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REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 1 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. Desafios na formação de professores para atendimento qualificado aos estudantes com transtorno do espectro autista Challenges in teacher training for qualified care for students with autism spectrum disorde Desafíos en la formación de docentes para brindar asistencia calificada a estudiantes con trastorno del espectro autista DOI: 10.54033/cadpedv22n1-106 Originals received: 12/10/2024 Acceptance for publication: 12/31/2024 Rosangela Comin Abreu Mestranda em Educação. Instituição: Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC) Endereço: Lages, Santa Catarina, Brasil E-mail: rosangela.abreu@uniplaclages.edu.br Juares Silva Thiesen Doutor em Educação e Gestão do Conhecimento Instituição: Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Endereço: Florianópolis, Santa Catarina, Brasil E-mail: juaresthiesen@uniplaclages.edu.br RESUMO O artigo, resultante de pesquisa em andamento, objetiva compreender como se encontram os processos de formação inicial e continuada para professores que atuam com estudantes com deficiência, em especial com Transtorno do Espectro Autista, identificando alguns de seus principais desafios. Na discussão, dialoga- se com autores que se dedicam a estudar o tema da formação de professores em geral e da educação inclusiva em particular. Compõem o referencial teórico deste estudo, trabalhos de Antônio Nóvoa (2023) Kleber (2015), Gadelha (2020), Tardif (2014), Freitas e Pacífico (2020), Caetano (2012), Ficgana (2017), Araújo (2015), Machado (2017), Gil (2005), Moreira (2023), Gatti, Barreto e André (2011), além de outros. Classificada como uma pesquisa de natureza bibliográfica e documental, exploram-se textos de leis, diretrizes e pareceres do campo da educação pública, a exemplo do Parecer 50/CNE/2023, que traz importantes orientações no atendimento dos estudantes com Transtorno do Espectro Autista. Entre os achados parciais da pesquisa, destacam-se as fragilidades existentes na formação inicial nos cursos de Pedagogia e demais licenciaturas e também na formação continuada dos professores que trabalham com estudantes com TEA. Alguns desafios encontrados nesse âmbito são: a REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 2 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. carência da área da educação especial nos cursos de Pedagogia, e a insuficiente formação oferecida pelos órgãos responsáveis pelos professores que trabalham com estudantes com TEA. Palavras-chave: Formação Inicial. Formação Continuada. Transtorno do Espectro Autista. Educação Inclusiva. ABSTRACT The article, resulting from ongoing research, aims to understand the current state of the initial and continuing education processes for teachers who work with students with disabilities, especially those with Autism Spectrum Disorder, identifying some of their main challenges. The discussion involves dialogue with authors who are dedicated to studying the theme of teacher education in general and inclusive education in particular. The theoretical framework for this study is composed of works by Antônio Nóvoa (2023), Kleber (2015), Gadelha (2020), Tardif (2014), Freitas and Pacífico (2020), Caetano (2012), Ficgana (2017), Araújo (2015), Machado (2017), Gil (2005), Moreira (2023), Gatti, Barreto and André (2011), among others. Classified as bibliographic and documentary research, the study explores texts of laws, guidelines and opinions in the field of public education, such as Opinion 50/CNE/2023, which provides important guidance on serving students with Autism Spectrum Disorder. Among the partial findings of the research, we highlight the weaknesses in the initial training in Pedagogy courses and other undergraduate courses, as well as in the continuing education of teachers who work with students with ASD. Some challenges encountered in this area are: the lack of the area of special education in Pedagogy courses, and the insufficient training offered by the agencies responsible for teachers who work with students with ASD. Keywords: Initial Training. Continuing Education. Autism Spectrum Disorder. Inclusive Education. RESUMEN El artículo, resultado de una investigación en curso, tiene como objetivo comprender los procesos de formación inicial y continua de docentes que trabajan con estudiantes con discapacidad, especialmente con Trastorno del Espectro