2.1. Constituição Federal de 1988 
A Constituição Federal de 1988 confere à União a competência exclusiva para desapropriar por 
interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função 
social. Os dispositivos fundamentais são: 
Dispositivo Conteúdo 
Art. 184 
Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, 
o imóvel rural que não cumpra sua função social, mediante prévia e justa 
indenização em Títulos da Dívida Agrária (TDAs). 
Art. 185 
São insuscetíveis de desapropriação: a pequena e média propriedade rural (desde 
que o proprietário não possua outra) e a propriedade produtiva. 
Art. 186 
A função social é cumprida quando atende: aproveitamento racional e adequado, 
utilização adequada dos recursos naturais, observância das relações de trabalho 
e exploração que favoreça o bem-estar. 
Art. 189 
Os beneficiários da distribuição de imóveis rurais pela reforma agrária receberão 
títulos de domínio ou concessão de uso, inegociáveis pelo prazo de 10 anos. 
Art. 191 
Aquele que possuir como sua área de terra em zona rural, não superior a 50 
hectares, tornando-a produtiva por seu trabalho, terá a propriedade (usucapião 
especial rural). 
2.2. Legislação Infraconstitucional 
A legislação infraconstitucional detalha e regulamenta o processo de reforma agrária previsto na 
Constituição: 
 Lei nº 8.629/1993 – Regulamenta os dispositivos constitucionais relativos à reforma 
agrária. Define os conceitos de propriedade produtiva, classificação de imóveis, seleção 
de beneficiários e procedimentos de assentamento. 
 Lei Complementar nº 76/1993 – Dispõe sobre o procedimento contraditório especial, 
de rito sumário, para o processo de desapropriação por interesse social. 
 Lei nº 4.504/1964 (Estatuto da Terra) – Marco fundacional da reforma agrária no Brasil. 
Estabelece a base estrutural da política agrícola e fundiária. 
 Decreto nº 9.311/2018 – Regulamenta a seleção de famílias beneficiárias e a titulação 
nos projetos de assentamento. 
3. A Sentença de Desapropriação 
3.1. O Decreto Presidencial 
O processo de desapropriação para fins de reforma agrária inicia-se com a edição de um Decreto 
Presidencial que declara o imóvel rural como de interesse social para fins de reforma agrária. 
Este decreto é publicado no Diário Oficial da União e autoriza o INCRA (Instituto Nacional de 
Colonização e Reforma Agrária) a propor a ação de desapropriação. A competência para a 
emissão do decreto é privativa do Presidente da República, conforme o art. 184 da CF/88. O 
decreto tem validade de dois anos para a propositura da ação judicial, findo o qual caduca. 
3.2. A Ação de Desapropriação (LC 76/93) 
A ação de desapropriação por interesse social segue rito sumário, previsto na Lei Complementar 
nº 76/1993. O INCRA ajuíza a ação perante a Justiça Federal, devendo realizar o depósito prévio 
em juízo do valor ofertado. As principais características do procedimento são: 
 A petição inicial deve conter a oferta do preço e ser instruída com o decreto 
desapropriatório, laudo de vistoria e avaliação do imóvel; 
 O depósito prévio compreende o valor da terra nua em Títulos da Dívida Agrária (TDAs) 
e o valor das benfeitorias úteis e necessárias em dinheiro; 
 O juiz pode deferir de imediato liminar na posse pelo INCRA, mediante o depósito; 
 A contestação do réu não impede o prosseguimento sobre o valor da indenização (a 
legalidade do decreto não é discutida nesta ação, mas em mandado de segurança). 
3.3. A Sentença e seus Efeitos 
O juiz federal profere sentença fixando a justa indenização, que compreende: 
 Valor da terra nua: pago em Títulos da Dívida Agrária (TDAs), resgatáveis em até 20 
anos, conforme o grau de utilização da terra (GUT) e o grau de eficiência na exploração 
(GEE); 
 Valor das benfeitorias úteis e necessárias: pago em dinheiro, mediante depósito 
judicial; 
 Juros compensatórios e moratórios: conforme jurisprudência do STJ e STF. 
Com o trânsito em julgado da sentença, o domínio do imóvel é transferido ao patrimônio público 
federal, sob administração do INCRA. A sentença é registrada no Cartório de Registro de Imóveis 
(CRI) competente, operando-se a transferência da propriedade. 
4. Imissão na Posse 
4.1. Conceito e Natureza jurídica 
 A imissão na posse é o ato judicial pelo qual o INCRA é investido na posse do 
imóvel desapropriado, podendo iniciar as ações de assentamento. Trata-se de uma 
medida que pode ser concedida liminarmente, antes mesmo da sentença definitiva 
de desapropriação, desde que atendidos os requisitos legais. 
4.2. Requisitos para a Imissão Liminar (LC 76/93, art. 6º) 
Para a concessão da imissão liminar na posse, devem estar presentes os seguintes 
requisitos: i) Depósito do valor correspondente à terra nua em TDAs, na forma do art. 
184 da CF; ii) Depósito em dinheiro do valor das benfeitorias úteis e necessárias; iii) 
Comprovação da oferta realizada pelo INCRA ao proprietário; iv) Despacho do juiz 
federal competente, concedendo a liminar. 
4.3. Efeitos da Imissão na Posse 
Com a imissão na posse, o INCRA assume o controle efetivo da área e pode iniciar os 
trabalhos de levantamento topográfico, vistoria, elaboração do Plano de 
Desenvolvimento do Assentamento (PDA) e seleção dos beneficiários. O antigo 
proprietário é desalojado do imóvel, podendo levantar 80% do depósito em dinheiro. 
5. Criação do Projeto de Assentamento 
5.1. Portaria de Criação 
Após a imissão na posse, o INCRA publica uma Portaria de Criação do Projeto de 
Assentamento (PA), formalizando a destinação da área para fins de reforma agrária. 
Essa portaria define a localização geográfica, a área total do projeto, a capacidade de 
famílias, a modalidade do assentamento e as condicionantes ambientais. 
5.2. Modalidades de Assentamento 
O INCRA opera diversas modalidades de assentamento, adequadas às características 
regionais e ambientais: 
PA (Projeto de Assentamento): Modelo convencional com lotes individuais, área de uso comum 
e reserva legal coletiva. Mais comum no Brasil 
PDS (Proj. Desenv. Sustentável): voltado para áreas de interesse ambiental. Exploração 
coletiva, foco na sustentabilidade e agroecologia. 
PAE (Proj. Agroextrativista): destinado a populações extrativistas tradicionais. Áreas da 
Amazônia e outros biomas. 
PAF (Proj. de Assentamento Florestal): assentamentos com base na produção florestal 
sustentável e manejo comunitário. 
PE (Proj. Estadual): implementado em parceria entre INCRA e governos estaduais, com 
obtenção de terras pelo ente estadual. 
6. Seleção e Classificação dos Beneficiários 
6.1. Requisitos Legais (Lei 8.629/93, art. 19) 
Para ser beneficiário da reforma agrária, o candidato deve atender cumulativamente aos 
seguintes requisitos: • Não ser proprietário de imóvel rural; • Não ser funcionário público, 
ressalvados professores e profissionais de saúde que prestem serviços na comunidade rural; • 
Não auferir renda familiar proveniente de atividade não agrária superior a três salários mínimos 
mensais; • Não ter sido beneficiário anteriorde programa de reforma agrária; • Dispor-se a residir 
na parcela ou município onde se situa o assentamento; • Possuir aptidão e experiência para a 
atividade agrária. 
6.2. Critérios de Classificação e Pontuação 
Dentre os candidatos habilitados, o INCRA realiza a classificação segundo critérios de pontuação 
que priorizam: • Família mais numerosa, com maior número de filhos menores; • Tempo de 
atividade rural e experiência agrícola do candidato; • Residência no município ou comarca onde 
se localiza o assentamento; • Chefes de família com idade superior a 50 anos (prioridade); • 
Filhos em idade escolar matriculados em instituições de ensino. 
A Relação de Beneficiários (RB) é elaborada pelo INCRA e publicada no Diário Oficial da União, 
assegurando transparência e possibilidade de impugnação administrativa. 
7. Distribuição dos Lotes 
7.1. Plano de Desenvolvimento do Assentamento (PDA) 
A divisão dos lotes é realizada com base no Plano de Desenvolvimento do Assentamento (PDA), 
documento técnico que define a capacidade produtiva do solo, a fração mínima de parcelamento 
(FMP), as áreas de preservação, a infraestrutura necessária e a organização espacial do projeto. 
7.2. Estrutura Espacial do Assentamento 
O assentamento é dividido nas seguintes áreas: 
Área Descrição Proporção 
Lotes 
individuais 
Parcela destinada a cada família, dimensionada conforme o 
módulo rural da região e a capacidade produtiva do solo. 
~60% 
Área 
comunitária 
Espaço de uso coletivo: sede do assentamento, escola, posto de 
saúde, centro comunitário, estradas internas. 
~10% 
Reserva legal 
Percentual de vegetação nativa obrigatória conforme o bioma (20% 
no Sudeste/Sul, 35% no Cerrado, 80% na Amazônia), na forma do 
Código Florestal. 
20–80% 
APP 
Áreas de Preservação Permanente: margens de rios, topos de 
morros, encostas íngremes. Proteção integral. 
Variável 
O tamanho dos lotes individuais varia conforme a região e a qualidade da terra, devendo respeitar 
a fração mínima de parcelamento e o módulo fiscal do município. Em regiões do Nordeste 
semiárido, os lotes tendem a ser maiores em razão da menor produtividade do solo. 
8. Emissão de Títulos aos Assentados 
A titulação dos assentados é o ato pelo qual o Estado confere segurança jurídica ao beneficiário 
sobre o lote recebido. Existem três instrumentos principais: 
8.1. Contrato de Concessão de Uso (CCU) 
O CCU é o documento inicial e provisório que autoriza o assentado a ocupar e explorar o lote. 
Tem caráter precário e instaura uma relação obrigacional entre o beneficiário e o INCRA. Não 
transfere a propriedade do imóvel. O assentado deve cumprir uma série de cláusulas, como 
residência efetiva no lote, cultivo da terra e preservação ambiental. 
8.2. Título de Domínio (TD) 
O Título de Domínio é o instrumento que transfere a propriedade plena do lote ao beneficiário. 
Contém cláusula resolutiva de inalienabilidade pelo prazo de 10 anos, conforme determina o 
art. 189 da Constituição Federal. Pode ser concedido a título oneroso ou gratuito, dependendo 
da legislação vigente e das condições do beneficiário. 
A cláusula de inalienabilidade tem como finalidade impedir a reconcentração fundiária e garantir 
que a terra cumpra sua função social pelo prazo mínimo estabelecido constitucionalmente. 
8.3. Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) 
A CDRU é uma alternativa ao Título de Domínio, utilizada especialmente em assentamentos 
ambientalmente diferenciados (PDS, PAE, PAF). Trata-se de um direito real, transmissível por 
herança, que confere ao beneficiário o uso do lote sem transferir a propriedade do imóvel, que 
permanece público. É o instrumento preferencial em áreas de domínio da União e em terras 
públicas. 
8.4. Evolução dos Títulos 
A evolução típica da titulação segue o seguinte percurso: CCU (provisório) → Cumprimento das 
cláusulas contratuais → TD ou CDRU (definitivo). Somente após a verificação pelo INCRA do 
cumprimento das obrigações assumidas no CCU é que se outorga o título definitivo. 
9. Assistência do Estado aos Assentados 
O Estado tem o dever constitucional e legal de prestar assistência aos assentados da reforma 
agrária, viabilizando sua permanência na terra e seu desenvolvimento produtivo. As principais 
formas de assistência são: 
9.1. Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) 
A ATER consiste na prestação de orientação técnica gratuita aos assentados, abrangendo 
técnicas de produção agrícola, manejo do solo, gestão da propriedade, comercialização e 
organização comunitária. É prestada pelo próprio INCRA ou por entidades credenciadas 
(empresas de assistência técnica, ONGs, universidades). 
9.2. Crédito Instalação 
O Crédito Instalação é um apoio financeiro concedido pelo INCRA diretamente aos assentados, 
nas seguintes modalidades: 
 Apoio Inicial: para construção ou reforma de moradia e aquisição de itens de primeira 
necessidade; 
 Fomento: para aquisição de insumos, sementes, ferramentas e pequenos animais; 
 Adicional do Fomento: complementação do crédito de fomento para ampliar a 
produção; 
 Semiárido: específico para convivência com a seca (cisternas, barragens subterrâneas); 
 Recuperação/Manutenção: para recuperação de infraestrutura danificada ou 
manutenção de equipamentos. 
9.3. PRONAF – Grupo A 
O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), em seu Grupo 
A, é específico para assentados da reforma agrária. Oferece linhas de crédito com juros 
subsidiados para custeio e investimento na produção agrícola, pecuária e agroindustrial. 
9.4. Programas de Comercialização (PAA e PNAE) 
O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação 
Escolar (PNAE) garantem a compra institucional da produção dos assentados pelo governo, 
com preços mínimos de referência. No PNAE, pelo menos 30% dos recursos devem ser 
utilizados na aquisição de alimentos da agricultura familiar. 
10. Infraestrutura e Desenvolvimento 
A implantação de infraestrutura básica nos assentamentos é responsabilidade do INCRA, em 
articulação com estados, municípios e programas federais. As principais obras e serviços 
incluem: 
 Abertura e manutenção de estradas vicinais internas ao assentamento, para 
escoamento da produção e acesso aos lotes; 
 Abastecimento de água: poços artesianos, cisternas, sistemas de distribuição e 
captação de água pluvial; 
 Energia elétrica: extensão da rede elétrica por meio do Programa Luz para Todos; 
 Habitação rural: construção de moradias pelo Programa Nacional de Habitação Rural 
(PNHR); 
 Educação e saúde: construção ou melhoria de escolas rurais e postos de saúde; 
 Recuperação ambiental: recuperação de áreas degradadas, implantação de reserva 
legal e Áreas de Preservação Permanente. 
11. Consolidação e Emancipação do Assentamento 
11.1. Conceito de Consolidação 
A consolidação é o estágio final do ciclo de vida de um projeto de assentamento. Representa o 
momento em que as famílias assentadas atingem autonomia econômica e social suficiente para 
dispensar a tutela direta do INCRA. O P.A é então emancipado, deixando de figurar como projeto 
sob gestão do órgão fundiário. 
11.2. Requisitos para Consolidação 
Para que o assentamento seja consolidado, devem estar atendidos os seguintes critérios: 
 Concessão de créditos de instalação e crédito produtivo a todas as famílias; 
 Infraestrutura básica implantada (estradas, água, energia, habitação); 
 Outorga de títulos definitivos (TD ou CDRU) a todos os beneficiários; 
 Prestação de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) pelo prazo mínimo legal; 
 Licenciamento ambiental regular e recuperação da reserva legal; 
 Quitação ou renegociação dos créditos iniciais pelos beneficiários. 
11.3. Efeitos da Emancipação 
Após a emancipação, os assentados passam a ser considerados agricultores familiares 
autônomos, com plenos direitos sobre seus lotes (observadas as restrições de inalienabilidade, 
quando aplicáveis). O assentamento deixa de receber assistênciadireta do INCRA, passando a 
ser atendido pelas políticas públicas gerais destinadas à agricultura familiar. 
12. Conclusão 
O processo de assentamento na reforma agrária brasileira é um percurso longo e complexo, que 
envolve múltiplas etapas jurídicas, administrativas e sociais. Da desapropriação judicial à 
emancipação do projeto de assentamento, o Estado assume compromissos fundamentais para 
garantir que a redistribuição de terras alcance sua finalidade social. 
Os principais pontos a serem retidos desta aula são: 
 A desapropriação por interesse social é instrumento constitucional fundamental, previsto 
no art. 184 da CF/88; 
 A imissão na posse pode ser liminar, garantindo celeridade ao processo de 
assentamento; 
 A seleção de beneficiários segue critérios legais objetivos, assegurando isonomia e 
transparência; 
 Os títulos (CCU, TD, CDRU) conferem segurança jurídica progressiva aos assentados; 
 A assistência estatal (ATER, créditos, infraestrutura, comercialização) é direito do 
assentado e dever do Estado; 
 A consolidação encerra o ciclo, emancipando o assentamento e seus beneficiários. 
Referências Legislativas 
 Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (arts. 184 a 191) 
 Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964 (Estatuto da Terra) 
 Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993 
 Lei Complementar nº 76, de 6 de julho de 1993 
 Decreto nº 9.311, de 15 de março de 2018 
 Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012 (Código Florestal) 
Pronto — essa é a transcrição literal da oitava página, concluindo o documento. 
Você gostaria que eu agora junte todas as páginas que já transcrevemos (1 a 8) em um texto 
contínuo único, para facilitar a leitura e uso?Perfeito, Giana. Aqui está a transcrição literal 
completa da oitava página, fiel ao texto e sem cabeçalhos técnicos ou marcações de 
paginação: 
Reforma Agrária – Assentamento e Pós-Desapropriação 
Após a emancipação, os assentados passam a ser considerados agricultores familiares 
autônomos, com plenos direitos sobre seus lotes (observadas as restrições de inalienabilidade, 
quando aplicáveis). O assentamento deixa de receber assistência direta do INCRA, passando a 
ser atendido pelas políticas públicas gerais destinadas à agricultura familiar. 
12. Conclusão 
O processo de assentamento na reforma agrária brasileira é um percurso longo e complexo, que 
envolve múltiplas etapas jurídicas, administrativas e sociais. Da desapropriação judicial à 
emancipação do projeto de assentamento, o Estado assume compromissos fundamentais para 
garantir que a redistribuição de terras alcance sua finalidade social. 
Os principais pontos a serem retidos desta aula são: 
 A desapropriação por interesse social é instrumento constitucional fundamental, previsto 
no art. 184 da CF/88; 
 A imissão na posse pode ser liminar, garantindo celeridade ao processo de 
assentamento; 
 A seleção de beneficiários segue critérios legais objetivos, assegurando isonomia e 
transparência; 
 Os títulos (CCU, TD, CDRU) conferem segurança jurídica progressiva aos assentados; 
 A assistência estatal (ATER, créditos, infraestrutura, comercialização) é direito do 
assentado e dever do Estado; 
 A consolidação encerra o ciclo, emancipando o assentamento e seus beneficiários. 
Referências Legislativas 
 Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (arts. 184 a 191) 
 Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964 (Estatuto da Terra) 
 Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993 
 Lei Complementar nº 76, de 6 de julho de 1993 
 Decreto nº 9.311, de 15 de março de 2018 
 Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012 (Código Florestal) 
 
 
 
 
 
PARTE I — MÓDULO RURAL E MÓDULO FISCAL 
1. NOÇÕES INTRODUTÓRIAS 
No Direito Agrário brasileiro, a dimensão do imóvel rural não é aferida simplesmente 
em hectares absolutos. A legislação adotou unidades de medida específicas — o módulo 
rural e, posteriormente, o módulo fiscal — com o objetivo de compatibilizar a extensão 
da terra com a capacidade produtiva e com a função social da propriedade. 
Essas unidades servem a diversos fins práticos, entre os quais se destacam a 
classificação fundiária (minifúndio, pequena, média e grande propriedade); a incidência 
e cálculo do ITR; a aferição da chamada pequena gleba para fins de impenhorabilidade 
e de usucapião especial rural; o enquadramento da agricultura familiar; a desapropriação 
por interesse social para fins de reforma agrária; e a delimitação das áreas de reserva 
legal. 
Ambas as unidades — módulo rural e módulo fiscal — convivem no ordenamento, mas 
respondem a lógicas e a finalidades distintas. A aula seguinte detalha cada uma e expõe 
o quadro comparativo. 
2. MÓDULO RURAL 
2.1 Previsão legal 
O módulo rural é figura originária do Estatuto da Terra (Lei 4.504, de 30 de novembro 
de 1964), em seu artigo 4º, inciso III, combinado com o conceito de propriedade 
familiar do inciso II. 
Art. 4º Para os efeitos desta Lei, definem-se: [...] II — Propriedade familiar: o imóvel 
rural que, direta e pessoalmente explorado pelo agricultor e sua família, lhes absorva 
toda a força de trabalho, garantindo-lhes a subsistência e o progresso social e 
econômico, com área máxima fixada para cada região e tipo de exploração, e 
eventualmente trabalhado com a ajuda de terceiros; III — Módulo rural: a área fixada 
nos termos do inciso anterior. 
2.2 Conceito 
Módulo rural é, portanto, a área mínima necessária para que uma família, explorando-a 
direta e pessoalmente, obtenha sua subsistência e progresso socioeconômico. Trata-se 
de unidade casuística: é calculada para cada imóvel rural, individualmente, 
considerando-se o tipo de exploração predominante e as condições específicas daquela 
região. 
2.3 Características 
• Individualizado: fixado para cada imóvel em concreto, e não para o município ou 
região. 
• Vinculado à propriedade familiar: seu cálculo leva em conta a capacidade de 
sustento da família rural. 
• Função histórica: serviu como base do sistema agrário brasileiro entre 1964 e 1979, 
sendo gradativamente substituído, para fins classificatórios, pelo módulo fiscal. 
• Permanece em vigor: o módulo rural não foi revogado; continua aplicável em 
matérias específicas, sobretudo para a caracterização da propriedade familiar em 
contextos particulares. 
3. MÓDULO FISCAL 
3.1 Previsão legal 
O módulo fiscal foi criado pela Lei 6.746, de 10 de dezembro de 1979, que alterou 
dispositivos do Estatuto da Terra, originando-se de uma necessidade prática: 
uniformizar, em âmbito municipal, a unidade de medida para fins tributários e de 
política fundiária. 
3.2 Conceito 
O módulo fiscal é uma unidade de medida, expressa em hectares, fixada para cada 
município do país, levando em consideração os seguintes fatores: 
• Tipo de exploração predominante no município (hortifrutigranjeira, cultura 
permanente, cultura temporária, pecuária ou florestal); 
• Renda obtida com a exploração predominante; 
• Outras explorações existentes que, embora não predominantes, sejam expressivas em 
função da renda ou da área utilizada; 
• Conceito de propriedade familiar aplicado à realidade local. 
No Brasil, o módulo fiscal varia, em regra, de 5 a 110 hectares, conforme o município. 
Em Lages/SC, por exemplo, o módulo fiscal é de 16 hectares — parâmetro que se aplica 
a qualquer imóvel rural do município, independentemente de sua extensão individual. 
3.3 Finalidades (por que ele importa) 
• Classificar o imóvel rural em minifúndio, pequena, média ou grande propriedade (Lei 
8.629/1993, art. 4º); 
• Definir a base de cálculo e a alíquota do Imposto Territorial Rural — ITR (Lei 
9.393/1996); 
• Enquadrar o agricultor familiar (Lei 11.326/2006, art. 3º, I); 
• Delimitar a pequena propriedade rural para fins de impenhorabilidade (CF, art. 5º, 
XXVI) e para a usucapião especial rural; 
• Fixar parâmetros de desapropriação por interesse social para reforma agrária, 
resguardando a pequena e a média propriedade produtivas (CF, art. 185, I); 
4. QUADROCOMPARATIVO — MÓDULO RURAL X MÓDULO FISCAL 
O quadro abaixo sintetiza, em paralelo, as principais distinções entre as duas figuras, 
permitindo fixar com rapidez pontos frequentemente cobrados em prova e em peças 
processuais. 
Critério Módulo Rural Módulo Fiscal 
Base legal 
Estatuto da Terra, art. 4º, II e III 
(Lei 4.504/1964) 
Lei 6.746/1979 (alterou o Estatuto da 
Terra) 
Natureza 
Unidade individualizada (por 
imóvel) 
Unidade padronizada (por município) 
Parâmetro 
Área que sustenta a família com 
exploração direta 
Área em hectares definida por 
município 
Variação 
Caso a caso (tipo de exploração + 
condições do imóvel) 
De 5 a 110 hectares, conforme o 
município 
Finalidade Caracterizar propriedade familiar 
Classificação fundiária, ITR, reforma 
agrária, agricultura familiar 
Ponto 
central 
Casuístico (foco no imóvel e na 
família) 
Geral (foco no município) 
5. CLASSIFICAÇÃO DOS IMÓVEIS RURAIS 
A Lei 8.629/1993, que regulamenta os dispositivos constitucionais relativos à reforma 
agrária, utiliza o módulo fiscal como parâmetro para classificar os imóveis rurais em 
quatro categorias: 
Categoria Extensão Observações 
Minifúndio 4 até 15 módulos 
fiscais 
Também não pode ser desapropriada (se não 
possuir outro imóvel) 
Grande 
propriedade 
> 15 módulos 
fiscais 
Pode ser desapropriada se não cumprir função 
social 
Observe-se que a Constituição Federal, no art. 185, I, protege a pequena e a média 
propriedade produtivas da desapropriação para fins de reforma agrária, desde que o 
proprietário não possua outro imóvel rural. Essa imunidade constitucional só se opera, 
portanto, mediante a correta classificação feita pelo módulo fiscal do município. 
6. APLICAÇÕES PRÁTICAS DO MÓDULO FISCAL 
Saber o módulo fiscal do município em que está localizado um imóvel rural permite 
responder, de imediato, a diversas perguntas com relevância jurídica e econômica. 
Enumeram-se as principais: 
• Reforma agrária — aferir se o imóvel é ou não suscetível de desapropriação (CF, art. 
184 e 185). 
• ITR — definir a alíquota aplicável, que varia conforme o grau de utilização e a área 
total em módulos fiscais (Lei 9.393/1996). 
• Agricultura familiar — verificar se o produtor se enquadra no conceito legal (Lei 
11.326/2006), que limita a propriedade a 4 módulos fiscais. 
• Usucapião especial rural — a CF exige que a área usucapienda não exceda 50 
hectares, parâmetro que dialoga diretamente com o conceito de pequena gleba rural. 
• Reserva legal — o Novo Código Florestal (Lei 12.651/2012) permite, em imóveis de 
até 4 módulos fiscais, consolidar áreas rurais com regramento mais flexível. 
• Impenhorabilidade — a pequena propriedade rural, trabalhada pela família, é 
impenhorável por dívida decorrente da atividade produtiva (CF, art. 5º, XXVI; CPC, art. 
833, VIII). 
PARTE II — ESPÉCIES DE USUCAPIÃO 
1. CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA 
Usucapião é modo originário de aquisição da propriedade (e de outros direitos reais) 
pelo exercício prolongado e qualificado da posse, observados os requisitos fixados em 
lei. Trata-se de instituto que realiza, simultaneamente, dois princípios basilares do 
sistema: a segurança jurídica, ao estabilizar situações fáticas consolidadas pelo tempo, e 
a função social da propriedade, ao premiar quem efetivamente habita, cultiva ou destina 
o bem a finalidade socialmente útil. 
Por ser modo originário, o adquirente recebe a propriedade livre de ônus reais anteriores 
incompatíveis com a nova situação, independentemente de qualquer transmissão pelo 
antigo titular. A sentença na ação de usucapião tem natureza meramente declaratória da 
aquisição, que se opera pelo decurso do prazo aliado ao preenchimento dos demais 
requisitos. 
2. REQUISITOS GERAIS 
Embora cada espécie tenha particularidades, é possível reunir os elementos comuns a 
todas elas: 
• Posse ad usucapionem: posse com animus domini, ou seja, o possuidor se comporta 
como se dono fosse. 
• Posse mansa e pacífica: sem oposição efetiva do proprietário ou de terceiros. 
• Posse contínua: sem interrupções que descaracterizem a permanência no imóvel. 
• Decurso do prazo legal: variável conforme a espécie de usucapião invocada. 
• Coisa hábil: o bem deve ser passível de usucapião (não o são, por exemplo, os bens 
públicos). 
Requisitos específicos — como justo título, boa-fé, metragem máxima, destinação da 
posse (moradia, produção), inexistência de outro imóvel — variam conforme cada 
espécie, como se verá adiante. 
3. USUCAPIÃO EXTRAORDINÁRIA 
Base legal: Código Civil, art. 1.238. 
Art. 1.238. Aquele que, por quinze anos, sem interrupção, nem oposição, possuir como 
seu um imóvel, adquire-lhe a propriedade, independentemente de título e boa-fé; 
podendo requerer ao juiz que assim o declare por sentença, a qual servirá de título para 
o registro no Cartório de Registro de Imóveis. Parágrafo único. O prazo estabelecido 
neste artigo reduzir-se-á a dez anos se o possuidor houver estabelecido no imóvel a sua 
moradia habitual, ou nele realizado obras ou serviços de caráter produtivo. 
Requisitos 
• Posse mansa, pacífica, contínua e com animus domini; 
• Prazo de 15 anos — reduzido para 10 anos se houver moradia habitual ou 
obras/serviços produtivos; 
• Independe de justo título e de boa-fé; 
• Qualquer imóvel, urbano ou rural, sem limitação de metragem. 
4. USUCAPIÃO ORDINÁRIA 
Base legal: Código Civil, art. 1.242. 
Art. 1.242. Adquire também a propriedade do imóvel aquele que, contínua e 
incontestadamente, com justo título e boa-fé, o possuir por dez anos. Parágrafo único. 
Será de cinco anos o prazo previsto neste artigo se o imóvel houver sido adquirido, 
onerosamente, com base no registro constante do respectivo cartório, cancelado 
posteriormente, desde que os possuidores nele tiverem estabelecido a sua moradia, ou 