Autista, identificando algunos de sus principales desafíos. En la discusión se dialoga con autores que se dedican a estudiar el tema de la formación docente en general y la educación inclusiva en particular. El marco teórico de este estudio está compuesto por trabajos de Antônio Nóvoa (2023) Kleber (2015), Gadelha (2020), Tardif (2014), Freitas e Pacifico (2020), Caetano (2012), Ficgana (2017), Araújo (2015), Machado (2017), Gil (2005), Moreira (2023), Gatti; Barreto y André (2011), entre otros. Calificadas como investigaciones de carácter bibliográfico y documental, se exploran textos de leyes, directrices y dictámenes en el campo de la educación pública, como el Dictamen 50/CNE/2023, que brinda importantes orientaciones en la atención de estudiantes con Trastorno del Espectro Autista. Entre los hallazgos parciales de la investigación destacan las debilidades que existen en la formación inicial en cursos de Pedagogía y otras carreras y también en la formación continua del REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 3 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. profesorado que trabaja con estudiantes con TEA. Algunos desafíos encontrados en esta área son: la falta de educación especial en los cursos de Pedagogía y la insuficiente capacitación ofrecida por los órganos responsables de los docentes que trabajan con estudiantes con TEA. Palabras clave: Formación Inicial. Formación Continua. Trastorno del Espectro Autista. Educación Inclusiva. 1 INTRODUÇÃO Atualmente percebe-se haver um aumento progressivamente considerável de casos de autismo no Brasil. A seguir nesse ritmo, dificilmente nos próximos anos haverá turmas regulares de estudantes no Ensino Fundamental sem alunos neuroatípicos, ou seja, estudantes cujo desenvolvimento neurológico e funcionalidade cognitiva são considerados fora dos padrões típicos da população. Por isso a importante necessidade de professores, escolas e sociedade se apropriarem de conhecimentos acerca do Transtorno do Espectro Autista, auxiliando o desenvolvimento destes estudantes da melhor forma possível. Mais que nunca, faz se necessário a busca por uma educação inclusiva de qualidade. E para que isto aconteça, professores preparados e com boa formação profissional são condições fundamentais. No que se refere a formação de professores com qualidade para uma educação inclusiva no Brasil, são muitos os desafios, alguns deles trazidos para a discussão neste artigo que tem como objetivo apontá-los, considerando-se os âmbitos da formação inicial e continuada. Entende-se por formação inicial aquela oferecida nos cursos de graduação em licenciaturas conforme o descrito na resolução nº 02/CNE/2015: a formação inicial se destina àqueles que pretendem exercer o magistério da educação básica em suas etapas e modalidades de educação” (BRASIL, 2015b). E, conforme preconizado no Art. 9º, são considerados, com relação ao nível superior de formação inicial para os profissionais do magistério para a educação básica, os cursos de graduação de licenciatura; cursos de formação pedagógica para graduados não licenciados; e cursos de segunda licenciatura (Brasil, 2015b). REVISTA CADERNOPEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 4 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. A formação inicial de professores atende ou deve atender um amplo conjunto de objetivos, dos quais um deles pode ser considerado de grande relevância, qual seja: a qualificação dos futuros educadores e educadoras para a atuação com os estudantes, preparando-os para lidar com as transformações e desafios da profissão docente, de modo que se adquiriam conhecimentos e experiências suficientes para o exercício da atividade educativa com qualidade pedagógica. Além da formação inicial, os sistemas e redes de ensino contam com processos de formação continuada, atividade essa que complementa a formação inicial, e, em geral, se desenvolve associada aos contextos de prática docente, abrangendo toda a vida profissional dos educadores, possibilitando que estes busquem aperfeiçoamento e acompanhamento das transformações da sociedade, da educação e das escolas, conforme acentua Moreira: É importante oferecer uma formação adequada, possibilitando a constante atualização e aprimoramento dos professores, garantindo a qualidade da educação e o sucesso dos alunos. A aprendizagem deve ser vista como contínua e acumulativa para que os professores se mantenham atualizados e qualificados (Moreira, 2023, p.10.) Deste modo, a