realizado investimentos de interesse social e econômico. 
Requisitos 
• Posse mansa, pacífica, contínua e com animus domini; 
• Justo título: instrumento formalmente apto a transferir a propriedade, ainda que padeça 
de algum vício; 
• Boa-fé: convicção do possuidor de que é dono; 
• Prazo de 10 anos — reduzido para 5 anos na hipótese de aquisição onerosa com 
registro cancelado, somada à moradia ou a investimentos de interesse social e 
econômico. 
5. USUCAPIÃO ESPECIAL RURAL (PRO LABORE) 
Base legal: CF, art. 191; CC, art. 1.239; Lei 6.969/1981. 
CF, art. 191. Aquele que, não sendo proprietário de imóvel rural ou urbano, possua 
como seu, por cinco anos ininterruptos, sem oposição, área de terra, em zona rural, não 
superior a cinquenta hectares, tornando-a produtiva por seu trabalho ou de sua família, 
tendo nela sua moradia, adquirir-lhe-á a propriedade. Parágrafo único. Os imóveis 
públicos não serão adquiridos por usucapião. 
Requisitos 
• Posse mansa, pacífica e ininterrupta por 5 anos; 
• Área rural não superior a 50 hectares; 
• Tornar o imóvel produtivo por seu trabalho ou de sua família (requisito pro labore); 
• Utilização do imóvel como moradia (requisito pro misero); 
• Não ser proprietário de outro imóvel, rural ou urbano; 
• Impossibilidade quando o imóvel for público (súmula 340 do STF; CF, art. 191, § 
único). 
Observação didática: é a espécie por excelência do Direito Agrário. Reúne, em um só 
instituto, os elementos pro labore (trabalho) e pro misero (moradia), concretizando a 
função social da propriedade rural estampada no art. 186 da Constituição. 
6. USUCAPIÃO ESPECIAL URBANA (PRO MISERO) 
Base legal: CF, art. 183; CC, art. 1.240; Lei 10.257/2001, art. 9º (Estatuto da Cidade). 
CF, art. 183. Aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinquenta 
metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para 
sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietáriode outro imóvel urbano ou rural. 
Requisitos 
• Área urbana de até 250 m²; 
• Posse ininterrupta e sem oposição por 5 anos; 
• Utilização do imóvel para moradia própria ou da família; 
• Não ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural; 
• O direito não será reconhecido mais de uma vez ao mesmo possuidor. 
7. USUCAPIÃO COLETIVA URBANA 
Base legal: Lei 10.257/2001 (Estatuto da Cidade), art. 10. 
Criada pelo Estatuto da Cidade, destina-se à regularização fundiária de núcleos urbanos 
informais habitados por população de baixa renda, quando não for possível identificar 
os terrenos ocupados por cada possuidor. 
Requisitos 
• Núcleo urbano informal ocupado por população de baixa renda para fins de moradia; 
• Posse coletiva, ininterrupta e sem oposição, por 5 anos; 
• Impossibilidade de identificar individualmente os terrenos ocupados; 
• Os possuidores não podem ser proprietários de outro imóvel urbano ou rural; 
• A sentença atribuirá igual fração ideal do terreno a cada possuidor, ressalvada hipótese 
de acordo escrito entre os condôminos. 
8. USUCAPIÃO FAMILIAR (POR ABANDONO DO LAR) 
Base legal: Código Civil, art. 1.240-A, incluído pela Lei 12.424/2011. 
Art. 1.240-A. Aquele que exercer, por 2 (dois) anos ininterruptamente e sem oposição, 
posse direta, com exclusividade, sobre imóvel urbano de até 250m² (duzentos e 
cinquenta metros quadrados) cuja propriedade divida com ex-cônjuge ou ex-
companheiro que abandonou o lar, utilizando-o para sua moradia ou de sua família, 
adquirir-lhe-á o domínio integral, desde que não seja proprietário de outro imóvel 
urbano ou rural. 
Requisitos 
• Imóvel urbano de até 250 m² em copropriedade com ex-cônjuge ou ex-companheiro; 
• Abandono do lar pelo coproprietário; 
• Posse direta, exclusiva, ininterrupta e sem oposição, por 2 anos; 
• Utilização do imóvel para moradia própria ou da família; 
• Não ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural; 
• O direito não será reconhecido ao mesmo possuidor mais de uma vez. 
9. USUCAPIÃO INDÍGENA 
Base legal: Lei 6.001/1973 (Estatuto do Índio), art. 33. 
Art. 33. O índio, integrado ou não, que ocupe como próprio, por dez anos consecutivos, 
trecho de terra inferior a cinquenta hectares, adquirir-lhe-á a propriedade plena. 
Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica às terras do domínio da União, 
ocupadas por grupos tribais, às áreas reservadas de que trata esta Lei, nem às terras de 
propriedade coletiva de grupo tribal. 
Requisitos 
• Possuidor indígena, integrado ou não; 
• Posse por 10 anos consecutivos, como própria; 
• Área inferior a 50 hectares; 
• Não recai sobre terras da União ocupadas por grupos tribais, áreas reservadas ou terras 
de propriedade coletiva do grupo tribal. 
10. USUCAPIÃO EXTRAJUDICIAL 
Base legal: Lei 6.015/1973 (LRP), art. 216-A, incluído pelo CPC/2015 (art. 1.071); 
Provimento 65/2017 do CNJ. 
Não se trata propriamente de nova espécie material de usucapião, mas de via 
procedimental alternativa. Permite que qualquer das espécies reconhecidas no 
ordenamento seja requerida diretamente perante o cartório de registro de imóveis, desde 
que haja consenso (ou anuência presumida) dos interessados e a prova documental seja 
suficiente. 
Requisitos procedimentais 
• Requerimento por advogado, instruído com ata notarial lavrada por tabelião de notas; 
• Planta e memorial descritivo do imóvel assinados por profissional habilitado, com 
ART ou RRT; 
• Certidões negativas dos distribuidores da comarca de situação do imóvel e do 
domicílio do requerente; 
• Justo título: ou quaisquer documentos que comprovem a origem, a continuidade, a 
natureza e o tempo da posse; 
• Anuência dos titulares de direitos registrados e dos confrontantes — o silêncio, após 
notificação, é interpretado como concordância (art. 13 do Prov. 65/2017); 
• Havendo impugnação, o oficial remeterá os autos ao juízo competente. 
11. BENS INSUSCETÍVEIS DE USUCAPIÃO 
Nem todo imóvel pode ser adquirido por usucapião. As principais vedações são: 
• Bens públicos: a Constituição, nos arts. 183, § 3º e 191, parágrafo único, bem como o 
CC, art. 102, são expressos em vedar o usucapião. A Súmula 340 do STF consagra a 
vedação; 
• Bens gravados com cláusula de inalienabilidade: enquanto subsistir a cláusula, não 
podem ser usucapidos; 
• Bens fora do comércio: em razão de sua natureza ou de disposição legal; 
• Terras tradicionalmente ocupadas por indígenas: CF, art. 231, § 4º (indisponíveis e 
inalienáveis). 
12. QUADRO-RESUMO DAS ESPÉCIES 
O quadro sintetiza, para fins de estudo rápido, os elementos essenciais de cada espécie. 
Recomenda-se, em prova ou peça, voltar ao texto de cada instituto para a correta 
aplicação. 
ESPÉCIE PRAZO METRAGEM 
REQUISITOS 
ESPECIAIS 
BASE 
LEGAL 
Extraordinária 
15 anos (10 se 
moradia/obras) 
Sem limite 
Independe de justo 
título e boa-fé 
CC, art. 
1.238 
Ordinária 
10 anos (5 se 
registro 
cancelado) 
Sem limite Justo título + boa-fé 
CC, art. 
1.242 
Especial rural 
(pro labore) 
5 anos Até 50 hectares 
Moradia + trabalho 
produtivo; não ter outro 
imóvel 
CF, art. 
191; CC, 
art. 1.239; 
Lei 
6.969/81 
Especial 
urbana (pro 
misero) 
5 anos Até 250 m² 
Moradia; não ter outro 
imóvel 
CF, art. 
183; CC, 
art. 1.240 
Coletiva 
urbana 
5 anos 
Sem limite 
individual 
Núcleo urbano informal 
de baixa renda; posse 
coletiva 
Lei 
10.257/01, 
art. 10 
Familiar 
(abandono do 
lar) 
2 anos 
Até 250 m² 
(urbano) 
Copropriedade com ex-
cônjuge/companheiro; 
abandono 
CC, art. 
1.240-A 
ESPÉCIE PRAZO METRAGEM 
REQUISITOS 
ESPECIAIS 
BASE 
LEGAL 
Indígena 10 anos 
Inferior a 50 
hectares 
Possuidor indígena; 
posse como própria 
Lei 
6.001/73, 
art. 33 
Extrajudicial 
Varia (segue a 
espécie 
material) 
Varia 
Requerimento em 
cartório; anuência ou 
silêncio dos 
confrontantes 
LRP, art. 
216-Apode ser convertida em posse, notadamente quando cessa 
a relação de subordinação. De acordo com o Enunciado 301 da IV Jornada de Direito Civil: “Art. 1.198 c/c o 
art. 1.204. É possível a conversão da detenção em posse, desde que rompida a subordinação, na hipótese de 
exercício em nome próprio dos atos possessórios”. 
Além do “fâmulo da posse”, o artigo 1.208 do Código Civil prevê outra situação configuradora de detenção, 
ao afirmar que “não induzem posse os atos de mera permissão ou tolerância assim como não autorizam a sua 
aquisição os atos violentos, ou clandestinos, senão depois de cessar a violência ou a clandestinidade”. 
O mesmo artigo ainda menciona que não gera posse, a “detenção independente” advinda de atos violentos 
ou clandestinos, em consonância com o disposto no artigo 1.224, o qual estabelece: “só se considera perdida 
a posse para quem não presenciou o esbulho, quando, tendo notícia dele, se abstém de retomar a coisa, ou, 
tentando recuperá-la, é violentamente repelido”. 
Exemplos de detenção independente incluem situações como ingresso forçado em propriedade alheia, 
realização de obras em terreno de outrem, invasão ou ocupação. Em todos esses casos, enquanto o real 
possuidor desconhecer o esbulho, o terceiro será mero detentor. No momento em que, ao tomar 
conhecimento da ocupação, o possuidor se abstiver de retomar a coisa ou for impedido de fazê-lo, o terceiro 
passa a ser considerado possuidor, ainda que injusto e de má-fé, cabendo ao titular do direito buscar a 
reintegração de posse. 
Por derradeiro, uma última situação de detenção, muito relevante para o Direito Agrário, é aquela decorrente 
da ocupação indevida de bens públicos. Como será detalhado em capítulo específico, a Constituição Federal 
e o Código Civil dispõem sobre a impossibilidade de se adquirir a propriedade de bens públicos por 
usucapião, uma vez que tal ocupação configura mera detenção, de natureza precária (STJ, AgRg no REsp 
1.470.182-RN). 
Em algumas decisões, a Corte superior chegou a admitir a possibilidade de posse de bens públicos 
dominicais, reacendendo nos estudiosos a discussão sobre a possibilidade de usucapião de terras devolutas, 
outrora prevista em lei (Lei n° 6.969/81). Não obstante, contrariando completamente as referidas decisões, 
em outubro de 2018 o STJ aprovou a Súmula n° 619, segundo a qual: “a ocupação indevida de bem público 
configura mera detenção, de natureza precária, insuscetíveis de retenção ou indenização por acessões e 