formação continuada de professores envolve aperfeiçoamento constante de conhecimentos, atitudes, habilidades e competências docentes, fazendo-os refletir sobre suas práticas docentes, servindo como alicerce para o enfrentamento dos desafios encontrados diariamente nas práticas pedagógicas. Embasados em teorias e abordagens metodológicas consistentes os professores supostamente conseguem refletir, propor e desenvolver mudanças quando necessárias à sua prática, sempre articulada com os repertórios teóricos que sustentam sua profissão. Assim, a composição da formação inicial com a continuada se tornam significativos na qualidade da vida profissional de professores, conforme bem coloca Gadelha: A aplicação dos saberes pelos profissionais está direcionada a solucionar as diversas situações advindas da prática de forma a ser aplicada dentro da área educacional de ensino revalidando a complexidade de forma deliberadora a ação pedagógica. Assim, é REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 5 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. preciso destacar a relevância da formação inicial e formação continuada para o processo de inicialização da profissão na decorrência da profissionalização e do profissionalismo, uma vez que tanto a formação inicial como a formação continuada vem a contribuir em muitos aspectos positivos, inclusive com a intenção que haja novos conhecimentos, as novas possibilidades e as reflexões constantes a respeito do trabalho que está sendo desenvolvido em busca da melhoria do processo de ensino aprendizagem. (Gadelha, 2020, p.21.) Como recorte no amplo e complexo tema que envolve formação de professores, o artigo tem como objetivo discutir especialmente os desafios encontrados na formação inicial e continuada de professores que trabalham com estudantes com deficiência, com foco no Transtorno do Espectro Autista, bem como os reflexos dessa formação na qualidade da educação oferecida aos estudantes com essa deficiência. O trabalho, considerado de corte documental, identifica e analisa um conjunto de documentos oficiais que orienta a formação inicial e continuada desses profissionais, especialmente os aspectos que envolvem a qualificação para uma educação inclusiva na educação básica. 2 REFERENCIAL TEÓRICO Na área da formação de professores encontram-se vários autores que se dedicam a estudar o tema, auxiliando pesquisadores, educadores e redes de ensino na discussão da melhoria da qualidade da educação, buscando novas alternativas e possibilidades. Nóvoa (2023), por exemplo, entende que as formações devem acontecer junto da realidade do que chama chão de sala, cruzando-se prática e teoria logo nos primeiros movimentos de formação. O autor indica como alternativa possível uma formação de professores parecida com o modelo dos cursos de medicina, onde o futuro professor no curso de licenciatura, passaria por um período de residência, sendo observado e avaliado por professores e profissionais de sua área. Este modelo de formação citado por Nóvoa (2023) seria muito positivo nos cursos de licenciatura em Pedagogia, incluindo-se a educação especial, pois permitiriam com que os professores trabalhassem, já na formação inicial, com estudantes com deficiência, a exemplo, de estudantes com Transtorno do Espectro Autista. Assim, antes de se formar realizariam residência nas escolas, REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 6 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. resultando em significativas experiências na sua profissão em termos de conhecimentos e habilidades, desenvolvendo a teoria por meio do fazeres. Referente a este mesmo processo de formação inicial, mostram-se importantes também as contribuições de Gatti; Barreto e André (2011), os quais se associam às ideias de Antônio Nóvoa: Pelas normas vigentes no Brasil, definem-se espaços nas licenciaturas, destinados ao tratamento concreto das práticas docentes, nos quais se poderia aliar experiência e teoria. Porém, esses espaços não são utilizados de fato nas instituições formadoras, para fazer essa rica aliança entre conhecimento acadêmico e conhecimento que vem com o exercício da profissão e as experiências vividas em situações escolares na educação básica. Encontramos, sobre esse aspecto, uma dissonância entre o proposto legalmente e o realizado. (Gatti; Barreto e André, 2011, p.91) Deste modo, a prática, durante o processo de formação inicial, permite que professores adquiram autonomia em sua futura profissão. Assim, a formação inicial de professores, nas universidades, deve ser voltada para o estudo, o entendimento e a percepção de situações problemáticas do contexto da prática profissional, fazendo com que sejam criadas ferramentas para planejamento dos objetivos que se pretende atingir. A teoria, na formação do futuro professor, tem, entre outras, a função de contribuir com a compreensão crítica da profissão, fornecendo-lhes compreensão sobre os papeis do professor e da escola na sociedade, e quais suas contribuições nas situações concretas vivenciadas na escola. Tardif (2014) Para seguirmos na discussão sobre formação de professores e marcando os desafios para atuação com estudantes com deficiência, fazemos a seguir, uma breve análise sobre como está sendo realizada a formação inicial nos cursos de pedagogia, área essa que recebe e forma o maior número de docentes que atuam ou pretendem atuar na educação básica. O curso de Pedagogia no Brasil passou por várias reconfigurações ao longo dos anos. Com as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia (DCNCP 2006), licenciatura, passou a ter a seguinte função principal: REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 7 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. O curso de Licenciatura em Pedagogia destina-se à formação de professores para exercer funções do magistério na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, nos cursos de Ensino Médio, na modalidade Normal, de Educação Profissional na área de serviços e apoio escolar e outras áreas nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos. (Brasil, 2006, p. 02). Com uma concepção generalista,a graduação em Pedagogia passou a abranger etapas e temas complexos, como a Educação Infantil, Anos Iniciais do Ensino Fundamental, a Gestão Escolar, entre outras. No que se refere a inclusão, as matrizes curriculares dos cursos passaram a assegurar a disciplina de Educação Especial, no entanto, com carga horária reduzida, impossibilitando contemplar os fundamentos teórico-metodológicos relacionados com cada deficiência. Para verificarmos como se encontram distribuídas as disciplinas que envolvem questões de inclusão e diferenças no curso de Pedagogia, apresentamos a seguir, aspectos da atual matriz curricular do curso de Pedagogia, da UNIPLAC, Universidade do município onde está sendo realizada esta pesquisa. Nela, constatamos que durante os oito semestres do curso, apenas uma disciplina na área da educação especial é ofertada, com a denominação: “Educação e Necessidades Especiais”, com carga horária de 72 Horas. Na ementa da disciplina constam os seguintes tópicos: Educação Especial, Fundamentos Históricos, Epistemológicos e pedagógicos da Educação Especial, Necessidades Educacionais Especiais. Especificidades na área Visual, Auditiva, Mental, Motora e Sócio Emocional. Por essa matriz curricular, assim como na maioria das demais Brasil afora, é possível verificar a carência da área da educação especial nos cursos de Pedagogia. Sua presença é genérica e tratada de modo superficial, sem qualquer possibilidade de os estudantes acessarem aos conhecimentos teóricos e metodológicos relacionados com temas mais específicos e com as questões das deficiências que comumente são tratadas pelos docentes nos contextos escolares. Deste modo, é improvável que estudantes de Pedagogia concluam o curso minimamente preparados para atuar com crianças com deficiência, inclusive com estudantes com Transtorno do Espectro Autista. REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 8 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. Pois para trabalhar com estudantes com autismo, é preciso conhecer suas características, suas habilidades desenvolvidas, dificuldades, áreas mais comprometidas, áreas de interesse, etc, conhecendo-se este estudante e os meios necessários para o seu progresso, desenvolvendo-se um ensino de caráter sistemático, intencional e flexível. Igualmente importante, está a apropriação de conhecimentos, habilidades intelectuais e psicomotoras, interações sociais com os seus pares e dentre outros repertórios, formando-se na escola sujeitos que possam utilizar os conhecimentos em sua vida diária, com independência e autonomia. Visando contribuir na construção de escolas mais inclusivas para estudantes com TEA, em 2023 o Conselho Nacional de Educação formulou e publicou o Parecer n. 50/CNE/2023, um documento que define importantes orientações no atendimento de estudantes com TEA. O referido