benfeitorias”. 
4. CLASSIFICAÇÃO DA POSSE 
Embora seja um todo unitário, a posse pode, por vezes, ser compartilhada, simultaneamente exercida, 
fundamento ou não para o pleito de usucapião, passível ou não de ser defendida contra terceiros, estar eivada 
de vício ou possibilitar medida liminar em ação possessória. Todas essas possibilidades dependem da 
modalidade configurada no caso concreto. 
4.1. Quanto à Extensão da Garantia Possessória 
CC/02, Art. 1.197. A posse direta, de pessoa que tem a coisa em seu poder, temporariamente, em virtude de 
direito pessoal, ou real, não anula a indireta, de quem aquela foi havida, podendo o possuidor direto 
defendê-la contra o indireto. 
Conforme o disposto no artigo 1.197 do Código Civil de 2002, a posse direta é exercida pela pessoa que tem 
coisa em seu poder (poder físico imediato), temporariamente, como decorrência de um direito pessoal ou 
real. Por sua vez, a posse indireta é exercida por aquele que, sendo titular do direito real (em regra, direito 
real de propriedade), voluntariamente transferiu a outrem a utilização da coisa. 
Assim, temos que duas pessoas exercem simultaneamente a posse, mas não com os mesmos direitos. De 
fato, como consequência da adoção da teoria objetiva de Ihering, o intuito do legislador foi estender ao 
proprietário da coisa a possibilidade de defendê-la através de garantias possessórias, mesmo não tendo o 
corpus. Ademais, do ponto de vista técnico, não há equívoco nesse intento, pois o proprietário, mesmo após 
a transferência da posse, continua a exercer alguns dos atributos da propriedade, tais como a fruição e 
possibilidade de alienação da coisa. 
O artigo citado acima fornece outras informações que nos ajudam a melhor compreender essa classificação. 
A posse direta é derivada, pois advém do direito do cedente, e temporária, pois, uma vez extinta a relação 
pessoal, será extinto o desdobramento possessório, consolidando-se a posse em favor do possuidor indireto. 
Exemplos práticos dessa modalidade ocorrem na relação entre locador e locatário, depositante e depositário, 
comodante e comodatário, nu-proprietário e usufrutuário. Em todas essas situações, o primeiro será o 
possuidor indireto e o segundo, o possuidor direto da coisa. 
Outrossim, é importante observar que esse desmembramento pode resultar de uma relação pessoal, em 
virtude de obrigação oriunda de contrato, ou também de uma relação real, como ocorre no caso do 
usufrutuário e do credor pignoratício. 
Por fim, o possuidor direto é legitimado a proteger a posse contra terceiro e até mesmo contra o possuidor 
indireto, considerando uma situação prática, por exemplo, em que o locador queira insistente e 
reiteradamente, sem necessidade aparente, vistoriar a coisa locada. Igualmente, o possuidor indireto goza de 
proteção possessória, contra a turbação ou esbulho causados por terceiro e, apesar da omissão legislativa, 
também em relação ao possuidor direto, caso sua posse se torne injusta e de má-fé. 
Nos termos do Enunciado 76 do CJF, publicado após a I Jornada de Direito Civil: “Art. 1.197 – O possuidor 
direto tem direito de defender a sua posse contra o indireto, e este, contra aquele (art. 1.197, in fine, do novo 
Código Civil)”. 
4.2. Quanto ao Compartilhamento da Posse 
CC/02, Art. 1.199. Se duas ou mais pessoas possuírem coisa indivisa, poderá cada uma exercer sobre ela 
atos possessórios, contanto que não excluam os dos outros compossuidores. 
Em regra, a posse é exercida de forma exclusiva e não compartilhada, situação em que apenas uma pessoa 
dispõe da coisa. Nesse caso, a posse poderá ser direta ou indireta, hipótese em que, embora duas pessoas 
sejam possuidoras, os seus direitos são distintos, exclusivos e limitados. Como vimos, o objetivo do 
legislador foi, primordialmente, permitir ao proprietário proteger a posse, mesmo sem estar diretamente com 
a coisa. 
Diferentemente, o que está tipificado no artigo acima é a possibilidade de composse, ou seja, o 
partilhamento da posse por duas ou mais pessoas, o que pode surgir no mundo jurídico em razão de ato inter 
vivos por exemplo como decorrência do casamento ou união estável e também por causa mortis, quando os 
herdeiros terão composse da herança até que se dê a partilha dos bens. 
Conforme entendimento de Maria Helena Diniz: “verifica-se que a composse não se confunde com a 
dualidade da posse: a direta e a indireta, porque nesta última o possuidor fica privada da utilização imediata 
da coisa e na composse todos podem utilizá-la diretamente, desde que uns não excluam os outros. 
Em suma, a composse pressupõe: a) pluralidade de sujeitos; b) iguais poderes; c) mesmo bem. Como diz o 
texto legal, nessa situação cada pessoa pode exercer os atos possessórios, desde que não obstrua o exercício 
dos demais. Se um perturbar o desenvolvimento da composse, poderão os demais intentar as garantias 
possessórias em face dele. 
Há quem visualize, ainda, duas espécies de composse: (i) pro diviso, quando a coisa em si é divisível e, 
embora não exista a divisão de direito, é possível a repartição fática da posse; (ii) pro indiviso, quando o 
objeto encontra-se materialmente indivisível, de modo que cada possuidor exerce igual poder sobre a 
totalidade da coisa, de fato e de direito. 
4.3. Quanto à Existência de Vício 
CC/02, Art. 1.200. É justa a posse que não for violenta, clandestina ou precária. 
O artigo acima é praticamente autoexplicativo, quanto à existência de vícios a posse pode ser justa ou 
injusta. Primeiro, a posseé justa se não for violenta, ou seja, se não for obtida mediante força física ou 
violência moral, como ocorre nas invasões de terra, onde um grupo de pessoas adentra abruptamente em 
determinado terreno derrubando cercas e outros implementos, expulsando pessoas que estejam utilizando a 
coisa e cumprindo sua função social. 
É injusta, ainda, a posse clandestina ou precária. Clandestina é a posse adquirida sem o conhecimento do 
possuidor, às ocultas, sorrateiramente, sem publicidade. Precária é a posse adquirida em abuso de 
confiança, como quando a pessoa se nega a restituir a coisa lhe fora entregue. 
Segundo Flávio Tartuce: 
De início, a posse, mesmo que injusta, ainda é posse e pode ser defendida por ações do juízo possessório, 
não contra aquele de quem se roubou a coisa, mas sim em face de terceiros. Isso porque a posse somente é 
viciada em relação a uma determinada pessoa (efeito inter partes), não tendo o vício efeitos contra todos, ou 
seja, erga omnes. 
4.4. Quanto à Subjetividade 
CC/02, Art. 1.201. É de boa-fé a posse, se o possuidor ignora o vício ou o obstáculo que impede a aquisição 
da coisa. 
Parágrafo único. O possuidor com justo título tem por si a presunção de boa-fé, salvo prova em contrário, ou 
quando a lei expressamente não admite esta presunção. 
A boa-fé se projeta no mundo jurídico de duas formas, objetiva e subjetiva. A primeira está relacionada ao 
comportamento do sujeito, que deve respeitar um padrão de honestidade e probidade, por exemplo, nas 
relações jurídicas contratuais. A segunda está relacionada ao conhecimento ou não de algum vício, que 
possa impedir a aquisição de determinado direito. 
No contexto dos nossos estudos, o que nos interessa é a boa-fé subjetiva. Será considerado possuidor de boa-
fé aquele que ignora o vício ou obstáculo que impeça a aquisição da coisa, aquele que tem convicção de não 
estar prejudicando ninguém. A contrário sensu, será de má-fé a posse daquele que souber da existência de 
vício que implique na ilegitimidade de ter a coisa consigo, mas mesmo assim pretenda exercer domínio 
fático sobre o bem. 
Quanto aos efeitos da posse, esta classificação é certamente a mais importante, determinando as regras 
referentes às benfeitorias, frutos, responsabilidade por danos e usucapião. Exemplificando, informa-nos o 
Código Civil que o possuidor de boa-fé tem direito à indenização das benfeitorias necessárias e úteis, aos 
frutos percebidos e só responde pelos danos que por sua culpa forem causados à coisa. 
4.5. Quanto aos Efeitos 
Esta classificação está diretamente relacionada à origem da posse, fato que influencia na produção dos seus 
efeitos, especificamente se abrirá prazo para prescrição aquisitiva ou não. 
Nesses termos, a posse será ad interdicta quando decorrer de uma relação jurídica pessoal (obrigacional) ou 
de direito real, sendo por isso defensável através de ações possessórias caso seja ameaçada, turbada, 
esbulhada ou perdida. Contudo, por se tratar de uma posse ad interdicta (que se justifica em razão de 
obrigação ou direito real sobre coisa alheia) não é capaz de gerar usucapião. Assim é a posse do locatário, 
que nasce de um contrato e sendo justa o legitima a ajuizar ações possessórias em face de terceiros, e até 
mesmo em face do próprio locador, mas ao mesmo tempo, esse mesmo contrato é causa impeditiva da 
usucapião. 
Em sentido oposto, a posse pode ser classificada como ad usucapionem, quando não há um vínculo 
obrigacional ou de direito real existente entre possuidor e proprietário. Desse modo, se uma pessoa ocupa 
determinado terreno, sem autorização do proprietário, poderá usucapir o bem, caso a posse se mantenha 
mansa, pacífica, contínua e cumpra o prazo da prescrição aquisitiva. 
4.6. Quanto à Idade 
A última classificação da posse é relevante por questões de natureza processual, pois dependendo da 
modalidade haverá a possibilidade ou não de um pleito liminar. A posse será “nova” até ano e dia do 
esbulho, período durante o qual, com fundamento no artigo 558 do Código de Processo Civil, será 
autorizada a propositura de ação possessória de força nova, cujo procedimento prevê uma tutela liminar de 
reintegração, a ser deferida em cognição sumária. Ultrapassado o prazo de ano e dia, a posse será 
classificada como velha, fato que obstará a concessão da referida liminar. 
Nas palavras de Maria Helena Diniz: “esse prazo é importante porque contra a posse nova pode o titular do 
direito lançar mão do desforço imediato (CC, art. 1.210, §1º) ou obter a reintegração liminar em ação própria 
(CPC, arts. 926 e ss.) ou, ainda, a concessão da tutela antecipada.” 
 