documento também destaca a importância da inclusão e formação de professores para a garantia dos direitos dos estudantes com transtorno do Espectro Autista em contextos escolares; Conforme descrito abaixo, o Parecer define como deve ser o perfil do professor que atua com estudantes TEA. É fundamental que, além de Licenciado Pleno na sua área de atuação, possa buscar formação continuada na área da inclusão e/ou Transtorno do Espectro Autista, que tenha conhecimento sobre o Transtorno do espectro autista e suas características, o que inclui dificuldades de comunicação, interação social, comportamento e aprendizagem que podem estar presentes em alunos com Transtorno do Espectro Autista. (Parecer 50, 2023, p. 47) Para que esta inclusão aconteça, faz-se necessário sólida formação dos professores. E como vimos, os cursos de formação em Pedagogia e outras licenciaturas, oferecem frágil formação inicial em educação especial. Em face disso, uma das alternativas adotadas no Brasil para diminuir esta carência é investir em formação continuada. Como destaca Caetano: [...] O melhor caminho para o atendimento e a inclusão de crianças com deficiência, neste caso, o aluno autista, é a formação do professor em serviço, haja vista a complexidade da síndrome. Concluímos ainda que, o trabalho em equipe e o reconhecimento dos papéis e das funções dos professores, coordenadores e diretor, são fundamentais REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 9 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. para que o trabalho aconteça. Por fim, mostramos a grande necessidade e relevância do profissional especializado dentro do contexto escolar, de modo que, assegure ao professor e a escola como um todo, informações pertinentes a cada área de atuação. (Caetano, 2012, p. 7) Como previsto na Lei nº 9.394/1996 em seu artigo 59: Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação: III – professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns Nessa mesma linha, os incisos XVIII e XIV do artigo 28 da Lei nº 13.146/2015, propõe a preparação dos professores que atuam com estudantes com deficiência, para que se efetive a inclusão de qualidade em todos os níveis da educação, incluindo à educação superior e a formação de professores, com vistas a garantir a preparação desses profissionais para atuação: Art. 28. Incumbe ao poder público assegurar, criar, desenvolver, implementar, incentivar, acompanhar e avaliar: XI – formação e disponibilização de professores para o atendimento educacional especializado, de tradutores e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de profissionais de apoio; (...) XIV – inclusão em conteúdos curriculares, em cursos de nível superior e de educação profissional técnica e tecnológica, de temas relacionados à pessoa com deficiência nos respectivos campos de conhecimento. Em relação ao acompanhante especializado, como estabelece a referida Lei, este é um direito que possui o estudante com deficiência, que apresente laudo e que comprove a sua deficiência. Esse profissional é conhecido como Segundo Professor de Turma (SPT). Nos casos de turmas em que atua, é quem se torna o profissional especializado no atendimento do estudante com TEA. Para sua contratação a Lei exige, além do curso de Pedagogia, especialização na área específica. O perfil profissional desses docentes, está descrito no artigo 3º, inciso III, da LBI (Lei Brasileira de Inclusão) conforme se lê: REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 10 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. III – profissional de apoio escolar: pessoa que exerce atividades de alimentação, higiene e locomoção do estudante com deficiência e atua em todas as atividades escolares nas quais se fizer necessária, em todos os níveis e modalidades de ensino, em instituições públicas e privadas, excluídas as técnicas ou os procedimentos identificados com profissões legalmente estabelecidas; O parecer 50/CNE/2023 dispõe sobre como deve acontecer a formação desse profissional de apoio, ao qual trata a Lei nº 13.146/2015: O processo de formação é continuada e deve ser provido pelas instituições e/ou de iniciativa do próprio Acompanhante especializado, somando um mínimo de 80h anuais de atualização, em aprofundamento nos temas descritos na formação inicial. Ademais, o Acompanhante Especializado também deve seguir recebendo formação em serviço por parte do Professor de educação especial, a respeito das estratégias de ensino específicas a serem desenvolvidascom o aluno com Transtorno do espectro autista. (Parecer 50, 2023, pág 56) O fragmento da Lei antes destacado, assim como todo o Parecer, aponta para a importância da qualidade do trabalho dos chamados “segundos professores de turma”. Todavia, sabe-se que na prática, esta exigência de 80 horas anuais está num horizonte distante. Além disso, não há, nas escolas, professores de educação especial que orientem os segundos professores, sobre a melhor forma de desenvolver estes estudantes. Assim, os segundos professores de turma, na grande maioria das vezes, precisam buscar individualmente estes conhecimentos, assumindo todos os custos. No estado de Santa Catarina, os responsáveis pela realização na esfera pública da formação continuada para professores da educação especial são respectivamente a Secretária de Estado da Educação e a Fundação Catarinense de Educação Especial, instituições que coordenam e executam a política de educação especial e definidoras dos rumos da educação especial em Santa Catarina. A FCEE (2010), é apresentada com a seguinte atribuição principal: uma instituição pública capaz de oferecer não apenas o atendimento à pessoa portadora de deficiência, como também definir as diretrizes de funcionamento da educação especial em âmbito estadual, promover a capacitação de recursos humanos na área e a realização de estudos e pesquisas ligadas à prevenção, assistência e integração da pessoa portadora de deficiência (Santa Catarina, 2010). REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 11 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. Alguns autores que realizam estudos no âmbito da formação de professores em educação especial em SC, tais como Araújo (2015); Kleber (2015) e Ficagna (2017), afirmam haver registro de vários eventos de formação ofertados pela Fundação Catarinense de Educação Especial (FCEE), SED e GERED. Tais “cursos são oferecidos em forma de palestras, trocas de experiência, participação nas formações continuadas nas APAEs”. (Ficagna, 2017, p. 134). No entanto, estas instituições não se “responsabilizam efetivamente” pela formação destes professores, bem como não publicizam dados sobre seus conteúdos, duração, entre outros elementos relevantes que possam subsidiar análises mais densas. (Araújo, 2015; Machado, 2017). Com esta fragilidade verificada no âmbito da política específica para formação de professores em Santa Catarina, assim como supõem-se em todo o Brasil, abre-se, “um nicho de mercado para instituições privadas as realizarem” (Araújo, 2015, p. 245), reproduzindo deste modo “instituições de natureza privada oferecendo formação a esses profissionais, demonstrando a ausência de investimento no setor público para esta finalidade”. (Araújo p. 146, 2015). Segundo Araujo (2015), mesmo havendo registro de cursos, seu volume é reduzido. Como não há muita promoção de cursos pela SED ou FCEE, alguns SPT relatam que procuram por cursos a distância e que, em alguns casos, são para alcançar a pontuação exigida na prova de títulos processos seletivos, e não necessariamente pelo conhecimento atribuído. (Araújo, 2015, p. 243) Ficagna (2017) também contribui com esse levantamento quando: Observou que há “busca por cursos externos, pois os que são oferecidos pelo Estado, pela FCEE e pela ADR não atendem às demandas exigidas pelo edital dos processos seletivos [...]”, que “exige mais carga horária”, ou seja, os cursos, em geral, possuem função de certificação e não formação destes docentes. (Ficagna, p. 137, 2017) Para Freitas e Pacifico (2020), é importante que todos os envolvidos com a educação inclusiva desenvolvam a consciência de que as formações, tanto inicial quanto continuada, não podem ser almejadas como forma de acumular REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 12 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. certificados, mas devem ser realizadas a fim de preparar os professores para o aperfeiçoamento e qualificação de seu trabalho, para seu crescimento profissional, contribuindo com novas aprendizagens, enriquecendo sua prática pedagógica. O Parecer 50/2023 foi um importante documento instituído para ajudar escolas e professores no trabalho com estudantes com Transtorno do Espectro Autista. Entre tantas outras contribuições do documento, está também a orientação sobre os conteúdos que devem ser abordados nos cursos de formação continuada dos segundos professores que trabalham com estudantes com TEA. Conforme define o Parecer, para desenvolver