5. EFEITOS DA POSSE 
As consequências jurídicas da posse, produzidas em virtude da lei, variam em conformidade com as suas 
espécies, cumprindo-nos indagar primeiro se a posse é justa ou injusta, de boa-fé ou má-fé, ad usucapionem 
ou ad interdicta, velha ou nova. Assim, dada a importância do tema, o legislador civilista separou um 
capítulo só para tratar dos efeitos da posse (CC, arts. 1.210 a 1.222), embora possamos encontrar mais 
alguns espalhados pelo Código Civil, bem como pelo Código de Processo Civil. 
De acordo com a doutrina de Clóvis Beviláqua, muito bem ajustada por Paulo Nader e Maria Helena Diniz, 
os efeitos da posse são classificados em dois grupos: (i) materiais; e (ii) processuais. 
Nesse sentido, são efeitos da posse: I – Efeitos materiais da posse – a) percepção dos frutos; b) indenização 
por benfeitorias e direito de retenção; c) responsabilidade pela perda ou deterioração da coisa; d) direito à 
usucapião. II – Efeitos processuais da posse – a) autotutela – legítima defesa da posse e desforço imediato; 
b) heterotutela – manutenção, reintegração e interdito proibitório. 
 
5.1. Efeitos Materiais da Posse 
a. Direito aos Frutos 
CC/02, Art. 1.214. O possuidor de boa-fé tem direito, enquanto ela durar, aos frutos percebidos. 
Parágrafo único. Os frutos pendentes ao tempo em que cessar a boa-fé devem ser restituídos, depois de 
deduzidas as despesas da produção e custeio; devem ser também restituídos os frutos colhidos com 
antecipação. Os frutos classificam-se em naturais, industriais e civis. 
CC/02, Art. 1.215. Os frutos naturais e industriais reputam-se colhidos e percebidos, logo que são 
separados; os civis reputam-se percebidos dia por dia. 
CC/02, Art. 1.216. O possuidor de má-fé responde por todos os frutos colhidos e percebidos, bem como 
pelos que, por culpa sua, deixou de perceber, desde o momento em que se constituiu de má-fé; tem direito às 
despesas da produção e custeio. 
Simplificando a regra legal, o possuidor de boa-fé tem direito aos frutos percebidos, pois equipara-se a dono 
quando se encontra de fato com o bem. Assim, enquanto permanecer de boa-fé, poderá gozar da coisa, 
retirando suas vantagens. A regra geral do Código Civil é de que, ao transferir a posse direta do bem, o 
proprietário mostra-se desinteressado por aquilo que possa dele ser subtraído. 
Todavia, o possuidor de boa-fé não tem direito aos frutos que estiverem pendentes quando perder sua posse 
ou cessar a sua boa-fé, por serem acessórios e partes integrantes da coisa principal. 
Por sua vez, o possuidor de má-fé não faz jus aos frutos, de modo que deverá restituir aqueles que foram 
colhidos e percebidos, os que fraudulentamente foram retirados por antecipação, bem como os que, por sua 
culpa, deixou de perceber. Não obstante, como forma de se evitar o enriquecimento sem causa do 
proprietário, o possuidor de má-fé terá direito ao ressarcimento das despesas de produção e custeio. 
 
POSSUIDOR DE BOA-FÉ (1.214) 
→ Tem direito aos frutos colhidos. 
→ Não tem direito aos frutos pendentes ao tempo em que cessar a boa-fé. 
POSSUIDOR DE MÁ-FÉ (1.216) 
→ Não tem direito aos frutos. Responde pelos frutos que colheu, bem como pelos que deixou de colher. 
→ Tem direito às despesas com a produção e de custeio. 
 
b. Responsabilidade pela Perda ou Deterioração 
CC/02, Art. 1.217. O possuidor de boa-fé não responde pelaperda ou deterioração da coisa, a que não der 
causa. 
CC/02, Art. 1.218. O possuidor de má-fé responde pela perda, ou deterioração da coisa, ainda que 
acidentais, salvo se provar que de igual modo se teriam dado, estando ela na posse do reivindicante. 
Conforme a regra prevista nos artigos 238 e 239 do Código Civil (obrigação de restituir coisa certa), res 
perit domino (a coisa perece para o dono). Assim, fácil é compreender agora a regra do artigo 1.217, nos 
seguintes termos: “o possuidor de boa-fé não responde pela perda ou deterioração da coisa, a que não der 
causa”. 
O possuidor de boa-fé somente responderá pela perda ou deterioração do bem, quando culpado pela 
ocorrência, ou seja, tiver agido dolosamente, com imprudência, negligência ou imperícia (CC, art. 1.217). 
Por sua vez, o possuidor de má-fé responde pela perda, ou deterioração da coisa, ainda que acidentais, salvo 
se provar que de igual modo se teriam dado, estando ela na posse do reivindicante (CC, art. 1.218). 
No direito obrigacional temos regra semelhante, ao tipificar que o devedor da restituição, quando estiver em 
mora responde pela impossibilidade da prestação, ainda que resulte de caso fortuito ou de força maior, se 
estes ocorrerem durante o atraso, salvo se provar isenção de culpa, ou que o dano sobreviria ainda quando a 
obrigação fosse oportunamente desempenhada (CC, art. 399). 
O dispositivo obrigacional faz todo sentido, uma vez que, o devedor em mora (inadimplente) é aquele que 
deveria ter entregado/devolvido a coisa e não o fez, abusando da confiança do credor. Desse modo, a posse 
do devedor em mora é injusta (por precariedade) e é de má-fé, razão pela qual responde pelos riscos do caso 
fortuito e da força maior, em exceção à regra de que a coisa perece para o dono. 
Pelo exposto, concluímos então que a responsabilidade do possuidor de boa-fé é subjetiva, pois depende da 
comprovação de sua culpa (dolo, imprudência, negligência ou imperícia); enquanto a responsabilidade do 
possuidor de má-fé é objetiva, pois independe da comprovação de culpa. Sendo a responsabilidade objetiva, 
inverte-se o ônus da prova, para que o possuidor de má-fé tente demonstrar que o dano à coisa ocorreria 
mesmo que estivesse com o reivindicante. 
 
POSSUIDOR DE BOA-FÉ (1.217) 
→ Responsabilidade SUBJETIVA (depende de culpa). 
→ Só responde pelos danos que por culpa deu causa. 
POSSUIDOR DE MÁ-FÉ (1.218) 
→ Responsabilidade OBJETIVA (independe de culpa). 
→ Responde pelos danos, ainda que decorrentes de fato acidental. 
 
c. Benfeitorias e Direito de Retenção 
CC/02, Art. 1.219. O possuidor de boa-fé tem direito à indenização das benfeitorias necessárias e úteis, bem 
como, quanto às voluptuárias, se não lhe forem pagas, a levantá-las, quando o puder sem detrimento da 
coisa, e poderá exercer o direito de retenção pelo valor das benfeitorias necessárias e úteis. 
CC/02, Art. 1.220. Ao possuidor de má-fé serão ressarcidas somente as benfeitorias necessárias; não lhe 
assiste o direito de retenção pela importância destas, nem o de levantar as voluptuárias. 
CC/02, Art. 1.221. As benfeitorias compensam-se com os danos, e só obrigam ao ressarcimento se ao 
tempo da evicção ainda existirem. 
CC/02, Art. 1.222. O reivindicante, obrigado a indenizar as benfeitorias ao possuidor de má-fé, tem o 
direito de optar entre o seu valor atual e o seu custo; ao possuidor de boa-fé indenizará pelo valor atual. 
Entende-se por benfeitoria, toda obra realizada na estrutura da coisa com objetivo de conservá-la, melhorá-la 
ou embelezá-la, podendo ser de três espécies a depender da sua finalidade: i) Necessária (conservação – CC 
art. 96, § 3º); ii) Útil (melhoramento – CC art. 96, § 2º); iii) Voluptuária (embelezamento – CC art. 96, § 1º). 
Tratando-se de possuidor de boa-fé, no momento em que restituir a coisa, ele deverá ser indenizado pelo 
proprietário, no valor atual das benfeitorias necessárias e úteis (CC, art. 1.222), vez que elas valorizaram o 
bem. No que diz respeito às benfeitorias voluptuárias, é facultado ao possuidor levantá-las e levar consigo, 
quando for possível (sem detrimento do bem). Ademais, o legislador ainda confere ao possuidor de boa-fé o 
direito de retenção (jus retentionis), que é a autorização para manter o bem consigo, por tempo 
indeterminado, até que receba a justa indenização (CC, art. 1.219). 
Diversa será a regra quando tratar-se de possuidor de má-fé. Nesse caso, ele será indenizado apenas pelas 
benfeitorias necessárias, ficando a cargo do reivindicante da posse escolher entre pagar o valor atual e o 
valor do seu custo (CC, art. 1.222). As eventuais benfeitorias úteis e voluptuárias serão perdidas pelo 
possuidor de má-fé. Em qualquer situação, não lhe assistirá também o direito de retenção, devendo primeiro 
fazer a entrega do bem e posteriormente pleitear por alguma indenização (CC, art. 1.220). 
Complementarmente, importa-nos lembrar lições de direito das obrigações, especialmente destacando que os 
contratos de locação, arrendamento, comodato e outros similares, estabelecem ao possuidor direto uma 
obrigação de restituir coisa certa, sendo que o próprio artigo 242 do Código Civil prevê que em casos de 
melhoramento da coisa certa, tendo o devedor empregado trabalho ou dispêndio, o caso se regulará pelas 
normas do mesmo estatuto atinentes às benfeitorias. 
Outrossim, nunca é demais observar que enquanto viger o contrato o possuidor direto terá posse justa e de 
boa-fé, contudo, se não fizer a devolução no termo estipulado, a posse se converterá em injusta e de má-fé, 
dada a precariedade (abuso de confiança). Assim, as benfeitorias realizadas até o termo final (dies ad quem) 
seguirão a regra do artigo 1.219, enquanto as realizadas após a referida data seguirão a regra do artigo 1.220. 
Para concluir a análise deste efeito material, aprofundando o máximo possível do ponto de vista técnico, não 
poderíamos ignorar as normas especiais da lei de locações. Estabelece o artigo 35 da Lei 8.245/91 que, salvo 
expressa disposição contratual em contrário, as benfeitorias necessárias introduzidas pelo locatário, ainda 
que não autorizadas pelo locador, bem como as úteis, desde que autorizadas, serão indenizáveis e permitem 
o exercício do direito de retenção. Já as benfeitorias voluptuárias não serão indenizáveis, podendo ser 
levantadas pelo locatário, finda a locação, desde que sua retirada não afete a estrutura e a substância do 
imóvel. 
Assim, observemos a possibilidade da previsão de cláusula de renúncia, autorizada, inclusive, por súmula do 
STJ: “Súmula 335 – Nos contratos de locação, é válida a cláusula de renúncia à indenização das benfeitorias 
e ao direito de retenção.” Entretanto, em se tratando de contrato de adesão, será considerada abusiva a 
cláusula que abranger também as indenizações por benfeitorias necessárias, como pacificou interpretação a 
V Jornada de Direito Civil: “Enunciado n. 433 do CJF – A cláusula de renúncia antecipada ao direito de 
indenização e retenção por benfeitorias necessárias é nula em contrato de locação de imóvel urbano feito nos 
moldes do contrato de adesão”. 
 
POSSUIDOR DE BOA-FÉ (1.219) 
→ Indenização pelas benfeitorias NECESSÁRIAS e ÚTEIS. 
→ Levantamento das benfeitorias VOLUPTUÁRIAS. 
→ Tem DIREITO DE RETENÇÃO. 
POSSUIDOR DE MÁ-FÉ (1.220) 
→ Indenização só pelas benfeitorias NECESSÁRIAS. 
→ Não tem direito de levantar as VOLUPTUÁRIAS. 
→ Não tem DIREITO DE RETENÇÃO. 
 
5.2. Efeitos Processuais da Posse 
CC/02, Art. 1.210. O possuidor tem direito a ser mantido na posse em caso de turbação, restituído no de 
esbulho, e segurado de violência iminente, se tiver justo receio de ser molestado. 
§1º O possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força, contanto que 
o faça logo; os atos de defesa ou de desforço, não podem ir além do indispensável à manutenção ou 
restituição da posse. 
§2º Não obsta à manutenção ou reintegração na posse a alegação de propriedade, ou de outro direito sobre a 
coisa.CC/02, Art. 1.211. Quando mais de uma pessoa se disser possuidora, manter-se-á provisoriamente a que 
tiver a coisa, se não estiver manifesto que a obteve de alguma das outras por modo vicioso. 
CC/02, Art. 1.212. O possuidor pode intentar a ação de esbulho, ou a de indenização, contra o terceiro, que 
recebeu a coisa esbulhada sabendo que o era. 
CC/02, Art. 1.213. O disposto nos artigos antecedentes não se aplica às servidões não aparentes, salvo 
quando os respectivos títulos provierem do possuidor do prédio serviente, ou daqueles de quem este o 
houve. 
a. Autotutela Possessória 
De acordo com as lições de introdução ao processo, regra geral, os conflitos de interesses devem ser 
solucionados a partir da atividade jurisdicional, exercida pelo Estado mediante provocação do interessado. 
Contudo, em face de algumas situações emergenciais, a própria lei autoriza o não acionamento do judiciário, 
reconhecendo legalidade à autotutela. 
Isso é o que ocorre no âmbito do direito das coisas, notadamente no que tange ao primeiro efeito processual 
da posse, chamado de legítima defesa, desforço imediato ou autodefesa da posse, direito que encontra 
previsão no §1º do artigo 1.210 do Código Civil: “o possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou 
restituir-se por sua própria força, contanto que o faça logo; os atos de defesa, ou de desforço, não podem ir 
além do indispensável à manutenção, ou restituição da posse”. 
Conforme as lições do mestre Paulo Nader: 
Excepcionalmente, quando a via estatal não se revela em condições de atender à urgência do caso concreto, 
é cabível a autotutela. Na impossibilidade fática de se valer da proteção oficial, seja para conter injusta 
agressão a seu direito ou a de terceiros, seja para se opor a atos de turbação ou de esbulho, a pessoa pode 
reagir manu militari, moderadamente e com os meios necessários⁹. 
Por autorização legal, o possuidor turbado ou esbulhado poderá manter-se ou restituir-se na posse por força 
própria, desde que observe dois requisitos: i) reação incontinentí, ou seja, imediata (sem demora); ii) reação 
moderada, limitada aos meios estritamente necessários para a manutenção ou restituição da posse, ou seja, 
sem abuso de direito. Se o ato for realizado nesses termos, com fulcro no artigo 188 do Código Civil, não 
haverá configuração de ilícito, caso contrário, estará configurado o ato ilícito decorrente do abuso de direito 
(CC, art. 187). 
Do ponto de vista técnico, vale ainda ressaltar que existe diferença entre atos de defesa e desforço, termos 
que comumente são utilizados — erroneamente — como sinônimos. A expressão legítima defesa da posse 
deve ser empregada para os atos que visam afastar a turbação, enquanto desforço imediato é aquele voltado 
para a reação contra a perda da posse decorrente de esbulho, ou seja, situa-se quando já houve a perda da 
posse. Conforme lições de Flávio Tartuce: “nos casos em que a violência ou clandestinidade na posse não 
foi desfeita, cabe legítima defesa; havendo esbulho, a medida cabível é o desforço imediato, para a retomada 
do bem esbulhado”. 
Ademais, vale dizer que os atos de defesa ou desforço são pessoais e delegáveis, de modo que tanto o 
possuidor direto quanto o possuidor indireto têm legitimidade para realizá-los. Isso não significa que o 
possuidor não possa ser auxiliado por amigos ou serviçais, desde que a ação esteja sob sua organização e 
administração. Ressaltamos, ainda, conforme anotado anteriormente, que o detentor tem legitimidade para 
exercer a autodefesa da posse (CJF, enunciado 493). 
b. Heterotutela Possessória 
Quando a legítima defesa da posse ou desforço imediato não for possível, ou suficiente, eis que se fará 
indispensável a heterotutela, postulada através de uma das três ações a seguir: a) manutenção de posse; b) 
reintegração de posse; c) interdito proibitório. Importa-nos mais uma vez lembrar que esses atos são 
inerentes ao sujeito qualificado como possuidor, seja direto ou indireto, justo ou injusto, de modo que o 
mero detentor não é legitimado para intentá-los. 
Não podemos confundir as ações possessórias com as reivindicatórias ou petitórias, pois o êxito daquelas 
depende apenas da comprovação da posse como elemento autônomo, e do esbulho, turbação ou ameaça. 
Diferentemente, as outras ações mencionadas versam exclusivamente sobre o direito real de propriedade. 
Quando se discute a posse não é relevante a questão do domínio. Nesse contexto, especial atenção com o 
fato de que a ação de imissão na posse NÃO é possessória, mas sim petitória. 
 
MANUTENÇÃO DE POSSE → TURBAÇÃO – Ato que embaraça o livre exercício da posse. 
REINTEGRAÇÃO DE POSSE → ESBULHO – Ato pelo qual o possuidor se vê despojado da sua posse. 
INTERDITO PROIBITÓRIO → AMEAÇA ou JUSTO RECEIO de sofrer turbação ou esbulho. 
 
 
 
 
□ RESUMO 
NOÇÕES FUNDAMENTAIS DE POSSE, DETENÇÃO E PROPRIEDADE 
1. Conceito de Posse 
Posse é o exercício aparente de algum dos poderes inerentes à propriedade, a saber: i) uso; ii) gozo; iii) 
disposição; iv) reivindicação. 
2. Teorias da Posse 
Teoria Subjetiva (Savigny): Posse = Corpus + Animus Domini 
Teoria Objetiva (Ihering): Posse = Corpus 
3. Detenção e Posse 
Detentor do Art. 1.198 (Fâmulo da Posse): Aquele que tem a coisa em seu poder numa relação de 
subordinação e dependência, recebendo instruções daquele que é o real possuidor. 
Detentor do Art. 1.208: Aquele que tem a coisa em seu poder por permissão ou tolerância, também aquele 
que adquiriu a coisa por violência ou clandestinidade (senão depois de cessadas). 
Detentor da Súmula 619 do STJ: Aquele que ocupa indevidamente bem público. 
4. Classificação da Posse 
Quanto à extensão da garantia possessória: i) Possuidor Direto – Tem a coisa em seu poder, 
temporariamente, por direito pessoal ou real; ii) Possuidor Indireto – De quem a coisa foi havida. 
Quanto ao compartilhamento da posse: i) Compossuidores – Duas ou mais pessoas que têm os mesmos 
poderes sobre a coisa, podendo exercer a posse desde que não excluam o exercício umas das outras. 
Quanto à existência de vício: i) Possuidor Justo – Aquele cuja posse não é viciada; ii) Possuidor Injusto – 
Aquele cuja posse se origina de violência, clandestinidade ou precariedade. 
Quanto à subjetividade: i) Possuidor de Boa-Fé – Aquele que ignora o vício ou obstáculo que impede a 
aquisição da coisa; ii) Possuidor de Má-Fé – Aquele que tem ciência do vício ou obstáculo que impede a 
aquisição da coisa. 
Quanto aos efeitos: i) Posse Ad Interdicta – Aquela que decorre de uma relação obrigacional ou real, que 
impede a abertura do prazo de usucapião; ii) Posse Ad Usucapionem – Aquela exercida com animus domini 
e que abre prazo para usucapião. 
Quanto à idade: i) Posse Nova – Exercida até ano e dia; ii) Posse Velha – Exercida a mais de ano e dia. 
5. Efeitos da Posse 
5.1. Efeitos Materiais 
Frutos: i) Possuidor de Boa-Fé: Tem direito aos frutos colhidos enquanto durar a boa-fé; ii) Possuidor de 
Má-Fé: Responde pelos frutos colhidos, por aqueles que culposamente deixou de colher, mas faz jus às 
despesas de produção e custeio. 
Responsabilidade pela Perda ou Deterioração: i) Possuidor de Boa-Fé: Responde subjetivamente pelos 
danos, ou seja, só por aqueles que culposamente dê causa; ii) Possuidor de Má-Fé: Responde objetivamente 
pelos danos, ou seja, mesmo pelos danos acidentais. 
Benfeitorias e Direito de Retenção: i) Possuidor de Boa-Fé: Tem direito à indenização das benfeitorias 
necessárias e úteis (direito de retenção pela indenização), bem como quanto às voluptuárias, a levantar e 
levar consigo (se for possível); ii) Possuidor de Má-Fé: Só tem direito à indenização das benfeitorias 
necessárias. 
5.2. Efeitos Processuais da Posse 
Autotutela possessória: O possuidor tem direito de reintegrar-se ou manter-se na posse por sua própria 
força, contanto que faça logo e sem exceder os limites do indispensável à manutenção ou restituição. 
Ações Possessórias: i) Reintegração de Posse: Esbulho; ii) Manutenção dePosse: Turbação; iii) Interdito 
Proibitório: Justo receio (ameaça). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
DIREITO AGRÁRIO 
 
 
AULA COMPLETA 
 
 
O PROCEDIMENTO DE DESAPROPRIAÇÃO 
EM TODAS AS SUAS MODALIDADES 
 
Reforma Agrária • Utilidade Pública • Interesse Social 
Necessidade Pública • Obras Públicas • Urbanística • Confiscatória. 
 