conhecimento acerca do Transtorno do Espectro Autista propõe-se: A – Introdução ao Transtorno do espectro autista A – 01 Conhecer as principais características. A – 02 Conhecer os marcos legais sobre o Transtorno do espectro autista e a função do Apoio escolar. A – 03 Conhecer os princípios básicos do desenvolvimento e comportamento humano. A – 04 Conhecer as Práticas Baseadas em Evidência para o ensino de pessoas com Transtorno do espectro autista. (Parecer 50, pág 55, 2023) Como já mencionamos, é de grande relevância o conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista, como esta condição afeta a vida dos estudantes, quais áreas são mais desafiadoras para estes estudantes. Sabemos que cada estudante TEA apresenta a manifestação do transtorno de forma diferente, alguns estudantes possuem grandes dificuldades na interação com seus pares, não conseguindo interagir com seus colegas, outros interagem com mais facilidade, mas possuem limitações em outras áreas, como por exemplo na aprendizagem. Assim, cada estudante com Transtorno do Espectro Autista é único. Pois estudantes com Transtorno do Espectro Autista são, antes de qualquer laudo, pessoas, com suas próprias preferências, gostos, personalidades, habilidades, etc... Assim através dos conhecimentos sobre o TEA os professores podem associar tais limitações aos condicionantes próprios do TEA, e assim, definir e desenvolver estratégias para superar estas REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 13 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. dificuldades. De todo modo, o estudante com Transtorno do Espectro Autista não pode ser definido como um laudo, um diagnóstico, mas sim como um estudante que precisa ser estimulado a desenvolver e superar suas dificuldades, explorar suas habilidades, assim como os outros estudantes sem deficiência, que também possuem dificuldades especificas. 3 METODOLOGIA O trabalho do qual resulta este artigo, está orientado por uma metodologia que envolve um estudo bibliográfico, e um estado do conhecimento elaborado previamente para identificar as referências teóricas, e as pesquisas já desenvolvidas envolvendo especificamente este recorte da educação inclusiva, com foco no Transtorno do Espectro Autista. A partir destas referências, tanto do estado do conhecimento quanto da revisão da literatura, realiza-se a discussão notadamente de fundo conceitual. Portanto, o trabalho não envolve estudo empírico, apenas uma revisão da literatura, a produção do estado do conhecimento e o diálogo com os referenciais teóricos que estão tanto na literatura quanto no estado do conhecimento. 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES No decorrer do texto destacamos que as escolas precisam ser mais inclusivas para acolher toda a diversidade humana existente, incluindo os estudantes com Transtorno do Espectro Autista. Assim, a luta histórica e educacional é por uma educação mais completa e de qualidade para todos e todas, e que a escola não se torna inclusiva apenas por matricular estudantes com deficiência em classes regulares de ensino.Já a escola se torna mais inclusiva quando todos os estudantes, com ou sem deficiência, contam com a mesma oportunidade de acesso, de permanência e de aproveitamento na escola. Praticando-se deste modo, a equidade, ideário de formação que busca garantir a igualdade de oportunidades e tratamento justo para todos os indivíduos. Deste modo, em uma escola inclusiva todos os REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 14 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. estudantes participam de todas as atividades; o professor planeja atividades diversificadas para contemplar o ritmo de aprendizagem de todos, respeitando as individualidades, assim todos irão desenvolver e aprender habilidades aos quais ainda não possuem, porque todos os estudantes são capazes de se desenvolver e aprender, com adaptações adequadas, estratégias coerentes, as aprendizagens acontecem. Assim como coloca Gil: [...] a compreender e aceitar os outros; a reconhecer as necessidades e competências dos colegas; a respeitar todas as pessoas; a construir uma sociedade mais solidária; a desenvolver atitudes de apoio mútuo; a criar e desenvolver laços de amizade; a preparar uma comunidade que apoia todos os seus membros; a diminuir a ansiedade diante das dificuldades (Gil, 2005, p.28.). Esta escola inclusiva depende de todos os envolvidos na educação, principalmente a escola, que é o lugar onde os estudantes com deficiência passam boa parte de seu tempo, e também do trabalho que os professores desenvolvem com estes estudantes. Porém, como se pode ver, a educação especial não tem se constituído, em geral, como parte central do conteúdo curricular da formação básica comum, ofertados nos cursos de licenciatura. Quase sempre é vista como uma formação especial destinada para tratamento na formação continuada, reservada tão somente àqueles que atuam ou desejam trabalhar com estudantes com deficiências. Deste modo, os profissionais que almejam formação qualificada para trabalhar com este perfil de estudantes precisam, na maioria das vezes, buscar por conta própria, eventos de formação continuada como complementação. Conforme destacam (Gatti e Barreto 2009), somente a oferta de cursos e capacitação continuada para professores, não representa garantia de um trabalho docente de qualidade, pois além da oferta é preciso que esta formação seja permanente, de qualidade e eficaz, garantindo-se que os estudantes tenham direito à uma educação de qualidade. O interesse pelo tema da Formação Continuada difundiu-se nos últimos anos, envolvendo políticos da área de educação, pesquisadores, acadêmicos, educadores e associações profissionais. Há uma grande mobilização em torno do assunto, a produção teórica é crescente, eventos oficiais e não oficiais propiciam debates e REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 15 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. razoável circulação de análises e propostas e os sistemas de educação investem cada vez com maior frequência no ensaio de alternativas de formação continuada de professores. Apesar disto, os resultados obtidos com os alunos, do ponto de vista de seu desempenho em conhecimentos escolares, não têm ainda se mostrado satisfatórios, fato que tem posto, no Brasil, os processos de educação continuada em questão. (Gatti e Barreto, 2009, p.199) 5 CONCLUSÃO Como ressaltamos no texto, ainda há muitos desafios a serem superados na formação dos profissionais que trabalham ou pretendem atuar com estudantes com deficiência em especial com Transtorno com Espectro Autista. São desafios presentes desde a formação inicial nos cursos de Pedagogia e demais licenciaturas até a formação continuada, em geral, também marcada por muitas fragilidades. Também constatamos que a turma que possui estudantes com deficiência tem direito por lei a um segundo professor de turma, deste profissional é exigido habilitação nesta área, e também é assegurado a ele formação continuada, pois entende-se que ele é o especialista no estudante com deficiência, porém são oferecidas muito pouca formação e os mesmos precisam buscar individualmente estes conhecimentos. Outro obstáculo neste contexto é que muitas escolas ignoram o fato de que estudantes com deficiência fazem parte da turma, por isso o professor regente precisa ter o mesmo trato que tem com os outros estudantes, assim precisa também de formação e preparo, mas as formações nestas áreas são destinadas apenas aos segundos professores, descartando a ideia de que todos da escola devem estar preparados para uma escola inclusiva. Assim este artigo tem como conclusão que já avançamos muito na missão de oferecer uma educação de qualidade aos estudantes com deficiência, tivemos nos últimos anos muitos documentos orientadores, teorias que nos mostram como seguir, porém na realidade ainda temos muitos desafios a serem corrigidos para caminharmos no caminho de uma escola justa e igualitária para todos. REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 16 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. A pesquisa, não obstante sua importância teórica e para práticas pedagógicas em instituições escolares, possui algumas limitações, especialmente em relação ao tamanho do texto e tempo de pesquisa, razão pela qual recomenda-se outros estudos envolvendo esse mesmo tema ou recorte adensando-se os dados empíricos e a região de abrangência da investigação. REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. ISSN: 1983-0882 Page 17 REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.1, p. 01-18. 2025. REFERÊNCIAS ARAÚJO, B. K. (2015). A formação do segundo professor de turma do estado de Santa Catarina (Dissertação de Mestrado em Educação). Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil, 2015. BRASIL, Lei nº 13.146, de 06 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência) BRASIL. 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