 
Material Didático para Graduação 
 
 
Professor. Bruno Ribeiro 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
 
 
1. Introdução e Fundamentos constitucionais 
2. Conceito e Natureza Jurídica da Desapropriação 
3. Modalidades de Desapropriação 
 3.1. Desapropriação por Necessidade Pública 
 3.2. Desapropriação por Utilidade Pública 
 3.3. Desapropriação por Interesse Social 
 3.4. Desapropriação para Reforma Agrária 
 3.5. Desapropriação Urbanística (Estatuto da Cidade) 
 3.6. Desapropriação Confiscatória (art. 243, CF) 
 3.7. Desapropriação Indireta 
4. Quadro Comparativo das Modalidades 
5. Procedimento Administrativo da Desapropriação 
6. Procedimento Judicial da Desapropriação 
7. O Procedimento Específico da Desapropriação para Reforma Agrária 
8. Desapropriação para Obras Públicas – Aspectos Procedimentais 
9. Indenização: Critérios e Controvérsias 
10. Tresdestinação e Retrocessão 
11. Jurisprudência Relevante 
12. Exercícios Propostos 
13. Referências Bibliográficas 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1. INTRODUÇÃO E FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS 
A desapropriação constitui uma das mais relevantes formas de intervenção do Estado na 
propriedade privada. Trata-se de instituto jurídico pelo qual o Poder Público, mediante 
procedimento administrativo ou judicial e sob o fundamento de necessidade pública, utilidade 
pública ou interesse social, transfere compulsoriamente para si ou para terceiros a propriedade 
de determinado bem, pagando ao proprietário a devida indenização. 
No ordenamento jurídico brasileiro, a desapropriação encontra suas raízes mais profundas na 
Constituição Federal de 1988, que disciplina o instituto em diversos dispositivos, constituindo 
um sistema normativo complexo e multifacetado. 
1.1. Dispositivos Constitucionais Fundamentais 
Art. 5º, XXIV, CF: “a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou 
utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, 
ressalvados os casos previstos nesta Constituição.” Este é o dispositivo-matriz do instituto. 
Art. 182, §4º, III, CF: Prevê a desapropriação urbanística sancionatória, aplicável ao solo 
urbano não edificado, subutilizado ou não utilizado, com pagamento em títulos da dívida 
pública. 
Art. 184, CF: Trata da desapropriação para fins de reforma agrária, competência exclusiva da 
União, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária (TDA), com cláusula de 
preservação do valor real. 
Art. 185, CF: Estabelece as propriedades insuscetíveis de desapropriação para reforma 
agrária: a pequena e média propriedade rural (desde que o proprietário não possua outra) e a 
propriedade produtiva. 
Art. 243, CF: Prevê a desapropriação-confisco (ou expropriação) de propriedades rurais e 
urbanas utilizadas para cultivo de plantas psicotrópicas ou exploração de trabalho escravo, 
sem qualquer indenização ao proprietário. 
1.2. Princípios Norteadores 
A desapropriação é regida por princípios fundamentais que orientam toda a atividade 
expropriante do Estado. O princípio da supremacia do interesse público sobre o privado 
justifica a própria existência do instituto. O princípio da legalidade impõe que o procedimento 
observe estritamente as formas prescritas em lei. O princípio da justa indenização assegura 
que o expropriado não sofra prejuízo patrimonial além do necessário. O devido processo legal 
garante ao proprietário o direito de ser ouvido e de contestar os valores oferecidos. 
2. CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA DA DESAPROPRIAÇÃO 
A desapropriação pode ser definida como o procedimento de direito público pelo qual o Poder 
Público transfere para si a propriedade de terceiro, por razões de utilidade pública, 
necessidade pública ou interesse social, normalmente mediante o pagamento de justa e prévia 
indenização. 
2.1. Natureza Jurídica 
A doutrina brasileira diverge quanto à natureza jurídica da desapropriação. Para a corrente 
majoritária, trata-se de forma originária de aquisição da propriedade. Isso significa que a 
transferência do bem ao patrimônio público não decorre de um negócio jurídico translativo, mas 
sim do próprio ato do poder estatal. Como consequência prática, eventuais ônus e gravames 
que incidiam sobre o bem desapropriado se sub-rogam no preço da indenização, não 
acompanhando o imóvel para o novo titular. 
“A desapropriação é forma originária de aquisição da propriedade, pois não provém de nenhum 
título anterior, sendo, portanto, irrelevante que o bem esteja gravado por ônus reais, pois estes 
se transferem para o preço.” – Hely Lopes Meirelles 
2.2. Sujeitos da Desapropriação 
Sujeito ativo (expropriante): Entidades que podem promover a desapropriação. A 
competência para declarar a utilidade/necessidade pública ou o interesse social é da União, 
Estados, Distrito Federal e Municípios. Contudo, a competência para executar a 
desapropriação pode ser delegada a autarquias, concessionárias e permissionárias de serviço 
público, conforme art. 3º do Decreto-lei nº 3.365/41. 
Sujeito passivo (expropriado): É o proprietário ou possuidor do bem objeto da 
desapropriação. Pode ser pessoa física, jurídica, de direito público ou privado. 
2.3. Objeto da Desapropriação 
Podem ser desapropriados todos os bens dotados de valoração patrimonial: imóveis, móveis, 
semoventes, ações, quotas societárias, direitos, espaço aéreo e subsolo. Não podem ser 
desapropriados direitos personalíssimos, moeda corrente, pessoas, e bens de entidades 
federativas de nível superior por entidades de nível inferior (salvo autorização legislativa). 
3. MODALIDADES DE DESAPROPRIAÇÃO 
O ordenamento jurídico brasileiro contempla diversas modalidades de desapropriação, cada 
uma com pressupostos, procedimentos e formas de indenização específicos. A sistematização 
dessas modalidades é essencial para a compreensão integral do instituto. 
3.1. Desapropriação por Necessidade Pública 
A desapropriação por necessidade pública ocorre quando o Poder Público se encontra diante 
de situações de urgência que exigem a transferência imediata do bem particular para o domínio 
público. Diferencia-se da utilidade pública pelo caráter de urgência e imprescindibilidade. 
Fundamento legal: Art. 5º, XXIV, CF/88 e Decreto-lei nº 3.365/1941. 
Indenização: Prévia, justa e em dinheiro. 
Competência declaratória: União, Estados, DF e Municípios. 
Exemplos típicos: Situações emergenciais de defesa nacional, calamidades públicas, 
epidemias, casos em que a segurança pública ou a salubridade exigem providências imediatas. 
3.2. Desapropriação por Utilidade Pública 
É a modalidade mais frequente na prática administrativa brasileira. Ocorre quando a 
transferência do bem ao patrimônio público é conveniente e vantajosa para o interesse coletivo, 
ainda que não seja imprescindível. 
Fundamento legal: Art. 5º, XXIV, CF/88 e Decreto-lei nº 3.365/1941 (Lei Geral de 
Desapropriação). 
Indenização: Prévia, justa e em dinheiro. 
O art. 5º do DL 3.365/41 elenca de forma exemplificativa os casos de utilidade pública, entre os 
quais: segurança nacional, defesa do Estado, socorro público em calamidades, salubridade 
pública, criação e melhoramento de centros de população, aproveitamento industrial de águas 
e energia, abertura, conservação e melhoramento de vias públicas, construção ou ampliação 
de edifícios públicos, entre outros. 
Art. 5º, DL 3.365/41: Consideram-se casos de utilidade pública: a) a segurança nacional; b) a 
defesa do Estado, [...] i) a abertura, conservação e melhoramento de vias ou logradouros 
públicos [...] 
3.3. Desapropriação por Interesse Social 
Destina-se a promovera justa distribuição da propriedade ou condicionar seu uso ao bem-estar 
social. É disciplinada pela Lei nº 4.132/1962, que define os casos de desapropriação por 
interesse social. 
Fundamento legal: Art. 5º, XXIV, CF/88 e Lei nº 4.132/1962. 
Indenização: Prévia, justa e em dinheiro (regra geral). 
Os casos de interesse social previstos na Lei 4.132/62 incluem: aproveitamento de todo bem 
improdutivo ou explorado sem correspondência com as necessidades de habitação, trabalho e 
consumo dos centros de população; estabelecimento e manutenção de colônias ou 
cooperativas de povoamento e trabalho agrícola; manutenção de posseiros em terrenos 
urbanos; construção de casas populares; proteção do solo e preservação de cursos e 
mananciais de água. 
3.4. Desapropriação para Reforma Agrária 
Esta é a modalidade mais relevante para o Direito Agrário. Trata-se de desapropriação de 
natureza sancionatória, dirigida ao imóvel rural que não cumpre sua função social, nos termos 
dos artigos 184 a 191 da Constituição Federal. 
Fundamento legal: Arts. 184 a 191 da CF/88; Lei nº 8.629/1993 (Lei da Reforma Agrária); Lei 
Complementar nº 76/1993 (Procedimento); Lei Complementar nº 88/1996; Estatuto da Terra 
(Lei nº 4.504/1964). 
Competência exclusiva: União Federal, por meio do INCRA (Instituto Nacional de 
Colonização e Reforma Agrária). 
Objeto: Exclusivamente imóvel rural que não cumpra sua função social. 
Indenização: Prévia e justa, paga em Títulos da Dívida Agrária (TDA), resgatáveis em até 20 
anos, a partir do segundo ano de emissão. As benfeitorias úteis e necessárias são indenizadas 
em dinheiro. 
3.4.1. Função Social do Imóvel Rural (art. 186, CF) 
A propriedade rural cumpre sua função social quando atende, simultaneamente, aos seguintes 
requisitos: aproveitamento racional e adequado; utilização adequada dos recursos naturais 
disponíveis e preservação do meio ambiente; observância das disposições que regulam as 
relações de trabalho; exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos 
trabalhadores. 
3.4.2. Imóveis Insuscetíveis de Desapropriação para Reforma Agrária (art. 185, CF) 
A Constituição Federal protege de forma expressa duas categorias de imóveis contra a 
desapropriação para reforma agrária: a pequena e média propriedade rural, desde que o 
proprietário não possua outra; e a propriedade produtiva. A propriedade produtiva é definida 
pela Lei nº 8.629/93 como aquela que atinge graus de utilização da terra (GUT) e de eficiência 
na exploração (GEE) iguais ou superiores aos fixados pelo INCRA. 
Art. 6º, Lei 8.629/93: Considera-se propriedade produtiva aquela que, explorada econômica e 
racionalmente, atinge, simultaneamente, graus de utilização da terra e de eficiência na 
exploração, segundo índices fixados pelo órgão federal competente. 
3.5. Desapropriação Urbanística (Estatuto da Cidade) 
Prevista no art. 182, §4º, III, da CF/88 e regulamentada pela Lei nº 10.257/2001 (Estatuto da 
Cidade), esta modalidade tem caráter sancionatório e é aplicável ao proprietário de solo urbano 
não edificado, subutilizado ou não utilizado que não promoveu seu adequado aproveitamento 
nos termos do plano diretor municipal. 
Competência: Exclusiva do Município. 
Indenização: Em títulos da dívida pública de emissão previamente aprovada pelo Senado 
Federal, resgatáveis em até 10 anos, em parcelas anuais, iguais e sucessivas. 
Requisito prévio obrigatório: O proprietário deve ter sido notificado para parcelar, edificar ou 
utilizar o imóvel (art. 5º, EC), e após o descumprimento, ter sido submetido ao IPTU 
progressivo no tempo por 5 anos consecutivos (art. 7º, EC). 
3.6. Desapropriação Confiscatória (art. 243, CF) 
Também chamada de expropriação, é a modalidade mais severa de desapropriação prevista 
no ordenamento brasileiro. Não há qualquer indenização ao proprietário. 
Fundamento legal: Art. 243, CF/88 e Lei nº 8.257/1991. 
Hipóteses de cabimento: Propriedades rurais e urbanas onde forem localizadas culturas 
ilegais de plantas psicotrópicas ou exploração de trabalho escravo (redação dada pela EC nº 
81/2014). 
Indenização: INEXISTENTE. Não há pagamento de qualquer valor ao proprietário. 
Destinação: Os bens expropriados serão destinados à reforma agrária e a programas de 
habitação popular. Os bens apreendidos em decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes 
serão confiscados e reverterão a fundo especial com destinação específica. 
3.7. Desapropriação Indireta 
A desapropriação indireta ocorre quando o Poder Público se apossa de um bem particular sem 
observar o devido procedimento legal expropriatório. Trata-se, em essência, de um esbulho 
praticado pelo Estado, um apossamento administrativo irregular. 
Natureza: É um fato administrativo, não um ato jurídico. Caracteriza-se pela ocupação de fato 
do bem pelo Poder Público, sem decreto expropriatório e sem acordo ou processo judicial. 
Ação cabível: O proprietário deve ajuizar ação de desapropriação indireta (natureza real), 
pleiteando indenização. O prazo prescricional, segundo o STJ, é de 10 anos (art. 1.238, 
parágrafo único, CC). 
Súmula 119, STJ: A ação de desapropriação indireta prescreve em vinte anos. (Nota: 
entendimento superado – o STJ tem aplicado o prazo de 10 anos com base no CC/2002.) 
4. QUADRO COMPARATIVO DAS MODALIDADES 
O quadro a seguir sintetiza as principais características de cada modalidade de 
desapropriação: 
Modalidade Fundamento Competência Indenização Objeto Legislação 
Necessidade 
Pública 
Art. 5º, XXIV, 
CF 
U, E, DF, M 
Prévia, justa, 
em dinheiro 
Qualquer bem DL 3.365/41 
Utilidade 
Pública 
Art. 5º, XXIV, 
CF 
U, E, DF, M 
Prévia, justa, 
em dinheiro 
Qualquer bem DL 3.365/41 
Interesse 
Social 
Art. 5º, XXIV, 
CF 
U, E, DF, M 
Prévia, justa, 
em dinheiro 
Qualquer bem Lei 4.132/62 
Reforma 
Agrária 
Art. 184, CF 
Somente União 
(INCRA) 
TDA (terra) + 
dinheiro 
(benfeitorias) 
Imóvel rural 
improdutivo 
LC 76/93; 
Lei 8.629/93 
Urbanística 
Art. 182, §4º, 
CF 
Somente 
Município 
Títulos da dívida 
pública (até 10 
anos) 
Solo urbano 
subutilizado 
Lei 
10.257/01 
Confiscatória Art. 243, CF União 
SEM 
indenização 
Imóvel com 
cultivo ilícito ou 
trab. escravo 
Lei 8.257/91 
 
5. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO DA DESAPROPRIAÇÃO 
O procedimento de desapropriação compreende duas fases distintas: a fase declaratória 
(administrativa) e a fase executória (que pode ser administrativa ou judicial). A fase 
administrativa é comum a todas as modalidades ordinárias de desapropriação. 
5.1. Fase Declaratória 
A fase declaratória tem início com a edição do decreto expropriatório (ou declaração de 
utilidade pública, necessidade pública ou interesse social) pelo Chefe do Poder Executivo 
competente. O decreto deve indicar o bem a ser desapropriado, o fundamento legal, a 
destinação pretendida e os recursos orçamentários disponíveis. 
5.1.1. Efeitos do Decreto Expropriatório 
A publicação do decreto produz os seguintes efeitos: permite o ingresso de autoridades 
administrativas no imóvel para proceder a avaliações e medições; fixa o estado do bem para 
fins de indenização (evitando que o proprietário realize benfeitorias com o intuito de aumentar o 
valor indenizatório); submete o bem à força expropriatória do Estado; e inicia a contagem do 
prazo de caducidade. 
5.1.2. Prazo de Caducidade do Decreto 
O decreto expropriatório tem prazo de validade. Nos casos de utilidade pública, o prazo é de 5 
anos (art. 10, DL 3.365/41), após os quais caduca, somente podendo ser renovado após 1 ano. 
Nos casos de interesse social (Lei 4.132/62), o prazo é de 2 anos. Decorrido o prazo sem que 
tenha sido efetivada a desapropriação, o decreto perde sua eficácia. 
5.2. Fase Executória Administrativa (Acordo) 
Após a declaração, o Poder Público deve tentar a via amigável, buscando acordo com o 
proprietário quanto ao valor da indenização. Se houver acordo, lavra-se escritura pública de 
compra e venda (ou termo administrativo), com a transferência do bem ao patrimôniopúblico. 
A fase amigável é preferível por ser mais célere e menos onerosa. Contudo, o expropriado não 
é obrigado a aceitar o valor oferecido pelo Poder Público. Se não houver acordo, inicia-se a 
fase judicial. 
6. PROCEDIMENTO JUDICIAL DA DESAPROPRIAÇÃO 
Não havendo acordo na fase administrativa, o Poder Público ajuíza a ação de desapropriação 
perante o juízo competente. O procedimento judicial segue o rito especial previsto no Decreto-
lei nº 3.365/1941, com aplicação subsidiária do Código de Processo Civil. 
6.1. Petição Inicial 
A petição inicial deve conter: a oferta do preço estimado pelo Poder Público, a identificação e 
descrição do bem, a cópia do decreto expropriatório, a planta ou croqui de localização, a 
comprovação dos recursos orçamentários, e o pedido de imissão provisória na posse, se for o 
caso. 
6.2. Imissão Provisória na Posse 
Nos termos do art. 15 do DL 3.365/41, o juiz pode autorizar a imissão provisória na posse do 
bem, desde que o expropriante declare urgência e deposite em juízo o valor arbitrado. Essa 
medida é fundamental quando a obra pública não pode aguardar o trâmite completo da ação. 
Art. 15, DL 3.365/41: Se o expropriante alegar urgência e depositar quantia arbitrada de 
conformidade com o art. 685 do Código de Processo Civil, o juiz mandará imití-lo 
provisoriamente na posse dos bens. 
6.3. Contestação 
O expropriado é citado para contestar a ação. Contudo, nos termos do art. 20 do DL 3.365/41, 
a contestação somente pode versar sobre vício do processo judicial ou a impugnação do preço 
oferecido. Questões relativas à validade do decreto expropriatório ou à existência de utilidade 
pública devem ser discutidas em ação autônoma (mandado de segurança ou ação anulatória). 
Art. 20, DL 3.365/41: A contestação só poderá versar sobre vício do processo judicial ou 
impugnação do preço, qualquer outra questão deverá ser decidida por ação direta. 
6.4. Perícia e Avaliação 
A prova pericial é o elemento central da ação de desapropriação. O juiz nomeia perito para 
avaliar o bem, levando em consideração o valor de mercado, a localização, o estado de 
conservação, as benfeitorias existentes e demais fatores relevantes. As partes podem indicar 
assistentes técnicos e apresentar quesitos. 
6.5. Sentença e Efeitos 
A sentença fixará o valor da justa indenização. Se o valor fixado for superior ao depositado, o 
expropriante deverá complementar o depósito. A sentença produz a transferência do domínio 
do bem ao Poder Público, desde que efetuado o pagamento integral. 
Os juros compensatórios (12% ao ano, conforme Súmula 618, STF) são devidos desde a 
imissão provisória na posse, e os juros moratórios (6% ao ano) são devidos a partir do trânsito 
em julgado. 
7. O PROCEDIMENTO ESPECÍFICO DA DESAPROPRIAÇÃO PARA REFORMA AGRÁRIA 
O procedimento de desapropriação para fins de reforma agrária possui rito próprio, previsto na 
Lei Complementar nº 76/1993, com as alterações da LC nº 88/1996. Trata-se de procedimento 
especial, de natureza sumária, com características distintas da desapropriação ordinária. 
7.1. Fase Preparatória – Vistoria e Avaliação 
O procedimento tem início com a notificação prévia do proprietário pelo INCRA, informando 
sobre a realização de vistoria no imóvel rural. O INCRA realiza a vistoria para verificar o 
cumprimento da função social da propriedade, apurando os graus de utilização da terra (GUT) 
e de eficiência na exploração (GEE). 
Caso o imóvel seja classificado como improdutivo e não cumpridor da função social, o INCRA 
elabora laudo agronômico de fiscalização e encaminha o processo ao Presidente da República 
para edição do decreto declaratório. 
7.2. Decreto Presidencial 
O Presidente da República edita decreto declarando o imóvel de interesse social para fins de 
reforma agrária. Este decreto é de competência privativa e indelegável. Após a publicação, o 
INCRA tem o prazo de 2 anos para propor a ação judicial de desapropriação (prazo de 
caducidade). 
7.3. Ação Judicial de Desapropriação (LC 76/93) 
7.3.1. Petição Inicial 
A ação é proposta pelo INCRA perante a Justiça Federal da Seção Judiciária onde se situa o 
imóvel. A petição inicial deve ser instruída com: o decreto declaratório; certidões imobiliárias 
atualizadas; documento cadastral do imóvel; laudo de vistoria e avaliação administrativa; 
comprovante de lançamento dos TDAs; e o comprovante de depósito em dinheiro do valor das 
benfeitorias úteis e necessárias. 
7.3.2. Imissão na Posse 
Nos termos do art. 6º da LC 76/93, o juiz, ao despachar a petição inicial, já determinará a 
imissão do INCRA na posse do imóvel, desde que comprovado o depósito do valor da terra em 
TDAs e das benfeitorias em dinheiro. A imissão na posse é obrigatória e imediata, não sendo 
condicionada à citação do réu. 
Art. 6º, LC 76/93: O juiz, ao despachar a petição inicial, de plano ou no prazo máximo de 
quarenta e oito horas, mandará imitir o autor na posse do imóvel. 
7.3.3. Citação e Contestação 
O expropriado é citado para contestar no prazo de 15 dias. A contestação, assim como na 
desapropriação ordinária, deve se limitar à questão do valor da indenização e eventuais vícios 
processuais. Eventuais questões sobre a produtividade do imóvel ou a nulidade do decreto 
devem ser arguidas em mandado de segurança perante o STF ou em ação declaratória na 
Justiça Federal. 
7.3.4. Audiência de Conciliação 
A LC 76/93, em seu art. 6º, §3º, prevê a realização de audiência de conciliação, na qual o juiz 
buscará o acordo entre as partes quanto ao valor da indenização. 
7.3.5. Perícia Judicial 
Não havendo conciliação, procede-se à perícia judicial para determinação do valor justo da 
indenização. O perito deve considerar o valor da terra nua e das benfeitorias separadamente, 
pois possuem formas distintas de pagamento (terra em TDA, benfeitorias em dinheiro). 
7.3.6. Sentença 
A sentença fixará o valor da indenização, determinando a expedição dos TDAs 
complementares (se o valor fixado for superior ao depositado) e mandado translativo de 
domínio. A transferência dominial se opera com o registro da sentença no Cartório de Registro 
de Imóveis competente. 
7.4. Assentamento 
Após a transferência do domínio, o INCRA procede à criação do projeto de assentamento, 
selecionando os beneficiários conforme os critérios legais (trabalhadores rurais sem-terra, 
posseiros, etc.) e promovendo a distribuição dos lotes, com a concessão de títulos de domínio 
ou de concessão de uso. 
8. DESAPROPRIAÇÃO PARA OBRAS PÚBLICAS – ASPECTOS PROCEDIMENTAIS 
A desapropriação para execução de obras públicas constitui uma das aplicações mais 
frequentes do instituto, sendo instrumento indispensável para a implementação de projetos de 
infraestrutura como rodovias, ferrovias, aeroportos, barragens, hospitais, escolas e demais 
equipamentos públicos. 
8.1. Enquadramento Legal 
A desapropriação para obras públicas se enquadra na modalidade de utilidade pública (DL 
3.365/41), sendo o art. 5º, alíneas “i” a “p”, o fundamento mais utilizado. A competência para 
declarar a utilidade pública é do Chefe do Executivo (Presidente, Governador ou Prefeito), 
dependendo da esfera federativa responsável pela obra. 
8.2. Procedimento 
O procedimento segue o rito geral do DL 3.365/41, com as seguintes particularidades: 
Declaração de Utilidade Pública: Decreto do Chefe do Executivo identificando os imóveis 
necessários à obra, com base em estudos técnicos de engenharia e impacto ambiental. 
Urgência e Imissão Provisória: É comum a alegação de urgência para obtenção da imissão 
provisória na posse (art. 15, DL 3.365/41), especialmente quando os cronogramas de obras 
exigem início imediato dos trabalhos. 
Desapropriação por Zona: O art. 4º do DL 3.365/41 permite a desapropriação por zona, 
abrangendo área contígua necessária ao desenvolvimento da obra, bem como áreas que serão 
extraordinariamente valorizadas em consequência da obra. Neste caso, o poder público pode 
revender as áreas remanescentes após a conclusãoda obra. 
8.3. Delegação para Concessionárias 
A execução da desapropriação para obras de infraestrutura pode ser delegada a 
concessionárias e permissionárias de serviço público, nos termos do art. 3º do DL 3.365/41 e 
da Lei nº 8.987/1995 (Lei de Concessões). Neste caso, a concessionária promove a 
desapropriação em nome próprio, arcando com os custos indenizatórios, mas a declaração de 
utilidade pública permanece como competência do Poder Público. 
9. INDENIZAÇÃO: CRITÉRIOS E CONTROVÉRSIAS 
A indenização é o elemento central de qualquer desapropriação (salvo a confiscatória). A 
Constituição exige que seja justa, prévia e, como regra, em dinheiro. A determinação do 
valor justo é, frequentemente, o ponto de maior controvérsia nas ações expropriatórias. 
9.1. Componentes da Indenização 
A justa indenização deve abranger: 
 o valor do bem expropriado (terra nua, no caso de imóveis rurais); 
 as benfeitorias úteis e necessárias; 
 os lucros cessantes e danos emergentes comprovados; 
 os juros compensatórios (12% ao ano, desde a imissão na posse); 
 os juros moratórios (6% ao ano, a partir do trânsito em julgado); 
 os honorários advocatícios; 
 a correção monetária. 
9.2. Jurisprudência sobre Juros 
Súmula 618, STF: Na desapropriação, direta ou indireta, a taxa dos juros compensatórios é de 
12% ao ano. 
Súmula 69, STJ: Na desapropriação direta, os juros compensatórios são devidos desde a 
antecipada imissão na posse e, na desapropriação indireta, a partir da efetiva ocupação do 
imóvel. 
Súmula 114, STJ: Os juros compensatórios, na desapropriação indireta, incidem a partir da 
ocupação, calculados sobre o valor da indenização, corrigido monetariamente. 
9.3. Pagamento na Desapropriação para Reforma Agrária 
Na desapropriação para reforma agrária, o pagamento se desdobra em dois componentes: 
 o valor da terra nua é pago em Títulos da Dívida Agrária (TDA), com prazo de 
resgate de até 20 anos; 
 o valor das benfeitorias úteis e necessárias é pago em dinheiro, previamente à 
imissão na posse. 
As benfeitorias voluptuárias não são indenizáveis. 
10. TREDESTINAÇÃO E RETROCESSÃO 
10.1. Tresdestinação 
Tresdestinação é o desvio de finalidade do bem desapropriado, ou seja, quando o Poder 
Público confere ao bem destinação diversa daquela declarada no decreto expropriatório. 
Tresdestinação lícita: ocorre quando o bem é destinado a finalidade pública diversa da 
originalmente prevista, mas que igualmente atende ao interesse público. Exemplo: desapropria-
se para construir escola, mas constrói-se um hospital. É aceita pela jurisprudência. 
Tresdestinação ilícita: ocorre quando o bem é destinado a finalidade particular, sem qualquer 
interesse público. Neste caso, nasce para o ex-proprietário o direito de retrocessão. 
10.2. Retrocessão 
A retrocessão é o direito do ex-proprietário de reaver o bem desapropriado quando este não é 
utilizado para a finalidade pública que motivou a desapropriação. A natureza jurídica da 
retrocessão é controversa: para parte da doutrina, trata-se de direito real (possibilitando a 
restituição do bem); para outra corrente, trata-se de direito pessoal (gerando apenas perdas e 
danos). 
Art. 519, CC/2002: Se a coisa expropriada para fins de necessidade ou utilidade pública, ou 
por interesse social, não tiver o destino para que se desapropriou, ou não for utilizada em obras 
ou serviços públicos, caberá ao expropriado direito de preferência, pelo preço atual da coisa. 
11. JURISPRUDÊNCIA RELEVANTE 
A jurisprudência dos Tribunais Superiores tem papel fundamental na interpretação e aplicação 
das normas sobre desapropriação. Seguem os principais enunciados sumulares e precedentes: 
11.1. Súmulas do STF 
Súmula 157: É necessária prévia autorização do Presidente da República para 
desapropriação, pelos Estados, de empresa de energia elétrica. 
Súmula 164: No processo de desapropriação, são devidos juros compensatórios desde a 
antecipada imissão na posse. 
Súmula 345: Na chamada desapropriação indireta, os juros compensatórios são devidos a 
partir da perícia, desde que nesta tenha sido fixado o valor da indenização. 
Súmula 618: Na desapropriação, direta ou indireta, a taxa dos juros compensatórios é de 12% 
ao ano. 
11.2. Súmulas do STJ 
Súmula 12: Em desapropriação, são cumuláveis juros compensatórios e moratórios. 
Súmula 56: Na desapropriação para instituir servidão administrativa são devidos os juros 
compensatórios pela limitação de uso da propriedade. 
Súmula 69: Na desapropriação direta, os juros compensatórios são devidos desde a 
antecipada imissão na posse. 
Súmula 354: A invasão do imóvel é causa de suspensão do processo expropriatório para fins 
de reforma agrária. 
Súmula 408: Nas ações de desapropriação, os honorários advocatícios são calculados sobre a 
diferença entre a indenização fixada em sentença e o valor ofertado na inicial, corrigidos 
monetariamente. 
12. EXERCÍCIOS PROPOSTOS 
Questão 1 – Discursiva 
Diferencie, com fundamento constitucional e legal, a desapropriação por utilidade pública da 
desapropriação para fins de reforma agrária, abordando: 
(a) competência para declarar e executar; 
(b) forma de indenização; 
(c) objeto; 
(d) procedimento aplicável. 
 
Questão 2 – Caso Prático 
O Município de Serra Azul pretende desapropriar um terreno urbano não edificado para 
construção de uma escola pública. O terreno está localizado em área prevista no Plano Diretor 
para equipamentos públicos. 
Indaga-se: 
(a) Qual a modalidade de desapropriação aplicável? 
(b) É necessário o esgotamento das medidas previstas no art. 182, §4º, CF, antes da 
desapropriação? 
(c) Qual a forma de indenização? Fundamente. 
 
Questão 3 – Objetiva 
Assinale a alternativa INCORRETA sobre a desapropriação para reforma agrária: 
(A) É de competência exclusiva da União Federal. 
(B) A indenização é paga integralmente em Títulos da Dívida Agrária. 
(C) A propriedade produtiva é insuscetível de desapropriação para reforma agrária. 
(D) O procedimento judicial é disciplinado pela Lei Complementar nº 76/1993. 
(E) O decreto expropriatório é de competência privativa do Presidente da República. 
Gabarito: Alternativa B. A indenização não é integralmente em TDA: as benfeitorias úteis e 
necessárias são indenizadas em dinheiro (art. 184, §1º, CF). 
 
Questão 4 – Discursiva 
Disserte sobre a desapropriação confiscatória prevista no art. 243 da CF/88, após a EC 
81/2014, abordando: 
(a) hipóteses de cabimento; 
(b) questão indenizatória; 
(c) destinação do bem; 
(d) possibilidade de defesa do proprietário. 
 
 
 
 
 
 
 
 
13. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. 
BRASIL. Decreto-lei nº 3.365, de 21 de junho de 1941 – Lei Geral de Desapropriação. 
BRASIL. Lei nº 4.132, de 10 de setembro de 1962 – Define os casos de desapropriação por 
interesse social. 
BRASIL. Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964 – Estatuto da Terra. 
BRASIL. Lei nº 8.257, de 26 de novembro de 1991 – Expropriação de glebas utilizadas para 
cultivo ilegal de plantas psicotrópicas. 
BRASIL. Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993 – Regulamentação da Reforma Agrária. 
BRASIL. Lei Complementar nº 76, de 6 de julho de 1993 – Procedimento da desapropriação 
para reforma agrária. 
BRASIL. Lei Complementar nº 88, de 23 de dezembro de 1996 – Altera a LC 76/93. 
BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001 – Estatuto da Cidade. 
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 36. ed. Rio de Janeiro: Forense, 
2023. 
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 44. ed. São Paulo: Malheiros, 
2023. 
CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. 37. ed. São Paulo: 
Atlas, 2023. 
BORGES, Paulo Torminn. Institutos Básicos do Direito Agrário. 12. ed. São Paulo: Saraiva, 
2005. 
MARQUES, Benedito Ferreira. Direito Agrário Brasileiro. 12. ed. São Paulo: Atlas, 2016. 
OPITZ, Silvia C. B.; OPITZ, Oswaldo. Curso Completo de Direito Agrário. 11. ed. São

Mais conteúdos dessa disciplina